Juventude

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  • Marcha da Maconha agita Contagem (MG)

    Vem aí a Marcha da Maconha Contagem 2018. Os contagenses vão às ruas pelo quarto ano consecutivo requerer a legalização da planta cannabis. Assim como nos anos anteriores, o movimento levanta a bandeira da descriminalização para uso medicinal, religioso, recreativo e do plantio da erva para consumo. O evento ocorrerá no dia 19 de maio, em Contagem, Região Metropolitana de Belo Horizonte, e traz como lema: “Nas Eleições Aperte o Verde e Confirma”.

    A Marcha em Contagem faz parte de um movimento global pela legalização dos usos da cannabis, se organizando em mais de 190 cidades ao redor do globo. A descriminalização é uma luta antiga, porém se faz muito atual. Para se ter uma ideia, no Brasil, um terço da população carcerária é procedente do tráfico de drogas. São quase 200 mil pessoas presas, maioria jovens negros, sem antecedentes criminais, sem porte de arma e presos com pequenas quantidades, enquanto os verdadeiros traficantes estão soltos em seus helicópteros.

    Como afirma o estudioso Henrique Carneiro, a maconha “identificada com as populações negras e suas práticas culturais, foi estigmatizada como uma planta perigosa, viciante e causadora de doenças, acusada de ser o ópio do Brasil. A droga dos escravos se tornou, assim, uma marca identitária de populações pobres, faveladas e discriminadas. O encarceramento em massa cresceu cada vez mais se constituindo num mecanismo de segregação social e no pretexto para uma coerção e vigilância acentuadas sobre as camadas mais discriminadas socialmente”.

    E em tempos em que o país passa por um golpe de Estado, é preciso resistir ao conservadorismo, que prescreve a propagação do medo para a militarização da sociedade. A luta e resistência não cessam.

    Avanço da luta antiproibicionista no Brasil
    Em maio 2017, a Anvisa incluiu a Cannabis sativa como “planta medicinal” na lista que define os nomes oficiais de fármacos. Em janeiro, a Anvisa aprovou o registro do primeiro remédio à base de maconha no Brasil, o Mevatyl. Em 2016, a Anvisa autorizou a prescrição e manipulação de medicamentos a base de Cannabis. No ano de 2015, a Anvisa retirou o canabidiol da lista de substâncias de uso proscrito, o que facilitou a comercialização de
    medicamentos que contêm a substância no país. Em 2014, a Anvisa autorizou a importação da substância pela primeira vez. 

    A cada ano, o movimento pró-legalização cresce em Contagem e nesta edição teremos os seguintes shows na finalização da Marcha na Praça do Apoema: MacJulia e Mc Nobruh, o grupo Ideias Acima, Alef Harper, a banda de rock Razão Social, Baiano M.c, além de discotecagem com os Djs Toto, Dj Fill e Dj Mujica.

    Em 2018, várias cidades brasileiras promoverão suas marchas a favor do cultivo e uso da planta. Já Belo Horizonte entra na sua décima edição, no sábado seguinte.

    Se você também pensa que precisamos de mudanças, marque na agenda e convide a família e amigos, pois vale destacar que a Marcha da Maconha é uma movimento pacífico e legítimo garantido por unanimidade pelo Supremo Tribunal Federal, de acordo com a ADPF 187, julgada em novembro de 2011. Mesmo Supremo que está com a votação da descriminalização parada desde a morte do Ministro Teori Zavascki. Com um julgamento de 11 ministros, os três primeiros votos já foram favoráveis para considerar a proibição do porte da cannabis como inconstitucional.

    Em artigo anterior publicado, assim se resume a votação pelo STF: “no plano legal a descriminalização deve ser vista como um primeiro passo rumo à legalização, pois além de descriminalizar o porte e o consumo é necessário legalizar o cultivo caseiro, para que cada um possa plantar para consumo próprio, de forma sustentável. Diante de um Congresso Nacional altamente conservador, a possibilidade de descriminalização pelo STF não pode ser descartada, pois ela reforça a luta antiproibicionista.”

    4ª Marcha Maconha Contagem
    Data: 19 de maio de 2018 – Sábado
    Praça Marília de Dirceu (Cigano) – Bairro Inconfidentes
    Concentração: 13:20h – Saída: 16:20
    Evento no Facebook

    10ª Marcha Maconha Belo Horizonte
    Data: 26 de maio de 2018 – Sábado
    Praça da Estação
    Concentração: 13:20h – Saída: 16:20
    Evento no Facebook

    Todas e todos rumo ao fim da guerra às drogas, por uma grande BH esverdeada!

    Arte de capa: Fábio Coelho

  • Banco Mundial recomenda salário mínimo menor para a juventude

    Alexandre Aguena*, de Niterói (RJ)

    O Banco Mundial divulgou um relatório no mês de março recomendando políticas para elevar a produtividade da economia brasileira, que estaria crescendo em marcha lenta. A lenta retomada da economia traz para o primeiro plano reclamações como “alto custo Brasil” e “leis trabalhistas rígidas”. As tímidas conquistas sociais obtidas pelos trabalhadores, como as leis trabalhistas, vão sendo retiradas. Dizem que é necessário, acima de tudo, salvaguardar o emprego e para isso, é preciso modernizar e flexibilizar as regras de contratação.

    Em meio a uma série de políticas, que incluem redução do salário mínimo, fim do abono salarial e concessão de seguro-desemprego apenas em raríssimos casos, o Banco Mundial produziu um documento com políticas específicas para a juventude, batizado de “Competências e Empregos: Uma agenda para a juventude“, cuja principal medida é a criação de um salário mínimo legal com valor reduzido para jovens (até 29 anos). O documento busca exemplos bem sucedidos de locais onde esta política foi posta em prática, mas limita-se a relatar que, nos poucos países onde foi aplicado, o “resultado da experiência foi misto”. Ou seja, o Brasil serviria de laboratório para esta medida.

    Jovens trabalhando sob condições adversas e recebendo abaixo do piso salarial são uma realidade no Brasil, ainda mais por conta dos efeitos do desemprego e das contrarreformas, da crise econômica e do golpe parlamentar. Atualmente, 55% dos jovens estão “desengajados” (nem estudam e nem trabalham ou estão no setor informal, ou só estudam mas estão atrasados). Este percentual foi de 62% em 2004 vinha caindo ou mantinha-se estável até 2015, quando voltou a subir.

    O relatório aponta que da população ocupada entre os 18 e 24 anos, 49% estão em empregos informais (tabela 1), ou seja, praticamente a metade. A empregabilidade para os jovens também é adversa, a taxa de desemprego atinge quase 20% considerando a faixa de 15-29 anos.

    Fonte: Competências e Emprego: uma agenda para a juventude: Banco Mundial.2018, p. 22.

    Fonte: Competências e Emprego: uma agenda para a juventude: Banco Mundial.2018, p. 22.

     

    Fonte: Competências e Emprego: uma agenda para a juventude: Banco Mundial,2018, p.23.

    Fonte: Competências e Emprego: uma agenda para a juventude: Banco Mundial,2018, p.23.

    Isso significa uma juventude ocupando posto irregulares, temporários e informais. Em 2015, a informalidade voltava a se aproximar do percentual de jovens com vínculo formal (tabela 2).

    A solução apresentada pelo relatório é transformar uma maior exploração sobre a juventude em lei. Para isso, propõem um salário mínimo especial para os jovens, logicamente, abaixo do salário mínimo comum.

    Ao mesmo tempo chamam a juventude a compactuar com destruição da regulamentação do trabalho e com as terceirizações, sob o verniz de “maior flexibilidade” para os horários de trabalho. Assim transformam derrotas em vitórias para “aumentar o emprego” entre os jovens e “reduzir a informalidade”. Ou melhor dizendo: formalizar a superexploração dos jovens.

    Crescimento do Apartheid social
    Cruzando com dados da PNAD contínua do IBGE(3) não é muito difícil de concluir que no Brasil a proposta do Banco Mundial para a juventude tem um público alvo específico: a juventude negra. Agrupando os dados por raça percebe-se que há uma clara desigualdade. Pessoas que se declaram negras enfrentam taxas de desemprego mais altas.

    No último trimestre de 2017, enquanto a taxa de desocupação para brancos era de 9,5%, para negros era de 14,5%.

    Fonte: IBGE: PNAD, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Trabalho e Rendimento, PNAD Contínua.

    Fonte: IBGE: PNAD, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Trabalho e Rendimento, PNAD Contínua.

    Quanto ao rendimento médio também há um abismo. No  quarto trimestre de 2016, auge da crise, o rendimento médio do trabalhador negro era de R$ 1.461 enquanto de um trabalhador branco R$ 2.660, segundo a PNAD Contínua:

    Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Trabalho e Rendimento, PNAD Contínua.

    Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Trabalho e Rendimento, PNAD Contínua.

    Segundo estudo da Fundação Getúlio Vargas, as mulheres negras, moradoras de cidades do interior do Norte e Nordeste, com até 24 anos e com menos de quatro anos de estudo são as mais vulneráveis ao trabalho informal. O discurso do Banco Mundial pode parecer mais tentador para essa juventude. Porém, ao invés de garantir emprego digno para todos e todas, independentemente de cor ou raça, democratiza-se postos de baixa remuneração, temporários e sem direitos.

    Baratear o custo da força de trabalho pelos métodos mais criativos não é algo moderno. A utilização do trabalho infantil e juvenil na indústria sob condições precárias, também, não é algo do capitalismo moderno. O motivo é simples: ao invés de pagar um salário digno para uma trabalhadora ou trabalhador sustentar a si próprio e sua família, os benfeitores da indústria contratam a família inteira com salários menores. Ganham mais braços para trabalhar a menor custo unitário e, para o bem de todos, garantem o sustento da mão de obra para hoje e para o futuro.

    O problema é que a juventude de hoje será os trabalhadores plenos de amanhã, que trabalharão sob novas condições com a consolidação da reforma trabalhista. Com menor regulamentação, salários menores e piores condições. A juventude precisa de um horizonte de futuro digno, algo difícil de vislumbrar com a ofensiva sobre os direitos trabalhistas e de aposentadoria. Até mesmo o presente está em risco, já que pagar menos pela contratação de jovens está virando política pública.

    * Alexandre Aguena é estudante de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF) e militante do coletivo Afronte!

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  • Quem matou Edson Luís?

    Responsáveis pela morte do jovem estudante em 1968 nunca foram punidos. Ditadura que reprimiu os estudantes e combateu a esquerda também declarou guerra às favelas

    Gustavo Sixel, do Rio de Janeiro (RJ)

    No dia 28 de março de 1968, o paraense Edson Luis Lima Souto, 18, foi assassinado com um tiro no peito, durante um protesto no Centro do Rio, próximo ao restaurante Calabouço. Ele foi encontrado caído na altura da Rua Marechal Câmara, 370, próximo de onde hoje funciona o Ministério Público do Rio de Janeiro. Seus colegas o levaram ao hospital, onde chegou sem vida. Com medo de que a polícia sumisse com o corpo, carregaram Edson nos braços até a Assembleia Legislativa, onde o velaram por 21 horas, até percorrerem a cidade em um cortejo com 60 mil pessoas.

    O secundarista calado, de 1m53, tornou-se o primeiro cadáver público da ditadura, quatro anos após o seu início. A comoção com aquele menino que lembrava o anjo das pernas tortas e que “poderia ser seu filho” foi o estopim para novas lutas do movimento estudantil e para a ruptura de parte das classes médias com o regime militar, culminando na histórica Passeata dos Cem Mil, três meses depois.

    Edson Luis é velado na Assembleia Legislativa. Autor desconhecido

    Edson Luís é velado na Assembleia Legislativa. Autor desconhecido

    A Assembleia Legislativa (onde hoje funciona a Câmara dos Vereadores) iniciou uma investigação sobre a ação policial. Os dois depoimentos mais esperados foram o do responsável pela operação, o jovem aspirante a oficial Aluísio Azevedo Raposo, de 22 anos, e o do general Oswaldo de Niemeyer Lisbôa, então com 65 anos. Raposo comandou a operação e os 33 policiais que participaram.

    Niemeyer, general da reserva, era Superintendente da Secretaria de Segurança, ou seja, tinha sob seu comando toda a Polícia Militar, incluindo Raposo. O cargo equivaleria ao que ocupa hoje o general Walter Braga Netto, que comanda a intervenção militar no Estado do Rio.

    No dia seguinte, o general resolveu ir até a Assembleia Legislativa, perdendo a chance de ficar calado.

    Indagado pelo Jornal do Brasil por que a polícia atirara, respondeu:
    – A polícia estava inferiorizada em potência de fogo.
    – Potência de fogo? É arma?
    – É tudo aquilo que nos agride. Era pedra.”

    Diante da repercussão negativa, tentou responsabilizar Raposo, responsável direto pela operação. Chegou a dizer que foi ao local “por gostar e costumar acompanhar de perto, sem interferir, tais manobras policiais”. Não convenceu.

    Instrutor de esgrima, desde quando era 1º Tenente, Niemeyer não pôde presenciar a cena bárbara da cavalaria desferindo golpes de sabre contra estudantes e religiosos na saída da missa de sétimo dia de Edson Luís. Ele já havia dispensado pelo governador Negrão de Lima.

    Calabouço, uma ameaça para a ditadura
    Um restaurante no Centro do Rio de Janeiro, co-administrado por uma entidade estudantil, e por onde passavam entre seis e dez mil jovens por dia, secundaristas e universitários, gastando 20 centavos por refeição.

    A concentração de estudantes transformou o local em dor de cabeça constante para as forças de segurança. Dali sairiam a maior parte das passeatas e o refeitório parecia uma assembleia permanente, com talheres batendo nas bandejas.

    O objetivo era acabar com o Calabouço. Mas as tentativas – mudança de local, redução de verbas – tiveram efeito contrário. A comida ruim (até com baratas) e o atraso nas obras viraram uma pauta imediata e explosiva, que se somaria a bandeira do fim da ditadura.

    Mas a juventude queria saber de muito mais do que comida. Os Estados Unidos estavam sendo derrotados no Vietnã, enquanto protestos exigiam o fim da guerra, do racismo e da violência policial. Naquele dia, os estudantes do Calabouço estavam saindo para um ato que passaria pelo Consulado dos Estados Unidos, a alguns quarteirões de distância, contra a Guerra do Vietnã.

    Desde que assumiu a pasta, o general Niemeyer recebia relatórios dos órgãos de informação, que acompanhava os principais passos dos estudantes. Em abril de 1966, já recebia comunicados [1] com informes detalhados sobre o movimento secundarista, inclusive cópias de materiais. Foi desta forma que foi avisado da passeata até a embaixada.

    “Atira, já mandei atirar”
    Pelos depoimentos, a maioria dos policiais teria entrado nos veículos sabendo pouco sobre a operação. Não teriam levado bombas de gás lacrimogêneo, por exemplo. Ao chegarem, a passeata já estaria saindo em direção à Rua Santa Luzia. E teriam ficado com os carros no meio de algumas centenas de estudantes. Ao sair para bloquear o protesto, os estudantes teriam reagido com uma chuva de pedras, acertando alguns policiais e vidros dos carros, mas recuando depois em direção ao Calabouço.

    Aluísio Azevedo Raposo

    Aluísio Azevedo Raposo, em depoimento à CPI. Reprodução Jornal do Brasil

    Segundo depoimento do aspirante Aluísio Azevedo Raposo, ele teria dito que não teria condições de cumprir a missão e dado ordens para recuar. Ele afirma que o general Oswaldo Niemeyer disse que se recuasse, iria parecer que “estaria se acovardando” e “fugindo” e que reforços estariam vindo. Policiais ouvidos confirmaram a conversa entre Raposo e o general, de terno marrom, e a ordem para prosseguir.

    Carlos Alberto da Silva, uma testemunha que estava em uma banca de jornal próxima, afirmou que viu policiais se dirigindo para o Calabouço e que ouviu a ordem: “Atira, já mandei atirar”, sem conseguir identificar quem teria dito.

    Além de Edson Luis, outras cinco pessoas foram feridas, incluindo o estudante Benedito Frazão Dutra, que chegou a ser declarado morto, e Telmo Matos Henriques, atingido por um tiro no segundo andar de uma obra e internado em um hospital.

    Mentiras contra os estudantes
    Tanto Raposo quanto Niemeyer afirmam que foram recebidos à bala, na segunda tentativa de conter o protesto. Niemeyer chegou a dizer que haviam elementos “infiltrados” na passeata e que a polícia “reagiu”, repetindo a farsa dos autos de resistência.

    Mas não foi essa a conclusão da CPI. No dia 12 de maio de 1968, o Correio da Manhã publicou reportagem na qual a CPI avaliava que nenhum tiro teria sido disparado pelos estudantes, baseado nos 57 depoimentos que haviam sido tomados.

    Uma contradição é a do carro da polícia, com oito tiros. No entanto, em seu depoimento, o soldado motorista Reginaldo Batista afirma que seguiu ordens e não saiu da viatura durante o confronto. Não teria percebido o carro sendo atingido oito vezes?

    De onde saiu o tiro?
    Depoimentos de estudantes narram que eles teriam sido encurralados e ficaram protegidos por uma pilastra, sob uma “chuva de balas”. E que Edson Luis foi atingido e não pôde ser socorrido, por conta dos tiros. Teve de ser arrastado.

    O responsável pela operação, Raposo, afirmou que nenhum dos 13 soldados que estavam armados teriam disparado. A “prova” disso é o seu testemunho – ele teria checado todas as armas ao chegar ao quartel, junto com um coronel da PM. Já os peritos afirmaram que todas as armas foram limpas logo que chegaram ao quartel, impedindo exames. E nenhuma cápsula foi encontrada nas proximidades do local onde Edson foi morto.

    No dia 29 de abril, a CPI que investigava o caso na Assembleia Legislativa ouviu nove policiais. E tiveram a impressão de que foram instruídos, para dar depoimentos semelhantes. Em seu primeiro depoimento, bastante nervoso, o aspirante Raposo foi acompanhado de outros dois militares, que chegaram a ser advertidos, pois combinavam e orientavam as respostas.

    A cada depoimento dos policiais, a quantidade de estudantes na passeata aumentaria. No início estimada em 300, o total de manifestantes chegaria a dois mil, pelas contas de quem estava sendo investigado.

     

    PM: Polícia Mata
    O presidente da CPI, o procurador Dardeau de Carvalho, chegaria a conclusão de que seria impossível determinar quem matou Edson Luis.
    Apesar de não conseguir identificar o autor do disparo, testemunhas afirmam que a PM atirou naquele dia contra os estudantes, como nos cartazes levados pelos estudantes.

    Dois jornalistas viram a ação do sexto andar de um prédio e confirmaram que os PMs atiraram. Eles disseram ter visto um policial empunhar uma arma e se dirigir para o local onde Edson foi morto.

    Dois funcionários do restaurante também prestaram depoimentos semelhantes, inclusive tendo visto policiais atirando em direção a galeria onde Edson estava e ouvido estudantes gritando que alguém tinha sido baleado.

    Na internet, é possível encontrar quem atribua o crime ao tenente Alcides Costa, que estaria a frente do Batalhão Motorizado da PM no local e teria recebido uma pedrada. Segundo esta versão, ele teria atingido Edson Luis a queima-roupa.

    A impunidade prevaleceu. Quatro meses depois, o aspirante Aluísio Azevedo Raposo foi promovido a oficial, e permaneceu participando e coordenando operações de rua.

    O coronel Niemeyer não retornou ao comando da Segurança Pública mas seguiu na carreira militar. Quatro anos depois, em 1972, participou da turma da Escola Superior de Guerra (ESG).

    A arma do crime não foi encontrada ou identificada.

    Apesar da comoção e da Passeata dos Cem Mil, o Restaurante Calabouço foi fechado. No final do ano, a ditadura iniciaria a sua fase mais sanguinária, com o AI-5 e o aumento dos organismos de repressão e tortura. Os anos seguintes veriam a destruição do movimento estudantil e de todas as liberdades democráticas, e a perseguição às organizações que foram para a clandestinidade.

     

    Reprodução Jornal do Brasil. 21/07/1967

    Reprodução Jornal do Brasil. 21/07/1967

    Guerra contra a juventude e ao povo negro e favelado

    Por outro lado, a ditadura – e os órgãos de repressão – travavam outra guerra, contra as favelas e o povo negro da cidade, acelerando a política de higienização social, que já vinha desde o governo Carlos Lacerda.

    Em julho de 1967, quando o Rio de Janeiro sediou uma reunião nacional do FMI, as forças de segurança detiveram três mil pessoas, classificadas pelo Jornal do Brasil como “punguistas, assaltantes, arrombadores e homossexuais”. A operação foi chamada pelo jornal de “limpeza do Rio”.

    Não por acaso, estudantes do Calabouço detidos em uma passeata dias antes foram mantidos presos até o término do evento do FMI. A ordem veio do general Niemeyer.

    Entre 1964 e 1973, mais de 100 mil pessoas foram retiradas de morros [2], em especial na Zona Sul, em remoções para bairros e áreas distantes, como a Cidade de Deus. Casas eram invadidas e moradores espancados. As associações de moradores eram controladas e vigiadas, eliminando a capacidade de resistência. Remoções chegaram a ser feitas usando caminhões da Comlurb. O apelo vinha da imprensa:

    No ponto em que chegamos, não há no Rio qualquer outro problema que apresente tanta urgência em ser resolvido quanto as favelas (…). A extinção das favelas justifica a paralisação de todos os programas de embelezamento urbanístico da cidade, pois não há melhor forma de ressaltar o esforço de melhoria da Guanabara do que a eliminação do contraste brutal e injusto das favelas com o perfil dos edifícios e a linha da paisagem favorecida.
    (Jornal do Brasil, 1966) [3]

     

    Ninguém tem a menor dúvida – antes, tem a sólida experiência – de que, antes de 31 de março de 1964, tentar efetivamente a extinção das favelas, com a indispensável remoção dos favelados, seria obra praticamente impossível.
    (Diário de Notícias, 1971) [3]

    A imprensa e o governo chegaram a divulgar a informação de que estariam sendo formadas “células comunistas” nas favelas, apostando no medo que fez parte do golpe de 1964. Apesar de parte da esquerda de fato atuar nestes territórios, o uso do componente ideológico soava mais como uma tentativa de justificar o enorme investimento feito pela ditadura civil-militar e a manutenção dos organismos de repressão e de tortura, voltando-os com toda a força para remover o “perigo” que vinha dos morros.

    “Os velhos no poder, os jovens (negros!) no caixão”
    A criminalização dos moradores de favela avançou, apoiada no racismo da elite, Herdeira de um passado escravocrata. Coincidência, seus antepassados foram os que construíram uma prisão para escravos no local onde viria a funcionar o restaurante, explicação para o nome Calabouço.

    A ideia de que “todos na favela são bandidos” – a mesma lógica usada hoje na intervenção militar – foi usada para sustentar a exclusão de amplas camadas do povo carioca, aprofundando a desigualdade social e espacial, até a realidade que vivemos, de pobreza e genocídio da juventude negra.

    Niemeyer, Raposo, Alicides… Seja qual for o nome de quem atirou, os que mataram Edson Luis foram os mesmos que, cinquenta anos depois, executariam Marielle e os cinco jovens de Maricá.

    NOTAS
    [1] HAUER, Licia Maciel. O Colégio Pedro II durante a ditadura Militar: O silêncio como estratégia de subordinação.
    Disponível em: < https://revistas.ufrj.br/index.php/rce/article/viewFile/1553/1402 >

    [2] BRUM, Mario Sergio. Ditadura civil-militar e favelas: estigma e restrições ao debate sobre a cidade (1969-1973).
    Disponível em: < https://revistas.pucsp.br/index.php/metropole/article/download/14809/10798 >

    [3] VALLADARES, Lícia. Passa-se uma casa: análise do programa de remoção de favelas do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1978
    In PESTANA, Marcos. OAKIM, Juliana. A Ditadura nas Favelas Cariocas, Capítulo do Relatório Final da Comissão da Verdade do Rio Disponível em: < http://www.cev-rio.org.br/site/arq/CEV-Rio-Relatorio-Final.pdf >


    JORNAIS CONSULTADOS

    Edições Jornal do Brasil e Correio da Manhã (1967-1968).
    Hemeroteca Digital Brasileira – Biblioteca Nacional

     

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  • Cinco jovens são executados em Maricá (RJ): ‘Não nos calaremos’

    Da Redação

    Neste domingo (25), poucos dias após o assassinato político da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco, cinco jovens, moradores do conjunto habitacional Carlos Marighella, do programa Minha Casa Minha Vida, foram brutalmente executados. Sávio de Oliveira, de 20 anos; Matheus Bittencourt, de 18, Marco Jhonatas, de 17, Matheus Baraúna, de 16 e Patrick da Silva Diniz, de 19, acabavam de chegar em casa, de um show, quando foram abordados. Alguns deles eram integrantes do movimento Hip Hop e de projetos sociais na cidade. A suspeita, de acordo com a própria delegada que investiga o caso, é de que tenham sido vítimas da ação de milícias. Este é um caso de execução que escancara o genocídio da juventude pobre e, principalmente negra, que já tornou-se uma política de Estado e precisa ser amplamente denunciada e combatida.

    O crime aconteceu de forma bárbara, na própria área de convivência do conjunto habitacional construído em parceria com o Governo Federal. Segundo informações fornecidas ao jornal Extra por uma parente de Marco Jhonatan, os cinco voltavam de um show do cantor Projota quando os abordaram, mandaram deitar no chão e os executaram. Os criminosos, que estariam em motos, ainda teriam gritado: “Somos da milícia”.

    A tia lembra do sobrinho. Marco era rapper e participava de concursos de passinho, modalidade praticada principalmente por jovens da periferia do Rio. Em outro depoimento, um pastor disse que conhecia o jovem Sávio, que desde criança era amigo de seus filhos. Segundo afirmou, o jovem era envolvido em projetos sociais e pensava em construir uma escola de rima para crianças. Há cinco anos integrava um grupo de Hip Hop, batizado de D. Front, além da gravadora 7G Records.

    Segundo a delegada Bárbara Lomba, da Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNSGI), responsável pelo caso, os tiros teriam partido de uma mesma arma. Ela aposta que, pelas características do crime, as investigações apontam para uma ação de milícia. A arma utilizada no crime foi uma pistola calibre 380, os tiros foram dados na cabeça e as vítimas estavam perfiladas, segundo afirmou em entrevista à imprensa.

    O enterro de três dos jovens aconteceu nesta segunda-feira (26) e foi acompanhado por cerca de 200 pessoas. Diversas entidades, movimentos sociais e organizações políticas se manifestaram sobre o caso. “Os secundaristas querem saber quem promoveu a chacina em Maricá e gritarão por justiça na próxima quarta-feira (28) dia da Jornada de Lutas da UBES no Rio de Janeiro”, divulgou a A União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES). A manifestação está marcada para acontecer às 15h, na Candelária, Centro da capital fluminense. A entidade ainda lembrou o papel do Estado na responsabilidade com crimes bárbaros como esse. “Estamos diante do abandono do Governo do Estado. Estado esse que deveria nos garantir segurança. Estamos diante da falta de políticas públicas que garantam o básico: Direito a Vida! Estamos diante de um problema social e todos devemos acordar para isso”.

    Já o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) de Maricá lançou uma nota esclarecendo que os jovens não faziam parte desta organização política, como muitos chegaram a supor, mas que “lamenta a morte e repudia atos de violência crescentes na sociedade fluminense, principalmente, contra jovens negros, pobres e ligados a movimentos culturais”. Ainda segundo a nota, os jovens de Itaipuaçu faziam parte de projetos culturais da cidade, como o Roda de Cultura e eram poetas e cantores de Rap. “O PCdoB Maricá reitera sua indignação com o acontecido, tristeza e solidariedade aos amigos e familiares das vítimas”, conclui a nota.

    Foto: Enterro de três dos jovens assassinados em Maricá

  • Havia uma pedra no meio do caminho

    Por: Israel Marques*

    “[…] no meio do caminho da educação havia uma pedra
    E havia uma pedra no meio do caminho”
    (Criolo – Duas de Cinco)

    Terça-feira, 6 de fevereiro de 2018: o dia em que me matriculei em uma universidade pública

    A priori, alguns podem pensar que é algo comum para um jovem de 18 anos. Só alguns, muito poucos. Uma esmagadora parcela da população brasileira não possui o direito de tratar esse fato como algo comum, pois sequer possui o ensino fundamental completo, quem dirá saber o que é chegar a um processo seletivo do Ensino Superior, que possui mais de 8 milhões de estudantes, dos quais apenas quase 2 milhões estudam em universidades públicas (segundo o MEC) – isso tudo em um universo de mais de 200 milhões de habitantes.

    Historicamente, as elites brasileiras detiveram as vagas das melhores universidades do país, deixando para a maior parte da população, isto é, as camadas mais pobres, a ausência/falência da educação. Enraizou-se no Brasil a hegemonia de uma cultura educacional elitista, perpetuando relações sociais baseadas no preconceito, na exploração, na desigualdade, etc. Por conta disso tudo, em 2017, existiam 12,9 milhões de analfabetos no país, segundo o IBGE; o mesmo instituto relatou no mesmo ano que 52% da população tinha apenas o ensino fundamental completo, escolaridade que é insuficiente para sobreviver em um país que exige profissões com boas escolaridades e que mesmo assim possui um baixo salário.

    De fato, o governo petista, com seu programa “democrático popular” (PDP), conseguiu consolidar projetos que possibilitou para muitos jovens a entrada em uma universidade pública e gratuita – local que na maior parte da história pertenceu à elite -, mudando a realidade de muitas famílias brasileiras. Infelizmente, essa já realidade não chega a todos. A educação básica pública no Brasil é precária e sucateada (como sempre foi), fazendo com que milhões de crianças e adolescentes abandonem a escola e escolham as subalternativas, perenizando os dados já citados: analfabetismo, exploração, desigualdade, violência, etc.

    Com efeito, para tentar mudar a situação da educação do país e também para se contrapor ao PDP  do governo do PT, o governo golpista de Michel Temer usou no seu pacote de reformas a Reforma do Ensino Médio, que é um proposital trabalho de enxugar gelo. A tal reforma nada muda a situação escolar, pelo contrário, faz com que muitos jovens enxerguem mais distante o sonho do Ensino Superior. A falta de verbas, a péssima estrutura e um plano educacional falido de nada irão servir para uma mudança no plano dessas ideias. A reforma só apresenta os interesses dos empresários: mão-de-obra e exército de reserva, pois está claro na reforma a modalidade do ensino técnico. Ora, estudar em tempo integral no ensino técnico, não se preparando para os vestibulares, é óbvio que deixa milhões de estudantes longe do ensino superior, restando apenas o árduo trabalho da também Reforma Trabalhista.

    Me resta agora, sendo jovem de uma geração que ocupou escolas e também universidades, que participou de duas greves gerais e que se preocupa com as causas sociais, lutar por uma educação pública e gratuita voltada para as camadas populares. Acredito que a organização popular é extremamente importante em momentos de retirada de direitos como o qual vivemos. A inserção na política e nos debates que nos interessam é essencial. Nosso dever é retirar do meio do caminho as pedras que impedem as nossas conquistas e os nosso direitos.

    *Israel Marques é recém aprovado na Universidade Federal do Ceará, ex-estudante de escola pública e ocupou sua escola em 2015, quando então tornou-se militante da Nova Organização Socialista.

  • Quatro motivos para lutar contra as demissões na Universidade Metodista de São Paulo

    Lígia Gomes, de São Bernardo do Campo (SP)
    Nos últimos dias as demissões na Universidade Metodista de São Bernardo do Campo chegaram a 55 professores e no Colégio Metodista na mesma cidade foram 12 professores. O Colegiado Episcopal  (de Bispos e Bispas) Metodista afirmou em nota que “segue em oração pelas famílias das pessoas que foram demitidas”.  No entanto os professores precisam de muito mais do que orações, precisam ter seus direitos assegurados. E para isso é necessária a solidariedade e mobilização dos trabalhadores e estudantes. Veja a seguir algumas razões para se unir à luta contra as demissões:
    1 – Porque são demissões que preparam terreno para a implementação da reforma trabalhista na Universidade. A exemplo do que já foi feito por outras universidades, como a Estácio que demitiu 1200 em todo o país e a Anhembi Morumbi (comprada pela Laureate) que mandou embora 140 docentes, na Mackenzie perderam o emprego cerca de 100 professores e na PUC-SP fala-se em demitir cerca de 60 professores. Ainda na Rede Metodista também foram demitidos 40% dos professores do Colégio Piracicabano e acredita-se que virão demissões com o fim do período letivo na Universidade em Piracicaba. Com as demissões as instituições abrem caminho para contratar professores pela nova legislação trabalhista, com menos direitos, salários menores e piores condições de trabalho. O resultado, além do rebaixamento dos salários, é a piora da qualidade da educação.
    2 – As demissões na Metodista são políticas.  Entre os demitidos estão aqueles que participaram das mobilizações contra as medidas antidemocráticas que foram tomadas desde a posse do novo reitor, Paulo Borges. A nova cara que o reitor quer dar à Metodista é incompatível com uma Universidade, pois é autoritária e avessa ao diálogo. Agora o reitor anda cercado por seguranças, evitando contato com a comunidade acadêmica. Professores em atos e assembleias eram filmados e fotografados, o som foi cortado em uma de suas assembleias e num ato contra as demissões os portões da Universidade foram fechados para seus próprios alunos que protestavam. Entre os demitidos estão dois professores recém eleitos para o Conselho Universitário, que sequer puderam participar da primeira reunião pois foram demitidos na véspera, num grave desrespeito aos votos dos docentes que os elegeram.
    3 – Há demissões irregulares, de professores cujos planos de carreira previam que só poderia ser demitidos após aprovação em colegiados. Essa previsão visava garantir a liberdade de cátedra e impedir a perseguição política, como a que vemos agora. Foi também demitido o presidente da Associação Docente, numa afronta ao direito à organização sindical.
    4 – Na Metodista um marco na mudança das relações internas foi a constituição da Rede Metodista de Educação para gerenciar as instituições de ensino metodistas em todo o país. A Rede minou a autonomia universitária, retirando de cada instituição o direito a definir e implementar suas políticas. As principais decisões, inclusive as trabalhistas,  são determinadas pela Rede, atendendo a critérios próprios sem consideração sobre a comunidade acadêmica ou o contexto de cada instituição.
    Com informações da professora Luci Praun, do SINPRO-ABC, e da Associação Docente da Metodista.
  • A democracia na corda bamba

    Por: Paulo César de Carvalho e Boris Vargaftig, de São Paulo, SP

    No último dia 6 de dezembro de 2017, a imprensa noticiou a condução coercitiva do reitor da UFMG, da vice-reitora, da coordenadora do projeto “Memória e Verdade” e de mais cinco profissionais da universidade. A justificativa para a ação dos agentes federais é o suposto desvio de verbas destinadas à construção do “Memorial da Anistia Política do Brasil”, projeto lançado pela Comissão de Anistia há quase uma década, com financiamento do Ministério da Justiça e parceria com a UFMG.

    Não nos cabe aqui discutir se houve ou não irregularidades na aplicação dos recursos públicos por parte dos acusados: as investigações estão em curso e o processo judicial está em andamento. Ainda que houvesse culpa dos réus, a sua condenação não serviria de salvo-conduto para “legitimar” as arbitrariedades cometidas pelos policiais na operação “Esperança Equilibrista”. Aliás, a infeliz escolha do nome evidencia o espectro autoritário que ronda o país, em geral, e a universidade, em particular.

    A Polícia Federal se apropriou indebitamente de um trecho da canção “O Bêbado e o Equilibrista”, de Aldir Blanc e João Bosco. Vale lembrar que a música foi lançada no disco “Linha de Passe”, em 1979, no mesmo ano da Anistia. Imortalizada na voz de Elis Regina, tornou-se o hino dos presos políticos. Um deles era o sociólogo Betinho, irmão do cartunista Henfil, ambos citados na letra, que também homenageia a mãe da dupla, dona Maria: “Meu Brasil/ Que sonha/ Com a volta do irmão do Henfil/ Com tanta gente que partiu/ Num rabo de foguete/ Chora/ A nossa pátria, mãe gentil/ Choram Marias e Clarices/ No solo do Brasil”.

    A referência a Clarice Herzog, companheira de Vlado, deixa ainda mais explícita a memória dos anos de chumbo evocada e desrespeitada pela operação “Esperança Equilibrista”. Em 1975, o jornalista Vladimir Herzog foi conduzido coercitivamente para prestar depoimento no DOPS, em cujas dependências foi torturado e assassinado. À época, a suspensão da ordem democrática era justificada pela “Doutrina de Segurança Nacional”, que dava amplos poderes aos agentes da repressão para sequestrar, torturar e assassinar qualquer “suspeito”. Os policiais, armados das prerrogativas totalitárias, não necessitavam de autorização judicial para invadir redações de jornal, sindicatos, universidades – corria-se perigo dentro de casa. Foi assim que levaram o jornalista Vlado, em 1975; foi assim que mataram o metalúrgico Manoel Fiel Filho, em 1976; foi assim que assassinaram o estudante Alexandre Vannucchi Leme, em 1973. O deputado Rubens Paiva estava em casa quando foi conduzido para a lista de desaparecidos políticos em 1971.

    De volta ao presente, em 6 de dezembro de 2017, o reitor da UFMG foi surpreendido por policiais federais quando saía do banho. Como estava de toalha, pediu autorização para se vestir, ouvindo de um dos agentes armados a temerária resposta: “o senhor não tem mais direito à privacidade”. Se estivéssemos em um quadro de normalidade democrática, a condução coercitiva não teria fundamento: o reitor e os outros acusados já haviam prestado esclarecimentos tanto à Controladoria Geral da União (CGU), quanto ao Ministério Público Federal (MPF). É redundante dizer que também possui residência fixa, podendo ser facilmente intimado a depor. Lembremos que ele foi levado de sua própria casa. Se estivéssemos em um contexto político de estabilidade democrática, um policial, sem resguardo legal, jamais diria a um cidadão de toalha saindo de seu próprio banheiro que ele não tem mais “direito à privacidade”.

    Denunciamos, a partir deste sintomático caso concreto, as investidas autoritárias que têm posto em risco as conquistas democráticas. Não é sempre que a realidade coloca diante de nossos olhos um acontecimento com tal força simbólica, não é por mera coincidência que as suspeitas envolvam o Memorial da Anistia, que a operação se chame “Esperança Equilibrista” e que o reitor tenha sido conduzido arbitrariamente de sua casa à viatura. Se não soubéssemos que isso aconteceu no dia 6 de dezembro de 2017, poderíamos imaginar que é mais uma das inúmeras histórias trágicas da ditadura. Quem suporia, afinal, que fosse possível ocorrer tais arbitrariedades quase 40 anos depois da Anistia?

    Se algum dramaturgo, poeta, romancista, contista, novelista, ou cineasta tivesse escrito esta narrativa, o enredo soaria caricato. Os críticos acusariam a inverossimilhança produzida pelo abuso de clichês, pela reiteração de estereótipos. De fato, não parece mesmo nada convincente a história de um reitor de toalha surpreendido por policiais federais armados na frente do banheiro, suspeito de irregularidades na construção de um “Memorial da Anistia”, em uma operação chamada “Esperança Equilibrista”. Não faltariam leitores para dizer que as “coincidências” são muito artificiais, que as alusões são muito explícitas, forçando a barra e entregando o jogo.

    Mas esta história não é lenda. A realidade novamente desafia e supera as piores ficções. Se é impossível não enxergar a presença paquidérmica do absurdo, como não registrar a realidade? Quem dera a condução coercitiva do reitor da UFMG não fosse “de verdade”; quem dera o suicídio do reitor da UFSC fosse “de mentira”. Antes a prisão de Rafael Braga não fosse real; antes fosse ficção o processo contra os 18 estudantes presos no Centro Cultural SP. Infelizmente, os soldadinhos não são de chumbo; as armas não são de plástico e as balas não são de festim. Os fatos não são isolados. Temos assistido a uma escalada de ataques ao chamado Estado de Direito, o que nos evidencia a fragilidade da democracia burguesa, que “dança na corda bamba”. Aliás, é o que sintomaticamente dizem os versos finais da canção “O Bêbado e o Equilibrista”:

    “Mas sei
    Que uma dor assim pungente
    Não há de ser inutilmente
    A esperança
    Dança, na corda bamba de
    sombrinha
    E em cada passo dessa linha
    Pode se machucar

    Azar
    A esperança equilibrista
    Sabe que o show de todo artista
    Tem que continuar”

  • DCE liderado pela direita frauda estatuto e tenta golpe na PUC-RS

    Por: Denis Brum e Caetano Branco, de Porto Alegre, RS.

    A atual gestão do Diretório Central de Estudantes (DCE) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) formada pelo PMDB, PSDB e LIVRES acaba de fraudar o estatuto da entidade. Estes grupos e partidos políticos desrespeitam não só o estatuto, mas democracia estudantil com o objetivo de impedir que haja eleição para o DCE ano que vem. Ao contrário do que dizem nas redes sociais, nas propagandas eleitorais e nos discursos, os “liberais” na prática são autoritários que fazem de tudo para manter o poder e os privilégios. Esses legítimos herdeiros da “Máfia do DCE da PUC/RS” manobram, escondem, fraudam e mentem para bloquear a participação dos estudantes. Não temos outra conclusão: o fazem por medo de que havendo manifestação dos estudantes sejam rejeitados e tenham que sair da direção da entidade.

    Conforme o estatuto do DCE da PUCRS, até novembro deste ano deveria ser convocada uma Assembleia Geral de estudantes para formar uma comissão eleitoral. Esta comissão ficaria encarregada de organizar e dar caráter legal e democrático às eleições do ano seguinte. O estatuto prevê três formas para a convocação da Assembleia Geral:

    I- Através do CEB (Conselho de Entidade de Base), onde existe a reunião de todos os centros e diretórios acadêmicos da universidade;
    II- Convocação da Assembleia pelo DCE, na falta do chamamento via CEB;
    III- Através de um pedido protocolado juntamente ao DCE com aval de 1% do corpo discente da universidade, ou seja, um abaixo assinado com 1% dos estudantes.

    Contrariando completamente o estatuto, a atual direção do DCE não convocou a Assembleia Geral, mesmo que ela não tenha sido convocada pelo CEB – devido a desestruturação de boa parte dos CA’s e DA’s, que também refletem o movimento estudantil na universidade nestes últimos semestres. O DCE deveria, na falta do CEB e conforme o estatuto, ter ele mesmo convocado a Assembleia Geral. Fato que não ocorreu na atual gestão, sinalizando um total descumprimento do estatuto da entidade.

    Além da não convocação da Assembleia, na última quinta-feira (30/11) os estudantes foram surpreendidos por uma convocação para uma reunião de centros e diretórios acadêmicos a fim de discutir o processo eleitoral. A reunião não foi informada corretamente a todos os DA’s e CA’s e apenas divulgada e assinada pelos diretórios que curiosamente apoiam a atual gestão. Se não fosse tudo, na tarde/noite do dia 5 de dezembro, data marcada para a reunião, fomos informados que o estatuto do DCE havia sido destituído pela atual gestão que criou um novo com os seguintes erros que configuram um verdadeiro golpe:

    – Alteração do estatuto do DCE SEM UMA ASSEMBLEIA ESTATUTÁRIA E SEM RESPEITAR O ESTATUTO ANTERIOR;

    – Visando atender seus interesses, o novo estatuto prolonga a gestão POR DOIS ANOS (ou seja, a gestão da atual da Eclipse foi estendida por UM ano);

    – Extingue o conselho de entidades de base, e cria-se um organismo em qual o “presidente” do DCE é o próprio coordenador.

    A PUCRS foi cenário de grandes lutas do movimento estudantil contra a antiga Máfia que dominou por cerca de 20 anos a universidade, impedindo o processo democrático e LIMPO das eleições. Em pleno 2017, a organização mostra sua cara novamente, agredindo pessoas e tentando a todo custo se manter no poder.

    Após a notícia do estatuto fraudulento, um grupo de cerca de 40 estudantes dos mais diversos cursos se mobilizou para exigir que a reunião tivesse caráter democrático e garantisse a participação de todos os associados do DCE, ou seja, todos os estudantes devidamente matriculados na PUCRS. A gestão ECLIPSE não só impediu a entrada dos estudantes como também não deixou que os advogados dos Centros Acadêmicos acompanhassem (direito garantido por lei), de forma que só conseguiram a entrada após muita pressão e empurra-empurra, onde integrantes da atual gestão usaram de força e agrediram a advogada do CAAP (Centro Acadêmico Arlindo Pasqualini, da Famecos) na tentativa de impedir sua entrada. Ao término da “reunião”, os CA’s e DA’s exigiram que sua documentação entregue na entrada da reunião fosse devolvida, o que não ocorreu e configurou o SUMIÇO de documentos das entidade (estatutos) e também de pessoas físicas que representavam as mesmas (cópias de RG). Foi registrado boletim de ocorrência por FURTO e ainda é aguardado o aparecimento da documentação que foi recolhida por membros da gestão Eclipse do DCE na entrada da reunião.

    Desta forma, ficou explicitamente caracterizado um GOLPE em curso dentro do DCE, sendo de suma importância a mobilização de todos e todas que minimamente desejem uma universidade democrática e eleições limpas no DCE. O golpe é sorrateiro e sujo, mas com nossa mobilização e força enquanto estudantes podemos denunciar e impedir que ele ocorra. Todos e todas à reunião no CAAP nesta quarta-feria 06/12 às 18h.

    MÁFIA NUNCA MAIS, FORA GESTÃO GOLPISTA!

    Para saber mais sobre a Máfia do DCE da PUCRS, disponibilizamos o link do blog do Movimento 89 de Junho, que destituiu a Máfia através de várias manifestações entre 2011 e 2013.

  • Lutar Sempre, Temer Jamais. Eleições no Centro Acadêmico de História da UFAL

    Por Afronte – Alagoas

    As Universidades Públicas estão vivenciando uma verdadeira crise. Está crise, como diria Darcy Ribeiro, pode ser considerado um projeto. O governo faz a escolha política de cortas verbas da educação e outros serviços públicos para pagar a chamada dívida pública. Ou seja, tira da educação para dar a meia dúzia de banqueiros.

    Os cortes de verbas se refletem das mais diversas formas. Com falta de água e energia. Materiais básicos como giz, pilotos e papel higiênico. No atraso do pagamento de trabalhadores terceirizados e nas bolsas de assistência estudantil. Cada vez fica mais difícil o estudante permanecer na Universidade.

    No curso de história na UFAL é essa a realidade que vivenciamos. As salas de aula estão cada vez mais vazias. Mais e mais colegas e amigos desistem do sonho de entrar numa universidade e ter um curso superior. Muitos vêm do interior do estado, a imensa maioria dos estudantes do curso são de bairros periféricos, pobres, que na falta de uma assistência estudantil universal precisam trabalhar para se manter. Sabemos como isso é difícil. Conciliar o trabalho com a dura dinâmica de estudo. Os ônibus são superlotados e atrasados, o salário que é pouco e mal dá para sobreviver, acordar cedo, ir dormir tarde, ler um texto, fazer fichamento de outro, preparar trabalho, ir para a aula. Ou seja, essa dinâmica é extremamente exaustiva e faz com que muitos acabem tendo que sair do curso.

    Sem falar com o ritmo de estudo que determinados professores impõe. Muitos cobram como se o estudante fosse uma máquina, tirando todo o lado pedagógico do processo de ensino e realizando cobranças sem avaliar a dinâmica e vida real do aluno. Se um professor  passa 70 folhas por semana é algo que dá para conseguir ler. Agora se 5 professores passam 70 folhas cada e cobram fichamento, tendo uma relação de abuso com o aluno, fica completamente impossível.

    Agora imagine um curso com grande número de evasão, com problemas estruturais gravíssimos, com recorrentes casos de abuso de professores e num momento de retirada de direitos e cortes de verbas. Neste curso é extremamente necessário que os estudantes tenham voz, que se posicionem, que construam seus instrumentos de luta. No caso, que tenham um centro acadêmico para se posicionar frente a tudo isso.

    Infelizmente não era essa a realidade do nosso curso. O centro acadêmico está parado desde que a última gestão o abandonou, há quase um ano. Sendo assim resolvemos montar uma chapa que refletisse toda a necessidade que o atual momento histórico exige.

    Em primeiro lugar, a demarcação de que a saída é pela esquerda. Se queremos uma educação pública de qualidade, precisamos apontar os motivos de não termos. Nós vamos gritar em alto e bom som: nossa educação é mais importante que os lucros dos ricos e poderosos. Por isso uma saída programática a esquerda, em defesa dos direitos históricos dos trabalhadores e oprimidos, é se posicionar em defesa da educação.

    Segundo, que é preciso a mais ampla unidade para conseguir lutar contra a onda conservadora, contra a retirada de direitos e contra o atual governo. A atual chapa é composta por estudantes que constroem o AFRONTE, a UJC e com a maioria dos membros independentes. Sozinhos não nós bastamos, precisamos do maior número de braços e pernas possíveis para construir o novo. Seja um novo centro acadêmico, ou uma nova alternativa política. E essa construção só pode ser coletiva, essa é a conclusão central que devemos chegar.

    Dessa forma, após termos sido eleitos com 113 dos 123 votos, buscaremos na nossa gestão que se inicia honrar a luta e tradição do movimento estudantil. Firmes em defesa da educação pública e de nossos direitos por um futuro digno. Nós não devemos pagar pela crise, vamos Lutar Sempre e Temer Jamais.

    Foto: Adricia Bonfim