Colunistas

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  • Uma odisseia cultural: da terra ao céu

    Desde o momento em que o homem se separou do reino animal – e isso ocorreu quando segurou pela primeira vez os instrumentos primitivos de pedra e de madeira – naquele momento começou a criação e a acumulação de cultura, isto é, de conhecimentos e habilidades de todo tipo para enfrentar e subjugar a natureza. (Leon Trotski, “Cultura e Socialismo”, In Escritos Filosóficos, Editora Iskra, São Paulo, 2015, p.220).

    No artigo anterior, demos início à investigação da complexa categoria “cultura”, tentando delimitar o seu lugar na teoria marxista. Partimos, assim, da base material das relações humanas (as forças produtivas), como condição necessária para enxergar os seus reflexos ideológicos (sob a forma das leis, da moral, da religião, da filosofia, da ciência, da arte). Lembramos que a palavra “cultura”, com seus diferentes usos e sentidos, funciona como uma espécie de síntese do próprio método, uma vez que, na origem etimológica, ela se relaciona ao “cultivo da terra”, tendo o seu significado expandido para designar também o “cultivo do espírito”. O percurso de análise, portanto, é orientado “da terra ao céu” (e não “do céu à terra”): com essas metáforas, Marx e Engels opuseram o materialismo histórico e dialético ao idealismo dos herdeiros de Hegel, mostrando que “não é a consciência que determina a vida”, mas “a vida que determina a consciência” (Marx e Engels, A Ideologia Alemã, Expressão Popular, São Paulo, 2009, p.32).

    Abrindo um parêntese, vale sublinhar que essas figuras são bem didáticas para expor o método ao leitor iniciante nos estudos marxistas: a “terra” (que está embaixo) representa a base econômica da “produção material” da existência; o “céu” (que fica em cima), o espaço da “produção espiritual”. Os dois elementos traduzem, pois, a implicação recíproca entre a “infraestrutura” e a “superestrutura”: ou seja, o “desenvolvimento desigual e combinado” (diria Trotski) entre as “forças produtivas” e as “forças ideológicas” (constitutivas da formação do Estado). Aliás, aproveitando o aniversário de 170 anos do Manifesto Comunista, recordemos também uma passagem do texto confirmando exemplarmente esse princípio metodológico, sob a forma irônica da seguinte pergunta retórica:

    Será necessário um exame mais profundo para compreender que, ao mudarem as relações de vida dos homens, suas relações pessoais, sua existência social, mudam também suas representações, suas opiniões e suas ideias, em suma, sua consciência? O que demonstra a história das ideias senão que a produção espiritual se modifica com a transformação da produção material? As ideias dominantes de uma época sempre foram as ideias da classe dominante (Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista, L&PM, Porto Alegre, 2014, p.57).

    Parafraseando a dupla, o que interessa destacar aqui, em síntese, é o princípio de que a vida material determina a vida espiritual: não são as ideias que produzem a matéria, mas a matéria que produz as ideias. Em outros termos, isso quer dizer que não é a cultura que fabrica os “homens em carne e osso”, mas os “homens em carne e osso” que fabricam a cultura. Como estamos falando em “homem”, “osso” e “cultura”, vale recordar também uma sequência emblemática do filme 2001: Uma Odisseia no Espaço (clássico de Stanley Kubrick lançado em 1968, há exatos 50 anos). Trata-se do instante em que o macaco tomou consciência de que poderia utilizar um osso como instrumento, constatando que ele servia tanto para matar uma presa e saciar a fome, quanto para matar o líder do grupo inimigo e conquistar um poço de água.

    Eufórico com a descoberta do “objeto mágico” de poder (que lhe permitiu subjugar tanto a natureza quanto os outros macacos), o símio jogou o osso para o alto: rodando lentamente no ar, a “ferramenta-arma” se converteu em nave espacial. Nesse movimento “da terra ao céu”, chamamos a atenção para o fato de que essa é a passagem demarcatória “em que o homem se separou do reino animal”: que ocorreu exatamente quando ele “segurou pela primeira vez os instrumentos primitivos”. Façamos a ressalva de que importa menos se, na ficção cinematográfica de Kubrick, estes eram de osso, e o homem ainda era macaco; ou se, na leitura antropológica de Trotski, eram de pedra ou madeira, e o macaco já era homem. O que interessa agora, especificamente, é que tanto o filme do diretor americano quanto o texto do dirigente russo pressupõem a existência de uma linha de fronteira onde “começou a criação e a acumulação de cultura”.

    Como a arte é capaz de sínteses que são impossíveis aos textos teóricos (reféns do “expansionismo” verbal, já que submetidos ao dever de explicar), a veloz transformação do osso em nave espacial traduz melhor essa “odisseia cultural”, conectando os pontos extremos desta nossa longa jornada “da terra ao céu”. Ou seja, dos “instrumentos primitivos” à mais desenvolvida tecnologia, o que chamamos de “cultura” é – em linhas gerais – o enorme acervo “de conhecimentos e habilidades de todo tipo” que a coletividade humana reuniu “para enfrentar e subjugar a natureza”. Assim, do macaco que empunhava o osso ao homem que pilota a nave, o que está em jogo não é apenas o desenvolvimento das forças produtivas, (conforme se depreende da lição extraída do Manifesto), mas que, “ao mudarem as relações de vida dos homens, suas relações pessoais, sua existência social, mudam também suas representações, suas opiniões e suas ideias, em suma, sua consciência”.

    Em outros termos, do homem em “estado selvagem” ao homem “civilizado”, as figuras do “osso” e da “nave” representam, metonimicamente, a heterogeneidade de componentes constitutivos da cultura. Compreendida como fenômeno social, histórico, ela engloba as habilidades técnicas, os conhecimentos científicos, as crenças religiosas, os valores morais, os padrões de comportamento, as regras de convívio social, as formas de organização familiar, os modos de se vestir, os registros de linguagem, os hábitos alimentares, os ritos iniciáticos, as celebrações coletivas, as manifestações artísticas (como a literatura, o cinema, o teatro, a escultura, a música, a arquitetura e as artes plásticas), etc.

    Para concluir este segundo artigo, o nosso grande desafio, enfim, é compreender como essa série de elementos desiguais se combinam, estruturando a totalidade a que chamamos de “cultura”. Para isso, o crítico precisa ter sempre em mente (parafraseando Shakespeare) que há mais mistérios entre a terra e o céu (ou entre o osso e a nave) do que supõe a vã filosofia pseudomarxista.

    *Paulo César de Carvalho (Paulinho) é militante da RESISTÊNCIA-PSOL

  • O assassinato de Rosa Luxemburgo, cem anos depois

    A reabilitação teórica e política de Rosa está ainda por ser feita diante dos olhos da nova geração. Mas enquanto existir uma esquerda que tenha paixão revolucionária Rosa Luxemburgo estará viva

    Se a produção capitalista gera um mercado suficiente para si, a acumulação capitalista (considerada objetivamente) é um processo ilimitado. Se a produção pode sobreviver, continuar a crescer sem obstáculos, isto é, se pode desenvolver as forças produtivas ilimitadamente,(…) desmorona um dos mais fortes pilares do socialismo de Marx.(…) Mas (…) o sistema capitalista é economicamente insustentável. (…) Se, no entanto, aceitarmos com os “especialistas ” o caráter econômico ilimitado da acumulação capitalista, o socialismo perde o piso granítico da necessidade histórica objetiva. Ficamos perdidos nas nebulosidades dos sistemas pré-marxistas que queriam deduzir o socialismo somente da injustiça e maldade do mundo
    e da decisão revolucionária das classes trabalhadoras. 
     [1]

    Rosa Luxemburgo

    Foi há cem anos. Já se disse que o silêncio é a maior das represálias. O aniversário deve ocorrer sem maior repercussão. No dia 15 de Janeiro de 1919, no calor da crise revolucionária que permanecia aberta depois da revolução de novembro de 1918 que derrubou o Kaiser, Rosa Luxemburgo foi assassinada, ao lado de Karl Liebknecht. A reabilitação teórica e política de Rosa está ainda por ser feita diante dos olhos da nova geração. Mas enquanto existir uma esquerda que tenha paixão revolucionária Rosa Luxemburgo estará viva.

    Desde o 9 de Janeiro, Berlim era uma cidade em estado de sítio. Rosa e Liebknecht sabiam que estavam encurralados, e que o cerco se apertava. Há vários dias viviam em permanente mudança de endereços. Até que a delação levou as milícias paramilitares ao seu esconderijo.

    O perigo de um confronto mais sério, e até de guerra civil, tinha feito os trabalhadores recuarem, inseguros diante da divisão irreconciliável dos partidos que reconheciam ainda como os seus. O governo Ebert/Sheidemann (uma coalizão do SPD e do USPD, os dois partidos operários mais influentes, conhecidos como majoritários e independentes, levados ao poder pelo “fevereiro” alemão que derrubou a monarquia), estava inflexível na determinação de destruir a dualidade de poderes que, sobretudo em Berlim, ameaçava a estabilidade do regime, e prenunciava uma nova vaga revolucionária. O perigo de um Outubro alemão, verdadeiro ou ilusório, tinha estado no ar.

    Era preciso agir, e agir rápido: daí que a decisão do governo, de retomar o controle da polícia de Berlim, a qualquer custo, fosse irredutível. Diante da reação enérgica dos setores mais avançados da classe operária, em defesa dos Conselhos de trabalhadores e soldados, o Governo não hesitou em tomar as medidas mais brutais, o cerco militar da cidade, reveladoras da sua decisão de não hesitar, e ir até ao derramamento massivo de sangue, se necessário.

    Já os setores de vanguarda do proletariado que tinham ensaiado o seu “junho de 1848”, recuavam, precipitada e abruptamente, em debandada. O teste de força fora feito e o seu resultado era desolador. A maioria da classe trabalhadora voltou para as fábricas, e se entrincheirou, intimidada, consciente que não seria possível manter a unidade do movimento sob a bandeira da greve geral até a derrubada do Governo.

    Nesse ínterim, a repressão contra os spartakistas se abatia de forma impiedosa. O cerco se apertava. Refugiados, nos dias 12 e 13, em uma residência no bairro operário de Neukölin, Rosa e Liebknecht mudaram-se, no 14, para um apartamento “respeitável” de um distrito de classe média em Wilmersdorf. Suas cabeças estavam oficiosamente a prêmio, com uma substantiva recompensa oferecida por empresários de extrema direita, provavelmente com a anuência de Scheidemann. Foram presos às nove horas da noite, ainda na presença de Pieck, um dirigente do comitê central, que tinha acabado de lhes trazer documentos pessoais falsos, para facilitar a saída de Berlim.

    Como os Freikorps os encontraram nunca se soube. Foi, provavelmente, casual. Talvez algum vizinho a tenha identificado pela famosa deficiência na perna. Foram levados até o Hotel Eden, onde estava instalado, provisoriamente, o quartel general de uma das divisões para-militares na parte central de Berlim. Sabiam que não seria uma prisão como outras, e que seriam severa e brutalmente interrogados Mas, desta vez, seus destinos já estavam traçados. Primeiro Liebknecht e depois Rosa foram duramente atingidos por coronhadas na cabeça e, depois, levados para fora do Hotel, colocados dentro de um carro e, em seguida, fuzilados, à queima roupa: Liebknechet arrastado para fora do carro para simular uma fuga, foi baleado pelas costas. Rosa recebeu o tiro na nuca, ali mesmo.

    O corpo de Luxemburgo foi lançado nas águas do canal Landwehr, de onde foi resgatado somente em Março. Ali foi colocada uma placa, ao lado de uma das pontes, para honrar a sua memória. Rosa, a alemã, a judia-polonesa, a internacionalista, a vermelha, morreu na Berlim que tanto amou, assassinada pela fúria fascista que, em 1933, chegaria ao poder, para mergulhar a Europa no maior genocídio da história.

    A mão que aperta o gatilho nem sempre é a mesma mão que aponta a arma

    Não restam dúvidas, se é que existiram, sobre o balanço histórico da cumplicidade do governo do SPD, o primeiro da República de Weimar, pelo assassinato de Rosa e Liebknechet. Sabemos, hoje, que a ordem de execução não partiu do Governo. Mas, também sabemos, que a perseguição que cercava os revolucionários spartakistas foi incentivada por Ebert e Scheidemann: Noske, e os Freikorps sob o seu comando, de onde surgiria, nos anos seguintes, uma boa parte do material humano das milícias nazistas, eram um ponto de apoio vital do governo, que duvidava da disciplina da maioria das tropas militares.

    O assassinato de Rosa teve para o marxismo revolucionário na Alemanha, o efeito devastador de uma ruptura dos vínculos entre duas gerações. A experiência política que estava resumida nas pessoas de Rosa, de Liebknechet e de Jogiches, o primeiro companheiro de Rosa, se perdeu. Ninguém menos do que Hannah Arendt, denuncia, sem meias palavras, fundamentando-se na pesquisa de Nettl, a criminosa atitude dos socialistas no poder.[i]

    O Estado alemão-ocidental, ironia da História, assumiu décadas mais tarde, durante a guerra fria, à sua maneira, a responsabilidade pelo assassinato, apresentando-a nos termos de “uma execução de acordo com as condições de lei marcial”. Fez o que Weimar não podia fazer: a justificação política do crime. A comparação inescapável do escárnio dos assassinos, com o comportamento dos carrascos de Hitler, nos julgamentos dos crimes de Guerra, não é acidental. Sabiam poder contar com a impunidade, tal era o grau de dependência do governo de Ebert/Noske diante do aparato militar.

    O confronto prematuro do 5 de Janeiro

    Uma contextualização histórica ajudará a compreender porque foi tão necessário o massacre da direção dos spartakistas. As circunstâncias políticas das jornadas de janeiro de 19, o primeiro dos vários “junhos de 1848” ou “julhos de 1917” da revolução alemã são pouco conhecidas, mas merecem atenção, dadas as suas irreparáveis conseqüências. As crises revolucionárias também têm os seus tempos desiguais, conhecem alternâncias de conjuntura, e sofrem com a flutuação e inversão das relações de forças.

    Os acontecimentos que precipitaram as lutas de janeiro começaram de forma quase trivial, como em geral ocorre quando uma revolução está em movimento, e se abre uma situação de crise revolucionária. Tudo se iniciou a partir de um primeiro movimento de contra ofensiva do governo presidido pelo SPD, que considerava intolerável as permanentes manifestações de massas não controladas em Berlim, fator de impulso e ao mesmo tempo, expressão da dualidade de poderes, e resolveu derrubar o chefe de polícia da cidade Emil Eichhorn, membro do USPD, para colocar no lugar alguém mais confiável.

    Acusado de incapacidade na preservação da ordem pública, e de permitir que a polícia se transformasse em uma instituição “quase revolucionária”, era vital para o governo a sua queda. Eichhorn desafiou a decisão do governo, se recusando a obedecer às ordens do Ministro do Interior, e afirmando que sua autoridade só podia ser questionada pelo Conselho de operários e soldados. A direção do USPD de Berlim apoiou essa decisão, e resolveu resistir, convocando as massas às ruas, para uma manifestação de protesto. Já os spartakistas apoiaram a ação de rua, mas defendendo a greve geral e, mais importante, que as tropas do exército deveriam ser desarmadas, e os trabalhadores armados.

    A posição de Rosa, na direção do KPD, foi a favor, mas ressalvando que a greve deveria ser somente de protesto, para medir forças, e aguardar a reação de Ebert e do Governo e a repercussão junto aos trabalhadores no interior do país. A passeata, no dia 5 de janeiro, foi um sucesso muito além do que todos esperavam e, tudo indica, a direção do KPD recebeu informes que garantiam que, uma parte dos soldados aquartelados em Berlim, estavam do lado dos inssurectos. Mais tarde, isso se demonstrou completamente infundado.

    A partir daí, a sorte estava lançada, alea jacta est: reuniões conjuntas dos independentes (USPD) de Berlim, dos comunistas e dos delegados revolucionários constituíram um organismo comum das três frações, com 33 membros e um secretariado de três dirigentes, Liebknecht, Lebedour e Scholze. As atribuições precisas desse organismo permanecem obscuras: seria sua responsabilidade, ou intenção, dirigir o movimento como um protesto, ou tentar a derrubada do governo?

    A questão é pertinente, e talvez sem resposta histórica, porque a esquerda socialista alemã, em todas as suas sensibilidades e matizes, inclusive Rosa e a direção spartakista, tinha sido formada em uma cultura de que revoluções “não se fazem”, mas são feitas pelas massas. Já a militância spartakista, em sua maioria, jovens que não viveram o período anterior à guerra, e pouco experientes, tinha inclinações voluntaristas incorrigíveis.

    Mas, para os que se tinham formado no velho SPD antes da guerra, a aprendizagem de consciência de classe deveria ser ditada pelo curso das lutas e eventos, e deveria ser o protagonismo dos trabalhadores, deslocando as instituições, quem colocaria objetivamente o poder nas ruas. Essa era a cultura da esquerda socialista na Alemanha: governos caem, não são derrubados; o palácio se rende, não é tomado. A ordem político-social desaba, finalmente, pela força da ação das massas, e o governo, pela perda de legitimidade, cai “de maduro”. Sujeito social e sujeito político, movimento e direção, classe e partido, se confundem. Revolução e insurreição não se separam.

    Por isso, é difícil discernir até onde estavam dispostos a ir efetivamente os revolucionários reunidos após o entusiasmo da manifestação do 5 de Janeiro. Setores de vanguarda dos trabalhadores começaram a ocupação de prédios em Berlim, entre eles, os escritórios do Vowärts, o diário do SPD. Esse não foi um pequeno erro: a grande maioria do povo, ainda que desconfiado da decisão de demissão do seu chefe de polícia, ainda reconhecia o SPD como a sua direção e o Vowärts como o seu jornal diário.

    Na seqüência, o comitê conjunto da esquerda revolucionária votou, embriagado pela pressão dos acontecimentos, uma efêmera resolução (que não teve maiores desdobramentos) a favor de derrubar o governo. Até Liebknecht votou a favor, contra a posição da direção do seu partido, que sabia ser também a posição de Rosa e Radek, o dirigente russo então colaborando em Berlim. Mas, já no dia 6 de Janeiro, esse Executivo das três correntes estava em dúvida sobre a decisão da véspera e, sem mais delongas, decidiu apoiar a posição da direção do USPD que, entretanto, tinha iniciado negociações com o Governo.

    Entre outros fatos, parece ter sido decisiva a neutralidade da Volksmarinedivision, a unidade militar que o Governo tinha tentado dissolver em Dezembro e que, tendo recebido o apoio popular, era a grande esperança de sustentação militar do levante. A direção spartakista, paradoxalmente, condenou ambos os movimentos, tanto o de precipitar a luta pelo poder, quanto a de iniciar negociações…O governo, no interim, tinha começado o movimento de tropas de sua confiança para Berlim.

    Rosa estava marcada para morrer

    A partir daí começou a fuga. Tudo indica que a lógica política sinuosa que guiou a posição dos spartakistas, com o apoio de Rosa teria sido, resumidamente, esta: os comunistas consideravam um erro a decisão dos setores mais avançados da classe de iniciar um movimento imediato pela derrubada do Governo, ou que tensionava o conflito, a tal ponto, que o problema do poder estaria objetivamente colocado. Sem embargo, como essa tinha sido a vontade dos trabalhadores em luta, por disciplina de classe, tinham se unido às massas em levante. Mas, enquanto o KPD se mantinha ao lado dos insurgentes, as outras organizações, as primeiras em colocar objetivos inalcançáveis, bateram em retirada, capitulando em negociações de gabinete, e deixando os trabalhadores à mercê da repressão.

    Moral da história: os spartakistas foram os últimos a “aderir” ao levante, mas ele iniciado, os mais reticentes em recuar, e depois os seus mais destacados mártires. Isabel Loureiro resume, assim, o seu balanço de Rosa nos dias decisivos de Janeiro: “Em suma, nos meses de novembro-janeiro, Rosa permaneceu fiel à sua teoria política: a ação de massas cria as próprias organizações e permite o desenvolvimento da consciência de classe, processo no qual seriam resolvidos os problemas da tomada do poder e do que fazer com ele após a vitória. A ação supre planos, organização, falta de clareza sobre as tarefas a cumprir à medida que os problemas surgem, com eles nascem as respostas desde que haja total liberdade de movimento(…) A tática bolchevique, ao ver no partido um contra-poder de assalto ao poder, é, no que tange a esse problema, mais eficaz. Os autores, independentemente de posição política, de maior ou menor simpatia pelos spartakistas, são unânimes em apontar a falta de organização da Liga Spartakus.” (grifo nosso) [ii] (LOUREIRO, Isabel, Rosa Luxemburgo, os dilemas da ação revolucionária, São Paulo, Editora da Unesp, 1995 p.176/7)

    O frágil governo nascido da revolução de novembro que derrubou o Kaiser retomava a iniciativa, apoiado no deslocamento de tropas disciplinadas, vindas do interior do país, e poupadas do acelerado processo de radicalização que o clima de agitação das massas operárias de Berlim provocava. Mas, sua força repousava, também, nas milícias nacionalistas para-militares que agiam impunemente. As “jornadas de Julho” da primeira vaga da revolução alemã, se encerravam com a decapitação do emergente movimento revolucionário no mais decisivo país da Europa. O paralelo histórico parece quase irretocável. A principal liderança spartakista foi vítima de uma repressão implacável que se abateu sobre um levante que não dirigiam, que não tinham convocado, de cujas reivindicações discordavam, mas que se viram obrigados a acompanhar e defender por solidariedade de classe.

    Os Spartakistas se viram condenados, politicamente, ao isolamento e abandonados à fúria da mais feroz repressão na seqüência de um levante insurreccional, em tudo semelhante, pela sua precocidade, à precipitação das jornadas de Julho em Petrogrado em Julho de 17, quando, a direção bolchevique esteve seriamente ameaçada (Lênin mergulhou, então, na clandestinidade na Finlândia, e Trotsky, entre outros, é preso, e os locais públicos dos bolcheviques são fechados, enquanto sua imprensa era proibida). Mas, como os relatos históricos confirmam à exaustão, a fragilidade orgânica dos spartakistas, era incomparavelmente maior.

    A analogia que sugerimos, pretende realçar que, na seqüência de revoluções democráticas de “tipo fevereiro”, uma metáfora histórica que remete à revolução que derrubou o Czar em 1917, como foi o 9 de novembro na Alemanha, é comum que ocorram situações de intensa agudização na luta de classes. Nessas circunstâncias, acontecem testes de força entre as classes em conflito. Setores mais radicalizados entre os trabalhadores e a juventude, se lançam a um confronto aberto, invariavelmente prematuro, sem considerar que, no conjunto da classe trabalhadora, e ou, no conjunto do país, existam condições efetivas para lutar pelo poder. Ou para preservar o poder se, eventualmente, vitoriosos em um primeiro momento. Foi isso que ocorreu, também em Berlim, nos primeiros dias de Janeiro de 1919.

    Este episódio confirma que a contra-revolução aprende as lições dos processos revolucionários precedentes: a liquidação física de Rosa era vital para neutralizar o crescimento da influência dos comunistas, que se beneficiavam diretamente do impressionante prestígio da revolução de Outubro entre os trabalhadores. As pesquisas feitas por Jogiches, nos poucos meses que o separaram da sua morte, igualmente trágica, indicam que a decisão política de eliminar a qualquer custo Luxemburgo, já tinha sido tomada, mesmo antes da manifestação de 5 de Janeiro.

    O que justifica que se pergunte as razões pelas quais, ela e Liebknecht, não tenham sido retirados mais cedo do cenário conflagrado de Berlim. A resposta mais plausível é que inexistiam condições organizativas de emergência para fazer o translado. Esse fato, cujas conseqüências políticas para o futuro da revolução alemã se demonstraram irreparáveis (o que remete a uma interessante reflexão sobre o papel do indivíduo na História), pelo peso qualitativo e único da personalidade de Rosa na direção dos Spartakistas, fala por si só, da importância do debate estratégico sobre as relações entre movimento e partido, ação e organização, aos quais Rosa se entregou de corpo e alma, incondicionalmente, em um raro exemplo de coerência entre teoria e prática, durante toda sua vida.

    A difamação também tem uma história


    A tragédia de sua morte física resume os dilemas de sua heróica vida política: na primeira crise revolucionária de sua vida, em Varsóvia, onde chegou clandestina para viver os últimos meses da vaga de 1905, foi presa, e solta depois do pagamento de um expressivo resgate-fiança; na segunda, foi morta.

    Os seus detratores tiveram origem nas mais diferentes tendências do pensamento social e político. Todos os métodos de difamação e calúnia foram usados para diminuí-la. Não surpreende que as classes dominantes, seja na Alemanha ou na Polônia, não tenham o menor interesse em divulgar perante as novas gerações o seu lugar na História, ou a importância dos seus trabalhos. Mas os falsificadores do lugar e obra de Rosa vieram, também, e sobretudo, das tendências da esquerda que, por muitas décadas, detiveram a maior influência entre os trabalhadores e a juventude: a social democracia e o estalinismo.

    Os primeiros, em especial os social-democratas de esquerda, se dedicaram a converter Rosa em uma inimiga precoce da revolução de Outubro, quase como uma apóstola de um socialismo democrático e libertário, em irredutível oposição de princípios, ao socialismo tirânico e ditatorial de um Lênin “bárbaro” e “asiático”. Esta ficção deitou raízes profundas. É certo que Rosa manteve duras polêmicas com o bolchevismo durante anos, antes e depois de Outubro. Aliás, da mesma forma que Trotsky, e muitos outros o fizeram, inclusive muitos membros da própria fração bolchevique, como Bukharin, Zinoviev e Kamenev. A esquerda internacionalista pode ter tido outros defeitos, mas nunca foi monolítica. A unanimidade não era perseguida como virtude. Todos se enfrentaram, freqüentemente, com Lênin, sem que essas acesas querelas estratégicas e táticas tivessem envenenado as relações, ou diminuído o enorme respeito, que sempre foi mutuamente preservado.

    Uma esquerda, em grande medida, minoritária em seus países, diversa em seu enfoque de interpretação do marxismo, mas solidária, como veio a se demonstrar pelo reencontro histórico na fundação da Terceira. O que merece sempre ser destacado, como um exemplo de esforço de unificação, pouco seguido, posteriormente. Por outro lado, também é certo que Rosa apresentou críticas agudas a algumas decisões dos bolcheviques, como a de dissolução da Assembléia Constituinte.

    Mas, talvez, tão ou mais importante, seria destacar que, todas e cada uma dessas decisões, resultaram de intensas polêmicas entre os próprios bolcheviques no poder. Muitas delas públicas ou semi-públicas. Os russos, antes da stalinização, davam uma enorme importância às opiniões dos marxistas de outros países. Por isso, submeteram à apreciação dos delegados aos Quatro Primeiros Congressos da Terceira Internacional, delicadas resoluções, de caráter deliberativo, sobre a política do Estado Soviético. Também, nessa dimensão, a perda de Rosa foi devastadora. Ela resumia uma autoridade que, por sua vez, faltava à maioria dos jovens militante que se viram à frente dos recém- formados partidos comunistas. A seguir um extrato de Isabel Loureiro sobre o tema:

    “Evitemos cair nas armadilhas social-democráticas e liberais que acaba­ram por transformá-la em uma autora anti-bolchevique, e até mesmo não marxista. Aliás, uma vertente interpretativa que fcz fortuna no ocidente aponta quase exclusivarnente o viés “democrático”, vendo aí a sua contribuição ao legado marxista. Esse aspecto salientado, et pour cause, pela social-democracia, não pode fazer-nos perder de vista que Rosa assim como os bolcheviques, seguiu sempre, sem vacilar, o mesmo fio condutor: a revolução proletária. Mas nem por isso se pode considera-la urna ponta de lança do bolchevismo na Alemanha, como a direita e os comunistas sempre afirmaram. São bem conhecidas as suas críticas a Lênin e, na hora da revolução alemã, ao defender incisivamente os conselhos corno órgãos do novo poder proletário, nem por isso passou a ser favorável à liberdade “dos que pensam da mesma maneira”. Os comentadores não comunis­tas são unânimes ao reconhecer que Luxemburgo, por sua independência e firmeza diante dos bolcheviques, teria sido a única liderança na Alemanha capaz de opor-se ao atrelamento do KPD a Moscou.”. (grifo nosso) (LOUREIRO, Isabel, Rosa Luxemburgo, os dilemas da ação revolucionária, São Paulo, Editora da Unesp, 1995, p.16)

    Rosa acabou sendo, portanto, uma das personalidades mais controvertidas da história do movimento socialista. Em 1923, Ruth Fischer e Arkady Maslow, dirigentes do partido comunista alemão, simpáticos à campanha da “bolchevização” impulsionada por Zinoviev, nos tempos da Troika, iniciaram a campanha contra os desvios, então “direitistas” de Luxemburgo, acusada como herança “sifilítica” do movimento. Seus “erros” foram então severamente analisados, “descobrindo-se”, finalmente (abracadabra!), que eram quase idênticos aos de Trotsky. Do esdrúxulo amálgama, resultou um exorcismo do suposto “espontaneísmo” que, por sua vez, teria raízes no economicismo “catastrofista” de interpretação da “crise final” do capitalismo, contida em sua obra A Acumulação do Capital.

    O “catastrofismo economicista”

    Este tema do economicismo na obra de Luxemburgo foi sempre muito controverso. A questão teórica, como é óbvio, é decisiva, no seu sentido mais grave: o marxismo não é fatalismo, mas máximo ativismo. Em que medida operam as tendências estritamente econômicas à crise do capitalismo, como um dos fatores decisivos do atual período histórico? Mandel sintetiza, nos termos que poderão ser conferidos a seguir, os limites metodológicos da crítica que, de tão freqüente, se tornou quase um “lugar comum”.

    “Es en este contexto que los seguidores de Marx han intenta­do formular de modo mas rigoroso el probable destino dcl capitalismo. Rosa Luxemburg fue la primera en tratar de elaborar sobre uma base estrictamente científica una teoría del inevitable derrumbe dcl modo capitalista dc producción. En su libro La acumulación del capital intentó demonstrar que la reproducción ampliada. con plena realización del plusvalor producido durante el proceso de producción propiamente dicho, era imposible en el capitalismo ‘puro’. Ese modo de producción, por lo tanto, tenía una tendencia inherente a expandirse en un medio no capitalista, es decir, a devorar grandes áreas de pequeña producción de mercancías que aún sobreviven den­tro de la metrópoli capitalista y a expandirse continuamente hacia la periferia no capitalista es decir los paises coloniales y semicoloniaIes. Esa expansion -incluyendo sus formas más radicales, el colonialismo y las destructivas guerras coloniales de la epoca contemporánea; el imperialismo y las guerras imperialistas era indispensable para la supervivencia del siste­ma(…) Pero Luxcm­bourg dejaba claro que, mucho antes dc ese momento final las simples consecuencias de esas formas de expansión cada vez mas violentas, así como las consequencias del gradual encogi­miento del medio no capitalista, agudizarían las contradicciones internas del sistema hasta tal punto de explosión, preparan­do así su derrocamiento revolucionario.” (MANDEL, Ernest, El Capital, Cien Años de Controvérsias en torno a la obra de Karl Marx, México, SigloXXI, 1985, p.233/4)[iii]

    À luz da história da segunda metade do século XX, um intervalo expressivo para permitir a avaliação de tendências de longo prazo, não parece razoável alimentar a expectativa de que o desmoronamento do capitalismo possa ocorrer por “morte natural”. Fatores como o atraso da entrada em cena dos trabalhadores em países chaves, e o correspondente atraso na construção de novas direções independentes, deveriam ganhar uma nova dimensão. Seriam essas conclusões incompatíveis com um quadro de análise como o feito por Rosa Luxemburgo? Vejamos, de novo, o argumento de Mandel:

    “Algunos críticos han sostenido que, al basar la perspectiva del inevitable derrumbe del modo capitalista de producción exclusivamente en las leyes de movimiento del sistema, Luxemburg retrocedía hacía el ‘economicismo’; que eso era una regresión del modo como los propios Marx y Engels y sus primeros discípulos integraban siempre los movimientos y leyes económicos con la lucha de clases, a fin de llegar a proyecciones y perspecti­vas históricas generales. Sin embargo esa objeción es injustificada. Si bien es cierto que la historia contemporánea del capitalismo, y en realidad la historia de cualquier modo de producción en cualquier época, no se puede explicar satisfactoriamente sin tratar la lucha de clases (y especialmente su desenlace después de ciertas batallas decisivas) como factor parcialmente autónomo, también es cierto que toda la significación del marxismo desaparece si esa autonomia parcial se transforma en autonomia absoluta. Es justamente el mérito de Rosa Luxernburg, así como de sus varios antagonistas subsiguientes en la ‘polémica del derrumbe”, el haber relacionado los altibajos de la lucha de clases con las leyes internas de movímiento del sistema. Si supusiéramos que o bien la infinita adaptabilidad del sistena capitalista, o la astucia política de la burguesia, o la incapacidad del proletariado de elevar su conciencia a nivel suficiente (por no hablar de la supuesta creciente “integración” de la clase trabajadora a la sociedad burguesa), pueden, a largo plazo y por tiempo indefinido, neutralizar o invertir las leyes internas del movimiento y las contradicciones intrínsecas del sistema, es decir, impedirles afirmarse, entonces la única conclusión cientificamente correcta seria que esas leyes(…) no corresponden a la esencia del sistema: en otras palabras que Marx estaba básicamente equivocado al pensar que había descubierto esa esencia”(MANDEL, Ernest, El Capital, Cien Años de Controvérsias en torno a la obra de Karl Marx, México, SigloXXI, 1985, p.233/4)

    A análise é irretocável. Sem negar a atualidade das conclusões sobre o movimento de rotação do Capital, reveladas por Marx, seria necessário acrescentar que a esfera de autonomia crescente da política, na definição dos desenlaces da luta de classes, tem permitido o adiamento de novas crises catastróficas, como a de 1929. Não foi outro o lugar das políticas keynesianas anti-cíclicas do pós-guerra e dos pactos sociais nos países centrais. O que não anula, strictu sensu, a defesa metodológica que Mandel faz de Rosa, mas recoloca o problema de forma mais complexa, para além de uma resposta binária, como, “ou ela estava essencialmente certa, ou essencialmente errada”. Porque só conseguiram adiar a crise, aumentando a intensidade dos fatores de crise. Um novo “29”, portanto, é mais do que possível, é em uma perspectiva histórica, a hipótese mais provável.

    A acusação final: espontaneísmo e trotskismo “avant la lettre”

    Os impressionantes ziguezagues dos dez anos seguintes levaram a uma mudança do foco da crítica. Em 1925, depois de mais um giro imposto pelas necessidades da diplomacia de Estado na URSS, aos quais os jovens PC’s estavam disciplinadamente comprometidos, Fischer e Maslow foram expulsos. Os ataques a Rosa, então, inverteram o seu signo. Inventaram, na seqüência, que seus desvios, afinal, não teriam sido direitistas, mas ultra-esquerdistas.

    Mas esse não seria o último capítulo da novela. Mais uma espetacular reviravolta ainda estava por se dar. Durante o chamado “Terceiro Período”, que se estendeu entre 1928 e 1935, o PCA se recusou a fazer qualquer gesto de aproximação na ação com o SPD, para resistir ao perigo da chegada ao poder de Hitler. Sob a alegação insólita de que os socialistas seriam sociais-fascistas, isto é, socialistas em palavras, mas quinta coluna do fascismo nos atos (aliás, a mesma espantosa teoria ressuscitada pelo maoísmo nos anos 70, só que a propósito da URSS, e dos partidos pró-moscovitas), Rosa Luxemburgo foi acusada novamente de direitista.

    Finalmente, em 1931, o próprio Stalin, já sem intermediários, se uniu à campanha de difamação histórica em um famoso artigo, “Problemas da História do Bolchevismo”, em que reescrevia a história de acordo às suas conveniências, e no qual decretou, contrariando as mais incontroversas evidências, que Rosa seria responsável pelo imprescritível “pecado teórico” da revolução permanente. Não satisfeito com essa ligeireza, acusou Trotsky de ter plagiado Luxemburgo.

    Nesse mesmo artigo, mais aberrante ainda, proclamou que Rosa só teria começado a polêmica com o centrismo de Kautsky em 1910. E só depois que Lênin a tivesse convencido. Mas o artigo de Stalin, não obstante a grotesca falsificação, definiu, irremediavelmente, a posição oficial dos partidos comunistas de todo o mundo por várias décadas. Não é difícil compreender a razão de toda essa hostilidade. Assassinada no auge de sua maturidade política, personalidade de grande influência nos círculos revolucionários europeus, mártir da causa do socialismo no país mais decisivo da Europa, Rosa deixou uma obra de indiscutível valor teórico e literário, em que cada página está temperada de ardor e determinação revolucionária.

    Seu incondicional internacionalismo, seu apaixonado apelo à ação, sua confiança no protagonismo do proletariado, seu apego irredutível aos mais altos valores da ética militante, seu compromisso inalienável com a verdade e a honestidade, sua preocupação com o sentido político e a dimensão histórica da luta pela liberdade, enfim, a permanente busca de coerência entre suas idéias e sua vida, unidade entre teoria e prática, eram incompatíveis tanto com o pensamento e a prática das castas burocráticas no poder na ex-URSS e na Europa Oriental, quanto com a visão do mundo das burocracias sindicais e políticas social-democratas confortavelmente adaptadas, de corpo e alma, à reconstrução da ordem capitalista.

    Viveu no início da época do imperialismo e, rapidamente, compreendeu o papel nefasto do novo militarismo, e a crescente importância dos gastos com armas como mecanismo de regulação do sistema. Por último, mas não menos importante, na hora crucial do Agosto de 1914, quando a precipitação da Primeira Guerra Mundial colocou a hora da verdade para todos os partidos marxistas europeus, dirigiu ao lado de Liebknechet, o pequeno grupo de militantes do SPD que se negaram a apoiar os planos belicistas do seu próprio governo imperialista. O inventário de suas posições, e esta breve exposição de sua trajetória são, portanto, impressionantes.

     

    [i] ARENDT, Hannah, Introduction in Rosa Luxemburgo, NETTL, J.P., New York, Shocken Books, 1969

    [ii] LOUREIRO, Isabel, Rosa Luxemburgo, os dilemas da ação revolucionária, São Paulo, Editora da Unesp, 1995

    [iii] MANDEL, Ernest, El Capital, Cien Años de Controvérsias en torno a la obra de Karl Marx, México, SigloXXI, 1985

     

    [1]LUXEMBURGO, Rosa, “El Problema en discusión” in La acumulacion de Capital, México, Cuadernos de pasado y Presente 51, 1980, p.31. Este ensaio é também conhecido como a Anticrítica.

  • O que é Cultura?

    Ora, a rigor, tudo é cultural. Não só os instrumentos de trabalho, os mitos, os sistemas de casamento e a organização das cores em um léxico, mas – e é o que aqui interessa – todos os textos, todas as formas de narrativa são obviamente culturais. (Sírio Possenti, Os humores da língua, Mercado das Letras, Campinas, 1998, p.42).

    Este é o artigo de estreia da minha coluna de Cultura no Esquerda Online. Ainda que muitos colaboradores já tenham abordado o assunto nestas páginas, a minha participação neste espaço implica assumir dois compromissos com o leitor: um é o de tratar a “cultura” como objeto específico de análise; o outro, o de publicar com regularidade. Posto isso, para poder investigá-la em sua singularidade, é condição que esteja delimitado com clareza o seu lugar no pensamento marxista (a bem do rigor metodológico, ela é parte de uma totalidade). Aliás, como não foi Marx quem inventou o termo, para poder definir o conceito de “cultura” na teoria marxista, em primeiro lugar, é preciso saber quais são exatamente os significados que se atribuem à palavra.

    Para defini-la com precisão, pois, deve-se considerar que ela ocorre em diversos contextos, que lhe determinam diferentes traços de sentido. Dando exemplos concretos, as situações em que ela se manifesta são muitas e bastante variadas: da “cultura” de arroz, de soja e de cana à “cultura” de flores, de peixes e de abelhas; da “cultura” de aves, de ovelhas e de porcos à “cultura” antiga, medieval e contemporânea; da “cultura” negra, indígena e oriental à “cultura” grega, inglesa e brasileira; da “cultura” literária, musical e cinematográfica à “cultura” econômica, política e jurídica; da “cultura” popular, erudita e de massas à “cultura” machista, feminista e lgbt; da “cultura” jovem, acadêmica e pop à “cultura” elitista, autoritária e democrática; da “cultura” cristã, muçulmana e judaica à “cultura” aristocrática, burguesa e operária…

    Como se percebe, a palavra “cultura”, apesar de ser a mesma em todas as ocorrências, pertence a “campos semânticos” distintos (com o perdão do trocadilho). As locuções adjetivas “de arroz” e “de soja”, por exemplo, caracterizam a “cultura” como “cultivo da terra”, remetendo à atividade econômica da “agricultura”. As locuções “de ovelhas” e de “porcos” definem a “cultura” como “criação de animais” (no caso, “ovinocultura” e “suinocultura”), relacionando-a à atividade econômica da “pecuária”. Os adjetivos “antiga” e “contemporânea”, em contrapartida, atribuem à “cultura” uma marca temporal, conferindo-lhe o sentido de “período histórico”. Já os adjetivos “negra” e “indígena” e “inglesa” e “brasileira” qualificam a “cultura”, respectivamente, pelos traços da “etnia” e da “nacionalidade”.

    No caso dos adjetivos “muçulmana” e judaica”, a palavra “cultura” é definida como “crença religiosa”. Caracterizando-a como “literária” e “musical”, a “cultura” é interpretada como sinônimo de “arte”. Os pares de adjetivos “feminista” e “machista” e “hétero” e “lgbt” dão à “cultura” (com o perdão do trocadilho, novamente) outra orientação de sentido, associada às noções de “gênero” e de “sexualidade”. Por outro lado, os adjetivos “burguesa” e “operária” definem a “cultura” pelo caráter de “classe social”. Em outra perspectiva, os adjetivos “autoritária” e “democrática”, fazendo referência a “regimes políticos”, marcam a “cultura” pelo “grau de liberdade” nas relações pessoais, sociais, políticas e ideológicas (incidindo, pois, sobre a produção e circulação das ideias).

    Enfim, poderíamos multiplicar os exemplos, dada a abrangência de usos desta palavra polissêmica: os que foram citados, contudo, já são suficientes para iniciar o esboço de uma formulação marxista do conceito de “cultura”. Lembrando o que disse o linguista Sírio Possenti na epígrafe, em linhas gerais, pode-se considerar que, “a rigor, tudo é cultural”: dos “instrumentos de trabalho” aos “textos”. É importante notar que Sírio parte exatamente da base material das relações humanas, isto é, das forças produtivas, para chegar à reprodução ideológica dessas relações na superestrutura (através dos “mitos” e “formas de narrativas”, por exemplo). A perspectiva metodológica que ele adota para problematizar a “cultura”, portanto, é marxista.

    A propósito, vem bem a calhar, como endosso, esta reflexão de Marx e Engels em A Ideologia Alemã, na qual a dupla estabelece os fundamentos do método materialista, mostrando que é a partir do “processo real de vida” que se constituem os “reflexos e ecos ideológicos desse processo”:

    A produção das ideias, das representações, da consciência está em princípio diretamente entrelaçada com a atividade material e o intercâmbio material dos homens, linguagem da vida real. O representar, o pensar, o intercâmbio espiritual dos homens aparece aqui como direta exsudação do seu comportamento material. O mesmo se aplica à produção espiritual como ela se apresenta na linguagem da política, das leis, da moral, da religião, da metafísica, etc, de um povo. (Marx e Engels, A Ideologia Alemã, Expressão Popular, São Paulo, 2009, p.31).

    Como se depreende do excerto, antes de se transformar em ideias políticas, jurídicas, morais, religiosas e metafísicas que caracterizam a identidade de cada povo, demarcando as semelhanças e diferenças entre um e outro, a “cultura” existe como “atividade material”. Em outros termos, a sua origem está na relação direta do homem com a natureza: quando este começa a desenvolver meios de agir sobre ela, submetendo-a às suas necessidades e desejos, surge a “cultura”. A etimologia da palavra, não por mera coincidência, revela a sua base material originária: “cultura” nasce do latim culturae, que significa “ação de tratar”, “cultivar”. Para deixar mais nítida a relação, a forma culturae deriva de colere, cujo sentido remete objetivamente ao “ato de plantar”, “desenvolver atividades agrícolas”.

    Aliás, nas primeiras linhas do ensaio “Cultura e Socialismo”, Trotski faz referência exatamente a esta origem etimológica “materialista”, que serve de base concreta para fundamentar a sua análise da “cultura”:

    Comecemos por lembrar que originariamente “cultura” significava apenas campo arado e cultivado, por oposição à floresta ou ao solo virgem. A cultura se contrapunha à natureza, isto é, correspondia ao que o homem tinha conquistado com seus próprios esforços, em contraste com o que tinha recebido da natureza (…). Cultura é tudo aquilo que foi apreendido, conquistado pelo homem no curso de toda a sua história. (Leon Trotski, Escritos Filosóficos, Editora Iskra, São Paulo, 2015, p.219).

    Essa definição funciona, enfim, como uma espécie de resumo deste artigo de estreia da nossa coluna cultural: a origem da palavra “cultura”, como disseram Marx e Engels, é a “atividade material”, o “processo real de vida”. A “produção espiritual” – em que a “cultura” se manifesta através de regras jurídicas, valores morais, dogmas religiosos e teses filosóficas – decorre, no final das contas, da “produção material” da existência: ou seja, da “cultura” da soja, da cana, do arroz, das ovelhas, dos bois, dos porcos, dos peixes, das aves, etc. Ainda que o processo não ocorra de forma mecânica, por determinação imediata e exclusiva da base econômica (como Engels adverte na carta de 1880 a Joseph Bloch), é do cultivo das plantas, da “cultura” das flores, em última instância, que brotam as pinturas.

    Em outras palavras, é dos “instrumentos de trabalho” que se fabricam os instrumentos musicais, que, através de muitas outras mediações, permitem aos homens “fabricar” canções. É através das técnicas desenvolvidas ao longo da história para dominar as forças naturais que se produz o papel, em que se reproduzem “textos e formas narrativas”, impressos em jornais, revistas e livros. Se não existisse “campo arado e cultivado”, como, por exemplo, os campos de algodão do Mississipi, e o modo de produção escravista, não haveria as condições materiais para a “produção espiritual” do “blues”: sem o pastor de ovelhas, o poeta não teria inventado a “poesia pastoril”. Ou seja, não foi o rap que criou a periferia, mas o sertão que fabricou o cordel: se não fossem as orelhas, os rabos e os pés dos porcos, os negros não teriam inventado a feijoada, traço de identidade característico da “cultura” gastronômica do Brasil.

    Para concluir, é por essas razões que a palavra “cultura” deve ser compreendida como a síntese dialética da “produção material” e da “produção espiritual”: isto é, de “tudo aquilo que foi apreendido, conquistado pelo homem no curso de toda a sua história”. Por isso é que, partindo dos “homens em carne e osso”, para então chegar aos “homens narrados, pensados, imaginados, representados”, a palavra “cultura” subsume o vaqueiro e o aboio, o lavrador e o maracatu. A senzala e a feijoada, a capoeira e o jongo, a prisão e a gíria, a escravidão e o preconceito, enfim, são partes de um todo indissolúvel: nessa perspectiva é que, na dinâmica das relações desiguais e combinadas, pode-se dizer que, “a rigor, tudo é cultural”.

    *Paulo César de Carvalho (Paulinho) é militante da RESISTÊNCIA-PSOL.

  • A prisão de Battisti e o desfecho da ‘fuga sem fim’

    Numa ação da Interpol articulada entre as polícias brasileira, boliviana e italiana, o escritor e ex-ativista italiano Cesare Battisti foi preso nesse domingo (13), em Santa Cruz de la Sierra. Chega ao fim sua trajetória de andanças e lutas jurídicas exposta em seu romance autobiográfico “Minha fuga sem fim”.

    O caso é reconhecido internacionalmente como o mais complexo das relações diplomáticas entre Brasil e Itália. Penso que, em nosso caso, pode ser comparado apenas à entrega de Olga Benário aos nazistas, orquestrada por Getúlio Vargas e Filinto Müller, em 1936. Décadas depois, através do sucesso nas bilheterias do cinema, os brasileiros puderam conhecer a motivação ideológica e o sentido cruel desse aceno de Getúlio a Hitler. E sobre Battisti, quando a verdade virá à tona?

    A miséria da imprensa nacional impede que qualquer contextualização histórica seja feita com qualidade. No site GaúchaZH, por exemplo, Battisti é apresentado como “um dos últimos protagonistas dos ‘Anos de Chumbo’ da violência dos anos 1970”. Ora, a expressão grifada é sempre utilizada para descrever situações onde o poderio militar se sobrepõe autoritariamente ao civil e, nesse caso, transmite a ideia de que Battisti era agente desse processo repressivo, o que não tem nada a ver com o contexto da Itália setentista. Battisti é identificado como terrorista pela imprensa corporativa, mas essa definição ampla e imprecisa serve apenas para mobilizar uma campanha anti-esquerda e disseminar desinformação.

    A “Estratégia de Tensão” e o combate à esquerda italiana

    A verdade é que a Itália do pós-guerra, governada pela Democracia Cristã (DC), foi incapaz de punir de forma consequente os fascistas. Preocupada com a força da esquerda social-democrata e comunista, a burguesia italiana preferiu, em conjunto com a OTAN, perseguir o movimento operário e popular utilizando um método conhecido como “Estratégia de Tensão”.

    Colocado em prática a partir de um aparato montado pela inteligência italiana, CIA e combatentes oriundos das antigas milícias fascistas, o “Operativo Gladio”, como ficou conhecido na Itália, foi o responsável por diversas ações terroristas. “Você deve atacar civis, gente comum, mulheres, crianças, gente inocente, desconhecidos alheios a qualquer atividade política. A razão é simples: dessa maneira, você força os cidadãos a exigirem do estado maior segurança.”¹, afirmou em 2001 Vincenzo Vinciguerra, fascista italiano responsável por diversos atentados.

    Essa foi a tática utilizada para justificar a repressão estatal e diminuir o espaço político  da esquerda, principalmente dos comunistas. O Partido Comunista Italiano (PCI) era considerado o mais importante de todo o ocidente na época. Entretanto, sua estratégia não passava pela tomada violenta do poder, pelo contrário, após as eleições de 1976 e em meio a uma grande onda de protestos e conflitos sociais, o PCI passa a ter ministros no governo da DC. Ao lado das intensas mudanças no interior da esquerda após os acontecimentos de maio de 68, tal política do PCI está no centro da reorganização dos comunistas no país.

    Por um lado, o PCI transforma-se ao longo da década na principal expressão do movimento “Eurocomunista”, um giro dos comunistas à social-democracia; noutra ponta, surgem grupos armados, com destaque para as Brigadas Vermelhas, responsável pelo assassinato do líder da DC Aldo Moro em 1978, fato que rompe a aliança entre os cristãos e o PCI; e ainda vale citar o movimento operaísta idealizado por intelectuais como Mario Tronti, Raniero Panzieri e Antonio Negri.

    Battisti integrou o grupo Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), uma pequena organização dentre as diversas que surgiram na época. O PAC não se propunha a tomada do poder, era mais voltado a resolução de problemas imediatos, como a questão dos abusos no sistema carcerário e a resistência à violência policial. No contexto de conflito com as organizações paramilitares fascistas, os assassinatos reivindicados pelo grupo foram as mortes de Antonio Santoro (carcereiro-chefe da prisão de Udine), Pier Torregiani (ourives conhecido por fazer justiça com as próprias mãos), Lino Sabbadin (membro ativo de grupos fascistas) e Andrea Campagna (motorista da polícia de Milão).

    Para entender a trajetória de fuga de Battisti é preciso levar em consideração o processo de investigação e o julgamento de tais crimes.

    O estudo organizado pelo Prof. Carlos Alberto Lungarzo (Unicamp), com base nos inquéritos, processos, sentenças e relatórios da Anistia Internacional, dentre outras fontes, aponta diversas questões contraditórias.

    Primeiramente, o julgamento de Battisti não apresentou nenhuma prova material de sua participação nos crimes; das 10 testemunhas, nenhuma reconheceu Battisti como autor dos crimes; os advogados de Battisti eram desconhecidos por ele e atuaram por procuração falsa, aliás, sequer o réu sabia do processo e pôde comparecer ao julgamento; por fim, as declarações que serviram de base para a sua condenação foram obtidas inicialmente por meio de torturas e posteriormente por meio de delações premiadas.

    Fica nítido que para ser solidário a Cesare Battisti não precisa defender a luta armada ou ser comunista, basta compartilhar de princípios democráticos mínimos. O processo que o puniu visava eleger um bode expiatório, não investigar tais crimes. A Itália carrega uma história de injustiças e perseguição política a esquerda: em 1978, 62% dos presos políticos sequer haviam sido julgados e a quantia chegava a quase 4 mil. Enquanto isso, os crimes cometidos por fascistas seguem impunes até os dias de hoje. Por isso, a história de Battisti foi acolhida por intelectuais, artistas e políticos do mundo inteiro nas últimas quatro décadas.

    A que(m) serve esse teatro?

    A ampla exposição midiática da prisão de Battisti é a “cereja do bolo” que ratifica a aliança entre Bolsonaro e Matteo Salvini, ministro do interior e liderança ascendente da Liga, partido da extrema-direita xenófoba italiana. Para o brasileiro, a prisão é a primeira vitória da campanha ideológica que visa vincular movimentos sociais ao terrorismo. Em pleno domingo, o presidente convocou reunião de emergência e enviou um avião da FAB para Bolívia, tudo para exibir Battisti como um troféu em terras brasileiras. Enquanto isso, Matteo Salvini, promove uma cruzada similar, troca afagos com Bolsonaro e afirma que o “presente” renderá bons frutos para as relações bilaterais.

    A tragédia é que, em meio a esses crápulas, Evo Morales tenha silenciado completamente. Com os olhos nas eleições de outubro, onde corre o risco de perder a presidência, em meio à crise na Venezuela e a política de boa vizinhança com Bolsonaro, um dos últimos expoentes do ciclo de governos progressistas na América Latina demonstra que já não vivemos os tempos em que um projeto de unidade dos povos a nível internacional passava necessariamente pelo palacete da Plaza de las Armas, em La Paz.

    A essa altura, Battisti já desembarcou em Roma e ficará isolado numa cela por, no mínimo, seis meses. Ele não é o primeiro, nem será o último, mas, aos que lutaram por justiça em torno desse caso permanece o desejo para que a verdade venha a tona.

  • R$ 998 de salário para todos os políticos

    No primeiro dia do ano, Bolsonaro assinou o decreto que fixou o salário-mínimo em R$ 998 em 2019, ou seja, R$ 8 abaixo do valor formulado no orçamento pelo governo Temer. Assim, ao contrário dos ministros do STF, que receberam aumento de 16,38%, o reajuste do salário-mínimo ficou em apenas 5,27%. Alguns deputados federais afirmam que “colegas passam necessidade” com o salário de R$ 33,7 mil reais – ou seja, quase 34 salários-mínimos.

    A ganância e a hipocrisia dos políticos precisa acabar. Os políticos recebem mais de trinta vezes o que mais de 40 milhões de brasileiros ganham e ainda reclamam. Se eles pensam que um trabalhador pode receber menos de mil reais por mês e ainda tem que se contentar com isso, então eles também devem receber menos de mil reais por mês. Se eles pensam que esse é um salário aceitável, então que recebam esse salário!

    A situação do povo brasileiro

    Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio do IBGE em 2016, 44,5 milhões de trabalhadores brasileiros receberam, em média, R$ 747 por mês, valor 15% abaixo do salário-mínimo em 2016, que era de R$ 880. Já os 1% mais ricos receberam, em média, R$ 27 mil por mês, ou seja, 36 vezes o que a metade mais pobre dos trabalhadores receberam.

    Isso não é tudo: 1,8 milhão de crianças entre 5 e 17 anos trabalham, quase um milhão de forma irregular. 800 mil adolescentes trabalharam sem registro em carteira, o que é proibido.

    De acordo com o Relatório de Desenvolvimento Humano elaborado pelas Nações Unidas, o Brasil é o décimo país mais desigual do mundo, usando como referência o índice de Gini.

    Não tem dinheiro?

    Para justificar o baixo salário-mínimo, Bolsonaro afirmou que cada real de aumento do salário-mínimo custaria R$ 300 milhões por ano aos cofres públicos. Com isso, dá a entender que o Estado não tem dinheiro o suficiente para arcar com um bom salário.

    Mas isso é simplesmente falso. Só em 2017, o Brasil deixou de arrecadar R$ 354,7 bilhões com isenções de impostos para grandes empresas. São medidas como essa, em favor dos mais ricos, que fazem com que o Brasil seja um dos mais desiguais do mundo. Com R$ 354,7 bilhões em um ano, seria possível dobrar o valor do salário-mínimo.

    Outro problema que consome cerca 40% do orçamento federal é o pagamento da chamada dívida pública, grande parte dela contraída de forma ilegal. Enquanto o governo se nega a convocar uma auditoria cidadã da dívida pública, para que a origem e a legalidade dessa dívida sejam investigadas, é o povo brasileiro quem paga a conta.

    Deixem o povo decidir

    Um deputado federal custa, por ano, R$ 2 milhões aos cofres públicos, incluindo diversos privilégios abusivos como R$ 4 mil de auxílio-moradia e ainda o cartão corporativo, com o qual os deputados gastam entre R$ 30 e R$ 45 mil por mês com despesas pessoais. Somando o valor para os 513 deputados, o valor anual chega a R$1,1 bilhão.

    Com esse valor, seria possível aumentar em apenas R$ 3 o valor do salário-mínimo. Mas o que o povo prefere, aumentar em três reais o salário mínimo, ou permitir que os deputados tenham esse salário abusivo e todos esses privilégios? Será que os políticos têm coragem de convocar um plebiscito e deixar que o povo decida isso?

    Ora, se os deputados, senadores, o presidente, o vice e os ministros acreditam que receber apenas R$ 998 por mês é muito pouco, então também é pouco para o povo brasileiro. Pois então que recebam esse valor, ou aumentem o salário-mínimo para um valor justo, para que todo o povo também tenha direito a um salário justo.

    Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

  • Promoção do filho de Mourão retoma velhas práticas da ditadura

    O novo governo chega ao seu décimo dia acumulando confusões entre as figuras do alto escalão. Só que a última não se trata dos já corriqueiros desencontros entre as falas de Bolsonaro e a sua equipe ministerial, mas do primeiro caso de nepotismo que tomamos conhecimento na gestão da “nova era”. Por mais que a grande imprensa titubeie em chamar as coisas pelo seu devido nome, não há outra definição para a súbita ascensão do filho do vice-presidente Mourão no quadro de funcionário do Banco do Brasil. A partir de agora, Antonio Mourão trabalhará ao lado de Rubens Novaes, presidente do BB, e receberá um salário de R$ 35 mil, quase o triplo do que recebeu até o mês passado.

    Na agenda de governo apresentada ao público na semana passada por Onyx Lorenzoni, consta que nos primeiros 10 dias todas as nomeações deveriam ser feitas observando as regras do Decreto 7.203, que veda o nepotismo. A observação sobre os riscos das nomeações iniciais alertava que “o sistema não previne totalmente nomeações polêmicas, que podem posteriormente ser questionadas e causar desgaste”. Mas, ao que tudo indica até o momento, mesmo que a promoção tenha causado mal-estar entre os ministros e pego de surpresa o próprio presidente, ela será sustentada até o fim. O BB já enviou um informativo para todos seus funcionários justificando a escolha, assim como o vice-presidente foi a público defender o mérito do filho.

    A verdade é que, uma vez no poder, os militares têm a prática de usar sua localização para enriquecer. Na ditadura foram inúmeros os casos que mostraram como a participação no governo era uma “porta giratória” para assumir cargos de alto-escalão em empresas públicas e privadas. O histórico da acumulação financeira do General Ernesto Geisel é escandaloso. Durante o seu governo (1974-79), além do início da distribuição de propinas na Petrobrás – inclusive delatada oficialmente na Operação Lava Jato -, houve o favorecimento da instalação da multinacional Dow Chemical Company no Polo Petroquímico de Camaçari, na Bahia. Assim que deixou o governo, em 1980, Geisel assumiu a presidência dos conselhos da Copene e da Norquisa, empresas do ramo petroquímico que, consequentemente, possuíam relações estreitas com o grupo estrangeiro. Ao contrário dos boatos divulgados nas redes sociais, o General não morreu pobre, bem pelo contrário: fazendo uma estimativa a partir dos atuais salários da carreira militar e dos executivos da Petrobrás, meu amigo Enio Buchionni estima que Geisel recebia cerca de R$ 127 mil.

    O atual governo civil-militar tem tudo para seguir a tradição de corrupção da ditadura brasileira. Falando nisso, Bolsonaro e seu filho Flávio, agora senador pelo Rio de Janeiro, até o momento não conseguiram responder qual a origem e a intenção da movimentação financeira realizada entre Fabrício Queiroz e a primeira dama Michele Bolsonaro. Será que o Super Moro resolverá essa questão?

    Vídeo – Entenda como foi a corrupção na Ditadura Militar

     

  • Qual é a melhor tática na eleição para presidente da Câmara dos Deputados?

    As virtudes dos homens são semelhantes ao vôo dos pássaros.
    A ave que se habitua com a paisagem rasteira perde o gosto pela altura.
    Sabedoria popular indiana

    Marcelo Freixo é o melhor candidato que a esquerda poderia apresentar para a presidência da Câmara dos Deputados. Por três razões. Primeiro, porque na eleição para este cargo não se trata da eleição do representante de uma bancada. O tamanho da bancada do PSol não é a questão. Trata-se de lançar um deputado que tenha, por sua trajetória, a autoridade política para se projetar, para dentro e fora da Câmara, como um freio, um contra-peso aos abusos de poder do governo Bolsonaro, e ao Bloco que pretende lhe oferecer sustentação incondicional.

    Freixo está ameaçado de morte há anos, antes e depois do assassinato de Marielle Franco. Ninguém na atual Câmara tem um estatuto sequer, remotamente, comparável ao de Freixo na luta pelas liberdades democráticas e civis que estão, gravemente, ameaçadas. Ele é um gigante moral diante do anão sinistro Rodrigo Maia.

    Segundo, porque é impossível formar um campo de oposição de esquerda com o o PDT de Ciro Gomes. Ciro Gomes já deixou claro que não está disposto a lutar aliado ao PT, e sinalizou que irá manter uma posição construtiva, propositiva, circunstancial diante do governo Bolsonaro. Não se trata de uma avaliação de quais serão as bandeiras de esquerda que Ciro Gomes está disposto a defender. O problema é se Ciro Gomes e seu bloco estão ou não comprometidos a ser oposição consequente a Bolsonaro. E quem não for oposição ao governo Bolsonaro não tem futuro.

    Terceiro, porque o apoio do PT a Freixo do PSol deixará o PCdoB, por enquanto, aliado ao PDT de Ciro Gomes e à articulação por ele liderada, diante de um dilema político incontornável.

    O caminho sugerido por alguns petistas de apoiar uma candidatura do PCdoB contra Freixo é, além de precipitado, muito perigoso. Porque levará o PT a se curvar diante da articulação promovida por Ciro Gomes. Quando o que se trata, taticamente, é de pressionar o PCdoB a se separar de PDT e PSB.

    Autoengano é a mais infantil forma de ilusão. É também a pior, porque é autoimposta. A esquerda parlamentar não tem chance alguma de ganhar a eleição para presidente da Câmara de Deputados. Simplesmente, não é possível. A atual composição da Câmara é a mais direitista desde o fim da ditadura. Mesmo considerando o número de desmiolados que existe no Bloco de apoio a Bolsonaro, não é razoável pensar que irão se arriscar a perder esta posição estratégica de poder. Sendo assim a tática deve estar orientada para a projeção de um campo de oposição de esquerda intransigente, irreconciliável com o governo Bolsonaro, sério e articulado.

    Se o PT hesitar por muito mais tempo em apoiar Marcelo Freixo estará jogando a favor de Ciro Gomes e contra a formação da Frente Única da esquerda que é necessária e possível. Portanto, contra si mesmo. Tiro no pé.

    O PSol inicia este mandato com um movimento tático brilhante.

    Foto: EBC

  • ‘Meninos vestem azul e meninas, rosa’ é ideologia

    Em seu discurso de posse, Bolsonaro afirmou que vai “combater a ideologia de gênero” e fazer com que o Brasil fique livre de “amarras ideológicas”. Contraditoriamente, a equipe de Bolsonaro atua em sentido absolutamente contrário, impondo suas ideologias sobre todo o povo, como fez a ministra Damares ao afirmar que “meninos vestem azul e meninas vestem rosa”. Dizem combater ideologias para poderem criar suas próprias amarras ideológicas, que são apresentadas como fatos incontestáveis.

    Existem várias formas de definir o conceito de ideologia. Os fundamentalistas, por exemplo, consideram “ideologia” como um conjunto de ideias que são contrárias aos “fatos”, à ordem “natural” das coisas. A conclusão “lógica” é que existiriam leis naturais que fazem com que meninos usem azul e meninas usem rosa.

    Mas que lei natural é esta? Por acaso a pele dos meninos queimam quando vestem rosa? É óbvio que não, não existe nenhuma lei biológica, química ou física que determina os comportamentos dos sexos. A obrigação a que meninos usem roupas e brinquedos de determinadas cores e formas, enquanto as meninas usem roupas e brinquedos de outras cores e formas, é apenas uma ideologia. Ou seja, é uma ideia que faz com que os seres humanos se comportem de determinada forma, sem haver nenhuma justificativa racional para isso.

    Historicamente, a ideologia de que azul é cor masculina e rosa é cor feminina foi criada no século XX e só se consolidou por volta de 1980. Em 1927, por exemplo, um artigo da revista Time mostrou que três lojas de departamento vendiam produtos rosa para meninos e azul para meninas, enquanto outras três vendiam azul para meninos e rosa para meninas e uma vendia rosa para ambos os sexos.

    Afinal, o que é natural?

    Natural é, por exemplo, que crianças gostem de doces. Ninguém precisa obrigar as crianças a gostarem de doces, nem proibir que elas gostem de jiló ou de brócolis para que elas gostem de doces. Da mesma forma, se fosse natural que meninos gostem de azul e as meninas, de rosa, não haveria nenhuma razão em obrigar as crianças a vestir-se “conforme” seu gênero, muito menos em constranger, humilhar, ou castigar crianças que usem roupas da cor “errada”.

    O natural não é a padronização, mas sim a diversidade. Os seres humanos têm diversas preferências por cor, sabor, cheiro, forma, atividades, música, etc, e nada disso tem a ver com a biologia ou a genitália. Tudo isso é absolutamente natural. Apenas uma ideologia é capaz de criar e separar as pessoas em dois grupos – o dos homens e o das mulheres – e determinar tudo o que cada um desses grupos pode ou não fazer, gostar, sentir, cheirar, amar. E não há nenhuma justificativa racional para isso.

    O fato da ministra ter se preocupado em proferir uma frase estúpida como essa demonstra justamente que essa ideologia não é nada natural. Se fosse, os conservadores não estariam preocupados em preservá-la, pois ela se preservaria naturalmente.

    Também não há nenhuma lei natural que diga, por exemplo, que meninos e homens não possam lavar louça, lavar e passar roupa ou varrer o chão. Ora, qualquer pessoa que tenha dois braços, duas pernas e alguma inteligência é capaz de desempenhar qualquer dessas tarefas. Alguém é capaz de contestar que os homens, em geral, também têm dois braços, duas pernas e um pouco que inteligência? Tudo isso independe das características sexuais, afinal, não se usa a genitália em nenhuma dessas tarefas. Apenas uma pessoa com deficiência física, mental, intelectual ou alguma restrição motora tem direito de dizer que não é capaz de passar roupa, lavar louça e roupa ou varrer o chão.

    O que realmente querem os fundamentalistas?

    Os fundamentalistas religiosos, como a ministra Damares e o presidente Bolsonaro, afirmam estarem preocupados em preservar o que é “normal” ou “natural”, mas na verdade querem preservar justamente o que não é natural. Afinal de contas, essa ideologia permite que eles ganhem dinheiro, poder e votos.

    Fonte da imagem: Blog Prof. Sepulveda
  • O mal como normal: golpe, lei e direitos

    Marx, ao analisar a ofensiva de Luís Bonaparte contra a Segunda República francesa, assinalou que, naquela exasperada Paris de 1851, a indiscrição dos golpistas fizera com que “a sombra do golpe de Estado” se tornasse “tão familiar” aos parisienses “sob a forma de fantasma” a ponto de os mesmos já não terem se assustado quando o espectro lhes apareceu finalmente “em carne e osso”.1 De tanto verem a conspiração ser tramada à luz do dia, de tanto ouvirem falar no iminente golpe, e de tanto vê-lo desejado pelos escribas do capital, os franceses acabaram tomando-o com um acontecimento tanto natural quanto inexorável. De tanto a exceção ser invocada para supostamente salvar as regras, de tanto os supostos defensores das regras agirem excepcionalmente, e de tanto a sedição ser descrita jornalisticamente como solução, o estado excepcional das coisas pôde se transformar, ao fim e ao cabo, como o estado ordinário delas. E assim foi, majoritariamente, aceito.

    Tendo em tela os acontecimentos decorridos no Brasil de 2016 para cá, talvez não seja equivocado afirmar que a desfaçatez das manobras golpistas, diariamente descritas como inquestionáveis pela grande imprensa, tem produzido nas amplas massas populares uma passivização assustadora, na medida em que o mal, de tanto exibir sua maldade, e de tanto ser apresentado como a mais pura encarnação do bem, pode ser gradativamente aceito acriticamente pelos sujeitos desprovidos da crítica, para os quais o jugo da nova ordem ultraneoliberal é descrita como um jugo fácil de carregar, e o fardo da vida sem direitos como um fardo leve. Tudo vai mal, mas tudo aparece como se fosse normal. Tudo.

    Quanto aos setores mais conscientes da população, o que parece ter lugar é uma certa resignação diante de um caminho construído por ímpias forças que, de tão fortes momentaneamente, podem, cinicamente, apresentá-lo como se fosse o inquestionável caminho dos justos. Qualquer disfarce serve, qualquer mínimo rebuço parece ser suficiente para que as trevas sejam vistas como raios de luz. Tudo já parece decidido previamente, e qualquer nota dissonante da harmonia golpista que, porventura, possa ocorrer logo há de ser veementemente criticada pelos jornalistas dos mass media, e, o mais celeremente possível, silenciada pelos golpistas forenses de plantão. Às vezes, literalmente de plantão.

    Até mesmo um prosaica norma jurídica liberal, como a presunção da inocência, outrora inquestionável pela quase totalidade dos doutos juízes do capital, agora parece ser impossível de ser assegurada em tempos em que a vampiresca burguesia brasileira, temerosa de qualquer fato que possa vir a minimamente constranger sua sanha por sangue, suor e direitos, manda às favas as suas próprias normas jurídicas liberais e faz troça dos constitucionalistas que reivindicam, nada mais nada menos, que a sacralidade da sua própria constituição, isto é, a sacralidade da constituição burguesa. Aos amigos, tudo; aos inimigos, nem a lei. Este parece ser o lema da classe dominante brasileira e seus prepostos nas editorias, tribunais, e na caserna.

    A última das artimanhas de um dos bonapartes de toga que, instigado pela histérica imprensa, e devidamente orientado pelos bonapartes fardados – os quais se reuniram para discutir se uma decisão judicial deveria ou não ser cumprida –, impediu a libertação de Lula não é senão a prova de que, nesses tempos de golpismo impudente e deslavado, a constituição e o direito só possuem validade quando forem convenientes para aqueles cujo projeto é a constituição de um país onde a maior parte da população esteja, finalmente, desprovida de qualquer direito. Entre a concepção e a concretização deste projeto, entre o sonho e a realização desta bárbara distopia burguesa, existe, entretanto, a história, existe a luta, a vida. Existe a resistência. Resistir é preciso. Esta é a nossa única lei. Este é o nosso único lema. O resto é resto.

    1.MARX, K. O 18 brumário de Luís Bonaparte. MARX, K. O 18 brumário de Luís Bonaparte [e Cartas a Kugelman]. Tradução de Leandro Konder e Renato Guimarães. 4ª edição. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1978, p. 105.

    Foto: Jose Cruz, EBC

  • A entrevista do presidente da CUT e o papel das centrais diante de Bolsonaro

    Causou forte indignação a entrevista do presidente da CUT, Vagner Freitas, que se diz arrependido do vídeo que gravou em Curitiba no dia 14 de novembro num ato em defesa ao ex-presidente Lula. Na ocasião, ele havia afirmado que: “Todos sabem que Lula seria eleito em primeiro turno, por isso está preso. Logo, que fique muito claro que nós não reconhecemos o senhor Bolsonaro como presidente da República.”

    Agora, ele afirma que mudou radicalmente de opinião: “Eu fiz uma fala e eu não penso isso. Sabe por quê? Porque eu preciso defender os trabalhadores, independentemente do que nós achemos sobre o Bolsonaro. Se o movimento sindical não fizer a representação direta dos trabalhadores perante o Governo Bolsonaro, outros não farão e os trabalhadores ficarão desprotegidos”.

    E quando questionado sobre o fato de que não houve qualquer diálogo entre o Governo Temer e a CUT, respondeu: “Não havia, mas com o Bolsonaro vai haver porque ele é presidente eleito”.

    O governo de Bolsonaro representa o aprofundamento do golpe parlamentar, jurídico e midiático. É a legitimação, por via eleitoral, da “ruptura das liberdades democráticas” iniciada com o impeachment. Esquecer isso é uma rendição criminosa.

    O avanço da crise econômica, que havia tomado o centro do sistema capitalista, nos países da periferia foi decisivo para que frações das classes dominantes, suas ramificações financeira, bancária, comercial, de serviços, agroindústria, pelas corporações em geral, que se beneficiaram com os anos de PT no governo, rompessem com este partido, e definissem que, como sempre, o ônus da crise fosse jogado em cima dos ombros da classe trabalhadora, e que para isso seria necessário um regime político mais repressivo, autoritário, reacionário. O pretexto: combate à corrupção. A realidade: “É a economia, estúpido!”. Frase utilizada nas eleições de 1992 pelo marqueteiro James Carville, que virou um mantra de marketing eleitoral porque o então desconhecido governador de Arkansas, Bill Clinton, venceu o favorito George Bush.

    A farsa eleitoral de 2018, com a prisão arbitrária e exclusão do ex-presidente Lula e o mega esquema ilegal de fakes, foi mais um passo para mudar o regime político no Brasil . Encontraram na eleição de um neofascista , ainda que não fosse essa a primeira opção deles, a forma de extinção do ciclo de conciliação de classes.

    Claro que lidamos com um cenário mais difícil, ainda que não seja eterno. Porém não podemos abandonar nossas bandeiras, nossos princípios, nossa caracterização do que representa um governo neofascista no Brasil num cenário mundial de avanço da extrema-direita, como fez o presidente da CUT na entrevista. “Como vai ser o nosso comportamento em relação do Governo Bolsonaro? Todas as vezes que ele fizer qualquer ação que seja contra os trabalhadores, nós denunciaremos e organizaremos os trabalhadores para a resistência. Se, por ventura, eles fizerem alguma ação que seja benéfica para os trabalhadores, nós não denunciaremos”. Alguém acredita que Bolsonaro pode tomar medidas favoráveis para trabalhadores, mulheres, negros, indígenas e LGBTs?

    Todos os dias Bolsonaro e seus futuros ministros demonstram que estão se preparando para uma guerra contra os direitos trabalhistas, previdenciários, ambientais, sociais e democráticos. Devemos, isto sim, nos preparar junto à base das categorias para uma longa e dura jornada de resistência. Conversar pacientemente com os trabalhadores, mesmo com os que votaram no Bolsonaro. Propor ações que correspondam a realidade atual. Buscar densidade nas lutas sociais, sindicais e políticas a partir das bases. Mais organização de base, menos aparatos que perderam a credibilidade junto a nossa classe.

    Encontro Nacional da Classe Trabalhadora

    Mesmo porque, o distanciamento das bases das centrais sindicais atinge patamares inacreditáveis, como novamente se viu nas pouquíssimas reações ao fim da Ministério do Trabalho. Todavia não se criam alternativas orgânicas de um dia para o outro. Não podemos pegar as ferramentas da classe fragilizadas e jogá-las fora.

    Por isso é importante sim a proposta de “um grande encontro nacional da classe trabalhadora” já no início de 2019. Mas com o objetivo claro de organizar uma frente única antifascista que faça oposição sem trégua ou vacilação contra este governo que é inimigo declarado de nossa classe. Não nos cabe o papel de conselheiros ou mediadores do conflito com o capital.

    FOTO: Divulgação CUT Nacional

     

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