Valério Arcary

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  • Por que a candidatura Boulos/Guajajara pontua, até agora, somente 1% nas pesquisas eleitorais?

                                                                                                                      Com vinagre não se apanham moscas
    Candeia que vai à frente alumia duas vezes
    Muito alcança quem não se cansa 
    Sabedoria popular portuguesa

    Perguntam-me, com alguma frequência, por que a candidatura Boulos/Guajajara pontua somente 1% nas pesquisas eleitorais até agora? É uma boa pergunta. Não estou seguro da resposta. Ou hesito. Problemas complicados têm muitas determinações. Difícil de aferir o peso relativo de, pelo menos, quatro fatores principais. Primeiro de tudo, há o desconhecimento de Boulos e Sonia entre as massas. Nunca foram candidatos e, portanto, nunca tiveram exposição nas TV’s. A televisão chega a 97% dos lares brasileiros. 36% da população não tem sequer acesso à internet. Entre os mais pobres o uso da internet chega apenas a 35%., enquanto entre os mais ricos 95%. Além disso, a campanha se faz com recursos muito limitados, sem grana, mesmo nas redes. Depende, quase exclusivamente, da doação de tempo e cotização de militantes, sem condições de atingir, em escala nacional, uma grande dimensão.

    Em segundo lugar, devemos ponderar que a ampla maioria do povo ainda não despertou sua atenção para o processo eleitoral. São muitas as razões para esta situação de desinteresse, ou até desalento com as eleições. Entre elas, a combinação de frustração e indignação; a decisão de restringir o tempo de campanha; a ausência de Lula, o candidato favorito, em função da prisão.

    Em terceiro lugar, devemos considerar a enorme resiliência da influência de Lula nos setores organizados. A experiência com os governos liderados pelo PT foi interrompida e, portanto, com o tempo, em contraste com a deterioração das condições de vida, nos últimos dois anos, foi romantizada.

    Por último, devemos que considerar que a situação defensiva diminui o espaço político para uma candidatura como a de Boulos, que ganhou projeção como o líder do MTST que organiza a invasão de terrenos para lutar pelo direito de moradia, e se apresenta pelo PSol, um partido de esquerda radical.

    Parece claro, todavia, que há uma audiência política importante. Não se deve medir uma campanha de esquerda somente em função das pesquisas que aferem intenções momentâneas de votos. A campanha tem conseguido colocar em movimento algo em torno de cinco mil militantes, e reuniu algumas dezenas de milhares de trabalhadores e jovens em eventos presenciais por todo o Brasil. Tem uma repercussão nas redes sociais, através da visibilidade construída, entre outros, pela Mídia Ninja, que envolve alguns bons milhões de pessoas, sobretudo, jovens. E deve crescer com a exposição nos debates nas TV’s e a repercussão dos comícios, que começam no sábado que vem em São Paulo no Largo da Batata. TV e rádio gratuita, só no final do mês.

    Vamos crescer, porque a força das ideias e a honestidade dos compromissos vão abrir um caminho. Levantamos uma bandeira sem manchas. Só assim vale a pena lutar.

    Foto: Reprodução Facebook

  • Quem ganhou e quem perdeu na preparação da disputa eleitoral até agora?

    O que não tem remédio remediado está.
    Não vendas a pele do urso antes de o matar.
    No aperto e no perigo se conhece o amigo.
    Sabedoria popular portuguesa

    Alckmin e o PSDB, e Lula e o PT saíram fortalecidos. Bolsonaro e Ciro Gomes saíram diminuídos. Marina perdeu espaço político para Alckmin e caminha para a marginalidade. O PCdB fez um excelente acordo. Meirelles será uma candidatura zumbi com muito tempo de TV. Boulos tende a crescer.

    Análises não devem ser instrumentais. Interpretações engajadas são inúteis. Uma análise só é marxista se for, intelectualmente, honesta. Deve olhar as coisas como são, ainda quando a realidade nos é desconfortável. Análise séria tem compromisso com a máxima objetividade e a busca da verdade. É indispensável um distanciamento metodológico das nossas preferências. Não importa o nosso desagrado, mal estar, inquietação ou ansiedade. Uma análise só é marxista se tem como referência as classes sociais e suas representações.

    Estudar a relação de forças exige dois níveis distintos de abstração: a avaliação social e a avaliação política. A primeira considera as classes, ou seja, a estrutura da sociedade. A segunda considera as suas representações, os partidos, as lideranças. A relação de forças está sempre em disputa. Nunca permanece congelada. As mudanças quantitativas são frequentes. As qualitativas são muito mais difíceis.

    As batalhas eleitorais são, por definição, uma luta entre partidos. Mas são, também, um terreno, uma arena, um campo de disputa da luta entre as classes. Um espaço desfavorável, mas não por isso menos importante. Elas são, em condições normais, uma refração distorcida da relação social de forças. Enganam-se aqueles que pensam que elas são irrelevantes, e que tudo se disputa “nas ruas”. Enganam-se, no entanto, também, aqueles que imaginam que a classe dominante se resigna com o resultado das urnas. Nunca foi assim.

    Alckmin se consolidou como a principal candidatura da classe dominante, em especial de sua fração paulista. Saiu fortalecido até o momento porque: (a) garantiu a frente eleitoral mais poderosa, com o maior tempo de TV (que ainda conta e muito), ampla representação nacional nos palanques, e capilaridade nos Estados; (b) uma vice do Sul (que diminuiu Alvaro Dias), uma inflexão à direita (que dificulta Bolsonaro) e aliança com o agronegócio (que diminui Meirelles). Além disso, Alckmin tem um discurso: a pacificação do país contra os extremismos.

    A direção do PT conseguiu uma solução inteligente para um problema delicado. A coligação liderada pelo PT terá uma chapa formal provisória com Lula/Haddad, o que dará a Haddad direito de fazer campanha (representar Lula em debates, participar de entrevistas, viajar pelo país), enquanto defende o direito de Lula ser candidato. Mas terá uma chapa preventiva com Haddad/Manuela, para quando se oficializar a provável impugnação de Lula pelo efeito da lei da ficha limpa. Além disso, já tinham consolidado as alianças com frações do MDB como Requião no Paraná, Renan Calheiros em Alagoas, e Eunício Oliveira no Ceará.

    Existiu uma tensão final no PT nos últimos quatro dias. Foi por isso que a divulgação da chapa presidencial só feita no domingo dia 5/08 à meia noite, em cima da hora limite, porque dia 6 de agosto deve ser feita a inscrição legal. Não era esse, evidentemente, o plano original. Todo esse suspense não fazia parte do plano. E a dificuldade da finalização da negociação com o PCdB, que existiu, não foi o problema central. Parece inequívoco que a direção do PT conseguiu uma articulação inventiva para o imbroglio da formação da chapa. Os tempos na luta política têm a sua importância. E a direção do PT precisou improvisar com o cerco da Justiça Eleitoral.

    O eixo central da campanha do PT será a defesa de que a prisão de Lula culmina a obra do golpe parlamentar contra Dilma Roussefff, e teve como objetivo impedi-lo de ser candidato. Este discurso tem grande credibilidade por três razões. A primeira, e mais importante, é porque é verdade, não é um discurso ideológico, uma “narrativa”. Aconteceu mesmo uma ruptura da ordem legal com o impeachment, porque o crime de responsabilidade, previsto na lei, não foi demonstrado com as chamadas “pedaladas fiscais”. E a condenação de Lula pelo apartamento triplex foi uma aberração jurídica. E a verdade conta na luta política. A segunda é que Lula permanece favorito em todas as pesquisas, mesmo depois de cem dias preso. A terceira é que a evolução da situação econômica e social, dois anos depois do impeachment, não só não melhorou, como piorou.

    Mas a direção do PT é consciente, também, que na atual relação social e política de forças não tem condições de construir uma mobilização de massas para garantir a Lula o direito de ser candidato. Seria necessária uma mobilização na escala de milhões. As derrotas acumuladas nos últimos dois anos têm um custo, e não são indolores. Não existe disposição, ânimo, confiança entre os trabalhadores e o povo para uma comoção nessa escala. Evidentemente, a direção do PT não é inocente e tem imensas responsabilidades nestas derrotas.

    Mas a direção do PT não pode ir até ao limite de boicote das eleições. A legítima denúncia da fraude não pode ir até o ponto de “não retorno”. Por isso, a apresentação da candidatura de Lula, até o último momento, é e sempre foi, essencialmente, um instrumento de agitação para obrigar a Justiça Eleitoral a assumir a responsabilidade da impugnação.

    Existiram diversas turbulências, de tipo, força, e alcance diferentes. A resistência em aceitar o sacrifício da candidatura de Marília Arraes, em Pernambuco, sem sequer a contrapartida de uma coligação nacional do PSB, foi grande. Uniu as principais correntes da esquerda do PT – da AE (Articulação de Esquerda) à DS (Democracia Socialista), do DAP (Diálogo e Ação Petista) onde está a corrente O Trabalho, a aliados que vinham da CNB. Tudo sugere que o acordo com o PSB foi um erro. O PSB não é um partido de esquerda, é uma legenda de aluguel. Estava blefando com a possiblidade de coligar com Ciro Gomes. Explodiria, senão durante, logo depois da eleição. A sua fração de Pernambuco queria o acordo por razões, estritamente, locais, a sobrevivência do grupo em torno de Paulo Câmara, sem poder garantir compensações em Minhas Gerais ou outros Estados.

    O Encontro Nacional do PT transferiu, no sábado, a decisão final para a Executiva Nacional no domingo. Porque ficou claro que tinha que apresentar o nome do vice agora, diante da possibilidade da Justiça impugnar a inscrição da chapa, e não no prazo final do dia 15. A interpretação de que a Justiça Eleitoral poderia não aceitar a apresentação de uma chapa sem o nome do vice passou a ser, seriamente, considerada depois das ameaças explícitas feitas por Fux, alguns dias antes. Ao que parece, Lula e a direçção do PT queriam ganhar tempo para pressionar, até o último momento, Ciro Gomes a aceitar a vice, mas a ameaça de que o dia 06/08 seria o prazo final para a formalização de coligações partidárias acabou pesando mais forte. Entretanto, não tinha sido construído, internamente, o nome que irá substituir Lula, com alguma resistência ao perfil de Haddad, diante da desistência de Jacques Wagner, em princípio o favorito de Lula, no sábado, em condições nebulosas.

    Dois problemas de gestão interna do PT permanecem em aberto, mas não devem ser muito graves: (a) a projeção do nome de Haddad como “herdeiro” de Lula é pouco agregadora, e não terá futuro, a menos que chegue ao segundo turno, o que é possível, porém, imprevisível; (b) o lançamento, simultâneo, de dois vices – uma vitória do PCdB – o que sinaliza que admitem, antes da hora, como perdida a luta pela candidatura de Lula como sendo “pra valer”.

    De qualquer forma é bom lembrar que serão duas eleições. Não é somente um jogo em dois tempos, como no futebol. A candidatura do PT, com o apoio de Lula, deve ser a mais forte no Nordeste, vai certamente, bem no Norte, deve perder feio no Sul, em especial, no Paraná e Santa Catarina, provavelmente, no Centro-Oeste, e deve perder, também, no Sudeste, mas por diferença menor.

    Considerando que a coligação com Ciro Gomes era impossível, a não ser que o PT aceitasse a indicação de um vice e, portanto, admitisse, antes da votação do primeiro turno, transferir para Ciro Gomes o lugar de liderança que ainda é seu, o acordo foi o melhor que era possível. Haddad será, provavelmente, o melhor nome para um possível segundo turno, em função do peso eleitoral de São Paulo. Lula e o PT, com apoio de Ciro Gomes, carregam o nome de Haddad no nordeste, mas, dificilmente, outro nome do PT garantiria uma votação melhor em São Paulo.

    Bolsonaro, embora tenha saído, aparentemente, incólume nas sabatinas do Roda Viva e na Globo News, permaneceu isolado, ainda que sua resiliência, depois de meses de pré-campanha seja surpreendente. A coligação com o esdrúxulo PRTB, e a indicação de Mourão, um general tão ou mais extremista do que ele, não acrescenta nada, eleitoralmente, e ainda pode prejudicar, se fizer declarações provocativas.

    Ciro Gomes errou em todos os cálculos. O maior de todos, até agora, foi a subestimação do PT e de Lula: não esteve presente em São Bernardo no dia da prisão. Na sequência, fez movimentos erráticos à esquerda – declarações contra a desnacionalização do pré-sal, contra a venda da Embraer, em defesa do indulto para Lula – e à direita, com a indicação de Kátia Abreu como vice. Saiu diminuído. O PDT é uma legenda de aluguel desvertebrado, não terá palanques nos Estados, não terá tempo de TV, e sua única esperança é o desempenho nos debates. Mas encontrará pela frente Guilherme Boulos.

    A candidatura da Aliança liderada pelo Psol com Boulos/Guajajara conseguiu se firmar em um espaço à esquerda do PT como um polo de esperança na reorganização da esquerda. Tem reunido dezenas de milhares de ativistas em escala nacional. Embora ainda sem expressão nas pesquisas, o que se explica em grande medida pelo desconhecimento, é a representação de futuro para a esquerda.

    *Texto também publicado na Revista Forum

  • Bolsonaro não é um espantalho

    Confiar que o apoio da burguesia a Alckmin será o suficiente para tirar Bolsonaro do segundo turno parece ser, sendo sóbrio com as palavras, pouco responsável. E se a consequência desta estratégia for a ida de Alckmin e Bolsonaro para o segundo turno?

    Por Valério Arcary, Colunista do Esquerda Online

    Azeite de cima, mel do meio e vinho do fundo, não enganam o mundo.

    Em tempo de guerra não se limpam armas.

    Gato escaldado de água fria tem medo.

    Mãos frias, coração quente.

    Sabedoria popular portuguesa

    Enganam-se os que pensam que Bolsonaro é, somente, um espantalho. Um espantalho político é uma ameaça imaginária. Ele não é um “bode dentro da sala”. É uma ilusão conspiratória pensar que Bolsonaro foi projetado pela classe dominante para favorecer Alckmin como um mal menor, diante do desgaste sofrido pelo PSDB e a ruína de Aécio Neves. Ilusões conspiratórias são muito populares, mas são uma armadilha mental muito comum. Pior ainda é imaginar que aqueles que, a partir da defesa da candidatura Boulos/Guajajara, alertam o perigo que Bolsonaro representa estão superestimando suas forças para legitimar o apoio crítico a uma candidatura do PT. Devemos nos proteger do enviezamento da razão.

    É preciso ser rigoroso quando estudamos nossos inimigos. Quem não sabe contra quem luta não pode vencer. A qualificação de qualquer corrente política ou liderança de ultradireita como fascista é uma generalização apressada, historicamente, errada e, politicamente, ineficaz. O fascismo é um perigo tão sério que devemos ser serenos na sua definição. Toda a extrema-direita é, radicalmente, reacionária. Mas nem toda a ultradireita é fascista. A base social do conservadorismo religioso neopentecostal, por exemplo, se inclina na direção de posições reacionárias, mas não é fascista. Bolsonaro não é mais somente um personagem bizarro, grotesco, e folclórico como foi Enéas Carneiro pelo Prona em 1989. Ou o Pastor Everaldo, apoiado pela Assembleia de Deus em 2014. Bolsonaro é um líder neofascista: sua retórica nacionalista exasperada, seus discursos exaltados em defesa da repressão, suas posições anticomunistas primitivas são expressão do fascismo contemporâneo.

    Bolsonaro figura em primeiro lugar nas pesquisas, se Lula não for candidato. E a possibilidade de Lula ser candidato, na atual relação social e política de forças desfavorável, é nula. Poderá ou não perder audiência diante de Alckmin. Impossível prever com seriedade o desenlace dessa disputa. Nenhuma fração burguesa importante o apoia, mas ele vem conquistando simpatias. Bolsonaro não conquistou um partido político com implantação nacional e capilaridade regional, o que limitará o seu tempo de exposição na TV. A rejeição a Bolsonaro está em patamares muito elevados, e continua crescendo. É muito improvável que possa vencer as eleições, mas é necessário considerar que tem chances de ir a um eventual segundo turno. Trata-se de um erro gravíssimo subestimar um inimigo real tão perigoso.

    A audiência de Bolsonaro aumentou, qualitativamente, nos últimos dois anos. Como todo fenômeno político-social complexo ela se explica pela combinação de variados fatores: o desemprego de mais de 10% da população economicamente ativa, sem comparação nos últimos quarenta anos; o empobrecimento dos setores médios; o agravamento da crise social nos últimos quatro anos, com o crescimento das facções criminosas; o impacto da operação Lava Jato; a criminalização da direção do PT, em especial, de Lula; o impacto da campanha ideológica que reduz a explicação da crise à corrupção; uma reação, furiosamente, reacionária, às lutas dos oprimidos, etc.

    O fascismo se combate no terreno eleitoral, mas não poderá ser derrotado somente com um voto na urna. Há um debate na esquerda brasileira sobre qual deve ser a estratégia eleitoral. Uma estratégia eleitoral se define em função de um objetivo central. Não podem ser cinco objetivos. Quando se trata de uma luta pela consciência de dezenas de milhões não se pode lutar contra todos ao mesmo tempo. Mas nós não escolhemos as condições “ideais” para lutar. Escolhas terão que ser feitas. É razoável escolher como único inimigo somente Alckmin? É sensato preferir deixar para combater Bolsonaro somente em hipotético segundo turno?

    A candidatura da imensa maioria da burguesia brasileira é Alckmin. Ela é, evidentemente, uma das favoritas para chegar ao segundo turno, por variadas razões. Mas confiar que o apoio da burguesia a Alckmin será o suficiente para tirar Bolsonaro do segundo turno parece ser, sendo sóbrio com as palavras, pouco responsável. E se a consequência desta estratégia for a ida de Alckmin e Bolsonaro para o segundo turno? Não existe esse risco? Por quê?

    Sim, a liderança de Lula é muito grande. A resiliência de sua influência depois de mais de três meses preso é um dos fatos centrais da conjuntura. Acontece que a prisão de Lula é uma das consequências centrais do golpe parlamentar, e sua possibilidade de influir estará, severamente, restringida. Mesmo considerando o padrão elevado de transferência de votos que prevaleceu no Brasil nas últimas três décadas, acima de 60%, uma candidatura do PT – Wagner ou Haddad, ao que parece – projeta, na melhor das hipóteses, um horizonte entre 20% e 25%. Essa é uma votação que estaria ainda em terreno inseguro, disputando uma vaga.

    Não menos grave é a hipótese de que a rejeição a Bolsonaro será suficiente para que ele seja, mais facilmente, derrotado em um segundo turno. O mais provável, se essas circunstâncias acontecerem, seria uma divisão da classe dominante. Uma vitória de Bolsonaro não estaria, a priori, portanto, descartada. O que significaria um cenário devastador para 2019.

    Uma estratégia eleitoral não se define somente pela informação das pesquisas do momento. Ela só é séria se considera, honestamente, objetivos políticos de maior fôlego. Não se pode lutar contra Alckmin sem enfrentar Bolsonaro. Não se deve fazer isso porque seria uma busca por um atalho. Esse atalho não existe. É pensamento mágico. Pior, procurar esse atalho seria oportunista. Oportunista porque seria a ilusão de que podemos aproveitar as “circunstâncias”: “o problema é do Alckmin e da Avenida Paulista”. Este raciocínio é de máxima gravidade.

    Tampouco se deve fazer porque seria inócuo, ineficaz, inútil. Bolsonaro vai se apresentar como o inimigo nº 1 da esquerda e denunciá-lo é uma questão de princípios, inegociável. Sim, os princípíos importam. Combater o fascismo sem arrego é um princípio. Ignorá-lo seria, também, fatal. Desmoralizaria a nossa base social.
    Bolsonaro lidera um movimento. Ele responde à demanda de liderança forte face à corrupção no governo; de comando diante do agravamento da crise da segurança pública; de ressentimento diante do peso dos impostos sobre a classe média; de ruína de pequenos negócios diante da regressão econômica; de pauperização diante da inflação dos custos da educação, saúde e segurança privadas; de ordem diante das greves e manifestações; de autoridade diante do impasse da disputa política entre as instituições; de orgulho nacional diante da regressão econômica dos últimos quatro anos. Até a presença de refugiados e imigrantes venezuelanos, haitianos, bolivianos tem servido para alimentar fobias xenófobas. Responde, também, à nostalgia fantasiada das duas décadas da ditadura militar em franjas das classes médias exasperadas. Não fosse isso o bastante, conquistou visibilidade dando expressão ao ódio de ambientes sociais retrógados e arcaicos à luta do feminismo, do movimento negro e LGBT, ou até dos ecologistas.

    Ele é o porta-voz de um programa neofascista. Sobreviverá a outubro, infelizmente. Um candidato que mantém uma preferência que gira em torno de 20% há muitos meses é, também, eleitoralmente, muito competitivo. Está na disputa pelo espaço do voto conservador, muito maior que os votos do núcleo duro fascistóide. Bolsonaro precisa devorar o voto que, há décadas, tem sido arrastado pelos candidatos do PSDB.

    Mas a esquerda não pode terceirizar para Alckmin a tarefa de tirar Bolsonaro do segundo turno. Ao contrário, devemos acusar Alckmin e o PSDB como responsáveis por terem tirado o monstro da jaula quando marcharam juntos nas ruas para construir a base social para o golpe parlamentar em 2016.

    Bolsonaro, e aqueles que o acompanham, sabem muito bem que as lutas decisivas se farão depois das eleições. Porque eles querem nos destruir, se tiverem força para tanto. Uma esquerda séria deve combater de frente os fascistas agora, e se preparar para aquilo que virá. Vai ficar feio. Bolsonaro não é um espantalho. A hora de ver “quem tem unhas para tocar guitarra”, como dizem os portugueses, está chegando.

     

  • A identidade de um revolucionário

    Recebo, de vez em quando, mensagens de jovens que não conheço, pessoalmente, e pelo facebook me perguntam se ainda é possível a luta pelo socialismo. Percebo que têm aversão à injustiça e simpatia pela causa dos trabalhadores. Mas se interrogam sobre o sentido da dedicação à militância neste século XXI. Vale a pena? Quais são os maiores desafios e perigos? Escrevi este texto como se fosse uma mensagem pessoal de resposta.

    Foi há mais de quarenta anos que me uni à causa do socialismo. Como tantos outros, e após tantos outros, os anos me levaram a inocência. Não obstante, a esperança nunca diminuiu. Até hoje, aquela promessa, uma aposta suspensa no tempo, ou um pacto com o futuro permanece viva. Ainda que a espera seja longa.

    Essa escolha ideológica e, em correspondência, o compromisso militante, não foi incomum entre os da minha geração, por muitas e variadas razões. Ela definiu a minha vida, e isso não é dizer pouco. Embora de extração social, relativamente, privilegiada, para o que era o Brasil dos anos cinquenta, porque filho da classe média assalariada com ensino médio – uma escolaridade elevada naqueles tempos – funcionários públicos de uma burocracia que se profissionalizava, em um Brasil que crescia e se urbanizava, minha vida foi atropelada na madrugada de um longínquo 25 de Abril, em Lisboa, nos idos de 1974.

    Cheguei ao que poderíamos chamar de vida “consciente” na primeira metade dos anos 70: meia dúzia de anos depois de 1968, mas antes da ascensão de Reagan e Thatcher; depois dos Beatles, mas antes dos punks; depois das calças bocas de sino e antes dos paletós com ombreiras gigantes; em tempo de ver Pelé brilhar na Copa do México de 1970 e antes de Maradona; quinze anos depois da pílula e dez anos antes da epidemia da Aids. Se tivesse ficado no Brasil, teria Médici pela frente, mas estava em Portugal: o 25 de abril despertou a primavera dos meus dezessete anos. Em resumo: tudo considerado, tive sorte. Nasceu, então, uma fé de que o improvável era possível. Viver uma situação revolucionária quando iniciava a vida adulta foi acidental e maravilhoso. Aprendi que era possível.

    Descobri o marxismo na resistência à ditadura de Marcelo Caetano em Portugal e, talvez por que fosse estrangeiro, me senti atraído, irresistivelmente, pelo internacionalismo. Associei-me aos “troskos”, à luta pela Quarta Internacional, uma das tendências mais críticas do marxismo, sofrendo forte influência política de exilados argentinos. A paixão desse marxismo de juventude foi sendo polida, e até corrigida sob muitas e variadas influências. Porém, permaneceu. Essas escolhas levaram a que tenha me engajado na construção da Convergência Socialista (1978/1994) e, depois, do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado. Desde 2016 construi o MAIS (Movimento por uma Alternativa Independente e Socialista) que entrou no PSOL em 2017. Fruto de uma unificação do MAIS e da NOS (Nova Organização Socialista) fundamos a Resistência, corrente interna do PSOL, em 2018.Militei nos últimos quarenta anos sob a mesma bandeira: o internacionalismo marxista. Sou um trotskista. Isso requer uma explicação.

    O termo marxista surgiu pela primeira vez em 1872, quando a disputa política esquentou dentro da Primeira Internacional, às vésperas do congresso de Hague. O adjetivo foi cunhado por Bakunin, em uma carta para a organização de sua fração, com referências muito mordazes e meio anti-semitas, ao “grupo judeu-teutônico” ou “marxista”, que “pretendia transformar a Internacional em uma espécie de Estado”. Parece certo que Marx sempre se sentiu pouco confortável com esse termo, mesmo quando ele foi utilizado, em correspondências, por militantes do seu círculo mais próximo, como Lafargue. Não porque considerasse impróprio identificar a sua tendência como uma corrente diferenciada. Nem porque quisesse diminuir o seu papel pessoal, mas porque temia as consequências da personalização de um conjunto de idéias, que pretendia ter ajudado a criar como um legado à luta e organização independente dos trabalhadores.[1] Com o tempo, no entanto, depois da morte de Marx, o estigma se perdeu e os próprios seguidores de Marx passaram a utilizar o termo, e assim entrou na história. Não temos porque ignorá-lo.

    O termo trotskista foi cunhado, também, pelos inimigos políticos da corrente que Trotsky passou a animar em meados dos vinte do século passado na luta contra a burocratização do Estado na URSS. Identificar-me como um trotskista quer dizer que considero que a obra de Trotsky permanece a melhor referência de continuidade do marxismo para compreender os impasses da luta contra o capitalismo. Sou, também, um morenista. O que quer dizer que sou um trotskista latino-americano que considera a obra de Nahuel Moreno uma inspiração: pela orientação em direção da classe trabalhadora, em especial a classe operária industrial, e pelo internacionalismo apaixonado.

    Aprendi ao longo destes quarenta anos que a militância é, em primeiro lugar, um compromisso com um programa e a disposição de lutar pela sua defesa. Um programa é uma visão do mundo e um projeto. Mas só isso não basta para manter uma militância com tenacidade. É preciso reencontrar novas forças quando estamos angustiados pelo esgotamento. É preciso constância, até obstinação. Então, o que fazer?

    Bom, se você quer mudar o mundo saiba que vai ser preciso estar disposto a mudar a si mesmo. A primeira qualidade de um socialista é a sua integridade moral. A decadência vergonhosa da direção e, também, do aparelho profissional do PT confirma que o mau caráter, a duplicidade e, portanto, a desonestidade são o endereço final da adaptação política. Não é possível uma vida decente sem indignação contra a exploração, sem repulsa contra todas as formas de opressão, sem revolta contra a dominação. É preciso honestidade de propósitos, inteireza de princípios, retidão de caráter, amor pela justiça, e sobriedade de conduta.

    Acontece que a autotransformação é um processo ininterrupto de educação, tem idas e voltas. Avançamos e recuamos. Somos vulneráveis às pressões do tempo e do meio em que estamos inseridos. E as pressões de inércia reacionárias são muito poderosas, e ninguém está imune. Ninguém é tão firme, tão sólido, tão coerente o tempo todo. Somos imperfeitos. Temos defeitos, medos, vícios, limites. Prepare-se para tropeçar. Porque você vai cair, vai trair a si próprio, vai se decepcionar com os outros e, pior ainda, vai se frustrar consigo mesmo. Mais de uma vez vai ter que encontrar forças para levantar a cabeça, sacudir a poeira e dar a volta por cima. Vai ter que aprender a ter paciência com os outros.

    E, claro, em algum momento vai se desmoralizar. Vai ter pena de si próprio, e vai pensar em desistir. Mas a autocompaixão, ou autocomiseração é má conselheira. Todos temos direito a um pouquinho de autocompaixão, desde que dediquemos o dobro do tema a aprender a rir de nós mesmos.

    O que é preciso é empatia e compaixão com a dor daqueles que sofrem e lutam. Compaixão é a capacidade de nos colocarmos no lugar dos outros, e viver os medos e as esperanças dos trabalhadores, e de todos os oprimidos como se fossem as nossas. Empatia é a capacidade de sentir o que a maioria está sentindo.

    Em segundo lugar, se você quer mudar o mundo saiba que vai ser preciso agir. Não adianta nada saber que o mundo é injusto e permanecer imobilizado, e ficar prostrado. A ação militante exige coragem. Sem a participação nas lutas dos trabalhadores, da juventude, das massas populares nada vai mudar. A militância é uma oferta, uma entrega, uma doação, uma aposta. Só que o ativismo não é somente uma doação de seu entusiasmo, seu tempo, ou até de seu dinheiro.

    É uma mudança completa de atitude. Porque não adianta agir sem pensar. É preciso aprender a pensar. Para não agir errado. Nada vai mudar se nossa ação é irrefletida. É preciso compreender como o mundo funciona para transformá-lo. É preciso observar, estudar, instruir-se, e ponderar. Para poder agir a favor da mudança que é necessária é preciso estar disposto a aprender. Agir sem pensar é voluntarismo. Agir sem refletir é uma aventura. Investigar sem agir é diletância. Não se pode nunca perder a disposição de enfrentar o combate. Sim, a militância é um combate. Os militantes são os lutadores. Em qualquer luta há a possibilidade de vitórias e derrotas. É na ação que você recuperará as forças perdidas.

    Em terceiro lugar, se você quer mudar o mundo saiba que vai ser necessário aprender a fazer a crítica e, mais difícil, a autocrítica. A militância anticapitalista é uma escola de ação e discussão. Isso exige organização. Aderir a uma organização é um ato voluntário, mas assim como ela deve garantir direitos, deve exigir deveres. Nenhuma organização é útil sem disciplina. Uma organização é um instrumento para aumentar a eficácia da luta. É uma ferramenta indispensável. Uma organização revolucionária está sempre cercada de inimigos. Ela é uma ameaça à ordem existente e precisa se proteger. A organização é uma fraternidade de lutadores. Ela deve ter fronteiras claras, precisa de muralhas. Se estiver demasiado exposta às pressões reacionárias das classes hostis aos trabalhadores será destruída. Se estiver demasiado fechada se habituará a agir dentro de sua “zona de conforto”, e será incapaz de se transformar, de se ligar aos trabalhadores, e permanecerá marginal na luta de classes.

    Devemos ser conscientes que só serão úteis, estrategicamente, as organizações que controlamos. Esse é o papel da democracia revolucionária. Sem democracia interna não há controles. A democracia não é só o direito de fazer críticas. É o dever de dizer aquilo que pensamos. Mas é preciso aprender a criticar os outros. Quando criticamos algo que alguém fez, ou defendeu, é obrigatório ter respeito. E quem exerce o direito da crítica tem, também, o dever de ser capaz de fazer, quando for apropriado, a autocrítica. Porque ninguém é infalível. Só que autocrítica tem que ser voluntária, senão é humilhação. Ninguém se diminui ao admitir os seus erros. Ao contrário, amadurece, se agiganta, se fortalece.

    Em quarto lugar, se você quer mudar o mundo saiba que é preciso cultivar o desapego e o altruísmo. Nunca esquecer que militância socialista digna é abnegação, desprendimento, desinteresse e afinco. Tudo ao contrário da terrível realidade que nos cerca. Tudo ao contrário das ideias que são dominantes. Tudo ao contrário do comportamento individualista que prevalece. A doação que fazemos ao trabalharmos, voluntariamente, portanto, de graça pelo bem comum nos engrandece. As pressões sociais valorizam as recompensas imediatas, sejam materiais ou emocionais. Uma militância séria não irá melhorar a sua vida econômica. Ao contrário, vai exigir de você a disposição de, quem sabe, até perder oportunidades de prosperar. Mas tenha atenção porque a corrupção de um indivíduo não é feita somente com apelos à cobiça de dinheiro. A mesquinhez é, também, alimentada pelo apetite de sucesso e prestígio. A auréola de glória pode, também, corromper. O apetite de reconhecimento e a ambição de poder podem, também, nos perverter. Na militância não podem existir agendas ocultas. O impulso militante deve estar ao serviço da grandeza do projeto. Isso significa aprender a dominar a tentação de vaidade, a arrogância, o orgulho. Finalmente, é preciso ter a maturidade de aceitar que uma militância séria exige a divisão de tarefas, porque se impõe a necessidade de especialistas. Mas isso não pode dar lugar à competição por cargos. Devemos admirar os despojados.

    Por último, se você quer mudar o mundo saiba que a fraternidade deve começar aqui e agora. Há que valorizar a dimensão subjetiva da vida. Encontrar na luta a força de valores mais elevados. Eles são simples, porém, insubstituíveis. A solidariedade, a amizade e o amor. A confiança mútua que só se constrói com o respeito pela nossa diversidade, e pelo compromisso com a luta pela libertação dos explorados e oprimidos.

    Tudo isso posto, vem o que é o mais importante. É preciso clareza estratégica, e disciplina política. Porque não adianta ter razão sozinho. Procure escolher com cuidado a organização à qual você vai se unir. Cuide de que ela abrace o internacionalismo que nos ensina que um povo que oprime outro não pode ser livre. Não é possível uma luta contra um inimigo mundial somente dentro de fronteiras nacionais. Procure uma organização com um programa marxista, e que seja coerente entre o que diz e o que faz.  Tome cuidado em verificar se ela reivindica, honesta e humildemente, um legado que vem de longe. Mas atente para considerar se ela está disposta a tentar se reinventar. Porque novas realidades exigem novas explicações. Mas cuidado, não se deixe iludir por discursos que querem “reinventar a roda” e só têm como identidade a necessidade de afirmar que são o “novo”.  Por último, saiba que tudo vai depender, finalmente, da união e força dos trabalhadores. Procure uma orientação na direção dos trabalhadores e suas lutas. Eles são os portadores da esperança.


    [1] Marx, talvez, até exagerasse na sua hostilidade em ter quaisquer relações com as organizações sectárias do seu tempo, e, pela mesma razão, nunca lhe ocorreu a idéia de construir uma seita “marxista”. Não porque ignorasse que as organizações com pouca influência pudessem cumprir um papel progressivo em determinadas situações, afinal, uma tendência política pode ser pequena, ou até “liliputeana”, por força das circunstâncias, e não pela sua vocação. Mas toda a  preocupação de Marx, durante os anos de vida da Primeira Internacional, o período mais significativo de sua militância junto ao movimento operário, foi procurando uma aproximação das organizações de massas dos trabalhadores. A orientação na direção de uma organização independente de classe governava os seus esforços, nesse terreno. De qualquer maneira, não seria razoável considerar, ainda hoje, em vigência, os critérios que orientavam a política de organização do movimento operário do século passado. Sobre esse tema, vale a pena conferir um trecho de uma famosa carta de 1871: “A Internacional foi fundada para substituir as seitas socialistas ou semi-socialistas pela organização real da classe trabalhadora para a luta. Tanto os primeiros estatutos como o “Manifesto lnaugural” revelam isso à primeira vista. Por outra parte, a Internacional não teria podido afirmar-se se a marcha da história não tivesse se encarregado de acabar com o regime das seitas. O desenvolvimento do regime interno das seitas socialistas e do movimento dos trabalhadores estão em razão inversa. Quando as seitas são (historicamente) legítimas é porque a classe trabalhadora ainda não está madura para um desenvolvimento histónco independente. Assim que ela atinja essa maturidade todas as seitas são essencialmente reacionárias. No entanto, na história da Internacional se repetiu o que se dá sempre na história. O caduco busca uma nova acomodação e tenta fazer-se valer dentro das novas formas conquistadas. E a história da Internacional tem sido uma luta constante do Conselho Geral contra a seitas e as tentativas diletantes de se impôr dentro da Intcrnacional contra o movimento real da classe trabalhadora(tradução nossa). MARX, Karl, Carta a Friedrich Bolte de 23 de Novembro de 1871, in La Internacional, Mexico, Fondo de Cultura Económica, obras fundamentales, volume 17, 1988, p.614.

  • Por que somos contra uma candidatura ‘única’ de esquerda nas eleições?

    Barata sabida não atravessa galinheiro.
    Não adianta chorar sobre o leite derramado.
    Não confie na sorte. O triunfo nasce da luta.
    Sabedoria popular brasileira

    Estamos diante de muita pressão por uma candidatura única de esquerda. Um mais um em política não é igual a dois. A esquerda deve ter a lucidez de se unir contra os inimigos comuns. Sim, há uniões que fortalecem, como a Frente Única contra os fascistas. Ou a Frente Única contra Temer. Ou a Frente Única pelo direito de Lula ser candidato.

    Mas uma frente eleitoral exige muito mais do que a disposição de lutar contra inimigos comuns. Exige, também, para se credenciar, seriamente, como uma alternativa algo mais, algo além do que somente a formulação de um programa no papel. A aliança em torno de Boulos/Sonia Guajajara ganhou o direito de se candidatar nas horas decisivas da luta de classes dos últimos cinco anos. Ganhou legitimidade nas ruas em junho de 2013, e na luta contra o impeachment. Alguns na esquerda estiveram muito bem em Junho de 2013, como o PSTU e outras forças na esquerda. Mas se posicionaram muito mal na luta contra o golpe em 2016. Outros, como a maioria do PT, fizeram as escolhas inversas, mas não menos graves.

    Uma Frente eleitoral é de natureza distinta do que uma frente única para lutar por objetivos específicos, porque exige um programa. Não pode ser construída somente contra os inimigos comuns, ou reivindicações parciais. O programa eleitoral não pode ceder às pressões possibilistas ou às tentações maximalistas.

    O PT estaria, realmente, disposto a autocríticas do balanco dos treze anos? Alguma autocrítica? O PT estaria disposto a criticar o impacto do tripé macroeconômico que ficou de pé com Palocci, quando estava associado à consultoria de, ninguém menos, que Delfim Netto? E reavaliar a proposta de reforma da previdência defendida por Dilma Rousseff com Joaquim Levy à frente da Fazenda? Algo a dizer sobre as privatizações? Ou sobre as alianças com o agronegócio? Os sobre os compromissos com a governabilidade, via Congresso Nacional? Disposto a defender o fim da Lei de Responsabilidade Fiscal e a busca do superávit fiscal, por exemplo? Disposto a criticar as alianças, com o Centrão por alguns anos, e com o PMDB?

    Exigir estas reavaliações seria exigir demais? Seria ultimatismo? Será possível pensar em um futuro para a esquerda sem retirar lições destas experiências? A resposta lúcida, madura, clara, cristalina, incontornável é não. Para o PCdB o caminho para uma coligação com o PT é diferente do que para a Aliança construída pelo Psol. O PCdB participou nos governos Lula e Dilma, porque tinha acordo no fundamental com os programas dos governos Lula e Dilma Rousseff. Durante treze anos não fizeram diferenciação alguma. O PSOL não tinha acordo.

    Sejamos sérios. Mantenhamos o respeito. Temos responsabilidades imensas. Aqueles que construímos a candidatura Boulos/Guajajara acreditamos que é preciso incendiar uma nova esperança na esquerda. O Psol foi oposição de esquerda aos governos do PT em função destas e outras diferenças programáticas. Não pensamos que foi errada esta localização estratégica. Além disso, as eleições serão em dois turnos. Como já ficou claro, o Psol é um aliado honesto na luta contra a perseguição ao PT, e Boulos não será um obstáculo para que Lula possa ser candidato.

    E honestidade importa. O PT não deveria ser um obstáculo para que Boulos e a Aliança construída pelo Psol possam defender outro programa. Deveria ter grandeza, considerando o lugar do MTST e do PSOL na luta contra o impeachment. O PSOL e o MTST tiveram uma posição de princípios. O PSOl e o MTST estiveram juntos também, ao lado da mídia ninja, nas ruas na Jornadas de Junho, quando o PT estava na prefeitura de São Paulo e no governo em Brasília. A Aliança em torno de Boulos e Sonia Guajajara pode se apresentar diante dos setores organizados dos trabalhadores e da juventude de cabeça erguida. Seu papel será o de chamar à luta os que perderam a esperança. O que é preciso é inflamar o ânimo dos que caíram no desalento. O lugar da esquerda nas eleições é convocar a maioria do povo a confiar na força imbatível de sua mobilização.

    Porque a aliança é uma centelha para as mobilizações que virão. Só a luta muda a vida. Será um instrumento útil na luta para tirar Bolsonaro do segundo turno. Será um ponto de apoio para a organização de milhares de ativistas para as lutas que virão. Esta atitude deve se expresser nos critérios para a elaboração do programa.

    Um programa eleitoral de esquerda deve ser um programa de mobilização. Um programa eleitoral responde à disputa política. A disputa política é a forma como se debate a luta pelo poder. Ou seja, à questão de quem deve governar, como governar e contra quem governar. Devem ser ideias poderosas para entusiasmar, cativar, incendiar, encantar a rebeldia da juventude e do povo. Devem inspirar que outra vida é possível. O eixo do programa das candidaturas Boulos Guajajara é, corretamente, a luta contra as desigualdades sociais que explicam os dramas que castigam a vida da imensa maioria dos trabalhadores e do povo. As propostas estão centradas na ideia de que sem luta e participação popular não é possível mudar o Brasil.

    Não é incomum que se confunda um programa eleitoral com uma plataforma de reivindicações sindicais ou populares. Ou com um programa de gestão do Estado, um programa de governo. Não é nenhum dos dois. Uma plataforma de reivindicações expressa demandas que uma categoria de trabalhadores, como os professores em luta pela valorização salarial, ou um movimento popular, como o de luta pela moradia ou pela terra, apresentam como exigências a um governo de plantão. São reivindicações específicas. Mas, mesmo quando são reivindicações unitárias, uma plataforma de reivindicações tem uma natureza distinta de um programa eleitoral. No ano passado, por exemplo, o repúdio às propostas de Reforma da Previdência foi o combustível para a realização de uma das maiores greves gerais desde os anos oitenta. Essa plataforma de reivindicações tinha o objetivo de construir uma frente única para a ação. Ela tinha de ser um denominador comum que alicerçava a frente única das Centrais Sindicais (CUT. Força Sindical, Nova Central, CTB, CSP/Conlutas, e outras) e movimentos sociais. Nas eleições, cada partido apresenta as suas propostas. O papel da Aliança PSOL/PCB e movimentos sociais é apresentar as suas próprias propostas.

    A elaboração do programa eleitoral deve estar contextualizada por uma análise de quais são os problemas mais graves que afetam os trabalhadores e o povo. Mas está condicionado por uma análise da conjuntura política. As condições impostas pela conjuntura adversa contam. Senão, o programa eleitoral seria, essencialmente, sempre o mesmo, não importando se as eleições vão ocorrer em 1998, 2028, ou em 2018. Somos socialistas, e devemos defender a necessidade do socialismo nas eleições. Seria, politicamente, desonesto e, de resto, absurdo, esconder nossa identidade programática, nosso projeto histórico. Mas a defesa do socialismo ou da revolução não é, em si e só por si, um programa eleitoral. Não podemos concorrer no Brasil com o programa da Comuna de Paris de 1871. Nosso programa eleitoral deve reconhecer as condições em que a disputa se realiza. Estas condições são, fundamentalmente, duas: depois do golpe parlamentar-institucional de 2016, e na sequência de treze anos de governos de conciliação sob a liderança do PT. Diminuir o impacto das terríveis sequelas originadas pelo golpe nos deixaria separados da experiência prática de dezenas de milhões que estão vendo suas vidas piorarem dia a dia dese o impeachment de Dilma Rousseff. Desconhecer o balanço dos treze anos de governos liderados pelo PT nos deslegitimaria como uma nova alternativa de esquerda.

    O programa eleitoral deve identificar contra quem lutamos e nossa decisão de derrotá-los. Grandes mobilizações de massas não se movem apenas por indignação ou pela percepção da injustiça. Precisamos, também, de ter gente ativa que acredita que pode ganhar, mesmo que sejam vitórias parciais. A perspectiva de que vitórias são possíveis importa. Por mais modestas, por mais pequenas, por mais invisíveis que possam parecer, essas vitórias semeiam uma disposição por mais mobilização do que todos os “apelos à resistência”. Diminuir o drama da vida das pessoas com ligeireza é de uma rigidez doutrinária imperdoável. Propostas sérias não são o mesmo, e não podem ser reduzidas a propostas “viáveis”. Propostas sérias devem ser concretas. Propostas sérias devem ser iniciativas pelas quais vale a pena lutar. Propostas “viáveis” é uma fórmula que desconsidera que a primeira responsabilidade de uma esquerda radical é demonstrar que é preciso mudar as condições da luta política. Uma esquerda que não é útil é inofensiva. Uma esquerda útil deve ser perigosa.

    Um programa eleitoral não precisa ser, também, um programa de gestão. Um programa de gestão precisa considerar incontáveis fatores, entre eles, o tempo. Fantasiar que um partido de esquerda ao chegar ao poder poderia fazer o que quisesse seria infantil e tolo. O que fazer, imediatamente, para garantir que o governo não seja derrubado? Como construir as condições de médio prazo para tomar tais ou quais medidas? Imaginar que se possa, por antecipação, encontrar todas as soluções, desconhecendo os inimigos e suas iniciativas, é ingênuo e doutrinário. Não há fórmulas universais pré-estabelecidas para enfrentar as forças reacionárias. A não ser um critério que passou a prova no laboratório da história: não é possível lutar pela transformação da sociedade sem despertar a fúria contrarrevolucionária da classe dominante.

    Imagem:  kandisnky 1911

  • Como discutir com os reacionários?

    Em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão.
    Quanto mais te agachas, mais te põem o pé em cima.
    Sabedoria popular portuguesa

    O cenário é ruim. Um candidato neofascista, Jair Bolsonaro, pode chegar ao segundo turno das eleições presidenciais, pela primeira vez, desde o fim da ditadura militar. A bandeira da “intervenção militar” adquiriu influência real. Ou seja, a situação é grave. Mas as eleições estão, totalmente, indefinidas.

    Uma questão que se coloca para todos nós é saber se é ou não necessário discutir com reacionários. Como devemos fazer a luta política? Será que vale a pena? Vale a pena. Podemos vencer na luta ideológica porque nossos argumentos são mais fortes.

    É necessário dialogar com milhões de pessoas que estão influenciados por ideias reacionárias. É necessário por três razões principais. Primeiro, porque eles são muitos. Segundo, porque não são poucos os trabalhadores e jovens influenciados pelas suas ideias. Terceiro, porque é na discussão que nos educamos, temperamos, e fortalecemos a nós mesmos. Insistir que é necessário não quer dizer que é fácil. Não é fácil. Não é uma experiência divertida. É uma dureza. Trata-se de uma luta que exige paciência, autocontrole, firmeza, portanto, dedicação.

    Reacionários são conservadores que defendem a preservação da ordem atual. Esse é o seu calcanhar de Aquiles. Porque acreditam que o maior problema do Brasil é a desonestidade, a deliquência e a corrupção. Têm uma percepção de que a sociedade está dividida entre as pessoas do bem, e os outros. Defendem que o capitalismo funciona, as regras são corretas, mas as pessoas decepcionam. Defendem que há muitos direitos e poucos deveres. Devemos dizer o contrário. Há muitos deveres e poucos direitos. As regras são injustas. Há que mudar as regras, e defender as pessoas.

    Precisamos entender a mentalidade de um reacionário. Um reacionário é alguém que está convencido que as pessoas são, naturalmente, desiguais. Sendo alguns mais corajosos, inteligentes e até generosos do que outros, a luta contra a desigualdade social premiaria a mediocridade, sacrificaria o talento, estimularia a preguiça. Vivem a ilusão infantil de que a sociedade está dilacerada entre ricos e pobres porque alguns poucos são mais capazes. Portanto a igualdade social seria impossível. Pior, seria disfuncional. Seria uma distopia monstruosa. Porque ao promover a igualdade social sacrificaria o progresso e a prosperidade.

    Ser de esquerda não é defender que as pessoas têm capacidades iguais. Felizmente, não têm, e o que prevalece na condição humana é a diversidade. Temos habilidades variadas que se complementam e se compensam. Isso é enriquecedor. Acontece que as diferenças sociais que fragmentam a sociedade em classes não repousam nas diferentes capacidades dos indivíduos. Essa idealização da meritocracia é um veneno ideológico para tentar justificar o absurdo. Os talentos estão distribuídos em todas as classes sociais. Mas como os filhos da maioria do povo têm menos oportunidades, milhares e milhares de jovens com aptidões excepcionais têm os destinos de suas vidas, tragicamente, sacrificadas. A aposta socialista é que uma sociedade socialista permitiria o pleno desenvolvimento das capacidades de todos. Nosso coletivismo se inspira na solidariedade para favorecer a autonomia dos indivíduos, não a sua anulação.

    A aposta socialista não se deixa seduzir, tampouco, pelo mito de um progresso a qualquer preço. Assim como deve haver regulação social da riqueza, deve haver limites políticos na exploração da natureza. O perigo de uma catástofre ambiental provocada pelo aquecimento global sinaliza até onde pode ir a loucura da voracidade capitalista.

    Reacionários defendem que o socialismo seria a tirania da chatice, da caretice, do tédio e, no limite, a destruição da liberdade. Para um reacionário, liberdade e igualdade são valores incompatíveis. Ou uma, ou outra. Porque o direito à liberdade seria o direito de lutar pelo enriquecimento, a propriedade privada, a herança. São entusiastas furiosos da ambição e da cobiça, são devorados pela fantasia da avidez: de sucesso, de fortuna, de glória, de poder. Estão convencidos que a luta pela igualdade social seria incompatível com a busca da felicidade pessoal.

    Nós respondemos que a luta pela felicidade pessoal é justa. Mas deve haver limites. Ninguém pode ser feliz sozinho. Ambição sem limites degenera em ganância, em abuso, em transgressão sobre os direitos dos outros. Todos temos desejos e isso é legítimo. Não é admissível, contudo, que a felicidade de um seja feita ao custo do martírio de muitos. Não é aceitável que a liberdade incondicional de poucos legitime a tirania da maioria.

    O que fundamenta uma visão de esquerda é a defesa de que as necessidades humanas mais intensas são iguais. No estágio de desenvolvimento histórico em que vivemos não há mais razão alguma para que haja tanta gente condenada à miséria. Não há razão alguma para que não haja oportunidades para todos. Ser de esquerda significa defender que todas as pessoas devem ter direitos e deveres iguais.

    Portanto, para a esquerda igualdade e liberdade são valores indivisíveis. Quanto maior for a igualdade, maior será a liberdade, e viceversa. Não pode haver liberdade entre desiguais. Só seremos livres, quando todos forem, igualmente, livres. Poder e dinheiro é que são indivisíveis. Quando alguns poucos, ou 1%, controlam a riqueza controlam, também, o poder. Tanta riqueza nas mãos de tão poucos não se explica pelo merecimento, aptidão, valor ou mérito, mas pela exploração da maioria.

    A desigualdade social não é o motor de progresso, de inovação, de prosperidade. A ideia de que as pessoas não estariam dispostas a fazer nada, se não tivessem apavoradas pelo medo da miséria ou da repressão não tem fundamento histórico algum. As maiores mentes da história não criaram as suas obras para enriquecer. O dinheiro não é o único estímulo. Há outros incentivos, impulsos, inspirações que animam a mente e o coração das pessoas. A competição desumana, a insegurança generalizada, a injustiça absurda ameaçam a vida civilizada e são as sementes da guerra.

    Reacionários são céticos sobre a condição humana. Estão convencidos que a natureza humana é pouco animadora. Um reacionário acredita que a maioria das pessoas é, incorrigivelmente, egoísta, calculista, e conflitiva. Seríamos, naturalmente, rivais uns dos outros, portanto, irremediavelmente, adversários. Observam, desenganados, como as antipatias, as invejas, os rancores, e até os ódios dilaceram as relações humanas. Em consequência, consideram razoável que cada um deva se preocupar, essencialmente, com os seus interesses, ou dos seus familiares. Ninguém mais importa. O Estado deve se dedicar a preservar a ordem. Por isso, a histeria ingênuo com o papel das Forças Armadas. Querem segurança. Depois é a “luta livre” no espaço do mercado. Essas ideias simples têm muito peso na sociedade. Não é fácil para um socialista dialogar, argumentar, persuadir, enfim, conversar com eles.

    Esta visão do mundo é incompatível com a ideia chave do socialismo. O valor moral que inspira o socialismo é a esperança de que a solidariedade deve ser o parâmetro que organiza a sociedade. Esta barreira na discussão é um perigo. Há dois erros que não deveríamos cometer diante dessa barreira.

    O primeiro é desistir da conversa. Esse perigo é o maior de todos. O projeto socialista é muito minoritário na sociedade brasileira. Na verdade, a defesa do socialismo é marginal. Existe mal estar com a injustiça. Existe alguma audiência para a defesa de uma regulação do capitalismo com a introdução de reformas progressivas, civilizatórias, que estabeleça limites para a superexploração, e garanta uma redução da desigualdade social. Mas a necessidade de ir além do capitalismo é compreendida por uma parcela muito pequena de trabalhadores e jovens. E a marginalidade gera uma mentalidade, uma cultura, um modo de vida. Estamos tão em minoria que somos, até involuntariamente, sectários. Preferimos conversar com aqueles que pensam como nós. Encontramos conforto emocional na aprovação de nossas ideias.

    O segundo erro é argumentar que a natureza humana é, naturalmente, altruísta, gentil, solidária. Infelizmente, é mais complicado. Nós somos plásticos. Isso quer dizer que nos adaptamos, nos ajustamos, nos transformamos. Se encorajados a ser cruéis podemos agir com maldade. Se encorajados a agir com grandeza podemos ser bondosos. São as relações sociais que determinam quais são os estímulos materiais, morais, e culturais dominantes. Quando os estímulos favorecem a fraternidade, a imensa maioria das pessoas age de forma decente.

    A queda de Dilma Rousseff não foi somente uma derrota política do lulismo, foi uma vitória social da burguesia. Diante de derrotas há dois perigos. Subestimá-las ou exagerá-las. É preciso ter serenidade, frieza e firmeza. É preciso avaliar, medir, e calibrar com o máximo equilíbrio a relação social de forças. Há diferentes tipos de derrotas. E elas geram distintos tipos de situações adversas. Há graduações. Elas podem ser, por exemplo, defensivas, reacionárias, contrarrevolucionárias. Mantenhamos a lucidez. A situação permanece desfavorável, mas o que aconteceu não foi uma derrota histórica dos trabalhadores, como em 1964.

    Derrotas históricas acontecem quando uma geração é abatida pela desmoralização, e perde a confiança em si mesma. Sim, há desânimo e desalento à nossa volta. Mas ainda há reservas intactas nas classes populares. A jovem classe trabalhadora brasileira é maior, mais concentrada e mais instruída que a geração dos seus avós. A força social de impacto de sua luta sobre o conjunto do povo oprimido poderá, em algum momento, entrar em cena. Na atual conjuntura está difícil mobilizar, porque prevalece a incerteza sobre a capacidade de vencer. Mas o proletariado brasileiro é um gigante social. Uma esquerda que pretenda ser uma nova esperança não pode deixar de apostar nesta perspectiva.

    Há, portanto, um paradoxo nesta campanha eleitoral. A vida no Brasil, depois de dois anos de governo Temer, está a cada dia pior. O dilema dos reacionários nesta eleição é que não podem defender o governo Temer, mas todos os candidatos da direita, inclusive Bolsonaro, defendem “mais do mesmo”. Defendem mais ajuste fiscal, mais privatizações na saúde e educação, mais “flexibilizações” da legislação trabalhista e ambiental, mais contrarreformas, como a da Previdência social. Isso cria um problema. Candidatos defendendo esta plataforma, aberta e honestamente, não podem vencer as eleições. Terão que mentir abertamente. Mentir em campanhas eleitorais é possível, como sabemos bem. Mas é perigoso mentir demais porque há o “dia seguinte”.

    Como chegamos até aqui? Desemprego em alta; fortalecimento e nacionalização das organizações criminosas; salários em queda, inclusive daqueles com escolaridade superior; inflação nos serviços de educação, saúde e segurança consumidos pela classe média; retorno de epidemias; escândalos de corrupção; operação Lava Jato. Foi o giro político à direita de frações da classe média, durante os quatro anos agravamento da contração econômica, que deu visibilidade a Bolsonaro. As propostas”bombásticas” radicais seduzem hoje um em cada cinco eleitores.

    Podia não ter sido assim, se a classe trabalhadora tivesse entrado em cena demonstrando a gigantesca força social da maioria pobre e oprimida, como fez nos anos oitenta. Mas ela não entrou. Os bastiões mais organizados permaneceram perplexos diante do desmoronamento do governo Dilma Rousseff. Quem entrou em cena foi a classe dominante. Eles são somente 1%, mas foram capazes de colocar em movimento o desespero da classe média, e demonstrar nas ruas força social suficiente para sustentar o impeachment.

    Bolsonaro “montou” no cavalo selado que passou na sua frente. Ele foi, somente, instrumental para a burguesia conseguir construir o golpe parlamentar. Bolsonaro permaneceu marginal durante décadas repetindo as mesmas barbaridades que diz hoje. Encontrou audiência porque a classe média se deslocou à direita, quando a crise econômica chegou, depois de treze anos do PT à frente do governo. É uma ilusão de ótica do relógio da história pensar o contrário.

    Existe sempre uma interacção dialética entre os deslocamentos das relações de força entre as classes, e as oscilações de influência das superestruturas políticas. A luta política e eleitoral exige hoje da esquerda, em condições adversas, defensivas, uma maior capacidade de resposta. Essa resposta não depende somente de bons argumentos na luta de ideias. A luta ideológica tem o seu lugar. Mas é na luta social que as relações de força podem ser alteradas, como vimos na greve dos caminhoneiros. A esquerda depende, em primeiro lugar, da capacidade de colocar as massas populares em movimento. Porque a esquera representa a ideia de que a luta coletiva pode mudar a vida. Milhares na rua fazem tudo balançar. Por isso é que as ações do MTST são exemplares. Porque, em plena campanha eleitoral, em condições difíceis para a mobilização, as ocupações de luta pela moradia não param. Por isso é que o próximo dia 10 de agosto tem importância central.

    Não obstante, há um lugar para a luta ideológica na disputa política. Assim como existe uma enorme variedade de posições na esquerda, há distintas correntes conservadoras, das mais moderadas às mais radicais. Reacionários têm opiniões fortes. Há graus variados de reacionarismo, evidentemente, mais ou menos brutais. Mas um reacionário não é alguém, politicamente, distraído. É perigoso subestimarmos aqueles que discordam de nossas ideias. Não nos iludamos. Reacionários têm argumentos poderosos. Alguns, entre eles, são bem articulados. Não somente porque se apoiam no senso comum.

    Qual é o cerne do problema? Reacionários são hostis ao projeto de uma sociedade igualitária. Nós somos a favor. A luta pela igualdade social é o que define uma identidade de esquerda. É verdade que essa animosidade, no Brasil, é mais forte no terreno dos costumes do que no terreno social. Há maior aversão contra os movimentos feministas, negros e LGBT’s do que apoio às privatizações. Há mais apoio à pena de morte do que apoio à reforma da Previdência.

    Não há por que romantizar a natureza humana. Sim, seres humanos podem agir de forma monstruosa. Mas, tampouco, devemos ignorá-la. A educação pode transformar as pessoas para melhor. E a luta política pode, também, transformar a sociedade.

  • O eleitoralismo é uma forma de pensamento mágico

    Se você conhece o inimigo e a si mesmo, não tema o resultado de cem batalhas.
    Se conhece a si mesmo, mas não ao inimigo, para cada vitória sofrerá uma derrota.
    Se não conhece nem o inimigo nem a si, perderá todas as lutas.
     Sun Tzu

    O eleitoralismo é um mal critério, mesmo quando as perspectivas eleitorais da esquerda são boas. Mas quando são difíceis, como são agora, o eleitoralismo é a antessala de um pessimismo por antecipação. E o pessimismo é a antessala da desmoralização. Eleitoralismo é, por exemplo, escolher o candidato desconsiderando o programa, as alianças, e sobrevalorizando as pesquisas. Pensamento mágico é deixar-se seduzir pela força do desejo.

    Aqueles que pensam que a esquerda deveria retirar todas as suas pré-candidaturas e apoiar Ciro Gomes são vítimas de um eleitoralismo, ou seja, uma tática de curto alcance. Existem na história derrotas eleitorais que são vitórias políticas, como a de Lula em 1989, e vitórias eleitorais que são derrotas políticas, como a de Dilma Rousseff em 2014. Mas a pior derrota é a derrota sem luta.

    A tendência de decadência do capitalismo brasileiro sugere cenários pouco animadores nos próximos anos. Quando uma nação mergulha em uma dinâmica de decadência histórica, como é hoje o capitalismo brasileiro depois de um contração maior que 7% do  PIB em três anos, e depois de quarenta anos de estagnação do PIB per capita oscilando um pouco acima ou abaixo de US$ 10.000,00, entramos em um etapa histórica perigosa.

    Parece claro que já está consolidado, desde o impeachment em 2016, um consenso na classe dominante de que, mesmo um crescimento moderado da economia, algo em torno de uma expansão do PIB anual em torno de 3%, não será possível sem massivos investimentos estrangeiros. Querem tentar aproveitar a brecha aberta pelo conflito dos EUA com a China. Acreditam que o volume de investimento externo, especialmente, norte-americano pode aumentar, substancialmente. Por outro lado, esses investimentos estão ainda condicionados a quem vencerá as eleições presidenciais, e a uma política de choque fiscal e austeridade duríssima que terá como primeira medida a reforma da previdência social.

    Seja qual for o resultado das eleições outubro, ainda haverá um novembro. E não parece que esta primavera poderá ser um alívio depois do “inverno do nosso descontentamento”. Vai ser muito difícil, independentemente, do resultado eleitoral, por enquanto, ainda imprevisível. Por isso, também, uma esquerda séria precisa equacionar a tática eleitoral à luz de uma estratégia. Uma estratégia é um posicionamento de médio prazo que ajude a clarificar objetivos táticos plausíveis.

    No afã de compreender a situação brasileira, sob a pressão diária dos acontecimentos em cascata, é fácil perdermos o sentido das proporções. Nada adquire um sentido claro quando perdemos a magnitude, a escala, o tamanho do que estamos tentando analisar. Só com um esforço de abstração que nos eleve acima da “poeira” dos dias é que podemos ter uma perspectiva histórica correta.

    Quando pensamos as tendências da radicalização social, devemos considerar os fatores objetivos, mas, também, outros, mais complexos e que são subjetivos, porque remetem às flutuações dos humores e da disposição da sociedade, das classes em luta, ou seja, da evolução da consciência social.

    Os primeiros podem ser quantificados. O que não quer dizer que os números falem sozinhos. Há que relacionar os indicadores de maneira adequada. E descobrir interações que não são evidentes, podem estar ocultas. Mas a leitura dos fatores subjetivos é muito mais difícil, depende de interpretação. Na história, eles estão sempre enredados. A força de pressão de uns e outros é variável. É um trabalho de ourivesaria analítica, portanto, muito delicado, destacar os elementos para uma apreciação isolada e, depois, a reconstrução das partes em um todo, para realizar uma síntese.

    Comecemos pelos fatores objetivos. Estudiosos do Banco Mundial, portanto, ideologicamente insuspeitos de qualquer simpatia teórica pelo marxismo, sugerem que, ultrapassados certos limites de degradação das condições econômicas e sociais, em comparação com o passado recente, produz-se uma ruptura da coesão social. Claro, sempre e quando não forem criadas redes de proteção social.

    Quais são estes limites? Para alguns uma inflação anual acima de 50%, se não houver mecanismos financeiros de correção monetária, como atesta a experiência de superinflação latino-americana dos anos oitenta do século passado. Ou o desemprego da população economicamente ativa acima de 25% ou 30%, se não houver salário desemprego, como na Argentina em 2001. Ou o confisco indefinido das poupanças, como no Brasil em 1990. Ou a redução do salário médio nacional acima de 30%, seja sob a forma de confisco, ou de aumento nos impostos, sem garantias de recomposição, como na Grécia, há poucos anos. Ou ainda as contrações econômicas abruptas, uma síntese de combinações variadas dos fatores anteriores, com quedas vertiginosas dos PIB’s, fuga de capitais, que resultam em aumento da desigualdade social.

    A ideia preconceituosa de que só sob condições de miséria biológica os trabalhadores pobres têm disposição revolucionária de luta não tem fundamento histórico. Se fosse assim, a África subsaariana estaria no epicentro das situações revolucionárias no século XX. Situações revolucionárias se abrem quando uma sociedade desaba em crise nacional, a classe dominante se divide, os setores médios se desesperam, e emerge no mundo do trabalho a vontade de lutar em defesa de si próprios, sendo os porta-vozes de um outro projeto de nação, arrastando atrás de si uma maioria social, inclusive parcelas das classes médias. Estas situações tendem a ser internacionalizadas, rapidamente, em ondas regionais de extensão. Foi o que aconteceu em janeiro de 2011 na Tunísia, contaminou, o Egito e alastrou-se como um vendaval no mundo árabe.

    É difícil dizer qual será o limite dos brasileiros. Será diferente do que foram os limites dos argentinos em 2001, dos venezuelanos em 2002, dos bolivianos em 2003, ou dos egípcios em 2011. A experiência política da decadência nacional é um processo desigual. Porque as nações são distintas, com inserções diferentes no mercado mundial, com histórias recentes muito variadas, e em estágios de desenvolvimento díspares.

    As classes sociais são, fundamentalmente, as mesmas no mundo em que vivemos, mas a sua configuração em cada país é única, particular, específica. Por exemplo, o peso dos assalariados urbanos pode ser maior ou menor, relativamente, aos pequenos proprietários, ou muitas outras variações. E deve entrar nesta equação da análise os fatores subjetivos. O humor social depende da percepção subjetiva. É sempre um processo de acumulação de mal estar.

    Em algum momento, a quantidade dá o salto de qualidade, e o cidadão médio fica furioso, o ódio ao governo se alastra, e contagia uma maioria da sociedade. A vontade de derrubar o governo ganha a força de uma paixão política. Paixões são um estado de espírito intenso, é um momento de máxima exaltação. Não se pode manter por muito tempo. Os nervos e músculos da sociedade não aguentam. Misturam-se na mais alta intensidade, esperança e incerteza, rancor e insegurança. O medo da aproximação da hora de um confronto decisivo, a hora de medir forças, gera uma inquietação frenética. É a oportunidade histórica em que se abre a chance da transformação social. É ahora da situação revolucionária.

    Em 1992, quando da mobilização para derrubar Collor – lembremos o primeiro presidente eleitos desde 1961 – a divulgação pela mídia de uma fonte em cascata na residência particular da família do presidente foi uma centelha que levou milhões de jovens às ruas, ficaram furiosos. Por quê a cascata? Não sabemos. Foi uma gota d’água. Havia uma enorme raiva acumulada por uma recessão que levou o desemprego nas grandes cidades acima de 20%, e uma superinflação que destruía os salários. A fonte em cascata foi a faísca.

    Chefes de Estado e de governos que exigem sacrifícios “bíblicos”, “sangue, suor e lágrimas”, mas alimentam um modo de vida ostentatório, meio faraônico, ou costumes impublicáveis, à maneira dos Borgias, inflamam a indignação do cidadão comum. Suas provocações incendeiam a cólera da juventude.

    Muito antes que os setores mais vulneráveis do povo venham a conhecer as condições de miséria material asiáticas, ou de humilhação social predominantes no mundo árabe, o país estará incendiado por mobilizações que farão lembrar os anos oitenta. Consideramos tendências, não se pode dizer qual é o limite para a sociedade brasileira. Há, contudo, um modelo teórico a partir do qual podemos afirmar que estes limites existem. Não são limites rígidos, fixos, inamovíveis.

    Consideremos os fatores mais objetivos. Vamos considerar três fatores. As sociedades urbanizadas da periferia têm menor tolerância à perda de direitos do que as sociedades ainda agropecuárias. Urbanização significa industrialização, portanto, peso social do assalariados, em todas as atividades e ramos. Significa maior complexidade produtiva, portanto, uma parcela maior dos setores médios. E significa escolaridade mais elevada.

    A classe trabalhadora brasileira contemporânea, em sua maioria, é muito diferente da geração que entrou em cena nos últimos anos da luta contra a ditadura militar. Não acabou de chegar do campo para a cidade. Seus familiares foram beneficiados pela mobilidade social ascendente. Ela está vivendo uma dinâmica inversa e regressiva, é jovem, muito concentrada em vinte cidades com um milhão ou mais de habitantes, e mais instruída. Nesse contexto social, encontraremos menos ilusões de que os sacrifícios de hoje terão recompensas no futuro. Têm menos paciência. Isso é assim porque a capacidade de expressar de forma independente os seus interesses é maior.

    É mais difícil para a classe dominante impor uma destruição das conquistas históricas da geração anterior. A ruptura da coesão social é muito perigosa para o capitalismo. É difícil que se inicie um incêndio social, mas depois que começou, é muito mais difícil controlá-lo. Porque fica mais ou menos claro, rapidamente, que se trata de uma regressão social.

    Segundo elemento: é mais fácil fazer essa destruição de direitos sociais em sociedades nas quais há uma parcela pequena da população economicamente ativa que é jovem. A emigração deixa sequelas sociais e políticas. A emigração de centenas de milhares de portugueses jovens, por exemplo, deu tempo ao salazarismo. No Brasil, a emigração de 5% da população economicamente ativa nos anos noventa do século passado deu tempo ao ajuste neoliberal recolonizador feito pelo governo do PSDB, presidido por Fernando Henrique Cardoso.

    Os jovens têm maior disposição de luta, porque a população mais idosa tem mais medo de lutar, tem mais medo do que pode perder, ou menos esperança de que a luta coletiva possa abrir o caminho de vitórias. Naquelas sociedades em que há menos jovens é mais fácil impor regressões sociais. Por que há menos resistência. A coluna vertebral da resistência é sempre a geração mais jovem. Ela é a fagulha, a centelha, a faísca. Não pode vencer sozinha, mas é a juventude que incendeia a imaginação da classe trabalhadora e dos setores de classe média. No Brasil, a manifestações de 2013 foram um sintoma.

    Terceiro elemento a ser considerado, e mais importante: a memória político-social da história recente. Naquelas sociedades nas quais, no período histórico anterior, os trinta anos do passado recente, a população viveu a experiência de crescimento econômico, existiu alguma mobilidade social, uma parcela da classe operária e a maioria da classe média conseguiram acesso a casa própria, os ajustes econômicos na forma de ataques sociais impiedosos manifestam-se como uma hecatombe inesperada. Nestas circunstâncias, a fúria popular tende a ser proporcional à desilusão. O potencial de explosividade é mais intenso.

    O tema do patrimônio, ou do padrão de vida, e da casa própria. Por que a casa própria, ou seja a luta do MTST, tem tido tanta importância? Uma das transformações do século XX com a urbanização foi que a casa própria se transformou no objetivo central de consumo da vida do assalariados e da classe média. É o empréstimo mais importante da vida adulta de cada pessoa. Eles sabem que quando o trabalhador comum, o cidadão médio se sente encurralado, tende a abandonar a credulidade política. A credulidade é uma forma da inocência política. As velhas lealdades aos partidos tradicionais se rompem.

    Esta é a janela por onde passa a onda de radicalização social. Quando ela virá não sabemos, porque se decide no campo da luta política, que é o campo das conjunturas, dos ritmos curtos, das respostas rápidas, das iniciativas inesperadas, das surpresas,  dos golpes e contra-golpes, das respostas instantâneas.

    Mas nenhuma sociedade mergulha em decadência sem que haja resistência, portanto, luta social. A psicologia social não opera da mesma forma, nos mesmos ritmos, que a psicologica dos indivíduos. Na dimensão pessoal, qualquer ser humano pode desistir de lutar em defesa de si mesmo, e o faz, se rende, ponto, quebra. Está desgastado pelo cansaço, ou pelo desânimo, até pela desilusão. As classes sociais, não. As classes têm que lutar. Sempre lutam. A maior parte do tempo, resistem, e só um setor mais ativo avança. E este setor que vai na dianteira da luta se sente, incontáveis vezes, frustrado ou abatido, porque sabe que luta pelos outros, luta por todos, no lugar dos que não se movem, não se arriscam. É comum que este desenvolvimento desigual das mobilizações gere um certo desespero da vanguarda.

    Porque as amplas massas não lutam com disposição revolucionária de vencer, a não ser, excepcionalmente. Mas quando surge esta disposição ela é a força social-política mais poderosa da história.

    Não será possível transformar o Brasil em um Bangladesh sem grandes lutas sociais. Mas grandes lutas podem ser vitoriosas ou derrotadas. Oportunidades podem ser aproveitadas ou desperdiçadas. Como aprendemos, amargamente, em Junho de 2013, ou em menor escala, com o processo aberto pela greve geral em abril de 2017, quando esteve colocada a possibilidade de derrubar Temer. Uma esquerda com responsabilidade estratégica deve pensar a tática eleitoral de 2018 com a perspectiva de se preparar para os grandes confrontos que virão depois de outubro.

    Foto: EBC

  • Não se deve terceirizar para Ciro Gomes a luta contra Bolsonaro

    As virtudes dos homens são semelhantes ao voo dos pássaros.
    A ave que se habitua à paisagem rasteira perde o gosto pela altura.
    Sabedoria popular indiana

    Nada é tão poderoso neste mundo como uma ideia cujo momento chegou.
    Sabedoria popular espanhola

    A luta para tirar Bolsonaro do segundo turno das eleições de 2018 deve ser um dos eixos de todas as correntes da esquerda brasileira. Quem pensa que a luta contra Bolsonaro é somente uma luta eleitoral se engana. O combate contra os neofascistas não se reduz à arena eleitoral. A paralisação dos caminhoneiros deixou claro que a disputa contra a extrema-direita veio para ficar. Ela é uma batalha em todas as frentes.

    Mas, quando ainda temos quatro meses de luta pela frente, tem crescido uma corrente de opinião que considera, precipitadamente, que este combate já estaria esgotado. Como se fosse já fosse possível prever que Bolsonaro estará no segundo turno. Essa hipótese existe, e merece ser considerada, seriamente, mas não é mais do que uma hipótese. Nenhuma batalha termina antes que acabe. A pior derrota é a derrota sem luta.

    Não é por outra razão que podemos acompanhar, nos locais de trabalho e estudo, nas redes sociais e nas conversas entre os ativistas, uma ansiedade por uma candidatura única de esquerda, ainda antes do primeiro turno. O medo daquilo que Bolsonaro representa alimenta a expectativa de que só uma candidatura de centro-esquerda poderia derrotá-lo. É este alarmismo que explica a pressão pelo apoio a Ciro Gomes.

    Apoiar Ciro Gomes desde o primeiro turno significa terceirizar a luta contra Bolsonaro. Uma tarefa que Ciro Gomes, retoricamente, aceita, mas não pode cumprir. Não se luta contra Bolsonaro com ofensas pessoais. Isso é infantil. Só favorece a consolidação das relações de uma parte de sua base eleitoral. A luta contra Bolsonaro é uma luta política. Luta política não se faz com insultos, mas com propostas, com um programa. São as propostas concretas que podem separar Bolsonaro de uma parcela do eleitorado. Propostas como a redução da jornada de trabalho sem redução salarial, para que haja emprego para todos. Propostas como a elevação do salário mínimo, tendo como referência o piso de R$ 4.000,00 do Dieese. Propostas como a anulação da PEC do Teto dos Gastos, a anulação da reforma trabalhista, o fim da lei das terceirizações, e tantas outras.

    Ciro Gomes não tem as mãos livres para o fazer. Não pode fazê-lo por, pelo menos, quatro razões profundas. Primeiro, porque nada é mais funcional para Ciro Gomes que o pânico de que Bolsonaro já está no segundo turno, e só ele pode atrair os votos da direita e da esquerda necessários para derrotá-lo; segundo, porque o lugar de disputa da candidatura Ciro Gomes é o espaço do centro, portanto, necessariamente, dialogando com a classe média contra a esquerda, que representa, em primeiro lugar, o impulso da mobilização popular; terceiro, porque defende um programa de ajuste fiscal calibrado para desbloquear o mercado interno, e precisa se diferenciar no primeiro turno de Alckmin, não de Bolsonaro; e quarto, porque articula alianças com dissidentes da base política de sustentação de Michel Temer, como Benjamim Steinbruch e PSB, além de flertar com Maia, o DEM e o centrão, portanto, piscando para direita.

    Esta tarefa deve ser assumida, em primeiro lugar, pelas candidaturas de esquerda. A frontalidade da luta contra o neofascismo repousa, antes e depois das eleições, nas mãos da esquerda. Algumas analogias históricas podem ser instigantes. Devemos ter muito cuidado com a ideia do senso comum de que “quem tem juízo vota no mal menor”. Ou seja, deveríamos colocar a mão no nariz, e votar para nos protegermos do mal “maior”. Esta linha de raciocínio parece encarar de frente o perigo Bolsonaro, mas, na verdade, desconsidera, diminui e despreza a força dos neofascistas.

    O mal menor em 1982 era Franco Montoro do MDB. Era ele o candidato a governador contra ninguém menos do que Maluf, o famigerado. Só que Lula era, também, candidato e chegou aos 10%. O impulso da campanha de 1982 foi chave para que o PT tivesse a iniciativa de chamar o comício de novembro de 1983, na Praça Charles Miller no Pacaembu, sob a bandeira Diretas Já. Sem esta iniciativa, como está bem documentado no livro de Dante de Oliveira e Domingos Leonelli, o comício de 25 de janeiro na Praça da Sé não teria sido chamado, e milhões não teriam saído às ruas para desafiar a ditadura. Nos vinte anos anteriores o MDB nunca chamou o povo às ruas para tentar derrubar a ditadura.

    Em 1984, o mal menor era Tancredo Neves, candidato no Colégio Eleitoral, com Sarney de vice. E o PT chamou ao boicote. Se o PT tivesse apoiado Tancredo Neves, e participado do governo Sarney, a esquerda não existiria com peso de massas nas duas décadas seguintes. O PT teria se desmoralizado.

    Em 1986 o mal menor era Orestes Quércia, o candidato do PMDB e do plano Cruzado, de novo contra Maluf. Pelo PT, Suplicy chegou aos 11%, criticando o plano Cruzado, que desmoronou seis meses depois da eleição. Só que Quércia ficou, e deixou como herdeiro, em 1990, o Fleury e o massacre do Carandiru. O mal menor contra Maluf, em 1988, era Serra, mas Luísa Erundina do PT venceu, porque na véspera das eleições Sarney mandou invadir a CSN em Volta Redonda, e três operários foram assassinados. Não morreram em vão. Em fevereiro de 1989 a greve geral contra o Plano Verão de Maílson da Nóbrega, a maior da história, abriu o caminho para legitimar Lula no segundo turno.

    Resumo da ópera: o voto só é útil quando não votamos contra nós mesmos, contra nossos interesses. Nenhum representante dos interesses da Avenida Paulista e Faria Lima é menos “mal”. Não tem sentido escolher quem quer te empurrar do terceiro andar, porque o candidato mais feroz quer te empurrar do décimo. Isso não é escolha. É uma armadilha.

    As ideias e propostas dos neofascistas ganharam audiência nos últimos dois anos. Mas existem reservas nos batalhões mais organizados dos trabalhadores e da juventude. Existe uma força social muito mais poderosa que o desespero confuso e desorientado dos que clamam por uma “intervenção militar”. Nada é mais poderoso do que a força social desta maioria explorada e oprimida quando abraça com paixão e esperança uma luta justa. Ela pode ser despertada. Ela precisa ser chamada às ruas para lutar. Esse deve ser o papel da esquerda. Este tem sido o lugar da campanha Boulos/Sonia Guajajara.

    Mas é necessário que o maior partido da esquerda acorde do seu sonambolismo. O PT tem o direito de apresentar Lula como o seu candidato à Presidência. Mas a direção do PT tem, também, o dever de encabeçar a luta contra Bolsonaro. Isso significa, neste momento, dar um passo em frente. Cabe ao PT responder ao apelo que o PSOL tem feito por uma frente única de toda a esquerda contra os neofascistas.

    FOTO: Deputado Jair Bolsonaro, pré-candidato à Presidencia. Marcelo Camargo/Agência Brasil

  • Ciro Gomes não é o mal menor

    Tudo é ousado para quem nada se atreve.
    Fernando Pessoa

    A impaciência anda sempre com a dor.
    William Shakespeare

    O desempenho de Ciro Gomes em  entrevistas e o resultado de Bolsonaro em pesquisas têm levado alguns na esquerda a se inclinar na sua direção como o mal menor. Trata-se de um erro de avaliação. Um erro grave. Porque as aparências enganam.

    Ninguém pode saber hoje quais são os candidatos que têm mais chances de chegar ao segundo turno. Neste momento é imprevisível. Aqueles que acreditam que, neste tema ultradelicado, suas intuições são uma bússola estão sendo vítimas do mais infantil autoengano. Não há metodologia séria que permita fazer este tipo de cálculo.

    Qual deve ser a tática da esquerda nas eleições? Vamos para a campanha eleitoral com quais objetivos? As massas vão fazer, provavelmente, na última semana antes de 7 de outubro, um cálculo político de como melhor se proteger. Qual deve ser o papel da esquerda nesta terrível batalha? Que lugar queremos ocupar nesta que será a campanha eleitoral menos democrática desde 1989? O argumento deste artigo é que apoiar Ciro Gomes, neste primeiro turno, é desistir de poder cumprir qualquer papel de maior peso social e político a partir do ano que vem. Seria um suicídio político. Time grande que não joga perde a torcida. Time pequeno que joga campeonato de time grande e só perde de goleada perde a sua torcida.

    A pressão eleitoral para o apoio a uma candidatura como a de Ciro Gomes, ainda no primeiro turno, aumenta. Isso não é positivo, porque a ansiedade é alimentada pelo medo. E o medo é mal conselheiro. Toda luta tem margens elevadas de incerteza. E é bom não esquecer que as eleições são uma luta em terreno desfavorável para a esquerda e os trabalhadores. Quem controla a riqueza tem mais facilidade de disputar o poder.

    Hoje, a luta do PT para libertar Lula é progressiva, e merece o apoio de todos nós, inclusive daqueles que não apoiaremos uma candidatura do PT, porque estamos engajados na defesa da candidatura Boulos/Guajajara. Que a relação de forças sociais e políticas seja desfavorável, e sinalize que Lula não poderá ser candidato não diminui o sentido progressivo da luta democrática pelos seus direitos. Romper com os limites do PT para apoiar a candidatura do PSOL é um movimento progressivo. Romper com o PT para apoiar Ciro Gomes é regressivo.

     

    Um candidato de trajetória nômade e errática, portanto, imprevisível

    A trajetória perâmbulante de Ciro Gomes, porque esteve em sete partidos – passou do PDS para o PMDB, depois para o PSDB, para o PPS, para o PSB, para o PROS e, finalmente, chegou ao PDT – recomenda uma saudável desconfiança. A sua delimitação programática não tem sido progressista. Se há um tema que divide águas entre esquerda e direita no Brasil, esse tema é o ajuste fiscal e, portanto, a reforma da previdência. Nesse tema, Ciro Gomes tem se posicionado à direita, e não à esquerda.

    Ciro Gomes defende um projeto neodesenvolvimentista com políticas sociais compensatórias. Em uma palavra, uma combinação do programa de Palocci, quando ministro da Fazenda sob Lula, com o programa de Joaquim Levy sob Dilma Rousseff. Mas aprofundando o ajuste fiscal com uma reforma da Previdência que estabeleça um teto de três salários mínimos, para chegar a um superavit primário o mais rápido possível [1]. Esta proposta é, diretamente, reacionária. Porque uma forma de obrigar a maioria do povo a nunca se aposentar é elevar a idade mínima, como pretendia fazer o governo Temer. Mas a outra, não menos cruel, é desvalorizar a aposentadoria por repartição, e favorecer o crescimento das previdências por capitalização. O resultado, em ambos tipos de reformas, é que os idosos não poderão deixar de trabalhar até morrer, porque estarão condenados à miséria.

    Mas Ciro Gomes defende, também, a preservação do modelo do presidencialismo de coalizão baseado em negociações no Congresso Nacional, só que em versão “de choque”, pretendendo aprovar todas as emendas constitucionais nos primeiros oito meses [2]. Esta posição é, igualmente, reacionária.

    Existem sobre este tema, fundamentalmente, três projetos. A classe dominante brasileira está dividida sobre o futuro do regime político de democracia eleitoral hoje vigente no Brasil. A operação LavaJato tem apoio de uma fração, e oposição de outra. Uma parcela dos partidos da ordem defende a manutenção do presidencialismo de coalizão com reformas, ou seja, o atual modelo, admitindo a substituição das lideranças mais queimadas pelas delações premiadas, uma pequena reforma. Neste regime, a governabilidade se garante com negociações para a formação de maioria no Congresso Nacional. Esta maioria só é possível com concessões à bancada dos bancos, da bala, da Bíblia, do boi, e outras. O PT aceitou estas regras do jogo e deu no que deu. Ciro Gomes está neste campo.

    Os reacionários incorrigíveis querem fazer uma reforma política que reduza ao mínimo o número de partidos, se possível, a dois, como nos EUA. Querem consolidar uma partidocracia de alternância entre dois partidos da classe dominante, excluindo a esquerda da legalidade, ou a condenando à marginalidade.
    Seria um regime muito mais autoritário.

    A esquerda deveria se posicionar contra estes dois projetos. Porque eles excluem as amplas massas da participação política. Os trabalhadores só são chamados a votar de dois em dois anos. Depois as decisões sobre o nosso destino ficam nas mãos dos políticos profissionais. O fiasco deste regime ficou escancarado nos sucessivos escândalos. A única possibilidade de mudar o Brasil é subverter este regime. Isso só será possível apoiados em níveis de organização e mobilização popular muito mais elevados. Foi com a campanha das Diretas que foi possível derrotar a ditadura, embora não tenhamos derrubado Figueiredo. Foi com as grandes greves e lutas, desde o final dos anos setenta, que foi possível garantir as três vitórias dos anos oitenta: o SUS, a Previdência Social, e a universalização do ensino básico. Sem massas populares organizadas e chamadas para a luta, um programa de transição são somente palavras no papel.

     

    Quais devem ser os critérios para definir o apoio eleitoral?

    A definição de voto para aqueles que somos de esquerda deve ser feita a partir de alguns critérios chaves que resumem uma experiência histórica. O primeiro critério, o mais elementar, é que não devemos nos deixar iludir por aquilo que uma candidatura diz em campanha. Em campanha eleitoral, políticos profissionais educados na escola da dissimulação são capazes de dizer qualquer coisa.

    Um segundo critério é que, embora votemos em pessoas, a luta pelo poder é uma luta entre partidos. “Diz-me com quem andas e te direi quem és”, ensina a sabedoria popular. Não encontraremos bons candidatos em partidos podres.

    Um terceiro critério é que uma história de vida, uma biografia, uma trajetória tem mais valor que a propaganda eleitoral, ou uma declaração em entrevista, porque, novamente, há mestres no ilusionismo das palavras, na mágica da camuflagem.

    Um quarto critério é que não devemos votar contra nós mesmos, contra os nossos valores, ou seja, contra os interesses dos trabalhadores e do povo pobre. Um bom e velho critério de classe.

    Existem hoje dezenove pré-candidaturas à Presidência. De forma sumária, muito esquemática, mas para simplificar, útil, podemos dizer que se situam na extrema direita: 1. Bolsonaro (PSL) Partido Social Liberal; 2. Levy Fidelix (PRTB). No espaço da direita com um programa econômico-social liberal radical: 3. João Amoêdo (Novo); 4. Flávio Rocha (PRB); 5. Paulo Rabello de Castro (PSC); 6. Henrique Meirelles (MDB); 7. Fernando Collor de Mello (PTC). Na centro-direita conservadora: 8. Geraldo Alckmin (PSDB); 9. Rodrigo Maia (DEM); 10. Álvaro Dias (Podemos); 11. José Maria Eymael (PSDC). No centro, ou talvez em “órbita” do centro: 12. Marina Silva (Rede). Na centro-esquerda: 13. Ciro Gomes (PDT); 14. Aldo Rebelo (Solidariedade). Na esquerda moderada ou reformista: 15. Lula, ou Haddad, ou outro nome do PT; 16. Manuela D’Ávila (PCdoB); 17. João Vicente Goulart (PPL), ou Pátria Livre. Na esquerda radical: 18. Guilherme Boulos (PSOL); 19. Vera Lúcia (PSTU).

    Direita, centro e esquerda são classificações que simplificam a interpretação do lugar de cada partido e liderança no espaço político. São conceitos úteis, mas imprecisos porque são juízos relativos. Não são rigorosos, e não são fixos. Não são absolutos. Essas qualificações mudam, e muito, em função da situação política, ou seja, da audiência. Os políticos profissionais falam para a plateia aquilo que a plateia gostaria de ouvir. Quem está à esquerda ou à direita de quem são posicionamentos que, rapidamente, mudam. Mais importante do que as palavras, os discursos, ou a imagem dos líderes e dos partidos são os interesses econômico-sociais que representam.

     

    Os parâmetros marxistas são ordenados por um critério de classe

    O discurso político flutua em função das relações de forças entre as classes. Em situações em que a mobilização dos trabalhadores é intensa, e as forças populares estão na ofensiva, todo o vocabulário da política se “esquerdiza”. Os fascistas escondem seus planos, e travestem-se em reacionários. Os reacionários se camuflam como conservadores moderados. A centro-direita se move para o centro,  e o centro se desloca para a centro-esquerda. O inverso acontece quando os trabalhadores e seus aliados sociais estão na defensiva. Nessas circunstâncias, como é a situação atual, o discurso político se “direitiza”. A esquerda moderada se protege com propostas de centro-esquerda, a centro-esquerda flerta com o centro-direita, e esta se mascara como direita radical, enquanto os reacionários extremistas assumem propostas fascistas.

    Os partidos são organizações que representam interesses de classe através de programas. Programas são as ideias, propostas, e projetos que expressam uma visão da realidade, e o que se pretende fazer. Como as classes sociais no mundo em que vivemos não são homogêneas, não é possível que um só partido represente cada classe.

    Nas sociedades urbanizadas, recentemente, e com processos de industrialização ainda incompletos, como Brasil, a sociedade não se divide apenas em capital e trabalho. Além da classe média, existem outras frações de classe. A própria classe média, por exemplo, se divide entre pequenos proprietários e profissionais de alta escolaridade. Devemos considerar alguns grupos sociais que possuem uma forte identidade e inserção peculiar, específica, ou especial nas relações sociais: os militares e policiais, os artistas e intelectuais, por exemplo, entre outros.

    Sendo hetereogênas, diferentes frações de classe são representadas por diferentes partidos. Mas não existem dezenas de classes, ou frações de classe. E tampouco há uma plena correspondência entre as classes e as organizações que aspiram a representá-las. A lista das dezenove pré-candidaturas à Presidência é uma extravagância criada pelo tipo de sistema partidário-eleitoral que favorece que haja, informalmente, sublegendas. Sublegendas são candidaturas satélites de outra candidatura. Elas são úteis para candidatos que terceirizam a luta eleitoral para uma candidatura “parceira” que fará o trabalho de desconstruir seus adversários.

    Ainda assim, a lista deve encolher. Quantos sobreviverão até agosto, prazo final para a inscrição das candidaturas, ainda não é possível prever. Mas é improvável que Henrique Meirelles, Rodrigo Maia, Fernando Collor de Melo, Paulo Rabelo de Castro, Aldo Rebelo, e até Manuela D’Ávila mantenham as candidaturas. Seriam menos seis. Dos dezenove, restariam treze. Talvez menos.

     

    Ciro Gomes é um cavalo de Tróia dentro da esquerda

    Ciro Gomes poderia ser, neste contexto, um “mal menor” para a esquerda? A pressão pelo voto em Ciro Gomes é dirigida, essencialmente, contra a tática do PT de manter Lula como pré-candidato, mas atinge, também, a candidatura Boulos/Guajajara e até Manuela D’Ávila. Argumenta-se como um voto “útil” antecipado a escolha de um pré-candidato progressista com mais chances de chegar ao segundo turno. Só que não é por variadas razões.

    Primeiro, porque o PT não tem só o direito de levar a luta pelo Lula livre até o máximo limite. Tem uma obrigação moral e política de fazê-lo. Assim como tem o direito de substituir a candidatura Lula, se e quando quiser. Acontece que o PT está dividido, e Ciro Gomes vem explorando estas divisões, conscientemente, para acelerar um fracionamento à direita, apoiando-se nos interesses mais oportunistas dos que estão somente preocupados com a renovação dos seus mandatos.

    As iniciativas perigosas não se resumiram às reuniões de Haddad e Jacques Wagner, nas últimas semanas, com Ciro, em voos “solos”. É verdade que os dois foram, imediatamente, desmentidos pela presidente do PT, Gleisi Hoffmann. Tudo indica que não estavam, realmente, amparados por Lula, ou pelo núcleo duro da direção do PT. Acontece que, segundo a imprensa, governadores do PT no nordeste, estariam pressionando. E como o PT está negociando em muitos Estados alianças regionais inexplicáveis, ou indefensáveis, até com partidos da base de sustentação do governo Temer, como o MDB de Eunício no Ceará e de Renan Calheiros em Alagoas, as especulações alimentam suspeitas legítimas.

    Os que defendem a necessidade da esquerda (PT, PSOL/PCB, PCdoB) não terem pré-candidaturas para apoiar Ciro Gomes desde agora estão cometendo um erro irreparável. Política não é aritmética: um mais um não é uma equação que resulta, necessariamente, em dois. Pode dar menos um. Cálculos que somam preferências em pesquisas, mas desconhecem outros fatores, tão ou mais importantes, como: (a) representação social irreconciliável; (b) diferenças de programa inegociáveis; (c) trajetórias incompatíveis; (d) taxas de rejeição, entre outros, são pensamento “mágico”, ou seja, expressão de desejo.

     

    O que é progressivo e o que é regressivo?

    Para a esquerda o conflito fundamental na sociedade em que vivemos é o que se estabelece entre as duas classes sociais mais poderosas, capital e trabalho. Ele deve ser a referência que orienta nossas escolhas, inclusive, as eleitorais. Os socialistas, todavia, nunca afirmaram que este conflito seria o único. Existem muitos outros. Na época da luta contra a ditadura existia a luta pelas liberdades democráticas, por exemplo. O que pode cumprir, politicamente, um papel progressivo ou regressivo depende da relação social e política de forças.

    As candidaturas do MDB em 1978 eram, predominantemente, candidaturas de líderes liberais com relações com setores dissidentes da classe dominante, alguns poucos social-democratas, contra os candidatos da Arena, mas cumpriam um papel progressivo. A esquerda revolucionária se dividiu entre os que defendiam o apoio crítico a candidatos dos trabalhadores nas listas do MDB, e os que defendiam o voto nulo. Era uma escolha tática legítima.

    Vejamos outros exemplos históricos dos parâmetros do que foi progressivo ou regressivo. Já em 1982, tendo o PT conquistado a legalidade, antes de a ditadura ter sido derrotada, a candidatura de Lula foi progressiva em relação a candidatura de Franco Montoro ao governo do Estado de São Paulo. Porque o MDB de Montoro estava a favor de negociar as condições da transição “lenta, segura e gradual” imposta pelo governo Figueiredo, e o PT surgia como um novo instrumento político independente na luta para derrubar a ditadura.

    O PT não nasceu, evidentemente, como um partido revolucionário. Foi desde a fundação um partido reformista. Mas era um partido independente da classe dominante e, ao contrário do MDB, defendia a luta para derrubar a ditadura. Em relação ao programa histórico marxista, o PT era uma mediação, ou, simplificando, era regressivo. Seu núcleo de direção central vinha de dissidentes da estrutura burocrática sindical que se radicalizava diante da repressão da ditadura. Mas ao se posicionar em oposição ao regime e ao governo cumpria um papel progressivo.

    Se a esquerda revolucionária não tivesse entrado no PT deixaria de cumprir um papel positivo naquela etapa de experiência do melhor do ativismo jovem e proletário, e estaria se condenando à marginalidade. Porque a defesa de um programa, sem considerar a relação política de forças, teria sido um infantilismo sectário. A autoridade conquistada por Lula e o peso do PT era fatores suficientes para desaconselhar qualquer aventura autoproclamatória de luta por uma legalidade própria, porque não havia espaço político..

    Em 1984, durante a campanha das Diretas Já, embora a direção das mobilizações estivesse nas mãos de Ulysses Guimarães e Tancredo Neves e, em menor medida, de Brizola, eleito governador do Rio de Janeiro em 1982, a existência do PT e a afirmação da liderança de Lula foi essencial para tentar derrubar a ditadura. Assim como foi progressivo o PT não ter legitimado a eleição da chapa Tancredo/ Sarney no Colégio Eleitoral. Se o PT tivesse apoiado a ida ao Colégio Eleitoral, e não tivesse sido oposição ao governo Sarney, Lula não teria chegado ao segundo turno de 1989. E a presença de Lula nas eleições contra Collor, mesmo derrotado, foi fundamental para abrir o caminho para as eleições de 2002.

     


    NOTAS
    1 –
    Em entrevista ao jornal Valor Econômico, Mauro Benevides Filho, assessor econômico de Ciro Gomes, declarou sobre a reforma da Previdência, um dos centros do projeto de ajuste fiscal: Valor: E a Previdência? Benevides: Na reforma da Previdência é preciso separar o que é benefício social da Previdência. São três pilares. Um é o salário mínimo para os benefícios sociais. Segundo pilar, regime de repartição, diminuindo o teto existente hoje, de R$ 5,6 mil, calibrando com o custo de transição para o terceiro pilar. O teto cairia para 3,5 salários mínimos. Consulta em 31/05/2018.
    http://www.valor.com.br/politica/5559193/o-foco-e-cobrar-no-elevador-de-cima-diz-assessor-de-ciro

    2 – Valor: Mas isso leva tempo, não? Benevides: Por isso temos que fazer tudo em oito meses. Dá tempo porque vamos discutir na campanha. Passada a campanha, vamos aprovar projeto de lei e de emendas constitucionais para propor ao Congresso.
    http://www.valor.com.br/politica/5559193/o-foco-e-cobrar-no-elevador-de-cima-diz-assessor-de-ciro   Consulta em 31/05/2018

    FOTO: Ciro Gomes participa do programa Roda Viva, no dia 28 de maio. Divulgação

  • A Argentina e o efeito orloff

    “O dinheiro é um meio e não um fim
    A fortuna torna insolentes os seus favoritos”
    Sabedoria popular portuguesa

    Nos anos oitenta se brincava sobre a propaganda enganosa de uma vodka que prometia que não haveria ressaca no dia seguinte, o efeito orloff: ela prometia “eu sou você amanhã”, e apresentava um sujeito sorridente, apesar das barbaridades alcoolicas. Ninguém com juízo acreditava. Adaptada às incríveis peripécias da vida econômica e social debaixo da superinflação, dizia-se que o Brasil imitava a Argentina, só que com atraso.

    É bom levarmos mais a sério o efeito orlof. Nenhum país da periferia está blindado diante das turbulências no mercado mundial. E elas estão aumentando porque a fase aberta após a crise de 2008 pela política de relaxamento monetário (Quantitative Easing) está se encerrando, e a injeção de liquidez para diminuir o impacto da longa recessão vai acabar. A farra do crédito barato, que permitia tomar empréstimos nos países centrais e financiar a dívida pública nos periféricos, tem data marcada e prazo de validade esgotado.

    Na Argentina o déficit negativo foi de 4.8% do PIB em 2017, e no Brasil de 0,5%, uma diferença de qualidade. Mas, em contrapartida, na Argentina o déficit fiscal nominal (incluindo pagamento de juros) em % do PIB foi de 6% do PIB, e no Brasil de 7,8% do PIB, ou seja, níveis muito próximos [1].

    Argumenta-se que o fato do Brasil ter reservas internacionais acima de US$ 380 bilhões para um PIB de US$ 2,02 trilhões, um pouco menos de dois anos de importações no patamar atual, é uma proteção suficiente diante das pressões internacionais [2]. Mas a Argentina também mantém reservas internacionais, relativamente, elevadas de US$ 56.15 bilhões, para um PIB estimado em US$ 771 bilhões, embora, proporcionalmente, menores [3].

    O Brasil está menos vulnerável porque sua dívida pública está emitida, em amplíssima maioria, em títulos que remuneram em moeda nacional. E o Brasil se beneficia, também, de estar recebendo um volume de IED que reduz o impacto do déficit no balanço de pagamentos.

    Mas seria imprudente ignorar que estes fatores não são blindagem suficiente. Porque a política governa a economia. E as dificuldades da candidatura Alckmin decolar agrega grande incerteza às previsões da continuidade da estratégia de ajuste fiscal gradual iniciada por Temer. Por outro lado, parece creser no mercado mundial uma percepção de que os prazos para alcançar significativos patamares de superávit fiscal são demasiado longos. A campanha eleitoral pode estimular, portanto, uma desvalorização do real, com todas sequelas inflacionárias conhecidas.

    O balanço de pagamentos inclui a balança comercial, os serviços, transferências de lucros empresariais e remessas de imigrantes. Os saldos negativos devem ser cobertos com investimentos(IED) [4], ou empréstimos do exterior. Um patamar de reservas internacionais que equivalem a pouco menos de dois anos de importações, não podem proteger, indefinidamente, a moeda nacional.

    O déficit primário [5] foi de R$ 124,401 bilhões, em 2017, o que equivale a 1,9% do PIB. Em 2016 o déficit primário, anterior ao pagamento dos juros da dívida pública foi de R$ 159, 473 bilhões. Esta foi a grande façanha de Temer: o ajuste fiscal. Mas tem um custo incalculável: a estagnação econômica se mantém. As previsões de evolução do PIB são mais pessimistas a cada dia. O que teria por consequência que a previsão de entrada de US$ 80 bilhões em IED em 2018 pode não se concretizar, e o déficit no balanço de pagamentos deve aumentar. Parece, portanto, sensato saber que o Brasil não está, realmente, blindado, se considerarmos um dos “calcanhares de aquiles” histórico que tem sido o déficit no balanço de pagamentos, que depende do investimento direto estrangeiro (IED) para fechar [6].

    Ranking dos países. Entrada e saída de IED
    Nesse contexto precisamos compreender que o FMI já voltou à Argentina e tem um plano. A desvalorização acentuada do peso argentino levou o governo a procurar um empréstimo de US$ 30 bilhões. O governo Macri procurou o FMI ameaçado por uma corrida ao dólar, em um país traumatizado, como o Brasil, pela superinflação. A desvalorização foi, contudo, somente o gatilho.

    Os sinais de uma recolonização vinham de antes. Tanto no Brasil como na Argentina avançou a estratégia de ajuste fiscal para estabelecer superavits primários e tranquilizar os credores. Macri obteve vitórias com reformas muito semelhantes, algumas até maiores, que as de Temer, mas, afinal, não foram suficientes.

    Quatro fatores parecem ter provocado este giro preventivo de Macri: (a) fuga de capitais estrangeiros; (b) elevação mundial do dólar como expressão de uma inquietação crescente pela guerra comercial de Trump contra a China, o encarecimento do petróleo e a elevação das taxas do FED; (c) insegurança dos investidores com a estratégia de ajuste fiscal gradual, calibrado para uma transição lenta dos deficits orçamentários para superavits primários, enquanto o crescimento do PIB patina; (d) níveis de resistência social mais elevados ao ajuste mais elevados do que o previsto, em um país em que, apesar da força de contenção da burocracia sindical, a combatividade de uma classe trabalhadora jovem e concentrada não pode ser desconsiderada.

    Procurar o FMI é uma decisão, políticamente, grave, se considerarmos o seu papel durante três décadas, entre os anos setenta e dois mil, como instrumento de defesa dos interesses, em primeiro lugar, do imperialismo norte-americano. É assim em todo continente, mas na Argentina em especial. Lembremos que a Argentina foi até ao default ou calote, há quinze anos, ou seja, a suspensão dos pagamentos da dívida externa[7]. A crise das dívidas externas e as sequelas deixadas pelas políticas anti-inflacionárias deixaram uma devastadora memória na consciência das massas populares.

    Em janeiro, o FMI tinha referendado a posição do governo de expectativa de queda da taxa anual de inflação para 15% em 2018. No ano passado foi de 24,8% ao ano [8]. Ela ficou muito acima da meta de 17%. A inflação na Argentina tinha chegado a 41% em 2016. Macri tentou aumentos apocalípticos da taxa de juros básica, que servem de piso para todas as outras taxas de empréstimos, para conter as pressões inflacionárias. Mas não foi suficiente. Já estavam em 27% em abril, e atingiram os 40% ao ano na primeira semana de maio.

    O crescimento do quociente dívida pública/PIB corresponde hoje a 60% do PIB da Argentina [9]. O quociente dívida/PIB é um indicador que remete à projeção da capacidade futura do Estado de garantir a rolagem dos juros: quando a taxa de juros sobe e, simultaneamente, a arrecadação fiscal cai, porque o país entra em recessão, a confiança dos investidores diminui. Em suma, taxa de juros mais altas, se o PIB desacelera, aumentam a proporção da dívida/PIB, e exigem superavits mais elevados para a rolagem dos juros.

    As estimativas do Banco Mundial são de alta do PIB de 2,7% em 2018, mas podem estar superestimadas [10]. Ainda prevalece uma grande incerteza. Dez anos depois da crise de 2008 a enorme e inusitada liquidez mundial deve diminuir [11]. Injetada pelo FED norte-americano, seguido pelo Banco Central europeu e japonês, ela aumentou, em velocidade vertiginosa, a dívida pública dos países periféricos. Como já tinha acontecido na década de oitenta, com os contratos com taxas pós-fixadas. Agigantou, também, a dívida dos imperialistas, socializando os custos da destruição de capitais provocada pela crise recessiva. A expectativa é que as taxas de juros no mercado mundial se elevem, em função da recuperação econômica nos EUA, encarecendo o endividamento da periferia, o que pressionará, também, a rolagem da dívida pública do Brasil.

    O capitalismo brasileiro está protegido? A maior parte do déficit público brasileiro deriva, em perspectiva histórica, do alto custo da rolagem da dívida pública, em função de taxas de juros que estiveram, em média, entre as mais altas do mundo por muitas décadas. A dívida pública do governo brasileiro já ultrapassou 75% do PIB (Produto Interno Bruto), maior que a da Argentina, e o déficit operacional recorrente do setor público permanece na casa de 5% do PIB. [12]. O ajuste fiscal mais duro ainda está por fazer. A estratégia gradualista que veio sendo aplicada tanto em Buenos Aires por Macri, como em Brasília por Temer não corresponde ainda, plenamente, às expectativas e aos interesses dos investidores estrangeiros. Eles querem uma política de choque muito mais dura. É bom sabermos contra quem lutamos.

    FOTO: Michel Temer recebe Mauricio Macri, presidente da Argentina, durante a 51ª Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul e Estados Associados, em dezembro de 2017, no Palácio Itamaraty (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

    NOTAS
    [1] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/05/entenda-como-a-argentina-chegou-a-crise-atual.shtml
    Consulta em 17/05/2018

    [2] Em 2017, o PIB (Produto Interno Bruto) cresceu 1,0% em relação a 2016, após duas quedas consecutivas, ambas de 3,5%, em 2015 e 2016. O PIB totalizou R$ 6,6 trilhões em 2017. A taxa de investimento em 2017 foi de 15,6% do PIB, abaixo do observado no ano anterior (16,1%). A taxa de poupança foi de 14,8% em 2017 (ante 13,9% no ano anterior).
    https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2013-agencia-de-noticias/releases/20166-pib-avanca-1-0-em-2017-e-fecha-ano-em-r-6-6-trilhoes.html
    Consulta em 17/05/2018

    [3] O PIB nominal não leva em consideração as diferenças no custo de vida em diferentes países, e os resultados podem variar muito de um ano para outro com base em flutuações nas taxas de câmbio e valor da moeda do país.
    https://economia.uol.com.br/noticias/efe/2018/03/21/pib-da-argentina-cresceu-29-em-2017-segundo-dados-oficiais.htm
    Consulta em 17/05/2018.

    [4]  O World Investment Report 2017 divulgado pela Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) é uma referência para o tema do IED. Os investimentos diretos estrangeiros (IED) no Brasil estiveram em franca expansão durante 2009-2011, mas vêm reduzindo desde então. Depois de terem atingido 64 bilhões de dólares em 2013, os fluxos de IED para o Brasil baixaram para 62 bilhões de dólares em 2014 e para 56 bilhões em 2015 – um decréscimo de 23% em relação ao ano anterior. Em 2016, os investimentos continuaram a cair, alcançando os 50 bilhões de dólares. No entanto, o Brasil continua sendo o primeiro destino de IED da América Latina e o oitavo destino no cenário mundial. O país é atualmente o quarto investidor entre os países emergentes e o primeiro da América Latina. https://pt.portal.santandertrade.com/internacionalize-se/brasil/fluxos-de-ied-2
    Consulta em 17/05/2018.

    [5]déficit primário é o resultado negativo nas contas públicas, desconsiderando o pagamento de juros da dívida pública.

    [6] Os investimentos estrangeiros diretos (IED) chegaram, no ano passado, aos 70,332 bilhões de dólares. O Brasil registrou, em 2017, um déficit de conta corrente de 9,8 bilhões de dólares, o menor em dez anos, frente a um rombo de 23,546 bilhões em 2016. Em 2014, em meio à crise, o déficit chegou a 104,181 bilhões.
    https://economia.uol.com.br/noticias/afp/2018/01/26/brasil-registrou-menor-deficit-da-conta-corrente-em-10-anos-em-2017.htm Consulta em 17/05/2018.

    [7] A desvalorização abrupta do peso tornou impagável a dívida pública (externa e interna) do país, que era em boa parte corrigida pelo dólar. Sem reservas internacionais para honrar os compromissos, a Argentina viu-se obrigada a deixar de pagar os juros e a dívida principal dos papéis que havia emitido. Entre 2005 e 2010, a Argentina renegociou a dívida e apresentou diversos planos de reestruturação. Dos credores internacionais, 93% aceitaram a proposta do governo argentino para quitar os débitos de forma parcelada com desconto de 60% a 65% no valor da dívida. No entanto, 7% não aceitaram o plano e decidiram contestar o acordo na Justiça norte-americana, que tem jurisdição sobre os títulos emitidos na Bolsa de Nova York. Consulta em 17/05/2018.

    http://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2014-08/entenda-crise-que-levou-argentina-calote-tecnico

    [8] https://economia.uol.com.br/noticias/afp/2018/01/11/inflacao-da-argentina-foi-de-248-em-2017.htm  Consulta em 16/05/2018.

    [9]ministro da Fazenda, Nicolás Dujovne, ratificou que serão mantidas as projeções de redução do déficit fiscal. O ano passado fechou com uma diferença equivalente a 4,2% do PIB. O objetivo é que diminua em 2018 até 3,2%. Consulta em 16/05/2018.
    https://brasil.elpais.com/brasil/2018/01/01/internacional/1514832832_626904.html

    [10] O Banco Mundial divulgou o relatório “Ajuste Fiscal na América Latina e Caribe: o relatório faz a ressalva de que após vários anos de baixo crescimento, a situação fiscal de muitos desses países é frágil: a dívida pública da região como um todo representa 57,6% do Produto Interno Bruno (PIB) latino-americano e quase todos os países da região fecharam 2017 com déficits fiscais. O documento afirma que caso o Brasil conseguisse diminuir sua relação dívida pública sobre o PIB do número atual de 74% para 61,5%, poderia recuperar o grau de investimento, classificação de risco por agências estrangeira, em até dez anos. Isso se faria por meio de sucessivos superávits primários entre 2018 e 2028, começando com 7,5% neste ano e subindo para 5,8% a partir do ano que vem. Disponível em: http://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2018-04/america-latina-volta-crescer-liderada-por-brasil-e-argentina Consulta em 16/05/2018.

    [11] O Federal Reserve (Fed, o Banco Central americano) decidiu elevar nesta quarta-feira (21) a taxa de juros em sua primeira reunião sob o comando de Jerome Powell. O juro básico na maior economia do mundo subiu para uma faixa entre 1,50% a 1,75%, um aumento de 0,25 ponto percentual. Consulta em 16/05/2018.
    https://g1.globo.com/economia/noticia/fed-eleva-taxas-de-juros-nos-eua-pela-1-vez-em-2018.ghtml

    [12] A dívida bruta do governo geral – governo federal, INSS, governos estaduais e municipais – saiu de R$ 4,9 trilhões em janeiro para R$ 4,957 trilhões um mês depois. Em relação ao PIB, a dívida subiu de 74,5% para 75,1%, novo recorde da série iniciada em2006. Consulta em 16/05/2018.
    http://www.valor.com.br/brasil/5414633/divida-publica-bruta-vai-751-do-pib-em-fevereiro-novo-recorde

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