Teoria

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  • Esquerda Online participa da Conferência Socialism 2018, em Chicago (EUA)

    Entre os dias 05 e 08 de julho acontece em Chicago, nos Estados Unidos, o evento “Socialism Conference 2018”, organizado pela ISO (International Socialist Organization) e com apoio de dezenas de publicações e veículos da esquerda norte-americana, como a revista Jacobin, o jornal Socialist Worker e a editora Haymarket Books, entre outras.

    O evento anualmente reúne centenas de socialistas e ativistas da esquerda radical nos Estados Unidos, com uma extensa programação de mesas redondas e palestras. Neste ano, entre os principais convidados, estão a jornalista Amy Goodman, do Democracy Now; o rapper e cineasta Boots Riley; o intelectual Gilbert Achcar, o soldado e ativista anti-guerra Spenser Rapone, a jornalista Sarah Jaffee e Demita Frazier, escritora e ativista feminista, entre outros(as).

    O Esquerda Online está participando do evento, representados por Gloria Trogo e Genilda Alves, que participarão de mesas redondas sobre as lutas no mundo, a luta das mulheres e farão um painel sobre a situação política no Brasil. Gloria e Genilda são militantes do PSOL, da corrente Resistência. Além da participação, enviarão entrevistas com participantes do evento.

    As conferências estão divididas em mais de 30 temas, como Marxsimo, Teoria do Socialismo. Trabalho, Imigração, Fascismo, Gênero e Sexualidade, Arte, Ecologia, Educação, Resistência indígena, Libertação das mulheres e a luta anti-racista. Também haverá debates sobre a luta contra Trump, o significado do Maio de 1968 e debates sobre países, como Irã, Índia, Venezuela, Porto Rico, Brasil, México, entre outros.

    O evento não tem transmissão pela internet. No vídeo de convocação, é possível ativar legendas em português.

     

    CONFIRA AS MESAS COM A PARTICIPAÇÃO DO ESQUERDA ONLINE
    (Horários do Brasil)

    Sexta, 06 de julho
    16h-17h30
    Lições das lutas de massas no mundo: Quebec, Brasil, Grécia

    Antonis Davanellos Jornalista, sindicalista e militante da Internationalist Workers Left (DEA), uma organização política da Grécia, de orientação trotkista.
    Alain Savard Estudante de pós-graduação em Ciência Política na Universidade de York, em Toronto. Atuou no movement estudantil em Quebec, na organização de várias greves estudantis. Durante a greve de 2012, ele integral a CLASSE, uma federação local de estudantes. Participa atualmente do movimento de trabalhadores.
    Genilda Souza Ativista e membro da Resistência, corrente interna do PSOL.
    Link

    18h-20h
    Crise e Resistência no Brasil

    Duas socialistas brasileiras da organização Resistência, tendência interna do PSOL, falam sobre a prisão de Lula, a ameaça do neofacismo, a escalada de violência, a luta dos trabalhadores e as eleições de outubro.
    Com Genilda Souza e Glória Trogo, dirigentes da Resistência, corrente interna do PSOL, e do Esquerda Online.
    Link

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    Sábado, 07 de julho, 18h às 20h
    A luta global contra a guerra contra as mulheres

    Do movimento #MeToo nos EUA à luta pelo direito ao aborto na Argentina e na Irlanda, as mulheres em todo o mundo estão tomando as ruas para lutar pelo direito ao seu corpo e ao fim da violência e do sexismo. Ativistas das linhas de frente dessas lutas vão falar sobre as razões dessa nova luta pelos direitos das mulheres e como as mulheres estão entrando em ação.

    Josie Chávez Ativista e faz parte do PRT (Partido Revolucionário dos Trabalhadores) do México. 
    Sarah Jaffe Jornalista e escritora independente. Com textos publicados em The Nation, Salon, the Week, American Prospect, Washington Post, Atlantic e outras publicações. Coapresentadora, com Michelle Chen, do podcast Belabored da revista Dissent. Colunista do New Labour Forum. Problema Necessário: Americanos em Revolta (Necessary Trouble. Americans In Revolt) é seu primeiro livro.
    Deepa Kumar Ativista e acadêmica premiada. Leciona na Rutgers University, em Nova Jersey, onde também preside o sindicato dos professores. É autora de mais de 80 artigos de jornais, capítulos de livros e textos na grande mídia e em veículos alternativos.
    Glória Trogo Ativista em Belo Horizonte (MG) e membro da Resistência, corrente interna do PSOL, e do Esquerda Online.


    Site oficial https://socialismconference.org/
    Site com a programação https://socialismconference.org/sched/
    Perfil no Facebook https://www.facebook.com/socialismconf

     

    FOTO PRINCIPAL: abertura do evento em 2017. Divulgação

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  • A outra face de Stálin

    O afastamento da realidade, o distanciamento que se acentuava continuamente, dominando cada vez mais um número maior de pessoas, não era uma característica especial do regime nacional-socialista. Ora, enquanto em circunstâncias normais dar as costas à realidade é uma atitude corrigível pelas opiniões das pessoas que nos rodeiam, pela zombaria, pela crítica, pela perda de confiança, no Terceiro Reich não havia tal corretivo.
    (Albert Speer, Por dentro do III Reich: in A significação na fotografia, Antonio Vicente Seraphim Pietroforte, Annablume, 2016, p.19).

    Os espelhos refletiam sempre a imagem do meu rosto, a única imagem que eu podia ver refletida neles. Nenhuma visão estranha perturbava a uniformidade daqueles cem rostos, sempre os mesmos, a uniformidade do meu eu multiplicado
    (idem, p.20).

    Reprodução

    Depois da derrota da Alemanha para o México na Copa da Rússia, começou a circular na rede um meme com a foto de Stálin e a seguinte frase: “Eu avisei: aqui a Alemanha não vence”. O “recado” faz alusão à vitória do Exército Vermelho contra os nazistas, na Segunda Guerra: os alemães capitularam na Batalha de Stalingrado, em 1943, sendo definitivamente derrotados em 1945, quando os russos invadiram Berlim e tomaram o Reichstag (o parlamento alemão). Por isso, Stálin está rindo com sarcasmo, em trajes militares e pose triunfal, como se fosse o grande estrategista da queda do Terceiro Reich.

    Mas ele está com o rosto virado: não aparece na foto a outra face. Como está olhando “oblíquo e dissimulado” para a câmera, não dá para ver também as suas costas: a foto não mostra o que está “por trás” dessa história. Por exemplo, a assinatura do “Pacto Molotov-Ribbentrop” (em 1939, em Moscou), firmando o compromisso de não-agressão entre os dois países na guerra de rapina imperialista. Não aparecem na foto os vinte milhões de civis e militares russos que tombaram na resistência à ofensiva alemã: nem, obviamente, os dois milhões de corpos não localizados. O sorriso irônico do georgiano para a lente disfarça que ele foi surpreendido por Hitler, traído pela confiança no cumprimento do “pacto de não-agressão” pelos nazistas.

    A foto também não mostra o germe dessa espúria relação, já que a foto é sempre um recorte do presente. O passado não posa para a câmera, não aparece no retrato: quem olha para o “velho Stálin” não consegue ver a sombra do “jovem Josef” na Alemanha de 1923. De volta ao passado, nesse mesmo ano em que os franceses ocuparam a região do Ruhr, um bolchevique próximo do futuro ditador, Radek, havia se tornado o principal dirigente do KPD (Partido Comunista Alemão), após a reunião do Comitê Executivo da Internacional, realizada em Moscou.

    No encontro – atenção! – ele defendeu que os comunistas deveriam se aliar à extrema-direita, para derrotar os invasores. Essa proposta, sintomaticamente, daria origem à chamada “linha Schlageter”, em homenagem ao nazista fuzilado na ocupação francesa, transformado em “herói nacional” com a vitória do nazismo. O trecho a seguir, do livro A Revolução Alemã (1918-1923), de Isabel Loureiro, explica melhor a tática do dirigente:

    Com isso, Radek retomava a ideia anterior de dois militantes comunistas, conhecida como ‘nacional-bolchevismo’ (…). Radek supunha, além disso, que essa aliança ajudaria a Rússia soviética, adversária das potências ocidentais no terreno da política externa – daí a proposta de união entre a Rússia e a Alemanha derrotada contra o Ocidente, já descartada por Lênin em janeiro de 1920 como ‘um enorme disparate (…).
    (Editora Unesp, São Paulo, 2005, p.147).

    Charge de 1939, sobre o pacto de não-agressão. Hitler pergunta a Stálin – Até quando essa lua de mel irá durar?

    Refrescada a memória, enfim, eis a questão: o “pacto de não-agressão”, assinado em 1939 por Molotov e Ribbentrop, não parece ter reeditado como “farsa” (guardadas as diferenças) a “tragédia” da contrarrevolucionária aliança “nacional-bolchevique” de 1923? Lênin não sobreviveu para testemunhar as consequências desastrosas do erro tático que denunciara: a linha equivocada dos comunistas alemães fortaleceria de fato a extrema-direita, colaborando para a derrota da esquerda e o triunfo do nazismo.

    Na época, quem estava no poder era a socialdemocracia, representada pelo SPD: os comunistas do KPD preferiram se aliar aos nazistas a compor uma frente única com os socialdemocratas. Em 1939, a esquerda já havia sido destruída: o poder já estava nas mãos do “nacional-socialismo”. A aliança, disfarçada sob a designação eufemística de “pacto de não-agressão”, não parece uma espécie de “versão 3.9” daquela “proposta de união entre a Rússia e a Alemanha contra o Ocidente”?

    Quem postou a foto do “velho Josef” no face, desconhecendo a história, não poderia mesmo ouvir a reprovação indignada de Lênin no “negativo”: “um enorme disparate”. Que “grande comandante”, afinal, daria de vantagem ao inimigo a vida de vinte milhões de soldados, para ganhar tempo e se armar, defendendo-se e partindo para a ofensiva, como prova de “superioridade” nos jogos de guerra? A pose do georgiano sorrindo sarcástico no meme esconde o jogo: no campo de batalha, os russos venceram os alemães apesar do “técnico”. Quem compartilhou a imagem ignorando os fatos não notou que todos os “louros da vitória” foram oportunisticamente colhidos pelo “técnico”: os “jogadores”, os verdadeiros responsáveis pela “virada”, não aparecem na foto da vitória.

    Aliás, já que a Alemanha, a Rússia e Stálin estão na mira, vem bem a calhar a metáfora de Marx em A Ideologia Alemã: a “câmara escura” da ideologia contrarrevolucionária soviética não revelou a imagem dos milhões de soldados que a miopia do “coveiro” pôs na mira dos canhões arianos. Parafraseando outro alemão, sob a lente crítica de Nietzsche, dá para entender porque a foto não poderia mostrar que “os deuses têm pés de barro”: sem as distorções de ótica da “falsa consciência”, o oportunista jamais seria digno do epíteto de “Grande Líder”, sustentando-se no alto pedestal de “Super-Homem”. Não fosse a “fábrica de falsificações” da “revolução desfigurada”, Josef nunca seria visto como o “Guia Genial dos Povos”: subvertendo o ditado, só em terra de cegos quem tem um olho pode virar ditador. Em outros termos, era preciso que houvesse órfãos, sentindo-se pequenos e indefesos, para que o amassem e temessem, chamando-o de “Pai dos Povos”.

    A máquina de propaganda do Estado burocrático trabalhou ininterruptamente para ampliar a sua imagem, multiplicando-a em fotos, quadros, cartazes, bandeiras, broches, estátuas… Stálin foi forjado pela “agência oficial de mentiras” como um ser onipresente, onipotente, onividente, pairando como uma gigantesca divindade ciclópica, num reino de anões crédulos de olhos vazados. Tornou-se tão grandioso que, solenemente, virou até nome de cidade: no XIV Congresso do PCUS (em 1925), Tsaritsyn (fundada em 1589) passou a se chamar Stalingrado (rebatizada Volgogrado, em 1961).

    O meme que viralizou no face associa a eliminação da Alemanha na Copa à derrota do exército nazista na Segunda Guerra: a frase “eu avisei, aqui a Alemanha não vence” faz alusão à Batalha de Stalingrado, que marca o início da vitória dos russos. Na foto de Stálin, de cujo sorriso sai o recado sarcástico, não está escrito que o “Pacto Molotov-Ribbentrop”, sob o álibi de ganhar tempo para organizar o Exército Vermelho, sacrificou vinte milhões de vidas: ironicamente, a partir da batalha na cidade que carregava seu nome.

    Aliás, esse “batismo” foi também uma farsa tramada pela “agência de falsificações” históricas: o XIV Congresso do PCUS transformou o carrasco georgiano em grande líder da resistência contra os invasores do Exército Branco na batalha de Tsaritsyn, em 1920. Esse episódio da Guerra Civil marcou as divergências militares entre Stálin e Trótski. Para contextualizar, lembremos que, em 1918, começou a se formar no Exército Vermelho uma oposição contra Leon: Josef se opunha à presença dos oficiais do antigo regime, convocados por Trótski para integrar o quadro de estrategistas das divisões bolcheviques.

    Stálin desprezava o argumento do dirigente, segundo o qual era imprescindível contar com os grandes conhecimentos e a larga experiência dos especialistas para derrotar os inimigos: a força e a coragem dos operários e camponeses não seriam suficientes para a vitória dos Vermelhos – faltava-lhes a técnica da guerra, que os adversários dominavam. A “oposição militar”, alimentada pelo arrivismo de Josef, era contrária não só à presença dos oficiais de carreira, mas também à centralização do comando, defendendo a autonomia local das tropas.

    Stálin enviou um memorando ao Comitê Central, criticando a direção de Leon e solicitando a destituição de todos os oficiais, bem como o direito de formar “exércitos independentes”. Indignado, Trótski pediu demissão: Lênin não só recusou o pedido, como também deu total apoio ao organizador do Exército Vermelho. Os historiadores stalinistas omitem que, numa reunião do birô político, o líder bolchevique estendeu uma folha de papel a Trótski, dando-lhe uma inequívoca prova de confiança:

    Conhecendo o caráter rigoroso das ordens do camarada Trótski, estou convencido, tão absolutamente convencido da oportunidade e da necessidade, para o sucesso da nossa causa, do rigor do camarada Trótski, que assino embaixo sem reservas. V. Ulianov-Lenin
    (Victor Serge, Vida e morte de Trotsky, Editora Ensaio, São Paulo, 1991, p.108-109).

    Na foto de Stálin compartilhada no face, evidentemente, não aparece a assinatura de Lênin desautorizando as pretensões do futuro ditador. Aliás, a foto não poderia mesmo revelar os fatos que desmentem a versão forjada pelos falsificadores, como mostra este retrato feito pelo revolucionário Victor Serge:

    Stálin foi objeto de sanções muito moderadas por parte do bureau político e do governo. Geralmente se esquece que, nesse meio tempo, se perdeu a importante posição de Tsaritsyn, que, pela via fluvial, ligava a Rússia ao Cáucaso e à Ásia: os Brancos se apossaram dela, no final de junho de 1919, e a ocuparam por muitos meses.
    (idem, p.108).

    Levando tudo isso em conta, não é muito sintomático que, no ano seguinte à morte de Vladimir, o XIV Congresso do PCUS tenha substituído o nome de Tsaritsyn por Stalingrado? Será que os internautas que postaram o meme com a frase “Eu avisei: aqui a Alemanha não vence” conheciam essa história? Será que os torcedores digitais têm consciência das implicações deste post? Enfim, entre os que compartilharam o sorriso sarcástico do “coveiro da revolução”, há “inocentes de boa-fé” e “equivocados de má-fé”: estes devem ser combatidos; aqueles, esclarecidos. Ainda que ambos tenham feito “gol contra”, perdendo a revanche sem precisar jogar… Aliás, onde é mesmo que a Alemanha entrou nessa história?

    Para encerrar a partida, imagine um meme com este recado: “Eu avisei: aqui stalinista não vence”. Agora a coisa ficou russa: cartão vermelho para quem veste a camisa de Josef!

    * Paulo César de Carvalho, o “Paulinho”,  joga no time da RESISTÊNCIA-PSOL.

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  • Contra o pessimismo

    O pessimismo e o otimismo fazem parte do senso comum. São estados de espírito que, como polos opostos, não deixam de ser vulgares, e até algo banais. Quando associados a visões de mundo messiânicas, de tipo milenarista, alcançam o status de sagrado e – com retórica inflamada – podem subir aos céus ou descer aos infernos. Os exemplos são muitos. Abundam. Mas dado o contexto efetivo em que nos toca viver vale a pena ver, mais de perto, os mais próximos. Qual diria Brecht, estranhar àquilo que nos é familiar. Vale a pena acompanhar de perto o argumento de Terry Eagleton (2015) sobre a questão.

    A tradição cristã – por exemplo – é ali considerada uma concepção total de mundo mais pessimista do que um qualquer humanismo secular ao mesmo tempo em que seria, sem qualquer termo de analogia, imensamente mais otimista. Se por um lado é dum brutal realismo em relação a tudo o que tem a ver com uma inamovível natureza humana – da inexorabilidade do mal à perversidade da autoilusão, até o escândalo do sofrimento – por outro também constitui absoluta redenção a esta tão terrível condição. De tão possível – pasmem ou regojizem-se? – já se-a fizeram em nosso nome: — Praise the Lord! Aleluia!

    O último dos stalinistas convicto e confesso, o mais preguiçoso e vulgar, jamais poderia proclamar impune – nos dias de hoje – que o socialismo é o inexorável e, menos ainda, que ele já apareceu sem que sequer nos tivéssemos dado conta. Para as profissões de fé, contudo, o advento dum tal Reino é, de antemão, assegurado. Pois a vinda de Jesus, do Mundo dos Mortos, teria-o já fundado. A nova sociedade – a cidade futura – é possível em base a um corpus transfigurado. E é isso o que se celebra, na Páscoa. A Ressurreição.

    Mas, atenção! Não era lá o caso de uma concertação sindical ou barganha política. Nada de negociações. Sem pactos. O Messias é um irredutível: ou se está a favor – ou se está contra. Nada de meios-termos tão ao gosto das suscetibilidades mais contemporâneas. Nem migalhas de pão nem servir vinho novo em velhas garrafas. Outro mundo possível e necessário é prenúncio ou encarnação, mas nunca gradualismo. Neste exato sentido muito específico Cristo foi, mais que reformista social, um vanguardista revolucionário.

    Cristo não dava nome a uma transição pacífica – do velho para o novo – à maneira de qualquer socialismo evolucionário à la Edward Berstein ou seu Partido Socialdemocrata Alemão. Dada a urgência e até severidade da aludida condição – que os Gospels dirão o Pecado do Mundo – alcançar uma ordem social igualitária envolve passar mesmo pela morte, pela condição do Nada, o mais absoluto, turbulência irascível: o pior dos flagelos.

    Mas por que os seguidores de Jesus Cristo tão-só esperam a tal vinda do Reino dos Céus? Tem a ver com algo que pode soar até bastante banal, para nós, mas que não podia fazer qualquer sentido, para eles. Não havia no horizonte, de toda a gente, qualquer noção de que a atividade humana poderia jogar algum papel de auxílio em sua fundação na terra. O cristianismo primício imaginou-o antes como dom-de-Deus — e não um ato histórico. Não à-tôa foi necessário um desenvolvimento histórico de longa duração para superá-lo. O otimismo e o pessimismo também fariam história nas ideias políticas do socialismo: em um outro tipo de escrita da história, e toda uma outra forma de fazimento da história.

    O novo tempo do mundo?
    O espectro da autodeterminação – um novíssimo modo de fazer história – só surgiu nos últimos duzentos anos. A única concepção de história disponível naquele então era uma ‘Heilsgeschichte’ ou, em miúdos, algo como a História da Salvação – ‘Sagrada’ – e todo um outro tempo. Walter Benjamin tematiza, ao final de suas Teses sobre o Conceito de História, uma possibilidade efetiva para a instauração de um novo «Tempo-de-Agora». O materialismo histórico e a história sagrada se voltam contra a ideia de progressivismo. Acreditamos que este espectro ronda o globo e é um tema que vale a pena rever adiante.

    A remissão a valores e crenças de que se navega a favor da corrente do mar da história, a confiança cega no incessante desenvolvimento material das forças sociais produtivas, a fé inexorável – em uma imparável elevação da consciência social do proletariado – e a asseveração de inevitabilidade à finalidade socialista do curso dos acontecimentos foi um ópio socialdemocrata do movimento da classe trabalhadora, de sindicatos e partidos. Seria, hoje, politicamente farsesco repetir à tragédia histórica naïf de inícios do Século XX.

    O Kulturpessimismus não deixa de ser o marco epocal que divide águas no socialismo. A quarta vaga geracional do marxismo continental europeu fez renascer a este idioma. Usando expressões até então ininteligíveis – para Engels e Marx, Mehring ou Labriola,  de Rosa Luxemburg a Leon Trotsky – diferentes marxistas tal Adorno, Sartre, Althusser e Benjamin foram bastiões intelectuais deste novo pessimismo teórico da razão crítica. A derrota histórica da revolução no Século XX deixaria profunda marca em seus expoentes.

    A Dialética do Esclarecimento de Adorno e Horkheimer pode ser considerada magnum opus do pessimismo marxista, campeã invicta da negação dialética na Europa ocidental. A Crítica da Razão Dialética de Sartre valoriza o tema da escassez em uma nova chave. E Althusser é responsável por articular a noção de ideologia tal qual um Appareil d’État. Mas é Benjamin quem irá desafiar vigorosamente o cânone do progresso enquanto tal. O mais peculiar marxismo ocidental – para Anderson (1974) – é, também, o mais típico.

    As inovações temáticas do assim-chamado marxismo ocidental antecipam problemas reais (e fulcrais) de toda história do movimento socialista pós-primeira guerra mundial. Muitas das preocupações de Adorno com a natureza, que à altura apareciam enquanto desfasamento algo perverso no relativo à orientação das obras do Instituto de Frankfurt, reapareceram, subitamente, nos amplos debates, posteriores, sobre o meio-ambiente. A incursão principal de Althusser, sobre a ideologia, foi diretamente inspirada pela onda de revoltas no interior do sistema de educação superior do mundo capitalista avançado. O tratamento do problema da escassez por Sartre esquematizou a cristalização universal da burocracia, após todas as revoluções socialistas – levadas a cabo nos países atrasados.

    Todas as principais inovações e/ou desenvolvimentos teóricos, no seio deste corpus, se distinguem da tradição prévia do materialismo histórico pela falta de clareza dos seus corolários e de suas conclusões. A este respeito, entre 1920 e 1960, o marxismo mudou – lentamente – de cores e texturas no Ocidente. A confiança herdada, o otimismo dos fundadores, e a altivez dos sucessores, desaparecera, inescrutavelmente. Quase todos os principais temas novos da história intelectual, desta época triturada, revelam a mesma diminuição da esperança e a mesma perda de convicções. O arco da descrença distópica.

    Para onde vai a teoria?
    À melancolia intelectual – impregnada na obra dos críticos de Frankfurt – falta qualquer nota de energia militante que se lhe possa fazer frente. Adorno/Horkheimer puseram em causa a própria ideia de domínio do homem sobre a natureza como o reino da liberdade, para lá do capital. O pessimismo de Althusser, ou Sartre, tivera outro horizonte. Mas não menos grave que o anterior; o socialismo realmente existente. Althusser afirmou que até o comunismo permaneceria opaco, enquanto ordem social para os indivíduos que nele vivessem, enganando-os com a perpétua ilusão do livre-arbítrio. Sartre rejeitou a própria ideia de ditadura do proletariado, como impossível. E interpretou à burocratização das revoluções como o produto invariável de uma escassez cujo fulcro seguiria insuperável. Estas teses conjugaram-se com acentos particulares, e cadências gerais, perfeitamente invulgares na história precedente do movimento socialista internacional. E foram estas também, de forma menos direta ou verbal, sinal inconfundível de alterações profundas.

    O tom e as alegorias que Adorno e Althusser, Sartre e Benjamin, iriam utilizar mudaram drasticamente todo ambiente literário precedente. Benjamin foi quem melhor sintetizou uma concepção de história da intelligentzia centro-europeia em linguagem que teria sido quase incompreensível para todas as gerações anteriores: «Eis como retratamos o Anjo da História. A sua face está virada para o passado. Onde nós percebemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma única catástrofe que mais não faz do que empilhar naufrágio sobre naufrágio e os atira para diante dos pés. O Anjo gostaria de permanecer nesse lugar, de acordar os mortos e reconstruir o que foi destruído. Mas uma tempestade sopra do Paraíso: tomou as suas asas com tal violência que o Anjo não as pode já fechar. Esta tempestade impele-o irresistivelmente para o futuro, para o qual as suas costas estão voltadas, enquanto o amontoado de escombros que se lhe depara cresce em direção ao céu. Esta tempestade é aquilo a que chamamos Progresso». E Benjamin soía afirmar que mesmo mortos não estariam a salvo – enquanto seguirem vencendo os vencedores…

    É certo que Benjamin – como Antonio Gramsci – foi vítima do fascismo enquanto dava luta sem quartel contra o stalinismo. Mas também no segundo pós-guerra mundial o tom sombrio foi inequívoco. Talvez o mais urgente de todos os escritos de Althusser, por exemplo, possa advertir – com feroz violência – para o desenvolvimento social desde o nascimento à infância. Desenvolvimento, este, que estaria na origem do surgimento do inconsciente qual uma provação a que todos os seres humanos teriam de passar ao largo da vida. Com inspiração em Freud, o professor d’Ulm irá retratar uma ‘guerra infinita’ e algo como a ‘morte não-oficial’, de uma série ininterrupta de pulsões de vida, no mundo dos homens. Também Sartre iria usar metáfora atroz, para comparar as relações entre os homens, em chave de escassez – ‘raritá’ de Galiani –, ‘duplo demoníaco’ e, até, ‘outra espécie’. Passagens como estas fazem parte de uma prosa fundamentalmente estranha ao mundo – da política e das letras – de Marx, de Labriola ou de Trotsky. E trazem um pessimismo subjacente para lá de intenções ou das teses – declaradas – dos seus autores.

    As características que circunscrevem esta constelação de marxistas tal tradição distinta tem a ver com a origem no malogro das revoluções socialistas nas zonas desenvolvidas do capitalismo europeu após a primeira guerra mundial. Desenvolvendo-se no meio de uma crescente cisão entre a teoria política socialista e prática da classe trabalhadora, o abismo entre ambas, que começou a ser cavado pelo bloqueio imperial à Revolução dos Soviets, veio a ser ampliado e consumado – institucionalmente – pela burocratização da URSS e do Comintern durante o regime de Stálin. Para os expoentes do novo idioma não estava em causa uma renúncia formal à ideia de revolução. Mantiveram o horizonte intelectual de uma transformação social, radical, mediante a agência humana, socialista. Mas longe de qualquer ativismo este léxico marxista ateve-se a uma República de Letras. E virou letra – e república – morta.

    Um divórcio estrutural, entre a teoria e a prática, impediu a consecução de um trabalho político e intelectual de conjunto, do tipo do que definiu todo marxismo precedente. Em consequência disso, os teóricos refugiaram-se nas academias, afastando-se do modo de vida e de luta das classes trabalhadoras dos seus próprios países. E a teoria abandonou a economia e a política pela filosofia e a estética. Esta especialização conjugou-se com uma linguagem cada vez mais truncada, cujas barreiras ergueram-se em função da sua distância das massas. Inversamente, ela conjugou-se também com um rebaixamento do nível de conhecimento mútuo – ou de comunidade internacional – entre os próprios teóricos dos diversos países. Foram localistas onde e quando seus ascendentes eram internacionalistas. A perda de todo e qualquer contacto dinâmico com a prática da classe legou o método como impotência, a arte como consolação e o pessimismo como acicate.

    Mas não podemos reduzir tal tradição, como um todo, a este triste panorama. Apesar de tudo, os seus principais quadros mantiveram-se autoimunes ao reformismo tradicional. Apesar de se encontrarem tão apartados das massas, em geral, e dos trabalhadores, em particular, quase nenhum deles – exceção ao que veio a ser o renegado Horkheimer – veio a capitular ao capitalismo triunfante, como antes deles fizeram alguns teóricos da Segunda Internacional, triste memória de Karl Kautsky, muito mais próximo da luta de classes. E tanto mais – por entre as suas próprias inibições e silêncios – a experiência histórica de quê as suas obras eram uma expressão cabal foi também, em certos aspectos particulares, das mais avançadas do mundo, pois que englobavam às mais altas formas de economia capitalista, o proletariado industrial mais antigo e as mais longas tradições intelectuais do socialismo. Trata-se – sem sombra de dúvidas – de um riquíssimo legado.

    Outro marxismo?
    Ora, poderíamos dizer que esta tradição intelectual – para além de alguns epígonos e/ou de casos isolados – encerrou seu ciclo histórico com a onda internacional de revoltas e a crise estrutural do capital que sucedeu o fim dos anos 60 e o início dos 70 no Século XX? Sempre soa algo definitivo demais colocar uma pedra sobre qualquer grama. O mundo ‘vasto e terrível’ sempre dá voltas. Cremos que parte importante deste tipo de marxismo encontra-se viva. O marxismo das formas de Frederic Jameson, nos Estados Unidos, ou o ensaísmo crítico de Paulo Arantes, no Brasil, dão mostras de uma produção instigante. Mas nos parece que o caso mais significativo, naquilo em que aprofunda e também no que desprega da tradição pós-clássica, é mesmo o de Perry Anderson. De um otimismo político acachapante nas urgentes teses, de 1974, a pessimismo intelectual tão aterrador quanto cortante no editorial manifesto, de 2001, vai lá uma distância de muitos alqueires. O paladino dos marxistas soixante-huitards – sessenta-e-oitistas – foi o mais longe deles:

    “(…) é hoje visível o advento de um novo período no movimento dos trabalhadores (…). A revolta francesa de Maio de 1968 constitui … um profundo ponto de viragem histórica. (…) Nos anos que se seguiram assistiu-se a uma onda internacional cada vez mais ampla de insurreições …, diferente de tudo àquilo que tinha sucedido. (…) A possibilidade de reposição duma relação íntima entre teoria marxista e prática de massas, resultante das lutas reais da classe trabalhadora, torna-se muito maior. As consequências de tal unificação entre a teoria e a prática poderão transformar o próprio marxismo recriando a condições que à sua hora estiveram na origem dos fundadores do materialismo histórico.” (Anderson, Perry, 1974, , tradução nossa)

    Anderson apostava as suas fichas – em meio ao processo revolucionário em curso, o «PREC» da Lisboa insurrecta e a sua tão celebrada revolução de cravos nos fuzis – no propício cenário que ia de finais de 1967 a meados de 1975, em que a Europa ocidental tendia a produzir outro tipo de marxismo à hora e lugar dos atos, bloqueios e barricadas. A galvanização, combustível e dinamização desse marxismo caberia a uma tradição em tudo alheia ao que conformou o mais típico dos marxismos daquele rincão do mundo. Na sua fase mais “bolchevique-leninista” Anderson expressa – de modo mais acabado – a sua mais nova adesão à corrente de tradição trotskista como um cânone de interpretação.

    Enquanto a vanguarda da cena, na história das ideias socialistas, fora ocupada por esta vertente outra tradição, em tudo distinta, teria se gestado por fora dos holofotes centrais. O marxismo ocidental sempre sofrera uma constante ‘atração magnética’ por parte do comunismo oficial enquanto ‘a’ única encarnação histórica da classe trabalhadora. Nunca aceitou totalmente o stalinismo, embora também nunca o tenha combatido ativamente. Mas fosse qual fosse o tipo de atitude, que os seus sucessivos expoentes adotaram em relação àquele, para todos efeitos não existiriam outras esferas nem qualquer outro meio realista de ação socialista fora deste raio de influência. Tal dique os separou de Trotsky.

    Se é verdade que o caráter ultrassintético deste escrito tenderia a muitas simplificações – o material original serviria de introdução a uma coletânea de textos dos ‘ocidentais’ –, também o é que a letra de Anderson dá vazão a dadas expectativas revolucionárias gerais. Para além deste legado, de Trotsky, houve o operaísmo italiano, o maoísmo francês e o conselhismo alemão, para citar tão-só alguns exemplos. Mas enquanto uma objetivação duradoura de uma esquerda antistalinista internacional, não seria um exagero afirmar-se a importância que assumiu a teoria e o movimento de tradição trotskista em nível global.

    Mas um largo isolamento da classe trabalhadora organizada e a ausência prolongada de levantamentos revolucionários de massas imprimiu-lhe inexoráveis efeitos deletérios. A reafirmação da validez da revolução social e/ou da democracia direta, contra os tantos acontecimentos que as denegavam, inclinou-lhe involuntariamente ao conservantismo. A preservação da doutrina clássica ganhou prioridade sobre o desenvolvimento da teoria revolucionária. Certo triunfalismo relativo à causa do trabalho e dado catastrofismo na análise do capital – concepções defendidas mais através da vontade otimista do que da inteligência pessimista – foram, nas suas formas usuais, peculiares vícios desta tradição.

    A autocrítica que Anderson realiza, em seu Posfácio, é nada menos do que demolidora. Após o fim dos eventos políticos – do ciclo histórico aludido – a ‘coruja de Minerva’ é, daí, implacável. A leitura seria algo ativista, irresponsável? A distinção, entre clássicos e ocidentais, reducionista e insustentável? O próprio leitmotif de nexo teoria-movimento – e/ou razão-revolução, ciência-classe, materialismo histórico-insurreição do trabalho –, de tão sólido, se desmancha no ar. Da expectativa revolucionária ao que Gilbert Achcar irá denominar ‘pessimismo histórico’ (Duncan, Blackledge, Elliot) Anderson resume o novo signo da época de grande parte da intelectualidade socialista após a queda do muro. O otimismo, um Kautsky ou Bukharin, seria substituído por empedernido pessimismo. Após pôr fim à ideologia e ponto final à história, já chegou a se falar n’o último homem.

    O fim do fim da história
    Ninguém foi mais claro ou carregou mais nas tintas desta visão criticamente pessimista sobre o presente histórico do que Perry Anderson no editorial-manifesto que refundou a revista de ideias mais longeva de toda a história publicística de toda esquerda mundial. O texto Renovações é a epítome do que Anderson chamaria de irreconciliável realismo (‘uncompromising realism’). Escrito no ocaso do Séc.XX fala despudorada, abertamente, sobre uma derrota acachapante da esquerda em nível global. O diagnóstico apocalíptico chamou a atenção de Gilbert Achcar, Boris Kagarlitsky, James Petras e muitos outros. Para não poucos, tratar-se-ia dum adeus às referências cultivadas no período precedente.

    A segunda série, a nova New Left Review, traduziu o novo espírito de época tal qual era pensado por muitos outros expoentes que não tiveram clareza a política ou honestidade intelectual de elaborá-la tão cristalinamente. “O bloco soviético sumiu. O socialismo deixou de ser um ideal ampliado. O marxismo já não predomina na cultura de esquerda. Até mesmo a socialdemocracia se dissolveu em grande parte. Dizer que essas mudanças são enormes seria um eufemismo.” Senão a morte do marxismo seria o ‘fim da história’?

    Os anos noventa foram especialmente duros para o marxismo quando sicofantas a soldo do capital decretaram que o que tivera fim – na URSS e no Leste Europeu – não fora a ditadura stalinista mas, sobretudo, o próprio socialismo. O término da Guerra Fria propiciou oportunidade – por primeira vez na história – para que o capital e sua ordem pronunciassem os seus nomes próprios, abertamente, numa ideologia que anunciava a chegada do ponto final ao próprio devir, construído, este, sobre as premissas do livre-mercado, para além do qual seria impossível imaginar quaisquer melhorias substanciais.

    Francis Fukuyama deu-lhe expressão teórica mais ampla e ambiciosa enquanto noutras elaborações – mais vagas e populares – também se difundiu uma mesma mensagem: o capitalismo é destino histórico-universal, permanente e inevitável, do gênero humano enquanto tal. Ou “por fora da realização deste destino pleno”, dizia-se, “there is no alternative”. O argumento de ‘O Fim da História e o Último Homem’ foi deslocado em sua mais nova obra, produzida após-invasão do Iraque, a bastante reveladora ‘América na Encruzilhada’. O ‘fim da história’ – de Hegel, Kòjeve, Fukuyama e, até mesmo, do último Anderson – assistira desta forma ao seu próprio final. Se de-há pouco se sentiu anunciar ao que seria a crise à ‘crise do marxismo’ ver-se-ia um fim ao ‘fim da história’.

    A miséria terrena, e pensamento único, da dita “falência das metanarrativas” deu lugar, nada obstante, a um aluvião de novos ares – proveniente daquilo que Marx chamaria o ‘movimento social como um todo’ – e tem permitido novos céus sob assalto da teoria marxista. A crítica espontaneísta, à universalização de sua forma mercantil, presente de modo difuso em várias insígnias anticapitalistas, de Wall Street ao México e da Europa mediterrânea ao mundo árabe, enredou-se a uma crítica teórica e política mais radical à propriedade privada, pista de voo pavimentada pelo autor d’O Capital. As iniciativas de luta contra as expressões fenomênicas da ordem do capital encontra, em perspectiva marxista, um importante pilar. O colapso do stalinismo e o declínio da socialdemocracia expressam uma crise de direção dos dominados; o atoleiro de Washington e de Bruxelas manifestam a crise de hegemonia dos dominantes. O otimismo e o pessimismo não tem lugar em um tempo presente que insiste em intercambiar de lados a medos e esperanças.

    Uma rápida olhada nos catálogos das principais editoras de esquerda em língua inglesa, idioma que assumiu a supremacia linguística do marxismo contemporâneo, vai mostrar que nos terrenos da crítica da economia, da política e da cultura a perspectiva socialista está longe de estar intelectualmente derrotada. Com um cauteloso otimismo e genuína alegria desde o Brasil organizamos, participamos, assistimos a uma série muito animada de colóquios, congressos, tertúlias acadêmicas e lançamentos editoriais associados à efeméride dos 150 anos da edição do Livro I d’O Capital, à comemoração de 100 anos da Revolução de Outubro e os 80 anos de Antonio Gramsci. E muito mais correu mundo.

    Mas o seu contraste é evidente. Não houve qualquer termo de comparação possível em profundidade e extensão – quantidade ou qualidade – de atividades extra-acadêmicas e não-editoriais que tivessem já lugar em sindicatos, movimentos de trabalhadores e/ou partidos identificados com a luta socialista que fossem dignas de nota, infelizmente. Se serve de algo, nos Estados Unidos da América e Europa ocidental, além de consagradas atividades científicas relacionadas à concepção materialista da história, aí, sim, se fizeram notar eventos deste tipo no âmbito de organizações coletivas no terreno político da esquerda socialista radical. Mas, ainda assim, tampouco sem um qualquer vestígio de uma audiência e/ou participação ativa, de massas. São tempos difíceis, é verdade. Mas tampouco foram fáceis, convenhamos!, os anos vividos por Marx e Engels, Lenin e Trotsky, Rosa Luxemburg e Antonio Gramsci. É preciso encontrar saídas e explicações. No ano do 200º aniversário do velho mouro sobretudo é preciso tecer alternativas. Pra já.

    Do desespero convincente à esperança viável
    É possível encontrar dos mais baixos vales, depressão pessimista, aos mais altos cumes, de euforia otimista, no interior da tradição marxista. O exercício de topologia intelectual não deixa de ser algo tal qual sismógrafo político a auscultar o pulso das massas de perto. Salvo ledo engano não poderia haver mais catastrófica preleção sobre o futuro humano do que o alerta de Friedrich Engels para o fato mesmo de que o sistema solar vai ter fim. A absoluta convicção na aniquilação do Planeta e todo o gênero humano sobre a face da Terra, afinal de contas, não é propriamente a mensagem dum ensolarado café da manhã. O destino último para o qual sucessivos militantes – de Blanqui a Lyotard – imaginaram fugas intergalácticas, voos interplanetários e repovoamentos épicos, dignos de melhores constructos da indústria cinematográfica de Hollywood em seus delírios mais fantásticos (se é que Los Angeles ainda é capaz de produzir algo digno de atenção), não encontrou no mais bem-disposto, bem-alimentado dos fundadores do materialismo histórico solução:

    “Milhões de anos podem se passar, centenas de milhares de gerações nascerem e morrerem, mas inexoravelmente chegará o tempo em que o calor declinante  do Sol não será o suficiente para fundir o gelo que vem dos polos, em que a espécie humana, acotovelando-se cada vez mais no centro do globo, já não há de encontrar, nem na Linha do Equador, o calor que torna possível a vida humana, em que esta perecerá, gradualmente, e se extinguirá pari passu todo e qualquer vestigio de vida orgânica, e a Terra, então esta esfera congelada e extinta, ora parecida à Lua, continuará a girar por toda a escuridão infinita mais profunda em órbitas cada vez menores entorno a um Sol também findo e, por fim, juntar-se-á ao defunto Astro.” (Engels, Friedrich, 1965, tradução nossa)

    A sombria mortalha, imagem literária tão portentosa, foi usada por sucessivas vagas de militantes socialistas para referir um destino fatal, mas distante. Rosa Luxemburgo, por exemplo, usava constantemente uma macambúzia alegoria para designar a ativação dos “limites internos absolutos” do próprio capital, em reprodução ampliada, teoricamente verdadeira, como tese, à qual opunha a “luta de classes”, como antagonista derradeiro, muito antes de vir a ser. Tal limite interno era qual a “extinção do Sol” de tão longínquo. Vibrando na mesma frequência desta largura de ondas, Trotsky imaginara um futuro mais que brilhante nos seus escritos sobre Literatura e Revolução para o gênero humano.

    “A sociedade futura irá se destacar da áspera e embrutecedora preocupação do pão de cada dia. Os restaurantes coletivos prepararão, à escolha de cada um, comida boa, sadia e apetitosa. As lavanderias públicas lavarão bem as roupas. Todas as crianças serão fortes, alegres, bem alimentadas e absorverão os elementos fundamentais da ciência e da arte, como a albumina, o ar e o calor do sol”. Assim, “(…) as paixões liberadas irão se voltar para a técnica, para a construção, inclusive da arte, que naturalmente se tornará mais geral, madura, forte, a forma ideal de edificação da vida em todos os terrenos. A arte não será simplesmente aquele belo acessório sem relação com qualquer coisa”. «É difícil prever o espectro da autodeterminação a que o homem do futuro poderá alcançar (…). O homem se tornará incomensuravelmente mais forte, mais perspicaz, mais polido; seu corpo terá uma forma mais harmônica, seus movimentos serão mais dotados de ritmo, sua voz será mais musical.» (…) o próprio corpo humano “(…) será mais harmonioso, seus movimentos mais rítmicos, sua voz mais melodiosa. As formas de sua existência adquirirão qualidades dinamicamente dramáticas. A espécie humana, na sua generalidade, atingirá o talhe de um Aristóteles, de um Goethe, de um Marx. E sobre ela se levantarão novos topos.” (Trotsky, Leon, 1924, tradução nossa)

    É a hora e a vez de prestar atenção aos conselhos do criador do Berliner Ensemble. Já é tempo de deixar o pessimismo marxista para os dias melhores. Em seu poema, Aos que virão, Brecht insiste em que só haveria que desesperar se e quando houvera injustiça sem resistência. E, mesmo nos tempos aparentemente sem resistência, o passado de luta constituiria valor como luz ao fim de um túnel. Recuperar o Dia do Juízo ainda que toda a justiça não se imponha ao final – uma vida dedicada à busca da felicidade do gênero humano continuaria digna de encomio. Não triunfar não é o mesmo que ter fracassado, da mesma forma que não é verdadeiro que bem está / é o que bem chega já a seu termo. Quem não luta com toda força até o fim nunca saberá se evitar o mal era factível ou não.

    Não é à-tôa que sejam tão afamados os escritos de tom messiânico de Walter Benjamin. Uma era de revoluções sociais e transformações políticas não precisaria de tal antidoto. A reputação tão duradoura e estimada da Escola de Frankfurt em geral contrasta com o quasi-desconhecimento, por parte dos marxistas revolucionários, dos estudos culturais do marxismo inglês. Contemporâneos dos autores alemães, foram antipodas, à altura, do que foi este seu Kulturpessimismus. Sem opor a banalidade do otimismo ao pessimismo fatalista, The uses of literacy (1958), de Richard Hoggart, Culture and society (1958), de Raymond Williams, e The making of the English working class (1963), de Edward Thompson, lavraram o terreno que nutria a cultura tal qual uma ensamble intrincada de práxis e, tais práxis, a conformar a atividade vital humana que molda o curso da história.

    Mais vale, como nos conta Williams – em entrevista a Terry Eagleton –, tornar viável a esperança do que convincente o desespero. É preciso distinguir as sementes de vida das sementes de morte. O critério ulterior da razão crítica é, para Williams como para Marx, um ato histórico, e não mental. “You are a Marxist aren’t you?”. Pois então mãos à obra. Como já dissera um outro marxista conterrâneo, o mundo não vai se transformar sozinho.

     

     

    Bibliografia

    Antonio Gramsci. Quaderni del Carcere. Torino, Einaudi, 1975.

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    Raymond Williams / Terry Eagleton. Recursos de Esperança: cultura, democracia, socialismo. Trad. Nair Fonseca e João Alexandre Peschanski. SP: Unesp, 1989/2014.

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    Walter Benjamin. Theses on the Philosophy of History (also On the Concept of History, from German: Über den Begriff der Geschichte), 1940, várias edições.