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  • Contra a perseguição dos bolsominions a Rachel Sheherazade

    Por Jéssica Milaré, colunista do Esquerda Online

    A consciência da classe operária não pode ser uma consciência política verdadeira, se os operários não estiverem habituados a reagir contra todo abuso, toda manifestação de arbitrariedade, de opressão e de violência, quaisquer que sejam as classes atingidas.

    Lenin, Vladimir I. Que fazer?

    Não tenho nenhuma simpatia com a Rachel Sheherazade, nem com o que ela defende do ponto de vista político e moral. Entretanto, não posso deixar de reconhecer que ela está sendo vítima de agressões pessoais, políticas, machistas e nordestinofóbicas dos bolsominions após simplesmente exercer seu direito de opinião contrária ao neofascista Bolsonaro.

    Bem feito?

    Tendo em vista as posições reacionárias de Sheherazade, muitas pessoas estariam tentadas a simplesmente dizer: “Bem feito, isso é problema dela”. Trata-se de uma ideologia da vingança: não se importar com injustiças que os nossos adversários políticos sofrem. Isso é um equívoco político por diversas razões. Nós devemos, sim, ser contra toda opressão, toda violência e todo abuso, qualquer que seja a posição política da vítima.

    Nós, socialistas, temos um projeto de sociedade que é contrário a toda forma de opressão e exploração. Somos contrárias ao machismo sofrido por qualquer mulher, pois um ataque machista é sempre, por sua natureza, um ataque a todas as mulheres. Somos contrárias à nordestinofobia praticada contra qualquer nordestina, pois cada ataque desse tipo atinge todas as pessoas do Nordeste. Somos contra a perseguição a qualquer cidadã que se posicione politicamente contra Bolsonaro, pois essa perseguição também prejudica a todas as pessoas que são contra Bolsonaro.

    A perseguição e as ameaças sofridas por Sheherazade demonstram, sem dúvida, o caráter neofascista do movimento pró-Bolsonaro. Não é tolerada uma divergência sequer. Não se aceita ninguém que questione a suposta honestidade do “mito”. A defesa do personalismo, do nacionalismo chauvinista, da “ordem”, do assassinato e da tortura contra os “criminosos” (leia-se: qualquer pessoa que não seja do espectro político do Bolsonaro) e o uso da discriminação contra minorias, valendo-se inclusive de agressões físicas, são características de um movimento fascista.

    O ataque

    Sheherazade foi, ainda, acusada de estar sendo manipulada pelo marido tucano. Tal acusação nada mais é do que uma forma de machismo que não admite que uma mulher tem capacidade de ter uma opinião própria, a crença de que ela seria facilmente manipulável.

    Em entrevista a Mônica Bergamo, colunista da Folha, Sheherazade afirma nunca ter tipo empatia pelo deputado. Ela afirmou que “foram publicadas notícias falsas dando conta de que eu estaria me filiando ao partido do senhor Bolsonaro para lançar uma possível candidatura ao seu lado”. Explica ainda:

    Recebi todo tipo de ataque sórdido e covarde. Calúnias e difamações de toda natureza, atingindo desde minha honra como mãe e mulher até a minha credibilidade profissional. Também recebi ameaças de morte contra meus filhos, além de ataques machistas e contra a minha origem nordestina.

    Essas agressões cheias de ódio e ressentimento partiram de eleitores e seguidores do senhor Bolsonaro, do filho do parlamentar Carlos Bolsonaro e também do ator pornô e aliado político de Bolsonaro, Alexandre Frota, contra quem já representei penalmente.

    O caráter reacionário dos bolsominions ficam nítidos nesse relato. Só isso já é mais do que um belo motivo para se posicionar contra essa atitude.

     

  • A história fast-food e as saudades da ditadura

    Por Carlos Zacarias de Sena Júnior, colunista do Esquerda Online

    No ar há algumas semanas no History Channel, “Guia politicamente incorreto da História do Brasil” leva para as telas a obra homônima do jornalista Leandro Narloch. Apresentada pelo YouTuber Felipe Castanhari, a série tem linguagem pop, edição ágil e a pretensão de ser divertida, algo feito na medida para entreter alguém com a inteligência de um Homer Simpson, como testemunhou o jornalista Lira Neto, um dos que foram ouvidos mas não autorizaram a veiculação da sua entrevista.

    Lira Neto desautorizou a utilização da entrevista quando soube do que se tratava, depois escreveu no Facebook que se sentia “violentado em fazer parte de qualquer produção que recorra à superficialidade e ao polemismo fácil”. Também a historiadora Lília Schwarcz afirmou que ao ser procurada não tinha sido informada de que o programa seria baseado no Guia politicamente incorreto da História do Brasil, o que a fez seguir o caminho de Lira Neto.

    Alguns poderiam pensar que se trata de implicância, mas não é o caso. Os best-sellers de Narloch não podem ser levados à sério por ninguém que conheça minimamente a história. Escritos no interesse do mercado, algo feito para consumo rápido e para permitir que seu autor ganhe dinheiro, como o próprio reconheceu em 2011, seus Guias pretendem ser obras feitas na base do sensacionalismo contra uma versão oficial e “esquerdista” (sic) supostamente predominante na academia.

    O primeiro episódio da série aborda o descobrimento do Brasil. Entre os muitos absurdos, a frase “Os índios não cuidavam da natureza” é pura provocação. Repleta de anacronismos e polêmicas rasas e pouco desenvolvidas, o objetivo de toda a série é chocar na base do sensacionalismo rasteiro, algo que aparece na afirmação de Narloch, que diz que o sonho do índio é transformar a mata “em estacionamento de shopping”.

    No episódio três, que discute o racismo, a principal polêmica gira em torno da afirmação de que “Zumbi tinha escravos”. Neste episódio, as falas dos entrevistados, muito especialmente da historiadora Mary Del Priori, transformam o período da escravidão num verdadeiro idílio, com escravos saindo para namorar, entre outras coisas, uma versão que faria Casa-Grande & Senzala passar por ser um livro marxista.

    É, contudo, no episódio dois, que trata dos anos 1960, que a série mostra a que veio. Com depoimentos de vários jornalistas, e mais dos direitistas Lobão, Luiz Felipe Pondé e Marco Antonio Villa, sua abordagem pretende demonstrar que os problemas do Brasil foram causados pela esquerda. Para Lobão, “Os militares foram forçados a intervir, porque já estava uma baderna”. Para Narloch, a ditadura brasileira era “mequetrefe”, pois “É difícil achar uma ditadura militar que tenha matado menos”. No final das contas, para os “geniais” animadores da série, a ditadura livrou o Brasil dos comunistas. Viva o McDonald!

    Texto originalmente publicado no jornal “A Tarde”

  • La paradoja de 2017 y las principales tendencias para 2018

    21 de diciembre de 2017

    Por: Valerio Arcary, columnista de Esquerda Online

    1.  Subestimar a los enemigos es un camino seguro hacia la derrota. La paradoja de 2017 es que el gobierno de Temer tiene muy baja popularidad, pero este rechazo en las encuestas no significa que debemos sacar la conclusión de que es un gobierno débil. Paradojas son aquellas contradicciones que nos parecen desconcertantes porque son contraintuitivas. Algo es contraintuitivo cuando desafía una idea simple y hasta racional que, por lo tanto, parece verdadera. Nuestras mentes prefieren un sesgo lógico que favorece el reconocimiento de pensamientos aparentemente coherentes.

    ¿Cómo es posible decir que un gobierno que no tiene sustentación en la mayoría de la población no es débil? De débil o fuerte son adjetivaciones. Adjetivo significa asignar una función, es decir, calificar. ¿Merece ser considerado débil un gobierno que logró aprobar, en tan poco tiempo, tantas contrarreformas? Es verdad que no pudo aprobar todavía la “madre” de todas las contrarreformas, que es la de la previsional, pero si Temer llega a finales de 2017, relativamente, debilitado, después del desgaste de las dos votaciones que negaron autorización para su investigación, solicitada por Janot en nombre del Ministerio Público, todavía está de pie, y la hipótesis más probable sigue siendo, desgraciadamente, que pueda terminar el mandato hasta finales de 2018.

    Tiene el apoyo de la mayoría de la burguesía, del Poder Judicial y del Congreso, de las Fuerzas Armadas, de la mayoría de los medios de comunicación y se beneficia con los cambios que sobrevinieron con el nombramiento de Raquel Dodge en el MPF y de Segovia en la Policía Federal.

    En el caso de Raúl Dodge en el MPF y de Segovia en la Policía Federal, tiene el apoyo de la mayoría de la burguesía, del Judiciario y del Congreso, de las Fuerzas Armadas, de la mayoría de los medios, y se beneficia de los cambios que ocurrieron con el nombramiento de Raquel Dodge en el MPF y de Segovia. Está protegido por el apoyo de los gobiernos de los países centrales y de los gobiernos del Mercosur. La situación del gobierno de Temer es excepcional: fue el resultado del golpe del impeachment, no fue elegido y, tan o más importante, no pretende reelección. El bloque político-social que garantizó el derrocamiento de Dilma Rousseff puede, por lo tanto, apoyar las contrarreformas reaccionarias antipopulares y, al mismo tiempo, organizarse en torno a candidaturas que no se presentarán como herederas del gobierno de Temer para garantizar una oportunidad de alcanzar la segunda vuelta en 2018.

    1.  Sin embargo, el gobierno Temer sufrió durante el año una seria crisis y tal vez podría haber sido derrocado. Circunstancias inusitadas, durante algunas semanas en mayo, abrieron esta posibilidad, no sólo por el nivel de resistencia activa alcanzado por la huelga general del 28 de abril y la marcha del 24 de mayo, sino también por la denuncia y la delación premiada de la JBS, que fue aceptada por el Ministerio Público liderado por Janot.

    Esta rara combinación, entre otros factores como la dosificación brutal de ajuste fiscal encabezado por Meirelles y, en especial, la iniciativa de la Lava Jato, dividió a la clase dominante y dejó al gobierno de Temer semiparalizado, impidiendo la aprobación hasta ahora de la reforma de la previsión social. Tembló, pero lo cierto es que no cayó. No se ha invertido la situación defensiva, desfavorable, abierta entre 2015 y 2016 y que culminó con el impeachment. Las campañas por el Fuera Temer y Directas Ya no lograron alcanzar una dimensión suficiente para derribarlo. En el segundo semestre vivimos, por lo tanto, una coyuntura peor que aquella de marzo y junio.

    1. Una cuestión de método se plantea cuando pensamos en las perspectivas para 2018. Los pronósticos para el futuro son como los contrafactuales para el pasado, es decir, algo posible que no ocurrió. Es necesario medir, ponderar, ajustar, calibrar la fuerza de presión de distintos factores que ejercen presiones de primer, segundo, tercer grado. Los pronósticos serios deben ser hechos apoyados en la identificación de tendencias y contratendencias, o sea, el cálculo de probabilidades. Al mantener la misma relación social de fuerzas, las posibilidades estarán limitadas a un estrecho escenario. Sucede que la relación social de fuerzas puede cambiar. Probablemente, oscilará.

    Brasil no es un país escandinavo, y no hay lugar para el aburrimiento. Tenemos que considerar en las previsiones el impacto de hechos “gigantescos” que están por venir. Imposible, en este momento, tener la percepción de cuál será la reacción popular a una probable condena de Lula en enero en el segundo juicio. Tampoco sabemos cómo podría repercutir la delación de Palocci comprometiendo a Lula.

    No sabemos si la capacidad de reacción sindical y popular a la aprobación de la reforma de la previsión social será mayor que en esta víspera de Navidad. O los efectos de una evolución de la investigación contra Aécio Neves. Los márgenes de error, en este momento, ¿son grandes o pequeños? Son inmensos. La variable: tiempo no se puede ser ignorada. Los márgenes de incertidumbre son demasiado grandes. El Marxismo debe inspirarse en buena ciencia, o sea, prudencia, y el comportamiento social de las clases tiene mucho de imprevisible. Las regularidades existen, pero las irregularidades, también.

    1. ¿Cuál será el escenario económico-social más probable?

    (a) Todos los indicadores disponibles sugieren la continuidad de una tímida recuperación económica, que no debe ir más allá del 1 % del PIB en 2017, después de cuatro años que sumaron un retroceso del PIB superior al 8 %;

    (b) Estamos en un contexto externo de crecimiento lento de la economía mundial, tanto en Estados Unidos, en Europa, como en Japón, que se refleja en los países semiperiféricos, además de la revalorización de los precios de las materias primas;

    (c) Entre las principales variables merecen destacar la gran caída de la inflación, en un año, de un 10 % a menos del 3 %; la caída de la tasa Selic del 13 % al 7 %; el saldo positivo de 60.000 millones de dólares en la balanza comercial que, sumado al equilibrio en el balance de pagos, mantuvo las reservas en un nivel cómodo de 380 mil millones de dólares, es decir, un año y medio de importaciones, lo que favorece también una estabilidad del cambio;

    (d) En el acumulado en doce meses, la proyección de IED, o inversión externa está siendo algo por encima de los 84.500 millones de dólares (4,4 % del PIB);

    (e) la reducción lenta del desempleo debe proseguir; después de dos años seguidos de retracción, el consumo de las familias tuvo un alza del 1,2 % en el tercer trimestre de este año; la caída de la tasa de interés aún no se tradujo en reducción de los spreads bancarios (en términos generales, es la diferencia entre el precio de oferta y demanda para un determinado valor. Puede emplearse como indicador de la liquidez de un valor -menores spreads indicarían más liquidez- aunque también es posible que se vea influido por otros factores). Actualmente, el 45 % de los depósitos a la vista, el 36 % de los depósitos a plazo y el 30% de los de ahorro se recogen de los bancos en forma de restricciones obligatorias para mantener reservas bancarias, fiscalizadas por el Banco Central, pero esta política será flexibilizada para incentivar el crédito, lo cual podrá impactar.

    1. En qué medida esta evolución económica puede traducirse en sensación social de alivio durante el próximo año es todavía imprevisible. Se necesitan al menos varios meses, tal vez hasta más de un semestre, de consistente mejora en el marco económico para que la percepción de malestar se transforme en sensación de bienestar, pero puede suceder, y en este caso favorecerá una candidatura de centro-derecha. También es la hipótesis más probable que Lula no pueda ser candidato. Sin embargo, todos los datos disponibles indican una tendencia a la baja en la tasa de rechazo de Lula.

    El padrón histórico de capacidad de transferencia de votos en Brasil es alto. Ya sucedió incontables veces desde 1986. Sarney ayudó a elegir a Quércia, que eligió a Fleury. FHC eligió a Covas, que eligió a Alckmin. Brizola eligió Alencar y Garotinho. Lula eligió a Dilma Rousseff y Haddad. Esto indica que lo más probable es la disputa de una candidatura del PT por un lugar en la segunda vuelta de 2018. Aunque Alckmin esté mejor colocado como la candidatura hacia donde debe converger la mayoría de los pesos pesados ​​del PIB, la investigación de corrupción en las grandes obras de São Paulo, tras la denuncia de lenidad en el acuerdo de la constructora Camargo Corrêa, lo debilita. No es suficiente, el arco de alianzas políticas en torno a Temer y Maia, MDB/DEM/. El gran espectro del centro todavía está articulando una posible candidatura (Meirelles es improbable, pero puede ser ACM Neto, por ejemplo) para, entre otros objetivos, blindar la acción futura de la Lava Jato. La presión del PIB por una candidatura única será grande, pero parece difícil. En resumen: no sabemos siquiera quiénes serán los candidatos. Intentar proyectar cómo estará el país unas semanas antes de las elecciones, por lo tanto, es, en rigor, imposible.

    Foto: EBC

  • Bolsonaro em contradição: três patacoadas do “mito” em apenas 10 dias de 2018

    Por Matheus Gomes, Colunista do Esquerda Online

    Patacoada 1: O escandaloso crescimento do patrimônio de Bolsonaro

    Uma matéria divulgada pela Folha de São Paulo no último domingo (7) apresentou números escandalosos sobre o crescimento do patrimônio da família Bolsonaro. Entre 2010 e 2014, a variação de seus bens é maior que a soma de seus salários líquidos no período. Além disso, em meio ao boom imobiliário do Rio de Janeiro, Bolsonaro adquiriu imóveis em negociatas muito abaixo dos valores de mercado e não as declarou na última eleição. Isso sugere que, no mínimo, o deputado ocultou patrimônio, cometendo crime conforme a Lei n° 12.683.

    Em sua página no Facebook, o “mito” não consegue explicar como enriqueceu tanto. Ao lado dos pastores Marco Feliciano e Silas Malafaia, se resumiu a argumentar por dois flancos. O primeiro – e mais ridículo – é a acusar a Folha de São Paulo de ser um jornal à serviço da esquerda e do bolivarianismo, logo o grupo da Família Frias, defensores do golpe empresarial-militar de 1964 e do impeachment de 2016 ao lado da FIESP e do próprio Bolsonaro. Não faz nenhum sentido!

    O segundo é apresentar os números da cota parlamentar não utilizada na legislatura. Ora, Bolsonaro faz um alvoroço por não ter utilizado cerca de 30% da cota, ao passo que nunca abriu mão de um centavo dos R$ 33.763,00 que recebe por mês e sempre utilizou todos os benefícios dos parlamentares. De 2014 pra cá, Bolsonaro custou mais de R$ 1 milhão aos cofres públicos, qual a grande diferença do restante? Não custa lembrar que suas campanhas milionárias também foram financiadas por grandes empresários, inclusive a JBS de Joesley, fora as viagens realizadas com recursos de figuras ligadas ao agronegócio e a indústria armamentista.

    Bolsonaro não admite um simples fato: como a maioria dos políticos ligados aos partidos da ordem, ele construiu sua riqueza à custa do dinheiro público, acumulando bens a partir de sua condição de deputado. Nenhuma pessoa comum evolui seu patrimônio de um FIAT Panorama, uma moto e dois lotes para um patrimônio de R$ 15 milhões em menos de 30 anos, ou seja, para o “mito” é certo manter os privilégios dos políticos.

    Patacoada 2: O incrível apego à legendas de aluguel

    Na última sexta (5), Bolsonaro anunciou sua migração do Partido Social Cristão (PSC) para o Partido Social Liberal (PSL). Depois de meses de negociação com o Partido Ecológico Nacional (PEN) – prestes a mudar o nome para Patriota. Parece que a bolada certeira veio do cartola pernambucano Luciano Bivar, deputado federal e empresário, conhecido por subornar membros da CBF em 2013 para viabilizar a convocação de um volante de seu time, o Sport. Bolsonaro já esteve filiado aos extintos PPR, PPB e PFL, ao PTB, PP, PSC, agora ingressa no seu sétimo partido.

    Até a semana passada, os inquilinos da legenda eram os integrantes do Livres, movimento liderado por Fábio Ostermann, um dos fundadores do MBL. No dia em que Bolsonaro entrou pela porta da frente, eles saíram pela porta de trás. Isso apenas demonstra que o PSL não é um partido de ideias, pelo contrário, quem oferece mais vantagens aos caciques da legenda leva a melhor.

    Como sabemos, um dos males do sistema político brasileiro são as legendas de aluguel. A serventia desses partidos para o povo trabalhador é zero, entretanto, para figuras em busca de trampolins políticos; coligações que pretendem preencher tempo de TV ou ampliar quociente eleitoral; ou coalizações governantes atrás de votos em troca de verba pública, esses partidos são extremamente úteis. O “mito” parece gostar desse arranjo político.

    Patacoada 3: Mais ou menos Estado? Sim ou não às contrarreformas?

    Algumas pessoas poderiam argumentar que Bolsonaro é um homem de ideias fortes, por isso pula de partido em partido para encontrar a legenda ideal. Mas quem analisa a fundo suas ideias encontra um sem número de incongruências. A última é seu namoro com liberais ortodoxos, conforme suas declarações na entrevista coletiva concedida durante o anúncio da sua entrada no PSL.

    Qual o projeto de Bolsonaro no terreno econômico? Como defensor da ditadura empresarial-militar, o “mito” precisa explicar o legado desse regime: nesse período foram criadas dezenas de empresas estatais em diversas áreas; ao mesmo tempo, esse é o marco do desenvolvimento das grandes empreiteiras nacionais da construção pesada através de contratos públicos – aquelas centralmente envolvidas na lava-jato; também é o período chave para entender o acúmulo da dívida externa e a dependência crônica do Brasil com o capital internacional.

    Na realidade, ele apenas agrega mais confusões. Para não se vincular a projetos antipopulares, o “mito” tergiversa falando em “outros tipos de reforma” e etc. Como admite não saber nada de economia, nem dominar os ensinamentos básicos da Escola Superior de Guerra, Bolsonaro prefere se aconselhar com liberais da “moda” para pensar seu projeto econômico. Adolfo Saschida (IPEA) e Paulo Guedes (formado na Escola de Chicago e ligado ao grupo BTG Pactual) são nomes que exercem influência sobre Bolsonaro.

    Bolsonaro promete um novo “milagre econômico”, mas, se seguir a fórmula de seus conselheiros, a única opção que lhe restará é adotar a agenda de contrarreformas proposta pelo mercado financeiro, repetindo a farsa dos ditadores de ontem, que sustentaram um parco crescimento econômico em base a superexploração e autoritarismo, afundando o Brasil na crise da década de 80.

    Quantas patacoadas ainda virão no decorrer de 2018?

    Imagens: Antônio More/Gazeta do Povo/Arquivo

  • Política não é meteorologia

    Por Carlos Zacarias de Sena Júnior*, Colunista do Esquerda Online. Publicado no jornal A Tarde, em 05/01/2018.

    O ano que começou na última segunda tem tudo para ser melhor que o passado. Os últimos dois anos foram os piores vividos por qualquer brasileiro com menos de 50 anos e mesmo que alguns possam lembrar que já tivemos dias piores, o que nos falta hoje é, talvez, uma profunda esperança de que as coisas vão melhorar. Ainda assim é difícil se acreditar que podem piorar, então, para começar o ano, é saudável praticarmos um moderado otimismo.

    A melhor notícia de 2018 deve vir da política: vamos nos livrar do pior governo da nossa história! É verdade que daqui até outubro muita coisa vai acontecer, mas admitindo-se que teremos eleições e que estas ocorrerão sob o sistema presidencialista e que todos os potenciais candidatos, inclusive Lula, poderão concorrer, não há porque não apostar que o governo que sair das urnas terá, ao menos, legitimidade para discutir o que quer que seja com a sociedade e o Congresso.

    É verdade que muitos temem que o eleito em 2018 seja ainda mais reacionário que o atual ocupante do Planalto. Alguns acreditam que Bolsonaro tem reais possibilidades de vencer o pleito, especialmente os que hoje declaram voto no ex-capitão do Exército e admirador do torturador Brilhante Ustra, o “terror de Dilma Rousseff”. Bolsonaro aparece em segundo lugar nas pesquisas, o que não deixa de ser alarmante, mas parece improvável que venha a se manter nesses patamares nas proximidades de outubro. A maior parte do seu eleitorado é composta por gente pouco politizada, que deverá migrar para outras candidaturas quando as eleições deixarem de ser algo distante e quando capitão virar um político real, e não um personagem mítico, como gostam de lhe enxergar os seus fãs.

    Lula, obviamente, é um candidato forte, mas não parece ser imbatível. O ex-presidente deverá se valer da comparação dos seus governos com o atual, então terá um parâmetro bastante favorável sobre o qual se debruçar. Também pelo fato de que o PT foi vitimado pelo golpe que atingiu aos brasileiros mais pobres, parece que o ex-presidente deverá se aproveitar desta circunstância para vitaminar sua candidatura. Seu ponto fraco, entretanto, é o mesmo que pode lhe inviabilizar as pretensões de retornar ao Executivo, pois mesmo sendo inocentado pela Justiça ou não sendo impedido de ser candidato, quem está convencido de que Lula é corrupto vai ter ainda mais certeza quando a campanha descer ao nível do rés-do-chão como costumam ser as disputas no país.

    O fato é que o pleito de 2018 deve ser bastante movimentado e mais parecido com o de 1989, quando tivemos 22 candidatos, que qualquer outro. Nessas circunstâncias as chances do imponderável não podem ser menosprezadas, porque a nove meses das eleições só se podem prever tendências. No final das contas, quem está convicto que o quadro está definido parece que erra não apenas por desconhecer a história, mas por acreditar que predizer a chegada de uma frente fria é o mesmo que assegurar que as pessoas vão levar guarda-chuva para a rua.

  • Porto Alegre sitiada? É preciso defender o direito de manifestação

    Na manhã de ontem (4), o prefeito Marchezan divulgou oficio solicitando a convocação da Força Nacional de Segurança e do Exército Brasileiro para impedir a realização de manifestações durante o julgamento de Lula no Tribunal Regional Federal da 4° Região (TRF4), dia 24 de janeiro. O pedido se soma a liminar promulgada em 28 de dezembro pelo juiz Osório Ávila Neto, da 2ª Vara Federal de Porto Alegre, que impede a realização de um acampamento do Movimento dos Sem Terra no Parque Harmonia, espaço público que é conhecido mundialmente por ter sediado os gigantescos acampamentos das primeiras edições do Fórum Social Mundial.

    Por Matheus Gomes, Colunista do Esquerda Online

    Polêmica entre os governos municipal, estadual e federal é apenas fachada

    Marchezan segue a risca a linha de seu companheiro de partido Beto Richa, governador do Paraná, que sitiou Curitiba em maio do ano passado durante o encontro entre Lula e Sérgio Moro, que condenou o ex-presidente em primeira instância.

    Mesmo que o ofício tenha ocasionado críticas públicas de Cezar Schirmer, Secretário de Segurança Pública do RS, e Raul Jungmann, Ministro da Defesa, a realidade é que ambos estão atuando em conjunto para criar um clima de guerra na cidade nos próximos dias. Aliás, ao largo desse debate, o gabinete da presidência solicitou que o pedido seja avaliado em reunião conjunta entre Temer e os ministros da Justiça e Defesa.

    A operação será montada pelo Gabinete de Gestão Integrada (GGI) do RS, que articula não menos que, a nível estadual, a Brigada Militar, Polícia Civil, Corpo de Bombeiros, Susepe, Instituto-Geral de Perícias, Departamentos de Inteligência, de Planejamento e de Comando e Controle da Secretaria da Segurança; a nível municipal, a Secretaria da Segurança, Procuradoria-Geral, Guarda Municipal e EPTC; e a nível federal, as Forças Armadas, Agência Brasileira de Inteligência, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e Força Nacional de Segurança. Milhares de reais serão investidos na ação que deverá contar com cães, cavalaria, helicópteros e atiradores de elite no terraço do prédio do TRF4.

    A realidade é que a polêmica das últimas horas é apenas uma disputa mesquinha entre políticos graduados em repressão aos movimentos sociais – vide a convocação do Exército contra a marcha ocorrida em maio passado na capital federal e a violência da Brigada Militar contra os protestos de servidores públicos estaduais em dezembro de 2016.

    Na verdade, Marchezan quis tomar a frente da ação, o que não nos surpreende, pois o prefeito tem feito de tudo para criminalizar os movimentos sociais. Uma das últimas ações da Câmara de Vereadores de Porto Alegre em 2017 foi a aprovação de uma lei proposta pelo prefeito que visa controlar a ocorrência de manifestações em vias públicas, exigindo a autorização prévia dos órgãos municipais e ameaçando com multas de até R$ 400 mil os organizadores que não se enquadrarem nos ditames do paço municipal, ou seja, conhecendo as opiniões do prefeito, apenas o MBL e seus comparsas poderão se manifestar livremente na cidade.

    Em defesa do direito de manifestação

    A espetacularização desse julgamento é mais um capítulo da ofensiva reacionária que envolve a operação Lava Jato, um teatro que quer nos fazer crer que a corrupção iniciou no Brasil com o limiar do século XXI, ignorando a relação espúria entre militares e construtoras, bem como a corrupção que envolveu o restante dos governos do pós-ditadura, centralmente nos mandatos de FHC.

    Seria um erro não compreender que essa operação fornece a base ideológica e é o motor da campanha midiática em prol do programa de contrarreformas neoliberais em curso. Estamos contra a condenação sem provas de Lula e a criminalização do PT. Tais medidas não podem ser vistas pela esquerda como um atalho para a superação do lulismo e do PT – que durante seus três governos e meio sucumbiram as negociatas espúrias do presidencialismo de coalização e ao projeto de conciliação de classes. Na realidade, tais medidas representam a continuidade do golpe de 2016, ou seja, favorecem a direita em suas diferentes matizes e agradam profundamente o mercado financeiro internacional, interessado em abocanhar nosso patrimônio público e riquezas naturais.

    Mesmo não compactuando com o projeto político de Lula e o PT, defendemos que os movimentos sociais tenham o direito de manifestar em apoio ao ex-presidente no dia 24 de janeiro, assim como defendemos a revogação de todas as legislações repressivas existentes no Brasil, como a Lei Antiterrorismo e a Garantia da Lei e da Ordem.

    Imagem: Claiton Dornelles/JC

  • Haiti: 214 anos de uma revolução negra triunfante

    Por Matheus Gomes, Colunista do Esquerda Online

    Foi no dia 1° de janeiro de 1804 que o líder da maioria negra escravizada Jean-Jacques Dessalines proclamou, diante de uma multidão reunida na cidade de Gonaïves, a República do Haiti. Após mais de uma década de revoltas, nascia o segundo país independente das Américas e o primeiro a abolir a escravidão, já que o processo que levou à independência dos Estados Unidos, em 1776, não foi capaz de garantir liberdade ao povo negro da nação recém liberta do domínio inglês. O estabelecimento da Constituição que proibia qualquer estrangeiro de ser proprietário de terras ou imóveis no território haitiano foi fruto de um processo revolucionário singular – a primeira e única revolução protagonizada por escravos que se sagrou vitoriosa -, e desestabilizou potencias como a França e a Inglaterra.

    Colonização espanhola e francesa: a acumulação pela barbárie

    A região das Antilhas, ou América Central insular, foi a primeira a ser invadida pelos colonizadores liderados por Cristovão Colombo. Haiti significa terra montanhosa e era a forma como os Tainos – nativos da região – denominavam a ilha.

    Os primeiros relatos dos espanhóis afirmam que o território era dividido em diversos “cacicados” e classificava os autóctones como “mansos”, “sensíveis” e “tímidos”. O uso de tais adjetivos não impediram, no entanto, o genocídio dos nativos, por meio  de tentativas mal sucedidas de exploração da sua mão-de-obra. De acordo com o historiador Eric Williams, “Nesse local a população em 1492 era estimada entre 200 mil e 300 mil. Em 1508, o número tinha sido reduzido para 60 mil; em 1510, era 46 mil; em 1512, 20 mil; em 1514, 14 mil. Em 1548, Oviedo [historiador espanhol] duvidava se permaneciam 500 índios puros. Em 1570, tinham sobrevivido apenas dois povoados” .

    Foi nesse cenário de devastação e barbárie que os primeiros africanos escravizados desembarcaram na ilha a partir da segunda década do século XVI, dando início a três séculos de produção intensiva destinada a exportação e baseada no tráfico de escravos. Já em fins do século XVII, após a assinatura do acordo que findou a guerra entre a França e a Grande Aliança de Impérios, a parte ocidental da então ilha de “Santo Domingo” foi cedida aos franceses. Essa região teria sido inicialmente povoada por piratas, mas após a chegada dos enviados da coroa tornou-se o território mais valioso do Caribe, chegando a representar 2/3 dos negócios franceses. O desenvolvimento da exploração deu-se através das plantações de açúcar e, posteriormente, com o cultivo do café e, em menor escala, algodão e cacau.

    A divisão demográfica da ilha em meados do século XVIII nos ajuda a entender o alto grau de tensão social: mais de meio milhão de escravizados formavam cerca de 85% da população, o que obrigava os colonizadores a instituir um clima permanente de repressão e terror, sem qualquer direito a apelação.

    Quando “Liberté, Egalité, Fraternité” são levadas às últimas consequências

    Para entendermos a dinâmica da revolução é necessário conhecermos as peculiaridades da sociedade haitiana, que possuía uma estratificação social diferente de outras colônias, a exemplo do Brasil. Para o historiador cubano Sérgio Vilaboy, o elemento que distinguia Santo Domingo era a existência dos “mulatos livres”, agricultores emergentes que, na metade do século XVIII, representavam cerca de 5% da população, mas detinham um quarto da terra cultivável, tornando-se uma ameaça a hegemonia branca e ampliando a complexa relação entre cor e classe na ilha. Já nas últimas décadas do século XVIII, as vésperas da revolução, a composição étnica da população era a seguinte: brancos, 40 mil; mulatos, 96 mil, sendo 56 mil libertos e 40 mil sujeitos a distintas formas de escravidão; e 532 mil negros escravizados.

    Esse conjunto de classes em conflito permanente foi diretamente afetado pela Revolução Francesa de 1789. Para os grandes proprietários brancos, surgiu a oportunidade de dominar diretamente o governo de Santo Domingo estabelecendo o comércio livre e mantendo a escravidão. Em abril de 1790, foi convocada a Assembleia Geral da Parte Francesa de Santo Domingo, uma reunião com acesso limitado a proprietários com mais de 20 escravos, o que excluía os mulatos e brancos com menos posses. Contudo, as pretensões dos convocadores da Assembleia se chocavam com os interesses da metrópole, que viu na nascente Constituição Colonial as bases de uma declaração de independência, o que levou o Governador Conde de Peynier a dissolver em armas a empreitada, com apoio de mulatos e pequenos proprietários. Todavia, essa aliança entre mulatos e brancos não tardou em se desfazer à medida que era negada a igualdade de direitos entre eles, o que ocasionou uma série de levantes armados dos mulatos em 1791, que não incluíam em suas reivindicações a liberdade para os escravos.

    A dianteira dos mulatos no processo revolucionário começa a ser desfeita em agosto de 1791 quando iniciam as revoltas negras no norte. Vale destacar que o histórico de resistência dos escravizados remete a sua chegada à ilha e as constantes fugas e movimentos de guerrilha dos cimarrones – termo equivalente aos quilombolas do Brasil. A religiosidade mística e misteriosa do vodu cumpriu um papel importante na articulação de revoltas, como a liderada pelo escravo Makandal em 1758. Este dizia se inspirar nos deuses africanos e julgava-se forte o bastante para derrotar os senhores. De fato, além de uma rebelião massiva, ele ordenou diversos envenenamentos de brancos durante quatro anos, mas este movimento culminou no seu assassinato numa fogueira. Contudo, a repressão à religião nos anos seguintes não conseguiu impedir que o vodu seguisse aglutinando os escravizados, pelo contrário, o clima de conspiração instaurou-se fortemente e foi a partir do chamado do sacerdote Boukman que iniciou o levante escravo por todas as planícies do norte.

    Ao lado da metrópole, os grandes proprietários fizeram todas as manobras possíveis para conter a rebelião negra que se alastrava, mas a radicalização da Revolução Francesa novamente interferiu no processo. Encarregados de restaurar a ordem, três comissários franceses acompanhados de um forte efetivo militar desembarcaram na ilha em fins de 1792, entretanto, do outro lado do Atlântico aconteceria em janeiro de 1793 à execução de Luís XVI, acontecimento que transformou os grandes proprietários brancos em defensores diretos da causa realista. Enquanto o comissariado francês promulgava leis que concediam igualdade de direitos entre brancos, mulatos e negros livres, os grandes proprietários viam seu poder diminuir e organizavam sublevações contra a metrópole. Nesse interregno, as revoltas de escravos não cessaram, já que suas condições sociais permaneciam intactas e sem perspectiva de alteração, o que fica nítido nas palavras de um representante francês, que era enfático ao dizer que “não buscamos meio milhão de escravos na costa africana para fazer deles cidadãos franceses”, demonstrando que a igualdade, liberdade e fraternidade dos liberais franceses não se estendiam ao mundo colonial.

    Meses depois, no verão de 1793, o anseio pela liberdade e a impotência dos mulatos livres faz os escravizados, liderados por Toussaint Louverture, aliarem-se a Espanha, que invadiu a ilha prometendo liberdade aos negros, aproveitando-se da fragilidade da metrópole francesa ocasionada pela ofensiva internacional contrarrevolucionária. Por outro flanco, os ingleses também retomam a ofensiva militar, respaldados por colonos brancos e os mulatos. A intensificação da crise cria um beco sem saída para a metrópole que se vê obrigada, a partir de seu comissário Sonthonax, a declarar o fim da escravidão em 29 de agosto de 1793, medida respaldada pela Convenção Francesa em 4 de fevereiro de 1794 e garantia aos negros plenos direitos como cidadãos franceses.

    O acontecimento faz Louverture e outras lideranças como Dessalines, Jean Christophe e Charles Belair romperem sua aliança com os espanhóis e expulsarem seu exército da ilha, passando diretamente a vanguarda da resistência à ofensiva inglesa. Com base em pesquisas de historiadores do exército britânico, C.L.R. James afirma que as baixas da Grã Bretanha nas Antilhas chegam a quase 100.000 homens, o que é considerado o principal elemento da fraqueza do reino no final do século XVIII. Após liderar a expulsão dos ingleses em outubro de 1798 e já na condição de governador da colônia, Louverture enfrenta um conflito interno, pois a posição destacada dos ex-escravizados germinou a insatisfação entre os mulatos, que iniciam tentativas de sublevação contra o governo central, mas são derrotados rapidamente pelas tropas oficiais. O governo de Louverture promulga leis importantes como a ratificação da abolição da escravidão, a igualdade jurídica entre o conjunto da população e o reconhecimento do catolicismo como religião oficial.

    Entretanto, a reação de Napoleão Bonaparte e o Consulado na França impulsionaram a tentativa de fazer a ilha regressar a sua condição anterior a partir de 1802, fato que se consumou na Martinica e em Guadalupe. Contando com o apoio de alguns mulatos, que permaneciam como inimigos incontestes de Louverture, os franceses avançaram suas tropas e impuseram um regime de terror generalizado. Mas o ressentimento dos franceses também atingia os mulatos, nas palavras do General Leclerc – comandante da retomada -, “em minha opinião, temos que suprimir todos negros das montanhas (…) e não deixar na colônia nenhum mulato que carregue charretes” . Essa postura acabou forjando um bloco de classes entre escravizados e mulatos, em defesa da independência nacional e contra a escravidão. A revolta generalizada liderada por essa aliança acabou por derrotar o exército francês, que teve seus últimos destacamentos rendidos em 18 de novembro de 1803, na batalha de Vertieres. A partir daí florescia uma nação independente, mas também iniciava uma saga marcada por bloqueios econômicos, invasões estrangeiras e isolamento político.

    O impacto da revolução no Brasil

    Os ecos de liberdade ressoaram em nosso país e em toda a Afroamérica. Segundo o historiador Clóvis Moura, já em 1805, negros empregados nas tropas de artilharia do Rio de Janeiro foram presos por portarem um retrato de Dessalines. Nessa época, a impressão de qualquer gravura no Brasil era quase impossível, o que sugere a circulação da imagem a partir de escravos vindos de outras regiões do continente. Já na Bahia (não consta a data na referência), uma revolta de negros empregados na pescaria foi sufocada pelo governo central e os donos dos estabelecimentos relatavam que os acontecimentos revolucionários eram comentados abertamente entre os escravos. Ou seja, mesmo com todas as limitações de comunicação que a condição de escravizado impunha, o exemplo do Haiti se tornou uma utopia libertária para a parcela de escravizados que teve contato com os acontecimentos revolucionários.

    Esse período coincide com o momento em que os escravizados resistiram de forma mais ampla contra sua condição no Brasil: formação de quilombos, suicídios, crimes individuais contra os senhores, guerrilhas, assaltos nas estradas, uma série de ações contestatórias definiam o clima de corpo a corpo permanente entre escravos e senhores. O Haiti fez com que a metrópole e a burguesia nascente ampliassem as características repressivas do Estado e criou uma paranoia generalizada sobre a possibilidade de um movimento similar em nosso país.

    O cerco imperialista permanente

    A revolução logo colocou a República do Haiti numa encruzilhada. C.L.R. James escreve que Louverture, bem como seu sucessor Jean Christophe, “não conseguia ver outra saída para a economia haitiana senão as plantações de cana de açúcar. (…) Mas com a abolição da escravatura e a conquista da independência, a defesa das plantações, indelevelmente associadas à escravidão, tornou-se insustentável” , fazendo com que em poucos anos a economia da ilha se resumisse as necessidades de subsistência. Essa condição imposta pelo isolamento político e econômico internacional afundou o país na pobreza e criou conflitos políticos diversos. Mesmo assim, manteve-se entre a população um forte sentimento nacional, repleto de contradições cruzadas pelas divisões de classe da própria sociedade haitiana, pois, segundo James, após a revolução a elite haitiana sempre tentou reproduzir na ilha um modelo de civilização europeia que nunca se consolidou.

    O fato é que o Haiti jamais saiu da mira dos colonizadores de ontem e segue como alvo dos imperialistas de hoje. O sociólogo haitiano Franck Seguy, corroborando com o historiador e ex-presidente do Haiti Leslie Manigat, entende que as cinco razões principais da cobiça pelo território haitiano são “(1) a sua posição geoestratégica no caminho ao canal de Panamá (…); (2) a necessidade de transformação econômica do Haiti (sua liberalização) e de cumprir seu papel na divisão internacional do trabalho; (3) o controle do seu comércio exterior; (4) sua dívida externa; (5) a necessidade de comprovar que uma república negra é incapaz de se autogovernar.” .

    O último aspecto salientado tem relevância especial para refletirmos sobre o cruzamento entre os interesses de classe e a questão racial. Como seres considerados sem alma e inteligência poderiam erguer-se ante um Império? A verdade é que em 1804 toda a racionalização construída para legitimar a escravidão caiu de joelho ante a revolução negra, mas eles não tardaram em criar novas pseudo-justificativas para as suas ações ofensivas movidas por um profundo ressentimento racista. Desde a primeira invasão norte-americana em 1915 até a última ocupação liderada pelo governo brasileiro, as intervenções estrangeiras ocorrem em nome da paz, mas, na realidade, tem o intuito de frear a progressão de lutas sociais contra a opressão e a exploração no país. Qual guerra existe no Haiti? Quais são os campos em conflitos?  As ofensivas militares e a ingerência estadunidense na política haitiana em todo o século XX e as primeiras décadas do século XXI são a nova face do impedimento imperialista a autodeterminação haitiana. A repressão às lutas sociais promovida pela Minustah, à serviço da superexploração nas empresas da indústria têxtil, verdadeiros engenhos do século XXI, não foi divulgada pela grande imprensa no Brasil, mas é uma constante desde 2004. Nem o trágico terremoto, em 2010, sucedido por uma epidemia de cólera, foi capaz de suscitar o senso humanitário nas potencias imperialistas, tornando-se um dos fatores da emigração que hoje desagrega a nação.

    Como bem disse o uruguaio Eduardo Galeano, a tremenda sova dada pelos escravizados nos colonizadores jamais foi perdoada pelos europeus e “a história do assédio contra o Haiti (…) é também uma história do racismo na civilização ocidental.” . Mas relembrar a resistência das negras e negros haitianos é reacender a chama da esperança na potência desse povo e apostar que a consciência preservada historicamente ajudará a germinar novas lideranças, novos projetos e impulsionar a rebeldia. Viva a luta pela autodeterminação do Haiti!

    Seguem abaixo as referências utilizadas no texto e um convite para que ampliemos o estudo do tema:

    1 – texto completo da Constituição Haitiana de 1804 pode ser acessado, em espanhol, nesse link: http://www.bdigital.unal.edu.co/6602/33/12_Cap09.pdf.
    2 – WILLIAMS, Eric (1970) apud SHAWKI, Ahmed. Libertação negra e socialismo. São Paulo: Ed. Sundermann, 2017, p. 32.
    3 – VILLABOY, Sergio Guerra. El dilema de la independência. La Habana: Editorial Félix Varela, p 43.
    4 – Ibidem, p. 44.
    5 – MOURA, Clóvis. Dicionário de escravidão negra no Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2004, p. 357.
    6 – VILLABOY, op.cit. p. 45.
    7 – REGNAUL, Elias. Historia de las Antillas. Barcelona: Imprensa del fomente, 1846, p.46. Disponível em: https://issuu.com/scduag/docs/sch13116.
    8 – MOURA, op.cit. p. 358.
    9 – VILLABOY, p. 47.
    10 – Ibidem, p. 49, tradução nossa.
    11 – JAMES, C.R.L. A Revolução e o Negro. New International , Volume V, dezembro de 1939, pp 339-343. Transcrito por Ted Crawford. Disponível em http://pretotrotskismo.blogspot.com.br/2014/01/a-revolucao-e-o-negro-clr-james.html.
    12 – VILLABOY, p. 54, tradução nossa.
    13 – MOURA, op. cit. p. 359-361.
    14 – MOURA, Clóvis. Dialética Radical do Brasil Negro. São Paulo: Anita Garibaldi, 2014, p. 80.
    15 – JAMES, C.R.L. De Toussaint L’Ouverture a Fidel Castro. In: Manuela Ribeiro Sanches (Org) Malhas que os Impérios Tecem. Textos anticoloniais, contextos pós-coloniais. Lisboa: Edições 70, 2011, p. 158.
    16 – SEGUY, Franck. Para compreender a recolonização do Haiti. In: Revista Outubro, n° 22, 2° semestre/2014, p. 91. xvii – Ibidem, p. 96.
    17  -GALEANO, Eduardo. Os pecados do Haiti. Disponível em: http://resistir.info/galeano/haiti_18jan10.h
    Imagem: Batalha em San Domingo, pintado por January Suchodolski
  • Adeus ano velho!

    Por Carlos Zacarias de Sena Júnior*, Colunista do Esquerda Online. Publicado originalmente no Jornal A tarde(22/12/2017)

    Há muitos motivos pelos quais um ano entra para a história. Um golpe é sempre um acontecimento que logo se converte em fato histórico. 2016 foi o ano que assistimos um governo ser deposto por uma articulação midiática-jurídico-parlamentar, estribada no apelo das ruas, cujas manifestações foram lideradas pela FIESP e demais organizações empresariais e de direita.

    2017 entrará para os livros de história como o ano em que os golpistas se consolidaram no poder, apesar das ameaças e da instabilidade constante. Então começaram por fazer o trabalho para o qual tinham sido convocados: congelaram os gastos públicos por 20 anos; aprovaram a lei das terceirizações e uma reforma trabalhista que fez o país regredir em 80 anos. Até tentaram votar a reforma da previdência, mas como não conseguiram, trabalham para que ela seja aprovada no início do próximo ano.

    Para os historiadores, analogias são sempre arriscadas, mas são importantes para se traçar paralelos e se projetar tendências. Em 1965 a ditadura recém instituída por um golpe civil-militar decretou o Ato Institucional nº 2. Com 33 artigos, o AI-2 pretendia centralizar o poder e impedir que a oposição, que continuava existindo, avançasse pela via eleitoral. O AI-2 estabeleceu eleições indiretas para presidente e ainda extinguiu os partidos políticos, reduzindo-os a apenas dois, a ARENA e o MDB. Também estabeleceu a possibilidade de suspensão dos direitos políticos de quaisquer cidadãos e a demissão sumária de funcionários públicos que demonstrassem incompatibilidade com o regime.

    Obviamente que não estamos vivendo um estado de exceção do tipo implantado em 1964. Entretanto, diante de um ano tão tumultuado, a pergunta que fica é: quando estaremos, de fato e de direito, vivendo sob uma ditadura escancarada. Com a última ditadura, essa situação surgiu em dezembro de 1968, quando todos os escrúpulos de consciência, para citar a famosa frase de Jarbas Passarinho, caíram por terra e a ditadura assumiu a sua verdadeira face com a dissolução do Congresso e o estabelecimento de uma série de dispositivos que só as ditaduras contém.

    2018 estaria fadado a ser um novo 1968? Em se tratando das disjuntivas que estiveram presentes há 50 anos, é possível se dizer que sim. De um lado, parece ser provável que os movimentos sociais voltarão a ocupar as ruas, talvez reeditando a vitoriosa greve geral de 28 de abril, algo que nos remeteria às manifestações e passeatas que culminaram na passeata dos 100 mil, mas não está descartado que os golpistas, através do judiciário, interditem a candidatura de Lula, o que não deixará de ser um golpe dentro do golpe. No final das contas a história parece se repetir como farsa. Seu desfecho, entretanto, não pode ser antevisto. O significado de 2018 poderá ser decidido no início do ano, quando o julgamento de Lula e a votação da reforma da previdência definirão sobre qual cenário o restante do ano existirá.

  • Um alerta sobre o que desejar neste fim de ano

    Por Valério Arcary, Colunista do Esquerda Online

    Lula e Bolsonaro encabeçam as mais recentes pesquisas de opinião. Não são poucos na esquerda que vão comemorar o Natal pensando que, nestas circunstâncias, Lula venceria, e a ofensiva reacionária desencadeada desde 2015 seria interrompida. Não quero estragar as festas de fim de ano de ninguém. Mas a hipótese mais provável é que nenhum dos dois estará na disputa do segundo turno no ano que vem. E a ofensiva reacionária precisa ser derrotada antes da eleições, ainda em fevereiro, quando Temer e seus aliados vão tentar mais uma vez aprovar a reforma da Previdência. O desafio de mobilizar grandes massas na escala necessária para barrar este ataque não será simples.

    Aqueles que sonham com este cenário estão se deixando iludir pelo desejo. O desejo é o alimento do pensamento mágico. O pensamento mágico é uma tentativa de racionalização ilusória que oferece como recompensa uma sensação de controle ou segurança sobre um futuro incerto.

    Claro que estou entre aqueles que, mesmo não votando em Lula, defendo o direito democrático de ele poder participar da eleição. Mas ele será, provavelmente, condenado. Muito difícil a perspectiva de uma mobilização popular que faça tremer o Tribunal de Porto Alegre.

    Em algum momento, mesmo Lula fazendo campanha até o último momento, o PT deverá substituir Lula por outro candidato, procurando a transferência de votos.

    Bolsonaro terá dificuldades quase intransponíveis para chegar a um segundo turno. Seu crescimento ao longo dos últimos dois anos tem um teto, porque as posições que lhe deram visibilidade são neofascistas, e a audiência para estas propostas ainda é minoritária. O mais provável é que Bolsonaro já tenha chegado a este teto, e durante a campanha deverá perder influência. Os pesos pesados do PIB já estão articulados em torno de Alckmim. Subestimar a capacidade da Avenida Paulista de jogar pesado seria pura miopia. Neofascistas podem ser úteis para a classe dominante, mas somente em uma situação muito mais aguda na luta de classes. Disto não decorre que uma da tarefas centrais da esquerda não deva ser combatê-lo, desmascarar a demagogia de suas propostas, e lutar para que lhe seja imposta uma derrota esmagadora.

  • No Alvorecer de um novo ano

    “O correr da vida embrulha tudo.
    A vida é assim: esquenta e esfria, 
    aperta e daí afrouxa,
    sossega e depois desinquieta.
    O que ela quer da gente é coragem”

    Guimarães Rosa

    Por André Freire, do MAIS/PSOL, Xandão, da NOS e Miranda, do M-LPS

    Uma situação que não está decidida

    Há poucos dias da entrada de um novo ano, muitos ativistas, militantes e muitos trabalhadores e trabalhadoras, nutrem uma vontade de esquecer o ano de 2017.

    Realmente foi o ano dos piores ataques aos direitos e conquistas da classe trabalhadora. Não pretendemos fazer um grande balanço do ano com este pequeno artigo, mas contribuir para uma reflexão que nos ajude a compreender a situação, as possibilidades e as principais tarefas para a Esquerda Socialista no próximo ano.

    Para além de “extrair vitória nas derrotas” queremos olhar este ano como um ano inteiro e não só os recentes acontecimentos ou mesmo a atual situação. Se nos permitem, vamos lembrar um pouco mais que a continuidade do governo de 6% de popularidade e seus brutais ataques as conquistas e direitos do povo trabalhador brasileiro.

    O ano inicia com a posse de Donald Trump e junto com ela massivas passeatas e protestos contra ele nas principais cidades dos EUA, movimento protagonizado principalmente pelas mulheres. No Brasil consolida-se o governo de Temer e seus corruptos e iniciam-se mobilizações de massa, tendo como ápice a greve geral de 28 de Abril e a Marcha a Brasília que reuniu mais de 200 mil pessoas em 24 de maio.

    Uma nova Greve Geral foi marcada para 30 de junho e parecia que iriamos botar abaixo o governo Temer e suas reformas. Mas aí, as maiores centrais sindicais iniciaram o recuo nas mobilizações, em especial da CUT, situação que preconiza as derrotas do segundo semestre. De Greve Geral para dia nacional de luta e nada de mobilização. E o Congresso de corruptos aprova as reformas trabalhistas, a direita se assanha e inicia campanhas contra exibições de arte, impulsiona a aprovação do projeto chamado “escola sem partido” em várias cidades, aumento da criminalização de ativistas e movimentos.

    E assim começou o segundo semestre, se estivéssemos em uma luta de box poderíamos dizer que ganhamos alguns “rounds” no primeiro semestre, mas sofremos duros golpes este segundo semestre, não fomos nocauteados, não perdemos a luta, mas estamos em desvantagem.

    Os protestos realizados no dia 10/11, importantes greves, a ocupação Povo Sem Medo em São Bernardo do Campo de mais de 7 mil famílias na luta por moradia, as várias campanhas salariais do segundo semestre que em sua maioria mantiveram cláusulas detendo momentaneamente muitos dos itens da reforma trabalhista. Outro fato importante foi o “fogo amigo” das centrais sindicais marcando e desmarcando uma Greve Geral contra a reforma da previdência fato que desmobiliza e desmoraliza os trabalhadores e as direções sindicais. Por fim a falta de votos na Câmara dos Deputados que em nossa opinião tem mais a ver com a divisão da burguesia e o temor de uma explosão de mobilizações após os acontecimentos na Argentina que propriamente a mobilização das maiores centrais sindicais.  

    O que fazer?

    Está claro para nós que a unidade da classe para enfrentar essas batalhas é fundamental, portanto uma política ativa de Frente Única para enfrentar Temer e suas reformas é imperioso. A constituição de comitês, blocos, fóruns, frentes etc. para construir mobilizações e atividades contra as reformas e o governo Temer desde a base desde devem ser impulsionadas.

    Devemos estar presentes, ombro a ombro com a classe em todas as frentes de luta e mobilização e no desenvolvimento destes, apresentamos as propostas mais consequentes para reunir, organizar e de forma adequada a cada situação explicarmos que somente uma plataforma de independência de classe, de auto-organização da classe trabalhadora dos explorados e oprimidos e de ruptura com a conciliação de classes pode levar a vitória. Este é o combate necessário para superação da conciliação de classes, base da política do lulismo.

    A candidatura do PSOL pode jogar nesse processo, um papel importante para que o movimento avance, uma candidatura expressiva baseada em um programa de ruptura com o sistema e impulsionando a unidade para derrotar Temer e seus lacaios.

    O ano vindouro promete grandes combates e desafios que colocarão em teste as direções do amplo movimento dos trabalhadores, de nossa parte estamos animados com as grandes possibilidades de contribuir com a reorganização da Esquerda Socialista auxiliando a classe a se reencontrar com uma política genuinamente socialista e revolucionária.

    Coragem para ter a paciência e firmeza necessária para construímos um 2018 de vitórias e um novo patamar de organização da Esquerda Socialista. Não temos nada a temer.

    Abraço de carinho e luta a todos e todas militantes e ativistas!

    Um 2018 de lutas e vitórias!