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  • Cinco anos de Junho de 2013: a perspectiva petista e os dilemas estratégicos da esquerda brasileira

    Decorridos cinco anos das Jornadas de Junho de 2013, os sentidos do maior ciclo de manifestações de rua no Brasil dos últimos 30 anos permanecem em disputa. Especialmente entre as forças do amplo espectro da esquerda, Junho continua sendo uma referência incontornável em qualquer análise de fôlego que vise explicar a situação política atualmente vivenciada no país.

    Em linhas gerais, tal debate se estrutura em torno de três posições principais. Em primeiro lugar, há aqueles, como o autor desse texto, que consideram que Junho foi atravessado por distintas forças e projetos políticos, cujo equilíbrio variou no tempo. De acordo com essa interpretação, os impulsos progressistas que estiveram na origem das manifestações foram posteriormente acompanhados por uma linha reacionária, que se expressou de forma razoavelmente difusa nas últimas passeatas de Junho e alcançou máxima expressão nas manifestações em prol do impeachment de Dilma Rousseff (PT), em 2015 e 2016.

    Essa visão que enfatiza a historicidade e a dinâmica do processo político recente se choca com duas outras posições, as quais se alicerçam em compreensões muito mais homogeneizadoras, tendendo a enxergar uma continuidade quase absoluta entre os eventos de 2013 e 2015-2016. Partindo dessa premissa, existe, por um lado, a posição de que as mobilizações de Junho e as manifestações pelo impeachment seriam essencialmente progressivas, indicando a permanente disposição da classe trabalhadora para a luta contra as classes dominantes.

    Por outro lado, há os que invertem o sinal valorativo dessa continuidade, imputando a Junho um caráter marcadamente reacionário, que seria dominante desde a eclosão das manifestações e seria diretamente responsável pela queda de Dilma Rousseff. Na medida em que esta última interpretação tem sido especialmente presente nas elaborações de intelectuais e agentes políticos ligados ao PT, que permanece sendo a principal referência política da maior parte da classe trabalhadora brasileira, cabe analisar mais atentamente seus fundamentos e suas implicações. Para fazê-lo, parto da identificação da localização histórica do PT em relação ao processo de mobilizações de Junho de 2013.

    O PT até Junho de 2013

    O Partido dos Trabalhadores foi fundado em 1980, como expressão política das mobilizações da classe trabalhadora que se avolumavam desde o final da década anterior, com destaque para as greves dos metalúrgicos do ABC paulista. Ao longo de sua primeira década de existência, o partido ampliou consistentemente o seu número de militantes e sua influência social ao desempenhar papel fundamental nas principais lutas dos subalternos, como as Diretas Já e a greve geral de 1989, para ficarmos apenas em alguns exemplos significativos.

    Entretanto, ao chegar ao governo federal em 2003, embora ainda carregasse consigo as expectativas da classe trabalhadora, o partido já havia passado por importantes transformações. Consequentemente, em seus mandatos presidenciais, a ênfase na luta da classe trabalhadora contra a burguesia foi substituída pela defesa da conciliação entre ambas; a auto-organização do proletariado cedeu lugar ao apelo à confiança no aparato estatal; e as reivindicações por direitos universais foram eclipsadas por medidas focalizadas de assistência (sendo o Bolsa Família, evidentemente, o maior símbolo dessa guinada programática). Contando com o ciclo favorável dos preços internacionais das commodities, os dois primeiros mandatos petistas (exercidos por Lula) foram marcados por relativo crescimento econômico, redução do desemprego e políticas públicas que incentivavam a perspectiva da ascensão social individual (com destaque para o PROUNI e a expansão do acesso ao crédito).

    Esse modelo, entretanto, possuía rígidos limites, os quais ficaram evidentes a partir do início do primeiro mandato de Dilma Rousseff, em 2011, quando os efeitos da crise econômica internacional detonada em 2007-8 passaram a ser mais fortemente sentidos no Brasil. Nesse sentido, cabe destacar que cerca de 95% dos empregos criados ofereciam remuneração máxima de 1,5 salários mínimos, o que limitava consideravelmente a ascensão social prometida. Esse cenário foi agravado, por um lado, pelo crescente endividamento de parcela considerável dos trabalhadores – muitos dos quais contraíram dívidas para custear os estudos em nível superior, buscando melhores posições no mercado de trabalho, as quais permaneciam escassas. Por outro lado, o contínuo aumento do custo de vida, sobretudo nas grandes centros urbanos – e, ainda mais, naqueles que sediaram megaeventos esportivos, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas –, exercia uma pressão cada vez mais forte sobre os salários, corroendo seu efetivo poder de compra.

    Sem dúvida, o difuso mal-estar social decorrente desses limites pode ser apontado como o principal motivador para a eclosão das manifestações de Junho de 2013, sendo evidente ao longo de todo o processo. Essa relação foi expressa tanto pela força da pauta inicial, referente à redução das tarifas dos transportes urbanos, quanto pelas crescentes críticas aos investimentos direcionados à infraestrutura dos megaeventos, em detrimento dos serviços públicos básicos (a reivindicação por “Saúde e Educação Padrão FIFA”).

    O PT em Junho de 2013

    Tendo optado pela via institucional e por um programa de acomodação à ordem político-econômica, não deve causar espanto que o PT estivesse inteiramente ausente do processo de organização das manifestações – que, inicialmente, foram dirigidas pelo Movimento Passe Livre (MPL), especialmente em São Paulo – e, posteriormente, tampouco tenha conseguido se apresentar como um agente relevante no interior dos protestos. Em contraste com esse afastamento das ruas, o partido gozava de grande intimidade com os palácios. Quando eclodiram as manifestações em Junho de 2013, o PT detinha alguns dos principais cargos do poder executivo brasileiro: presidência da república (Dilma Rousseff), governos da Bahia (Jacques Wagner) e do Rio Grande do Sul (Tarso Genro), além da prefeitura de São Paulo (Fernando Haddad).

    Uma vez evidenciadas a força e a magnitude da mobilização então em curso, a resposta petista a partir dessas posições institucionais não se diferenciou substancialmente daquelas oferecidas pelos demais partidos da ordem. Na Bahia e no Rio Grande do Sul, as polícias militares comandadas pelos governadores do partido empregaram um nível de truculência comparável ao das PMs paulista e carioca, chefiadas, respectivamente, por Geraldo Alckmin (PSDB) e Sérgio Cabral (PMDB). Não à toa, a violência policial também se constituiu em um dos fatores de ampliação dos protestos em todo o país, atraindo grande repúdio popular. Por sua vez, o prefeito de São Paulo, Haddad, buscou o governador Alckmin com o intuito de organizar um anúncio conjunto da revogação do aumento das tarifas, na esperança de arrefecer o ímpeto das manifestações.

    Por fim, Dilma Rousseff, além de enviar tropas da Força Nacional de Segurança para engrossar a repressão nos estados, propôs ao país cinco pactos em torno dos seguintes temas: responsabilidade fiscal, da reforma política, educação, da saúde e mobilidade urbana. Em relação a tais propostas, devem ser destacadas duas observações. A primeira é a de que a ênfase na questão da responsabilidade fiscal – sempre apresentada como o primeiro ponto – confirma a plena adesão dos governos petistas ao horizonte do capitalismo neoliberal, caracterizado pela prioridade concedida à economia de recursos para o pagamento dos serviços da dívida pública. Na prática, esse compromisso inviabiliza a realização de investimentos realmente significativos em saúde, educação e mobilidade urbana. A segunda observação refere-se ao fato de que o pacto pela reforma política, que poderia, naquele cenário, significar um relativo enfrentamento às forças conservadoras do país, foi inteiramente deixado de lado pelo governo petista, não sendo tomada nenhuma medida para concretizá-lo.

    Ainda em Junho de 2013, também ficaram evidentes, pelos menos, mais duas consequências negativas da estratégia petista de abandono da mobilização popular. Por um lado, a reprodução das práticas de corrupção em busca da governabilidade institucional abriram o flanco para uma campanha conservadora de criminalização da atividade política enquanto tal e, mais especificamente, da esquerda. Foi a partir da desilusão relativa às práticas petistas que setores da direita organizada fizeram sua entrada nas manifestações de Junho. Tais grupos enfatizaram os ataques aos partidos envolvidos nas mobilizações e atuaram para deslocar o centro de gravidade das pautas, fortalecendo o polo que privilegiava o combate à corrupção (entendido como fortalecimento do aparato policial, judiciário e do Ministério Público), em detrimento das reivindicações por melhores serviços públicos. Por outro lado, ao não enfrentar as forças políticas mais reacionárias do país, o PT lhes concedeu liberdade para atuarem diretamente contra o governo, conforme evidenciado pela postura adotada pelos grandes conglomerados midiáticos.

    As leituras petistas de Junho de 2013

    Um processo tão longo e profundo de adesão política e programática à ordem jamais poderia ocorrer sem um forte deslocamento ideológico para sustentá-lo. As posições de parte significativa dos operadores políticos e intelectuais ligados ao PT sobre Junho de 2013 clarificam um aspecto importante desse giro. A fim de ilustrar essa proposição, basta considerarmos três exemplos dentre muitos outros que poderiam ser acionados.

    O primeiro deles foi conferido pela filósofa Marilena Chauí, uma das mais prestigiadas figuras acadêmicas a manter laços orgânicos com o partido, que também atuou como Secretária de Cultura, quando Luiza Erundina ocupou a prefeitura de São Paulo pelo PT (1989-1992). Em agosto de 2013, ao ministrar palestra na Academia da Polícia Militar do Rio de Janeiro, tendo como público cadetes em formação e oficiais da PM, Chauí sustentou a ideia de que os métodos de ação dos black blocs atuantes em Junho – calcados no enfrentamento direto à polícia e na destruição de vitrines de estabelecimentos privados, com destaque para os bancos – seriam de inspiração fascista.

     Ao assumir tal posição frente àquele público em meio a uma intensa campanha de criminalização dos black blocs pelos conglomerados midiáticos, Chauí colaborou diretamente para a legitimação da sanha repressiva que se abatia sobre as mobilizações ainda em curso – no caso do Rio de Janeiro, por exemplo, diferentes lutas foram mantidas até o final daquele ano –, com particular força sobre os grupos anarquistas que recorriam a tal tática. Indo além, é preciso notar que, independentemente do juízo político que se possa fazer acerca dos black blocs, aproximá-los do fascismo implica colocá-los no espectro dos inimigos declarados da classe trabalhadora e do socialismo.

     Um segundo exemplo significativo emergiu em entrevista de Fernando Haddad, publicada em junho de 2017 pela revista Piauí. Segundo ele, ainda em 2013, Lula e Dilma teriam sido alertados por Vladimir Putin, presidente da Rússia, e Recep Erdogan, então primeiro-ministro da Turquia, que os protestos estariam sendo patrocinados por grandes corporações estrangeiras. Com essa declaração, seu objetivo era apresentar as mobilizações como produto da manipulação direta de agentes estadunidenses. Dessa forma, a legitimidade das reivindicações apresentadas passava para segundo plano, na medida em que não seriam mais do que um pretexto para desestabilizar o governo petista.

    Evidentemente, ao apresentar essa conveniente tese, Haddad absteve-se de considerar os interesses geopolíticos da Rússia e da Turquia, envolvidos em diversas disputas com os próprios EUA. Ademais, ao expor essa tese já em plena vigência do governo Temer, marcado, precisamente, por um grande alinhamento político e econômico aos EUA, Haddad reforçou a tese que aponta uma continuidade direta entre as manifestações de junho de 2013 e aquelas favoráveis ao impeachment em 2015-6. Subjaz à sua narrativa, portanto, a ideia de que todo o processo político brasileiro desde junho de 2013 seria definido fundamentalmente pelo esforço direto e imediato de subordinação dos rumos do país aos interesses estadunidenses.

    Uma linha similar de argumentação foi apresentada por Tereza Cruvinel, que foi presidente da Empresa Brasileira de Comunicações (EBC) no período 2007-2011, em artigo veiculado em junho de 2016. Seu texto foi escrito nos primeiros momentos do governo Temer com o claro objetivo de buscar uma compreensão política do golpe em curso. Para tal, a autora elaborou um breve sumário das principais manifestações de massa verificadas no Brasil entre junho de 2013 e o momento de sua reflexão, sem qualquer análise acerca dos agentes sociais efetivamente atuantes nas diversas conjunturas, bem como das bandeiras e reivindicações apresentadas em cada uma delas. Como consequência dessa abordagem, construiu uma ideia de continuidade quase total ao longo do período observado de forma a legitimar a conclusão de que, “tal como o de 1964, o [golpe] de agora ainda não tem suas origens, atores e ações devidamente conhecidas. Mas com certeza tudo começou em junho de 2013”.

    Em seu conjunto, os três exemplos considerados fornecem uma mirada sobre as manifestações de Junho de 2013 como, fundamentalmente, fontes de perigos. Seja por possibilitarem a atuação dos black blocs “inspirados pelo fascismo”, seja por constituírem inequivocamente o estopim do golpe que derrubou o governo Dilma sob influência dos EUA, o seu recado é claro: tais manifestações devem ser objeto de repúdio. Ao adotarem tal posicionamento, as figuras destacadas evidenciam um profundo afastamento em relação à trajetória dos anos iniciais do PT, um partido surgido das lutas sociais e que teve como principal elemento impulsionador de seu crescimento inicial, justamente, o fomento à luta direta das classes subalternas.

    Das lutas sociais como inspiração às manifestações como perigosas, o caminho percorrido é o da adesão a elementos estruturantes do universo ideológico das classes dominantes. Afinal, apresentar os manifestantes como, na melhor das hipóteses, pessoas manipuladas por forças estranhas a elas (nesse caso, os EUA) e não como movidas por justas reivindicações (aumento das tarifas de transportes, precariedade dos serviços públicos, violência policial, desconfiança em relação ao sistema político), é procedimento mais do que usual na história brasileira. Não à toa, todo o trabalho das forças repressivas tanto no período 1945-64, quanto na ditadura subsequente, era sustentado pela noção de que a ingênua população brasileira poderia ser manipulada pelos comunistas, que buscavam fomentar conflitos supostamente inexistentes (sociais, raciais, etc) em nossa sociedade. O mesmo se verifica atualmente em qualquer jornal da imprensa empresarial, quando ao menor sinal de mobilização social de moradores de favelas, é rapidamente levantada a hipótese de que os mesmos não sejam mais do que massa de manobra dos traficantes locais.

    Em síntese, uma vez afastado das mobilizações como método político, o petismo deixa de enxergar as suas potencialidades. E, não podendo controlá-las, passa a deslegitimá-las por meio da negação da capacidade de agência autônoma da classe trabalhadora. O pressuposto de tal linha de argumentação é o de que todos os trabalhadores estariam plenamente satisfeitos com suas condições de vida e, portanto, deveriam agir para garantir a estabilidade dos governos petistas. Se não o fizeram, a explicação só poderia ser buscada em elementos externos à própria classe trabalhadora, movidos por interesses inconfessáveis e capazes de manipulá-la inteiramente.

    A conclusão lógica que deriva dessa compreensão do processo histórico é a de que o espaço desejável para a ação política da esquerda e da classe trabalhadora não é o das ruas (repletas de perigos), mas o da institucionalidade posta. Nesse sentido, a apreciação acerca de Junho de 2013 pelos intelectuais e operadores políticos ligados ao petismo não faz mais do que reforçar a opção estratégica que orientou o partido a partir dos anos 1990. Mesmo consumado o golpe que derrubou o governo Dilma, tal estratégia não foi abandonada, como evidenciado pela centralidade conferida pelo PT às eleições de 2018 e pela ausência de qualquer esforço real de mobilização de massas para enfrentar os ataques aos direitos sociais levados a cabo pelo governo Temer desde seu início.

    Os sentidos de Junho

    Junho de 2013 foi uma explosão de descontentamento com os limites de um modelo de desenvolvimento calcado na conciliação de classes possível em um país de capitalismo dependente. Seu principal agente social foram os setores da classe trabalhadora que mais cresceram durante o período de auge dos governos petistas, isto é, aqueles parcamente remunerados e submetidos a relações de trabalho extremamente precárias. Com as principais organizações historicamente constituídas pela classe trabalhadora (sindicatos, movimentos sociais, etc) domesticadas pela aposta na institucionalidade, sua explosão assumiu formas pouco orgânicas em termos organizativos.

    Como em qualquer momento em que a luta política ganha as ruas de forma massiva, em Junho também abriu-se espaço à contradição e às disputas de posições e programas. Percebendo essa possibilidade, forças reacionárias colocaram-se em movimento, especialmente durante a segunda quinzena do mês. Aproveitando-se do afastamento de setores da classe trabalhadora em relação à política de conciliação de classes cuja capacidade de operação singularizava o PT no sistema partidário brasileiro daquele momento, frações da burguesia passaram a se movimentar para capitalizar a seu favor a instabilidade verificada no arranjo anteriormente vigente. Nesse sentido, destacaram-se os veículos da grande mídia empresarial, que fomentaram um imaginário nacionalista para patrocinarem uma pauta anticorrupção instrumentalizada para combater o governo petista.

    Entretanto, reduzir aquele processo de mobilização a esse esforço reacionário ou estabelecer uma continuidade direta em relação aos atos pelo impeachment não só contraria a realidade verificável, como, também, implica profunda cegueira política. Por um lado, já há um significativo acúmulo de pesquisas que demonstram as diferenças entre 2013 e 2015-6 no que se refere aos setores sociais mobilizados (classe trabalhadora precarizada X classes médias), às principais reivindicações apresentadas (redução das tarifas, melhoria nos serviços públicos, fim da violência policial X impeachment) e às forças políticas organizadas com maior peso (MPL X grandes conglomerados midiáticos e grupos da nova direita, como MBL e Vem Pra Rua).

     Por outro lado, a ideia da continuidade completa oculta um elemento decisivo, isto é, o fato de que os setores da classe trabalhadora mobilizados em Junho de 2013 não mantiveram o mesmo grau de atuação política por uma série de fatores antepostos por setores políticos e sociais determinados. Dentre eles, é importante mencionar tanto a pesada repressão policial (pela qual, como visto, o próprio PT teve grande responsabilidade), quanto a incapacidade demonstrada pela maioria da esquerda para propor (a) um programa coerente que pudesse dar conta dos descontentamentos evidenciados e (b) uma forma organizativa adequada à realidade daqueles sujeitos. Se para o PT essa incapacidade decorre diretamente da opção pela conciliação de classes e pela via política institucional, para a esquerda socialista a mesma resulta do excessivo afastamento em relação à realidade cotidiana da maioria da classe e do apego a formas pouco flexíveis de organização e atuação.

    Considerando-se essa perspectiva, o avanço das forças reacionárias na sociedade brasileira ao longo dos últimos anos, tornando possível o golpe de 2016, deve ser entendido não como um resultado inevitavelmente contido nas mobilizações de Junho de 2013. Em outros termos, não é possível localizar um “ovo da serpente” fascista naquele processo histórico. Pelo contrário, tal avanço deve ser atribuído ao bloqueio imposto às possibilidades de generalização dos impulsos e movimentos progressistas que estiveram na raiz de Junho.

  • Trabalhadores do Aeroporto Salgado Filho/RS fazem manifestação contra 300 demissões

    No fim da tarde desta quarta-feira (11/07), no Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre, aeroviários realizaram uma manifestação contra as demissões em massa na empresa portuguesa de aviação TAP.

    O protesto também queria alertar os passageiros sobre o processo de desmonte do centro de manutenção, administrado pela TAP – Manutenção e Engenharia Brasil.

    O centro de manutenção da TAP é reconhecido internacionalmente pela qualidade do serviço realizado, e atende a diversas companhias aéreas. Segundo os e as participantes do ato, o setor já chegou a ter mais de mil e trezentos funcionários e funcionárias. Hoje, não chega a contar com quatrocentos. O processo de demissão começou em 2005, a partir da compra da Varig pela empresa TAP, anunciando o fechamento desse setor de vital importância.

    “Apesar de toda essa situação, queremos também que os passageiros saibam que vamos continuar fazendo o nosso trabalho e que as aeronaves só vão sair do hangar em condições de total segurança”, afirma Paulo Sérgio, um dos organizadores do ato.

    A empresa alega uma reestruturação a partir da qual não mais atuaria com manutenção. Na prática, ela pretende terceirizar os serviços, reduzindo drasticamente o custo com pessoal.  Apesar de ter recebido incentivos fiscais na ocasião da compra, a TAP se mostra indiferente à situação dos demitidos e de suas famílias. Nos últimos quinze dias, foram quase trezentos que passaram a engrossar as estatísticas de desemprego no país.

    A luta contra as demissões continua: “Não entendemos o porquê dessas demissões se sabemos que a empresa dá lucro. Queremos que cessem e que os já demitidos sejam priorizados em caso de contratação por uma nova empresa. O governo também precisa tomar alguma providência. Não podemos continuar nessa situação”, conclui Paulo Sérgio.

    O desemprego no país está crescendo e já atinge pelo menos 14 milhões de pessoas. Dia 10 de agosto as centrais sindicais estão construindo um dia nacional de mobilização e será mais um momento de protestar em defesa  do emprego.

    Ao vivo

  • Após prisão de diretor do INTO, servidores farão ato por eleição direta

    Nesta quarta-feira, 04, André Loyelo, diretor-geral do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), hospital de referência no Rio de Janeiro (RJ), foi preso por agentes da Polícia Federal na operação Ressonância, continuidade da operação Fratura Exposta, que já havia prendido o ex-secretário de Saúde do Estado do Rio de Janeiro, Sérgio Côrtes e os empresários do setor de saúde Miguel Iskin e Gustavo Estellita.

    O então governador Sergio Cabral e seu secretário de Saúde, Sérgio Cortes.

    O então governador Sergio Cabral e seu secretário de Saúde, Sérgio Cortes.

    Os desvios identificados somam R$ 300 milhões e também teriam beneficiado o ex-governador Sergio Cabral (MDB), que permanece preso.

    A operação investiga 37 empresas, inclusive multinacionais, pelos crimes de cartel, corrupção, fraude em licitações, organização criminosa e lavagem de dinheiro. Entre os presos, estão o ex-gestor do DGH (Ministério da Saúde) Jair Vinícius Ramos Veiga e o empresário Miguel Skin, que retorna à cadeia, depois de ser solto em fevereiro por uma decisão do STF.

    Segundo a imprensa, André Loyelo tornou-se diretor-geral através da indicação do deputado federal Francisco Floriano (DEM-RJ), já durante o governo de Michel Temer. Além de sua prisão temporária, outros quatro dirigentes do instituto foram presos de forma preventiva na operação: Jair Vinnicius Ramos da Veiga, o Coronel Veiga, Luis Carlos Moreno de Andrade, João Batista da Luz Júnior e Rafael dos Santos Magalhães. O ex-secretário de Saúde, Sérgio Côrtes, solto em fevereiro, teve uma revista em sua casa e foi intimado a depôr.

    Após a prisão, os servidores do INTO divulgaram uma nota, na qual classificam a ingerência política sobre o orgão de “nefasta”, defendem uma eleição direta para a direção-geral do instituto e anunciam um ato público no dia 25 de julho. Veja um trecho da nota:

    “Hospitais são instituições complexas e suas direções gerais são cargos decisivos, que exigem conhecimento específico, compromisso ético com a vida da população e com os profissionais de saúde, segundo os princípios do SUS.
    Como servidores do Into, exigimos o fim imediato da ingerência política sobre a gestão da unidade. Também exigimos que os cargos de diretor-geral e dos demais gestores sejam preenchidos por servidores de carreira e por meio de eleição direta dos profissionais do Instituto. Este é caminho.
    No próximo dia 25 de julho, a partir das 10h, vamos todos abraçar o INTO.”

     

    FOTO: Sede do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO), no Rio de Janeiro. Divulgação.

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  • Trabalhadores do Call Center devem aderir à greve, em São Paulo

    Nos dias 21 e 22 de junho foram feitas assembleias entre os trabalhadores de Call Center e o sindicato, sobre as negociações que estavam sendo feitas com as empresas. A maioria não quer pagar o reajuste salarial, a PLR e os vales refeição e alimentação, fazendo com que a classe trabalhadora seja sacrificada para manter o lucro das empresas.

    Isso é tirar sarro do trabalhador do call center, que já é a mão de obra mais barata do mercado. Não querer dar aumento aos trabalhadores numa época em que a classe mais necessita, onde tudo no mercado está mais caro, com um vale refeição que só dá para uma coxinha por dia é uma provocação. Nos locais não há creches para as mães que trabalham nessas empresas deixarem seus filhos, o que as obriga a deixar as crianças com parentes porque não existem vagas em creches públicas, e ainda têm que aguentar a humilhação de ganhar somente uma paçoca ou um bombom como prêmio. Tratam pais e mães de famílias como crianças. Um verdadeiro absurdo!

    Os trabalhadores, junto com o sindicato, devem aderir à greve e mostrar sua insatisfação. Quem viu a assembleia na Teleperformance viu um show de horrores. A empresa se propôs a pagar R$46,00 de PLR e 1,08% de reajuste salarial e não quis negociar o vale alimentação e refeição dos funcionários. Diante da negativa dos trabalhadores em aceitar a proposta absurda da empresa, a representante se enfureceu com os agentes, e disse que a Teleperformance é a unica que se propôs a pagar 1,08% de reajuste. Com certeza, os donos da empresa devem pensar que os trabalhadores comem sobras de comida, ou sobrevivem de migalhas. Esquecem que muitos têm que complementar a compra do mês com cartão de crédito, ou com o próprio salário para ter o que comer, pagar as contas, aluguéis, faculdade, filhos, cursos e etc.

    A Teleperformance, que se diz ser uma empresa que valoriza o ser humano, zomba da cara de seus funcionários. Seu lema é Integridade, respeito, profissionalismo, inovação e comprometimento, mas isso eles cobram dos funcionários, porque eles mesmos não têm. Têm deveres e não direitos. A empresa se orgulha em falar em seus treinamentos que a média de lucro anual é de 3 bilhões, que são os maiores do mundo, fizeram contratos grandes com a Netflix e Ambev, e dizem que estão em crise? As outras empresas, como a Atento (que possue aproximadamente 90 mil funcionários), Alma Viva, Liq/Contax, Fidelity, Mapfre, Parla, SIS etc, nem cogitam um aumento para seus funcionários.

    Temos que seguir o exemplo dos companheiros de Portugal, onde o sindicato STCC (Sindicato dos Trabalhadores de Call Center) organiza várias greves e não deixa os trabalhadores abaixarem a cabeça.

    Temos que pressionar a Sintetel a organizar essa greve. Se o sindicato quiser recuperar a confiança da categoria, tem que entrar de cabeça na organização da greve, panfletar em frente às empresas. Não podem ceder às pressões dos patrões, e sim responder às reivindicações dos trabalhadores do Call Center.

    Não temos nada a perder com a paralisação, as empresas já criam uma atmosfera de que vamos ser mandados embora o tempo todo para nos acovardar, para que não possamos reagir, mas se nos mantermos unidos eles não podem nos parar. Somos a maioria, eles são a minoria, querem nos deixar com medo para baratear a nossa mão de obra. Hoje é o reajuste, amanhã são as comissões, depois variáveis ou a aplicação da Reforma Trabalhista. Quando nos dermos conta estaremos trabalhando de domingo a domingo sem direito nenhum. Podem, inclusive, tentar reduzir a pausa 20 para pausa 5, e a pausa 10 é capaz de não existir mais. Não podemos deixar isso acontecer. Somos fortes, somos a maioria, estamos lutando não só por nós, mas por nossas famílias, pela nossa faculdade, pelo nossos sonhos. Mas, para isso, precisamos estar juntos, pois se o Call Center parar, ninguém consegue fazer nada, as empresas não são nada sem nós. O que eles vão fazer sem a gente para resolver o problema do cliente?

    Nossa força reside na luta coletiva. Se o salário não aumentar, o Telemarketing vai parar!

  • O que aprendi perdendo para a direita?

    Nessa última semana assisti, pela segunda vez, uma posse da Aliança Pela Liberdade à diretoria do DCE da Universidade de Brasília (UnB). Esse é um grupo de direita que atua entre a estudantada daqui há nove anos. Imediatamente me veio à cabeça, como um martelo contra uma parede lisa, uma frase do Marx, escrita junto da sua célebre análise sobre o processo que levou da revolução de 1848 para o golpe de Estado em 1852 na França: “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”.

    Minha relação com o Movimento Estudantil vem desde secundarista. Nessa trajetória tive o prazer de conhecer boa parte das universidades públicas brasileiras, muitas escolas ocupadas por secundaristas em 2016, e um pouquinho do grandioso ME chileno, ao acompanhar uma das eleições da FECH (Federación de Estudiantes de la Universidad de Chile). O protagonismo estudantil serviu em muitos momentos como reforço, outros como estopim para transformações sociais, conquista de liberdades democráticas, direitos sociais ou para a defesa da soberania nacional.

    Sempre com isso em mente, diante da eleição de DCE no momento político do país, a situação econômica da UnB e a ameaça de perder a entidade para a direita me fizeram, mesmo não atuando mais no dia a dia desse movimento, estar em mais uma eleição. Perdemos. E como em toda derrota, o sabor do resultado é amargo. Nesse caso, como não é a primeira vez, o paladar não foi pego desprevenido. É como diz o ditado popular português: “é errando que se aprende”. A contar pela quantidade de erros, os aprendizados vão se acumulando. Uma das primeiras e mais importantes lições é que nenhuma organização ou indivíduo se bastam sozinhos.

    Com esse espírito, compartilho minhas conclusões e reflexões para que aprendamos e reflitamos juntos sobre os erros e os futuros acertos. Algumas linhas terão duras críticas. Não faço divergências por entrelinhas, com sujeito oculto. Como garantirei o direito de resposta daqueles que por mim forem criticados? Penso que não citar é uma forma de se esconder. Prefiro ser sincero e nomear aqueles de quem discordo, assim, estar de peito aberto para a crítica. Acho assim mais respeitoso. Mas bem, todas as linhas abaixo estão postas em debate. Vamos?

    Qual a saída para a UnB?
    Desde o golpe no Brasil se forjou entre os estudantes parte do que há de mais corajoso para enfrentar os retrocessos. A onda de ocupações de escolas e universidades em 2016 foi um exemplo disso. Mesmo assim, apesar de toda a garra, a nossa luta não foi o bastante para impedir a aprovação da hoje Emenda Constitucional 95, aquela que congelou os gastos sociais por 20 anos.

    Aqui na UnB, mais uma vez, os estudantes se levantaram e decretaram greve em uma assembleia com cerca de 1.400 presentes. Contudo, também ignorando toda luta, a realidade avançou com toda a sua dureza. Diante do contingenciamento, a reitoria (eleita com votos de esperança e da esquerda) já demitiu mais de 500 terceirizados, em sua grande maioria mulheres negras e periféricas. Ao mesmo tempo ataca a organização sindical e prepara um aumento no preço do Restaurante Universitário. Nossa saúde mental está abalada. Crescem as depressões, transtornos de ansiedade, a violência e o suicídio. Estamos atravessando uma névoa de desesperança. Nossa geração, que há pouco sonhava e quase sentia um futuro de vitórias e ascensão social, hoje se vê perdida. Pelos corredores e “pracinhas” são incontáveis os produtos que começaram a ser vendidos. O que é que a UnB tem? Tem cuscuz quentinho, tem. Tem a melhor coxinha do mundo, tem. Tem brownie delícia, tem. Tem roupa de tecidos africanos, tem. Tem de tudo. Contudo, o que se “esconde” por detrás de toda essa diversidade de delícias é a crise na qual o gigante do hemisfério sul fora lançado.

    A derrota da greve estudantil, que se demonstrou incapaz de animar a estudantada e cativar apoio entre o povo, evidenciou aquilo que penso ser a essência da nossa derrota no DCE: os estudantes estão sem direção política. Basta relembrar o percurso das lutas. Começamos com uma vitoriosa paralisação seguida de um grande ato em frente ao MEC. A intransigência do governo e da reitoria, a falta de apoio na sociedade, ações isoladas no movimento somaram-se com a falta de uma direção política à esquerda. Como resultado, a greve terminou dividindo a resistência que estava sendo construída.

    É a hora de sermos radicais, o que é diferente de ver a ação como um fim em si. Ser radical é ir à raiz dos problemas. Estamos atravessando uma situação política defensiva para o povo trabalhador enquanto os donos do poder avançam sobre nossos direitos, liberdades democráticas e a pouca soberania do nosso país. A indignação e pressa são explicadas pela virulência dos ataques, mas nossas ações isoladas não são o bastante para derrotar nossos inimigos. É preciso aprender com nossas experiências. É hora de disputar as maiorias, precisamos ir à “massa” dos estudantes e buscar o apoio do povo. Ele virá!

    Sobre os três porquês da derrota

    Chapa vencedora. Foto divulgação

    Chapa vencedora. Foto divulgação

    Logo em seguida de ser tornado público o resultado das eleições desenvolveu-se um debate entre três teses sobre o porquê da vitória da direita.

    A primeira tese se centrava na ideia de que a chave da questão estava na divisão da esquerda. É sabido que dois grupos de esquerda não compuseram a chapa unitária, o Juntos! e a UJC, essa última lançou uma chapa própria.

    A segunda tese veio de ativistas da greve. Ainda no processo eleitoral lançaram a campanha pelo voto nulo e pela abstenção. Esses disseram que o equívoco que explica o retorno da direita ao DCE se deu quando os “grupos políticos” decidiram fazer a consulta mesmo a universidade estando em greve. Para esses, as organizações de esquerda abandonaram a luta direta para fazer eleição.

    Por fim, também foi apresentada outra tese, em diálogo com a anterior, de que a razão é subjetiva, e deriva da má gestão da Todas as Vozes na condução do DCE no último período. E que a divisão da esquerda seria indiferente para o resultado. Para esses, o centro da disputa política não estava em torno das tarefas para a atual situação da UnB, mas no balanço da gestão passada.

    Em minha opinião as três teses são meias verdades. É evidente que a gestão passada do DCE foi insuficiente diante dos enormes desafios que foram apresentados. Arrisco dizer que o principal problema foi a ausência de disputa política permanente do conjunto dos estudantes da universidade. A isso se soma também o desafio cotidiano, aumentado pela pouca experiência dos integrantes da gestão, de trabalhar em unidade com mais de 10 coletivos de opiniões e tradições muito diversas. A ver pelas próprias lutas, essa gestão expressou boa parte das dificuldades coletivas de todo o ativismo da universidade.

    De fundo, divirjo da UJC, pois acredito que ver como indiferente a divisão da esquerda é parte da incompreensão sobre quais as tarefas políticas para o momento; a escolha em negar a unidade é expressão de um desprezo pelos fatores objetivos da realidade. Há uma situação defensiva de ataques inédita para a nossa geração. Houve dois grandes debates políticos nessa eleição. O primeiro sobre o caráter público e gratuito versus possibilidades de privatização. O segundo a partir da propaganda anti-movimento feita pela direita, atacando a greve, a ação direta, a democracia e legitimidade das assembleias; diante desse cenário, centrar as críticas à esquerda, como fez a chapa impulsionada pela UJC, se mostrou um erro político. É evidente, não por uma conta matemática, mas pelos cálculos políticos, que uma chapa unificada seria favorita ao DCE. Diante disso, uma política abstencionista adotada pelo Juntos! se mostrou igualmente irresponsável, pois mesmo tendo a leitura de que a direita deveria ganhar o DCE no cenário de uma divisão na esquerda, escolheu proferir um grande: “não é comigo”.

    Já os ativistas ao deslegitimarem o processo e defenderem a abstenção ou o voto nulo partiram de suas compreensões sobre as razões da derrota da greve. No começo da luta, contrariando toda a situação política, abriu-se uma janela de oportunidades por onde se tornou possível passar um movimento de resistência forte, com apoio de “massas” na universidade e com real capacidade de fazer frente aos ataques. Contudo, essa possibilidade sempre esteve ameaçada pela ausência de uma opinião comum do sentido político que o movimento deveria seguir. As ações “radicalizadas” foram enfraquecidas na medida em que não se alimentaram de apoio junto aos estudantes. Reinou a dispersão, a ausência de informações comuns e assim a frágil possibilidade de ascenso naufragou. Quando houve a oportunidade de conduzir o movimento para outra tática, na assembleia em seguida à aprovação da greve, a dispersão política se vestiu de grande confusão. Os coletivos de esquerda acordaram uma proposta de seguir o movimento por outra via que buscasse mais apoio e fortalecimento. Já era tarde. Os ativistas, mergulhados em desconfiança frente à uma direção não provada e frágil, recusou com veemência a nova orientação. Uma política de se abster de qualquer responsabilidade frente à luta e de inflar a desconfiança do ativismo com as organizações não só impediu a unidade nas eleições, como também dividiu o movimento. E assim deu-se a derrota, acredito que essa localização escolhida pela UJC está na raiz da negação da unidade.

    Defender voto nulo, chamar à abstenção, ignorar a volta da direita e suas consequências foram apenas manifestações da inércia de confusões sobre as tarefas políticas e a divisão do movimento. Acusar o ME de seguir seu calendário em uma universidade funcionando na imensa maioria dos cursos não fazia qualquer sentido.

    Por fim, digo que considero também equivocada a tese de que perdemos exclusivamente por causa da divisão da esquerda. Esse seria o caminho fácil em ver os erros apenas nos outros, quando devemos especialmente olhar para nós mesmos, pois somos quem podemos mudar. Acredito que uma chapa unitária poderia ter sido vitoriosa, nunca saberemos. Mas não mudaria o fato de que a frente única da esquerda conformada na chapa não dirige os estudantes e não dirigiu a última luta.

    Quem ganha e quem perde com a unidade?
    Agora não falo de eleição. Uma das grandes vantagens da classe trabalhadora frente à burguesia é numérica. Somos muito maiores. Contudo, desarticulados e sem consciência coletiva não vamos muito longe. Hoje vemos inúmeros exemplos disso. A unidade não é uma invenção moderna. É uma tática instintiva presente ao longo de toda a história da humanidade ou de outros animais. Assim as leoas caçam e assim os atuns se protegem nas águas geladas.

    Reivindico a tradição trotskista. Durante a década de 1930, o nazifascismo avançava na Europa. Diante desta situação, Leon Trotsky declarou: “na luta contra o fascismo, estamos prontos para fazer acordos práticos de luta com o diabo e sua avó”. Esta declaração era a materialização de uma tática que originalmente foi pensada no quarto congresso da III Internacional Comunista: um chamado para que as organizações da classe trabalhadora (independente de suas diferenças estratégicas) se unissem em torno de um programa (parcial, mas um programa) comum, em base a tarefas específicas. No caso, o programa comum eram todas as tarefas concretas exigidas para a derrota do nazismo e de seus planos econômicos e políticos. E este programa poderia ser levado adiante com todas as organizações dos trabalhadores que assim quisessem, por mais traidoras e/ou burocráticas que fossem.

    Na atual situação do Brasil, acredito haver duas grandes tarefas. A frente única das organizações da classe trabalhadora e a construção de uma alternativa política para a nossa classe, frente ao fracasso da estratégia de conciliação de classes, que foi a marca dos governos do PT. E por esse último motivo meus pré-candidatos são Guilherme Boulos e a Sônia Guajajara.

    Traduzindo isso para a situação da UnB, fazendo todas as mediações necessárias, penso que a unidade da esquerda também está colocada para a nossa realidade. O governo golpista tem projeto de destruição das universidades tal qual a conhecemos, pública e na maior parte gratuita. A direita tem atuação consolidada e cresceu no último período.

    No caso da última eleição, pela realidade concreta da UnB, foi correto levar a Frente única para a eleição. Por esse motivo a minha corrente interna no PSOL, a Resistência, compôs a chapa unitária, assim como a Insurgência e a Brigadas Populares, ambas também do PSOL. Penso que daqui pra frente, independente das táticas adotadas durante as eleições, as organizações de esquerda devem se unificar sob o risco de entrarem em dispersão. Considero essa a maior ameaça hoje. Eu vi um “filme” muito parecido com esse acontecer. Após a primeira vitória da AL em 2011, a esquerda, já dividida, entrou em profunda crise. Uma vez como tragédia, outra como farsa. Em 2012 construímos uma grande greve nacional da educação federal, isso possibilitou a recomposição de alguns coletivos de esquerda na universidade. Mas, mesmo assim, não conseguimos derrotar a Aliança na eleição seguinte, e na seguinte; até o ano passado, quando conseguimos impulsionados pelas ocupações de 2016. Ou seja, conforme a situação atual, não podemos esperar anos até uma nova geração surgir para retomarmos o DCE. Devemos aprender como nossos erros, especialmente os dos que vieram antes de nós. E devemos fazer isso rápido.

    E penso que o programa de tal unidade parte de:
    1. Defender financiamento público para a universidade não fechar. Lutar pela revogação da E.C 95 nos marcos do projeto neoliberal do Banco Mundial e do FMI para a educação brasileira.
    2. Defender a autonomia universitária para que se tenha a liberdade de cátedra;
    3. Combater as medidas da reitoria de ataque aos direitos trabalhistas, emprego e conquistas estudantis com independência política frente à reitoria e aos governos;
    4. Defender as liberdades democráticas dentro e fora da universidade;
    5. Por um plano emergencial de saúde mental para combater o sofrimento psíquico na UnB e por fim;
    6. O DCE é pra lutar! Defendemos o real papel de mobilização do diretório submetido aos seus fóruns democráticos (CEBs, Assembleias e Congresso Estudantil).

    Errar é um direito. É das derrotas que arrancamos nossas mais vigorosas forças. Não temos tempo a perder. É preciso olhar o futuro com coragem. Panfletagem com corpo a corpo; passagens em sala; atividades políticas de discussão e convencimento; elaboração política comum. Esses são alguns dos ensinamentos da campanha que devem se manter no dia a dia da ação da esquerda na UnB. É preciso unidade para resistir, essa é a bandeira da esperança e da ousadia necessária e urgente para lutar e vencer!

     

    *Lucas Brito é membro da Coordenação Nacional da Resistência, corrente interna do PSOL; do Diretório Distrital do PSOL DF e estudante de mestrado no Programa de Política Social da UnB.

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  • Plataforma das centrais sindicais ignora golpe e busca corrigir reforma trabalhista

    A plataforma das centrais sindicais é a negação da unidade encoberta com gritos de unidade

    Diante do brutal ataque aos direitos trabalhistas, sociais, previdenciários e democráticos, é urgente a construção da luta unificada para enfrentar o Capital e seus governos. Toda iniciativa neste sentido é bem vinda. Por isso é importante que o movimento sindical debata nas bases a pauta que unifica a classe para a organização do Dia Nacional de Manifestação e Paralisação, convocado pelo Fórum das Centrais Sindicais para o dia 10 de agosto.

    Capa do documento Agenda prioritária da Classe Trabalhadora

    Capa do documento Agenda prioritária da Classe Trabalhadora

    No evento em que foi anunciado este dia de mobilização, também foi apresentada pelas centrais (CUT, Força Sindical, CTB, Intersindical, Nova Central Brasileira, UGT e CSB) a “agenda prioritária da classe trabalhadora”, uma plataforma com 22 itens que será apresentada a parlamentares e aos candidatos às eleições. Um documento que, para contemplar a opinião política de centrais que abertamente apoiaram o golpe midiático-jurídico-parlamentar que conduziu o odiado Temer ao poder, omite que estamos vivendo um período de exceção. Ou seja, é a negação da unidade encoberta com gritos de unidade. Derrubar Temer e seus comparsas, que são rechaçados por toda a população e que estão dividindo até os setores das classes dominantes que patrocinaram o golpe, é o desejo do povo brasileiro.

    Fruto desta gravíssima “omissão”, o Fórum da Centrais trata as eleições de 2018 como se fossem livres e democráticas. Mesmo sabendo que existe uma operação midiática e jurídica para impedir a candidatura do ex-presidente Lula. Nós fizemos oposição pela esquerda aos governos do PT, não ocupamos cargos nestes governos, lançamos a candidatura de Guilherme Boulos e Sonia Guajajara, nem por isso deixamos de defender o direito democrático do ex-presidente ser candidato e sua liberdade imediata.

    Revogar ou reformar a reforma trabalhista?
    Além disso, o texto das centrais defende que é necessário “revogar todos os aspectos negativos apontados pelos trabalhadores da Lei 13.467 (reforma trabalhista) e da Lei 13.429 (terceirização), que precarizam os contratos e condições de trabalho, na perspectiva da construção de um novo estatuto, com valorização do trabalho”.

    Desafiamos a que se aponte um artigo destas duas leis que seja positivo para os trabalhadores. Não é um problema semântico ou excesso de zelo, porque quem trata a “deforma trabalhista” assim imagina ser possível corrigí-la pontualmente, quando, na verdade, lutamos pela sua revogação. Esta é, aliás, a posição de setores da Justiça do Trabalho que têm se posicionado contra este ataque global à CLT.

    O professor e jurista Jorge Luis Souto Maior, em artigo publicado no seu blog, afirma: “Até o momento o que se tem como certo é o advento de uma lei flagrante e irremediavelmente ilegítima, sendo que para o bem da segurança jurídica de todos, o caminho menos traumático é o da sua imediata revogação, pois, do contrário, pode se acabar atribuindo validade jurídica a uma lei cujo processo legislativo afrontou a Constituição, abrindo-se ainda mais a porta para que a Constituição deixe de ser parâmetro de garantia aos cidadãos, pelo que, também, se alimentarão e se prorrogarão indefinidamente as inúmeras inseguranças jurídicas que decorrem da Lei n. 13.467/17, cujos complicadores, inclusive, se multiplicarão a cada tentativa de correção pontual, gerando, ao mesmo tempo, enorme sofrimento nas relações de trabalho, agravamento da crise econômica e aprofundamento do drama social, com o consequente aumento da criminalidade”.

    As centrais sindicais deveriam, isto sim, organizar e unificar a luta para revogar a reforma trabalhista. Mas, infelizmente, quando surge uma oportunidades de se avançar neste sentido, como no caso greve geral que foi desconstruída em 2017 e na mobilização dos caminhoneiros e greve dos petroleiros recentemente, centrais sindicais dão um passo atrás, se oferecendo, sem qualquer legitimidade, como “mediadora” do conflito.

    Reforma da Previdência pode voltar ainda neste ano
    Um dos pilares do programa do golpe para o Brasil é a aprovação da reforma da Previdência. Mas, nem com toda a campanha favorável feita pela mídia, Temer conseguiu que a reforma da Previdência avançasse no Congresso Nacional. O repúdio da população, em especial dos trabalhadores mais precarizados e pobres, que corretamente perceberam que não conseguiriam se aposentar se reforma fosse aprovada, intimidou os deputados em ano de eleição. Mas o capital não desistiu. Ao contrário, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, está propondo um pacto com todos os pré-candidatos à Presidência visando a aprovação da reforma ainda em 2018, por este Congresso ilegítimo e corrupto. O movimento sindical, popular e os partidos que se reclamam de esquerda deveriam rechaçar qualquer tentativa de aprovação da reforma da Previdência.

    No entanto, “a agenda prioritária da classe trabalhadora”, formulada pelas centrais, é ambígua quando diz: “Assegurar o direito e o acesso ao Sistema Público de Seguridade e Previdência Social, promovendo a universalização; garantir, diante das mudanças no mundo de trabalho e da transição demográfica, a sustentabilidade financeira do Sistema, com permanente participação social na gestão”.

    Não seria mais simples e direto exigir que os pré-candidatos(as) à Presidência, já é este o objetivo da plataforma, se comprometessem com a derrota da reforma da Previdência que tramita no Congresso Nacional?

     

    FOTO: Ato de lançamento da agenda prioritária. Site CUT Nacional

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  • Adeus 2017, agora sim é 2018 para os metroviários de Belo Horizonte

    Vitória da mobilização: 3,98% e retroativo desde maio de 2017. 

    Após um ano de uma luta dura e tenaz, o Tribunal Superior do Trabalho (TST) julga o dissídio salarial 2017/2018 dos metroviários da CBTU e, por unanimidade, bate o martelo no reajuste de 3,98% retroativo à data base de maio de 2017 e extensivo a todas as outras cláusulas sociais de natureza econômica.

    Mas isso só foi possível graças à mobilização da categoria, após um ano de enrolação da justiça e da própria empresa, que propôs retirar o caso de pauta para uma falsa negociação. Falsa pois tudo que o Governo Federal e a empresa queriam era não pagar os retroativos desde a data base e retirar direitos históricos da categoria.

    Essa tática fez com que a base da categoria só aumentasse seu grau de insatisfação, até o limite de os trabalhadores da base de Belo Horizonte aprovarem greve por tempo indeterminado no dia 29 de maio.

    Essa greve já entrou na história da categoria de BH, com adesão de mais de 90%, em alguns setores de 100%. Uma categoria jovem e com muita disposição de luta.


    Essa greve só não se transformou em uma greve nacional, pois os outros sindicatos da Base da CBTU nem convocaram assembleias para que seus trabalhadores decidissem se queriam ou não entrar na luta. Essa paralisia de outros setores é um empecilho para barrar de vez a proposta de retirada de direitos que o governo quer.

    Agora é manter a mobilização, a união e a força da categoria, pois se com essa vitória, 2017 é pagina virada, 2018 está aí e não queremos nenhum direito a menos.

    *delegado sindical do SindmetrôMG

  • A força das professoras da Educação Infantil de Belo Horizonte contra o prefeito machista

    Conheça as mulheres que estão acampadas em frente à prefeitura de Belo Horizonte exigindo que o prefeito, Alexandre Kalil, abra as portas para atender a categoria

    Nesta segunda-feira (11), as professoras da Educação Infantil de Belo Horizonte completam 50 dias em greve. A reivindicação da categoria é a equiparação da carreira com a das professoras do Ensino Fundamental. Na tentativa de pressionar o governo para receber as professoras e negociar, elas estão acampadas em frente à Prefeitura Municipal de Belo Horizonte há 20 dias. Mas o prefeito, Alexandre Kalil, que já está há dois anos no governo e nada fez pela categoria, afirma que só negocia quando a greve acabar.

    Enquanto o salário base das professoras das UMEIS – Unidades Municipais de Educação Infantil, é 1451,93 reais, o salário das professoras da escolas da rede é de 2252,42 reais, para trabalhar a mesma quantidade de horas. As UMEIS tem extrema importância para a cidade de Belo Horizonte, pois permite que as crianças sejam acolhidas e possam aprender enquanto a mãe e o pai trabalham. As professoras que trabalham nas UMEIs têm a grande responsabilidade de cuidar e ensinar crianças de 0 a 5 anos. Essa é uma categoria majoritariamente feminina e, quem sabe, esteja se descobrindo feminista também nessa luta.

    Conceição Figueiredo | Foto: Izabella Lourença

    Na noite de 07 de junho, quando dormi no acampamento, era Conceição Figueiredo quem estava mapeando o rodízio de pessoas que iriam dormir na prefeitura. Ela é graduada em Artes e professora da Educação Infantil há 2 anos e 9 meses. Conceição trabalha na UMEI Coqueiro Verde e essa é a primeira greve da categoria que ela participa. Para a professora, existe já um saldo importante da greve: “a gente conseguiu mostrar quem é o Kalil”, um prefeito que “faz da sua posição de autoridade, uma posição autoritária”. Conceição mora no conjunto Paulo VI, próxima a região metropolitana de BH, tem dois filhos já criados e era o quarto dia em que dormia no acampamento. “Eu, como grevista, não tenho sossego de ficar em casa, enquanto minhas colegas estão aqui”. E elas estão lá, mesmo só tendo banheiro químico para usar, mesmo com o risco, mesmo com a pressão para cuidar da família, estão firmes enfrentando o prefeito. “Ele [Kalil] disse que ia governar pra quem precisa. Mas estamos precisando agora e ele virou as costas pra gente. Ele não dialoga com o povo. Na eleição, entrou até no transporte público, agora não pode ir na nossa assembleia conversar com a gente”, reclamou com razão.

    Eram quase sete horas da manhã do dia 8 de junho, quando Ronara Lourenço se maquiava enquanto assistia um vídeo, enviado pelo marido (que apoia sua luta), do filho indo para a escola e desejando bom dia para a mãe. Ela é professora da Educação Infantil há 6 anos. Atualmente trabalha na UMEI Jardim Guanabara. Para Ronara, a postura do prefeito é Intransigente, Machista e Arrogante. Ela diz que nunca foi feminista, mas “a sociedade está de um jeito, que temos que reivindicar nossos direitos”. Foi assim que a entrevista praticamente se tornou uma roda de conversa, onde a professora contou que, para ela, estudar já foi um desafio e trabalhar foi uma afronta para o pai. “Sair de casa e deixar meu filho para dormir na rua então, eles [os pais] acham isso uma insanidade”, ela disse. Ela contou um dos diálogos que teve recentemente com a família, quando a mãe soube que ela estava fazendo pedágio no sinal – explicando para os carros a luta da educação e pedindo dinheiro para auxiliar as professoras que estão com o salário cortado. “Uma moça tão bonita, com um cabelo e uma unha tão bonita, pedindo esmola”, falou a mãe. “Tem gente que não tem como ter um cabelo e uma unha bonita. A prefeitura cortou o ponto. Eu não tô lutando por mim, pelo meu cabelo ou pela minha unha, eu estou lutando por todas. Conseguir que a população entenda nossa causa é o mais importante no sinal e é uma das únicas formas de fazer isso, já que a mídia faz o papel oposto”.

    Ela, que no dia anterior tinha apenas ido para uma reunião e acabou dormindo no acampamento, falou sobre a necessidade de estar lá acampada: “eu trabalho meio horário. Pra mim seria muito mais fácil estar em sala de aula e depois cuidando do meu filho a tarde. Eu to aqui dormindo, panfletando, pedindo dinheiro na rua, porque é necessário. Eu sinto que preciso estar aqui também para minhas colegas não desistirem”. E assim, termino essa entrevista, com uma reflexão da professora: “as pessoas ficam com dó dos caminhoneiros porque ficam sem suas famílias. Quando é com a gente, as pessoas julgam, falam que estamos negligenciando nossa família. Ninguém pensa que também estamos aqui sem nossa família?”.

    Elaine Toledo é professora do Ensino Fundamental. Trabalhou de manhã e depois foi para o acamamento. Como foi dia de pagamento, ela levou uma contribuição de apoio para as professoras da Educação Infantil. Elaine já achava que Kalil não seria um bom prefeito, “mas está pior do que eu pensava, principalmente depois do dia 23”. O dia 23 de abril foi o dia em que a greve foi deflagrada e as professoras foram fortemente reprimidas pela Polícia Militar, com bombas, jatos de água e a prisão de dois dirigentes sindicais. “Não sou professora infantil, mas sou parte da rede e apoio o movimento”, disse ela.

    Maria Claudiana Antunes | Foto: Izabella Lourença

    A Maria Claudiana Antunes esperava que a greve fosse durar uns 15 dias, agora já chegou em 50. Ela é professora da UMEI São Gabriel e está em greve desde o primeiro dia. Era a quinta noite que dormia na ocupação quando disse que “eu gosto de dormir aqui. Aqui a gente divide nosso dia-a-dia e nossas angustias. Aqui tem companhia e a gente distrai, sai um pouco da tensão da greve”.

    A Raquel Balbino Moreira estava passando pela Afonso Pena quando viu pessoas dançando em frente à prefeitura. “Parei, li as placas e entendi a importância da Educação Infantil para o futuro do Brasil”, contou ela. Quando voltou para a casa, pegou a lona que estava tampando suas maquinas e levou para o acampamento. “Fiquei pensando: o que as professoras fariam se chovesse?”. Ela contou um pouco da sua história e se emocionou ao dizer: “eu não tenho nem Ensino Fundamental completo. Agora faço supletivo. Eu fico imaginando como poderia ter sido diferente a minha história se tivesse em minha escola um movimento como esse. Esse movimento interfere muito na sociedade”.

    Adão e Marcílio | Foto: Izabella Lourença

    O Adão e o Marcílio fazem a segurança da ocupação a noite. Enquanto eu conversava com eles, eles conversavam com um garoto que passava pela rua e pedia comida: “passa mais tarde aí, que eu te dou uma marmita”. Quando perguntei sobre o movimento, Adão disse que “falta o prefeito cumprir sua palavra. Na eleição ele disse que iria tratar bem o povo e as professoras. Mas o tratamento dele foi agressão e corte de salário.”. Para Marcílio, o movimento grevista é um movimento qualificado: “as pessoas passam e elogiam, apoiam esse movimento justo. Essas professoras também são graduadas, em sua maioria, não tem porque não equiparar o salário e a carreira”. Os dois concordam que o movimento já foi vitorioso pelo debate que causou na sociedade e que o prefeito é um mentiroso. “Ele diz que as professoras que não querem negociar, mas se ele tivesse negociado, a greve já teria acabado”, terminou Marcílio.

    A Paula Dalferro, que aguardava para dar uma entrevista para a rádio Itatiaia, é professora da UMEI Universitário. Para ela, “a união do grupo que está acampado é muito forte. Dentro desse apoio e força, a gente se fortalece”. Ela sempre participou das greves, mas essa é a primeira vez que assume a linha de frente. “Eu me sinto empoderada aqui. Independentemente do resultado, isso aqui pra mim já foi de grande valia. Eu me redescobri enquanto pessoa que quer lutar por direitos”. Perguntei sobre sua relação com a família. “Na minha casa, a política é parte da nossa vida. Meus filhos sabem que é lutando que a gente conquista algo. Meus filhos e meu esposo dormiram aqui e sabem que precisamos continuar lutando”. Ela falou das intransigências do Kalil. Contou que na semana em que o prefeito decretou ponto facultativo na cidade por causa da greve dos caminhoneiros, informou que mesmo que a categoria não fosse trabalhar na semana, o ponto das grevistas continuariam sendo cortado. “A gente não é luxo, é subsistência. Nosso salário é nosso único meio de sobreviver e eles estão tirando nosso sustento”. Ela falou também sobre a secretária de educação do governo – Angela Dalbem. “Quando ela assumiu, achamos que poderíamos estar representadas por essa mulher, porque ela é da Faculdade de Educação da UFMG e por tudo que ela representa. Mas ela fez o oposto de tudo que a gente esperava”. A secretária faz reuniões com diretores para convencê-los a pedir as professoras a retornar às escolas, por exemplo. Enquanto se esperava que ela fizesse uma mediação entre a categoria e o governo, o sentimento das professoras é que ela se iguala ao prefeito. “Penso que as pesquisas e a formação de doutorado dela são figurativas e não verdadeiras. Ela não representa a educação”.

    Foto: SindRede BH

    A Rosangela Ribeiro é professora da Educação Infantil desde 2015. Ela trabalha na UMEI Alto Vera Cruz e também leciona na Escola Municipal Israel Pinheiro – “faço questão de falar que também dou aula lá porque lá a diretora apoia a gente”, disse. Com a sua experiência de produtora cultural durante 4 anos e professora de dança folclórica, quando já ministrava oficina em escolas, Rosangela logo se incorporou na comissão de cultura do acampamento. Essa é uma comissão que leva apoio e alegria para o acampamento. “Eu não organizo nada sozinha, sou eu e outras colegas nessa comissão”, ela fez questão de afirmar também. Essa comissão organizou diversas apresentações em frente à prefeitura, como a do Palhaço Senhor Flores, da palhaça Luba, do grupo Circunstância, do teatro negro e atitude, além da oficina Tambolele, oficinas de Silk e Xilografia, futebol das mulheres e aquele forrozinho para esquentar os corações.

    Muitas histórias podem ser contadas. No acampamento, há tanto aquelas que o marido apoia, como aquelas que saem, fazem a janta em casa, e depois retornam. Há também aquelas que podem deixar os filhos com alguém ou leva-los para o acampamento, como aquelas que saem antes das sete para fazer almoço e levar as crianças na escola. No acampamento, são dezenas de mulheres que organizam rodízio e se apoiam para vencer o machismo e lutar não só por suas carreiras, mas pela valorização da educação em Belo Horizonte.

    Foto capa: SidRede BH

    *Página Izabella Lourença

  • Todo apoio à paralisação nacional dos eletricitários

    Nesta segunda-feira (11) começa a paralisação de 72 horas dos trabalhadores da Eletrobrás. A principal pauta da mobilização é a luta contra a privatização da empresa, que está na mira do governo ilegítimo de Michel Temer. Se a empresa for privatizada, todos já sabemos o que acontecerá: aumento dos preços da tarifa de energia elétrica, demissões e terceirização nas empresas do sistema Eletrobrás, redução de direitos dos eletricitários e perda da soberania nacional sobre um setor estratégico para o desenvolvimento do país. Trata-se de um nefasto crime de lesa-pátria.
     
    Além da Eletrobrás, está nos planos do governo privatizar a Petrobras, os Correios e a Caixa Econômica Federal. Precisamos defender nosso patrimônio.
     
    A geração e transmissão de energia não podem ser entregues nas mãos de multinacionais estrangeiras. Precisamos de muita união e luta dos trabalhadores brasileiros para derrotar a política entreguista do vampiro que está no comando da Presidência da República.
     
    É urgente que a Federação Nacional dos Urbanitários (CUT) coloque toda a sua capacidade de mobilização e articulação a serviço do fortalecimento e nacionalização dessa luta, chamando o conjunto dos movimentos sociais e centrais sindicais do país para que construamos uma poderosa jornada de lutas em defesa da soberania nacional e contra as privatizações. Só com muita mobilização e uma greve geral será possível derrotar o vampiro entreguista Michel Temer.
     
    Todo o apoio à paralisação nacional de 72 horas dos trabalhadores eletricitários.
     
    *Paulo é trabalhador da Eletronorte

  • Em Minas Gerais, Petrobras pune quem luta

    No dia 30 de maio,  petroleiros de todo o País iniciaram uma greve contra a privatização da Petrobras e a política de precificação adotada desde 2016 a mando do governo Temer. Esse protesto teve apoio da população, que sofre dia a dia as consequências da redução proposital na produção de derivados de petróleo para aumento da importação de combustíveis.

    Porém, antes mesmo de seu início, a diretoria da Petrobras e a Advocacia-Geral da União (AGU) atacaram a categoria através do TST, que de forma inconstitucional, considerou a greve abusiva. Os petroleiros desprezaram a decisão e se mantiveram firmes na greve, que só foi suspensa no dia 01 de junho, seguida da renúncia de Pedro Parente da Presidência da Petrobras.

    Outros inimigos, porém, permanecem vivos e cometendo arbitrariedades. Nesta quarta-feira, 06, gerentes da Refinaria Gabriel Passos (REGAP), em Betim (MG), puniram com cinco dias de suspensão um trabalhador grevista.

    O argumento que a Gerência usou para tentar justificar mais esse ataque ao direito de greve foi que o trabalhador havia abandonado o posto de trabalho sem ser “rendido”, indo de encontro a procedimentos internos da Petrobras.

    O fato, entretanto, é que o empregado saiu da refinaria após trabalhar 16 horas ininterruptas e tendo comunicado formalmente e com antecedência a seus superiores que não tinha condições de ficar mais tempo e que a equipe de contingência deveria assumir seu posto de trabalho.

    Uma refinaria de petróleo é um local perigoso e trabalhar por muito tempo sem descanso não é seguro e aumenta o risco de graves acidentes, que podem envolver, inclusive, comunidades vizinhas.

    Outro fato relevante é que havia equipes de contingência na REGAP, uma delas na área onde o empregado que foi punido trabalha. São trabalhadores aptos a substituírem outros em caso de necessidade, chamados ou buscados em suas casas para esse fim. Mas a empresa não os designou para isto, preferindo mantê-los na refinaria, pagando-lhes horas-extras e impedindo que assumissem o posto de outros empregados.

    Fica claro que tal punição é injusta e ilegal! Ninguém deve ser punido por não aceitar uma jornada de trabalho extenuante e ilimitada. Nenhuma norma pode ameaçar a segurança e a vida das pessoas.

    Trata-se de uma prática antissindical, a fim de intimidar a categoria que luta para defender seus direitos e uma Petrobras a serviço do povo brasileiro.

    Com esse entendimento, essa afronta à toda categoria petroleira será combatida. A categoria não aceitará qualquer retaliação: a greve é um direito e ninguém fica pra trás! Os petroleiros de Minas Gerais e de todo o Brasil enfrentarão mais essa arbitrariedade e exigirão a anulação da punição dada a esse companheiro e a todos os outros trabalhadores que lutam.

    *Rafael é petroleiro na Regap, em Betim (MG)
    Foto: Refinaria Gabriel Passos. Geraldo Falcão/ Banco de Imagens Petrobras.