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  • Contra a direita, fortaleça a esquerda na internet

    Na semana passada, das dez publicações sobre política mais vistas no Facebook, nove eram em páginas de direita. Apoiando-se na revolta com os “políticos” e a corrupção, na decepção com os governos petistas e no aumento da violência, a direita está vencendo com folga a batalha nas redes.

    Após cada publicação, uma extensa rede repercute, potencializando o alcance nas fábricas, nas igrejas e nas ruas. É desta forma que estas ideias chegam aos grupos de whatsapp do trabalho e da família. Nesta cruzada, vale tudo, de notícias falsas a memes provocativos. Como o que  recorreu às batatas fritas em dobro em uma promoção da Black Friday para demonstrar a superioridade do capitalismo.

    Distante de um programa comum para o País, o repertório da direita que cresceu na esteira do impeachment reúne a defesa da “família”, anticomunismo e afirmação do mercado, nacionalismo e combate à corrupção.

    O ódio estimula comentários contra gays, lésbicas, transexuais, mulheres, negros e nordestinos. Ao mesmo tempo em que um jovem ator negro, depois de espancado por um grupo fascista em São Paulo, ainda fosse confundido com um assaltante.

    Diante da violência, a direita defende o armamento dos “cidadãos de bem”, a pena de morte e o encarceramento em massa. Direitos Humanos virou palavrão, sinônimo de compactuar com o crime. Ao mesmo tempo em que ninguém mais parece se incomodar com homenagens a torturadores e generais e a defesa de uma intervenção militar.

    Combatendo o absurdo 
    A revolta com a direita muitas vezes é seguida de desânimo e cansaço. Afinal, como debater com o absurdo?

    É preciso dizer que a batata frita no shopping não significa absolutamente nada. Ainda mais quando crianças desmaiam de fome nas escolas e a fome voltou a aumentar no mundo, atingindo 815 milhões de pessoas.

    É preciso dizer que não há nada de moderno no trabalho intermitente, que paga por hora. E que as empresas que cobram redução dos gastos públicos devem bilhões à Previdência e dependem do dinheiro do estado. Que privatizar a Petrobras não é a saída. Que a Coréia do Norte não é socialista. É preciso repetir que as mulheres não devem ser obrigadas a ter filhos de estupradores. É preciso recordar que a ditadura retirou liberdades, torturou e matou. É necessário dizer o que parece óbvio.

    Fortaleça a esquerda na internet. Doe ao Esquerda Online
    A força dessa nova direita na internet não é novidade. Mas é preciso respostas à altura. Na internet cresce a resistência. Ativistas de esquerda, socialistas, feministas, jornalistas criam alternativas de comunicação diante de uma mídia que assumiu o golpe parlamentar e faz campanha pelas reformas. Produzem informação livre, mostram a vida nas comunidades, o genocídio da juventude negra, contam a vida e as lutas nas obras e nas fábricas.

    O Esquerda Online é parte disso. Nosso site surgiu há pouco mais de um ano, e fomos um dos mais visitados quando o assunto foi a luta contra as reformas e o Fora Temer. Acompanhamos as lutas na América Latina, a greve das mulheres contra Trump e as lutas na Europa e na China. Fizemos luta política, divulgamos o socialismo e a Revolução Russa, iniciada com uma greve de mulheres operárias. Acompanhamos o debates da esquerda socialista no Brasil, e a busca por uma alternativa que negue a colaboração de classes dos governos petistas.

    Agora, queremos fortalecer o Esquerda Online, com um novo site, novo design, uma ampla rede de colunistas, enfim, com uma ferramenta a altura da batalha que temos pela frente, contra a direita, a retirada de direitos e os retrocessos.

    Precisamos da sua ajuda. Para manter nossa independência, lançamos uma campanha de financiamento coletivo (Crowdfunding), e pedimos a sua colaboração, de qualquer valor. Clique em benfeitoria.com/esquerdaonline e faça a sua contribuição. Fortaleça a esquerda na internet.

  • Notas sobre o filme O Jovem Marx e a trajetória de um autor insubmisso

    Por Michelangelo Torres, Professor do Instituto Federal do Rio de Janeiro

    Que o leitor não ambientado na teoria social de Marx[1] (1818-1883) não se deixe iludir sobre o subestimado título do filme ora aqui resenhado. É em boa ora que chega às telas de cinema[2] um filme que retrata a biografia do mais insubmisso e influente intelectual e dirigente político da história moderna. Ou precisando melhor, trata-se do período de gênese das ideias revolucionárias do comunista alemão, ao qual se convencionou denominar período do “jovem Marx”. O filme Le Jeune Karl Marx, dirigido pelo haitiano Raoul Peck, retrata, a meu ver, o percurso da perspectiva revolucionária que se forma no jovem Marx, ao longo dos anos de 1843 a fevereiro de 1848, quando da publicação do programa da Liga Comunista, conhecido como Manifesto do Partido Comunista, ou simplesmente Manifesto Comunista.

    O contexto do artigo de Marx, de 1842, publicado em Rheinische Zeitung (Gazeta Renana), a respeito da coleta de lenha pelos camponeses empobrecidos na Prússia, vista pelo despotismo prussiano como roubo passível de punição violenta, inaugura a trama da narrativa fílmica. O então publicista Karl Marx, colaborador do referido jornal publicado em Colônia, havia tomado posição política em favor dos camponeses pobres do Reno, compelidos a roubarem madeira em função da situação miserável em que viviam, em clara denúncia da repressão do Estado alinhada à defesa da propriedade privada. Como punição, o jornal patrocinado pela burguesia liberal anti-absolutista, em que atuava o jovem Marx, então com 25 anos, recebeu intervenção policial e foi fechado em1843. O periódico contava com expoentes como Stiner, Bauer e Arnold Ruge. O filme mostra, inclusive Marx e seus editores sendo levados pela polícia. Tais autores passariam a ser objeto de virulenta crítica de Marx, que acabara de romper com a perspectiva dos “jovens hegelianos”. O jornal tecia críticas ao governo de Frederico Guilherme IV (lembrando que o governo prussiano combatia o liberalismo burguês), tendo em Marx a postura mais radical. O êxito do filme está em demonstrar como o socialismo científico, a partir da teoria social de Marx (e a colaboração seminal de Engels), supera as perspectivas idealistas do socialismo utópico presentes na Europa do século XIX.

    O filme demonstra, ainda que muito de passagem, a profunda influência que havia no “espírito da época” e nos circuitos acadêmicos do pensamento hegeliano. O debate articulava-se em torno dos denominados hegelianos de direita (em defesa do Estado prussiano e difusores de elementos conservadores da filosofia de Hegel) e hegelianos de esquerda (esforçados em difundir o método do filósofo alemão para compreensão histórica dos fenômenos sociais). Marx até pouco tempo era próximo deste último grupo, com o qual veio a romper, como é possível notar na trama.

    Em fins de 1843 Marx casa-se com Jenny e ambos deixam a Alemanha rumo à França, onde passam a residir em Paris até 1845, quando é expulso para Bruxelas e, posteriormente, dirige-se a Londres. Em lua de mel em Kreuznach, Marx se dedica agudamente ao estudo e acerto de contas com a filosofia de Hegel, cujo resultado expositivo encontra-se em Crítica da Filosofia do Direito de Hegel (apenas mencionada de passagem em diálogo com Engels no filme), no qual procede a uma monumental e pioneira crítica do pensamento teleológico abstrato especulativo, de cunho idealista, ao mesmo tempo em que supera o materialismo feuerbachiano, ampliando o alcance da crítica para o campo prático da política. Nesta obra, como é sabido, Marx encontrou seu objeto, restava-lhe encontrar sua “anatomia”.

    Com o fechamento da Gazeta Renana, Marx e Jenny vão, em agosto, para Paris. irá fundar na capital francesa, com seu então amigo Arnold Ruge, cuja amizade viria posteriormente romper, a revista Anais Franco-Alemães, assumindo o posto de redator-chefe (o que lhe incentiva a mudar-se para Paris). Em 1844 apareceria a primeira e única edição dos Anais, contendo a Introdução a Crítica da filosofia do direito de Hegel e Sobre a Questão Judaica (esta última em co-autoria com Engels). Na magistral “Introdução” do primeiro texto mencionado, Marx realiza a descoberta do sujeito social revolucionário: o proletariado. A perspectiva filosófica dessa descoberta ganharia dimensão política quando o autor em tela toma contato com outro intelectual comunista além de seu tempo, o filho de um magnata da indústria têxtil, dois anos mais jovem que Marx, o “general” ou “comunista de casaca”, Friedrich Engels.

    A respeito, momento peculiar do filme é o encontro pessoal de Marx com Engels. Os jovens revolucionários tiveram um primeiro contato em 1842, não amistoso, apesar de que em 1844, em um segundo encontro, selariam o início de uma profunda e admirada parceria intelectual-militante. A respeito, como escreveria Engels, em 1885, “constatamos nossa completa concordância em todas as questões práticas” (apud LOWY 2012 p.134).

    Foi ainda em Paris, com 25 anos e já doutor em filosofia, que Marx entrou em contato com o movimento operário representativo do socialismo francês, como mostra o filme. Estudou as greves dos operários tecelões da Silésia, ocorrida em junho de 1844, identificando no proletariado o elemento ativo de sua própria libertação. Se sua atividade como jornalista lhe revelou a importância para a liberdade política, foi, porém, em contato com as lutas sociais da época que se viu compelido à importância do profundo estudo da estrutura da sociedade burguesa.

    Contudo, verifica-se algumas inconsistências históricas na narrativa do filme. Dentre elas destacaremos apenas algumas. É sabido que Marx tinha lido o magistral Esboço de uma Crítica da Economia Política, de Engels (redigido em 1843 e publicado nos Anais Franco Alemães em 1844), e não, como retrata o filme, A situação da classe trabalhadora na Inglaterra (que sequer havia sido publicado). Ao ter contato com o artigo engelsiano, foi apresentada a Marx a necessidade do estudo e elaboração de uma crítica da Economia Política (burguesa, clássica, liberal). Precisando melhor, é Engels que introduz a crítica da Economia Política a Marx, influenciando-o de modo decisivo. Aliás, cumpre notar que sua obra máxima, dos anos 1860, O Capital, tem o subtítulo: “crítica da economia política”.

    Aquele ano de 1844, conforme aborda o filme, seria decisivo para o jovem Marx, ao fundamentar suas primeira análises do estatuto ontológico do trabalho em seus Manuscritos Economico-Filosóficos, texto nunca publicado em vida (viria a público apenas em 1932, tardiamente descoberto). Foi nos Manuscritos de Paris que desvendou o esboço decisivo de sua teoria da alienação e o estudo da Economia Política. Ainda em 1844, no mês de agosto, é publicado no periódico Vorwäts (periódico de esquerda publicado por exilados alemães em Paris), o qual é mencionado no filme, o artigo de Marx, de importância singularmente pouco considerada pelos próprios marxistas, institulado Glossas Críticas ao artigo “O rei da Prússia e a reforma social” de um prussiano, em que debate a primeira revolta operária histórica alemã moderna, a saber, o levante dos tecelões de Silésia, texto em que Marx articula o proletariado como elemento ativo da revolução socialista numa perscrtiva da autoemancipação. Foi nessa época que Marx redigiu o pouco conhecido Elementos da Economia Política de James Mill, tratando, inclusive, sobre a temática da alienação.

    No ano seguinte Marx é expulso da França. Publica A Sagrada Família, primeira obra em co-autoria com Friedrich Engels. Nesta obra, majoritariamente escrita por Marx, os autores atentam para a superada filosofia de Hegel (ou precisando melhor, a filosofia que viria a ser superada, uma vez que, na ocasião, expressava a elaboração filosófica dominante) e seu invólucro especulativo de caráter abstrato e idealista representado por Bruno Bauer, Edgar Bauer e Egbert Bauer – filósofos “de gabinete” e que expressavam a “quietudo do conhecer acadêmico” das classes ociosas. Se os referidos autores se denominavam “a Crítica da crítica”, Marx e Engels elaboraram uma implacável “crítica da Crítica crítica”. Trata-se de um combate ao idealismo especulativo de cariz hegeliana. Observa-se que, no filme, o subtítulo da obra aparece como sugestão da esposa de Marx, em um diálogo com Marx e Engels.

    Na primavera de 1845, Marx elabora suas Teses sobre Feuerbach. É deste contexto a compreensão mais qualificada acerca do proletariado inglês e sua exploração pelo capital, a partir do acompanhamento da pesquisa de Engels, exposta na primorosa e já mencionada A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra, publicada naquele ano. O Comitê de Correspondência da Liga dos Justos, organização clandestina retratada no filme, é organizado por Marx e Engels em 1846, em Bruxelas. Data do exílio em Bruxelas a publicação do ensaio Peuchet: Sobre o Suicídio, texto quase desconhecido e publicado no Gesellschaftsspiegel (uma primeira tradução para o inglês só viria ao público em 1975). Neste mesmo ano de 1846, a célebre A Ideologia Alemã, obra de Marx e Engels, acaba não sendo publicada por falta de editor, sendo resguardada para a “crítica roedora dos ratos” (esta obra seria resgatada posteriormente por Riazanov, publicada em 1932, na então URSS). Neste manuscrito, os autores esboçam a compreensão sobre o materialismo histórico, destacando a necessidade do pensamento combater o mundo existente e, em certa medida, realçando uma reflexão sobre o comunismo (primeiro momento da obra marxiana em que o termo partido comunista é empregado).

    Em 1847 Marx se associa a Liga dos Justos (que se tornaria, logo em seguida, por mérito de Marx e Engels, Liga Comunista) e articula diversas associações operárias. A passagem é bem retratada na trama fílmica. No plano teórico, em resposta ao impactante texto de Proudhon, Filosofia da Miséria, Marx redige em francês a demolidora obra A Miséria da Filosofia em resposta ao principal representante dos socialistas utópicos franceses. Neste importante texto Marx diferencia a perspectiva socialista reformista da revolucionária. Aqui, demonstra-se claro que o erro de uma análise da realidade implica em erro na proposta política, como é o caso do utopismo reformista de cariz pequeno-burguês proudhouniano, o qual recusa a ação revolucionária de transformação do capitalismo. Em Marx, ao contrário, já se encontrava um projeto comunista revolucionário claramente formulado. Cumpre observar que, apesar de demonstrar as limitações proudhounianas, Marx identificava no autor um significativo avanço da manifestação teórica e do pensamento operário no contexto de sua época, conforme bem retrata o filme neste aspecto.

    No mesmo ano nosso autor pronuncia conferências em Bruxelas, notadamente na Associação dos Operários Alemães, que seriam posteriormente publicadas na Nova Gazeta Renana, em 1849, com o título Trabalho Assalariado e Capital, texto dirigido à militância operária. Em fins de 1847, Marx e Engels são incumbidos da tarefa de redação do Manifesto Comunista. Engels entrega a Marx os Princípios do Comunismo, uma versão preliminar do Manifesto. A responsabilidade pela exposição final do texto recai a Marx. Na euforia revolucionária do contexto social da época (situação revolucionária que ficaria conhecida como a Primavera dos Povos de 1848), o panfleto foi uma encomenda política da Liga dos Comunistas. Trata-se do texto teórico político mais importante e influente já escrito na história. O panfleto, originalmente com vinte páginas, representa um documento político-programático, ao mesmo tempo que uma análise histórica, isto é, uma teoria da realidade e uma crítica do presente integradas ao projeto de emancipação proletária. Tratava-se de apresentar ao proletariado um conteúdo programático embasado em sólidas bases científicas. Na última semana de fevereiro de 1848 foram impressos 3 mil exemplares do panfleto em Londres e divulgados amplamente. O propósito era divulga-lo em diversos idiomas. Simultaneamente explode uma insurreição na Suiça, seguida pela Itália, França, Renânia, Prússia, Áustria e Hungria. A partir de Engels, os jovens Engels e Marx se consagrariam como os fundadores do socialismo científico. Vale aguardarmos um outro filme retratando o período de “maturidade” desses primorosos autores revolucionários.

    Uma última nota de observação faz-se necessária. O Jovem Marx filme enfatiza um curioso – e importante – destaque para as mulheres. Se é verdade que a esposa de Marx, a filha de aristocratas Jenny Von Westphalen, tem um papel por vezes sobrestimado (inclusive aparenta ter uma consciência mais avançada do que Marx e Engels – o que, sem dúvidas, é um enorme exagero), por outro lado, na vida real, teve um papel importante na trajetória pessoal de Marx. Por sua vez, a primeira companheira de Engels, a jovem trabalhadora irlandesa Mary Burns e sua irmã Lizzie, de fato, tiveram um papel decisivo para que o jovem Engels se inserisse no meio proletário e pesquisasse os efeitos do capitalismo no operariado inglês – inclusive a imigração irlandesa teve um papel de destaque na Inglaterra durante o auge da Revolução Industrial.

    O filme se encerra com cenas contemporâneas de luta acompanhadas da trilha sonora original de Bob Dylan, Like a Rolling Stone. Sem dúvida alguma merece ser assistido. Se, por um lado, não retrata a dimensão histórica da grandiosidade de Marx e Engels, tem o mérito de abordar um período tão intenso (com todas as dificuldades que uma obra fílmica tem em retratar um período histórico e a complexa história das ideias da teoria revolucionária do século XIX) de maneira magistral. Se quis a ironia da história que os circuitos comerciais no Brasil não circulassem o filme como “mercadoria”, façamo-nos de modo desmercantilizado e educativo. Que se organizem os cine-debates pelos quatro cantos do país. Viva Marx! Um brinde ao “Mouro”!

    [1] Tivemos a oportunidade de publicar um artigo retratando o percurso intelectual de sua biografia em “A trajetória de um autor insubmisso”, disponível em: https://blog.esquerdaonline.com/?p=1435&print=print

    [2] Vale observar que o filme não foi exibido comercialmente por nenhuma rede de cinemas no Brasil. Apenas em meados de novembro deste ano que uma pré-estreia foi marcada em São Paulo.

  • 25 de Novembro: dia internacional da não-violência contra a mulher

    Por uma nova primavera feminista

    Por Elita Morais, de Maceió, AL

    Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 4.657 mulheres foram assassinadas em 2016. Desse total, apenas 533 casos foram reconhecidos como feminicídio, ou seja, a morte de mulheres em decorrência da violência de gênero. Registre-se que isso ocorre porque ainda existe uma resistência muito grande em se reconhecer o feminicídio como um fato da realidade, mesmo com uma lei específica sobre o assunto. Ainda é costume chamar essas mortes de “passionais”, sem reconhecer que as mulheres morrem por serem mulheres e que boa parte desses assassinatos são cometidos por seus companheiros.

    O Brasil é o quinto país do mundo onde mais se matam mulheres. Estima-se que, por exemplo, apenas em 2016, uma mulher tenha sido morta a cada duas horas no país. Além disso, houve também um aumento de, em média, 3,5% nos casos de violência sexual, o que dá uma estimativa de pelo menos 135 casos de estupro por dia no Brasil. Importante frisar que os casos de estupro são muito subnotificados, o que significa dizer que os números reais provavelmente são bem maiores.

    A violência contra as mulheres também é racista. As mulheres negras representam, em média, 65% das vítimas de feminicídio e a taxa de vitimização das mulheres negras cresceu em 22% entre os anos de 2005 e 2015.

    A PEC 181 É UM GRAVE ATAQUE AOS DIREITOS DAS MULHERES

    A PEC 181, para além de ser um ataque duríssimo à autodeterminação e direitos fundamentais das mulheres, é de uma crueldade e violência sem precedentes. O estupro é um crime bárbaro, e é inadmissível que se queira obrigar mulheres a gerarem filhos de homens que as violentaram.

    É preciso que se compreenda que essa PEC é um verdadeiro retrocesso e uma interferência absurda do Estado brasileiro na vida e autonomia das mulheres; é uma verdadeira violência promovida diretamente pelo Estado personificado em 18 deputados (todos homens) que se acham no direito de decidir, através de um discurso moralista, conservador e hipócrita, sobre nossos corpos e nossas vidas.

    Precisamos que o aborto seja reconhecido como o que de fato é: um problema sério de saúde pública que afeta a vida de milhares de brasileiras. Portanto, a garantia de um aborto legal, seguro e gratuito para as mulheres é um direito que não pode ser negado: somos nós que devemos decidir, e não o Estado.

    A LUTA CONTRA VIOLÊNCIA À MULHER É UMA LUTA CONTRA TEMER E A EXTREMA DIREITA

    A violência contra a mulher não se resume à violência física. É também um conjunto de ataques aos seus direitos que tem sido promovido pelo governo Temer. Junte-se a isso também o discurso conservador e de ódio de figuras como Bolsonaro, do MBL e da extrema direita contra os setores oprimidos.

    A reforma trabalhista, por exemplo, é um ataque às mulheres trabalhadoras, já que são elas as que estão localizadas nos trabalhos mais mal remunerados e precarizados. Essas mulheres, diga-se de passagem, em sua maioria são negras.

    A PEC do fim do mundo, agora Emenda constitucional 95, que congela gastos por 20 anos, promove sérios cortes em áreas sociais que são essenciais para garantir dignidade e proteção às mulheres, como saúde e educação. A construção de creches, delegacias e centros especializados de atendimento, a construção de casas abrigo, entre tantas outras medidas importantíssimas para as mulheres brasileiras, estão seriamente comprometidas.

    O próximo ataque do governo, no apagar das luzes de 2017, é garantir a reforma da previdência. Se a reforma trabalhista piora em muito as condições de vida das mulheres, essa reforma precariza ainda mais. Portanto, nós mulheres devemos estar na linha de frente da greve nacional convocada pelas centrais sindicais em dezembro junto com toda a classe trabalhadora e os setores mais oprimidos da sociedade e impor uma derrota ao governo Temer.

    TODAS JUNTAS POR UMA NOVA PRIMAVERA FEMINISTA!    

  • Funcionalismo Público convoca para 28 de novembro caravana a Brasília contra ataques do governo

    Como parte da implementação dos planos de austeridade, tanto o governo Temer, como sua base aliada no Congresso avançam contra direitos e conquistas dos trabalhadores e, em especial, do funcionalismo

    Por: Gisele Peres, da Redação

    No dia 28 de novembro, as categorias dos servidores públicos federais realizarão uma caravana a Brasília (DF), com manifestação na Esplanada dos Ministérios. O protesto foi definido pelo Fórum das Entidades Nacionais dos Servidores Públicos Federais (Fonasefe).

    O principal alvo dos servidores públicos é derrubar propostas e projetos em tramitação no Congresso Nacional, que representam prejuízos irreparáveis para todo funcionalismo e para a população em geral. Entre as bandeiras, estão a luta contra a Medida Provisória 805/2017, contra a Reforma da Previdência e pelas revogações da Emenda Constitucional 95, que congelou o orçamento da União para despesas primárias, além da Lei das Terceirizações.

    Os servidores públicos também pretendem denunciar a Lei da Mordaça, ou Lei da Escola Sem Partido, uma investida de caráter reacionário que visa dar fim à liberdade de expressão, à liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento e ao pluralismo de ideias nas escolas, amordaçando professores e estudantes.

    Unidade para ampliar a resistência
    Presidente do ANDES-SN, Eblin Farage reforça a importância da unidade entre as três esferas do funcionalismo público na construção da marcha. “O dia 28 faz parte do esforço do funcionalismo para ampliar a resistência contra as reformas que estão em curso, mobilizando não apenas os servidores públicos federais, mas também os estaduais e municipais. O modelo de cortes de direitos e sucateamento também está sendo seguido pelos estados e municípios”, afirmou.

    A articulação com outras categorias em luta, com o objetivo de fortalecer a data, além da participação dos movimentos sociais são fatores decisivos para ampliar o debate com a sociedade. “O ataque contra o funcionalismo é, sobretudo, um ataque contra os serviços públicos e contra a população. É a população que vai sofrer ainda mais com o sucateamento e diminuição desses serviços, que atingem a saúde, educação, assistência, previdência”, destacou Eblin.

    Coordenador geral da Fasubra, entidade em greve desde o dia 10 de novembro, Gibran Jordão reforça a importância do protesto para a construção do calendário de mobilização e luta do movimento paredista. “Estamos organizando caravanas de todo o país. Será uma data fundamental para tensionar o Congresso a não votar nenhuma medida que retire direitos dos trabalhadores”.

    Pacote de Maldades
    Os trabalhadores do funcionalismo, a partir das resoluções dos fóruns unificados, denunciam que o conjunto de medidas que aumentam a precarização das relações de trabalho não são mudanças pontuais ou isoladas, ainda que sejam apresentadas em “forma de fatias”. E, sim, que se tratam de um projeto que, se aplicado, significa uma regressão histórica para o Brasil e o aprofundamento da dependência política e econômica do nosso país. O ajuste fiscal e as privatizações são o ponto chave desse projeto.

    Na ordem do dia, por exemplo, está a aprovação da Medida Provisória 805/17, que impõe o aumento de 11% para 14% da alíquota previdenciária e deve atingir 711.446 servidores da União. Desse total, 472.597 são da ativa e 238.849 aposentados, segundo dados da Fonacates.

    A Medida Provisória 792/2017, por sua vez, trata da criação do Programa de Desligamento Voluntário (PDV) e o Projeto de Lei do Senado (PLS) 116/2017 estabelece regras para a demissão de servidor público estável por “insuficiência de desempenho”. Ambas consideradas inconstitucionais, por especialistas.

    A aprovação da Reforma Trabalhista, que entrou em vigor no último dia 11, se junta à aprovação do projeto que amplia a terceirização para as atividades fins. E, a última grande cartada, o objetivo maior do governo, é a aprovação da Reforma da Previdência, medida que atinge os setores público e privado, obrigando que os trabalhadores morram sem conseguir ter acesso à aposentadoria.

    Organizar a luta por uma nova Greve Geral
    A greve geral que ocorreu no dia 28 de abril deste ano foi um acontecimento histórico só possível mediante a compreensão do significado do governo Temer e suas reformas. A consciência se transformou em ação.

    A CSP-Conlutas lançou, nesta terça-feira (21), uma nota assinada pelos dirigentes plantonistas da Secretaria Executiva Nacional (SEN) apontando iniciativas da Central e conclamando a importância da mobilização. “Neste momento, não se apresenta nenhuma reação por parte da maioria das Centrais Sindicais, ninguém está fazendo nada! Mas é preciso e necessário que os trabalhadores deem uma resposta urgente. É urgente também a convocação da Greve Geral, como aprovado pelas Centrais e divulgada em nota do dia 10 de novembro. Como o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, já fala em marcar a votação para o dia 06/12, torna-se mais urgente ainda a convocação dessa Greve Geral”, diz trecho do documento.

    Para Gibran Jordão, a unidade entre as centrais, movimentos sociais e estudantil precisa continuar e avançar. Segundo o dirigente, é preciso intensificar o trabalho de base. “Precisamos levar informação correta para os trabalhadores e desconstruir as mentiras da grande imprensa e da direita, para não deixarmos o movimento perder força e para ganharmos mais adesão. Todos a Brasília dia 28 de novembro para marchar contra os ataques e construir uma nova Greve Geral”m defendeu.

    Confira a pauta aprovada pelo Fonasefe e o cartaz da convocação:

    – Em defesa dos serviços públicos de qualidade para a população;
    – Revogação e retirada de todas as MPs e PLs que atacam o funcionalismo. Ex: MPs nº805 e nº792/ 2017.  PL nº116/2017;
    – Não à reestruturação das carreiras do funcionalismo! Nenhum direito a menos;
    – Não à Reforma da Previdência;
    – Revogação da EC nº 95;
    – Não à Reforma do Ensino Médio;
    – Não à Reforma Trabalhista, pelo fim das Terceirizações. Contra as privatizações, não a entrega do patrimônio público;
    – Abaixo o ajuste fiscal contra os trabalhadores, que os bancos e as grandes fortunas paguem pela crise!

    Foto: Carol Burgos | Esquerda Online

     

     

     

  • Cúpula do PMDB no Rio tem prisão decretada: ‘é urgente convocação de novas eleições’, exige nota do MAIS e NOS

    Da Redação

    Diante da crise instaurada no Rio de Janeiro após ter sido decretada por unanimidade pelo Tribunal Regional Federal a prisão dos membros da cúpula do PMDB no Rio de Janeiro Jorge Picciani, Paulo Melo e Edson Albertassi, o Movimento Por uma Alternativa Socialista (MAIS) e a Nova Organização Socialista (NOS) lançaram uma nota exigindo a convocação imediata de novas eleições para o governo e para a Alerj. Confia a íntegra, abaixo:

    Eleições Já! Para o governo e para a ALERJ! Por um programa socialista para o Rio de Janeiro!

    Nesta quinta-feira, 16 de novembro, um ano após a prisão do ex-governador Sérgio Cabral, a população do Rio de Janeiro recebeu a notícia de que o presidente da Assembleia Legislativa (ALERJ), Jorge Picciani, e os deputados Paulo Melo e Edson Albertassi tiveram prisão decretada após condenação unânime em segunda instância. Neste momento, com a exceção do ainda governador Luiz Fernando Pezão, a Cúpula do PMDB do Estado do Rio está na prisão, após dez anos de governo.

    Nesta década, o PMDB governou de modo a acentuar as diferenças sociais no estado, fazendo do dinheiro público uma alavanca para ganhos privados, através de enormes isenções fiscais e contratos fraudulentos com concessionárias de transportes e empreiteiras, as principais beneficiadas dos gigantescos gastos dos mega-eventos. Enquanto isso, a população pobre teve como principal presença do Estado a política de segurança pública exterminista, que oprime e vitima em especial a juventude negra e favelada.

    Hoje, o PMDB busca solucionar a profunda crise que ajudou a gestar com profundos ataques ao funcionalismo e aos serviços públicos fundamentais, com cortes, parcelamentos e atrasos sistemáticos de salários, demissões de terceirizados, aumento na contribuição previdenciária, a privatização da CEDAE e a ameaça de fechamento da UERJ, UENF e UEZO. Serve como ponta de lança no programa de ajuste fiscal nos estados promovido pelo governo Temer.

    A crise no Rio de Janeiro, entretanto, só se aprofunda, com um governo já totalmente desprovido de legitimidade, em meio a escândalos de corrupção que se estendem aos três poderes. A única saída positiva para esta situação é unificar e intensificar a mobilização  dos que  lutam  pelo direito de todos/as a serviços públicos de qualidade e contra a privatização das empresas públicas, exigindo o fim imediato deste governo apodrecido e de sua base de sustentação na ALERJ com a convocação de eleições gerais. É necessário que os partidos e movimentos sociais se mobilizem para este fim, a começar pelo ato de hoje, em frente à ALERJ.

    Uma alternativa política deve se apresentar frontalmente contra o conjunto dos ataques que o PMDB do Rio hoje conduz e opor a este um programa de preservação e expansão de direitos e serviços públicos fundamentais. Somente a esquerda socialista, que se se manteve durante a última década na oposição intransigente aos governos Cabral, Paes e Pezão, tem condições e credibilidade de apresentar este programa, enquanto partidos como PT e PCdoB fizeram da população do Rio de Janeiro moeda de troca de alianças políticas. Em especial, cabe ao PSOL, por sua influência no estado, protagonizar este processo e tomar a tarefa de construir com os movimentos sociais combativos e demais organizações socialistas um programa socialista para o Rio de Janeiro.

    16/11/2017- Rio de Janeiro – Os deputados estaduais Jorge Picciani (na foto), Paulo Melo e Edson Albertassi, todos do PMDB, se entregam à Polícia Federal (PF) após terem prisão decretada Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

  • A operação de salvamento a William Waack ou o racismo como um mal menor no jornalismo brasileiro

    Por Romulo Mattos, do Rio de Janeiro, RJ.

    I

    Há cerca de um ano, William Waack estava em um estúdio da Rede Globo se preparando para entrevistar Paulo Sotero, diretor de uma instituição de estudos de geopolítica dos EUA, e ouviu uma buzina tocar. Insatisfeito com o ruído, o primeiro afirmou: “É coisa de preto”, e soltou uma gargalhada, enquanto o segundo sorriu. Em 8 de novembro de 2017, essa cena se tornou pública por meio de um vídeo que vazou na internet e viralizou. Diretores da empresa de comunicação afastaram o intelectual-jornalista[1] das funções de apresentador e editor do Jornal da Globo, ao passo que o programa Painel, da Globo News, por ele comandado, foi cancelado. Também divulgaram uma nota sobre o assunto no meio virtual, a qual foi lida por Renata Lo Prete naquele telejornal. O que aconteceu depois disso foi a montagem de uma operação de salvamento a Waack, envolvendo os principais veículos da grande imprensa.

    O foco central de análise deste texto recai sobre os argumentos defendidos em tom combatente, de autoria de Augusto Nunes, Reinaldo Azevedo, Rachel Sheherazade e um tal Filipe Vilicic. O primeiro e o último trabalham para a Veja, enquanto o segundo e a terceira escreveram no site da Rede TV! e no Instagram, respectivamente. Nunes é um veterano da grande imprensa que não deixa o fantasma do udenismo desaparecer, enquanto Vilicic pode ser definido como um jovem adulador de jornalistas consagrados que escreve sobre a indústria digital. Azevedo é reconhecido como um dos arautos da nova direita, talvez um guru, diferentemente de Sheherazade, uma verborrágica apresentadora de telejornal que flerta publicamente com a extrema-direita.

    Em comum, esses textos promovem a ideia de que a excelência profissional de Waack não pode ser eclipsada pelo vazamento do tal vídeo comprometedor – trata-se da tese do racismo como um mal menor, diante de uma carreira exemplar dentro do jornalismo brasileiro. Eles também afirmam que o intelectual-jornalista não é racista e, por fim, transformam o agente produtor do preconceito racial em vítima. Quanto à primeira prática discursiva, o artigo de Nunes é o melhor exemplo:

    “Repórter visceral, excepcionalmente talentoso, William tornou-se o melhor correspondente de guerra do mundo. (…) Os textos que assinou em jornais e revistas lhe garantem uma vaga perpétua no ranking dos grandes nomes da imprensa. Os livros que publicou reescreveram a História”.[2]

    A passagem mais delirante desse trecho é a afirmação de que Waack reescreveu a História com os seus estudos, que não constam da bibliografia de nenhum curso de graduação minimamente sério na área das ciências humanas no Brasil – além de não haver consenso sobre a sua suposta condição de referência nacional como correspondente de guerra. A respeito da segunda ordem de argumentos, o texto de Azevedo é mais objetivo: “E eu sei, como sabem todos os que o conhecem, pessoal e profissionalmente, que ele não é racista”.[3] Aqui o articulista recorre a uma prova de inocência um tanto abstrata diante de um vídeo contundente. Sobre a terceira forma de defesa ao intelectual-jornalista, a manifestação de Sheherazade é especialmente curiosa:

    “Caiu na armadilha pérfida dos coleguinhas invejosos, esquerdistas acéfalos e medíocres de todas as nuances. O hipocritamente correto venceu mais uma vez. Feriu de morte o brilhante Paulo Francis, atropelou Boris Casoy, trapaceou Reinaldo Azevedo e agora condenou à execração pública William Waack. E o jornalismo brasileiro fica a poucos passos da total acefalia”.[4]

    Nessa citação há certos temas que são uma verdadeira obsessão para a nova direita: a conspiração de agentes da esquerda e a vitória do politicamente correto. Não obstante, há a solidariedade a jornalistas conservadores que tiveram a reputação manchada pela prática do preconceito, seja ele racial (no caso de Francis e Waack), social (no de Casoy) ou de gênero (no de Azevedo) – sendo que esses dois últimos foram condenados pela Justiça. Em um procedimento tipicamente brasileiro, como o samba e a feijoada, o algoz é transformado em vítima. Vale lembrar a polêmica em torno de Patrícia Moreira, a torcedora do Grêmio filmada enquanto chamava o goleiro Aranha de “macaco”. A primeira reportagem sobre o assunto que aparece no Google aponta para o: “(…) impacto social, financeiro e psicológico na garota, que passou e ainda passa por tratamento psiquiátrico para tentar seguir a vida e superar uma fase depressiva”.[5]

    Se Sheherazade culpa os (descerebrados) partidários da esquerda por Waack se encontrar no limbo, Nunes e Azevedo encontram um jeito de atacar o PT até quando defendem um jornalista da acusação de racismo (!) – e esse partido político é outra preocupação permanente dos colunistas da grande imprensa. Nunes caprichou: “Nestes tempos escuros impostos aos trêfegos trópicos pelos governos de Lula, do poste que fabricou e do vice que o dono do PT escolheu, William tem sido um dos pouquíssimos jornalistas de televisão irretocavelmente altivos”.[6] A citada dupla masculina também deixa claro que está defendendo a um amigo. Nas exemplares palavras de Azevedo:

    “Não vou me sujeitar a uma ordem de coisas em que eu me veja proibido de dizer a verdade sobre um amigo quando o vejo ser esmagado pela mentira, pela covardia, pela inveja, pelo oportunismo, pela deslealdade, pela fraqueza de caráter, pela vigarice, pela ignorância”.[7]

    É possível notar que o tema da amizade se enlaça ao da vitimização de Waack. Conforme diz a letra de “Canção da América” (1980), escrita por Fernando Brant e cantada por Milton Nascimento: “Amigo é coisa pra se guardar/ Debaixo de sete chaves/ Dentro do coração (…)”. A falta de cuidado na escolha dos argumentos é evidente, pois Nunes e Azevedo ignoram o critério da imparcialidade no jornalismo.

    Exaltados, os quatro profissionais da grande imprensa mencionados neste texto atacam e ofendem moralmente os brasileiros que, no meio virtual, criticam a prática do racismo por um apresentador/editor de telejornal da maior empresa de comunicação do país. Os milhares de internautas que se indignaram com a atitude de Waack são chamados de “exército de abjetos” por Nunes, de “covardes” por Azevedo, de “fundamentalistas da moral seletiva” por Sheherazade, e “imbecis” por Velicic. Essa é a total inversão de valores e sentidos no que diz respeito à promoção de um jornalismo ético e cidadão, comprometido com o fortalecimento dos direitos da coletividade e com a dignidade humana. Certamente, a questão da igualdade racial não está na pauta desses jornalistas, se é que podem ser assim chamados, pois ignoram os princípios fundamentais do ofício.

    Tendo em vista a confiabilidade do campo jornalístico, os profissionais aqui citados tiveram a chance de pedir desculpas pelo comportamento racista de Waack, considerado o mais importante agente da imprensa nacional por Azevedo. Ou de deixar claro que tal conduta não combina com os preceitos mais básicos do jornalismo. Pelo contrário, eles compuseram uma rede de solidariedade para salvar o apresentador/editor do Jornal do Globo. Assim, acreditam que o preconceito racial na grande mídia seja um tema irrelevante se comparado ao suposto brilho da carreira de um de seus representantes. Aqui a suposição se explica, sobretudo, pela ideia de que o praticante de um jornalismo francamente parcial não deve ser considerado tão brilhante. A não ser que os manuais de redação e estilo publicados pelos principais jornais brasileiros, com o bê-á-bá da profissão, sejam peças de ficção, assim como a própria ética do jornalismo liberal, segundo a qual nenhuma conduta que implique a supressão da verdade é correta.[8]

    Talvez não seja coincidência que o diretor-executivo de jornalismo da Rede Globo, Ali Kamel, seja autor de um livro intitulado Não Somos Racistas, a essa altura involuntariamente negado pelo seu subordinado na Globo. Ou que o tal vídeo com cenas explícitas de racismo tenha sido recusado pelos chefes de redação do país, antes de vazar na internet. A resposta ouvida pelos militantes do movimento negro foi a de que esse material só seria interessante se envolvesse o outro William, o Bonner. Ou seja, aqueles quadros de comando estariam mais interessados no sensacionalismo ou nas notícias sobre celebridades do que no debate sobre o racismo no país – se essa não tivesse sido apenas uma desculpa para acobertar um de seus filhos diletos.[9]

    II

    A Folha de São Paulo chegou a publicar dois textos que constituem uma envergonhada tentativa de livrar o intelectual-jornalista da berlinda, tendo em vista a preocupação de não comprometer a credibilidade do jornal: um deles não assinado[10], e o outro de autoria de Tony Goes.[11] Ambos insinuam a tese do racismo como um mal menor diante de uma excelentíssima trajetória no jornalismo, sendo que o primeiro é um detalhado relato da carreira de Waack (o que reforça tal teoria, sem parecer um texto engajado). Considerando a delicada situação em que se encontra o intelectual-jornalista, mais parece o seu obituário. Porém, apenas os escritos de Goes reproduzem o expediente de transformar o algoz em vítima. Esse autor sustenta um malicioso argumento que não pode passar despercebido: “Suspensão de William Waack comprova imediatismo da internet”.[12] Diferentemente, o que o revés do apresentador/editor confirma são os resultados acumulados pela luta histórica dos negros no espaço público.

    É revelador que o vazamento do tal vídeo tenha sido obra de dois negros que trabalhavam como operadores de VT na Globo.[13] Apressadas análises associaram a divulgação das imagens ao suposto “ódio” existente em torno da vaidosa figura de Waack nos meios jornalísticos, na melhor tradição da teoria da conspiração. Jamais passou pela cabeça de seus convictos autores que pudesse se tratar de uma ação que expressasse a consciência política de negros.[14] Mas essa também vem sendo manifestada por meio da hashtag “#ÉCoisadePreto”, que transformou o comentário racista do intelectual-jornalista em memória de conquistas negras.[15]

    Outra afirmação de Goes deve ser contestada, a de que a opção da Rede Globo por afastar Waack teria sido: “(…) uma atitude drástica”.[16] No Brasil, o recurso ao afastamento tem cheiro de impunidade, pois permite a reintegração profissional de protagonistas de escândalos logo após a poeira ter baixado – como é possível perceber na trajetória de executivos, políticos, dirigentes esportivos e até artistas com a reputação manchada por investigações ou vazamentos de vídeos e áudios comprometedores. A moderada decisão da empresa de comunicação não é compatível com a primeira linha da referida nota que publicou no site G1, lida no Jornal da Globo por Renata Lo Prete: “A Globo é visceralmente contra o racismo em todas as suas formas e manifestações”.[17] A perpetração de um crime – como a discriminação racista deve ser entendida – dentro de um estúdio de TV é motivo de sobra para a configuração da figura da justa causa.

    A atuação de Waack, elitista e avessa à participação política popular, reforça o ambiente político conservador e profundamente excludente do país. O agente do telejornalismo que faz a propaganda das contrarreformas mais danosas aos trabalhadores, aceleradas pelo golpe de Estado do qual foi um militante, é o mesmo que expressa o racismo em seu local de trabalho – de onde saem as notícias para todo o Brasil.  E isso não deve ser coincidência. Vale lembrar que Waack também foi denunciado como informante da CIA pelo WickLeaks, muito embora ele seja considerado o maior exemplo de “independência” jornalística para Nunes… Em resumo, a sua performance contribui para que a televisão se mantenha como um instrumento de opressão simbólica, e não um extraordinário instrumento de democracia direta que idealmente poderia ser.[18]

    A correlação de forças não é boa para a esquerda, que, porém, ainda tem os seus momentos na refrega. A queda de Waack é um deles e, como tal, merece ser comemorada por seus partidários. Que esse episódio contribua para o fortalecimento da luta contra o racismo no Brasil, e isso é o mais importante.


    [1] Ao utilizar essa expressão, Bourdieu se referiu aos produtores culturais situados em um lugar incerto entre o campo jornalístico e os campos especializados, “que se servem de seu duplo vínculo para esquivar as exigências específicas dos dois universos e para introduzir em cada um deles poderes mais ou menos bem adquiridos no outro”. BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. Seguido de A influência do jornalismo e Os Jogos Olímpicos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997.

    [2] NUNES, Augusto. William Waack vira alvo do exército dos abjetos. Veja, São Paulo, 9 de nov. 2017. <<http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/william-waack-vira-alvo-do-exercito-dos-abjetos-contra/>>. Acessado em: 10/11/2017, às 10h30m.

    [3] AZEVEDO, Reinaldo. William Waack, o jornalista mais importante do Brasil, não é racista! Os covardes se assanham! Blog Reinaldo Azevedo – Rede TV!, São Paulo, 9 de nov. 2017. <<http://www3.redetv.uol.com.br/blog/reinaldo/post/william-waack-o-jornalista-mais-importante-do-pais-nao-e-racista-os-covardes-se-assanham/>>Acessado em: 10/11/2017, às 10h50m.

    [4] RACHEL Sheherazade defende William Waack: “O hipocritamente correto venceu”. IG, 10 de nov. 2017.<<http://gente.ig.com.br/fofocas-famosos/2017-11-10/rachel-sheherazade.html>>. Acessado em: 10/11/2017, às 10h52m.

    [5] MOURA, Eduardo. Pivô do caso Aranha volta a trabalhar, mas ainda sofre ameaça 1 ano depois. Globo Esporte.com, Rio de Janeiro, 27/08/2015. <<http://globoesporte.globo.com/rs/noticia/2015/08/pivo-do-caso-aranha-volta-trabalhar-mas-ainda-sofre-ameaca-1-ano-depois.html>>. Acessado em: 10/11/2017, às 13h50m.

    [6] NUNES, Augusto. op. cit.

    [7] AZEVEDO, Reinaldo. op. cit.

    [8] ALMINO, João. A verdade e a informação. São Paulo: Brasiliense, 1986.

    [9] Guimarães, João. op. cit.

    [10] AFASTADO da Globo por comentário racista, William Waack já foi sequestrado por forças de Saddam Hussein. Folha de São Paulo, São Paulo, 9 de nov. 2017. <<http://f5.folha.uol.com.br/televisao/2017/11/afastado-da-globo-por-comentario-racista-william-waack-foi-sequestrado-por-forcas-de-saddam-hussein.shtml>>. Acessado em: 10/11/2007, às 21h12m.

    [11] GOES, Tony. Suspensão de William Waack comprova imediatismo da internet. Folha de São Paulo, São Paulo, 8/11/2017. <<http://f5.folha.uol.com.br/colunistas/tonygoes/2017/11/suspensao-de-william-waack-comprova-imediatismo-da-internet.shtml>>. Acessado em: 10/11/2017, às 14h00m.

    [12] GOES, Tony. “Suspensão de William Waack comprova imediatismo da internet”. Folha de São Paulo, São Paulo, 8/11/2017. <<http://f5.folha.uol.com.br/colunistas/tonygoes/2017/11/suspensao-de-william-waack-comprova-imediatismo-da-internet.shtml>>. Acessado em: 10/11/2017, às 14h00m. Idem para as próximas citações.

    [13] Guimarães, João. Queríamos discutir o racismo, afirmam responsáveis por vazamento de vídeo de Waack. Jovem Pam, São Paulo, 9 de nov. 2017. <<http://jovempan.uol.com.br/entretenimento/tv-e-cinema/queriamos-discutir-o-racismo-afirmam-responsaveis-por-vazamento-de-video-de-waack.html>>. Acessado em: 10/11/2007, às 15h40m.

    [14] ROVAI, Renato. William Waack se despede do jornalismo da pior forma possível. Revista Forum, 9 de nov. 2017. <<https://www.revistaforum.com.br/blogdorovai/2017/11/08/william-waack-se-despede-do-jornalismo-da-pior-forma-possivel/>>. Acessado em: 10/11/2007, às 15h

    [15] KASTNER, Tássia. Hashtag #ÉCoisadePreto transforma comentário racista em memória de conquistas negras. Folha de São Paulo, São Paulo, 9 de nov. 2017. <<http://hashtag.blogfolha.uol.com.br/2017/11/09/hashtag-ecoisadepreto-transforma-comentario-racista-em-memoria-de-conquistas-negras/>>. Acessado em: 10/11/2007, às 16h20m.

    [16] GOES, Tony. op. cit.

    [17] REDE GLOBO. William Waack é afastado do Jornal da Globo. G1, Rio de Janeiro, 8/11/2017. <<https://g1.globo.com/economia/midia-e-marketing/noticia/william-waack-e-suspenso-do-jornal-da-globo.ghtml>>. Acessado em: 10/11/2017, às 10h40m. Idem para as próximas citações.

    [18] BOURDIEU, Pierre. op. cit. p. 13.

     

                

  • CATALUNHA | 21 de dezembro: as eleições

    Por: Daniel Raventos e Gustavo Buster, do portal Sin Permiso 
    Tradução: Suely Corvacho

    Mariano Rajoy e seu governo não podiam imaginar o que lhes sucederia. quando aprovaram as medidas de aplicação do art. 155 em 27 de outubro, interromperam o Governo da Generalitat, dissolveram o Parlamento e pediram eleições regionais em 21 de dezembro. Uma semana depois, o que parecia uma jogada de mestre que culminaria em uma estratégia calculada, revelou-se um erro que pode prejudicar irremediavelmente a carreira política de Rajoy e precipitar a convocação de eleições gerais no Reino da Espanha na primavera de 2018.

    Entre outras coisas, porque a situação política catalã faz parte de uma crise estrutural do regime de 78, cujas costuras começaram a se esgarçar em consequência da Grande Recessão. E se a atenção da mídia e as exigências da propaganda tenham explorado somente os eventos insuspeitos ou, pelo menos cinematográficos, que se seguiram à proclamação da República catalã, outros não menos impressionantes se desenvolveram na penumbra midiática: as conclusões do caso Gürtel e a detenção do delegado Villarejo, expondo uma vez mais a corrupção sistêmica e os esgotos do regime; as exigências da Comissão Europeia de um orçamento para 2018 que atenda aos seus requisitos de ajuste; os problemas de financiamento regional que revelam – entre outrosos debates orçamentários de Madri e Valência, a bancarrota que queria parar a Conferência dos Presidentes de janeiro de 2017 e que acabou no “cupom” dos orçamentos gerais de Montoro poucos meses depois.

    No entanto, a conjuntura se definia em uma só direção: as eleições autônomas convocadas de maneira extraordinária através do artigo 155. O argumento tão usado hoje em dia de que a “legalidade é democracia” talvez possa convencer os crentes da legitimidade de tal processo eleitoral, mesmo diante da intervenção na Generalitat. Mas o que Rajoy não esperava é que todas as forças políticas presentes aceitassem o desafio de participar e ganhá-las, questionando de uma só vez a própria legitimidade do governo Rajoy.

    Incapaz de dar prosseguimento à Lei de Transitoriedade da proclamada República Catalã, em primeiro lugar, pela intervenção do Tribunal Constitucional, depois pela aplicação do art. 155 e, por último, por sua demissão, Puigdemont optou por participar das eleições de 21 de dezembro, como um gesto simbólico de resistência e manutenção da legitimidade decorrente do referendo em 1 de outubro, assim como fizera ao se mudar com uma parte do Governo cassado para Bruxelas. Enquanto isso, a maior parte do Governo, oito conselheiros, entre os quais o vice-presidente Junqueras, acabavam na prisão, com cenas vexatórias incluídas, por decisão da juíza Lamela do Tribunal Nacional, cujas frágeis bases legais são mais do que questionáveis.

    Após o mandado de prisão europeu, assinado pela mesma juiza Lamela, Puigdemont e os conselheiros que o acompanham se entregaram à polícia belga. Será muito difícil para qualquer juiz belga aceitar uma extradição pelas razões políticas alegadas – tendo em conta que os delitos de incitação e rebelião não existem no código penal belga – mas o procedimento não terminará antes de 21 de dezembro. Enquanto isso, Puigdemont já definiu os eixos da campanha eleitoral de 21-D, apresentou sua candidatura e se dispõe a utilizar o processo de extradição como uma plataforma eleitoral internacional. Um “ato de covardia”, qualificou este que é um exemplo de resistência clandestina protegida sob o regime de Franco e um duvidoso defensor da legalidade nos “anos de chumbo”, Felipe González; por outro lado, a imprensa do regime de 78 converteu a viagem de Puigdemont a Bruxelas em uma comédia do tipo pastelão e justificou a detenção dos demais membros do Governo. Mas, durante todo o processo, Rajoy ficou em silêncio, porque está mais ciente de que, mais uma vez, perdeu a iniciativa política para este coro tragicômico da segunda restauração dos Bourbons.

    Até 7 de novembro, na próxima terça-feira, onde quer que existam, as coalizões das eleições plebiscitárias não serão conhecidas, por conta da política do governo Rajoy. Desde o início, o “bloco constitucionalista” que deve apoiar a candidata à presidência do cada vez mais direitista dos Ciudadanos, Arrimadas, não concorrerá unido. Na verdade, o PSC não quer nem ouvir falar disto e tenta decobrir uma forma de conciliar o apoio à aplicação do art. 155 e condenar (sic) suas conseqüências.

    A Catalunha em Comú, por sua vez, decidiu manter a defesa de um referendo legal e acordado e transformar a campanha em uma denúncia da repressão e intervenção na Generalitat e nas instituições catalãs, defendendo a ideia de um “bloco soberano e catalão” como denominador comum mínimo com o “bloco independentista”.

    O “bloco independentista” é o que sofre as maiores tensões internas, porque o ERC terá que escolher entre impor sua hegemonia à custa de Juntos pelo Sim, ou aceitar cedê-la a Puigdemont e, por meio disso, ao PDdCAT. A CUP é evidente que, apesar da sua indecisão, apoiará qualquer fórmula que o ERC e o PDdCAT adotem em nome da libertação dos presos e da recondução de Puigdemont à presidência.

     

     

     

     

     

     

     

    Neste cenário eleitoral, no qual o efeito mais importante da aplicação do art. 155 tem sido fazer a campanha eleitoral para o “bloco independentista”, as pesquisas indicam uma situação muito semelhante entre os três blocos, ainda que com reforço dentro deles do ERC e dos Ciudadanos, embora o primeiro superaria o segundo em mais de 6 pontos. Ou seja, a única alternativa real para um novo governo independentista seria um Governo soberano de esquerda. Rajoy sabe disso. Como ele pode aceitar ou justificar qualquer uma dessas duas alternativas nas eleições que ele mesmo convocou e organizou depois da aplicação do artigo 155?

    Comentaristas como Enric Juliana, mas também Luis María Ansón, Fernando Garea, José Antonio Zarzalejos ou Juan Luis Cebrián, começam a apontar esse perigos, que prejudicaria não só a carreira política de Rajoy, como também o próprio regime de 78. Rajoy não terá outra opção política a não ser convocar eleições gerais na primavera de 2018 e tentar seu próprio “bloco constitucionalista” para legitimar sua atuação com um “governo de salvação nacional”, isso se não se abrir antes uma crise de sucessão no PP.

    Isso reforça a tese defendida por Sin Permiso nesses anos: as causas da crise estrutural do regime de 78 tornam a situação irreformável. Mais cedo ou mais tarde – quanto mais cedo melhor, haja vista o custo da crise – é necessário um processo constituinte que encontre democraticamente uma solução alternativa. Temos sido testemunhas das dificuldades, dos erros e das hesitações do processo soberano catalão, mas também estamos testemunhando a incapacidade do governo de Rajoy em dar uma solução democrática à crise e sua tentativa de converter o regime do 78 no regime do 155. Para impor não só um governo constitucionalista minoritário e antidemocrático na Generalitat, mas também para encobrir sua corrupção e aprofundar o ajuste neoliberal que a União Europeia exige.

    Foram convocadas muitas mobilizações para os próximos dias na Catalunha, desde uma grande manifestação em 11 de novembro a uma concentração em Bruxelas no início de dezembro, coincidindo com o “dia da Constituição espanhola” ou uma data próxima. Até então, diferentes atos, como pendurar cartazes, já realizados no domingo 5, e vários atos de luta sindical e “greve nacional” na quarta-feira, 8 de novembro. Também voltaram as caçaroladas às 22 horas todos os dias pela liberdade dos presos políticos. Sem mencionar os inúmeros atos descentralizados de protesto em eventos esportivos como o que aconteceu no campo do FC Barcelona durante a partida no sábado, 4 de novembro. Ou, enquanto escrevíamos estas linhas, a interrupção da N-II por 2.000 pessoas passando por Mataró em protesto contra uma agressão fascista alguns dias antes. Os Comitês de Defesa da República (CDR) estão desempenhando um papel muito importante de resistência e organização por bairros e cidades. Em Manlleu, uma representação de 172 CDRs reuniu-se em 4 de novembro. No comunicado que foi publicado podemos ler: “Com a consolidação da rede de vizinhos e vizinhas que tornaram possível o referendo de 1 de outubro, estamos preparados e preparadas para defender a República de forma pacífica, mas contundente. Por tudo isso, chamamos a população para participar de forma ativa nos Comitês de Defesa da República de seu município.” Há inclusive CDR em cidades estrangeiras e muito distantes, como na Cidade do México.

    É uma iniciativa de resistência e coordenação de atos de luta muito necessários e devem animar as esquerdas espanholas a conceber uma alternativa unitária e uma mobilização em solidariedade contra a situação de repressão das liberdades democráticas da Catalunha. Temos dito mais de uma vez, e é algo que está se tornando cada vez mais consciente para muitos setores da esquerda espanhola, que veem além do oportunismo eleitoral imediato, o seguinte: as liberdades que hoje são atacadas na Catalunha, serão, em breve – se não imediatamente -, atacadas no Reino como um todo. A solidariedade com a Catalunha é condição necessária para evitar o transbordamento da repressão das liberdades democráticas para todo o Reino da Espanha.

    FONTE: www.sinpermiso.info, 5 novembro 2017

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  • Conflito na Catalunha: datas, fatos e um pouco de história

     

    Este artigo foi publicado originalmente na página web do Novo MAS (Argentina), em 05/10/2017. Traduzido pela editoria Mundo do Esquerda online.

    Por Cláudio Testa, Buenos Aires, argentina

    As raízes da crise do Estado espanhol, com centro na Catalunha, são de longa data. Para entender isso, recordaremos algumas datas e fatos relacionados com as tendências centrífugas que lá atuam com mais força do que em outros Estados europeus.

    Atualmente, os ventos de descontentamento e crises político-sociais sopram em toda a Europa e a UE…

    Não por acaso o Estado espanhol é um dos territórios onde esses fenômenos adquirem um maior significado. Ali, eles tomaram corpo como tendências centrífugas que na Catalunha são expressos na luta pelo seu direito de se separar e se tornar uma “Estado independente sob a forma de República”.

    Não se trata de um capricho ou de uma operação demagógico-eleitoral de momento como alguns querem apresentar. Reflete, pelo contrário, males “genéticos” do chamado “Estado espanhol”.

    No seu caso, estes problemas estão até no nome. Não há nenhuma unanimidade nem em como chamar esse Estado!

    Oficialmente, se fala de “Espanha” (ou, pior, de “Reino de Espanha”). Entre outras coisas, isso significa tomar como certo que é um estado-nação, como por exemplo a França…

    Outros, mais realistas, falamos de “Estado espanhol“. Ou seja, uma situação cuja legitimidade de origem é questionável… e que agora, com a Catalunha, retorna para ser cada vez mais desafiado… E não só pela tentativa de independência catalã … .

    Origem imediata do atual “Estado espanhol” é a simbiose de uma das mais atrozes ditaduras do século XX – a do caudilho fascista Francisco Franco – com o ramo da antiga (e detestável) monarquia dos Bourbons. O terceiro componente desta simbiose foi a infame capitulação dos principais partidos da oposição a esta ditadura. Partidos supostamente “democráticos”, mas que terminaram pactando com ela. A saber: os “socialistas” do PSOE, os “comunistas” do PCE, e vários partidos”nacionalistas” de Catalunya, Euskadi, Valência, etc.

    Eles eram essenciais para dar um verniz “democrático” e de “renovação” para o que era de fato uma operação continuista, enganando as massas que não iriam tolerar uma continuidade direta. Para isso, foi aplicada a fórmula clássica: “mudar tudo para que tudo permaneça o mesmo”.

    Essa substituição ou rearranjo, já acordado anteriormente, materializou-se logo após a morte do ditador, em 20 de novembro de 1975. O Bourbon Juan Carlos I, que tinha sido escolhido em vida pelo mesmo Franco para sucedê-lo, foi proclamado rei, dois dias depois.

    Em seguida, abriu-se um período conhecido como a “transição para a democracia”… que foi dos mais antidemocráticos. Em 1978, foram foram decretadas das alturas alterações constitucionais … sem se preocupar em convocar uma Assembleia  Constituinte verdadeiramente democrática… Não é que a coisa desandou … e que a multidao, por exemplo, tenha decidido livrar-se dos malditos Bourbons e restaurar a República.

    Assim nasceu o chamado “regime de 78”, que garantiu a continuidade no poder dos setores da burguesia que se impuseram com a guerra civil de 1936-39, apesar de dar um lugar à mesa para outros atores políticos dispostos a colaborar.

    Mas o “mundo feliz” do posfranquismo deixou muitas coisas de fundo para resolver. Na fase inicial, a colaboração de Madrid com partidos nacionalistas tradicionais da Catalunha e do País Basco, somada à traição dos partidos operários como o PSOE e o PCE e a burocratização dos sindicatos como as CCOO (Comisiones Obreras) e a UGT (União Geral dos trabalhadores) parecia ter solucionado os conflitos e contradições históricas do Estado espanhol.

    No entanto, com o passar do tempo, isso foi se revelando como uma ilusão. Os velhos demônios que se acreditava terem sido exorcizados saíram do armário e começaram  a aprontas as suas.

    Infelizmente, o demônio de um dos movimentos operários mais combativos da história ainda não voltou a  reencarnar-se. Esperamos que volte à cena! Mas o demônio das nacionalidades já está fazendo das suas ameaçando com a independência catalã!

    Isto tem antecedentes seculares. É por isso que, como dissemos no início, comentaremos algumas datas e fatos em relação a Catalunha e o Estado espanhol.

     11 de setembro, “Diada Nacional da Catalunya”

    Ou, em espanhol, “Dia da Catalunha”. Quase todos os Estados ou nações têm seu “dia”, comemorando algum grande triunfo nacional. Nos EUA e países da América Latina, costuma ser a data da Declaração da Independência. Na França o 14 de julho, quando se comemora a “Queda da Bastilha”, o dia do triunfo da Revolução de 1789.

    A Catalunha é uma exceção. A “Diada Nacional de Catalunya” não “celebra” nada. Comemora-se a derrota terrível sofrida em 11 de setembro de 1714. Nessa data, Barcelona, após um longo e sangrento cerco, foi tomada pelas tropas franco-castelhanas do novo rei Filipe V, imposto pelos Bourbons (família que também governava a França com Luís XIV).

    Nesse dia, na Catalunha, multidões saem às ruas com a “estrelada”, a bandeira de quatro estrelas vermelhas sobre fundo amarelo… É uma afirmação catalanista contra o domínio de Madrid.

    É que o triunfo da nova dinastia Bourbon em 1714 significaria para a Catalunha a perda de instituições próprias de governo semi-independentes, e de liberdades civis. De modo que essas “liberdades” e “autonomia” eram essencialmente válidas para a nobreza e a burguesia nascente, mas isso era também projetado para baixo …

    Outra consequência da derrota de 1714 foi a liquidação por decreto de Filipe V da “Generalitat de Catalunya”, que tinha sido estabelecida no século XIII. Sob esse nome, com muitas mudanças interrupções, ao longo dos séculos sucederam-se diferentes instituições de autogoverno catalão.

    O fato curioso (e significativo) que é hoje Filipe VI (atual rei de Bourbon e um descendente de Felipe V do século XVIII) lança na TV de Madrid relâmpagos e faíscas contra os malditos catalães que novamente enfrentam a monarquia familiar.

    Com efeito, esse ramo dos Bourbons seguiu reinando, embora vários intermitentemente, no estado de espanhol, incluída a breve Primeira República (1873-1874). Ao mesmo tempo, o século XIX foi de grande decadência para a Espanha, que tinha perdido quase todas as suas colônias, especialmente na América Latina.

    Essa decadência não foi contrabalançada por um curso revolucionário. Concretamente, não conseguiram triunfar processos como a revolução francesa de 1789, que varressem não só a podridão da monarquia dos Bourbons, mas também suas antigas classes dominantes.

    A Revolução francesa conseguiu forjar a “República una e indivisível”. Isso na Espanha não foi alcançado. Tampouco processos de unificação nacional como na Itália ou na Alemanha. A primeira República, depois de agonizar dois anos, desembocou em outra restauração dos Bourbons.

    Mas, contraditoriamente – em meio a um atraso generalizado que deu à luz a expressão pejorativa “a África começa nos Pirineus” – no estado espanhol começaram a surgir focos de industrialização desenvolvimento capitalista no País Basco e, acima de tudo, na Catalunha.

    No entanto, isso não resolveu as coisas, senão que agudizou ainda mais as contradições. Enquanto o centro do poder político estava na atrasada Madrid, as duas regiões de próspero desenvolvimento eram o País Basco e Catalunha, com nacionalidades diferentes à de Castela e que tinham idiomas próprios, mas que que não governavam a Espanha.

    Este desenvolvimento (e esse contraste) foi especialmente notável na Catalunha. Na “Belle Époque”, entre 1871 e a Primeira Guerra Mundial (1914), enquanto em grande parte da Espanha reinava o atraso, a Catalunha tinha se industrializado e Barcelona era uma cidade que rivalizava com Paris.

    Essa industrialização também faria da Catalunha o berço de um dos movimentos operários mais combativos da Europa, ainda que conduzido não por marxistas, mas pelo anarquismo. E suas lutas não seria limitariam aos conflitos sindicais.

    Mas não só um forte movimento operário e suas correntes políticas anarquistas e socialistas desenvolveram-se no calor da industrialização catalão. Já no início na década de 1880, nasceu também o “catalanismo político”. Desde então, foram surgindo uma infinidade de correntes nacionalistas com os mais diversos programas. Eles iam desde a luta por uma certa autonomia em relação a Madrid, até a luta pela independência do Estado espanhol.

    nacionalismo catalão tomaria corpo em parte de sua burguesia e, sobretudo, das classes médias. É que ontem e hoje, os grandes burgueses são mais bem “espanholistas”. Um bom exemplo foi o homem mais rico da Catalunha em seu tempo, o banqueiro Juan March. Longe de ser “catalanista”, foi o principal colaborador de “cruzada” fascista de Franco. Hoje as coisas não são muito diferentes …

    A Generalitat da Catalunha e a guerra civil espanhola

    Com a queda da monarquia dos Bourbons em 1931 e a instauração da Segunda República, não só começa um período revolucionário no Estado espanhol, mas também de ascenso de movimentos nacionalistas na Catalunha (e no País Basco). Na Catalunha, isto implicou a ressurreição da Generalitat e a posterior concessão de um Estatuto de Autonomia.

    A tentativa de golpe de estado fascista de 17 e 18 de julho de 1936, liderada pelo Gral. Franco fracassa, mas, ao mesmo tempo, começa a Guerra Civil que duraria até 1 de abril de 1939.

    Nessa derrota inicial dos fascistas, as massas populares na Catalunha, principalmente os operários de Barcelona, organizados em milícias, desempenharam um papel de primeira ordem[1].

    Mas a Catalunha, ao mesmo tempo que um bastião da resistência, seria o cenário mais nítido das contradições do campo republicano, que contribuíram para o triunfo final dos fascistas.

    O partido comunista acatava as diretivas de Stalin de enfrentar o fascismo promovendo a “frente popular” com os “burgueses democráticos”. Então, não poderiam irritá-los ou assustá-los com medidas radicais que favorecessem os interesses dos operários e camponeses. Mas isso era “ficção política”: a burguesia e os privilegiados em geral, já haviam se mudado em massa para o campo de Franco na guerra civil.

    Simultaneamente, essa política significava que não foi posto em pé um poder operário e popular, como o que tinha conseguido a vitória nas guerras da revolução russa, nem se satisfaziam às reivindicações dos trabalhadores da cidade e do campo. Ao mesmo tempo, os stalinistas impuseram um regime cada vez mais repressivo contra as bases operárias e populares.

    O crescente descontentamento levou, em maio de 1937, a que um setor inteiro de trabalhadores, principalmente os anarquistas, organizados em milícias, a sublevar-se tomando pontos importantes de Barcelona. Mas o anarquismo, apesar de majoritário nas massas trabalhadoras, não tinha por definição uma política para a conquista do poder. Além disso, estava dividido. Não foi difícil derrotar tal protesto.

    Isso deu a oportunidade para o stalinismo desencadear uma brutal repressão. Foram massacrados, em primeiro lugar, os dirigentes e ativistas do POUM (Partido dos trabalhadores de Unificação de marxista), qualificado de “trotskista”.

    Ao mesmo tempo, na direção da Generalitat, se foram impondo personagens cada vez mais à direita, tanto sociais-democratas como da escassa burguesia “republicana”. Uma de suas primeiras medidas depois de maio de 1937 foi dissolver as milícias operárias que haviam derrotado o golpe de estado fascista de julho de 1936 e contiveram o avanço das tropas de Franco.

    profunda desmoralização que este curso à direita produziu entre massas operárias e populares, abriu caminho à derrota na guerra civil.

    Décadas mais tarde, os partidos que promoveram ou avalizaram essa infâmia – o PCE e PSOE – estariam na primeira linha da colaboração com os Bourbons para instaurar a monarquia sucessora de Franco.

    Embora existam ainda grandes diferenças com aquele tempo de revoluções (e contrarrevoluções), os ensinamentos da guerra civil e especialmente da heroica luta na Catalunha, devem ser patrimônio de todos os lutadores pelo socialismo… E muito levado em consideração para o que se vem por aí …

     

    [1] Sobre tudo isso, recomendamos a leitura de George Orwell. “Homenaje a Cataluña e otros escritos.” Tusquets, Barcelona, 2015.

     

  • 10 de novembro: saiba onde ocorrerão protestos em todo o país

    Da Redação

    Nesta sexta-feira, 10 de novembro, ocorrerá um dia nacional de paralisação com protestos em várias cidades brasileiras. A data inicialmente convocada pelo Brasil Metalúrgico, que reúne entidades representantes dos metalúrgicos de todo o Brasil, foi incorporada por outras categorias, centrais sindicais e movimentos sociais. A data será marcada por manifestações contra a Reforma Trabalhista, que será colocada em vigor no dia 11 de novembro e é um dos maiores ataques do governo de Michel Temer (PMDB) aos trabalhadores.

    Em diversos estados ocorrerão manifestações de rua, além de mobilizações nos locais de trabalho e estudo. Confira, abaixo, onde ocorrerão as manifestações unificadas.

    Acre
    Rio Branco
    08h – Ato com concentração na Praça da Revolução

    Alagoas
    Maceio
    08h – Concentração na praça Sinimbu

    Amazonas
    Manaus
    16h – Manifestação na Praça Heliodoro Balbi (Praça da Polícia)

    Amapá
    Macapá
    10h – Concentração na Praça da Bandeira

    Bahia
    Salvador
    11h – Caminhada do Campo Grande até a Praçã Municipal
    13h – Manifestação na porta da Previdência Social no Comércio

    Brasília
    09h – Ato Fora Temer e suas medidas –  Espaço do Servidor – Esplanada dos Ministérios

    Ceará
    Fortaleza
    Marcha da Esperança/ Dia Nacional de Luta contra a Reforma Trabalhista
    8h – Praça Clóvis Beviláqua (Praça da Bandeira – Centro)

    Espírito Santo
    Vitória
    12h- Concentração na Praça 8 e caminhada até a Justiça do Trabalho
    17h- Ato na UFES (Universidade Federal do ES)

    Goiás
    Goiânia
    16h- Ato unificado na Praça do Bandeirante

    Minas Gerais
    Belo Horizonte
    09h – Ato na Praça da Estação

    Mato Grosso do Sul
    Campo Grande
    16h – Ato na Praça Ari Coelho com enterro da CLT na superintendência do trabalho

    Mato Grosso
    Cuiabá
    15h – Praça Alencastro

    Pará
    Belém
    08h30 – Concentração no TRT na Praça Brasil – Caminhada até o Ver-O-Peso

    Paraná
    Curitiba
    11h- Ato na Boca Maldita

    Paraíba
    João Pessoa
    14h – Lyceu Paraibano

    Pernambuco
    Recife
    09h – Assembleia da classe trabalhadora na Praça da Democracia (Derby)

    Piauí
    Teresina
    08h – Ato Unificado – Praça Rio Branco – Com Caminhada pelas Ruas do Centro

    Rio Grande do Norte
    Natal
    14h – Ato  com concentração na Praça Gentil Ferreira no Bairro Alecrim. Depois será feita uma caminhada pelas ruas principais até a Cidade Alta

    Roraima
    Boa Vista
    09h- Concentração na Praça do Centro Cívico – caminhada pelas ruas do Centro

    Rio Grande do Sul
    Porto Alegre
    10h as 14h – Plenária de Mobilização –  Auditório da Igreja da Pompeia (R. Barros Cassal, 220, Floresta POA)
    16h – Abraço à Justiça do Trabalho – Av. Praia de Belas
    18h – Ato das Centrais – Esquina Democrática

    Rio de Janeiro
    Rio de Janeiro
    16h – Concentração na Candelária – Caminha para a Cinelândia

    Santa Catarina
    Florianópolis
    16h- Ato no Terminal Urbano
    Várias regiões do estado, como Chapecó, Região Serrana, entre outras, terão atos nas portas dos locais de trabalho.

    São Paulo
    São Paulo
    09h30 – Ato em São Paulo – Concentração na Praça da Sé
    10h30 – Caminhada até a Avenida Paulista
    14h30 – Ato de professores e servidores no Palácio dos Bandeirantes contra o PL da Morte
    Campinas
    17h00 – Ato no Largo do Rosário, no Centro.

    Sergipe
    Aracaju
    15h- Ato com concentração às 15h na Praça Getúlio Vargas (praça da OAB)

    Tocantins
    Palmas
    09h – Em frente à CEF – Quadra 105 Sul – Rua SE 01

    Saiba Mais

    10 de novembro: unificar e ampliar a resistência

     

  • Por que recordamos 1917?

    Editorial de 7 de Fevereiro do Socialist Worker. Imprensa da Internacional Socialist Organization(ISO)

    Tradução: Caio Dias Garrido

    A promessa da Revolução Russa – o exemplo de uma democracia de massas em funcionamento, alcançando cada canto da sociedade – mostra, 100 anos depois, a sua relevância.

    Cem anos atrás o mundo virou de cabeça pra baixo quando um governo de trabalhadores chegou ao poder na Rússia.

    Oito meses antes o Czar, então governante do país, fora derrubado em uma erupção de greves e protestos de rua, que precisaram de apenas cinco dias para por abaixo uma tirania cruel e aparentemente todo poderosa. Só este fato já teria inserido a Rússia de 1917 nos livros de história.

    Mas as mobilizações de massa que encerraram o reinado Czarista não pararam aí. O governo provisório que tomou posse logo em seguida fracassou em satisfazer as demandas urgentes dos trabalhadores, camponeses, soldados e marinheiros que o pressionavam, revoltosos, para, acima de tudo, por um fim à carnificina da Primeira Guerra Mundial.

    No dia 07 de novembro – 25 de outubro segundo o antigo calendário Juliano, que era usado na Rússia  – aquelas massas fizeram algo que nunca havia acontecido antes, ainda mais de uma forma que se sustentasse: elas derrubaram o governo encarregado de defender o sistema de propriedade privada e manter a guerra, substituindo-o por um Estado revolucionário, de tipo “Comuna”, como Lenin o denominou, e que se ergueu em favor da paz para os soldados e marinheiros, de terra para o campesinato e pão para a classe trabalhadora.

    Mesmo 100 anos depois o exemplo permanece grandioso. A revolução russa sofreu, desde o início, uma inacabável campanha difamatória com o intuito de desacreditá-la – isso sem contar a campanha física, de guerra civil e invasões, que em ultima instância, se não imediatamente, sufocou o Estado operário.

    Por tudo isso é impossível esquecer 1917. Muitas milhões de pessoas se inspiraram por sua característica essencial – ter sido um exercício incrível de democracia de massas. Todas as testemunhas honestas da revolução, mesmo as críticas, reconhecem este fato de 1917.

    A democracia fora tomada em uma forma nova e única, que permitiu eleger representantes de forma livre nas fábricas, trincheiras e fazendas ao redor de todo o país, tomando assim as decisões coletivamente. Os representantes ou delegados se reuniam no local de trabalho ou algum outro lugar, depois regionalmente, e então em conselhos nacionais, ou “sovietes”, palavra para “conselho” em russo.

    Os sovietes não vieram à tona através do chamado de um partido, mas como o produto das lutas que se deram na revolução derrotada de doze anos antes. Eles reapareceram imediatamente após a queda do Czar, similarmente a outros organismos políticos que nasceram de outras revoluções em outros países e circunstâncias.

    A derrocada do governo provisório e o estabelecimento dos sovietes como poder governamental russo entrou para a história como “Revolução de Outubro”, devido à sua data no calendário Juliano, ou como “Revolução Bolchevique”, dado o papel dirigente do partido de revolucionários socialistas que levava este nome.

    Ainda que estes nomes sejam parte da história, é mais necessário lembrar o “07 de novembro” como a “Revolução dos Sovietes” – o triunfo da maior expressão já vista de uma revolução profundamente democrática em sua base.

    Uma das formas pela qual as revoluções são erroneamente lembradas é ter sua história associada apenas ao ato final. A Revolução de Fevereiro é resumida às batalhas nas ruas durante aqueles cinco dias que convergiram na queda do Czar, e a “Revolução de Outubro” é limitada à insurreição que subjugou as forças da velha ordem e estabeleceu os sovietes como poder incontestável na Rússia.

    Mas estes são os momentos de clímax das revoluções – o ponto culminante de um longo período de lutas, no qual os governantes tiveram de encarar uma crise crescente ao mesmo tempo em que as massas de trabalhadores ganhavam confiança em si mesmas.

    No início do processo os objetivos podiam ser modestos, limitados a poucas reformas no funcionamento do sistema – e o progresso parecia se dar em pequenos passos, isso quando parecia ocorrer.

    Mas abaixo da superfície, pessoas que não tiveram seus nomes lembrados nos livros de história foram se tornando mais e mais envolvidas, radicalizaram-se – e o continuo dos eventos foi lhes dando um senso, cada vez mais apurado, daquilo pelo que lutavam. O ato de por abaixo um tirano e tomar para si o poder político foi o passo final de uma revolução que se vivia nos locais de trabalho, nas comunidades, cidades e vilarejos, por toda a sociedade.

    Ainda que parecessem revoltas espontâneas, como o levante de fevereiro, elas foram preparadas durante meses, anos, pelas incontáveis injustiças e conflitos vividos e que se tornavam motivo pelo qual lutar, e, crucialmente, entre os enfrentamentos, quando algumas pessoas tomavam para si a tarefa de entender as lutas do passado, analisar o presente e se preparar para o futuro.

    A Revolução Russa não teria sido possível sem as centenas de milhares de revolucionários concentrados no Partido Bolchevique e nas alas à esquerda do Partido Menchevique, do Socialista Revolucionário e nos partidos anarquistas.  

    Os Bolcheviques não convocaram os levantes que puseram abaixo o Czar em fevereiro, mas quando estes ocorreram, provocados pela greve de mulheres da indústria têxtil no Dia Internacional das Mulheres, eles estavam preparados, dados os anos de estudos e lutas para conduzir as táticas, estratégias e análises políticas que visavam o poder das massas de trabalhadores e à democracia.

    Os Bolcheviques conduziram o chamado pela insurreição de outubro, para que esta pusesse fim ao governo provisório, mas não antes deste partido, e seus aliados, esgrimirem inúmeros argumentos contrários e convencerem as massas de trabalhadores do ponto de vista revolucionário. Lenin e os Bolcheviques jugaram ter conquistado concretamente a liderança do processo no momento em que seu partido deixou de ser a pequena minoria nos sovietes do inicio do ano e tornaram-se maioria inquestionável em outubro.

    O jornalista americano Alberti Rhys Williams, que testemunhou a revolução, apreendeu perfeitamente a dada relação: “Os revolucionários não fizeram a revolução. Eles fizeram da revolução um sucesso”.

    Nesta observação se encontra uma profunda lição sobre os limites do que é possível ser feito por organizadores radicais enquanto estes e suas ideias são ainda minoritárias. É também a confirmação de quanto é importante que indivíduos dediquem suas vidas na construção da revolução social antes que os seus objetivos pareçam possíveis para a maioria das pessoas.

    Se ainda é preciso apresentar alguma evidência mais profunda da importância da Revolução Russa, consideremos suas conquistas. Não no que tocam os poucos anos que ela viveu antes de sucumbir à contrarrevolução conduzida por Joseph Stalin, mas apenas nos primeiros dias que seguiram a tomada do poder.

    O congresso nacional dos sovietes, atuando como o mais alto poder governamental da Rússia, despachou delegados para que negociasses os termos da saída russa da Primeira Guerra Mundial. Ele repudiou as alianças do regime czarista com os poderes imperialistas assim os poderes sobre as nações oprimidas.

    O Estado operário adotou um impressionante programa de reforma agrária, nacionalizou os bancos e votou pelo controle operário da produção através da eleição de comitês de fábricas. As velhas forças policiais foram abolidas, permitindo o florescimento da democracia popular.

    Anos e décadas antes que fosse possível no ocidente, mulheres tiveram seu direito ao voto, obtiveram a legalização do aborto, e o direito de se divorciarem de seus maridos, tendo também acesso à assistência no cuidado às crianças. Leis que faziam a homossexualidade ilegal foram derrubadas.

    Não apenas isso, mas também o Estado operário sustentou iniciativas que foram desde organizar cozinhas coletivas à educação sistemática em uma sociedade majoritariamente analfabeta. Isto tudo foi necessário para tornar realidade na vida das pessoas os avanços decretados.

    Isto é o que se torna possível quando a classe trabalhadora tem o poder – não apenas o poder de protestar e resistir, mas o poder de reconstruir o mundo enquanto governam coletivamente a sociedade.

    Nós realmente precisamos deste poder hoje se quisermos salvar o planeta; para usarmos os vastos recursos da economia moderna para que se garanta educação, sistema de saúde e mais, para acabar com o racismo, machismo e todas as formas de opressão, para reparar as centenas de anos de guerras imperialistas e ocupações.

    A história nos ensina que os trabalhadores e povos oprimidos podem conquistar reformas que tornam as condições circunstanciais melhores no “aqui e agora”. Estas lutas são indispensáveis para a atuação diária dos socialistas, já que defendemos cada expansão da democracia e as vitórias por justiça, mas também porque estas batalhas preparam os trabalhadores para que lutem por mais.

    Mas a história também nos ensina que as reformas são insuficientes. Não importa o quão imensa seja a luta, se o poder das classes dirigentes permanecer intacto então ele não mudará de mãos e elas manterão o poder para acumular e controlar mais riquezas, inclusive tomando de volta aquilo que conquistamos com as reformas. Sem esse poder não será possível reconstruir o mundo.

    Este é outro motivo para rememorar 1917, ter a melhor visão de como um tipo diferente de sociedade deve ser organizado.

    Mas a revolução não seria um sonho infantil? Uma curiosidade histórica inimaginável no mundo moderno? Certamente isso nos é dito recorrentemente, e não apenas pelas classes governantes e suas instituições.

    Certamente não vivemos em tempos de revolução – não vemos na história recente ocorrerem lutas que ponham na agenda a revolução. As condições que impulsionaram a Revolução Russa – os assassinatos em massa da Grande Guerra e penúria econômica – não são as condições que encaramos hoje.

    Ainda assim, com as tensões imperialistas aumentando, particularmente na Ásia, estamos mais próximos de uma guerra mundial do que a mídia nos faz crer. A arrogância e ganância da classe dominante se mantêm intacta – na medida em que os desmesurados twittes do “homem mais poderoso do mundo” compartilham o mesmo espírito despreocupado e inumano que tinham as notas do diário do Czar que ficaram famosas aos terem sido citadas na História da Revolução Russa de Leon Trotsky.

    A classe dominante de 2017 é extremamente capaz de cometer atrocidades hoje – e com a “vantagem” de um século de desenvolvimento tecnológico e intelectual estes crimes são ainda mais mortais e perigosos, a ponto de o futuro do planeta estar agora em jogo.

    Diante deste mundo, os trabalhadores e movimentos sociais não têm mostrado possuir a confiança necessária para ir além de greves e protestos, muito menos tomar as fábricas e escritórios em mãos e se erguer contra a burguesia.

    Mas não nos esqueçamos, a confiança apreendida nas lutas, nasce de enfrentamentos modestos, que aparentemente não mudam o mundo, mas que ao fim contribuem para uma transformação superior. E quando o processo de aprendizado se desenvolve ele toma velocidade.

    Esta é uma das mais duradouras lições de 1917 – como o ano revolucionário tocou e mudou um povo que nunca houvera se imaginado capaz de tais façanhas.

    Na História da Revolução, Trotsky cita um antigo general czarista de quem as palavras iluminam o persistente ódio deste aspecto da revolução:

    Quem iria acreditar que o zelador ou o vigia do prédio da corte se tornaria repentinamente o Chefe de Justiça do Tribunal de Apelação? Ou que o funcionário do hospital se tornaria seu gerente; o barbeiro um alto funcionário; o cabo um comandante em chefe; o lacaio ou o trabalhador comum de outrora se tornariam prefeitos; o mecânico de trem seria chefe de repartição ou superintendente de uma estação; que o chaveiro seria diretor de fábrica?

    Realmente, quem imaginaria? Esta é a promessa da Revolução Russa e a tragédia de isso tudo não ter sobrevivido para ser um exemplo real nos dias de hoje.

    Então sua promessa ainda está para ser realizada – e um pequeno passo nessa direção é uma nova geração de socialistas poder descobrir e compreender a história da Revolução Russa, de forma que suas lições possam ser utilizadas na conquista de uma sociedade socialista.