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  • Estudantes da UFBA impedem MBL de fazer ato em local de homenagem à Marielle

    Na noite de terça-feira, 13, um pequeno grupo com nove integrantes do MBL foi até o campus Ondina da UFBA (Universidade Federal da Bahia) com um objetivo: fazer provocação. Esse grupo, que considera os partidos de esquerda como organizações criminosas e seus militantes como alvo do seu ressentimento social, foi até a universidade realizar um “enterro do PT”.

    E pior, pretendiam realizar o tal enterro no local onde os estudantes da universidade haviam feito uma intervenção artística muito simbólica, ficando várias cruzes em homenagem à vereadora Marielle Franco e a várias outras mulheres guerreiras que tombaram na luta ou que foram vítimas de feminicídio. Os integrantes do MBL sabiam exatamente do que se tratava a intervenção artística.

    Em um vídeo transmitido pelo MBL, seu coordenador coordenador geral fala: “descobrimos que aqui tem um cemitério de feminicídio feito pelas meninas e que botaram um caixão de Marielle…essa Marielle tá morta, mas anda mais que ônibus de rota…tem caixão dela até aqui na Bahia…” Neste momento, a única mulher entre os nove manifestantes sorri. O líder do MBL continua: “então nós vamos fazer o enterro do PT ali porque nada melhor do que enterrar onde já existe um cemitério”

    Por coincidência ou não, a provocação ao PT e à memória das mulheres assassinadas foi feita na véspera de se completar oito meses da execução de Marielle Franco.

    Felizmente, estudantes que estavam no dia se organizaram e, de forma espontânea e corajosa, impediram que o MBL concretizasse o seu ato. De mãos dadas os estudantes fizeram um cordão de isolamento, evitando que o MBL fizesse escárnio com um local onde se fez uma homenagem a várias mulheres que lutaram contra o machismo, o racismo e por uma sociedade igualitária. O movimento ainda tentou realizar o “enterro” ao lado, mas teve os caixões retirados.

    Em nome de uma pretensa “pluralidade” de ideias, o que os nove integrantes do MBL foram fazer foi uma provocação barata a esquerda e um verdadeirao atentado a memória de Marielle, semelhante aos candidatos do PSL que retiraram e quebraram uma placa com o nome da vereadora. Buscando alguma agressão, que não aconteceu, restou aos membros do MBL encerrarem o seu “protesto” e se retirarem.

    Foi a segunda derrota do MBL na mesma semana. No dia anterior, realizaram um protesto em frente ao Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, denunciaram a “doutrinação” dos alunos e em defesa do Projeto Escola sem Partido. O ato também não reuniu mais do que alguns poucos apoiadores do movimento, que se revezaram no carro de som. Alunos e professores permaneceram do lado de dentro do Pedro II, sem cair na provocação do grupo. Representantes de sindicatos, entidades e uma parte da comunidade escolar permaneceu do lado de fora, e mesmo assim, foi superior ao “ato” do MBL. O protesto foi encerrado de forma melancólica, com o carro de som parando de funcionar e com o grupo deixando o local, abafado pelas palavras de ordem dos estudantes de dentro e fora da escola.

    As universidades e escolas devem continuar sendo um espaço que abrigue e estimule o livre debate de ideias, de maneira diversa e plural. E jamais um local onde ganhe espaço a deliberada confusão entre liberdade de expressão e a “livre manifestação de ódio e preconceito” que é a prática do MBL e de outros grupos.

    Para defender a democracia, a tolerância e a liberdade, é preciso ser firme contra aqueles que as ameaçam. Nenhuma liberdade aos inimigos da liberdade.

     

  • MTST lança campanha de financiamento coletivo. Contribua

    Diante do fortalecimento do discurso de ódio e de ações violentas contra mulheres, negras e negros, indígenas e LGBTs; da ameaça autoritária contra a democracia e da ameaça de criminalização dos movimentos sociais, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto lançou uma campanha de financiamento coletivo na plataforma benfeitoria.com. O tema escolhido é MTST pela democracia. Financie a luta em defesa das liberdades democráticas e contra o retrocesso.

    O objetivo é fortalecer o movimento e suas iniciativas para o próximo período, para além da pauta de moradia, como as Brigadas Pela Democracia, grupos de pessoas que responderam ao nosso chamado e pretendem se engajar em iniciativas pela democracia, em reuniões e atividades presenciais e nas redes.

    ASSISTA AO VÍDEO DE DIVULGAÇÃO:

    Lideranças do futuro governo e o próprio presidente eleito tem feito ameaças aos movimentos sociais, como o MTST e o MST, e a esquerda como um todo, em especial “as cúpulas do PT e do PSOL”. Em uma bravata, um dos filhos de Bolsonaro fala em “prender uns cem mil”. O próprio coordenador geral do MTST, Guilherme Boulos, ex-candidato pelo PSOL, tem sido vítima de uma campanha na internet que pede a sua prisão, além de dezenas de fake news que circulam pelas redes, apresentando-o como “terrorista”.

    “Se crescem as ameaças, cresce também nossa disposição de lutar em defesa dos nossos direitos. O MTST e a Frente Povo Sem Medo já convocaram manifestações e plenárias em todo o Brasil, mobilizando milhares de pessoas. Seguiremos firmes, sem medo de defender os princípios democráticos e os direitos da classe trabalhadora e das ditas minorias sociais. E, para isso, contamos com você!”, diz o texto que pede a contribuição.

    O valor arrecadado será usado para financiar reuniões, mobilizações, panfletos e reuniões nacionais e formação política das brigadas e do MTST, conforme o gráfico abaixo:
    Gráfico com previsão de gastos

    Conheça o MTST

    Há mais de 20 anos, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto organiza trabalhadoras e trabalhadores nas periferias das grandes cidades pelos direitos do povo, em especial o direito constitucional à moradia digna. Está presente em 14 estados (SP, AL, CE, DF, GO, MG, PB, PE, RJ, RR, RS, SE, SP, TO), mobilizando mais de 70 mil famílias. O movimento reivindica ampliação e melhorias nas políticas públicas por moradia através da ocupação de grandes terrenos abandonados nas regiões metropolitanas, que não cumprem sua função social, servindo apenas à especulação imobiliária e ao enriquecimento de seus proprietários. Mas não só: luta por reforma urbana e uma nova lógica de cidade, que priorize o bem-estar e a dignidade. Nossa atuação se baseia na mobilização popular, formação política e nas relações de solidariedade, com formações sobre os direitos sociais, organização de atividades culturais, de socialização e a troca de experiências e saberes.

    CLIQUE PARA CONTRIBUIR
    benfeitoria.com/mtstpelademocracia

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    20 anos do MTST: um formigueiro contra o neoliberalismo

  • Sobre o decreto do governador Flavio Dino e a luta contra o escola sem partido

    flavio dinoO governador do estado do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), editou, na manhã de segunda-feira (12/11), um decreto que dispõe sobre o exercício de garantias constitucionais no ambiente escolar da rede estadual de ensino do Maranhão. Trata-se de um importante posicionamento político num contexto de fortalecimento do conservadorismo político e cultural e do discurso de ódio aos mais oprimidos, como mulheres, negros e LGBTs, e se constitui como mais um instrumento de luta pela liberdade e democracia nas instituições de ensino.

    Os professores, em especial, têm sido alvo de constantes ataques, e mesmo não tendo ainda uma lei nacional de censura à escola/universidade, o projeto Escola Sem Partido (ESP) toma repercussão e força em forma de movimento consolidado. Há pelo menos duas semanas, o governo coloca o projeto em votação na comissão especial da Câmara de Deputados, tramitando em caráter conclusivo. Caso aprovado, o PL vai direto para o Senado.

    Na contramão do decreto apresentado pelo governo do Estado, na Câmara de Vereadores da capital tramitam dois Projetos de Lei (PL) oriundos do movimento Escola Sem Partido. O primeiro é de 2017, do vereador Chico Carvalho (PSL), o PL 113, que institui, no âmbito do sistema municipal de ensino do município de São Luís, o “Programa Escola Sem Partido”.  O outro, o PL 034/2018, institui a Lei “Infância sem Pornografia”, uma versão piorada do Escola Sem Partido, proposta pelo vereador Ricardo Diniz (PRTB). Particularmente, os conteúdos nocivos deste PL estão nos Art. 2º; § 2º do Art. 3º; §3º do Art. 3º; Art. 5º, que traçam de forma velada aspectos de cerceamento da liberdade de ensino e da concepção da escola como lugar da diversidade.

    O primeiro Projeto de Lei é uma cópia fidedigna ao modelo disponibilizado no site nacional do movimento Escola Sem Partido. O segundo projeto é ainda mais astuto, pois se apropria de uma demanda de luta dos movimentos sociais, que é o combate à exploração sexual de crianças e pornografia, para ganhar a opinião pública e assim, confundir a sociedade, sobre seus reais objetivos.

    O texto do projeto que reforça o combate à dita “ideologia de gênero” descreve que apenas à família cabe a função de criar e educar seus filhos (Art. 2º), desprezando o dispositivo constitucional da educação como direito de todos e dever do estado e da família. Considera pornográfico a descrição de órgão genitais (§2º do Art. 3º) mas, em contradição, discorre sobre a apresentação científica-biológica do sistema reprodutivo (§3º do Art. 3º). Ainda, amplia o alcance para sistema de saúde, direitos humanos, assistência social (Art. 5º).

    É importante conhecer o conteúdo dos projetos de Lei e suas consequências para o trabalho e cotidiano dos educadores que já são bastante penalizados com a falta de condições mínimas de trabalho. Nesse sentido, a rearticulação da Frente Maranhense contra o Escola sem Partido e o diálogo com a comunidade em geral são fundamentais para a construção das lutas e da resistência frente ao cerceamento da liberdade de ensino e autonomia docente.

    Pela liberdade de ensino e de cátedra!
    Pela valorização dos professores!
    NÃO ao Escola Sem Partido!

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  • Sindicalista é executado no interior da Bahia

    No dia 08 de novembro, Aroldo Pereira de Souza, 47 anos, presidente do Sindicato dos Servidores Municipais da cidade de Central (BA), foi assassinado com quatro tiros, por um homem em uma moto. Aroldo foi morto por volta das 07h, na zona rural do município, a 510 km de Salvador.

    Apesar de não haver suspeitos até o momento, tudo indica tratar-se de uma emboscada, com motivações políticas. Aroldo fazia todos os dias o mesmo percurso, indo ao povoado de Larguinha para alimentar animais em sua roça. Ele abria a porteira da propriedade quando foi atingido. Ele foi socorrido e levado para o hospital da cidade, e em seguida, transferido ao Hospital Regional de Irecê, onde foi cirurgiado, mas não resistiu. A polícia não trata o crime como latrocínio, uma vez que nenhum pertence da vitima foi levado.

    Aroldo era um sindicalista ativo, estava a frente da paralisação de professores da rede pública municipal e outros servidores da região, e no dia seguinte, participaria de uma audiência com o Ministério Público, de tentativa de conciliação sobre o movimento grevista, que durava dois meses, cobrando o pagamento de salários. Vários professores, pais e alunos participavam do movimento.  “Não tem como entender o fato dos recursos federais chegarem regularmente todo mês, e os professores estarem com seus salários atrasados”, dizia Aroldo nas reuniões dos sindicalizados e entrevistas nas emissoras de rádio da região. Em seu facebook, ele acusou o prefeito de tratar a greve com truculência.

    O clima na cidade é de muita tristeza e revolta. Aroldo deixa esposa e três filhos e seu enterro foi marcado por protestos e pedidos de justiça. O assassinato é mais um exemplo da criminalização dos movimentos sociais e se soma aos casos de violência política contra ativistas e militantes sociais, especialmente no campo e nas áreas indígenas e quilombolas.

    *Com informações da imprensa da região e da CTB-BA.

     

     

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  • Centrais farão campanha em defesa da Previdência e atos nos dias 22 e 26

    Nesta segunda-feira, 12, as centrais sindicais realizaram uma plenária unificada, na sede do Dieese, em São Paulo, para debater os ataques contra a Previdência Pública e a aposentadoria. Mais de 250 pessoas estiveram presentes. Diante das declarações do presidente eleito Jair Bolsonaro e de seu ministro Paulo Guedes, que exigem uma reforma ainda pior do que a que vem sendo debatida no Congresso e a aprovação de medidas ainda neste ano, as centrais aprovaram uma campanha unificada, com atos públicos e panfletagens.

    O calendário apresentado conta com duas datas neste mês de novembro: a primeira no dia 22, com panfletagens e atos em locais de trabalho e de grande concentração de pessoas, e a outra no dia 26, com atos e manifestações em frente às sedes e Superintendências Regionais do Trabalho, em protesto à proposta do futuro governo de extinguir essa pasta. Nesta data, comemora-se o aniversário do Ministério do Trabalho, criado em 1930.

    VÍDEO – Gibran Jordão, da CSP-Conlutas e do Bloco de Oposição, acompanha a plenária:

    CUT, Força Sindical, CTB, CSP-Conlutas, Intersindical, CSB, NCST, UGT e CGTB divulgaram ainda um documento com princípios gerais que garantem a universalidade e o futuro da Previdência e da Seguridade Social.

    Novamente, em um sinal de quanto o movimento sindical ainda precisa refletir a luta das mulheres, todas as centrais indicaram homens para representá-las no evento.

    O exemplo do Chile

    A plenária foi iniciada com uma apresentação de Mário Reinaldo Villanueva Olmedo, dirigente da Confederación Fenpruss (Confederación de Profesionales de la Salud), integrante da Coordinadora Nacional dos Trabajadoras e Trabajadores No+AFP, do Chile. Ele fez uma palestra sobre as consequências da criação do modelo de capitalização em seu país, mesma proposta que Bolsonaro estuda para o Brasil. “No Chile, as AFPs [fundos de pensão privados] fracassaram. Não cumpriram o objetivo, pois não dão pensões dignas”, disse.

    Segundo ele, do salário de 700 dólares, homens só recebem 231 dólares de pensão e mulheres 175 dólares. Hoje, cerca de 2,5 milhões de pessoas recebem aposentadorias inferiores a um salário mínimo. O país tem visto também o crescimento de casos de suicídios entre os idosos.

    Indicado para responder pela área econômica do futuro governo e também de uma secretaria especial que substituiria o Ministério do Trabalho, o economista Paulo Guedes concluiu seu doutorado na Universidade de Chicago, onde tornou-se próximo ao grupo de alunos conhecido como Chicago Boys, que conduziria a política econômica da ditadura militar chilena no início dos anos 1980, aplicando o ultraliberalismo de Milton Friedman. O próprio Guedes chegou a viver no país de Pinochet por um período, conhecendo as políticas econômicas do grupo.

    Outro integrante do governo Bolsonaro que admira a receita do Chile de Pinochet é Onyx Lorenzoni, indicado para a Casa Civil. Em depoimento reproduzido pelo site El Pais, Lorenzoni elogia: “O Chile para nós é um exemplo de país que estabeleceu elementos macroeconômicos muito sólidos, que lhe permitiram ser um país completamente diferente de toda a América Latina”.

     

    LEIA MAIS – EDITORIAL

    Bolsonaro e Paulo Guedes querem acabar de vez com os direitos trabalhistas

     

    *Com informações dos sites das centrais sindicais CSP-Conlutas e CUT. Foto: site CUT Nacional.

  • Hip Hop e cultura política

    Este texto pretende lançar algumas questões e elementos para o debate sobre esta cultura e seu papel na sociedade para o dia 12 de novembro, Dia Mundial do Hip Hop.

    É fato que o Hip Hop é uma das culturas contemporâneas mais politizadas. Nascido nas favelas e guetos, é conhecida pela combinação entre arte e protesto social, em especial contra o racismo e a desigualdade social.

    Há controvérsias quanto ao nível político inicial desta cultura. Pode-se dizer que em sua origem não havia um objetivo de transformação social, mas apenas de festejar. Muitos dão como data de seu nascimento uma festa ocorrida no Bronx, periferia de Nova Iorque, na qual havia os quatro elementos desta cultura reunidos. De fato, esta festa de 11 de agosto de 1973, promovida pelo Dj Kool Herc, tinha como fato central a união de Dj, Break, Graffiti e MC.

    Mas o contexto em que nasceu e se desenvolveu diz muito sobre as pautas políticas que incorporou depois. O próprio pai do Hip Hop, Kool Herc, imigrante jamaicano e negro, trouxe a cultura do MC que herdou da musicalidade da ilha. Aqueles que abraçaram seus elementos viviam nesse mesmo contexto, em meio a uma intensa violência urbana e racismo policial. Logo, a Zulu Nation de Afrika Bambaataa, trouxe para a cultura a necessidade do conhecimento histórico das raízes da opressão, além de um novo lema: “Paz, Amor, União e Diversão”.

    Em entrevista, KRS One, uma das maiores referências do mundo Hip Hop diz: “Hip Hop é política, política da rua na rua […] um estilo de vida, um estilo de pensar, Rap é uma expressão do Hip Hop, Graffiti é uma expressão do Hip Hop, breakdance é uma expressão do Hip Hop, mas nenhum deles é Hip Hop, Hip Hop é uma cultura.”

    KRS One diferencia Rap de Hip Hop

    Na origem do BLOCK-SE, onde a ideia nasceu e tomou forma, estão dois tradutores. Foi durante longas noites viradas no trampo da tradução que as conversas sobre o Hip Hop, sua história, os caminhos que a cultura tomou e a possibilidade de intervir nesta cena que o nosso projeto tomou forma e virou realidade.Esse é o primeiro material que traduzimos e legendamos relacionado ao Hip Hop, se liga aí na entrevista com o mestre KRS One, um dos filósofos da cultura, feita pelo "Rap City" em 1993.Tradução: Luiz Carlos Portella e Túlio CunhaLegendas: Túlio Cunha

    Posted by Block-se on Thursday, April 20, 2017

    Podemos entender com essas referências que o Hip Hop é sim mais do que um conjunto de expressões artísticas, mas também resistência cultural, por isso, política.

    Isso não é dizer que para praticar qualquer um dos elementos do Hip Hop seja necessário ler algum autor clássico ou contemporâneo que fala de questões sociais. Isso, sem dúvida, poderá ser uma poderosa fonte de inspiração. O que é mesmo evidente é que a própria existência da cultura Hip Hop contraria as expectativas do classe dominante, colocando em cheque a forma de produzir e distribuir arte dominantes. Podemos então falar que, além de cultura, é contracultura.

    E de qual tipo de política falamos?

    Em tuíte recente, o rapper Djonga, um dos que mais destacam-se no cenário atual, disse o seguinte:

    A publicação parece não dizer, mas quem ouve Rap pode entender o sentido da coisa. No Brasil, o grupo que mas fez sucesso, Racionais MC’s, tem em suas letras famosas denúncias dos problemas sociais que atingem o país, desde o racismo narrado em “Nego Drama”, passando pelo dia a dia do morador da periferia em “A vida é um desafio”, “Da Ponte Pra cá”, do ex-presidiário em “O Homem na Estrada”, do presidiário em “Diário de um Detento”. e também do assaltante morto em tiroteio em “Artigo 157”. Todas essas figuras e trajetórias são contextualizadas e a violência é apresentada como fruto de uma sociedade extremamente desigual e racista.

    É o completo oposto da narrativa da direita, ainda mais da extrema-direita que chegou ao governo do país recentemente alimentando o discurso de que não há racismo no país, com um candidato eleito que chegou a dizer “portugueses nem pisaram na África” ao citar a origem da escravidão, além de pregar a ampliação de endurecimento das penas de aprisionamento na 3ª maior população carcerária do mundo e fortalecer o espírito de guerra interna com discursos que citam “metralhar a Rocinha”, o uso de atiradores de elite e drones que disparam armas de fogo para “abater bandidos”, dentre outras posturas famosas.

    Na música “Rato Cinza, Canalha” de 1998 do histórico grupo de Rap, Consciência Humana, há um trecho que diz:

    “Somos do lado escuro obscuro;
    E não abusamos da nossa liberdade de expressão;
    Não somos foras da lei;
    Só não aceitamos o sistema, somos extrema-esquerda”

    Em uma pesada crítica à atuação policial, os rappers buscam reivindicar sua liberdade artística, ao bom e velho estilo do grupo estadunidense NWA, porém com conteúdo mais político, chegando a declararem-se numa posição, a extrema-esquerda.

    Já neste ano, o rapper Djonga, do tuíte que citamos, diz em seu trecho da música “Favela Vive Parte 3” o seguinte:

    Esquerda de lá, direita de cá
    E o povo segue firme tomando no centro
    Onde a tristeza do abuso é pra maioria
    E o prazer de gozar sobra pra 1%

    Embora relativize a importância de sinalizar as diferenças entre e direita e esquerda neste trecho, ao contrário do que pode dar a entender seu rechaço ao posicionamento de direita no Rap, Djonga mostra que o problema da desigualdade social segue como central em suas letras.

    Em 2017, João Dória ainda na prefeitura de São Paulo declarou guerra ao graffitti quando resolveu apagar importantes obras de arte dos muros da cidade, como o famoso mural da Avenida de 23 de Maio. O político de extrema-direita, inventou um paralelo entre este ramo da arte visual e o “vandalismo” para justificar a ação. Provocou o protesto de muitos grafiteiros.

    Em artigo feito em 2014 para o “A Notícia”, Nelson Triunfo, um dos pioneiros do Breakdance no Brasil, é citado. Sobre as rodas de breakdance é dito “a roda era desfeita de forma truculenta, socos e pontapés eram distribuídos e, não raro, dançarinos eram levados para longos chás de cadeira nos distritos policiais, sob a acusação de vadiagem ou desacato. Eram considerados ‘rebeldes’, ‘subversivos’.”.

    Não é exclusiva à cultura Hip Hop a repressão sofrida. Temos vários outros exemplos, como a repressão destinada às rodas de capoeira no Brasil, que sofreram proibição durante anos, à percussão em geral nos Estados Unidos, aos chamados “bailes black” que emergiram aqui enquanto havia ditadura militar, dentre vários outros exemplos que podemos citar. O que é comum neste caso é que a repressão sempre se destina às manifestações da cultura de origem negra.

    Este tipo de repressão pode ter diversas causas e podemos realizar várias reflexões sobre todos seus aspectos. Mas, em resumo, quem detém o poder econômico pretende preservar sempre sua hegemonia cultural, para que o oprimido não consiga identificar-se e, por consequência, identificar seu opressor. Em descrições históricas sobre insurreições organizadas por populações negras no continente americano, arrancadas de seu local de nascimento na África e trazidas à força, é comum a descrição do papel das diversas manifestações culturais nestas. Podemos citar como exemplo o papel que as datas sagradas do Islã cumpriram para organização da insurreição dos Malês na Bahia no início do século XIX. Pouco antes se desenvolveu a Revolução de São Domingos que levou à criação da primeira ex-colônia a abolir a escravidão no mundo moderno: o Haiti, em que o Vodu foi um catalisador:

    “[…] O vodu era o meio da conspiração. Apesar de todas as proibições, os escravos viajavam quilômetros para cantar, dançar, praticar os seus ritos e conversar; e então, desde a Revolução, escutar as novidades políticas e traçar os seus planos.” [1]

    Portanto, podemos simplificar dizendo que a natureza do Hip Hop é também política por dois motivos: primeiro, pela realidade em que desenvolve-se está necessariamente de um lado, o dos oprimidos. Segundo, porque grande parte dos artistas deste meio estudam e desenvolvem política nas suas manifestações, influenciando um grande público. Numa realidade em que o direito de dançar e festejar foi e é negado a muitos, exercê-lo foi em muitos momentos resistir e a memória histórica do povo que fez isso e que quer fazer muito mais está inscrita nas letras de rap e nas paredes com graffiti.


    NOTAS
    [1] JAMES, C.L.R. Os Jacobinos Negros. Toussaint L’Ouverture e a revolução de São Domingos. 1ªEd. São Paulo. Boitempo, 2010.

     

    FOTO: Exposição celebra aniversário do hip hop. Pickup do Dj Kool Herc. Reprodução

     

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    12 de novembro: dia mundial da cultura Hip Hop

     

  • Esquerda Online lança curso sobre o fascismo. Assista aqui os vídeos

    Entre 05 e 09 de novembro, o Esquerda Online, junto com a Resistência/PSOL, promoveu um curso online, com aulas diárias pela internet. O objetivo foi oferecer análise de experiências históricas do fascismo, como o fascismo italiano e o nazismo, apontando as razões de seu surgimento e suas principais características, para poder ajudar na compreensão de novas formas deste fenômeno nos dias de hoje e também para poder discutir a situação brasileira e a eleição de Bolsonaro.

    O curso foi acompanhado por milhares de pessoas. Agora, todos os vídeos seguem disponíveis em nosso canal no Youtube e no Facebook e abaixo.

    Em breve, novas iniciativas de formação serão realizadas, com este e outros temas. Inscreva-se em nosso canal do Youtube para acompanhar as novidades. Bom curso.

    CURSO ONLINE Fascismo: Teoria, História e Atualidade
    Aula 1 – Fascismo e conservadorismo no mundo contemporâneo

    Com Tatiana Poggi, professora de História da UFF
    https://youtu.be/v1Dkl_EN8Tg

    Aula 2 – Regimes políticos: bonapartismo e fascismo

    Com Felipe Demier, professor da Escola de Serviço Social da UERJ
    https://youtu.be/qS8sDsy0hFc

    Aula 3 – Gramsci e a ascensão do fascismo

    Com Gilberto Calil, Professor de História da Unioeste PR
    https://youtu.be/1rbZ8OMf0Fo

    Aula 4 – Fascismo e antifascismo no Brasil

    Com Carlos Zacarias de Sena Jr., professor de História UFBA
    https://youtu.be/hN5zsGHCvOg

    Aula 5 – Sete livros para entender o fascismo

    Com Demian Melo, Professor de Políticas Públicas, UFF
    https://youtu.be/U_4VJBgCFT0

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    www.youtube.com/c/esquerdaonline

  • Gramsci e o fascismo: eleição, governo e ditadura

    A constituição dos regimes fascistas na Itália e na Alemanha passam por êxitos eleitorais dos respectivos partidos, mas isto não significa que ela tenha sido resultado direto de processos eleitorais. A consolidação de ditaduras fascistas se deu em três etapas sucessivas: a obtenção de um resultado eleitoral expressivo (mas não majoritário); a chegada ao governo (ainda que sem maioria parlamentar) e o fechamento progressivo do regime, com a destruição sucessiva das garantias e liberdades democráticas. No caso alemão, o Partido Nazista (NSDAP) logrou eleger parlamentares na eleição de 1930, no contexto de agravamento da crise econômica decorrente do crash de 1929. Dois anos depois, passou para 232 parlamentares, não atingindo, ainda assim, a maioria parlamentar. Foi na condição de força minoritária no Parlamento que o Partido Nazista, em janeiro de 1933, foi alçado ao governo, e que rapidamente passou a perseguir seus adversários visando estabelecer um regime abertamente ditatorial. Para isto, utilizou como principal pretexto o incêndio do Reichstag (Parlamento alemão) em fevereiro de 1933, pelo qual responsabilizou os comunistas.

    Na Itália, o processo foi mais lento. O Partido Nacional Fascista foi constituído sob liderança de Benito Mussolini em 1919, a partir de outra organização de menor relevância (o Partido Revolucionário Fascista). Seu principal êxito eleitoral rumo ao poder se deu em maio de 1921, quando elegeu 35 deputados (pouco mais de 6% dos 535 deputados), integrando a coalizão conservadora Bloco Nacional, que ao todo elegeu 105 deputados. Embora o centro-esquerda liderado pelo Partido Socialista (123 deputados) e o centro liderado pelo Partido Popular (108 deputados) somassem maior número de parlamentares, a grande fragmentação do parlamento determinou uma crise política permanente que só se agravou ao longo dos dois governos que se constituíram na sequência (Ivanoé Bonomi, socialista reformista, julho 1921 a fevereiro de 1922 e Luigi Facta, liberal, fevereiro a outubro 1922).

    CURSO SOBRE FASCISMO – AULA 3 – Gramsci e a ascensão do fascismo
    Com Gilberto Calil

    Na eleição de 1921, o recém constituído Partido Comunista italiano elegeu apenas 15 deputados. Às vésperas da eleição, Gramsci registrava a dramaticidade daquele processo, considerando que “a guerra abriu a maior crise já ocorrida na história, crise que não é de um governo ou de um Estado, mas de um regime e de um mundo”, e que portanto “a tática seguida nos anos da paz e da tranquilidade para nada mais serve no momento atual”. [1] A política de apaziguamento dos reformistas seria particularmente ineficaz: “Tudo aquilo que antes podia parecer um passo à frente, toda ação que há algum tempo servia para garantir um pouco de liberdade, para dar um pouco de justiça aos trabalhadores, hoje serve apenas para aguçar ainda mais a crise, para enfurecer os inimigos, para provocar reações ainda mais fortes, para tornar a vida mais dura e a batalha mais áspera”. [2] Passada a eleição, Gramsci registrava que “os comunistas foram derrotados” e que esta derrota era resultado de uma formidável crise de desencorajamento e de depressão”. Esta derrota se deu em um contexto de forte coação empresarial e restrição às liberdades, mas tais dificuldades não impediram uma dura avaliação autocrítica de Gramsci: “Os comunistas são perseguidos nas fábricas; em cada seção, há dois terços de pessoas que sofreram ‘retaliações’. A luta eleitoral – em função da dimensão universal dada pelo sentimento popular – tinha um significado de afirmação da legalidade burguesa contra a barbárie e a ferocidade fascistas. O proletariado de Turim acreditou que podia não se interessar por esta afirmação. Esta apatia não é indicador de capacidade política, mas, ao contrário, é sintoma de dissolução e de confusão mental. (…) A abstenção jamais pode ser assumida como prova de capacidade política, mas é somente comprovação de dissolução e de depravação moral”.  [3] Da mesma forma, a responsabilidade do Partido Comunista Italiano não era mascarada, mas proclamada explicitamente: “O pouco entusiasmo das massas se justifica em função do pouco entusiasmo e da debilidade dos comunistas organizados. Deve ser feito um grande trabalho de reorganização dos elementos melhores e mais conscientes. Mas os comunistas não devem se perder em processos de responsabilidade formal. O melhor modo de julgar as responsabilidades é constituir uma organização mais sólida[4]  Conforme já discutimos, Gramsci avaliava que a política de apaziguamento dos socialistas conduziria ao desastre, e portanto, via como única alternativa o rápido e intenso fortalecimento da organização dos comunistas, condição para que pudesse colocar em prática sua estratégia de enfrentamento ao fascismo.

    Em fevereiro de 1922, com a queda do governo Bonomi, a crise agravou-se e uma vez mais Gramsci apontou a fragilidade das instituições do Estado liberal e sua completa perda de legitimidade, registrando que “aos olhos do país, todo o Parlamento não passa de um corredor escuro e sem saída”. [5] Neste contexto, a perda de identidade e combatividade do Partido Socialista o fazia ser identificado com a carcomida ordem vigente: “em algumas zonas, sobretudo rurais e de pequenas regiões, há estratos inferiores da população trabalhadora que não fazem mais distinção entre os dois partidos [Partido Socialista e Partido Popular].  [6] Na sua avaliação, as tentativas de manter alguma aparência de legalidade em meio aos ataques das classes dominantes, que permeavam a política de socialistas reformistas e populares, conduziriam ao desastre: O novo regime articulará as mais obscuras características de nossas tradicionais camorras com os novos traços do Estado socialdemocrata, cínico, demagogo, hipócrita, corruptor e corrupto. Bonomi, deste ponto de vista, foi um verdadeiro precursor”.  [7] O fascismo, ainda que se apresentasse como externo ao sistema, seria justamente ao contrário um instrumento de sua reconfiguração: “Para atingir plenamente o objetivo, é preciso atravessar um período de ajustamento. Um deles foi atravessado pela crise de violência do fascismo. (…) Uma outra fase do período de ajustamento é representada pelas crises parlamentares. É no Parlamento que se deve efetuar a ligação entre os elementos dirigentes das velhas e novas camorras.”  [8]

    Marcha sobre Roma, em 1922

    Marcha sobre Roma, em 1922

    Quando Mussolini marcha sobre Roma com sua milícia fascista e com isto consegue a demissão do governo Facta e sua própria nomeação como Primeiro Ministro, Gramsci encontrava-se em Moscou, tratando de problemas de saúde, de onde enviou um artigo recapitulando os vários fatores que conduziram à constituição do governo Mussolini: a fragilidade da burguesia italiana; sua completa falta de compromisso democrático; o agravamento da crise da dominação em virtude das tentativas de manter a estabilidade do sistema através de concessões paternalistas; o impacto das greves operárias e das sublevações camponesas; a traição do PS à greve do Piemonte em 1920 e a desmoralização das classe trabalhadora decorrente desta traição; e a articulação entre as confederações empresariais, associações rurais e fascismo.  [9] Todos estes fatores tornaram o regime liberal insustentável e conduziram à constituição do governo Mussolini, em um cenário no qual embora se mantivesse uma formalidade legal, era diretamente decorrente de um ato de força – a Marcha sobre Roma.

    Finalmente, é importante observar que a constituição do governo Mussolini não implicou de imediato na constituição de um regime fascista. Entre novembro de 1922 e junho de 1926, a Itália tinha um governo liderado por um fascista – tal como teremos no Brasil a partir de janeiro próximo – mas em uma condição de transição na qual subsistiam determinadas liberdades. Neste contexto, Gramsci ao longo de 1923 fundamentou a proposta de investir na articulação política entre o operariado do Norte com o campesinato do Sul como caminho para efetivar um processo revolucionário e derrotar o fascismo. Em abril de 1924, em eleições que se realizaram ainda com certas condições de liberdade, Gramsci foi eleito deputado e retornou à Itália para assumir seu mandato. Pouco depois de Gramsci ter assumido como deputado, o deputado socialista Giacomo Matteoti foi assassinado por fascistas logo após de ter proferido um discurso denunciando fraude eleitoral e agravamento da violência política. Gramsci então defendeu que a única alternativa de resistência seria a convocação imediata de uma greve geral, rompendo com o imobilismo legalista e confrontando abertamente o governo fascista. Sua posição não se impôs e a escalada repressiva seguiu seu curso, até que ao longo de 1926 completou-se a reconfiguração do regime italiano e, em novembro, Gramsci teve seu mandato cassado e sua prisão decretada. As estratégias de apaziguamento e conciliação, a crença em que as instituições do Estado seriam capazes de conter o fascismo ou que ele seria destruído pelos seus próprios erros, acabavam, enfim, por produzir o resultado tantas vezes antecipado por Gramsci.

    *Doutor em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e professor do curso de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), integrando o Grupo de Pesquisa História e Poder. É autor, entre outros livros, de “Integralismo e Hegemonia Burguesa” (Edunioeste, 2011) e pesquisa sobre Estado, Poder, Direita, Hegemonia, Ditadura e Fascismo.

    NOTAS
    1 – GRAMSCI, Antonio. Socialista ou comunista?. In: Escritos Políticos. Volume 2, 1921-1926. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, p. 61.
    2 – Idem, p. 61.
    3 – Idem, p. 64-5.
    4 – Idem, p. 65.
    5 – GRAMSCI, Antonio. “A substância da crise”. In: Escritos Políticos, op. cit., p. 111
    6 – Idem, p. 112.
    7 – Idem, p. 113.
    8 – Idem, p. 113.
    9 – GRAMSCI, Antonio. “As origens do Gabinete Mussolini”. In: Escritos Políticos, op. cit., p. 122-126.

     

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  • Uma polêmica com o balanço eleitoral do MES

    O debate de ideias na esquerda socialista é parte do melhor da tradição marxista. Há pelo menos dois anos desenvolvemos visões distintas do MES (Movimento Esquerda Socialista) sobre importantes fenômenos da luta de classes no Brasil: a Lava Jato, o sentido das mobilizações de 2015, a profundidade do golpe parlamentar, a prisão de Lula. Mas isso não diminui o respeito mútuo e os nossos acordos – partilhamos uma herança comum na Quarta Internacional, somos do mesmo partido e temos inúmeros objetivos comuns na luta pela construção de uma alternativa de esquerda para a crise brasileira.

    O MES foi uma das correntes fundadoras do PSOL. Esse acerto deve ser sempre reconhecido e lembrado. A candidatura de Luciana Genro em 2014, felizmente aceita pelo PSOL depois da renúncia de Randolfe Rodrigues, fez a bandeira da esquerda socialista brilhar. Além disso, o MES foi uma das primeiras correntes do PSOL a se posicionar pelo acolhimento do ex-MAIS no PSOL, em 2016, e nunca esqueceremos essa solidariedade. Tudo isso nos une. E tem muito valor. Queremos construir relações de confiança. Mas isso só é possível esclarecendo as divergências, como já fizemos de forma respeitosa contra a posição desta corrente, quando esta defendeu uma suposta progressividade da Lava Jato.

    Nos referimos neste texto ao balanço eleitoral publicado pela sua Coordenação Nacional, no qual faz uma avaliação da situação brasileira e do lugar do PSOL da qual discordamos.

    Essa avaliação parte da premissa de que a explicação para o crescimento de Bolsonaro e da extrema direita neofascista é um sentimento predominante de renovação, “contra tudo que está aí”. E a partir daí, o texto apresenta um balanço duro do PSOL:

    “a esquerda crítica ao PT perdeu oportunidades para converter-se num polo anticapitalista e anti-regime com grande audiência nacional. A escolha do PSOL, desde 2015, de abster-se nos momentos mais decisivos, de adotar uma posição independente do PT impediu que surgisse uma alternativa à esquerda com peso de massas. Esta ausência cobra seu preço quando frações da classe trabalhadora, das massas populares e da pequena-burguesia, que poderiam ser convencidas por nossas ideias, iludem-se por uma liquidação reacionária do regime da Nova República.”

    Trata-se de uma crítica muito grave. O PSOL teria sido, de alguma maneira, corresponsável pelo crescimento de Bolsonaro e do neofascismo no Brasil, colocando-se como um empecilho para que a esquerda radical capitalizasse a crise brasileira.

    Por que Bolsonaro conquistou influência  eleitoral de massas?

    Desde março de 2015, com as grandes mobilizações da classe média urbana mais abastada, assistimos a uma ofensiva  burguesa. Essa ofensiva inverteu a relação social de forças de forma desfavorável para a classe trabalhadora e sua juventude. As mobilizações pelo impeachment de Dilma Rousseff alcançaram a dimensão de vários milhões, a votação no Congresso consagrou o golpe parlamentar e ocorreu uma derrota política que não foi somente uma derrota do PT, mas abriu-se uma ofensiva de classe que provocou avanços concretos sobre a classe trabalhadora, como a reforma trabalhista e a PEC do teto de gastos.

    O debate sobre esta mudança qualitativa na situação política é parte importante das nossas diferenças de caracterização e política. O MES considera que o impulso de junho de 2013 permaneceu ininterrupto, vivo, até agora, em outubro de 2018, às vésperas do início do governo Bolsonaro.

    Evidentemente existe luta e resistência, as derrotas não são o “fim da história”, o jogo continua sendo jogado. Há disposição de luta nos setores mais jovens  e entre os oprimidos e essa é nossa fortaleza para enfrentarmos este cenário. Houve uma potente resistência, que barrou a reforma da Previdência, mas não sendo suficiente para inverter o signo da correlação de forças, a reação burguesa pôde avançar.

    Bolsonaro capitalizou, em uma situação de crise política, social e econômica, o crescente antipetismo na classe média, fomentado pelos grandes grupos econômicos e de mídia. Foram três anos de propaganda massiva contra o PT. A operação Lava Jato teve como objetivo principal derrubar o governo Dilma e criminalizar o PT, foi um dos agentes decisivos do golpe. E posteriormente, em um segundo momento, condenou, prendeu e impediu Lula de ser candidato a presidente da República. Ela teve papel decisivo para a evolução negativa da situação política. Ela alimentou, na pequena burguesia enraivecida pelo impacto da crise econômico-social, a ideologia reacionária de que o maior problema do Brasil seria a corrupção do PT. Finalmente, uma parte da classe trabalhadora do Sul e Sudeste foi arrastada para a base social da reação. Para completar o caráter reacionário da Lava Jato, Sergio Moro acaba de anunciar que será o superministro da Justiça do governo Bolsonaro.

    Não é de se estranhar que, por conta dessa avaliação equivocada a respeito da Lava Jato, Roberto Robaína, aponte o superministério nas mãos de Moro como um elemento contraditório do governo Bolsonaro, uma espécie de ala disputável do governo.

    Vemos o oposto: o superministério de Moro desnuda que a Lava Jato era uma operação política, com o objetivo de abrir caminho para a ofensiva brutal de classe da burguesia. Antes a partir dos poderes de um juiz de primeira instância, agora com os poderes de ministro.

    A desmoralização do PSDB, com os escândalos envolvendo Aécio Neves e sua participação desastrosa no governo Temer, ajudou Bolsonaro a se conectar com a base social do golpe, pressionada pelo aumento dos custos dos serviços. Não conseguiam mais pagar a dívida da casa própria, do carro e até do estacionamento, o plano de saúde, a escola particular dos filhos, a mensalidade do clube, a empregada doméstica. O agravamento da insegurança pública acendeu o rastilho de pólvora do ressentimento social.

    O rancor social se identificou, profundamente, com o discurso de ódio de Bolsonaro criminalizando a esquerda pela crise. Não fosse tudo isso o bastante, Bolsonaro inflamou o racismo, o machismo e a LGBTfobia naqueles que viam com desgosto as pequenas conquistas dos oprimidos.

    O “bode expiatório” tinha sido encontrado. A conivência das instituições ajudou. A justiça, o parlamento, o ministério público se calaram perante a ofensiva reacionária da extrema-direita. Por fim, com o fracasso de Alckmin, depois dos resultados do primeiro turno, a maioria da burguesia brasileira aderiu à candidatura de Bolsonaro.

    A evolução da situação política desautorizou as caracterizações do MES. A Lava Jato não cumpriu um papel progressivo “limpando a política das velhas castas”. Ao contrário, foi elemento decisivo da virada reacionária na situação política. O regime democrático eleitoral, o semipresidencialismo consagrado pela Constituição de 1988 passou a ter elementos bonapartistas, autoritários, mais acentuados. Jair Bolsonaro lidera uma corrente eleitoral de massas e grupos neofascistas estão tendo um protagonismo inédito na história recente do Brasil.

    O papel do PSOL e da aliança nas eleições de 2018

    A tarefa do PSOL na situação aberta após o golpe parlamentar e, portanto, nessas eleições era, centralmente, lutar contra a ofensiva de classe da burguesia. Esta ofensiva se expressou através dos ataques aos direitos da classe trabalhadora e às liberdades democráticas impostos pelo governo Temer. Esta tarefa era indivisível do enfrentamento com Bolsonaro. Porque desde o início da campanha era inconfundível que Bolsonaro era a candidatura com maior força eleitoral, já que a prisão de Lula deixava o PT descabeçado. Mais grave, depois do episódio do atentado da facada em Juiz de Fora do dia 6 de setembro, ficou claro que Alckmin não conseguiria recuperar a influência eleitoral do PSDB.

    É inequívoco o papel do PSOL nas lutas contra o golpe e contra Bolsonaro. As denúncias que fizemos nas eleições, especialmente nos debates, tendo Guilherme Boulos como porta voz, a política foi certeira: enfrentamento prioritário a Jair Bolsonaro, revogação das reformas de Temer, contra a reforma da Previdência, contra as privatizações, reforma tributária progressiva e etc.

    Mas existe outra tarefa estratégica que cabe ao PSOL. Ela é cara tanto para o MES quanto para a Resistência. Mas seria injusto não reconhecer que ela foi assumida, também, pela aliança entre PSOL, MTST, PCB, Mídia Ninja e APIB. A tarefa de fortalecer um polo de independência de classe em condições de superar o PT, e se colocar como alternativa de direção ao movimento de massas.

    O MES avalia que diante dessa tarefa fracassamos. Mais grave. Que teríamos sido, em alguma medida, de alguma maneira, responsáveis pela audiência da extrema direita. Porque a campanha Boulos/Sonia, ao não ter uma política independente do PT, não teria sido capaz de dialogar com um setor de massas e da vanguarda antipetistas. Tentar semear uma alternativa de esquerda no campo do antipetismo é uma grande ilusão. O antipetismo é anti-estatais, é pró-privatizações, é anti-povo, é misógeno, racista e LGBTfóbico. É infantil achar que era possível ganhar às massas em meio a uma situação reacionária, onde as ideias da esquerda radical estão em completa minoria. A linha correta era de combate ideológico. Justamente por isso, consideramos que o respeito conquistado pelo PSOL, nestas eleições, nunca foi tão grande. Consideramos que Boulos se transformou em uma das maiores lideranças de massas da esquerda brasileira e que afirmamos uma alternativa ao PT.

    Resta saber o que os companheiros interpretam como uma política independente do PT. Não consideramos que a defesa de Lula contra a sua prisão arbitrária tenha rompido com a independência política do PSOL, pois se deu nos marcos de uma frente em defesa das liberdades democráticas. Participamos com nossa própria pré-candidatura, sem nos comprometer com o programa petista. Não acreditamos que seria correto ignorar, no primeiro debate na TV, que o primeiro colocado nas pesquisas estava preso por uma operação política, que no momento em que escrevemos este texto está evidente.

    No entanto, essa posição não nos impediu de criticar o PT. Denunciamos as alianças nos estados com MDB, inclusive, no debate na TV. A diferenciação também se deu nos marcos do programa defendendo investimento público na educação, desmilitarização das polícias, contra a reforma da Previdência, contra os privilégios do judiciário, legalização do aborto e etc. Para ilustrar trazemos algumas matérias da grande imprensa: “Boulos critica ‘beija-mão’ de Haddad a caciques do MDB e diz que é ‘caso de masoquismo” (Folha de S. Paulo), “Boulos critica encontro de Haddad com Renan e diz ser único candidato que ‘enfrenta de verdade esse sistema”  (G1).

    A campanha teve, certamente, erros. Em nossa opinião foram quantitativos, não qualitativos. A Resistência fez, por exemplo, ao lado do MES, nos organismos do PSOL e até publicamente, um debate para que se incorporasse o tema da auditoria da dívida pública, que consideramos essencial.

    Nesse sentido discordamos, frontalmente, que não houve independência do PT na campanha de Guilherme Boulos e do PSOL. E consideramos, mais que um exagero polêmico, um desatino, a acusação de que a linha da campanha do PSOL tenha entregue parte das massas a Bolsonaro.

    Portanto, se o MES entende por “independência do PT” que a campanha não deveria ter se posicionado, ativamente, contra a prisão de Lula, divergimos. Ou, se o MES entende que não deveríamos ter buscado impulsionar a frente antifascista depois do assassinato de Marielle, a partir do ato no Circo Voador, no Rio de Janeiro, diante dos ataques à caravana Lula, estamos diante de outra discordância.

    Porque todos estes ataques, e muitos outros, são contra às liberdades democráticas, aos movimentos sociais, e à toda a esquerda, não só ao PT. Na verdade, estes  posicionamentos fazem com que tenhamos futuro. O PSOL passou na prova da história. Não esperamos Bolsonaro chegar às portas do poder para construir a frente antifascista que hoje se coloca na ordem do dia. Que bom que cálculos eleitorais não nos cegaram nesse momento histórico.

    O antipetismo é um caminho válido para a tarefa necessária de superação do PT?

    É evidente que a burguesia, especialmente através da extrema-direita, tem hoje a iniciativa política e por isso acaudilha outros setores sociais e arrasta parte da classe trabalhadora. Nossa tarefa é sim inverter o signo e buscar com que nossas organizações e a classe trabalhadora dividam a classe média e arrastem uma parcela expressa dela e do sub proletariado. É preciso disputar, sim, amplas massas proletárias e subproletárias que enxergam nas propostas reacionárias de Bolsonaro uma saída para a situação desesperadora na qual se encontram. Mas o antipetismo não é um atalho válido para essa disputa, porque ele é reacionário e alimenta ideologicamente as forças sociais contrárias a nós.

    A tentação de “pegar carona” no repúdio ao PT embrulhado no discurso anticorrupção nos levaria a um beco sem saída. O ódio da classe média contra o PT foi incendiado pela LavaJato, mas tem raízes de classe mais profundas e complexas e, infelizmente, reacionárias. Não é um sentimento democrático progressivo.

    O caminho para fazer essa disputa é nos ligando com os anseios da classe trabalhadora na sua experiência com este governo. Será, portanto, a campanha política e a luta contra a reforma da Previdência já anunciada, a luta contra a privatização do ensino público superior, a luta contra uma anunciada reforma trabalhista ainda mais radical, a luta contra as privatizações, o desmascaramento da Lava Jato como operação política e o desmascaramento das entranhas corruptas deste governo. Enfim, é necessário nos apresentar para as lutas na defesa da classe trabalhadora para nos reconectarmos com os setores da classe trabalhadora iludidos com o neofascismo.

    Não é qualquer ruptura com o PT que é progressiva. Não é qualquer caminho que nos serve para reconquistar as massas desiludidas com o PT, é preciso um caminho que busque reverter a deseducação promovida pelo próprio PT. Devemos ser instrumentos para retomar o classismo, a independência de classe, a desconfiança das instituições burguesas, inclusive do judiciário e da polícia. Nossas ideias certamente encontrarão terreno para serem semeadas na luta de resistência nas quais seremos linha de frente.

    Da mesma maneira devemos dialogar com os setores de esquerda iludidos com Ciro Gomes, como alternativa de esquerda. Aliás Guilherme Boulos tem a simpatia de parte importante do ativismo que votou em Ciro. Como político burguês que é, se restringirá a imprensa e a luta institucional.

    É verdade que Ciro Gomes fez essa opção de cavalgar num suposto “antipetismo” independente. Vejamos onde foi parar: durante a campanha de segundo turno, a opção de Ciro Gomes por preservar uma imagem de oposição ao PT determinou que tivesse fora da frente democrática e do enfrentamento a Jair Bolsonaro e o neofascismo. Ciro preferiu preservar sua imagem de oposição ao PT pensando nas eleições de 2022 e apostando que mais a frente pode ser aceito por uma parcela da burguesia brasileira. Um projeto que busca construir uma esquerda “neo-desenvolvimentista” por dentro da burguesia, e não por organizações da classe trabalhadora. Por isso, surge como um adversário político que precisa ser derrotado no próximo período. Não podemos absolver Ciro dos seus erros e irresponsabilidades políticas perante a gravidade da situação política aberta no segundo turno com a possibilidade de vitória de Bolsonaro que acabou se confirmando. É decisivo que de maneira unificada façamos esse balanço.

    Mas resta o argumento de que o “antipetismo” de Ciro poderia ter vencido, no segundo turno, Bolsonaro. Esta é uma hipótese que nunca vai se comprovar por não ter efetivamente se dado, o que não impediu que parte da esquerda fizesse um cálculo eleitoral. Alguns consideraram que Ciro Gomes poderia ser uma opção mais viável que Haddad para vencer Bolsonaro no segundo turno. Sabemos que esta não foi a posição do MES, que se manteve firme na defesa da candidatura Boulos, mesmo tendo apoiado como pré-candidato Plínio de Arruda Sampaio Jr.

    Mas a presunção de que Ciro Gomes não seria atingido pelo antipetismo é equivocada. A verdade é que esse movimento de pensar o melhor candidato para derrubar Bolsonaro menospreza a ofensiva reacionária em curso e que o antipetismo é também anti-esquerda e anti-direitos, ou seja, Ciro Gomes também sofreria o impacto dessa reação.

    O documento da coordenação nacional do MES também afirma:

    “O que devemos debater com a base petista é que Lula inviabilizou qualquer política de frente democrática, resultando numa linha hegemonista que debilitou o diálogo com quem rompeu ou não quer se colocar no espectro petista. A falta de uma autocrítica de Lula e da direção do PT levou a afastar Ciro de um empenho militante no segundo turno, mesmo que tenha tido uma votação ampla dos setores democráticos.”

    É verdade que o PT frequentemente tem uma postura hegemonista no movimento de massas, na frente única e nas frentes democráticas, enfraquecendo a unidade necessária para combater a burguesia. Nós lutamos contra tal hegemonismo e por uma frente que realmente possa unificar a classe trabalhadora em defesa das liberdades democráticas. Mas não concordamos que qualquer justificativa caiba para amenizar a traição de Ciro Gomes que abandonou o país durante um dos períodos de mais agonia, diante da luta para tentar impedir que um neofascista chegasse ao poder.

    Não acreditamos que o PT deveria ter aberto mão da luta contra a prisão de Lula, contra a operação política reacionária de prender o primeiro colocado nas pesquisas. Mas debater as táticas eleitorais do PT é cair na lógica de que as eleições se deram em uma correlação de forças totalmente aberta, é cair na lógica eleitoral, é ajudar a manter sob a neblina os reais erros do PT, que são mais graves do que um possível erro eleitoral.  O maior erro da direção do PT foi não ter aproveitado a oportunidade aberta pela greve geral de abril de 2017 contra a reforma da Previdência do governo Temer. Ela abriu uma janela, quando o escândalo das denúncias da JBS, deixou o governo Temer suspenso, a classe dominante dividida, e a luta pela antecipação das eleições diretas se colocou na ordem do dia. A direção do PT fez uma aposta errada, e foi um grande entrave para as mobilizações. O PSOL, ao contrário, respondeu com firmeza à nova conjuntura, a partir da iniciativa enérgica de convocação de atos de massas no Rio de Janeiro e São Paulo por Diretas. O PT preferiu apostar no respeito ao calendário eleitoral e na possibilidade de reverter, no TRF-4 de Porto Alegre, a sentença de Moro na primeira instância de Curitiba. A direção do PT tremeu com medo de ser acusada de tentar usar contra Temer as mesmas armas usadas pelo MDB/PSDB contra Dilma Rousseff. Sua “lealdade” ao regime foi até o limite do suicídio político.

    A unidade necessária para enfrentar Bolsonaro não pode nos impedir de criticar o PT. Mas o conteúdo da crítica faz diferença. O PT deve ser superado porque caducou historicamente. Não pode mais impulsionar a mobilização e organização independente dos trabalhadores. Foram anos de abandono da luta ideológica e do classismo depositando toda a esperança e insatisfação nas urnas e na institucionalidade. Isso custou mais do que a prisão de seu principal líder. Custou desmoralização entre os trabalhadores e enfraquecimento de suas entidades. Em treze anos de governo se fortaleceram as instituições repressivas do Estado e o Judiciário. A manutenção do mesmo aparato militar da ditadura sem a punição para os agentes da repressão fez crescer o genocídio da juventude negra, o encarceramento dos filhos da classe trabalhadora, e os deixou livres para que neste momento oferecessem a “ordem” como saída para a crise. Este é o conteúdo da crítica que propomos fazer ao PT.

    Caducar historicamente não é caducar politicamente e, por isso, o PT, após tamanha ofensiva, chegou ao segundo turno, e obteve a maior bancada da Câmara dos Deputados, e segue dirigindo o movimento social organizado de forma ainda majoritária. Isso significa que a diferenciação com o PT não deve ser sectária, nem nos impedir de dialogar com sua base, muito menos nos impedir de golpear juntos contra o fascismo.

    Por isso a superação do PT passa por nos apresentarmos na linha de frente para os enfrentamentos que virão. Passa por dialogar com as demandas concretas dos trabalhadores e passa por apresentarmos um programa anticapitalista, e isso não pode ser feito cortando caminho pelo atalho do antipetismo que é hoje uma ideologia reacionária.

    Para disputar amplos setores de massas hoje iludidos pelo fascismo é preciso reavivar o movimento de massas da classe trabalhadora e colocá-lo em ação. A frente única antifascista está no centro da tática política. É assim que disputaremos a consciência de milhões. A autoridade moral do PSOL diante dos setores que neste momento podem ser ganhos para a superação a esquerda do PT é imensa. Seja a base que votou em Ciro, seja a base que votou em Haddad.

    O enfrentamento dos setores oprimidos a Bolsonaro foi o fato político mais importante das eleições. Esse fenômeno segue uma tendência mundial. São as mulheres, negros, LGBTs e jovens que estão na vanguarda das lutas, em especial, contra a extrema-direita. Esse fato foi determinante para o crescimento eleitoral do PSOL e para que o partido ultrapassasse a cláusula de barreira. Isso porque estamos ligados às lutas dos oprimidos. Esse foi um importante passo para a construção da Frente Antifascista que devemos nutrir e fortalecer desde já. Aí também reside parte da votação expressiva que tivemos em nossas candidatas feministas, especialmente, as mulheres negras.

    A resistência pujante nas universidades e os atos do dia 29 de setembro apontam o caminho: organizar a resistência e construir aí uma nova esquerda!

    A vitória política da candidatura Guilherme Boulos e Sonia Guajajara

    A baixa votação da candidatura Boulos/Sônia Guajajara tem explicação. Foi o fenômeno do voto útil que foi antecipado para o primeiro turno como reação à ameaça Bolsonaro. O MES fez uma forte campanha e sabe que inúmeras pessoas justificavam o não voto em Boulos. Queriam votar em uma candidatura em condições de ir para o segundo turno enfrentar Bolsonaro.

    A explicação que o MES propõe para explicar a contradição entre votos proporcionais e votos para a chapa Boulos-Sônia é instrumental, e limitada a lógica eleitoral. O documento da coordenação nacional do MES afirma:

    “O PSOL teve, nesse marco, um desempenho eleitoral contraditório: se, por um lado, em sua localização nacional, o partido teve uma campanha presidencial fraca e recuou em sua capacidade de implantar seu projeto; por outro, o crescimento de suas bancadas federais e estaduais revelou justamente a força que uma política independente e colada ao movimento democrático pode ter…”

    “Guilherme Boulos, na preparação de sua candidatura, optou por uma linha política de não independência, que o impediu de apresentar um novo rumo para o país por não poder apresentar uma crítica real ao regime e a seus principais atores. Ao final da campanha, quando chamou a luta contra Bolsonaro, pôde encerrar sua participação nos debates eleitorais com dignidade. Pela construção anterior de sua candidatura, entretanto, Boulos não pôde apresentar-se como líder de um novo projeto.”

    Não é uma suposta diferença na linha política das candidaturas proporcionais na relação com o PT que explica a contradição. Em primeiro lugar, porque nossos deputados e deputadas eleitos não tiveram uma linha diferente em relação ao PT. Inclusive o perfil das candidatas eleitas do MES, Sâmia e Fernanda, eram bem próximos ao perfil do PSOL, e de forma alguma fizeram demarcações mais explícitas que as de Boulos com o PT em seus vídeos, programas de TV e materiais. Definitivamente as candidaturas eleitas, incluindo as do MES, não foram vistas por amplas massas e nem pela vanguarda como candidaturas que demarcavam uma suposta independência do PT ausente na candidatura presidencial. Parte dos votos de nossas candidatas e candidatos eleitos foram inclusive de setores petistas.

    Por outro lado há algumas possibilidades de aferir a política defendida pela Revista Movimento, que contraditoriamente não foi testada pelas candidatas eleitas do MES, mas por exemplo, pelo PSTU, que implementou uma variante da tática proposta pelos camaradas e navegou no “contra tudo que está aí”. Mesmo tendo Vera como candidata, uma mulher negra e nordestina, não saiu do primeiro turno com sua imagem ou prestígio aumentado  na vanguarda. Ao contrário, saiu ainda mais isolado, com menos votos do que nunca, e com ainda menos capacidade de mobilização. Outros candidatos do próprio PSOL, como o vereador Babá, da CST, com perfil de priorizar a crítica ao PT, ante o enfrentamento as alternativas da direita e extrema direita, tiveram resultados eleitorais baixíssimos que revelam que não foi essa a razão de sucesso da nossa importante e valorosa bancada.

    O posicionamento do PSOL de conjunto e da aliança estando na linha de frente da luta contra a extrema-direita e cumprindo um papel decisivo nas mobilizações de mulheres #EleNão do dia 29 de setembro potencializou nossas figuras públicas e foi decisiva para nossa vitória eleitoral. Esse mérito não é de uma corrente do PSOL, em especial, mas do partido de conjunto e da aliança que construímos, que soube se conectar a luta dos oprimidos, vanguarda da luta contra Bolsonaro.

    Justamente, por isso, entendemos que também houve nos proporcionais um voto de compensação, impulsionados inclusive pela campanha Boulos, e a simpatia que esta teve por parte da vanguarda. O PSOL acabou tendo uma vitória política e eleitoral, superando a cláusula de barreira, chegando a quase 3% dos votos para deputado federal.

    A vanguarda tem respondido aos chamados de Boulos e do PSOL a ação e esse é o objetivo mais almejado pelos revolucionários. A recepção de Boulos nas Universidades durante a disputa de segundo turno também  demonstram de forma inequívoca o prestígio que adquiriu nossa aliança na disputa eleitoral. Boulos sai como uma das principais figuras da esquerda no país, e o PSOL como o partido mais engajado na luta eleitoral e das ruas para derrotar Bolsonaro. Foram milhares de estudantes por onde passou. Boulos foi ovacionado no ato do dia 29 de setembro, assim como em todas as mobilizações do segundo turno no país e agora, depois do segundo turno, esteve a frente das mobilizações e plenárias convocadas no dia 30 de outubro.

    As Brigadas pela Democracia convocadas pela aliança já tem mais de 20 mil inscritos para se organizar conosco na luta contra o fascismo.

    Este saldo se deve a correta tática de lançar uma aliança entre PSOL, MTST, PCB, Mídia Ninja, APIB. Essa aliança, ao invés de enfraquecer o PSOL, como previa o MES, nos fortaleceu. Mesmo com votações superiores, nenhuma candidatura presidencial anterior do PSOL proporcionou tanta capacidade de mobilização social, nem teve tanto prestígio sobre setores mais amplos que a base do próprio partido. Tudo isso para nós é muito significativo, pois o PSOL está melhor localizado para disputar a direção das lutas, terreno onde o PT deve ser superado. Comparar essa votação com outros momentos políticos é descabido, já que a existência de uma corrente neofascista com peso eleitoral de massas é inédito.

    O MES se opôs a candidatura Boulos e Sônia. Talvez por isso, agora, defenda que a diminuição da votação de Boulos em relação à de Luciana Genro, por exemplo, confirmaria sua posição. Temos outros parâmetros. Será que o perfil “antipetista” defendido pelo MES ao sustentar Plínio de Arruda Sampaio Jr. nos colocaria em melhores condições para a disputa do movimento de massas, e para chamados à ação dos trabalhadores? Sairíamos com tanto prestígio reunindo milhares por onde passamos? Categoricamente, afirmamos que não.

    A disputa das massas para a esquerda socialista vai se dar, e já está se dando, nos conectando as lutas pelas suas demandas concretas, e de forma alguma pelo atalho reacionário do antipetismo. As críticas ao PT devem ser feitas no sentido de reeducar a classe trabalhadora contra a ideologia da conciliação de classes que o PT promoveu, no classismo, revelando o caráter das instituições repressivas do estado e o caráter dos governos. A chapa Boulos/Sônia, com um líder dos sem-teto e uma líder indígena conferiu ao PSOL mais força e enraizamento do que nunca. Por isso, essa aliança, longe de ser um erro, foi uma importante vitória política do PSOL, uma necessidade para que o PSOL pudesse se colocar na linha de frente da luta contra o neofascismo representado pelo governo de Bolsonaro e para que possamos superar o fracassado projeto de conciliação de classes defendido pelo PT.

  • A extrema direita mundial parabeniza Jair Bolsonaro

    A vitória de Jair Bolsonaro foi celebrada com festa por políticos e líderes de partidos de extrema direita em todo o mundo. Pelo que há de pior na política mundial.

    Logo após as eleições, o ex-capitão do Exército recebeu um telefonema do presidente norte-americano Donald Trump. Em seguida, no Twitter, Trump anunciou que na conversa, os dois se comprometeram a trabalhar próximos em todos os setores, destacando o comércio e a área militar.

    Na Alemanha, também pelo twitter, a bancada do partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD), reproduziu a mensagem de seu deputado Petr Bystron, na qual felicitava Bolsonaro pela vitória: “Como ocorre com a AfD, ele foi atacado de todos os lados, por ser um outsider que desafiou o sistema.” O deputado da AfD disse ainda que “A revolução conservadora chegou à América do Sul”.

    A AfD é o principal partido de oposição ao governo Merkel na Alemanha. O partido ficou conhecido por seu discurso xenófobo, anti-imigrantes e por destilar ódio contra a população muçulmana que vive no país. O deputado Bystron se envolveu em recentes confusões na Alemanha pela acusação de empregar em seu gabinete pessoas ligadas a movimentos neonazistas.

    Na França, Marine Le Pen, líder da Rassemblement National (Agrupamento ou Comício Nacional, a antiga Frente Nacional), disse em sua conta no twitter logo após o resultado: “os brasileiros acabaram de punir a corrupção generalizada e a criminalidade aterrorizante que prosperaram sob os governos de extrema esquerda”. Outro membro do partido, o tesoureiro Wallerand de Saint-Just criticou a cobertura da imprensa francesa as eleições brasileiras, afirmando que Bolsonaro é “atacado e tachado com adjetivos injustos”.

    Na Itália, o líder do Liga, partido de extrema direita, e também vice-premiê e ministro do Interior, Matteo Salvini, disse em sua conta no twitter que:  “os cidadãos mandaram para casa a esquerda”. “Bom trabalho ao presidente #Bolsonaro, a amizade entre nossos povos e nossos governos será ainda mais forte.” O deputado estadual por São Paulo, Eduardo Bolsonaro, filho do capitão, agradeceu o apoio de Salvini e também disse que “o presente está chegando”, em referência a extradição de Césare Battisti, ex-guerrilheiro condenado político na Itália que atuava durante o período conhecido no país como Anos de Chumbo.

    Bolsonaro já havia recebido apoio de membros da extrema direita mundial, como o de Steve Bannon, ex assessor de Donald Trump, líder e guru do movimento de extrema direita mundial, e conhecido por criação de imensas fake news. Bannon inclusive o convidou para participar de um encontro do seu Movimento, em janeiro, na Europa, com as demais lideranças da extrema direita.


    Declarações parecidas foram feitas pelo ex-líder da Ku Klux Klan, David Duke, em um programa de rádio. O rosto mais conhecido do grupo racista disse ao se referir a Bolsonaro: “Ele soa como nós. É um nacionalista”.

    A Klu Klux Klan (KKK) é um grupo terrorista de supremacistas brancos que atua nos Estados Unidos desde 1895, durante a Guerra Civil do país. O Klan que chegou a ter 4 milhões de membros da década de 1920, ficou conhecido por torturar, assassinar, enforcar e queimar ativistas do movimento negro e pessoas negras, assim como suas casas.

    O fato de Bolsonaro ter recebido apoios de figuras tão nefastas da extrema direita mundial deve ser visto com atenção. A vitória eleitoral do candidato do PSL não é um fato isolado. Em todo o mundo, candidatos de extrema-direita estão alcançando vitórias eleitorais ou resultados históricos. É preciso ver com atenção a atuação destes governos para assim nos prepararmos melhor para combater o novo governo. Na América Latina, a maioria dos chamados governos progressistas que se iniciaram no início do século XXI chegou ao fim.

    Se Bolsonaro anda ao lado de racistas declarados, neonazistas, racistas, terroristas de extrema-direita e de neofascistas, nós andaremos ao lado dos sem-teto, sem-terra, dos trabalhadores em luta por seus direitos. Estaremos, sem dúvida, em melhor companhia.