Valério Arcary

q1111233
  • Seis hipóteses contrafactuais polêmicas sobre o balanço das eleições

    Um governo autoritário ao serviço de um ajuste neoliberal monstruoso será imposto nos primeiros meses. Confiar que será detido pelo Ministério Público, TCU, STF, Congresso, ou pela pressão da mídia é pura ilusão

    As ações falam mais alto que as palavras
    Sabedoria popular árabe

    Contrafactuais são úteis, mas pensamento mágico é perigoso. O passado deve ser compreendido como um campo de possibilidades. Um campo de possibilidades significa que, embora tenha se afirmado, finalmente, uma sequência de acontecimentos, a luta político-social poderia ter tido outros desenlaces.

    Dizer que outros desfechos eram plausíveis não autoriza concluir que qualquer resultado era possível. Contrafactuais são hipóteses lógicas que, além, de coerentes, devem estar, solidamente, fundamentadas na realidade. Pensamento mágico, ao contrário, é expressão de desejo. A forma mais comum de pensamento mágico são as teorias de conspiração, que anulam da história a operação do aleatório, do acidental, do acaso.

    Contrafactuais políticos não são, necessariamente, politicistas. O politicismo é o erro de fantasiar que o discurso político é a chave em qualquer luta política. Uma chave suficiente, por exemplo, para transformar uma situação desfavorável em favorável. Não é assim. Essa mágica não possível. As eleições são, na superfície, em uma dimensão formal, uma luta entre partidos, em grande medida, percebidos pelas massas como uma luta entre candidatos. Mas os partidos não representam somente a si mesmos. São uma expressão das classes e frações de classe em luta. A experiência e a força dos acontecimentos, e as conclusões subjetivas que as classes sociais retiram das condições em que lutam por seus interesses, são mais poderosas que a força das palavras.

    Seis contrafactuais foram muito discutidos na esquerda, e merecem a nossa atenção. As ideias, as iniciativas, as propostas e as táticas políticas contam:
    (a) Temer poderia ter sido derrubado em 2017 e as eleições presidenciais antecipadas?
    (b) Lula poderia vencer as eleições, se não tivesse sido preso?
    (c) se o PT tivesse apoiado Ciro Gomes, desde o primeiro turno, Bolsonaro poderia ter sido derrotado?
    (d) Bolsonaro teria vencido o primeiro turno, se não tivesse sido vítima do atentado da facada?
    (e) foram as manifestações do #elenão que explicam o alinhamento dos evangélicos com Bolsonaro nas últimas duas semanas?
    (f) se o PT tivesse combatido Bolsonaro como inimigo principal desde o primeiro turno, era possível ter evitado a derrota?

    O maior erro do PT foi ter perdido a oportunidade de tentar levar a luta contra Temer até o fim, em maio de 2017, depois da greve geral, quando explodiu o escândalo da denúncia da JBS e apareceram as gravações na garagem do Palácio do Jaburu. A direção do PT não teve a firmeza de lutar pelo impeachment de Temer, porque temia ser acusado de fazer contra o MDB, o que o MDB fez contra Dilma Rousseff. Teve medo de ser denunciado como golpista. Respeitou as instituições do regime semipresidencialista que foram usadas para deslocá-lo do poder. Confiou, excessivamente, na possiblidade de Lula poder concorrer. Subestimou a ofensiva reacionária iniciada em março de 2015. Não acreditou que a maioria da burguesia iria até o golpe, e eles foram. Não acreditou que o golpe iria vencer, e eles venceram. Não acreditou que Lula seria condenado na segunda instância, e ele foi. Não acreditou que seria impedido de concorrer, e ele foi. A oportunidade foi perdida.

    Mas não é claro, muito menos incontroverso, que seria possível derrubar Temer, mesmo se Lula e o PT tivessem se lançado às ruas. Talvez sim, se o engajamento do PT fosse capaz de mobilizar amplos setores. Mas, talvez, a capacidade do PT de cumprir este papel já tivesse se perdido, em função do desgaste de treze anos no governo. Agravados pelas denúncias de corrupção durante três anos da operação LavaJato.

    Nunca saberemos, também, se Lula sendo candidato, poderia ou não ter vencido, mas é razoável concluir que a disputa era possível. Em todas as pesquisas realizadas, Lula pontuava o dobro de Bolsonaro, e era favorito. O mesmo não se pode afirmar se Ciro Gomes tivesse sido candidato com o apoio do PT. A suposição de que a rejeição ao PT não atingiria Ciro Gomes é uma conjectura ou cálculo sem solidez.

    Por outro lado, não parece um exagero afirmar que o atentado da facada em 6 de setembro foi, sem dúvida, o fato decisivo das eleições. Porque a luta entre Bolsonaro e Alckmin ainda estava por ocorrer, e a condição de vítima o poupou da exposição em debates. Mas não se pode concluir que foi o fator decisivo da vitória, embora tenha, certamente, favorecido muito.

    Não se pode dizer que tenha ocorrido correlação direta entre as manifestações convocadas pelo movimento de mulheres, e a capacidade de transferência de votos das Igrejas evangélicas a Bolsonaro. Tampouco é razoável explicar a diferença de 10% de votos válidos pelo atraso da campanha de Haddad em identificar Bolsonaro como o inimigo principal. Todos estes elementos, em perspectiva, parecem quantitativos, não qualitativos.

    Infelizmente, a ameaça de um “inverno siberiano” está mais próxima. Sofremos uma derrota, e nossos inimigos estão mais fortes. Um governo de extrema direita com elementos neofascistas tomará posse em janeiro. Bolsonaro já disse ao que veio. Já declarou que pretende ilegalizar o MST e o MTST. Advertiu as direções do PT e Psol e, pelo nome, avisou que o primeiro alvo será Guilherme Boulos. Merece ser levado a sério. O governo terá o apoio das Forças Armadas e das Polícias. Ele já tem uma maioria no Congresso Nacional.

    Um governo autoritário ao serviço de um ajuste neoliberal monstruoso será imposto nos primeiros meses. Confiar que será detido pelo Ministério Público, TCU, STF, Congresso, ou pela pressão da mídia é pura ilusão. O STF sustentou, juridicamente, a ofensiva reacionária que abriu o caminho para Bolsonaro nas eleições. Tudo dependerá da capacidade de erguer a resistência na mobilização de massas.

    As táticas terão que mudar. Porque os perigos serão muitos. Os riscos serão maiores. Seremos resistência. Não vamos ceder. Não haverá rendição. Vamos construir nossas linhas de defesa, nossas trincheiras de oposição, as fileiras de resguardo, os círculos de proteção, as brigadas democráticas. A palavra chave será organização. Acabou o tempo da dispersão e dos improvisos. Não podemos nos encontrar somente em passeatas.

    A primeira trincheira deve ser a unidade dos revolucionários na defesa de um campo político que preserve o PSol, um instrumento de luta insubstituível, comprovado durante a campanha Boulos/Sonia Guajajara. A segunda a consolidação da Aliança PSol/MTST/Apib/Mídia Ninja, um valioso embrião de ferramenta política com audiência de massas. A terceira deve ser a Frente Única dos partidos de esquerda, das Centrais e dos sindicatos de trabalhadores e de todos os movimentos sociais. Por último, a Unidade de Ação Democrática com todos aquelas forças, personalidades, juristas, cientistas, artistas e partidos dispostos a se comprometer com as liberdades.

    Vamos lutar, como sempre. As táticas é que terão que mudar. Se organize. Não permaneça isolado. Dedique um pouco de seu tempo à luta que é de todos nós.

    LEIA MAIS

    Sinais de fascismo, voluntarismo e uma nau sem rumo: os primeiros dias do governo eleito

     

  • O que é uma análise de conjuntura?

    Encobrir o erro é errar outra vez.
    Os erros pagam-se caro.
    Sabedoria popular portuguesa
    O segredo para se andar sobre as águas é saber onde estão as pedras.
    Sabedoria popular chinesa

    Nos ambientes militantes me perguntam, às vezes, o que é e como se faz análise de conjuntura. Bom, não existe manual incontroverso. Aprender a pensar é um exercício lógico. Análise de conjuntura é um tipo de investigação interdisciplinar difícil. Parece que é algo parecido com tocar violão. Não é complicado tocar mal. Aprende-se fácil e, até rapidamente, alguns acordes. Mas dizem os musicistas que é um dos instrumentos mais complicados de tocar bem. Além da lógica, ela pede a economia, a sociologia, a história, a política, e outras, como análise de discurso, direito, psicologia social, etc. Mas eu não gosto de desestimular. Então, recomendo algumas regras básicas:

    1. O tempo é uma medida objetiva. O espaço, também. Quais são os limites da análise? Qual é o seu objeto de estudo? Decida com clareza. Não é sério falar sobre qualquer coisa, aleatoriamente. Uma análise da última semana é diferente da análise do último mês. Nem falar do último semestre. Se for além, já não é análise de conjuntura, é análise da situação, ou até da etapa. A análise pode ser restrita à realidade de uma cidade, por exemplo. Mas pode ser uma avaliação da situação nacional. Pode querer considerar o contexto internacional. Por exemplo, as eleições presidenciais encerraram uma grande batalha. Mudou a conjuntura, evidentemente. Mudou, também, a situação ou não? Uma boa análise deve saber se colocar as perguntas certas.

    2. Segundo é preciso saber conferir as fontes da investigação. Desconfie. A busca da credibilidade exige muito trabalho. Uma análise marxista deve ter critérios incontroversos. Estamos sendo bombardeados por informações falsas o tempo todo. Honestidade intelectual é uma questão de honra. A sua palavra deve valer muito para você mesmo. Isso significa que construir uma interpretação dos acontecimentos exige o máximo de rigor para não ser contaminada pela incerteza dos dados. É preciso conferir as informações. Mais de uma vez. Lembre-se que a confiança dos outros na sua palavra não tem preço. É a sua reputação.

    PALESTRA DE VALÉRIO ARCARY SOBRE ESTE TEMA

    3. Em terceiro lugar, uma boa análise não deve estar enviesada por valores ideológicos que vêm de contrabando pela pressão dos inimigos de classe, do senso comum, dos ambientes em que circulamos. E, não menos perigosas, pelas pressões das nossas preferências. A interpretação da realidade não é instrumental. Não vale tudo para ganhar debates de ideias. Análises sérias não podem ser referendadoras de nosso desejo. Este erro é fatal.

    4. Análises sérias exigem um esforço rigoroso de abstração. A cabeça acompanha a pressão do chão que os pés pisam. A experiência pessoal de cada um de nós é valiosa, mas é parcial. Sempre é muito limitada. Os ambientes sociais em que circulamos são restritos. Generalizar para escala de um país, ainda por cima continental, a percepção que podemos ter de uma categoria de trabalhadores, de um movimento social, ou de uma cidade é perigosíssimo. Abstrações e generalizações rápidas conduzem, inevitavelmente, ao erro. Aprenda a não confiar somente na sua intuição. Aceite a dúvida como uma boa companheira.

    5. Construir uma análise é separar partes de um todo. Os fatos não falam por si mesmos. Seja minucioso, detalhista, rigoroso. Os acontecimentos têm pesos distintos. Calibrar o que é importante do que é circunstancial é decisivo. Senão, o impressionismo desequilibra a interpretação.

    6. Análise marxista é um estudo das contradições. Nada é linear. Tudo que nos cerca é contraditório. Tudo que existe é uma união de contrários. A totalidade é maior que a soma das partes. Quantidade se transforma em qualidade. Tudo está em movimento, e a análise é o estudo de tendências, portanto, da verificação de dinâmicas. Mas identificar tendências é, ao mesmo, tempo, observar as contra tendências.

    7. A metáfora da engrenagem que separa causas de consequências é útil como esforço lógico temporal, mas há nela uma armadilha. As causas transformam-se em consequências e vice-versa. Estão embaralhadas. A análise é o trabalho de ourivesaria mental que atribui sentido aos conflitos em seu movimento. Chama-se este método de dialética.

    8. A análise deve respeitar o método. Para marxistas existem três dimensões no esforço de abstração na investigação da realidade: a infraestrutura, a estrutura e a superestrutura. Deve-se iniciar a análise pelo estudo da situação econômica e social. Depois se avança para a análise da relação social de forças. As relações políticas de força dependem desse contexto. A pressa de pular etapas na análise e encontrar um atalho é perigosa. Este esquema teórico é um roteiro pedagógico, mas é um esquema. As três dimensões pressionam-se mútua e ininterruptamente.

    9. Uma análise marxista é um estudo dos conflitos de classe. Os conflitos são expressão de interesses contraditórios em luta. Lembre-se que os discursos políticos são expressões ideológicas. Os porta-vozes dos donos da riqueza e do poder não confessam, publicamente, que estão ao serviço de interesses privilegiados e minoritários. Apresentam-se como defensores do interesse público. Dissimulam. Blefam. Mentem. A análise de discurso precisa ser crítica.

    10. É preciso saber, também, que identificar tendências, determinações, forças de pressão de primeiro, segundo e terceiros graus encorajam a construção de prognósticos. Mas é necessário ser prudente. Há limites do que se pode prever, e são muitos. Sejamos modestos em previsões. Aceite a possibilidade de estar errado. E quando errar admita seus erros, publicamente. Ninguém é infalível.

  • Nenhuma liberdade para os inimigos da liberdade

    Aquele que nunca se queimou ao sol não sabe o valor da sombra
    Sabedoria popular turca

    Quem se torna uma ovelha acaba devorado pelo lobo
    Sabedoria popular grega

    Mesmo que o babuíno use um anel de ouro, ele ainda é feio
    Sabedoria popular sul-africana

    Os reacionários foram, conjunturalmente, contidos em debate em uma Comissão no Congresso Nacional. “Escola sem partido” é um slogan demagógico para dissimular o indefensável: a censura.

    A disputa política radicalizou e passou a ser uma implacável luta ideológica. O que pretendem é instalar uma patrulha nas escolas. Nas universidades, também. Será só uma questão de tempo. Este anti-intelectualismo feroz é a expressão de um rancor profundo contra o mundo da cultura e da ciência. O nome desta campanha é fascismo.

    A experiência histórica já demonstrou que é ingenuidade imaginar que a luta ideológica contra o fascismo pode se realizar com argumentos. A luta ideológica contra o pensamento conservador, e até ideologias reacionárias, é legítima. Faz sentido a disputa de ideias contraditórias, a ponderação de valores, a esgrima de opiniões, a apreciação de conceitos, o confronto de exemplos, a polêmica de teorias, o exame de juízos. Faz sentido porque um debate honesto entre contraditórios pode ser educativo, enriquecedor e construtivo.

    Acontece que não há racionalidade no fascismo. O fascismo tem como programa a destruição das liberdades democráticas, a intimidação e, finalmente, a eliminação dos seus inimigos políticos. A tolerância com os fascistas abre um caminho irreversível para que os intolerantes nos destruam.

    A vida é um laboratório de experiências. Não podemos cometer os erros das gerações que vieram antes de nós. A campanha pela “Escola sem partido” será somente o começo de uma perseguição aos professores e intelectuais. A criminalização dos movimentos sociais pela tipificação das lutas sociais como terrorismo abrirá o caminho para a prisão das lideranças. A mudança do estatuto do desarmamento será a antessala para a disseminação de milícias armadas.

    A campanha pela “Escola Sem Partido” é impulsionada por um partido que finge que não é um partido, porque está presente em muitos partidos de aluguel: o fascismo. Trata-se de um movimento que quer destruir as liberdades democráticas, o pluralismo de ideias, o direito ao contraditório. Começa exigindo a perseguição da esquerda. Ninguém pode dizer onde vai parar. Com a eleição de Bolsonaro estarão mais assanhados, mais agressivos, mais ousados.

    Ela vai, infelizmente, degenerar em conflitos insanos, e muito dolorosos dentro das escolas de todo o país. Professores e estudantes devem estabelecer relações de colaboração entre si. Mas isso não quer dizer que não haja tensões em sala de aula. São normais. Hordas de mentecaptos, energúmenos e fanáticos já iniciaram ações de violência nas ruas. Não vai demorar muito para fanáticos desmiolados agirem nas escolas e faculdades.

    Esta hostilidade anti-intelectual é comum em ambientes social e culturalmente ressentidos. Os professores são vistos como elitistas, pretensiosos, arrogantes, quase parasitários. Em contrapartida o pragmatismo é exaltado. Os conhecimentos práticos são hipervalorizados, e os pressupostos teóricos desprezados. O anti-intelectualismo tem relação com o fundamentalismo religioso. Está associado com a percepção de que é necessária mais ordem, menos discussão e dissenção, portanto, com o autoritarismo político. Os professores de humanas em geral, e os de história, sociologia, literatura e artes, em particular, são demonizados. Suas habilidades culturais, seus recursos de retórica, sua erudição são denunciados como manipulação.

    Esta campanha merece ser chamada pelo seu nome: fascista.

    Nenhuma liberdade para os inimigos da liberdade.

    FOTO: Sessão da Comissão Especial que discute o PL do Escola Sem Partido. Cleia Viana/Câmara dos Deputados

     

    LEIA MAIS

    Por que Bolsonaro odeia professores?

     

  • E se não vencermos, o que podemos esperar de um governo Bolsonaro?

    Derrotado está quem não luta
    Fracassar não é cair; é recusar-se a levantar.
    Sabedoria popular internacional

    Cabeça erguida, coração quente, sangue frio. Lutaremos até o fim.

    Escrevo estas linhas quando o que há de mais ativo e consciente da esquerda brasileira está nas ruas tentando virar votos. Mas muitos têm me perguntado, preocupados, o que se pode esperar de um governo Bolsonaro, se não conseguirmos virar as eleições até este domingo. Análises de conjuntura sérias devem concluir com hipóteses de trabalho. Fazer previsões é um exercício legítimo. Antecipação de cenários é indispensável para nos prepararmos. Mas devemos ser prudentes com prognósticos.

    Bolsonaro não seria mais do mesmo, quando comparado com Temer: seria mais que uma mudança de governo, seria uma mudança no regime político. Essa mudança será um processo, não um evento, um golpe pós-eleitoral. O regime eleitoral semipresidencial que vingou durante trinta anos será, todavia, desafiado a partir do governo.

    Assim como Temer não foi mais do mesmo, quando comparado com o governo Dilma Rousseff. Trata-se de mudanças qualitativas, não quantitativas. Existem dois perigos simétricos diante da esquerda: subestimar ou sobreestimar o impacto de uma vitória de Bolsonaro. Não são erros equivalentes. Diante da possibilidade da vitória de um neofascista, o primeiro erro é mais grave que o segundo. Devemos sempre nos preparar para a pior hipótese, quando as liberdades democráticas estão em perigo.

    O que significa reconhecer que se Bolsonaro, infelizmente, vencer, estaremos em uma situação, diretamente, reacionária, ultradefensiva. Mas, não ainda contrarrevolucionária. Ambas são muito ruins, porém, diferentes. Claro que uma vitória de Bolsonaro pode abrir o caminho para uma dinâmica terrível. Haverá resistência, certamente. Mas a dinâmica reacionária se acentuará. A corrente eleitoral fascistizante sairá, imensamente, reforçada. As condições para que o PSL, até seis meses atrás uma legenda de aluguel fantasma, se transforme em um partido neofascista de massas crescerão.

    Isto posto, dois parâmetros fundamentais irão condicionar um possível governo Bolsonaro. Parâmetros são os principais fatores que estabelecem as referências. A história nos coloca diante de encruzilhadas. Domingo será uma dessas encruzilhadas. Uma bifurcação de caminhos. Domingo iremos medir forças. A relação de forças que sair de domingo terá muito peso na conjuntura mais imediata.

    O primeiro parâmetro é a iniciativa política da presidência. Ou seja, sua relação com as instituições do regime, com a classe dominante e com os imperialismos. O governo Bolsonaro não será somente um governo autoritário preventivo, preservado o regime semipresidencial. Será uma subversão das relações de poder entre as instituições, e uma degradação da relação social de forças entre as classes, impondo condições, qualitativamente, mais adversas para a luta popular.

    Bolsonaro é um líder neofascista. Seu projeto político nos primeiros meses não poderá ser a instituição imediata de uma ditadura fascista, mas iniciará uma dinâmica contrarrevolucionária. Seu plano será destravar os bloqueios institucionais, apoiado na relação direta do capitão com as massas, para que o governo se eleve acima do Judiciário e do Congresso, que deverão apenas reconhecer sua legitimidade. Em uma palavra: uma mudança de regime.

    O neofascismo contemporâneo não é uma cópia do nazifascismo dos anos trinta. Não responde ao perigo de uma revolução. O neofascismo bolsonarista é uma resposta reacionária ao lulismo. Surge como um movimento da classe média contra os governos do PT, no contexto da crise econômica-social mais séria do último meio século. Era minoritário na burguesia até este segundo turno.

    Seu projeto é uma mudança bonapartista do regime para realizar um choque no capitalismo brasileiro. Seu programa econômico-social será uma continuidade agravada do governo Temer, mais radicalizado. Isso significará reposicionar a presidência como instância de poder. Muito mais poder. O atual regime político no Brasil é um semipresidencialismo, em que se estabeleceu um certo equilíbrio de forças, pesos e contrapesos, entre a presidência, o Congresso, o Judiciário, e as Forças Armadas. A presidência, ou seja, o executivo tem limites. São esses limites que serão alterados.

    Bolsonaro tem como estratégia subverter essas relações de poder apoiado na vitória eleitoral.

    Ele tentará garantir uma maioria avassaladora no Congresso Nacional para mudar o regime que nasceu da Constituição de 1988. As liberdades democráticas e a existência legal das organizações dos trabalhadores e dos movimentos sociais estarão ameaçadas. Devemos nos preparar para a criminalização da esquerda.

    Ele poderá contar com o apoio da classe média reacionária, mas não está, por enquanto, nada claro se terá o apoio da maioria da burguesia para este projeto. Ainda que alinhada atrás de Bolsonaro, os movimentos discretos da classe dominante têm sido na direção de enquadrá-lo. Deixaram um monstro liderar uma avalanche social. Verão que controlá-lo será muito complicado. Bolsonaro terá apoio do governo Trump, mas os imperialismos europeus sinalizaram distância. E o Brasil tem na China hoje seu principal parceiro comercial.

    O segundo parâmetro é que, embora a situação seja reacionária, não ocorreu uma derrota histórica. As mobilizações populares dos últimos quinze dias, na sequência do gigantesco dia 29 de setembro, confirmam que há ainda muita disposição de luta. Estamos sofrendo as consequências de sucessivas derrotas parciais que se acumularam desde 2015/16.

    Uma derrota histórica acontece somente quando uma geração inteira desmoraliza, e perde a confiança em suas forças. Significa que uma relação social de forças contrarrevolucionária se consolida indefinidamente. Quando uma derrota destas proporções se precipita, como em 1964, é necessário todo um intervalo para que amadureça um processo de acumulação de forças, e uma nova geração se coloque em movimento.

    O que estamos vendo nas ruas demonstra que essa não é a situação brasileira.

    Mesmo que Bolsonaro ganhe nas urnas terá que medir forças nas ruas.

    As lutas decisivas estarão na nossa frente.

    Cabeça erguida. Coração quente. Sangue frio.

     

    FOTO: Tania Rego / Agência Brasil / Fotos Públicas

  • O medo ainda vai mudar de lado

    Quem corre com medo, não pergunta por caminho.

    A razão espanta o medo.

    O medo faz mais tiranos que a ambição.

    (Sabedoria popular portuguesa)

    Ao final de uma reunião de pauta da revista do Psol na Fundação Lauro Campos, na semana passada, um bom camarada me procurou e perguntou como lidar com o medo. No último fim de semana, participando de uma reunião da Resistência, uma camarada tinha me comentado que muitos jovens estavam vivenciando intenso sofrimento psíquico.

    Não se trata de suspeitas excessivas, desconfianças infundadas. Muitos ativistas estão adoecendo porque se sentem inseguros. Chegaram à vida adulta depois do fim da ditadura. E o medo é, perigosamente, contagioso. Não se trata de paranoia. A angústia é indissociável da lucidez.

    É muito compreensível que seja assim, se considerarmos as circunstâncias. As recentes ameaças do candidato Bolsonaro e do seu filho são estarrecedoras. Em gravação em um cursinho preparatório para exames de acesso à Polícia Federal em Cascavel no Paraná, Eduardo Bolsonaro não titubeou em chantagear os membros do Supremo Tribunal Federal com a disposição de prender os juízes.

    Em mensagem filmada Jair Bolsonaro não hesitou em fazer intimidações e lançar ultimatos atrozes. O palavreado fascistóide foi até à aberração de  defender a “limpeza” dos vermelhos, a criminalização do MST e do MTST, a prisão do candidato Fernando Haddad, do líder do PT no Senado Lindbergh Farias, e por aí vai. Bolsonaro discursou como se já tivesse sido eleito, o que é ainda mais preocupante.

    Esta última semana de campanha começa de forma, extremadamente, grave para toda a esquerda brasileira. Organizações políticas são correntes nas quais nos organizamos para defender um programa. O que nos une em uma organização política, em primeiro lugar, são as ideias, o projeto. Mas como em qualquer coletivo humano estabelecemos relações uns com os outros. A dimensão subjetiva deste pertencimento tem, também, importância. São os vínculos pessoais. O crescente medo nas fileiras da esquerda e, em consequência, as enfermidades psíquicas devem nos preocupar. Claro que há boas razões para temer o que poderá significar uma vitória de Bolsonaro.

    Quem luta sozinho se sente, por suposto, mais vulnerável. Mas nem mesmo quem se organiza se sente seguro. E as pessoas são, afinal, o mais importante. Esse processo responde a pressões objetivas avassaladoras: o avanço do neofascismo neste segundo turno. A omnipotência dos neofascistas produz ansiedade, angústia, desassossego. O medo cresce porque aumenta o sentimento de impotência. E esta dor é contagiosa. Mas não deve nos paralisar.

    Porque é bom lembrar que há sentimentos mais poderosos do que o medo.

    O amor e o ódio são mais fortes. Preferimos lutar para transformar o mundo inspirados pelo amor, a esperança e a solidariedade. Mas enganam-se os fascistas se pensam que deixaremos o medo disseminar entre nós, como uma epidemia, sem resposta. Seremos prudentes. Não responderemos a provocações. Agiremos coletivamente. Nossa luta vai exigir mais organização, e mais compromisso.

    Nenhuma situação reacionária se mantém, indefinidamente. O nosso campo representa os interesses da ampla maioria. A situação é defensiva, mas a derrota em 2016 não foi uma derrota histórica. No dia 29 de setembro quase um milhão de mulheres, jovens e trabalhadores saíram às ruas. Aqueles que subestimaram a força da luta pelo que é justo sempre terminaram derrotados. Aqueles que subestimaram a fúria popular foram sempre derrotados. A hora das lutas decisivas não é aquela que ficou para trás. Ela está, ainda, à nossa frente. Há razões para termos esperança. E não estamos sozinhos no mundo. Em muitos países a solidariedade com nossa luta pela defesa das liberdades democráticas tem aliados sinceros.

    Aconteça o que acontecer, o medo ainda vai mudar de lado.

    Mais importante, nós sabemos qual é a cura.

    Os que morreram pela liberdade nos ensinaram.

  • Bolsonaro é ou não um neofascista?

    A ave de rapina não canta. A desgraça não marca encontro. A ignorância e o vento são do maior atrevimento.
    Sabedoria popular portuguesa

    Abriu-se um debate, inclusive na esquerda, se Bolsonaro é ou não um neofascista. Este debate não é um diletantismo. Exige rigor. Quais devem ser os critérios para a classificação de uma liderança política? É preciso ser muito sério quando estudamos nossos inimigos. Quem não sabe contra quem luta não pode vencer.

    Evidentemente, a qualificação de qualquer corrente política ou liderança de ultradireita como, sumariamente, fascista é uma generalização apressada, historicamente, errada e, politicamente, ineficaz. O fascismo é um perigo tão sério que devemos ser serenos na sua definição. Toda a extrema-direita é radicalmente reacionária. Mas nem toda a extrema-direita é fascista. É necessário avaliar, ponderar, calibrar, qualificar com cuidado nossos inimigos.

    Bolsonaro é um neofascista. Ou um fascista da etapa histórica em que vivemos, depois da restauração capitalista na ex-URSS e China. Enganam-se os que pensam que se trata de um exagero. Bolsonaro é perigosíssimo. Mesmo considerando que ainda não construiu um partido fascista em escala nacional. Mesmo considerando que a maioria dos seus eleitores não sejam fascistas. O que é qualitativo é que o núcleo dirigente está se formando.

    Sim, o neofascismo não é uma cópia exata do fascismo. O fascismo foi pra o marxismo, essencialmente, a forma política da contrarrevolução diante do perigo da revolução europeia, quando a existência da URSS inspirava a causa dos trabalhadores. Todos os partidos fascistas defendiam a necessidade de um regime totalitário. A eliminação das liberdades democráticas dos regimes eleitorais era instrumental para destruir as organizações dos trabalhadores. Mas o fascismo italiano não era, exatamente igual ao nazismo alemão (obsessão antisemita), ou ao franquismo espanhol (preservação formal da monarquia), e o salazarismo português (fanatismo católico) tinha, também, suas peculiaridades. Movimentos fascistas em muitas outras nações, inclusive no Brasil, o integralismo, existiram no mesmo período histórico. Mas, apesar de suas nuances, todos merecem a qualificação de fascistas.

    Acontece que não estamos em uma etapa semelhante aos anos trinta do século passado, depois da catástrofe da Primeira Guerra Mundial, depois da vitória da revolução russa e da crise de 1929. Não estamos, desde a crise econômica mundial de 2008, diante dos “anos trinta em câmara lenta”. Não há perigo iminente de uma nova revolução de outubro. Não obstante, à escala mundial, assistimos ao reforço de uma extrema-direita nos últimos dez anos.

    O neofascismo em um país periférico como o Brasil não pode ser igual ao fascismo de sociedades europeias dos anos trinta. Em primeiro lugar, porque não responde ao perigo de revolução. Responde à experiência de setores da classe média durante os quatorze anos de governos de colaboração de classes do PT, e à estagnação econômica e regressão social dos últimos quatro anos, a maior da história contemporânea.

    O antipetismo dos últimos cinco anos é a forma brasileira de antiesquerda, anti-igualitarismo, ou anticomunismo dos anos trinta. Não foi uma aposta do núcleo principal da burguesia contra o perigo de uma revolução no Brasil. Até poucas semanas atrás a imensa maioria da burguesia apoiava Alckmin. Bolsonaro é um caudilho. Sua candidatura é a expressão de um movimento de massas reacionário da classe média, apoiado por frações minoritárias da burguesia, diante da regressão econômica dos últimos quatro anos.

    Os modelos teóricos podem ser vários. Mais simples ou mais complexos. Com mais ou menos critérios. Eis um esboço ou uma sugestão de dez critérios:

    (1) sua origem social;
    (2) o que fez ou trajetória;
    (3) o que defende: sua ideologia ou programa?
    (4) qual é o seu projeto político?
    (5) que relação manteve com as instituições, com o Congresso ou com as Forças Armadas, portanto, sua posição diante do regime político?
    (6) que relação manteve, respectivamente, com a classe dominante, e com a classe trabalhadora?
    (7) com que tipo de partido ou movimento é o seu instrumento de luta?
    (8) quem o apoia ou qual é sua base social, e a dimensão eleitoral de sua audiência;
    (9) quais são as suas relações e apoios internacionais;
    (10) de onde vem o dinheiro ou quais são suas fontes de financiamento;

    Seguindo este pequeno esquema, e considerando estes dez critérios, podemos concluir que:

    1. A origem social de Bolsonaro é a pequena-burguesia plebeia. A procura de ascensão social rápida através de uma carreira de oficial no Exército não foi incomum, durante gerações, especialmente, entre eurodescendentes. Ela exigia um desempenho escolar inferior às carreiras de medicina, direito, engenharias nas Universidades Públicas (além de oferecer um soldo desde o início), e oferecia como recompensa estabilidade, e uma remuneração, comparativamente, muito mais elevada que a de um professor de educação física. Esta origem de classe explica algumas das obsessões de Bolsonaro: o racismo rancoroso, o ressentimento social, o anticomunismo feroz, o nacionalismo suburbano, o fascínio pelo modo de consumo da classe média norte-americano, e o rancor anti-intelectual.

    2. Não se deve julgar um líder político somente pelo que diz, mas pelo que ele faz.
    A trajetória de Bolsonaro, durante os últimos quarenta anos, foi a de um oficial insubordinado delirante e, depois, de um deputado corporativista folclórico marginal no último degrau do “baixo clero”. Bolsonaro nunca foi brilhante. Sempre foi um medíocre, um desaforado, na verdade, um boçal. Bolsonaro está presente na luta política há trinta anos, e já acumulou seis mandatos de deputado federal. Mas não se pode compreender o lugar, qualitativamente, diferente que ocupa hoje sem analisar o papel da LavaJato desde 2014, e a apropriação histórica da bandeira anticorrupção por setores da classe dominante. Frações da burguesia brasileira já usaram essa bandeira em suas lutas intestina em 1954 para derrubar Getúlio Vargas, em 1960 para eleger Jânio Quadros, em 1964 para legitimar o golpe militar, em 1989 para eleger Collor de Melo, e em 2016 para fundamentar o impeachment de Dilma Rousseff. Bolsonaro saiu da obscuridade nas mobilizações pelo impeachment entre 2015/16, quando a exigência de intervenção militar ganhou audiência entre dezenas de milhares dos milhões que saíram às ruas.

    3. Bolsonaro responde à demanda de liderança forte face à corrupção no governo; de comando diante do agravamento da crise da segurança pública; de ressentimento diante do aumento do peso dos impostos sobre a classe média; de ruína de pequenos negócios diante da regressão econômica; de pauperização diante da inflação dos custos da educação, saúde e segurança privadas; de ordem diante das greves e manifestações; de autoridade diante do impasse da disputa política entre as instituições; de orgulho nacional diante da regressão econômica dos últimos quatro anos. Responde, também, à nostalgia das duas décadas da ditadura militar em franjas das classes médias exasperadas. Não fosse isso o bastante, conquistou visibilidade dando expressão à resistência de ambientes sociais atrasados e reacionários à luta do feminismo, do movimento negro e LGBT, ou até dos ecologistas.

    4. O projeto político de Bolsonaro é um regime bonapartista. Isto significa a subversão do regime semipresidencialista estabelecido nos últimos trinta anos. Bolsonaro expressa o repúdio desta classe média contra as conquistas sociais e democráticas da Constituição de 1988. Bonapartismo, derivado de Bonaparte, inspirado pelo modelo francês, significa um regime autoritário em que a presidência se eleva acima das outras instituições, Congresso e Judiciário, e concentra poderes excepcionais, em nome da defesa da unidade da nação. Essa é a importância do slogan “ Brasil acima de tudo”. Há vários tipos de bonapartismo. O projeto de Bolsonaro, apoiado na mobilização de um movimento de massas de desesperados, sugere o plano de um regime autoritário que, dependendo das condições da luta político-social, pode vir a adquirir formas semifascistas.

    5. As relações de Bolsonaro com as instituições, tanto quanto é possível prever, indica uma forte representação das Forças Armadas e das polícias em seu possível governo. Bolsonaro não é um populista de direita como Trump. Não é, tampouco, somente um líder autoritário, que será, facilmente, neutralizado pela pressão dos principais chefes da classe dominante, depois de derrotar o PT nas eleições. Depois da vitória eleitoral, com uma provável maioria no Congresso para realizar as emendas que desejar na Constituição, e pleno suporte no Exército, Bolsonaro estará legitimado para o exercício do poder em condições que ninguém na presidência teve desde 1985.

    6. Bolsonaro vem improvisando uma relação com a grande burguesia através da nomeação de Paulo Guedes como seu superministro da economia. Trata-se de uma improvisação que se acelera. O plano econômico apresentado é ultraliberal, com ênfase em privatizações indiscriminadas e aceleradas, choque fiscal brutal, e ataque frontal aos direitos dos trabalhadores, começando por uma reforma de previdência. Sua estratégia é reposicionar o Brasil no mercado mundial ao lado dos EUA contra a China. Conta para isso com investimentos dos EUA no Brasil para sair da estagnação.

    Esta estratégia é coerente com os planos estratégicos dos núcleos mais poderosos da burguesia interna, mas não pode ser aplicada sem que haja grande confronto social, porque não ocorreu, até agora, uma derrota histórica da classe trabalhadora brasileira. Uma derrota histórica acontece quando uma geração perde a confiança em si própria, e é necessário um intervalo histórico para que uma nova geração se coloque em movimento. Em 2015/16 o que aconteceu – o processo que culminou com o golpe parlamentar que derrubou o governo Dilma Rousseff – não foi uma derrota histórica. O que vivemos foi uma inversão desfavorável da relação social de forças: uma derrota político-social. Mas a evolução da situação reacionária, se não for revertida, é uma ameaça seríssima.

    7. Bolsonaro não se apoia em um partido fascista. Usou como instrumento eleitoral um partido de aluguel. Mas esta debilidade orgânica foi compensada, amplamente, pela mobilização de um movimento de massas. E não anula sua caracterização como neofascista. Ele poderá, se vencer as eleições, construir um partido a partir do controle do Estado. Já está lançada uma campanha de filiações ao PSL que anuncia a intenção de conseguir dezenas de milhões de filiados.

    8. Evidentemente, a imensa maioria dos eleitores de Bolsonaro não é fascista. Mas isso não anula que ele seja neofascista. Tampouco quer dizer que um núcleo duro minoritário dos seus eleitores não seja fascista. O que define um movimento, em primeiro lugar, é a sua direção. A audiência alcançada por Bolsonaro já é grande e dinâmica o bastante para que esta corrente política seja, neste momento, a maior no Brasil.

    9. Subestimar Bolsonaro, ou a capacidade de sua corrente se articular no terreno internacional seria um grave erro. Existe uma Internacional de extrema direita, ainda em formas embrionárias, sendo construída no mundo, com financiamento robusto de alguns grandes grupos econômicos, que respondem ao projeto de uma fração do capitalismo norte-americano de oferecer resistência à ascensão da China como potência protoimperialista.

    10. O financiamento da campanha eleitoral de Bolsonaro permanece, essencialmente, obscura. No entanto, a potência de sua presença nas redes sociais sugere que há grupos empresariais seriamente engajados. Alguns destes grupos já são, amplamente, conhecidos.

    Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

     

    LEIA MAIS – ESPECIAL
    especial neofascismo

  • Bolsonaro não é imbatível

    Cria corvos e eles te arrancarão os olhos
    Sabedoria popular espanhola

    É preferível ser dono de uma moeda a ser escravo de duas.
    Sabedoria popular grega

    Nada está perdido. Segundo turno é uma nova eleição. Viradas são possíveis e já aconteceram muitas. Serenidade e firmeza. Ganhamos tempo ontem. Foi por pouco, é verdade. Mas há possibilidades reais. Tudo vai depender, como em qualquer luta difícil, porém, indefinida, da nossa estratégia e disposição.

    Isto posto, duas observações muito rápidas.

    Bolsonaro foi muito subestimado. Liderou uma onda eleitoral avassaladora, um movimento sísmico profundo. Não é verdade, contudo, que tenha sido uma surpresa. Sejamos sérios, não foi. Era previsível desde  muito tempo atrás, um ano pelo menos, e provável desde o atentado. E demonstrou que a política conta. A política não é somente um discurso, embora o que se diz e se propõe tenha importância. Tanto mais que o Brasil de hoje não é o mesmo de trinta anos atrás. É mais urbanizado e instruído. Mas as preferências políticas, em uma sociedade fraturada como o Brasil, respondem a alinhamentos de classe que, por sua vez, estão determinados por uma experiência prática. As ideias contam, mas estes dois elementos – interesses e as provas da vida – são a chave.

    A imensa maioria da classe trabalhadora brasileira, portanto, do povo em geral, não se define, politicamente, como de esquerda ou de direita, como entre nossos vizinhos uruguaios ou argentinos, mais ideologizados. Isto não autoriza concluir que não tem importância saber que Bolsonaro é um neofascista, como insistem, teimosamente, alguns na própria esquerda. Mas nos ajuda a compreender quais são flancos mais frágeis de Bolsonaro, portanto, onde devemos bater.

    O núcleo duro da votação do neofascista é a pequena burguesia, mas a audiência hoje é muito mais ampla. Uma votação de 46% só é possível com apoio, na escala de dezenas de milhões, de setores populares. O que a votação de ontem revelou, em primeiro lugar, foi a força do campo social e político que saiu às ruas entre 2015/16 e culminou com o impeachment, abrindo uma situação defensiva para os trabalhadores e o povo.

    Mas a eleição demonstrou, também, que as forças políticas que deram sustentação ao governo Temer desmoronaram. E Bolsonaro defende o programa do governo Temer, só que com métodos selvagens. Assume que é necessário acabar com os programas sociais de transferência de renda como o Bolsa Família. Assume que quer impedir qualquer reforma agrária ou urbana. Assume que quer privatizar tudo que for possível. Assume que há direitos sociais demais, e o povo deve estar disposto a perder direitos para que os investimentos voltem.

    A eleição revelou, também, que uma parcela das massas populares, em especial no nordeste, mantém uma referência no lulismo e no PT, em função da memória do que foram algumas reformas nos anos de crescimento econômico.

    Frações burguesas mais amplas estarão agora com Bolsonaro no segundo turno. Mas a estratégia do núcleo duro da burguesia já se desenha. Manterão a ambiguidade, para fazer Haddad assumir a política econômica que responde a seus interesses: ajuste fiscal, reforma da previdência, etc. E fazer Bolsonaro assumir uma concertação institucional das relações de poder, aceitando negociações que garantam a terceirização de posições chaves no governo para técnicos de sua confiança.

    Sendo assim, o maior erro de Haddad seria ceder à pressão burguesa. Seria um erro político, mas, também, eleitoral. A votação para Haddad, Ciro, Boulos pode chegar a 42%. Não é nada claro que toda a votação de Ciro possa ser transferida, por suposto. Nunca ocorre uma transferência “intacta”. Uma parcela do 1% que foi para Marina Silva pode ser, também, atraída. Assim como frações das votações da classe média em outros candidatos. Porque embora tenham repulsa pelo PT, a figura de Haddad desperta menos hostilidade e, sobretudo, temem o perigo de um fascista na presidência.

    Não obstante, a defesa de uma linha de classe é a chave para manter os votos que o PT obteve no primeiro turno, e expandir. Chegou a hora de colocar a classe operária em movimento. Chegou a hora dos sindicatos, dos movimentos populares e, também, do movimento estudantil. E os movimentos feministas que construíram o #elenão são o embrião do movimento anti-fascista. Porque, além da televisão, vamos ter que colocar força nas ruas. Muita força significa ir além do um milhão que já manifestou. Expandir  para  o campo das abstenções, nulos e brancos que somaram 29%. A tendência é que este volume se reduza. Deslocar votos de Bolsonaro nas classes populares, embora muito difícil, também, será necessário. Aliados importantes nesta disputa serão os setores lúcidos da Igreja Católica.

    Leia outros artigos:

    Cinco observações rápidas sobre o atentado contra Jair Bolsonaro por Valério Arcary

    Entrevista no JN: Bolsonaro sendo Bolsonaro por André Freire

    Bolsonaro, neoliberalismo e Ojeriza à política por Rejane Hoeveler

    Quatro motivos para não votar em Bolsonaro: Suas propostas para a classe trabalhadora Por Carlos Henrique de Oliveira

    Cinco argumentos para desmascarar Bolsonaro Por Juliana Bimbi

    Bolsonaro admite Petrobrás totalmente privatizada caso seja eleito Por Pedro Augusto

    Conheça quem está por trás das ideias de Bolsonaro Por Gibran Jordão

    Bolsonaro: Nem honesto, nem aliado dos trabalhadores Por Edgar Fogaça

    Bolsonaro não é um espantalho por Valério Arcary

    Em visita ao Pará, Bolsonaro defende a chachina de trabalhadores sem-terra Por Gizelle Freitas

    Não se deve tercerizar para Ciro Gomes a luta contra Bolsonaro por Valério Arcary 

    Bolsonaro em contradição: três patacoadas do “mito”em apenas dez dias de 2018 por Matheus Gomes

    5 fatos mostram que Bolsonaro é contra os trabalhadores e aliado de Temer por Lucas Fogaça

    Bolsonaro ataca negros, pessoas gordas, quilombolas, indígenas e refugiados no clube Hebraica por Jéssica Milare 

     

  • Hora de sangue frio e sensatez: por que lutar até ao fim sem desespero?

    A língua resiste porque é mole; os dentes cedem porque são duros. Sem o fogo do entusiasmo, não há o calor da vitória. Jamais se desespere em meio às sombrias aflições de sua vida, pois das nuvens mais negras cai água límpida e fecunda. Procure acender uma vela em vez de amaldiçoar a escuridão.
    Sabedoria popular chinesa

    Nada está ainda decidido. Um em cada três eleitores não cita nenhum nome nas pesquisas. É um número altíssimo quando faltam tão poucos dias para as eleições. São 19% de indecisos, e mais 14% que, por enquanto, votam ou branco ou nulo. Esses 33% deixam a eleição ainda indefinida. Bolsonaro tem 38% de votos válidos, segundo as pesquisas mais recentes, já considerada a margem de erro. Ele teria de crescer 12 pontos porcentuais até o dia da eleição, para conquistar de 50% mais um. Isso é possível, porém, improvável.

    Trocar de candidato, tampouco, faz sentido. Levo muito a sério a matemática e a teoria dos jogos. Acontece que, com as informações hoje disponíveis, não é possível fazer o cálculo de quem seria o candidato em melhores condições de derrotar Bolsonaro no segundo turno. Não é possível porque todas as pesquisas estão no limite da margem de erro. Não é possível porque o segundo turno será uma nova eleição, em todos os sentidos. Não sendo possível, cada um de nós deve votar em quem pensa ser o melhor candidato. E todos devemos conversar para deslocar votos de Bolsonaro.

    O #elenão não foi um tiro no pé
    Ações produzem reações, é verdade. Mas o principal efeito das mobilizações de sábado em mais de 400 cidades foi ter levantado a moral da esquerda brasileira. Não se luta contra os fascistas somente com argumentos. É preciso demonstrar força social. Porque o medo vai ter que mudar de lado, se queremos sair da defensiva. E quando reunimos um milhão nas ruas a militância de todas as correntes de esquerda levantou a cabeça.

    O crescimento de Bolsonaro nas pesquisas parece ter tido múltiplos fatores. Em primeiro lugar a saída do hospital. Ao receber alta, e voltar a ter presença ativa nas redes sociais Bolsonaro sinalizou que tinha voltado para a luta. Isso teve impacto. Em segundo lugar, o apoio das Igrejas pentecostais. Em terceiro lugar, o deslocamento do voto anti-PT ainda indeciso para Bolsonaro, simplesmente, porque permanece em primeiro lugar, portanto, favorito.

    Mas isso não significa que seja provável que Bolsonaro vá vencer. Ao contrário, é possível, porém, improvável. As eleições estão em aberto.
    Tarefa do dia: convença alguém a não votar em Bolsonaro. Hoje. Agora.

    Eu vou de #BoulosESonia50

     

    LEIA MAIS

    Crescimento do Bolsonaro demonstra a inutilidade da campanha pelo voto útil

     

    Foto. Guilherme Boulos, no comício do Rio de Janeiro, no dia 03. Foto Mídia Ninja

  • Não há um golpe militar em marcha; o maior perigo é a eleição de Bolsonaro

     

    Na hora mais escura da noite, mais intenso será o brilho das estrelas no ceú.
    Sabedoria popular persa

    A hora mais escura do dia é a que vem antes do sol nascer
    Sabedoria popular árabe

    1. Não é verdade que o maior perigo seja um golpe militar. O maior perigo é Bolsonaro vencer nas urnas e, por dentro das regras do regime democrático- eleitoral, chegar ao poder da presidência. Na sequência, a partir dessa posição, subverter o regime que já adquiriu, depois do golpe de 2016, traços bonapartistas, como o agigantamento do judiciário, das polícias, das Forças Armadas. Não é verdade que o núcleo duro da burguesia brasileira já chegou à conclusão que o choque econômico-social que defendem – com um ajuste fiscal brutal em 2019 – só pode ser executado por um regime ditatorial.

    Análises catastrofistas são perigosas porque projetam cenários terminais que: (a) não correspondem à realidade; (b) produzem desalento e desesperança em uma conjuntura que já é ruim o bastante, com um fascista com um terço dos votos válidos nas pesquisas. A construção da análise pode ter elegância e coerência, mas não corresponde à conjuntura. Não há um golpe militar em marcha. Beleza aristotélica é uma qualidade estética do discurso, porém não é marxismo.

    O golpe foi institucional, é já aconteceu há dois anos. A derrota não foi somente superestrutural. Aconteceu uma mudança na relação social de forças. Foi uma derrota político-social. Abriu-se uma situação defensiva, com muitos elementos reacionários. Não obstante, não foi uma derrota histórica, como em 1964. Não será necessário o intervalo de uma geração para que se acumulem forças para que os trabalhadores e seus aliados sociais voltem a entrar em cena. Mas, claro, o perigo autoritário é real.

    2. A ideia mais repetida no debate da Record foi que estaríamos diante de dois extremismos gêmeos: o de esquerda e o de direita. Foi defendida por Marina Silva, Álvaro Dias, Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles, os quatro tons de Temer. Mas associou-se a este cambalacho, também, vergonhosamente, Ciro Gomes. Cinco dos oito presentes ficaram brincando entre si, alegremente, defendendo a moderação, a reconciliação, a paz, a união, o amor. Não deverá ser diferente no debate da TV Globo, da próxima quinta-feira, e deve marcar a última semana de campanha eleitoral. Esta interpretação é um escárnio contra a inteligência do povo. É uma operação ideológica.

    Há um candidato fascista em primeiro lugar em todas as pesquisas, e ele é uma ameaça às liberdades democráticas. Não há lugar para controvérsia sobre o perigo que Bolsonaro representa, porque ele e seu vice Mourão não têm qualquer pudor em declarar barbaridades absurdas, amplamente conhecidas.

    Em segundo lugar nas pesquisas se consolidou Haddad. Qualquer pessoa lúcida sabe que o PT não é uma ameaça às liberdades democráticas. O PT esteve no governo entre 2003 e 2016 e respeitou, religiosamente, as instituições até o limite do absurdo. O PT não desafiou a ordem constitucional. Foi a maioria da burguesia brasileira que o fez, quando incentivou e mobilizou setores da classe média para legitimar o golpe parlamentar.

    O problema real é que o núcleo duro da classe dominante não conseguiu deslocar Bolsonaro, e Alckmin patina abaixo de 10%. Isso é uma anomalia, se consideramos as necessidades de representação política dos capitalistas. A fórmula “dois radicalismos gêmeos” já não obedece, somente, a um cálculo desesperado de tentar levar Alckmin ao segundo turno. Mesmo com a decisão arbitrária, porém frustrada, de Fux de proibir entrevistas de Lula. Mesmo com a decisão de Moro de tornar pública a delação premiada de Palocci.

    Ela responde à necessidade de pressionar a direção do PT para se render antes do segundo turno. Render-se, outra vez, como fez Dilma Rousseff em 2015, diante da exigência de preservação do choque econômico-social iniciado por Joaquim Levy, e radicalizado por Temer, com a EC95 do teto dos gastos, contrarreforma trabalhista, lei de terceirização, etc. Render-se, outra vez, diante da imposição da idade mínima na contrarreforma da previdência.

    3. Qualquer tentativa de diminuição do significado do dia 29 de setembro é uma cegueira ideológica. Foi a campanha pelo #elenão e o gigantismo do sábado dia 29/09 que abriram a possibilidade de derrotar Bolsonaro. Só isso, mas não é pouca coisa. Ainda que a batalha esteja muito longe de estar decidida. Tudo permanece incerto. Todos que subestimaram Bolsonaro até agora erraram. A disputa será feroz. A manifestação foi o acontecimento mais importante da campanha eleitoral, e só foi possível porque se construiu uma frente única pela iniciativa do movimento feminista.

    Que a composição dos Atos e Marchas tenha sido, fundamentalmente, jovem, feminina, de setores sociais com mais escolaridade e renda, não deveria nos surpreender. Foi sempre assim, nos últimos quarenta anos, quando se inicia uma campanha política.

    Uma vanguarda social e política abre o caminho. Só depois os setores populares, tendo como coluna vertebral a classe trabalhadora, se colocam em marcha, e com o peso de sua Foi assim na luta contra a ditadura, a partir de 1977/78, mas o movimento estudantil marchava sozinho. A classe operária do ABC saiu à luta em 1979, com os professores, petroleiros e bancários, mas o salto de qualidade aconteceu somente em 1984, com as Diretas Já, agora na escala de milhões.

    A direção do PT fez uma aposta em uma estratégia eleitoral de alto risco ao manter a candidatura Lula até o limite máximo, para deixar bem claro que ele é um preso político. Esse cálculo estava certo. Era possível fazer a transferência dos votos para Haddad, mesmo com pouquíssimo tempo. Sempre apostando na amargura gerada pelo desemprego e pobreza dos últimos dois anos com Temer, em contraste com a nostalgia da vida durante os anos do governo Lula. Mas esta estratégia foi, eleitoralmente, correta somente para levar Haddad para o segundo turno. Derrotar Bolsonaro exige uma nova tática. Alertamos, há várias semanas, que o centro da tática tinha que girar para a denúncia do perigo do fascista.

    O papel do Psol foi, portanto, muito importante. Demonstrou-se na prática porque a esquerda radical é útil.

    Foto: EBC

    Quatro motivos para não votar em Bolsonaro: Suas propostas para a classe trabalhadora Por Carlos Henrique de Oliveira

    Cinco argumentos para desmascarar Bolsonaro Por Juliana Bimbi

    Bolsonaro admite Petrobrás totalmente privatizada caso seja eleito Por Pedro Augusto

    Conheça quem está por trás das ideias de Bolsonaro Por Gibran Jordão

    Bolsonaro: Nem honesto, nem aliado dos trabalhadores Por Edgar Fogaça

    Bolsonaro não é um espantalho por Valério Arcary

    Em visita ao Pará, Bolsonaro defende a chachina de trabalhadores sem-terra Por Gizelle Freitas

    Não se deve tercerizar para Ciro Gomes a luta contra Bolsonaro por Valério Arcary 

    Bolsonaro em contradição: três patacoadas do “mito”em apenas dez dias de 2018 por Matheus Gomes

    5 fatos mostram que Bolsonaro é contra os trabalhadores e aliado de Temer por Lucas Fogaça

    Bolsonaro ataca negros, pessoas gordas, quilombolas, indígenas e refugiados no clube Hebraica por Jéssica Milare 

     

  • Não estamos nos anos trinta, só que em câmara lenta

    O debate sobre o bloqueio das forças produtivas no Programa de Transição

    Comecemos por ententer o que significa ser verdadeiramente marxista. Não podemos fazer um culto, como se fez de Mao ou de Stalin. Ser trotskista hoje não significa estar de acordo com tudo aquilo que escreveu ou o que disse Trotsky, mas sim saber fazer-lhe críticas ou superá-lo, como a Marx, a Engels ou Lênin, porque o marxismo pretende ser científico e a ciência ensina que não há verdades absolutas. Em primeiro lugar, ser trotskista é ser crítico, inclusive ao próprio trotskismo.[1]
    Nahuel Moreno

    Há pelo menos meio século se abriu um debate, nas organizações e círculos da esquerda da tradição trotskista, sobre a vigência da letra ou do método do Programa de Transição. Devemos voltar a refletir sobre este tema, criticamente, quando interpretamos a sua atualidade, neste aniversário de oitenta anos de fundação da Quarta Internacional.

    O primeiro desafio é sobre o que devemos compreender quando lemos hoje, no texto de 1938, a caracterização de que sob o capitalismo contemporâneo as forças produtivas teriam deixado de crescer, pelo menos, desde a Primeira Guerra Mundial e o triunfo da revolução russa [2].

    O segundo é sobre o que devemos compreender sobre a caracterização de que a crise da humanidade pode ser reduzida, essencialmente, à crise de direção do proletariado [3]. As duas caracterizações são, fundamentalmente, indivisíveis. A primeira estabelece a maturidade das condições objetivas para a revolução mundial. A segunda sublinha a imaturidade das condições subjetivas, e explica porque, apesar de tantas revoluções terem acontecido, não há nenhum país em transição ao socialismo, e a ordem imperialista ainda está intacta.

    O terceiro é sobre o que devemos compreender sobre a premissa de que, na nossa época, o capitalismo é incapaz de ceder reformas e, portanto, é necessário superar a oposição entre programa possibilista e maximalista. O Programa de Transição defende que a luta por reivindicações mínimas e democráticas pode abrir, potencialmente, uma dinâmica de mobilizações anticapitalistas transitórias [4].

    Estas ideias poderosas mantém vigência? Em que sentido? A resposta à primeira pergunta é mais simples. Sim, estas ideias mantém vigência, e foram confirmadas pelo laboratório da história. Vivemos em uma época histórica de guerras e revoluções. A permanência da ordem imperialista mundial é uma ameaça à sobrevivência da humanidade. O programa marxista é a revolução socialista mundial. O trotskismo se afirmou como a mais fecunda corrente marxista revolucionária mundial porque manteve a defesa da tradição anticapitalista dos herdeiros da revolução de outubro, e internacionalista da III Internacional.

    Mas estas ideias não podem ser compreendidas como absolutas. Reafirmar que a tarefa história da época é a luta pelo socialismo não é o mesmo que dizer que estaríamos em uma situação revolucionária mundial. São níveis de abstração na análise da realidade, completamente, diferentes. A percepção de uma crônica situação revolucionária mundial é uma ilusão objetivista.

    A social democracia e o estalinismo foram, e permanecem sendo, ainda que mais debilitados, aparelhos burocráticos. Mas reafirmar que há uma crise de direção do proletariado não é o mesmo que dizer que, não fosse o papel das organizações reformistas, já estaria madura entre os trabalhadores uma disposição revolucionária de luta pelo poder. Isso seria uma perigosa idealização da classe operária, um excesso obreirista. A percepção de uma invariável disposição revolucionária de luta entre os trabalhadores é autoengano, uma fantasia imaginária, uma forma de pensamento mágico. Esta interpretação reduz a análise da crise de direção à vulgaridade de uma teoria da traição, portanto, uma mentalidade conspiratória.

    O capitalismo não cumpre mais papel progressivo algum, não pode conceder reformas perenes, sequer no centro do sistema, quanto mais nos países da periferia. Mas reafirmar a rigidez dos limites históricos do capitalismo em sua época de declínio não é o mesmo que dizer que, em circunstâncias excepcionais, diante do perigo de situações revolucionárias, a burguesia não possa aceitar concessões emergenciais, temporárias, efêmeras, sacrificando anéis para salvar os dedos.

    A resposta à segunda questão é, portanto, muito mais complexa. Em que sentido reivindicamos o programa de transição? Existem duas hipóteses. Há aqueles que fazem uma leitura rígida, literal ou restrita da letra do programa de transição, e fazem dele um dogma estéril. A defesa de dogmas condena este tipo de trotskismo a uma marginalidade política e social incontornável. E há aqueles que, como nós, defendem o método do programa de transição, mas consideramos que é necessária a sua atualização.

    A crise econômica mundial de 2008 foi a mais séria desde 1929. Mas não estamos, em 2018, vivendo uma situação semelhante à dos anos trinta, só que em câmara lenta. Não estamos na iminência de uma guerra mundial, e na antessala da invasão da URSS pelo nazifascismo. O capitalismo foi restaurado à escala internacional e a URSS já não existe. Aconteceu uma derrota histórica e isso teve consequências.

    A disposição de atualizar o Programa de Transição não diminui o nosso compromisso com a luta pela revolução, somente reafirma nosso engajamento com o marxismo. Essa tarefa já foi encarada, há quarenta anos, pela geração anterior de trotskistas, só que em condições favoráveis, depois da derrota do imperialismo norte-americano no Vietnam [5]. Nossa tarefa é mais amarga, porque a evolução da situação mundial no último quarto de século foi desfavorável. Não prevaleceram vitórias da revolução mundial, mas o contrário.

    Um programa não é uma análise da situação econômica e social, embora deva estar fundamentado em uma síntese de quais são suas tendências. Não é uma obra de investigação histórica, embora deva estar baseado em uma caracterização do período histórico. Não é uma lista de palavras de ordem, embora deva fazer sínteses na forma de consignas.

    Um programa é um instrumento de luta. A tarefa programática incorpora estas três tarefas, mas deve identificar na análise quais são as contradições centrais da realidade, e retirar como conclusão quais são as tarefas colocadas para os trabalhadores e seus aliados.

    A caracterização principal do programa de transição é que, sob a ordem imperialista mundial, entramos em uma época de decadência histórica do sistema. Ou seja, a conclusão de que as relações sociais capitalistas se transformaram em um freio para o progresso, e uma ameaça para a civilização. Do que decorre que a tarefa dos marxistas deve ser a luta pela revolução socialista internacional. Se considerada no nível de abstração muito elevado de uma época, ou seja, em uma dimensão secular indefinida, e em escala internacional, esta caracterização permanece fundamental, e é um dos pilares do marxismo revolucionário.

    Mas uma época é um longo intervalo histórico, portanto, na dimensão secular. Ao longo da mesma época devemos considerar a alternância de várias etapas. As etapas estão determinadas pela relação de forças entre revolução e contrarrevolução, em escala mundial. Em cada etapa da luta de classes há uma direcionalidade, um signo, uma dinâmica. Vitórias favorecem novas vitórias. Derrotas facilitam derrotas. A revolução mundial tem a morfogia de ondas de choque, o efeito dominó. Não obstante, durante uma etapa, em cada país, embora a tendência seja a pressão do contexto internacional, podem prevalecer condições peculiares da luta de classes em cada nação. Não há sincronicidade direta.

    A leitura extremada do caráter revolucionário da época, desconhecendo as variáveis tempo e espaço, as desigualdades determinadas pela história e geografia, desprezando a realidade concreta da luta de classes, e as variações das relações de força entre as classes na escala das situações, foi uma das chaves da teoria da “iminência” da revolução.

    A teoria da “iminência” da revolução é uma das variações da teoria objetivista do colapso do capitalismo. O objetivismo é uma ilusão de ótica. O objetivismo é uma análise unilateral da realidade que diminui a centralidade dos fatores subjetivos na luta de classes. A dimensão subjetiva da luta de classes é aquela que remete ao nível de consciência e disposição de luta dos trabalhadores e seus aliados sociais. Estamos diante de tendências históricas, e não diante de prognósticos catastrofistas. Qualquer outra conclusão é fatalismo determinista, ou uma forma de milenarismo socialista. Lenin tinha alertado contra este perigo quando escreveu “Imperialismo, fase superior do capitalismo”.[6]

    Esta caracterização se apóia em uma teoria da história formulada por Marx. As forças motrizes do processo histórico seriam, essencialmente, duas tendências que se desenvolvem simultânea e, inseparavelmente, mas com uma força de pressão que se alterna em função da natureza da época: a tendência ao crescimento das forças produtivas, e a luta de classes, operam como os seus fatores de impulso. Em poucas palavras: luta da humanidade pela produção da riqueza social, de acordo com suas necessidades, e luta entre os homens pela apropriação do sobreproduto social, determinada pela escassez.

    Mas, a intensidade da necessidade histórica que se manifesta através dessas duas tendências, varia, oscila, flutua, e se alterna. Marx não identificou uma tendência intrínseca indefinida ao desenvolvimento das forças produtivas. Existe uma tendência e contratendências. As relações sociais podem favorecer ou obstaculizar este desenvolvimento. Variadas forças de bloqueio teriam se manifestado na história. Logo, períodos de estagnação até, relativamente, longos não seriam uma exceção.

    Por outro lado, a principalidade da luta de classes seria, também, variável. E só se manifestaria, em sua máxima intensidade, em épocas revolucionárias. Podemos, portanto, considerar, de acordo com a natureza das épocas, inversões de primazia entre a operação das forças motrizes. Tão ou mais importante essas duas forças de pressão da necessidade histórica desenvolvem contradições entre si, porque atuam reciprocamente uma sobre a outra. E se neutralizam, também, uma à outra, como obstáculos mútuos.

    A primeira questão que devemos problematizar, portanto, oitenta anos depois de 1938, é identificar qual era o nível de abstração em que este postulado sob o bloqueio das forças produtivas, ou sobre a maturidade das condições objetivas foi elaborado. Na dimensão histórica de época, que admite a longa duração, ou, indistintamente, das etapas políticas, das situações concretas ou das conjunturas breves? As leis históricas para marxistas operam como tendências. Nem menos, nem mais do que tendências, ou forças de pressão.

    Estas tendências abrem o caminho no terreno da luta de classes. A luta de classes é um processo em aberto, portanto, incerto. Porque a premissa de que as forças produtivas sob a ordem imperialista, tendencialmente, não podem crescer como cresciam no XIX, quando o capitalismo impulsionava a revolução industrial, não desautoriza considerar que as relações sociais capitalistas podem ser, dependendo da situação concreta e da do destino de cada nação, um obstáculo absoluto ou relativo.

    Quando Leon Trotsky retomou este conceito da III Internacional na fundação da Quarta não estava senão recuperando do esquecimento uma localização estratégica. O que significa concluir que, quando a revolução mundial avança, os limites históricos do capitalismo se estreitam, mas, também, o inverso. Quando a contrarrevolução avança, o capitalismo alonga seus prazos de sobrevivência. Porque a caracterização de que estamos em uma época de declínio histórico do capitalismo não descarta a possibilidade de que operam contratendências em escalas de tempo mais breves. E não invalida que na escala das etapas, situações e conjunturas ocorram inversões transitórias em que estas contratendências prevaleçam.

    Em conclusão: a defesa rígida de que as forças produtivas não cresceram, nos últimos oitenta anos, é dogmática porque não tem sustentação histórica. O argumento contrário mais poderoso, mas, também, mais inconclusivo, defende que as forças produtivas devem ser compreendidas como um sistema de relações que a humanidade estabelece com a natureza através do trabalho com ferramentas, que objetivam em tecnologia, de acordo com o estágio de desenvolvimento da ciência.

    Na sua formulação mais lúcida a régua que deve medir este processo deve ter quatro critérios: (a) o grau de melhoria ou deterioração das condições de vida da humanidade, uma variável que nos remete à elevação ou estagnação dos níveis de produtividade do trabalho; (b) a expansão do papel de parasitismo dos capitais fictícios com a financeirização; (c) o crescimento das forças destrutivas (expansão da indústria militar); e (d) as ameaças à sobrevivência da civilização pela gravidade emergencial da crise climática com o aquecimento global. Os quatro critérios são corretos. O problema não é a régua. O problema é o exercício histórico de balanço.

    A tese do bloqueio absoluto tem como consequência a visão da época do imperialismo, portanto, da decadência como uma longa e ininterrupta estagnação que já teria cem anos, o que não é somente dogmático, é insensato. Se compararmos o mundo de hoje com o de cem anos atrás esta tese é absurda. Não é necessário um modelo teórico com variáveis muito complexas para aferir que ocorreu, nesse intervalo, um desenvolvimento das forças produtivas.

    Sobra, finalmente, o argumento circular de que a vitória da revolução russa em 1917 seria a demonstração inequívoca de que o capitalismo teria atingido seus limites históricos. O argumento é circular, à maneira de um cachorro que corre atrás de sua própria cauda para mordê-la, porque sustenta que a revolução de outubro prova que o capitalismo esgotou sua capacidade de cumprir um papel progressivo. Ou, formulado de trás para a frente, à maneira das demonstrações escolásticas, a crise do capitalismo se revela terminal porque a revolução russa triunfou.

    Essa conclusão ignora as sequelas do que foi o estalinismo como bloqueio da transição ao socialismo, e o impacto da restauração capitalista, ou seja, das derrotas da revolução mundial. A produtividade do trabalho nos últimos cem anos se multiplicou várias vezes. As taxas médias de crescimento das economias capitalistas foram, em escala mundial, no centro e na periferia, superiores às taxas médias de crescimento da Inglaterra, Estados Unidos, Alemanha ou França durante o século XIX. Desconhece os avanços da ciência e tecnologia, da produtividade do trabalho, do aumento da expectativa de vida, da redução do analfabetismo, etc.

    Admitir o caráter relativo, portanto, não absoluto, do bloqueio que o capitalismo representa não questiona a estratégia revolucionária. Ao contrário, eleva a nossa determinação de caminhar de olhos bem abertos. A angústia é uma prerrogativa da lucidez. Toda atualização programática nos protege de nós mesmos.


    NOTAS

    [1] MORENO, Nahuel. Ser trotskista hoje. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/moreno/1985/mes/troskista.htm
    [2] TROTSKY. Leon. O Programa de Transição. “A premissa econômica da revolução proletária já alcançou há muito o ponto mais elevado que possa ser atingido sob o capitalismo. As forças produtivas da humanidade deixaram de crescer. As novas invenções e os novos progressos técnicos não conduzem mais a um crescimento da riqueza material. As crises conjunturais, nas condições da crise social de todo o sistema capitalista, sobrecarregam as massas de privações e sofrimentos cada vez maiores (…) As premissas objetivas da revolução proletária não estão somente maduras: elas começam a apodrecer. Sem vitória da revolução socialista no próximo período histórico, toda a civilização humana está ameaçada de ser conduzida a uma catástrofe.”. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/trotsky/1938/programa/cap01.htm#1  Consulta em 20/09/2018.
    [3] TROTSKY. Leon. O Programa de Transição. “Tudo depende do proletariado, ou seja, antes de mais nada, de sua vanguarda revolucionária. A crise histórica da humanidade reduz-se à crise da direção revolucionária. A economia, o Estado, a política da burguesia e suas relações internacionais estão profundamente afetadas pela crise social que caracteriza a situação pré-revolucionária da sociedade. O principal obstáculo na transformação da situação pré-revolucionária em situação revolucionária é o caráter oportunista da direção do proletariado.” Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/trotsky/1938/programa/cap01.htm#1  Consulta em 20/09/2018.
    [4] TROTSKY. Leon. O Programa de Transição. “A social-democracia clássica, que desenvolveu sua ação numa época em que o capitalismo era progressista, dividia seu programa em duas partes independentes uma da outra: o programa mínimo, que se limitava a reformas no quadro da sociedade burguesa, e o programa máximo, que prometia para um futuro indeterminado a substituição do capitalismo pelo socialismo. Entre o Programa mínimo e o Programa máximo não havia qualquer mediação (…) A IV Internacional não rejeita as reivindicações do velho programa mínimo”, à medida que elas conservaram alguma força vital. Defende incansavelmente os direitos democráticos dos operários e suas conquistas sociais. A medida que as velhas reivindicações parciais mínimas” das massas se chocam com as tendências destrutivas e degradantes do capitalismo decadente – e isto ocorre a cada passo -, a IV Internacional avança um sistema de reivindicações transitórias, cujo sentido é dirigir-se, cada vez mais aberta e resolutamente, contra as próprias bases do regime burguês. O velho programa mínimo é ultrapassado pelo Programa de Transição, cuja tarefa consiste numa mobilização sistemática das massas em direção à revolução proletária”.   Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/trotsky/1938/programa/cap01.htm#1  Consulta em 20/09/2018.
    [5] MORENO, Nahuel. Teses de Actualización del Programa de Transición. Disponível https://www.marxists.org/espanol/moreno/actual/index.htm Consulta em 20/09/2018.
    [6] LENIN, Vladimir Ilitch. O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo. “O imperialismo reforça e aumenta as diferenças e desigualdades de desenvolvimento econômico entre os países, mas «seria um erro acreditar que esta tendência à decadência exclua o crescimento rápido do capitalismo», que agrava as desigualdades entre os países.”

     

    FOTO: A norte-americana Florence Owens Thompson, mãe de sete crianças, em Nipono, Califórnia, em março de 1936, em busca de um emprego. Foto de Dorothea Lange.

    Especial 80 anos da IV Internacional
    ACESSE O ESPECIAL
    SOBRE OS 80 ANOS
    DA IV INTERNACIONAL