Juventude

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  • DCE Unicamp: Cada voto é uma semente de resistência

    Nos dias 27, 28 e 29 de novembro ocorrerão as eleições para o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Unicamp. As eleições deste ano acontecem em um contexto bastante diferente das últimas: o presidente eleito Jair Bolsonaro promete uma série de ataques à universidade pública, seja do ponto de vista do desmonte da mesma ou da restrição das liberdades democráticas. Para ele o maior problema da educação não é o financiamento ou a precariedade das condições de ensino, mas sim uma suposta “doutrinação de esquerda” nas escolas e universidades. Prometeu “aparar as arestas” dos centros acadêmicos – bem sabemos que isso na verdade significa uma verdadeira ameaça ao movimento estudantil.

    Na Unicamp, esse contexto geral se soma a uma grande ofensiva da reitoria sobre nossas liberdades democráticas e o movimento estudantil de conjunto. Só pra citar alguns exemplos, hoje não se pode reunir mais de 10 pessoas no vão do PB sem que seja pedido o nome de um responsável pela reunião, não se pode mais colar cartazes e tivemos que exigir autorização para afixar faixas de chapas das eleições de DCE. Vale também citar o fato de dezenas de estudantes estarem sendo processados administrativamente por ter participado da greve de 2016, com processos  abertos até hoje.

    Além da reitoria, o Unicamp Livre, organização de direita, vem convocando uma campanha de boicote às eleições do DCE. Eles partem de uma crítica ao “movimento estudantil tradicional” que tem como objetivo desmontar todo o acúmulo organizativo e político da auto-organização dos estudantes da Unicamp nos últimos anos.

    É uma verdadeira frente reacionária com o objetivo de destruir o movimento estudantil. Estamos sob ataque em uma conjuntura política bastante dura, com outros ataques que se avizinham no horizonte.

    O papel das entidades

    Historicamente as entidades estudantis são trincheiras de resistência dos estudantes e podem servir como ferramentas centrais para organizar a sua luta. Durante grande parte da ditadura militar era proibido organizar centros acadêmicos, em geral as entidades se organizavam clandestinamente. Hoje podemos atuar na legalidade e eleger nossas entidades de acordo com o programa que defendemos, isso é uma conquista democrática fundamental que devemos defender e na qual podemos nos apoiar.

    Na Unicamp temos uma estrutura na qual existem diversos centros acadêmicos, divididos por curso ou instituto, eleitos em seus locais de estudo, e um diretório central, uma entidade geral que representa o conjunto dos estudantes. Essas entidades cumprem o papel de organizar lutas por coisas pontuais, como, por exemplo, a falta de tonner para as cotas de impressão no IFCH, ou coisas mais gerais, como organizar blocos dos cursos que representam em manifestações políticas de acordo com o entendimento dos estudantes. Além disso realizam atividades de vivência, de discussão, assembleias e etc. Os CAs cumpriram papel muito importante no segundo turno das eleições desse ano, realizando assembleias através das quais dezenas de cursos paralisaram e se organizaram para ir para a rua virar votos e dialogar com a população.

    Em tempos de retrocesso as entidades estudantis devem ser fortalecidas para que possam servir como ferramenta de organização e resistência dos estudantes!

    Um chamado às urnas: é preciso resistir e revolucionar nossas entidades

    O chamado de boicote do Unicamp Livre é uma tentativa de deslegitimar nossa auto-organização e caçar a legitimidade da nossa representação estudantil. O grupo Apenas Alunos, que compôs gestão do DCE em 2018 e do qual parte atua hoje no Unicamp Livre, ajudou a reitoria a tirar nossa autonomia na organização das eleições da representação discente, implementando eleições online organizadas pela reitoria. O resultado disso foi que perdemos uma cadeira da representação estudantil no Conselho Universitário, instância máxima da universidade, por falta de quórum. O processo eleitoral passou ao largo dos estudantes.

    O objetivo do Unicamp Livre é destruir nossas entidades para que percamos nossas ferramentas de resistência. Defendem um projeto privatista de universidade, para o qual não interessa a resistência organizada dos estudantes. É preciso responder a isso com mais organização e mais participação.

    Para as eleições desse ano, que ocorrem em uma data de maior esvaziamento da universidade, precisamos de um grande movimento que seja capaz de fortalecer e legitimar nossas entidades, torná-las mais próximas dos estudantes, assim como combater práticas burocráticas de todo tipo e fazer valer a democracia pela base. Cada voto depositado na urna é uma semente da resistência que deve ser organizada para o ano que vem.

    Às urnas pela democracia dos estudantes! Por entidades fortes para resistir!

     

  • Estudantes da UFBA impedem MBL de fazer ato em local de homenagem à Marielle

    Na noite de terça-feira, 13, um pequeno grupo com nove integrantes do MBL foi até o campus Ondina da UFBA (Universidade Federal da Bahia) com um objetivo: fazer provocação. Esse grupo, que considera os partidos de esquerda como organizações criminosas e seus militantes como alvo do seu ressentimento social, foi até a universidade realizar um “enterro do PT”.

    E pior, pretendiam realizar o tal enterro no local onde os estudantes da universidade haviam feito uma intervenção artística muito simbólica, ficando várias cruzes em homenagem à vereadora Marielle Franco e a várias outras mulheres guerreiras que tombaram na luta ou que foram vítimas de feminicídio. Os integrantes do MBL sabiam exatamente do que se tratava a intervenção artística.

    Em um vídeo transmitido pelo MBL, seu coordenador coordenador geral fala: “descobrimos que aqui tem um cemitério de feminicídio feito pelas meninas e que botaram um caixão de Marielle…essa Marielle tá morta, mas anda mais que ônibus de rota…tem caixão dela até aqui na Bahia…” Neste momento, a única mulher entre os nove manifestantes sorri. O líder do MBL continua: “então nós vamos fazer o enterro do PT ali porque nada melhor do que enterrar onde já existe um cemitério”

    Por coincidência ou não, a provocação ao PT e à memória das mulheres assassinadas foi feita na véspera de se completar oito meses da execução de Marielle Franco.

    Felizmente, estudantes que estavam no dia se organizaram e, de forma espontânea e corajosa, impediram que o MBL concretizasse o seu ato. De mãos dadas os estudantes fizeram um cordão de isolamento, evitando que o MBL fizesse escárnio com um local onde se fez uma homenagem a várias mulheres que lutaram contra o machismo, o racismo e por uma sociedade igualitária. O movimento ainda tentou realizar o “enterro” ao lado, mas teve os caixões retirados.

    Em nome de uma pretensa “pluralidade” de ideias, o que os nove integrantes do MBL foram fazer foi uma provocação barata a esquerda e um verdadeirao atentado a memória de Marielle, semelhante aos candidatos do PSL que retiraram e quebraram uma placa com o nome da vereadora. Buscando alguma agressão, que não aconteceu, restou aos membros do MBL encerrarem o seu “protesto” e se retirarem.

    Foi a segunda derrota do MBL na mesma semana. No dia anterior, realizaram um protesto em frente ao Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, denunciaram a “doutrinação” dos alunos e em defesa do Projeto Escola sem Partido. O ato também não reuniu mais do que alguns poucos apoiadores do movimento, que se revezaram no carro de som. Alunos e professores permaneceram do lado de dentro do Pedro II, sem cair na provocação do grupo. Representantes de sindicatos, entidades e uma parte da comunidade escolar permaneceu do lado de fora, e mesmo assim, foi superior ao “ato” do MBL. O protesto foi encerrado de forma melancólica, com o carro de som parando de funcionar e com o grupo deixando o local, abafado pelas palavras de ordem dos estudantes de dentro e fora da escola.

    As universidades e escolas devem continuar sendo um espaço que abrigue e estimule o livre debate de ideias, de maneira diversa e plural. E jamais um local onde ganhe espaço a deliberada confusão entre liberdade de expressão e a “livre manifestação de ódio e preconceito” que é a prática do MBL e de outros grupos.

    Para defender a democracia, a tolerância e a liberdade, é preciso ser firme contra aqueles que as ameaçam. Nenhuma liberdade aos inimigos da liberdade.

     

  • Alerta da Capes e declarações de Alckmin: A produção do conhecimento em perigo

    Essa semana duas declarações de peso apontam que o futuro da pós-graduação pública e gratuita no país está ameaçado. Ou seja, o futuro da produção de pesquisa e conhecimento no Brasil pode retroceder e ter seu acesso ainda mais restrito.
    A primeira grave declaração da semana foi no dia 01 de agosto. O conselho superior da CAPES publicou um ofício assinado pelo seu presidente, Abílio Baeta Neves, ao ministro da Educação alertando que os cortes promovidos pelo governo Temer no orçamento do MEC são graves. Vão levar a suspender bolsas de 93 mil pesquisadores, inviabilizando também milhares de bolsas de iniciação científica e também suspendendo programas de qualificação de professores. Caso tal processo não se reverta, a produção e reprodução de conhecimento no país viraria terra arrasada.
    O professor Abílio Baeta foi nomeado em junho de 2016 por Temer, e os integrantes do conselho superior da CAPES também são gente de confiança política do atual governo. Isso significa que os próprios indicados por Temer estão desesperados e estão alertando sobre a catástrofe que poderá acontecer com a pós-graduação. Não é nenhuma organização de esquerda ou sociedade científica externa ao governo que está fazendo tal denúncia.
    Mas as ameaças que visam destruir as oportunidades de milhares de brasileiros terem o direito de ingressarem na pós-graduação pública e gratuita não param com o alerta do conselho superior da própria CAPES.
    Na noite dessa quinta-feira, 02, o presidenciável Geraldo Alckmin (PSDB), ao ser perguntado na sabatina da Globo News se uma das soluções para o ensino superior seria o fim da gratuidade, respondeu:
    “O primeiro caminho que eu vejo é cobrar a pós-graduação, porque nem a pós-graduação ela é paga. Eu acho que é o primeiro passo que eu daria, seria toda pós-graduação ser cobrada”
    O presidenciável disse que seria o primeiro passo. Isso significa que outros passos seriam dados com o objetivo de acabar com a gratuidade do ensino superior público em nosso país. Um presidenciável preocupado com o fortalecimento da soberania de nosso país não proporia o fim da pós-graduação pública e gratuita. O correto é o fim da Emenda Constitucional 95, que restringe os investimentos em educação por 20 anos. E o eleitor que quiser dar um voto soberano, precisa votar contra todos os partidos que ajudaram a aprovar a PEC do fim do mundo, hoje Emenda Constitucional 95.
    Se formos atentos na análise, as duas declarações têm origem na mesma fonte. O presidente da Capes é indicado por Temer. E Geraldo Alckmin é um tucano, do PSDB, partido que apoiou ferozmente o impeachment e compõe o governo Temer. É possível extrair daí a conclusão que nem PMDB e nem PSDB com os corruptos do “centrão” são alternativas para um país que precisa produzir conhecimento e democratizar o acesso a pesquisa para fortalecer nossa independência e soberania diante das grandes nações imperialistas. Só é possível agregar valor em tudo que uma nação produz se houver investimentos com prioridade na produção de conhecimento. Conhecimento é poder, e se destruir e restringir o acesso a pós-graduação for a política vigente, nosso futuro como colônia está cada vez mais próximo.
  • CAPES anuncia quadro dramático para as universidades em 2019

    Quase 200 mil estudantes de pós-graduação podem perder a bolsa em 2019

    Nesta quarta, 01, a CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) publicou um documento anunciando a possibilidade de um corte nacional profundo nas bolsas de iniciação a docência, programas de cooperação internacional e o possível fim do programa de bolsas de pós graduação no país. Essa possibilidade se confirmará caso o artigo 22 da LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias), que mantém o atual orçamento para a educação de 2019 seja vetado pelo presidente Michel Temer. A previsão da CAPES é que, se isso ocorrer, serão suspensas todas as bolsas para mestrado, doutorado e pós doutorado, e também as bolsas PIBID, prejudicando quase 200 mil estudantes.

    Precarização do ensino e da função social da universidade
    Caso esse prognóstico se confirme, significará uma maior precarização do ensino superior público e também da função social da universidade, acarretando uma redução drástica nas pesquisas e produção de conhecimento que se realiza dentro dessas instituições. Além dos 200 mil estudantes prejudicados com o corte na permanência estudantil, que já vinha sendo uma realidade nas universidades e se aprofunda em grande escala com esse último fato, a sociedade como um todo perderá com o fim das pesquisas. O tripé ensino, pesquisa e extensão, já cambaleando, estacionará, afastando mais ainda a universidade da população como um todo. Além disso, os cortes de verbas, junto com a proposta de nova BNCC (Base Nacional Comum Curricular) apresentada pelo MEC no último período, que retira diversas áreas do conhecimento do currículo obrigatório, prejudicará todos os usuários do sistema de educação básico público. Esses ataques significam o sucateamento da formação de professores que atuarão nessa área, além de aprofundar mais ainda o desemprego, principalmente entre os mais jovens.

    Reflexo da Emenda Constitucional 95, a famosa PEC 241
    Na prática, se o artigo 22 apoiado pela CAPES for sancionado, será uma contradição no próprio governo que aprovou a PEC 241 (hoje EC 95) no ano de 2016, contrariando os milhares de estudantes e profissionais que se manifestaram contra essa medida através de ocupações, manifestos e atos de rua. A PEC do teto de gastos era conhecida como “PEC do fim do mundo”, pois congela os gastos públicos nas áreas sociais como a educação por 20 anos. A atual situação das universidades é reflexo dessa medida impopular do governo Temer, que prejudica não só as universidades mas a educação pública como um todo e outras áreas de necessidade da população como a saúde.

    Os estudantes avisaram, agora é hora de retomar a mobilização
    Os estudantes universitários e secundaristas protagonizaram uma onda de ocupações no ano de 2016 contra a PEC 241. Esse processo de lutas era também um aviso ao governo federal e a população brasileira sobre o que significaria esse projeto de lei: uma profunda precarização dos serviços públicos que prejudica principalmente a juventude e a classe trabalhadora. Já vemos os reflexos disso e com a previsão da CAPES os estudantes universitários, de graduação e pós graduação, especialmente os cotistas, sentirão na pele com mais profundidade a partir de 2019.

    Ainda há tempo de barrar esse ataque
    O governo Temer tem até dia 14 de agosto para decidir os rumos de milhares de vidas que poderão ser afetadas caso o artigo 22 não for sancionado. Temos 12 dias para unificar todos os setores que defendem a educação pública para agir contra esse retrocesso, exigindo a manutenção do artigo 22 e a revogação da Emenda Constitucional 95. Dia 10 de Agosto é dia de mobilização nacional e dia 11 é o Dia do Estudante e o movimento estudantil deverá ser protagonista assumindo nessa agenda a pauta da educação, da produção de conhecimento e da permanência estudantil. É nosso dever chamar a organização dos estudantes, plenárias e assembleias de mobilização e construir a resistência como fizemos em 2016. É sobre o nosso futuro e sobre o futuro da educação pública.

     

    FOTO: Antonio Cruz/Agência Brasil

  • Consolidação do ECA esbarra na falta de políticas de reafirmação dos direitos das crianças e adolescentes

    A garantia do futuro das crianças e adolescentes pede políticas públicas eficazes e um olhar mais sensível ao protagonismo que a Constituição Federal confere a eles

    No dia 13 de julho, o Estatuto da Criança e do Adolescente completou 28 anos. Entretanto, a lei, que deveria assegurar em sua amplitude os direitos deste público alvo, fica apenas no papel. Enquanto isso, a sociedade vê em seu cotidiano, e nem sempre é pelas telas das TVs, crescer significativamente os números de violências contra as crianças.

    Nos últimos anos, os valores do ECA têm colidido com as ações do governo Temer. O próprio congelamento dos gastos públicos por 20 anos, aprovado no ano passado com a EC 95, colabora para aumentar o abismo entre lei e realidade, principalmente, ao prejudicar os investimentos em educação, área que oportuniza o crescimento e o desenvolvimento das potencialidades das crianças. Empurrar na educação uma Base Comum Curricular, que elimina disciplinas estimuladores do convívio social e da sensibilidade do ser humano, também é uma forma de ir contra os preceitos do ECA. O mesmo acontece ao “amordaçar” os professores e tentar impor uma “Escola Sem Partido”, limitando a visão crítica de nossas crianças e a liberdade do ensino. Isso é só uma ponta de uma série de ações e investimentos em áreas cruciais que não aconteceram da forma que tinham que acontecer, bem como de políticas públicas que deixaram de ser feitas.

    Acreditamos que para acabar com estes estragos sociais do atual governo, a EC 95 deve ser revogada. Ao mesmo tempo, defendemos uma educação que respeite a diversidade e que possa, em sua plenitude, debater o gênero e impedir o avanço da violência sexual contra as crianças e adolescentes, que acontecem na maior parte das vezes dentro do próprio lar. Isso só será possível se o PL da “Escola Sem Partido” for definitivamente arquivado. Não podemos retroceder ainda mais no que nos orienta as leis do ECA.

    Enquanto isso não acontece, a omissão do poder público tem consequências nas denúncias de violência e maus tratos que chegam no Disque 100. De acordo com a Ouvidoria do Ministério dos Direitos Humanos, no ano de 2017 tivemos 142.665 denúncias, sendo a violação contra crianças e adolescentes a líder dos relatos. O Atlas da Violência de 2018, por sua vez, aponta que crianças e adolescentes são as principais vítimas de estupro, com 50,9% dos casos registrados em 2016, na sua maioria cometida contra menores de 13 anos de idade. Ele traz ainda que no mesmo ano, a taxa de homicídios de jovens representa 53,7% das vítimas totais no país, na sua maioria homens e negros.

    TRISTE REALIDADE AO VIVO
    Recentemente, dois casos de ataques a crianças e jovens chamou a atenção nos noticiários. Primeiro, a morte de Marcus Vinicius da Silva, durante uma operação policial no Complexo da Maré. No momento em que foi atingido estava uniformizado e seguida para a escola. O segundo caso, não menos cruel, foi a medida do governo Trump, que até junho, havia separado dos pais e colocado em abrigos mais de 2 mil crianças de diversas nacionalidades, 49 destas eram brasileiras. Os pequenos foram parar em jaulas, onde eram reprimidos por policiais. A atitude do presidente americano não só foi cruel e desumana como desrespeitou as leis que regem os direitos humanos no mundo. Precisamos ser firmes com as ações de líderes de estados que se acham acima da legislação mundial em prol da vida.

    Ainda pelo mundo, o ano de 2018 tem seguido o triste destino de 2017, consagrado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) como um dos piores anos para menores em áreas de conflito. Nestas localidades o futuro do mundo é morto, mutilado, alvo de violência sexual ou utilizados como escudos humanos. Em 2018, uma morte infantil ocorre a cada hora na Síria, o que resultou até março em mil mortes. Já na Guerra no Iêmen mais de 5 mil crianças morreram desde que se agravou o conflito civil no país. Estes são só dois exemplos que ferem a juventude no mundo.

    De volta ao Brasil, os números da violência contra o público que deveria ser defendido pelo ECA só fazem crescer. Em abril deste ano, um estudo feito pela organização social Visão Mundial mostrou que o Brasil lidera o ranking, de violência contra crianças entre os 13 países analisados na América Latina. A pesquisa avaliou o abuso físico e psicológico, trabalho infantil, casamento precoce, a ameaça online e a violência sexual contra crianças. Itens estes que deveriam ser combatidos, segundo o ECA.

    Tudo isso é um alerta e precisa ser revisto. É preciso lutar para garantir os direitos expressos não só do ECA, mas àqueles que estão expressos na Constituição Federal e, todos os dias, são desrespeitados. Crianças e adolescentes precisam ocupar o lugar de protagonismo que a CF estabelece, o olhar precisa ser mais sensível a estes, caso contrário, serão mais décadas impedindo o futuro de milhares delas todos os anos. Eliminando sonhos que se quer chegaram a ser concretizados. Isso só se faz com a defesa dos direitos estabelecidos e a resistência a imposições antidemocráticas.

    *Guilhermina Rocha é coordenadora da Secretaria de Formação da Contee e diretora Executiva da Secretaria Geral do Sinpro Macaé e Região (RJ). Artigo publicado originalmente na página do SIMPRO Macaé (RJ).

    FOTO: Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, ouve Bruna Silva, mãe do estudante Marcus Vinícius, morto no Complexo da Maré. foto Valter Campanato/Agencia Brasil

  • Na Bolívia, conflito universitário cresce. Repressão já provocou uma morte

    Longe de ser resolvido com a promulgação de uma lei que concede fundos adicionais para a Universidade de EL Alto (UPEA), agrava-se o conflito entre a universidade e o governo que já dura seis semanas. Outros setores juntaram-se ao protesto universitário por um orçamento maior. No dia 26 de junho, houve uma paralisação de 24 horas de médicos e agentes de saúde convocada pela Faculdade de Medicina de La Paz com cerca de 26 instituições dedicadas ao serviço de saúde, em apoio às mobilizações da UPEA, exigindo também o esclarecimento da morte de um estudante universitário. Um grupo grande de estudantes realizou uma caminhada do interior do país para a capital, La Paz.

    Universidades: falta de recursos
    Conflitos sobre a falta de recursos públicos para serviços básicos como a educação ou a saúde são quase anuais nesta época de políticas neoliberais implementadas por todos os governos da América Latina. Infelizmente, essa situação não é diferente na Bolívia, onde tais políticas que visam a privatização continuam sob o governo de Evo Morales.

    A lei n° 195 emitido pelo governo em 2011, define uma pequena percentagem das arrecadações provenientes das receitas fiscais e hidrocarbonetos estaduais (IDH) para as universidades. No atual conflito, a Universidade Pública de El Alto (UPEA) – cidade historicamente combativa, ao lado de La Paz, com maioria indígena e reduto eleitoral de Evo Morales – reivindica do governo um maior orçamento e exige a modificação da lei que lhe atribuía apenas 0,355% do IDH regional.

    “O aumento da população estudantil nos últimos anos passando de pelo menos 21.000 alunos, em 2011, para 47.000, em 2017, gerou necessidades econômicas mais elevadas, por isso pedimos que o orçamento seja aumentado para 1,4% e seja atribuído anualmente 530 milhões de bolivianos para a UPEA”, disse o reitor da universidade.

    

Um conflito que já dura seis semanas: morte do estudante Jonathan

    Os estudantes iniciaram uma primeira marcha no dia 16 de maio, logo seguida por outras em 21 e 22 de maio, com bloqueios de estradas. O conflito agravou-se em 24 de maio com a morte de um estudante, Jonathan Quispe, pelas forças policiais durante a manifestação. A princípio, o governo tentou responsabilizar os estudantes pela morte do jovem. Mais tarde um tenente da Polícia Boliviana foi apresentado como o autor da morte. Uma investigação está aberta. Como resposta, as instituições de El Alto convocaram uma greve de 48 horas para os dias 04 e 05 de junho.

    Assim, por semanas, sem vontade real do governo para atender as demandas, os estudantes radicalizaram seus protestos com mobilizações combativas no centro da cidade de La Paz, bloqueios de estrada, e até mesmo vários piquetes com greve de fome. Eles organizaram uma Comissão de Mobilização permanente.

    Finalmente, na negociação, o governo ofereceu um apoio financeiro de 10 milhões de dólares para fechar a gestão deste ano. A proposta foi rejeitada como insuficiente pela universidade.

    Tentando forçar uma solução, em 25 de junho, o governo anunciou a promulgação da Lei n°1072 que autoriza a alocação de recursos adicionais para 70 milhões de bolivianos (US$ 10 milhões) em favor da UPEA para a gestão 2018. O reitor da Universidade respondeu: “Não foi aceito, porque não tem nada de sustentável neste momento (…), que mal cobriria metade dos requisitos urgentes da UPEA que de fato, requer 156 milhões (…) Portanto, autoridades e estudantes da UPEA declararam uma greve de fome “, agravando o conflito.

    

Radicalização e medidas extremas

    Alguns participantes da greve de fome instalada na Assembleia de Direitos Humanos, entre os quais um homem de 54 anos, uma professora e uma aluna, decidiram isolar-se em uma sala vedada por tijolos nas portas e janelas, uma medida extrema de pressão para uma solução rápida ao conflito. Para chamar a atenção, outro professor, conhecido dirigente do movimento indígena, Felipe Quispe (o Mallku), tomou a decisão de se crucificar em praça pública.

    Do comitê de mobilizações da Universidade de El Alto, foi anunciada a radicalização das medidas de pressão, com marchas diárias na cidade de La Paz, o aumento de ativistas em greve de fome. Além disso, um grupo grande de estudantes realizou uma caminhada da cidade de Patacamaya para a cidade de La Paz (100 km). A marcha foi encabeçada pelo Reitor da UPEA chegando à Capital nesta quinta-feira 28.

    Apoio do setor da saúde e outros
    Não é de surpreender que o setor da saúde apóie o conflito. O sistema público de saúde está em grave crise estrutural, devido à falta de orçamento para infraestrutura, medicamentos, contratação de pessoal, reparar falhas de equipamentos. Além disso, há casos de corrupção, cobranças irregulares e tráfico de pacientes. Desde o ano passado os conflitos do setor com o governo vêm se desenvolvendo. Por exemplo, foram suspensos, por seis meses, os serviços de radioterapia do Hospital das Clínicas, em La Paz para atendimento de pacientes com câncer, por alegações de corrupção dentro dos serviços públicos. Além do mais os médicos estão posicionados contra a criação de uma nova federação paralela ao Colégio Médico e de uma nova instância de controle, que poderá processar médicos por más práticas, etc.

    No setor universitário, o problema não se limita à El Alto, a Universidade de La Paz (UMSA) se envolveu nos protestos. As autoridades, preocupadas com uma possível extensão do conflito, anunciam um cronograma de visitas às universidades do sistema público para garantir que elas completem a gestão.

    Os estudantes universitários da UPEA contam com o apoio de diversos setores da população de El Alto, como as associações de bairro, a Central Operária Regional, os sindicatos de comerciantes, o comité cívico COMCIPO, organizações dos povos indígenas (CONAMAQ), etc.

    Descontentamento social cresce, o governo não pode parar a bola 

    Enquanto Evo fez uma visita oficial à Rússia para participar da Copa do Mundo, distanciando-se da luta da universidade, pôde-se perceber o crescente descontentamento de vários setores contra o governo central e sua gestão política do desperdício de fundos públicos em vez de garantir orçamentos suficientes para os serviços de educação e saúde. Três exemplos:

    1) Em breve será inaugurado o novo palácio do governo, um moderno prédio de 29 andares, com 120 metros de altura (no centro histórico da Capital) chamado “Casa Grande del Pueblo” que custou cerca de 40 milhões de dólares, desperdiçados em luxos e confortos;

    2) Desde 2015, através da Lei 767, o governo nacional fornece 12% dos recursos do IDH (Imposto Direto sobre Hidrocarbonetos) como um “incentivo” para a criação de um fundo para financiar a exploração transnacional de petróleo;

    3) Neste mês de junho, o governo pagou US $ 42,6 milhões para a empresa chilena Quiborax depois de perder o julgamento internacional ante o CIADI (Organismo Internacional de Resolução de Conflitos entre Multinacionais e Estados). O Estado boliviano, apesar de ter dito que saiu do CIADI, não saiu e submeteu-se ao julgamento e perdeu.
Além desses exemplos, existem numerosos casos de corrupção, reclamações e escândalos envolvendo funcionários do governo ou órgãos estatais, como uma das principais pragas destes anos de gestão do governo do MAS. Infelizmente, na maioria das vezes, eles ficam impunes

    A única resposta do governo aos conflitos crescentes é o aumento da repressão.

    Desde o início dos governos de Evo (no terceiro mandato), quase 80 pessoas foram mortas pelas forças policiais, em diferentes enfrentamentos.

    Unidade nas lutas e recuperação da autonomia política

    O conflito universitário demonstra que ainda existe capacidade efetiva de mobilização social com força na juventude e resistência nas bases do processo, principalmente em questões que tocam a defesa do meio ambiente ou exigências básicas como educação e saúde. Mas ainda está espalhada e pouco articulada.

    Em 12 anos de governo, o Movimento ao Socialismo (MAS) conseguiu desmantelar completamente os movimentos sociais que o ajudaram a chegar ao poder, para reinar de forma hegemônica. Como foi possível chegar a este ponto? Vários fatores podem ser apontados.

    Em primeiro lugar, Evo se apresentou como o verdadeiro representante de todos os movimentos sociais que o apoiaram, o único capaz de realizar um “processo de mudança” real que ele descreveu como popular e indígena. E exigiu deles, lealdade ao processo.

    Em segundo lugar, através de uma propaganda difundida e nojenta, o governo justifica qualquer política – mesmo a mais entreguista -, como sendo parte deste projeto de mudança. Qualquer crítica é caracterizada como ataque da direita imperialista.

    Em terceiro lugar, ele promoveu uma política de desmantelamento, comprando através da corrupção, dividindo ou destruindo as organizações sociais e sindicais mais rebeldes, as mais autônomas (incluindo indígenas) ou qualquer força social que poderia se pronunciar contra o seu projeto político. Há, portanto, uma consolidada subordinação estrutural das organizações sociais ao partido no poder, com a consequente perda de capacidade de organização autônoma.

    Quarto, reprime com força policial ou militar, tentando eliminar com brutalidade toda crítica ou dissidência.

    Quinto, o aprofundamento do modelo econômico primário exportador, com perda de soberania sobre os recursos naturais e o consequente aumento da dívida externa.

    Esse conjunto de fatores dificulta a articulação as lutas ou mesmo construí-las em contraponto ao governo e às novas elites burguesas. É necessário que os movimentos sociais consigam ultrapassar o tradicional discurso da oposição burguesa que só gira em torno da defesa da democracia formal, para construir um novo e próprio discurso independente, com base na demanda de total atenção às suas necessidades básicas que até hoje permanecem não atendidas. Esta é a luta para agora: a combativa juventude de El Alto mostra este caminho.

  • O que aprendi perdendo para a direita?

    Nessa última semana assisti, pela segunda vez, uma posse da Aliança Pela Liberdade à diretoria do DCE da Universidade de Brasília (UnB). Esse é um grupo de direita que atua entre a estudantada daqui há nove anos. Imediatamente me veio à cabeça, como um martelo contra uma parede lisa, uma frase do Marx, escrita junto da sua célebre análise sobre o processo que levou da revolução de 1848 para o golpe de Estado em 1852 na França: “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”.

    Minha relação com o Movimento Estudantil vem desde secundarista. Nessa trajetória tive o prazer de conhecer boa parte das universidades públicas brasileiras, muitas escolas ocupadas por secundaristas em 2016, e um pouquinho do grandioso ME chileno, ao acompanhar uma das eleições da FECH (Federación de Estudiantes de la Universidad de Chile). O protagonismo estudantil serviu em muitos momentos como reforço, outros como estopim para transformações sociais, conquista de liberdades democráticas, direitos sociais ou para a defesa da soberania nacional.

    Sempre com isso em mente, diante da eleição de DCE no momento político do país, a situação econômica da UnB e a ameaça de perder a entidade para a direita me fizeram, mesmo não atuando mais no dia a dia desse movimento, estar em mais uma eleição. Perdemos. E como em toda derrota, o sabor do resultado é amargo. Nesse caso, como não é a primeira vez, o paladar não foi pego desprevenido. É como diz o ditado popular português: “é errando que se aprende”. A contar pela quantidade de erros, os aprendizados vão se acumulando. Uma das primeiras e mais importantes lições é que nenhuma organização ou indivíduo se bastam sozinhos.

    Com esse espírito, compartilho minhas conclusões e reflexões para que aprendamos e reflitamos juntos sobre os erros e os futuros acertos. Algumas linhas terão duras críticas. Não faço divergências por entrelinhas, com sujeito oculto. Como garantirei o direito de resposta daqueles que por mim forem criticados? Penso que não citar é uma forma de se esconder. Prefiro ser sincero e nomear aqueles de quem discordo, assim, estar de peito aberto para a crítica. Acho assim mais respeitoso. Mas bem, todas as linhas abaixo estão postas em debate. Vamos?

    Qual a saída para a UnB?
    Desde o golpe no Brasil se forjou entre os estudantes parte do que há de mais corajoso para enfrentar os retrocessos. A onda de ocupações de escolas e universidades em 2016 foi um exemplo disso. Mesmo assim, apesar de toda a garra, a nossa luta não foi o bastante para impedir a aprovação da hoje Emenda Constitucional 95, aquela que congelou os gastos sociais por 20 anos.

    Aqui na UnB, mais uma vez, os estudantes se levantaram e decretaram greve em uma assembleia com cerca de 1.400 presentes. Contudo, também ignorando toda luta, a realidade avançou com toda a sua dureza. Diante do contingenciamento, a reitoria (eleita com votos de esperança e da esquerda) já demitiu mais de 500 terceirizados, em sua grande maioria mulheres negras e periféricas. Ao mesmo tempo ataca a organização sindical e prepara um aumento no preço do Restaurante Universitário. Nossa saúde mental está abalada. Crescem as depressões, transtornos de ansiedade, a violência e o suicídio. Estamos atravessando uma névoa de desesperança. Nossa geração, que há pouco sonhava e quase sentia um futuro de vitórias e ascensão social, hoje se vê perdida. Pelos corredores e “pracinhas” são incontáveis os produtos que começaram a ser vendidos. O que é que a UnB tem? Tem cuscuz quentinho, tem. Tem a melhor coxinha do mundo, tem. Tem brownie delícia, tem. Tem roupa de tecidos africanos, tem. Tem de tudo. Contudo, o que se “esconde” por detrás de toda essa diversidade de delícias é a crise na qual o gigante do hemisfério sul fora lançado.

    A derrota da greve estudantil, que se demonstrou incapaz de animar a estudantada e cativar apoio entre o povo, evidenciou aquilo que penso ser a essência da nossa derrota no DCE: os estudantes estão sem direção política. Basta relembrar o percurso das lutas. Começamos com uma vitoriosa paralisação seguida de um grande ato em frente ao MEC. A intransigência do governo e da reitoria, a falta de apoio na sociedade, ações isoladas no movimento somaram-se com a falta de uma direção política à esquerda. Como resultado, a greve terminou dividindo a resistência que estava sendo construída.

    É a hora de sermos radicais, o que é diferente de ver a ação como um fim em si. Ser radical é ir à raiz dos problemas. Estamos atravessando uma situação política defensiva para o povo trabalhador enquanto os donos do poder avançam sobre nossos direitos, liberdades democráticas e a pouca soberania do nosso país. A indignação e pressa são explicadas pela virulência dos ataques, mas nossas ações isoladas não são o bastante para derrotar nossos inimigos. É preciso aprender com nossas experiências. É hora de disputar as maiorias, precisamos ir à “massa” dos estudantes e buscar o apoio do povo. Ele virá!

    Sobre os três porquês da derrota

    Chapa vencedora. Foto divulgação

    Chapa vencedora. Foto divulgação

    Logo em seguida de ser tornado público o resultado das eleições desenvolveu-se um debate entre três teses sobre o porquê da vitória da direita.

    A primeira tese se centrava na ideia de que a chave da questão estava na divisão da esquerda. É sabido que dois grupos de esquerda não compuseram a chapa unitária, o Juntos! e a UJC, essa última lançou uma chapa própria.

    A segunda tese veio de ativistas da greve. Ainda no processo eleitoral lançaram a campanha pelo voto nulo e pela abstenção. Esses disseram que o equívoco que explica o retorno da direita ao DCE se deu quando os “grupos políticos” decidiram fazer a consulta mesmo a universidade estando em greve. Para esses, as organizações de esquerda abandonaram a luta direta para fazer eleição.

    Por fim, também foi apresentada outra tese, em diálogo com a anterior, de que a razão é subjetiva, e deriva da má gestão da Todas as Vozes na condução do DCE no último período. E que a divisão da esquerda seria indiferente para o resultado. Para esses, o centro da disputa política não estava em torno das tarefas para a atual situação da UnB, mas no balanço da gestão passada.

    Em minha opinião as três teses são meias verdades. É evidente que a gestão passada do DCE foi insuficiente diante dos enormes desafios que foram apresentados. Arrisco dizer que o principal problema foi a ausência de disputa política permanente do conjunto dos estudantes da universidade. A isso se soma também o desafio cotidiano, aumentado pela pouca experiência dos integrantes da gestão, de trabalhar em unidade com mais de 10 coletivos de opiniões e tradições muito diversas. A ver pelas próprias lutas, essa gestão expressou boa parte das dificuldades coletivas de todo o ativismo da universidade.

    De fundo, divirjo da UJC, pois acredito que ver como indiferente a divisão da esquerda é parte da incompreensão sobre quais as tarefas políticas para o momento; a escolha em negar a unidade é expressão de um desprezo pelos fatores objetivos da realidade. Há uma situação defensiva de ataques inédita para a nossa geração. Houve dois grandes debates políticos nessa eleição. O primeiro sobre o caráter público e gratuito versus possibilidades de privatização. O segundo a partir da propaganda anti-movimento feita pela direita, atacando a greve, a ação direta, a democracia e legitimidade das assembleias; diante desse cenário, centrar as críticas à esquerda, como fez a chapa impulsionada pela UJC, se mostrou um erro político. É evidente, não por uma conta matemática, mas pelos cálculos políticos, que uma chapa unificada seria favorita ao DCE. Diante disso, uma política abstencionista adotada pelo Juntos! se mostrou igualmente irresponsável, pois mesmo tendo a leitura de que a direita deveria ganhar o DCE no cenário de uma divisão na esquerda, escolheu proferir um grande: “não é comigo”.

    Já os ativistas ao deslegitimarem o processo e defenderem a abstenção ou o voto nulo partiram de suas compreensões sobre as razões da derrota da greve. No começo da luta, contrariando toda a situação política, abriu-se uma janela de oportunidades por onde se tornou possível passar um movimento de resistência forte, com apoio de “massas” na universidade e com real capacidade de fazer frente aos ataques. Contudo, essa possibilidade sempre esteve ameaçada pela ausência de uma opinião comum do sentido político que o movimento deveria seguir. As ações “radicalizadas” foram enfraquecidas na medida em que não se alimentaram de apoio junto aos estudantes. Reinou a dispersão, a ausência de informações comuns e assim a frágil possibilidade de ascenso naufragou. Quando houve a oportunidade de conduzir o movimento para outra tática, na assembleia em seguida à aprovação da greve, a dispersão política se vestiu de grande confusão. Os coletivos de esquerda acordaram uma proposta de seguir o movimento por outra via que buscasse mais apoio e fortalecimento. Já era tarde. Os ativistas, mergulhados em desconfiança frente à uma direção não provada e frágil, recusou com veemência a nova orientação. Uma política de se abster de qualquer responsabilidade frente à luta e de inflar a desconfiança do ativismo com as organizações não só impediu a unidade nas eleições, como também dividiu o movimento. E assim deu-se a derrota, acredito que essa localização escolhida pela UJC está na raiz da negação da unidade.

    Defender voto nulo, chamar à abstenção, ignorar a volta da direita e suas consequências foram apenas manifestações da inércia de confusões sobre as tarefas políticas e a divisão do movimento. Acusar o ME de seguir seu calendário em uma universidade funcionando na imensa maioria dos cursos não fazia qualquer sentido.

    Por fim, digo que considero também equivocada a tese de que perdemos exclusivamente por causa da divisão da esquerda. Esse seria o caminho fácil em ver os erros apenas nos outros, quando devemos especialmente olhar para nós mesmos, pois somos quem podemos mudar. Acredito que uma chapa unitária poderia ter sido vitoriosa, nunca saberemos. Mas não mudaria o fato de que a frente única da esquerda conformada na chapa não dirige os estudantes e não dirigiu a última luta.

    Quem ganha e quem perde com a unidade?
    Agora não falo de eleição. Uma das grandes vantagens da classe trabalhadora frente à burguesia é numérica. Somos muito maiores. Contudo, desarticulados e sem consciência coletiva não vamos muito longe. Hoje vemos inúmeros exemplos disso. A unidade não é uma invenção moderna. É uma tática instintiva presente ao longo de toda a história da humanidade ou de outros animais. Assim as leoas caçam e assim os atuns se protegem nas águas geladas.

    Reivindico a tradição trotskista. Durante a década de 1930, o nazifascismo avançava na Europa. Diante desta situação, Leon Trotsky declarou: “na luta contra o fascismo, estamos prontos para fazer acordos práticos de luta com o diabo e sua avó”. Esta declaração era a materialização de uma tática que originalmente foi pensada no quarto congresso da III Internacional Comunista: um chamado para que as organizações da classe trabalhadora (independente de suas diferenças estratégicas) se unissem em torno de um programa (parcial, mas um programa) comum, em base a tarefas específicas. No caso, o programa comum eram todas as tarefas concretas exigidas para a derrota do nazismo e de seus planos econômicos e políticos. E este programa poderia ser levado adiante com todas as organizações dos trabalhadores que assim quisessem, por mais traidoras e/ou burocráticas que fossem.

    Na atual situação do Brasil, acredito haver duas grandes tarefas. A frente única das organizações da classe trabalhadora e a construção de uma alternativa política para a nossa classe, frente ao fracasso da estratégia de conciliação de classes, que foi a marca dos governos do PT. E por esse último motivo meus pré-candidatos são Guilherme Boulos e a Sônia Guajajara.

    Traduzindo isso para a situação da UnB, fazendo todas as mediações necessárias, penso que a unidade da esquerda também está colocada para a nossa realidade. O governo golpista tem projeto de destruição das universidades tal qual a conhecemos, pública e na maior parte gratuita. A direita tem atuação consolidada e cresceu no último período.

    No caso da última eleição, pela realidade concreta da UnB, foi correto levar a Frente única para a eleição. Por esse motivo a minha corrente interna no PSOL, a Resistência, compôs a chapa unitária, assim como a Insurgência e a Brigadas Populares, ambas também do PSOL. Penso que daqui pra frente, independente das táticas adotadas durante as eleições, as organizações de esquerda devem se unificar sob o risco de entrarem em dispersão. Considero essa a maior ameaça hoje. Eu vi um “filme” muito parecido com esse acontecer. Após a primeira vitória da AL em 2011, a esquerda, já dividida, entrou em profunda crise. Uma vez como tragédia, outra como farsa. Em 2012 construímos uma grande greve nacional da educação federal, isso possibilitou a recomposição de alguns coletivos de esquerda na universidade. Mas, mesmo assim, não conseguimos derrotar a Aliança na eleição seguinte, e na seguinte; até o ano passado, quando conseguimos impulsionados pelas ocupações de 2016. Ou seja, conforme a situação atual, não podemos esperar anos até uma nova geração surgir para retomarmos o DCE. Devemos aprender como nossos erros, especialmente os dos que vieram antes de nós. E devemos fazer isso rápido.

    E penso que o programa de tal unidade parte de:
    1. Defender financiamento público para a universidade não fechar. Lutar pela revogação da E.C 95 nos marcos do projeto neoliberal do Banco Mundial e do FMI para a educação brasileira.
    2. Defender a autonomia universitária para que se tenha a liberdade de cátedra;
    3. Combater as medidas da reitoria de ataque aos direitos trabalhistas, emprego e conquistas estudantis com independência política frente à reitoria e aos governos;
    4. Defender as liberdades democráticas dentro e fora da universidade;
    5. Por um plano emergencial de saúde mental para combater o sofrimento psíquico na UnB e por fim;
    6. O DCE é pra lutar! Defendemos o real papel de mobilização do diretório submetido aos seus fóruns democráticos (CEBs, Assembleias e Congresso Estudantil).

    Errar é um direito. É das derrotas que arrancamos nossas mais vigorosas forças. Não temos tempo a perder. É preciso olhar o futuro com coragem. Panfletagem com corpo a corpo; passagens em sala; atividades políticas de discussão e convencimento; elaboração política comum. Esses são alguns dos ensinamentos da campanha que devem se manter no dia a dia da ação da esquerda na UnB. É preciso unidade para resistir, essa é a bandeira da esperança e da ousadia necessária e urgente para lutar e vencer!

     

    *Lucas Brito é membro da Coordenação Nacional da Resistência, corrente interna do PSOL; do Diretório Distrital do PSOL DF e estudante de mestrado no Programa de Política Social da UnB.

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  • Acampamento de Jovens Anticapitalistas, organizado pelo Afronte!, aprova carta à juventude brasileira

    Entre os dias 01 a 03 de junho aconteceu na Universidade Federal Fluminense, em Niterói – RJ, o Acampamento Nacional de Jovens Anticapitalistas: Resistir Sem Medo. Primeiro acampamento nacional organizado pelo Afronte!. Foram três dias de intensos debates políticos sobre conjuntura, anticapitalismo, opressões, trabalho de base, além de contar com uma grande Roda Vida com o pré-candidato a Presidência pelo PSOL, Guilherme Boulos. Ao final do encontro, os cerca de 400 jovens  presentes aprovaram a “Carta de Niterói”, sintetizando as principais tarefas políticas para a juventude na atual conjuntura. Confira:

    CARTA DE NITERÓI

    Desde a fundação do nosso movimento, cantamos em muitas atividades o grito “Afronte! É guerra!”. Após 3 dias de Acampamento Nacional de Jovens Anticapitalistas, entendemos mais profundamente o que isso significa. Convivemos e compartilhamos ideias, rimas, debates, resistências, risadas, dificuldades, aprendizados e solidariedade, que nos fortaleceram para organizar a batalha.

    Apontaremos nossas armas contra aqueles que querem vender o nosso país, oprimir nossos irmãos e irmãs, destruir a educação e os serviços públicos, privatizar a Petrobrás, exterminar a esperança que tem rosto de mulher, negra, bissexual e favelada. Estamos contra os donos do poder que ditam os mandamentos do lucro acima da vida. Somos anticapitalistas. Somos 99% contra o 1%. Não descansaremos até a destruição de toda a exploração, opressão e exclusão que vive nosso povo, através da luta radical pela transformação do futuro.

    O mundo capitalista vive uma das maiores crises de sua história e querem que a juventude e os trabalhadores paguem por ela. O desgoverno de Michel Temer abre portas para o retrocesso, aplicando um projeto político e econômico ditado pelo imperialismo. Quem ganha são os bancos, o agronegócio, os tubarões do ensino, e quem perde são as universidades e hospitais públicos, a periferia, os indígenas, as LGBTs, as mulheres e o povo negro.

    Junto com os retrocessos, o golpe fortaleceu uma nova direita em nosso país. Cinquenta anos depois do AI-5 e da morte do Edson Luís, há quem se sinta a vontade para defender a volta da ditadura. Vimos milhares irem às ruas organizados pela FIESP e novos movimentos de direita. Sob o pretexto do combate à corrupção, disputam uma saída reacionária para crise disseminando preconceito e ódio nas ruas e redes. Fazem isso através de seus representantes, como os “heróis da pátria” Moro e Bolsonaro, ou agrupamentos como o MBL. Dizem representar uma nova política, porém suas ideias retrocedem o país aos tempos da Casa Grande.

    Sem medo, a nossa juventude não foge da luta. Nosso movimento foi forjado nas ocupações de escolas e universidades no final de 2016, que enfrentaram a PEC do Fim do Mundo. Estivemos presentes na histórica Greve Geral de 28 de abril de 2017. Acreditamos na força da unidade das lutas da juventude e dos trabalhadores para combatermos todos os retrocessos e enfrentar a extrema direita. Construímos a Frente Povo Sem Medo, organizamos o movimento estudantil a partir de novas práticas, participamos de cursinhos populares e grupos de periferia que tem a arte como ferramenta de luta, nos auto-organizamos como mulheres, negras e negros e LGBTs para combater a opressão.

    Agora, estamos diante de um novo desafio, que é construir de norte a sul do país, em cada bairro, escola, universidade, a campanha de Guilherme Boulos e Sônia Guajajara. Só iremos transformar o Brasil aliando nossas ideias com a luta direta, como fazem os movimentos sem teto e indígena. Sem fazer aliança com partidos da direita e representantes do capital, a Frente Politica e Social entre MTST, PSOL, PCB e APIB representam uma alternativa política com um programa de enfrentamento às ideias reacionárias e supera a ilusão de que é possível “governar para todos”. Esta campanha, portanto, vai além da votação de outubro; serve pra renovar a esperança em nossas próprias forças.

    Com satisfação, voltamos para nossas cidades com muita disposição de organizar a luta e construir nosso movimento. São inúmeros os desafios. Não deixaremos que privatizem as universidades públicas e acabem com a assistência estudantil. Queremos ampliação da política de cotas e medidas de combate às fraudes. Nos somaremos à construção das Marchas da Maconha e à luta antiproibicionista. Afrontaremos, todos os dias, o machismo, o racismo e a LGBTfobia. Lutaremos ombro a ombro com o movimento dos sem teto, sem terra, do sindicalismo independente. Estaremos nas periferias construindo política através da arte e cultura de resistência. Vamos Sem Medo multiplicar os Grupos de Ação da campanha de Boulos e Sônia. Resistiremos a todas as medidas do governo golpista de Temer, como a Reforma Trabalhista, da Previdência e a tentativa de privatizar as estatais. Seguiremos afrontando todo o conservadorismo e retrocesso em nosso país! Este é o nosso compromisso. Paz entre nós, guerra aos senhores!

    03 de Junho de 2018

     

    SAIBA MAIS

    Acampamento reúne centenas de jovens anticapitalistas em Niterói (RJ)

  • Carta da juventude para conselheiros e conselheiras universitárias da UFMG

    Nesta terça-feira (5), o Conselho Universitário da UFMG irá decidir sobre o Processo Administrativo Disciplinar, qual responde uma ativista do Afronte, Iza Lourença, por ter sido Coordenadora Geral do Diretório Central dos Estudantes (DCE) quando a entidade realizou uma Pré Virada Cultural.

    Centros Acadêmicos (CAs), Diretórios Acadêmicos (DAs), o DCE e diversos estudantes farão um Sarau no saguão da Reitoria para sensibilizar os e as Conselheiras para o direito de a Juventude (RE)existir na universidade. Vejam a carta:

    Vejam a carta:

    Da juventude para os Conselheiros e as Conselheiras Universitárias

    A Juventude vive tempos de desesperança. A crise que o Brasil enfrenta não é apenas política e econômica, mas também existencial. Nós, jovens universitários, que apenas começamos a enfrentar a vida adulta, já nos deparamos com as dificuldades de entrarmos e estarmos em um curso superior. As carências da assistência estudantil, as aulas tradicionais e repetitivas, a pressão pelo desempenho de excelência e como se não bastasse, todo esforço parece ser em vão quando pesquisas recentes apontam que mais de 50% dos jovens formados em um curso superior não conseguem se empregar na área que se esforçaram tanto para especializar. Para agravar esse cenário, poucos são os lugares e espaços de convivência entre, não só os alunos, mas os membros de toda a comunidade acadêmica. Num contexto de crise, a falta de solidariedade, de compreensão, de escuta, convivência e tudo isso que resulta da comunhão, são potencializadores de um adoecimento coletivo.

    Não é coincidência que nos últimos dois anos tenhamos assistido o aumento do número de suicídios dentro da UFMG (três deles somente neste semestre), de adoecimento de alunos, trancamento e desistência do sonho da graduação. Felizmente, os alunos não permaneceram inertes a essa triste realidade e se organizaram para pautar e intervir nesse problema tão delicado.

    Nesse sentido, a UFMG, diante de sua história e relevância, não pode ser protagonista de uma perseguição política, como no Processo Administrativo Disciplinar 23072.023731/2016-51. Apesar de em tese, a abertura de um processo não ser uma decisão definitiva, os próprios procedimentos e atos jurídicos causam enorme constrangimento, aflição e ansiedade. Não saber o que poderá ser feito com o seu destino, apesar da certeza de correição, é um transtorno objetivo e subjetivo indescritível. Apenas quem já viveu uma injustiça sabe como ela é pungente. Os próprios Reitores desta Universidade, ao serem conduzidos coercitivamente para depoimento, sem necessidade alguma para tal, foram vítimas de um procedimento que embora não fosse definitivo, provocou a indignação ante a injustiça. Infelizmente, o papel do processo de constranger, ameaçar e coagir vem ganhando cada vez mais relevância.

    O processo em questão nunca teve base jurídica para prosperar. Responsabilizou-se ao final, apenas dois alunos, de uma organização (DCE) composta de dezenas de alunos. Para tanto, utilizou-se de uma noção de hierarquia pressuposta sem nenhum fundamento de que Izabella Lourença e demais membros da Coordenação Geral seriam responsáveis pelo DCE. Contudo, a então gestão sempre se disse horizontal, e todos os seus membros eram solidariamente responsáveis pela entidade, não havendo registro formalizado em cartório do contrário. Mesmo assim, o processo seguiu contra apenas dois alunos e a prova de sua participação nos fatos geradores do processo sequer foram provados.

    Caríssimos membros deste Conselho, sem adentrarmos no méritos deste processo, percebemos que este sofrimento não precisava ter se arrastado por tanto tempo. A questão poderia ter sido sanada com diálogo e negociações entre ambas as Instituições envolvidas: DCE e Reitoria. Condensar a responsabilidade do ocorrido em cima do ombro de dois alunos, é, ainda que culposamente, irresponsável, especialmente num contexto em que a saúde mental ganha tanto destaque dentro e fora da UFMG.

    Izabella é uma das jovens negras que apesar de viver num contexto de profunda desesperança, nunca deixou de acreditar que a atuação coletiva dos estudantes pudesse mudar esse horizonte cinzento. Durante toda a sua graduação lutou para que a esperança de um futuro mais justo pudesse se sobrepor ao medo frente às incertezas de nosso tempo. Por isso decidiu construir em conjunto com demais estudantes um Diretório Acadêmico Estudantil que respondesse às demandas de seu tempo, e nenhum estudante deveria se sentir receoso de atuar em tais entidades pela possibilidade de enfrentar processos e conviver com a ameaça do jubilamento.

    Por tudo isso, temos absoluta certeza de que este Conselho irá honrar trajetória democrática da UFMG e tomar a decisão justa sobre o processo, e irá dar mais um passo na busca de uma Universidade livre e igual que não pode deixar de estimular a atuação política e zelar pela saúde mental de toda a sua comunidade.

  • Boulos à juventude: “Nossa campanha vai ser a campanha do movimento, do ativismo”

    No acampamento do Afronte, pré-candidato fala de muros, psicanálise e palpita sobre a Copa

    Guilherme Boulos, coordenador nacional do MTST e pré-candidato a Presidência da República, participou na manhã deste sábado (02) de uma sabatina no Acampamento Nacional de Jovens Anticapitalistas, em Niterói (RJ). Ele apresentou os objetivos da sua pré-candidatura e de Sonia Guajajara, falou sobre política e economia, mas a temática foi muito além, tratando de temas como opressões, psicánalise, meio ambiente, transporte e integração latino-americana, em um formato semelhante ao programa de entrevistas de TV. Ao final, na despedida, Boulos agradeceu pelo excelente debate e brincou: “As perguntas desse Roda Viva do Afronte foram muito mais interessantes do que as do roda viva da TV”.

    Boulos falou sobre psicánalise, atividade que exerce junto com a militância e as aulas. Citou o período que esteve na Argentina, em 2001, logo após o Argentinazo. Lá ele conviveu com os movimentos de bairro, com os grupos piqueteiros, que haviam liderado a revolta que derrubou três presidentes do País em poucas semanas. “Eu conheci um projeto muito interessante, de um coletivo de psicanalistas que atendia militantes em uma região na cidade, onde havia acontecido um massacre, com duas mortes. Era um trauma, e esse grupo atendia e cuidava destes militantes”, recorda.

    “As pessoas não se movem apenas pelas ideias, pela racionalidade. Têm sentimentos, um monte de coisas”. Ele anunciou que a campanha também irá tratar de temas como depressão e suicídio, que são temas coletivos, relacionados à falta de perspectivas. “É preciso acolher as pessoas. Isso é algo que as igrejas evangélicas fazem muito bem. E nós, da esquerda, temos que deixar de olhar com preconceito”, refletiu.

    Ele falou sobre a necessidade da campanha “atravessar os muros”. “Precisamos parar de falar para nós mesmos. Temos que falar com o eleitor da periferia que está dizendo que vai votar no Bolsonaro. A fórmula de chamar essa pessoa de fascista, não passará, não resolve. Fascista é o Bolsonaro. Essas pessoas estão sem perspectivas, sem esperanças, e em parte porque a esquerda não foi capaz de apresentar saídas, um programa.”

    VÍDEO: Assista a entrevista completa no facebook do Esquerda Online

    Falou ainda sobre política externa, criticando a presença no Haiti e fez questão de se diferenciar dos governos petistas. “Nossa política de integração não pode ser pensada apenas como integração econômica, discutir pauta de exportação… Temos que pensar além. Precisa ser pensada como uma integração entre os povos, cultural, política e solidária. Temos que reverter a política entreguista de Temer, mas o Brasil não pode usar a sua liderança para aspirar a um papel de subimperialismo”, afirmou.

    Guilherme aproveitou uma pergunta sobre meio ambiente para debater o modelo de desenvolvimento do País. “O período de mais crescimento foi o milagre econômico na ditadura. Mas foi quando mais se concentrou renda, de mais destruição das populações… Precisamos de um modelo de desenvolvimento que respeite indígenas, quilombolas e as populações tradicionais. Não pode ter uma grande obra que os afete, sem diálogo, sem acordos.”

    Ele citou a importância de ter Sonia Guajajara, da APIB, como companheira, pela primeira vez uma mulher indígena na chapa, e criticou a destruição da Amazônia, os alimentos transgëncios e o agronegócio. “Ao contrário do que diz o agropop, esse modelo não é bom para o país. Setenta porcento dos alimentos vem da agricultura familiar. Precisamos da reforma agrária”.

    “É evidente que a gente quer a melhoria do pais. Mas não queremos um modelo de desenvolvimento a qualquer custo, que sirva apenas ao mercado” E prosseguiu, criticando, sem citar, o programa da candidatura Ciro Gomes (PDT). “Nosso modelo é um contraponto a visões desenvolvimentistas que falam em gerar emprego, mas que a fórmula é a mesma da ditadura militar”.

    Ele convocou a juventude a discutir o projeto e falou da importância da candidatura do PSOL, PCB, MTST e APIB. “A diferença começa no nosso jeito de fazer campanha. Nossa campanha vai ser a campanha do movimento, a campanha do ativismo. Nós vamos ter que reencantar as pessoas, discutir pautas, discutir um projeto que não vai terminar em outubro deste ano, que não tem data de validade. Queremos um projeto para a próxima geração. Queremos disputar essa eleição, ocupar cada espaço, mas não queremos apenas isso. Mesmo que a gente vença, a gente não governaremos sem os trabalhadores organizados, sem lastro. Nossa responsabilidade é plantar uma semente enorme, que vai colher frutos nesta eleição e sobretudo na reorganização de um projeto de esquerda do Brasil.”

    Ao final, Guilherme ainda foi surpreendido por um pingue-pongue, com dez perguntas, que respondeu rapidamente, demorando um pouco mais apenas para responder sobre um acontecimento que marcou a sua vida (Pinheirinho) e se o Brasil vai vencer a Copa do Mundo. Confira abaixo as respostas.

     

    Perguntas para Boulos

    Um(a) revolucionário(a) – Che Guevara
    Um livro – As Veias Abertas da América Latina (Galeano)
    Um acontecimento político que te marcou muito – Os últimos meses foram repletos de acontecimentos importantes… Mas um que me marcou foi o despejo da Ocupação Pinheirinho, em São José dos Campos, em 2012.
    Seu time – Corinthians, claro.
    O Tite vai trazer o hexacampeonato? – Humm… Sim, vai trazer.
    Um artista – Férrez
    Comida preferida – Feijoada
    Bebida – Cachaça
    Gênero musical – Samba

     

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    Acampamento reúne centenas de jovens anticapitalistas em Niterói (RJ)