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  • Moradores encabeçam luta contra desmonte do Hospital Universitário da USP

    Por: Shirlley Padia Lopes, de São Paulo, SP

    No próximo dia 2 de março haverá um grande ato na Universidade de São Paulo exigindo a reabertura do Hospital Universitário para a população. Esse ato surge de uma atuação unificada entre moradores do Butantã, bairro onde fica a universidade, e representantes de alunos e funcionários da USP.

    O diferencial desse ato consiste na composição de suas lideranças, pois aqui entra em cena um protagonismo popular. Ao se darem conta de que o Hospital Universitário estava cada vez mais sendo desmontado, moradores do bairro se uniram e formaram um grupo de resistência: surge o Coletivo Butantã na Luta. Durante meses, os integrantes desse coletivo trabalharam e seguem trabalhando junto à população da região do Butantã, divulgando o que está acontecendo com o hospital e colhendo assinaturas num abaixo-assinado que exige o restabelecimento de seu pleno funcionamento.

    Até o presente momento, já colheram quase 60 mil assinaturas que serão entregues para a reitoria da universidade no próximo dia 2 de março.

    Numa constante articulação com representantes dos funcionários e estudantes da USP que somam forças no coletivo, o movimento organizou um ato no final do mês de novembro abraçando o Hospital Universitário. A força dessa mobilização se traduziu tanto no abraço em si, como nas palavras de ordem daquele ato: “Unificôoou: é estudante, funcionário e moradôoor”. Como desdobramentos dessa força unificada e de toda luta que vem sendo travada, o movimento conseguiu a aprovação de uma emenda na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), destinando R$ 48 milhões do orçamento de 2018 para a contratação de funcionários concursados e de carreira da USP necessários para o restabelecimento do atendimento à população.

    E esta é a atual situação do hospital: se, por um lado, temos uma gestão na reitoria da USP determinada a privatizar o hospital seguindo uma lógica nacional de tentativa de acabar com as universidades públicas em benefício de grandes grupos financeiros, por outro temos uma luta aguerrida e coesa entre moradores, funcionários e estudantes da USP. Esse movimento entende que a universidade é um patrimônio do povo e não só deve continuar sendo pública, como deve exercer seu tripé de ensino, pesquisa e extensão, contemplando
    a comunidade, prestando serviço para a população em seu hospital-escola referência em qualidade e bom atendimento.

    A importância dessa luta reside tanto na sua razão de ser, ou seja, em salvar um hospital público que sofre com uma defasagem de 406 funcionários, como nos protagonistas de sua luta. Após anos em que os movimentos sociais foram se tornando esvaziados e deixaram de ocupar as ruas porque estavam compondo o governo petista, moradores de um bairro assumem para si a tarefa de voltar a ocupar as ruas em defesa do que é seu. Vemos aqui o embrião de um redescobrimento da luta popular, da luta por direitos depois que muitas lideranças locais e sindicais se entregaram ao método de conciliação petista que se mostrou fracassado.

    Por isso, ressalto a importância de fortalecermos essa luta. É conjunta da população e da comunidade acadêmica, algo que sempre sonhamos e se faz ainda mais necessária numa época de crise e de retirada de direitos após o golpe presidencial. É uma luta que já está se mostrando vitoriosa e precisa continuar avançando. A vitória dessa mobilização representa a vitória de uma batalha dos que lutam pelo ensino superior público, bem como uma vitória da reorganização da luta popular.

    Deixo, então, o convite: no dia 2 de Março às 10h, em frente ao portão 3 da USP. Esperamos a presença de todos que sonham e lutam por direitos e de todos aqueles que entendem que a luta popular deve ser o meio para alcançar esse objetivo. É tempo de perder o medo e é tempo de lutar, é tempo de impedir a retirada e voltar
    a conquistar direitos por meio de nossa ação. Sejamos vitoriosos!

  • Assembleia na Volks vota paralisação contra reforma da Previdência

    Na manhã desta quinta-feira, 01, os trabalhadores da Volkswagen de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, pararam por três horas a produção para reivindicar melhores condições de trabalho.

    A assembleia também teve como um dos centros organizar a luta contra a reforma da Previdência que o governo golpista de Temer pretende colocar em votação no dia 19. As trabalhadoras e trabalhadores votaram por unanimidade a paralisação da produção neste dia, contra este ataque que afeta toda a classe trabalhadora e as gerações seguintes.

    O Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, que por muitos momentos se colocou como vanguarda nas lutas por direitos trabalhistas e sociais, deve  colocar todo seu peso histórico para barrar mais este passo do golpe contra a classe trabalhadora. É necessário preparar as bases em uma grande mobilização que pare as as fábricas, bancos, escolas, comércio e transporte contra mais este episódio do golpe em curso dos patrões contra os trabalhadores e o povo pobre.

  • Centrais sindicais anunciam jornada de luta para barrar Reforma da Previdência

    Da Redação

    Nesta quarta-feira (31), aconteceu uma reunião de sete centrais sindicais para discutir os próximos passos na luta contra a Reforma da Previdência. CSB, CTB, CUT, Força Sindical, Nova Central, UGT, Intersindical anunciaram que irão organizar uma Jornada Nacional de Luta para impedir que o projeto seja colocado em pauta na Câmara dos Deputados no dia 20 de fevereiro, como pretende o Governo de Michel Temer (PMDB) e aliados. Dia de mobilizações está sendo programado para a data.

    Em nota, divulgada após a reunião, as centrais afirmaram repudiar o que chamaram de “campanha enganosa do governo”. Ainda, orientam suas bases a “entrarem em estado de alerta e mobilização nacional imediata, com a realização de assembleias, plenárias regionais e estaduais, panfletagens, blitz nos aeroportos, pressão nas bases dos parlamentares e reforçar a pressão no Congresso Nacional”, afirmam, além de aumentar o esclarecimento do projeto junto aos trabalhadores e trabalhadoras. “A unidade, resistência e luta serão fundamentais para barrarmos mais esse retrocesso” concluem. Dia nacional de protestos será convocado para o dia 19 de fevereiro.

    Além das centrais sindicais reunidas nesta quarta, outros movimentos sociais e entidades dos trabalhadores estão se organizando para programar mobilizações na tentativa de barrar a Reforma da Previdência de Temer. A CSP-Conlutas, central sindical e popular, por exemplo, vem afirmando a necessidade de, além de uma jornada de luta, construir uma greve geral, como a que ocorreu no dia 28 de abril de 2017, com todas as centrais sindicais unificadas, mostrando o peso da classe trabalhadora do País, majoritariamente contrária à PEC do governo.  No próximo sábado (2) e domingo (3), os servidores públicos federais também realizarão uma reunião ampliada, convocada pelo Fonasefe (Fórum das Entidades Nacionais dos Servidores Públicos Federais) e pelo  Fonacate (Fórum Nacional Permanente de Carreiras Típicas de Estado), para traçar estratégias contra a Reforma da Previdência.

    Leiam a íntegra da nota divulgada, abaixo:

    Centrais realizarão Jornada Nacional de Luta contra a Reforma da Previdência

    Em reunião manhã desta quarta-feira (31), as centrais sindicais (CSB, CTB, CUT, Força Sindical, Nova Central, UGT, Intersindical) aprovaram a realização de uma Jornada Nacional de Luta contra a Reforma da Previdência.

    Na oportunidade, as centrais repudiaram a campanha enganosa do governo Michel Temer para aprovar a Reforma da Previdência. E orientam para o próximo dia 19 de fevereiro um Dia Nacional de Luta.

    Com a palavra de ordem “Se botar pra votar, o Brasil vai parar”, as centrais orientam suas bases a entrarem em estado de alerta e mobilização nacional imediata, com a realização de assembleias, plenárias regionais e estaduais, panfletagens, blitz nos aeroportos, pressão nas bases dos parlamentares e reforçar a pressão no Congresso Nacional.

    As centrais sindicais conclamam suas bases a reforçar o trabalho de comunicação e esclarecimento sobre os graves impactos da “reforma” na vida dos trabalhadores e trabalhadoras.

    A unidade, resistência e luta serão fundamentais para barrarmos mais esse retrocesso.

     

  • Resposta a Zé Dirceu: sobre unidade, resistência e luta política em tempos de golpe

    Por: Lucas Ribeiro Scaldaferri, de Salvador, BA

    O site Nocaute divulgou um vídeo/texto com Zé Dirceu, principal cabeça pensante do PT. Dirceu afirma a necessidade de uma grande frente única para defender a democracia e o direito de Lula ser candidato a presidente. Para o ex-dirigente petista, o papel principal da militância do PT deve ser a mobilização do povo brasileiro para garantir a eleição de Lula e depois seu governo.

    Dirceu acerta quando aponta a necessidade de uma ampla unidade para garantir o direito de Lula ser candidato. Diversas frações burguesas querem impedir Lula de ser candidato, pois o ex-presidente segue em primeiro lugar em todas as pesquisas. Se faz necessário uma ampla unidade de partidos, movimentos sociais, artísticos e intelectuais para na rua, como diz o ex-ministro de Lula, garantir o direito à candidatura.

    Dirceu é um estrategista e junto com Lula foi responsável por levar o PT onde chegou. A adaptação do PT à institucionalidade e o esvaziamento de um programa de enfrentamento contra o capital foram frutos de anos das políticas de Dirceu, Lula, Genoino e outros. A direção histórica do petismo acreditou que o sonho do pacto social com a burguesia seria duradouro. O resultado todos nós estamos vendo.

    Dirceu não mede as palavras e afirma: “A hora é de ir para às ruas, não com uma greve geral ou com grandes comícios, é hora de ir ao povo, conversar com o povo, organizar o povo, mobilizar o povo.” E, aqui está a problemática da tática apresentada.

    Dirceu erra ao secundarizar a importância da combinação da defesa democrática de Lula ser candidato com a luta contra a Reforma da Previdência. Essas duas lutas não podem ser separadas uma da outra! O golpe de 2016 que derrubou a presidenta Dilma Rousseff tinha como objetivo retirar o PT do governo para atacar brutalmente os direitos do povo trabalhador e o patrimônio nacional.

    Dirceu aposta que uma vitória de Lula nas eleições, fruto da mobilização popular, e que tal vitória poderia inverter a correlação de forças favorável a burguesia nesse momento. O problema é que a aprovação da Reforma da Previdência seria a coroação dos golpistas e a vitória do capital financeiro sobre o povo trabalhador.

    Separar as duas lutas enfraquece nossa unidade não permitindo que as centrais sindicais e os movimentos populares sejam a vanguarda na luta contra a Reforma da Previdência. Os golpistas sentem-se mais fortes com julgamento inquisitório do dia 24 de janeiro para aprovar a Reforma da Previdência logo após a festa de Momo.

    O risco que amplos setores da esquerda corremos segue sendo o perigo sectário de não entendermos a importância da defesa democrática, principalmente em torno do direito de Lula ser candidato, e a tentação oportunista de preocuparmos apenas com as eleições do segundo semestre esquecendo a luta contra a Reforma da Previdência.

    A unidade da maioria das frações burguesas está ancorada no impedimento de Lula ser candidato e na aprovação da Reforma da Previdência. A nossa unidade será fortificada na combinação contra esses dois ataques centrais das classes dominantes.

    É hora de irmos às ruas, ocupações, bairros periféricos, fábricas, campo, escolas e repartições públicas. Colocar o povo em movimento para impedir a agenda de retrocessos. Nessa luta, uma greve geral pode ser a principal arma dos de baixo contra os ataques dos de cima.

  • Resolução da Conspiração Socialista sobre o direito de Lula ser candidato

    Resolução da Conspiração Socialista sobre o direito de Lula ser candidato

    Projeto de Lula é de conciliação de classes mas o judiciário não pode barrar sua candidatura

    A luta de classe não pode prescindir da realidade.

    A Conspiração Socialista entende que os anos de governos petistas no Brasil foram de conciliação de classes, além disso, o PT e Lula também são responsáveis pelo aprofundamento dos ataques aos trabalhadores, retirada de direitos e pelo golpe institucional sofrido pelo governo Dilma, cujo alvo final é a própria classe trabalhadora. Porém, não cabe à burguesia, através do poder judiciário manobrar para barrar sua candidatura.

    Entendemos que a manobra do judiciário brasileiro que tem como objetivo tirar Lula da disputa eleitoral de 2018, é mais um episódio do golpe parlamentar/judiciário instaurado no país, iniciado com o impeachment de Dilma.

    A frágil e restritiva democracia burguesa e suas demais instituições sempre estiveram a serviço dos interesses econômicos do grande capital. O DNA das instituições da democracia burguesa está marcado pela exclusão e perseguição da população pobre e pela proteção dos que detém os meios de produção. Suas ações podem se apresentar de forma perceptíveis ou veladas.

    De forma perceptível, basta atentarmos nas seletividades das investigações judiciais, nas CPIs dentro das casas parlamentares e nas sentenças dos tribunais que aprofundam a exploração e opressão contra a classe trabalhadora.Temos, ainda, um avanço significativo da visibilidde da direita conservadora e facista, por meios de grupos e coletivos, como o Endireita SP e o MBL, entre outros, que pregam um discurso de ódio contra a esquerda/comunismo, mas provocam uma confusão junto a população, apresentado todos os seus adversários, inclusive àqueles dos partidos que eles fazem parte como “comunistas” ou “esquerdopatas” . Estes discursos não tem ficado somente no campo do debate político, mas tem se refletido em ações de confronto físico.

    De forma mais velada, basta analisarmos a situação da população carcerária, a impunidade ou morosidade frente aos processos contra os agentes da repressão que assassinam cotidianamente a juventude negra e pobre, os indígenas, a não elucidação, proposital, dos crimes/homicídios cometidos contra os LGBTs e as mulheres.

    A questão colocada no eventual impedimento de uma candidatura de Lula, não foge a essa análise. Assim como o impeachment de Dilma, significou um avanço dos setores do grande Capital, que tem imposto, junto com o governo golpista, uma agenda acelerada de destruição das conquistas trabalhistas, ampliando a exclusão social e restringindo ainda mais os direitos sociais e individuais, entendemos que barrar a candidatura de Lula aprofundará ainda mais esse avanço dos setores da burguesia, não somente no que tange a disputa eleitoral e a liberdade democrática em si, mas principalmente no fortalecimento de uma agenda conservadora, reacionária que vem ganhando força nos ataques proferidos aos debates sobre o aborto, a questão da homossexualidade, dos direitos humanos, liberdade de ensino (expresso na Escola sem Partido), na criminalização dos movimentos e das organizações dos trabalhadores etc.

    A política de conciliação de classes, aplicada pelo petismo no governo, confirma a convicção de que a aliança com burguesia nunca poderá servir para emancipar a classe trabalhadora e que essa política de conciliação tem que ser derrotada pelos próprios trabalhadores/as.

    Por isso, defender o direito de Lula ser candidato não significa apoiar o PT e seu programa de colaboração de classe e suas alianças eleitorais com setores da burguesia, mas evitar o fortalecimento e a consolidação de um projeto do capital que visa objetivamente derrotar a classe trabalhadora e os movimentos sociais como um todo.

    Conspiração Socialista

  • Láurea Acadêmica e a pirâmide da meritocracia neoliberal

    Por Rogério Gonçalves de Freitas

    Recentemente, a comunidade acadêmica da Universidade Federal do Pará recebeu a notícia de que, a partir deste ano, oficialmente, a instituição vai conceder o diploma de mérito a formandos com Coeficiente de Rendimento Geral acima de 9. Ao ler a matéria publicada no site da UFPA em 19 de janeiro deste ano, fiquei instigado a escrever algumas reflexões sobre esse diploma e sobre o significado disso para a cultura universitária.

    O tema da meritocracia não é consenso nas instituições universitárias do Brasil e nem do mundo. Já foi tema de acaloradas discussões em vários campos acadêmicos e em várias épocas. Há pouco tempo, o tema voltou com força no meio universitário, sobretudo a partir do que foram e têm sido os impactos da meritocracia na educação.

    O departamento de educação da Harvard, prestigiosa universidade americana, liderança do neoliberalismo intelectual, convidou John Merrow, autor de Addicted to Reform (1)(em português, Viciados em Reformas), livro publicado em 2017, para debater no próximo mês os problemas do sistema educacional americano.

    O livro aborda as consequências do sistema educacional americano em adotar, por anos, testes padronizados e a meritocracia como base educativa. Uma das várias conclusões de Merrow é que os EUA formaram alunos com pouca capacidade reflexiva e crítica, além de um exército de pessoas resignadas. O país mais meritocrático do mundo começa a rever sua postura diante do modelo atual de educação baseado pura e simplesmente no mérito.

    Nesse sentido, a primeira imagem que me veio à cabeça foi a da história contada no livro do sociólogo britânico Michael Young The rise of the meritocracy, publicado em 1962. O trabalho conta uma sátira futurista e mostra o ascenso e a queda de uma distópica sociedade governada por pessoas com Quociente de Inteligência elevados. Na sátira, Young relata que, ao ser estabelecido um mundo tecnoburocrático, a distância entre os fracassados e os vitoriosos tornou-se tão grande que ficou difícil qualquer tipo de ajuste para o equilíbrio social. A meritocracia plantada foi colhida com desacordo e revolta.

    Qualquer seleção de um punhado de gente resulta, necessariamente, na exclusão de muitos. Uma das razões pelas quais Young escreveu essa obra se refere aos problemas enfrentados na educação pública inglesa. Esta selecionava muito cedo crianças para criar atitudes excessivamente precipitadas, de fundo classista, pois a formação das futuras lideranças deveria reproduzir as diferenças sociais a partir do sistema educacional.  

    O mérito não é um conceito absoluto. É estritamente relativo ao objetivo que se deseja com ele. Em termos socioeconômicos, como um aluno proveniente das ilhas em torno de Belém pode ser comparado com aquele que mora na Avenida Visconde de Sousa Franco (Doca) ou no bairro Batista Campos, bairro caro da cidade?

    A existência de diferenças relativas a condições materiais não pode ser ignorada. Uma tampa não serve para todas as panelas, já dizia Young. O maldito cálculo que muitos estudantes fazem, principalmente estudantes das universidades mais pobres do Brasil, ao optar pela cópia do texto da disciplina ou pela refeição no restaurante universitário, não pode ser negligenciado. Esses alunos não podem ser comparados com os alunos que chegam de carro no curso e não ficam na fila do “completo” – salgado e suco.

    Notadamente, não estou falando de capacidades intelectivas, pois, quando o assunto é esse, quase sempre as coisas se invertem. Todavia, a situação material torna-se muitas vezes fator preponderante na determinação de uma contingência. A vida das pessoas é influenciada pelas contingências sociais e econômicas. É produto de situações que fogem, na maioria das vezes, do controle individual. Ninguém escolhe nascer em Belém ou em Paris, ser pobre ou rico, ser baixo ou alto.

    Pois bem, para que o mérito possa ter validade ou ter ao menos uma sombra de justiça, deve levar em consideração a igualdade de oportunidade. Um outro ponto de reflexão se refere aos motivos que levarão o estudante ao prêmio de Láurea. A avaliação não pode ser vista como um fim, mas como um fruto, um produto. Portanto, dependente do ponto de partida do sujeito.

    Quem sai na frente e continua correndo dificilmente perde para o que saiu atrás. O que resta para aquele que saiu depois é uma violência simbolizada na ideologia da necessidade de emular (imitar). Esse é o mecanismo de discriminação mais praticado no neoliberalismo contemporâneo, a emulação através do discurso da virtude.

    Não adianta certificar o merecedor ou o que terá melhor lugar no mercado de trabalho se os parâmetros e critérios adotados para tal certificação não diminui a distância de quem larga na frente e atrás. Talvez a administração superior da universidade não pense que, ao certificar os mais merecedores, produzirá um sentimento de frustração e desapontamento nos estudantes. O percurso transcorrido de formação terminará com desânimo e culpa dos não merecedores.

    Se o objetivo do atual Plano de Desenvolvimento Institucional-PDI (2016-2025) da UFPA é de produzir, socializar e transformar o conhecimento na Amazônia para a formação de cidadãos capazes de promover a construção de uma sociedade sustentável(2), pergunto: como se preocupar com os mais aptos se os que necessitam ser premiados são justamente os que carecem de mais apoio institucional? Por exemplo: a residência universitária, a bolsa de iniciação científica, a bolsa de extensão, além da garantia de condições para que os alunos não sejam reprovados. A começar por bibliotecas de acervo atualizado e uma política de assistência à aquisição de livros aos estudantes de baixa renda.    

    Essas deliberações performáticas do mundo acadêmico determinam, muitas vezes, a possibilidade de entender importantes aspectos da crise que a universidade pública sofreu nos últimos anos, principalmente com a ênfase da necessidade de reformá-la. Permitem, também, compreender a maneira com que se “ganha tempo” na gestão da crise educacional como um todo, ativando mecanismos de emulação, que influenciam os comportamentos de sujeitos e sistemas altamente reativos à lógica da competição.

    Esse falso incentivo da certificação, baseado no modelo competitivo, tem como princípio tecnicista que leva vantagens em última e primeira instância a capitalização do conhecimento para empresas que lucram com tudo o que é produzido nas universidades brasileiras. Contribui, por sua vez, para uma renovação das políticas educacionais, que alteram profundamente o modus operandi da universidade, assim como dos alunos, professores e trabalhadores.

    Com isso, parece que o objetivo da educação na universidade não se centra mais no enriquecimento cultural das pessoas, mas no adestramento da nova força de trabalho e das exigências que transformam competências e habilidades humanas em competências-habilidades para a constituição de novas cadeias de criação de valor. Além disso, o resultado desse espírito competitivo parece ser também o do desenvolvimento da produção de subjetividade neoliberal em virtude da criação de uma mão de obra precária que se deixa guiar pelo controle externo.

    A introdução dessa certificação aumenta o espírito performativo e, por conseguinte, torna-se cada vez mais o principal lema do funcionamento da academia. De acordo com Ball (2003), esse novo espírito é entendido como a nova tecnologia neoliberal introduzida por reformas educacionais, capazes de organizar uma outra cultura no âmbito do trabalho.

    Nessa nova cultura, desenvolvem-se novas hierarquias no e do trabalho. Formas de regulação e controle se ampliam, o sistema meritocrático, os prêmios e as recompensas pela eficiência no trabalho se transformam em “descobertas” e verdadeiros estímulos das novas gerações de trabalhadores. E isso não é diferente do que vem sendo o espectro da universidade brasileira.

    Os ânimos submetidos e disciplinados a avaliações constantes contribuem para alimentar o novo espírito. A performatividade contemporânea que penetra com grande velocidade não é outra coisa senão a materialização daquilo que sustentava Guy Debord já nos anos 1960 sobre a Sociedade do Espetáculo. A transformação econômica do mundo mudou politicamente a percepção do real, sendo a única verdade “criada” e possível a da racionalidade técnica.    

    A gestão performativa do público e dos recursos humanos é uma das principais estratégias para medir (misura) a eficiência da educação. Revela a presença de uma nova atitude na universidade capitalista, em que o aprendizado é secundarizado junto à figura dos professores em relação aos “indicativos quantitativos”: único parâmetro de juízo pela avaliação do trabalho desenvolvido.

    Os Organismos internacionais são difusores dessas tecnologias performáticas, mas não só. Na tentativa de retroalimentar essa lógica, recomendam-se ações de descentralização administrativa e financeira do sistema universitário. Agora, aceitando as regras do jogo imposto por essa performatividade, a administração superior responsabilizará os universitários pelo sucesso ou pelo fracasso dos resultados obtidos.

    Ocorre, na realidade, uma descentralização reguladora de tarefas e de financiamento da universidade. Portanto, essa lógica de gestão vai, lentamente, introduzindo formas sutis de privatização e, por isso, penso que a implementação do novo diploma de mérito da UFPA seja uma ideia muito perigosa.

    A pirâmide da meritocracia neoliberal na universidade, infelizmente, produzirá efeitos desastrosos para cultura universitária, contrários aos que se destina a função da universidade, que é de produção de conhecimento crítico de qualidade e de utilidade para sociedade.

    Notas:

    (1)Link da apresentação do livro: https://college.harvard.edu/gutman-library-distinguished-author-series-addicted-reform

    (2)Saber mais em: http://pdi.ufpa.br

    Referências:

     

    BALL, Stephen. The Teacher’s soul and the terrors of performativity. Journal of Education Policy, 2003.

     

    DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Coletivo periferia. Ebooks Brasil, 2003. Disponível em: <https://www.marxists.org/portugues/debord/1967/11/sociedade.pdf>. Acesso em: 23 jan. 2018.

     

    MERROW, John. Addicted to Reform: A 12-Step Program to Rescue Public Education Hardcover, 15 ago. 2017.

     

    YOUNG, Michael. The rise of meritocracy, 1870-2033: An Essay on Education and Equality. Pelican. Baltimore Penguin books, 1962.

  • A esquerda brasileira diante do julgamento de Lula

    Gibran Jordão, Coordenador Geral da Fasubra, membro da Secretaria Executiva da CSP-Conlutas e membro da Coordenação nacional do #MAIS

    A necessidade de a classe trabalhadora conquistar posições e melhores condições para desenvolver o seu combate nos marcos de determinado regime político burguês (ou seja, no terreno do inimigo) se expressou por toda a história também na luta vital por reivindicações democráticas gerais. É um erro infantil e de graves consequências adotarmos uma postura indiferente em relação as condições de “temperatura e pressão” nas quais lutamos. Quando a ditadura militar se consolidou no País, exigimos democracia e o direito de votar para presidente. Quando um ativista do movimento sindical e popular é preso injustamente por lutar, denunciamos o caráter de classe da Justiça e exigimos liberdade! Quando o parlamento aprova leis que tiram direitos democráticos dos partidos da esquerda com o objetivo de marginalizá-los, denunciamos e defendemos mais democracia e não menos…

    Toda a nossa luta pela democracia não é um objetivo final, como pensa a esquerda moderada e reformista. São constituintes do nosso programa de transição que certamente tem o objetivo de construir as condições para a derrubada da burguesia fortalecendo a perspectiva da revolução permanente, do socialismo.
    Leon Trotsky, ao escrever o Programa de Transição, destacou a importância de combater o sectarismo em relação às reivindicações transitórias:

    “Sob a influência da traição e da degenerescência das organizações do proletariado nascem ou se regeneram, na periferia da IV Internacional, grupos e posições sectárias de diferentes gêneros. Possuem em comum a recusa de lutar pelas reivindicações parciais ou transitórias, isto é, pelos interesses e necessidades elementares das massas…
    …Os sectários só são capazes de distinguir duas cores: o branco e o preto. Para não se expor à tentação, simplificam a realidade. Recusam-se a estabelecer uma diferença entre os campos em luta na Espanha pela razão de que os dois campos têm um caráter burguês. Pensam, pela mesma razão, que é necessário ficar neutro na guerra entre o Japão e a China. Negam a diferença de princípio entre a URSS e os países burgueses e se recusam, tendo em vista a política reacionária da burocracia soviética, a defender contra o imperialismo as formas de propriedade criadas pela Revolução de Outubro…
    … Uma ponte, sob a forma de reivindicações transitórias, não é absolutamente necessária a esses profetas estéreis, pois não se dispõem, absolutamente, a passar para o outro lado do rio. Não saem do lugar, contentando-se em repetir as mesmas abstrações vazias. Os acontecimentos políticos são para eles ocasião de tecer comentários, mas não de agir. Como sectários, os confusionistas e os fazedores de milagres de toda espécie recebem a cada momento chicotadas da realidade, vivem em estado de continua irritação, queixando-se sem cessar, do “regime” e dos “métodos” e entregando-se a intrigazinhas. Em seus próprios meios exercem ordinariamente, um regime de despotismo. A prostração política do sectarismo apenas completa, como sua sombra, a prostração do oportunismo, sem abrir perspectivas revolucionárias…”
    (Leon Trotsky, Programa de Transição, 1938).

    A crise econômica que explodiu em 2008 tem desenvolvido um período de instabilidade política internacional que já dura uma década. Frações da burguesia em disputas econômicas agressivas em todos os continentes sacodem a disputa política em vários países, polarizações, golpes, guerras civis, crises de refugiados, atentados e grandes mobilizações de massas… O capital internacional tenta de uma forma ou de outra abrir caminho para ganhar fôlego nos mais variados mercados e países, destacando aí a luta encarniçada por rotas comerciais, fontes energéticas, recursos hídricos, modificações nas legislações trabalhistas e etc… Em determinadas situações é possível perceber processos que violentam ou que rompem as fronteiras do arcabouço jurídico e democrático de muitos países.

    No Brasil a ofensiva contra direitos sociais e democráticos se aprofundou no último período, principalmente após o impeachment. O governo Temer, sua base aliada no Congresso Nacional e o Poder Judiciário aprovaram medidas num espaço muito curto de tempo, via súmulas, decretos, MPs, PLs e PECs que atacam profundamente direitos sociais e democráticos do povo trabalhador brasileiro. Toda a resistência até agora foi muito importante, mas não suficiente para impedir efetivamente o avanço dessa ofensiva. No terreno democrático a reforma política foi um duro golpe nas organizações da esquerda socialista que muito provavelmente cairão na ilegalidade após a próxima eleição, já que as regras agora são muito mais duras e fortalecem os grandes partidos da ordem. O direito de greve do funcionalismo também foi sufocado com a nova decisão do STF que obriga os gestores a cortar os salários dos grevistas antes mesmo da greve ser julgada ilegal ou não. A reforma trabalhista desmantelou a garantia democrática da negociação coletiva não sobrepor os direitos garantidos na lei.

    Sem falar das ações abusivas e espetaculares da polícia e do judiciário propagandeadas pela grande mídia através de conduções coercitivas, extermínio da população pobre e condenações políticas completamente absurdas. Segundo reportagem da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), que circulou em vários veículos de comunicação nessa semana, “Policiais cariocas, em serviço, mataram 1.035 pessoas de janeiro a novembro de 2017, segundo relatório elaborado pela Organização Não Governamental – Human Right Watch, sobre direitos humanos. O número mostra um aumento de 27 por cento em relação ao mesmo período de 2016. Em São Paulo, as ações policiais, provocaram 494 mortes entre os 11 meses, e representa um aumento de 19% em relação ao mesmo período de 2016.”

    Há uma grave situação de conflito em muitas aldeias e reservas indígenas, que resistem à violência do grande latifúndio e a omissão do estado brasileiro, que não garante os direitos democráticos mínimos dos povos originários. A prisão absurda de Rafael Braga nas jornadas de junho de 2013. O caso ocorrido no ano passado onde policiais assassinaram dez trabalhadores rurais no Pará e até hoje não se tem notícia dos responsáveis.

    A seletividade das investigações e condenações expressa todos os dias o caráter político do judiciário, aparelhado por várias frações da burguesia que lutam entre si, mas que tem muita unidade quando precisam liquidar inimigos e situações inconvenientes para os seus negócios. Sem falar na violência que os setores oprimidos sofrem todos os dias no qual negros, mulheres e gays são violentados comprometendo as garantias de seus direitos civis. São muitos exemplos, e podemos compreender o caráter de classe dos três poderes do regime quando ainda estamos a nos perguntar: “Cadê o Amarildo?”.

    A emergência de manter suas taxas de lucros nas alturas e o desespero em manter seus privilégios nos marcos de uma crise econômica mundial obriga frações hegemônicas da elite dominante a ser mais violenta contra adversários capitalistas de menor influência e contra os trabalhadores que são seus inimigos de classe. Quanto mais crise econômica, mais a burguesia aumenta a dose das medidas autoritárias e fecha janelas do regime rompendo acordos democráticos e atropelando garantias constitucionais. Os poderosos têm pressa, disputam palmo a palmo cada território e mercados no mundo. E na crise há menos dialogo, queima-se etapas, não há solidariedade e muito menos espaço para a conciliação.

    Impeachment de Dilma e o julgamento de Lula
    O projeto de conciliação de classes dirigido pelo PT, que resultou na experiência dos governos Lula e Dilma, durante 13 anos foi vantajoso para a burguesia brasileira principalmente enquanto houve crescimento econômico. Na medida que explode a crise econômica mundial, onde se acirra a disputa por mercados e por controle de regiões, abre uma crise importante no coração do capital no qual é cada vez mais insuportável admitir mediações e acordos com setores progressistas e com a esquerda moderada. Como diz o presidente da varejista Riachuelo, o empresário Flavio Rocha, um dos principais defensores do impeachment: “O Brasil precisa de um presidente liberal na economia e conservador nos costumes”.

    Dilma, Lula e o PT foram usados e agora precisam ser descartados. Não é vantajoso nesse momento para a grande maioria da burguesia brasileira e do mundo fazer acordos e conciliar com o petismo. Ainda que a direção do PT busque tal acordo, pois continua com sua estratégia de conciliação de classes, para a maioria dos ricos e poderosos acabou o amor. Não estão dispostos a dar qualquer concessão. Pelo contrário, a palavra de ordem é: “Devolvam os anéis!”. Estão revendo importantes conquistas garantidas no arcabouço legislativo e constitucional do País que foram arrancadas pelas lutas da classe trabalhadora brasileira principalmente durante a década de 80 através de greves e grandes manifestações que derrotaram a ditadura e construíram a Constituição de 1988.

    Isso explica o impeachment de Dilma por motivos frágeis, no qual as pedaladas fiscais não foram consideradas em mandatos de outros presidentes. O Congresso Nacional que golpeou Dilma não teve o mesmo comportamento em relação a Michel Temer. Por duas vezes Temer foi salvo por deputados e senadores que votaram contra os pedidos de investigação da Procuradoria Geral da República, mesmo com as gravações da JBS, mesmo com milhões encontrados num apartamento, mesmo com vídeos de gente de confiança do presidente correndo com malas de dinheiro na rua. O comportamento do parlamento e do judiciário com a ex-presidente Dilma foi um, e agora com Temer é outro, e há aqueles que acreditam que não houve um golpe parlamentar no País e que tudo está acontecendo na mais completa normalidade.

    O golpe não foi planejado para que o PT voltasse ao poder dois anos depois, por isso é preciso seguir com o projeto que aniquila qualquer possibilidade de que um governo de conciliação de classes volte a se estabelecer, principalmente sobre a liderança do PT. Como já escrevemos aqui, para a burguesia nessa situação de crise econômica não há espaço para conciliação. Lula lidera as pesquisas eleitorais com folga e é preciso tirá-lo da disputa para limpar o meio de campo.

    Lula lidera as pesquisas para presidente da República em todos os cenários, mostrando que as ilusões de milhões de trabalhadores brasileiros com o petismo não acabaram. O desemprego, a violência urbana, a redução do poder de compra e a precarização dos serviços públicos se aprofundaram em tempo recorde durante o governo Temer. Assim, as pequenas concessões dadas pelos governos petistas estão na memória da maioria dos trabalhadores brasileiros e por isso veem Lula como uma possibilidade de suas necessidades imediatas serem atendidas de alguma forma. Tais ilusões não vão se dissipar sem o aprofundamento da experiência com Lula que ainda não se completou, e a esquerda socialista não irá conseguir dialogar com a base social que tem ilusões em Lula se adotar uma postura indiferente ao ataque as liberdades democráticas que o país sofre nesse momento. Pior ainda será o futuro das organizações de esquerda que estão consciente ou inconscientemente fazendo unidade de ação com grupos e organizações da direita e extrema direita que dirigiram a luta pela derrubada de Dilma e que agora pedem nas ruas a condenação de Lula.

    Em defesa dos direitos democráticos de Lula
    A maioria da esquerda brasileira seja radical ou moderada, setores progressistas da pequena burguesia e até setores minoritários da burguesia coerentes com sua concepção democrata estão nesse momento se posicionando contra a condenação e pelo direito de Lula ser candidato. Há motivos de peso para tal posição ganhar apoio tão amplo, o fato do julgamento estar completamente contaminado pela disputa política existente no país, todo o processo está sendo conduzido sem provas cabais, com assessores e juízes envolvidos no processo publicando opiniões a favor da condenação antes mesmo do julgamento e com a rapidez que o processo está andando completamente fora dos padrões do próprio tribunal que irá julgar Lula.

    Caso a condenação se confirme e Lula seja impedido de ser candidato ou até mesmo preso, os milhões de trabalhadores que querem votar em Lula para presidente, não terão mais esse direito. Trata-se de uma interferência direta do judiciário da disputa eleitoral de 2018. Querendo ou não, Lula e o PT ainda são os principais dirigentes do movimento operário e popular brasileiro, são vistos pelo imaginário social como as maiores lideranças da esquerda latino americana. A condenação de Lula e a aniquilação política do PT pelas mãos da direita e da burguesia terá consequências que vão recair sobre toda a esquerda seja moderada, seja radical. O modus operantes de julgar politicamente ao estilo do Juiz Sergio Moro vai ter consequências sobre toda esquerda e contra todos os setores progressistas que forem inconvenientes para as frações majoritárias do capital. Os elementos reacionários que se destacam hoje no Ministério Público, entre os procuradores, nos órgãos de controle e na polícia vão ganhar mais autoridade para aplicar procedimentos estranhos e autoritários contra os ativistas e as lutas cotidianas. Ou seja, o espaço democrático está sendo sufocado para atender interesses políticos do capital e quem não lutar contra essa ofensiva, vai pagar um preço caro no julgamento da história.

    O ultra esquerdismo e o oportunismo eleitoral da esquerda brasileira são obstáculos para a luta em defesa dos direitos sociais e democráticos
    Vivemos um momento de lutas defensivas contra o avanço das forças hegemônicas do capital, como diz o professor Ricardo Antunes, abriram um período de “devastação” de direitos. Toda a unidade de ação nesse momento é muito importante, mas infelizmente dentro da esquerda socialista brasileira há posições políticas cheia de boas pretensões mas que lamentavelmente reforçam e ajudam a extrema direita nesse momento. A posição das organizações que são indiferentes ao julgamento de Porto Alegre ou que estão a favor da condenação de Lula é um escandaloso equívoco.

    Destaca-se entre as mais variadas organizações ultra-esquerdistas, as contraditórias posições políticas do PSTU, organização trotskista importante no cenário político sindical brasileiro, que hoje dirige a CSP-Conlutas. Esse partido se posicionou favorável ao impeachment de Dilma caracterizando que não houve um golpe no país e agora recentemente publicou textos favoráveis a condenação de Lula. O mais grave é que publicam tais posições atacando toda a esquerda socialista.
    O curioso é que não fazem autocrítica de posições que vão completamente na contra mão do que estão defendendo hoje. Senão vejamos:

    Declaração da Liga Internacional dos Trabalhadores sobre o golpe que derrubou o presidente Lugo no Paraguai em 2012:

    “O golpe de Estado reacionário, impulsionado pela direita tradicional paraguaia, que derrubou Fernando Lugo no dia 22 de junho com um julgamento político relâmpago instrumentado no Parlamento, é parte de um rico processo político que oferece lições fundamentais ao movimento social e à esquerda mundial.”
    (link)

    Sobre a defesa pública do mandato da deputada Janira do Psol em 2013:

    “No entanto, frente às informações disponibilizadas até este momento e amplamente divulgadas pela mídia, não podemos deixar de manifestar nossa opinião frontalmente contrária à verdadeira campanha desencadeada contra a deputada por alguns de seus pares na ALERJ e por setores da mídia. Trata-se da uma campanha a serviço da defesa da cassação do seu mandato em função de informações de que ela teria usado recursos de um sindicato – o SNDSPREV/RJ – em sua campanha eleitoral.”
    (link)

    Sobre o processo de condução coercitiva que Lula sofreu em março de 2016:

    “O poder judiciário não é imparcial, não. Serve aos interesses dos que controlam a riqueza do país. Isso vale para o STF, STJ, TST, e para a MP. Vale também para o juiz Sergio Moro (quando decidiu pela condução coercitiva de Lula) e para o procurador Cassio Conserino com seu patético pedido de prisão do ex-presidente. Estão agindo por motivações políticas e não jurídicas. Desrespeitaram sim, os direitos individuais de Lula, e isso precisa ser repudiado”.
    (link)

    As posições publicadas acima são absolutamente contraditórias em relação as que essa organização publicou a favor do impeachment de Dilma, bem como também a favor da condenação sem provas de Lula. O que mudou? Só se pode explicar tais posições pelo giro sectário e auto proclamatório que se aprofundou no último período e que junto com outras organizações ainda mais ultra esquerdistas são hoje um obstáculo importante para a luta por direitos democráticos no país. Confunde a vanguarda e os trabalhadores, tentando desenhar um país onde está tudo normal politicamente e que lutar por direitos democráticos no caso do golpe de Dilma e no caso do julgamento de Lula, é uma mera capitulação. O fato de o PSTU repudiar a condução coercitiva de Lula, se posicionar contra o golpe de Lugo e defender o mandato de Janira contra uma cassação injusta foram posições principistas em defesa de direitos democráticos preservando sua independência política, ou seja, uma posição correta. Que lamentavelmente foi abandonada… Porque agora defender o direito de Lula ser candidato sem prestar nenhum apoio ao projeto petista se trata de uma capitulação?

    No interior do PSOL também há correntes que estão contra defender o direito de Lula ser candidato, defendendo a condenação. Destaca-se a CST (Corrente Socialista dos Trabalhadores), que também pensa que defender direitos democráticos de Lula é o mesmo que capitular politicamente ao petismo. Nesse raciocínio pobre de dialética, não seria coerente que os camaradas fizessem uma auto crítica de suas posições na Argentina? Em dezembro do ano passado a corrente irmã da CST na Argentina publicou uma nota defendendo os direitos democráticos de Cristina Kirchner e outros dirigentes kirchineristas contra ações do poder judiciário daquele país. Em nota publicaram:

    “O juiz federal Claudius Bonadio ordenou a prisão de vários Kirchneristas e pediu o impeachment de Cristina Fernandez de Kirchner. Além das profundas diferenças que temos com eles, rejeitamos essa manobra pelo governo Macri e seus juízes cúmplices.”
    (link)

    Estariam os camaradas da CST/UIT capitulando ao Kichnerismo na Argentina? Nós pensamos que não, tiveram uma posição correta em defesa de liberdades democráticas sem prestar apoio aos Kirchineristas. O que está completamente equivocado é a postura ultraesquerdista dos camaradas da CST no Brasil em relação ao julgamento de Lula.

    É preciso que as organizações da esquerda socialista que nesse momento apresentam uma postura sectária e ultra esquerdista revejam essa posição, caso contrário poderá ser tarde demais. O crescimento de organizações e figuras públicas da extrema direita é um sinal que ganha terreno no imaginário social posições semi fascistas e que podem ter consequências ainda mais graves contra todo movimento, inclusive contra as organizações revolucionárias.

    Não queremos destacar aqui somente as posições da esquerda brasileira que julgamos estar completamente equivocadas na atualidade da luta de classes no país. É preciso reconhecer que há outras organizações da esquerda socialista e revolucionária no país que tiveram no último período inflexões progressivas e que corretamente mudaram suas posições em relação ao golpe. Saudamos a posição dos camaradas do MES (corrente interna do Psol), que recentemente publicaram uma nota sobre o julgamento de Lula:

    “Se a saída de Dilma foi defendida com um argumento casuístico – o crime das supostas “pedaladas fiscais” –, o setor da burguesia que apoiou o golpe parlamentar não teria dúvidas em fazer o mesmo com Lula apenas mudando os atores, do legislativo para o judiciário, para tirar da disputa eleitoral aquele que aparece nas pesquisas como o favorito no primeiro turno. Desse modo, seria mais fácil organizar melhor seu arranjo eleitoral, uma dificuldade evidente para a burguesia que não está unida em torno de um nome e de um projeto viável.No entanto, essa posição não significa inocentar Lula. Nossa posição é que sua defesa como candidato deve ser feita de forma independente de qualquer juízo político ou moral. Não será dos tribunais que se criará uma saída para o impasse político a que a casta arrasta o país.”
    (O 24 de janeiro e a nossa política, janeiro 2018)

    Corrigiram a política e isso é sinal de vida na esquerda socialista no qual queremos reivindicar. Parabenizamos os(as) camaradas do MES por essa inflexão progressiva, passando a caracterizar o impeachment como golpe parlamentar e acertadamente defendendo os direitos democráticos de Lula, sem dar nenhum apoio político ao mesmo.
    Tal posição principista e acertada também tem sido compartilhada por várias correntes do Psol como também pelos(las) camaradas do PCB, e nesse sentido também saudamos e nos colocamos a disposição de construirmos juntos essa luta nas ruas.

    O oportunismo eleitoral…
    É preciso alertar que essas posições sectárias na esquerda brasileira são doenças infantis que devemos combater, mas pela pequena influência política dessas organizações não são ainda nossos grandes problemas. A esquerda moderada reformista hegemônica hoje liderada pelo PT tem desenvolvido uma política que segue apontando a conciliação como caminho. A direção majoritária do PT e da CUT não leva a luta pelo Fora Temer e contra suas reformas até as últimas consequências, desmarcaram a greve geral e estão dispostos a construir alianças eleitorais e programáticas com setores golpistas da direita brasileira. Sabemos que muitos ativistas e correntes internas do PT não concordam com essa política e somos solidários a esses companheiros. Mas pelo peso e influência do PT no movimento de massas, não podemos deixar de destacar suas grandes responsabilidades na luta de classes em nosso País.

    A postura hegemonista da direção do PT em transformar os atos em defesa de direitos democráticos em campanha de apoio a Lula presidente 2018 impossibilita e enfraquece a unidade de ação. Quase todos os atos que estão ocorrendo pelo país não tem espaço para que outras organizações políticas possam se expressar sem se comprometer com a candidatura de Lula. Uma das exceções é o ato de São Paulo que, através da forte presença da Frente Povo Sem Medo, do MTST e de Guilherme Boulos, abriu condições para uma verdadeira unidade de ação.

    A recusa da direção do PT a convocar toda a sua base social para construir uma forte mobilização e uma greve geral para derrubar Temer e suas reformas vai ajudar a pavimentar o caminho para os golpistas concluírem o serviço. Não existe nenhuma possibilidade de revertermos a ofensiva da direita contra direitos sociais e democráticos sem radicalizarmos a mobilização pela via da ação direta das massas. É uma ilusão completa apostar tudo no caminho das eleições para presidente.

    Lula, a direção do PT e da CUT precisam convocar imediatamente uma jornada de lutas por direitos sociais e democráticos numa ampla unidade de ação com as centrais sindicais e movimentos sociais, sem impor a candidatura de Lula a nenhuma organização. Pois como todos nós sabemos, Lula presidente não é consenso na esquerda brasileira.

    O Psol e a necessidade de superação do petismo…
    Não podemos confundir apoio político com defesa de direitos democráticos. Para sermos consequentes é absolutamente necessário defender o direito de Lula ser candidato, mas permanecermos firmes na luta contra o governo Temer e suas reformas e ao mesmo tempo lançar uma candidatura à presidência da República. Tal candidatura precisa expressar a denúncia contra o golpe, contra os ataques aos direitos dos trabalhadores, apresentar um programa que se enfrente com o capital e que dialogue com os trabalhadores e todos os setores oprimidos combatendo o avanço da ultra direita. Fazendo um chamado a toda esquerda socialista, aos partidos, organizações que não capitularam ao Lulopetismo, aos movimentos sociais que estão contra a conciliação de classes e a todo o ativismo para construirmos uma frente de esquerda e socialista que abra as condições para um novo caminho para esquerda brasileira que supere os erros da experiência petista que com certeza tem seu grau de responsabilidade para termos chegado onde chegamos.

  • Nota da Frente Povo Sem Medo: “Em defesa da democracia e do direito de Lula ser candidato”

    A Frente Povo Sem Medo defende o direito democrático de Lula ser candidato. Entendemos que sua condenação é política. É um momento decisivo do golpe. O impedimento da candidatura de Lula retira do povo sua soberania, e explicita a politização do judiciário. A defesa dos direitos democráticos é tarefa de toda a esquerda. Condenar Lula sem provas é golpe!

    Por isso estaremos presentes nos atos do dia 24. Orientamos nossa militância a participar das manifestações nos estados e estar presente nas mobilizações nacionais de Porto Alegre e São Paulo.

    A defesa do direito de Lula ser candidato é um dever democrático, independente de concordar ou não com suas posições. Não se confunde com apoio eleitoral. Entendemos que é preciso um programa radical, sem alianças com os golpistas, de reformas estruturais e enfrentamento dos privilégios do andar de cima. A plataforma Vamos aponta nessa direção, com uma proposta construída pelos movimentos sociais e ativistas.

    2018 se inicia com resistência. Resistência democrática contra a perseguição judicial a Lula e resistência às tentativas de retomar a aprovação da reforma da previdência no Congresso Nacional. A unidade na luta contra o golpe é a unidade pelos direitos democráticos e pelos direitos dos trabalhadores. O Povo Sem Medo está comprometido e mobilizado neste caminho!

    São Paulo, 18 de Janeiro de 2018

    Frente Povo Sem Medo

  • O Globo usa de má-fé ao atacar aposentadoria dos petroleiros

    CARTA ABERTA DO SINDIPETRO-RJ AO JORNAL ‘O GLOBO’

    Em editorial publicado nesta segunda-feira (15/1), intitulado ‘Socializar Prejuízos’, o jornal O Globo defendeu, distorcendo completamente os fatos, que trabalhadores de estatais sejam obrigados a cobrir os déficits de seus respectivos fundos de pensão, como se os empregados da Petrobrás, do Banco do Brasil e da Caixa Econômica fossem privilegiados. A verdade, porém, é bem diferente. Vejamos.

    1 – Se os petroleiros recebem suplementação de aposentadoria pela Petros é porque contribuíram durante toda a sua vida laboral para a Fundação, conforme as regras estabelecidas no momento em que ingressaram na empresa. Atualmente, essa contribuição é de 14,6% da remuneração bruta. Como se pode falar em privilégio numa situação dessas? Acaso não é justo que os petroleiros recebam, quando da aposentadoria, a suplementação a que têm direito e pela qual pagaram durante décadas de atividade?

    2 – Quando afirma que os fundos de pensão são ‘deficitários’, o Globo omite dos leitores as reais causas das dificuldades financeiras vividas por esses fundos. No caso da Petros, não menciona o fato de a Petrobrás não ter cumprido a sua parte, gerando uma estratosférica dívida com a Fundação, cujo déficit atuarial gira em torno de R$ 27 bi. Déficit que a gestão Parente agora quer jogar, em parte, sobre os petroleiros, por meio de um injusto equacionamento do Plano Petros 1.

    3 – A má-fé de O Globo é ainda patente por não lembrar que a situação financeira de muitos fundos se agravou por conta do uso político de seus investimentos. O que não é (e nunca foi) culpa dos trabalhadores, mas de gestores irresponsáveis.

    4 – O Globo também questiona, de forma leviana, o caráter vitalício das aposentadorias nos fundos de pensão. Ora bolas. Aposentadoria, como já dissemos, não é privilégio. É direito adquirido e só faz sentido se for vitalícia. Aposentadorias que não são vitalícias são investimentos, não aposentadorias. Para O Globo, toda previdência é apenas uma mercadoria, e não uma política social fundamental.

    5 – Ao invés de atacar os trabalhadores de estatais que recebem seus proventos dos fundos de pensão, o jornal deveria é questionar o escandaloso ‘acordo’ feito recentemente pela direção da Petrobrás (gestão Pedro Parente) com investidores dos EUA, por meio do qual a empresa concordou em pagar a inacreditável soma de U$ 3 bilhões de dólares a título de ‘indenização’ por supostos ‘prejuízos’ àqueles especuladores. O pagamento desta soma absurda vai com certeza impactar negativamente o caixa da Petrobrás, reduzindo a capacidade de investimento da empresa.

    6 – Como entidade representativa dos petroleiros do Rio, o Sindipetro-RJ sempre denunciou (e continuará denunciando) eventuais desmandos na Petros e na Petrobrás, separando o joio do trigo e não abrindo mão, em hipótese alguma, de defender o legítimo direito dos trabalhadores a aposentadoria. Uma simples pesquisa pela internet já mostraria ao autor do texto as dezenas de ações de denúncia feitas nos últimos anos. O que só reforça a má-fé da argumentação.

  • R$ 4,70 NÃO! O ano de 2018 começou com luta em Campinas (SP)

    Nesta quinta-feira (10) aconteceu o primeiro ato contra o aumento das passagens na cidade de Campinas, interior de São Paulo. A manifestação contou com cerca de 400 pessoas, e  unificou a luta contra o aumento da tarifa com a pauta de reivindicações dos servidores municipais.

    Por Rodolfo Moimaz, de Campinas

    Servidoras e servidores municipais de Campinas terminaram o ano de 2017 lutando em atos com a participação de centenas de trabalhadores, Um dos principais protestos foi na frente da casa do prefeito Jonas Donizetti (PSB), que não pagou o salário de dezembro e nem parte do 13° aos aposentados.

    Como se esses abusos não bastassem, a prefeitura anunciou o aumento da passagem de ônibus para R $4,70, mantendo Campinas como uma das cidades com a passagem mais cara e um serviço ridículo.

    A defesa de Jonas com o punhado de famílias proprietárias das empresas de ônibus é indecente. Vale lembrar que a prefeitura está metida em outras denúncias, como a tentativa de embolsar o dinheiro da Previdência dos servidores, o escândalo do desvio de verbas do Hospital do Ouro Verde – sob administração de uma empresa terceirizada -, o fechamento das UPAs da cidade, dentes outras falcatruas.

    Transporte não é mercadoria. R $4,70 não!

    Passe – livre Já!

    Jonas, pague servidores e aposentados!

    Estatização do transporte público