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  • O que venceu nas eleições do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de Fortaleza (CE)

    Na madrugada deste sábado, 19, foi realizada a apuração das eleições do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de Fortaleza (CE), depois de três dias de um pleito muito disputado. A essa altura, muitos já devem saber que a Chapa 1 – UNião e Luta (PCB e Resistência/PSOL) saiu vitoriosa, com 740 votos (36% dos votos válidos); Em segundo lugar, chegou a Chapa 2 (CUT/CSD), com 705 votos (34%); e, por último, ficou a Chapa 3 (PSTU), com 640 votos (30%).

    O normal, no interior da esquerda, diante de um resultado disputado deste, é que os comentários sobre o processo busquem valorizar as qualidades da chapa vencedora, especialmente se quem escreve era um apoiador dela. De fato, temos muito orgulho, como sempre diz Nestor Bezerra, de nossos “guerreiros e guerreiras” que são responsáveis pela vitória da Chapa 1. Mas, o que considero ainda mais importante destacar são os outros motivos que explicam o resultado e também suas consequências políticas.

    Foi a vitória de uma política, e a derrota de outra, no interior da esquerda socialista.

    Foi a afirmação e o fortalecimento de uma política de unidade para lutar contra os ataques dos patrões e governos; de uma frente única da esquerda socialista, para construir uma nova alternativa de independência de classe, democrática e socialista e da luta sem tréguas contra a extrema-direita e em defesa das liberdades democráticas da nossa classe.

    Por isso, com todas as nossas diferenças com a política de conciliação de classes da direção do PT, levamos para a campanha a defesa política e democrática da liberdade de Lula, preso e condenado sem provas.

    Construímos também, em meio a campanha, uma grande atividade na categoria com a presença de Guilherme Boulos, nosso pré-candidato a presidente da República, pela frente política e social construída a partir do MTST, PSOL, PCB, APIB, entre outros movimentos sociais e organizações políticas.

     

    A unidade para lutar foi a marca da Chapa 1
    Cabe ressaltar ainda que a Chapa 1, antes da inscrição das chapas, defendeu a unidade da CSP-Conlutas (Resistência/PSOL e PSTU) e da Unidade Classista (PCB), mas essa possibilidade de unificar toda a esquerda socialista no processo eleitoral deste importante sindicato foi rompida pela direção do PSTU.

    A luta da Chapa 1 pela unidade da categoria, seguiu durante a campanha, defendendo a unificação de todos os trabalhadores e as organizações que atuam na categoria na luta da campanha salarial, que está em aberto nesse momento. O compromisso da Chapa 1 foi construir a campanha salarial e a nova gestão do sindicato buscando permanentemente a unidade de toda categoria. O objetivo é dirigir o sindicato conjuntamente com todos os ativistas, militantes e cipeiros, independentemente de qual chapa participaram ou apoiaram.

    Essa busca permanente pela unidade para lutar e da frente única da esquerda socialista foi a marca principal da Chapa 1, e se saiu vitoriosa nas eleições dos operários da construção civil de Fortaleza.

    A campanha da Chapa 1 já foi a maior expressão dessa unidade, pois foi garantida não só pelos operários da chapa e pela militância do PCB e da Resistência, mas teve o apoio decisivo de outros movimentos e organizações: MTST, as duas Intersindicais e de outras correntes do PSOL (Comuna, Insurgência), entre outros grupos.

    A política do isolamento e da autoproclamação, expressa principalmente na campanha da Chapa 3 (PSTU) foi a grande derrotada destas eleições, ficando ainda em último lugar no voto democrático dos trabalhadores.

    De negativo, fica a campanha de calúnia e difamação feita contra o camarada Nestor Bezerra, atualmente deputado estadual, e contra também outros integrantes da Chapa 1, promovida pelas duas outras chapas. Essa campanha suja, de baixarias e mentiras, nós já esperávamos de setores mais degenerados da CUT. Mas, infelizmente, foi feita também pela direção majoritária da CSP-Conlutas, fato que deve ser repudiado pela base, entidades e movimentos da central. Acreditamos que deve ser discutido, de forma aberta, nos seus fóruns. Para que, quem acusou, seja obrigado a provar ou se retratar com o companheiro.

    Para além deste grave problema, o momento é de virar a página. Chega de ataques, brigas e baixaria. O compromisso da Chapa 1 é com a unidade de toda a categoria e da classe trabalhadora. E, essa tarefa fundamental, já começa agora, com a construção da campanha salarial, com a luta contra os impactos da reforma trabalhista e contra o desemprego, que assume índices alarmantes no Nordeste e na categoria. É hora de unidade pra lutar.

    Vamos! Sem Medo de Mudar o Brasil.

     

    Foto: Operários da construção civil em passeata pelas ruas de Fortaleza, durante greve da categoria. Arquivo.

  • Conferência do M-LPS debaterá unificação com a Resistência

    Nos próximos dias 25, 26 e 27 de maio, o M-LPS (Movimento Luta Pelo Socialismo) realizará a Conferência Nacional Humberto Belvedere in memoriam. A abertura da Conferência será em ato público aberto no dia 25 de maio, a partir das 19h, na sede do Sindicato dos Vidreiros do Estado de São Paulo (Av. Rangel Pestana, 1.189, Brás).

    O nome da Conferência é uma homenagem ao camarada Humberto Belvedere, fundador do M-LPS, que faleceu alguns meses depois da constituição da organização. Bel, como era chamado,  era um veterano militante, desde a década de 1960, e fonte de inspiração para a organização, que tem atuação em diversos estados do País e constrói o PSOL.

    A Conferência debaterá a situação política nacional e internacional, balanço, perspectivas e a proposta de unificação com a mais nova organização da esquerda socialista no Brasil, a Resistência. “Após um ano de existência e tendo participado das principais lutas neste período, é hora de fazer um balanço e discutir o futuro numa complexa conjuntura nacional e internacional”, anuncia a convocatória da Conferência, no site do M-LPS.

    O M-LPS foi formado em maio de 2017, dois meses após uma ruptura com a organização Esquerda Marxista. Desde então, a organização manteve um processo de debates e de produção de textos em conjunto com o MAIS e a NOS, organizações que se fundiram em 30 de abril, para formarem a Resistência.

    Pouco depois do Congresso de Fusão, o MLT (Movimento de Luta dos Trabalhadores), organização de jovens trabalhadores e estudantes de São Paulo, aprovou o ingresso na Resistência.

    FOTO: José Carlos Miranda, do M-LPS, no ato político de lançamento da Resistência

    SAIBA MAIS

    Nasce a “Resistência”, nova organização política da esquerda brasileira

  • Campanha contra venda da Embraer tem protesto e ganha apoio de sindicatos

    A campanha “A Embraer é nossa! Não à venda para a Boeing” deu mais um passo esta semana, com a adesão de importantes sindicatos, confederações e do movimento Brasil Metalúrgico. Um protesto em São José dos Campos, nesta terça-feira (15), reuniu entidades ligadas à CSP-Conlutas, CUT, Força Sindical, CTB e Intersindical e exigiu que o presidente Michel Temer (MDB) use o poder de veto para barrar a transação.

    Os sindicatos denunciam que a venda da Embraer promoverá a transferência da produção de aeronaves e de tecnologia para outros países, provocando demissões em massa no Brasil e o enfraquecimento da soberania nacional.

    Presente no ato, o deputado federal Carlos Zarattini (PT) – que é membro da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional e o principal articulador na Câmara contra a venda – classificou a operação como desastrosa para o país.

    “Essa venda é criminosa e vai obrigar o fechamento de fábricas, desemprego de milhares de pessoas e entrega para os americanos de todo conhecimento e acúmulo tecnológico e científico brasileiro no setor”.

    O deputado também lembrou que, além da fabricação de jatos, a Embraer é responsável pelo desenvolvimento de projetos de ação militar, defesa e controle do espaço aéreo brasileiro e pelo laboratório de energia atômica Aramar, em Iperó (SP). “Portanto, vender a Embraer significa colocar em risco a segurança do país e de nosso povo”, finalizou.

    Defesa dos empregos
    O protesto também cobrou do governador licenciado do Estado e pré-candidato à República, Geraldo Alckmin (PSDB), a defesa dos empregos na Embraer. Com fábricas em São José dos Campos, Taubaté, Botucatu e Gavião Peixoto, a Embraer emprega no país 17 mil trabalhadores diretos e milhares de indiretos.

    Os manifestantes criticaram a postura de Alckmin que, ao não se posicionar contra a venda, está condenando municípios e trabalhadores de várias cidades do estado.

    Usando com referência o sistema bancário, o presidente da FEM/CUT (Federação dos Sindicatos Metalúrgicos do Estado de São Paulo), Luiz Carlos da Silva Dias, lembrou que o Brasil tem um longo histórico negativo de fusão de empresas nacionais com grandes companhias internacionais.

    “A primeira coisa que uma grande empresa estrangeira faz ao comprar uma nacional é ver quantas unidades vão fechar e quantos trabalhadores serão demitidos. Não podemos ter ilusão de que a Boeing vai comprar a Embraer e continuar produzindo os aviões no Brasil para depois exportando para os Estados Unidos”, afirmou.

    Ataques às estatais
    Para a diretora do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e militante do PSOL Marina de Arantes, a venda da Embraer é parte da política do governo golpista de Temer, que visa entregar o patrimônio público e as empresas nacionais ao capital internacional. Fazem parte deste processo o desmonte do Sistema Petrobras e a proposta de privatização da Eletrobras.

    “É fundamental a unificação dos metalúrgicos, petroleiros e todos os servidores federais que estão em luta na defesa do patrimônio nacional. Não podemos deixar que Temer entregue de bandeja às empresas estrangeiras nossas riquezas e soberania nacional”, afirmou Marina.

    Crédito das fotos: Divulgação SindMetalSJC

  • Morte e vida Palestina

    O sol está em seu ápice, apesar disso, o dia de hoje não faz muito calor, o clima está ameno. Debaixo desse céu com poucas nuvens, caminha Ahmed*, um jovem alto, magro, torcedor do Barcelona, dos olhos pretos, mesma cor de seu cabelo raspado, e que começa a aparecer em seu rosto os primeiros daquilo que vira a ser sua barba. Ahmed tem apenas 18 anos de idade, e como Jesus Cristo, nasceu na Palestina.

    Ele e seus dois irmãos menores vivem na Faixa de Gaza, assim como outras duas milhões de pessoas que se espremem numa faixa de terra com uma área de 40 km. Nesse território minúsculo, que é um dos com maior concentração de pessoas do planeta, falta praticamente tudo: água, energia, saneamento básico e emprego para metade da população. Viver nessas condições é humanamente impossível. Além da falta de coisas básicas para a sobrevivência, a população de Gaza vive cercada por forças militares estrangeiras. O exército de Israel controla quem entra, quem sai e o que entra e o que sai no território, contando com a ajuda e benevolência da ditadura egípcia, de outros países árabes e com a benção dos Estados Unidos.

    Ahmed é pescador, costuma sair antes de o sol nascer para conseguir peixes, vender na feira e voltar com um pouco de comida para seus irmãos. Este ofício ele aprendeu com seu pai, que foi assassinado pelo Estado de Israel em 2012, vítima de um bombardeio feito pelo governo israelense. O pai de Ahmed, Hussein Abdullah, foi somente um dentre outros mais de 1600 palestinos mortos naquele conflito. Só mais um número para a mídia ocidental, só mais um caixão, Ahmed é só mais um órfão, e para os israelenses a morte de seu pai foi só mais um “efeito colateral”, pois são assim chamadas as milhares de vítimas civis desse massacre.

    Todo dia, quando volta para casa, Ahmed passa pelo Centro de Gaza, ou pelo que restou dele após os bombardeios. Encontra prédios abandonados, casas que por algum motivo a gravidade se rejeita a derrubar, pois delas não restam nada. De vez em quando, Ahmed olha por dentro, e consegue enxergar uma coisa ou outra. Da última vez, conseguiu ver um armário queimado, com uma porta derrubada, e dentro ainda era possível ver diversos tecidos misturados, panos verdes, vermelhos, roxos… no chão do que um dia foi uma casa entre restos de vidros, madeira, pedras e de uma parte do teto que desabou, passa um gato, extremamente magro, no outro canto da casa uma boneca velha repousa em sono eterno, Ahmed lembra de seu pai, de sua antiga casa, e sai do local chorando.

    Ao todo, após os bombardeios de 2012, mais de 20 mil casas ficaram inabitáveis, completamente destruídas ou desabando. Milhares de palestinos ficaram sem casa para morar. Ao todo, os números passam de cem mil pessoas que ficaram sem ter um teto.

    Israel bombardeou novamente o território palestino dois anos depois, em 2014. Antes, em 2008, ocorreu coisa parecida. Os números de casas destruídas, famílias sem ter onde morar, de palestinos mortos, vidas devastadas não para de aumentar. Ano sim, outro também, ano com milhares de mortes, outros com centenas, a vida dos palestinos é literalmente impossível, em uma das maiores tragédias de nossa época.

    Ahmed, assim como dezenas de milhares de jovens palestinos, não concorda com as condições de miséria a que são forçados a viver. Eles fazem parte de uma geração que tem entrado na luta pela liberdade cada vez mais cedo. Uma geração que enfrenta, com pedras e pedaços de paus, as armas de um dos exércitos mais poderosos do mundo, lutando contra a dominação israelense até que ela acabe. Mas enfrentando também a traição política das velhas direções palestinas.

    Há um pouco mais de um mês, em 30 de março, Ahmed esteve junto de outros milhares de palestinos em preparação para Marcha Para o Retorno, uma campanha de seis semanas reivindicando em diversas ações os territórios que Israel vem ocupando ilegalmente dos palestinos. No meio de uma multidão, era possível ver idosos, crianças, mulheres, jovens, rostos animados, eufóricos, outros com raiva, e alguns com um nítido olhar de preocupação.

    No instante em que se percebeu o tamanho das forças repressoras do Estado de Israel, os olhares da multidão se transformaram, os rostos de preocupação viraram maioria, os idosos e crianças foram sendo retirados aos poucos. O primeiro ministro israelense Benjamin Netanyahu mandou mais de cem atiradores de elite, bem posicionados, com armas de fogo letais. O exército também tinha homens para o confronto direto pelo chão. Netanyahu queria ver um verdadeiro massacre, e foi o que ocorreu. O dia terminou com 17 palestinos assassinados, e mais de mil feridos.

    Ahmed levou um tiro no olho esquerdo enquanto fugia, perdeu a visão desse olho e ficou entre a vida e a morte. As imagens do massacre feito pelas forças israelenses mais uma vez rodaram o mundo, A União Européia pediu uma investigação independente, a ONU, que ano passado concluiu que Israel tem uma política de apartheid com os palestinos, condenou o ocorrido, porém, mais uma vez o Estado sionista ignorou tudo isto.

    Em Israel, e parte da mídia ocidental, assim como os Estados Unidos e demais países imperialistas afirmam que Israel age por meio de legítima defesa, que os milhares de palestinos desarmados são inimigos da liberdade, querem por fim a “única democracia” da região, que são terroristas. Assim como também são terroristas os assassinados por meio de bombardeios, as crianças assassinadas são potenciais terroristas, e aqueles que não o são, são “efeitos coletareis”, mortes necessárias para acabar com o terrorismo.

    Ahmed, seu pai, seus amigos que cresceram com ele jogando bola nas ruas de barro, sonhando ser Messi ou Cristiano Ronaldo, são todos terroristas. Nenhum deles merece a liberdade, todos devem viver sob a tutela dos rifles israelenses. Eles não merecem hospitais, luz elétrica, água potável, saneamento básico. Os soldados israelenses têm o direito de invadir a casa dos palestinos pela noite, agredir quem bem entender, algemar, levar preso quem quiserem.

    O sentimento de solidariedade aos palestinos é pouco, normalmente restrito aos círculos da esquerda, no geral são pintados pela mídia como terroristas e ninguém quer ter simpatia, compaixão ou qualquer sentimento básico a terroristas. A comunidade internacional faz meia dúzia de discursos hipócritas, vazios e ocos, enquanto os Estados Unidos aplaudem as ações de Israel, os países árabes lavam as mãos e os europeus as secam.

    A pouca Palestina que ainda resta, Israel a apaga do mapa. Os colonos invadem, os soldados corrigem as fronteiras, e as balas terminam por limpar o terreno. Tudo isso, em legítima defesa. Sempre bom lembrar que foi em nome dessa mesma legítima defesa que Hitler invadiu a Polônia. E em cada ação de “legítima defesa”, um pedaço da Palestina some junto da vida de palestinos que somente defendem o direito à terra.

    Enquanto volta para casa, Ahmed passa pela praia de Gaza, vê crianças correndo na areia, jogando água umas nas outras, enquanto alguns pescadores lavam seus barcos. Tudo isso embaixo de um pôr do sol, que de tão lento, parece deslizar contra sua vontade para o horizonte. Sentada na areia, uma menina de cerca de três anos come desajeitadamente um pedaço de pão. Ela com seus grandes olhos fixa o olhar atentamente em um cachorro que se banha. Ahmed observa tudo isso e percebe que ainda consegue sorrir.

    *Ahmed, seu pai e seus irmãos, são personagens fictícios, mas poderiam representar a vida de muitos palestinos.

  • ¡ES TIEMPO DE RESISTENCIA!

    ¡ES TIEMPO DE RESISTENCIA!
    Es necesario transformar la vida para cantarla enseguida

    Manifiesto fundacional de Resistencia, Corriente interna del PSOL

    “Levántense, como leones que despiertan
    tantos, como una tropa invencible
    Agite sus cadenas para que ellas caigan
    Como el rocío caía sobre ustedes
    Ustedes son muchos, ellos son pocos.”
    Percy Bysshe Shelley (1819).

    Vivimos tiempos de muros y miedos
    El escritor mozambiqueño Mia Couto nos recordó hace algunos años que vivimos tiempos sombríos, envueltos por el miedo y rodeados por muros que separan fronteras nacionales y apartan clases sociales. En sus palabras, “bajo las mismas nubes grises vivimos todos nosotros, del sur y del norte, del occidente y del oriente”. Citando a Eduardo Galeano, enumera: “Los que trabajan tienen miedo de perder el trabajo. Los que no trabajan tienen miedo de nunca encontrar trabajo. Cuando no tienen miedo del hambre, tienen miedo de la comida. Los civiles tienen miedo de los militares, los militares tienen miedo de la falta de armas, las armas tienen miedo de la falta de guerras”. Y añade: “hay quien tenga miedo de que el miedo acabe”.

    En su continuo esfuerzo para superar sus insuperables contradicciones, el capital avanza por los caminos sangrientos de las guerras y de la devastación social. Las bombas lanzadas y las guerras civiles armadas por las potencias capitalistas en el sur del globo, llevan a la muerte a cientos de miles de víctimas de las armas y otros tantos que continúan muriendo por la violencia del hambre, o de las olas y de las fronteras, en los desesperados intentos de migrar. La violencia del capital en los países centrales acoge a refugiados y migrantes con xenofobia y racismo. Pero no ahorra a los nacionales, pues las políticas de austeridad retiran derechos y empujan hacia la miseria a sectores cada vez más grandes de la clase trabajadora de las naciones más desarrolladas. Pero, si para el 99% de la población la situación es desastrosa, para la personificación del capital -la burguesía- es rentable: del 82% de la riqueza mundial producida en 2016-2017 se apropió el 1% más rico de la población. “El capital es trabajo muerto, que como un vampiro vive solo de la succión de trabajo vivo, y vive más, en tanto más trabajo vivo chupe”, explicaba Marx hace ya un siglo.

    Así, donde la guerra convencional no se hace necesaria, la guerra social continúa chupando la sangre de la clase obrera. En el Brasil de los últimos años, unificada en torno a la propuesta de realizar rápidamente los más profundos ataques a la clase trabajadora, la burguesía movilizó sectores medios bajo el mote del “combate a la corrupción”, para apoyar un golpe parlamentario que llevó al gobierno de Temer y sus partidarios, comprometidos con el más devastador programa de austeridad. Dos años después de su llegada al poder, somos más de 13 millones de desempleados, con un cuarto de la población que vive por debajo de la línea de pobreza y el salario medio de los ocupados cayendo significativamente, más de la mitad de ellos recibiendo menos de un salario mínimo al mes.

    Ante ese cuadro de retroceso generalizado, por cierto que el gobierno de Temer es de una impopularidad impar, pero él se sostiene atacando las más elementales libertades democráticas y profundizando la violencia de la forma por aquí asumida por la dominación de clases desde siempre. Décadas de “guerra a las drogas” no resultaron sino en un crecimiento continuo de la violencia, especialmente contra las fracciones más precarizadas y pauperizadas de la clase trabajadora, mayoritariamente negras, que habitan las favelas y las periferias de las grandes ciudades brasileñas. Son ellos los que componen la mayoría de las decenas de miles de asesinados cada año (muchos de ellos, por la policía) y de los más de 700.000 presos de una población carcelaria que crece cada año. Aquellas y aquellos que se atreven a levantar la voz contra esa máquina matar y encarcelar creada y alimentada por el Estado, también son blancos de ella. El asesinato político de la concejala carioca Marielle Franco fue el ejemplo más impactante de la elevación del nivel de la práctica ya antigua de asesinatos de líderes indígenas, sin tierras, sin techos, sindicalistas urbanos y rurales y activistas sociales de los más diferentes movimientos de los oprimidos.

    En nombre del supuesto combate a la corrupción y a la violencia urbana, asistimos a las más absurdas maniobras jurídicas que eliminan derechos civiles elementales. Hemos observado también, desde la década pasada, el recurso cada vez más frecuente de convocatoria de las fuerzas armadas para tareas de seguridad pública, culminando con el reciente decreto de intervención federal militar en Río de Janeiro, en una escalada represiva que viene acentuando el blindaje del régimen democrático brasileño contra cualquier manifestación de descontento de los explotados y oprimidos, revelando una vez más la cara autocrática de la dominación burguesa.

    La corrupción y la violencia han sido invocadas por una ultraderecha de inspiración nítidamente fascista, que crece en capacidad de movilización, volviéndose más audaz en sus acciones violentas contra los sectores oprimidos y las representaciones de izquierda y de los movimientos sociales, así como más ambiciosa en sus pretensiones político-electorales. Su alimento es el miedo.
    Nosotros, sin embargo, no tenemos miedo de que el miedo acabe.

    Somos muchos, ellos son pocos
    Somos parte del 99%. Somos muchos, ellos son pocos. Por eso recurren a toda suerte de medidas coercitivas y a todo el arsenal de convencimiento, plantando cada vez más el miedo para recoger sumisión.

    Si queremos derrotarlos -¡y cómo queremos!- es necesario organizar a los muchos y muchas, la clase trabajadora por delante, movilizados en torno a un programa de transformaciones sociales radicales, un programa radicalmente anticapitalista, de combate a toda forma de explotación y opresión de un ser humano por otro, el machismo, el racismo, la lgbtfobia, la xenofobia, un programa que no tenga miedo de resistir en el presente, apuntando a la alternativa de futuro: el socialismo.

    Gran parte de la responsabilidad por la situación a la que llegamos debe ser atribuida a los partidos, movimientos y dirigentes de la clase obrera que, desde los años 1990, al menos, pero más acentuadamente después de la llegada del Partido de los Trabajadores al Gobierno Federal, renunciaron al programa socialista y a toda política que represente autonomía de clase. En nombre de la conciliación de clases, desarmaron la contestación al orden. No es casual que ya cuando su declaración en el Congreso Nacional se anunció, Dilma Rousseff exigió el camino de la política de austeridad, intentado convencer a los de arriba de su utilidad su, en lugar de tratar de movilizar a los de abajo para su defensa.

    Incluso fuera del gobierno, los dirigentes petistas y sus representantes en los movimientos sociales no rompieron con la lógica de la conciliación. Cuando la huelga general de 28 de abril de 2017 demostró que la indignación con el estado de las cosas podría generar movilizaciones de masas capaces de derrotar al gobierno, las direcciones conciliadoras retrocedieron, boicoteando los movimientos posteriores, con la expectativa de volver a ser aceptadas en la sala de la cena del poder burgués, alimentando la ilusión de que todo volvería a ser como antes, con Lula-allá en 2018. No entendieron que cuando “allá” estuvieron, eran sirvientes, no comensales.

    El resultado de tanta sumisión al orden está ahí: Lula, líder de las encuestas electorales, encerrado en una solitaria, como resultado de un proceso judicial tan frágil desde el punto de vista de las pruebas, como fuera el proceso de impeachment de Dilma. Con él nos solidarizamos, en esta situación, de la misma forma que nos opusimos al golpe, porque sabemos que cada ataque a los derechos democráticos, cada paso de retroceso institucional, alcanza no solo al PT, sino que busca callar cualquier alternativa de izquierda y sofocar el potencial antisistémico de las luchas de la clase trabajadora. Por eso también trabajamos para, efectivamente, construir frentes de luchas unitarios contra la liquidación de derechos, los ataques a las conquistas democráticas y las amenazas fascistizantes en el horizonte.

    Sin embargo, esta disposición de unidad para luchar en torno a objetivos de resistencia, centrales en esta coyuntura de retrocesos, no nos llevará a aceptar el abrazo de los ahogados de los que insisten en la conciliación de clases. La clase trabajadora brasileña necesita de otra izquierda, que no tenga miedo de exponer sus convicciones socialistas y su programa radical de ruptura con el orden burgués.

    Invertir el signo de la dispersión
    El proceso de reorganización a la izquierda del PT comenzó antes, pero tomó cuerpo tras la llegada de Lula al gobierno federal. El PSOL fue su expresión más significativa en el plano partidario. Construirlo fue una victoria significativa, por representar un movimiento que rompía tanto las barreras de la legislación electoral a las organizaciones políticas construidas a partir de abajo, como con la intención del PT y sus aliados de ser la única voz de los trabajadores y trabajadoras. Por eso, continuaremos construyendo el PSOL, entendiendo su papel como instrumento electoral indispensable para la reorganización de la izquierda socialista en el Brasil de hoy.

    Construir el PSOL, por reconocer su importancia, no significa evaluar que él nos basta. En el plano electoral, apostaremos a la construcción de frentes más amplios de partidos socialistas y movimientos combativos de la clase trabajadora, como la que hoy reúne PSOL, PCB, MTST, APIB y otros movimientos sociales, en torno a la candidatura presidencial de Guilherme Boulos y Sonia Guajajara. Una candidatura que trabajamos para lanzar y por la que haremos campaña con entusiasmo.

    Consideramos que el PSOL no es suficiente para la clase porque su horizonte todavía es estrictamente electoral y su programa sigue atado a la estrategia democrático-popular, diseñada por el PT en los años 1980 y aún no superada por la izquierda brasileña. Trabajamos por la profundización del proceso de reorganización de la izquierda socialista, porque creemos que es necesario desarrollar un debate programático que nos lleve a otro nivel de comprensión de la realidad brasileña e internacional y presente alternativas de futuro en este difícil presente, capaces de movilizar a la clase, no sólo en las urnas, sino sobre todo en las luchas y en las calles.

    Como ya habíamos afirmado en nuestras primeras manifestaciones -tanto a partir de la Nueva Organización Socialista (NOS), como del Movimiento por una Alternativa Independiente Socialista (MAIS) -, no reivindicamos ser los únicos, ni los primeros en levantar estas cuestiones, pero, resaltamos nuestra satisfacción por invertir el sentido recorrido por la mayor parte de las experiencias recientes de la izquierda radical. Somos el fruto de un proceso de fusión, no de fragmentación.

    Ya en el 2016, entendíamos “que la coyuntura nos exige sumar fuerzas, evitando caminos autoproclamatorios, sectarismos y dogmatismos”. Al final, nuestro desafío sigue siendo “sobrepasar el cuadro de fragmentación actual, para presentar el ejemplo de una unificación con organicidad, que nos acredite contribuir a la superación de los límites actuales de la izquierda”. No pretendemos, de ninguna manera, partir del cero. “Somos una pequeña rama del gran árbol del marxismo revolucionario mundial” y, por lo tanto, tenemos una bella historia de luchas y experiencias organizativas de la clase trabajadora para inspirarnos y orientarnos. Tampoco pensamos que la organización que ahora fundamos sea suficiente o signifique por sí sola la superación de la fragmentación de los socialistas revolucionarios. Al contrario. Con paciencia y seriedad, continuaremos buscando nuevas síntesis y diálogos. Queremos que el paso que damos ahora sea el primero de muchos otros en el mismo sentido.

    Sin olvidar que las referencias no son dogmas y que necesitamos actuar sobre nuestro presente, seguimos fieles al objetivo de “arrancar alegría al futuro”. Al final, como nos enseñó una militante socialista y feminista, hija de exiliados políticos, nacida en Londres en la segunda mitad del siglo XIX, que fue activa en la organización de los sectores más precarizados de la clase trabajadora de entonces:

    “Mucha gente no comprende cuánto la noción de felicidad es importante para los socialistas, cómo ella está en el corazón mismo del pensamiento de Marx. Es ella, después de todo, el gran objetivo final de nuestra lucha, la felicidad – no como simple búsqueda del placer individual- sino como autorrealización del ser humano. (…) Muchas personas (…) no se dan cuenta de que ser feliz es algo para ser buscado en el presente; que no debe ser una utopía sino algo necesario, ahora, algo para ser intentado desde ahora, algo que nos hace mejores como personas y por lo tanto más capaces de enfrentar la larga lucha. No creo que exagere cuando pienso que la belleza de la vida, la alegría de vivir es lo que nos debe guiar y es lo que nos puede dar alguna fuerza. Que la revolución significa no solo la búsqueda de la vida y de la libertad, sino la búsqueda de la felicidad”.
    Eleanor Marx (1897)

    Congreso de Fusión NOS-MAIS
    São Paulo (SP), 30 de abril de 2018.

    Nasce a “Resistência”, nova organização política da esquerda brasileira

  • A entrega da Embraer para a Boeing: Mais um capítulo da série “Por que demos um golpe no Brasil”

    No último dia 22 de dezembro foi anunciado mais um capítulo da temerária saga “Por que demos um golpe no Brasil”. Naquele dia a Boeing anunciou a intenção de comprar toda a Embraer, única empresa a fabricar aviões no hemisfério sul do planeta.

    Trata-se de entregar diretamente ao imperialismo todo o esforço de desenvolvimento tecnológico em um setor estratégico para a defesa e soberania nacional. Além disso, estão em risco cerca de 16 mil empregos nas três unidades produtivas no país: São José dos Campos, Araraquara e Botucatu, todas no estado de São Paulo.

    A Embraer foi criada com recursos do Estado nacional em 1969. É a história de uma saga   que reuniu o melhor da engenharia nacional através do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), a iniciativa do Estado em investir e um conjunto imenso de trabalhadores que rapidamente adquiriram as habilidades de produzir um equipamento tão sofisticado, cujas exigências de segurança, tecnologia, manutenção, etc..são imensas. A consolidação da Embraer como a terceira maior fabricante de aviões do mundo, é um caso emblemático que contrariava, e ainda contraria,  todo o discurso de ineficiência do Estado.

    Em 1994 ocorreu a privatização da Embraer. Vivíamos a primeira etapa da sanha neoliberal privatista no Brasil iniciada com Collor e,  depois retomada na mesma intensidade com Temer. A tentativa de “quebrar” e “diminuir” o Estado inviabilibou que novos investimentos fossem feitos na empresa e sem novos investimentos a empresa caminhava para a falência programada.  A despeito da forte resistência da sociedade e dos trabalhadores a privatização ocorreu por meros US$ 151 milhões. A perda do controle estatal jamais afastou o governo dos negócios da Embraer que continua a depender fortemente das encomendas  no setor de defesa e dos financiamentos que o BNDES proporciona aos compradores dos jatos executivos e aeronaves comerciais de todo o mundo. Além disso, o governo possui uma ação especial chamada Golden Share que confere o direito a veto em certas circunstâncias como a da mudança de controle, exatamente o caso atual.

    Desde o anúncio da venda para a Boeing até o presente momento não existe uma proposta oficial sobre o quê, quanto, quando  ou como o controle seria transferido para a Boeing. Seriam transferidos todos os segmentos: aviões pequenos, aviões comerciais e defesa? O quanto de cada um desses ou de todos eles seriam transferidos: 100% , 80%, 60%? Como o governo chancelaria essa entrega: criando uma nova empresa para abrir mão da Golden Share, aprovando o negócio com essa ação especial?

    O governo Temer chegou a anunciar que não venderia a Embraer, mas tudo indica que foi só um exercício de retórica soberana contra uma prática entreguista. As negociações prosseguem sem que o governo ouse fazer uso do seu direito de veto. Diariamente são divulgados informações sem identificação de fontes, e sem que as companhias e os governos confirmem.  Em meio a essas indefinições os trabalhadores seguem apreensivos quanto à continuidade da empresa e consequente a manutenção de seus empregos.

    A Embraer e seus asseclas jogam pesado inviabilizando o debate. Basta mencionar que as câmaras municipais de São José dos Campos e Jacareí, cidades do Vale do Paraíba onde estão concentrados cerca de 12 mil trabalhadores, negaram o pedido do Sindicato dos Metalúrgicos para a realização de uma audiência pública. A imprensa local e nacional  é completamente controlada pela empresa e não dá voz aos críticos da negociação.

    O governo brasileiro poderia paralisar imediatamente as negociações de entrega se fizesse uso da Golden Share. Esse seria o primeiro e definitivo passo para evitar que mais de 60 anos de esforços simplesmente desapareçam. Mas sabemos que estas não são as intenções do governo golpista. Ao contrário: a venda da Embraer aprofunda o processo iniciado com a privatização da empresa. Mais do que a mudança de controle, está colocada em xeque a sua própria existência. A venda para a Boeing significa o fim da Embraer.

    Os três sindicatos que representam as bases de Araraquara, Botucatu e São José dos Campos implementam campanha “A Embraer é nossa” desde o início de janeiro. Várias iniciativas foram tomadas como visitas à Brasília, realização de seminário, confecção de uma revista online, etc..

    Mas é preciso mais do que os esforços dos sindicatos. Não podemos aceitar isso de braços cruzados. É necessário que a sociedade e os trabalhadores se envolvam na campanha, somente assim conseguiremos pressionar o governo e a evitar esta venda!

    Foto: Protótipo do avião E195-E2 da Embraer em São José dos Campos, em 2017

  • Governador de Rondônia quer vetar criação de Conselho Estadual LGBT

    Em Rondônia, o Projeto de Lei 845/17, que prevê a criação do Conselho Estadual de Políticas Públicas e Direitos Humanos para a população LGBT, foi aprovado pela Assembleia Legislativa. O governador Daniel Pereira (PSB) anunciou ao presidente da Assembleia Legislativa, Maurão de Carvalho (MDB), que não irá sancionar o texto.

    O motivo da decisão seria a pressão feita pela bancada fundamentalista e parte da comunidade cristã de Porto Velho. A página do Facebook da Assembleia de Deus em Porto Velho, por exemplo, fez uma postagem contra a criação do conselho, que supostamente seria um “órgão que policiará escolas, igrejas e outras instituições no estado a seguir a agenda gay global” (sic).

    “Reitero meu compromisso de firme permanecer com minha fé, que segue inabalável, com os pensamentos firmados em Cristo Jesus, e buscando seguir o que está escrito na bíblia sagrada”, afirmou o deputado estadual Só na Bença (MDB) ao votar contra o projeto.

     

    A luta pela aprovação

    No dia 02 de maio, houve uma reunião com o governador para tratar da sanção do projeto, com participação de várias ativistas, militantes, representantes de coletivos e movimentos sociais, membros da OAB Rondônia, da UNIR (Fundação Universidade Federal de Rondônia), do Ministério Público de Rondônia e da Procuradoria do Estado de Rondônia. Uma postagem na página “A Gata e o Diabo” noticia o ocorrido e anuncia apoio ao projeto.

    Diversas entidades se posicionaram e fazem pressão para que o governador sancione a criação do Conselho.

    Em nota, o Sintero, Sindicato dos Trabalhadores em Educação no Estado de Rondônia, afirmou em nota:

    “Vivemos uma época em que se vê cotidianamente a disseminação do ódio e a intolerância a grupos socialmente vulneráveis levando a crimes bárbaros e a violações de direitos por preconceito e discriminação. Por isso, considera a instituição de um Conselho Estadual LGBT um importante avanço e conquista social para Rondônia.
    Não se pode, portanto, em nome de conceitos retrógrados e mesquinhos, ignorar os direitos dessa população à vida, à integridade física, ao trabalho e a todos aqueles direitos elencados na Constituição Federal.”

    A Amdepro, Associação dos Membros da Defensoria Pública do Estado de Rondônia, também divulgou nota a favor da sanção:

    A Associação considera legítima a luta pela implementação de políticas públicas e pela eliminação da violência, preconceito e de discriminação de gênero, opção sexual ou de qualquer outra forma que desconsidere a dignidade da pessoa humana.

    Na última sexta-feira, dia 4 de maio, uma manifestação organizada pelo movimento LGBT de Rondônia reuniu dezenas de pessoas em frente ao Mercado Cultural, no Centro de Porto Velho, para protestar em favor do projeto. Um dos participantes foi o ex-BBB Mahmoud Baydou, que cobrou que o governo aprove o projeto.

    “Rondônia é um dos estados que mais mata travestis no país. Essa população, além de sofrer violência física, também sofre com a falta de oportunidades. Entendemos que a criação desse conselho não resolverá todos os problemas de um dia para outro, mas ela conta como o primeiro passo para mudar essa realidade e tornar o estado mais seguro e com diversidade. É importante lembrar que não queremos privilégios, mas somente um pouco dos direitos que são arrancados de nós. Precisamos de uma entidade, de um órgão que acolha nossas demandas”, afirmou Mahmoud ao portal G1.

    Em carta assinada, o arcebisbo Roque Paloschi, em nome da Arquidiocese de Porto Velho, manifestou-se a favor da criação do conselho. “Diante da cultura do ódio, somos conclamados a promover a cultura da paz e da justiça”, afirmava a carta.

    O Esquerda Online se soma à luta em defesa da criação do Conselho Estadual de Políticas Públicas e Direitos Humanos para a população LGBT.

     

  • O método dialético de Marx: investigação e exposição crítica do objeto

    Eduardo F. Chagas – UFC/CNPq 1*

    O método dialético de Marx foi pouco trabalhado, embora constitua um tema de relevância especial para o desenvolvimento da teoria marxista, particularmente o papel que ele exerce na discussão do significado e da relevância dos conceitos de investigação e exposição enquanto momentos que o constituem. Esses momentos constituintes do método dialético de Marx, investigação e exposição, foram, muitas vezes, ou desprezados, por serem identificados, sem resguardar as diferenças, com a dialética hegeliana que, muitas vezes, comprometia o caráter materialista do próprio método de Marx, ou foram recusados pura e simplesmente em nome de um cientificismo atribuído ao pensamento de Marx.2

    Ao contrário do método especulativo, próprio da dialética hegeliana, e do empirismo imediato, próprio da economia clássica moderna, que foram incapazes de realizar uma investigação enquanto apreensão da “lógica”, da “racionalidade”, imanente ao próprio real, e uma exposição crítica desse real, enquanto reconstrução, no plano ideal, do movimento sistemático do próprio real, o método dialético de Marx tem como sujeito o próprio real, a lógica da coisa e não a coisa da lógica, do conceito, razão pela qual ele nem é um método subjetivista, tal como o idealismo especulativo acrítico e abstrato, que pressupõe um pensamento autonomizado enquanto demiurgo do real, isto é, um sujeito que dá, a partir da ideia, sentido à realidade, tomando-a como um caos desordenado, nem um método puramente objetivo, como o empirismo acrítico, o positivismo, que toma o pensamento como atividade passiva e a realidade como algo já acabado, pronto, dada imediatamente pela experiência direta, assumindo e ratificando ingenuamente a sua existência empírica, positiva.

    Com base nessas considerações preliminares, pode-se dizer que o método dialético de Marx pressupõe, sim, dois momentos inseparáveis: a investigação (ou a pesquisa) e a exposição (ou a apresentação). A investigação, ou o método de investigação (Forschungsmethode), é o esforço prévio de apropriação, pelo pensamento, das determinações do conteúdo do objeto no próprio objeto, quer dizer, uma apropriação analítica, reflexiva, do objeto pesquisado antes de sua exposição metódica. E a exposição, ou o método de exposição (Darstellungsmethode), não é simplesmente uma auto-exposição do objeto, senão ele seria acrítico, mas é uma exposição crítica do objeto com base em suas contradições, quer dizer, uma exposição crítico-objetiva da lógica interna do objeto, do movimento efetivo do próprio conteúdo do objeto.

    A exposição é uma expressão (tradução) ideal do movimento efetivo do real, isto é, trata-se não de uma produção, mas de uma reprodução do movimento efetivo do material, do real, de tal modo que o real se “espelhe” no ideal. Reproduzir quer dizer aqui para Marx reconstruir criticamente, no plano ideal, o movimento sistemático do objeto, pois o objeto não é dado pela experiência direta e imediatamente. Requer aqui, portanto, um trabalho prévio de investigação (“escavação” e “garimpo”), de maturação do objeto, de sua captação com detalhes, de suas formas de evolução, de suas conexões íntimas, para depois expor adequadamente, sistemático e criticamente, a sua lógica interna; vale dizer, é preciso um esforço intelectual de investigação, de apropriação do conteúdo, de apreensão do movimento interno, efetivo, do real, e de exposição, de expressão, ideal desse conteúdo, para livrar-se do “envoltório místico”, da “crosta idealista”3, extraindo o núcleo, o “caroço racional” de dentro das coisas, pois, afinal de contas, “a pérola não sai sozinha da ostra”.

    Neste sentido, o método dialético de Marx não é um instrumento, uma técnica de intervenção externa do pensamento ao objeto, como que um caminho pelo qual o pensamento manipula, a partir de hipóteses exteriores, o objeto.4 O pensamento tem, na verdade, que se livrar de opiniões pré-concebidas, de conceitos externos ao objeto, de hipóteses que pairam acima dele, para nele mergulhar e penetrá-lo, considerando apenas o seu movimento, para trazer à consciência este trabalho da própria lógica específica do objeto específico.

    Já no Manuscrito de 1843, no Manuscrito inconcluso de Kreuznach, intitulado Da Crítica da Filosofia Hegeliana do Direito – Crítica do Direito Hegeliano do Estado (Aus der Kritik der hegelschen Rechtsphilosophie. Kritik des Hegelschen Staatsrechts) (1843), Marx, partindo de sua crítica à filosofia política de Hegel, analisa o método dialético de Hegel, deixando claro que ele transcende o empírico na sua especificidade material, se mantém por cima do finito, do concreto, e autonomiza o abstrato, a ideia, o pensamento, transformando-o em sujeito real, de tal forma que o finito aparece apenas como resultado dele. Tal fato se evidencia na relação que Hegel estabelece entre o Estado e a família e a sociedade civil. A tese central de Hegel, na sua obra Princípios da Filosofia do Direito (Grundlinien der Philosophie des Rechts) (1821), é de que o Estado é uma essência independente, instância autônoma, necessária (a suprema realidade social do homem), que possibilita a unidade da família e da sociedade civil. Hegel concebe a sociedade civil, tal como a família, como manifestação conceitual do Estado.

    Deste modo, a relação entre família, sociedade civil e Estado se apresenta carente de significado próprio, assumindo o caráter de um fenômeno, de um predicado da Ideia: a família e a sociedade civil pertencem à essência do conceito racional do Estado, sendo, pois, momentos de sua esfera ideal. Para Hegel, a família e a sociedade civil são concebidas como esferas ideais do Estado, como esferas de sua finitude, como sua infinitude mesma. O Estado é que se divide na família e na sociedade civil, que as pressupõe, e o faz para surgir de sua idealidade como espírito real infinito para si.

    As esferas da família e da sociedade civil, isto é, da individualidade e da particularidade, são, para Hegel, como se viu, momentos ideais do Estado (da universalidade) e constituem o seu aspecto empírico e finito. É, porém, por meio dessas esferas, família e sociedade civil, que o Estado sai de sua idealidade e se torna uma universalidade concreta, quer dizer, um espírito real, infinito. Por isso, os indivíduos alcançam, por um lado, uma realidade finita e particular, por intermédio da família e da sociedade civil, e, por outro, uma realidade infinita e universal, mediante o Estado. Assim sendo, os interesses particular e universal do indivíduo se conservam e persistem no âmbito dos interesses e fins do Estado, de tal forma que a esfera estatal não é algo de alheio ao indivíduo, pois é nela que o indivíduo se torna plenamente livre.

    Hegel concebe a conexão da família e da sociedade civil com o Estado como determinação, produto da Ideia, pois a Ideia é o demiurgo de uma realidade hierarquizada, em cujo teto reina, imperturbavelmente, o espírito do Estado. Assim sendo, a divisão do Estado em família e sociedade civil é ideal, quer dizer, pertence à essência do conceito racional do Estado. Com efeito, o procedimento metodológico usado aqui por Hegel é o seguinte: a Ideia (o Estado) é o sujeito determinante, o princípio fundante, e os sujeitos reais, a família e a sociedade civil, são predicados, momentos objetivos da Ideia. Marx inverte esta orientação de Hegel e faz do elemento real (a sociedade civil) o verdadeiro sujeito, no qual o pensamento (o Estado político) é tão-somente sua manifestação.

    Em outros termos, se em Hegel há a inversão do empírico em especulativo, pois, para ele, a Ideia é o demiurgo da realidade, para Marx, a realidade efetiva é o demiurgo do pensamento; isto significa que Marx põe como condicionado, determinado, produto ou predicado (o Estado) o que Hegel considera condicionante, determinante, produtor ou sujeito, e situa como sujeito (a sociedade civil) o que Hegel julga predicado.5 Quer dizer, para Marx, é o contrário: é a sociedade civil (enquanto sistema de interesses privados) que produz o Estado político (enquanto representante aparente do interesse geral, coletivo), e não o Estado que engendra a sociedade civil; da sociedade civil, resulta o Estado, dado que este é caracterizado pelo desenvolvimento “natural” da família e pelo crescimento artificial da sociedade civil. Hegel faz dessa questão um “misticismo lógico” (a realidade transformada em determinação da Ideia), uma antinomia indissolúvel. Vejamo-la:

    § 261. Frente às esferas do direito e do bem-estar privados, da família e da sociedade civil burguesa, o Estado é, por um lado, uma necessidade externa e um poder superior, a cuja natureza estão subordinadas e da qual dependem suas leis e seus interesses; mas, por outro lado, é ele o fim imanente de ditas esferas e tem suas forças na unidade de seu fim universal último e dos interesses particulares dos indivíduos, dado que estes têm deveres para com o Estado, na medida em que eles, ao mesmo tempo, usufruem de direitos. (§ 155)..6

    O método dialético-especulativo de Hegel mistifica a existência real ou material do Estado, porque não toma como ponto de partida os sujeitos reais e apreende, em vez da própria natureza do conteúdo do Estado, a Ideia ou a substância abstrata como determinação estatal. Tal determinação não é considerada a partir de seu conteúdo concreto, real, mas sim como forma abstrata, lógico-metafísica, uma vez que a determinação formal, absolutamente abstrata, aparece como conteúdo concreto. É assim que Marx desmonta o método dialético de Hegel, a fim de demonstrar que, em suma, sua Filosofia do Direito é apenas um tratamento da lógica do objeto, isto é, um desenvolvimento da Ideia, das determinações da Lógica no empírico, quer dizer, uma articulação da própria Lógica, como que um capítulo ou um mero parênteses de sua obra anterior, a Ciência da Lógica. Por isso, diz Marx que, aqui, não estamos fazendo “Filosofia do Direito”, senão Lógica.

    Depois dessa crítica à especulação como método científico, exposto no Manuscrito de Kreuznach, revelando de forma crítica as “mistificações” da filosofia política hegeliana, em A Sagrada Família (Die heilige Familie) (1844) ou Crítica da Crítica Crítica, contra Bruno Bauer e consortes (Kritik der kritischen Kritik. Gegen Bruno Bauer und Consorten), particularmente no capítulo intitulado “O Segredo da Construção Especulativa”, Marx e Engels enfatizam, de forma instrutiva, o caráter abstrato, apriorístico, do método idealista, do método dialético-especulativo de Hegel, que quer criar, milagrosamente, o mundo real a partir de categorias abstratas, passar de uma abstração ao contrário da abstração, ou, com outras palavras, quer, partindo do “ser conceitual irreal”, de uma ideia geral, de um conceito universal-vazio, conceber “seres naturais reais”, coisas concretas, dando-lhes uma significação mística, sobrenatural.

    O método especulativo-abstrato, ao tratar da realidade, como, por exemplo, das frutas concretas, maçãs, pêras, morangos, amêndoas etc., elabora uma ideia abstrata, um conceito geral de fruta, que existe fora do próprio homem. Tal ideação ou conceito abstrato, a fruta, separada das diferenças particulares, específicas, vale dizer, dos frutos singulares reais (maçã, pêras, morangos, amêndoas), é tomada pelo método especulativo como a unidade (a totalidade universal) da aparência das diversidades, como a substância, a verdadeira essência, como aquilo que existe de essencial nas frutas concretas; e os seres reais, as frutas singulares, são inessenciais, meras aparências, desaparecendo, por conseguinte, aqui suas diferenças reais, individuais, ou seja, a particular riqueza de suas determinações.

    Assim sendo, o que existe de fundamental no concreto, de essencial na pêra ou na maçã não é o ser real, as “propriedades naturais” da pêra, da maçã, o que é perceptível aos sentidos, mas as “propriedades especulativas”, a essência abstrata, atribuída ao objeto pela atividade autônoma do eu ou do sujeito. Portanto, a essência, a fruta, não brota do solo material, não é extraída do ser, mas do espírito, do cérebro, por conseguinte, ela é abstrata e seus momentos, maçã, pêra …, também o são; quer dizer, ela é apenas uma representação abstrata do eu, e as frutas particulares reais, “as frutas profanas”, são seres conceituais abstratos, simples manifestações vivas do conceito, “encarnações” da ideia, “cristalizações” ou modos de existência da fruta única, absoluta.

    O entendimento limitado do método dialético-abstrato “distingue, é verdade, uma maçã de uma pêra e uma pêra de uma amêndoa”, mas sua “razão especulativa declara que essa diferença sensível é não-essencial e sem interesse.” Tal método “vê na maça a mesma coisa que na pêra, e na pêra a mesma coisa que na amêndoa, a saber, ‘a fruta’.”7 Desta maneira, esse procedimento metodológico, que é uma exposição dissimulada, e não real, da própria coisa, leva o homem a tomar o desenvolvimento especulativo como real, e o desenvolvimento real por especulativo.

    Para o idealismo especulativo, a ideia é, como se notou, o demiurgo (o sujeito) do real, pois este é produto do pensamento que se aprofunda em si, movimentado em si mesmo. Assim sendo, o movimento do pensamento aparece aqui como um ato produtor, e o mundo produzido surge como realidade única. Hegel confunde, nos dizeres de Marx e Engels, o processo lógico com o processo real, tomando este apenas como fenômeno, aparição do lógico, escamoteando, assim, suas contradições e conflitos. A dialética hegeliana é a dialética do pensamento puro; nela, o lógico é

    o valor especulativo, o valor do pensamento do homem e da natureza – sua essência tornada completamente indiferente contra toda determinidade efetiva e, por isso, não efetiva – é o pensamento exteriorizado, que, por conseguinte, se abstrai da natureza e do homem efetivo; o pensamento abstrato.8

    Nos Manuscritos Econômico-Filosóficos (Ökonomisch-philosophische Manuskripte) (1844), em especial no terceiro manuscrito, intitulado “Crítica da Dialética e da Filosofia Hegelianas em Geral”, Marx critica esse idealismo especulativo, particularmente a dialética especulativa de Hegel, que é, para Marx, o método de exposição do movimento lógico, espiritual, conceitual, e de sua autodeterminação, que não dá conta da realidade concreta, do homem e da natureza.

    A dialética especulativa de Hegel começa com a alienação do infinito (da substância, do universal abstrato), que se nega (elimina o infinito) e se põe como determinado, finito (particular), negando, em seguida, o finito, para restabelecer o infinito. Por meio desse procedimento metodológico de Hegel, da dialética da negatividade, da negação da negação, feito princípio motor e criador, não ocorre a afirmação do ser verdadeiro, objetivo, mas a confirmação da abstração, uma vez que o infinito, o espírito absoluto, aparece como o espírito do mundo alienado, que compreende a si mesmo dentro dos limites da abstração, da auto-alienação.

    O método especulativo de Hegel é abstrato, acrítico, pois toda a história, toda a produção, não é vista como a história real do homem como sujeito, mas apenas como expressão abstrata, lógica, especulativa do processo histórico, resultado da história da produção do espírito abstrato, pois só o espírito constitui a autêntica essência do homem, e a verdadeira forma do espírito é o espírito pensante, o espírito lógico, especulativo.“A humanidade da natureza e da natureza produzida pela história, dos produtos do homem, manifesta-se no fato de estes serem produtos do espírito abstrato e nessa medida, portanto, momentos espirituais, essências do pensamento.”9 Desta forma, a riqueza, o poder do Estado, a sociedade civil, a família e fatos sociais análogos, por exemplo, são fenômenos espirituais, apenas “entidades alienadas do ser humano”, concebidos na sua forma espiritual, em sua essência abstrata, “por conseguinte, simplesmente um estranhamento [Entfremdung] do pensamento filosófico puro, isto é, abstrato.”10

    A alienação, concebida por Hegel, se reduz, pois, à alienação da autoconsciência, e a sua superação é somente a negação da oposição entre o pensamento abstrato (o para-si) e a realidade sensível ou a existência sensorial real (o em-si), entre sujeito e objeto, porém circunscrita ao interior do próprio pensamento. Quer dizer, tudo finda numa alienação do pensamento, e tudo se resolve na esfera desse pensamento abstrato. A abolição, por exemplo, do estranhamento, da propriedade privada, da vida civil egoísta, não é resultado de um ato prático, transformador, mas de uma superação meramente especulativa, idealística, que ocorre só no interior do próprio pensamento, na esfera da pura consciência, isto é, na abstração, como ato puramente formal, deixando-os persistir como tais no mundo objetivo e real.

    Tal como haviam feito anteriormente em A Sagrada Família, Marx e Engels, em A Ideologia Alemã (Die deutsche Ideologie) (1845-1846), mantêm, de modo explícito, a sua postura anti-especulativa, opondo-se às idéias tomadas como abstratas, autônomas, pelos neo-hegelianos (Feuerbach, Bauer e Stirner). Marx e Engels enfatizam que as ideias pertencem a uma época, e não uma época a uma idéia determinada, ou seja, que não se explica a práxis a partir das ideias, mas se explica as formações ideológicas a partir da práxis material, pois que “não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência”.11 Ao contrário do pensamento sem pressuposto, eles partem de pressupostos reais e inelimináveis, da produção material da vida, dos meios para satisfazer as necessidades vitais (comer, beber, ter habitação, vestir-se), com os quais “a produção das idéias, das representações da consciência está […] imediatamente entrelaçada”.12

    Portanto, embora as idéias, as representações, sejam produzidas pelos homens, elas, e todas as formas de ideações, como a moral, a teologia, a filosofia e qualquer outra ideologia, não são desligadas dos fatos, desprovidas de pressupostos, incondicionadas, auto-engendradas, mas são expressões ideais das circunstâncias reais, das condições materiais de existência, extraídas do mundo real, isto é, tem como raiz, como fonte primária, a produção e o intercâmbio material da vida social-humana.

    Passagens expressivas sobre o método, presentes em A Ideologia Alemã, são retomadas por Marx em sua obra A Miséria da Filosofia (Das Elend der Philosophie) (1847). Nesta obra, capítulo II, “A Metafísica da Economia Política”, especialmente no §1, que trata diretamente da questão do método, Marx, em resposta ao Sistema das Contradições Econômicas ou à Filosofia da Miséria (Système des Contradictions Économiques ou à Philosophie de la Misére de Proudhon) (1846), demonstra a inconsistência metodológica das argumentações de Proudhon, pois o método deste socialista francês reproduz, de forma vulgar, mal-assimilado, o método especulativo-hegeliano, na medida em que toda realidade se reduz, como em Hegel, a um movimento puramente conceitual. Abstraindo da sociedade, ou dos fatos, a base material, Proudhon alcança como substância apenas as categorias lógico-formais.

    É para se admirar, […] se todas as coisas se apresentam como categoria lógica? É para se admirar, ao abandonar, pouco a pouco, tudo aquilo que constitui a individualidade de uma casa, ao abstrair dos materiais de que ela se compõe e da forma que a distingue, se tem, finalmente, ainda um corpo; ao abstrair dos limites desse corpo, se tem ainda um espaço; enfim, ao abstrair das dimensões desse espaço, se tem nada mais do que a quantidade em si, a categoria lógica da quantidade? Se abstrairmos, consequentemente, de qualquer assunto todos os seus pretensos acidentes, animados ou inanimados, homens ou coisas, assim temos razão em dizer que em última abstração chegamos a ter como substância apenas as categorias lógicas.13

    O método metafísico da economia política de Proudhon é irrefletido e equivocado, pois ele não implica o movimento histórico que engendra as coisas, não as explica, ou, melhor expressando, nele, as coisas estão às avessas, porque, em vez de as ideias ou categorias serem expressões do movimento histórico das relações sociais de produção, antes são as relações materiais expressões de ideias ou de categorias. Se, para Marx, os princípios, ideias e categorias são produzidos de acordo com as relações sociais de produção, pois eles são abstrações, expressões teóricas da realidade, para Proudhon, ao contrário, as relações reais são encarnações das categorias, “da razão impessoal da humanidade”. Neste sentido, assim como no método especutativo-abstrato de Hegel, o método de Proudhon reduz, pois, tudo o que existe, tudo o que vive sobre a terra e sob a água, à força da abstração, o concreto ao abstrato, diluindo, deste modo, toda a realidade no mundo das abstrações, no universo das categorias lógicas.

    Proudhon quer aplicar a dialética de Hegel às categorias da economia política, mas ele se apropria dela, nas palavras de Marx, de forma muito “mesquinha”, pobre, construindo apenas uma metafísica da economia política.

    Sendo toda a coisa reduzida a uma categoria lógica, e todo o movimento, todo o ato de produção ao método, naturalmente se segue que toda relação entre produtos e produção, entre objetos e movimento, se reduz a uma metafísica aplicada. O que Hegel fez em relação à religião, ao direito etc., procura o sr. Proudhon fazer em relação à economia política.14

    Para Proudhon, a dialética consiste de um simples movimento antagônico, encerrado na antítese entre o positivo e o negativo, o sim e o não. Ele pensa assim:

    O sim torna-se não, o não torna-se sim, o sim torna-se ao mesmo tempo sim e não, o não torna-se ao mesmo tempo não e sim, desta maneira os contrários mantêm-se, neutralizam-se, suprassumem-se. A fusão desses dois pensamentos contraditórios forma um pensamento novo, que é a sua síntese. Esse pensamento novo desdobra-se ainda em dois pensamentos contraditórios, que se formam, por sua vez, numa nova síntese. Deste trabalho de geração nasce um grupo de pensamentos. Esse grupo de pensamentos segue o mesmo movimento dialético de uma categoria simples e tem por antítese um grupo contraditório. Desses dois grupos de pensamentos nasce um novo grupo de pensamento, a síntese de ambos..15

    Preso a essa “dialética” maniqueísta, Proudhon pensa que toda a realidade, qualquer categoria econômica, tem dois lados, a oposição entre o lado bom (a coisa boa) e o lado mau (a coisa má), a parte da vantagem (do conveniente) e a da desvantagem (do inconveniente), as quais constituem a contradição de cada categoria. Nesse sentido, para superar essa contradição, basta, na opinião de Proudhon, conservar a ala boa, eliminando o “desvio” da parte má, para se chegar à síntese. O método metafísico da economia política de Proudhon se afasta do método dialético, pois,

    quando o processo do movimento dialético se reduz ao simples procedimento de opor o bom ao mau, de colocar problemas que tendem a eliminar o mau, e de aplicar uma categoria como antídoto para outra, as categorias não têm mais autonomia; a idéia “já não funciona”, já não tem vida nela. Já não se põe nem se decompõe em categorias. A sucessão das categorias transformou-se em um suporte puro. A dialética já não é o movimento da razão absoluta. Já não existe mais dialética, há quando muito apenas moral pura.16

    Como tudo tem, nessa dialética proudhoniana, dois lados, assim a escravatura, a exploração, o capitalismo em geral tem também os seus dois lados. O importante não é negá-los, e sim ver os dois lados, eliminando apenas o lado mau, mas conservando “o lado bom” da escravatura, da exploração do capitalismo etc. Onde estaria “o lado bom” da escravatura? Para Proudhon, ela “é o eixo da indústria burguesa, do mesmo modo que as máquinas etc.” Sem ela,

    não teríamos o algodão; sem o algodão não teríamos a indústria moderna. Foi a escravidão que deu às colônias o seu valor, foram as colônias que criaram o comércio mundial, que é a condição da grande indústria. Por isso a escravidão é uma categoria econômica da maior importância.

    E mais:

    Sem a escravidão, a América do Norte, o país mais progressivo, transformar-se-ia num país patriarcal. Tire-se a América do Norte do mapa do mundo, e tem-se a anarquia, a decadência completa do comércio e da civilização modernos. Faça-se desaparecer a escravidão e ter-se-á anulado a América do mapa dos povos.17

    Assim, por meio dessas reflexões, desses procedimentos metodológicos de Proudhon, tudo passa a ser justificado, pois a escravatura, bem como a exploração, por serem categorias econômicas já estabelecidas, eternas, existiram e sempre existirão explícita ou disfarçadamente, perdendo seu caráter de produtos históricos e transitórios.

    Uma formulação mais acabada, embora resumida, do método de Marx encontra-se na Introdução (Einleitung) aos Fundamentos (Grundrisse) (1857-58), no Prefácio (Vorwort) e na Introdução (Einleitung) (1859) a Para a Crítica da Economia Política (Contribuição) (Zur Kritik der Politischen Ökonomie) (1859) e no Pósfácio da segunda edição alemã (Nachwort zur zweiten Auflage) (1873) de O Capital (Das Kapital) (1867). Logo no início da Introdução aos Grundrisse, Marx demonstra que as relações econômicas são determinadas social e historicamente, e é, precisamente, a ausência desse caráter histórico o equívoco central da economia clássica. “Neste esquecimento encontra-se toda a sabedoria dos economistas modernos que demonstram a eternidade e a harmonia das relações sociais existentes.”18

    O ponto de partida da investigação de Marx é a produção material, num determinado estágio do desenvolvimento social-humano, mas não a produção em geral, que é não só uma abstração genérica, pobre e vazia, como também apologética.

    Indivíduos que produzem em sociedade, portanto produção de indivíduos socialmente determinada é, naturalmente, o ponto de partida. O caçador e o pescador individuais e isolados, com que começam Smith e Ricardo, pertencem às imaginações carentes de fantasia do século XVIII. São “robinsonadas” que não expressam de forma alguma, como imaginam alguns historiadores da cultura, uma simples reação contra os excessos de requinte e um retorno a uma vida natural mal compreendida. Do mesmo modo, o contrato social de Rousseau, que estabelece, entre sujeitos independentes por natureza, relações e laços por meio de um pacto, nem por isso se baseia num tal naturalismo. Isto é aparência, e somente aparência estética das pequenas e grandes robinsonadas. Na realidade, trata-se de uma antecipação da “sociedade burguesa” que se vinha preparando desde o século XVI, dando passos gigantescos para a sua maturidade no século XVIII.19

    Ao ter mostrado que a produção material não é uma produção em geral, abstrata, mas é determinada socialmente, Marx delimita seu objeto de investigação, a saber, a produção burguesa moderna, e defende o argumento de que nela os indivíduos não podem ser tomados, como aparecem na economia política, atomisticamente, já que eles são membros de um conjunto social, ou seja, se encontram interligados por meio de relações complexas que determinam seu ser social.

    Marx critica aqui as “robinsonadas” do século XVIII, típicas não só da economia política clássica, como também do contratualismo, do utilitarismo e do racionalismo e do empirismo modernos, que vêem o indivíduo não como um resultado, mas como ponto de partida da história, o indivíduo como um ser independente, isolado, fragmentado, livre de seus laços sociais, de sua unidade, dificultando, assim, entender a condição dele como mero instrumento, simples meio para a realização dos fins privados, egoístas, da sociedade burguesa moderna. Ao contrário das teorias anteriormente mencionadas, Marx toma o indivíduo não como um dado da natureza, mas como um produto da história, como

    um zoon politikon, [animal político], não só um animal social, mas um animal que só pode isolar-se em sociedade. A produção do indivíduo isolado fora da sociedade […] é uma coisa tão absurda como o seria o desenvolvimento da linguagem sem indivíduos que vivem e falam juntos em conjunto.20

    Marx rejeita aqui, pois, o atomismo social, ou seja, as concepções atomísticas de sociedade, no qual o indivíduo singular (o individualismo e o subjetivismo metodológicos) era o ponto de partida, anterior à sociedade, ao todo, pré-social, ou era visto à parte da comunidade, puramente egoísta, trazendo, com isto, dificuldades para se compreender a sociedade como um todo complexo e preexistente, do qual o indivíduo é parte.21

    O caráter ideológico do pensamento dos economistas clássicos evidencia-se também no momento em que eles concebem a vida social como governada por leis fixas, naturais, universais abstratas, válidas para todos os indivíduos em todas as sociedades, dando a entender às ocultas que as relações burguesas são regidas por leis eternas, imutáveis, e tratam a produção, a distribuição, a troca e o consumo como partes isoladas do todo, esferas autônomas, momentos exteriores, não relacionados entre si, do processo econômico. Ao contrário dessa parcialidade e fragmentação do processo econômico feita pelos economistas clássicos, Marx parte da produção material, socialmente determinada, e demonstra que ela é um todo orgânico, dinâmico, uma rica totalidade de relações diversas, na qual seus momentos constitutivos, a distribuição, a troca e o consumo, estão concatenados entre si, formando unidade sintética, embora contraditória: a produção oferece, na forma material, o seu objeto, isto é, os elementos materiais do consumo, pois sem objeto não há consumo.

    A produção determina, porém, não só a forma objetiva, como também subjetiva do objeto, isto é, ela não só fornece o objeto material à necessidade do consumidor, como também cria o consumidor, a sua necessidade, ao determinar o modo, a forma específica em que o objeto deve ser consumido. Como diz Marx: “A fome é a fome, mas a fome que se satisfaz com carne cozinhada, comida com faca e garfo, não é a mesma fome que come a carne crua servindo-se das mãos, das unhas, dos dentes.”22 Do mesmo modo: “O objeto de arte – tal como qualquer outro produto – cria um público sensível à arte e capaz de desfrutar a beleza.”23

    Portanto, a produção cria o objeto para o indivíduo (para o consumo), o modo de consumi-lo e a necessidade no indivíduo desse produto (o apetite, o desejo do consumo). E o consumo é o móbil que impulsiona a produção, que põe em movimento o processo produtivo, na medida em que ele produz a necessidade de um novo produto, de uma nova produção. Entre a produção e o consumo situa-se a distribuição, que não pode ser uma repartição coletiva, igualitária, dos produtos, porque ela não é independente, e sim determinada inteiramente pela estrutura da produção, que é privada, particular. Nesse sentido, a distribuição dos produtos é determinada pela forma da produção (privada), da distribuição dos instrumentos de produção (privados) e da função (capital e trabalho) dos membros da sociedade na produção. Do mesmo modo, a troca não é independente e indiferente à produção, e, se a produção é privada, a troca também o é.

    Portanto, produção, distribuição, troca e consumo são elos de um todo único; eles não são idênticos nem exteriores um ao outro, mas momentos diferentes, embora recíprocos, no interior de uma unidade, de uma totalidade orgânico-dialética. Em O Capital (1867), Marx parte, por exemplo, da forma simples do valor, a mercadoria, porque dentro dela se encontram as contradições básicas da sociedade capitalista. A mercadoria é, no entanto, uma parte articulada a um todo, a uma totalidade, o capitalismo como sistema econômico, social e político. Essa totalidade em sua concreticidade clara e ricamente articulada, enquanto unidade da diversidade, síntese de múltiplas determinações, é o que Marx designa de o concreto, o efetivo, que se distingue do real imediato, empírico, como ponto de partida, próprio dos economistas clássicos.

    A economia política clássica parte superficialmente de um todo, de uma totalidade abstrata, a nação, o Estado, a população. Esse todo, de onde ela parte, é, entretanto, imediato, empírico, por isto ele é, em verdade, um abstrato desordenado, obscuro, vazio de conteúdo social, econômico e político, carente, pois, das mediações e determinações capazes de torná-lo inteligível. Marx demonstra que a população, por exemplo, por si só é uma representação inorgânica da realidade, “caótica do todo”, uma abstração, pois ela se compõe, em verdade, em classes sociais, e estas não podem ser compreendidas sem a contradição entre o capital e o trabalho assalariado, e estes, por sua vez, sem a troca e a divisão do trabalho. Marx quer, com isto, superar, por um lado, o método empirista da economia política, que parte, sim, do real, mas permanece no seu nível simples, aparente, empírico-imediato, sem, contudo, cair, por outro lado, no método especulativo hegeliano, que concebe o real apenas como um resultado da atividade de conceber, do pensamento, fechado e concentrado em si mesmo.

    O método de Marx é, como expresso, uma crítica não só à economia política clássica, como também à dialética hegeliana. E, embora faça valer a prioridade ontológica desse real ante o real produzido pelo pensamento que engendra a si mesmo, separado e acima do objeto, produzido só idealmente, abstratamente no pensamento, ele não nega, de maneira nenhuma, o momento em que o real, a partir do próprio real, deva ser pensado, concebido, reproduzido por meio do pensamento, isto é, reconstruído pelo pensamento como concreto pensado. Mas para reconstruir o concreto, a totalidade orgânica, deve-se, segundo Marx, partir do inferior para o superior, do mais simples e abstrato para o mais complexo e efetivo, da aparência para a essência, pois, como diz ele no Prefácio (Vorwort) de 1859 a Para a Crítica da Economia Política (Contribuição): “parece-me que antecipar resultados que é preciso demonstrar em primeiro lugar é pouco correto, e o leitor, que quiser, em geral, seguir-me, deve elevar-se do particular ao geral.”24

    Marx começa, portanto, pelo real imediato, que é ainda nesse nível abstrato, pobre, para, em seguida, a partir dele mesmo, reconstruí-lo, ou reproduzi-lo (mas não produzi-lo), pelo pensamento como uma “categoria mental concreta”. Como adverte ele, “é preciso nunca esquecer, a propósito da evolução das categorias econômicas, que o sujeito, aqui a sociedade burguesa moderna, é dado tanto na realidade como no cérebro”.25 Em síntese, o método de Marx é, como já enunciado, o método da reconstrução do real por meio do pensamento e da exposição (ou apresentação) crítica desse próprio real.


    Esse método de pesquisa (reconstrução) e exposição (crítica) do real na qualidade de concreto mediatizado é reafirmado por Marx, como expresso, no referido Pósfácio (Nachwort) (1873) de O Capital. Aqui Marx confirma o que já se demonstrou no início deste artigo, a saber, por um lado, sua crítica ao método empirista da economia clássica, para a qual o real é dado de forma simples e imediata. Mas “deve-se, sem dúvida, distinguir, formalmente, o método de exposição do método de pesquisa.

    A investigação tem de apoderar-se da matéria, em seus pormenores, de analisar suas diferentes formas de desenvolvimento e de descobrir a conexão interna que há entre elas. Só depois de concluído esse trabalho, é que se pode apresentar, adequadamente, o movimento real. Se isto se consegue, ficará espelhada, no plano ideal, a vida da realidade pesquisada”.26 De outra parte, Marx reafirma (o que já foi também demonstrado) seu confronto com a dialética mistificada de Hegel:

    Meu método dialético, por seu fundamento, não só difere do método hegeliano, como também é a ele inteiramente oposto. Para Hegel, o processo do pensamento, – que ele transforma em um sujeito autônomo sob o nome de idéia, – é o criador do real, e o real é apenas sua aparição externa. Para mim, ao contrário, o ideal não é mais do que o material transposto para a cabeça do ser humano e por ela interpretado.27

    Embora extraia e assimile no seu método o procedimento geral da dialética hegeliana, o núcleo racional dela, a transitoriedade, a negatividade, o devir, o potencial crítico, o esforço do pensamento (o trabalho do conceito) para reconstruir o objeto, Marx não se esquece de enfatizar a tese de que, “em Hegel, a dialética está de cabeça para baixo. É necessário pô-la de cabeça para cima, a fim de descobrir o caroço racional dentro do invólucro místico.”28 Portanto, pelo que ora foi exposto, é perceptível a noção de que o método de Marx é um valioso procedimento de investigação e exposição crítica ao método positivista da economia clássica e ao método formal da dialética hegeliana, por permanecerem estreitos, seja pela empiria imediata, pela mera exterioridade inerte, seja pelo pensamento, pela pura interioridade espiritual, no abstracionismo, exteriores à realidade efetiva, sendo incapazes de apreendê-la a partir de suas determinações histórico-sociais; ele é, na qualidade de conhecimento da realidade social em sua totalidade, como crítica às contradições internas da totalidade da sociedade burguesa, marcada pelo antagonismo entre as forças de produção e as relações de produção, entre o capital e o trabalho, um método emancipatório, um veículo necessário à transformação dessa totalidade (tanto político, quanto civil), como condição fundamental para a edificação de uma outra forma de sociabilidade humana, determinada, sim, pelas diferenças, mas não pelas desigualdades econômico-sociais entre os homens.

    1* Graduado em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (UECE, 1989), Mestrado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FAFICH) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG, 1993) e Doutorado em Filosofia pela Universität von Kassel (KASSEL, ALEMANHA, 2002). É professor efetivo (associado) do Curso de Filosofia e do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Ceará (UFC) e professor colaborador do Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira da FACED – UFC. Coordenador do Grupo de Estudos Marxistas – GEM –, vinculado ao Eixo Marxismo, Teoria Crítica e Filosofia da Educação, e ao Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira da FACED – UFC. Orientador do Programa Jovens Talentos/CNPQ. Atualmente, é Pesquisador Bolsista de Produtividade do CNPQ, é membro da Internationale Gesellschaft der Feuerbach-Forscher (Sociedade Internacional Feuerbach) e dedica suas pesquisas ao estudo da filosofia política, da filosofia de Hegel, do idealismo alemão e de seus críticos Feuerbach, Marx, Adorno e Habermas. E-mail: ef.chagas@uol.com.br. Homepage: www.efchagas.wordpress.com . Academia.edu: https://ufc.academia.edu/EduardoFChagas . Plataforma Google Scholar ou Google Acadêmico: https://scholar.google.com.br/citations?user=yBsqblIAAAAJ&hl=pt-BR Editor da Revista Dialectus:(http://www.revistadialectus.ufc.br/index.php/RevistaDialectus/about/editorialPolicies#sectionPolicies). C.V (Lates): http://lattes.cnpq.br/2479899457642563. (http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4794196Y0).

    2 Cf. sobre isto o artigo de Müller, Marcos Lutz. Exposição e Método Dialético em “O Capital”. In: Marx. Boletim SEAF-MG, v. 2,. Belo Horizonte, 1983, p.17-41.

    3 Cf. Engels, F. Ludwig Feuerbach und der Ausgang der klassischen deutschen Philosophie. In: Marx/Engels, Werke (MEGA). Berlin: Dietz Verlag, 1984, v. 21, p.293.

    4 Cf. o “Posfácio: Marx – Estatuto Ontológico e Resolução Metodológica”, de Chasin, José, in: Pensando com Marx – Uma Leitura Crítico-Comentada de O Capital, de Francisco José Soares Teixeira. São Paulo, Ensaio, 1995, p.389-90: “a rigor, não há uma questão de método no pensamento marxiano.” “Se por método é entendido uma arrumação operativa, a priori, da subjetividade, consubstanciada por um conjunto normativo de procedimentos, ditos científicos, com os quais o investigador deve levar a cabo seu trabalho, então, não há método em Marx.” “Contudo, atentando para momentos fundamentais da elaboração fragmentária de Marx a esse respeito, é possível captar e expor as linhas mestras de sua concepção”.

    5 Essa crítica de Marx a Hegel é, na verdade, uma retomada da crítica de Feuerbach não só à religião e à especulação hegeliana, mas também a toda especulação moderna, na qual o predicado (o homem) se transforma em sujeito real, e o sujeito (Deus ou o espírito) decai para o predicado do próprio predicado, produto de seu produto. A crítica de Marx ao método hegeliano reproduz, pois, em muitos pontos, a crítica que Feuerbach dirige à filosofia especulativa, em particular, a de Hegel, e à teologia ordinária. Nas Teses Provisórias para a Reforma da Filosofia (Vorläufige Thesen zur Reformation der Philosophie) (1842), Feuerbach afirma que se tem de inverter a filosofia especulativa, fazendo do predicado dela o sujeito, e do sujeito o predicado, para se ter a verdade revelada, a verdade “pura e nua”. Para ele, “o ser é sujeito, o pensamento predicado, que contém, no entanto, a essência de seu sujeito. O pensamento provém do ser, mas não o ser do pensamento.” Na filosofia especulativa de Hegel, porém, dá-se o contrário: “o pensamento é o ser; o pensamento é o sujeito, o ser é o predicado […]. Mas […] o verdadeiro real neste real […] é o pensamento […] Mas, justamente por isso, Hegel não chegou ao ser como o ser, o ser livre e independente.” Nesse sentido, o método da dialética hegeliana que ascende do abstrato ao concreto, ou melhor, do ideal ao real, no âmbito do pensamento mesmo, não atinge a realidade verdadeira e objetiva, e sim as realizações do próprio pensamento abstrato. Cf. Feuerbach, L. Vorläufige Thesen zur Reformation der Philosophie. Org. por W. Shuffenhauer. Berlin: Verlag, 1970, GW 9, p.258 e 257-58. Cf. também o meu livro: Chagas, Eduardo Ferreira. Natureza e Liberdade em Feuerbach e Marx. Campinas-SP: Editora Phi, 2016.

    6 Marx, K. Aus der kritik der Hegelschen Rechtsphilosophie – Kritik des Hegelschen Staatsrechts. In: Marx/Engels, Werke (MEGA). Berlin: Dietz Verlag, 1957, v. 1, p.203.arx.

    7 Marx, K e Engels, F. Die heilige Familie. In: Marx/Engels, Werke (MEGA). Berlin: Dietz Verlag, 1958, v. 2, p.60.

    8 Marx, K. Kritik der Hegelschen Dialekti und Philosophie überhaupt. In: Ökonomisch-philosophische Manuskripte aus dem Jahre 1844. Marx/Engels, Werke (MEGA). Berlin: Dietz Verlag, 1990, v. 40, p.571-72.

    9 Ibid., p.573.

    10 Ibid., p.572.

    11 Marx, K e Engels, F. Die deutsche Ideologie. In: Marx/Engels, Werke (MEGA). Berlin: Dietz Verlag, 1958, v. 3, p.27.

    12 Ibid., p.26.

    13 Marx, K. Das Elend der Philosophie. In: Marx/Engels, Werke (MEGA). Berlin: Dietz Verlag, 1959, v. 4, p.127.

    14 Ibid., p.128.

    15 Ibid., p.129.

    16 Ibid., p.133-34.

    17 Ibid., p.132.

    18 Marx, K. Einleitung zur Kritik der politischen Ökonomie. In: Marx/Engels, Werke (MEGA). Berlin: Dietz Verlag, 1983, v. 13, p.617. Cf. também Marx, K. Einleitung zu den “Grundrissen der Krtik der polistischen Ökonomie”. In: Marx/Engels, Werke (MEGA). Berlin: Dietz Verlag, 1983, v. 42, p.21.

    19 Ibid., p.615. Cf. também Einleitung zu den “Grundrissen. Op. cit.,, p.19.

    20 Ibid., p.616. Cf. também Einleitung zu den “Grundrissen. Op. cit.,, p.20.

    21 Diferentemente daqueles que partem de objetos isolados, tomam a parte à margem da totalidade orgânica, ocultando o todo, ou daqueles, como, por exemplo, Weber, que evitam a totalidade ou acreditam não se poder conhecer o processo total da sociedade, que o todo é uma ilusão, Lukács toma a totalidade concreta como condição primordial do conhecimento da realidade, destacando-a como categoria decisiva, central no método de Marx: A “consideração dialética de totalidade, que tanto se afasta em aparência da realidade imediata e que constrói a realidade de um modo aparentemente ‘não-científico’, é, em verdade, o único método que pode apreender e reproduzir a realidade no plano do pensamento. A totalidade concreta é, pois, a categoria fundamental da efetividade.” Portanto: “Não é o predomínio dos motivos econômicos na explicação histórica que diferencia decisivamente o marxismo da ciência burguesa, mas o ponto de vista da totalidade. A categoria da totalidade, o domínio do todo sobre as partes, que é determinante e se exerce em todos os domínios, é a essência do método, que Marx recebeu de Hegel e transformou originalmente, para dele fazer o fundamento de uma ciência inteiramente nova. […] E o que há de fundamentalmente revolucionário na ciência proletária não é simplesmente opor `a sociedade burguesa conteúdos revolucionários, mas sim, em primeiro lugar, a essência revolucionária do próprio método. A primazia da categoria de totalidade é o suporte do princípio revolucionário na ciência.” Lukács, G. Geschichte und Klassenbewusstsein. Berlin: Sammlung Luchterhand Verlag, 1970, p.71 e 94.

    22 Marx, K. Marx, K. Einleitung zur Kritik der politischen Ökonomie. Op. cit, p.624. Cf. também Einleitung zu den “Grundrissen der Krtik der polistischen Ökonomie”. Op. cit., p.27.

    23 Ibid., p 624. Cf. também Einleitung zu den “Grundrissen der Krtik der polistischen Ökonomie”. Op. cit, p.27.

    24 Marx, K. Vorwor zu Zur Krtik der Polistischen Ökonomie”. Op. cit., p.7.

    25 Marx, K. Einleitung zur Kritik der politischen Ökonomie. Op. cit, p.637. Cf. também Einleitung zu den “Grundrissen der Krtik der polistischen Ökonomie”. Op. cit., p.40.

    26 Marx, K. Nachwort zur zweiten Auflage zu Das Kapital. In: Marx/Engels, Werke (MEGA). Berlin: Dietz Verlag, 1962, v. 23, p.27.

    27 Ibid., p.27.

    28 Ibid., p.27. Cf sobre esse ponto a posição semelhante de Engels em 1888, em sua obra Ludwig Feuerbach und der Ausgang der klassischen deutschen Philosophie. Op. cit., p. 292-93: “Em Hegel, a dialética é o auto-desenvolvimento do conceito. […] Era essa inversão ideológica que se tratava de eliminar. Concebemos novamente os conceitos do cérebro materialisticamente como imagens dos objetos reais, em vez de considerar os objetos reais como imagens deste ou daquele momento do conceito absoluto. […] Com isto, porém, a própria dialética do conceito se convertia simplesmente no reflexo consciente do movimento dialético do mundo real, o que equivalia a converter a dialética hegeliana num produto cerebral; ou melhor, a inverter a dialética que se encontrava na cabeça, para colocá-la de pé.” Cf. também a observação de Marcos Müller, ao evidenciar que a inversão não é “uma operação de mágica trivial, como se bastasse pôr, novamente, a dialética hegeliana de pé […]. Não basta inverter […]. É preciso, além de inverter, virá-la ao avesso, […] mostrando que as contradições presentes nos fenômenos não são a aparência de uma unidade essencial, mas a essência verdadeira de uma ‘objetividade alienada’ (e não da ‘objetividade enquanto tal’), e que a sua resolução especulativa na unidade do conceito é que representa o lado aparente, mistificador, de uma realidade contraditória. Virando ao avesso a realidade invertida, alienada pelo capital, ‘enquanto figura objetiva consumada da propriedade privada’, a contradição, que estava do lado de fora, transforma-se no seu verdadeiro interior, na pérola racional desta realidade, e o que estava por dentro, a unidade resolutiva e integradora das contradições, revela-se como o seu exterior aparente, o seu envoltório não só místico, mas mistificador.” Cf. Müller, Marcos Lutz. Exposição e Método Dialético em ‘O Capital’. Op. cit., p.26.

  • Em defesa das liberdades democráticas: pela libertação imediata de Lula

    Editorial 07 de maio

    Há um mês, Lula saía do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC para se entregar à Polícia Federal em São Paulo. Encarcerado na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, em condições de severo e desumano isolamento, o que contraria direitos humanos básicos de todo preso, o ex-presidente tem reduzidas possibilidades, no curto prazo, de recorrer em liberdade da condenação em segunda instância.

    Acreditamos que a condenação sem provas e a prisão arbitrária do petista são parte da ofensiva reacionária em curso no País. A classe dominante não deu um golpe parlamentar em 2016, ao derrubar um governo eleito, para Lula voltar à Presidência dois anos depois.

    O fato de termos sido oposição de esquerda aos governos petistas e seguirmos não apoiando o projeto político da direção do PT de governar em aliança com setores da direita, não nos impede de ter uma posição contrária a essa prisão política e autoritária, que faz avançar os ataques às liberdades democráticas.

    A prisão de Lula vem na esteira das reformas contra os direitos dos trabalhadores, do ajuste econômico contra o povo, das mudanças autoritárias no regime político, do fortalecimento dos setores mais reacionários do Judiciário e da volta à cena política dos militares, em especial com a intervenção militar na segurança pública do Rio de Janeiro.

    Nesta situação política marcada pela intensificação dos elementos reacionários, assistimos à bárbara execução política de Marielle e Anderson, o assassinato dos cinco jovens do Hip Hop de Maricá (RJ), os tiros contra a Caravana de Lula e contra o acampamento que pede “Lula Livre”, e a consolidação da força política de Jair Bolsonaro.

    Infelizmente, ainda existem setores da esquerda que veem uma normalidade institucional na prisão de Lula, e acreditam – até de forma ingênua – que sua prisão seria um passo rumo à prisão de todos os corruptos e corruptores. Não percebem que a ação em curso visa, entre outras coisas, dar viabilidade eleitoral a um candidato associado ao golpe e ao programa burguês de aceleração e aprofundamento das contrarreformas.

    O momento exige firmeza política e unidade para a mobilização. Não podemos esperar que a mera pressão parlamentar ou a troca de Presidência no STF possam frear os ataques aos direitos sociais e às liberdades democráticas, além de pôr fim à prisão de Lula. É necessário apostar nas ruas e não em negociatas com o andar de cima.

    Precisamos de um poderoso processo de lutas, como aquele que culminou na Greve Geral de 28 de abril de 2017. Nesse sentido, renovamos o chamado às centrais sindicais, aos movimentos sociais e ao próprio PT para que organizem um calendário de mobilização nacional contra os ataques às liberdades democráticas e aos direitos do povo trabalhador.

     

    As eleições se aproximam

    Defendemos o direito democrático de Lula concorrer nas próximas eleições. Porém, fica evidente que essa possibilidade a cada dia que passa se torna mais remota. A direção do PT afirma publicamente que segue com a candidatura do ex-presidente, mas, nos bastidores, já iniciou um processo de discussão de outros nomes.

    Sem aprender com erros do passado, o PT repete o mesmo caminho de alianças políticas com setores da classe dominante, inclusive com apoiadores do golpe. Há diversas alianças sendo costuradas com a direita nos estados, como os acordos com o MDB de Temer e Renan Calheiros no Ceará, Alagoas e em Minas. Para a chapa presidencial, já há uma negociação aberta com Ciro Gomes (PDT), uma candidatura que está longe de ser uma alternativa de esquerda. Ciro, por exemplo, vem defendendo a necessidade de uma reforma da Previdência, que retira direitos.

    Não temos acordo com o programa e o projeto da direção do PT. Estamos por uma nova alternativa política de esquerda, que seja independente dos poderosos e verdadeiramente ligada aos interesses do povo trabalhador, se propondo a reverter todas as medidas do governo Temer. A construção dessa alternativa, cuja prioridade deve ser a luta direta, tem que estar expressa nas próximas eleições. Por isso, estamos empenhados na construção da pré-candidatura presidencial de Guilherme Boulos e Sonia Guajajara, pela frente política e social formada pelo MTST, PSOL, PCB e vários outros movimentos sociais combativos e de esquerda. Convidamos os trabalhadores e trabalhadoras, a juventude, os oprimidos, os ativistas e a esquerda socialista a virem junto conosco construírem essa alternativa. Vamos, sem medo de mudar o Brasil!

    Foto: Ato do Primeiro de Maio em Curitiba (PR) – Ricardo Stuckert

  • No 200º Aniversário de Nascimento de Karl Marx

    Por Lal Khan dirigente e teórico da organização marxista do Paquistão “The Struggle” (A Luta)

    Publicado na edição Especial da Asian Marxista Review por ocasião do 200º Aniversário de Nascimento de Karl Marx

    5 de maio marca o 200º aniversário do nascimento de Karl Marx. Este aniversário é comemorado em um momento em que suas previsões e perspectivas estão sendo confirmadas pelos eventos em erupção em todo o mundo. É um paradoxo histórico que ocorreu desde o colapso da União Soviética, a degeneração capitalista da revolução chinesa e a queda do muro de Berlim na esfera da economia global serviram para sublinhar a presciência de Marx; a veracidade de sua convicção de que o capitalismo carrega consigo as sementes de sua própria destruição foi reconhecida até mesmo por alguns dos que estão aborrecidos com suas ideias.

    A implacável crise do capitalismo impulsionou mais uma vez a relevância das ideias de Marx e sua estratégia de lutar pela emancipação da humanidade no centro das atenções da política mundial. O número de artigos sendo escritos, suas obras sendo republicadas e as discussões em torno de suas ideias entre a “intelligentsia” e a mídia na época do segundo centenário de seu nascimento são sem precedentes nos últimos tempos. Estes talvez sejam mais amplamente conversados ​​do que até mesmo durante a chamada existência do “bloco socialista”.

    Marx, ao contrário da maioria dos críticos do século XIX do capitalismo industrial, era um verdadeiro revolucionário. Sua vida e obra foram dedicados à revolução socialista e à emancipação da humanidade das cadeias da labuta capitalista e da coerção social. Marx e Engels capturaram isso brilhantemente em “O Manifesto Comunista”. Após sua morte, as revoluções comunistas que ocorreram, além da revolução bolchevique de 1917, estavam de acordo com os princípios e a metodologia de Marx. No entanto, estes estavam em seu nome. Em meados do século XX, mais de um terço das pessoas no mundo vivia sob regimes que se diziam marxistas, socialistas ou comunistas. Alguns dos ativistas e líderes nessas revoluções, talvez erroneamente, mas sinceramente se consideravam marxistas. É cínico culpar Marx pelo modo distorcido como essas revoluções tomaram forma e seus resultados, às vezes estados totalitários perversos, no século XX.

    Marx escreveu em sua famosa décima primeira tese sobre Feuerbach: “Os filósofos até agora só interpretaram o mundo de várias maneiras; agora trata-se de transformá-lo.” Marx não estava tornando a filosofia irrelevante, mas explicou que as contradições filosóficas surgem das condições materiais de vida. Isso só poderia ser resolvido alterando radicalmente essas condições. As ideias de Marx foram e estão sendo usadas nos esforços para recriar o mundo e acabar com a miséria, a alienação, as devastações e a tirania infligidas pelo capitalismo obsoleto e podre.

    Em 14 de março de 1883, Marx morreu aos sessenta e quatro anos. Marx permaneceu obscuro do horizonte mundial mais amplo durante sua vida. Havia apenas onze pessoas presentes em seu funeral. Além de seu amigo leal e camarada por toda vida, Friedrich Engels, poucos teriam imaginado quão influente ele se tornaria para as gerações vindouras. No funeral, o discurso de Engels resumiu a vida e a obra de Marx e seus impactos no futuro da luta pela libertação da humanidade.

    Engels solenemente falou: “Marx era antes de tudo um revolucionário. Sua verdadeira missão na vida era contribuir, de uma forma ou de outra, para a derrubada da sociedade capitalista e das instituições do Estado que ela havia criado, para contribuir para a libertação do proletariado moderno, que foi o primeiro a se conscientizar de sua própria posição e suas necessidades, consciente das condições de sua emancipação, o combate era seu elemento e lutava com paixão, tenacidade e sucesso, como poucos rivalizavam. Ele escreveu e militou em organizações em Paris, Bruxelas e Londres e, finalmente, coroando tudo, a formação da grande Associação Internacional dos Trabalhadores – esta foi uma conquista da qual seu fundador poderia ter ficado orgulhoso, mesmo que não tivesse feito nada. E, consequentemente, Marx era o homem mais odiado e caluniado de seu tempo, os governos, tanto absolutistas quanto republicanos, deportaram-no de seus territórios. Burgueses conservadores ou ultrademocráticos, disputavam quem mais o caluniaria. Tudo isso ele afastou como se fosse uma teia de aranha, ignorando-a, respondendo apenas quando a necessidade extrema o obrigava. E morreu amado, reverenciado e com lamento por milhões de trabalhadores e revolucionários … e ouso dizer que, embora teve muitos oponentes, não teve um só um inimigo pessoal. Seu nome e sua obra atravessará os séculos. “

    Vinte e oito anos depois, um marxista russo, Vladimir Ilyich Lenin, um dos principais oradores de outro funeral, o da filha de Marx, Laura e seu marido Paul Lafarge em 1911 na cidade de Paris, declarou que “as ideias do pai de Laura seriam triunfantemente realizadas, mais cedo do que imaginamos”.

    É também um fato indubitável que sem a vitoriosa Revolução Bolchevique de 1917 na Rússia, Marx provavelmente teria permanecido na obscuridade como muitos outros filósofos, sociólogos, economistas e teóricos políticos do século XIX. A Revolução Russa foi o maior evento do século XX, fato que o levou ao centro do planeta, impulsionando Marx e suas ideias e seus esforços para organizar o proletariado internacional no cenário mundial e forçando os burgueses a levarem suas ideias a sério. Depois de 1917, o comunismo não era mais uma fantasia utópica. Mesmo depois do colapso da União Soviética e da queda do Muro de Berlim, os subsequentes reveses políticos entre a parcela mais consciente do proletariado foram agora postos de lado. Ironicamente, no período recente, mesmo economistas burgueses, acadêmicos e teóricos reconhecem a validade das ideias de Marx, particularmente no que diz respeito à decadência e crise de excedente de capacidade produtiva, superprodução, queda na taxa de lucro e decadência geral do capitalismo. Não há dúvida de que a influência de Marx está novamente em ascensão com a iminente crise do capitalismo mundial. Em uma pesquisa realizada pela BBC na virada do século XX, Marx foi eleito como a personalidade mais influente do último milênio.

    Marx nasceu em 1815 na pequena cidade alemã de Trier. Seu pai queria que ele se tornasse advogado, mas ele escolheu estudar filosofia. Ele estudou na Friedrich-Wilhelms-Universität, em Berlim, onde Hegel já havia ensinado. Ele se juntou a um grupo de intelectuais conhecidos como os “jovens hegelianos”, mas logo desenvolveu diferenças com aspectos cruciais da filosofia hegeliana. Marx e Engels escreveram uma polêmica contra a política estagnada e sectária de seus ex-associados entre os jovens hegelianos intitulada A Sagrada Família ou Crítica da Crítica Crítica. A ironia no título implica, uma crítica impiedosa daqueles jovens hegelianos que ficaram presos na lama da “crítica” escolástica, divorciada das realidades da vida.

    Marx estava apaixonado e ficou noivo de Jenny von Westphalia, também de Trier. Ele tinha dezoito anos e ela vinte e dois. Esse namoro durou sete anos. Jenny era excepcionalmente bonita e dedicada a ele. Marx escreveu muitas poesias amorosas e apaixonadas para ela. Em sua vida pessoal, Marx era modesto e gentil. Ele era brincalhão, alegre e carinhoso quando não marcado pela doença. Muitas vezes inventava histórias para suas três filhas e gostava de charutos baratos e vinho tinto. Sua esposa e filhas o adoravam. Um espião do governo prussiano que visitou Marx em sua casa em 1852 ficou surpreso ao encontrá-lo “o homem gentil e simpático”.

    Marx era um escritor apaixonado e prolífico. Ele escrevia por toda noite em nuvens de fumaça de charutos, livros e papéis empilhados em volta dele. Marx e Engels escreveram sobre tantos assuntos e detalhes que estão espalhados em 54 grandes volumes compilados até agora. E alguns ainda podem estar faltando nessas coletâneas. Quando se tratava de questões de princípios ideológicos, ele era intransigente. Era um orador persuasivo, mas tinha um pequeno defeito nas pronuncias de algumas palavras, portanto, sua oratória não era tão fluente e raramente discursava para multidões. Devido ao seu compromisso e persistência em princípios ideológicos, Marx fez muitos inimigos até mesmo de seus antigos amigos e aliados com seu estilo de escrita implacável e sincera. Ainda assim, ele mantinha o respeito. Quando Marx tinha apenas vinte e oito anos, um colega o descreveu como “um líder nato do povo”. Ele era um editor meticuloso e a principal figura da Associação Internacional de Trabalhadores, conhecida como a Primeira Internacional.

    Além de alguns pequenos adiantamentos na publicação dos livros, o jornalismo era a única fonte de renda obtida por Marx. Embora a maioria de seus escritos estivessem na Europa, seus artigos sobre o subcontinente indiano talvez sejam as melhores análises dos eventos que ocorreram no subcontinente do sul da Ásia na época. Marx editou e contribuiu para jornais políticos na Europa, de 1852 a 1862 foi colunista do New York Daily Tribune, o maior jornal de circulação do mundo na época. Foi durante esse período que Marx escreveu alguns dos melhores escritos sobre a colonização britânica da Índia e a Grande Revolta de 1857. Marx tinha um grande interesse nos desenvolvimentos da situação na Índia, na China e escreveu vários artigos sobre a ebulição das lutas ocorridas na Índia, tanto durante a Grande Revolta de 1857 quanto no período que antecedente. Nesses artigos, Marx analisou a conquista e a subjugação da Índia e delineou diferentes formas e métodos de domínio e exploração colonial britânicos. Segundo Marx, a Companhia das Índias Orientais era uma ferramenta de conquista e enfatizava que os britânicos confiscaram territórios indígenas aproveitando a disputa feudal entre príncipes locais e abalando antagonismos raciais, religiosos, tribais e de castas entre o povo.

    Em um artigo escrito em 22 de julho de 1853 para o New York Daily Tribune, Marx escreveu: “O supremo poder do Grande Mogul foi quebrado pelos Mogul Viceroys. Os mahrattas quebraram o poder dos Mughals. Os afegãos quebraram o poder dos mahrattas e, enquanto todos lutavam contra todos, os britânicos invadiam e logravam subjugar a todos. Um país não só dividido entre maometanos e hindus, mas entre tribos e tribos, entre castas e castas; uma sociedade cuja estrutura foi baseada em uma espécie de equilíbrio, resultante de uma repulsa geral e exclusão constitucional entre todos os seus membros. Tal país e tal sociedade, não eram a presa predestinada da conquista? Se não soubéssemos nada da história passada do Hindustão, não haveria um grande e incontestável fato de que, até agora, a Índia é mantida em escravidão inglesa por um exército indiano mantido à custa da Índia?

    Em outro artigo no New York Daily Tribune, Marx escreveu: “Qualquer que seja a burguesia inglesa forçada a fazer, não emancipará nem consertará materialmente a condição social da massa do povo. Os hindus não colherão os frutos dos novos elementos da sociedade espalhados entre eles pela burguesia britânica, até que na própria Grã-Bretanha as atuais classes dominantes serem suplantadas pelo proletariado industrial, ou até que os próprios hindus se tornem fortes o suficiente para derrotar o jugo inglês completamente. “

    Os hindus lutaram uma vez com uma revolta no exército indiano que se espalhou rapidamente pelo país. Os britânicos chamaram de motim e levante isolado, mas, para Marx, chamara isso de “nada menos do que uma insurreição”, que era apenas parte de uma luta de libertação geral anti-colonial das nações oprimidas que se desenrolou na década de 1850 em quase toda a Ásia. Marx foi o primeiro a refutar a mentira de que a Grande Revolta de 1857 foi um mero motim dos soldados e que não havia envolvimento de setores mais amplos da sociedade.

    Marx continuou dizendo que a revolta reuniu religiões e comunidades. “Muçulmanos e hindus renunciando a suas antipatias mútuas combinaram-se contra seus inimigos comuns; que os distúrbios que começaram com os hindus terminaram de fato ao colocar no trono de Délhi um imperador maometano; que o motim não se limitou a algumas localidades. Uma das frases mais célebres de Marx que resumem as perspectivas do colonialismo britânico foi: “é uma regra histórica que o instrumento de opressão seja forjado não pelos opressores, mas pelos próprios oprimido.”

    O trabalho jornalístico de Marx no New York Daily Tribune lhe proporcionou alguma renda regular, mas isso logo secou, ele estava falido. Engels o apoiou financeiramente nas mais difíceis ocasiões. A maior parte de sua vida, Marx viveu em privação e pobreza. O autor de “Capital” era financeiramente sempre sem capital para suas necessidades básicas e para poder continuar a escrever. Apesar de pertencer a uma família abastada, Marx aceitava a pobreza como o preço de sua ideologia e luta política. Ele ficaria feliz em morar numa favela, mas não queria que sua família sofresse. Três dos seus filhos morreram jovens e um quarto nasceu morto devido à pobreza e precaríssimas condições de vida.

    As ideias revolucionárias e a luta de Marx fizeram dele um eterno exilado. Em 1843, foi expulso de Colônia por seus escritos “subversivos” em um jornal chamado Rheinische Zeitung. Marx fugiu para Paris, onde sua camaradagem e amizade pessoal com Fredrick Engels floresceram. Em 1845, Marx foi expulso da França e teve que se mudar para Bruxelas.

    Em 1848, surgiram revoluções em toda a Europa. Marx e Engels escreveram “O Manifesto Comunista”, o documento icônico que ataravessou épocas e gerações e ainda é a análise mais moderna do sistema e da sociedade. Em uma introdução à sua nova edição, republicada em 26 de abril deste ano em Londres, Yanis Varoufakis, o ex-ministro das Finanças da Grécia, descreveu este documento icônico, “Para um manifesto ter sucesso, ele deve falar aos nossos corações como um poema que contagia a mente, com imagens e ideias que são deslumbrantemente novas. Ele precisa abrir nossos olhos para as verdadeiras causas das mudanças imprevisíveis, perturbadoras e excitantes que ocorrem a nossa volta, expondo as possibilidades com as quais nossa realidade atual está grávida. Deve nos fazer sentir desesperadamente inadequados por não termos reconhecido essas verdades por nós mesmos e isso deve levantar a cortina sobre a inquietante compreensão de que temos agido como cúmplices insignificantes, reproduzindo um passado sem saída. Por fim, precisa ter o poder de uma sinfonia de Beethoven, instando-nos a nos tornar agentes de um futuro que acabe com o desnecessário sofrimento em massa e que inspire a humanidade a realizar seu potencial de liberdade autêntica.”

    Naqueles eventos tempestuosos de 1848, quando o movimento chegou a Bruxelas, Marx foi acusado de apoiar insurgentes e foi expulso da Bélgica. Ele voltou para Paris. No entanto, na derrota das revoluções de 1848, Marx comentou: “a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. A “tragédia” foi o destino da Revolução Francesa sob Napoleão e a “farsa” foi a “eleição” do sobrinho de Napoleão, Louis-Napoleon Bonaparte em dezembro de 1848, à Presidência da França que Marx considerou como mediocridade. Em 1849, Marx foi forçado ao exílio mais uma vez. Ele fugiu com sua família para Londres e viveu lá pelo resto de sua vida. Na Sala de Leitura do Museu Britânico, ele fez a pesquisa para “Capital” e seu túmulo está no cemitério de Highgate.

    Durante a vida de Marx, a Comuna de Paris de 1871 foi a única revolução proletária bem sucedida quando os trabalhadores tomaram o poder na França. Foi o primeiro estado dos trabalhadores na história da humanidade. No entanto, foi derrotado e encharcado de sangue após apenas setenta dias de domínio proletário. As elites da Alemanha e da França, os inimigos por milênios de repente perderam suas diferenças e uniram forças para esmagar a revolução.

    Isso resultou no declínio do movimento de trabalhadores internacionalmente. Marx foi novamente confrontado com uma árdua situação política e objetiva. Mas a crença firme de Marx no futuro socialista da humanidade nunca envelheceu ou vacilou. Ele permaneceu comprometido e otimista da vitória do comunismo revolucionário até sua morte em 1883. Shakespeare era um dos poetas favoritos de Marx. Em sua lendária peça Hamlet, o diálogo de Shakespeare resume a vida e a luta de Marx em muitos aspectos: “Devo me conformar à ordem vigente, sofrendo as fundas e flechas da ultrajante fortuna que as forças irresistíveis da história me concederam? Ou devo unir-me a essas forças, pegando em armas contra o status quo e, opondo-se a ele, introduzindo um admirável mundo novo?”

    Marx ousou lutar contra todas as probabilidades e mudar o curso da história. Suas ideias são ainda mais relevantes para os revolucionários em todo o planeta para realizar essa tarefa histórica de emancipação da raça humana.