Valério Arcary

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  • Contra a renda mínima universal

    Por Valério Arcary

    Está na hora de começarmos debates de programa mais sérios na esquerda. Tenho medo de ser injusto, mas me parece que demos pouca atenção, até agora, aos efeitos sociais desastrosos do recadastramento das famílias que recebem o Bolsa Família ordenado pelo governo Temer. Não foi coisa pequena. Mais de um milhão de famílias perderam o benefício.

    O direito de receber é de toda família com renda mensal de até R$ 154 por pessoa. Surgem diferentes propostas sobre o que fazer. Entre elas, a que me parece mais disparatada é suspender o programa. Um programa focado emergencial de transferência de renda em um país em que milhões vivem na miséria como o Brasil é insubstituível.

    A mais extravagante, todavia, é a defesa da universalização do Bolsa Família para todos, independentemente da renda, incluindo, portanto, os ricos. Ela pretende reduzir o mal-estar que uma política assistencialista focada como essa produz em setores das classes médias zangados com os impostos que pagam, e furiosos com a distribuição de “dinheiro para os vagabundos que não param de fazer filhos para não ter que trabalhar”.

    Esse ódio de classe de tipo primitivo existe mesmo no Brasil e não deve ser subestimado. Há um raciocínio perigoso, porque superficial, por trás desta hipótese, que é o seguinte: o governo do PT não teria chegado ao impasse do impeachment se tivesse estendido o Bolsa Família, distribuindo renda mínima de sobrevivência para todos. Este argumento é infantil. O impeachment não foi feito para acabar com o Bolsa Família. Foi feito para reposicionar o capitalismo periférico brasileiro no mercado mundial; foi feito para levar o ajuste até ao fim, muito além do iniciado por Dilma/Levy; foi feito para reduzir os custos produtivos, para favorecer a atração de capitais estrangeiros, e para impulsionar privatizações, etc.

    Não acredito que o eixo ordenador de um programa de esquerda diante da crise brasileira com seus treze milhões de desempregados, salários em queda, epidemias em alta, evasão escolar, chacinas e tudo o mais, deverá ser a proposta de universalização da renda mínima. Ao contrário, penso que nós vivemos em uma época em que o grande desafio para combater a pobreza e a miséria é um programa mais “tradicional” chamado “trabalho para todos” com “elevação emergencial do salário mínimo”. Redução da jornada de trabalho, sem redução salarial, para que haja trabalho para todos. Direito ao trabalho deveria ser o primeiro direito que organiza a vida adulta de todos.

    Tem muita gente honesta fascinada com a ideia de uma renda mínima universal, mas desconhecem a origem desta proposta. Ela está inserida em uma elaboração que remete ao Banco Mundial e à necessidade de focalização das políticas sociais, em alternativa à extensão universal de direitos que prevaleceu nas três décadas de pleno emprego do pós-guerra[1]. Foi reformulada como alternativa tanto ao “Quantitative Easing” (QE), quanto ao “Helicopter Money” [2]. A proposta de distribuir dinheiro sem contrapartidas pode parecer instigante, mas não é, teoricamente, absurda, nem tampouco, politicamente, de esquerda. Foi defendida, seriamente, depois da crise de 2008, até por economistas liberais que argumentaram a favor do “helicopter money” como alternativa ao QE (Quantitative Easing) ou relaxamento monetário.

    O dinheiro do helicóptero é uma referência a uma idéia popularizada pelo economista norteamericano ultraliberal Milton Friedman lá atrás em 1969. A ideia principal é que, se um Banco Central quiser contornar uma situação de deflação, e fomentar o aumento da produção de uma economia que esteja funcionando, qualitativamente, abaixo do seu PIB potencial, uma ferramenta eficiente seria, simplesmente, dar a todos os cidadãos, em caráter transitório, transferências diretas de dinheiro.

    Os programas de relaxamento monetário (QE) realizados pelos Bancos Centrais desde a crise financeira envolvem compras em grande escala de ativos dos mercados financeiros. Estas compras foram direcionadas pelo FED (Banco Central dos EUA sob a direção de Bem Bernanke) a títulos da dívida pública do governo. A principal diferença entre a QE, como foi realizada e o “dinheiro de helicóptero”, como previsto por Friedman, é que a grande maioria das compras foi uma troca de ativos, onde uma dívida pública é trocada por reservas bancárias.

    A renda mínima parece, portanto, ser capaz de mágicas como unificar setores da direita, centro e esquerda. Para frações do ultraliberalismo conservador brasileiro ela é mais eficaz porque elimina obstáculos burocráticos como cadastramentos e controles. Para parcelas da esquerda ela diminue a pobreza, mas ao distribuir para todos, mesmo para os setores médios e abastados, ela contorna o mal estar do ressentimento social.

    A proposta tem como argumento a experiência de um Fundo Permanente no Alaska que distribui, desde 1982, uma parte dos dividendos gerados pela exploração do petróleo para todos os residentes, independentemente, de qual seja a sua renda. Você pode pensar: pagar para alguém querer morar no Alaska parece algo razoável como compensação pelo clima glacial.

    Mas o governo da Finlândia autorizou, também, uma avaliação controlada deste projeto de política na forma de um teste, substituindo parte de seu sistema de benefícios de desemprego por uma renda básica universal [3]. Até na Holanda algumas prefeituras fazem, também, uma experiência. A socialdemcoracia europeia aderiu a esta proposta: foi um dos eixos da última campanha presidencial através de Benoit Hamon. Mark Zuckerberg do Facebook apoia. Uma renda mínima universal, portanto, incondicional, será, provavelmente, a proposta central da campanha ao Senado de Eduardo Suplicy, do PT.

    Muitos entre os defensores da renda mínina consideram obsoleto tentar a luta pelo pleno emprego. Estas ideias despertam, infelizmente, alguma empolgação até na esquerda brasileira. Argumentam que é retrógado pensar a partir de conceitos antiquados ou “fora de moda” como classes sociais, diante da realidade devastadora que se desenha com a introdução de inteligência artificial, automação e desemprego estrutural. Uma nova revolução tecnológica impulsionada pelo capitalismo na era da “economia do conhecimento” seria um progresso incontornável.

    A questão da viabilidade econômica da renda mínima, embora não seja, somente técnica, é vital para determinar seu caráter político. Isso porque os efeitos da renda mínima dependem de quanto seria distribuído. Todos os estudos disponíveis indicam que os efeitos da introdução de uma renda mínima universal, em substituição a políticas econômico-sociais como obras públicas, salário-desemprego, previdência e assistência social seriam regressivas. A vida iria ficar mais difícil, e não há raões para acreditar que teria impacto na redução da pobreza ou da desigualdade social [4].

    O socialismo teria se demonstrado uma fantasia utópica. Fantasia? Utópica? Por quê? Socialismo significa desmercantilização de tudo que corresponde às necessidades mais intensmente sentidas como universais, a começar pelo próprio trabalho. Será menos utópico um projeto que exigirá  a alocação de recursoso nunca inferiores do que 35% ou até 40% do PIB? Não parece mais razoável lutar contra o capitalismo, do que abraçar uma estratégia reformista, não menos impossível de conciliar com a burguesia, de limitar o espaço em que ele opera?

    Não há razões sérias pára este tipo de fatalismo. Se o capitalismo contemporâneo não pode garantir direito ao trabalho para todos, tal como ele existe, não merece continuar existindo. Enquanto lutamos para amadurecer as condições subjetivas em que a luta pelo poder e pelo socialismo sejam mais favoráveis, a luta pela ampliação de direitos não pode diminuir.

    Assistência social é legítima e deveria ser um pacote em que os beneficiados deveriam ganhar mais do que ganham. Mas essa assistência social deve ser oferecida para aqueles que não podem trabalhar. Sim, porque há uma parcela da população adulta que não pode trabalhar, por muitas e variadas razões. Por exemplo, os doentes. Não obstante, para aqueles que têm saúde física e psíquica para o trabalho, é preciso garantir um emprego digno para todos. Um emprego digno significa um trabalho estimulante, atraente, recompensador, portanto, redentor de nossa humanidade, e não uma brutalização. Nenhum direito a menos.

    A premissa oculta por trás da proposta da universalização de programas de renda mínima é uma rendição ideológica irreversível. Significa aceitar que o capitalismo não garantirá mesmo trabalho para todos, mas não podemos defender propostas que desafiam os limites do capitalismo. Assim, em conclusão, é preciso que nos resignemos a viver em um tipo de sociedade na qual uma ou duas em cada cinco pessoas terá que viver de uma renda mínima garantida pelo Estado e, portanto, será uma “clientela crônica”, dependente de receber um Bolsa Família mensal.

    Na época do imperialismo, em que o Estado de Bem Estar social está sendo destruído nos poucos países em que ele esteve, parcialmente, em vigor no pós-guerra, essa é uma política reacionária, não uma política de esquerda. Uma política de esquerda é lutar pelo pleno emprego, pelo trabalho para todos.


    [1] Roberto Leher. REFORMA DO ESTADO: O PRIVADO CONTRA O PÚBLICO.
    http://www.scielo.br/pdf/tes/v1n2/03.pdf


    [2] Um artigo disponibizado pelo World Economic Forum, que anima a reunião mundial realizada, anualmente, em Davos, sobre este tema é insuspeito de qualquer enviezamento esquerdista.
    https://www.weforum.org/agenda/2015/08/what-is-helicopter-money/


    [3] Dois mil desempregados foram selecionados para um teste de renda básica universal. A Finlândia é o primeiro país europeu a fazer a experiência. Não se trata, a rigor, de um programa de Renda Mínima Universal, ou distribuição de “dinheiro de helicóptero” para  todos, até bilionários, ou seja, um valor mensal incondicional. A Finlândia também não publicará quaisquer resultados antes do final de 2018, quando se esgota o período de dois anos do teste.
    https://www.theguardian.com/commentisfree/2017/oct/31/finland-universal-basic-income


    [4] Daniel Zamora. The Case Against a Basic Income.
    https://www.jacobinmag.com/2017/12/universal-basic-income-inequality-work

  • La paradoja de 2017 y las principales tendencias para 2018

    21 de diciembre de 2017

    Por: Valerio Arcary, columnista de Esquerda Online

    1.  Subestimar a los enemigos es un camino seguro hacia la derrota. La paradoja de 2017 es que el gobierno de Temer tiene muy baja popularidad, pero este rechazo en las encuestas no significa que debemos sacar la conclusión de que es un gobierno débil. Paradojas son aquellas contradicciones que nos parecen desconcertantes porque son contraintuitivas. Algo es contraintuitivo cuando desafía una idea simple y hasta racional que, por lo tanto, parece verdadera. Nuestras mentes prefieren un sesgo lógico que favorece el reconocimiento de pensamientos aparentemente coherentes.

    ¿Cómo es posible decir que un gobierno que no tiene sustentación en la mayoría de la población no es débil? De débil o fuerte son adjetivaciones. Adjetivo significa asignar una función, es decir, calificar. ¿Merece ser considerado débil un gobierno que logró aprobar, en tan poco tiempo, tantas contrarreformas? Es verdad que no pudo aprobar todavía la “madre” de todas las contrarreformas, que es la de la previsional, pero si Temer llega a finales de 2017, relativamente, debilitado, después del desgaste de las dos votaciones que negaron autorización para su investigación, solicitada por Janot en nombre del Ministerio Público, todavía está de pie, y la hipótesis más probable sigue siendo, desgraciadamente, que pueda terminar el mandato hasta finales de 2018.

    Tiene el apoyo de la mayoría de la burguesía, del Poder Judicial y del Congreso, de las Fuerzas Armadas, de la mayoría de los medios de comunicación y se beneficia con los cambios que sobrevinieron con el nombramiento de Raquel Dodge en el MPF y de Segovia en la Policía Federal.

    En el caso de Raúl Dodge en el MPF y de Segovia en la Policía Federal, tiene el apoyo de la mayoría de la burguesía, del Judiciario y del Congreso, de las Fuerzas Armadas, de la mayoría de los medios, y se beneficia de los cambios que ocurrieron con el nombramiento de Raquel Dodge en el MPF y de Segovia. Está protegido por el apoyo de los gobiernos de los países centrales y de los gobiernos del Mercosur. La situación del gobierno de Temer es excepcional: fue el resultado del golpe del impeachment, no fue elegido y, tan o más importante, no pretende reelección. El bloque político-social que garantizó el derrocamiento de Dilma Rousseff puede, por lo tanto, apoyar las contrarreformas reaccionarias antipopulares y, al mismo tiempo, organizarse en torno a candidaturas que no se presentarán como herederas del gobierno de Temer para garantizar una oportunidad de alcanzar la segunda vuelta en 2018.

    1.  Sin embargo, el gobierno Temer sufrió durante el año una seria crisis y tal vez podría haber sido derrocado. Circunstancias inusitadas, durante algunas semanas en mayo, abrieron esta posibilidad, no sólo por el nivel de resistencia activa alcanzado por la huelga general del 28 de abril y la marcha del 24 de mayo, sino también por la denuncia y la delación premiada de la JBS, que fue aceptada por el Ministerio Público liderado por Janot.

    Esta rara combinación, entre otros factores como la dosificación brutal de ajuste fiscal encabezado por Meirelles y, en especial, la iniciativa de la Lava Jato, dividió a la clase dominante y dejó al gobierno de Temer semiparalizado, impidiendo la aprobación hasta ahora de la reforma de la previsión social. Tembló, pero lo cierto es que no cayó. No se ha invertido la situación defensiva, desfavorable, abierta entre 2015 y 2016 y que culminó con el impeachment. Las campañas por el Fuera Temer y Directas Ya no lograron alcanzar una dimensión suficiente para derribarlo. En el segundo semestre vivimos, por lo tanto, una coyuntura peor que aquella de marzo y junio.

    1. Una cuestión de método se plantea cuando pensamos en las perspectivas para 2018. Los pronósticos para el futuro son como los contrafactuales para el pasado, es decir, algo posible que no ocurrió. Es necesario medir, ponderar, ajustar, calibrar la fuerza de presión de distintos factores que ejercen presiones de primer, segundo, tercer grado. Los pronósticos serios deben ser hechos apoyados en la identificación de tendencias y contratendencias, o sea, el cálculo de probabilidades. Al mantener la misma relación social de fuerzas, las posibilidades estarán limitadas a un estrecho escenario. Sucede que la relación social de fuerzas puede cambiar. Probablemente, oscilará.

    Brasil no es un país escandinavo, y no hay lugar para el aburrimiento. Tenemos que considerar en las previsiones el impacto de hechos “gigantescos” que están por venir. Imposible, en este momento, tener la percepción de cuál será la reacción popular a una probable condena de Lula en enero en el segundo juicio. Tampoco sabemos cómo podría repercutir la delación de Palocci comprometiendo a Lula.

    No sabemos si la capacidad de reacción sindical y popular a la aprobación de la reforma de la previsión social será mayor que en esta víspera de Navidad. O los efectos de una evolución de la investigación contra Aécio Neves. Los márgenes de error, en este momento, ¿son grandes o pequeños? Son inmensos. La variable: tiempo no se puede ser ignorada. Los márgenes de incertidumbre son demasiado grandes. El Marxismo debe inspirarse en buena ciencia, o sea, prudencia, y el comportamiento social de las clases tiene mucho de imprevisible. Las regularidades existen, pero las irregularidades, también.

    1. ¿Cuál será el escenario económico-social más probable?

    (a) Todos los indicadores disponibles sugieren la continuidad de una tímida recuperación económica, que no debe ir más allá del 1 % del PIB en 2017, después de cuatro años que sumaron un retroceso del PIB superior al 8 %;

    (b) Estamos en un contexto externo de crecimiento lento de la economía mundial, tanto en Estados Unidos, en Europa, como en Japón, que se refleja en los países semiperiféricos, además de la revalorización de los precios de las materias primas;

    (c) Entre las principales variables merecen destacar la gran caída de la inflación, en un año, de un 10 % a menos del 3 %; la caída de la tasa Selic del 13 % al 7 %; el saldo positivo de 60.000 millones de dólares en la balanza comercial que, sumado al equilibrio en el balance de pagos, mantuvo las reservas en un nivel cómodo de 380 mil millones de dólares, es decir, un año y medio de importaciones, lo que favorece también una estabilidad del cambio;

    (d) En el acumulado en doce meses, la proyección de IED, o inversión externa está siendo algo por encima de los 84.500 millones de dólares (4,4 % del PIB);

    (e) la reducción lenta del desempleo debe proseguir; después de dos años seguidos de retracción, el consumo de las familias tuvo un alza del 1,2 % en el tercer trimestre de este año; la caída de la tasa de interés aún no se tradujo en reducción de los spreads bancarios (en términos generales, es la diferencia entre el precio de oferta y demanda para un determinado valor. Puede emplearse como indicador de la liquidez de un valor -menores spreads indicarían más liquidez- aunque también es posible que se vea influido por otros factores). Actualmente, el 45 % de los depósitos a la vista, el 36 % de los depósitos a plazo y el 30% de los de ahorro se recogen de los bancos en forma de restricciones obligatorias para mantener reservas bancarias, fiscalizadas por el Banco Central, pero esta política será flexibilizada para incentivar el crédito, lo cual podrá impactar.

    1. En qué medida esta evolución económica puede traducirse en sensación social de alivio durante el próximo año es todavía imprevisible. Se necesitan al menos varios meses, tal vez hasta más de un semestre, de consistente mejora en el marco económico para que la percepción de malestar se transforme en sensación de bienestar, pero puede suceder, y en este caso favorecerá una candidatura de centro-derecha. También es la hipótesis más probable que Lula no pueda ser candidato. Sin embargo, todos los datos disponibles indican una tendencia a la baja en la tasa de rechazo de Lula.

    El padrón histórico de capacidad de transferencia de votos en Brasil es alto. Ya sucedió incontables veces desde 1986. Sarney ayudó a elegir a Quércia, que eligió a Fleury. FHC eligió a Covas, que eligió a Alckmin. Brizola eligió Alencar y Garotinho. Lula eligió a Dilma Rousseff y Haddad. Esto indica que lo más probable es la disputa de una candidatura del PT por un lugar en la segunda vuelta de 2018. Aunque Alckmin esté mejor colocado como la candidatura hacia donde debe converger la mayoría de los pesos pesados ​​del PIB, la investigación de corrupción en las grandes obras de São Paulo, tras la denuncia de lenidad en el acuerdo de la constructora Camargo Corrêa, lo debilita. No es suficiente, el arco de alianzas políticas en torno a Temer y Maia, MDB/DEM/. El gran espectro del centro todavía está articulando una posible candidatura (Meirelles es improbable, pero puede ser ACM Neto, por ejemplo) para, entre otros objetivos, blindar la acción futura de la Lava Jato. La presión del PIB por una candidatura única será grande, pero parece difícil. En resumen: no sabemos siquiera quiénes serán los candidatos. Intentar proyectar cómo estará el país unas semanas antes de las elecciones, por lo tanto, es, en rigor, imposible.

    Foto: EBC

  • Um alerta sobre o que desejar neste fim de ano

    Por Valério Arcary, Colunista do Esquerda Online

    Lula e Bolsonaro encabeçam as mais recentes pesquisas de opinião. Não são poucos na esquerda que vão comemorar o Natal pensando que, nestas circunstâncias, Lula venceria, e a ofensiva reacionária desencadeada desde 2015 seria interrompida. Não quero estragar as festas de fim de ano de ninguém. Mas a hipótese mais provável é que nenhum dos dois estará na disputa do segundo turno no ano que vem. E a ofensiva reacionária precisa ser derrotada antes da eleições, ainda em fevereiro, quando Temer e seus aliados vão tentar mais uma vez aprovar a reforma da Previdência. O desafio de mobilizar grandes massas na escala necessária para barrar este ataque não será simples.

    Aqueles que sonham com este cenário estão se deixando iludir pelo desejo. O desejo é o alimento do pensamento mágico. O pensamento mágico é uma tentativa de racionalização ilusória que oferece como recompensa uma sensação de controle ou segurança sobre um futuro incerto.

    Claro que estou entre aqueles que, mesmo não votando em Lula, defendo o direito democrático de ele poder participar da eleição. Mas ele será, provavelmente, condenado. Muito difícil a perspectiva de uma mobilização popular que faça tremer o Tribunal de Porto Alegre.

    Em algum momento, mesmo Lula fazendo campanha até o último momento, o PT deverá substituir Lula por outro candidato, procurando a transferência de votos.

    Bolsonaro terá dificuldades quase intransponíveis para chegar a um segundo turno. Seu crescimento ao longo dos últimos dois anos tem um teto, porque as posições que lhe deram visibilidade são neofascistas, e a audiência para estas propostas ainda é minoritária. O mais provável é que Bolsonaro já tenha chegado a este teto, e durante a campanha deverá perder influência. Os pesos pesados do PIB já estão articulados em torno de Alckmim. Subestimar a capacidade da Avenida Paulista de jogar pesado seria pura miopia. Neofascistas podem ser úteis para a classe dominante, mas somente em uma situação muito mais aguda na luta de classes. Disto não decorre que uma da tarefas centrais da esquerda não deva ser combatê-lo, desmascarar a demagogia de suas propostas, e lutar para que lhe seja imposta uma derrota esmagadora.

  • O paradoxo de 2017 e as principais tendências para 2018

    Por: Valerio Arcary, colunista do Esquerda Online

    1. Subestimar os inimigos é um caminho certo para a derrota. O paradoxo de 2017 é que o governo Temer tem muito baixa popularidade, mas esta rejeição nas pesquisas não autoriza a conclusão de que é um governo fraco. Paradoxos são aquelas contradições que nos parecem desconcertantes. Porque são contraintuitivas. Algo é contraintuitivo quando desafia uma ideia simples e até racional que, portanto, parece verdadeira. Nossas mentes preferem um viés lógico que favorece o reconhecimento de pensamentos, aparentemente, coerentes.

    Como é possível dizer que um governo que não tem sustentação na maioria da população não é fraco? Fraco ou forte são adjetivações. Adjetivar significa atribuir uma função, ou seja, qualificar. Merece ser considerado fraco um governo que conseguiu aprovar, em tão pouco tempo, tantas contrarreformas? É verdade que não conseguiu aprovar ainda a “mãe” de todas as contrarreformas, que é a da Previdência. Mas se Temer chega ao fim de 2017, relativamente, fragilizado, depois do desgaste das duas votações que negaram autorização para a sua investigação pedidas por Janot, em nome do Ministério Público, ainda está de pé, e a hipótese mais provável continua sendo, infelizmente, que possa terminar o mandato até o fim de 2018.

    Tem o apoio da maioria da burguesia, do Judiciário e do Congresso, das Forças Armadas, da maioria da mídia, e se beneficia das mudanças que aconteceram com a nomeação de Raquel Dodge no MPF e de Segovia na Polícia Federal. Está protegido pelo apoio dos governos dos países centrais, e dos governos do Mercosul. A situação do governo Temer é excepcional: resultou do golpe do impeachment, não foi eleito e, tão ou mais importante, não pretende reeleição. O bloco político-social que garantiu a derrubada de Dilma Rousseff pode, portanto, apoiar as contrarreformas reacionárias antipopulares e, ao mesmo tempo, se organizar em torno de candidaturas que não se apresentarão como herdeiras do governo Temer para garantir uma chance de alcançar o segundo turno em 2018.

    2. No entanto, o governo Temer sofreu, durante o ano, uma séria crise, e poderia, talvez, ter sido derrubado. Circunstâncias inusitadas, durante algumas semanas em maio, abriram esta possibilidade. Não somente pelo patamar de resistência ativa alcançado pela greve geral de 28 de abril e a marcha de 24 de maio, mas, também, pela denúncia e delação premiada da JBS, que foi aceita pelo Ministério Público liderado por Janot.

    Essa rara combinação, entre outros fatores, como a dosagem brutal de ajuste fiscal pilotado por Meirelles e, em especial, a iniciativa da Lava Jato, dividiu a classe dominante e deixou o governo Temer semiparalizado, impedindo a aprovação até agora da Reforma da Previdência. Tremeu, mas o que é certo é que não caiu. Não se inverteu a situação defensiva, desfavorável, aberta entre 2015 e 2016 e que culminou no impeachment. As campanhas pelo Fora Temer e  Diretas Já não conseguiram alcançar uma dimensão suficiente para derrubá-lo. No segundo semestre vivemos, portanto, uma conjuntura pior do que aquela de março e junho.

    3. Uma questão de método se coloca quando pensamos as perspectivas para 2018. Prognósticos para o futuro são como os contrafactuais para o passado. É necessário medir, ponderar, ajustar, calibrar a força de pressão de distintos fatores que exercem pressões de primeiro, segundo, terceiro graus. Prognósticos sérios devem ser feitos apoiados na identificação de tendências e contratendências, ou seja, o cálculo de probabilidades. Mantida a mesma relação social de forças, as possibilidades estarão limitadas a um estreito cenário. Acontece que a relação social de forças pode mudar. Provavelmente, oscilará.

    O Brasil não é um país escandinavo, e não há lugar para o tédio. Temos que considerar nas previsões o impacto de fatos “gigantescos” que estão por vir. Impossível, neste momento, ter a percepção de qual será a reação popular a uma provável condenação de Lula em janeiro no segundo julgamento. Não sabemos, também, como a delação de Palocci comprometendo Lula poderá repercutir.

    Não sabemos se a capacidade de reação sindical e popular à aprovação da Reforma da Previdência será maior do que nesta véspera de Natal. Ou os efeitos de uma evolução da investigação contra Aécio Neves. As margens de erro, neste momento, são grandes ou pequenas? São imensas. A variável tempo não pode ser ignorada. As margens de incerteza são grandes demais. Marxismo deve se inspirar em boa ciência, ou seja, prudência. E o comportamento social das classes tem muito de imprevisível. Regularidades existem, mas irregularidades, também.

    4. Qual será o cenário econômico-social mais provável?
    (a) Todos os indicadores disponíveis sugerem a continuidade de uma tímida recuperação econômica, que não deve ter ido além de 1% do PIB em 2017, depois de quatro anos que somaram um retrocesso do PIB superior a 8%;

    (b) Estamos em um contexto externo de crescimento lento da economia mundial, tanto nos EUA, na Europa, como no Japão, que se reflete nos países semi-periféricos, além de revalorização dos preços das commodities;

    (c) Entre as principais variáveis merecem destaque a intensa queda da inflação, em um ano, de mais 10% para menos de 3%, a queda da taxa Selic de 13% para 7%, o saldo positivo de US$60 bilhões na balança comercial que, somado ao equilíbrio no balanço de pagamentos, manteve as reservas em um patamar confortável de US$380 bi, ou seja, um ano e meio de importações, o que favorece, também, uma estabilidade do câmbio;

    (d) No acumulado em doze meses, a projeção de IED, ou investimento externo está sendo algo acima de US$ 84,5 bilhões (4,4% do PIB);

    (e) A redução lenta do desemprego deve prosseguir; após dois anos seguidos de retração, o consumo das famílias teve alta de 1,2% no terceiro trimestre deste ano; a queda da taxa de juros ainda não se traduziu em redução dos spreads bancários. Atualmente, 45% dos depósitos à vista, 36% dos depósitos a prazo e 30% dos de poupança são recolhidos dos bancos na forma de restrições compulsórias para manter reservas bancárias, fiscalizadas pelo BC, mas esta política será flexibilizada para incentivar o crédito, o que poderá impactar.

    5. Em que medida esta evolução econômica poderá se traduzir em sensação social de alívio durante o próximo ano é ainda imprevisível. São necessários pelo menos vários meses, talvez, até mais de um semestre de consistente melhoria no quadro econômico para que a percepção de mal-estar se transforme em sensação de bem-estar. Mas pode acontecer, e neste caso favorecerá uma candidatura de centro-direita. Também é a hipótese mais provável que Lula não possa ser candidato. Porém, todos os dados disponíveis indicam uma tendência de queda na taxa de rejeição de Lula.

    O padrão histórico de capacidade de transferência de votos no Brasil é alto. Já aconteceu incontáveis vezes desde 1986. Sarney ajudou a eleger Quércia, que elegeu Fleury. FHC elegeu Covas, que elegeu Alckmin. Brizola elegeu Alencar e Garotinho. Lula elegeu Dilma Rousseff e Haddad. O que sinaliza que o mais provável é a disputa de uma candidatura do PT por uma vaga no segundo turno de 2018. Ainda que Alckmim esteja melhor colocado como a candidatura para onde deve convergir a maioria dos pesos pesados do PIB, a investigação de corrupção nas grandes obras em São Paulo, após a denúncia no acordo leniência da construtora Camargo Corrêa, o debilita. Não fosse o bastante, o arco de alianças políticas em torno de Temer e Maia, MDB/DEM/Centrão ainda está articulando uma possível candidatura (Meirelles é improvável, mas pode ser ACM Neto, por exemplo) para, entre outros objetivos, blindar a ação futura da Lava Jato. A pressão do PIB por uma candidatura única será grande, mas parece difícil. Em resumo: não sabemos sequer quem serão os candidatos. Tentar projetar como estará o país algumas semanas antes das eleições, portanto, é, a rigor, impossível.

    Foto: EBC

  • Sem Lenin e as teses de abril teria o bolchevismo vencido em Outubro?

    A história esclarece duas grandes “crises internas” do bolchevismo no ano da revolução. Na primeira, Lênin, que acabara de voltar da Suiça, apresenta suas “Teses de Abril” e “rearma” po­Iíticamente o seu partido para a guerra contra o regime de fe­vereiro; na segunda, no penúltimo estágio da revolução, os de­fensores e adversários da insurreição se enfrentam mutuamente no Comitê Central bolchevique (…) Em ambas as crises-, somos levados a sentir que é dos poucos membros do Comitê Central que a sorte da revolução depende: seus votos decidem se as energias das massas devem ser dissipadas e derrotadas, ou dirigidas para a vitória. O problema das massas e lideres é apresentado com toda a sua agudeza e quase que imediatamente as luzes focalizam de forma ainda mais  limitada e intensiva, um único líder, Lênin­. Tanto em abril como em outubro Lenin fica quase que sozinho, incompreendido e renegado pelos seus discípulos. Membros do Comitê Central quase queimam a carta na qual ele insiste em que se preparem para a insurreição, e Lênin resolve “travar a guerra” contra eles e, se necessário fôr, recorrer às fileiras, de­sobedecendo a disciplina partidária. “Lenin não confiava no Co­mite Central – sem Lenin.”, comenta Trotski, e “Lênin não estava muito errado nessa desconfiança”(…) Trotski enfrenta aqui o problema clássico da personalidade na história e, talvez, tenha menos êxito. [1](grifo nosso)

                                                                                                                       Isaac Deutscher

    Por Valério Arcary, Colunista do Esquerda Online. Publicado originalmente na Revista Socialismo e Liberdade da Fundação Lauro Campos  

    A pergunta no título deste artigo é retórica. Não é possível respondê-la. Contrafactuais são exercícios legítimos, porém, hipotéticos, que só podem ter o mérito de sugerir um problema. Neste caso, o problema não é simples: e se Lênin não tivesse atravessado a Alemanha no trem blindado, não tivesse ganho o partido bolchevique para as teses de Abril, e depois, para a iminência da insurreição, Outubro teria ocorrido? [2] A resposta não é simples, e nunca poderá ser irrefutável.

    A questão é pertubadora porque, nos primeiros meses depois de fevereiro, a direção bolchevique, no interior da Rússia, cedendo às pressões de sua própria base social, embriagada, como o conjunto da classe, pela vitória fulminante de fevereiro, defendia uma linha de apoio crítico ao governo provisório. Especulava-se na direção do bolchevismo até com uma unificação com o menchevismo, já que o horizonte de uma República Democrática ainda parecia um limite programático comum. [3]

    Não foram poucas as dificuldades de Lênin para conseguir a aprovação das Teses de Abril, um giro estratégico. Também foi muito complexo conseguir aprovar, por maioria, a linha de preparação da insurreição. Por isso o papel de Lênin, só pode ser compreendido, apropriadamente, na condição de líder dos milhares de líderes, que compunham a organização bolchevique. Ou, em outras palavras, pelo lugar que ocupava na direção do sujeito político coletivo. Sua autoridade teria sido, de fato, insubstituível, como sugere Trotsky? Trotsky se coloca a questão e responde que não. A sugestão de Deutscher é que Trotsky, talvez porque só, tardiamente, tenha defendido a união da organização interdistritos com o partido bolchevique, tenha se inclinado por uma hípervalorização do lugar individual de Lenin no desenlace vitorioso de Outubro [4].

    Por outro lado, é bem conhecido que o giro tardio de Trotsky para a unificação com Lenin, fez dele, até ao final de sua vida, um defensor entusiasmado do bolchevismo como modelo de partido. Deixou como herança uma posição “superleninista”. Acontece que uma supervalorização da autoridade de Lenin, necessariamente, diminui a ideia da eficácia do papel do partido como organização coletiva, portanto, uma contradição lógica. O que não impediu Trotsky, surpreendentemente, de escrever variadas vezes nos seguintes termos:                          

    A ditadura do proletariado se deduzida a partir de toda a situação. Além disso, era necessário instaurá-la, e isso não teria sido possível sem o partido. E ele só poderia cumprir sua missão se a compreendesse. Para isso era necessário Lenin. Antes de sua chegada a Petrogrado, nenhum dos líderes bolcheviques se atreveu a fazer o diagnóstico da revolução. Pelo curso dos acontecimentos a direção Kamenev-Stalin foi empurrada para a direita, para a posição dos social-patriotas: a revolução não deixou espaço para uma posição intermediária entre Lenin e os mencheviques. A luta intestina dentro do partido bolchevique era inevitável. A chegada de Lenin só acelerou o processo. Sua ascendência pessoal reduziu as proporções da crise. No entanto, alguém pode afirmar com segurança que, sem ele o partido teria encontrado o seu caminho? Nós não ousaríamos dizê-lo. O fator decisivo nesses casos é o tempo, e quando a hora passou é muito difícil ter uma visão retrospectiva do relógio da história. De qualquer forma, o materialismo dialético não tem nada em comum com o fatalismo. Sem Lenin, a crise que inevitavelmente tinha que causar esta liderança oportunista, tinha tomado um caráter excepcionalmente acentuado e prolongado. Claro, as condições da guerra e da revolução não deixavam para o partido muita margem de tempo para cumprir sua missão. Portanto, poderia muito bem acontecer que o partido, desorientado e dividido, perdesse por muitos anos a ocasião revolucionária. O papel da personalidade alcança aqui, diante de nós, proporções verdadeiramente gigantescas. [5]

    O papel do indivíduo na História, é um tema particularmente espinhoso para os marxistas. Por muitas razões. A mais importante é que uma das monstruosidades ideológicas do século XX foi o culto abjeto à personalidade dos líderes. Em nome do marxismo se praticou uma liturgia sinistra da política monolítica, um método de exercício do poder próprio de déspotas asiáticos, elevado a política de Estado pelo estalinismo, e feita em nome do socialismo. Depois dessa tragédia haveria que guardar mil reservas contra estes excessos. Inclusive no Brasil, como se sabe, primeiro com o varguismo e, mais recentemente, com o lulismo

    O argumento polêmico mais forte de Trotsky é que a oportunidade poderia ter sido perdida, porque os prazos seriam irreversíveis e, sem Lênin, a crise política do bolchevismo, em sua opinião inexorável, teria se prolongado muito mais e exaurido o partido em uma luta fracional da qual não poderia sair intacto.

    Deutscher argumenta contra o Trotsky que a personalidade “excepcional”, elevada a uma grande autoridade pelos sua capacidade ou pelas circunstâncias, bloqueia o caminho para que outros, que poderiam ocupar o seu lugar pudessem cumprir a mesma tarefa, ainda que imprimissem aos acontecimentos as marcas próprias do seu estilo. É o “eclipse” dos outros que criaria a “ilusão de óptica” da personalidade insubstituível. Deutscher acrescenta que mesmo que a crise revolucionária aberta entre Fevereiro e Outubro se perdesse, outras voltariam a se abrir:

    Trotski afirma que somente o gênio de Lênin po­dia enfrentar as tarefas da Revolução Russa e insinua frequentemente que, em outros países, também, a revolução deve ter um partido como o bolchevique e um líder como Lênin, para vencer. Não há nada de novo em falar-se da extraordinária capacidade de Lenin ou da boa sorte que teve o bolchevismo encontrando um líder corno ele. Mas em nossa época, as revoluções chinesa e iugoslava não triunfaram sob partidos muito diferentes do boI­chevique de  1917, e sob líderes de menor estatura, em certos casos de muito menor estatura? Em cada caso, a tendência revolucio­nária encontrou ou criou seu órgão com o material humano de que dispunha. E se parece improvável supormos que a Revolu­ção de Outubro teria ocorrido sem Lenin, tal suposição não será tão pouco plausível quanto a inversa, de que um tijolo caindo de um telhado em Zurique em princípios de 1917, poderia ter modificado a sorte da humanidade neste século.[6](grifo nosso)

    Deutscher leva o raciocínio até ao fim, e conclui que a hipótese de Trotsky seria “espantosa em um marxista”. No entanto, não nos enganemos, não estamos diante de uma discussão “bizantina”, mas diante do lugar do último elo de uma complexa cadeia de causalidades. A questão remete tanto à personalidade política notável de Lênin, quanto sobre o lugar do sujeito político coletivo na crise revolucionária.

    Se até o partido bolchevique, talvez, o mais revolucionários da história contemporânea, teve uma fração hostil à luta pelo poder em sua máxima direção, em plena crise revolucionária, que dificuldades esperar no futuro? A pressão das classes socialmente hostis a um projeto socialista seria tão grande que esse processo tenderia a se repetir?

    A premissa de que os fatores subjetivos se neutralizam, mutuamente, e, portanto, se anulam, não tem sustentação: são justamente as diferentes margens de erro, ou seja, a qualidade do sujeito político que pode fazer a diferença, e inclinar a balança em uma ou noutra direção. Se as oportunidades históricas colocadas pela luta de classes se perderem, sempre existe a possibilidade de um impasse histórico prolongado cujos desenlaces são, a priori, indefinidos e imprevisíveis. George Novack acrescentou um argumento:

    A discrepância observada por Deutscher entre as observações de Trotsky sobre que Lênin era essencial para a vitória de outubro, e as que dizem que as leis objetivas da história são mais fortes do que as características peculiares dos protagonistas, deve ser explicada pela diferença entre o curto prazo, e a história a longo prazo (…) A qualidade da direção pode decidir qual das alternativas válidas que emergem das condições prevalecentes irão realizar-se. O fator consciente tem uma importância qualitativa distinta, ao longo de uma época histórica inteira, que a que tem em uma fase ou situação específica dentro dela (…) O tempo é um fator importante no conflito entre as classes sociais enfrentadas. A fase indeterminada em que os acontecimentos podem ser desviados em qualquer direção não dura muito tempo. A crise das relações sociais deve ser, rapidamente, resolvida de uma forma ou de outra. Nesse ponto, a atividade ou passividade de personalidades dominantes, os grupos e  partidos, pode fazer pender a balança de um lado ou do outro. O indivíduo pode intervir como um fator decisivo no processo de determinação histórica somente quando todas as outras forças em jogo estão, temporariamente, empatadas. Então, o peso extra pode servir para inclinar a balança(grifo nosso)[7]

    Não parece haver escapatória para essas perguntas. Elas oferecem uma dimensão dramática  para a importância dos fatores subjetivos. Os graus de incerteza histórica aparecem, assim, na sua dimensão mais nua e crua. Eis o problema teórico: em que medida a ação recíproca dos fatores objetivos e subjetivos, incidindo uns sobre os outros, não poderia provocar uma inversão das hierarquias de causalidades, tal como estabelecidas pelo marxismo clássico?

    Os critérios de Deutscher são estritamente deterministas. E os de Trotsky, talvez, mais flexíveis: os fatores objetivos e subjetivos são, também, mutuamente, relativos, e guardam uma sutil interação entre si. Em relação às massas operárias e camponesas, o partido bolchevique era um fator subjetivo. Mas em relação aos seus membros ele era um elemento objetivo. Em relação ao partido, a presença de Lênin era um elemento subjetivo, mas nas suas relações com os outros membros da direção, sua presença era um fator objetivo.

           

                                        

     


    [1] DEUTSCHER, Isaac, Trotsky, O Profeta Banido, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1984, p.250)

    [2] Publicadas no jornal Pravda (A Verdade) no dia 7 de abril de 1917, as “Teses de Abril” eram sucintas e impactantes, inclusive, inicialmente, para a própria direção do partido bolchevique. Eis as conclusões fundamentais: Nenhum apoio ao governo provisório! Paz, Pão, Terra! Todo Poder aos Soviets!

    [3] Três concepções programáticas estiveram em disputa entre os marxistas russos antes de 1917. Os mencheviques acreditavam que existiria coincidência social entre as tarefas da revolução e as classes. Como as tarefas da revolução eram democráticas defendiam a luta por uma revolução burguesa e por uma república liberal, sob uma direção burguesa. Pensavam que a Rússia deveria passar por uma etapa de urbanização e industrialização, antes que estivesse madura a luta pela revolução socialista. A posição de Trotsky era oposta: acreditava que a burguesia russa seria impotente diante do Czarismo. Reconhecia as tarefas democráticas da revolução, mas defendia um processo ininterrupto, em permanência, para levar a luta até ao fim pelo poder proletário. A posição de Lênin era intermediária: revolução burguesa por uma ditadura democrática dos operários e dos camponeses. As Teses de Abril aproximaram Lenin da concepção de Trotsky.

    [4] FREIRE, André. A entrada de Leon Trotsky no Partido Bolchevique: https://esquerdaonline.com.br/2017/07/17/100-anos-da-revolucao-russa-a-entrada-de-leon-trotsky-no-partido-bolchevique/ Consulta em 16/08/2017.

    [5] TROTSKY, Leon, Historia de la Revolución Rusa, Bogotá, Pluma, Tomo I, p.300

    [6] DEUTSCHER, Isaac, Trotsky, O Profeta Banido, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1984, p.255

    [7] NOVACK, George, Para comprender la Historia, Mexico, Fontamara, 1989, p.80.

  • Os tribunais não são imparciais

    Por Valério Arcary, Colunista do Esquerda Online

    Se você tem uma laranja e troca com outra pessoa que também tem uma laranja, cada um fica com uma laranja. Mas se você tem uma idéia e troca com outra pessoa que também tem uma idéia, cada um fica com duas.

    Aquele que aprende mas não pensa está perdido.

    Aquele que pensa mas não aprende está em grande perigo.

                                                                                                                 Confúcio

    2017 foi um ano horribilis. Aproxima-se do seu fim, e não deixará saudades. A ofensiva reacionária precipitada em 2016 pela mobilização que resultou no impeachment de Dilma Rousseff não foi detida. Mas isso não impede que tenha deixado algumas lições. Uma delas é que para avançar na resistência é preciso lutar pela frente única das organizações dos trabalhadores. A construção da frente única não deve silenciar as diferenças na esquerda, mas potencializar a ação comum.  

    O direito de Lula ser candidato é um direito democrático elementar irrefutável. Os tribunais não são imparciais. “Ver o que é injusto e não agir com justiça é a maior das covardias humanas”, é um pensamento atribuído a Confúcio, portanto, sabedoria milenar. A condenação provável de Lula não será um exercício de justiça neutra. Será um julgamento político que criminaliza a direção do PT.

    Defender os direitos democráticos de Lula não é o mesmo que apoiar a candidatura de Lula: trata-se de defender o direito de Lula poder ser candidato. Esta luta deve, portanto, ser assumida em frente única pela esquerda, pelos sindicatos e movimentos populares. Sendo uma luta democrática exige até mesmo a unidade de ação com setores sociais mais amplos que o campo de classe dos trabalhadores e seus aliados.

    Antonio Palocci é o Judas da direção do PT. Ensina a sabedoria popular que a faca enfiada pelas costas é aquela que tem mais chances de atingir o coração. A manchete da Veja desta semana contra Lula e o PT, e a decisão do 4ºTRF de Porto Alegre, às vésperas do Natal, de marcar o julgamento de segunda instância para 24 de janeiro, são gatilhos para impedir que Lula possa ser candidato.

    Análises deste processo não podem ser exercícios de desejo. Na esquerda radical há muitos milhares de honestos militantes que acumularam uma compreensível desconfiança, repulsa e até mesmo desprezo pelos líderes do PT e Lula. Acontece que, a rigor, é preciso ter a lucidez de concluir que, nesta conjuntura, qualquer um de nós poderá ser vítima de uma farsa jurídica semelhante que atinge Lula, e a qualquer momento. Nossos anseios, nossas vontades não têm a menor importância quando se trata de analisar a conjuntura. Deixar que elas nos dificultem de ver a realidade é infértil, improdutivo, é puro auto-engano.Todos nós temos preferências, temos as nossas afinidades e, também, as nossas aversões. A luta política é sempre, em última análise, uma luta pelo poder. Mas a luta tem diferentes dimensões. Há lugar para paixão e para o entusiasmo, mas não na hora da análise.

    A análise deve ser fria e rigorosa estudando a realidade que nos cerca a partir das informações disponíveis. Se for contaminada pelos nossos desejos, as distorções são inevitáveis. 

    Considero Antonio Palocci um crápula que está alguns degraus abaixo dos répteis na hierarquia da cadeia alimentar. Mas não tenho a opinião que Lula ou a direção do PT sejam inocentes. Ao contrário, tenho certeza que são culpados. Na verdade, são culpados de crimes políticos muito mais graves do que aqueles que estão sendo acusados pelos procuradores de Curitiba.

    As acusações sobre o triplex do Guarujá ou sobre o sítio de Atibaia podem servir para inflamar a consciência de reacionários, mas estão longe de ser o mais importante. São ridículas, insustentáveis, e não foram provadas. Por isso, este julgamento é diferente do julgamento de Sergio Cabral, Eduardo Cunha, ou tantos outros na Lava Jato. Não compreender esta diferença fundamental e, portanto, acreditar que a Lava Jato seria uma operação policial honesta, idônea, virtuosa revela somente ingenuidade política. O que está em disputa não é o julgamento da inocência de Lula. O que se decidirá em Porto Alegre é o destino político de Lula. A classe dominante quer  se desembaraçar de Lula em um tribunal, porque teme o resultado das eleições. O pacto social informal liderado pelos governos do PT ficou muito caro, e é incompatível com o ajuste fiscal. Para atrair investimento estrangeiro, e recuperar taxas de crescimento mais elevadas, os custos produtivos no Brasil precisam ser reduzidos. A carga fiscal precisa cair, em proporção do PIB, para menos de 25%.

    O mais importante balanço para a esquerda radical é que a direção do PT, Dilma e, sobretudo, Lula, ao se transformarem em gestores do Estado, portanto, agentes indiretos dos interesses do capital e, por isso, financiados pelas grandes empresas, pelo menos desde 1994, geraram uma imensa desconfiança nas gerações mais novas. A ideia socialista mais simples é a defesa que os trabalhadores podem e devem governar. Ela foi diminuída, até desqualificada pelos governos do PT. Mancharam uma bandeira que não deveria nunca ter estado em suas mãos. O PT não tem, portanto, o direito de reivindicar que Lula deva ser o candidato que unifica a esquerda e, menos ainda. denunciar as outras candidaturas, em especial a do PSOL, como divisionistas. 

    Mas isso não deve nos impedir de estar ao lado da defesa dos direitos democráticos de Lula. Aqueles na esquerda radical que não compreenderem a gravidade do que está em disputa demonstram uma miopia política imperdoável, talvez, incorrigível.

    Sempre existirão pressões oportunistas e sectárias na esquerda. As oportunistas nascem da pressão que vem da influência que Lula ainda mantém em setores muito importantes da classe trabalhadora que não completaram a experiência, mesmo depois de mais de uma década de governos do PT. As sectárias nascem da impaciência dos setores mais combativos de vanguarda que estão irritados com a lentidão histórica do fim do lulismo. 

    2017 se aproxima do seu fim, e não deixará saudades.

  • De punhos fechados, mas com as mãos nos bolsos?

    Por Valério Arcary, Colunista do Esquerda Online

    Há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida.

                                                                                              Sabedoria popular chinesa

    Agora era hora de lutar. Uma oportunidade está sendo perdida. Os líderes sindicais anunciaram uma suspensão do dia nacional de greve da próxima terça dia 05/12, sem sequer indicar se têm um plano alternativo. Nada. Este tipo de cegueira parece inexplicável. Mas não é. Mais que um erro de cálculo, estamos diante de uma deserção. Deserção é o abandono da luta. Mais que diante de um recuo das Centrais Sindicais, à excepção da CSP/Conlutas, da CTB e das Intersindicais, estamos diante de uma renúncia, uma demissão. Trata-se de uma decisão, simplesmente, desastrosa.

    Foi tão inesperada e desconcertante que está produzindo espanto e assombro generalizado. Milhares de ativistas sindicais e populares das mais variadas correntes estão trocando mensagens indignadas neste momento. E eles têm razão para estarem zangados. Zangados, em especial com a direção da CUT. Afinal, ela não somente é a maior Central Sindical, como ainda é percebida, por uma parcela mais combativa dos ativistas nas empresas, como um instrumento autêntico de luta. Que Paulinho da Força Sindical, a UGT, A CSB e a Nova Central estejam dispostos, como sempre, a abrir negociações com o governo para garantir, por exemplo, uma compensação pelo fim do imposto sindical não surpreende. Mas que a CUT tenha cedido às pressões da Força Sindical está sendo uma decepção. Ensina a sabedoria popular: “Nunca foi um bom amigo quem por pouco quebrou a amizade”. De fato a posição da CUT é grave, embora, a rigor, tampouco, seja um espanto.

    Afinal, recordemos que o início do segundo mandato de Dilma Rousseff, com a indicação de Joaquim Levy por Trabuco do Bradesco, foi marcado pelo anúncio de um reforma da Previdência. Incluindo, inclusive a cláusula da idade mínima, defendida, recentemente, por Nelson Barbosa, ex-ministro do Planejamento dos governos liderados pelo PT. 

    Toda luta política e social tem o seu tempo. Há horas em que é preciso avançar e arriscar. Outras em que é necessário manter posições e ganhar tempo. E há, também, outras em que recuar de forma organizada é mais prudente do que medir forças. Por exemplo, quando o perigo de uma derrota maior se desenha como muito provável.

    Mas agora não era hora de recuar. A decisão do governo Temer, sob pressão do “mercado”, ou seja, dos capitalistas, de postergar a votação da reforma da Previdência até ter a certeza da sua aprovação não justifica a suspensão. O governo sabe que precisa de tempo. No entanto, o governo sabe, também, que tem pouco tempo, porque o Congresso entrará em recesso. E a votação da reforma da Previdência em ano eleitoral será ainda mais complicada. Temer corre para mostrar serviço e fazer a “grande maldade”, reconhecidamente impopular, o mais rápido possível. Não foi por outra razão que lançou uma campanha de publicidade para tentar reduzir o repúdio de massas à introdução da idade mínima como critério. Por isso mesmo era necessário dar uma demonstração de força do movimento sindical e dos movimentos populares. Para pelo menos tentar dividir o campo do inimigo.

    A suspensão do dia nacional de greve é uma aposta na hipótese de que as dificuldades do governo em disciplinar a sua base serão intransponíveis. Trata-se de um cálculo muito duvidoso, perigosíssimo, irresponsável. Quem não sabe contra quem luta não pode vencer. A pressão em uníssono da burguesia sobre o Congresso Nacional não pode ser subestimada.

    Admitamos que era difícil saber a dimensão do dia de Greve Nacional da próxima terça. Prognósticos para o futuro são como os contrafactuais para o passado. Marxismo se inspira em boa ciência. É necessário medir, ponderar, ajustar, calibrar a força de pressão de distintos fatores que exercem pressões de primeiro, segundo, terceiro grau. Como sempre, estávamos diante de incertezas. Uma questão de método nos obriga, pela necessidade de rigor, a reconhecer que este prognóstico deve ser condicionado pelo cálculo de probalidades. Mas podemos afirmar que não se tratava de uma aventura. Seria um grande dia nacional de luta, na pior das hipóteses. A principal razão é que a maioria da população compreendeu que a reforma da Previdência será uma destruição de direitos. Grandes categorias, onde a organização é maior, já tinham decidido parar. Os petroleiros, por exemplo, estão em campanha salarial. A resistência ao governo só tinha a ganhar com a Greve Nacional do dia 05/12. Ela poderia até ser inferior ao dia 28 de abril (por suposto, todos desejávamos que fosse tão grande, ou maior), e ainda assim seria positiva, porque exerceria uma pressão ameaçadora do que poderia vir em seguida.

    Estamos, infelizmente, em uma situação defensiva, por razões que remetem à evolução desfavorável da relação social de forças, mas se há uma batalha política e ideológica que o governo Temer e a classe dominante não ganharam nos últimos anos foi a da suposta necessidade inadiável da reforma da Previdência Social. Não só não convenceram os trabalhadores, a classe operária, o semi-proletariado, as massas populares, mas até uma parcela importante das camadas médias não foi convencida.

    Não é difícil compreender que a suspensão da Greve Nacional da próxima terça dia 05/12 facilita a articulação em favor da reforma da Previdência. Trata-se do momento culminante do ajuste fiscal, o ataque mais cruel contra os direitos sociais. Acontece que o calendário de final de ano encurrala o governo a exercer a máxima pressão. Há poucas semanas, uma simples declaração de Temer transferindo para a Câmara de Deputados a responsabilidade pela possível não aprovação da reforma antes das eleições de 2018 fez o dólar subir e a Bolsa cair. A relação entre os destinos privados e os dramas históricos em que as grandes massas estão envolvidas só se revela em situações excepcionais. Esse processo, necessariamente, lento, não possui atalhos, é o caminho de uma experiência que se constrói na luta, e através da luta. Agora era hora de lutar. E os líderes chamaram o recuo. Mais que um erro de cálculo, estamos diante de uma deserção.

    Os líderes sindicais dizem que estão de punhos fechados. Hoje colocaram as mãos nos bolsos.

  • Sobre ódios e medos

    Por Valério Arcary, Colunista Do Esquerda Online

    O medo cala a boca dos inocentes e faz prevalecer a verdade dos culpados.

                                                                                                                              Karl Marx         

    Me perguntam, com alguma frequência, sobre o lugar do ódio na luta contra a opressão e a exploração. A sociedade em que vivemos está atravessada pelo conflito de interesses. Não há solução indolor para nenhum problema político-social. Não há soluções técnicas, neutras e indolores. Para que a maioria social possa ser beneficiada, uma minoria privilegiada precisa ser prejudicada. Aonde prevalece a injustiça, engrandece o ódio. E só o medo silencia o ódio.

    Os ódios sociais são incompreensíveis quando não os relacionamos com os medos sociais. Prevalece nas camadas médias da sociedade a aspiração pela paz, na mesma proporção em que os antagonismos sociais ficam mais duros. O desejo de paz corresponde à necessidade de preservação da ordem. Não é por outra razão que a extrema direita exige a criminalização das lutas operárias e populares.

    São poderosas as pressões de inércia cultural e ideológica que aprisionam as amplas massas trabalhadoras, urbanas ou rurais, na apatia ou na submissão. Mas em situações revolucionárias precisam medir forças com pressões ainda mais fortes. Não há força social mais poderosa na história do que a revolta popular, quando se organiza e mobiliza.

    O medo de que a mudança não chegue nunca – que, entre os trabalhadores, é desencorajado pelo temor às represálias – precisa encarar medos ainda maiores: o desespero das classes proprietárias de perder tudo. No calor de processos revolucionários a descrença dos trabalhadores em suas próprias forças, a incredulidade em seus sonhos igualitaristas, foram superadas pela esperança de liberdade, um sentimento moral e um anseio político, mais elevado que a mesquinhez reacionária e a avareza burguesa.

    A dimensão utópica da ideia socialista – a promessa de uma sociedade sem classes, ou seja, a aposta na liberdade humana – teve e tem seu lugar na exaltação ideológica. Que o vocabulário desta exaltação tenha sido, tntas vezes, místico é compreensível. Os sonhos alimentam a luta por um mundo melhor. Igualdade social e liberdade humana permanecem sendo as aspirações civilizatórias mais elevadas da época que nos tocou viver.

    Na luta contra a exploração as massas populares, mais de uma vez, deixaram-se seduzir por discursos milenaristas – a escatologia de futurismos que preveem um esgotamento “natural” da ordem do mundo – ou messiânicos – a redenção de uma vida de sofrimento por um agente salvador -, que ressoam suas aspirações de justiça. São ilusões de que o mundo poderia mudar para melhor sem luta, ou sem maiores riscos. A forma mística da linguagem, porém, não deveria desviar nossa atenção.

    A vida material dos trabalhadores ao longo da história remete à imagem do vale de lágrimas. Quem vive sob a exploração precisa acreditar que é possível transformar o mundo ou, pelo menos, que o seu sacrifício tem um sentido. Esta expectativa moral de que deve haver recompensa e punição corresponde à sede de justiça. Acreditar que será em outra vida ajuda a continuar a luta nesta vida, não o contrário.

    A esperança em uma mudança iminente, ou a fé na força de uma liderança salvadora responde a uma intensa necessidade subjetiva – os céticos asseverariam um consolo -, mas também a uma experiência. Os que vivem do trabalho sempre foram a maioria. Os explorados sabem que sempre serão a maioria, enquanto houver exploração. É dessa experiência que se renova a esperança de que podem mudar suas vidas.

    Todas as classes dominantes foram hostis a doutrinas utópicas que previam a subversão da ordem, e combateram sem hesitação movimentos de massas que abraçaram o prognóstico – ou a profecia – de um iminente desmoronamento do poder constituído. Acontece que o povo expressa-se no vocabulário que tem disponível. E crenças revolucionárias, quando conquistam as vozes das ruas, podem assumir uma dicção religiosa.

    São os despossuídos, os visionários, e os radicais políticos que se comovem com a perspectiva de que é possível mudar o mundo. Os reacionários de todos os tempos sempre insistiram em desqualificar as utopias como teorias e projetos desvairados inspirados por apaixonados e extravagantes.

    Mas o nome deles é revolucionários.

  • O caminho para chegar às massas passa pela vanguarda

    Por Valério Arcary, Colunista do Esquerda Online

    Dentro da consciência da classe trabalhadora e das massas exploradas, há uma luta entre concepções falsas e verdadeiras. Por exemplo, um trabalhador socialdemocrata que odeia o fascismo o considera seu pior inimigo e quer trabalhar a unidade para lutar contra ele, mas, ao mesmo tempo, confia em sua liderança burocrática e reformista. Quanto ao fascismo, tem uma consciência verdadeira; em relação à sua direção e, consequentemente, ao modo de lutar contra o inimigo, falsa. Aqui, como em todo conhecimento, o papel da prática é decisivo(…) Somente a prática pode permitir que ele vença o falso e afirme o verdadeiro, alcançar um novo nível de consciência, que terá novas contradições sempre superáveis ​​através de novas ações [1].

     

                                                                                                                      Nahuel Moreno

    Algumas linhas sobre o tema da vanguarda, tão importante, mas tão pouco estudado. A classe trabalhadora e as outras classes populares geram, nas lutas sociais, um setor mais ativo, mais corajoso, mais disposto ao sacrifício, mais altruísta, em resumo, mais avançado. Em um país com as dimensões do Brasil, mesmo no contexto da atual situação defensiva, são dezenas de milhares de ativistas. Nos anos oitenta teríamos que considerar que eram na escala de centenas de milhares.

    Há momentos raros em que a nova vanguarda não se sente identificada ou representada pela direção majoritária pré-existente. Nessas circunstâncias, abre-se um período de disputa aberta pela direção da classe, de “rebelião de base”, de reorganização sindical e política. Um período assim só é possível depois de esgotada uma experiência histórica, e exige, além de argumentos, a força inapelável de grandes acontecimentos.

    Estamos em um desses momentos raros.

    Eles são as lideranças locais que estão dentro das fábricas, nas empresas, nos movimentos populares, de mulheres, negros, LGBT’s, nas escolas e faculdades. Eles conquistam autoridade política e moral, em primeiro lugar, pelo seu despojamento. Também pela capacidade de traduzir em idéias ou em ações as aspirações da maioria. Sempre foi nesta camada mais enérgica que se selecionaram as lideranças das organizações independentes da burguesia, sejam sindicais, populares ou políticas.

    A vanguarda se forma participando das lutas, não há outro caminho. Uma parte da vanguarda é quebrada pelas sequelas da repressão, ou pelas consequências desmoralizadoras das derrotas, outra será cooptada pela ação corrupta.

    A burguesia, como as outras classes proprietárias da história, descobriu outros caminhos para resolver o problema da formação dos seus quadros dirigentes. Quando não os encontram, pela tradição de comando ou pela seleção de talentos, em suas fileiras, vão buscá-los na inteligência “disponível”, e remunerá-los bem.

    O proletariado e as classes populares, não podem depender, evidentemente, desse recurso. Embora a força de atração de uma classe explorada se expresse, também, na capacidade de atrair para a sua causa os quadros mais sensíveis e abnegados que rompem, ideologicamente, com sua classe de origem. Os trabalhadores têm que formar as suas lideranças, arduamente, nas lutas. Em condições de estabilidade política, ou seja, de defensiva,  os sujeitos sociais oprimidos e explorados não geram uma grande vanguarda ativista. Quando muito, surge uma pequena vanguarda, muito diminuta, de suas fileiras.

    Acontece que as relações da massa dos trabalhadores com sua vanguarda, e vice-versa, desta com a massa, não são simples. Nesta complexa relação reside um dos problemas da construção das organizações de esquerda, da consciência de classe, da subjetividade, da maior confiança dos sujeitos sociais em si mesmos, e da maior ou menor fé na vitória de suas lutas. A vanguarda das lutas, as lideranças enraizadas nas fábricas, escolas, empresas, bairros ou faculdades só se formam nos processos de mobilização e podem ou não avançar até à organização sindical e política permanente. Freqüentemente, uma maioria desta vanguarda retrocede ao final da luta, em maior medida ainda, se esta for derrotada. A vanguarda é um fenômeno, no sentido de que é um aspecto subjetivo da realidade em movimento, e pode tanto se organizar em uma superestrutura da classe já existente, quanto pode voltar a se integrar na massa e abandonar a luta ativa ao final do combate.

    Na medida em que o impulso da luta for maior e mais consistente, a vanguarda se sentirá estimulada a aprender as lições das lutas anteriores. Procurará, então, se educar politicamente, e fará mais relações entre os fins e os meios, isto é, entre estratégia e tática, escolhendo a adesão a um partido ou sindicato, como via para a sua própria construção como liderança permanente. Entretanto, nesse processo, a vanguarda vive um conflito que pode se resolver, esquematicamente de três maneiras. O conflito é a luta, em um certo sentido, contra si mesma. Elevar-se acima das angústias das massas que, como sabemos, hesitam, vacilam e retrocedem durante a luta, para depois voltar a avançar, e depois voltar a retroceder, não é fácil.

    Não é incomum que a vanguarda se exaspere diante destas hesitações das massas, e desenvolva um sentimento de frustração e decepção. Esse sentimento, potencialmente, conduz a três atitudes diferentes: uma parte da vanguarda fica tão desmoralizada com as fragilidades das massas que abandona o combate, desiste de tudo, e pode guardar um ressentimento maior contra sua própria base social do que contra as classes socialmente hostis e suas lideranças; outra parte da vanguarda, amargurada com o recuo e abandono das massas, se separa destas, e se inclina por ações isoladas e exemplares, para decidir sozinha a sorte do combate; uma terceira camada, escolhe o caminho de avançar junto com a massa e recuar, também, junto com ela, para ajudá-la a aprender as lições da luta, e garantir melhores condições de organização nos combates que se colocarão no futuro.

    Se esta vanguarda encontra, durante a luta, um ponto de apoio para a sua formação como liderança de massas, uma boa parte dela pode se organizar permanentemente, se educar, e se construir como direção, para, na luta seguinte, combater em melhores condições. Esse ponto de apoio é a primeira razão de existência de um partido de classe. Ele deve ser esse ponto de apoio. A condições em que é possível lutar abertamente pelo poder são excepcionais. Elas só se abrem em uma crise revolucionária. A maior parte do tempo lutamos em situações políticas muito mais adversas. Uma organização socialista deve ser uma fortaleza para a educação dos e das melhores ativistas de vanguarda.

    Porque senão, a maior parte das lideranças “naturais” se perderão, e será necessário um novo ciclo de lutas, para que se possa gestar uma nova geração de ativistas. Este processo de seleção “selvagem” de lideranças, em que uma incrível quantidade de energias se desperdiçam, tem sido uma das maiores dificuldades da construção de uma subjetividade do proletariado.

    Um outro aspecto da questão, é a relação da vanguarda “emergente”, com as organizações sindicais e políticas pré-existentes que expressam a tradição anterior de organização das classes populares. Sendo elas muitas, e estando em luta umas contra as outras para conquistar maior influência, é previsível que a vanguarda, em um primeiro momento, se enerve contra todas elas. Simplesmente, por lhe ser difícil compreender as  ríspidas rivalidades.

    O áspero sectarismo que prevalece cumpre um papel nefasto, porque, infelizmente, não se debatem somente as ideias, mas também se desmoralizam os militantes das correntes adversárias. Quais são as diferenças? Por que se criticam com tanta ferocidade? O quê as separam? A vanguarda se interroga sobre a divisão da esquerda entre moderados e radicais e precisa de tempo, de uma experiência para retirar conclusões. Esta luta ideológica é inevitável, mas pode ser feita de forma respeitosa e educativa.

    Nesta luta pela organização da vanguarda o mais importante é que os marxistas revolucionários tenham a paciência para explicar o programa. Nada substitui a defesa do programa porque ele é a síntese entre a estratégia e a tática. Compreendendo a estratégia, mesmo que a situação permaneça adversa, a vanguarda não desmoralizará.

    O caminho para chegar às massas, em uma situação defensiva, passa pela vanguarda.

    [1] MORENO, Nahuel. O partido e a revolução.

    https://www.marxists.org/espanol/moreno/obras/escandaloso/10_6_nm.htm

    Consulta em 17/11/2017

     

  • Era possível a queda de Temer em maio de 2017?

    Por Valério Arcary, Colunista do Esquerda Online

    “Lenin não confiava no Comitê Central – sem Lenin.”, comenta Trotski, e “Lênin não estava muito errado nessa desconfiança” . Em cada crise, po­rém, acabou convencendo o partido a adotar sua estratégia e lan­çou-o na batalha  Sua ousadia, realismo e vontade  concentrada surgem da narrativa como os elementos decisivos do processo his­tórico, pelo menos da mesma importância que a luta espontânea de milhões de trabalhadores e soldados. Se a energia destes foi o “vapor” e o partido bolchevique o “êmbolo” da revolução, Lênin foi o condutor [1].

                                                                                                            Isaac Deutscher

    Era possível a queda de Temer depois da delação premiada dos irmãos Batista ter revelado a participação da JBS na compra do silêncio de Eduardo Cunha? A história contrafactual tem despertado um crescente interesse, porque, dentro de certos limites, ajuda a refletir sobre o que poderia ter acontecido, e tem sido um dos caminhos para iluminar em uma nova perspectiva o curso dos acontecimentos. Os contrafactuais são um exercício teórico perturbador porque podem ser construídos com alguma seriedade quando calibrados pelo cálculo de probabilidades, uma teoria matemática fascinante.

    Era possível que uma segunda greve geral em maio tivesse alcançado uma dimensão superior à de 28 abril? A combinação da ação da LavaJato, via denúncia de Rodrigo Janot, e a pressão popular, via ação das Centrais sindicais, poderia ter precipitado a renúncia de Temer? E se a direção do PT e Lula tivessem se engajado, seriamente, em uma campanha pela antecipação de eleições? Sob o impacto de um chamado corajoso à luta para derrubar Temer teria sido possível inspirar a saída às ruas de grandes massas populares?

    Em curiosa entrevista, Carlos Marun, o deputado dançarino e cantor que já tinha sido porta-voz da tropa de choque de Eduardo Cunha, admitiu ter visto uma carta de renúncia à presidência de Temer. A possibilidade, portanto, parece ter existido. Difícil dizer qual teria sido o desenlace. Parece certo que teria sido necessária uma mobilização em uma escala imensa, gigantesca. Só uma mobilização assim seria capaz de inverter a relação social de forças desfavorável que nasceu das ações reacionárias de milhões que resultaram na derrubada de Dilma em 2016. Parece, também, razoável, que para compreender a hesitação popular naquelas duas semanas, deve ter pesado a dificuldade de responder à pergunta angustiante: se Temer cair, quem deve governar?

    Não obstante, a permanência do mal estar diante da crise econômica, a divisão burguesa diante do destino de Temer, com frações da classe dominante defendendo sua renúncia, assim como a potência da greve geral sugerem que a possibilidade esteve presente e existiu. Claro que, talvez, não fosse possível. Nunca saberemos, porque a direção do PT não esteve sequer disposta a tentar [2]. O Psol do Rio de Janeiro tentou e fez um grande ato na praia de Copacabana, mas era uma tarefa muito além da sua influência. No mínimo, os que ainda confiam na direção lulista deveriam constatar de forma honesta que uma oportunidade se perdeu.

    Não há, em política e na vida, imunidade ao erro. Logo, uma menor margem de erros políticos a favor de uma classe ou de outra pode decidir o sentido da luta. Uma chance histórica pode se perder: serão, então, necessários meses, ou anos, enfim, uma nova etapa política para que uma nova oportunidade se abra outra vez. O que significa que a crise se manifesta nesta angústia de urgência de futuro, o que pode abrir o caminho para a desmoralização[3].

    Em resumo, o erro consiste em uma cegueira diante de uma correlação de forças que se altera: ou porque se exige o que não é possível ou, como aconteceu em maio deste ano, porque a principal organização vacila, hesita, treme, duvida e foge do bom combate. E o conflito se adia. Mas, sejamos rigorosos e justos, não são nunca as classes populares que erram: são as suas lideranças. Os mais jovens desconhecem, mas a ironia da história é que a direção do PT tinha sido contra a campanha pelo Fora Collor em 1992, com o argumento que seria golpista. Argumentaram que a tentativa de derrubar Collor em 1992 daria o pretexto para que a classe dominante se precipitasse em uma manobra golpista pelo impeachment de Lula que venceria, previa-se, com muita soberba, a eleição presidencial de 1994. Sua vocação para a conciliação e até capitulação vem de longe.

    O marxismo de inspiração trotskista denomina este processo como crise de direção, ou seja, identifica que a direção não esteve à altura do desafio político histórico. Nesse sentido traiu os interesses da classe que se propôs representar.

    Na verdade, uma “correspondência” perfeita entre os interesses e o estado de ânimo das classes populares, e as iniciativas de suas direções foi, historicamente, excepcional. Esse é um dos movimentos “oscilantes” da política, das organizações e partidos que procuram expressar e traduzir a defesa desses interesses.

    Existe na política, que é sempre uma urgência de resposta ao presente, um desencontro, uma não correspondência, uma dissonância, um conflito mesmo entre a forma partido e suas bases sociais. O desencontro pode ser de dupla natureza: ou porque os partidos estão aquém, ou além do desafio histórico. Porque o tempo histórico da política, que se define como estratégia, é aquele que faz a mediação entre o presente e o futuro. E esse tempo se articula como hipótese, e está sempre em aberto e sujeito a redefinições que são indispensáveis, já que no presente tudo está em movimento, em uma instabilidade que é pouco previsível. Esse é o desafio da tática.

    Quando os partidos estão aquém, deixam o presente governar o futuro e sucumbem. Quando estão além, se iludem que o futuro possa governar o presente e são marginais. Os partidos podem, portanto, sucumbir à pressão dos humores das classes. O problema das organizações reformistas é que levam sempre em consideração, em primeiro lugar, os humores da classe dominante e das camadas médias acomodadas e ficam prisioneiros da inércia. Esse estado de espírito é sempre volúvel, e o seu horizonte é curto.

    As classes se movem por impulsos que correspondem à apreensão mais imediata que possuem dos seus interesses e, nesse sentido, são prisioneiras de uma correlação de forças que imaginam muito mais estática do que é: pensar que o amanhã será como ontem é o mais perigoso dos erros, porque ignora os deslocamentos incessantes e ininterruptos do tempo. Esse tempo subjetivo da permanência é uma ilusão, ilusão que aprisiona em rotinas ou previsibilidade que são a raiz profunda dos erros políticos.

    A História sugere que existe, invariavelmente, um lapso de tempo, sempre na forma de atraso entre a emergência de uma decisão, imposta pela pressão de uma realidade objetiva que amadurece, velozmente, e a capacidade das classes de responder à altura da defesa de seus interesses. Nesse sentido a política está tendencialmente atrás da história, enquanto a teoria está à sua frente. Porque se a solução política se atrasa, a teoria se antecipa: são dimensões muito diferentes, a atividade de pensar e a de agir sobre o mundo.

    O erro político não pode deixar de ser considerado como uma categoria de investigação histórica, como defendeu Luckács em História e consciência de classe. Mas ele só pode ser apreendido na sua dimensão plena, se guardarmos as proporções que separam o tempo político do tempo histórico. Não são possíveis explicações históricas sem considerar os erros dos sujeitos políticos, em primeiro lugar, das classes dominantes que acreditaram ser possível a preservação de uma ordem sem mudanças, muito além do que se tornou tolerável para as amplas massas.

    Todas as revoluções abriram as portas da transformação política e social explorando esses erros: e se os Bourbons tivessem aceitado uma passagem para monarquia constitucional mais cedo? E se o Czarismo tivesse ampliado as margens de reformas? E se a república de Weimar tivesse acelerado as reformas sociais, então… Ensimesmadas na ilusão da ahistoricidade de seu domínio, pela arrogância que o controle do Estado por um longo período alimenta, as classes proprietárias desprezam os repetidos sinais e alertas que revelam que o amanhã não poderá ser como o ontem. Existem, portanto, limites. Quando uma classe dominante exige sacrifícios das massas para além do que essas consideram razoável, ou seja, quando as massas não confiam mais que as suas vidas poderão melhorar, ou ainda, quando se convencem de que não deixarão de continuar piorando, as diferentes percepções do tempo do que seria possível se distanciam umas das outras.

    A própria burguesia considera como seus grandes líderes, os chamados estadistas, aqueles que, retrospectivamente, marcharam contra a maré da pressão mais imediata das circunstâncias, não cederam às pressões e sendo inflexíveis, governaram para o futuro, e não para a próxima eleição. A luta política é, assim, uma expressão da conflitualidade dos partidos entre si e das classes entre si, mas também destas com as suas organizações. Nenhuma classe é tão homogênea neste século que possa prescindir da representação em diferentes partidos.

    É preciso acrescentar, para termos a dimensão da gravidade do lugar dos erros políticos, que uma crise de direção pode não ser resolvida de forma satisfatória. Esse é um processo que historicamente tem os mais diferentes desenlaces. Mas a luta interna durante o conflito se manifesta, de forma exacerbada, na busca de um estado maior que seja capaz de oferecer a melhor saída para a luta. Há, contudo, uma diferença entre os dois campos em combate.

    Toda classe proprietária tem uma qualidade, que poderíamos denominar como “instinto” de poder: luta, ferozmente, quando necessário, pela conservação dos privilégios que já usufrui, e é consciente que a defesa da ordem exige, como condição sine qua non, o domínio do Estado. Nas classes populares, a perspectiva do poder se revela, historicamente, um processo extraordinariamente mais difícil de construir. Em situações de estabilidade, ou seja de defensiva, as massas combatem sempre em um terreno de resistência. Só no momento da crise revolucionária, se colocam a questão do poder. Não o fazem com um plano pré-elaborado de um modelo que querem construir, mas a partir da necessidade de derrubar o governo que odeiam. Mas, também não o fazem sozinhas. Precisam de um ponto de apoio, para superar todas as diferenças que guardam no seu interior: porque chegam às conclusões políticas, da necessidade do poder, em ritmos distintos, e podem se lançar ao combate decisivo tanto cedo demais, como tarde demais.

    A maior lição deste ano complicado que foi 2017 é que direção do PT demonstrou, mais uma vez, em um momento chave, que não está à altura da representação dos interesses dos trabalhadores. Na hora de avançar, recuaram e se esconderam. Não merecem ser perdoados.


    [1] DEUTSCHER, Isaac, Trotsky, O Profeta Banido, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1984, p.250.

    [2] Há irrefutáveis evidências históricas empíricas de que existe uma relação entre o movimento da economia e da política. Mas qualquer exagero nesse terreno, cheio de armadilhas, é muito perigoso. Esse fenômeno se expressa nas flutuações dos tempos do ciclo de renovação do capital fixo, do impacto destrutivo das crises e das recessões. O desemprego em grande escala se manteve muito alto ao longo de todo o ano de 2017, culminando quatro anos de regressão como não víamos desde os anos noventa. O tempo da política é, todavia, diferenciado. É sempre, em alguma medida, o tempo breve do presente, das decisões que são iminentes, que não podem ser adiadas. Quando uma classe dominante é infértil e, portanto, parasitária, ela renuncia à perspectiva de um projeto (a recolonização na América Latina, por exemplo, praticamente, não encontrou, pelo menos ainda, uma resistência burguesa expressiva) e, nesse sentido, é estéril de futuro. Governa para o amanhã, mas não pode confessá-lo. Ela perde a lucidez de que os projetos devem inspirar a política: fica prisioneira da inércia e é incapaz de iniciativa, embriaga-se com a velocidade das decisões, e, nesse sentido, governa para preservar o passado, e não para construir o futuro, o que é o mesmo que reduzir-se à estreiteza da defesa exclusiva de seus interesses. Semeiam ventos, colherão tempestades, ensina a sabedoria popular. O paradoxo é que a inércia, a política da conservação, é a paralisia do tempo, mas a crise é a sua aceleração. Uma classe que é historicamente improdutiva, mas que permanece no poder exige de seus partidos a ilusão de um projeto que não pode ser senão uma nostalgia de passado, ou seja, uma caricatura do que já foi, ou uma romantização do que deveria ter sido. Ela vive a urgência da crise, a vertigem acelerada da mudança, e levanta os olhos para o futuro, com uma ansiedade de passado, isto é, de estabilização e ordem.

    [3] As relações da massa dos trabalhadores com sua vanguarda e vice-versa, desta com a massa não são simples. Nesta complexa relação reside um dos problemas da construção da subjetividade, da maior confiança dos sujeitos sociais em si mesmos, e da maior ou menor fé na vitória de suas lutas. A vanguarda das lutas, as lideranças enraizadas nas fábricas, escolas, empresas, bairros ou faculdades, só se formam nos processos de mobilização e podem ou não avançar até à organização sindical e política permanente. Freqüentemente, uma maioria desta vanguarda retrocede ao final da luta, em maior medida ainda, se esta for derrotada. A vanguarda é um fenômeno, no sentido de que é um aspecto subjetivo da realidade em movimento, e pode tanto se organizar em uma superestrutura da classe já existente, quanto pode voltar a se integrar na massa e abandonar a luta ativa ao final do combate. Na medida em que o impulso da luta for maior e mais consistente a vanguarda se sentirá estimulada a aprender as lições das lutas anteriores. Procurará, então, se educar politicamente, e fará mais relações entre os fins e os meios, isto é, entre estratégia e tática, escolhendo a adesão a um partido ou sindicato, como via para a sua própria construção como liderança permanente. Entretanto, nesse processo, a vanguarda vive um conflito que pode se resolver, esquematicamente, de três maneiras. O conflito é a luta, em certo sentido, contra si mesma, para elevar-se acima das angústias das massas que hesitam, vacilam e retrocedem, durante a luta, para depois voltar a avançar, e depois voltar a retroceder. Não é incomum que a vanguarda se exaspere diante destas limitações das massas, e desenvolva um sentimento de frustração e decepção em relação aos seus representados. Esse sentimento, potencialmente, conduz a três atitudes diferentes: uma parte da vanguarda fica tão desmoralizada com as limitações das massas em luta, que abandona o combate e desiste de tudo, guardando um ressentimento maior contra sua própria base social do que contra as classes socialmente hostis; outra parte da vanguarda, amargurada com o recuo e abandono das massas, se separa destas, e se inclina por ações isoladas e exemplares, para decidir sozinha a sorte do combate; uma terceira camada escolhe o caminho de avançar junto com a massa e recuar, também, junto com ela, para ajudá-la a aprender as lições da luta, e garantir melhores condições de organização nos combates que se colocarão no futuro. Se esta vanguarda encontra, durante a luta, um ponto de apoio para a sua formação como liderança de massas, uma boa parte dela pode se organizar permanentemente, se educar, e se construir como direção para, na luta seguinte, combater em melhores condições. Mas. senão, a maior parte das lideranças “naturais” se perderão, e será necessário um novo ciclo de lutas, para que se possa gestar uma nova geração de ativistas. Este processo de seleção “selvagem” de lideranças, em que uma incrível quantidade de energias se desperdiça, tem sido uma das maiores dificuldades da construção de uma subjetividade do proletariado.