Teoria

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  • Gramsci e o Fascismo: o fracasso da política de apaziguamento dos socialistas

    Entre 1921 e 1922, Antonio Gramsci escreveu um conjunto de artigos analisando a ascensão do fascismo e a ineficácia das estratégias utilizadas pela organização majoritária da esquerda italiana no seu enfrentamento. Parte destes artigos está reunida na segundo volume da coletânea de Escritos Políticos publicada pela Civilização Brasileira, sob a rubrica geral “Socialismo e Fascismo”.[1] Como Trotsky recordaria dez anos depois, Gramsci era o único dirigente do PCI que antevia a possibilidade de uma ditadura fascista. A reflexão de Gramsci é extremamente rica e pertinente para pensar contextos e conjunturas distintos, ainda que com as devidas mediações e com a necessidade de evitar qualquer transposição mecânica.

    O contexto em que estes artigos foram escritos é de um progressivo avanço do fascismo, tanto em termos eleitorais quanto – e sobretudo – das ações violentas perpetradas pelas milícias fascistas contra as organizações operárias e camponesas. Gramsci fala desde a perspectiva de um Partido Comunista recém constituído – o PCI foi criado em janeiro de 1921, a partir de uma cisão com o Partido Socialista – e que era sistematicamente acusado de “divisionismo” pelos dirigentes do PSI, que permanecia numericamente majoritário na esquerda italiana.

    Embora não deixasse de reconhecer a cumplicidade do Estado burguês e especialmente do Judiciário, inteiramente complacente com os crimes fascistas, Gramsci avaliava que a esquerda reformista, articulada no Partido Socialista, tinha enorme responsabilidade na criação das condições favoráveis à ascensão fascista. O Partido Socialista sabotou as ocupações de fábrica em Turim durante o Biênio Rosso (1919-1920), criticando o “radicalismo” da classe operária que se organizava para a Revolução Social e apostou sistematicamente em uma política de apaziguamento com setores da classe dominante e com os próprios fascistas, com drásticas consequências.

    A política de apaziguamento dos socialistas atingiu seu ápice com a assinatura do Pacto de Roma, em 3 de agosto de 1921, através do qual socialistas e fascistas acordaram “a imediata cessação de ‘ameaças, vias de fato, represálias, punições, vinganças, pressões e violências pessoais’ entre os militantes socialistas e fascistas, bem como o respeito recíproco aos símbolos dos dois partidos.”[2] Gramsci atacou violentamente este acordo e ironizou da confiança suicida dos socialistas, qualificando o pacto como “orientação cega e politicamente desastrosa”.[3]

    Também os acordos com setores tidos como “democráticos” da classe dominante, ao custo de renúncia à perspectiva revolucionária e à autonomia política e organizativa dos trabalhadores eram entendidos como estratégia suicida. Apontando que os dirigentes políticos e sindicais do socialismo “aproveitam-se da ocasião para concluir que é preciso colaborar com ‘as forças não rigidamente revolucionárias e classistas que são contrárias ao golpe de Estado’”, Gramsci contrapunha as experiências alemã e húngara. Na Alemanha de março de 1920, “os ‘colaboradores não rigidamente revolucionários’, que em nada haviam contribuído para a resistência, opuseram-se à continuação do movimento insurreicional”, impondo um recuo que tornou possível que “as forças reacionárias não fossem reprimidas, que pudessem recuar em ordem, dispersar-se segundo um plano preestabelecido e retomar o trabalho de armamento, de recrutamento, de organização, que hoje dá a Kapp e Lüttwitz uma maior probabilidade de êxito”.[4] A conclusão transparente é que a política de apaziguamento é diretamente responsável por permitir que a ameaça tenha subsistido e então se recolocasse com maior força.

    A experiência da Hungria, onde em 1919 a República Socialista Húngara foi esmagada por uma ampla coalizão de direita, igualmente é mencionada por Gramsci como expressão da miséria da política de apaziguamento dos reformistas: “A experiência húngara deixou uma lição: os reacionários, para derrotar os comunistas, primeiro acariciam os socialistas, assumem compromissos com eles, fazem acordos de pacificação; depois, uma vez derrotados os comunistas, os compromissos e acordos são ignorados e também os socialistas experimentam a forca e o fuzilamento”. Assim, as indecisões, a inépcia e a incapacidade dos dirigentes socialista em compreender as situações políticas agravaria o “risco de [a Itália] ser arrastada num caos de barbárie sem precedentes na história de nosso país.[5]

    A reflexão de Gramsci ao longo deste biênio é marcada pela angústia de quem via se desenvolver o enredo de uma tragédia anunciada, não tendo como impedi-la a despeito de sua intensa militância, dada a insuficiência dos instrumentos com que então contava a organização comunista para impedir a ascensão fascista e barrar a barbárie que por eles seria perpetuada. Em março de 1921, frustrado com a reafirmação de proposições burocráticas vazias no congresso da principal central sindical italiana, registrava que “aumentou nosso pessimismo, mas é sempre viva e atual nossa divisa: pessimismo de inteligência, otimismo da vontade”.[6] A tragédia histórica que se seguiu confirma que sua inteligência pessimista compreendeu o processo em curso. Sua lição segue imprescindível nos tempos atuais.

    [1] GRAMSCI, Antonio. Socialismo e Fascismo. In: Escritos Políticos. Volume 2, 1921-1926. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, p. 23-126.

    [2] Notas aos Texto. In: GRAMSCI, op. cit., p. 447..

    [3] GRAMSCI, Antonio. “Os partidos e as massas”. In: Escritos Políticos, op. cit., p. 91.

    [4] GRAMSCI, Antonio. “Golpe de Estado”. In: Escritos Políticos, op. cit., p. 78-79.

    [5] Idem, p. 79.

    [6] [6]GRAMSCI, Antonio. “Burocratismo”. In: Escritos Políticos, op. cit., p. 43.

    *Doutor em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e professor do curso de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), integrando o Grupo de Pesquisa História e Poder. É autor, entre outros livros, de “Integralismo e Hegemonia Burguesa” (Edunioeste, 2011) e pesquisa sobre Estado, Poder, Direita, Hegemonia, Ditadura e Fascismo. [email protected]

  • 80 anos da IV Internacional: trotskismos, galhos dispersos de uma mesma árvore

    Me enterrem com os trotskistas
    Na cova comum dos idealistas
    Onde jazem aqueles
    Que o Poder não corrompeu – Paulo Leminski

    O termo trotskista foi criado pelos adversários políticos de Leon Trotsky. Um termo que começou a ser usado de forma pejorativa, ruim, estigmatizante, em especial após a chegada de Stalin à direção do Partido Bolchevique, e da União Soviética, e da burocratização do próprio Partido bolchevique e da Internacional Comunista.

    Durante a segunda metade da década de 20 e ao longo da década de 30, ser taxado de trotskista era o mesmo que ser chamado de revisionista, contrarrevolucionário, agente do imperialismo. O stalinismo e os coveiros da revolução russa, por meio de falsificações e mentiras, tratavam de pintar Trotsky e aqueles que concordavam com o fundador do Exército Vermelho como verdadeiros demônios, e faziam isto porque viam no antigo presidente do soviete de Petrogrado um perigo real para o domínio que começavam a ter na URSS.

    O resultado da política de caça as bruxas feita por Stalin e pelos burocratas do Kremlin, foi a expulsão do partido, prisão e assassinato de pelo menos 30 mil trotskistas na URSS. Stalin precisou liquidar fisicamente aqueles opositores que se alinhavam com Trotsky, pois estes eram o último elo que restava entre o ano da Revolução, 1917, os anos seguintes de consolidação do poder soviético e da Guerra Civil, e aqueles anos atuais de um partido monolítico, burocratizado, sem democracia interna, com políticas que levavam o país ao isolamento e crises constantes.

    Os trotskistas dos longínquos primeiros anos da década de 30 preferiam se denominar “bolcheviques-leninistas”, “marxistas revolucionários”, “comunistas internacionalistas”, algo que não passava de alguns pleonasmos necessário para se apresentar de forma diferente daquele comunismo estático que era apresentado pela burocracia.

    Ao longo dos anos, passaram a aceitar a denominação que lhes eram taxada. O termo trotskistas passou a ser reivindicado por aqueles que se aproximam teoricamente da bagagem programática feita por Leon Trotsky. Estes enxergam no internacionalismo a chave para a questão da revolução, pois sabemos que o socialismo só é possível em escala internacional, visto o papel de contenção das forças produtivas que as fronteiras e o Estado Nacional realizam, assim como enxergam a ameaça do imperialismo, que precisa ser combatido. Os trotskistas adotam a revolução permanente como programa necessário para a libertação da humanidade do julgo do capital. E não se identificam com os regimes burocráticos do “socialismo real”, porque para os trotskistas democracia e socialismo não antagônicos, muito pelo contrário, são palavras e concepções que andam juntas.

    O trotskismo teve ao longo de sua história um gigantesco arsenal de táticas. Desde a política de Frente única, a questão de como combater o fascismo, passando pelo entrismo. Um arsenal vasto que se adequa a cada situação concreta da luta de classes.

    Leon Trotsky foi, ao lado de Lênin, o principal dirigente da Revolução Russa. Ele estudou como ninguém a vitória de uma revolução socialista em um país atrasado, e a explicou por meio da teoria da revolução permanente, e depois explicou porque essa mesma revolução degenerou-se desenvolvendo explicações sobre o que era e como foi possível a burocracia stalinista, e qual a alternativa para combater a mesma.

    Trotsky defendeu a necessidade de uma revolução política que tirasse a burocracia do poder e trouxesse de volta a democracia operária. Descobriu e desenvolveu o caráter desigual e combinado das leis do desenvolvimento histórico. Combateu a teoria do socialismo em um só país, contrapondo a esta o caráter internacional da revolução, e infelizmente acertou na previsão sobre a restauração do capitalismo na URSS. Assim como fez a leitura correta sobre a ascensão do fascismo na Alemanha e a necessidade de combatê-lo, coisa que não foi feito pela direção da Internacional Comunista. Porém, ele também cometeu erros, quando falou que após a segunda guerra a recém fundada IV Internacional teria peso de massas. Apesar de suas inúmeras contribuições teóricas, políticas e práticas para o movimento operário internacional, para Trotsky sua maior obra havia sido a fundação da IV Internacional.

    Hoje, 80 anos depois da fundação da mesma, aqueles que reivindicam o legado do Velho estão dispersos, ainda minoritários no movimento de massas, divididos em pequenos e médios agrupamentos, grupos que ultrapassam a casa das centenas ao longo do globo, cada qual, salvo raras exceções, com sua auto-afirmação de ser o verdadeiro herdeiro da Revolução Permanente e da bandeira da IV Internacional.

    Dessa forma, hoje, quando falamos sobre trotskismo, não falamos no singular, mas sim no plural, existem trotskismos, que se diferenciam um do outro a partir de uma leitura histórica das tarefas postas e das respostas que deveriam ser dadas para elas. Existe trotskismos para todos os gostos e cores.

    Os acontecimentos pós-segunda guerra, e as explicações que cada corrente vai dar para os mesmos, assim como para os novos Estados Operários que surgiam, são de diferenças gigantescas. Somasse a estas diferenciações políticas com realidades nacionais e culturais distintas, seja na forma de se organizar, na questão do regime interno do partido, importância do parlamento, entre outras coisas, e temos assim “tribos” de trotskismos espalhadas em cada local do mundo. Um trotskismo latino-americano, um trotskismo europeu, como foco na França, um trotskismo asiático com suas particularidades, um trotskismo anglo-saxão, com peculiaridades únicas.

    Pablo, Mandel, Cliff, Cannon, Moreno, Grant, cada um destes grandes teóricos do hall do trotskismo consideram a Revolução Russa como uma revolução, o bolchevismo como modelo, a Revolução Permanente como Programa e veem em Stalin o coveiro da revolução, assim como enxergam o primeiro Plano Quinquenal e os expurgos do grande terror dos anos 30 como uma virada contrarrevolucionária. Ao mesmo tempo cada “tribo” do trotskismo tem sua leitura que se diferencia da leitura feita pelo grupo ao lado, muitas vezes leituras diferentes sobre o mesmo fato e cada grupo usando o arsenal deixado por Trotsky.

    Para os trotskismos pós-segunda guerra, a questão da contrarrevolução stalinista ocupa um lugar central. A compreensão de como a primeira revolução operária vitoriosa se degenerou ao ponto de se transformar em um regime de terror burocrático, que ao mesmo tempo mantém as bases operária do novo Estado criado após a Revolução Russa, é um divisor de águas nas fileiras do trotskismo. Como definir o fenômeno do stalinismo? Qual seu caráter de classe? Poderia em determinadas ocasiões a burocracia soviética ter um papel progressista? Qual o caráter de classe da União Soviética? Como devemos nos posicionar e quais políticas devemos elaborar a partir daí? Estas foram às primeiras perguntas que os trotskistas da década de 30 e 40 tiveram que responder, e das respostas surgiram às primeiras sérias divergências no seio do movimento.

    Com o surgimento do fascismo e das lutas de libertação nacional, novos questionamentos foram sendo postos por parte da realidade, que exigia respostas da recém fundada Quarta Internacional.

    A necessidade de se organizar uma nova Internacional. O dialogo com organizações centristas e com os antigos partidos socialistas, a frente única operária e a luta contra o fascismo, as reivindicações transitórias, a defesa da União Soviética e o combate a direção stalinista e burocrática, a diferença entre a revolução permanente e a teoria do socialismo num só país, são alguns dos temas que vão marcar o primeiro capitulo da história do trotskismo como corrente organizada internacionalmente.

    No capitulo seguinte dessa história, a dificuldade em lidar com os novos Estados Operários que surgiam, assim como com as direções dos mesmos, gera perguntas e inquietações tão importantes quando da década anterior. A resposta que cada dirigente vai formular servem como motivo de diferenciação até hoje entre os grupos herdeiros da árvore do trotskismo. Diferenciações seguidas de acusações como reformista, pelego, capitulador, e um longo etc.

    Na maioria dos casos, os diferentes grupos trotskistas prezam mais pela diferenciação entre eles, do que as semelhanças. O habito de está lutando sempre contra a maré, de acabar isolado do movimento de massas, pode gerar um apresso orgânico pelo sectarismo. Os trotskismos, salvo raros momentos e raras exceções, estiveram afastados do movimento de massas, sendo minoritários, não conseguindo superar a marginalidade. Isto gerou uma desproporção entre a atividade teórica dos grupos, e a aplicação prática da política elaborada. Sem possibilidade de testar na realidade e no movimento de massas a linha tirada, cada tribo do trotskismo desenvolveu uma ortodoxia doutrinaria, levando a auto-proclamação, a um fetichismo dogmático, e a uma disputa desproporcional e autodestrutiva entre as correntes herdeiras do legado do fundador da IV Internacional.

    As divergências táticas e momentâneas tomavam forma de divergências estratégicas e programáticas irreconciliáveis, como se fossem questões de vida ou morte, ou como se destas divergências táticas dependesse o futuro da revolução mundial, gerando assim cisões nas organizações e dispersões dos grupos trotskistas.

    Dessa forma, 80 anos depois do Congresso de fundação da IV Internacional, vale a pena reivindicar o seu legado? Em nossa opinião, sim. Um teórico não pode ser culpado pelo erro daqueles que interpretam e reivindicam sua teoria. Graças à fundação da IV Internacional foi possível manter o acumulo teórico e programático fo marxismo revolucionário e pelo bolchevismo. Graças a IV Internacional foi possível manter um elo entre a história da Revolução Russa vitoriosa, e agregar a esta, leituras sobre os processos revolucionários derrotados na década de 20 e 30, impedindo que por meio da falsificação do stalinismo a tradição iniciada por Lênin visse a se perder e desaparecer. Sem a IV Internacional os grupos de oposição ao regime stalinista existente em cada país possivelmente não resistiriam à pressão do aparato burocrático e a força do imperialismo. A IV Internacional foi um vinculo político entre estes grupos isolados, que impediu a dispersão e contribuiu para o fortalecimento destes.

    Os militantes quartistas também foram cruciais politicamente em diversos países e em inúmeras ocasiões. Bolívia, Peru, Argentina, viram movimentos de massas dirigidos por grupos trotskistas. Os Estados Unidos foi palco de greves poderosas lideradas por defensores da revolução permanente. Em 68 na França os trotskistas foram linha de frente no histórico mês de maio. Outros países como China, Sri Lanka, Vietnã, tiveram importantes lideranças e movimentos que marchavam sob a bandeira a IV Internacional. Assim como em nosso país. A influência e importância dos trotskistas na fundação do PT e da CUT é algo inegável. Por todo o globo a dispersão das tribos do trotskismo enfraqueceu o movimento e criou uma rivalidade interna notável. Mas também gerou importantes organizações que lutavam com firmeza moral e estratégica para romper a marginalidade na segunda metade do século XX. Todas estas organizações e tribos têm sua história, sua trajetória, e sua lição, com ações bem sucedidas, outras que fracassaram, mas que são de imensa contribuição para todos aqueles que ainda reivindicam o legado quartista.

    A IV Internacional, como foi idealizada por Trotsky hoje não existe mais. 80 anos depois de sua fundação dificilmente ela seria constituída da mesma forma. O modelo político-organizativo de internacional preconizado pelo dirigente do partido bolchevique foi derrotado pelo stalinismo, pelas forças imperialistas, e em menos escala pelos erros das diversas tribos do trotskismo. Apesar disso, as ideias de Trotsky permanecem vivas e atuais, como sendo aquelas que foram capazes de responder de forma mais adequada os questionamentos que atravessaram todo século 20, e nesse inicio de século como aquelas que contribuem ao arsenal de táticas e ao norte estratégico de um projeto anti-capitalista.

    A luta pela revolução é uma devoradora de homens. Muitos revolucionários ficaram pelo meio do caminho, ao sucumbiram se transformando em oportunistas, burocratas declarados e ora envergonhados e outros caíram no caminho sem volta da auto-proclamação e do sectarismo.

    Hoje aqueles que reivindicam a Revolução Russa, o legado deixado por Lênin e Trotsky, a bandeira da Quarta Internacional e da Revolução Permanente, tem um trabalho que consiste em dá continuidade e atualizar o marxismo para as demandas e tarefas do século XXI. Romper a marginalidade ainda é uma tarefa urgente, e que deve ser feita a custa da manutenção da herança da árvore do trotskismo, colhendo os frutos que reivindicamos e fazendo um debate franco sobre os erros e qual parte desta herança nos renunciamos.

    O internacionalismo, um dos legados do trotskismo e da IV Internacional, mais do que nunca é uma necessidade. Seja para a compreensão do mundo atual, seja para a confirmação de uma organização política revolucionária. Assim como o reagrupamento das tribos dispersas ainda não é algo visto no horizonte próximo, porém, a reorganização das forças anti-capitalistas é crucial para a luta contra a barbárie crescente.

    Por fim vale lembrar os primeiros anos do trotskismo, o período entre as duas guerras, foram os anos da liquidação física dos membros da corrente que aqui falamos. Foram os anos dos crimes do stalinismo, dos expurgos, das perseguições e assassinatos. Manter nos difíceis anos 30 a defesa do programa de transição e da Revolução Permanente foi uma atitude heróica, que muitos pagaram com a própria vida. Os crimes da direção burocrática não amedrontaram os trotskistas do século passado, graças a coragem daqueles homens e mulheres que enfrentaram o medo, o frio, a humilhação, os campos de concentração e extermínio, os processos falsificados, que enfrentaram a morte em nome de uma teoria e de um programa, em nome da Revolução Mundial, foi possível chegar até aqui. Se não fossem estes homens e mulheres não teríamos a IV Internacional, se não fossem eles nós não estaríamos aqui hoje.

    Nós viemos de longe, somos herdeiros e continuadores do marxismo revolucionário, da revolução permanente, do legado teórico e prático, de Lênin, Trotsky e tantos outros. É possível e é preciso vencer e superar o capitalismo e a barbárie.

    Viva a IV Internacional! Viva o trotskismo! Viva os nosso mártires! Viva a Revolução Mundial!

  • O homem que amava os livros

    Trotsky não é somente um protagonista, mas também um filósofo, um historiador e um crítico da revolução. Nenhum líder da revolução pode deixar de ter, naturalmente, uma visão panorâmica e precisa de suas raízes e de sua gênese. (…) Trotsky, porém, interessou-se também pelas consequências da revolução na filosofia e na arte. Trotsky polemiza com os escritores e artistas (…). Algumas pessoas só conhecem o Trotsky marcial de tantos retratos e caricaturas (…). O Trotsky real, verdadeiro, é aquele revelado por seus escritos. Um livro apresenta sempre uma imagem mais exata e mais verídica de um homem que um uniforme. (MARIÁTEGUI J.C. Do sonho às coisas: retratos subversivos. São Paulo, Boitempo, 2005, pp.91-93).

    Em 1932, Walter Benjamin é profundamente tocado pela leitura de “Minha Vida”, e mais tarde Bertolt Brecht declara diante dele que Trotsky bem poderia ser o maior escritor europeu de seu tempo (DEVILLE P. Viva!. São Paulo: Editora 34, 2016. p.78).

    Em 1897, no início de sua jornada revolucionária, Lev Davidovitch Bronstein organizou e dirigiu o Sindicato dos Trabalhadores do Sul da Rússia. Hábil na escrita, e confiante no poder da palavra como instrumento de construção, “Lvov” (seu primeiro “nome de guerra”) redigia e imprimia materiais políticos de agitação e propaganda numa gráfica clandestina. Em 1898, já muito visado e perseguido pela polícia, foi preso com uma mala cheia de panfletos. Da cela em Nikolaiev, foi transferido para uma prisão em Kerson, onde “não lhe permitiam fazer exercícios, receber jornais, livros, sabonetes, mudar de roupa” (DEUTSCHER, I. O profeta armado. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. p.63). Depois, foi enviado a um presídio em Odessa, onde era proibido ler tudo o que não fosse obra religiosa.

    O jovem marxista ucraniano, “como exercício linguístico, leu a Bíblia simultaneamente em alemão, francês, inglês e italiano”, passando “às coleções de periódicos grego-ortodoxos, cheios de polêmicas contra os agnósticos, ateus e, especialmente, os maçons” (idem, p.64). Lev aproveitou as restritivas condições de leitura entre as grades para extrair o máximo do mínimo que a dura situação lhe oferecia. Em dois níveis “desiguais e combinados”, a literatura teológica lhe serviu tanto como ferramenta para estudar várias línguas quanto como meio de compreender “as polêmicas dos cultos autores ortodoxos” (idem, p.64). Apesar das proibições, teve acesso a obras do biólogo Darwin e do marxista italiano Labriola, devorando-as com fome de saber, para digeri-las criticamente.

    Deportado para a Sibéria, dedicou-se a autores clássicos da literatura russa (como Gógol, Tolstói e Gorki), escritores franceses (como Taine e Émile Zola), filósofos alemães (como Nietzsche) e pensadores austríacos (como Schnitzler). Na aldeia gelada, Bronstein tornou-se colaborador da Revista Oriental: assinando com o pseudônimo de “Antídoto”, só podia escrever sobre temas filosóficos e literários. O artigo de estreia já mostrava o estilo sofisticado e mordaz que caracterizaria o autor: chamou o “Zaratustra” prussiano de “filósofo em poesia, poeta em filosofia”, considerando seu pensamento “mais obscuro que profundo”.

    Em 1902, fugiu da Sibéria com passaporte falso, em que registrou o nome que o acompanharia para sempre: “Trotski”, ironicamente, era um dos carcereiros da prisão de Odessa. Na longa viagem, passou noites e dias acompanhado dos versos épicos do poeta grego Homero, cuja obra é fundadora da literatura ocidental. Chegando a Samara, onde ficava a sede russa do jornal Iskra, foi recebido por um colaborador de Lenin: a reputação literária de Leon lhe rendeu o apelido de “A Pena” e a convocação para se encontrar com Vladimir Ulianov na sede estrangeira do periódico. De volta à Rússia, aportou em Kiev com a identidade de “Arbuzov” (um alferes reformado), tornando-se presidente do Soviete de Petrogrado na Revolução de 1905: debelada a insurreição, foi novamente preso, condenado e deportado para a Sibéria.

    As condições hostis da prisão polar, contudo, foram mais uma vez transformadas em tempo útil para a formação teórica e política: “Pode ser que o tempo que seremos obrigados a passar em Obdorsk seja uma pausa que a história nos concede para completar nossos estudos e preparar nossas armas” (SERGE, V. Vida e morte de Trotsky. São Paulo: Ensaio, 1991. p.25). Sobre a temporada no inferno do cárcere, o biógrafo Isaac Deutscher anotou o seguinte depoimento do prisioneiro, confirmando as suas expectativas: “Deitado em minha cama, absorvo-os com o mesmo prazer físico com que o gourmet beberica seu vinho escolhido ou inala o fumo fragrante de um bom charuto (…). Foi então que, pela primeira vez, tomei realmente conhecimento dos grandes mestres do romance francês, em sua língua original” (obra citada, p.192). Segundo o autor da trilogia biográfica, o revolucionário “estava agora longe daqueles dias passados nas prisões de Kerson e Odessa, quando abrira caminho laboriosamente pelas teorias de Marx”. Nessa época, Trotski “já não estudava marxismo – ensinava-o; sua mente estava livre para ocupar-se da literatura europeia” (idem, ibidem).

    Na verdade, seria melhor esclarecer que Leon não deixou de estudar marxismo, mas que se ocupou dele em distintas ordens de discurso, em diferentes esferas da produção de conhecimento: das polêmicas teológicas dos “autores cultos ortodoxos” à teoria evolucionista de Darwin, da filosofia niilista de Nietzsche à literatura realista de Zola. Discípulo de Karl, tomou para si o desafio de fazer “uma crítica impiedosa de tudo o que existe”, armando-se de uma teoria capaz de explicar a “produção [e reprodução] social da vida” em todas as suas múltiplas dimensões. Mas, lembrando o que disse na cadeia depois do “ensaio geral” de 1905, seu objetivo era “completar os estudos e preparar as armas”, articulando dialeticamente teoria e prática, pensamento e ação. Sem jamais esquecer Marx, Trotski sabia que, para fazer a revolução, as “armas da crítica” deveriam se combinar à “crítica das armas”.

    Assim, pegando o “trem da história” em 1905, “rumo à estação Finlândia” em 1917, ele dirigiu com Lenin a vitoriosa Revolução de Outubro. Depois, entre 1918 e 1921, organizou o Exército Vermelho, dirigindo cinco milhões de combatentes até a derrota final dos inimigos imperialistas. Nessa época, Trotski viajou cerca de 105 mil quilômetros (quase três voltas ao redor da Terra), atravessando as vastidões russas de ponta a ponta em seu famoso “Trem Blindado” vermelho. Na locomotiva bolchevique havia uma estação telegráfica, uma estação de rádio, uma gráfica, uma biblioteca, um vagão-hospital, um vagão-garagem, um pequeno esquadrão aéreo, um “tribunal revolucionário”…

    No meio do trem, “o reduto do comissário do povo é um pequeno escritório-biblioteca ladeado por um banheiro e um sofá. A mesa de trabalho ocupa todo um lado, encimada por um grande mapa da Rússia. Do outro lado as estantes, as enciclopédias, os livros arrumados por autor e idioma (…), folheia ali uma tradução francesa da obra filosófica de Antonio Labriola, encontra ali a antologia de Mallarmé, Verso e prosa, de capa azul (…)” (DEVILLE P. Viva!. São Paulo: Editora 34, 2016. p.40). Na biblioteca sobre trilhos marxistas, encontravam-se livros sobre a “arte da guerra” e obras de “arte poética”, volumes de filosofia e brochuras de teoria política: entre as estantes, Leon transitava por ensaios, tratados, romances, contos, poemas, em edições russas, alemãs, francesas, inglesas, espanholas…

    Esta imagem, aliás, é emblemática, revelando as duas faces “desiguais e combinadas” que formam a identidade do revolucionário: mostra, simultaneamente, o lado intelectual do erudito homem de letras e o lado prático do obstinado homem de ação. Na lente do escritor Patrick Deville, eis o retrato das “contradições” do bolchevique que tinha um livro na cabeça e uma arma na mão: “Como todo russo letrado, sempre que vê trilhos Trotski não consegue deixar de pensar em Tolstói e em Anna Karenina, de lembrar-se com prazer ‘Anna Arkadiévna respirava a plenos pulmões o ar frio repleto de neve e, sem se afastar do vagão, olhava a plataforma e a estação iluminada’. Mas estão em guerra. É preciso afastar-se do vagão-biblioteca, subir as encostas que ladeiam a estrada de ferro, animar os combatentes, inflamá-los, distribuir o Jornal do Trem, reunir os desertores e os colaboradores (…)” (obra citada, p.40).

    Enfim, pegando o “trem da história” de 1921 para 1923, às vésperas da morte de Lenin, em pleno combate ao processo de burocratização do Partido e do Estado, Leon Trotski assinou Literatura e Revolução. Se, quando o jovem “Antídoto” começara a escrever críticas literárias, ele ainda não investigava as relações possíveis entre as obras e a ação política, esse seria um dos motes centrais do livro. Diferentemente da época da guerra civil, em que Anna Karenina lhe viera incidentalmente à memória enquanto inspecionava os soldados no front, a literatura se tornava agora o próprio campo de batalha. No livro, “A Pena” questionou a estética simbolista, investigou o “futurismo russo”, analisou a “cultura proletária”, discutiu a “arte revolucionária”, refletiu sobre a poesia de Maiakovski, homenageou o poeta Iessiênin…

    Aliás, focalizando o gosto literário de Leon, Valentim Facioli faz o seguinte retrato do leitor quando velho: “Com efeito, sabe-se que Trotski tinha lido os simbolistas russos e mesmo os franceses, em particular Mallarmé, mas tudo leva a crer que não lera nem conhecera a obra de Rimbaud e a de Lautréamont, ambos precursores do surrealismo. O gosto manifesto e pronunciado de Trotski com relação ao romance, que considerava como ‘uma grande arte’, sua admiração por Zola e mais ainda por Jules Romain (…) não podiam vencer a convicção de Breton, muito pelo contrário. Por ocasião de uma das primeiras conversas, Trotski, com ardor, defendeu Zola, procurando manifestamente opor o naturalismo ao surrealismo. Tentando ser conciliador, Breton admitiu que havia poesia nos romances de Zola (…)”. (BRETON-TROTSKI, Por uma arte revolucionária independente. São Paulo: Paz e Terra, 1985. p.20).

    Para contextualizar, e concluir, essa passagem (no “trem da história”) reporta aos debates estéticos entre o revolucionário russo e o poeta surrealista francês: em 1938, André Breton foi ao encontro de Leon Trotski no México, último exílio do maior parceiro de Lenin. Ambos estavam preocupados com a degeneração da arte, convertida em instrumento de propaganda pelos stalinistas: contra o realismo socialista, em defesa da liberdade de criação artística, redigiram o manifesto da FIARI, fundando a Federação Internacional da Arte Revolucionária Independente. No mesmo ano, Trotski fundaria também a Quarta Internacional. Este seria, enfim, o derradeiro combate do velho marxista que amava os livros, assassinado por um agente stalinista em 1940, enquanto escrevia o seu último livro: a biografia do homem que odiava os livros – retrato dos homens que tratam a literatura e a revolução como maltratam os cachorros.

    *Paulo Cesar de Carvalho (Paulinho) é militante da Resistência/PSOL

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    Há 80 anos foi fundada a IV Internacional. Viva a IV Internacional!

  • Aos 80 anos da IV Internacional, algumas reflexões

    Especial 80 anos da IV InternacionalAo se completarem 80 anos da fundação da IV Internacional, algumas reflexões são necessárias.
    Em primeiro lugar, estavam equivocados aqueles que diziam que a criação da IV Internacional, em condições extremamente adversas, foi errada devido à força do stalinismo. É verdade que a IV Internacional desde muito cedo enfrentou um enorme aparato contrarrevolucionário mundial encarnado no stalinismo e seus partidos nacionais, e permaneceu marginal ao longo de toda a sua história. Mas isso ainda não significa que a derrota da IV Internacional estava determinada de antemão.

    Ninguém sabia, naquele momento, os resultados da Segunda Guerra Mundial. O que se sabia com certeza (pelo menos Trotski e seus seguidores sabiam disso e alertaram diversas vezes) é que uma guerra entre a Alemanha nazista e a URSS era inevitável. A IV Internacional foi fundada com o objetivo de se apresentar como uma alternativa revolucionária diante da inevitável traição do stalinismo. E essa traição ocorreu. Em agosto de 1939 foi assinado o Pacto Molotov-Ribbentrop, também conhecido como Pacto Hitler-Stalin. Esse pacto estabelecia não apenas a paz entre a Alemanha e URSS (o que poderia ser plenamente justificável em termos diplomáticos – o próprio Trotski dizia isso), mas também uma colaboração econômica entre os dois países, com a URSS fornecendo petróleo, trigo e outros insumos para a Alemanha. Essa colaboração econômica permitiu a Hitler acelerar a preparação para a guerra e deixou despreparado o Exército Vermelho e a própria população da URSS, que passaram a acreditar em uma paz duradoura com a Alemanha. Além disso, o Pacto Molotov Ribbentrop estabelecia a divisão da Polônia entre a Alemanha e a URSS, bem como a partilha do Báltico e de outras regiões da Europa Oriental. Ou seja, longe de ser uma tentativa de “ganhar tempo”, como dizem hoje os historiadores stalinistas, o pacto tinha ambições bastante estratégicas e de longo prazo. Isso sem contar a repressão stalinista dentro do próprio Exército Vermelho entre 1937 e 1939, o que o deixou extremamente debilitado em termos de comando tático militar, uma vez que a maioria dos fuzilados por suposta traição era de comandantes experientes, que haviam passado pelo fogo da Guerra Civil.

    Por que o stalinismo foi tão poderoso?
    Por que uma traição tão grande do stalinismo não teve efeito sobre o movimento de massas mundial? Trata-se de uma questão difícil. Aqui parecem ter agido vários fatores: a força do aparato stalinista, a lealdade burocrática das direções nos partidos comunistas nacionais e a velocidade e confusão dos eventos, já que apenas dois anos depois da assinatura do pacto a Alemanha invadiu a URSS, anulando de fato os acordos anteriores.

    Além disso, o heroísmo do povo soviético esteve muito além do que a imaginação humana jamais poderia vislumbrar. Foram 27 milhões de mortos, cinco mil cidades e vilarejos transformados em cinzas. Ao se encontrar à frente do Estado, Stalin apareceu para o mundo como o arquiteto da vitória, o que é absolutamente falso em termos históricos. A vitória se deu apesar de Stalin, e não graças ele. Mas sãos os vitoriosos que contam a história das batalhas e por isso o mundo encarou o stalinismo como o responsável pela derrota do nazismo. Isso conferiu uma enorme autoridade aos partidos comunistas stalinizados do mundo inteiro. Um outro fator que parece ter influenciado foi o rápido início das hostilidades entre a URSS e o bloco capitalista ocidental logo após a Segunda Guerra, o que tensionou as forças simpáticas ao socialismo para se posicionarem em defesa do stalinismo.

    Tudo isso fez com que a IV Internacional não se tornasse uma alternativa revolucionária. Porque simplesmente a maioria do movimento de massas não estava buscando nenhuma alternativa. Além disso, o assassinato de Trotski pelas mãos de um agente stalinista privou a IV Internacional de sua direção política, e por isso muitos erros foram cometidos pela jovem e inexperiente direção que assumiu o leme da IV Internacional após a guerra.

    IV Internacional: muitas fragilidades e uma grande força
    A marginalidade política, ao não ser superada, acabou impulsionando um ciclo vicioso: quanto mais marginal se tornava, mais sectária e autofágica ficava a IV Internacional. As dezenas de rupturas acabaram transformando o movimento trotskista em uma diáspora difícil até mesmo de ser mapeada. Cada um dos novos “centros internacionais” surgidos após mais uma ruptura se colocava como tarefa primordial… a destruição do centro concorrente, que quase sempre era qualificado como “inimigo”, “traidor” etc.

    Mas por que então dizemos que a fundação da IV Internacional estava correta, se política e organizativamente ela foi derrotada? Porque uma organização não é somente sua estrutura orgânica e sua política. Isso é fundamental, mas não é tudo. Uma organização é, em primeiro lugar, seu programa e sua teoria. É daí que pode vir sua força política e sua solidez organizativa, e não o contrário. Ao fundar a IV Internacional, ainda que sob condições extremamente difíceis, ainda que sob uma enorme pressão política por parte do stalinismo, Trotski estava fazendo uma aposta no futuro. E essa aposta era, em primeiro lugar, teórica e programática.

    Isaac Deutscher, o grande biógrafo de Trotski (e também crítico da fundação da IV Internacional), cunhou a expressão “vitória na derrota” para se referir ao legado de Trotski. O que isso significa? Que o próprio Trotski e seu projeto político-organizativo (a IV Internacional) foram derrotados, mas sua ideias não apenas permaneceram vivas, como se demonstraram as únicas capazes de explicar a grande contradição, o grande enigma do século 20, que devorou tantos revolucionários, transformando-os ora em oportunistas empedernidos, ora em burocratas envergonhados, ora em sectários alucinados: a vitória e a degeneração da Revolução Russa, a força e a inviabilidade histórica do stalinismo.

    Trotski deu uma explicação teórica e uma saída programática para esses dois pares contraditórios do século passado: explicou a vitória de uma revolução socialista em um país atrasado por meio de sua teoria da revolução permanente e depois explicou porque essa revolução degenerou, o que era a burocracia e o mais importante: qual a alternativa ao stalinismo e qual o prognóstico histórico.

    Cinquenta anos antes, um prognóstico impressionante
    Em 1936, portanto 50 anos anos antes da perestroika, Trotski disse que: ou a burocracia soviética era derrubada em uma nova revolução política que devolvesse o poder aos sovietes e restabelecesse a democracia do Estado e do partido na URSS ou o capitalismo seria restaurado. E agregou: o capitalismo poderia ser restaurado tanto pela via da invasão estrangeira, quanto pelas mãos da própria burocracia, ansiosa por deixar de ser gerente e tornar-se proprietária. E foi exatamente isso que aconteceu: a URSS derrotou a invasão estrangeira, mas acabou perecendo sob os golpes da própria burocracia dirigente, que inventou a perestroika para tomar de assalto a propriedade estatal e tornar-se burguesia.

    O fato desse prognostico de Trotski ter se cumprido de maneira brilhante não transformou os trotskistas em uma alternativa política real no momento em que a restauração estava ocorrendo, nem depois dela. Para piorar, os próprios trotskistas, em geral, entenderam muito confusamente o que estava acontecendo. Confundiram uma contrarrevolução democrática (assim eu chamo a restauração capitalista, pois foi uma contrarrevolução social feita por métodos “democráticos”) com a revolução política preconizada por Trotski. É incrível: viram (vimos) uma revolução onde havia uma contrarrevolução. Resultado: não perceberam (não percebemos) o tamanho da derrota ocorrida entre 1989 e 1991 na Europa Oriental. Para usar uma imagem do próprio Trotski: imaginem uma pessoa no escuro que sabe que tem diante de si uma escada, mas não sabe se a escada sobe (revolução) ou desce (contrarrevolução). Essa pessoa quer muito subir e por isso decide que tem diante de si uma escada que sobe, então ela levanta o pé e desloca o corpo para frente para subir o primeiro degrau, mas ocorre que escada descia… Esse foi o tamanho do tombo que nós, trotskistas, caímos.

    É fácil ser profeta do passado…
    Hoje é fácil ver o que foi e como foi. Mas não era tão fácil assim na ápoca. Os eventos se desenvolviam a uma velocidade alucinante e os sinais eram muito mais contraditórios do que parecem hoje, à distância. De qualquer forma, erramos. No entanto, supondo que tivéssemos acertado, tinha com ser diferente? Afinal de contas, mesmo com uma compreensão correta dos fatos, isso não quer dizer que o trotskismo pudesse sair vitorioso do conturbado período dos anos 1990. Bem, isso jamais saberemos. Mas como mínimo, podemos dizer que os partidos trotskistas poderiam ter evitado, talvez, algumas derrotas desnecessárias, preservado algumas posições, evitado algumas rupturas infantis, provocadas por uma compreensão equivocada da realidade, vista quase sempre como uma maré montante rumo à vitória final.

    Em qualquer caso, uma teoria ou um teórico não podem ser culpados pelos erros de seus seguidores. Como dissemos mais acima, Trotski nos deu a teoria da revolução permanente e uma explicação científica para a degeneração da URSS e para a força do stalinismo. Esse é o grande legado da IV Internacional. Mas não é o único: os militantes da IV Internacional foram, em inúmeras ocasiões, exemplo não apenas de firmeza moral e estratégica, mas também de faro e iniciativa política. Estados Unidos, França, Inglaterra, Argentina, Brasil, Sri Lanka, Bolívia, Peru – todos esses países viram nascer importantes organizações trotskistas que lutaram com dignidade e inteligência para romper a marginalidade que as derrotas da primeira metade do século 20 haviam imposto. Alguns partidos foram mais bem sucedidos. Outros nem tanto. Todos eles têm uma história para contar e lições para serem absorvidas por todos nós.

    O presente e o futuro
    Mas e hoje? O que é a IV Internacional hoje? Tem sentido aplicar esforços na sua reconstrução? O legado teórico e programático deixado por Trotski é o suficiente para a continuidade do marxismo em nosso século? Este é um tema sobre o qual aqueles que reivindicam a teoria da revolução permanente já se debatem há algum tempo e, felizmente, devem seguir se debatendo, exatamente porque esta é uma das principais questões do novo século: como continuar o que começaram nossos grandes predecessores? Como ser dignos de uma herança tão rica? Para isso, também é importante responder: Qual parte exatamente desta herança reivindicamos? E a qual parte renunciamos? E qual é a nossa própria contribuição a esta herança comum? O século 21 se ergue diante de nós e nos indaga, como a Esfinge a Édipo: decifra-me ou te devoro.

     

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    Há 80 anos foi fundada a IV Internacional. Viva a IV Internacional!

     

     

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  • Discurso de Trotski gravado para a conferência de fundação da IV Internacional

    Especial 80 anos da IV InternacionalSem poder participar da conferência de fundação da IV Internacional por questões de segurança, Léon Trotski gravou um discurso para a abertura da reunião ocorrida em 03 de setembro de 1938, em Paris. Neste aniversário de 80 anos de fundação da IV internacional republicamos o discurso enviado por Trotski desde seu exílio no México. O discurso foi incorporado como um dos documentos aprovados na conferência que foi oficialmente considerada o I Congresso da IV Internacional.

    ***

    “Espero que desta vez a minha voz chegue para poder assim participar desta dupla celebração de vocês. Ambos acontecimentos, o décimo aniversário de nossa organização norte-americana e o congresso de fundação da Quarta Internacional, são incomparavelmente mais dignos da atenção dos operários que as gesticulações belicosas dos chefes totalitários, as intrigas diplomáticas ou os congressos pacifistas. Os dois fatos passarão a ser importantes marcos históricos.

    É necessário notar que o surgimento do grupo norte-americano de bolcheviques leninistas, devido a valente iniciativa dos camaradas Cannon, Shachtman e Abern, não foi um fato isolado. Coincidiu aproximadamente com o começo do trabalho internacional sistemático da Oposição de Esquerda que surgiu na Rússia em 1923, mas a tarefa regular em escala internacional começou com o Sexto Congresso do Comintern. Sem que tivéssemos um encontro pessoal entre nós, chegamos a um acordo com os pioneiros norte-americanos da Quarta Internacional, antes de tudo, acerca da crítica ao programa da Internacional Comunista. E em 1928 começou o trabalho coletivo que, depois de dez anos, levou à elaboração do programa recentemente adotado em nossa conferência internacional. Temos direito a afirmar que nesta década fomos persistentes, pacientes e honestos. Os bolcheviques leninistas, os pioneiros internacionais, nossos camaradas de todo o mundo, buscavam o caminho da revolução, como genuínos marxistas, não em seus sentimentos e desejos, mas na análise da marcha objetiva dos acontecimentos. Sobretudo, guiava-nos a preocupação de não enganar aos demais nem a nós mesmos. Investigamos séria e honestamente e encontramos algumas coisas importantes. Os fatos confirmaram tanto nossas análises como nossos prognósticos. Ninguém pode negá-los. Agora é necessário permanecermos fiéis a nós mesmos e ao nosso programa. Não é fácil. As tarefas são tremendas, os inimigos inumeráveis…

    Queridos amigos, não somos um partido igual aos outros. Nossa ambição não se limita a ter mais filiados, mais jornais, mais dinheiro, mais deputados. Tudo isso faz falta, mas não é mais que um meio. Nosso objetivo é a total libertação material e espiritual dos trabalhadores e dos explorados através da revolução socialista. Se nós não a fizermos, ninguém a preparará, nem a dirigirá.

    As velhas internacionais – a Segunda, a Terceira, a de Amsterdã, podendo-se acrescentar também o Birô de Londres – estão completamente apodrecidas. Os grandes acontecimentos que vive a humanidade não deixarão pedra sobre pedra destas organizações que ainda sobrevivem. Só a Quarta Internacional olha com confiança o futuro. É o partido mundial da revolução socialista! Jamais houve um objetivo tão importante. Sobre cada um de nós recai uma tremenda responsabilidade histórica. O partido exige-nos uma entrega total e completa. Que os filisteus continuem buscando sua própria individualidade no vazio; para um revolucionário, doar-se inteiramente ao partido significa encontrar a si mesmo. Sim, nosso partido nos toma por inteiro. Mas, em compensação, nos dá a maior das felicidades, a consciência de participar da construção de um futuro melhor, de levar sobre nossas costas uma partícula do destino da humanidade e de não viver em vão. A fidelidade à causa dos trabalhadores exige-nos a mais alta fidelidade ao nosso partido internacional.

    O partido, certamente, também pode se equivocar. Com o esforço comum corrigiremos os erros. Elementos poucos valiosos podem se infiltrar em suas fileiras. Com o esforço comum os eliminaremos. As milhares de pessoas que entrem amanhã em suas fileiras provavelmente careçam da educação necessária. Com o esforço comum, elevaremos seu nível revolucionário. Porém, nunca esqueçamos que nosso partido é agora a maior alavanca da história. Separados desta alavanca, cada um de nós não é nada. Com esta alavanca nas mãos, somos tudo. Não somos um partido como os outros. Não é à toa que a reação imperialista nos persegue furiosamente e a camarilha bonapartista de Moscou se previne com assassinos de aluguel.

    Nossa jovem internacional já possui muitas vítimas. Na União Soviética se contam aos milhares. Na Espanha, às dezenas. Nos outros países, por unidades. Neste momento, nos lembramos de todos, com gratidão e amor. Seus espíritos continuam a luta conosco. Os carrascos, conduzidos por sua estupidez e cinismo, acreditam que seja possível atemorizar-nos. Enganam-se! Os golpes nos tornam mais fortes. A selvagem política de Stalin não é mais que uma política desesperada. Podem matar alguns soldados de nosso exército, mas não atemorizá-los.

    Amigos, repitamos novamente neste dia de celebração: não podem nos atemorizar. A camarilha do Kremlin precisou de dez anos para estrangular o Partido Bolchevique e transformar o primeiro Estado Operário em uma sinistra caricatura. A Terceira Internacional necessitou de dez anos para abandonar seu próprio programa, convertendo-se em um cadáver apodrecido. Dez anos! Só dez anos!

    Permitam-me concluir com uma profecia: durante os próximos dez anos, o programa da Quarta Internacional se transformará no guia de milhões de pessoas, e estes milhões de revolucionários saberão como mover o céu e a terra.

    Viva o Partido Socialista dos Trabalhadores dos Estados Unidos!
    Viva a Quarta Internacional!”

    México, 1938

    Versão extraída do portal marxists.org b

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    Há 80 anos foi fundada a IV Internacional. Viva a IV Internacional!

  • Há 80 anos foi fundada a IV Internacional. Viva a IV Internacional!

    Especial 80 anos da IV InternacionalHá exatos 80 anos, em 03 de setembro de 1938, “em algum lugar da Suíça”, – na verdade na casa de Alfred Rosmer (1), nos arredores de Paris -, na mais absoluta clandestinidade, foi fundada a IV Internacional.

    Nessa pequena reunião que passaria para a história, participaram 30 delegados de dez seções (URSS, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Polônia, Itália, Grécia, Holanda, Bélgica e EUA), além de um delegado representando a América Latina (o brasileiro Mário Pedrosa). Aderiram, sem poder enviar representantes, as seções da Espanha, Tchecoslováquia, Áustria, Indochina, China, Marrocos Francês, União Sul-Africana, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Dinamarca, Noruega, Palestina, Lituânia, Romênia, além de várias organizações da américa Latina e outras. Por questão de segurança, Trotski não participou da reunião. Enviou um discurso gravado (2) saudando a fundação da IV Internacional.

    A conferência que durou apenas um dia – considerada como I Congresso da IV Internacional – aprovou seus documentos fundacionais: o programa da nova internacional sob o título “A agonia mortal do capitalismo e as tarefas da IV Internacional” – conhecido como “Programa de Transição” -, os estatutos, um manifesto contra a guerra imperialista e a saudação de Trotski.

    A derrota da revolução selou o destino da III Internacional
    Após a derrota da Oposição Unificada no XV Congresso do PCUS em 1927, Trotski e Zinoviev foram expulsos do partido junto com 8.000 oposicionistas. Em 1928, Trotski é exilado em Alma-Ata, no Cazaquistão.  Em fins de 1928 é banido da Rússia. Ao chegar no primeiro exilio no exterior na ilha de Prinkipo, na Turquia, no início de 1929, ele imediatamente procurou estabelecer contatos através de cartas visando organizar uma oposição à direção da III Internacional.

    Em abril de 1930, em Paris, conseguiu conformar a Oposição de Esquerda Internacional. O objetivo era ainda lutar para reformar a Internacional Comunista. “Só uma imensa catástrofe histórica”, dizia Trotski, “poderia provocar a morte da III Internacional” colocando na ordem do dia a necessidade de fundar uma nova internacional.

    Essa catástrofe, todavia, logo ocorreu com a derrota da revolução alemã. O PC Alemão ao se negar a constituir a frente única com a socialdemocracia para enfrentar o nazismo, terminaria traindo a revolução alemã facilitando a ascensão de Hitler. Em março de 1933, logo após Hitler obter plenos poderes, Trotski publicou um artigo dando por morto o PC alemão. Assim, abandonou a estratégia de reformá-lo e chamou a formação de um novo partido revolucionário na Alemanha. Ele explicou esta mudança dizendo: “Assim como o doutor nunca abandona o paciente que tem um sopro de vida, tivemos como tarefa a reforma do PCA, na medida em que ainda existia uma mínima esperança. Mas agora seria um erro continuar atado a um cadáver” . (3)

    Ainda que o perigo do fascismo não conseguisse despertar o Partido Comunista alemão para os erros cometidos, Trotski esperava uma possível reação da Internacional Comunista. Entretanto, em 7 de abril de 1933, a resolução da Executiva da IC afirmava que “A linha política do CC do PCA, com Thaelmann à cabeça, foi completamente correta, antes e depois do Estado de Hitler”. (4) Com isso Trotski concluiu que a III Internacional estava assinando seu atestado de óbito enquanto internacional revolucionária. O stalinismo havia conseguido destruir o partido bolchevique e a Internacional comunista. Era necessário reconstruir o que fora perdido. O período de lutar por reformas do PCUS e da IC tinha ficado definitivamente para trás.

    Com vistas a fundar uma nova Internacional, em agosto de 1933, foi realizado um Pleno da Oposição de Esquerda Internacional. Ele aprovou as últimas modificações num projeto de programa de 11 pontos que havia sido elaborado por Trotski e que chamava a criar uma nova internacional e novos partidos comunistas. (5) Para expressar essa mudança, a Oposição de Esquerda Internacional mudou seu nome para Liga Comunista Internacionalista (LCI-Bolcheviques-Leninistas). (6)

    A fundação da IV: momento de retrocesso, perseguição e extermínio
    Trotski queria que a IV Internacional fosse fundada na Conferência Internacional realizada em julho de 1936. Nesse momento, o stalinismo, após abandonar sua orientação esquerdista que levou a derrota na Alemanha, estrangulava a revolução na França e na Espanha através da Frente Popular, uma orientação política oportunista de conciliação com a burguesia e o imperialismo, aprovada pela Internacional Comunista no VII Congresso, realizado em 1935.

    Entretanto, debates internos sobre a conveniência de fundar ou não a IV Internacional levara ao seu adiamento, aprovando no lugar a constituição do Movimento pela IV Internacional. Uma conferência de fundação seria realizada em outubro de 1937, mas as dificuldades geradas pelas circunstâncias não permitiram que ela se desse. Ela acabou ocorrendo somente em setembro de 1938, quando então um novo adiamento já era incontornável, apesar de seguir os argumentos em contrário, incluindo o historiador Isaac Deutscher.

    As condições de fundação da IV Internacional revelavam o momento histórico em que ocorreu. Ao longo da década de 30 o movimento operário na Europa tinha vivido derrotas terríveis na Alemanha, na Áustria, França, Espanha e, na Itália, Mussolini ainda se mantinha no poder. O movimento operário estava, portanto, no auge de seu retrocesso. Além disso, era iminente o estalar da Segunda Guerra Mundial.

    O stalinismo, diretamente responsável pela derrota na Alemanha e Espanha, somava à sua política contrarrevolucionária e de conciliação, a mais implacável perseguição a qualquer vestígio de oposição. Pouco antes da fundação da IV havia sido concluído os “processos de Moscou”, a gigantesca farsa jurídica através da qual Stalin acabou de exterminar a oposição na URSS. (7) Nesse período a burocracia stalinista intensificou a repressão lançando o “Grande Terror”. Do expurgo passou-se às prisões e dessa às execuções. Não menos que 20.000 a 30.000 trotskistas soviéticos e centenas de milhares, chegando a milhões, de oposicionistas foram mortos.

    Na medida em que avançavam os preparativos para a fundação da IV, o cerco se intensificou. No período prévio à fundação, em agosto de 1937, assassinaram na Espanha Erwin Wolf (Nicole), o secretário de Trotski na Noruega. (8)  Pouco depois foi assassinado na Suíça Ignaz Reiss,  (9) membro da GPU que rompeu com o stalinismo e anunciou sua adesão com a IV. Em fevereiro de 1938, foi assassinado em Paris, León Sedov (10) , filho e principal colaborador de Trotski, responsável pelo Boletim da Oposição (Bolletin Oppositsi) e pelo Secretariado Internacional (SI). Por fim, dois meses antes da fundação, foi assassinado, também em Paris, o novo secretário do SI e responsável pela preparação da Conferência, Rudolf Klement.  (11) Muitos dos informes e documentos preparatórios desapareceram com seu sequestro.

    O debate sobre a fundação da IV Internacional
    Os argumentos em contrário à fundação da IV se apoiavam na situação mundial desfavorável e na debilidade das forças quartistas. Entretanto, subjetivamente, já em 1936, as condições eram de extrema debilidade e a situação não foi amenizada desde então. Pelo contrário, elas pioraram e tendiam a piorar ainda mais. Na verdade, Trotski já trabalhava com a possibilidade de que ele também poderia ser eliminado pelo stalinismo, o que viria a ocorrer dois anos depois, na Cidade do México. Desde o ponto de vista objetivo ele considerava que a aproximação da Segunda Guerra era o fator determinante para a fundação da IV. Somente uma internacional poderia resistir às pressões da guerra imperialista que nos anos seguintes viria produzir a maior carnificina da história deixando em torno de 60 milhões de mortos, com os seus desdobramentos convulsivos na luta de classes.

    Assim, a fundação da IV obedecia a objetivos defensivos e, ao mesmo tempo, ofensivos. Por um lado, pretendia unir os marxistas revolucionários em torno a um programa que sintetizasse toda a aprendizagem do movimento marxista mundial desde o Manifesto Comunista e, especialmente, a formação do partido bolchevique e o triunfo da revolução russa. Somente uma firme organização internacional poderia preservar essas conquistas dos ataques do stalinismo e dos demais aparatos contrarrevolucionários que tentavam apagá-las da memória histórica dos trabalhadores e sua vanguarda. Tinha também como objetivo defender a URSS ante a ameaça crescente do nazismo. Por outro lado, tinha o objetivo ofensivo de preparar os marxistas revolucionários do mundo para o inevitável ascenso que se abriria como a partir da guerra imperialista.

    O significado do acerto da fundação da IV Internacional
    Em que pese a grande debilidade das forças que fundaram a IV Internacional, o erro do prognóstico de que a guerra abriria as condições para que a “IV fosse uma força revolucionária decisiva no mundo”, e que a IV Internacional ainda hoje segue sendo numericamente muito débil, sua fundação foi um imenso acerto histórico.  Caso ela não se desse corria-se o risco do trotsquismo, enquanto fio de continuidade do bolchevismo-leninismo, viesse a desaparecer. Os distintos grupos e organizações trotsquistas separados e isolados em cada país, sem um vínculo político e organizativo internacional, seguramente cairiam na dispersão e sucumbiriam sob a ofensiva do stalinismo e das forças imperialistas em meio à guerra.

    Graças à fundação da IV Internacional foi possível manter grandes conquistas teóricas e programáticas do marxismo revolucionário acumulados pelo bolchevismo e a Internacional Comunista sob Lênin. A elas se somam as lições das experiências revolucionárias dos 20 e 30, incluindo a própria URSS.

    Trotski foi um dos principais dirigentes da revolução russa ao lado de Lênin. Foi o principal responsável pela construção do Exército Vermelho. Estudou como ninguém os fatores que levaram à degeneração dessa que foi a primeira revolução proletária da história. Defendeu a necessidade de uma revolução política que tirasse a burocracia do poder trazendo de volta a democracia operária e poder aos soviets. Previu que a teoria da burocracia do “socialismo num só país”, contrária ao caráter internacional da revolução socialista, poderia levar à crise e a restauração do capitalismo na URSS, como de fato veio a ocorrer. Mas na sua opinião, a maior obra de sua vida foi ter fundado a IV Internacional. A ela devemos, por exemplo, a nossa própria existência. Viva a IV Internacional!

    IMAGEM Detalhe do mural “El hombre en el cruce de caminos”, de 1934, de Diego Rivera


    NOTAS
    1 – Rosmer, Alfred (1877-1964). Sindicalista revolucionário francês, internacionalista durante a Primeira Guerra, momento em que se ligou politicamente a Trotsky, apoiou a revolução russa e a política dos bolcheviques. Representante dos comunistas franceses ante a Internacional Comunista em seus primeiros anos, foi membro da ala esquerda do PCF, sendo expulso em 1925. Participou da organização da corrente trotsquista na França, se retirando da vida política nos anos 30. Manteve-se para sempre suas simpatias política e amizade com Trotsky.

    2 – < https://esquerdaonline.com.br/2018/09/03/discurso-de-trotski-gravado-para-a-conferencia-de-fundacao-da-iv-internacional/ >

    3 – Trotsky, Leon. “Partido comunista Alemão ou um novo partido? (I)”, 12 de março de 1933.

    4 – Broué, Pierre. “O partido Bolchevique”. Editora Sundermann. São Paulo, 2014. Pág. 334.

    5 – Alexander, Robert. “International Trotskysm – 1929-1985”. Pág. 256.

    6 – Pathfinder Press, Documents of the Fourth International, The Formative Years (1933-40), Introdução dos editores, pg 8; Alexander, Robert. “International Trotskysm – 1929-1985”. Pág. 260.

    7 – De 1936 a 1938, três grandes julgamentos foram realizados em Moscou, nos quais o papel de promotor foi representado pelo ex-menchevique Vishinsky, que se tornou ministro das Relações Exteriores após a guerra. As investigações iniciaram usando um fato concreto: o assassinato de Sergey Kirov (1934). No primeiro julgamento, os acusados (Zinoviev, Kamenev, I.N. Smirnov, etc.) “confessaram” ter tramado contra Stálin por ganância pelo poder. No segundo julgamento, os réus (entre os quais Piatakov e Iagoda, organizadores do primeiro julgamento) “confessaram” que eles e os acusados no julgamento anterior haviam conspirado para restabelecer o capitalismo na União Soviética. No terceiro julgamento, os acusados (Bukharin, Rakovsky, etc.) “confessaram” que todos eles, incluindo os executados após os julgamentos anteriores, haviam sido há muito tempo espiões a serviço da Gestapo (alemã), do Serviço de Inteligência (britânico), do Mikado japonês, etc. Além desses “julgamentos”, esse período viu a execução, também como conspiradores, dos chefes mais importantes do Exército Vermelho. (Tukhachevsky, Gamarnik, Putna, etc). Em todos esses julgamentos, os principais acusados foram Trotski e seu filho Leon Sedov. Trotski foi retratado como um agente contrarrevolucionário – desde há muito tempo.

    8 – Wolf, Erwin (1902-1937): comunista checoslovaco, quando estudava em Berlim se uniu à Oposição de esquerda. Foi secretário de Trotski durante sua estadia na Noruega, em 1935. Desenvolveu uma grande atividade contra os processos de moscou, sobretudo na imprensa britânica. Em 1º de agosto de 1937 foi sequestrado em Barcelona pelos agentes da GPU. Nunca mais apareceu.

    9 – Reiss, Ignaz (1899-1937): comunista polaco, membro do serviço de informação do Exército vermelho, logo responsável da GPU (polícia secreta soviética) na Europa ocidental, rompeu com o stalinismo, em julho de 1937, anunciando através de uma carta sua adesão à IV Internacional. Foi assassinado pela GPU na Suíça.

    10 – Sedov, Léon (1906-1938). Militante da Kosomol, as juventudes comunistas soviéticas. Se uniu às filas da Oposição de Esquerda desde sua formação e foi responsável da “seção russa” da oposição de Esquerda internacional e do Boletim da Oposição (biulleten Oppozitsii). Em 1936 publicou “O livro vermelho” sobre os processos de Moscou. Foi assassinado em Paris por agentes da GPU.

    11 – Klement, Rudolf (1910-1938). Militante do PC Alemão, se uniu à Oposição de Esquerda. Foi secretário de Trotski na Turquia e na França. Membro do Secretariado Internacional do movimento pela IV Internacional e do comitê de preparação da Conferencia de Fundação da IV Internacional, foi sequestrado e assassinado em paris pela GPU pouco antes da conferencia. Seu cadáver apareceu esquartejado no rio Sena.

     

  • Cadernos de militantes da Oposição de Esquerda são descobertos em prisão russa

    Especial 80 anos da IV InternacionalNos 80 anos da fundação da Quarta Internacional, como se fosse um presente de aniversário, foram encontrados em uma antiga prisão da ex-URSS, dezenas de documentos escritos por membros da Oposição de Esquerda, que se encontravam presos nos anos de 1930. A mídia russa deu ampla divulgação a esta descoberta e já publicou três dos documentos encontrados, que são reproduzidos em parte neste artigo. O Esquerda Online reproduz abaixo o texto publicado no World Socialist Web Site, órgão do Comitê Internacional da Quarta Internacional (ICFI, sigla em inglês).

     

    DESCOBERTA HISTÓRICA DE MANUSCRITOS DA OPOSIÇÃO DE ESQUERDA DO INÍCIO DOS ANOS 1930

    Em fevereiro de 2018, cerca de 30 documentos escritos por membros da Oposição de Esquerda Trotskista nos anos 1932-1933 foram encontrados na prisão de Verkhneuralsk, no sul dos Urais, na Rússia. A maioria deles foi escrita em cadernos, enquanto os membros da Oposição de Esquerda estavam presos. Os documentos foram descobertos durante um trabalho de manutenção sob as tábuas do piso da câmara n° 312 da prisão.

    Lev Sedov, filho de Trotsky, e editor do Boletim da Oposição de Esquerda

    Lev Sedov, filho de Trotsky, e editor do Boletim da Oposição de Esquerda

    Apenas uma pequena parte da literatura da oposição trotskista que foi escrita na União Soviética nesse período era conhecida até agora. A polícia secreta stalinista, a OGPU-NKVD, fez o possível para destruir os documentos produzidos pelos trotskistas. Apenas alguns deles atravessaram a fronteira, onde puderam ser publicados no Boletim da Oposição, editado por Leon Trotsky, líder da Oposição de Esquerda, e seu filho Lev Sedov.

    A descoberta desses documentos é de grande importância histórica e política. O conteúdo dos três documentos publicados até agora são uma comprovação das décadas de luta do movimento trotskista, que fundou a Quarta Internacional em 1938, contra o stalinismo contrarrevolucionário. A publicação destes documentos constitui um grande golpe nas falsificações stalinistas que, por décadas, têm procurado caluniar, depreciar e silenciar o movimento trotskista.

    Os documentos confirmam que a Oposição de Esquerda, mesmo depois de ter seus membros expulsos do Partido Comunista e presos, permaneceu com uma força extraordinária. Como o historiador Alexander Fokin, que leciona na Universidade Estadual de Chelyabinsk e está entre os que trabalham para publicar esses documentos, observou:

    “Na historiografia, a visão predominante é de que, após 1927, com a derrota de Trotsky, a Oposição de Esquerda na Rússia deixou de existir. Mas essa descoberta prova que mesmo a prisão stalinista não conseguiu quebrar essas pessoas – eles organizaram e continuaram a luta. Com base nos manuscritos, fica claro que eles estavam realmente se empenhando em criar um programa alternativo para o desenvolvimento da URSS.”

    A Oposição de Esquerda surgiu no outono de 1923, no último período da vida de Lênin e em meio à derrota da revolução alemã, quando o crescimento do burocratismo no Estado soviético e no Partido Comunista fez surgir uma oposição dentro do partido e da classe trabalhadora como um todo. O atraso da economia russa, a herança do czarismo e o atraso da revolução internacional, especialmente na Europa, fortaleceram os setores conservadores, de orientação nacionalista, no aparato do partido e no Estado soviético. Estes setores encontraram na teoria do “socialismo em um só país”, criada por Bukharin e Stalin, no final de 1924, uma justificativa ideológica em oposição ao espírito e a perspectiva internacionalista da Revolução de Outubro de 1917.

    Durante o período da Nova Política Econômica (NEP) em meados da década de 1920, a Oposição de Esquerda criticou a direção majoritária do partido, encabeçada por Stalin, e que incluía as forças centristas e de direita, por se adaptar aos pequeno-burgueses, aos aspirantes a burgueses (Nepmen) e aos kulaks (camponeses ricos), bem como por impedir o desenvolvimento da indústria e por suprimir a democracia interna do partido. Na política externa, os trotskistas condenaram a linha cada vez mais oportunista do Comintern, que levou a uma série de derrotas devastadoras da classe trabalhadora, inclusive na Grã-Bretanha e na China.

    Trotsky com os integrantes da Oposição de Esquerda, em 1927

    Trotsky com os integrantes da Oposição de Esquerda, em 1927

    No outono de 1928, o curso a direita da direção majoritária do Partido Bolchevique foi substituído por um ziguezague de extrema esquerda. Uma das razões para isso foi uma crise de grãos provocada, como havia previsto a oposição, pela negativa dos kulaks de vender grãos ao estado a preços desfavoráveis. Após um período de industrialização lenta e crescente dependência de mecanismos do mercado, a direção stalinista mudou para o outro extremo – uma política caótica e aventureira de industrialização e coletivização forçada da agricultura.

    Como resultado da enorme luta interna, Trotsky e Zinoviev, juntamente com cerca de 8.000 oposicionistas, foram expulsos do partido no Décimo Quinto Congresso do PCURSS, em dezembro de 1927. A partir deste momento, a repressão contra os oposicionistas de esquerda aumentou. A pena de exílio foi substituída por sentenças de prisão e as condições de encarceramento tornaram-se cada vez mais cruéis. Como o historiador e sociólogo Vadim Rogovin enfatizou, “as bases do regime político burocrático-centrista, que se protegeu de quaisquer tentativas de promover a renovação socialista, foram usadas na luta contra a Oposição de Esquerda”. (VZ Rogovin, Vlast ‘i oppozitsii , Moscou: 1993, p. 118)

    Prisão Verkhneuralsk, na Rússia, onde foram encontrados os documentos

    Prisão Verkhneuralsk, na Rússia, onde foram encontrados os documentos

    Juntamente com as prisões políticas em Yaroslavl e Suzdal, a Prisão Verkhneuralsk, cujo edifício fora construído nos anos 1910, tornou-se um centro para o encarceramento de dissidentes expulsos, incluindo os bolcheviques-leninistas, como os oposicionistas trotskistas se denominavam.

    Entre as figuras mais conhecidas da prisão política de Verkhneuralsk estavam os ex-membros do Politburo Grigory Zinoviev e Lev Kamenev, o ex-chefe do Gosbank (Banco do Estado) e vice-chefe do VSNKh (Conselho Superior da Economia), Georgii Piatakov, o ex-secretário do Comintern, Karl Radek, ex-editor-chefe da Komsomol’skaia pravda , Aleksandr Slepkov e seu amigo, o escritor Dmitrii Maretskii, que era o irmão de Vera Maretskaia, uma estrela de cinema soviético famosa na década de 1930. Entre os prisioneiros também estavam incluídos pequenos grupos de mencheviques, socialistas-revolucionários e representantes de outras tendências políticas.

    Uma lista de 117 nomes de bolcheviques-leninistas presos, publicada no Boletim da Oposição em março de 1931, incluía alguns dos mais destacados representantes do trotskismo internacional na época: Fedor Dingelshtedt, um importante teórico da Oposição de Esquerda; Viktor Eltsin, editor do Collected Works de Trotsky em russo; Nevelson, marido da filha mais nova de Leon Trotsky, Nina Bronstein, e um dos principais opositores ao stalinismo, Musia Magid, e Igor ‘Poznansky, um dos ex-secretários de Trotsky e um de seus colaboradores mais próximos.

    Exilados da Oposição de Esquerda. No alto, à esquerda: Viktor Borisovich Eltsin. No meio, à direita: Igor M. Poznansky. Ambos eram colaboradores muito próximos de Trotsky

    Exilados da Oposição de Esquerda. No alto, à esquerda: Viktor Borisovich Eltsin. No meio, à direita: Igor M. Poznansky. Ambos eram colaboradores muito próximos de Trotsky

    Dentre os documentos publicados, talvez os mais importantes sejam as teses dos bolcheviques-leninistas sobre o “Golpe Fascista na Alemanha”, de 1 de abril de 1933. (Clique para ler o original em russo) Escrito apenas dois meses após Hitler ter tomado o poder na Alemanha, através de uma conspiração, oferece uma análise detalhada das origens do fascismo alemão e das tarefas que a classe trabalhadora enfrentava em toda a Europa. O documento começa colocando a ascensão do nazismo no contexto da crise do capitalismo mundial:

    “O golpe contrarrevolucionário organizado pelo estado, que acabou de ocorrer na Alemanha, a contrarrevolução de março, é um evento de grande significado histórico. A guerra mundial imperialista não resolveu nenhuma das contradições da sociedade capitalista. Pelo contrário, intensificou-as e aprofundou-as extraordinariamente, trazendo-as para um estágio superior […] A crise econômica mundial abalou profundamente os fundamentos da sociedade capitalista. Mesmo o todo poderoso Estado imperialista americano tremeu sob seu impacto.”

    O documento enfatiza que a decisão do capitalismo alemão de colocar o fascismo no poder significou uma escalada da contrarrevolução internacionalmente. A burguesia alemã, argumentam os bolcheviques-leninistas, decidira destruir quaisquer concessões que tivesse sido forçada a fazer aos trabalhadores e marinheiros alemães, na revolução de 1918/19.

    Uma parte significativa do documento trata da traição do Partido Comunista Alemão (KPD) e suas implicações históricas. O texto ataca fortemente o KPD por ter semeado ilusões nos elementos supostamente “socialistas” do programa do Nacional Socialismo, o que acabou orientando os trabalhadores alemães para o partido nazista, por ter glorificado a ascensão do fascismo como “uma radicalização de esquerda das massas”, ao mesmo tempo em que se opôs a uma frente única com os trabalhadores do Partido Socialdemocrata, afirma o documento:

    “A falta de combate da direção do Partido Comunista Alemão ao golpe fascista é apenas o elo decisivo e definitivo na cadeia de traições a revolução mundial que o stalinismo internacional vem cometendo há anos. Essa traição à revolução internacional […] entrará para a história juntamente com a data de 4 de agosto de 1914 [quando a socialdemocracia alemã aprovou os créditos de guerra para o governo alemão].

    […] Ao rejeitar a revolução permanente internacional, ela [a burocracia] alimenta a contrarrevolução. A burocracia da URSS tem aberto o caminho para que a reação mundial possa esmagar o movimento comunista. A URSS está se isolando do proletariado mundial assim como o proletariado mundial está sendo isolado do proletariado da URSS.”

    Manuscrito intitulado “A situação do País e as tarefas dos bolcheviques-leninistas"

    Manuscrito intitulado “A situação do País e as tarefas dos bolcheviques-leninistas”

    Os bolcheviques-leninistas não só criticaram o KPD por suas políticas. Eles resumiram o programa que havia sido construído por anos através das análises e declarações da Oposição de Esquerda, e especialmente por Leon Trotsky, da situação na Alemanha. Em seguida, expuseram sem rodeios a única política correta que teria sido capaz, se implementada pela Internacional Comunista, de mudar a situação e a correlação de forças em favor da classe trabalhadora:

    “À luz do crescente perigo de um golpe fascista, a direção revolucionária dos comunistas está obrigada a:
    Fortalecer cotidianamente a frente antifascista da classe trabalhadora;
    Preparar imediatamente uma greve geral em resposta a qualquer tentativa de golpe fascista;
    Organizar tudo o que for necessário para armar os trabalhadores para a tomada do poder revolucionário;
    Mobilizar as melhores forças do movimento comunista mundial para ajudar o proletariado alemão;
    Mobilizar o Exército Vermelho da URSS para apoiar um ataque antifascista da classe trabalhadora alemã;
    Declarar com coragem à opinião pública e ao proletariado da Alemanha que ele não está sozinho na sua heroica luta contra o fascismo, que o proletariado da URSS irá ajudá-lo a esmagar a contrarrevolução com todos os recursos que o país tem à sua disposição, inclusive com as forças armadas, que aguardam este momento histórico, prontos e mobilizados. Que o proletariado russo cumprirá o seu dever para com seus irmãos alemães com a mesma determinação com que estes últimos cumpriram o seu em relação à Rússia em 1918.”

    Ao não cumprirem essas “responsabilidades revolucionárias internacionais elementares”, para os bolcheviques-leninistas, “o stalinismo internacional preparou e orquestrou uma gigantesca derrota mundial do proletariado. Com isso, completou a sua traição à revolução. Desta forma, o Comintern se colocou fora dos marcos revolucionário, chegou ao fim-da-linha, e se tornou a ala esquerda da socialdemocracia.” [Ênfase no original.]

    O documento resume os perigos que a classe trabalhadora enfrenta. “As contradições internas e externas vão empurrar o governo da Alemanha fascista para o caminho da agressão externa e, no plano histórico, contra a URSS, pois não há e não pode haver outro caminho para a consolidação a longo prazo da contrarrevolução, que não seja através da guerra.”

    No entanto, o regime nazista não duraria décadas, mas anos, previam os bolcheviques-leninistas, e a classe trabalhadora entraria em luta revolucionária, inclusive na própria Alemanha:

    “A classe trabalhadora alemã constitui metade do país. Estamos vivendo uma época de guerras e revoluções, quando a experiência política das massas cresce rapidamente, quando todos os processos da vida social estão se movendo a uma velocidade sete vezes maior, quando as classes não podem permanecer por muito tempo em um estado de confusão ou passividade, não importa quão cruel sejam as derrotas sofridas.”

    O documento conclui:

    “A revolução mundial está entrando em uma das suas fases mais dramáticas. Para explicar isso aos trabalhadores de todo o mundo, para mobilizar os trabalhadores, para assegurar que a classe trabalhadora compreenda as causas que levaram a esta fase, que entenda que a vitória do proletariado é impossível sob o regime stalinista, não só aqui [na União Soviética], mas também na Europa, que o stalinismo internacional é uma das barreiras que a classe trabalhadora precisa esmagar para superar a gigantesca onda de reação mundial – essa é a nossa tarefa principal. E somos obrigados a cumpri-la em todas as possibilidades e com todas as armas que estiverem ao nosso alcance.”

    As teses foram assinadas por 30 trotskistas presos, incluindo: Dingel’shtedt F., Kariakin M., Papirmeister P., Shinberg B., Novikov P., Abramskii A., Portnoi M., Bodrov M., Papirmeister Ya., Fel ‘dman, Nevel’son M., Kessel’, Borzenko, Blokh, Kugelev, Kozhevnikov N., Zaraikin, Papirmeister S., El’tsin VB, Danilovich L., Khugaev K., Brontman, Vashakidze, Gogelashvili, Topuriia, Efremov Shiptal’nik, Sasorov, Kholmenkin, Shvyrov.

    O documento é, em todos os aspectos, extraordinário. Separados da Oposição Internacional de Esquerda e presos, os trotskistas soviéticos elaboraram uma análise que em todos os pontos centrais coincidiu completamente com a de Trotsky, acrescentando aspectos que são importantes para uma avaliação histórica abrangente de 1933. Embora o documento ainda não chamasse a formação da Quarta Internacional – o que o próprio Trotsky só publicaria mais tarde naquele ano – não há dúvida de que, a julgar por este documento, os principais trotskistas soviéticos teriam apoiado e contribuído para a construção da Quarta Internacional. Além disso, a distribuição de tais documentos na Europa e especialmente na Alemanha, em meio ao colapso total das antigas lideranças, teria um enorme impacto na conscientização de milhares, senão de milhões de trabalhadores.

    Os documentos publicados até agora são apenas um décimo do que foi encontrado. Entre os manuscritos descobertos estão vários cadernos sob o título comum: “A crise da revolução e as tarefas do proletariado.” Outros documentos trazem títulos como: “Uma revolução unificada ou ambígua?” “Sobre os resultados da discussão sobre a revolução permanente”, “A teoria da revolução permanente e a teoria do socialismo em um país”, “Sobre a fundamentação teórica da oposição leninista e do nacional-socialismo stalinista”, “Questões básicas da economia e da política do período de transição”, “Teses sobre política econômica (para discussão geral e coletiva).”

    Esses documentos sublinham, ilustram e, em certo sentido, demonstram o crime histórico que a burocracia stalinista cometeu, em primeiro lugar por isolar estes quadros do proletariado soviético e internacional e, em seguida, por assassiná-los no genocídio político que foi o Grande Terror. É precisamente porque a burocracia stalinista reconheceu que a linha política da Oposição de Esquerda coincidia internacionalmente com as experiências vivas da classe trabalhadora, e articulava suas tarefas estratégicas e políticas, que reprimiu os seus membros com uma brutalidade histórica sem precedentes.

    A partir de 1933, os oposicionistas foram levados para campos de trabalho forçado, e no final de 1936 estavam todos confinados nos dois lugares mais terríveis – os campos de Kolyma, no leste da Sibéria e os acampamentos de Vorkuta perto do círculo polar, no norte da cidade dos Urais.

    Nestes campos muitos morreram de fome, doença, trabalho forçado, ou foram executados. Temendo que a ascensão internacional da classe trabalhadora beneficiasse o movimento trotskista, a burocracia stalinista intensificou a repressão e lançou o Grande Terror, no qual não menos que 20.000 a 30.000 trotskistas soviéticos e centenas de milhares ou mesmo milhões de comunistas e intelectuais socialistas foram mortos. Praticamente todos aqueles que foram presos em Verkhneuralsk foram assassinados.

    Não há dúvida de que os dirigentes da Oposição de Esquerda destruídos por Stalin teriam desempenhado um papel central na condução dos movimentos revolucionários contra o fascismo, que irromperam dentro da classe trabalhadora europeia, tanto na véspera da Segunda Guerra Mundial quanto no início da década de 1940. O terrorismo em massa do stalinismo contra o movimento trotskista e comunista, auxiliado pelo terror nazista, forneceu as condições para que esses movimentos fossem manipulados politicamente e colocados sob o controle do stalinismo.

    Estes documentos reivindicam a luta trotskista contra a burocracia stalinista contrarrevolucionária. Cada elemento de sua análise foi confirmado por eventos. Ninguém, tendo lido esses documentos, pode argumentar que a Oposição de Esquerda era uma força política insignificante na União Soviética. Cada linha nestes documentos é imbuída de otimismo revolucionário, tenacidade e visão, e um espírito de luta orgulhoso e sólido.

    O movimento trotskista foi e sempre será, como os bolcheviques-leninistas enfatizaram, antes de tudo uma tendência internacional. É por isso que, quaisquer que fossem os horrendos crimes de Stalin e quaisquer que fossem as perdas extraordinárias que o movimento trotskista sofreria, não foi derrotado ou destruído como uma tendência política. […]

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  • À memória do “velho” (Obituário de Leon Trotsky)

    James Patrick Cannon

    James Patrick Cannon

    Nos 78 anos do assassinato de Leon Trotsky, reproduzimos a tradução do discurso lido por James Cannon no funeral do revolucionário russo, publicado no site do Movimento Alternativa Socialista (MAS), de Portugal. Cannon foi o fundador do trotskismo nos EUA. Delegado ao V Congresso da Internacional Comunista, em representação do Partido Comunista dos EUA, Cannon teve contato com um documento clandestino de Trotsky, traduzido para o inglês, que foi secretamente introduzido no Congresso da Internacional Comunista, o primeiro Congresso que não se deu sob a égide de Lenine – já falecido – e de Trotsky, exilado. Ao tomar contato com a contundente crítica ao stalinismo, James Cannon rompeu com o stalinismo e voltou para os EUA para fundar um partido que seguisse os ensinamentos da revolução de Outubro – um partido trotskista, o SWP. O SWP norte-americano e os seus quadros colaboraram diretamente com Trotsky durante o seu último exílio e beberam diretamente os ensinamentos do “velho”, que se refletem tão vivos neste emocionante discurso.


    “Toda a vida consciente do camarada Trotsky, a partir do momento em que ele entrou no movimento operário na cidade provinciana russa de Nikolayev com a idade de dezoito anos até o momento da sua morte na Cidade do México quarenta e dois anos depois, foi completamente dedicada ao trabalho e à luta em prol de uma ideia central. Ele defendia a emancipação dos trabalhadores e de todos os povos oprimidos do mundo e a transformação da sociedade do capitalismo para o socialismo por meio de uma revolução social. Em sua concepção, essa revolução social libertadora exige para o seu sucesso a liderança de um partido político revolucionário da vanguarda operária.

    Em toda a sua vida consciente, o camarada Trotsky nunca divergiu dessa ideia. Ele nunca duvidou disso e nunca deixou de lutar pela sua realização. No seu leito de morte, na sua última mensagem para nós, seus discípulos – seu último testamento – ele proclamou a sua confiança no seu ideal de vida: “Diga aos nossos amigos que tenho certeza da vitória da Quarta Internacional – Sigam em frente!”

    O mundo inteiro conhece o seu trabalho e o seu testamento. Os cabos da imprensa mundial transmitiram o seu último testamento e deram-no a conhecer aos milhões do mundo. E nas mentes e corações de todos aqueles em todo o mundo que choram connosco esta noite, um pensamento – uma pergunta – é mais importante: O movimento que ele criou e inspirou sobreviverá à sua morte? Seus discípulos serão capazes de manter as suas fileiras juntos, eles serão capazes de tornar real o seu testamento e realizar a emancipação dos oprimidos através da vitória da Quarta Internacional?

    Sem a menor hesitação, damos uma resposta afirmativa a essa questão. Aqueles inimigos que prevêem um colapso do movimento de Trotsky sem Trotsky e aqueles amigos sem força de vontade que o temem só mostram que não entendem Trotsky, o que ele era, o que ele significava e o que ele nos deixou. Nunca a uma família enlutada foi deixada uma herança tão rica como aquela que o camarada Trotsky, como um pai previdente, deixou para a família da Quarta Internacional como fiéis depositários de toda a humanidade progressista. Uma grande herança de ideias que ele nos deixou; ideias que devem mapear a luta em direção ao grande futuro livre de toda a humanidade. As ideias poderosas de Trotsky são o nosso programa e a nossa bandeira. São um claro guia para a ação em todas as complexidades da nossa época e uma garantia constante de que estamos certos e de que a nossa vitória é inevitável.

    O próprio Trotsky acreditava que as ideias são a maior potência do mundo. Os seus autores podem ser mortos, mas as ideias, uma vez promulgadas, ganham vida própria. Se são ideias corretas, fazem o seu caminho através de todos os obstáculos. Esse era o conceito central e dominante da filosofia do camarada Trotsky. Ele explicou-nos isso muitas e muitas vezes. Ele escreveu uma vez: “Não é o partido que faz o programa [a ideia]; é o programa que faz o partido”. Em uma carta pessoal para mim, ele escreveu certa vez:“ Trabalhamos com as ideias mais corretas e poderosas do mundo, com forças numéricas e meios inadequados. Mas as ideias corretas, a longo prazo, sempre conquistam e disponibilizam para si as forças e os meios necessários ”.

    Trotsky, um discípulo de Marx, acreditava juntamente com Marx que “uma ideia, quando permeia a massa, torna-se uma força material”. Acreditando nisso, o camarada Trotsky nunca duvidou que o seu trabalho o sobreviveria. Acreditando nisso, ele poderia proclamar no seu leito de morte a sua confiança na futura vitória da Quarta Internacional, que incorpora as suas ideias. Aqueles que duvidam não conhecem Trotsky.

    O próprio Trotsky acreditava que a sua maior significância, o seu maior valor, consistia não na sua vida física, não nos seus atos épicos, que ofuscam os de todas as figuras heróicas da história no seu alcance e grandeza – mas no que ele deixaria para trás depois de os assassinos fazerem o seu trabalho. Ele sabia que sua sentença estava selada e trabalhou contra o tempo para deixar tudo o que fosse possível para nós e, através de nós, para a humanidade. Ao longo dos onze anos do seu último exílio, ele acorrentou-se à sua escrivaninha como um escravo da galé e trabalhou, como nenhum de nós sabe trabalhar, com tamanha energia, persistência e autodisciplina, como só os génios podem trabalhar. Ele trabalhou contra o tempo para derramar através da sua caneta todo o rico conteúdo do seu poderoso cérebro e preservá-lo de forma permanente para nós e para aqueles que virão a seguir a nós.

    Todo o Trotsky, como todo o Marx, está preservado nos seus livros, seus artigos e suas cartas. Sua volumosa correspondência, que contém alguns de seus pensamentos mais brilhantes e os seus sentimentos e opiniões pessoais mais íntimas, deve agora ser coletada e publicada. Quando isso for feito, quando as suas cartas forem publicadas juntamente com os seus livros, os seus panfletos e os seus artigos, nós, e todos aqueles que se juntarem a nós na luta de libertação da humanidade, ainda terão nosso Velho Homem para nos ajudar.

    Ele sabia que o super – Borgia no Kremlin, Caim – Estaline, que destruiu toda a geração da Revolução de Outubro, o tinha marcado para ser assassinado e que teria sucesso mais cedo ou mais tarde. É por isso que ele trabalhou tão desesperadamente. É por isso que ele se apressou a escrever tudo o que estava na sua mente e a colocá-lo em papel de forma permanente, onde ninguém poderia destruí-lo.

    Na outra noite, conversei à mesa de jantar com um dos secretários fiéis do Velho – um jovem camarada que o servia há muito tempo e que conhecia a sua vida pessoal, como ele a viveu nos seus últimos anos de exílio, mais intimamente. Pedi-lhe que escrevesse suas reminiscências sem demora. Eu disse: “Todos nós devemos escrever tudo o que sabemos sobre Trotsky. Todos devem registrar suas lembranças e suas impressões. Não devemos esquecer que nos movemos na órbita da maior figura do nosso tempo. Milhões de pessoas, gerações ainda para vir, ficarão famintas por cada fragmento de informação, cada palavra, cada impressão que lançar luz sobre ele, suas ideias, seus objetivos e a sua vida pessoal ”.

    Ele respondeu: “Eu posso escrever apenas sobre as suas qualidades pessoais como eu as observei; os seus métodos de trabalho, a sua humanidade, a sua generosidade. Mas eu não posso escrever nada de novo sobre as suas ideias. Elas já estão escritas. Tudo o que ele tinha a dizer, tudo o que ele tinha no seu cérebro, está no papel. Ele parecia estar determinado a mergulhar no fundo da sua mente, tirar tudo e dar ao mundo nos seus escritos. Muitas vezes, lembro-me, conversas casuais sobre algum assunto chegavam à mesa de jantar; haveria uma discussão informal e o Velho expressaria algumas opiniões novas e refrescantes. Quase invariavelmente, as contribuições da conversa na mesa de jantar iriam encontrar expressão um pouco mais tarde num livro, num artigo ou numa carta.

    Eles mataram Trotsky não através dum golpe; não quando este assassino, o agente de Estaline, desferiu a picareta através da parte de trás do seu crânio. Esse foi apenas o golpe final. Eles mataram-no por centímetros. Eles mataram-no muitas vezes. Eles mataram-no sete vezes quando mataram os seus sete secretários. Eles mataram-no quatro vezes quando mataram os seus quatro filhos. Eles mataram-no quando os seus velhos camaradas da Revolução Russa foram mortos.

    No entanto ele enfrentou as suas tarefas apesar disso tudo. Envelhecido e doente, ele cambaleava com todos esses golpes morais, emocionais e físicos para completar o seu testamento para a humanidade enquanto ainda tinha tempo. Ele compilou tudo – todo o pensamento, toda a ideia, toda a lição de sua experiência passada – para criar um tesouro literário para nós, um tesouro que as traças e a ferrugem não podem comer.

    Havia uma diferença profunda entre Trotsky e outros grandes homens de ação e líderes políticos transitórios que influenciaram grandes massas durante sua vida. O poder dessas pessoas, quase todas elas, era algo pessoal, algo incomunicável para os outros. A sua influência não sobreviveu às suas mortes. Basta lembrar por um momento os grandes homens da nossa geração ou da geração que acabou de passar: Clemenceau, Hindenburg, Wilson, Theodore Roosevelt, Bryan. Eles tinham grandes massas a segui-los e a apoiar-se neles. Mas agora estão mortos; e toda a sua influência morreu com eles. Nada resta senão monumentos e elogios fúnebres. Nada era distintivo neles a não ser as suas personalidades. Eles eram oportunistas, líderes por um dia. Eles não deixaram ideias para guiar e inspirar os homens quando seus corpos se tornassem pó e as suas personalidades tornaram-se numa lembrança.

    Não é assim com Trotsky. Não é assim com ele. Ele era diferente. Ele também era um grande homem de ação, com certeza. Os seus feitos estão incorporados na maior revolução da história da humanidade. Mas, ao contrário dos oportunistas e líderes de um dia, seus feitos foram inspirados por grandes ideias, e essas ideias ainda vivem. Ele não só fez uma revolução; ele escreveu a sua história e explicou as leis básicas que governam todas as revoluções. Na sua História da Revolução Russa, que ele considerava a sua obra-prima, ele deu-nos um guia para a realização de novas revoluções, ou melhor, para estender ao mundo a revolução que começou em outubro de 1917.

    Trotsky, o grande homem das ideias, foi ele mesmo o discípulo de um ainda maior – Marx. Trotsky não originou ou reivindicou originar as ideias mais fundamentais que ele expôs. Ele construiu sobre os fundamentos estabelecidos pelos grandes obreiros do século XIX – Marx e Engels. Além disso, ele passou pela grande escola de Lenine e aprendeu com ele. O génio de Trotsky consistia na sua completa assimilação das ideias legadas por Marx, Engels e Lenine. Ele dominou o método deles. Ele desenvolveu as suas ideias em condições modernas e aplicou-as de maneira magistral na luta contemporânea do proletariado. Se você entender Trotsky, deve saber que ele era um discípulo de Marx, um marxista ortodoxo. Ele lutou sob a bandeira do marxismo por quarenta e dois anos! Durante o último ano da sua vida, ele colocou tudo o resto de lado para lutar uma grande batalha política e teórica em defesa do marxismo nas fileiras da Quarta Internacional! Seu último artigo, que foi deixado em sua mesa em estado bruto, o último artigo com o qual ele se ocupou, foi uma defesa do marxismo contra os revisionistas e céticos contemporâneos. O poder de Trotsky, primeiro que tudo e acima de tudo, era o poder do Marxismo.

    Querem uma ilustração concreta do poder das ideias marxistas? Considerem apenas isto: quando Marx morreu em 1883, Trotsky tinha apenas quatro anos de idade. Lenine tinha apenas quatorze anos. Nenhum dos dois poderia ter conhecido Marx ou qualquer coisa sobre ele. No entanto, ambos se tornaram grandes figuras históricas por causa de Marx, porque Marx tinha posto a circular ideias no mundo antes deles nascerem. Essas ideias tinham vida própria. Elas moldaram a vida de Lenine e Trotsky. As ideias de Marx estavam com eles e guiavam a cada passo deles quando faziam a maior revolução da história.

    Tal como irão também as ideias de Trotsky, que são um desenvolvimento das ideias de Marx, influenciar-nos, seus discípulos, que o sobrevivem hoje. Elas moldarão a vida de discípulos muito maiores que ainda estão para vir, que ainda não conhecem o nome de Trotsky. Alguns que estão destinados a ser os maiores Trotskistas estão a brincar nos pátios da escola hoje. Eles serão alimentados com as ideias de Trotsky, tal como ele e Lenine foram alimentados com as ideias de Marx e Engels.

    De fato, o nosso movimento nos Estados Unidos ganhou forma e cresceu com as suas ideias sem a sua presença física, sem qualquer comunicação num primeiro período. Trotsky foi exilado e isolado em Almaty quando começámos a nossa luta pelo Trotskismo neste país em 1928. Não tivemos nenhum contacto com ele e, por muito tempo, não sabíamos se ele estava vivo ou morto. Nós nem sequer tínhamos uma coleção dos seus escritos. Tudo o que tínhamos era um único documento atual – sua “Crítica ao Projeto de Programa da Internacional Comunista”. Isso bastava. À luz desse único documento, vimos qual o nosso caminho, começámos nossa luta com suprema confiança, passámos pela cisão sem vacilar, construímos a estrutura de uma organização nacional e estabelecemos a nossa imprensa Trotskista semanal. O nosso movimento foi construído com firmeza desde o início e permaneceu firme porque foi construído com base nas ideias de Trotsky. Foi quase um ano antes de podermos estabelecer comunicação direta com o Velho.

    Tal como com as secções da Quarta Internacional em todo o mundo. Apenas alguns camaradas se encontraram alguma vez com Trotsky cara a cara. No entanto em todos os lugares o conheciam. Na China e do outro lado do oceano no Chile, na Argentina e no Brasil. Na Austrália, em praticamente todos os países da Europa. Nos Estados Unidos, Canadá, Indochina, África do Sul. Eles nunca o viram, mas as ideias de Trotsky uniram-nos num movimento mundial uniforme e firme. Por isso, continuará após a sua morte física. Não há lugar para dúvidas.

    O lugar de Trotsky na história já está estabelecido. Permanecerá para sempre na eminência histórica ao lado dos outros três grandes gigantes do proletariado: Marx, Engels e Lenine. É possível, de facto é bastante provável, que na memória histórica da humanidade, seu nome evoque o mais caloroso afeto, a mais sincera gratidão de todos. Porque ele lutou por tanto tempo contra um mundo de inimigos, tão honestamente, tão heroicamente e com uma devoção tão altruísta!

    As futuras gerações da humanidade livre olharão para trás com interesse insaciável nesta época louca de reação e violência sangrenta e mudança social – esta época da agonia da morte de um sistema social e as dores do parto de outro. Quando virem através das lentes do historiador como as massas de pessoas oprimidas em todos os lugares tateavam, cegas e confusas, elas mencionarão com profundo amor o nome do génio que nos deu luz, o grande coração que nos deu coragem.

    De todos os grandes homens do nosso tempo, de todas as figuras públicas para quem as massas se voltavam procurando orientação nestes tempos terríveis e conturbados, só Trotsky nos explicou as coisas, só ele nos deu luz na escuridão. Só o seu cérebro desvendou os mistérios e complexidades da nossa época. O grande cérebro de Trotsky era o que todos os seus inimigos temiam. Eles não conseguiam lidar com isso. Eles não podiam responder. No método incrivelmente horrível pelo qual o destruíram estava escondido um símbolo profundo. Eles atacaram o seu cérebro! Mas os produtos mais ricos desse cérebro ainda estão vivos. Eles já tinham escapado e nunca poderiam ser recapturados e destruídos.

    Nós não minimizamos o golpe que nos foi causado, ao nosso movimento e ao mundo. É a pior calamidade. Perdemos algo de valor incomensurável que nunca poderá ser recuperado. Perdemos a inspiração de sua presença física, seu sábio conselho. Tudo isso está perdido para sempre. O povo russo sofreu o golpe mais terrível de todos. Mas pelo simples fato de que a camarilha estalinista teve que matar Trotsky após onze anos, eles tiveram que se mobilizar em Moscovo, empenhar todas as suas energias e planos para destruir a vida de Trotsky – é esse o maior testemunho de que Trotsky ainda vivia nos corações do povo russo. Eles não acreditavam nas mentiras. Eles esperaram e desejaram pelo seu retorno. As suas palavras ainda estão lá. A sua memória está viva nos seus corações.

    Apenas alguns dias antes da morte do camarada Trotsky, os editores do boletim russo receberam uma carta de Riga. Ela tinha sido enviada antes da incorporação da Letônia na União Soviética. Declarava em palavras simples que a “Carta Aberta aos Trabalhadores da URSS” de Trotsky lhes chegara, e levantara seus corações com coragem e lhes mostrara o caminho. A carta dizia que a mensagem de Trotsky fora memorizada, palavra por palavra, e seria transmitida oralmente, não importando o que poderia acontecer. Nós realmente acreditamos que as palavras de Trotsky viverão mais na União Soviética do que o regime sangrento de Estaline. No próximo grande dia de libertação a mensagem de Trotsky será a bandeira do povo russo.

    O mundo inteiro sabe quem matou o camarada Trotsky. O mundo sabe que no seu leito de morte ele acusou Estaline e a sua GPU do assassinato. A declaração do assassino, preparada antes do crime, é a prova final, se mais provas fossem necessárias, de que o assassinato foi um trabalho da GPU. É uma mera reiteração das mentiras dos julgamentos de Moscovo; uma tentativa estúpida e policial, tão tardia, de reabilitar as estruturas que foram desacreditadas aos olhos de todo o mundo. Os motivos do assassinato surgiram da reação mundial, do medo da revolução e dos sentimentos de ódio e vingança dos traidores. O historiador inglês Macaulay observou que os apóstatas em todas as épocas manifestaram uma malignidade excepcional em relação àqueles que traíram. Estaline e o seu gangue de traidores foram consumidos por um ódio louco do homem que lhes lembrou o seu passado. Trotsky, o símbolo da grande revolução, lembrou-os constantemente da causa que tinham abandonado e traído, e eles odiavam-no por isso. Odiavam-no por todas as grandes e boas qualidades humanas que ele personificava e às quais eles eram completamente alheios. Eles estavam determinados, a todo custo, a acabar com ele.

    Agora chego a uma parte que é muito dolorosa, um pensamento que, tenho certeza, está nas mentes de todos nós. No momento em que lemos acerca do sucesso do ataque tenho certeza de que todos entre nós perguntaram: não poderíamos tê-lo salvado por mais algum tempo? Se nos tivéssemos esforçado mais, se tivéssemos feito mais por ele – não poderíamos tê-lo salvado? Queridos camaradas, não nos censuremos. O camarada Trotsky foi condenado e sentenciado à morte há anos atrás. Os traidores da revolução sabiam que a revolução vivia nele, a tradição, a esperança. Todos os recursos de um Estado poderoso, postos em ação pelo ódio e vingança de Estaline, foram direcionados ao assassinato de um único homem sem recursos e apenas com um punhado de seguidores próximos. Todos os seus colegas de trabalho foram mortos; sete de seus fiéis secretários; seus quatro filhos. No entanto, apesar do fato de que eles o marcaram para ser morto após o seu exílio da Rússia, nós conservámo-lo por onze anos! Aqueles foram os anos mais frutíferos de toda a sua vida. Aqueles foram os anos em que ele se sentou em plena maturidade para se dedicar à tarefa de resumir e lançar em forma literária permanente os resultados das suas experiências e pensamentos.

    As suas aborrecidas mentes policiais não podem saber que Trotsky deixou o melhor de si para trás. Mesmo na morte, ele frustrou-os. Porque a coisa que eles mais queriam matar – a memória e a esperança da revolução – Trotsky deixou-nos.

    Se vocês se recriminarem a vocês próprios ou a nós, porque esta máquina assassina finalmente chegou a Trotsky e o derrubou, terão que se lembrar que é muito difícil proteger alguém de assassinos. O assassino que persegue sua vítima dia e noite muitas vezes ultrapassa as maiores proteções. Mesmo os czares russos e outros governantes, cercados por todos os poderes policiais dos grandes estados, nem sempre podiam escapar ao assassinato por pequenos grupos de terroristas determinados, equipados com os recursos mais escassos. Este foi o caso mais de uma vez na Rússia nos dias pré-revolucionários. E aqui, no caso de Trotsky, tínhamos tudo isso ao contrário. Todos os recursos estavam do lado dos assassinos. Um grande aparato estatal, convertido numa máquina de assassínio, contra um homem e alguns discípulos dedicados. Então, se eles finalmente conseguiram, temos apenas que nos perguntar, nós fizemos tudo o que podíamos para impedir ou adiar isso? Sim, nós fizemos o nosso melhor. Em plena consciência, devemos dizer que fizemos o nosso melhor.

    Nas últimas semanas após o ataque de 24 de maio, mais uma vez colocámos na agenda da nossa comissão executiva a questão da proteção do camarada Trotsky. Cada camarada concordou que esta é a nossa tarefa mais importante, mais importante para as massas do mundo inteiro e para as futuras gerações, que acima de tudo faremos tudo ao nosso alcance para proteger a vida do nosso génio, nosso companheiro, que nos ajudou e guiou tão bem. Uma delegação de líderes do partido fez uma visita ao México. Acabou por ser a nossa última visita. Lá, naquela ocasião, em consulta com ele, concordámos numa nova campanha para fortalecer a guarda. Recolhemos dinheiro neste país para fortificar a casa a custo de milhares de dólares; todos os nossos membros e simpatizantes responderam com grandes sacrifícios e generosidade.

    E ainda assim a máquina de assassínio rompeu. Mas aqueles que ajudaram mesmo em menor grau, seja financeiramente ou com seus esforços físicos, como os nossos bravos jovens camaradas da guarda, nunca se arrependerão do que fizeram para proteger e ajudar o Velho.

    Na hora em que o camarada Trotsky foi finalmente derrubado, eu voltava de comboio de uma viagem especial a Minneapolis. Eu tinha ido lá com o propósito de arranjar camaradas novos e especialmente qualificados para descer e fortalecer a guarda em Coyoacán. A caminho de casa, sentei-me no combóio com uma sensação de satisfação de que a tarefa da viagem havia sido cumprida, reforços da guarda haviam sido providenciados.

    Então, quando o combóio passava pela Pensilvânia, por volta das quatro da madrugada, trouxeram os primeiros jornais com a notícia de que o assassino rompera as defesas e desferira uma picareta no cérebro do camarada Trotsky. Aquele foi o início de um dia terrível, o dia mais triste das nossas vidas, quando esperávamos, hora após hora, enquanto o Velho lutava a sua última batalha e se debatia em vão contra a morte. Mas mesmo assim, naquela hora de pesar terrível, quando recebemos a mensagem fatal pelo telefonema de longa distância: “O Velho está morto” – mesmo assim, não nos permitimos parar para chorar. Nós mergulhámos imediatamente no trabalho para defender a sua memória e cumprir o seu testamento. E trabalhámos mais do que nunca, porque pela primeira vez percebemos com plena consciência que agora temos que fazer tudo. Nós já não nos podemos apoiar no Velho. O que está feito agora, temos de fazer. Esse é o espírito com que temos que trabalhar a partir de agora.

    Os mestres capitalistas do mundo compreenderam instintivamente o significado do nome de Trotsky. O amigo do oprimido, o fabricante das revoluções, era a encarnação de tudo o que eles odiavam e temiam! Mesmo na morte eles insultam-no. Seus jornais espalham sua imundice sobre o seu nome. Ele era o exilado do mundo no tempo da reação. Nenhuma porta estava aberta para ele, exceto a da República do México. O facto de Trotsky ter sido barrado em todos os países capitalistas é, em si mesmo, a refutação mais clara de todas as calúnias dos estalinistas, de todas as suas acusações vulgares de que ele traiu a revolução, que ele se voltou contra os trabalhadores. Eles nunca convenceram o mundo capitalista disso. Nem por um momento.

    Os capitalistas – de todos os tipos – temem e odeiam até o seu corpo morto! As portas da nossa grande democracia estão abertas a muitos refugiados políticos, é claro. Todos os tipos de reacionários; canalhas democráticos que traíram e abandonaram seu povo; monárquicos e até mesmo fascistas – todos foram recebidos no porto de Nova York. Mas nem mesmo o corpo morto do amigo dos oprimidos poderia encontrar asilo aqui! Não nos esqueceremos disso! Vamos nutrir esse agravo perto dos nossos corações e, em boa hora, vingar-nos-emos.

    A grande e poderosa democracia de Roosevelt e Hull não nos deixaria trazer o seu corpo para o funeral. Mas ele está aqui da mesma forma. Todos nós sentimos que ele está aqui neste salão esta noite – não apenas nas suas grandes ideias, mas também, especialmente hoje à noite, na nossa memória dele como homem. Temos o direito de nos orgulharmos de que o melhor homem do nosso tempo nos pertenceu, o maior cérebro e o coração mais forte e leal. A sociedade de classes em que vivemos exalta os patifes, trapaceiros, egoístas, mentirosos e opressores do povo. Dificilmente se pode nomear um representante intelectual da decadente sociedade de classes, de alto ou baixo grau, que não seja um miserável hipócrita e desprezível covarde, preocupado antes de tudo com os seus próprios assuntos pessoais inconsequentes e em salvar a sua própria pele sem valor. Que tribo miserável eles são. Não há honestidade, nenhuma inspiração, nada em todo o seu ser. Eles não têm um único homem que possa provocar uma faísca no coração da juventude. O nosso Velho Homem foi feito de material melhor. O nosso Velho foi feito de coisas totalmente diferentes. Ele se elevou acima desses pigmeus na sua grandeza moral.

    O camarada Trotsky não lutou apenas por uma nova ordem social baseada na solidariedade humana como um objetivo futuro; ele viveu todos os dias de sua vida de acordo com os seus padrões mais elevados e nobres. Eles não o deixariam ser cidadão de nenhum país. Mas, na verdade, ele era muito mais que isso. Ele já era, em sua mente e em sua conduta, um cidadão do futuro comunista da humanidade. Essa lembrança dele como homem, como camarada, é mais preciosa que ouro e rubis. Nós dificilmente podemos entender um homem desse tipo a viver entre nós. Todos somos apanhados na rede de aço da sociedade de classes, com as suas desigualdades, as suas contradições, as suas convenções, os seus falsos valores, as suas mentiras. A sociedade de classes envenena e corrompe tudo. Somos todos ofuscados, vergados e cegados por isso. Nós dificilmente conseguimos visualizar o que as relações humanas serão, dificilmente conseguimos compreender o que a personalidade do homem será, numa sociedade livre.

    O camarada Trotsky deu-nos uma imagem premonitória. Nele, na sua personalidade como homem, como ser humano, vislumbramos o homem comunista que está para ser. Essa lembrança dele como homem, como camarada, é a nossa maior garantia de que o espírito do homem, lutando pela solidariedade humana, é invencível. Na nossa época terrível, muitas coisas morrerão. O capitalismo e todos os seus heróis morrerão. Estaline e Hitler e Roosevelt e Churchill, e todas as mentiras e injustiças e hipocrisia que eles significam, morrerão entre sangue e fogo. Mas o espírito do homem comunista que o camarada Trotsky representou não morrerá.

    O destino fez de nós, homens de barro comum, os discípulos mais imediatos do camarada Trotsky. Nós agora tornámo-nos seus herdeiros, e somos encarregados da missão de cumprir o seu testamento. Ele tinha confiança em nós. Ele assegurou-nos com as suas últimas palavras que estamos certos e que vamos prevalecer. Precisamos apenas ter confiança em nós próprios e nas ideias, na tradição e na memória que ele nos deixou como herança.

    Nós devemos-lhe tudo. Devemos-lhe a nossa existência política, o nosso entendimento, a nossa fé no futuro. Nós não estamos sozinhos. Existem outros como nós em todas as partes do mundo. Lembrem-se sempre disto. Nós não estamos sozinhos. Trotsky educou quadros de discípulos em mais de trinta países. Eles estão convencidos até à medula dos ossos do seu direito à vitória. Eles não vão vacilar. Nem vacilaremos. “Estou certo da vitória da Quarta Internacional!” Assim disse o camarada Trotsky no último momento de sua vida. Então, temos a certeza.

    Trotsky nunca duvidou e nós nunca deveremos duvidar que, armados com as suas armas, com as suas ideias, lideraremos as massas oprimidas do mundo para fora da confusão sangrenta da guerra para uma nova sociedade socialista. Este é o nosso testemunho aqui esta noite no túmulo do camarada Trotsky.

    E aqui no seu túmulo testemunhamos também que nunca esqueceremos o seu último pedido – que protejamos e cuidemos da sua mulher guerreira, a fiel companheira de todas as suas lutas e peregrinações. “Cuide dela”, ele disse, “ela está comigo há muitos anos”. Sim, vamos cuidar dela. Antes de tudo, devemos cuidar de Natalia.

    Chegamos agora à última palavra de adeus ao nosso maior camarada e mestre, que agora se tornou no nosso mártir mais glorioso. Nós não negamos a dor que constringe todos os nossos corações. Mas a nossa tristeza não é a da prostração, a dor que enfraquece a vontade. É temperada pela raiva, ódio e determinação. Vamos transformá-la em energia de combate para continuar a luta do Velho. Vamos-lhe dizer adeus de uma maneira digna dos seus discípulos, como bons soldados do exército de Trotsky. Não nos agachando em fraqueza e desespero, mas de pé com os olhos secos e os punhos cerrados. Com a canção da luta e da vitória nos nossos lábios. Com a música da confiança na Quarta Internacional de Trotsky, o Partido Internacional que será a raça humana!”

    James Cannon

  • Trotsky poderia ter sido Stalin?

    História não é memória
    Os anos 90 foram especialmente duros quando decretaram – quase sem adversários intelectuais – que o que tivera o seu fim em 1989 não fora a ditadura stalinista mas, sobretudo, o próprio socialismo. O fim da Guerra Fria propiciou uma oportunidade para que o capitalismo se pronunciasse em nome próprio – o neoliberalismo. Uma ideologia que anunciava a chegada do ponto final ao devir social, construído sobre as premissas do mercado livre, para além do qual seria impossível imaginar melhorias substanciais. Francis Fukuyama deu-lhe a expressão teórica mais ampla e ambiciosa, chamou-lhe «o fim da história» (1). Enquanto em outras expressões – mais vagas e populares – também se difundiu a mesma mensagem: o capitalismo é o destino histórico e universal, permanente e inevitável, do gênero humano. Fora deste “destino pleno” não existiria alternativa.

    A morte das ideologias – e o chamado “fim da história” – é de fato a consagração pública da ideologia teleológica de que o homem não é protagonista da sua própria história. Uma natureza a-histórica, um destino assegurado, o futuro seria, então, ineludível. Para fazer vingar esta ideologia tem sido construída uma memória do passado europeu que não passa pelo laboratório da história. História não é memória.

    A sociedade, depois de 2008, não ficou mais conservadora, pelo contrário; mas a memória dela, sim, e isso não diz respeito à história – esta é independente da nossa vontade. Não alteramos o passado. Diz respeito à profunda desmoralização atual com a transformação humana, cuja causa se deve centralmente à desorganização do movimento operário, sindical, do mundo do trabalho, a uma escala porventura raramente conhecida na história da humanidade (exceto talvez nos anos triunfantes do fascismo) – uma medida desta desestruturação é a taxa de sindicalização atual no mundo, inferior a 7%(2). A militância em partidos políticos de trabalhadores é vista como um mal social, embora quem apele à neutralidade da política e à separação entre vida pessoal, laboral e militância seja com frequência quem continua organizado em partidos, frentes, associações e fortes partidos políticos que dominam o poder porque controlam o aparelho de Estado, embora em frações conflituosas e com crises.

    Nos 100 anos de celebração da revolução russa a figura mais lembrada nos media mundiais foi o líder que mandou assassinar a maioria do comitê central do Partido Bolchevique (3), Josef Stalin (4). Ele era o asfixiante ícone em cada parede e praça da URSS, desde que uma direção burocrática por si dirigida assumiu o controle da URSS a partir de 1927-28. Mas não é também uma forma icônica regressiva assumir que a revolução russa possa ser dominantemente celebrada, 100 anos depois, com uma produção intelectual intensa sobre…Stalin? Por outras palavras, o ícone…continua. Os partidos comunistas sobreviventes e as classes dirigentes ainda não se cansaram, no centenário de 1917, de associar a revolução social mais importante do século XX, com mais impacto social, cultural e político em todo o mundo, ao seu secretário-geral georgiano, bigodudo, de traços rudes, práticas brutais e erudição zero.

    É significativo que em Portugal estejam ainda por publicar todas as obras recentes realizadas após a abertura dos arquivos soviéticos, todas sem exceção: China Miéville (5), Todd Chretien (6), Paul Le Blanc (7), Neil Falkner (8), Kevin Murphy (9), Wendy Goldman (10), Alexander Rabinowitch (11), Marcel van der Linden (12) (13). Também não estão editadas a História da Revolução Russa (14) de Leon Trotsky a sua autobiografia Minha Vida (15); é desconhecida a obra filosófica e histórica de Lenin; as obras dos historiadores Isaac Deutscher (16) e Pierre Broué (17), premiadas e de referência em algumas das academias dos países centrais. Mas, na celebração do centenário da Revolução Russa o nosso principal semanário, Expresso (18), decidiu publicar a biografia do líder da contrarrevolução, Josef Stalin.

    Mas estas obras não ficaram sem tradução ou, noutros países, estudo dedicado só por falta de iniciativa das classes dirigentes. O movimento dos trabalhadores, dito de outra forma, partidos ou instituições representantes de interesses dos trabalhadores, não tiveram nenhuma iniciativa significativa nem na celebração do centenário, nem na edição ou reedição das principais obras da história da revolução russa.

    Embora, depois da crise de 2008, o dogma neoliberal tenha perdido pujança, com o capitalismo a mostrar-se incapaz de conter as suas crises e o seu efeito sobre os trabalhadores (com uma queda real do salário de 25% no centro produtor do sistema, os EUA, e um aumento massivo do desemprego à escala mundial e dos working poor para repor o valor das ações desvalorizados em 2008), também o movimento de trabalhadores, manuais e intelectuais, atual, herdeiro da revolução russa, se encontra numa crise penetrante, sem precedentes desde a sua formação nos anos 30 do século XIX com o cartismo inglês.

    As crises econômicas de 2001 e 2008 e a invasão do Afeganistão, a seguir ao atentado de 11 de Setembro de 2001, e do Iraque em 2003, fizeram cair por terra a ideia de uma paz eterna capitalista sob regimes liberais-democráticos. Desemprego em massa, competição à escala mundial e maior concentração de riqueza de sempre na mão de escassas 200 famílias que controlam mais de metade dos recursos produzidos em todo o planeta por mais de três bilhões de pessoas, que trabalham ativamente, trouxeram o fim do fim da história. O fim da história nunca tinha existido.

    A tese do totalitarismo ou a outra face da resignação social
    A tese do totalitarismo, que apela à resignação social, insiste que todas as tentativas emancipatórias do Século XX redundariam em sociedades totalitárias, a começar pela própria revolução social e política de Outubro de 1917.

    O corolário desta tese do é óbvio – a “barbárie é inevitável”. A “fossa séptica” a que Milan Kundera se referiu em A Insustentável Leveza do Ser (19), depois de esmagada a “Primavera de Praga” em 1968, seria o corolário inevitável da condição humana? Um abraço ao cinismo, eternamente regressado, dos intelectuais, que colocaram as esperanças do século XX num projeto social que uma, e outra vez, sustentava que entre o povo e seus dirigentes havia uma relação de causa efeito. Em suma, cada povo teria os governantes que escolhia.

    Ora isto, do ponto de vista histórico tem o mesmo valor – nulo – que a assunção de que o “socialismo é inevitável” (20). Ambos precisam de abdicar da história e viver num eterno presente. Ambos recusam-se a olhar o passado.

    Ambos não se veem como projetos a disputar, no terreno social, a consciência da população, mas como premissas garantidas num mundo natural, sem homens, sem história. Ambos conduzem à inação.

    A tese do totalitarismo esbarra de frente com os fatos. E com a cronologia. Mas a cronologia é firme, o tempo tem uma força objetiva. Daí que as teses filosóficas pós modernas – que alguns historiadores abraçaram (21)-, substituem fatos e interpretações por narrativas intemporais e relativistas. Temem enfrentar-se com o fardo do tempo histórico.

    O partido de Lenin e Trotsky foi fuzilado
    Uma anedota inspirada contava que na URSS “o futuro era certo mas o passado imprevisível”. Aplica-se também agora ao Ocidente, e sua memória? Hoje as evidências históricas são incontornáveis. Demonstram, ao contrário da tese mediatizada, que há um corte radical entre a política bolchevique  (1917-1927) e a ascensão do stalinismo. As celebrações deste centenário foram por isso uma narrativa a-histórica. Pugnaram pela ideia central da visão anticomunista do “totalitarismo inevitável”. Para o fazer desprezaram a produção científica sobre o tema.

    Todas as investigações realizadas nas últimas duas décadas, que atrás citamos, a partir de arquivos russos – sublinhamos, todas – comprovam um corte, no regime soviético em 1927/28. É nesse ano que se dá a coletivização forçada; a introdução massiva do trabalho forçado a uma escala de centenas de milhar até depois da guerra; o início da militarização da sociedade; é nesse ano que nas fábricas a comissão de trabalhadores deixa de ser o órgão mais importante para esse papel passar a ser desempenhado pelo chefe da polícia política; é nesse ano que as mulheres, que deram com a revolução russa o maior salto de sempre de emancipação, passam a ser de novo escravas do lar e da fábrica, com medidas como a reintrodução da proibição do aborto e o encerramento de creches para controlar a escassez de força de trabalho existente e previsível. Lenin é o homem que deixa explícito no seu «testamento» (22) que Stalin não deverá suceder-lhe por ser bruto, desleal, e não saber o que fazer com demasiado “poder concentrado” em si (23). O partido de Lenin e Trotsky foi fuzilado – na brutal expressão de Victor Serge (24).

    A URSS tinha, no final dos anos 1920, uma produção efetiva inferior à de 1914. Estava arrasada, pela I Guerra, a guerra civil e o isolamento. Não havia nem domínio científico, nem quadros formados, nem tecnologia, nem máquinas, para produzir muito para todos. A solução seria pois uma revolução na Alemanha e nos países onde havia desenvolvimento para produzir em abundância; ou uma ditadura de uma minoria – a burocracia do Partido. A burocracia passou a controlar os recursos, vivendo com privilégios (magistralmente caricaturados por George Orwell em O Triunfo dos Porcos (NR)), embora a maioria do povo continuasse a viver com escassez de bens essenciais (25). Muito longe da miséria da servidão czarista, mas cada vez mais distante do socialismo. Porque, para que uma casta se apropriasse dos recursos limitados, impôs uma férrea ditadura.

    A Europa Ocidental desenvolvida tem uma dívida, ainda por restituir, para com a Rússia atrasada de 1917 – eles ousaram fazer aí a primeira revolução num país. E, imediatamente, os ecos desta chegaram à burguesia europeia que, por temor da repetição de novos Outubros e sob pressão da vaga de entusiasmo que a revolução dos sovietes suscitou em toda a Europa e no mundo, aceitou elevar as condições de dignidade mínimas do mundo dos trabalhadores.

    É depois da revolução russa que pela primeira vez o horário de trabalho (junto com a intensificação laboral na Europa) diminui no século XX de forma constante e significativa (26). Sem a revolução russa não se compreende a rápida extensão do sufrágio universal em grande parte dos países europeus. Os primeiros programas sociais na Europa devem-se a Outubro. Os europeus maravilharam-se com as vanguardas artísticas representadas por um Maiakovsky ou um Eisenstein – a revolução tinha dado o melhor à humanidade naqueles dias. Foi também a Rússia que pagou o preço mais elevado do Estado Social Europeu – 20 a 30 milhões de mortos na II Guerra Mundial.

    A social-democracia alemã – historicamente tão crítica do stalinismo – recusou-se a assumir a sua participação na criação deste monstro, o da burocracia soviética. Rejeitou apoiar em 1919, 1923 e na década de 30 a revolução russa, deixando-a isolada, atrasada, sem meios para fazer face à dramática escassez, portanto inviabilizando a construção de uma sociedade socialista. Que não poderia ser feita sem a abundância, baseada na qualificação da força de trabalho, avanços científicos e técnicos significativos. Mesmo que o preço a pagar pelo temor da revolução na Alemanha tenha sido o quase extermínio do SPD, nos anos 30, com a ascensão do nazismo.

    Se é verdade que nas guerras destes 100 anos as burguesias nacionais chocaram umas com as outras, fruto da sua voragem insaciável sobre os recursos, efetivamente, a história do século XX é também a história das revoluções, e da luta das burguesias ou classes dirigentes para as impedir e combater, bem como da tentativa -, no último quartel do século XX -, para destruir o sentido de classe dos trabalhadores, profaná-lo, atomizá-lo. Desagregando o mundo do trabalho, seja nos contratos diferentes para trabalho idêntico; seja na concentração de escritórios no centro e expulsão dos que trabalham para a periferia; ou ainda na separação brutal entre trabalho manual e intelectual, colocando a grande massa dos-que-vivem-do-trabalho como consumidores e não produtores de cultura, por exemplo.

    «Na tentativa de dar suporte a essas concepções políticas, os revisionistas defendem a tese segundo a qual uma tendência comum ligaria o terror jacobino aos gulags soviéticos, passando pelos campos de concentração nazis (…) Dessa forma, fruto de uma época caracterizada pela máxima neoliberal There is no alternative! (Margaret Thatcher), os revisionistas pautam-se explícita ou implicitamente pela noção de “fim da História”, conforme exposta mais claramente por Fukuyama. Portanto, o revisionismo não pode ser encarado como uma mera “moda acadêmica”, sendo antes fruto de um contexto sócio histórico determinado. Conforme aponta Jim Wolfreys, não é coincidência que alguns dos intelectuais que mais produziram contribuições teóricas para a empreitada revisionista (os novos filósofos) sejam caracterizados pela decepção da geração de Maio de 68 com o potencial transformador da política». (27)

    É o pessimismo histórico, que nasce da derrota política. E os desamores políticos que o ressentimento e o medo geram depois das derrotas. Mas a paixão e a desilusão podem ser más conselheiras neste labor que é pensar o passado.

    A visão da revolução russa «totalitária» confunde governos, regimes e Estados – é um erro crasso. Ela é subsidiária da obra da filósofa Ana Arendt e de muitas interpretações simplificadas da sua obra (28). Que assumem (corretamente) que entre Stalin e Hitler há uma grande semelhança nos regimes (ditadura). Mas ocultam que entre Hitler e as democracias liberais há uma identidade do Estado (capitalista) (29).

    Embora já sem os cold warriors (30) – os guerreiros da guerra fria, como ficaram conhecidos os historiadores e cientistas da “tese da continuidade” – esta visão continua a ter impacto dominante nos media.

    Trotsky não foi Stalin porque o recusou
    Ora, o que podemos concluir hoje? Que as sementes da ditadura stalinista estavam tão presentes como as sementes da emancipação no bolchevismo. Que sementes, a rigor, na história, existem em todo o lado e de todo o tipo – germinam onde há solos férteis, e só aí passam de pequenos grãos a um dominante modelo social.

    Trotsky não foi Stalin porque o recusou (31). Recusou dirigir o “seu” exército vermelho contra a burocracia emergente, porque não esteve disponível para dirigir um processo que estava fracassado internamente. Porque sem leite não há socialismo. E na URSS não havia leite (32). O socialismo é a abundância, a URSS era a escassez. A chegada ao poder de Stalin não é resultado da revolução, mas da sua derrota.

    Trotsky preferiu, mesmo exilado num “planeta sem passaporte” – a expressão é de André Breton (33), porque todas as democracias-liberais europeias recusaram o direito de exílio a Trotsky, expulso da URSS – assumir a direção da Oposição de Esquerda e durante vinte anos ser perseguido, até ser assassinado no México, em 1940, data em que a maioria dos dirigentes bolcheviques e altos quadros do Exército Vermelho tinham sido também mortos ou presos. Aliás, foi assassinado depois de todos os outros, não por acaso, mas porque até aí ele era o bode expiatório dos processos de Moscou cuja acusação primordial era, imagine-se, o crime de trotskismo. Dedicou a sua vida a tentar fora da Rússia a revolução mundial. Falhou.

    A forma absurda, quase risível, com que muitos dirigentes do Partido Bolchevique caminharam para as execuções em confissões falsas de crimes que jamais cometeram, tudo para «salvar o partido» (34), foi descrita de forma magistral pelo escritor Leonardo Madura em O Homem que Gostava de Cães (35), e pelo clássico romance sobre os processos de Moscovo O Zero e o Infinito, de Artur Koesler (36).

    Para Victor Serge as hipóteses de vencer a ditadura burocrática depois dos anos 30 eram pequenas, mas sem a luta da Oposição de Esquerda «a derrota da revolução teria sido cem vezes mais desastrosa» (37). Teria? Não sabemos. Sabemos que foi preciso derrotar – e aniquilar fisicamente a Oposição de Esquerda – para erguer a ditadura soviética depois de 1928.

    Nos países mais atrasados, onde a modernização capitalista é mais tardia, e já há um peso de um forte movimento operário, a tendência é para esta modernização ser realizada com o recurso a ditaduras – Rússia, Itália, Alemanha, também Portugal, e Espanha. A Inglaterra, na sua glorious revolution de 1688, e a França de 1789 abriram caminho à modernização dos seus países, através das clássicas revoluções burguesas quando o operariado não era uma ameaça numérica (38).

    «No período entre guerras, esses Estados, sujeitos de modernizações atrasadas, tenderam a assumir formas ditatoriais em função do temor da ameaça (real ou potencial) do proletariado que rapidamente se desenvolvia na cena histórica. (…)  Nesses casos de acirramento da luta de classes e «crise de hegemonia», costuma ser a burguesia impelida a romper com a democracia liberal, estabelecendo formas abertas de ditadura por intermédio das quais garanta a manutenção da dominação social.» (39)

    A partir de 1848 e da Comuna de Paris de 1871 os operários passarem a não poder ser usados como tropa de choque das revoluções democráticas e burguesas porque ao colocarem-se em marcha colocavam em marcha a sua própria revolução social. (40)

    É a tese da “revolução permanente” (41), ou seja, da transformação da revolução democrática em social, burguesa em proletária, política em socialista. Ela tem as suas origens primeiras em Marx e nas revoluções de 1848 (42). Sintetizou-a assim o historiador Franz Mehring (43): Marx, a partir de 1848, fez notar que a burguesia aprendeu que nunca mais se apoiaria no proletariado para resolver as suas contendas com a aristocracia. Tinha mais temor do operariado, (agora que a revolução industrial era imparável), do que à aristocracia. De tal forma que preferiram em muitos países deixar a revolução democrático-burguesa “inacabada”, por assim, dizer, mantendo por exemplo formas de regimes monárquicos em grande parte dos países da Europa, que ainda hoje existem, acompanhados de formas de renda parasitária na grande propriedade. Tudo para evitar revoluções sociais.

    1917 veio confirmar que o medo não era um delírio. A época das revoluções estava aberta. E a das mais mortíferas guerras de sempre para travar as revoluções.

    Os que não se “suicidaram”, como classe, em Wall Street em 1929, fizeram-no 16 anos depois, entre 1939-1945, do outro lado do Atlântico, em Berlim. Os países mais poderosos do mundo não conseguiram evitar a guerra. A rigor, não houve vencedores da II Guerra, porque depois de 80 milhões de mortos não há vencedores –  há a barbárie.

    O fim da guerra foi porém a construção de uma excentricidade histórica no capitalismo: o pleno emprego e o Estado Social, erguidos em troca de os trabalhadores – transformados em soldados – terem entregue as armas em 1945. A estrutura de direitos sociais na Europa nasce antes da criação de qualquer mecanismo de unificação europeu ocidental, como a CECA e a CEE. Nasce do fato de a propriedade estar destruída, da resistência ter por composição social trabalhadores armados e das greves do pós guerra.

     

    A luta contra o Estado hoje
    A destruição do rival dos EUA, da França e da Grã-Bretanha ergueu porém uma nova relação internacional de Estados – a supremacia norte-americana e o início da guerra fria. O Plano Marshall rapidamente evolui para um plano de mútua ajuda, a resistência francesa ao rearmamento alemão foi ultrapassada pela integração da Alemanha Federal na OTAN e a ideia dos Estados Unidos da Europa, na Declaração de Schumann, foi abandonada pela construção de uma Europa com crescente integração econômica. Hoje sem compreendermos esta subordinação da Europa aos EUA não entendemos a evolução da União Europeia, e também das suas contradições internas.

    As últimas cinco décadas da história da Europa foram marcadas também pelo inusitado crescimento do papel do Estado na economia. E não pela ausência de intervenção do Estado na economia, como tantos argumentam. Houve mutações – profundas – na intervenção estatal. Seja através dos mecanismos de Concertação Social, seja através das políticas sociais focalizadas, da Assistência Social, que cobrem o crescente desemprego e ou baixos salários, seja através das alterações do quadro legal que regulamentam a precarização laboral (a flexibilidade laboral é marcada por formas de regulamentação estatal que a promovem e não por ausência de regulamentação do Estado), da dívida pública, da coleta de impostos, dos subsídios às empresas privadas, e da extensão do papel neste na formação e manutenção da força de trabalho, hoje há muito mais e não menos Estado do que antes da II Guerra Mundial.

    A crise dos regimes políticos europeus atuais, expressa, entre outros fatores, no quase constante aumento da abstenção eleitoral, na crise do bipartidarismo, crise que se agravou em múltiplos aspectos depois de 2008, não é uma crise de Estado. Pelo contrário, este fortaleceu-se no curto prazo ganhando uma influência sobre o tecido econômico enorme, com a salvação das instituições bancárias e financeiras. Mas não pode, a crise, ser compreendida fora do âmbito do crescimento do aumento de impostos concomitante à perda de serviços e da sua qualidade – o fim do “modelo social europeu”. A médio prazo este «fim do modelo social» vai transformar-se numa crise de próprio Estado.

    Uma e outra vez os intelectuais são por isso chamados a ir ao pretérito da sua função, como defende o filósofo Terry Eagleton, sobre os intelectuais, a crítica e a esfera pública: «A crítica moderna nasceu de uma luta contra o Estado absolutista; a menos que no seu futuro se defina agora como uma luta contra o Estado burguês, é possível que não lhe esteja reservado futuro algum». (44)

    É difícil afirmar, e com isto terminamos, que a União Europeia, com a crescente desigualdade, não criou também uma identidade forte, “de baixo para cima” nestas décadas de paz. O que os europeus farão com isso no futuro permanece uma incógnita. A Europa será socialista ou não será, premissa da III Internacional, não se verificou – a Europa foi e é capitalista, e está, embora de uma forma híbrida e nova, unida, em parte. Mas a Europa será, sem socialismo, no futuro? Isto é, resistirá à competição dos seus Estados e das empresas destes Estados num próximo choque cíclico, numa próxima crise? É altamente improvável.

    Assistimos ao que a intelectual norte-americana Elen Wood chamou o “recuo dos intelectuais” (45). Que abdicaram de pensar livremente e ser um contrapoder ao Estado, ao poder dominante. Renunciaram à crítica, com contundência, do modelo econômico e social em que vivemos, deixaram de perguntar quem produz, o quê, para quem e como: «Vivemos tempos curiosos. Justamente quando os intelectuais de esquerda no Ocidente têm a rara oportunidade de fazer algo útil, se não realmente histórico, eles – ou grande porção deles – estão em pleno recuo. Justamente quando reformadores na União Soviética e no Leste Europeu procuram no capitalismo ocidental paradigmas de sucessos econômicos e políticos, muitos de nós parecemos abdicar do papel tradicional da esquerda ocidental como crítica do capitalismo. Justamente quando mais do que nunca precisamos de um Karl Marx que revele o funcionamento interno do sistema capitalista, ou de um Friedrich Engels que exponha a feia realidade “no chão”, o que temos é um exército de “pós-marxistas” cuja principal função é, aparentemente, afastar conceitualmente o problema do capitalismo(46)

    O desafio hoje é assumirmos que temos responsabilidades históricas sobre os destinos da Europa, enquanto ideia central de fraternidade entre povos. Isso implica uma luta – indissociável – na defesa da liberdade e da igualdade. Na URSS não havia liberdade e isso causou estagnação econômica. Mas a insegurança no emprego, que hoje domina os Estados europeus, ainda que em regimes democráticos, não trará nada à Europa que não seja também a estagnação econômica, a queda na produção e, no limite, ainda que cíclica, a escassez da força de trabalho. Temos responsabilidade de exigir a liberdade efetiva, em que os direitos sociais tenham a dignidade dos direitos políticos; em que o direito ao emprego, como garante da sobrevivência, e o direito à dignidade de viver do trabalho e não da assistência social, sejam acarinhados com a determinação com que é hoje protegido o direito ao voto. Igualdade real para todos que permita dar segurança material para que as diferenças sejam respeitadas e floresçam a diversidade, a arte, a criação, as relações humanas densas. Acredito que encontramos no passado algumas respostas para estes desafios. A história não se repete. Mas ensina-nos. Muito. Do seu desconhecimento nada de bom pode brotar.

    * Este artigo corresponde a parte da conclusão do livro publicado pela autora este ano, Breve História da Europa, Lisboa, Bertrand.

    NOTAS

    1 – Francis Fukuyama, O Fim da História e o Último Homem, Lisboa, Gradiva, 1999.
    2 – Industrial Relations Data (IRData) – International Labour Organization
    www.ilo.org/global/topics/collective-bargaining…/index.htm acesso 2 de Janeiro de 2018
    3 – Victor Serge, «Posfácio Inédito», Ano Um da Revolução Russa, Lisboa, Edições Delfos, 1975, pp. 599-625.
    4 – Sobre Estaline duas biografias fundamentais: Isaac Deutscher, Stalin: A Political Biography, London, Oxford University Press, 1967; Jean-Jacques Marie, Estaline, Lisboa, Verbo, 2004.
    5 – China Miéville, Outubro. História da Revolução Russa, São Paulo, Boitempo, 2017;
    6 – Todd Chretien (Editor), Eyewitnesses to the Russian Revolution Paperback, Chicago, Haymarket Books, 2017.
    7 – Paul Le Blanc, October Song, Chicago, Haymarket Books, 2017.
    8 – Neil Falkner, A People’s History of the Russian Revolution, New York, Pluto, 2017.
    9 – Kevin Murphy, Revolution and Counterrevolution, New York/Oxford, Berghahn Books, 2007
    10 – Wendy Goldman, Mulher, Estado e Revolução, São Paulo, Boitempo, 2014
    11 – Alexander Rabinowitch, The Bolsheviks come to Power, New York, Pluto Press, 2017
    12 – Marcel van der Linden, Western Marxism and the Soviet Union, Leiden, Brill, 2007
    13 – E ainda centenas de trabalhos de investigação do grupo de estudos da revolução russa da Universidade de Glasgow bem como as centenas de artigos publicados por diversos autores na revista Critique Journal of Socialist Studies.
    14 – Leon Trotsky, História da Revolução Russa, Tomo I Parte I e Tomo II, Parte II e III, São Paulo, Sundermann, 2007.
    15 – Leon Trotsky, A Minha Vida, São Paulo, Usina Editorial, 2017.
    16 – Isaac Deutscher The Prophet Armed: Trotsky 1879-1921; The Prophet Unarmed: Leon Trotsky, 1921-29; The Prophet Outcast: Leon Trotsky, 1929-40 (Verso books, 2005)
    17 – Pierre Broué, História da Internacional Comunista, 1919-1943. Ascensão e Queda, São Paulo, Sundermann, 2007; Pierre Broué, O Partido Bolchevique, São Paulo, Sundermann, 2014.
    18 – Simon Sebag, Montefiore, Estaline — a Corte do Czar Vermelho, Jornal Expresso, 2017.
    19 – Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser, Lisboa, Círculo de Leitores, 1986, p. 218
    20 – Valério Arcary, O Encontro da Revolução com a História, São Paulo, Sundermann, 2006.
    21 – Para uma crítica à pós-modernidade ver Terry Eagleton, As ilusões do Pós-Modernismo, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editores, 1998; Perry Anderson, As Origens da Pós-Modernidade, Lisboa, Edições 70, 2005.
    22 – Lenin’s Final Fight, Speeches & Writings 1922-1923, New York, Pathfinder, 2015.
    23 – François-George Dreyfus, História Geral da Europa, Lisboa, Europa-América, 1996, p. 380.
    24 – Victor Serge, Ano Um da Revolução Russa, Lisboa, Edições Delfoes, 1975, p. 600.
    25 – Jiri Pelikán, «The Struggle for Socialism in Czechoslovakia», In New Left Review, I/71, January-February, 1972; Hillel H. Ticktin, «Towards a Political Economy of the USSR», In, Critique, No.1, Spring 1973.
    26 – Pietro Basso, Modern Times, Ancient Hours, Working Lives in the Twenty-first Century, London/New York, Verso, 2003
    27 – Márcio Lauria Monteiro, «Revolução Russa e revisionismo historiográfico: o retorno neoliberal da “tese da continuidade”», Revista História e Luta de Classes, nº 19, Março de 2015, p 25.
    28 – Hannah Arendt, As Origens do Totalitarismo, Lisboa, Dom Quixote, 2006.
    29 – Felipe Demier, O Que é Uma Revolução? (com Varela e Arcary), Lisboa, Colibri, 2016, Felipe Demier, O Longo Bonapartismo Brasileiro 1930-1964, Rio de Janeiro, Maud, 2013.
    30 – Márcio Lauria Monteiro, «Revolução Russa e revisionismo historiográfico: o retorno neoliberal da “tese da continuidade”», Revista História e Luta de Classes, nº 19, Março de 2015, p 29.
    31 – Ver a triologia de Isaac Deutscher The Prophet Armed: Trotsky 1879-1921; The Prophet Unarmed: Leon Trotsky, 1921-29; The Prophet Outcast: Leon Trotsky, 1929-40 (Verso books, 2005)
    32 – Escritos de Leon Trotsky, tomo V (1933-1934), vol. 1. Ed. Pluma, Bogotá, 1976, p. 343. Trotsky crítica a afirmação de Radek de que «se os filhos dos operários não têm leite suficiente há que atribuí-lo à escassez de vacas e não à ausência de socialismo. Apesar da sua cativante simplicidade, esta teoria é radicalmente falsa». («En vísperas del décimoséptimo congresso» e foi originariamente publicado em The Militant, na edição de 10.02.1934).
    33 – André Breton, Position politique du surréalisme. Paris, Librairie Général Française,1997; Manifestos do Surrealismo. Trad. Luiz Forbes. 1. ed. São Paulo: Brasiliense, 1985; André Breton e Leon Trotsky, Por uma arte revolucionária independente. Trad.Carmem Silva Guedes e Rosa Boaventura. 1. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985. Fundador do Movimento Surrealista, e militante contra o realismo socialista e a condenação dos artistas.
    34 – Ver a triologia de Isaac Deutscher The Prophet Armed: Trotsky 1879-1921; The Prophet Unarmed: Leon Trotsky, 1921-29; The Prophet Outcast: Leon Trotsky, 1929-40 (Verso books, 2005)
    35 – Leonardo Padura, O Homem que Gostava de Cães, Lisboa, Porto Editora, 2017.
    36 – Arthur Koestler, O Zero e o Infinito, Lisboa, Europa-América, 1979.
    37 – Victor Serge and Natalia Sedova, The Life and Death of Leon Trotsky, Chicago, Haymarket Books, 2015, p. 4.
    38 – Eric Hobsbawm, A Era das Revoluções, Lisboa, Editorial Presença, 2001.
    39 – Felipe Demier, O Que é Uma Revolução? (com Varela e Arcary), Lisboa, Colibri, 2016, Felipe Demier, O Longo Bonapartismo Brasileiro 1930-1964, Rio de Janeiro, Maud, 2013.
    40 – Felipe Demier, O Longo Bonapartismo Brasileiro 1930-1964, Rio de Janeiro, Maud, 2013.
    41 – Carlos Eduardo Rebello de Mendonça, Trotsky e A Revolução Permanente – História de Um Conceito Chave, Rio de Janeiro, Garamond, 2014.
    42 – Michel Lowy, A Política do Desenvolvimento Desigual e Combinado, São Paulo, Sundermann, 2010.
    43 – Franz Mehring, Karl Marx, Vida e Obra, Lisboa, Editorial Presença, Volume I e II (1974 e 1976).
    44 – Terry Eagleton, A Função da Crítica, São Paulo, Martins Fontes, 1991, p. 116.
    45 – Ellen Wood e John Bellamy Foster (eds), Em Defesa da História. Marxismo e Pós-modernismo, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editores, 1997.
    46 – Ellen Meiksins Wood, «The Retreat of the Intellectuals», Socialist Register, 1990. Republicada em Jacobin (https://www.jacobinmag.com/2016/01/ellen-meiksins-wood-gramsci-socialism-capitalism-intellectuals-postmodernism-identity/ acesso em 2 de Fevereiro de 2018. (Tradução Lavra Palavra 2016).


    NR – O livro de George Orwell foi publicado no Brasil com o título “A Revolução dos Bichos”.

     

     

  • A Advocacia e o Socialismo

    O dia 11 de agosto é comemorado o dia da advocacia no Brasil. Data escolhida por conta do Decreto Imperial que criou os cursos jurídicos no Largo do São Francisco em São Paulo (SP) e em Olinda (PE). São inúmeras as piadas sobre advogados. É inclusive atribuída a Lenin a suposta frase: “Advogados? Nem os do Partido.” Tal frase está fora de contexto. Mas cabe neste momento uma reflexão sobre o papel dos advogados e o socialismo.

    Existe na esquerda, de modo geral, uma aversão aos advogados, uma ideologia de que todos os advogados seriam burgueses e a serviço da burguesia. Como também um desprezo pelas questões jurídicas. A questão por trás dessa ideologia de fundo não é que as pessoas acham que as forças objetivas da luta de classes conseguem se impor sem o auxílio da luta jurídica. Este é um engano que beira ao anarquismo. Até mesmo as guerras precisam de uma declaração de guerra e de um armistício ao final. As Revoluções precisam de seus decretos revolucionários, e, em seguida, precisarão de uma Constituição.

    Caberia um longo e interessante debate sobre as posições de Piort Stucka e Evgeni Pachukanis. Mas não pretendo cansar o leitor que não seja do meio jurídico com tal polêmica. Devo pontuar que me inclino mais para as posições do primeiro. Em especial no seu conceito de Direito, quando diz: “O Direito é um sistema (ou uma ordem) de relações sociais, que corresponde aos interesses da classe dominante e que, por isso, é assegurado pelo seu poder organizado (o Estado).”

    Entretanto, é necessário refletir mais sobre o papel dos advogados na sociedade. Um bom exemplo disto, ou da falta que faz um suporte jurídico, está brilhantemente expresso no livro “O Processo”, de Franz Kafka. Embora muitos juízes hoje apliquem tal obra de ficção quase como um manual de procedimentos. Mas o surgimento da ideia de que é obrigatório existirem advogados de defesa ocorre contraditoriamente nos processos da Inquisição. Naqueles tempos o processo era todo armado para condenar as supostas bruxas. Entretanto, para se dar mais credibilidade ao julgamento, passou a ser obrigatório que algum padre fizesse a defesa da pessoa acusada de bruxaria. Houve uma evolução deste conceito com o advento das revoluções burguesas.

    O fato é que nas sociedades em que existem classes sociais existe Estado, se existe Estado existe Direito. Como será no Comunismo? Sem Estado e sem Direito? Portanto, sem advogados? Talvez, provavelmente, mas até lá temos muito trabalho pela frente.

    Não quero, entretanto, lançar tanta luz em um futuro distante. Mas retomar a reflexão sobre o papel dos advogados hoje. Temos uma eleição presidencial no Brasil na qual quem está à frente das pesquisas está preso e sem poder participar sequer dos debates. Existe, para além da operação Lava-Jato, o crescimento da presunção de culpa. Ou seja, muito juízes passam a condenar com base em distorções profundas da suposta “teoria do domínio do fato”. Com a revogação da CLT, a suposta “Reforma Trabalhista”, se pretende acabar com a Justiça do Trabalho, como também acabar com o Direito do Trabalho. A atuação dos advogados de movimentos sociais passa a ser cada vez mais difícil.

    Muitas pessoas do meio jurídico estão desanimadas. Entram em verdadeiro desespero quando notam o crescimento exponencial dos ataques após o Golpe de 2016. Sempre existem os que estão pela linha do quanto pior melhor. Como também existem aqueles que acreditam que pouco importa o que se faça no meio jurídico, o resultado das lutas sociais só se resolve no campo da ação direta. No extremo oposto, existem aqueles que acham que boas petições, bem fundamentadas, são o suficiente para resolver os problemas do mundo.

    O fato é que a luta de classes é determinante. Mas o papel do brilhantismo técnico no momento oportuno pode fazer a diferença em várias batalhas. Um bom exemplo, em outro campo, seria o papel cumprido por Vassili Zaitsev, que é representado no filme Círculo de Fogo. Ele foi um atirador russo que lutou na batalha de Stalingrado. Essa batalha foi decisiva para a derrota do Nazismo. Ele, individualmente, era a expressão da luta da classe trabalhadora mundial, e seu ponto de luta mais agudo. De modo que cada um que exerce funções técnicas vai lutar e atuar de acordo com as condições e oportunidades que o momento histórico lhe permita.

    Existe um equilíbrio entre a exatidão técnica e as condições da correlação de forças da luta de classes. Muitas vezes um dia de greve resolve o que não se consegue resolver em um ano de negociações. Mas o trabalho do advogado muitas vezes é lembrado quando as coisas dão errado. De modo que muitos perguntam, se o Poder Judiciário vai decidir de acordo com seus interesses de classe, por que motivos o advogado vai queimar as pestanas pensando em como melhor argumentar? Por um lado, o advogado vai buscar as contradições do regime, as contradições do Poder Judiciário, e vai expor tais contradições. Pois para manter a coerência, o Poder Judiciário não poderia julgar com a classe dominante como de fato julga. Entretanto, muitas vezes nossa tarefa não é ganhar, mas dar o bom combate, para que a classe possa fazer sua experiência. Pois, mesmo que um setor da esquerda não acredite no Poder Judiciário, o conjunto da classe trabalhadora ainda acredita. De modo que o nosso “bloco”, o da classe trabalhadora, ainda vai ter seu dia, fazer sua experiência com este Poder Judiciário, e um dia poder cantar, como um antigo frevo: “Queiram ou não queiram os Juízes, o nosso bloco é de fato campeão”.

    Imagem: Isotype ‘Picture dictionary’. Gerd Arntz (1929-33)