Editorial

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  • Ciro Gomes: o voto útil que alimenta a regressão política

    Nas eleições presidenciais, muitas pessoas que se identificam com o amplo campo político da esquerda optaram pelo voto em Ciro Gomes, julgando que se tratava do candidato com mais chances de derrotar Jair Bolsonaro no segundo turno. Sem dúvidas, essa opção era motivada tanto por uma importante percepção do perigo representado pelo candidato do PSL, quanto por um saudável instinto de autopreservação da própria esquerda. Não há dúvidas de que derrotar Bolsonaro deveria ser uma prioridade de toda a esquerda e das forças democráticas nessas eleições. Em um eventual segundo turno, o voto útil era um imperativo.

    Entretanto, a antecipação dessa movimentação para o primeiro turno foi guiada por um raciocínio que absolutizava um dado limitado (os índices em pesquisas que simulavam o segundo turno) e operava nos marcos temporais do calendário eleitoral. Tal raciocínio esquece que, na política, as situações não são imutáveis e o tempo não é estanque. O que hoje se apresenta de uma forma, amanhã pode já ser diferente, e cada ação é parte de um encadeamento cujo fim não pode ser previsto de antemão. Por isso, escolhas feitas em determinados momentos com objetivos limitados e imediatos possuem consequências que podem superar em muito as intenções que as motivaram.

    Nesse sentido, é importante perceber como Ciro Gomes tem se servido da força conferida por sua expressiva votação (pouco mais de 12% dos votos válidos) para impulsionar um projeto político burguês extremamente limitado.

    O oportunismo nas eleições

    Já no primeiro turno da disputa eleitoral, Ciro deu mostras de que o combate a Bolsonaro não era uma prioridade de sua estratégia. Sua postura inicial foi a de não confrontar diretamente Bolsonaro, tratando-o como um candidato equivalente aos demais. Esse comportamento contribuiu para normalizar o candidato neofascista aos olhos do eleitorado desde os primeiros momentos da disputa.

    Com a evolução da campanha, entretanto, se relocalizou e passou a reproduzir em declarações públicas o argumento de que Bolsonaro e PT constituiriam ameaças similares ao regime democrático brasileiro. Com essa movimentação, buscou se aproveitar de forma oportunista do sentimento antipetista de teor reacionário que possui força em parcela importante da população.

    No segundo turno, sendo coerente com sua trajetória oportunista (já foi filiado a sete partidos e participou de governos com distintas orientações ideológicas), seu posicionamento foi inteiramente guiado pela lógica da autopreservação em detrimento do compromisso com a derrota da extrema-direita. Assim, não apenas deixou o país poucos dias após o primeiro turno, como evitou qualquer declaração enfática de voto em favor de Haddad. Dessa forma, fortaleceu a tendência de parte de seu eleitorado no sentido do voto nulo ou, até mesmo, da migração para Bolsonaro.

    O projeto cirista no pós-eleições

    Uma vez terminado o pleito, Ciro tem desfrutado de grande espaço nos principais veículos da mídia empresarial (impressa e televisiva) para batalhar por seu projeto pessoal de se tornar a principal figura da oposição a Bolsonaro. Em termos da sustentação política, esse projeto aposta em uma ampla composição de forças no Congresso que poderia abarcar parlamentares de PDT, PSB, PCdoB, Rede, PSDB e DEM. Ou seja, para alcançar o objetivo declarado de evitar que o PT desfrute de algum protagonismo na futura oposição, Ciro aposta na articulação com forças organicamente vinculadas a algumas das mais poderosas frações burguesas atuantes no Brasil.

    Além de desprovido de qualquer vinculação direta com a classe trabalhadora, o projeto cirista caracteriza-se por um esforço deliberado de confinamento das suas principais ações políticas ao espaço institucional do parlamento, reduzindo a importância dos movimentos sociais. Não à toa, em entrevista recente ao jornalista Roberto D’Ávila, ele criticou diretamente as ocupações promovidas pelo MST, indicando que as mesmas seriam ilegais. Mais uma vez, trata-se de uma tentativa de pegar carona em uma posição conservadora que ganha espaço a partir das ações de Bolsonaro e da extrema-direita, para fortalecer o seu próprio projeto político.

    Do ponto de vista programático, o oportunismo e o institucionalismo de Ciro estão a serviço de um projeto marcadamente burguês, confinado aos limites do capitalismo dependente brasileiro. Com efeito, economicamente, não vai além das críticas ao setor financeiro, defendendo uma variante do neodesenvolvimentismo. E, em termos políticos, o que oferece é uma oposição propositiva, que se recusa a encarar o governo neofascista de Bolsonaro como uma ameaça imediata aos direitos e liberdades democráticas.

    Por uma oposição radicalmente contrária a Bolsonaro

    Diferentemente do proposto por Ciro, defendemos um projeto de construção de uma oposição radicalmente contrária ao governo Bolsonaro, que seja constituída a partir da frente única das organizações e movimentos dos explorados e oprimidos. Longe de apostarmos em arrivistas eleitoreiros, entendemos que apenas um forte ciclo de mobilizações pode segurar a ofensiva burguesa e conservadora e derrotar a extrema-direita organizada em torno de Bolsonaro. É, também, no bojo de tais mobilizações – e não pela tentativa de aproximação em relação a posições reacionárias – que será possível fortalecer um polo que aponte para a constituição de um novo ciclo político, superando os limites da estratégia petista de conciliação de classes.

    Esses pressupostos da intransigência frente a extrema-direita, da independência política dos subalternos e da ênfase na mobilização e na ação direta estiveram na base da candidatura presidencial de Guilherme Boulos e Sônia Guajajara, fruto da aliança PSOL/PCB/MTST/APIB. Como entendemos que luta eleitoral e luta social são parte de um mesmo processo, estivemos envolvidos na construção dessa aliança e defendemos a sua manutenção para dinamizar as mobilizações do próximo período.

    Foto: EBC.

  • Bolsonaro e Paulo Guedes querem acabar de vez com os direitos trabalhistas

    Um ano após a reforma trabalhista, medidas como a extinção do Ministério do Trabalho e propostas como a “carteira verde e amarela” podem enterrar de vez a CLT

    Neste domingo, dia 11 de novembro, completou-se um ano da entrada em vigor das mudanças impostas pela reforma trabalhista, apoiadas pelo governo ilegítimo de Temer e aprovadas pelo Congresso Nacional.

    A promessa do atual governo e da maioria dos parlamentares era que a flexibilização de vários direitos previstos anteriormente na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) poderia gerar até 2 milhões de novos empregos. Passado um ano destas mudanças reacionárias na legislação, o que assistimos é um cenário muito diferente. Segundo dados do próprio Ministério do Trabalho, foram menos de 300 mil empregos formais gerados neste período.

    O mercado de trabalho já está impregnado pelo aumento da flexibilização dos direitos: pela primeira vez, o trabalho informal supera o emprego formal, com carteira assinada. E muitos trabalhadores – em especial na faixa entre 40 e 49 anos – perderam o emprego, provavelmente para serem substituídos por outros, em condições precárias.

    A taxa de desemprego medida pelo IBGE permanece em 11,9%, pouco abaixo dos 12,2% medido quando a reforma começou a vigorar. São 12,5 milhões de desempregados, diretamente. Além deste universo, o país tem outras 4,8 milhões de pessoas que desistiram de procurar emprego – sendo que 500 mil se somaram a este desalento desde a reforma – e os subocupados.

    Contratos de trabalho intermitentes, prevalência do negociado acima do legislado em relação a maioria dos direitos, terceirização da atividade fim e obstáculos para as ações trabalhistas são só alguns dos exemplos das terríveis mudanças já aprovadas pelo Congresso.

    O balanço desse último ano é inequívoco: os empregos não vieram, os poucos que vieram são de péssima qualidade e o total de ações trabalhistas caiu 38%.

    Os fatos demonstram que a consequência direta da reforma trabalhista foi deixar os trabalhadores ainda mais desprotegidos em relação ao seus direitos trabalhistas e os patrões ainda mais a vontade para ampliar a exploração do mundo do trabalho.

    VÍDEO – Gibran Jordão, da CSP-Conlutas, avalia os efeitos da reforma trabalhista

    A farsa da carteira verde e amarela

    Bolsonaro anunciou a extinção do Ministério do Trabalho e a criação de uma secretaria para absorver suas funções, ligada ao Ministério da Fazenda.  Paulo Guedes, já anunciado como ministro da área econômica do novo governo e também desta secretaria, já anunciou uma de suas principais propostas em relação aos direitos trabalhistas: a criação de uma nova modalidade de carteira de trabalho, na qual estejam garantidos somente os direitos que ainda estão na Constituição (13o salário, férias e FGTS). Os demais poderiam ser negociados individualmente entre os patrões e os trabalhadores que fizerem esta carteira.

    A chamada carteira verde amarela já tinha sido defendida por Bolsonaro na campanha. Ela “concorreria” com a atual carteira de trabalho.

    Na boca do “superministro” de Bolsonaro, seriam os trabalhadores que optariam livremente entre a carteira de trabalho tradicional, símbolo dos direitos garantidos há décadas na CLT, ou a nova carteira, que seria a marca de um novo sistema das relações de trabalho no Brasil.

    É evidente que essa medida vai deixar a decisão, na verdade, na mão dos patrões, que vão optar por contratar trabalhadores, que tiverem adotado a “carteira de trabalho verde amarela”, em especial os mais jovens.

    A juventude, as mulheres, os negros e negras e a comunidade LGBT serão ainda mais atingidos por essa nova onda de flexibilização dos direitos, numa combinação ainda mais perversa entre exploração e opressão. A cada três desempregados, dois são negros.

    Paulo Guedes ainda aventa que a nova modalidade de carteira poderia ser também utilizada para adesão para um novo modelo de aposentadoria, que ainda sequer foi aprovado, mas que para ele seria o chamado sistema de capitalização, subordinado a aposentadoria dos trabalhadores as regras do mercado.

    A extinção do Ministério do Trabalho vai dificultar ainda mais a fiscalização dos abusos dia patrões em relação ao respeito aos direitos dos trabalhadores. Até mesmo o levantamento de dados confiáveis sobre o mercado de trabalho está em risco, depois das críticas de Bolsonaro ao IBGE e sua metodologia.

    A criação da nova modalidade de carteira de trabalho vai dar a tal segurança jurídica, que tanto os patrões reivindicam, para intensificar a flexibilização dos direitos trabalhistas.

    Em pouco tempo, a combinação destas duas medidas sinistras, defendidas por Bolsonaro e Paulo Guedes, vai enterrar de vez a CLT e consolidar a ideia de que os trabalhadores devem abrir mão de seus direitos se quiserem ter empregos. Uma grande mentira.

    Preparar a resistência

    O discurso de Paulo Guedes na grande imprensa representa uma declaração de guerra do novo governo contra os direitos previdenciários e trabalhistas da maioria do povo. Guedes e Bolsonaro querem destruir de vez a CLT e dificultar ao máximo que os trabalhadores consigam se aposentar.

    Existe grande possibilidade que, numa aliança entre Temer e Bolsonaro, o Congresso tente aprovar mudanças na Previdência ainda este ano, podendo inclusive ampliar desde já a idade mínima para a aposentadoria.

    Nesta segunda-feira, 12, as centrais sindicais promoveram uma plenária nacional em São Paulo, para discutir estes ataques. Um primeiro passo foi dado, com a convocação de panfletagens no dia 22 e mobilizações no dia 26, nas sedes do Ministério do Trabalho em todo o país.

    É a hora de as centrais sindicais, as frentes de luta, todos os sindicatos, os movimentos sociais, os partidos de esquerda, se unirem em uma grande frente única para resistir, preparando uma grande mobilização nacional em defesa dos direitos e das liberdades democráticas.

    Precisamos discutir também a proposta da realização de um grande encontro nacional da classe trabalhadora e do povo, para o início de 2019, que defina as nossas bandeiras de luta prioritárias e prepare a resistência. A hora é da construção da máxima unidade para fortalecer a mobilização em defesa dos direitos.

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  • Mexeu com Guilherme Boulos, mexeu com todos nós

    O pronunciamento feito por Jair Bolsonaro no domingo anterior ao segundo turno das eleições assustou uma parcela da sociedade. O agora presidente eleito disse, entre outras ameaças de caráter fascista, que baniria a oposição. Ao exemplificar quem seria a oposição a ser exterminada, citou Guilherme Boulos, coordenador do MTST que foi candidato do PSOL à Presidência da República.

    Não foi a primeira nem a última vez que Bolsonaro ameaçou Boulos. Na primeira entrevista que deu ao Jornal Nacional, após as eleições, atacou novamente o líder do MTST e a “cúpula do PT e do PSOL”. Durante a campanha, correligionários do capitão reformado chegaram a ameaçar, com armas nas mãos, uma ativista que trabalhava no comitê eleitoral do candidato do PSOL. Com a mesma intenção, circula na internet um abaixo-assinado pedindo a prisão do coordenador dos sem-teto.

    A vitória eleitoral de Bolsonaro e a votação que obteve seu partido, o PSL, tanto na Câmara como no Senado, serviu de respaldo para inúmeras pautas e iniciativas autoritárias e repressivas. Não podemos prever de antemão a forma e as características exatas que esse governo vai assumir. Já temos, todavia, duas certezas sobre o próximo período: de um lado, teremos ultra-liberalismo entreguista no campo econômico e, de outro, a acentuação da repressão e perseguição aos movimentos sociais e à esquerda.

    Antigos projetos de uma ultradireita saudosa dos tempos da ditadura retomam fôlego. Um exemplo é o Projeto de Lei 5358/16 de Eduardo Bolsonaro que visa alterar tanto a Lei Antirracismo (7.716/89), como a Lei Antiterrorismo (13.260/16). O deputado federal pretende incluir como crime “fomentar o embate de classes sociais, divulgar o símbolo do foice e martelo ou fazer apologia ao comunismo”.

    Na semana após a eleição do capitão da reserva, aliado próximo de Bolsonaro, Magno Malta (PR), voltou a pautar mudanças nas Lei Antiterrorismo. O senador pretendia incluir pontos outrora vetados que abrangeriam a tipificação de terrorismo. As alterações propostas acabariam incluindo os próprios movimentos sociais no conteúdo da lei, o que significaria um retrocesso sem precedentes. Contrariando os interesses de Magno Malta, a lei de censura não foi, ainda, aprovada no CCJ do Senado e deverá ser submetida à audiência pública, com data ainda não definida.

    Anunciado como futuro ministro da Justiça, em uma retribuição pela prisão do ex-presidente Lula, o juiz Sérgio Moro deu uma entrevista coletiva, no qual reafirmou a perseguição aos movimentos sociais. Apesar de ressaltar que seria exagero a tipificação de “terrorismo”, Moro deixou claro que os movimentos podem ser responsabilizados criminalmente. Ou seja, o novo governo e o Congresso tratarão greves, bloqueios de rua e ocupações como crime.

    É importante reafirmar que estas são as principais formas de luta da classe trabalhadora e da juventude. Ao contrário do que fazem os bancos, que tomam as casas dos trabalhadores que não podem pagar a prestação, os movimentos sociais ocupam praticamente terrenos e prédios abandonados ou usados para especulação, sem uso social.

    Há uma ardilosa lógica nas ações dos bolsonaristas em Brasília. A aplicação da agenda ultra-liberal do superministro Paulo Guedes, devido a sua óbvia impopularidade, é muito onerosa politicamente. O expediente da repressão política e ideológica cumpre um objetivo tático e outro estratégico.

    O objetivo tático relaciona-se com a agenda de austeridade. Por mais popular que seja um governo, a retirada de direitos sempre é uma operação delicada e arriscada. Se ocorrerem fortes lutas e mobilizações país afora contra as reformas de Bolsonaro, o governo certamente se enfraquecerá. Neste sentido, a tentativa de criminalizar Guilherme Boulos, PSOL, MTST e MST, assim como os ataques contra universidades e professores, tenta minar a construção da resistência popular, no que há de mais forte e genuíno, ao tenebroso projeto antipovo do novo governo.

    O objetivo estratégico relaciona-se com o futuro político a médio e longo prazo. Nessas eleições que passaram, na figura de Guilherme Boulos, forjou-se uma frente com PSOL, MTST, PCB, APIB, e distintos movimentos sociais e políticos. Essa aliança fez com que o PSOL elegesse dez deputados federais e inúmeros estaduais. Mas essa não foi a maior vitória desta deste campo. Boulos, líder de um dos principais movimentos sociais brasileiros, tornou-se uma figura política nacional. A aliança eleitoral de 2018 conquistou para a esquerda radical um espaço político que, embora não tenha se expressado em votos, há muito não conhecia. Não é por acaso que o presidente eleito considere o líder dessa frente um inimigo público a ser banido.

    Hoje, como nunca, está colocada a defesa intransigente das liberdades democráticas e dos direitos sociais – conquistas históricas do povo trabalhador e oprimido do nosso país. O primeiro alvo de Bolsonaro é Guilherme Boulos. Como citamos, são inúmeras, e gravíssimas, as ameaças proferidas pelo futuro presidente contra o coordenador do MTST. A defesa de Boulos deve ser um compromisso de todo o campo democrático (no Brasil e em todo o mundo) e uma pauta permanente nas nossas bandeiras e ações. Que Bolsonaro fique avisado: mexeu com Guilherme Boulos, mexeu com todos nós.

    Foto: Mídia Ninja

     

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  • Sérgio Moro aceita ser ministro da Justiça no governo Bolsonaro

    Na manhã de hoje, 1° de novembro, após visita à casa de Jair Bolsonaro, no Rio de Janeiro, o juiz federal Sérgio Moro divulgou a notícia que aceitou o convite para assumir o Ministério da Justiça e Segurança Pública no novo governo federal. A notícia já foi confirmada por Bolsonaro pelas redes sociais.

    Este fato é muito relevante. Moro foi o principal responsável pela Operação Lava Jato na esfera do Poder Judiciário. A partir dessa posição, agiu continuadamente para interferir no processo político nacional. Em meio à mobilização pelo impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, vazou ilegalmente um áudio em que a então presidenta conversava com Lula. Em julho de 2017, condenou em primeira instância o ex-presidente Lula em um processo marcado por arbitrariedades. Essa condenação pavimentou o caminho para a prisão e depois a impugnação da candidatura de Lula nesse ano. Por fim, em outra manobra ilegal, Moro vazou depoimento sigiloso do ex-ministro Antônio Palocci a seis dias do primeiro turno das eleições.

    Esse conjunto de ações fortaleceu indiretamente a candidatura de Bolsonaro, ao insuflar o antipetismo no qual o candidato do PSL surfou, e diretamente, ao impedir o líder das pesquisas, Lula, de ser candidato. Trata-se de uma intervenção direta do Poder Judiciário nas eleições presidenciais deste ano. O mesmo Judiciário foi inteiramente conivente com todas as irregularidades cometidas por Bolsonaro e permitiu uma série de medidas intimidatórias contra a campanha de Haddad, especialmente no segundo turno.

    Agora, após os grandes serviços prestados ao golpe e sua agenda reacionária, Moro se afasta da Magistratura e recebe sua recompensa: assumirá um super Ministério da Justiça, acumulando poderes também sobre a área de Segurança Pública. Este fato demonstra cabalmente o caráter seletivo e reacionário da Lava Jato, que sempre esteve a serviço do golpe parlamentar e de uma saída ainda mais conservadora para a crise política brasileira.

    Assim vai se conformando o governo Bolsonaro. Uma aliança sinistra com forte presença da elite das forças armadas, do agronegócio, dos elementos mais reacionários do Poder Judiciário e ainda de parte da cúpula de igrejas evangélicas.

    Mais do que nunca, vai ser muito importante fortalecer uma Frente Única que unifique as centrais sindicais, sindicatos, partidos de esquerda identificados com os trabalhadores, movimentos populares, o movimento estudantil, os movimentos de luta contra as opressões, a Frente Brasil Popular e a Frente Povo Sem Medo.

    Uma Frente Única do povo trabalhador que promova uma ampla unidade de ação em resistência aos ataques contra os direitos sociais e as liberdades democráticas que serão realizados pelo governo Bolsonaro e seus aliados.

     

     

    FOTO: Marcelo Camargo / Agência Brasil / Arquivo Fotos Públicas

  • Ninguém solta a mão de ninguém: não aceitaremos perseguição

    Após a eleição, Jair Bolsonaro reafirmou o objetivo de perseguir a esquerda, movimentos sociais e a imprensa crítica. Em entrevista ao Jornal Nacional da TV Globo, na noite de segunda (29), o líder neofascista, agora presidente eleito, reiterou ameaças às lideranças do PSOL e do PT, assim como ao Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e ao Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), que classifica como “terroristas”.

    Bolsonaro fez questão de citar nominalmente Guilherme Boulos, ex-candidato a presidente pelo PSOL e coordenador do MTST, como um dos alvos da campanha persecutória. Aproveitou também a oportunidade para atacar o jornal Folha de S. Paulo, um dos poucos veículos da grande imprensa a publicar matérias críticas a ele, como a denúncia sobre o disparo em massa de fake news por meio de financiamento ilegal de empresas.

    As repetidas ameaças a opositores revelam o grau de cinismo contido nas declarações em que Bolsonaro jura respeitar garantias democráticas e liberdades previstas na Constituição do país. Suas recentes afirmações, renovando promessas de perseguição político-ideológica, confirmam a essência de seu discurso transmitido na Av. Paulista, em São Paulo, no dia 21 de outubro, quando prometeu “varrer os bandidos vermelhos” do país que deveriam, segundo ele, escolher entre o exílio e a prisão.

    Os propósitos autoritários do futuro presidente fomentam iniciativas de seus asseclas no Congresso Nacional. O senador Magno Malta (PR) tentou encaminhar a votação da ampliação da Lei Antiterrorismo na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, nesta quarta (31), com o objetivo de criminalizar os movimentos sociais. Porém, com a aprovação de uma audiência pública sobre o projeto, foi adiada a votação sobre a matéria na Comissão. Da mesma forma, deputados bolsonaristas quiseram aprovar nesta quarta (31) o projeto de lei “Escola Sem Partido”, que promove a patrulha político-ideológica dos professores em sala de aula, constituindo censura explícita da atividade docente, típica de regimes ditatoriais. Felizmente, a votação deste projeto também foi adiada.

    Diante deste cenário, outra vez afirmamos: palavras intimidatórias, ameaças fascistas e ações autoritárias não amedrontarão a resistência democrática que cresce em todo O país. Haverá defesa intransigente de todas as liberdades conquistadas. Cada ato repressivo promovido pelo novo governo será respondido com pronta e ampla mobilização social. A resposta dos estudantes e professores nas universidades à inquisição da Justiça Eleitoral e às manifestações racistas de bolsonaristas são exemplos da resistência antifascista. Saudamos, também, os alunos numa escola no Ceará que receberam com emocionante salva de palmas o professor denunciado por passar um filme sobre a tortura no regime militar. Não declinaremos dos nossos direitos políticos e democráticos sem luta. Estaremos, daqui para frente, ainda mais unidos, organizados e solidários, como bem demonstramos na campanha de rua no segundo turno e nos atos da últimos terça-feira (30). E não somos poucos: existem muitos milhões ao nosso lado, no Brasil e em todo mundo.

    Consideramos que o correto repúdio de autoridades institucionais, líderes políticos e partidários, meios de comunicação e jornalistas aos ataques de Jair Bolsonaro à Folha de S. Paulo precisa se estender às reiteradas ameaças dele a dirigentes do PT, do PSOL, ao MTST, MST e a Guilherme Boulos. Não restará qualquer vestígio de democracia com o estrangulamento dos movimentos sociais, da esquerda e suas lideranças. As prometidas ações autoritárias contra os “vermelhos”, se não condenadas e impedidas a tempo, logo atingirão setores da imprensa, artistas, jornalistas, intelectuais, políticos e outras figuras públicas que não se curvarem ao novo regime autoritário que vem sendo sedimentado.

    Ainda há tempo de deter o candidato a ditador e seu projeto neofascista. Nesse sentido, a construção da mais ampla unidade em defesa dos direitos e liberdades democráticas, envolvendo centenas de milhares de lutadores em todo país, é tarefa urgente e primordial.

    Foto: Carol Burgos

  • Defender a Previdência Social: Primeira batalha anunciada

    Um tema que ficou relativamente escondido da campanha eleitoral de Jair Bolsonaro foi o da Reforma da Previdência. Evidentemente, por seu caráter impopular. Mas, passadas apenas 24 horas do resultado eleitoral, a Previdência virou um dos principais assuntos da imprensa, tema de destaque na fala de seus principais aliados e presente até na entrevista de Bolsonaro na TV Record.

    As declarações de membros do novo governo, embora contraditórias entre si, apontam no mesmo sentido: a retirada dos direitos previdenciários. Paulo Guedes, anunciado como o futuro ministro da Fazenda, concedeu entrevista afirmando que a Reforma da Previdência é o primeiro item do tripé da futura política econômica. Ao lado da adoção de uma política ampla de privatizações e de uma reforma do Estado, que ataque “privilégios” (leia-se, ataque aos direitos dos servidores públicos). 

    Segundo Guedes, chefe da área econômica do novo governo, a política econômica começará com uma nova Reforma da Previdência. O eventual ministro da Casa Civil de Bolsonaro, o deputado federal Onyx Lorenzoni (DEM-RS), foi além, afirmando que a atual proposta de Reforma da Previdência, proposta pelo governo Temer, é curta e o novo governo vai apresentar uma proposta global de reforma.

    Sem dar muitos detalhes desta tal nova proposta, defendeu abertamente a separação entre o sistema de Previdência dos programas de assistência social. Atualmente, o sistema é pensado como uma política conjunta de Seguridade Social, de forma solidária, onde todos contribuem para garantir o bem estar dos aposentados e dos mais necessitados. Entre outras consequências drásticas, desmembrar o atual sistema fatalmente irá afetar os programas de assistência social destinados à população mais pobre.

    Reforma da Previdência pode ser votada nesse ano

    E pode ser ainda pior. O atual presidente Temer veio a público defender que a atual proposta de Reforma da Previdência, em tramitação no Congresso Nacional, seja votada ainda no período do seu governo, ou seja, ainda este ano.

    Para Temer, tudo dependeria de um acordo com Bolsonaro. E eles já têm reuniões marcadas para a próxima semana, em Brasília, para iniciar a chamada transição.

    Embora o apoio do novo governo à votação imediata da Reforma da Previdência de Temer no Congresso tenha sido negada por Lorenzoni, pelo jeito, o assunto ainda é controverso. Afinal, o próprio Bolsonaro, em entrevista à TV Record, sinalizou o contrário, que vê com bons olhos a votação da Reforma da Previdência que já está em tramitação no Congresso.

    Organizar a resistência desde já

    De um jeito ou de outro, já deve estar no nosso horizonte que a defesa da Previdência Social será uma das principais batalhas do próximo período, se não for a primeira de todas. E ela pode começar imediatamente, caso Temer e Bolsonaro acertem, no início da semana que vem, a política de votar imediatamente a atual Reforma da Previdência. Entretanto,, mesmo que a Reforma da Previdência fique para o novo governo, já está evidente que ela será uma das primeiras iniciativas de Bolsonaro no Congresso Nacional.

    A reforma proposta pelo governo Bolsonaro pode ser ainda pior do que a atual, retirando ainda mais direitos, querendo acabar, inclusive, com o conceito unificado de Seguridade Social. Por isso, as manifestações unitárias e plenárias de frente única que já acontecem essa semana, especialmente convocadas pela Frente Povo Sem Medo e a Frente Brasil Popular, já devem colocar em destaque a luta contra uma Reforma da Previdência que retire direitos.

    As centrais sindicais, sindicatos, os movimentos sociais e partidos de esquerda devem unificar suas pautas em torno da luta para derrotar a Reforma da Previdência, seja a de Temer agora, ou a de Paulo Guedes, Lorenzoni e Bolsonaro no ano que vem.

    Sabemos que enfrentaremos um novo governo profundamente autoritário, que não respeita a oposição. Mas, quanto mais a nossa luta for colada ao sentimento da maioria dos trabalhadores e do povo, mais força teremos para derrotar a repressão e velhos e novos ataques aos nossos direitos. Principalmente, caso seja confirmada a intenção de Temer de votar a atual Reforma da Previdência ainda este ano, precisamos construir de forma imediata um dia nacional de lutas contra mais este ataque aos direitos do povo trabalhador e ao conjunto da população brasileira.

    As eleições passaram, mas a nossa resistência continua, ainda mais urgente e necessária.

  • Bolsonaro vence, mas a resistência continua

    Por uma margem menor que a esperada inicialmente, Jair Bolsonaro (PSL) venceu com 55% dos votos válidos. A onda pela democracia e direitos, que contagiou milhões de pessoas Brasil afora, diminuiu a diferença. Fernando Haddad (PT), que havia obtido 29% dos votos válidos no primeiro turno, chegou a 44% no segundo. A resistência aguerrida que brotou espontânea nas ruas de centenas de cidades, envolvendo estudantes, trabalhadores, artistas, intelectuais e feministas, fez história e lançou a esperança para o amanhã, para enfrentar e derrotar o fascismo.

    Não presenciamos uma disputa democrática. O candidato a ditador venceu uma eleição manchada pela impugnação política de Lula (que liderava com folga todas as pesquisas), uso criminoso de caixa 2 empresarial para o financiamento em massa de fake news nas redes sociais, atuação antidemocrática e partidária dos tribunais eleitorais e ação da maior parte da grande mídia, grandes empresários e igrejas evangélicas em favor do candidato do PSL.

    ENGLISH VERSION

    Bolsonaro ganhou uma importante batalha nas urnas, mas a luta não chegou ao fim. A resistência democrática e social seguirá nas ruas, nos locais de trabalho, estudo e moradia. Vamos construir uma muralha contra o fascismo em cada canto do país.

    Que fique avisado: não aceitaremos o fim das garantias democráticas e dos direitos sociais e trabalhistas, a começar pela reforma da Previdência anunciada pelo general Mourão. Não toleraremos qualquer violência e discriminação contra mulheres, negros, LGBTS, indígenas e imigrantes. Nos levantaremos contra o extermínio da população negra e pobre das periferias. Nos insurgiremos contra o estabelecimento de um regime autoritário e repressor. Defenderemos nosso patrimônio natural e cultural, estaremos ao lado dos povos indígenas e quilombolas incondicionalmente. Não será aceita a criminalização dos movimentos sociais: os trabalhadores sem-terra e sem-teto não estão sós. Cerraremos trincheiras contra a perseguição à esquerda e a suas lideranças. Estaremos atentos a qualquer tentativa de censura na imprensa, nas artes, escolas e universidades. Avisem Bolsonaro e sua turma: resistiremos e, cedo ou tarde, os derrotaremos.

    Somos muitos, somos milhões. Ele ganhou no conjunto da população, mas perdeu entre os trabalhadores de menor renda, em todo nordeste, entre as mulheres, os negros, os mais jovens e as LGBTs. Ou seja, nas camadas mais exploradas e oprimidas prevaleceu a esquerda e a democracia.

    Daqui para frente, impõe-se como tarefa central a Frente Única (que deve reunir o conjunto da esquerda – PT, PSOL, PCdoB, PCB, PSTU etc. -, dos movimentos sociais, sindicais e estudantis) pra resistir e derrotar o governo de extrema direita de Jair Bolsonaro, assim como a construção da unidade democrática com todos setores dispostos à luta unitária contra o autoritarismo e o fascismo. A construção da Frente Única deve se referenciar no movimento de mulheres unidas contra Bolsonaro, que levou mais de 1 milhão às ruas no dia 29 de setembro, e no movimento espontâneo de rua protagonizado por dezenas de milhares de ativistas no segundo turno. Esse acúmulo valioso deve ser preservado e potencializado.

    Na resistência democrática, vamos batalhar também pela construção de um novo projeto de esquerda, que busque superar os graves equívocos e limites do PT, junto com o PSOL, PCB, MTST, APIB e todos setores dispostos a construir uma nova perspectiva socialista em nosso país.

    Certamente enfrentaremos dias difíceis com a eleição de Jair Bolsonaro. Mas devemos manter a cabeça erguida e a moral elevada. A verdade está ao nosso lado. A ascensão do neofascismo deve ser respondida com a mais ampla unidade da esquerda e dos setores democráticos, com coragem. Vamos unir todos os “ativismos”, todos movimentos, coletivos e organizações, vamos de mãos dadas junto ao povo trabalhador e oprimido. Unidos estaremos fortes para resistir e vencer!

    Bolsonaro wins, but resistance continues

  • É hora de ɹɐɹıʌ voto

    Diminui a diferença em pesquisas e campanha #Haddadpresidente13 está na ofensiva

    No final de semana, alguns fatos políticos mexeram no cenário da última semana da campanha do segundo turno das eleições presidenciais.

    Após a manifestação nacional por direitos, democracia e pela vida das mulheres, que levou, no último sábado 20, milhares às ruas de cerca de 50 cidades brasileiras, Bolsonaro e sua “falange” resolveram endurecer ainda mais o seu discurso de ódio.

    No domingo, 21, Bolsonaro gravou um vídeo para ser exibido na manifestação de apoio a sua candidatura que aconteceu na Avenida Paulista. Manifestações reacionárias como esta aconteceram em pelo menos outras 18 cidades.

    Neste vídeo, ele voltou a ameaçar a esquerda de perseguição, prisão e até expulsão do país. Falou diretamente em prender o Senador Lindbergh Farias (PT-RJ) e até o próprio adversário, Fernando Haddad; em tornar o MST e o MTST organizações terroristas e criminosas; e banir o jornal Folha de SP; entre outros graves absurdos.

    Este vídeo veio a se tornar mais uma comprovação cabal que Bolsonaro não admite qualquer oposição e pensamento crítico e diferente. Fala já como um futuro ditador.

    É verdade que o discurso em vídeo de Bolsonaro, no último domingo, não difere qualitativamente do que ele já vinha afirmando na sua campanha sórdida. Mas, ao que parece, a nitidez com que falou e a forma extremamente agressiva alertou setores sobre os riscos que sua vitória representa ao próprio regime democrático.

    A esta fato, se soma a divulgação de outro vídeo, agora do deputado federal do PSL Eduardo Bolsonaro, filho do candidato a presidente da extrema-direita neofascista, defendendo o fechamento do Supremo Tribunal Federal (STF), caso seu pai fosse punido por algum crime eleitoral. Segundo o deputado, bastava um soldado e um cabo para fechar o mais importante Tribunal do país.

    Todos estes absurdos geraram reação. Setores que antes estavam evitando se posicionar no segundo turno, saíram da sua zona de conforto.

    Marina Silva (Rede) declarou voto crítico em Haddad; Alberto Goldman, ex-presidente do PSDB e Jarbas Vasconcelos (MDB-PE) foram no mesmo caminho, entre outros políticos que apoiaram o golpe parlamentar de 2016 e a agenda de ataques ao povo trabalhador.

    Contra-ofensiva do “vira-voto”
    Entretanto, a maior e mais importante consequência do final de semana foi a consolidação de uma dinâmica que já vinha se apresentando na semana anterior: a campanha #Haddadpresidente13 está na ofensiva. E isso tem enorme importância, independentemente do resultado final das eleições.

    Somos oposição de esquerda ao projeto de conciliação de classes da direção do PT, defendemos a candidatura de Guilherme Boulos e Sônia Guajajara (MTST-PSOL-PCB-APIB-MÍDIA NINJA) no primeiro turno. Acreditamos na necessidade fundamental de uma nova alternativa de esquerda e socialista em nosso país. Entretanto, acreditamos também que o momento é de plena e total unidade de ação, sem abrir mão de nossas convicções, com o objetivo comum de derrotar Bolsonaro e seu projeto de extrema-direita neofascista.

    Neste sentido, os últimos dias foram muito positivos para consolidação desta frente única contra o neofascismo, em defesa dos direitos sociais e das liberdades democráticas.

    Na segunda-feira, 22, o ato político no Tuca (PUC-SP), já demonstrou a força e a representatividade da campanha da Frente Democrática, que se conformou em torno da candidatura de Haddad neste segundo turno. A presença de professores, intelectuais, artistas, estudantes, líderes religiosos, entre outros setores, mostram a diversidade da unidade democrática contra Bolsonaro.

    No dia seguinte, dezenas de milhares tomaram os Arcos da Lapa, no Rio de Janeiro, no comício com Haddad, Manuela, Boulos e grandes artistas da MPB (como Chico Buarque, Caetano Veloso, Mano Brown, entre tantos outros).

    E, no dia seguinte, quarta-feira, novamente a campanha realizou um grande comício, no já tradicional palco de grandes manifestações, o Largo da Batata, na cidade de São Paulo.

    Na terça-feira também foi divulgada a última pesquisa do Ibope, diminuindo significativamente a diferença entre os dois candidatos, apontando um crescimento da rejeição a Bolsonaro e uma queda na rejeição de Haddad e, informando também, que Haddad passou Bolsonaro na cidade de São Paulo, a maior do país.

    Todos estes fatos animaram a campanha. Todos sabemos que uma virada segue muito difícil, mas não é impossível. Por isso, vamos nos jogar com toda força e energia nos últimos dias da campanha, até o fim das eleições, porque queremos derrotar Bolsonaro nas eleições e organizar ainda mais as nossas forças para as lutas de resistência que estarão colocadas em um futuro bem próximo.

    A importância dos últimos dias
    Ainda é possível. Muitas pessoas definem realmente seu voto nos últimos dias, inclusive na véspera das eleições. As próprias pesquisas demonstram que ainda existem indecisos e pessoas que podem ainda mudar sua opção de voto na última hora. A combinação destes elementos pode ser decisiva.

    Por isso, o momento exige intensificamos a campanha e o diálogo com amigos, familiares, vizinhos, colegas de trabalho e estudo. Sim, ainda é possível, ganhar e virar votos nessa reta final.

    Mais um vez, o voto no 13, neste segundo turno, é uma opção para derrotar Bolsonaro e fortalece a nossa resistência contra o fascismo, em defesa dos direitos, das liberdades democráticas e contra toda e qualquer forma de opressão. Vamos à luta!

    FOTO: Comício no Largo da Batata, em São Paulo. Mídia Ninja

  • Chega de ameaças à esquerda e à democracia. É preciso erguer uma muralha contra o fascismo

    Domingo foi dia de ódio. Nos atos de rua, Bolsonaro e as principais lideranças da extrema-direita aumentaram o tom dos discursos e já não escondem o que virá caso vençam. As ameaças são especialmente dirigidas contra a esquerda. Organizações, partidos e movimentos sociais estão sendo ameaçados abertamente de criminalização, perseguição, prisão e até eliminação física, num eventual governo do capitão fascista.

    O vídeo de Bolsonaro, exibido ao vivo para a manifestação da Avenida Paulista, é significativo: “Ou vão pra fora ou vão pra cadeia. Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria”, “A faxina agora será muito mais ampla” . E atacou diretamente os movimentos sociais e as ocupações na cidade e no campo. “Bandidos do MST, bandidos do MTST, as ações de vocês serão tipificadas como terrorismo.” Também atacou o ex-presidente Lula – “Vai apodrecer na cadeia” – e ameaçou de prisão petistas como Lindbergh (PT-RJ) e até o próprio adversário, Fernando Haddad.

    A cada aumento de tom nos discursos de ódio, aumentam os casos de ataques nas ruas, que já atingiram mais de 120 pessoas, e já mataram três: uma travesti, uma transexual e um negro. Pessoas estão sendo atacadas e caçadas apenas por usar adesivos. E mulheres, LGBTs, negros e negras têm sido alvos prioritários da violência política, da qual o discurso de ódio do candidato é responsável.

    Bolsonaro não tem como negar ou relativizar o seu próprio discurso, como faz diante de falas de aliados ou da violência de apoiadores. É pra valer. Ele tem controle sobre o que está dizendo e fazendo.

    O candidato a Ditador parece estar seguindo as recomendações de Olavo de Carvalho, que clama para que Bolsonaro aproveite um início de mandato para “eliminar de vez” a esquerda. Declarações contra MTST e MST, investidas contra a UNE e sindicatos e a intenção de nomear os reitores das universidades anunciam o que seriam os primeiros alvos para atacar a resistência.

    Ditadura Nunca Mais
    Veio a público, também no final de semana, um vídeo do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), afirmando que seria fácil fechar o Supremo Tribunal Federal (STF), numa hipotética cassação da candidatura de seu pai. Segundo o deputado reeleito, bastaria: “enviar um cabo e um soldado” para fechar o principal tribunal do país. “Tira o poder da caneta de um ministro do STF, o que ele é na rua? Se você prender um ministro do STF, você acha que vai haver uma manifestação popular?”, perguntou.

    Nos dias seguintes, vimos declarações de ministros do STF, de políticos burgueses e do próprio TSE condenando o vídeo golpista, mas nenhuma medida concreta foi tomada até o momento contra o deputado. É inaceitável que o deputado, filho do candidato líder nas pesquisas, ameace desta forma os ministros da Suprema Corte.

    Todos os sinais reforçam a ameaça que seria um governo Bolsonaro para as garantias democráticas e as liberdades de forma geral. Não se trata apenas de ataques contra a esquerda e o movimento social organizado, mas a todas as instituições e setores destas que não estejam completamente alinhados a suas medidas. Aumentaram os ataques contra a imprensa, e não só contra veículos que assumem pautas dos direitos humanos e dos trabalhadores, como o Intercept e o Brasil de Fato. A Folha de S. Paulo e a Globo também são alvos. Para além da ameaça de uso de verbas de publicidade para favorecer aliados, estaríamos diante de ameaças ainda maiores à liberdade de imprensa, com censura, perseguição a jornalistas e mesmo fechamento de veículos.

    Bolsonaro quer amplos poderes
    De nada adiantou a mídia ter participado ativamente do impeachment. Ou de o STF ter, na sequência, legitimado o golpe, a prisão de Lula e a terceirização desenfreada. Ao libertarem o fascismo, a serpente agora se volta para mordê-los.

    Bolsonaro deseja um tipo de governo diferente, com amplos poderes, sem oposição. Para controlar ainda mais a Justiça, estuda dobrar a quantidade de ministros do STF, para, com as indicações, atingir a maioria dos votos.

    Um governo seu seria baseado diretamente nas Forças Armadas e nas polícias civis e militares, que teriam “retaguarda jurídica pra fazer valer a lei no lombo de vocês”. Ou seja, um amplo aparato, pronto para atacar as organizações sociais e de esquerda e reprimir a classe trabalhadora, caso esta rompa com o seu projeto, e aumentar a matança e encarceramento de jovens negros e negras.

    Não precisaria fechar o Congresso, como no AI-5. A bancada conservadora, que é anunciada como “nova classe política”, tem votos para aprovar inclusive mudanças na Constituição.

    Um governo seu já contaria com o apoio da Record, de Edir Macedo, e na ampla estrutura que está sendo utilizada nas redes sociais nesta campanha, para distribuição de fake news. Sem descartar a possibilidade de acordos com a Globo e outros grupos de mídia, que, sempre é bom lembrar, apoiaram a ditadura militar.

    Um governo Bolsonaro seria, antes de tudo, o governo dos grandes empresários e banqueiros, ávidos por aumentar a retirada de direitos, e que, em sua maioria, já abraçaram – publica ou de forma discreta – a sua campanha. E das multinacionais e do imperialismo norte-americano, de olho em uma solução de força na Venezuela e no controle do petróleo de ambos os países.

    Eleições em tempos de golpe
    A impunidade não é só nas ameaças ao STF. Na semana passada, a Folha de S. Paulo denunciou o escândalo da compra milionária de pacotes de mensagens no WhatsApp, usados para caluniar o candidato do PT na reta final do primeiro turno.

    Estes pacotes de mensagens foram comprados por grandes empresas para ajudar na campanha sórdida de Bolsonaro, e sequer foram declarados. É um triplo crime. Afinal, as empresas estão proibidas de contribuir financeiramente em campanhas; é “caixa 2” pois não foi um gasto declarado pela campanha e, além, é claro, de disseminar mentiras e calúnias. O TSE abriu formalmente uma investigação, mas ao que parece não tomará nenhuma medida concreta. Um escândalo.

    Mais um capítulo de uma eleição extremamente antidemocrática, com a prisão política e a cassação da candidatura do ex-presidente Lula, a desigualdade entre os partidos. Uma eleição em tempos de golpe, em um período de ofensiva da burguesia sobre os direitos e às liberdades democráticas e de resistência do povo trabalhador, da juventude e dos oprimidos.

    A disputa dos atos
    No sábado, 20, aconteceram as manifestações em defesa dos direitos, da democracia e da vida das mulheres, em cerca de 50 cidades. As manifestações são continuidade do movimento “Ele não”, que levou cerca de um milhão de pessoas às ruas no Brasil no dia 29 de setembro. Neste sábado, esteve presente também o chamado ao voto em Haddad (PT), candidato da Frente Democrática no segundo turno.

    Embora em número menor do que no dia 29, os manifestantes demonstram força, levando centenas de milhares às ruas. No dia seguinte, apoiadores de Bolsonaro realizaram manifestações em 19 cidades. Reuniram muitas pessoas, especialmente em São Paulo, mas ainda ficaram atrás, em termos nacionais, dos atos do dia anterior.

    Unidade para lutar pelo voto e erguer a Frente Única Contra o Fascismo
    Os atos demonstram a força acumulada pelos distintos movimentos sociais para enfrentar os ataques que virão, independentemente do resultado do domingo. Uma coisa fica nítida – haverá resistência organizada e nas ruas. E muita.

    Não há atalhos possíveis. Para começar temos que nos jogar com ainda mais força na reta final da campanha do segundo turno. Lutar até o fim para eleger Haddad e Manuela e para derrotar os candidatos de Bolsonaro aos governos estaduais. Cada voto conta. Cada pessoa que convencemos é um passo na luta contra o fascismo. Nossa campanha é para evitar a eleição de Bolsonaro e derrotar seu projeto neofascista nas eleições, mas ela é também para ir acumulando forças para as lutas que teremos que travar num futuro próximo.

    Logo após o resultado, precisamos imediatamente seguir e fortalecer a nossa organização para defender nossos direitos e as liberdades democráticas. A unidade e a frente única que conquistamos a partir do movimento “Mulheres contra Bolsonaro” deve ser mantida e intensificada.

    Temos que construir imediatamente e em todo o país uma Frente Única Antifascista, em defesa dos direitos e da democracia, aberta a todas as organizações e movimentos. Está frente deve organizar ações unificadas do nosso movimento, construídas em conjunto com todos os setores democráticos do nosso país e do mundo. A última palavra virá das ruas!

     

  • Esquema criminoso de Bolsonaro não pode ficar impune

    De acordo com reportagem do jornal Folha de S. Paulo, publicada nesta quinta-feira (18), empresas compraram pacotes de envio de milhões de mensagens contra o PT e de apoio a Jair Bolsonaro no WhatsApp. Segundo apurou o jornal, cada contrato chega a R$ 12 milhões de reais. Entre as empresas envolvidas, está a Havan, do empresário Luciano Hang.

    A prática viola a lei eleitoral flagrantemente, configurando crime de Caixa 2 duplamente qualificado. Em primeiro lugar, por representar doação não declarada, segundo, por se tratar de gastos de campanha pagos por empresas, o que está proibido pela legislação. Além disso, configura divulgação de notícias sabidamente falsas (imagens montadas, acusações sem fontes) e compra de lista de contatos das empresas, de usuários que não forneceram seus contatos voluntariamente para ajudar na campanha.

    O disparo em massa das chamadas fake news coincidiu com a ascensão meteórica das intenções de voto em Jair Bolsonaro e aliados na reta final do 1o turno. Não há dúvidas: a veiculação de notícias falsas em larga escala interferiu no resultado eleitoral.

    Diante desse fato de tamanha gravidade, ficam as perguntas: quem são os financiadores da rede de fake news do capitão? A indústria de armas que quer lucrar com a violência das balas? Petrolíferas estrangeiras de olho no nosso pré sal? Latifundiários e madeireiros interessados nas terras indígenas e florestas? Banqueiros ávidos por comprar estatais a preço de banana? Em resumo: quem financia o jogo sujo de Bolsonaro?

    Exigimos apuração célere, rigorosa e transparente da denúncia feita pela Folha de S. Paulo. Se comprovada, é necessário que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) faça valer a lei vigente, impugnando a chapa de Jair Bolsonaro (PSL) ou convocando novas eleições presidenciais para este ano. Além disso, é preciso que a Justiça tome medidas imediatas contra os empresários envolvidos no esquema criminoso.

    Contudo, embora sejam válidas e necessárias as iniciativas jurídicas, como as definidas pelo PSOL e PT, temos plena consciência que o Judiciário está comprometido com o processo golpista em curso. A condenação, prisão e o impedimento eleitoral de Lula, por motivação política, não deixam margem a dúvidas. Não reverteremos esse processo reacionário nos tribunais. Nossos esforços devem estar concentrados no diálogo com o povo trabalhador e na construção da luta antifascista. Neste sábado, dia 20, vamos às ruas em todo país pelos nossos direitos e liberdades democráticas, contra Bolsonaro e seu projeto ditatorial.

    As pesquisas indicam vantagem de Bolsonaro. É difícil reverter esse quadro, mas não é impossível. Cerca de 30% da população define seu voto nos três últimos dias. Vamos batalhar pela virada, até o fim. E, para além do resultado eleitoral, importa ainda mais a construção coletiva da resistência contra o neofascismo, para preparar o amanhã. Reunir as pessoas, organizar a luta conjunta, em frente única! Vamos juntos, de mãos dadas!

    Ditadura nunca mais!

    Direitos sim, #EleNão!

    Contra Bolsonaro, votar em Haddad 13!

    Todas às ruas sábado, dia 20!