Valério Arcary

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  • Bolsonaro é ou não um neofascista?

    A ave de rapina não canta. A desgraça não marca encontro. A ignorância e o vento são do maior atrevimento.
    Sabedoria popular portuguesa

    Abriu-se um debate, inclusive na esquerda, se Bolsonaro é ou não um neofascista. Este debate não é um diletantismo. Exige rigor. Quais devem ser os critérios para a classificação de uma liderança política? É preciso ser muito sério quando estudamos nossos inimigos. Quem não sabe contra quem luta não pode vencer.

    Evidentemente, a qualificação de qualquer corrente política ou liderança de ultradireita como, sumariamente, fascista é uma generalização apressada, historicamente, errada e, politicamente, ineficaz. O fascismo é um perigo tão sério que devemos ser serenos na sua definição. Toda a extrema-direita é radicalmente reacionária. Mas nem toda a extrema-direita é fascista. É necessário avaliar, ponderar, calibrar, qualificar com cuidado nossos inimigos.

    Bolsonaro é um neofascista. Ou um fascista da etapa histórica em que vivemos, depois da restauração capitalista na ex-URSS e China. Enganam-se os que pensam que se trata de um exagero. Bolsonaro é perigosíssimo. Mesmo considerando que ainda não construiu um partido fascista em escala nacional. Mesmo considerando que a maioria dos seus eleitores não sejam fascistas. O que é qualitativo é que o núcleo dirigente está se formando.

    Sim, o neofascismo não é uma cópia exata do fascismo. O fascismo foi pra o marxismo, essencialmente, a forma política da contrarrevolução diante do perigo da revolução europeia, quando a existência da URSS inspirava a causa dos trabalhadores. Todos os partidos fascistas defendiam a necessidade de um regime totalitário. A eliminação das liberdades democráticas dos regimes eleitorais era instrumental para destruir as organizações dos trabalhadores. Mas o fascismo italiano não era, exatamente igual ao nazismo alemão (obsessão antisemita), ou ao franquismo espanhol (preservação formal da monarquia), e o salazarismo português (fanatismo católico) tinha, também, suas peculiaridades. Movimentos fascistas em muitas outras nações, inclusive no Brasil, o integralismo, existiram no mesmo período histórico. Mas, apesar de suas nuances, todos merecem a qualificação de fascistas.

    Acontece que não estamos em uma etapa semelhante aos anos trinta do século passado, depois da catástrofe da Primeira Guerra Mundial, depois da vitória da revolução russa e da crise de 1929. Não estamos, desde a crise econômica mundial de 2008, diante dos “anos trinta em câmara lenta”. Não há perigo iminente de uma nova revolução de outubro. Não obstante, à escala mundial, assistimos ao reforço de uma extrema-direita nos últimos dez anos.

    O neofascismo em um país periférico como o Brasil não pode ser igual ao fascismo de sociedades europeias dos anos trinta. Em primeiro lugar, porque não responde ao perigo de revolução. Responde à experiência de setores da classe média durante os quatorze anos de governos de colaboração de classes do PT, e à estagnação econômica e regressão social dos últimos quatro anos, a maior da história contemporânea.

    O antipetismo dos últimos cinco anos é a forma brasileira de antiesquerda, anti-igualitarismo, ou anticomunismo dos anos trinta. Não foi uma aposta do núcleo principal da burguesia contra o perigo de uma revolução no Brasil. Até poucas semanas atrás a imensa maioria da burguesia apoiava Alckmin. Bolsonaro é um caudilho. Sua candidatura é a expressão de um movimento de massas reacionário da classe média, apoiado por frações minoritárias da burguesia, diante da regressão econômica dos últimos quatro anos.

    Os modelos teóricos podem ser vários. Mais simples ou mais complexos. Com mais ou menos critérios. Eis um esboço ou uma sugestão de dez critérios:

    (1) sua origem social;
    (2) o que fez ou trajetória;
    (3) o que defende: sua ideologia ou programa?
    (4) qual é o seu projeto político?
    (5) que relação manteve com as instituições, com o Congresso ou com as Forças Armadas, portanto, sua posição diante do regime político?
    (6) que relação manteve, respectivamente, com a classe dominante, e com a classe trabalhadora?
    (7) com que tipo de partido ou movimento é o seu instrumento de luta?
    (8) quem o apoia ou qual é sua base social, e a dimensão eleitoral de sua audiência;
    (9) quais são as suas relações e apoios internacionais;
    (10) de onde vem o dinheiro ou quais são suas fontes de financiamento;

    Seguindo este pequeno esquema, e considerando estes dez critérios, podemos concluir que:

    1. A origem social de Bolsonaro é a pequena-burguesia plebeia. A procura de ascensão social rápida através de uma carreira de oficial no Exército não foi incomum, durante gerações, especialmente, entre eurodescendentes. Ela exigia um desempenho escolar inferior às carreiras de medicina, direito, engenharias nas Universidades Públicas (além de oferecer um soldo desde o início), e oferecia como recompensa estabilidade, e uma remuneração, comparativamente, muito mais elevada que a de um professor de educação física. Esta origem de classe explica algumas das obsessões de Bolsonaro: o racismo rancoroso, o ressentimento social, o anticomunismo feroz, o nacionalismo suburbano, o fascínio pelo modo de consumo da classe média norte-americano, e o rancor anti-intelectual.

    2. Não se deve julgar um líder político somente pelo que diz, mas pelo que ele faz.
    A trajetória de Bolsonaro, durante os últimos quarenta anos, foi a de um oficial insubordinado delirante e, depois, de um deputado corporativista folclórico marginal no último degrau do “baixo clero”. Bolsonaro nunca foi brilhante. Sempre foi um medíocre, um desaforado, na verdade, um boçal. Bolsonaro está presente na luta política há trinta anos, e já acumulou seis mandatos de deputado federal. Mas não se pode compreender o lugar, qualitativamente, diferente que ocupa hoje sem analisar o papel da LavaJato desde 2014, e a apropriação histórica da bandeira anticorrupção por setores da classe dominante. Frações da burguesia brasileira já usaram essa bandeira em suas lutas intestina em 1954 para derrubar Getúlio Vargas, em 1960 para eleger Jânio Quadros, em 1964 para legitimar o golpe militar, em 1989 para eleger Collor de Melo, e em 2016 para fundamentar o impeachment de Dilma Rousseff. Bolsonaro saiu da obscuridade nas mobilizações pelo impeachment entre 2015/16, quando a exigência de intervenção militar ganhou audiência entre dezenas de milhares dos milhões que saíram às ruas.

    3. Bolsonaro responde à demanda de liderança forte face à corrupção no governo; de comando diante do agravamento da crise da segurança pública; de ressentimento diante do aumento do peso dos impostos sobre a classe média; de ruína de pequenos negócios diante da regressão econômica; de pauperização diante da inflação dos custos da educação, saúde e segurança privadas; de ordem diante das greves e manifestações; de autoridade diante do impasse da disputa política entre as instituições; de orgulho nacional diante da regressão econômica dos últimos quatro anos. Responde, também, à nostalgia das duas décadas da ditadura militar em franjas das classes médias exasperadas. Não fosse isso o bastante, conquistou visibilidade dando expressão à resistência de ambientes sociais atrasados e reacionários à luta do feminismo, do movimento negro e LGBT, ou até dos ecologistas.

    4. O projeto político de Bolsonaro é um regime bonapartista. Isto significa a subversão do regime semipresidencialista estabelecido nos últimos trinta anos. Bolsonaro expressa o repúdio desta classe média contra as conquistas sociais e democráticas da Constituição de 1988. Bonapartismo, derivado de Bonaparte, inspirado pelo modelo francês, significa um regime autoritário em que a presidência se eleva acima das outras instituições, Congresso e Judiciário, e concentra poderes excepcionais, em nome da defesa da unidade da nação. Essa é a importância do slogan “ Brasil acima de tudo”. Há vários tipos de bonapartismo. O projeto de Bolsonaro, apoiado na mobilização de um movimento de massas de desesperados, sugere o plano de um regime autoritário que, dependendo das condições da luta político-social, pode vir a adquirir formas semifascistas.

    5. As relações de Bolsonaro com as instituições, tanto quanto é possível prever, indica uma forte representação das Forças Armadas e das polícias em seu possível governo. Bolsonaro não é um populista de direita como Trump. Não é, tampouco, somente um líder autoritário, que será, facilmente, neutralizado pela pressão dos principais chefes da classe dominante, depois de derrotar o PT nas eleições. Depois da vitória eleitoral, com uma provável maioria no Congresso para realizar as emendas que desejar na Constituição, e pleno suporte no Exército, Bolsonaro estará legitimado para o exercício do poder em condições que ninguém na presidência teve desde 1985.

    6. Bolsonaro vem improvisando uma relação com a grande burguesia através da nomeação de Paulo Guedes como seu superministro da economia. Trata-se de uma improvisação que se acelera. O plano econômico apresentado é ultraliberal, com ênfase em privatizações indiscriminadas e aceleradas, choque fiscal brutal, e ataque frontal aos direitos dos trabalhadores, começando por uma reforma de previdência. Sua estratégia é reposicionar o Brasil no mercado mundial ao lado dos EUA contra a China. Conta para isso com investimentos dos EUA no Brasil para sair da estagnação.

    Esta estratégia é coerente com os planos estratégicos dos núcleos mais poderosos da burguesia interna, mas não pode ser aplicada sem que haja grande confronto social, porque não ocorreu, até agora, uma derrota histórica da classe trabalhadora brasileira. Uma derrota histórica acontece quando uma geração perde a confiança em si própria, e é necessário um intervalo histórico para que uma nova geração se coloque em movimento. Em 2015/16 o que aconteceu – o processo que culminou com o golpe parlamentar que derrubou o governo Dilma Rousseff – não foi uma derrota histórica. O que vivemos foi uma inversão desfavorável da relação social de forças: uma derrota político-social. Mas a evolução da situação reacionária, se não for revertida, é uma ameaça seríssima.

    7. Bolsonaro não se apoia em um partido fascista. Usou como instrumento eleitoral um partido de aluguel. Mas esta debilidade orgânica foi compensada, amplamente, pela mobilização de um movimento de massas. E não anula sua caracterização como neofascista. Ele poderá, se vencer as eleições, construir um partido a partir do controle do Estado. Já está lançada uma campanha de filiações ao PSL que anuncia a intenção de conseguir dezenas de milhões de filiados.

    8. Evidentemente, a imensa maioria dos eleitores de Bolsonaro não é fascista. Mas isso não anula que ele seja neofascista. Tampouco quer dizer que um núcleo duro minoritário dos seus eleitores não seja fascista. O que define um movimento, em primeiro lugar, é a sua direção. A audiência alcançada por Bolsonaro já é grande e dinâmica o bastante para que esta corrente política seja, neste momento, a maior no Brasil.

    9. Subestimar Bolsonaro, ou a capacidade de sua corrente se articular no terreno internacional seria um grave erro. Existe uma Internacional de extrema direita, ainda em formas embrionárias, sendo construída no mundo, com financiamento robusto de alguns grandes grupos econômicos, que respondem ao projeto de uma fração do capitalismo norte-americano de oferecer resistência à ascensão da China como potência protoimperialista.

    10. O financiamento da campanha eleitoral de Bolsonaro permanece, essencialmente, obscura. No entanto, a potência de sua presença nas redes sociais sugere que há grupos empresariais seriamente engajados. Alguns destes grupos já são, amplamente, conhecidos.

    Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

     

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    especial neofascismo

  • Bolsonaro não é imbatível

    Cria corvos e eles te arrancarão os olhos
    Sabedoria popular espanhola

    É preferível ser dono de uma moeda a ser escravo de duas.
    Sabedoria popular grega

    Nada está perdido. Segundo turno é uma nova eleição. Viradas são possíveis e já aconteceram muitas. Serenidade e firmeza. Ganhamos tempo ontem. Foi por pouco, é verdade. Mas há possibilidades reais. Tudo vai depender, como em qualquer luta difícil, porém, indefinida, da nossa estratégia e disposição.

    Isto posto, duas observações muito rápidas.

    Bolsonaro foi muito subestimado. Liderou uma onda eleitoral avassaladora, um movimento sísmico profundo. Não é verdade, contudo, que tenha sido uma surpresa. Sejamos sérios, não foi. Era previsível desde  muito tempo atrás, um ano pelo menos, e provável desde o atentado. E demonstrou que a política conta. A política não é somente um discurso, embora o que se diz e se propõe tenha importância. Tanto mais que o Brasil de hoje não é o mesmo de trinta anos atrás. É mais urbanizado e instruído. Mas as preferências políticas, em uma sociedade fraturada como o Brasil, respondem a alinhamentos de classe que, por sua vez, estão determinados por uma experiência prática. As ideias contam, mas estes dois elementos – interesses e as provas da vida – são a chave.

    A imensa maioria da classe trabalhadora brasileira, portanto, do povo em geral, não se define, politicamente, como de esquerda ou de direita, como entre nossos vizinhos uruguaios ou argentinos, mais ideologizados. Isto não autoriza concluir que não tem importância saber que Bolsonaro é um neofascista, como insistem, teimosamente, alguns na própria esquerda. Mas nos ajuda a compreender quais são flancos mais frágeis de Bolsonaro, portanto, onde devemos bater.

    O núcleo duro da votação do neofascista é a pequena burguesia, mas a audiência hoje é muito mais ampla. Uma votação de 46% só é possível com apoio, na escala de dezenas de milhões, de setores populares. O que a votação de ontem revelou, em primeiro lugar, foi a força do campo social e político que saiu às ruas entre 2015/16 e culminou com o impeachment, abrindo uma situação defensiva para os trabalhadores e o povo.

    Mas a eleição demonstrou, também, que as forças políticas que deram sustentação ao governo Temer desmoronaram. E Bolsonaro defende o programa do governo Temer, só que com métodos selvagens. Assume que é necessário acabar com os programas sociais de transferência de renda como o Bolsa Família. Assume que quer impedir qualquer reforma agrária ou urbana. Assume que quer privatizar tudo que for possível. Assume que há direitos sociais demais, e o povo deve estar disposto a perder direitos para que os investimentos voltem.

    A eleição revelou, também, que uma parcela das massas populares, em especial no nordeste, mantém uma referência no lulismo e no PT, em função da memória do que foram algumas reformas nos anos de crescimento econômico.

    Frações burguesas mais amplas estarão agora com Bolsonaro no segundo turno. Mas a estratégia do núcleo duro da burguesia já se desenha. Manterão a ambiguidade, para fazer Haddad assumir a política econômica que responde a seus interesses: ajuste fiscal, reforma da previdência, etc. E fazer Bolsonaro assumir uma concertação institucional das relações de poder, aceitando negociações que garantam a terceirização de posições chaves no governo para técnicos de sua confiança.

    Sendo assim, o maior erro de Haddad seria ceder à pressão burguesa. Seria um erro político, mas, também, eleitoral. A votação para Haddad, Ciro, Boulos pode chegar a 42%. Não é nada claro que toda a votação de Ciro possa ser transferida, por suposto. Nunca ocorre uma transferência “intacta”. Uma parcela do 1% que foi para Marina Silva pode ser, também, atraída. Assim como frações das votações da classe média em outros candidatos. Porque embora tenham repulsa pelo PT, a figura de Haddad desperta menos hostilidade e, sobretudo, temem o perigo de um fascista na presidência.

    Não obstante, a defesa de uma linha de classe é a chave para manter os votos que o PT obteve no primeiro turno, e expandir. Chegou a hora de colocar a classe operária em movimento. Chegou a hora dos sindicatos, dos movimentos populares e, também, do movimento estudantil. E os movimentos feministas que construíram o #elenão são o embrião do movimento anti-fascista. Porque, além da televisão, vamos ter que colocar força nas ruas. Muita força significa ir além do um milhão que já manifestou. Expandir  para  o campo das abstenções, nulos e brancos que somaram 29%. A tendência é que este volume se reduza. Deslocar votos de Bolsonaro nas classes populares, embora muito difícil, também, será necessário. Aliados importantes nesta disputa serão os setores lúcidos da Igreja Católica.

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  • Hora de sangue frio e sensatez: por que lutar até ao fim sem desespero?

    A língua resiste porque é mole; os dentes cedem porque são duros. Sem o fogo do entusiasmo, não há o calor da vitória. Jamais se desespere em meio às sombrias aflições de sua vida, pois das nuvens mais negras cai água límpida e fecunda. Procure acender uma vela em vez de amaldiçoar a escuridão.
    Sabedoria popular chinesa

    Nada está ainda decidido. Um em cada três eleitores não cita nenhum nome nas pesquisas. É um número altíssimo quando faltam tão poucos dias para as eleições. São 19% de indecisos, e mais 14% que, por enquanto, votam ou branco ou nulo. Esses 33% deixam a eleição ainda indefinida. Bolsonaro tem 38% de votos válidos, segundo as pesquisas mais recentes, já considerada a margem de erro. Ele teria de crescer 12 pontos porcentuais até o dia da eleição, para conquistar de 50% mais um. Isso é possível, porém, improvável.

    Trocar de candidato, tampouco, faz sentido. Levo muito a sério a matemática e a teoria dos jogos. Acontece que, com as informações hoje disponíveis, não é possível fazer o cálculo de quem seria o candidato em melhores condições de derrotar Bolsonaro no segundo turno. Não é possível porque todas as pesquisas estão no limite da margem de erro. Não é possível porque o segundo turno será uma nova eleição, em todos os sentidos. Não sendo possível, cada um de nós deve votar em quem pensa ser o melhor candidato. E todos devemos conversar para deslocar votos de Bolsonaro.

    O #elenão não foi um tiro no pé
    Ações produzem reações, é verdade. Mas o principal efeito das mobilizações de sábado em mais de 400 cidades foi ter levantado a moral da esquerda brasileira. Não se luta contra os fascistas somente com argumentos. É preciso demonstrar força social. Porque o medo vai ter que mudar de lado, se queremos sair da defensiva. E quando reunimos um milhão nas ruas a militância de todas as correntes de esquerda levantou a cabeça.

    O crescimento de Bolsonaro nas pesquisas parece ter tido múltiplos fatores. Em primeiro lugar a saída do hospital. Ao receber alta, e voltar a ter presença ativa nas redes sociais Bolsonaro sinalizou que tinha voltado para a luta. Isso teve impacto. Em segundo lugar, o apoio das Igrejas pentecostais. Em terceiro lugar, o deslocamento do voto anti-PT ainda indeciso para Bolsonaro, simplesmente, porque permanece em primeiro lugar, portanto, favorito.

    Mas isso não significa que seja provável que Bolsonaro vá vencer. Ao contrário, é possível, porém, improvável. As eleições estão em aberto.
    Tarefa do dia: convença alguém a não votar em Bolsonaro. Hoje. Agora.

    Eu vou de #BoulosESonia50

     

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    Foto. Guilherme Boulos, no comício do Rio de Janeiro, no dia 03. Foto Mídia Ninja

  • Não há um golpe militar em marcha; o maior perigo é a eleição de Bolsonaro

     

    Na hora mais escura da noite, mais intenso será o brilho das estrelas no ceú.
    Sabedoria popular persa

    A hora mais escura do dia é a que vem antes do sol nascer
    Sabedoria popular árabe

    1. Não é verdade que o maior perigo seja um golpe militar. O maior perigo é Bolsonaro vencer nas urnas e, por dentro das regras do regime democrático- eleitoral, chegar ao poder da presidência. Na sequência, a partir dessa posição, subverter o regime que já adquiriu, depois do golpe de 2016, traços bonapartistas, como o agigantamento do judiciário, das polícias, das Forças Armadas. Não é verdade que o núcleo duro da burguesia brasileira já chegou à conclusão que o choque econômico-social que defendem – com um ajuste fiscal brutal em 2019 – só pode ser executado por um regime ditatorial.

    Análises catastrofistas são perigosas porque projetam cenários terminais que: (a) não correspondem à realidade; (b) produzem desalento e desesperança em uma conjuntura que já é ruim o bastante, com um fascista com um terço dos votos válidos nas pesquisas. A construção da análise pode ter elegância e coerência, mas não corresponde à conjuntura. Não há um golpe militar em marcha. Beleza aristotélica é uma qualidade estética do discurso, porém não é marxismo.

    O golpe foi institucional, é já aconteceu há dois anos. A derrota não foi somente superestrutural. Aconteceu uma mudança na relação social de forças. Foi uma derrota político-social. Abriu-se uma situação defensiva, com muitos elementos reacionários. Não obstante, não foi uma derrota histórica, como em 1964. Não será necessário o intervalo de uma geração para que se acumulem forças para que os trabalhadores e seus aliados sociais voltem a entrar em cena. Mas, claro, o perigo autoritário é real.

    2. A ideia mais repetida no debate da Record foi que estaríamos diante de dois extremismos gêmeos: o de esquerda e o de direita. Foi defendida por Marina Silva, Álvaro Dias, Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles, os quatro tons de Temer. Mas associou-se a este cambalacho, também, vergonhosamente, Ciro Gomes. Cinco dos oito presentes ficaram brincando entre si, alegremente, defendendo a moderação, a reconciliação, a paz, a união, o amor. Não deverá ser diferente no debate da TV Globo, da próxima quinta-feira, e deve marcar a última semana de campanha eleitoral. Esta interpretação é um escárnio contra a inteligência do povo. É uma operação ideológica.

    Há um candidato fascista em primeiro lugar em todas as pesquisas, e ele é uma ameaça às liberdades democráticas. Não há lugar para controvérsia sobre o perigo que Bolsonaro representa, porque ele e seu vice Mourão não têm qualquer pudor em declarar barbaridades absurdas, amplamente conhecidas.

    Em segundo lugar nas pesquisas se consolidou Haddad. Qualquer pessoa lúcida sabe que o PT não é uma ameaça às liberdades democráticas. O PT esteve no governo entre 2003 e 2016 e respeitou, religiosamente, as instituições até o limite do absurdo. O PT não desafiou a ordem constitucional. Foi a maioria da burguesia brasileira que o fez, quando incentivou e mobilizou setores da classe média para legitimar o golpe parlamentar.

    O problema real é que o núcleo duro da classe dominante não conseguiu deslocar Bolsonaro, e Alckmin patina abaixo de 10%. Isso é uma anomalia, se consideramos as necessidades de representação política dos capitalistas. A fórmula “dois radicalismos gêmeos” já não obedece, somente, a um cálculo desesperado de tentar levar Alckmin ao segundo turno. Mesmo com a decisão arbitrária, porém frustrada, de Fux de proibir entrevistas de Lula. Mesmo com a decisão de Moro de tornar pública a delação premiada de Palocci.

    Ela responde à necessidade de pressionar a direção do PT para se render antes do segundo turno. Render-se, outra vez, como fez Dilma Rousseff em 2015, diante da exigência de preservação do choque econômico-social iniciado por Joaquim Levy, e radicalizado por Temer, com a EC95 do teto dos gastos, contrarreforma trabalhista, lei de terceirização, etc. Render-se, outra vez, diante da imposição da idade mínima na contrarreforma da previdência.

    3. Qualquer tentativa de diminuição do significado do dia 29 de setembro é uma cegueira ideológica. Foi a campanha pelo #elenão e o gigantismo do sábado dia 29/09 que abriram a possibilidade de derrotar Bolsonaro. Só isso, mas não é pouca coisa. Ainda que a batalha esteja muito longe de estar decidida. Tudo permanece incerto. Todos que subestimaram Bolsonaro até agora erraram. A disputa será feroz. A manifestação foi o acontecimento mais importante da campanha eleitoral, e só foi possível porque se construiu uma frente única pela iniciativa do movimento feminista.

    Que a composição dos Atos e Marchas tenha sido, fundamentalmente, jovem, feminina, de setores sociais com mais escolaridade e renda, não deveria nos surpreender. Foi sempre assim, nos últimos quarenta anos, quando se inicia uma campanha política.

    Uma vanguarda social e política abre o caminho. Só depois os setores populares, tendo como coluna vertebral a classe trabalhadora, se colocam em marcha, e com o peso de sua Foi assim na luta contra a ditadura, a partir de 1977/78, mas o movimento estudantil marchava sozinho. A classe operária do ABC saiu à luta em 1979, com os professores, petroleiros e bancários, mas o salto de qualidade aconteceu somente em 1984, com as Diretas Já, agora na escala de milhões.

    A direção do PT fez uma aposta em uma estratégia eleitoral de alto risco ao manter a candidatura Lula até o limite máximo, para deixar bem claro que ele é um preso político. Esse cálculo estava certo. Era possível fazer a transferência dos votos para Haddad, mesmo com pouquíssimo tempo. Sempre apostando na amargura gerada pelo desemprego e pobreza dos últimos dois anos com Temer, em contraste com a nostalgia da vida durante os anos do governo Lula. Mas esta estratégia foi, eleitoralmente, correta somente para levar Haddad para o segundo turno. Derrotar Bolsonaro exige uma nova tática. Alertamos, há várias semanas, que o centro da tática tinha que girar para a denúncia do perigo do fascista.

    O papel do Psol foi, portanto, muito importante. Demonstrou-se na prática porque a esquerda radical é útil.

    Foto: EBC

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  • Não estamos nos anos trinta, só que em câmara lenta

    O debate sobre o bloqueio das forças produtivas no Programa de Transição

    Comecemos por ententer o que significa ser verdadeiramente marxista. Não podemos fazer um culto, como se fez de Mao ou de Stalin. Ser trotskista hoje não significa estar de acordo com tudo aquilo que escreveu ou o que disse Trotsky, mas sim saber fazer-lhe críticas ou superá-lo, como a Marx, a Engels ou Lênin, porque o marxismo pretende ser científico e a ciência ensina que não há verdades absolutas. Em primeiro lugar, ser trotskista é ser crítico, inclusive ao próprio trotskismo.[1]
    Nahuel Moreno

    Há pelo menos meio século se abriu um debate, nas organizações e círculos da esquerda da tradição trotskista, sobre a vigência da letra ou do método do Programa de Transição. Devemos voltar a refletir sobre este tema, criticamente, quando interpretamos a sua atualidade, neste aniversário de oitenta anos de fundação da Quarta Internacional.

    O primeiro desafio é sobre o que devemos compreender quando lemos hoje, no texto de 1938, a caracterização de que sob o capitalismo contemporâneo as forças produtivas teriam deixado de crescer, pelo menos, desde a Primeira Guerra Mundial e o triunfo da revolução russa [2].

    O segundo é sobre o que devemos compreender sobre a caracterização de que a crise da humanidade pode ser reduzida, essencialmente, à crise de direção do proletariado [3]. As duas caracterizações são, fundamentalmente, indivisíveis. A primeira estabelece a maturidade das condições objetivas para a revolução mundial. A segunda sublinha a imaturidade das condições subjetivas, e explica porque, apesar de tantas revoluções terem acontecido, não há nenhum país em transição ao socialismo, e a ordem imperialista ainda está intacta.

    O terceiro é sobre o que devemos compreender sobre a premissa de que, na nossa época, o capitalismo é incapaz de ceder reformas e, portanto, é necessário superar a oposição entre programa possibilista e maximalista. O Programa de Transição defende que a luta por reivindicações mínimas e democráticas pode abrir, potencialmente, uma dinâmica de mobilizações anticapitalistas transitórias [4].

    Estas ideias poderosas mantém vigência? Em que sentido? A resposta à primeira pergunta é mais simples. Sim, estas ideias mantém vigência, e foram confirmadas pelo laboratório da história. Vivemos em uma época histórica de guerras e revoluções. A permanência da ordem imperialista mundial é uma ameaça à sobrevivência da humanidade. O programa marxista é a revolução socialista mundial. O trotskismo se afirmou como a mais fecunda corrente marxista revolucionária mundial porque manteve a defesa da tradição anticapitalista dos herdeiros da revolução de outubro, e internacionalista da III Internacional.

    Mas estas ideias não podem ser compreendidas como absolutas. Reafirmar que a tarefa história da época é a luta pelo socialismo não é o mesmo que dizer que estaríamos em uma situação revolucionária mundial. São níveis de abstração na análise da realidade, completamente, diferentes. A percepção de uma crônica situação revolucionária mundial é uma ilusão objetivista.

    A social democracia e o estalinismo foram, e permanecem sendo, ainda que mais debilitados, aparelhos burocráticos. Mas reafirmar que há uma crise de direção do proletariado não é o mesmo que dizer que, não fosse o papel das organizações reformistas, já estaria madura entre os trabalhadores uma disposição revolucionária de luta pelo poder. Isso seria uma perigosa idealização da classe operária, um excesso obreirista. A percepção de uma invariável disposição revolucionária de luta entre os trabalhadores é autoengano, uma fantasia imaginária, uma forma de pensamento mágico. Esta interpretação reduz a análise da crise de direção à vulgaridade de uma teoria da traição, portanto, uma mentalidade conspiratória.

    O capitalismo não cumpre mais papel progressivo algum, não pode conceder reformas perenes, sequer no centro do sistema, quanto mais nos países da periferia. Mas reafirmar a rigidez dos limites históricos do capitalismo em sua época de declínio não é o mesmo que dizer que, em circunstâncias excepcionais, diante do perigo de situações revolucionárias, a burguesia não possa aceitar concessões emergenciais, temporárias, efêmeras, sacrificando anéis para salvar os dedos.

    A resposta à segunda questão é, portanto, muito mais complexa. Em que sentido reivindicamos o programa de transição? Existem duas hipóteses. Há aqueles que fazem uma leitura rígida, literal ou restrita da letra do programa de transição, e fazem dele um dogma estéril. A defesa de dogmas condena este tipo de trotskismo a uma marginalidade política e social incontornável. E há aqueles que, como nós, defendem o método do programa de transição, mas consideramos que é necessária a sua atualização.

    A crise econômica mundial de 2008 foi a mais séria desde 1929. Mas não estamos, em 2018, vivendo uma situação semelhante à dos anos trinta, só que em câmara lenta. Não estamos na iminência de uma guerra mundial, e na antessala da invasão da URSS pelo nazifascismo. O capitalismo foi restaurado à escala internacional e a URSS já não existe. Aconteceu uma derrota histórica e isso teve consequências.

    A disposição de atualizar o Programa de Transição não diminui o nosso compromisso com a luta pela revolução, somente reafirma nosso engajamento com o marxismo. Essa tarefa já foi encarada, há quarenta anos, pela geração anterior de trotskistas, só que em condições favoráveis, depois da derrota do imperialismo norte-americano no Vietnam [5]. Nossa tarefa é mais amarga, porque a evolução da situação mundial no último quarto de século foi desfavorável. Não prevaleceram vitórias da revolução mundial, mas o contrário.

    Um programa não é uma análise da situação econômica e social, embora deva estar fundamentado em uma síntese de quais são suas tendências. Não é uma obra de investigação histórica, embora deva estar baseado em uma caracterização do período histórico. Não é uma lista de palavras de ordem, embora deva fazer sínteses na forma de consignas.

    Um programa é um instrumento de luta. A tarefa programática incorpora estas três tarefas, mas deve identificar na análise quais são as contradições centrais da realidade, e retirar como conclusão quais são as tarefas colocadas para os trabalhadores e seus aliados.

    A caracterização principal do programa de transição é que, sob a ordem imperialista mundial, entramos em uma época de decadência histórica do sistema. Ou seja, a conclusão de que as relações sociais capitalistas se transformaram em um freio para o progresso, e uma ameaça para a civilização. Do que decorre que a tarefa dos marxistas deve ser a luta pela revolução socialista internacional. Se considerada no nível de abstração muito elevado de uma época, ou seja, em uma dimensão secular indefinida, e em escala internacional, esta caracterização permanece fundamental, e é um dos pilares do marxismo revolucionário.

    Mas uma época é um longo intervalo histórico, portanto, na dimensão secular. Ao longo da mesma época devemos considerar a alternância de várias etapas. As etapas estão determinadas pela relação de forças entre revolução e contrarrevolução, em escala mundial. Em cada etapa da luta de classes há uma direcionalidade, um signo, uma dinâmica. Vitórias favorecem novas vitórias. Derrotas facilitam derrotas. A revolução mundial tem a morfogia de ondas de choque, o efeito dominó. Não obstante, durante uma etapa, em cada país, embora a tendência seja a pressão do contexto internacional, podem prevalecer condições peculiares da luta de classes em cada nação. Não há sincronicidade direta.

    A leitura extremada do caráter revolucionário da época, desconhecendo as variáveis tempo e espaço, as desigualdades determinadas pela história e geografia, desprezando a realidade concreta da luta de classes, e as variações das relações de força entre as classes na escala das situações, foi uma das chaves da teoria da “iminência” da revolução.

    A teoria da “iminência” da revolução é uma das variações da teoria objetivista do colapso do capitalismo. O objetivismo é uma ilusão de ótica. O objetivismo é uma análise unilateral da realidade que diminui a centralidade dos fatores subjetivos na luta de classes. A dimensão subjetiva da luta de classes é aquela que remete ao nível de consciência e disposição de luta dos trabalhadores e seus aliados sociais. Estamos diante de tendências históricas, e não diante de prognósticos catastrofistas. Qualquer outra conclusão é fatalismo determinista, ou uma forma de milenarismo socialista. Lenin tinha alertado contra este perigo quando escreveu “Imperialismo, fase superior do capitalismo”.[6]

    Esta caracterização se apóia em uma teoria da história formulada por Marx. As forças motrizes do processo histórico seriam, essencialmente, duas tendências que se desenvolvem simultânea e, inseparavelmente, mas com uma força de pressão que se alterna em função da natureza da época: a tendência ao crescimento das forças produtivas, e a luta de classes, operam como os seus fatores de impulso. Em poucas palavras: luta da humanidade pela produção da riqueza social, de acordo com suas necessidades, e luta entre os homens pela apropriação do sobreproduto social, determinada pela escassez.

    Mas, a intensidade da necessidade histórica que se manifesta através dessas duas tendências, varia, oscila, flutua, e se alterna. Marx não identificou uma tendência intrínseca indefinida ao desenvolvimento das forças produtivas. Existe uma tendência e contratendências. As relações sociais podem favorecer ou obstaculizar este desenvolvimento. Variadas forças de bloqueio teriam se manifestado na história. Logo, períodos de estagnação até, relativamente, longos não seriam uma exceção.

    Por outro lado, a principalidade da luta de classes seria, também, variável. E só se manifestaria, em sua máxima intensidade, em épocas revolucionárias. Podemos, portanto, considerar, de acordo com a natureza das épocas, inversões de primazia entre a operação das forças motrizes. Tão ou mais importante essas duas forças de pressão da necessidade histórica desenvolvem contradições entre si, porque atuam reciprocamente uma sobre a outra. E se neutralizam, também, uma à outra, como obstáculos mútuos.

    A primeira questão que devemos problematizar, portanto, oitenta anos depois de 1938, é identificar qual era o nível de abstração em que este postulado sob o bloqueio das forças produtivas, ou sobre a maturidade das condições objetivas foi elaborado. Na dimensão histórica de época, que admite a longa duração, ou, indistintamente, das etapas políticas, das situações concretas ou das conjunturas breves? As leis históricas para marxistas operam como tendências. Nem menos, nem mais do que tendências, ou forças de pressão.

    Estas tendências abrem o caminho no terreno da luta de classes. A luta de classes é um processo em aberto, portanto, incerto. Porque a premissa de que as forças produtivas sob a ordem imperialista, tendencialmente, não podem crescer como cresciam no XIX, quando o capitalismo impulsionava a revolução industrial, não desautoriza considerar que as relações sociais capitalistas podem ser, dependendo da situação concreta e da do destino de cada nação, um obstáculo absoluto ou relativo.

    Quando Leon Trotsky retomou este conceito da III Internacional na fundação da Quarta não estava senão recuperando do esquecimento uma localização estratégica. O que significa concluir que, quando a revolução mundial avança, os limites históricos do capitalismo se estreitam, mas, também, o inverso. Quando a contrarrevolução avança, o capitalismo alonga seus prazos de sobrevivência. Porque a caracterização de que estamos em uma época de declínio histórico do capitalismo não descarta a possibilidade de que operam contratendências em escalas de tempo mais breves. E não invalida que na escala das etapas, situações e conjunturas ocorram inversões transitórias em que estas contratendências prevaleçam.

    Em conclusão: a defesa rígida de que as forças produtivas não cresceram, nos últimos oitenta anos, é dogmática porque não tem sustentação histórica. O argumento contrário mais poderoso, mas, também, mais inconclusivo, defende que as forças produtivas devem ser compreendidas como um sistema de relações que a humanidade estabelece com a natureza através do trabalho com ferramentas, que objetivam em tecnologia, de acordo com o estágio de desenvolvimento da ciência.

    Na sua formulação mais lúcida a régua que deve medir este processo deve ter quatro critérios: (a) o grau de melhoria ou deterioração das condições de vida da humanidade, uma variável que nos remete à elevação ou estagnação dos níveis de produtividade do trabalho; (b) a expansão do papel de parasitismo dos capitais fictícios com a financeirização; (c) o crescimento das forças destrutivas (expansão da indústria militar); e (d) as ameaças à sobrevivência da civilização pela gravidade emergencial da crise climática com o aquecimento global. Os quatro critérios são corretos. O problema não é a régua. O problema é o exercício histórico de balanço.

    A tese do bloqueio absoluto tem como consequência a visão da época do imperialismo, portanto, da decadência como uma longa e ininterrupta estagnação que já teria cem anos, o que não é somente dogmático, é insensato. Se compararmos o mundo de hoje com o de cem anos atrás esta tese é absurda. Não é necessário um modelo teórico com variáveis muito complexas para aferir que ocorreu, nesse intervalo, um desenvolvimento das forças produtivas.

    Sobra, finalmente, o argumento circular de que a vitória da revolução russa em 1917 seria a demonstração inequívoca de que o capitalismo teria atingido seus limites históricos. O argumento é circular, à maneira de um cachorro que corre atrás de sua própria cauda para mordê-la, porque sustenta que a revolução de outubro prova que o capitalismo esgotou sua capacidade de cumprir um papel progressivo. Ou, formulado de trás para a frente, à maneira das demonstrações escolásticas, a crise do capitalismo se revela terminal porque a revolução russa triunfou.

    Essa conclusão ignora as sequelas do que foi o estalinismo como bloqueio da transição ao socialismo, e o impacto da restauração capitalista, ou seja, das derrotas da revolução mundial. A produtividade do trabalho nos últimos cem anos se multiplicou várias vezes. As taxas médias de crescimento das economias capitalistas foram, em escala mundial, no centro e na periferia, superiores às taxas médias de crescimento da Inglaterra, Estados Unidos, Alemanha ou França durante o século XIX. Desconhece os avanços da ciência e tecnologia, da produtividade do trabalho, do aumento da expectativa de vida, da redução do analfabetismo, etc.

    Admitir o caráter relativo, portanto, não absoluto, do bloqueio que o capitalismo representa não questiona a estratégia revolucionária. Ao contrário, eleva a nossa determinação de caminhar de olhos bem abertos. A angústia é uma prerrogativa da lucidez. Toda atualização programática nos protege de nós mesmos.


    NOTAS

    [1] MORENO, Nahuel. Ser trotskista hoje. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/moreno/1985/mes/troskista.htm
    [2] TROTSKY. Leon. O Programa de Transição. “A premissa econômica da revolução proletária já alcançou há muito o ponto mais elevado que possa ser atingido sob o capitalismo. As forças produtivas da humanidade deixaram de crescer. As novas invenções e os novos progressos técnicos não conduzem mais a um crescimento da riqueza material. As crises conjunturais, nas condições da crise social de todo o sistema capitalista, sobrecarregam as massas de privações e sofrimentos cada vez maiores (…) As premissas objetivas da revolução proletária não estão somente maduras: elas começam a apodrecer. Sem vitória da revolução socialista no próximo período histórico, toda a civilização humana está ameaçada de ser conduzida a uma catástrofe.”. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/trotsky/1938/programa/cap01.htm#1  Consulta em 20/09/2018.
    [3] TROTSKY. Leon. O Programa de Transição. “Tudo depende do proletariado, ou seja, antes de mais nada, de sua vanguarda revolucionária. A crise histórica da humanidade reduz-se à crise da direção revolucionária. A economia, o Estado, a política da burguesia e suas relações internacionais estão profundamente afetadas pela crise social que caracteriza a situação pré-revolucionária da sociedade. O principal obstáculo na transformação da situação pré-revolucionária em situação revolucionária é o caráter oportunista da direção do proletariado.” Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/trotsky/1938/programa/cap01.htm#1  Consulta em 20/09/2018.
    [4] TROTSKY. Leon. O Programa de Transição. “A social-democracia clássica, que desenvolveu sua ação numa época em que o capitalismo era progressista, dividia seu programa em duas partes independentes uma da outra: o programa mínimo, que se limitava a reformas no quadro da sociedade burguesa, e o programa máximo, que prometia para um futuro indeterminado a substituição do capitalismo pelo socialismo. Entre o Programa mínimo e o Programa máximo não havia qualquer mediação (…) A IV Internacional não rejeita as reivindicações do velho programa mínimo”, à medida que elas conservaram alguma força vital. Defende incansavelmente os direitos democráticos dos operários e suas conquistas sociais. A medida que as velhas reivindicações parciais mínimas” das massas se chocam com as tendências destrutivas e degradantes do capitalismo decadente – e isto ocorre a cada passo -, a IV Internacional avança um sistema de reivindicações transitórias, cujo sentido é dirigir-se, cada vez mais aberta e resolutamente, contra as próprias bases do regime burguês. O velho programa mínimo é ultrapassado pelo Programa de Transição, cuja tarefa consiste numa mobilização sistemática das massas em direção à revolução proletária”.   Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/trotsky/1938/programa/cap01.htm#1  Consulta em 20/09/2018.
    [5] MORENO, Nahuel. Teses de Actualización del Programa de Transición. Disponível https://www.marxists.org/espanol/moreno/actual/index.htm Consulta em 20/09/2018.
    [6] LENIN, Vladimir Ilitch. O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo. “O imperialismo reforça e aumenta as diferenças e desigualdades de desenvolvimento econômico entre os países, mas «seria um erro acreditar que esta tendência à decadência exclua o crescimento rápido do capitalismo», que agrava as desigualdades entre os países.”

     

    FOTO: A norte-americana Florence Owens Thompson, mãe de sete crianças, em Nipono, Califórnia, em março de 1936, em busca de um emprego. Foto de Dorothea Lange.

    Especial 80 anos da IV Internacional
    ACESSE O ESPECIAL
    SOBRE OS 80 ANOS
    DA IV INTERNACIONAL
  • Cinco observações rápidas depois do atentado contra Bolsonaro

    O lobo pode perder os dentes, porém sua natureza jamais.
    Sabedoria popular romena

    Jamais se desespere em meio as sombrias aflições da vida.
    Das nuvens mais negras cai água límpida e fecunda.
    Sabedoria popular chinesa

    Os dois fatos mais importantes e, em grande medida, surpreendentes, da campanha eleitoral, até ontem, eram: (a) a força da autoridade de Lula, mesmo preso há meses; (b) a fragilidade de Alckmin, mesmo com o apoio da imensa maioria da classe dominante. A resiliência da influência de Lula não pode ser desconsiderada, diminuída ou relativizada. Se considerarmos a avalanche de ataques reproduzidos, ininterruptamente, pelas TV’s e rádios, e o tsunami de denúncias nas redes sociais, a recuperação do prestígio de Lula é impressionante. Se pudesse ser candidato Lula venceria, provavelmente, no primeiro turno, e de dentro da prisão. Não há qualquer processo sequer, remotamente, semelhante em país algum. Os números da preferência no Nordeste são avassaladores, mas a liderança de Lula é um fenômeno nacional, e indica de forma irrefutável que o desgaste de Lula foi interrompido e revertido. (1) As dificuldades de Alckmin até o início da campanha no horário eleitoral gratuito eram imensas. Elas indicavam que o desgaste do PSDB, depois do escândalo das gravações de Aécio, foi gigantesco e teve repercussão nacional. (2)

    2. O que mudou? Bolsonaro tende a se fortalecer ao se transformar em vítima de tentativa de homicídio. A mudança foi quantitativa ou qualitativa? Ainda não sabemos. Mas o atentado foi um episódio gravíssimo, e subestimá-lo – como ainda está prevalecendo em alguns círculos de esquerda – é perigoso. Ações têm impactos, imensuravelmente, mais dramáticos do que palavras. Um ataque assassino é uma agressão de ferocidade selvagem, de violência brutal. (3) Há em curso uma disputa de narrativas – foi a iniciativa de um lunático, ou uma conspiração da esquerda? – e serão necessários alguns dias para que a poeira assente. As grandes massas não acompanham, diariamente, a luta política. Mas Bolsonaro deve se reposicionar diante da opinião pública. Sua audiência nas camadas sociais mais populares deve, possivelmente, aumentar. Só resta saber quanto se fortaleceu. Só as pesquisas de opinião nos próximos dez dias poderão oferecer um quadro mais definido. Antes disso, tudo são especulações baseadas em experiências parciais, portanto, insuficientes. É preciso ter paciência e serenidade nesta hora. Evidentemente, as possibilidades de Alckmin se credenciar como a candidatura anti-PT, ou como o candidato do programa liberal que tem o apoio da mídia, e disputar um lugar no segundo turno, no mesmo espaço político de Bolsonaro, diminuíram.

    3. A faca feriu Bolsonaro, mas a estocada mortal pode ter sido na candidatura de Alckmin. Álvaro Dias e Meirelles, João Amoêdo ou Daciolo estarão em situação ainda mais frágil. Bolsonaro era uma candidatura orientada para a derrota no segundo turno, com uma rejeição acima de 40%. Essa realidade deve ter mudado. Bolsonaro pode suavizar a linha da extrema radicalização que usou até agora – porque estava preocupado em blindar seu eleitorado- para aproveitar a provável diminuição da rejeição, e assumir o lugar de candidato anti-PT que estará em melhores condições de vencer. (4)

    4. Deve se antecipar, em alguma medida, o contexto da disputa que iria se desenvolver no segundo turno para o primeiro, porque as duas candidaturas mais fortes deverão ser, mais claramente do que até ontem, a do Bolsonaro contra a do PT. Uma das características atípicas desta eleição era a imensa imprevisibilidade. Até esta semana era muito difícil prever quais seriam os dois candidatos favoritos. Mas as pesquisas passaram a sustentar como mais provável que o espaço de oposição a Temer e às candidaturas herdeiras do golpe seria ocupado por Haddad. A confirmação da capacidade de transferência de votos de Lula, na escala de mais de 50%, tem sido um padrão em processos eleitorais nos últimos trinta anos. A candidatura de Haddad, além de receber a transferência de votos do lulismo nas classes populares, e nos setores mais politizados e, sindicalmente, organizados da classe trabalhadora, poderá se beneficiar com o voto útil de frações da classe média, diante do medo de vitória de Bolsonaro no primeiro turno. (5)

    Outras candidaturas, como a de Ciro Gomes e Marina Silva, terão muita dificuldade de resistir à ofensiva do PT, a partir da oficialização de Haddad, quando começar o bombardeio de que Lula é Haddad. Não têm apoio de nenhuma fração burguesa significativa; não conquistaram aliados nos movimentos sindical ou populares; não têm respaldo social consolidado, a não ser em franjas minoritárias da classe média; não têm nem organização, nem implantação nacional; não têm tempo suficiente para se defenderem no horário gratuito. Quem apostou na subestimação da força do lulismo até hoje errou. A experiência com o lulismo é lenta. e foi, em grande medida, interrompida e até revertida.

    5. Boulos se consolidou como a principal liderança pública de esquerda radical com as ocupações do MTST, desde 2013. Ele é o legítimo herdeiro do que surgiu de mais avançado das jornadas de Junho. Desde o atentado contra Bolsonaro há uma disputa feroz de narrativas nas redes sociais. Nas ruas o ambiente ficou, também, mais pesado. Mas estamos com o pé no chão.

    Nosso desempenho nas pesquisas é pequeno. Com 1% estamos situados na margem de erro. Mas isso não é surpresa. Não deveria ser para ninguém no PSOL. Não seria melhor, tampouco, não importa quem fossem os candidatos. Seria, na verdade, pior, se não tivéssemos construído a Aliança com o MTST e a APIB. Sempre fomos realistas.

    Há quem pense que há atalhos para chegar à influência de massas: um abracadabra, uma palavra de ordem genial, uma tática ilusionista. Não há. Deixam-se enganar pela força do querer, seduzir pela omnipotência da vontade, e consumir pela aflição da ansiedade. O desejo pode muito, mas não é o bastante. Isso é pensamento mágico.
    Se a campanha não tivesse sido solidária a Lula, quando ele foi preso, seria uma vergonha politica irreparável, uma capitulação imperdoável à pressão da LavaJato. Teria sido, também, eleitoralmente, um desastre para as candidaturas proporcionais. Quem pensa que uma campanha orientada para a denúncia da direção do PT ampliaria a audiência da esquerda radical não compreendeu nada do que aconteceu no Brasil nos últimos dois anos. Não somente porque subestima o que foi o golpe de 2016. Não consegue sequer enxergar o perigo representado pela possível presença dos neofascistas em um segundo turno.

    Sabemos que a construção de um instrumento de luta que seja um ponto de apoio para superar as ilusões reformistas depende de um processo de experiência prática, ainda incompleto. A consciência de classe das amplas massas trabalhadores, dos oprimidos e do povo oscila. Em situações de ascenso de lutas avança. Em situações defensivas recua.

    A força da campanha do PSOl com Boulos/Guajajara está nos grupos de ação e nas dezenas de milhares que se reuniram para respaldar um novo projeto para a esquerda radical. Dezenas de milhares é muita gente. Saímos da escala das centenas, e até mesmo dos milhares. Viemos de longe, e sabemos contar. É preciso saber contar.

    NOTAS

    1 – Registrado como candidato do PT na disputa pela Presidência da República, o ex-presidente Lula tem 39% das intenções de voto estimulada e detém a liderança isolada na primeira pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha após o início oficial do período eleitoral. Ele tem larga vantagem sobre Jair Bolsonaro (PSL), que tem 19% e é seu adversário mais próximo neste momento. Os Institutos Datafolha e Ibope puxam nova bateria de pesquisas sobre a corrida presidencial após o atentado a Jair Bolsonaro (PSL) e a proibição da candidatura de Lula (PT) pelo TSE. Disponível em: http://datafolha.folha.uol.com.br/eleicoes/2018/08/1979559-39-votariam-em-lula-sem-
    petista-bolsonaro-lidera-disputa-presidencial.shtml Consulta em 10/09/2018

    2 – A gravação de um telefonema no qual Aécio Neves (PSDB-MG) e o empresário Joesley Batista, dono da JBS, acertam o pagamento de R$ 2 milhões para pagar advogados que defendem o tucano repercutiu como um escândalo que atingiu o PSDB. A gravação foi entregue por Joesley Batista ao Ministério Público Federal no acordo de delação premiada no âmbito da Operação Lava Jato. As delações dele e de Wesley Batista já foram homologadas e o sigilo do conteúdo, retirado. Em razão do que foi apresentado por Joesley, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Edson Fachin, relator da Lava Jato, afastou Aécio Neves do mandato de senador. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/audio-aecio-e-joesley-batista-acertam-pagamento-
    de-r-2-milhoes.ghtml Consulta em 10/09/2018

    3 – Adélio Bispo de Oliveira, desempregado e desequilibrado, com sintomas paranóicos há muitos anos, adepto de teorias conspiratórias, obsessões e fobias, desconexo e incoerente, fascinado pelo messianismo religioso, praticante de tiro, socialmente marginal, politicamente confuso e, psiquicamente doente, em uma ação insana, realizou uma tentativa fracassada de homicídio contra Jair Bolsonaro no dia 06/09/208. Deslocou a campanha eleitoral para um terreno muito perigoso. Disponível em: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2018/09/09/agressor-de-jair-bolsonaro-disse-em-depoimentos-que-achava-que-seria-morto-apos-atentado.ghtml Consulta em 10/09/2018

    4 – A primeira pesquisa realizada inteiramente após o atentado sofrido na última 5ª feira (6.set.2018) pelo candidato do PSL a presidente, Jair Bolsonaro, indica que ele chegou a 30% das intenções de voto. O levantamento foi realizado pela FSB Pesquisa, que foi contratada pelo banco de investimentos BTG Pactual. Em 2º lugar aparece Ciro Gomes (PDT), com 12% —que na realidade está empatado tecnicamente na margem de erro com os 3 candidatos que vêm a seguir, todos com 8%: Marina Silva (Rede), Geraldo Alckmin (PSDB) e Fernando Haddad (PT). https://www.poder360.com.br/pesquisas/apos-facada-jair-bolsonaro-vai-a-30-haddad-
    tem-8-diz-btg-pactual/ Consulta em 10/09/2018

    5 – A pesquisa Datafolha evidencia a consolidação da possibilidade de transferência de votos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o ex-prefeito Fernando Haddad, caso Lula seja impedido e o candidato a vice venha ocupar o seu lugar na chapa do PT, junto com Manuela D’Ávila, do PCdoB. Como candidato a vice, Haddad já aparece na pesquisa com 4% das intenções de voto. Seu potencial de crescimento foi confirmado por 49% dos entrevistados, dos quais 31% afirmaram que votariam em um candidato indicado por Lula enquanto outros 18% admitiram essa possibilidade. Mesmo sem Lula, o Datafolha confirma o PT no segundo turno. Outro dado que está escapando a esses analistas é o índice popularidade/rejeição dos candidatos apurado na pesquisa. De acordo com o Datafolha, a menor relação é a de Lula, conhecido por 99% enquanto é rejeitado por apenas 34%, abaixo ainda das suas intenções de voto. Jair Bolsonaro é conhecido por 79%, mas sua rejeição é de 39%, o dobro das suas intenções de voto.Já Haddad é conhecido por 59% dos eleitores e sua rejeição é baixa, de apenas 21%.
    https://www.diariodocentrodomundo.com.br/datafolha-garante-transferencia-de-votos-de-lula-para-haddad-por-geraldo-seabra/ Consulta em 10/09/2018

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  • Agora é guerra

    Chegou a hora para ver quem tem unhas para tocar guitarra.
    Sabedoria popular portuguesa

    Vai ficar brutal, vai ficar intenso, vai ficar perigoso. A campanha eleitoral vai virar uma guerra pelas consciências. Dois grandes medos vão medir forças. Aquilo que foi disputado entre 2015 e 2018 nas ruas vai ser agora discutido nas casas e locais de trabalho. De um lado, o medo dos setores mais conscientes da classe trabalhadora e da juventude, dos movimentos feministas e negros, populares e ambientais contra todas as candidaturas que representam os cinquenta tons da herança de Temer e sua agenda. Do outro lado, os medos dos setores mais reacionários contra o que percebem como o perigo comunista e a herança do PT.

    Estamos uma nova etapa com a campanha eleitoral nas TV’s. Ficará claro que há dois grandes medos, mas quatro projetos e programas, embora sejam treze candidatos, e trinta e cinco partidos. Por inúmeros fatores, as eleições no Brasil são, comparativamente, mais personalizadas que em outros países. Agora que começa o horário eleitoral nas TV’s a campanha eleitoral vai mudar de qualidade. Ela vai entrar em sessenta milhões de residências. Deixará de ser um assunto restrito somente aos setores, politicamente, mais motivados da sociedade. São quatro projetos, não são dois, nem são seis, oito ou doze.

    Na classe dominante há dois campos em disputa. Alckmin e Bolsonaro não são somente duas personalidades diferentes, são dois projetos. Ambos defendem ajustes liberais severos, mas em graus e ritmos distintos. Aqueles que na esquerda se deliciam em chamar Alckmin de fascista se enganam. Não são iguais. A linha política que nivela todos os inimigos de classe não é mais revolucionária, somente, obtusa.

    A imensa maioria da Avenida Paulista sustenta um ajuste liberal gradual. Querem reduzir o deficit orçamental, e uma reforma política que começa pela reforma eleitoral com a introdução do voto distrital, no lugar da proporcionaldiade direta. O discurso ideológico dominante que sustenta a candidatura Alckmun é que o os direitos garantidos pela Constituição de 1988, uma conquista da luta social e politica contra a ditadura, são demasiado caros para a capacidade do capitalismo periférico brasileiro. Os deficit primário de 2017 se aproximou de 2% do PIB, menor que o da Argentina, mas o deficit nominal, considerado os custos da dívida, alcançou 7,8% do PIB.

    A narrativa da “bala de prata” que vai mudar tudo e atrair uma “chuva de dólares” para impulsionar o crescimento seria a reforma da previdência que deve começar pela introdução da idade mínima de 65 anos.

    Em resumo: para a economia voltar a crescer e tirar o Brasil da armadilha de países de renda média será necessário reduzir os direitos. Querem fazê-lo de forma, relativamente, gradual. A EC-95 do teto dos gastos estabeleceu variadas metas. Alckmin fala em dois anos, ou seja, chegar ao superávit primário em 2020. Apoia-se numa aposta: a possibilidade de vitaminar o IED (Investimento Estrangeiro Direto) para um patamar mais elevado que os US$70 bilhões anuais, em função do reposicionamento do governo dos EUA em relação à China.

    Diminuem o significado das contratendências, em particular: (a) a dinâmica de crescimento nos EUA e o impacto da elevação dos juros do FED para os países periféricos; (b) a força das previsíveis lutas sociais que irão se desenvolver no Brasil, diante da mudança nos padrões de superexploração dos trabalhadores e do povo. Alckmin permanece sendo a candidatura preferencial na Avenida Faria Lima.

    As outras candidaturas que defendem este projeto não são sérias. Ou não mantém relações orgânicas com frações significativas da classe dominante, ou não têm implantação social mínima. Usam as eleições, essencialmente, como trampolim para planos eleitorais posteriores. Dividem-se entre os que abraçam aventuras pessoais insustentáveis e os doutrinários ideológicos, e alguns conseguem ser ambos. Álvaro Dias usa a legenda fantasma de aluguel do Podemos para uma candidatura paroquial talibã da LavaJato. João Amoêdo é um milionário diletante extremista ao serviço de um partido Novo que é uma versão caricatural aristocrática do PSDB. Marina Dias é uma missionária pacificadora, uma caudilha sem partido e sem programa, portanto, muito mais perigosa que um caudilho com partido.

    Bolsonaro defende um plano econômico liberal de choque antipopular, mas de forma cirúrgica, em um ano, com cortes draconianos nas despesas. Mas Bolsonaro quer, também, uma mudança no regime político. Quer mais poderes para a presidência e a desvalorização do Congresso (um giro bonapartista), e empoderar as instituições não eleitas, em particular, as Forças Armadas e as Polícias. O discurso neofascista está ao serviço desta defesa de um regime político autoritário. O Cabo Daciolo é somente “poeira da história”, um “Tiririca” messiânico com um discurso paranoico.

    Na esquerda há, também, dois projetos diferentes. O mais influente ainda é o do PT. Ele promete voltar a “ser feliz”, ou seja, reafirma a estratégia de regulação do capitalismo através do papel indutor do Estado – o famoso multiplicador keynesiano – que incentivaria o consumo, e este dinamizaria a oferta, e de reformas apoiadas em políticas públicas. Ciro Gomes é um candidato a caudilho que defende uma versão do mesmo programa, mas não tem partido, não é de esquerda, e consegue, ao mesmo tempo, não ter apoio em nenhuma fração importante da burguesia, nem na classe média, nem nos movimentos populares.

    Mas surgiu um processo de reorganização da esquerda em torno de um programa de reivindicações transitórias que se expressa através da candidatura Boulos/Sonia: um programa elaborado a partir da experiência das lutas populares, e tem como eixo a defesa da mobilização permanente contra os privilégios, superando a estratégia da conciliação de classes. Um programa só conquista força política se aqueles que nele acreditam se engajam em sua defesa. O primeiro dever de um socialista é defender suas ideias.

  • É ou não é possível derrotar o golpe nestas eleições?

    As virtudes dos homens são semelhantes ao vôo dos pássaros.
    A ave que se habitua com a paisagem rasteira perde o gosto pela altura.
    Sabedoria popular indiana

    A resposta ao enunciado da pergunta do título é complicada, porém, inescapável. É complicada porque respostas simples, seja o sim ou o não, são insatisfatórias. É inescapável porque a essência da luta eleitoral é saber se o próximo governo irá ou não levar adiante o programa de ajustes econômico-sociais implementado pelo governo Temer, e que tenta reposicionar o capitalismo periférico brasileiro no mercado mundial para atrair investimentos que possam potencializar a saída da recessão.

    Evidentemente, as eleições serão em dois turnos, e a pergunta deixa implícita duas premissas incertas, neste momento, porque estamos diante de uma luta eleitoral. A primeira premissa é que a hipótese mais provável é que o segundo turno não será uma disputa entre duas candidaturas do campo político que apoiou o golpe. Uma hipótese é uma conjectura. O cálculo nesta análise é que a candidatura do PT será beneficiada pela transferência de votos de Lula em uma escala tal que permitirá ir à disputa no segundo turno. A segunda premissa é que é possível, porém, ainda muito indefinido, que a rejeição a Temer, depois de dois anos no poder, seja maior do que a rejeição ao PT.

    Isto posto, se considerarmos, por exemplo, o não, sem mediações, trata-se de uma resposta parcial e, politicamente, sectária. Porque subestima o impacto monumental que uma eventual vitória eleitoral da candidatura do PT teria sobre o estado de ânimo dos setores mais organizados da classe trabalhadora, e das massas populares, dois anos depois do impeachment, e da terrível experiência com o governo Temer. Equivale a dizer “revolução ou nada”, o que é um discurso ultimatista. Pior, em função da atual relação de forças desfavorável, em que não há, nem sequer remotamente, disposição para um confronto dessa gravidade, trata-se de um ultimato dirigido aos trabalhadores, e não ao inimigo de classe.

    A esquerda radical tem como uma das suas palavras de ordem clássicas o slogan “só a luta muda a vida”. É um slogan justo. Deve ser repetido, incansavelmente, porque é educativo e inspirador. Mas ele não autoriza concluir que as eleições não mudam nada. Porque, simplesmente, isso não é verdade. As eleições são, também, um terreno no qual a luta de classes se desenvolve, e a indiferença com o seu resultado revela uma inocência indesculpável. E tem como consequência a incompreensão de quem se deve combater, prioritariamente. Como se todas as candidaturas fossem, igualmente, inimigas. Não é possível lutar contra todos, com a mesma intensidade, o tempo todo. Na política é preciso escolher contra quem lutamos, prioritariamente, se queremos vencer.

    Já uma resposta oposta, o sim, sem mediações, é insuficiente e, politicamente, ingênua. Sobreestima o significado das eleições presidenciais, e ignora o peso da maioria reacionária que, provavelmente, será eleita para o Congresso Nacional. Desconhece o peso político que o Judiciário conquistou com a operação Lava Jato, desconsidera a força econômico-social da classe dominante, e subestima a pressão imperialista sobre o Brasil. Esquece o deslocamento de uma parcela importante da classe média para a direita, e diminui o impacto do surgimento de um movimento neofascista. Não menos importante, fantasia que um possível futuro governo liderado pelo PT estaria disposto a ir até a uma anulação da obra do golpe. O que só seria possível apelando à mobilização popular permanente, uma condição incontornável para os previsíveis confrontos, a começar pelo indulto de Lula. Acontece que o PT está autolimitado pelas próprias contradições internas de sua direção, evidenciadas durante o ano de 2015, quando Dilma Rousseff nomeou Joaquim Levy e seu plano.

    Respostas simples sem mediações são autoengano. Uma resposta mais complexa depende de como compreendemos o que foi o golpe do impeachment de Dilma Rousseff. E depende, também, de como definimos o que seria a sua derrota. Se entendermos que o golpe foi somente a derrubada do governo de coalizão liderado por Dilma, e se entendermos que sua derrota equivale, simplesmente, à eleição da candidatura do PT, então a resposta é sim, e ponto final. Só que essa conclusão é superficial, por várias razões. É uma meia verdade. Meias verdades são respostas falsas.

    Se percebermos que o golpe foi mais do que o impeachment, se percebemos que a votação no Congresso Nacional foi a forma supereestrutural de uma mudança na relação social de forças entre as classes e, em decorrência, de uma transformação da relação política de forças entre os partidos, então, a resposta é mais complicada. A classe dominante brasileira se uniu para derrubar Dilma Rousseff, depois que alguns milhões de pessoas dos setores médios foram às ruas, porque se unificou em torno de um programa: criar as condições econômico-sociais internas, através de um ajuste fiscal recessivo brutal, para que o Brasil possa disputar uma parcela da gigantesca massa de capitais disponíveis no mercado mundial, agora que os antagonismos entre os EUA e a China se intensificaram.

    Uma vitória eleitoral do campo político do golpe, ou seja, das forças políticas que apoiam o programa de ajuste fiscal resultará, certamente, ainda em 2019, em: (a) uma ofensiva para a aprovação de uma reforma da previdência que estabeleça a idade mínima aos 65 anos para acesso a aposentadoria; (b) uma ofensiva para novas privatizações de estatais, desnacionalização da economia, facilitação da entrada e saída de capitais; (c) uma ofensiva sobre a universidade pública e privatização da educação; (d) uma ofensiva sobre o SUS e facilitação da privatização da saúde, etc.

    Claro que uma derrota eleitoral das candidaturas do golpe – Bolsonaro, Alckmin, Marina Silva, Meirelles, Álvaro Dias, Amoêdo – seria um desenlace extraordinário e muito positivo. Na verdade, seria espetacular e até surpreendente.

    Seria espetacular porque teria alguma justiça poética. Afinal, teria sido muito previsível uma derrota eleitoral do PT em 2018, se o governo Dilma Rousseff tivesse cumprido seu mandato até o fim, em função tanto do agravamento da recessão prolongada iniciada em 2014, quanto da repercussão da Lava Jato.

    Mas, ainda que considerando que este desenlace teria como consequência uma elevação do ânimo na classe trabalhadora, e um previsível desnorteamento, pelo menos temporário da classe dominante, do que decorreriam condições mais favoráveis de luta, isso não permite concluir que um futuro governo do PT corresponderia, diretamente, a uma anulação da obra do golpe. Seria um cenário mais favorável, mas somente o início de uma nova conjuntura de luta.

    Nesse contexto, quanto maior for a votação da candidatura Boulos/Sonia Guajajara no primeiro turno, melhores serão as condições para a luta que virá depois das eleições, independente do resultado do segundo turno. Por três razões. Primeiro porque a ida da candidatura do PT para o segundo turno, em função da escala da disputa, não depende da votação da coligação liderada pelo PSOL. Segundo porque as condições para pressionar o PT pela esquerda serão mais favoráveis. Terceiro porque a reorganização da esquerda será impulsionada com maior força, favorecendo as condições de luta das massas populares.

    FOTO: Deputado Bruno Araujo profere o voto que autoriza o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, no plenário da Câmara dos Deputados. Marcelo Camargo/Agência Brasil

  • Por que a candidatura Boulos/Guajajara pontua, até agora, somente 1% nas pesquisas eleitorais?

                                                                                                                      Com vinagre não se apanham moscas
    Candeia que vai à frente alumia duas vezes
    Muito alcança quem não se cansa 
    Sabedoria popular portuguesa

    Perguntam-me, com alguma frequência, por que a candidatura Boulos/Guajajara pontua somente 1% nas pesquisas eleitorais até agora? É uma boa pergunta. Não estou seguro da resposta. Ou hesito. Problemas complicados têm muitas determinações. Difícil de aferir o peso relativo de, pelo menos, quatro fatores principais. Primeiro de tudo, há o desconhecimento de Boulos e Sonia entre as massas. Nunca foram candidatos e, portanto, nunca tiveram exposição nas TV’s. A televisão chega a 97% dos lares brasileiros. 36% da população não tem sequer acesso à internet. Entre os mais pobres o uso da internet chega apenas a 35%., enquanto entre os mais ricos 95%. Além disso, a campanha se faz com recursos muito limitados, sem grana, mesmo nas redes. Depende, quase exclusivamente, da doação de tempo e cotização de militantes, sem condições de atingir, em escala nacional, uma grande dimensão.

    Em segundo lugar, devemos ponderar que a ampla maioria do povo ainda não despertou sua atenção para o processo eleitoral. São muitas as razões para esta situação de desinteresse, ou até desalento com as eleições. Entre elas, a combinação de frustração e indignação; a decisão de restringir o tempo de campanha; a ausência de Lula, o candidato favorito, em função da prisão.

    Em terceiro lugar, devemos considerar a enorme resiliência da influência de Lula nos setores organizados. A experiência com os governos liderados pelo PT foi interrompida e, portanto, com o tempo, em contraste com a deterioração das condições de vida, nos últimos dois anos, foi romantizada.

    Por último, devemos que considerar que a situação defensiva diminui o espaço político para uma candidatura como a de Boulos, que ganhou projeção como o líder do MTST que organiza a ocupação de terrenos para lutar pelo direito de moradia, e se apresenta pelo PSol, um partido de esquerda radical.

    Parece claro, todavia, que há uma audiência política importante. Não se deve medir uma campanha de esquerda somente em função das pesquisas que aferem intenções momentâneas de votos. A campanha tem conseguido colocar em movimento algo em torno de cinco mil militantes, e reuniu algumas dezenas de milhares de trabalhadores e jovens em eventos presenciais por todo o Brasil. Tem uma repercussão nas redes sociais, através da visibilidade construída, entre outros, pela Mídia Ninja, que envolve alguns bons milhões de pessoas, sobretudo, jovens. E deve crescer com a exposição nos debates nas TV’s e a repercussão dos comícios, que começam no sábado que vem em São Paulo no Largo da Batata. TV e rádio gratuita, só no final do mês.

    Vamos crescer, porque a força das ideias e a honestidade dos compromissos vão abrir um caminho. Levantamos uma bandeira sem manchas. Só assim vale a pena lutar.

    Foto: Reprodução Facebook

  • Quem ganhou e quem perdeu na preparação da disputa eleitoral até agora?

    O que não tem remédio remediado está.
    Não vendas a pele do urso antes de o matar.
    No aperto e no perigo se conhece o amigo.
    Sabedoria popular portuguesa

    Alckmin e o PSDB, e Lula e o PT saíram fortalecidos. Bolsonaro e Ciro Gomes saíram diminuídos. Marina perdeu espaço político para Alckmin e caminha para a marginalidade. O PCdB fez um excelente acordo. Meirelles será uma candidatura zumbi com muito tempo de TV. Boulos tende a crescer.

    Análises não devem ser instrumentais. Interpretações engajadas são inúteis. Uma análise só é marxista se for, intelectualmente, honesta. Deve olhar as coisas como são, ainda quando a realidade nos é desconfortável. Análise séria tem compromisso com a máxima objetividade e a busca da verdade. É indispensável um distanciamento metodológico das nossas preferências. Não importa o nosso desagrado, mal estar, inquietação ou ansiedade. Uma análise só é marxista se tem como referência as classes sociais e suas representações.

    Estudar a relação de forças exige dois níveis distintos de abstração: a avaliação social e a avaliação política. A primeira considera as classes, ou seja, a estrutura da sociedade. A segunda considera as suas representações, os partidos, as lideranças. A relação de forças está sempre em disputa. Nunca permanece congelada. As mudanças quantitativas são frequentes. As qualitativas são muito mais difíceis.

    As batalhas eleitorais são, por definição, uma luta entre partidos. Mas são, também, um terreno, uma arena, um campo de disputa da luta entre as classes. Um espaço desfavorável, mas não por isso menos importante. Elas são, em condições normais, uma refração distorcida da relação social de forças. Enganam-se aqueles que pensam que elas são irrelevantes, e que tudo se disputa “nas ruas”. Enganam-se, no entanto, também, aqueles que imaginam que a classe dominante se resigna com o resultado das urnas. Nunca foi assim.

    Alckmin se consolidou como a principal candidatura da classe dominante, em especial de sua fração paulista. Saiu fortalecido até o momento porque: (a) garantiu a frente eleitoral mais poderosa, com o maior tempo de TV (que ainda conta e muito), ampla representação nacional nos palanques, e capilaridade nos Estados; (b) uma vice do Sul (que diminuiu Alvaro Dias), uma inflexão à direita (que dificulta Bolsonaro) e aliança com o agronegócio (que diminui Meirelles). Além disso, Alckmin tem um discurso: a pacificação do país contra os extremismos.

    A direção do PT conseguiu uma solução inteligente para um problema delicado. A coligação liderada pelo PT terá uma chapa formal provisória com Lula/Haddad, o que dará a Haddad direito de fazer campanha (representar Lula em debates, participar de entrevistas, viajar pelo país), enquanto defende o direito de Lula ser candidato. Mas terá uma chapa preventiva com Haddad/Manuela, para quando se oficializar a provável impugnação de Lula pelo efeito da lei da ficha limpa. Além disso, já tinham consolidado as alianças com frações do MDB como Requião no Paraná, Renan Calheiros em Alagoas, e Eunício Oliveira no Ceará.

    Existiu uma tensão final no PT nos últimos quatro dias. Foi por isso que a divulgação da chapa presidencial só feita no domingo dia 5/08 à meia noite, em cima da hora limite, porque dia 6 de agosto deve ser feita a inscrição legal. Não era esse, evidentemente, o plano original. Todo esse suspense não fazia parte do plano. E a dificuldade da finalização da negociação com o PCdB, que existiu, não foi o problema central. Parece inequívoco que a direção do PT conseguiu uma articulação inventiva para o imbroglio da formação da chapa. Os tempos na luta política têm a sua importância. E a direção do PT precisou improvisar com o cerco da Justiça Eleitoral.

    O eixo central da campanha do PT será a defesa de que a prisão de Lula culmina a obra do golpe parlamentar contra Dilma Roussefff, e teve como objetivo impedi-lo de ser candidato. Este discurso tem grande credibilidade por três razões. A primeira, e mais importante, é porque é verdade, não é um discurso ideológico, uma “narrativa”. Aconteceu mesmo uma ruptura da ordem legal com o impeachment, porque o crime de responsabilidade, previsto na lei, não foi demonstrado com as chamadas “pedaladas fiscais”. E a condenação de Lula pelo apartamento triplex foi uma aberração jurídica. E a verdade conta na luta política. A segunda é que Lula permanece favorito em todas as pesquisas, mesmo depois de cem dias preso. A terceira é que a evolução da situação econômica e social, dois anos depois do impeachment, não só não melhorou, como piorou.

    Mas a direção do PT é consciente, também, que na atual relação social e política de forças não tem condições de construir uma mobilização de massas para garantir a Lula o direito de ser candidato. Seria necessária uma mobilização na escala de milhões. As derrotas acumuladas nos últimos dois anos têm um custo, e não são indolores. Não existe disposição, ânimo, confiança entre os trabalhadores e o povo para uma comoção nessa escala. Evidentemente, a direção do PT não é inocente e tem imensas responsabilidades nestas derrotas.

    Mas a direção do PT não pode ir até ao limite de boicote das eleições. A legítima denúncia da fraude não pode ir até o ponto de “não retorno”. Por isso, a apresentação da candidatura de Lula, até o último momento, é e sempre foi, essencialmente, um instrumento de agitação para obrigar a Justiça Eleitoral a assumir a responsabilidade da impugnação.

    Existiram diversas turbulências, de tipo, força, e alcance diferentes. A resistência em aceitar o sacrifício da candidatura de Marília Arraes, em Pernambuco, sem sequer a contrapartida de uma coligação nacional do PSB, foi grande. Uniu as principais correntes da esquerda do PT – da AE (Articulação de Esquerda) à DS (Democracia Socialista), do DAP (Diálogo e Ação Petista) onde está a corrente O Trabalho, a aliados que vinham da CNB. Tudo sugere que o acordo com o PSB foi um erro. O PSB não é um partido de esquerda, é uma legenda de aluguel. Estava blefando com a possiblidade de coligar com Ciro Gomes. Explodiria, senão durante, logo depois da eleição. A sua fração de Pernambuco queria o acordo por razões, estritamente, locais, a sobrevivência do grupo em torno de Paulo Câmara, sem poder garantir compensações em Minhas Gerais ou outros Estados.

    O Encontro Nacional do PT transferiu, no sábado, a decisão final para a Executiva Nacional no domingo. Porque ficou claro que tinha que apresentar o nome do vice agora, diante da possibilidade da Justiça impugnar a inscrição da chapa, e não no prazo final do dia 15. A interpretação de que a Justiça Eleitoral poderia não aceitar a apresentação de uma chapa sem o nome do vice passou a ser, seriamente, considerada depois das ameaças explícitas feitas por Fux, alguns dias antes. Ao que parece, Lula e a direçção do PT queriam ganhar tempo para pressionar, até o último momento, Ciro Gomes a aceitar a vice, mas a ameaça de que o dia 06/08 seria o prazo final para a formalização de coligações partidárias acabou pesando mais forte. Entretanto, não tinha sido construído, internamente, o nome que irá substituir Lula, com alguma resistência ao perfil de Haddad, diante da desistência de Jacques Wagner, em princípio o favorito de Lula, no sábado, em condições nebulosas.

    Dois problemas de gestão interna do PT permanecem em aberto, mas não devem ser muito graves: (a) a projeção do nome de Haddad como “herdeiro” de Lula é pouco agregadora, e não terá futuro, a menos que chegue ao segundo turno, o que é possível, porém, imprevisível; (b) o lançamento, simultâneo, de dois vices – uma vitória do PCdB – o que sinaliza que admitem, antes da hora, como perdida a luta pela candidatura de Lula como sendo “pra valer”.

    De qualquer forma é bom lembrar que serão duas eleições. Não é somente um jogo em dois tempos, como no futebol. A candidatura do PT, com o apoio de Lula, deve ser a mais forte no Nordeste, vai certamente, bem no Norte, deve perder feio no Sul, em especial, no Paraná e Santa Catarina, provavelmente, no Centro-Oeste, e deve perder, também, no Sudeste, mas por diferença menor.

    Considerando que a coligação com Ciro Gomes era impossível, a não ser que o PT aceitasse a indicação de um vice e, portanto, admitisse, antes da votação do primeiro turno, transferir para Ciro Gomes o lugar de liderança que ainda é seu, o acordo foi o melhor que era possível. Haddad será, provavelmente, o melhor nome para um possível segundo turno, em função do peso eleitoral de São Paulo. Lula e o PT, com apoio de Ciro Gomes, carregam o nome de Haddad no nordeste, mas, dificilmente, outro nome do PT garantiria uma votação melhor em São Paulo.

    Bolsonaro, embora tenha saído, aparentemente, incólume nas sabatinas do Roda Viva e na Globo News, permaneceu isolado, ainda que sua resiliência, depois de meses de pré-campanha seja surpreendente. A coligação com o esdrúxulo PRTB, e a indicação de Mourão, um general tão ou mais extremista do que ele, não acrescenta nada, eleitoralmente, e ainda pode prejudicar, se fizer declarações provocativas.

    Ciro Gomes errou em todos os cálculos. O maior de todos, até agora, foi a subestimação do PT e de Lula: não esteve presente em São Bernardo no dia da prisão. Na sequência, fez movimentos erráticos à esquerda – declarações contra a desnacionalização do pré-sal, contra a venda da Embraer, em defesa do indulto para Lula – e à direita, com a indicação de Kátia Abreu como vice. Saiu diminuído. O PDT é uma legenda de aluguel desvertebrado, não terá palanques nos Estados, não terá tempo de TV, e sua única esperança é o desempenho nos debates. Mas encontrará pela frente Guilherme Boulos.

    A candidatura da Aliança liderada pelo Psol com Boulos/Guajajara conseguiu se firmar em um espaço à esquerda do PT como um polo de esperança na reorganização da esquerda. Tem reunido dezenas de milhares de ativistas em escala nacional. Embora ainda sem expressão nas pesquisas, o que se explica em grande medida pelo desconhecimento, é a representação de futuro para a esquerda.

    *Texto também publicado na Revista Forum