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  • Privatizar a Eletrobras é um crime contra o Brasil

    Quadrilha do MDB quer, mais uma vez, entregar o patrimônio público

    Por: André Freire, colunista do Esquerda Online

    Em um vídeo ridículo de 18 segundos, publicado nas redes sociais, o presidente ilegítimo Michel Temer assinou decreto que inclui a Eletrobras no Programa Nacional de Desestatização. O decreto ainda deverá passar por aprovação no Congresso Nacional, onde já funciona uma comissão que discute mais essa privatização de um setor estratégico da nossa economia.

    A intensificação da política de privatizações é uma das principais medidas desse governo entreguista. Infelizmente, os governos do PT não interromperam as privatizações, sobretudo seguiram realizando – e até ampliaram – os leilões das reservas de petróleo e do pré-sal. Após o golpe parlamentar, o que vemos é uma política radicalmente privatista do atual governo.

    As privatizações de empresas estratégicas do setor energético afetam profundamente a nossa economia e a soberania nacional.

    O último apagão demonstra mais uma vez que a privatização está longe de ser um sinônimo de eficiência. A pane foi gerada por má operação de empresas privadas que já estão dominando o setor.

    Vender a Eletrobrás acabará trazendo prejuízos incalculáveis à economia nacional e à maioria da população. A privatização da área de transmissão de energia gerou também um processo de aumento astronômico nas tarifas, o que poderá piorar ainda mais com a privatização da Eletrobras.

    Como sempre nas privatizações, perde o Brasil e o povo brasileiro.

    Moreira: a raposa tomando conta do galinheiro
    Temer vai dar mais uma demonstração inequívoca de que seu governo ilegítimo representa um grande perigo contra o nosso país. A assinatura desse decreto, que abre oficialmente o processo de privatização da Eletrobras, acontece na mesma semana que Moreira Franco assumiu o ministério de Minas e Energia.

    Moreira é um conhecido entreguista. Sempre foi um dos articuladores da politica de privatização na era tucana de FHC e nos governos estaduais da velha direita, no Rio de Janeiro. Está acusado de corrupção em vários processos ilícitos, inclusive por receber propinas da Odebrecht.

    Colocar na mão de Moreira Franco a privatização de uma importante estatal como a Eletrobrás revela-se um completo absurdo. Por isso mesmo, a bancada de deputados dederais do PSOL acabou de entrar com uma Ação Popular contra a presença de Moreira no Ministério que está responsável pela política de privatização do setor energético brasileiro, fato que coloca em grave risco à moralidade pública.

    Organizar a resistência
    No último dia 16 de abril, os trabalhadores do setor elétrico já realizaram um dia nacional de luta e paralisações, segundo a Federação Nacional dos Urbanitários (FNU), com forte adesão da categoria.

    A mobilização dos urbanitários é um primeiro passo muito importante, mas precisa ser ampliado. Barrar a privatização da Eletrobras tem que ser uma luta de todo o povo brasileiro e deve ser assumida por todas as entidades e movimentos da classe trabalhadora.

    As centrais sindicais, os partidos de esquerda, os movimentos sociais combativos devem realizar uma campanha unificada contra a privatização da Eletrobras.

    A síntese programática da ‘Plataforma Vamos’, referência para a discussão do programa da campanha presidencial de Guilherme Boulos e Sonia Guajajara (MTST-PSOL-PCB), já tem um compromisso firmado: acabar com as privatizações e rever as realizadas anteriormente, principalmente em setores estratégicos para a economia nacional, como o setor energético brasileiro.

    Foto: EBC

  • Sobre Aécio Neves e a natureza da Lava Jato

    Tucanos entregam os anéis para preservar os dedos

    Por: André Freire, colunista do Esquerda Online

    Na última terça-feira, dia 17 de abril, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) aceitou denúncias de corrupção e obstrução de justiça contra o Senador Aécio Neves (PSDB-MG). Não há dúvidas sobre o envolvimento de Aécio com escândalos de corrupção, especialmente com repasses milionários para suas atividades políticas ilícitas. Ele é denunciado por executivos tanto da Odebrecht, como da J&F. Só do empresário Joesley Batista ele teria recebido R$ 2 milhões.

    Aécio se apresentava sempre como um árduo defensor do combate à corrupção. Assim foi, por exemplo, na sua campanha presidencial em 2014. Mas, tudo não passava de uma grande mentira, afinal gravações revelaram seu envolvimento direto nos esquemas de financiamento fraudulentos de campanhas. Inclusive, com aquele famoso áudio em que Aécio chega afirmar que, se fosse necessário, poderia até mandar matar quem fizesse delações premiadas.

    A situação do Senador mineiro é tão grave que, mesmo seus amigos do PSDB estão buscando se descolar do ex-presidente dos tucanos. Alckmin, candidato do PSDB à Presidência da República já declarou que o ideal é que Aécio não seja candidato nas próximas eleições.

    É sempre bom lembrar que Aécio está ainda sendo indicado no STF. Esse processo pode durar anos, e seus amigos ministros, principalmente Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, estarão sempre apostos para tentar salvá-lo.

    Justiça imparcial?
    O simples indiciamento de Aécio já foi usado por setores da direita golpista, como MBL, apoiadores esfuziantes da Operação Lava Jato, para comemorar a imparcialidade da Justiça brasileira no combate à corrupção.

    Infelizmente, setores da esquerda brasileira entraram no mesmo “canto da sereia”, saindo nas redes sociais com a mesma comemoração, defendendo que agora serão presos todos os corruptos. Ledo engano! O indiciamento e a prisão de políticos dos partidos burgueses, como MDB e PSDB, não demonstram, de forma nenhuma, uma imparcialidade da Justiça. Ao contrário, o que vemos é a prisão e indiciamento de figuras que já não são úteis para os interesses dos ricos e poderosos.

    Por exemplo, Eduardo Cunha (MDB-RJ) foi preso só depois de ter dirigido o trabalho sujo do golpe parlamentar do Impeachment. Hoje está preso, em total desaparecimento.

    Sérgio Cabral e grande parte de sua máfia do MDM-RJ foram presos depois de estarem fora do Governo do Estado do Rio de Janeiro. Mas, seu braço direito, Pezão, segue como governador fantoche, mas sequer é ameaçado de perder o cargo e ser preso.

    Agora, Aécio vira réu no STF. Mas, o candidato a presidente da República pelo PSDB, ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, sequer é seriamente investigado pelos escândalos das obras superfaturas do metrô paulista.

    As grandes empresas, especialmente as empreiteiras, que financiaram de forma ilícita os políticos corruptos, de praticamente todos os partidos, seguem operando no mercado, apenas pagando acordos de leniência, que diante de seus lucros astronômicos se revelam apenas um preço pequeno a ser pago por seus crimes contra os interesses do povo trabalhador.

    Nenhuma confiança no Poder Judiciário
    Na verdade, a Justiça brasileira demonstra a cada dia que tem lado nessa história. Segue protegendo os interesses das grandes empresas e bancos, e dos políticos que governam de acordo com os interesses dos ricos e poderosos.

    Querem usar estes processos e prisões, na verdade, para legitimar o golpe parlamentar e a prisão sem provas de Lula.

    Não apoiamos em nada o projeto político do PT de alianças com os partidos da velha direita e aplicação de um plano de governo que não rompeu em nada com o andar de cima.

    Mas, é evidente que a Lava Jato, o STF e a maioria do Judiciário têm atuado de forma parcial e seletiva, priorizando a condenação sem provas de Lula, sua prisão e o impedimento da sua candidatura nas próximas eleições, enquanto os políticos principais do PSDB, DEM, MDB, seguem operando suas falcatruas e atuando sempre contra os interesses da maioria da população.

    Todos eles apoiam as reformas reacionárias, o ajuste econômico e uma saída política ainda mais conservadora para a crise política brasileira.

    Estamos na luta pela libertação de Lula. Mas, ao mesmo tempo, defendemos nova alternativa política de esquerda, socialista e do povo trabalhador, com as candidaturas de Guilherme Boulos e Sonia Guajajara para a Presidência da República.

    Para defender nossos direitos, derrotar o golpe parlamentar e combater a corrupção de verdade não existem “atalhos”. Não podemos acreditar que logo essa Justiça elitista e antipopular vai combater a corrupção. Só uma ampla mobilização unitária do povo trabalhador, da juventude e do conjunto dos oprimidos e explorados pode colocar em xeque os grandes esquemas de corrupção, que envolvem as grandes empresas e os políticos dos partidos tradicionais.

    Foto: Wilson Dias/Agência Brasil
  • Bolsonaro e a desmoralização da cidadania

    Por: Gleide Davis, colunista do Esquerda Online

    2018 tem sido um ano conturbado já no seu início. Sendo um ano de eleições, a tendência é que a correlação de forças se mostre cada vez mais latente. Isso também se revela pelo fato de que o ano passado foi marcado por diversos retrocessos aos poucos direitos conquistados pelos trabalhadores, mulheres, pessoas negras e oprimidas de forma geral.

    Nessa brincadeira de cabra cega que tem sido a política nacional, Bolsonaro e a ditadura militar representam o mesmo lado da corda. Grandes marcadores da ignorância, do fascismo e da violência, que tentam se esconder se apoiando em apelos populares como a corrupção, a moral religiosa e o patriotismo. Entretanto, na realidade, nada do que ele se apoia, se sustenta de fato.

    Um candidato que se mostra indiferente ao genocídio da população jovem e negra, pois, para ele, a população “de bem” deve andar armada para combater a violência de forma eficaz. Sabemos quem Bolsonaro considera como população de bem e sabemos que, para ele, jovens negros amarrados em postes, representam a união da sociedade cansada de ser roubada. Bolsonaro subalterniza a cidadania de pessoas negras adolescentes. Para ele, essas são pessoas de quinta categoria, que merecem morrer porque furtaram. Não se questiona a pobreza, a falta de oportunidade, a desigualdade social e o inchaço do desemprego no país como despontador da violência.

    Bolsonaro ainda julga justo que mulheres ganhem menos, ainda que trabalhem sob a mesma carga horária que um homem, sob a justificativa de que mulheres engravidam, então rendem menos. Isso não tem qualquer apoio científico para justificar tal afirmação. Ele também é um forte apoiador de empresas que queiram fatiar a Petrobras em mil pedaços, retirando-a da posse do nosso país. Ora, não seria ele um candidato que se orgulha de ser patriota? Quem Bolsonaro considera digno de cidadania e respeito de fato, num país em que mais de 50% da população é feminina e, ou negra?

    Se um candidato se julga um grande defensor do “cidadão”, mas exclui a maior parcela da sociedade brasileira do que ele julga ser “de bem”, ele não só se contradiz com o que julga ser correto, como não consegue mascarar seu discurso excludente e fascista, demarcado por seus interesses pessoais e manipuladores de ideais que subjugam qualquer pessoa que não seja branca, homem e dono de grandes empresas que possam lucrar com a venda da floresta amazônica, por exemplo. Projeto o qual o mesmo defende com unhas e dentes.

    Precisamos do poder da consciência para apontar as contradições de alguém que julga defender muito, mas não consegue lutar por nada que esteja longe do seu próprio umbigo. Bolsonaro não representa ninguém de fato, ele apenas utiliza seu pequeno eleitorado como fantoche para tentar ter poder o suficiente para impor um coronelismo doentio que desmoraliza e ridiculariza a cidadania.

    Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil
  • Dez observações rápidas sobre a pesquisa DataFolha de 15 de abril

    Valério Arcary, de São Paulo (SP)

    As aparências enganam
    (Sabedoria popular portuguesa)

    Já são 20 pré-candidatos à Presidência em 2018. A lista deve diminuir em função de acordos para coligações, mas, por enquanto, é grande. Os critérios para a classificação dos candidatos são, evidentemente, polêmicos. De forma sumária, podemos dizer que se situam na extrema direita: 1. Bolsonaro (PSL) Partido Social Liberal; 2. Levy Fidelix (PRTB). No espaço da direita com um programa econômico-social liberal radical: 3. João Amoêdo (Novo); 4. Flávio Rocha (PRB); 5. Paulo Rabello de Castro (PSC); 6. Henrique Meirelles (MDB); 7. Fernando Collor de Mello (PTC). Na centro-direita conservadora: 8. Geraldo Alckmin (PSDB); 9. Rodrigo Maia (DEM); 10. Álvaro Dias (Podemos); 11. José Maria Eymael (PSDC). No centro, ou talvez em órbita do centro: 12. Marina Silva (Rede). Na centro-esquerda: 13. Ciro Gomes (PDT); 14. Joaquim Barbosa (PSB);15.Aldo Rebelo(Solidariedade). Na esquerda moderada ou reformista: 16. Haddad, ou outro nome do PT; 17. Manuela D’Ávila (PCdoB); 18. João Vicente Goulart (PPL), ou Pátria Livre. Na esquerda radical: 19. Guilherme Boulos (PSOL); 20. Vera Lúcia (PSTU).

    Ao que parece, o PCO e o indefectível Rui Pimenta ainda não decidiram se irão apresentar uma candidatura. Provavelmente, sim. Potencialmente poderão ser, portanto, 21 candidatos, embora improvável.

    A primeira evidência é que não existem vinte e um projetos políticos diferentes, portanto, a maioria destas vinte candidaturas não corresponde a vinte programas, e se explicam por outras razões. Uma enorme parte delas é social e politicamente artificial.

    A segunda evidência é que esta pulverização de candidaturas é momentânea, e devermos assistir a negociações que poderão ou não resultar em coligações. Quem entre os pré-candidatos irão desistir? Serão quatro os critérios principais, na tradição da política burguesa no Brasil: (a) peso da biografia ou trajetória e força da representação social, ou seja, organicidade das relações de classe; (b) força do partido, ou seja, implantação nacional, candidaturas a governadores, possibilidade de eleição de senadores e deputados federais; (c) recursos financeiros, em especial, para o marketing; (d) tempo de televisão e rádio.

    Considerada a atual relação social de forças estamos em situação defensiva, embora não tenha acontecido uma derrota histórica como em 1964. Em que medida esta situação política desfavorável irá se expressar na votação de outubro dependerá de uma luta político-social terrível. Uma luta pela consciência de cem milhões de eleitores que terá consequências graves. Na verdade, as eleições de primeiro turno são, neste momento, imprevisíveis. Isto posto, dez observações rápidas sobre a pesquisa DataFolha publicada em 15 de abril:

    1. É possível que nem o PSDB, nem o PT cheguem ao segundo turno. Nas últimas seis eleições presidenciais, em 1994, 1998, 2002, 2006, 2010, e 2014, um intervalo de um quarto de século, prevaleceu um padrão de alternância entre dois campos políticos: PSDB e PT. Ele pode se repetir, mas o segundo turno está em aberto e pode ser, também, entre outros candidatos.

    2. À excepção de Lula, nenhum candidato tem lugar garantido no segundo turno, e é possível, senão provável que uma votação um pouco inferior a 20% seja suficiente para colocar os dois candidatos melhor colocados no 2º turno. Lula não perdeu influência com a prisão, ao contrário, conquistou simpatia com a tática de “martirização”, inspirada no episódio da prisão de Chavez, e diminuiu sua rejeição. Já foi confirmado, em 2010 e 2014, um padrão de transferência de votos. Mas colocar Hadadd ou outro candidato do PT, no segundo turno, vai ser uma façanha difícil. Lula estará dentro de uma prisão. Mas é, sem comparação, a liderança mais influente no país. A defesa de seu governo terá muita audiência, quando em comparação com os últimos dois anos de goveno Temer. E qualquer candidato contra Bolsonaro tende a ser favorito em um segundo turno.

    3. Surgiu uma extrema-direita com influência minoritária de massas, mas que já mantém relações de confiança com círculos minoritários da burguesia. A pesquisa revela uma consolidação do voto no neofascismo entre aqueles com renda mensal superior a dez salários mínimos. Vai ser necessária uma luta dura para que uma candidatura de centro-direita consiga impedir que Bolsonaro chegue ao segundo turno, em especial se conquistar o apoio de igrejas evangélicas. Uma parcela da votação acaudilhada, historicamente, pela candidatura do PSDB migrou. Bolsonaro terá somente quinze segundos de cada bloco de 12 minutos e meio de propaganda (serão seis blocos por semana, durante 35 dias de campanha). Mas com dez deputados do PSL Bolsonaro vai poder participar de debates na televisão. Já existe uma investigação da PGR que o criminaliza, mas não é ainda perceptível se será suficiente para desinflar sua expectativa de votação. Talvez sim, talvez não.

    4. Alckmin é a candidatura mais orgânica da classe dominante, em especial de sua fração paulista. Este é o seu principal trunfo. Representa o projeto de levar até o fim o ajuste fiscal do Estado para atrair capitais estrangeiros e voltar a crescer. Mas se situa embolado no segundo pelotão, neste momento, apesar de ser conhecido por 85% dos eleitores do país. Terá que buscar alianças maiores para desobstruir o caminho. Ambiciona uma frente com o DEM de Rodrigo Maia, o PSD de Kassab, o PTB de Roberto Jefferson e Campos Machado, o PPS de Roberto Freire, e o Solidariedade de Paulinho da Força Sindical. Com essas siglas, o tucano ocuparia 4min27s de cada bloco da propaganda, pouco mais do que um terço do espaço total. As negociações são por ora inconclusivas, mas envolvem, também, Álvaro Dias, e o próprio MDB. Porque a pesquisa Data Folha confirmou que nem Temer nem Meirelles têm um mínimo patamar de votação competitiva.

    5. Alckmin deverá pressionar, também, os candidatos do liberalismo radical que defendem o mesmo projeto, mas não têm, tampouco, votos: Amoêdo (Novo), Flávio Rocha (PRB), que é o Partido Republicano Brasileiro de Crivella, da IURD e de Edir Macedo, e Paulo Rabello de Castro pelo PSC (Partido Social Cristão). Além de Collor pelo Partido Trabalhista Cristão (PTC) que é o antigo Partido da Reconstrução Nacional (PRN)

    6. Ciro Gomes herdou uma parcela dos votos do PT, mas essa dinâmica não está consolidada, porque a máquina do PT ainda não está em movimento. Por outro lado, disputa o espaço de centro-esquerda com a candidatura de Joaquim Barbosa, que se posicionou contra o impeachment de Dilma, e é duplamente favorecida pelo seu papel no mensalão, e pela imagem de um homem negro que nasceu nas fileiras do povo, e não fez parte da “velha” política.

    7. Marina Silva se beneficiou da memória popular que se lembra de suas candidaturas em 2010 e 2014. Disputa o espaço do centro: nem de esquerda, nem de direita, contra a corrupção, e pela justica. Marina vive do recall, mas seu desempenho na luta e debate político é frágil. Um terço do eleitorado é muito fortemente “pró-Lula” e outro terço é muito “anti-Lula”. No um terço restante, Marina terá que disputar a votação moderada em condições difíceis, porque a Rede não tem capilaridade, seu tempo de TV e rádio será muito pequeno, e a maioria da classe dominante estará trabalhando para fazer de Alckmin o candidato da reconciliação nacional.

    8. Manuela D’Ávila obteve um bom desempenho porque desperta simpatia na juventude e entre as mulheres, mas pode retirar antes do fim do primeiro turno.

    9. Boulos expressa a luta social direta dos que não se dobram, nem se rendem, um povo sem medo. Representa um projeto independente da classe dominante e um programa radical de defesa das liberdades democráticas e dos direitos sociais do povo. Será porta-voz da reorganização da esquerda, diferenciando-se da candidatura do PT com a ideia chave de que não é possível “governar para todos”. Pontuou somente 1% porque é ainda pouco conhecido, mas é uma novidade como um líder popular de um movimento social autêntico; é muito inteligente e rápido e deve ganhar muito destaque nos debates; tem respeito entre os eleitores da esquerda, e a aliança do MTST com o PSOL pode abrir um caminho entre os trabalhadores organizados e na juventude com, provavelmente, a maior militância autêntica e engajada, e a intelectualidade de esquerda.

    10. O aumento de votos nulos e brancos é, por enquanto, circunstancial, e responde ao desgaste da forma partido provocado pela LavaJato, e a impossibilidade legal da candidatura de Lula. Não se deve concluir que haverá um boicote “espontâneo” ao processo eleitoral. Tudo sugere que o desenlace político do processo aberto pelo impeachment deve passar pelas eleições.
    Em resumo, a pesquisa foi uma foto antes de estarem definidos quais serão os times que vão entrar em campo, e qual a escalação. Tudo permanece imprevisível.

    Na Espanha a primeira divisão do campeonato de futebol, conhecida como a Liga tem vinte clubes, mas a competitividade reduziu, há décadas, a disputa a três: Barcelona, Real Madrid e Atlético de Madrid. Na Inglaterra são quatro: dois de Manchester, o United e o City, e dois de Londres, o Chelsea e o Arsenal. Na Itália são três: Juventus, Internazionale e Milan. Em Portugal são três: Sporting, Porto e Benfica. Na Argentina já é diferente, e são pelo menos cinco os grandes: Boca Juniors, Independiente, Racing Club, River Plate e San Lorenzo de Almagro. Isso sem considerar outros cinco como o Lanús, Rosário Central, Estudiantes de La Plata, Velez Sarsfield, Newell´s Old Boys, que podem ser competitivos. No Brasil são doze times. Quatro de São Paulo, quatro do Rio de Janeiro, dois de Minas e dois do Rio Grande do Sul. O Brasil é muito grande e muito complicado.

     

  • Trinta anos depois: a incerteza eleitoral e as comparações entre 1989 e 2018

    Valério Arcary, de São Paulo (SP)

    Não por muito madrugar amanhece mais cedo
    Nem todo o grão vai ao olho do moinho
    Pregar no deserto é sermão perdido
    (Sabedoria popular portuguesa)

    Duas previsões opostas, mas ambas catastrofistas, preocupam uma parcela da esquerda brasileira. A primeira é que as eleições poderiam não ocorrer, com um novo golpe. Não, as eleições deste ano permanecem imprevisíveis, mas vão acontecer. O golpe já foi feito. É verdade que serão as mais imprevisíveis desde 1989. Aqueles com menos de cinquenta anos nunca viveram nada parecido. Mas o núcleo central de poder nas altas esferas da classe dominante brasileira aposta ainda na preservação do regime eleitoral, ainda que subvertido por contrarreformas autoritárias como a crescente judicialização da política.

    A segunda é que, em função da gravidade da situação econômica, ou do impacto em prazos breves de um choque internacional, quando se inverter a atual fase de recuperação do ciclo econômico, devemos nos preparar para uma situação de potencial explosão social, com aquela que veio depois da eleição de Collor, quando da crise de 1991/92, um novo junho de 2013. Portanto, profetizam a rebelião.

    Só que isso não é tão, facilmente, previsível. Situações revolucionárias não se precipitam mais rápido porque são, sinceramente, previstas e agitadas por revolucionários honestos. O que coloca em movimento milhões de trabalhadores e jovens é um amadurecimento político, uma disposição de luta que depende, essencialmente, de uma experiência prática. E na atual conjuntura o que prevalece na consciência dos setores organizados do povo não é a revolta, mas a insegurança e perplexidade diante da degradação das condições de vida, depois de quatro anos de estagnação, desemprego e desvalorização salarial. Os humores poderão mudar e, certamente, mudarão. O problema é quando mudarão. Quem repete, incansavelmente, que é meio dia, acerta uma vez todo dia, mas erra todas as outras. Uma linha política deve responder ao tempo do presente, não à previsão de um futuro imaginário.

    Analogias históricas são sempre perigosas, porque tendem a acentuar as semelhanças e diminuir as diferenças. É compreensível, já que a busca de regularidades ou padrões responde à necessidade de previsões. Mas um marxismo sério exige rigor. Excessos de voluntarismo na ação são perigosos. Mas quando excessos de “entusiamo” contaminam a análise é muito grave. E duas diferenças imensas agigantam-se, quando pensamos em perspectiva 2018 olhando para 1989. A maior delas é que o país mudou muito. Muito mesmo. Além disso, a relação de social de forças agora é mais desfavorável. Na verdade, muito mais difícil.

    Entretanto, é um fator central da análise da conjuntura destacar que nas últimas seis eleições presidenciais em 1994, 1998, 2002, 2006, 2010, e 2014, um intervalo de um quarto de século, prevaleceu um padrão de alternância entre dois campos políticos: PSDB e PT. A crise no sistema partidário, um dos componentes do regime político, é muito grave, talvez, terminal. Podemos chegar a outubro, nas vésperas do primeiro turno sem que um destes partidos, ou mesmo os dois tenham condições de garantir presença no segundo turno. Eis um exercício rápido de comparação das eleições de 2018 e 1989 em seis variáveis:

    (a) situação econômica alimenta um profundo mal estar social: em 1989, a superinflação, e em 2018 o desemprego e o arrocho salarial; e dois governos ultra-desprestigiados, que não podem ser reivindicados sem prejuízos eleitorais irreparáveis. Em 1989, Sarney, em 2018, Temer;
    (b) a necessidade de uma política de choque de efeitos antipopulares, só que naquele momento contra a inflação, agora uma política de choque para atrair investimentos externos, que passa pela reforma da Previdência social, de longe a maior política social de distribuição de renda;
    (c) em 1989, a ausência de uma candidatura, eleitoralmente, viável nos partidos mais orgânicos e confiáveis para a classe dominante, como PSDB (Covas), PMDB (Ulysses), PFL (Aureliano Chaves) e PDS (Maluf). Ou seja, a fragilidade do sistema partidário de representação burguesa que surgiu ao final da ditadura. O que resultou na improvisação de um aventureiro com o discurso anticorrupção de caça marajás, Fernando Collor. Em 2018 teremos, provavelmente, Alckmin, Temer ou Meirelles, Rodrigo Maia, Alvaro Dias, Marina Silva e Ciro Gomes e, nas margens, João Amoedo e Flavio Rocha. Correndo “por fora” e “contra todos”, reivindicando a ditadura e “armas para todos”, o neofascista Bolsonaro;
    (d) em 1989, uma maioria da burguesia tranquilizada diante do protagonismo de Brizola (deu provas de “responsabilidade” ao defender a extensão de um ano de mandato para Figueiredo, durante a campanha pelas Diretas Já, enquanto o PT boicotou o colégio eleitoral que elegeu a chapa Tancredo Neves/ Sarney), e unificada contra a possibilidade de Lula chegar a um segundo turno; em 2018, uma mesma maioria se formou para impedir Lula de ser candidato, ou até mesmo poder fazer campanha para transferir votos, mas surgiu a candidatura Boulos/ Sonia Guajajara como embrião de uma reorganização da esquerda socialista, para além do PT;
    (e) uma altíssima imprevisibilidade de quem poderá chegar ao segundo turno e, portanto, o papel decisivo da mídia, em especial da Globo, mesmo considerando o perigo real das fake news pelas redes sociais;

    Isto posto, a seriedade exige que haja alguma coerência entre a análise da conjuntura, as caracterizações que decorrem da análise e a política. Quando consideramos que nossos inimigos estão fragilizados, arriscamos mais, tentamos avançar. Quando consideramos que estão fortalecidos, lutamos, defensivamente, para manter posições. O que não pode ser é ter uma política para avançar, se a situação piorou, ou manter táticas defensivas, se consideramos que a situação melhorou. Não pode ser. Não é racional. Política marxista tem que ser responsável.

    Há duas posições distintas em grau, porém, ambas equivocadas sobre a avaliação do regime político. Não percebem ou subestimam as mudanças reacionárias em curso. Cometem cinco erros de análise:

    (a) tergiversam sobre a criminalização do PT e de Lula pela operação LavaJato, como se estivesse em disputa uma renovação das tradições arcaicas do sistema político;
    (b) desconsideram o significado reacionário das maiores mobilizações de massas desde antes de 1964, lideradas por uma fração da burguesia em 2015/16, iludidos pela forma “democrática” da bandeira contra a corrupção, ignorando, com uma ingenuidade imperdoável, a fúria de classe e o ódio social que foram a combustão da explosão da classe média;
    (c) não compreendem que o impeachment de Dilma foi uma aberração jurídico-política, uma violação da ordem legal do próprio regime, um golpe encoberto pelo domínio de uma maioria parlamentar;
    (d) diminuem as sequelas provocadas pelo governo Temer;
    (e) e não vêem o perigo que o neofascista Bolsonaro representa como expressão de uma corrente com influência de massas, ainda que minoritária, mas com influência nos aparelho repressivo do Estado.

    Este é um bom debate, porque explica a existência de dois campos políticos dentro do Psol que se traduziram em duas candidaturas. Mas deve ser feito com alguma perspectiva histórica, e sentido das proporções.

    A longevidade de trinta anos do regime democrático-eleitoral consagrado na Constituição de 1988 teve fatores objetivos e subjetivos: pressão internacional a favor de regimes eleitorais nos países da periferia, em especial, na América Latina, depois das décadas de ditadura; fim da transição histórica do Brasil, majoritariamente, agrário, ainda nos anos cinquenta, para uma sociedade urbanizada e semi-industrializada nos anos oitenta; estabilização da moeda com índices inflacionários de menos de dois dígitos, inferiores a 10%; crescimento econômico, ainda que moderado; elevação do salário mínimo acima da inflação; ampliação do acesso de metade da população economicamente ativa ao crédito pela bancarização (eram 20%); expansão da fronteira agrícola; distribuição de renda pela previdência social, com o salário mínimo como piso; assistência social, em particular os programas de renda mínima focados; burocratização sindical, expectativas no lulismo.

    Quais entre estes fatores e, possivelmente, outros, não estão mais presentes? Aqui deveria começar uma discussão interessante. Mas não se faz assim. Faz-se com caracterizações impressionistas que só servem para incendiar ou assustar a militância. Enganam-se os que pensam que este regime está em crise terminal. E que, por isso, prevem que poderá não haver eleições em outubro. Há elementos de crise, mas teremos eleições. Enganam-se, também, aqueles que prevêm a iminência de uma explosão social contra todos, como em Junho de 2013. Estamos assistindo desde o final de 2016 uma relativa recuperação da influência do lulismo e do PT, desde que passaram à oposição.

    É verdade que um dos pilares do regime, o sistema partidário articulado em trono da alternância PSDB/PT está mais que debilitado. Está em frangalhos, ruindo, pela intervenção da LavaJato. Ainda não colapsou, mas pode cair. A possibilidade que nem PSDB, nem PT consigam chegar ao segundo turno é verdadeira. A alternância PSDB/PT pode não se manter.

    Mas, é possível, também, que a execução de Marielle e a prisão de Lula, estejam produzindo uma onda de impacto cujas consequências ainda são pouco claras. A operação de quadrilhas articuladas com frações das polícias no Rio de Janeiro na disputa do mercado de venda de drogas deixou de ser um drama de segurança pública, e mudou de qualidade: trata-se de milícias fascistas que matam lideranças populares. A prisão de Lula antes das eleições escancara a perseguição política, projeta Lula como um mártir e favorece uma recuperação do prestígio do PT.

    Portanto, a crise do sistema partidário não equivale à crise terminal da “Nova República”. A novidade perigosíssima é que surgiu uma corrente neofascista com influência de massas (com articulação forte no aparelho policial/militar e ramificações nas milícias clandestinas), por enquanto, minoritária, que desafia o regime defendendo, abertamente, a necessidade de uma ditadura.

    Em conclusão: uma parte da esquerda socialista, ainda que em graus diferentes, subestima os efeitos reacionários da LavaJato e da criminalização do PT e de Lula, mas, paradoxalmente, exagera a crise do regime, prevendo o fim da Nova República, apoiados na ilusão que o impulso de 2013 continua vivo, como se estivessemos em uma situação pré-revolucionária. Não, infelizmente, a situação aberta em Junho se fechou, e a ofensiva reacionária vem firme e forte desde 2015.

    Não obstante, é verdade que não ocorreu uma derrota histórica. A classe trabalhadora e seus aliados resistem, e há muitas forças intactas. Precisamos transformar a resistência em contraofensiva. Nesse combate todas as forças revolucionárias são necessárias, e devemos ter um pouco mais de paciência mútua e aprender a nos ouvir.

  • Lula livre e Boulos Presidente

    A importância de combinar a unidade para a luta com o fortalecimento de uma nova alternativa política de independência de classe

    André Freire, colunista do Esquerda Online

    A condenação sem provas de Lula, a sua prisão mesmo antes do encerramento dos recursos judiciais e o impedimento de sua candidatura nas próximas eleições são partes inerentes do golpe parlamentar iniciado com o impeachment de Dilma, em 2016.

    Não se trata de isentar de culpa Lula e a direção do PT pelo que estamos vivendo hoje. Os 13 anos de governos petistas, em aliança com os partidos da velha direita, aplicando um plano de governo que não rompeu em nada com o pacto com o “andar de cima”, abriu a possibilidade do golpe parlamentar. Nunca se pode esquecer: Temer era vice de Dilma, e a quadrilha do PMDB era parte do governo do PT.

    Infelizmente, parte da esquerda socialista acusa de capitulação ao PT quem defende a unidade de ação e a frente única de todos os setores da classe trabalhadora contra o governo de Temer, contra o golpe, a prisão de Lula e a defesa das liberdades democráticas e dos direitos sociais.

    Estão errados. O momento é de unidade. De unidade pra lutar. Sem disputa de protagonismos, sem deixar as grandes diferenças de lado, mas defendendo uma unificação sincera de todos os setores da classe trabalhadora, dos sindicatos, das centrais sindicais, movimentos sociais combativos, do movimento estudantil, dos que lutam contra as opressões e dos partidos de esquerda para resistir aos ataques que o povo trabalhador está sofrendo.

    Resistir aos ataques sociais e econômicos, como enfrentamos no programa do governo ilegítimo de Temer, com o seu famigerado ajuste fiscal e com as reformas constitucionais de cunho reacionário. Mas, resistir também aos ataques políticos, defendendo as liberdades democráticas.

    É preciso, de uma vez por todas, entender o que está se passando em nosso país. A brutal e revoltante execução da companheira Marielle (passado um mês, ainda sem nenhum responsável identificado), a intervenção federal e militar na segurança pública do Rio de Janeiro, a intensificação do extermínio do povo pobre e negro nas periferias brasileiras, a ampliação das leis de repressão, entre outras medidas, demonstram de forma cabal que existe uma escalada reacionária em curso, que propõe mudanças ainda mais conservadores no regime político brasileiro, sempre no sentido de estreitar as poucas garantias e espaços democráticos.

    A esse cenário preocupante, se soma a cada vez maior politização do poder judiciário, que hoje, através principalmente da Operação jurídico-policial da Lava Jato, visa apresentar uma saída seletiva e ainda mais conservadora para a crise política brasileira. Lula é preso ao mesmo tempo que políticos do PSDB são protegidos pela mesma justiça corrupta e decadente.

    E, se já não era suficiente, assistimos também os militares voltarem à cena política nacional. Não só com a intervenção militar no RJ, como também assumindo cada vez mais cargos importantes no governo Temer e interferindo diretamente na conjuntura, como nas declarações públicas do General Vilas Boas (transmitidas pela TV Globo), apoiada por outros generais, pressionando diretamente o STF para que não concedesse o Habeas Corpus para Lula.

    Todo esse cenário vem abrindo ainda maior espaço para ações de grupos de extrema-direita e até fascistas. Como vimos no ataque a uma atividade da campanha de Lula. A figura de Bolsonaro é a máxima representação tenebrosa deste pensamento ultra-reacionário, conservador e anti-povo trabalhador.

    Diante deste cenário: o que fazer? Ficar em casa?  Romper a possibilidade de unidade de ação dos movimentos da classe trabalhadora? Publicar notas contra a luta unificada, que são até saudadas por setores da direita golpista?

    O caminho é outro: a disputa política se dá nas ruas, mantendo intacta a nossa independência política de crítica, mobilizando e unificando a classe trabalhadora, e o conjunto dos explorados e oprimidos contra os ataques de Temer, da velha direita e da extrema-direita.

    Por isso, seguimos e seguiremos firmes na proposta da construção de uma ampla unidade de ação, uma frente única de luta e democrática para mobilizar os trabalhadores, a juventude e os oprimidos, que tenha como objetivo freiar o golpe, derrotar os ataques políticos, econômicos e sociais contra nosso povo.

     

    Candidato único da esquerda X nova alternativa de independência de classe
    Em um erro de sentido oposto daqueles que se negam a lutar juntos nas ruas contra a velha direita e a extrema direita, setores da antiga base de apoio dos governos do PT querem usar a nossa unidade de ação a serviço da repetição de seu projeto político de aliança com os chamados setores “progressistas” do grande empresariado, a velha direita e até alguns políticos e partidos que apoiaram o golpe parlamentar do impeachment, para aplicar um programa que não rompe de verdade com os interesses dos ricos e poderosos.

    Nossa proposta aponta em outra direção. Não queremos repetir os mesmos erros do passado, “VAMOS” apostar, e já estamos apostando, em uma nova alternativa política, sem alianças com os mesmos poderosos de sempre, que deve propor um programa anticapitalista, que rompa com os privilégios do 1% mais ricos, para atender as demandas e reivindicações mais sentidas da maioria da população brasileira.

    Nosso compromisso é com o fortalecimento da Frente Política e Social construída a partir do MTST, do PSOL, do PCB e de vários outros movimentos sociais combativos e organizações da esquerda socialista. É com essa bandeira e com essas propostas que estamos participando da luta unificada contra o golpe, os ataques aos direitos dos trabalhadores e as liberdades democráticas.

    Não temos medo de estar lutando ao lado daqueles que temos grandes diferenças políticas. Confiamos na nossa política e no nosso programa. E, com grande alegria, afirmamos que temos alternativa para as eleições: Guilherme Boulos e Sonia Guajajara para a Presidência da República – VAMOS, sem medo de mudar o Brasil!

    Um convite à esquerda

    Queremos discutir de forma franca, sem ataques desnecessários, que só atrapalham a nossa unidade. Queremos dialogar tanto com os setores da esquerda socialista que ainda se negam a participar da unidade de ação contra o golpe como também com aqueles setores da esquerda brasileira que ainda querem insistir no mesmo velho e fracassado projeto de conciliação de classes. O momento é grave, exige uma política justa.

    Em primeiro lugar, devemos estar dispostos à luta comum, pelas bandeiras que podem unificar e mobilizar a classe trabalhadora, a juventude e o conjunto dos explorados e oprimidos. O mês de abril nos oferece a oportunidade de voltarmos aos milhares às ruas. Mas, para isso, é necessário unidade de ação.

    Mas, com a mesma convicção que defendemos a luta unitária, queremos dialogar com todos e todas que querem uma nova alternativa política ao golpe, a velha direita e a extrema-direita. O momento é também de ousadia, de confiar no futuro, de apostar em novas alternativas.

    Esse é o convite que queremos fazer e renovar a todos os setores da esquerda socialista: vamos lutar juntos e de forma democrática e participativa construir uma nova alternativa de esquerda, anticapitalista, das mulheres, dos negros e das negras, dos LGBT´s, da juventude, enfim de todo o povo trabalhador.

    Vamos construir esta campanha juntos. VAMOS, sem medo de mudar o Brasil! Com Boulos e Guajajara para a Presidência da República!

  • Carta aberta a Tifanny Abreu: O MDB não te representa. Venha para o PSOL!

    Tiffany Abreu é jogadora de vôlei destaque da Superliga Feminina e a primeira jogadora trans a disputar o campeonato. No dia 6 de abril, ela filiou-se ao partido MDB (antigo PMDB) e estuda a possibilidade de concorrer como deputada federal. Acredito que esta decisão é um erro. Explico aqui as razões pelas quais acredito que a Tifanny não deve concorrer pelo MDB, mas sim, futuramente, pelo PSOL.

     

    Cara Tiffany,

    Você se tornou um símbolo para as pessoas trans. Ao lutar pelo seu direito de jogar vôlei num time feminino, você personificou a luta das mulheres e dos homens trans pelo direito ao esporte e pelo direito ao reconhecimento da nossa identidade de gênero. Sua candidatura teria, por isso, um significado especial para nós.

    O MDB não é um partido que defende pessoas trans

    Acredito que entendo as razões pelas quais você pensa na possibilidade de concorrer a deputada federal pelo MDB. O MDB é um partido popular, tem uma das maiores bancadas no Congresso e o maior número de prefeitos no país, portanto terá muito dinheiro para distribuir na campanha de suas candidaturas. Muitas pessoas escolhem esse partido para disputar uma vaga política por esse motivo.

    O MDB, por outro lado, lança muitas candidaturas desconhecidas tendo em vista acumular votos para sua legenda. Afinal, quanto mais votos o partido obtém de candidaturas diversas, maior será o número de eleitos no legislativo. Assim, o voto que iria para milhares de pessoas na verdade serve para garantir a eleição de alguns caciques.

    Infelizmente, assim como muitos outros partidos de direita, o MDB atua contra os direitos mais básicos da população trans. Isso se demonstra pela maneira como os políticos deste partido se posicionam acerca de diversos projetos municipais, estaduais e federais. Um exemplo disso foram as votações dos planos federal, estaduais e municipais de educação em todo o país, onde a vasta maioria dos políticos do MDB defendeu a retirada dos debates de gênero, identidade de gênero e orientação sexual. Os projetos conservadores nos parlamentos ganharam força com o golpe parlamentar de 2016, golpe liderado justamente pelo MDB.

    Outro exemplo: as câmaras municipais de Sorocaba (SP) e de Cariacica (ES) aprovaram leis proibindo pessoas trans de usarem banheiros públicos conforme sua identidade de gênero; em ambos os casos, os vereadores do MDB foram favoráveis aos projetos. Felizmente, uma decisão do STF decidiu pelo direito das pessoas trans utilizarem banheiros públicos conforme sua identidade de gênero.

    Na cidade do Rio de Janeiro, em agosto do ano passado, a então vereadora do PSOL Marielle Franco apresentou um projeto de lei pela visibilidade lésbica que foi barrado pela bancada conservadora, da qual o MDB faz parte.

    MDB é o partido de Eduardo Cunha, que criou o projeto de lei que visava criar o “Dia do Orgulho Heterossexual” e outro que criminalizaria a “heterofobia”. Ele também defendeu um projeto de lei contra o casamento civil entre mulheres ou entre homens e outro contra a adoção de crianças por casais homoafetivos.

    MDB é o partido do Michel Temer, criador da Reforma Trabalhista, que revoga diversos direitos trabalhistas, como a carga de 8 horas, e cria a possibilidade de acordos que flexibilizem leis trabalhistas. Temer, que está aposentado desde os 55 anos, é criador e defensor do projeto de Reforma da Previdência, que pretende aumentar a idade mínima para aposentadoria.

    O MDB é um dos partidos com mais indícios de corrupção do país. É o partido com o maior número de candidatos barrados pela Lei da Ficha Limpa em 2016, seguido do PSDB e PSD. Assim como PP, PT e PSDB, era, em julho de 2017, um dos partidos com maior número de parlamentares sob suspeita.

    Infelizmente, se você concorrer pelo MDB, estará fortalecendo um partido que se posiciona contra os direitos mais básicos das pessoas trans e trabalhadoras. Como essa seria sua primeira eleição, os votos que iriam para você na verdade serviriam para ajudar a eleger mais um deputado conservador, que certamente não defenderia os projetos que eu imagino que você pretende defender, como por exemplo o direito de pessoas trans praticarem esportes de acordo com sua identidade de gênero. A sua candidatura individual não alteraria o caráter conservador e de classe do partido, que continuaria sendo um partido a serviço dos empresários, banqueiros e do agronegócio.

     

    Você tem uma opção: o PSOL

    Nem tudo são revezes. Existe um partido que é, desde o seu programa, a favor dos direitos das LGBTs, em particular das pessoas trans, assim como das mulheres, das pessoas negras, das trabalhadoras e dos trabalhadores. Um partido que tem defendido projetos em defesa das LGBTs no nível municipal, no estadual e no federal. Este partido é o PSOL.

    O PSOL tem condições e moral para criar e defender, junto a você, na Câmara dos Deputados, um projeto de lei que crie cotas para pessoas trans nos esportes, assim como nas universidades e nos concursos públicos. É um partido que vai defender esse e outros projetos no Congresso e nas ruas.

    Em 2014, Luciana Genro, candidata à Presidência pelo PSOL, defendeu abertamente, em debates transmitido em rede nacional, o combate à homofobia e à transfobia. Aliás, foi a única que falou em transfobia no debate.

    O deputado federal Jean Wyllys (PSOL), junto à Érika Kokay (PT), apresentou o Projeto de Lei João Nery, a Lei de Identidade de Gênero, baseada em lei argentina. O mesmo deputado que vem sendo perseguido por outros parlamentares, em particular pelo Bolsonaro, por ser um representante da causa LGBT.

    O PSOL é um partido pelo qual várias pessoas trans escolheram se candidatar para defender um programa de combate à transfobia. É o partido de Indianare Siqueira (Rio de Janeiro, RJ), travesti, prostituta e uma lutadora em defesa das travestis e das profissionais do sexo. É o partido da Luiza Coppieters (São Paulo, SP), professora que foi demitida de uma escola Anglo por ser trans. É o partido de Amara Moira (Campinas, SP), que escreveu o livro “E se eu fosse puta”, que quebra vários tabus. O PSOL é o partido de Linda Brasil, mulher transexual que foi candidata a vereadora em Aracajú, SE.

    O PSOL também é o partido pelo qual Sâmara Braga, de Alagoinhas (BA), e Thifany Félix, de Caraguatatuba (SP) se candidataram à prefeitura em 2016. Qual outro partido teve uma pessoa trans como candidata ou candidato à prefeitura? Qual outro partido teria coragem de fazer isso? Bem, posso garantir que o MDB não teria, assim como PSDB, DEM e outros partidos de direita.

    É preciso lembrar também que o PSOL é o partido da Marielle Franco, que infelizmente foi assassinada por causa da luta que travava em defesa das mulheres, das pessoas negras e da periferia.

    Além disso, entre os partidos com representação no Congresso, o PSOL é o único que não tem nenhum envolvido nos escândalos de corrupção. Isso porque as campanhas políticas do PSOL não são custeadas por empresários nem banqueiros, mas sim pela própria militância e pelo financiamento público. O partido mantém independência política dos partidos que são antros de corrupção e de diversos escândalos.

    É verdade que este é um partido que ainda é pequeno, uma minoria no Congresso. Mas nós, que somos trans, sabemos o que é pertencer a uma minoria, ainda mais como é difícil defender os direitos dessa minoria. E é justamente por isso que devemos, neste momento, relevar o tamanho do PSOL. É possível construir um partido que luta contra o preconceito e a discriminação contra LGBTs, contra toda forma de opressão, e fazer com que ele seja ainda mais popular, um símbolo das nossas lutas.

    Por tudo isso, com todo o respeito e com muito carinho, convido você a deixar de lado o MDB e a vir para o PSOL. Não é mais possível, infelizmente, se filiar e se candidatar pelo PSOL ainda este ano, mas poderia se preparar para lançar uma candidatura futuramente. Vamos fortalecer um partido que luta contra toda forma de opressão e exploração.

    Atenciosamente,

    Jéssica Milaré, colunista do Esquerda Online e militante do PSOL.

     

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    Tiffany, primeira mulher trans na Superliga de Vôlei

  • Sobre o oportunismo

    Por: Valerio Arcary, colunista do Esquerda Online

    Não sou rio, para não voltar atrás
    (Sabedoria popular portuguesa)

    No futebol, o objetivo estratégico dos times é ser campeão. A tática está a serviço de fazer gols. E evitar, ao máximo, sofrer gols. E existe um limite: o jogo tem 90 minutos. E o campeonato tem uma sequência pré-estabelecida de jogos. Mas podemos admitir que um jogo, em especial, tem importância estratégica. E em relação a este jogo podemos escolher diferentes táticas. Estratégia e tática são, portanto, conceitos relativos que articulam os fins e os meios.

    Na luta política socialista os tempos são outros, mas tampouco são indefinidos. O objetivo estratégico é transformar a sociedade a serviço dos interesses dos trabalhadores. A tática é chegar ao poder. Quanto antes melhor, porque temos pressa de mudar a vida. Se possível, enquanto estamos vivos. Um projeto político sério precisa considerar as medidas do tempo. O tempo não deve nos cegar, mas não pode ser ignorado.

    Mas não chegar ao poder pelo poder. O poder não é um fim em si mesmo, a não ser para maníacos narcisistas. Chegar ao poder a serviço da estratégia. Mudar a sociedade com a participação das amplas massas, indo além dos limites do capitalismo é a estratégia. Mas aprendemos com a história do século passado que esta transição pós-capitalista não é possível em um só país. Nessa dimensão, a revolução brasileira é um objetivo tático, a serviço de uma estratégia maior. O socialismo. Só em circunstâncias muito excepcionais, somente em situações revolucionárias, é possível lutar pelo poder. Situações revolucionárias são raras, porque são um momento de máxima tensão. E nenhuma das classes suporta por muito tempo a exacerbação social que antecede a luta direta pelo poder.

    Em situações defensivas a tática consiste em evitar, ao máximo, que os inimigos que estão no poder consigam governar, e se perpetuar no poder. A tática está ao serviço de acumular forças para poder disputar o poder.

    Relação social de forças é um conceito chave para uma ação política responsável. É uma ideia que procura estabelecer os parâmetros para medir quem está avançando, e quem está recuando na luta de classes. Há polêmicas sobre quais devem ser estes critérios. No futebol pode-se valorizar mais a posse de bola, ou o número de chutes a gol, ou a vantagem na conquista de escanteios, ou a desvantagem no número de cartões amarelos, e outros, como a qualidade da condição física dos dois times.

    Na luta de classes os critérios são objetivos e subjetivos. Exigem uma análise desapaixonada. Critérios objetivos são, por exemplo, o peso social maior ou menor dos trabalhadores sobre as outras classes, a força maior ou menor de suas organizações, o número maior ou menor de greves e protestos, o tamanho maior ou menor das passeatas, e por aí vai. Critérios subjetivos remetem à investigação do estado de ânimo, ou disposição de luta, ou maior ou menor confiança das classes exploradas e oprimidas em si mesmas.

    Isto posto, primeiro se define os limites da análise: o tempo é uma medida objetiva. Uma análise da última semana é diferente da análise do último mês. Nem falar do último semestre. Se for além, já não é análise de conjuntura. É análise da situação, ou até da etapa. É preciso saber, também, que identificar tendências, ou forças de pressão de primeiro, segundo e terceiros graus só é possível dentro de limites estreitos.

    A construção de prognósticos é indispensável. Mas é necessário ser prudente. Há limites do que se pode prever, e são muitos. A omnipotência é uma fantasia juvenil. A ideia de que “tudo pode acontecer, e mudar tudo” é outra ilusão. É também preciso saber conferir as fontes da investigação. A busca da credibilidade exige muito trabalho. Uma análise marxista deve ter critérios incontroversos. Isso significa que construir uma interpretação dos acontecimentos exige o máximo de rigor para não ser contaminada por valores ideológicos que vêm de contrabando pela pressão dos inimigos de classe, do senso comum, dos ambientes em que circulamos. E, não menos perigosas, pelas pressões das nossas preferências. O desejo cega a mente.

    Em segundo lugar, construir uma análise é separar partes de um todo. Os fatos não falam por si mesmos. Os acontecimentos têm pesos distintos. Para marxistas, a compreensão da realidade nos obriga a investigar em três níveis distintos de abstração: a infraestrutura, a estrutura e a superestrutura. Estudamos a situação econômica, depois verificamos as posições respectivas das classes em luta e, finalmente, concluímos pesquisando o comportamento das organizações variadas que representam as classes. E as classes não são somente capital e trabalho. Existe, também, a classe média. E o semiproletariado, os camponeses, os lumpens. E as frações de classe, como a burocracia estatal, os militares/policiais, os artistas, os religiosos, os intelectuais, etc.

    Uma análise de conjuntura deve articular estes três níveis de análise. Este esquema teórico é, evidentemente, um roteiro pedagógico. Ou seja, é um esquema. As três dimensões pressionam-se mútua e ininterruptamente. A metáfora da engrenagem que separa causas de consequências é útil como um esforço lógico temporal, mas há nela uma armadilha. As causas transformam-se em consequências e vice-versa. Uma dialética infernal. Portanto, é preciso sempre retornar às análises anteriores e corrigi-las. Corrigir significa admitir que erramos. Ninguém é infalível.

    Deve-se, como bom critério, iniciar a análise pelo estudo da situação econômica e social. Mas a economia é um fator de pressão, parcialmente, neutralizado, por outros. Depois se avança para a análise da relação social de forças. As relações políticas de força entre as organizações e as lideranças dependem desse contexto. A pressa de pular etapas na análise, e encontrar um atalho é perigosa.

    O impressionismo, ou seja, a vulnerabilidade diante do que aconteceu “ontem” é mal conselheira. Não há conhecimento sem algum grau de intuição, mas enganam-se a si mesmos os que se deixam seduzir pelo excesso de confiança. Pior ainda é o erro de substituir a análise da situação concreta pelo método da “cartografia”. Não se deve tirar uma conclusão do que se deve fazer considerando qual é o espaço político que se pretende ocupar.

    O nome disso é oportunismo.

  • Três polêmicas sobre a tática na atual conjuntura

    Por Valério Arcary, Colunista do Esquerda Online

     

                                                          A lisonja é incompatível com a nobreza de carácter.                                                   

                                                        A humildade só é virtude quando não revela fraqueza.

                                                                                                 Sabedoria popular portuguesa

    Cuidado, porque as ideias contam, e o programa vale muito. Já surgiu uma especulação sobre uma possível candidatura única de esquerda. Receio decepcionar muitos milhares de ativistas, os da primeira linha, os mais sinceros, os melhores, os mais combativos, mas é preciso preservar a honestidade na esquerda. A pressão pela candidatura única não vai unir a esquerda, vai dividi-la. Pior, vai fragmentá-la ainda mais.

    Estamos unidos na defesa dos direitos de Lula, na luta contra os neofascistas. Mas não teremos a mesma candidatura este ano. Manuela e Boulos têm legitimidade em se apresentar, ou seja, o direito de defender seus programas. As ideias contam. A existência de três candidaturas de esquerda no primeiro turno corresponde a três projetos.

    A defesa da candidatura única significaria, em função do peso majoritário do PT, o silêncio dos dois programas alternativos. O projeto petista reivindicará o balanço dos governos e alianças liderados pelo PT. Que culminou no quarto mandato, com Dilma, na defesa do ajuste fiscal de Levy: respeito às pressões do mercado para garantir investimentos, e políticas focadas de distribuição de renda. Não por acaso, o vice de Dilma era Temer. E não se conhece qualquer autocrítica destas alianças. O projeto do PCdB tem forte ênfase na questão nacional.

    Manuela alertou, no discurso do Circo Voador, que a luta no Brasil será uma luta entre o “partido” de Tiradentes e o partido dos vende pátrias, dos “Silvérios”. Do que decorre uma política de alianças de inspiração nacionalista de tipo bolivariana, talvez, semi-chavista de esquerda, portanto, “complicadas” com setores da burguesia.

    O Psol defende outro programa. Tem inspiração e compromissos anticapitalistas: direito ao emprego, aumento dos salários, a começar pelo salário mínimo, educação e saúde pública de qualidade para todos, enfrentar os rentistas, impostos sobre a riqueza e a propriedade, reforma agrária, defesa ambientalista da Amazônia, reforma agrária e urbana, reforma política para garantir a participação popular, luta sem concessões contra o racismo, a homofobia e o machismo, e por aí vai.

    Uma velha brincadeira na esquerda remete a tática do “abraço de urso”. O urso quando se sente ameaçado, se levanta sobre as patas dianteiras e abre os braços. Esse abraço não é amigável. Nós estaremos abraçados contra os inimigos comuns na ruas. Nas eleições, não é possível. A esquerda socialista tem não só o direito, mas o dever de defender seu projeto. As ideias contam. O programa vale muito.

     

                                                                                                    A sorte protege os audazes.

                                            A ignorância força-nos a fazer duas vezes o mesmo caminho.

                                                                                                 Sabedoria popular portuguesa

     Muitos militantes com paixão revolucionária defenderam nos últimos dias a greve geral diante da prisão de Lula. Só que um pouco de saudável empirismo leninista faz bem. Olhar as coisas como são. Análise concreta. Opor aos atos em defesa de Lula a greve geral não é sério. A “grevicultura” pode alimentar um discurso radical construído com vocabulário trotskista, embora seja de inspiração anarco-sindicalista. Não é política marxista. Parece tática “revolucionária”, mas não é. Trata-se de uma caricatura.  

    Acontece que, como sabe qualquer ativista com um mínimo de responsabilidade, não existiam condições para a greve geral. E não há condições porque uma maioria da classe está perplexa, desorientada diante da ofensiva da LavaJato. Não porque esteja em processo de ruptura com o PT pela esquerda. É triste, mas é assim. 

    Observo que há uma mentalidade, uma perspectiva, uma visão na esquerda radical, talvez, até um ambiente em que prolifera uma percepção idealizada da classe operária. É como se os trabalhadores estivessem, a todo momento, com disposição de luta. Não estão. Seria como se os dirigentes e organizações que a maioria reconhece estivessem sempre com o pé no freio, impedindo a potencial explosão de um vulcão. Tampouco é correto. Esta visão, muitas vezes sincera e honesta, é ingênua.

    Existem, evidentemente, nos sindicatos e nos movimentos sociais correntes moderadas que abraçam um programa reformista, e que cultivam critérios e métodos burocráticos que estão ao serviço da preservação de privilégios sociais. Mas estes aparelhos têm políticas diferentes quando, por exemplo, os partidos que apoiam estão no governo, e quando estão na oposição. Líderes reformistas e burocráticos dirigem, também, muitas greves, à sua maneira, quase sempre sem muito respeito pela democracia sindical, como podemos confirmar na base na Força Sindical entre os metalúrgicos de São Paulo.

    A diferença entre política revolucionária e reformista não se resume, nem se define essencialmente, em torno de métodos de luta. Até luta armada já se fez na defesa de um programa reformista. Parece paradoxal, ou até esdrúxulo, mas é isso mesmo: em diferentes países da América Latina, quando das ditaduras, algumas organizações lançaram-se em táticas guerrilheiras com o plano de derrubar os governos tirânicos, para levar ao poder governos de colaboração com frações- desenvolvimentistas, nacionais, democráticas- da classe dominante.

    A “grevicultura” infantiliza os nossos dilemas.

                                                     Não faças aos outros o que não gostas que te façam a ti.

                                                                        Castiga-se a arrogância, dando-lhe as costas

                                                                                                 Sabedoria popular portuguesa

     Há na vida política uma dimensão trágica. O papel dos dirigentes conta. Trata-se de uma velha controvérsia dos marxistas com os anarquistas. A liquidação moral e a desqualificação política dos líderes do campo de classe inimigo é um objetivo central em toda luta política séria.

    Lula foi preso com tanta pressa porque há eleições no Brasil em outubro. Se permanecesse livre poderia fazer campanha. Não poderia ser candidato, mas poderia transferir votos para um candidato com chances de chegar ao segundo turno. E nos círculos burgueses que apoiaram a pressão militar sobre o STF há insegurança. Será que Alckmin pode recuperar o que perdeu para a extrema direita? Porque é muito provável que se Bolsonaro passar para o segundo turno, o candidato anti-fascista ganhe as eleições. Estão indo tão longe, ao ponto de provocar algum constrangimento internacional, porque precisam neutralizar Lula. Enganam-se aqueles que pensam a prisão de Lula, realizada pelas forças mais reacionárias, favorecerá um desenlace mais positivo na reorganização da esquerda nesta etapa. Pode se dar o contrário. Lula pode sair, relativamente, fortalecido.

    Tudo sugere que, embora não tenha acontecido uma explosão popular de fúria, cresceu nos últimos dias a solidariedade com Lula. Muitos milhões estão se perguntando hoje: só o Lula? Por quê? O JN da Globo de hoje dedicou dezenas de minutos a explicar-se sobre este tema. Afinal, como estão os outros processos, contra Aécio, Temer, Alckmin, Maluf, Azeredo, Marconi Perillo, Colombo? Não pode ser acidental.

    A defesa de Lula me obriga a esclarecer opiniões sobre um tema que remete à relação entre as lideranças e organizações e as massas. Vivemos uma etapa na qual o papel dos partidos tem sido muito desvalorizado na esquerda. Sem a Lava Jato não teria sido possível a prisão de Lula, uma perseguição política evidente. Só este fato monumental, inescapável, do tamanho do Pão do Açúcar, já deveria ser suficiente para a parcela da esquerda radical que não teve, até o momento, disposição para defender Lula refletir um pouquinho. E não melhora nada quando se argumenta que estamos em campanha pela defesa de Lula e esquecemos centenas de milhares de presos que não têm advogados. É mesmo? E defender Trotsky nos anos trinta era, também, esquecer as centenas de milhares de presos nos julgamentos de Moscou? Não. O papel dos dirigentes conta.

    A dimensão trágica da vida se revela, segundo os clássicos, quando a ação dos sujeitos tem como desenlace involuntário o contrário dos objetivos que perseguiam.

    Lula no governo assumiu o lugar do líder popular contemporizador, negociador, conciliador. A criminalização que agora o vitima é uma demonstração irrefutável de que a classe dominante não merece qualquer confiança. Se prendem Lula poderão prender, por qualquer pretexto, qualquer um de nós.

  • Acusados de matar Dandara são condenados a até 21 anos de prisão

    Por: Jéssica Milaré, colunista do Esquerda Online

    No último dia 5, quinta-feira, pouco mais de um ano depois do assassinato da travesti cearense Dandara, cinco dos 12 envolvidos no linchamento e assassinato de Dandara foram a julgamento. Os réus responderam por homicídio triplamente qualificado (motivo torpe, meio cruel e uso de recurso que impossibilitou a defesa da vítima) e de corrupção de menores.

    Além dos réus, outros dois adultos envolvidos no crime estão foragidos e um terceiro será julgado separadamente, pois interpôs recurso que foi distribuído para a 3ª Câmara Criminal. Os outros quatro envolvidos, que são menores, cumprem medida socioeducativa.

    O assassinato de Dandara ganhou atenção nas redes sociais devido ao vídeo que mostrava o linchamento e a morte. A mídia mostrava Dandara recebendo chutes, pauladas e xingamentos de 12 pessoas em plena rua. Após o espancamento, a vítima foi morta a tiros.

    O julgamento
    Durante o julgamento, Isaías alegou não ter participado diretamente das agressões, apenas dos xingamentos e, por isso, sua defesa requisitou negativa de autoria. A defesa de Jean Victor, Rafael Alves e Francisco Gabriel pediram desclassificação do crime de homicídio para lesão corporal, sustentando que não há nexo causal entre as agressões e a morte, ou, como tese alternativa, a redução da pena por participação de menor importância no homicídio.

    Os defensores pediram também absolvição pelo crime de corrupção de menores, já que os menores envolvidos iniciaram a agressão contra Dandara e já tinham participado de outros crimes.

    A acusação, por outro lado, sustentou que o homicídio foi praticado em concurso de agentes, de forma que todos os que participaram dos atos que levaram à morte de Dandara. Por isso, pediu a condenação de todos os réus por homicídio triplamente qualificado e por corrupção de menores.

    Francisco José Monteiro de Oliveria Júnior, autor dos disparos, foi condenado a 21 anos por homicídio triplamente qualificado. Jean Victor Silva Oliveira, Rafael Alves da Silva Paiva e Francisco Gabriel Campos dos Reis foram condenados a 16 anos de prisão, também por homicídio triplamente qualificado. O quinto réu, Isaías da Silva Camurça, foi condenado a 14 anos e seis meses por homicídio duplamente qualificado (motivo torpe e meio cruel).

    Criminalização da LGBTfobia!
    O caso do assassinato de Dandara mostra mais uma vítima fatal da violência LGBTfóbica que contamina todo o país. Agressões físicas, psicológicas e sexuais atingem LGBTs no Brasil todos os dias. É preciso uma lei que qualifique e criminalize estes atos para combater a cultura de violência e marginalização das LGBTs do país. Além disso, são necessárias campanhas socioeducativas, em particular nas escolas, para evitar que mais LGBTs continuem a sofrer todo tipo de violência na escola, na família, na rua e no local de trabalho.