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  • Esquerda Online participa da Conferência Socialism 2018, em Chicago (EUA)

    Entre os dias 05 e 08 de julho acontece em Chicago, nos Estados Unidos, o evento “Socialism Conference 2018”, organizado pela ISO (International Socialist Organization) e com apoio de dezenas de publicações e veículos da esquerda norte-americana, como a revista Jacobin, o jornal Socialist Worker e a editora Haymarket Books, entre outras.

    O evento anualmente reúne centenas de socialistas e ativistas da esquerda radical nos Estados Unidos, com uma extensa programação de mesas redondas e palestras. Neste ano, entre os principais convidados, estão a jornalista Amy Goodman, do Democracy Now; o rapper e cineasta Boots Riley; o intelectual Gilbert Achcar, o soldado e ativista anti-guerra Spenser Rapone, a jornalista Sarah Jaffee e Demita Frazier, escritora e ativista feminista, entre outros(as).

    O Esquerda Online está participando do evento, representados por Gloria Trogo e Genilda Alves, que participarão de mesas redondas sobre as lutas no mundo, a luta das mulheres e farão um painel sobre a situação política no Brasil. Gloria e Genilda são militantes do PSOL, da corrente Resistência. Além da participação, enviarão entrevistas com participantes do evento.

    As conferências estão divididas em mais de 30 temas, como Marxsimo, Teoria do Socialismo. Trabalho, Imigração, Fascismo, Gênero e Sexualidade, Arte, Ecologia, Educação, Resistência indígena, Libertação das mulheres e a luta anti-racista. Também haverá debates sobre a luta contra Trump, o significado do Maio de 1968 e debates sobre países, como Irã, Índia, Venezuela, Porto Rico, Brasil, México, entre outros.

    O evento não tem transmissão pela internet. No vídeo de convocação, é possível ativar legendas em português.

     

    CONFIRA AS MESAS COM A PARTICIPAÇÃO DO ESQUERDA ONLINE
    (Horários do Brasil)

    Sexta, 06 de julho
    16h-17h30
    Lições das lutas de massas no mundo: Quebec, Brasil, Grécia

    Antonis Davanellos Jornalista, sindicalista e militante da Internationalist Workers Left (DEA), uma organização política da Grécia, de orientação trotkista.
    Alain Savard Estudante de pós-graduação em Ciência Política na Universidade de York, em Toronto. Atuou no movement estudantil em Quebec, na organização de várias greves estudantis. Durante a greve de 2012, ele integral a CLASSE, uma federação local de estudantes. Participa atualmente do movimento de trabalhadores.
    Genilda Souza Ativista e membro da Resistência, corrente interna do PSOL.
    Link

    18h-20h
    Crise e Resistência no Brasil

    Duas socialistas brasileiras da organização Resistência, tendência interna do PSOL, falam sobre a prisão de Lula, a ameaça do neofacismo, a escalada de violência, a luta dos trabalhadores e as eleições de outubro.
    Com Genilda Souza e Glória Trogo, dirigentes da Resistência, corrente interna do PSOL, e do Esquerda Online.
    Link

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    Sábado, 07 de julho, 18h às 20h
    A luta global contra a guerra contra as mulheres

    Do movimento #MeToo nos EUA à luta pelo direito ao aborto na Argentina e na Irlanda, as mulheres em todo o mundo estão tomando as ruas para lutar pelo direito ao seu corpo e ao fim da violência e do sexismo. Ativistas das linhas de frente dessas lutas vão falar sobre as razões dessa nova luta pelos direitos das mulheres e como as mulheres estão entrando em ação.

    Josie Chávez Ativista e faz parte do PRT (Partido Revolucionário dos Trabalhadores) do México. 
    Sarah Jaffe Jornalista e escritora independente. Com textos publicados em The Nation, Salon, the Week, American Prospect, Washington Post, Atlantic e outras publicações. Coapresentadora, com Michelle Chen, do podcast Belabored da revista Dissent. Colunista do New Labour Forum. Problema Necessário: Americanos em Revolta (Necessary Trouble. Americans In Revolt) é seu primeiro livro.
    Deepa Kumar Ativista e acadêmica premiada. Leciona na Rutgers University, em Nova Jersey, onde também preside o sindicato dos professores. É autora de mais de 80 artigos de jornais, capítulos de livros e textos na grande mídia e em veículos alternativos.
    Glória Trogo Ativista em Belo Horizonte (MG) e membro da Resistência, corrente interna do PSOL, e do Esquerda Online.


    Site oficial https://socialismconference.org/
    Site com a programação https://socialismconference.org/sched/
    Perfil no Facebook https://www.facebook.com/socialismconf

     

    FOTO PRINCIPAL: abertura do evento em 2017. Divulgação

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  • A outra face de Stálin

    O afastamento da realidade, o distanciamento que se acentuava continuamente, dominando cada vez mais um número maior de pessoas, não era uma característica especial do regime nacional-socialista. Ora, enquanto em circunstâncias normais dar as costas à realidade é uma atitude corrigível pelas opiniões das pessoas que nos rodeiam, pela zombaria, pela crítica, pela perda de confiança, no Terceiro Reich não havia tal corretivo.
    (Albert Speer, Por dentro do III Reich: in A significação na fotografia, Antonio Vicente Seraphim Pietroforte, Annablume, 2016, p.19).

    Os espelhos refletiam sempre a imagem do meu rosto, a única imagem que eu podia ver refletida neles. Nenhuma visão estranha perturbava a uniformidade daqueles cem rostos, sempre os mesmos, a uniformidade do meu eu multiplicado
    (idem, p.20).

    Reprodução

    Depois da derrota da Alemanha para o México na Copa da Rússia, começou a circular na rede um meme com a foto de Stálin e a seguinte frase: “Eu avisei: aqui a Alemanha não vence”. O “recado” faz alusão à vitória do Exército Vermelho contra os nazistas, na Segunda Guerra: os alemães capitularam na Batalha de Stalingrado, em 1943, sendo definitivamente derrotados em 1945, quando os russos invadiram Berlim e tomaram o Reichstag (o parlamento alemão). Por isso, Stálin está rindo com sarcasmo, em trajes militares e pose triunfal, como se fosse o grande estrategista da queda do Terceiro Reich.

    Mas ele está com o rosto virado: não aparece na foto a outra face. Como está olhando “oblíquo e dissimulado” para a câmera, não dá para ver também as suas costas: a foto não mostra o que está “por trás” dessa história. Por exemplo, a assinatura do “Pacto Molotov-Ribbentrop” (em 1939, em Moscou), firmando o compromisso de não-agressão entre os dois países na guerra de rapina imperialista. Não aparecem na foto os vinte milhões de civis e militares russos que tombaram na resistência à ofensiva alemã: nem, obviamente, os dois milhões de corpos não localizados. O sorriso irônico do georgiano para a lente disfarça que ele foi surpreendido por Hitler, traído pela confiança no cumprimento do “pacto de não-agressão” pelos nazistas.

    A foto também não mostra o germe dessa espúria relação, já que a foto é sempre um recorte do presente. O passado não posa para a câmera, não aparece no retrato: quem olha para o “velho Stálin” não consegue ver a sombra do “jovem Josef” na Alemanha de 1923. De volta ao passado, nesse mesmo ano em que os franceses ocuparam a região do Ruhr, um bolchevique próximo do futuro ditador, Radek, havia se tornado o principal dirigente do KPD (Partido Comunista Alemão), após a reunião do Comitê Executivo da Internacional, realizada em Moscou.

    No encontro – atenção! – ele defendeu que os comunistas deveriam se aliar à extrema-direita, para derrotar os invasores. Essa proposta, sintomaticamente, daria origem à chamada “linha Schlageter”, em homenagem ao nazista fuzilado na ocupação francesa, transformado em “herói nacional” com a vitória do nazismo. O trecho a seguir, do livro A Revolução Alemã (1918-1923), de Isabel Loureiro, explica melhor a tática do dirigente:

    Com isso, Radek retomava a ideia anterior de dois militantes comunistas, conhecida como ‘nacional-bolchevismo’ (…). Radek supunha, além disso, que essa aliança ajudaria a Rússia soviética, adversária das potências ocidentais no terreno da política externa – daí a proposta de união entre a Rússia e a Alemanha derrotada contra o Ocidente, já descartada por Lênin em janeiro de 1920 como ‘um enorme disparate (…).
    (Editora Unesp, São Paulo, 2005, p.147).

    Charge de 1939, sobre o pacto de não-agressão. Hitler pergunta a Stálin – Até quando essa lua de mel irá durar?

    Refrescada a memória, enfim, eis a questão: o “pacto de não-agressão”, assinado em 1939 por Molotov e Ribbentrop, não parece ter reeditado como “farsa” (guardadas as diferenças) a “tragédia” da contrarrevolucionária aliança “nacional-bolchevique” de 1923? Lênin não sobreviveu para testemunhar as consequências desastrosas do erro tático que denunciara: a linha equivocada dos comunistas alemães fortaleceria de fato a extrema-direita, colaborando para a derrota da esquerda e o triunfo do nazismo.

    Na época, quem estava no poder era a socialdemocracia, representada pelo SPD: os comunistas do KPD preferiram se aliar aos nazistas a compor uma frente única com os socialdemocratas. Em 1939, a esquerda já havia sido destruída: o poder já estava nas mãos do “nacional-socialismo”. A aliança, disfarçada sob a designação eufemística de “pacto de não-agressão”, não parece uma espécie de “versão 3.9” daquela “proposta de união entre a Rússia e a Alemanha contra o Ocidente”?

    Quem postou a foto do “velho Josef” no face, desconhecendo a história, não poderia mesmo ouvir a reprovação indignada de Lênin no “negativo”: “um enorme disparate”. Que “grande comandante”, afinal, daria de vantagem ao inimigo a vida de vinte milhões de soldados, para ganhar tempo e se armar, defendendo-se e partindo para a ofensiva, como prova de “superioridade” nos jogos de guerra? A pose do georgiano sorrindo sarcástico no meme esconde o jogo: no campo de batalha, os russos venceram os alemães apesar do “técnico”. Quem compartilhou a imagem ignorando os fatos não notou que todos os “louros da vitória” foram oportunisticamente colhidos pelo “técnico”: os “jogadores”, os verdadeiros responsáveis pela “virada”, não aparecem na foto da vitória.

    Aliás, já que a Alemanha, a Rússia e Stálin estão na mira, vem bem a calhar a metáfora de Marx em A Ideologia Alemã: a “câmara escura” da ideologia contrarrevolucionária soviética não revelou a imagem dos milhões de soldados que a miopia do “coveiro” pôs na mira dos canhões arianos. Parafraseando outro alemão, sob a lente crítica de Nietzsche, dá para entender porque a foto não poderia mostrar que “os deuses têm pés de barro”: sem as distorções de ótica da “falsa consciência”, o oportunista jamais seria digno do epíteto de “Grande Líder”, sustentando-se no alto pedestal de “Super-Homem”. Não fosse a “fábrica de falsificações” da “revolução desfigurada”, Josef nunca seria visto como o “Guia Genial dos Povos”: subvertendo o ditado, só em terra de cegos quem tem um olho pode virar ditador. Em outros termos, era preciso que houvesse órfãos, sentindo-se pequenos e indefesos, para que o amassem e temessem, chamando-o de “Pai dos Povos”.

    A máquina de propaganda do Estado burocrático trabalhou ininterruptamente para ampliar a sua imagem, multiplicando-a em fotos, quadros, cartazes, bandeiras, broches, estátuas… Stálin foi forjado pela “agência oficial de mentiras” como um ser onipresente, onipotente, onividente, pairando como uma gigantesca divindade ciclópica, num reino de anões crédulos de olhos vazados. Tornou-se tão grandioso que, solenemente, virou até nome de cidade: no XIV Congresso do PCUS (em 1925), Tsaritsyn (fundada em 1589) passou a se chamar Stalingrado (rebatizada Volgogrado, em 1961).

    O meme que viralizou no face associa a eliminação da Alemanha na Copa à derrota do exército nazista na Segunda Guerra: a frase “eu avisei, aqui a Alemanha não vence” faz alusão à Batalha de Stalingrado, que marca o início da vitória dos russos. Na foto de Stálin, de cujo sorriso sai o recado sarcástico, não está escrito que o “Pacto Molotov-Ribbentrop”, sob o álibi de ganhar tempo para organizar o Exército Vermelho, sacrificou vinte milhões de vidas: ironicamente, a partir da batalha na cidade que carregava seu nome.

    Aliás, esse “batismo” foi também uma farsa tramada pela “agência de falsificações” históricas: o XIV Congresso do PCUS transformou o carrasco georgiano em grande líder da resistência contra os invasores do Exército Branco na batalha de Tsaritsyn, em 1920. Esse episódio da Guerra Civil marcou as divergências militares entre Stálin e Trótski. Para contextualizar, lembremos que, em 1918, começou a se formar no Exército Vermelho uma oposição contra Leon: Josef se opunha à presença dos oficiais do antigo regime, convocados por Trótski para integrar o quadro de estrategistas das divisões bolcheviques.

    Stálin desprezava o argumento do dirigente, segundo o qual era imprescindível contar com os grandes conhecimentos e a larga experiência dos especialistas para derrotar os inimigos: a força e a coragem dos operários e camponeses não seriam suficientes para a vitória dos Vermelhos – faltava-lhes a técnica da guerra, que os adversários dominavam. A “oposição militar”, alimentada pelo arrivismo de Josef, era contrária não só à presença dos oficiais de carreira, mas também à centralização do comando, defendendo a autonomia local das tropas.

    Stálin enviou um memorando ao Comitê Central, criticando a direção de Leon e solicitando a destituição de todos os oficiais, bem como o direito de formar “exércitos independentes”. Indignado, Trótski pediu demissão: Lênin não só recusou o pedido, como também deu total apoio ao organizador do Exército Vermelho. Os historiadores stalinistas omitem que, numa reunião do birô político, o líder bolchevique estendeu uma folha de papel a Trótski, dando-lhe uma inequívoca prova de confiança:

    Conhecendo o caráter rigoroso das ordens do camarada Trótski, estou convencido, tão absolutamente convencido da oportunidade e da necessidade, para o sucesso da nossa causa, do rigor do camarada Trótski, que assino embaixo sem reservas. V. Ulianov-Lenin
    (Victor Serge, Vida e morte de Trotsky, Editora Ensaio, São Paulo, 1991, p.108-109).

    Na foto de Stálin compartilhada no face, evidentemente, não aparece a assinatura de Lênin desautorizando as pretensões do futuro ditador. Aliás, a foto não poderia mesmo revelar os fatos que desmentem a versão forjada pelos falsificadores, como mostra este retrato feito pelo revolucionário Victor Serge:

    Stálin foi objeto de sanções muito moderadas por parte do bureau político e do governo. Geralmente se esquece que, nesse meio tempo, se perdeu a importante posição de Tsaritsyn, que, pela via fluvial, ligava a Rússia ao Cáucaso e à Ásia: os Brancos se apossaram dela, no final de junho de 1919, e a ocuparam por muitos meses.
    (idem, p.108).

    Levando tudo isso em conta, não é muito sintomático que, no ano seguinte à morte de Vladimir, o XIV Congresso do PCUS tenha substituído o nome de Tsaritsyn por Stalingrado? Será que os internautas que postaram o meme com a frase “Eu avisei: aqui a Alemanha não vence” conheciam essa história? Será que os torcedores digitais têm consciência das implicações deste post? Enfim, entre os que compartilharam o sorriso sarcástico do “coveiro da revolução”, há “inocentes de boa-fé” e “equivocados de má-fé”: estes devem ser combatidos; aqueles, esclarecidos. Ainda que ambos tenham feito “gol contra”, perdendo a revanche sem precisar jogar… Aliás, onde é mesmo que a Alemanha entrou nessa história?

    Para encerrar a partida, imagine um meme com este recado: “Eu avisei: aqui stalinista não vence”. Agora a coisa ficou russa: cartão vermelho para quem veste a camisa de Josef!

    * Paulo César de Carvalho, o “Paulinho”,  joga no time da RESISTÊNCIA-PSOL.

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  • Contra o pessimismo

    O pessimismo e o otimismo fazem parte do senso comum. São estados de espírito que, como polos opostos, não deixam de ser vulgares, e até algo banais. Quando associados a visões de mundo messiânicas, de tipo milenarista, alcançam o status de sagrado e – com retórica inflamada – podem subir aos céus ou descer aos infernos. Os exemplos são muitos. Abundam. Mas dado o contexto efetivo em que nos toca viver vale a pena ver, mais de perto, os mais próximos. Qual diria Brecht, estranhar àquilo que nos é familiar. Vale a pena acompanhar de perto o argumento de Terry Eagleton (2015) sobre a questão.

    A tradição cristã – por exemplo – é ali considerada uma concepção total de mundo mais pessimista do que um qualquer humanismo secular ao mesmo tempo em que seria, sem qualquer termo de analogia, imensamente mais otimista. Se por um lado é dum brutal realismo em relação a tudo o que tem a ver com uma inamovível natureza humana – da inexorabilidade do mal à perversidade da autoilusão, até o escândalo do sofrimento – por outro também constitui absoluta redenção a esta tão terrível condição. De tão possível – pasmem ou regojizem-se? – já se-a fizeram em nosso nome: — Praise the Lord! Aleluia!

    O último dos stalinistas convicto e confesso, o mais preguiçoso e vulgar, jamais poderia proclamar impune – nos dias de hoje – que o socialismo é o inexorável e, menos ainda, que ele já apareceu sem que sequer nos tivéssemos dado conta. Para as profissões de fé, contudo, o advento dum tal Reino é, de antemão, assegurado. Pois a vinda de Jesus, do Mundo dos Mortos, teria-o já fundado. A nova sociedade – a cidade futura – é possível em base a um corpus transfigurado. E é isso o que se celebra, na Páscoa. A Ressurreição.

    Mas, atenção! Não era lá o caso de uma concertação sindical ou barganha política. Nada de negociações. Sem pactos. O Messias é um irredutível: ou se está a favor – ou se está contra. Nada de meios-termos tão ao gosto das suscetibilidades mais contemporâneas. Nem migalhas de pão nem servir vinho novo em velhas garrafas. Outro mundo possível e necessário é prenúncio ou encarnação, mas nunca gradualismo. Neste exato sentido muito específico Cristo foi, mais que reformista social, um vanguardista revolucionário.

    Cristo não dava nome a uma transição pacífica – do velho para o novo – à maneira de qualquer socialismo evolucionário à la Edward Berstein ou seu Partido Socialdemocrata Alemão. Dada a urgência e até severidade da aludida condição – que os Gospels dirão o Pecado do Mundo – alcançar uma ordem social igualitária envolve passar mesmo pela morte, pela condição do Nada, o mais absoluto, turbulência irascível: o pior dos flagelos.

    Mas por que os seguidores de Jesus Cristo tão-só esperam a tal vinda do Reino dos Céus? Tem a ver com algo que pode soar até bastante banal, para nós, mas que não podia fazer qualquer sentido, para eles. Não havia no horizonte, de toda a gente, qualquer noção de que a atividade humana poderia jogar algum papel de auxílio em sua fundação na terra. O cristianismo primício imaginou-o antes como dom-de-Deus — e não um ato histórico. Não à-tôa foi necessário um desenvolvimento histórico de longa duração para superá-lo. O otimismo e o pessimismo também fariam história nas ideias políticas do socialismo: em um outro tipo de escrita da história, e toda uma outra forma de fazimento da história.

    O novo tempo do mundo?
    O espectro da autodeterminação – um novíssimo modo de fazer história – só surgiu nos últimos duzentos anos. A única concepção de história disponível naquele então era uma ‘Heilsgeschichte’ ou, em miúdos, algo como a História da Salvação – ‘Sagrada’ – e todo um outro tempo. Walter Benjamin tematiza, ao final de suas Teses sobre o Conceito de História, uma possibilidade efetiva para a instauração de um novo «Tempo-de-Agora». O materialismo histórico e a história sagrada se voltam contra a ideia de progressivismo. Acreditamos que este espectro ronda o globo e é um tema que vale a pena rever adiante.

    A remissão a valores e crenças de que se navega a favor da corrente do mar da história, a confiança cega no incessante desenvolvimento material das forças sociais produtivas, a fé inexorável – em uma imparável elevação da consciência social do proletariado – e a asseveração de inevitabilidade à finalidade socialista do curso dos acontecimentos foi um ópio socialdemocrata do movimento da classe trabalhadora, de sindicatos e partidos. Seria, hoje, politicamente farsesco repetir à tragédia histórica naïf de inícios do Século XX.

    O Kulturpessimismus não deixa de ser o marco epocal que divide águas no socialismo. A quarta vaga geracional do marxismo continental europeu fez renascer a este idioma. Usando expressões até então ininteligíveis – para Engels e Marx, Mehring ou Labriola,  de Rosa Luxemburg a Leon Trotsky – diferentes marxistas tal Adorno, Sartre, Althusser e Benjamin foram bastiões intelectuais deste novo pessimismo teórico da razão crítica. A derrota histórica da revolução no Século XX deixaria profunda marca em seus expoentes.

    A Dialética do Esclarecimento de Adorno e Horkheimer pode ser considerada magnum opus do pessimismo marxista, campeã invicta da negação dialética na Europa ocidental. A Crítica da Razão Dialética de Sartre valoriza o tema da escassez em uma nova chave. E Althusser é responsável por articular a noção de ideologia tal qual um Appareil d’État. Mas é Benjamin quem irá desafiar vigorosamente o cânone do progresso enquanto tal. O mais peculiar marxismo ocidental – para Anderson (1974) – é, também, o mais típico.

    As inovações temáticas do assim-chamado marxismo ocidental antecipam problemas reais (e fulcrais) de toda história do movimento socialista pós-primeira guerra mundial. Muitas das preocupações de Adorno com a natureza, que à altura apareciam enquanto desfasamento algo perverso no relativo à orientação das obras do Instituto de Frankfurt, reapareceram, subitamente, nos amplos debates, posteriores, sobre o meio-ambiente. A incursão principal de Althusser, sobre a ideologia, foi diretamente inspirada pela onda de revoltas no interior do sistema de educação superior do mundo capitalista avançado. O tratamento do problema da escassez por Sartre esquematizou a cristalização universal da burocracia, após todas as revoluções socialistas – levadas a cabo nos países atrasados.

    Todas as principais inovações e/ou desenvolvimentos teóricos, no seio deste corpus, se distinguem da tradição prévia do materialismo histórico pela falta de clareza dos seus corolários e de suas conclusões. A este respeito, entre 1920 e 1960, o marxismo mudou – lentamente – de cores e texturas no Ocidente. A confiança herdada, o otimismo dos fundadores, e a altivez dos sucessores, desaparecera, inescrutavelmente. Quase todos os principais temas novos da história intelectual, desta época triturada, revelam a mesma diminuição da esperança e a mesma perda de convicções. O arco da descrença distópica.

    Para onde vai a teoria?
    À melancolia intelectual – impregnada na obra dos críticos de Frankfurt – falta qualquer nota de energia militante que se lhe possa fazer frente. Adorno/Horkheimer puseram em causa a própria ideia de domínio do homem sobre a natureza como o reino da liberdade, para lá do capital. O pessimismo de Althusser, ou Sartre, tivera outro horizonte. Mas não menos grave que o anterior; o socialismo realmente existente. Althusser afirmou que até o comunismo permaneceria opaco, enquanto ordem social para os indivíduos que nele vivessem, enganando-os com a perpétua ilusão do livre-arbítrio. Sartre rejeitou a própria ideia de ditadura do proletariado, como impossível. E interpretou à burocratização das revoluções como o produto invariável de uma escassez cujo fulcro seguiria insuperável. Estas teses conjugaram-se com acentos particulares, e cadências gerais, perfeitamente invulgares na história precedente do movimento socialista internacional. E foram estas também, de forma menos direta ou verbal, sinal inconfundível de alterações profundas.

    O tom e as alegorias que Adorno e Althusser, Sartre e Benjamin, iriam utilizar mudaram drasticamente todo ambiente literário precedente. Benjamin foi quem melhor sintetizou uma concepção de história da intelligentzia centro-europeia em linguagem que teria sido quase incompreensível para todas as gerações anteriores: «Eis como retratamos o Anjo da História. A sua face está virada para o passado. Onde nós percebemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma única catástrofe que mais não faz do que empilhar naufrágio sobre naufrágio e os atira para diante dos pés. O Anjo gostaria de permanecer nesse lugar, de acordar os mortos e reconstruir o que foi destruído. Mas uma tempestade sopra do Paraíso: tomou as suas asas com tal violência que o Anjo não as pode já fechar. Esta tempestade impele-o irresistivelmente para o futuro, para o qual as suas costas estão voltadas, enquanto o amontoado de escombros que se lhe depara cresce em direção ao céu. Esta tempestade é aquilo a que chamamos Progresso». E Benjamin soía afirmar que mesmo mortos não estariam a salvo – enquanto seguirem vencendo os vencedores…

    É certo que Benjamin – como Antonio Gramsci – foi vítima do fascismo enquanto dava luta sem quartel contra o stalinismo. Mas também no segundo pós-guerra mundial o tom sombrio foi inequívoco. Talvez o mais urgente de todos os escritos de Althusser, por exemplo, possa advertir – com feroz violência – para o desenvolvimento social desde o nascimento à infância. Desenvolvimento, este, que estaria na origem do surgimento do inconsciente qual uma provação a que todos os seres humanos teriam de passar ao largo da vida. Com inspiração em Freud, o professor d’Ulm irá retratar uma ‘guerra infinita’ e algo como a ‘morte não-oficial’, de uma série ininterrupta de pulsões de vida, no mundo dos homens. Também Sartre iria usar metáfora atroz, para comparar as relações entre os homens, em chave de escassez – ‘raritá’ de Galiani –, ‘duplo demoníaco’ e, até, ‘outra espécie’. Passagens como estas fazem parte de uma prosa fundamentalmente estranha ao mundo – da política e das letras – de Marx, de Labriola ou de Trotsky. E trazem um pessimismo subjacente para lá de intenções ou das teses – declaradas – dos seus autores.

    As características que circunscrevem esta constelação de marxistas tal tradição distinta tem a ver com a origem no malogro das revoluções socialistas nas zonas desenvolvidas do capitalismo europeu após a primeira guerra mundial. Desenvolvendo-se no meio de uma crescente cisão entre a teoria política socialista e prática da classe trabalhadora, o abismo entre ambas, que começou a ser cavado pelo bloqueio imperial à Revolução dos Soviets, veio a ser ampliado e consumado – institucionalmente – pela burocratização da URSS e do Comintern durante o regime de Stálin. Para os expoentes do novo idioma não estava em causa uma renúncia formal à ideia de revolução. Mantiveram o horizonte intelectual de uma transformação social, radical, mediante a agência humana, socialista. Mas longe de qualquer ativismo este léxico marxista ateve-se a uma República de Letras. E virou letra – e república – morta.

    Um divórcio estrutural, entre a teoria e a prática, impediu a consecução de um trabalho político e intelectual de conjunto, do tipo do que definiu todo marxismo precedente. Em consequência disso, os teóricos refugiaram-se nas academias, afastando-se do modo de vida e de luta das classes trabalhadoras dos seus próprios países. E a teoria abandonou a economia e a política pela filosofia e a estética. Esta especialização conjugou-se com uma linguagem cada vez mais truncada, cujas barreiras ergueram-se em função da sua distância das massas. Inversamente, ela conjugou-se também com um rebaixamento do nível de conhecimento mútuo – ou de comunidade internacional – entre os próprios teóricos dos diversos países. Foram localistas onde e quando seus ascendentes eram internacionalistas. A perda de todo e qualquer contacto dinâmico com a prática da classe legou o método como impotência, a arte como consolação e o pessimismo como acicate.

    Mas não podemos reduzir tal tradição, como um todo, a este triste panorama. Apesar de tudo, os seus principais quadros mantiveram-se autoimunes ao reformismo tradicional. Apesar de se encontrarem tão apartados das massas, em geral, e dos trabalhadores, em particular, quase nenhum deles – exceção ao que veio a ser o renegado Horkheimer – veio a capitular ao capitalismo triunfante, como antes deles fizeram alguns teóricos da Segunda Internacional, triste memória de Karl Kautsky, muito mais próximo da luta de classes. E tanto mais – por entre as suas próprias inibições e silêncios – a experiência histórica de quê as suas obras eram uma expressão cabal foi também, em certos aspectos particulares, das mais avançadas do mundo, pois que englobavam às mais altas formas de economia capitalista, o proletariado industrial mais antigo e as mais longas tradições intelectuais do socialismo. Trata-se – sem sombra de dúvidas – de um riquíssimo legado.

    Outro marxismo?
    Ora, poderíamos dizer que esta tradição intelectual – para além de alguns epígonos e/ou de casos isolados – encerrou seu ciclo histórico com a onda internacional de revoltas e a crise estrutural do capital que sucedeu o fim dos anos 60 e o início dos 70 no Século XX? Sempre soa algo definitivo demais colocar uma pedra sobre qualquer grama. O mundo ‘vasto e terrível’ sempre dá voltas. Cremos que parte importante deste tipo de marxismo encontra-se viva. O marxismo das formas de Frederic Jameson, nos Estados Unidos, ou o ensaísmo crítico de Paulo Arantes, no Brasil, dão mostras de uma produção instigante. Mas nos parece que o caso mais significativo, naquilo em que aprofunda e também no que desprega da tradição pós-clássica, é mesmo o de Perry Anderson. De um otimismo político acachapante nas urgentes teses, de 1974, a pessimismo intelectual tão aterrador quanto cortante no editorial manifesto, de 2001, vai lá uma distância de muitos alqueires. O paladino dos marxistas soixante-huitards – sessenta-e-oitistas – foi o mais longe deles:

    “(…) é hoje visível o advento de um novo período no movimento dos trabalhadores (…). A revolta francesa de Maio de 1968 constitui … um profundo ponto de viragem histórica. (…) Nos anos que se seguiram assistiu-se a uma onda internacional cada vez mais ampla de insurreições …, diferente de tudo àquilo que tinha sucedido. (…) A possibilidade de reposição duma relação íntima entre teoria marxista e prática de massas, resultante das lutas reais da classe trabalhadora, torna-se muito maior. As consequências de tal unificação entre a teoria e a prática poderão transformar o próprio marxismo recriando a condições que à sua hora estiveram na origem dos fundadores do materialismo histórico.” (Anderson, Perry, 1974, , tradução nossa)

    Anderson apostava as suas fichas – em meio ao processo revolucionário em curso, o «PREC» da Lisboa insurrecta e a sua tão celebrada revolução de cravos nos fuzis – no propício cenário que ia de finais de 1967 a meados de 1975, em que a Europa ocidental tendia a produzir outro tipo de marxismo à hora e lugar dos atos, bloqueios e barricadas. A galvanização, combustível e dinamização desse marxismo caberia a uma tradição em tudo alheia ao que conformou o mais típico dos marxismos daquele rincão do mundo. Na sua fase mais “bolchevique-leninista” Anderson expressa – de modo mais acabado – a sua mais nova adesão à corrente de tradição trotskista como um cânone de interpretação.

    Enquanto a vanguarda da cena, na história das ideias socialistas, fora ocupada por esta vertente outra tradição, em tudo distinta, teria se gestado por fora dos holofotes centrais. O marxismo ocidental sempre sofrera uma constante ‘atração magnética’ por parte do comunismo oficial enquanto ‘a’ única encarnação histórica da classe trabalhadora. Nunca aceitou totalmente o stalinismo, embora também nunca o tenha combatido ativamente. Mas fosse qual fosse o tipo de atitude, que os seus sucessivos expoentes adotaram em relação àquele, para todos efeitos não existiriam outras esferas nem qualquer outro meio realista de ação socialista fora deste raio de influência. Tal dique os separou de Trotsky.

    Se é verdade que o caráter ultrassintético deste escrito tenderia a muitas simplificações – o material original serviria de introdução a uma coletânea de textos dos ‘ocidentais’ –, também o é que a letra de Anderson dá vazão a dadas expectativas revolucionárias gerais. Para além deste legado, de Trotsky, houve o operaísmo italiano, o maoísmo francês e o conselhismo alemão, para citar tão-só alguns exemplos. Mas enquanto uma objetivação duradoura de uma esquerda antistalinista internacional, não seria um exagero afirmar-se a importância que assumiu a teoria e o movimento de tradição trotskista em nível global.

    Mas um largo isolamento da classe trabalhadora organizada e a ausência prolongada de levantamentos revolucionários de massas imprimiu-lhe inexoráveis efeitos deletérios. A reafirmação da validez da revolução social e/ou da democracia direta, contra os tantos acontecimentos que as denegavam, inclinou-lhe involuntariamente ao conservantismo. A preservação da doutrina clássica ganhou prioridade sobre o desenvolvimento da teoria revolucionária. Certo triunfalismo relativo à causa do trabalho e dado catastrofismo na análise do capital – concepções defendidas mais através da vontade otimista do que da inteligência pessimista – foram, nas suas formas usuais, peculiares vícios desta tradição.

    A autocrítica que Anderson realiza, em seu Posfácio, é nada menos do que demolidora. Após o fim dos eventos políticos – do ciclo histórico aludido – a ‘coruja de Minerva’ é, daí, implacável. A leitura seria algo ativista, irresponsável? A distinção, entre clássicos e ocidentais, reducionista e insustentável? O próprio leitmotif de nexo teoria-movimento – e/ou razão-revolução, ciência-classe, materialismo histórico-insurreição do trabalho –, de tão sólido, se desmancha no ar. Da expectativa revolucionária ao que Gilbert Achcar irá denominar ‘pessimismo histórico’ (Duncan, Blackledge, Elliot) Anderson resume o novo signo da época de grande parte da intelectualidade socialista após a queda do muro. O otimismo, um Kautsky ou Bukharin, seria substituído por empedernido pessimismo. Após pôr fim à ideologia e ponto final à história, já chegou a se falar n’o último homem.

    O fim do fim da história
    Ninguém foi mais claro ou carregou mais nas tintas desta visão criticamente pessimista sobre o presente histórico do que Perry Anderson no editorial-manifesto que refundou a revista de ideias mais longeva de toda a história publicística de toda esquerda mundial. O texto Renovações é a epítome do que Anderson chamaria de irreconciliável realismo (‘uncompromising realism’). Escrito no ocaso do Séc.XX fala despudorada, abertamente, sobre uma derrota acachapante da esquerda em nível global. O diagnóstico apocalíptico chamou a atenção de Gilbert Achcar, Boris Kagarlitsky, James Petras e muitos outros. Para não poucos, tratar-se-ia dum adeus às referências cultivadas no período precedente.

    A segunda série, a nova New Left Review, traduziu o novo espírito de época tal qual era pensado por muitos outros expoentes que não tiveram clareza a política ou honestidade intelectual de elaborá-la tão cristalinamente. “O bloco soviético sumiu. O socialismo deixou de ser um ideal ampliado. O marxismo já não predomina na cultura de esquerda. Até mesmo a socialdemocracia se dissolveu em grande parte. Dizer que essas mudanças são enormes seria um eufemismo.” Senão a morte do marxismo seria o ‘fim da história’?

    Os anos noventa foram especialmente duros para o marxismo quando sicofantas a soldo do capital decretaram que o que tivera fim – na URSS e no Leste Europeu – não fora a ditadura stalinista mas, sobretudo, o próprio socialismo. O término da Guerra Fria propiciou oportunidade – por primeira vez na história – para que o capital e sua ordem pronunciassem os seus nomes próprios, abertamente, numa ideologia que anunciava a chegada do ponto final ao próprio devir, construído, este, sobre as premissas do livre-mercado, para além do qual seria impossível imaginar quaisquer melhorias substanciais.

    Francis Fukuyama deu-lhe expressão teórica mais ampla e ambiciosa enquanto noutras elaborações – mais vagas e populares – também se difundiu uma mesma mensagem: o capitalismo é destino histórico-universal, permanente e inevitável, do gênero humano enquanto tal. Ou “por fora da realização deste destino pleno”, dizia-se, “there is no alternative”. O argumento de ‘O Fim da História e o Último Homem’ foi deslocado em sua mais nova obra, produzida após-invasão do Iraque, a bastante reveladora ‘América na Encruzilhada’. O ‘fim da história’ – de Hegel, Kòjeve, Fukuyama e, até mesmo, do último Anderson – assistira desta forma ao seu próprio final. Se de-há pouco se sentiu anunciar ao que seria a crise à ‘crise do marxismo’ ver-se-ia um fim ao ‘fim da história’.

    A miséria terrena, e pensamento único, da dita “falência das metanarrativas” deu lugar, nada obstante, a um aluvião de novos ares – proveniente daquilo que Marx chamaria o ‘movimento social como um todo’ – e tem permitido novos céus sob assalto da teoria marxista. A crítica espontaneísta, à universalização de sua forma mercantil, presente de modo difuso em várias insígnias anticapitalistas, de Wall Street ao México e da Europa mediterrânea ao mundo árabe, enredou-se a uma crítica teórica e política mais radical à propriedade privada, pista de voo pavimentada pelo autor d’O Capital. As iniciativas de luta contra as expressões fenomênicas da ordem do capital encontra, em perspectiva marxista, um importante pilar. O colapso do stalinismo e o declínio da socialdemocracia expressam uma crise de direção dos dominados; o atoleiro de Washington e de Bruxelas manifestam a crise de hegemonia dos dominantes. O otimismo e o pessimismo não tem lugar em um tempo presente que insiste em intercambiar de lados a medos e esperanças.

    Uma rápida olhada nos catálogos das principais editoras de esquerda em língua inglesa, idioma que assumiu a supremacia linguística do marxismo contemporâneo, vai mostrar que nos terrenos da crítica da economia, da política e da cultura a perspectiva socialista está longe de estar intelectualmente derrotada. Com um cauteloso otimismo e genuína alegria desde o Brasil organizamos, participamos, assistimos a uma série muito animada de colóquios, congressos, tertúlias acadêmicas e lançamentos editoriais associados à efeméride dos 150 anos da edição do Livro I d’O Capital, à comemoração de 100 anos da Revolução de Outubro e os 80 anos de Antonio Gramsci. E muito mais correu mundo.

    Mas o seu contraste é evidente. Não houve qualquer termo de comparação possível em profundidade e extensão – quantidade ou qualidade – de atividades extra-acadêmicas e não-editoriais que tivessem já lugar em sindicatos, movimentos de trabalhadores e/ou partidos identificados com a luta socialista que fossem dignas de nota, infelizmente. Se serve de algo, nos Estados Unidos da América e Europa ocidental, além de consagradas atividades científicas relacionadas à concepção materialista da história, aí, sim, se fizeram notar eventos deste tipo no âmbito de organizações coletivas no terreno político da esquerda socialista radical. Mas, ainda assim, tampouco sem um qualquer vestígio de uma audiência e/ou participação ativa, de massas. São tempos difíceis, é verdade. Mas tampouco foram fáceis, convenhamos!, os anos vividos por Marx e Engels, Lenin e Trotsky, Rosa Luxemburg e Antonio Gramsci. É preciso encontrar saídas e explicações. No ano do 200º aniversário do velho mouro sobretudo é preciso tecer alternativas. Pra já.

    Do desespero convincente à esperança viável
    É possível encontrar dos mais baixos vales, depressão pessimista, aos mais altos cumes, de euforia otimista, no interior da tradição marxista. O exercício de topologia intelectual não deixa de ser algo tal qual sismógrafo político a auscultar o pulso das massas de perto. Salvo ledo engano não poderia haver mais catastrófica preleção sobre o futuro humano do que o alerta de Friedrich Engels para o fato mesmo de que o sistema solar vai ter fim. A absoluta convicção na aniquilação do Planeta e todo o gênero humano sobre a face da Terra, afinal de contas, não é propriamente a mensagem dum ensolarado café da manhã. O destino último para o qual sucessivos militantes – de Blanqui a Lyotard – imaginaram fugas intergalácticas, voos interplanetários e repovoamentos épicos, dignos de melhores constructos da indústria cinematográfica de Hollywood em seus delírios mais fantásticos (se é que Los Angeles ainda é capaz de produzir algo digno de atenção), não encontrou no mais bem-disposto, bem-alimentado dos fundadores do materialismo histórico solução:

    “Milhões de anos podem se passar, centenas de milhares de gerações nascerem e morrerem, mas inexoravelmente chegará o tempo em que o calor declinante  do Sol não será o suficiente para fundir o gelo que vem dos polos, em que a espécie humana, acotovelando-se cada vez mais no centro do globo, já não há de encontrar, nem na Linha do Equador, o calor que torna possível a vida humana, em que esta perecerá, gradualmente, e se extinguirá pari passu todo e qualquer vestigio de vida orgânica, e a Terra, então esta esfera congelada e extinta, ora parecida à Lua, continuará a girar por toda a escuridão infinita mais profunda em órbitas cada vez menores entorno a um Sol também findo e, por fim, juntar-se-á ao defunto Astro.” (Engels, Friedrich, 1965, tradução nossa)

    A sombria mortalha, imagem literária tão portentosa, foi usada por sucessivas vagas de militantes socialistas para referir um destino fatal, mas distante. Rosa Luxemburgo, por exemplo, usava constantemente uma macambúzia alegoria para designar a ativação dos “limites internos absolutos” do próprio capital, em reprodução ampliada, teoricamente verdadeira, como tese, à qual opunha a “luta de classes”, como antagonista derradeiro, muito antes de vir a ser. Tal limite interno era qual a “extinção do Sol” de tão longínquo. Vibrando na mesma frequência desta largura de ondas, Trotsky imaginara um futuro mais que brilhante nos seus escritos sobre Literatura e Revolução para o gênero humano.

    “A sociedade futura irá se destacar da áspera e embrutecedora preocupação do pão de cada dia. Os restaurantes coletivos prepararão, à escolha de cada um, comida boa, sadia e apetitosa. As lavanderias públicas lavarão bem as roupas. Todas as crianças serão fortes, alegres, bem alimentadas e absorverão os elementos fundamentais da ciência e da arte, como a albumina, o ar e o calor do sol”. Assim, “(…) as paixões liberadas irão se voltar para a técnica, para a construção, inclusive da arte, que naturalmente se tornará mais geral, madura, forte, a forma ideal de edificação da vida em todos os terrenos. A arte não será simplesmente aquele belo acessório sem relação com qualquer coisa”. «É difícil prever o espectro da autodeterminação a que o homem do futuro poderá alcançar (…). O homem se tornará incomensuravelmente mais forte, mais perspicaz, mais polido; seu corpo terá uma forma mais harmônica, seus movimentos serão mais dotados de ritmo, sua voz será mais musical.» (…) o próprio corpo humano “(…) será mais harmonioso, seus movimentos mais rítmicos, sua voz mais melodiosa. As formas de sua existência adquirirão qualidades dinamicamente dramáticas. A espécie humana, na sua generalidade, atingirá o talhe de um Aristóteles, de um Goethe, de um Marx. E sobre ela se levantarão novos topos.” (Trotsky, Leon, 1924, tradução nossa)

    É a hora e a vez de prestar atenção aos conselhos do criador do Berliner Ensemble. Já é tempo de deixar o pessimismo marxista para os dias melhores. Em seu poema, Aos que virão, Brecht insiste em que só haveria que desesperar se e quando houvera injustiça sem resistência. E, mesmo nos tempos aparentemente sem resistência, o passado de luta constituiria valor como luz ao fim de um túnel. Recuperar o Dia do Juízo ainda que toda a justiça não se imponha ao final – uma vida dedicada à busca da felicidade do gênero humano continuaria digna de encomio. Não triunfar não é o mesmo que ter fracassado, da mesma forma que não é verdadeiro que bem está / é o que bem chega já a seu termo. Quem não luta com toda força até o fim nunca saberá se evitar o mal era factível ou não.

    Não é à-tôa que sejam tão afamados os escritos de tom messiânico de Walter Benjamin. Uma era de revoluções sociais e transformações políticas não precisaria de tal antidoto. A reputação tão duradoura e estimada da Escola de Frankfurt em geral contrasta com o quasi-desconhecimento, por parte dos marxistas revolucionários, dos estudos culturais do marxismo inglês. Contemporâneos dos autores alemães, foram antipodas, à altura, do que foi este seu Kulturpessimismus. Sem opor a banalidade do otimismo ao pessimismo fatalista, The uses of literacy (1958), de Richard Hoggart, Culture and society (1958), de Raymond Williams, e The making of the English working class (1963), de Edward Thompson, lavraram o terreno que nutria a cultura tal qual uma ensamble intrincada de práxis e, tais práxis, a conformar a atividade vital humana que molda o curso da história.

    Mais vale, como nos conta Williams – em entrevista a Terry Eagleton –, tornar viável a esperança do que convincente o desespero. É preciso distinguir as sementes de vida das sementes de morte. O critério ulterior da razão crítica é, para Williams como para Marx, um ato histórico, e não mental. “You are a Marxist aren’t you?”. Pois então mãos à obra. Como já dissera um outro marxista conterrâneo, o mundo não vai se transformar sozinho.

     

     

    Bibliografia

    Antonio Gramsci. Quaderni del Carcere. Torino, Einaudi, 1975.

    Boris Kagarlitsky. The suicide of New Left Review. International Socialism 2:88, Autumn 2000.

    Duncan Thompson. Pessimism of the Intellect – a History of the New Left Review. London, Merlin, 2004.

    Edward Berstein. Evolutionary Socialism: a criticism and affirmation (Die Voraussetzungen des Sozialismus und Die Aufgaben der Sozialdemokratie.) 1911/2014.

    Eric Hobsbawm. Tempos interessantes: uma vida no séc. XX, Porto, Campo das Letras, 2005.

    Friedrich Engels apud Sebastiano Timpanaro. Classicismo e Illuminismo nell’Ottocento. Pisa, 1965, p.158.

    Gilbert Achcar. The ‘historical pessimism’ of Perry Anderson. International Socialism 2:88, Autumn 2000.

    Gregory Elliot. Perry Anderson: The Merciless Laboratory Of History (Studies in Classical Philology), Penguin, London, 1998.

    Leon Trotsky. Literatura y Revolución. Buenos Aires, RyR, 2014.

    Louis Althusser. Lire le Capital, Presses Universitaires de France, Collection « Quadrige », 1996.

    Jean Paul Sartre. Critique de la Raison dialectique, Tome I, Paris, 1960.

    Paul Blackledge. Perry Anderson, Marxism and the New Left. London, Merlin, 2014.

    Perry Anderson. Considerations on Western Marxism. London, Verso, 1974

    Raymond Williams / Terry Eagleton. Recursos de Esperança: cultura, democracia, socialismo. Trad. Nair Fonseca e João Alexandre Peschanski. SP: Unesp, 1989/2014.

    Terry Eagleton. Esperanza sin Optmismo. Taurus, Buenos Aires, 2015.

    Theodor Adorno e Max Horkheimer. Fragmentos Filosóficos. 1947. (Dialektik der Aufklärung – Philosophische Fragmente), várias edições.

    Walter Benjamin. Theses on the Philosophy of History (also On the Concept of History, from German: Über den Begriff der Geschichte), 1940, várias edições.

  • México: Lopez Obrador à beira de vencer as eleições neste domingo

    No próximo domingo, dia 1º de julho, véspera do confronto entre as seleções do Brasil e do México na Copa do Mundo de futebol, os mais de 89 milhões de eleitores mexicanos irão comparecer às urnas para escolher o futuro presidente da República, 128 senadores e 500 deputados federais.

    O atual governo, de Enrique Peña Nieto, do PRI (Partido da Revolucionário Institucional), é amplamente rejeitado pela população mexicana, tanto pela crise econômica dos últimos anos – a dívida pública equivale a 46,4% do seu PIB -, com o também pela presença de grandes escândalos de corrupção, envolvendo o atual presidente e a cúpula do PRI.

    Andrés Manuel Lopez Obrador (AMLO), candidato oposicionista pela aliança “Juntos Haremos História” – formada pelo seu partido, o Movimento de Regeneração Nacional (MORENA), o Partido Trabalhista (PT) e o Partido Encontro Nacional (PEN) -, vem liderando todas as pesquisas de opinião. Visto como uma candidatura de esquerda, AMLO chega a abrir uma diferença de 10% a até 26% para o segundo colocado, o candidato do Partido da Ação Nacional (PAN), apoiado pelo PRD, Ricardo Anaya.

    Em terceiro lugar, aparece o candidato governista, José Meade (PRI). Existe ainda outros dois candidatos que se apresentam como independentes, Jaime Heliódoro e Margarita Zavala (esposa do ex-presidente Felipe Calderón), mas que não possuem chances de vitória.

    As eleições presidenciais no México possuem uma grande particularidade, afinal não existe segundo turno. Ou seja, o mais votado, mesmo não obtendo mais da metade dos votos, é declarado como eleito. Os mandatos presidenciais são de seis anos, sem direito a reeleição.

    Pesquisa do jornal Reforma

    Pesquisa do jornal Reforma


    A importância das eleições: assassinatos e fraudes

    O México é um dos mais importantes países da América Latina. Com mais de 124 milhões de habitantes, é a segunda maior economia latino-americana, com uma atividade econômica muito diversificada, e possui um Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 1,14 trilhão, atrás apenas do Brasil na região.

    Diante da ofensiva de Trump contra o país, muitas questões relacionadas à soberania do México estão cruzando os debates das eleições atuais, especialmente a questão da imigração e a construção do muro, as consequências econômicas do NAFTA [1], as privatizações, a questão da dívida pública e a questão indígena.

    Por outro lado, a candidatura de AMLO pode derrotar o PRI, um partido cuja história se confunde com a própria história do regime político mexicano, marcado pela corrupção, violência e autoritarismo. Embora busque ter como referência a grande Revolução Mexicana de 1910, foi pelas mãos do PRI que o México viu sua soberania ser totalmente entregue, principalmente ao imperialismo dos EUA. Com o tempo, o PRI se tornou o partido de importantes oligarquias. Controlou o poder no México por mais de 70 anos -, maior tempo que um partido governou um país latino-americano. Assim, muita coisa está em jogo nessas eleições.

    Não é à toa que a atual campanha eleitoral está marcada fortemente pela violência. Segundo dados oficiais, 122 candidatos e pré-candidatos foram assassinados, de setembro de 2017 até agora, configurando-se nas eleições mais sangrentas da história mexicana.

    Outra questão relevante são as fraudes. Nas últimas duas eleições para presidente da República AMLO perdeu, sob fortes indícios de fraudes. Em 2006, ele perdeu para o ex-presidente Felipe Calderón (PAN), por apenas 0,5% de votos. Em um escândalo político que gerou fortes protestos, logo em seguida do anúncio do resultado. Novamente, em 2012, AMLO perdeu as eleições para o atual presidente, Enrique Peña Nieto (PRI), com uma diferença de menos de 7% dos votos. E, novamente, existiram muitos indícios de fraudes no pleito.

    As denúncias de fraudes se dirigem principalmente contra o PRI. Nas últimas décadas, os priristas perderam a Presidência da República apenas por dois mandatos. Nas eleições de 2000, perde para Vicente Fox (PAN), primeira derrota desde 1910. Em 2006 perdeu para Felipe Calderón (PAN). O candidato do PRI, Roberto Madrazo, ficou em terceiro lugar, atrás de López Obrador (PRD).

    Houve expectativas de mudanças políticas com a saída do PRI do poder, mas foram totalmente frustradas pelos governos neoliberais do PAN. Nas últimas eleições, em 2012, o PRI retoma a Presidência da República, com a eleição do atual presidente, Enrique Peña Nieto, um processo mais uma vez envolto novamente a acusações de fraudes eleitorais.

    Quem é AMLO?
    López Obrador não é um candidato da esquerda tradicional. Nunca militou num partido de esquerda a exemplo do Partido Comunista, ou mesmo num partido classista como foi o PT no Brasil. Ele tem suas raízes no chamado nacionalismo revolucionário mexicano, representado pelo PRI, partido fundado pelo ex-presidente Lázaro Cárdenas, que governou o México entre 1934 e 1940, e promoveu reformas importantes no Estado, a exemplo de Getúlio Vargas no Brasil e Perón na Argentina.

    AMLO adere ao PRI em 1976. Em 1989, ele entra para o PRD – Partido da Revolução Democrática, fundado neste ano, juntando dissidentes do PRI com setores da esquerda reformista mexicana, como comunistas e socialistas. Assim como o PRI, a nova agremiação filia-se à Internacional Socialista.  

    Líder do PRD entre 1996 a 1999, foi eleito governador do Distrito Federal – Cidade do México, ocupando o cargo entre os anos de 2000 a 2005. Em julho de 2005 ele renuncia ao governo da capital para disputar as eleições presidenciais de 2006.

    Nas duas vezes em que disputou as eleições presidenciais, AMLO concorreu pelo Partido da Revolução Democrática (PRD). Em setembro de 2012, logo depois de sua segunda derrota eleitoral para a Presidência da República, AMLO deixou o PRD e se somou à fundação do MORENA.

     

    A possibilidade de um governo AMLO

    Obrador tem sido um crítico do modelo neoliberal. Tem um discurso nacionalista, principalmente no terreno econômico. Defende que as riquezas naturais do país, como o petróleo e a água, continuem sob o controle do Estado. Em seus discursos anuncia frear as privatizações e recuperar a PEMEX, companhia de petróleo do México. Propõe fazer ajustes, reformas econômicas e políticas que permitam redistribuir a riqueza. É um forte defensor das causas indígenas.  

    AMLO é apresentado por parte da imprensa internacional como uma ameaça esquerdista, uma espécie de “Chávez” mexicano. Mas, longe de um programa anticapitalista, tanto sua gestão frente da Cidade do México como seus compromissos programáticos na atual campanha, demonstram que ele não tem a pretensão de realizar um governo que rompa até o final com os interesses da elite política e econômica mexicana, que sempre teve fortes laços com o imperialismo dos EUA.

    Recentemente, ele foi chamado de “Lula mexicano”, pelo jornalista brasileiro Clóvis Rossi, do jornal Folha de S. Paulo. De fato, assim como ex-presidente Lula, que na campanha eleitoral de 2002 firmou a chamada “Carta ao Povo Brasileiro” – na verdade um compromisso de manter intactos os interesses da elite econômica, em especial do capital financeiro – AMLO acaba de fazer o seu compromisso com mercado.

    No mês de abril AMLO publicou no Jornal El Financiero uma “Carta aos Investidores”, se comprometendo com uma política econômica de rigor fiscal, autonomia do Banco Central e respeito à propriedade privada. Ele busca acalmar os ânimos dos grandes empresários e banqueiros mexicanos, além dos norte-americanos e europeus, ao demonstrar que seu governo não vai representar uma ameaça ao status quo.

    De toda forma, um governo AMLO (MORENA), apesar de seus limites políticos e programáticos evidentes, sem dúvida nenhuma aumentaria as contradições entre o México e os EUA. Esse é o caso, por exemplo, da questão da validade de alguns termos do NAFTA, uma crise que se intensificou com a chegada de Trump na Presidência dos EUA. O mesmo para as privatizações, a imigração e o novo “muro da vergonha”.

    Mobilizar contra as fraudes eleitorais
    A importância de sua vitória nas eleições do próximo domingo reside na forte expectativa de mudança que esse fato histórico vai gerar no povo trabalhador e na juventude mexicana, que em outros momentos já protagonizaram importantes processos de mobilização popular. Além da luta dos zapatistas, houve especialmente fortes lutas dos movimentos ligados à defesa da educação pública.

    A maioria dos trabalhadores e da juventude mexicanas já definiu seu voto em AMLO. A esquerda socialista mexicana deve se apoiar neste enorme sentimento de mudança, apostando “suas fichas” na ampliação das lutas dos trabalhadores no próximo período.

    Isso começa por exigir que AMLO e o MORENA impulsionem um processo de mobilização que barre as fraudes organizadas pelo PRI e seus aliados, um fato que pode comprometer sua própria vitória. Pelas experiências anteriores, está provado que só a mobilização popular pode garantir que a vontade do povo expressa nas urnas seja respeitada. A mesma força que poderá impor para um futuro governo AMLO as mudanças que tanto necessitam e anseiam a maioria da população mexicana. Um México justo, soberano e voltado para os interesses dos trabalhadores e do povo.

    NOTAS

    [1] Sigla em inglês de North American Free Trade Agreement (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio), um bloco econômico formado pelos EUA, Canadá e México.

  • Mike Pence, vice-presidente dos EUA, encontra-se com Temer no Brasil

    O encontro de Mike Pence e de Temer no Brasil teve como pauta pública a situação das 50 crianças brasileiras separadas de seus pais pela imigração norte-americana e a suspensão da Venezuela na OEA. Pela conturbada situação brasileira, com certeza houve outros acordos foram discutidos, mas sem dúvidas, esses dois temas são bastante sensíveis.

    Nas duas últimas semanas, apesar das principais manchetes da grande mídia mundial estarem voltadas para a Copa do Mundo, uma notícia chocou todo o planeta: a prisão de crianças detidas em jaulas animalescas no território norte-americano. Até mesmo analistas e jornalistas de grandes empresas de comunicação se emocionaram com a brutalidade da política anti-imigrantes do governo de Donald Trump, a exemplo de Rachel Maddow, a jornalista âncora da rede americana MSNBC, que chorou de forma descontrolada ao vivo, ao ler a notícia sobre as crianças separadas dos pais nos EUA.

    Os registros são de que mais de 2.500 crianças foram arbitrariamente separadas dos seus pais, desesperados imigrantes latinos a maioria mexicanos e centro-americanos, que tentavam ultrapassar a fronteira do México com os Estados Unidos, em busca de uma última alternativa de sobrevivência e foram presos e encarcerados pela polícia norte-americana. As fotos de crianças tristes e enjauladas, separadas de seus pais e até mesmo dos seus brinquedos, são terrivelmente grotescas e lembram de fato as notícias do Terceiro Reich do regime nazista da Alemanha de Hitler.

    A lei norte-americana estabelece que qualquer imigrante que seja detido sem visto de entrada nos EUA seja imediatamente preso e tenha iniciado um processo penal federal. Tal norma já existia no governo de Obama. Ocorre que os imigrantes respondiam judicialmente em liberdade, mas com a “política de tolerância zero” de Trump, os imigrantes, até mesmo acompanhados dos seus filhos passaram a responder o processo, já presos, enquanto as crianças estavam sendo confinadas nas jaulas, chamadas de “abrigos”.

    A repercussão negativa com as imagens das crianças em todo mundo e internamente foram tão pesadas que o governo recuou provisoriamente diante do escândalo. Mas não nos enganemos, a linha política do governo Trump e seu vice Mike Pence são baseadas na explícita xenofobia contra os povos latino-americanos e países de maioria muçulmana. Basta lembrar que faz parte do plano desse governo a construção de um muro de concreto que separe definitivamente a fronteira com o México, país cuja economia os EUA ajudaram a arrasar com o seu Tratado de Livre Comércio da América do Norte, o NAFTA. Bem como o Decreto Presidencial de restrição de ingresso de cidadãos de nacionalidades do Irã, Líbia, Iêmen, Somália, Síria, Venezuela e Coreia do Norte, anteriormente totalmente repudiado pelos protestos massivos nos aeroportos e agora legalizado pela Suprema Corte.

    No caso das crianças brasileiras Pence sinalizou facilidades de transferência, mas nada concreto com relação aos pais, ocorre que seu objetivo de viagem era enquadrar o Brasil num maior cerco diplomático e político para a futura suspensão definitiva da Venezuela da OEA, na mesma linha que já fora adotada no Mercosul.

    EUA quer fechar o cerco à Venezuela e quer apoio do Brasil
    Estranhamente, ao passo que aprisionam os pais, as mães e suas crianças imigrantes latino-americanos em seu território, o governo Trump/Pence se declaram “solidários” com os imigrantes venezuelanos no Brasil. Por que será que Mike Pence veio ao Brasil para promover missões “humanitárias”?

    Na Venezuela, Maduro conseguiu derrotar a ofensiva da direita, instalando a Assembleia Constituinte. A Frente Patriótica (aliança eleitoral do PSUV com outros setores da esquerda como o PCV, PPT, além de outros), conseguiu venceu com larga margem as eleições estaduais (outubro/2017), as municipais (dezembro/17) e, mais recentemente, as presidenciais (maio/18).

    Embora na Venezuela, o governo mantenha o apoio majoritário na sociedade e principalmente nos setores mais populares, o cerco imperialista ao país é cada vez maior. A retomada dos preços do petróleo poderia dar um novo fôlego à economia daquele país que vem sendo castigado por uma queda decenal vertiginosa do preço do barril, mas o imperialismo amplia cada vez mais as sanções econômicas buscando aprofundar a crise social que se reflete no aumento da imigração, e já não descarta abertamente a hipótese de intervenção externa.

    A constituição do chamado Grupo de Lima, em agosto de 2017, diante das dificuldades da OEA para aplicar a chamada Carta Democrática devido ao grande número de países, principalmente do Caribe, vai nesse sentido. Importante alertar que, em 2018, a situação se agravou ainda mais, já que em 25 de junho, a OEA conseguiu finalmente aprovar o pedido para invocar a Carta Democrática contra a Venezuela. Resta agora realizar uma assembleia para suspendê-la do organismo deixando-a completamente isolada cujas consequências se percebe desde já com o desabastecimento promovido por grandes importadoras de bens de consumo populares.

    Por outro lado, esse fato se dá logo em seguida à entrada da Colômbia na OTAN, em maio de 2018. Neste ano também, no início de junho, ocorreram negociações entre os EUA e o Brasil visando retomarem a utilização da plataforma de lançamento de foguetes da base de Alcântara (MA). Coincidentemente, o vice-presidente dos EUA, Mike Pence, veio ao Brasil para tratar com Temer a questão da suspensão da Venezuela na OEA. Estará ele mesmo preocupado com a situação humanitária dos venezuelanos? Sinceramente, pensamos que não.

    Foto: Temer e Mike Pence. José Cruz/Agência Brasil

     

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    Imigração: Nenhum ser humano é ilegal

     

     

  • Imigração: Nenhum ser humano é ilegal

    Nos últimos dias, o mundo tomou contato com a face mais cruel da política antimigratória do governo Trump (EUA), ao se multiplicarem imagens de algumas das milhares de crianças separadas de seus familiares e mantidas em jaulas. As pressões internas e externas fizeram com que o presidente assinasse na quarta-feira, 20, uma ordem executiva suspendendo as medidas de separação. Esse pequeno recuo, entretanto, não significou o abandono da chamada política de “tolerância zero”, que prevê que todos os imigrantes adultos que não tenham visto sejam processados criminalmente, nem levou os EUA a retornarem ao Conselho de Direitos Humanos da ONU, do qual haviam se retirado no dia anterior. O “recuo” de Trump evita que as crianças sejam separadas de seus pais, mas todos ficarão em campos de detenção, lembrando cenas como o tratamento dado às famílias japonesas durante a Segunda Guerra Mundial.

    Essas medidas do governo Trump constituem apenas mais um exemplo, ainda que particularmente dramático, do esforço da extrema-direita em muitos dos países centrais do capitalismo, que mobiliza ideias racistas e xenófobas para culpar os imigrantes pela escassez de empregos e pelas dificuldades econômicas. Essa postura, no entanto, não encontra nenhum respaldo em dados objetivos. Por um lado, essa posição oculta a crise econômica capitalista mundial que se desenrola desde 2007-8. Tendo como epicentro, justamente, os países centrais, a crise já se estendeu ao conjunto do globo, atingindo com grande força os países dependentes, cujas economias são estruturalmente mais frágeis.

    Por outro lado, o último relatório Tendências globais da ACNUR (Agência da ONU para os Refugiados) indicou que, até o final de 2017, cerca de 85% dos 68,5 milhões de deslocados forçados (pessoas que fogem de guerras e perseguições) encontrava-se nos países dependentes e/ou mais pobres. Indo além, grande parte dessas pessoas são oriundas de países como Afeganistão e Síria, devastados por guerras que tiveram participação decisiva das principais nações imperialistas.

    Portanto, longe de serem responsáveis pelos problemas enfrentados pelas populações dos países mais ricos, os migrantes são alguns dos principais atingidos pela dinâmica da crise capitalista mundial e pelo belicismo imperialista. Esta política de Trump e de líderes xenófobos na Europa é uma face da opção política que parte significativa do imperialismo adota para enfrentar a grave crise capitalista.

    A crise venezuelana e os refugiados no Brasil
    Também no Brasil, não é incomum verificarmos a presença de pessoas que buscam abrigo de situações dramáticas. Na última década, foi especialmente significativa a chegada de haitianos e sírios, fugindo, respectivamente, das devastações relacionadas a um terremoto e uma guerra civil.

    Mais recentemente, vem aumentando continuamente o número de imigrantes oriundos da Venezuela, que buscam escapar da crise política e econômica que atravessa aquele país. Apenas Boa Vista, capital de Roraima, já conta com 25 mil refugiados venezuelanos, correspondendo a 7,5% da população da cidade. Muitos em situação precária, como atestou a caravana recente da CSP-Conlutas. De 2015 a abril de 2018, já foram apresentados mais de 30 mil pedidos oficiais de refúgio por venezuelanos ao governo brasileiro.

    Tal como nos EUA e nos demais países centrais, a direita brasileira busca explorar politicamente essa situação. Não são incomuns, por exemplo, os pronunciamentos que responsabilizam direta e unicamente o governo venezuelano de Nicolás Maduro por essa situação. Trata-se de uma posição absolutamente unilateral. Mais uma vez, se desconsidera a dinâmica global de crise capitalista, além de apagar o papel ativo dos EUA no financiamento e no apoio às forças mais reacionárias da oposição venezuelana, que atuam abertamente para aprofundar a desestabilização do país, e no bloqueio criminoso, que, premeditadamente, acelerou o desabastecimento naquele país.

    Diante desse cenário, algumas das propostas mais cruéis, como não poderia deixar de ser, saíram da boca de Jair Bolsonaro, pré-candidato à Presidência pelo PSL. Em entrevista concedida em março de 2018 ao jornal Estado de São Paulo, Bolsonaro afirmou que o Brasil já teria problemas demais e não deveria se responsabilizar pelos refugiados. Segundo ele, a solução seria apenas revogar a lei de imigração e construir campos de refugiados, o que aproximaria o país das medidas implementadas nos EUA. No dia 20, o deputado federal Marco Feliciano (PSC), defendeu Donald Trump, dizendo que ele “estava apenas cumprindo a lei”.

    Um programa da classe trabalhadora para a imigração
    Em face da gravidade da situação dos imigrantes em nível mundial, é preciso retirar esse tema das mãos da direita e da extrema-direita. Toda e qualquer saída repressiva deve ser repudiada.

    Além de ser ponto de chegada para haitianos, sírios e venezuelanos em busca de melhores condições, o Brasil é, ao mesmo tempo, grande ponto de partida para milhões de emigrantes. Enfrentando os efeitos de uma grave crise econômica, política e social, 62% dos jovens entre 18 e 24 anos do país declararam, em recente pesquisa, que deixariam o país se pudessem.

    Não é a toa que, neste momento, 49 crianças brasileiras estão separadas de seus familiares, em abrigos nos EUA. O caso mais grave é de um menino de cinco anos, em um abrigo no Texas.

    O governo Temer permanece alinhado e submisso ao governo Trump, cúmplice de atitudes como essa. Devemos exigir que se posicione a favor da condenação dos Estados Unidos na ONU, por gravíssima violação dos direitos humanos.

    Em linhas gerais, uma política migratória a serviço das lutas da classe trabalhadora e dos setores oprimidos deve se pautar pela solidariedade irrestrita aos migrantes e pela constante denúncia do capitalismo e do imperialismo. Partindo da palavra de ordem “Nenhum ser humano é ilegal”, já levantada por movimentos sociais em diversos países, deve-se defender a completa abertura das fronteiras nacionais a todos que buscam fugir de guerras, perseguições e dificuldades econômicas.

    A circulação dos imigrantes não pode, entretanto, se converter em uma fonte de força de trabalho precária e mal remunerada para os capitalistas. Por isso, é preciso, também, defender, em todos os países, o completo acesso de todos os imigrantes aos direitos sociais e garantir a equidade das condições de trabalho e remuneração em relação aos trabalhadores nacionais.

  • Três meses sem Marielle e Anderson

    Hoje, 14 de junho de 2018, completam-se três meses do brutal assassinato de Marielle Franco. Pela militância no PSOL e nas causas das mulheres, das LGBTs, dos negros e da juventude periférica, Marielle foi a quinta vereadora mais votada no Rio de Janeiro em 2016. Como militante, assessora parlamentar, coordenadora da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ) e vereadora, ela enfrentou as máfias políticas e empresariais que dominam o estado há décadas. Também por essa militância, se tornou alvo de uma execução cuidadosamente planejada e profissionalmente realizada, que culminou, ainda, com a morte do motorista Anderson Gomes.

    Sendo ela mesma um dos maiores símbolos do protagonismo assumido por mulheres, negros e LGBTs nas mais recentes mobilizações sociais do Brasil, o seu assassinato marcou um novo momento da luta de classes no país. Um momento em que a extrema-direita, quase sempre organizada em grupos para-estatais, passou a recorrer diretamente à violência armada contra as lideranças políticas de maior projeção da esquerda, até mesmo nas principais cidades brasileiras. Embora os assassinatos de lideranças dos movimentos sociais, especialmente no campo, sejam uma constante em nossa história, trata-se, sem dúvida, de uma mudança de qualidade, que ficou evidente, também, nos atentados a tiros contra a caravana de Lula no Rio Grande do Sul e contra o acampamento Marisa Letícia em Curitiba.

    A intervenção militar e o ataque à memória de Marielle
    Não bastasse a imensa violência contida no próprio crime, imediatamente após a sua morte, o governo federal atacou violentamente a memória de todas as lutas de Marielle, ao tentar se servir de seu assassinato para legitimar a intervenção militar na Segurança Pública do estado do Rio de Janeiro, decretada em 16 de fevereiro. Até o momento, essa intervenção produziu apenas mais da mesma política diuturnamente combatida por Marielle: cercos e operações arbitrárias nas favelas, tiroteios e mortes, em suma, uma guerra aos pobres mascarada de guerra às drogas.

    Na Maré, conjunto de favelas em que Marielle cresceu, as primeiras operações sob comando das Forças Armadas foram marcadas por trocas de tiros em horário escolar e rajadas de metralhadoras disparadas de um helicóptero da Polícia Militar em meio às casas, escolas e estabelecimentos comerciais da região. Na Vila Kennedy, uma das vitrines da intervenção, a ação de maior impacto foi a derrubada de quiosques de comerciantes locais sem qualquer conexão com a criminalidade. Por fim, aquela que foi apresentada como a maior operação de combate às milícias da cidade, com a prisão de quase 50 pessoas em uma festa em Santa Cruz, se revelou um grande fiasco, dada a ausência de provas substanciais contra a imensa maioria dos detidos.

    Como seria de se esperar, passados mais de três meses da decretação da intervenção, esse conjunto de ações não gerou nenhuma diminuição efetiva dos índices de criminalidade do estado. Tampouco foram solucionados os assassinatos de Marielle e Anderson. Permanecemos sem resposta para as perguntas que nos perseguem desde a noite de 14 de março: quem matou Marielle e Anderson? Quem mandou matar Marielle e Anderson?

    Em busca de respostas, a luta continua
    A ausência de respostas até o momento não será suficiente para calar a nós e a todas e todos a quem a luta de Marielle inspirava. É uma tarefa inadiável do conjunto do movimento social e das organizações combativas permanecer cobrando por resultados na investigação desse crime bárbaro. Os assassinos, seus cúmplices e os mandantes devem ser criminalmente responsabilizados.

    Entretanto, nossa luta deve ser ainda mais ampla. A esquerda socialista, com especial responsabilidade do PSOL, deve ser coletivamente responsável por manter tremulando as bandeiras às quais Marielle dedicou sua vida. Devemos transformar, cada vez mais, nosso luto em luta. Nesse momento, essa luta é encarnada prioritariamente tanto pela defesa das liberdades democráticas e o combate à intervenção militar, que impulsiona o extermínio do povo pobre e negro nas favelas, quanto pela resistência às contrarreformas do governo Temer, que precarizam as condições de vida da classe trabalhadora, incidindo de forma mais cruel nas vidas dos setores mais oprimidos da classe, como as mulheres, as LGBTs e os negros.

    Foto: Mídia Ninja

  • Hoje somos todas argentinas. Em defesa do aborto legal, seguro e gratuito

    Nesta quarta-feira, 13, o Congresso Nacional da Argentina vota o projeto de lei sobre o aborto e uma grande maré verde de mulheres tomará conta da capital, Buenos Aires. Vamos juntas com nossas hermanas para as ruas no Brasil. A América Latina vai ser toda feminista!

    É tempo de resistência em diversas partes do mundo, contra a brutalidade das condições de vida das mulheres trabalhadoras! A ofensiva do capital se traduz concretamente na retirada de direitos trabalhistas, na precarização de serviços públicos de saúde, de educação, no aumento de subempregos e das taxas de desemprego. A carga tão pesada que sempre recaiu sobre as costas das mulheres no capitalismo piorou intensamente e por isso a luta feminista tem que caminhar lado a lado com a luta da classe trabalhadora de conjunto. Entendemos que a legalização do aborto é combinada a luta pela garantia de serviços públicos que garantam, com qualidade, educação sexual nas escolas para conscientizar e decidir, distribuição de anticoncepcionais para não abortar e aborto legal, seguro e gratuito para não morrer.

    O aumento do conservadorismo é parte da crise econômica e social que se alastra pelo mundo e a todo momento procura desviar a barbárie causada pelo capital, culpando imigrantes, negros e negras, lgbts, mulheres, oprimidos e oprimidas de forma geral por essa vida miserável que leva a classe trabalhadora.

    No Brasil vivemos um verdadeiro extermínio do povo preto e pobre, sob o falso argumento do combate ao tráfico de drogas. É responsabilidade da burguesia e de seus governos, que o aumento do homicídio de negros e negras tenha crescido 23%, contrastando com a queda em 6,8% dos homicídios de pessoas não negras.

    Foi assim com Claudia em 2014, quando o camburão da Polícia Militar arrastou seu corpo por vias públicas no Rio de Janeiro. Cláudia, presente! Há poucos dias a grande imprensa brasileira noticiou um crime bárbaro contra uma mulher, moradora de rua em São Paulo, submetida a uma laqueadura e esterilizada compulsoriamente, por ordem do Ministério Público, que justificou o crime pelo fato da mulher ser dependente química e já ter outros filhos.

    Jair Bolsonaro, um político fascista, faz declarações misóginas constantemente em espaços públicos. Para ele, mulheres devem ganhar menos porque engravidam e gozam de licença maternidade; para ele, gerar uma filha é sintoma de espermatozóide fraco. A “bancada da Bíblia”, cada vez maior e mais ousada no Congresso, tem como um dos principais alvos de sua fúria moralista a luta feminista pela descriminalização e legalização do aborto. Estão ativos na ofensiva para combater a legislação já tão restrita a interrupção da gravidez no Brasil. Com o projeto escola sem partido tentam criminalizar educadoras e educadores que apresentam o debate de gênero e sexualidade nas escolas, como se fosse doutrinação.

    O aborto é uma prática cotidiana na vida das mulheres, a legalidade ou ilegalidade não tem muita interferência sobre nossa decisão. Mas interfere sobre as consequências para a nossa saúde. Hoje, a cada minuto uma mulher aborta no Brasil, sendo cerca de meio milhão de mulheres por ano. Ao todo, 48% dessas mulheres vão parar no hospital devido a abortamentos inseguros. O abortamento inseguro provoca 602 internações diárias por infecção, 25% dos casos de esterilidade e 9% dos óbitos maternos, sendo a terceira causa de mortes maternas no Brasil. Acontece cerca de uma morte a cada 11 minutos por abortamento inseguro.

    No mundo são realizados cerca de cinco milhões de abortos ao ano, sendo 97% em países onde o aborto é ilegal. Se consideradas as negras e pardas juntas, elas realizam cerca de três vezes mais abortos que as mulheres brancas, morrem ou sofrem sequelas três vezes mais também.

    É tempo de resistência, hermanas! O capitalismo, sob sua face machista e misógina, tenta controlar nossos corpos, um direito elementar de todo ser humano. Dizem que a gravidez não desejada é culpa da mulher, que o estupro é culpa da mulher, que o feminicídio é culpa da mulher. Nós dizemos: a culpa nunca é da vítima! Nos querem belas, recatadas e do lar. Mas somos bravas, da luta e das ruas! Maternidade é uma escolha, o corpo é nosso!

    Eles querem nos calar. Mataram Marielle, preta, bissexual, feminista, de esquerda, defensora da legalização do aborto, parlamentar com projetos voltados à saúde da mulher. Mal sabiam que Marielle é semente e sua luta brota em cada uma e em todas nós. Marielle presente, hoje e sempre!

    A vitória das nossas companheiras irlandesas, mesmo sob o signo de um forte conservadorismo católico, as mobilizações das chilenas e a vitória tão próxima aí na Argentina, fazem pulsar nosso sangue feminista, oxigenam nosso corpo para a luta, nos fazem crer que a solidariedade feminista internacional é mais forte e mais viva do que nos domesticaram a acreditar! Legalizar o aborto, mais do que possível, é necessário. Pelas que morreram vítimas da clandestinidade, por nós e pelas que virão. Vivas nos queremos e permaneceremos!

    Nosso ato aqui no Brasil é um pedaço do ato aí na Argentina. Estamos com nossos lenços verdes, nossas vozes e nossos punhos erguidos juntos aos de vocês. Vamos juntas porque a América Latina vai ser toda feminista! Nenhuma a menos! Viva a Resistência Feminista Latina!

    *Anna Carolina é professora no Rio de Janeiro (RJ) e da Comissão de Mulheres da Resistência/PSOL

    FOTO: Ato em Buenos Aires, no dia 04 de junho. Prensa Obrera

     

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  • Intervenção militar nunca irá garantir democracia e fim da corrupção

    Defensores do regime militar repetem o mesmo discurso mentiroso usado no golpe de 1964

    Vários vídeos inundam as redes sociais defendendo uma intervenção militar em nosso país. Infelizmente, eles estão ganhando ainda mais audiência. Os setores mais arrivistas da extrema-direita se aproveitam do verdadeiro ódio popular em relação ao governo ilegítimo de Temer, para defender sua derrubada pela via de um novo regime militar. Ou seja, defendem uma alternativa ainda mais reacionária para o país.

    Mas, o que chama a atenção, é que mais uma vez os defensores da ditadura repetem o mesmo discurso farsante de que a intervenção militar seria a única saída possível para acabar com a corrupção e, incrivelmente, garantir a democracia.

    Nada novo. Este foi exatamente o mesmo discurso usado pela elite militar e seus apoiadores em 1964, para justificar e tentar legitimar o golpe e o início do regime da ditadura militar. “Ressurge a democracia” – essa era a manchete estampada na primeira página do jornal O Globo, no dia 1º. de abril de 1964.

    O discurso do momento apresenta sua requentada proposta de ditadura militar, tentando camuflar o que é impossível esconder. Falam que os militares ficariam no poder pouco tempo, fechariam o Congresso, mas só para impedir que os políticos corruptos continuem nos seus mandatos e não possam mais concorrer. E, depois deste período, segundo eles de transição, organizariam novas eleições apenas com os políticos “fichas limpas”.

    Evidentemente, ninguém vai defender uma intervenção militar dizendo o que de fato ela representa. Ou seja, que os militares irão cassar, perseguir, torturar e assassinar todos e todas que se levantem contra esse regime opressor e ditatorial. Nem vão anunciar que os militares ficarão no poder por mais de 20 anos, sem eleições presidenciais.

    Pois é, esse mesmo discurso mentiroso foi utilizado para ganhar a opinião pública para apoiar o golpe. Também em 1964 se falou que os militares ficariam apenas um ano no poder, e organizariam uma eleição presidencial democrática em 1965. Ficaram no poder até 1985.

    A única consequência política real de uma intervenção militar é uma ditadura: que significa, na prática, o fechamento do regime político, o fim das liberdades democráticas, a perseguição aos sindicatos, ao movimento estudantil, aos movimentos sociais e aos partidos políticos; enfim, silenciar toda crítica e oposição.

    O atual regime democrático carrega um forte componente autoritário. É evidente que não devemos defender o regime político como está. O máximo que temos hoje é uma democracia para os ricos e poderosos, alijando, na prática, a maioria da população de plenos direitos sociais e políticos. Mas, a saída não é acabar com os já mínimos espaços democráticos existentes. Ao contrário, avançar cada vez mais para um regime político que garanta espaços democráticos cada vez maiores e significativos para a maioria da população.

    Corrupção é uma marca da ditadura militar
    Junto com a farsa de que a intervenção militar seria uma transição para uma verdadeira democracia, logo aparece o discurso de que ela seria também a única forma efetiva de acabar com a corrupção na política brasileira.

    As duas décadas de ditadura no Brasil são uma confirmação mais inequívoca de que não existe nenhuma relação entre militares no poder e fim da corrupção. Justo o oposto, nos anos da ditadura militar brasileira se acumularam os escândalos de corrupção.

    Além de inúmeras falcatruas e negociatas que envolviam militares de altas patentes e que ocupavam postos chaves no regime, o que é comum em todo o período é que nenhum destes escândalos foi seriamente investigado, com seus principais responsáveis, corruptos e corruptores, realmente punidos. Mesmo atualmente, não é surpresa pra ninguém que existam denúncias de corrupção no interior das Forças Armadas brasileiras.

    No início desta semana, veio a público mais uma confirmação “insuspeita” sobre a presença constante da corrupção quando os militares ocuparam o poder. Um telegrama da Embaixada dos EUA no Brasil, direcionado ao seu governo, datado de março de 1984, afirma que justamente a forte presença de corrupção nos governos militares minou a popularidade do regime e do último presidente militar, General Figueiredo.

    A Embaixada dos EUA afirma, ainda, como sempre, preocupada com a defesa do regime militar, que a oposição da época iria utilizar cada vez mais as denúncias de corrupção para defender o final deste regime.

    Que o povo decida
    Cada vez mais, a bandeira do Fora Temer deve estar nas mãos do povo trabalhador e da esquerda socialista. Não temos nenhum motivo para defender que este presidente ilegítimo permaneça no cargo. A direita mais tradicional, com Alckmin e Rodrigo Maia, e a extrema-direita, com Bolsonaro, não têm moral para levantar essa bandeira, pois apoiaram o golpe parlamentar do Impeachment, a posse de Temer e seu programa contra o povo.

    Ao defender a saída de Temer, devemos repudiar qualquer outra manobra reacionária, como uma eleição indireta via Congresso Nacional – para substituir Temer por Rodrigo Maia ou, pior, a famigerada defesa da intervenção militar.

    Nossa proposta é que o povo decida, em uma eleição realmente livre, democrática e com novas regras, tanto para Presidente da República, como para todo o Congresso Nacional. Defendemos a libertação de Lula e o direito dele concorrer, pois foi condenado sem provas, em uma operação política que é parte do golpe parlamentar.

    A nossa defesa dos direitos democráticos de Lula não se confunde com o apoio ao seu projeto político. Somos contra a reedição das alianças com a velha direita e aplicação de um programa que não rompa com os interesses dos ricos e poderosos, aplicados pela direção do PT nos 13 anos que administraram o país.

    O povo trabalhador, a juventude e o conjunto dos explorados e oprimidos têm alternativa: Guilherme Boulos e Sônia Guajajara, para Presidência da República, pela aliança inédita entre partidos de esquerda e movimentos sociais combativos, formada pelo MTST, PSOL, PCB, APIB, entre outros movimentos e organizações.

    Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

  • O dia em que o pedido de “intervenção militar” ganhou as ruas

    Depois do pronunciamento de Temer no domingo declarando aceitar a pauta do movimento grevista dos caminhoneiros presenciamos, já no dia seguinte, 28 de maio, o crescimento do movimento paredista. A sensação de caos e de desgoverno causada pela crise de abastecimento nas cidades e a radicalização dos caminhoneiros autônomos contra Temer abriram uma situação contraditória e peculiar.

    As ideias de extrema-direita que já vinham tendo peso na greve passaram a ser uma bandeira de boa parte das centenas de bloqueios em todo país e, ao mesmo tempo, em várias regiões periféricas das grandes cidades ocorreram pequenas mobilizações populares pedindo difusamente uma intervenção militar. A extrema-direita, saindo da toca e das tumbas, ousou colocar à luz do dia cerca de mil pessoas marchando em  frente ao Congresso Nacional. Nos grupos de Whatsapp de escolas, locais de trabalho e famílias, surgiu com força o tema da “intervenção militar”, que se tornou a principal pauta do dia. Inegavelmente, sua defesa ganhou a simpatia de milhões.

    Curiosamente, tanto as Forças Armadas, quanto o neofascista Jair Bolsonaro, se pronunciaram durante a manhã de terça contra uma eventual “intervenção militar”,  defendendo, assim, o regime democrático-liberal em vigor. Por sua vez, o grande capital, por intermédio da grande imprensa, condenou abertamente uma saída bonapartista de tipo militar. Pode-se dizer, portanto, que não existe, por ora,  nenhum perigo de um eventual golpe ou de intervenção militar.

    Entretanto, essa situação peculiar e contraditória deve abrir um alerta para as esquerdas. Não podemos permitir novamente que essa bandeira ganhe milhões porque não podemos contar sempre com a boa vontade do inimigo, em especial quando se trata de um inimigo cujo amor pela sua própria democracia, isto é, pela própria democracia burguesa é tão sólido como uma escultura de areia.

    Um pouco sobre a conjuntura atual e os vícios da esquerda

    A raiva de Temer, o ódio aos políticos (incluído aqui os políticos de esquerda), ao parlamento, aos corruptos, combinado à sensação de caos e desordem foram decisivas para que pessoas despolitizadas , trabalhadores atomizados, gente do povo desorganizada, e também uma parte dos caminhoneiros grevistas ávidos por um país melhor  sofressem a influência direta de ideias reacionárias, nutrindo ingenuamente a expectativa de que as Forças Armadas seriam a única instituição que poderia colocar ordem no país. Esse sentimento é parte de um fortalecimento de instituições como o Judiciário, Polícia Federal e Ministério Público que presenciamos no último período.

    A esquerda pode ter duas reações perante essa realidade. A primeira delas, de tipo sectária, é atribuir o rótulo de “fascistas” indistintamente a todos os que defenderam a intervenção militar e, nesse sentido, confundir grosseiramente os neofascistas organizados com milhões de trabalhadores atrasados que, momentaneamente, compartilharam a bandeira da intervenção militar. A outra, ancorada no método marxista, é buscar compreender os motivos que levaram homens e mulheres de nossa classe a flertar e simpatizar com ideias reacionárias, as quais, em última instância, atentam contra os seus próprios interesses.

    Algumas hipóteses para fomentar o debate

    1) O Brasil, ao contrário de Portugal, não teve uma revolução democrática. A transição lenta e gradual planejada por Golbery e Geisel se deparou com uma inconveniente ativação das lutas sindicais e populares desde fins dos anos 1970, a ditadura foi derrotada nos seus planos originais de transição mas não foi derrubada. Diferentemente de casos como a Argentina, quando o componente popular e democrático fez a cúpula bonapartista ditatorial perder o controle pleno do processo de transição, no Brasil a classe dominante conseguiu, não sem percalços, transmutar a ditadura militar bonapartista em uma democracia liberal-representativa alicerçada geneticamente na anistia aos torturadores e dirigentes do regime anterior, cujos crimes contra a humanidade nunca foram profundamente denunciados. Como um dos resultados desse processo, não se verifica aqui uma memória histórica contra a ditadura e as forças armadas como presenciamos atualmente em países como a Argentina ou mesmo naqueles cujas transições se aproximaram mais do caso brasileiro, como o Chile.

    2) O golpe parlamentar de 2016, combinado às reformas e ajustes antipopulares e aos inúmeros casos de corrupção, transformaram Temer no governo mais fraco desde Sarney. Junto a isso, ocorreu um processo de criminalização de Lula e PT através da Lava Jato culminando com a prisão do ex-presidente. A combinação de um governo Temer odiado e fraco com o processo de desmoralização do PT que governou o país durante treze anos(e as comprovadas relações da cúpula deste partido com esquemas de corrupção) abriram um espaço inédito desde a redemocratização para que uma extrema direita que promete ordem e combate à corrupção, e que tem na terrível figura de Bolsonaro seu principal expoente, ganhasse audiência de massas, ainda que, por ora, minoritária.

    3) A extrema direita conseguiu um patamar de organização inédito. É organizada em redes de whatsapp e possui computadores trabalhando a todo o momento difundindo uma competente circulação de propaganda de suas ideias e de fake News (notícias falsas) contra os governos de plantão e contra a esquerda. Essa rede de intervenção proporcionou que, de maneira inédita e aproveitando o espaço político aberto, ela pudesse intervir na greve e influenciar uma parcela importante dos caminhoneiros em luta.

    4) A extrema esquerda, particularmente o PSOL, apesar de ser um partido em crescimento e bem visto pela classe trabalhadora e juventude, ainda não consegue fazer frente ao peso da extrema direita. Isso muito se explica em função do fato de que o período de fundação e consolidação do PSOL, em 2003-2010, coincidiu   com o auge dos governos petistas, abrindo, assim, pouco espaço para o seu crescimento. Se é verdade que agora o PSOL, em aliança com o MTST, está bem posicionado para aproveitar esse espaço, não se pode ignorar que nos encontramos ainda em um processo inicial de reorganização da esquerda, nos marcos de uma “onda conservadora”, e que, portanto, as forças socialistas não conseguem, hoje, fazer frente à  influência da extrema direita no tecido social brasileiro em decomposição.

    5)A inexistência de uma frente única das organizações sindicais e políticas da classe trabalhadora no último período contribuiu em muito para o atual cenário de uma correlação de forças desfavorável aos trabalhadores. Apesar dos inúmeros ataques contra os direitos sociais e econômicos da classe trabalhadora, da prisão de Lula, do assassinato de Marielle Franco e da ofensiva da extrema direita, não existe, até o presente momento, uma frente única para enfrentar nas ruas a ofensiva contra os direitos e a extrema-direita. A responsabilidade, em primeiro lugar, é do PT e da CUT, que se recusam a chamar a unidade em  base a um programa mínimo de ação para as ruas. A experiência do piquete do porto de Santos onde o movimento sindical dos estivadores, dos petroleiros e sindicatos da cidade somaram forças ao movimento dos caminhoneiros mostrou como a força de choque da classe trabalhadora organizada pode influenciar os rumos de uma luta concreta dos trabalhadores. Foi sem dúvida um dos piquetes com mais referência no movimento dos trabalhadores e sem a presença das idéias da extrema-direita. Por sinal, um dos mais radicalizados do país.

    A extrema direita é um ator político e deve ser combatido. Não à intervenção militar!

    O grande vitorioso dessa crise política foi, sem dúvida,  Jair Bolsonaro. Suas ideias conservadoras e a defesa do papel das Forças Armadas na vida política ganharam posições. Bolsonaro já aparece com sinalizações favoráveis do agronegócio e atinge todos os setores sociais. Saiu mais forte da atual crise política.

    O mais perigoso neste momento é o crescimento do apoio à intervenção militar. Essa é uma das grandes disputas em curso e que a esquerda não pode se omitir em fazê-la. Um belo exemplo de ação nesta última quarta-feira, dia 30 de maio, foi a greve petroleira que criticou em alto e bom som  a intervenção militar. Assim como o ato comandado pelo MTST na Avenida Paulista, em São Paulo, a greve agitou a bandeira da redução do preço dos combustíveis, pediu a demissão de Pedro Parente e disse não à intervenção militar.

    Esse é o papel que se espera de uma nova esquerda forjada na luta, na disputa de ideias e nas ruas, contra a extrema-direita. Devemos conversar com cada trabalhador, disputar as lutas em curso, as periferias e os locais de trabalho contra a ideia  da intervenção militar que, embora parece sólida, se desmanchará facilmente no ar assim que se deparar com a organização e a voz da classe trabalhadora.