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  • Após vitória, trabalhadores municipais de Porto Alegre suspendem greve, mas mantêm alerta

    Por: Fabrício Costa e Pedro Silveira*, de Porto Alegre, RS
    *professores da rede municipal

    Os municipários de Porto Alegre, reunidos em assembleia, decidiram, na tarde do dia 13 de novembro, pela suspensão da greve iniciada no dia 05 de outubro. Após 40 dias de greve, o entendimento da categoria é de que ocorreram avanços no embate com o prefeito Nelson Marchezan Jr (PSDB) e que, portanto, caberia a suspensão, mas com o apontamento da continuidade da luta com a aprovação do estado de greve.

    Não foram poucos os ataques do executivo municipal ao longo deste primeiro ano de gestão. Antes de assumir o governo, ainda em 2016, Marchezan Jr já demonstrava a que veio, fazendo ameaças atrás de ameaças ao funcionalismo público com o parcelamento de seus salários. Logo nos primeiros dias, o governo Marchezan faz passar na Câmara, com apoio da maioria dos vereadores, uma reforma administrativa que extingue uma série de secretarias estratégicas da máquina pública, com destaque para a Secretaria Municipal de Esportes, Recreação e Lazer (SME), a Secretaria Municipal da Juventude (SMJ) e a Secretaria Municipal de Trabalho e Emprego (SMTE).

    Ainda no período de férias escolares, a gestão Marchezan desfere um duro golpe na rede municipal de Educação ao impor uma nova rotina escolar, privando as escolas das reuniões pedagógicas, limitando os alunos em seu acesso e estrutura aos refeitórios escolares, além de total desconsideração com a participação da comunidade escolar, ainda que a resistência das comunidades a tal imposição tenha se mantido por meses.

    Logo na sequência, foi encaminhado para a Câmara de Vereadores um projeto de lei que atacava o Departamento de Previdência do Município, o Previmpa, com um aumento da contribuição previdenciária, apesar de parecer contrário do conselho administrativo do órgão e da resistência da categoria ao acusar o confisco de 3% dos salários dos trabalhadores em beneficio exclusivo do executivo atual. Do mesmo período é o projeto de lei de revisão da reposição automática do índice salarial, vinculando o aumento à previsão orçamentária, o que não logrou êxito na Câmara Municipal.

    No mês de julho, as ameaças do governo se concretizam, sendo anunciado pelo secretário municipal da Fazenda, Leonardo Busatto, o primeiro parcelamento dos salários dos servidores públicos municipais, situação que se seguiu nos meses seguintes. Além do todos esses ataques e do parcelamento, a expressão maior do projeto político de ataque aos trabalhadores públicos e do desmonte do serviço público se dá com o envio pelo executivo de quatro projetos de lei, estando entre eles o projeto que atingiria frontalmente o plano de carreira dos servidores, e também o projeto de privatização de departamento vital para a cidade que é o Departamento Municipal de Água e Esgoto (Dmae). Tais projetos e um novo parcelamento no mês de outubro foram determinantes para que a categoria reunida no dia 5 outubro deflagrasse a grande greve dos municipários.

    Do ponto de vista dos trabalhadores municipários, desde as primeiras horas de governo a categoria se mobiliza, se organiza e se empenha em refletir a resistência frente a um governo flagrantemente autoritário e avesso aos direitos dos trabalhadores. Foram muitas panfleteações e diálogos com a população, apitaços, pressão na Câmara e conversa com vereadores, paralisações e assembleias gerais e setoriais, não obstante o corte de ponto nas paralisações e a não liberação do ponto para as assembleias da categoria.

    A vitalidade da categoria, no entanto, ganhou toda a sua evidência na mobilização em greve quando uma grande variedade de táticas fora acionada. Ou quando setores da categoria, que em greves anteriores tiveram adesão e participação mais tímida, nesta conjuntura tiveram papel de maior relevância, como é caso dos trabalhadores da Saúde ou os operários do Dmae, com a manutenção de piquetes permanentes, bem como com a participação quantitativa e qualitativa nas ações centrais da greve.

    A posição defensiva e de resistência da categoria não impediu que se dessem passos importantes na reaproximação bastante estreita com o conjunto da população, acentuando a impopularidade cada vez maior de Marchezan Jr. O diálogo constante com variados segmentos sociais de Porto Alegre denunciando todo o desmantelamento em curso dos serviços da cidade dava notícias da legitimidade inédita e do grande apoio popular à luta dos municipários também em defesa da cidade.

    Nesta luta, se somaram à impopularidade de Marchezan todas as contradições associadas à sua posição política enquanto um agente ativo da reorganização à direita da representação política burguesa. A pretensão à novidade política, no entanto, tão cedo já se revelava insustentável, como apontado de forma precisa por um desafeto político conjuntural ainda no período eleitoral: “Ele que é uma liderança que já nasceu velha, é um caudilho”. Tal estilo de fazer político, que se inscreve numa longa tradição de mando e que mal se dissimula na racionalidade do Estado, logo entra em rota de colisão com outras forças e interesse políticos, levando a uma crise política no interior da própria base aliada. No mesmo sentido, aceleradamente foram se acumulando as baixas na equipe de governo em cargos de primeiro e segundo escalão, totalizando até o final da greve 14 nomes que saíram do governo, 15 no fechamento dessa matéria.

    Do ponto de vista da dinâmica da greve, além dos variados piquetes na área da saúde, Dmae, das escolas paralisadas, parcial ou totalmente, e tantos outros setores, as táticas que dominaram a greve ao longo dos 40 dias oscilaram entre o esforço de acionamento da Câmara de Vereadores na mediação com o governo e a pressão intensiva no executivo da cidade. Não obstante, a evidente contraposição do interesse objetivo da instituição Câmara frente à instituição da greve, o movimento grevista, por uma combinação de fatores políticos conjunturais, logra incidir na crise entre legislativo e executivo, acentuando significativamente o isolamento do governo Marchezan.

    As ações mais incisivas sobre o executivo, como o piquete do Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU) e o Piquete da Secretaria de Administração (SMA) alcançaram efeitos de visibilidade imediatos e a greve ganhou um outro patamar enquanto pauta da cidade. Por um lado, curiosamente, tais ações acentuaram o apoio da população aos municipários. Por outro lado, a reação do governo não se fez tardar, ao lançar mão de instrumento de força contra os trabalhadores. Trata-se da Ronda Ostensiva Municipal (ROMU), destacamento de “choque” do poder público municipal, que já havia sido utilizada em outras ocasiões neste ano contra a categoria, mas que gradativamente é “qualificada” enquanto corolário da política autoritária da gestão Marchezan, descendente da ditadura, com benefícios adicionais, com aumento de atribuições, e com todo o esforço de legitimação com o encaminhamento à Câmara da lei “anti-vandalismo”. De outra parte, outro elemento presente, foi a característica atuação de integrantes do MBL, com intimidações, com as manipulações de noções de senso comum, com toda sorte de produção e veiculação de falsas e distorcidas notícias.

    Com uma greve forte e com adesão em alguns setores crescendo, as ações incisivas contra o governo combinadas com as ações da Câmara arrancaram uma mesa de negociação, algo que alguns julgavam impossível antes e durante a greve. Sem dúvida, estaria aí uma das grandes vitórias da greve dos municipários de Porto Alegre, ao tomar consciência de sua imensa força e da ruptura das noções mais frágeis como a posição imbatível de Marchezan Jr. A posição de recuo relativo do governo, no entanto, não resultou, naquele momento, na consecução da consigna do movimento grevista “Retira os Pls”. Isso, de fato, ocorreu quando, diante do intenso trabalho de luta dos municipários, foi solicitado por uma parcela de vereadores a colocação em regime de urgência o PL que tratava da carreira da categoria, o PL11, para que então fosse efetivamente retirado de tramitação. Marchezan Jr, prevendo a derrota do projeto na Câmara, decide retirar o projeto. Mais uma vez, decisiva é a vitória da categoria que novamente rompe com a ideia de que o governo jamais retiraria qualquer projeto.

    Na sequência, na esteira da retirada do projeto, 22 vereadores firmam documento no qual se posicionam contra os demais projetos de lei que tramitam na Câmara. Em que pese o ceticismo da permanência da posição de determinados vereadores em outras conjunturas, não resta dúvida que todas as conquistas resultaram da força da categoria mobilizada e organizada em greve.

    Sem dúvida, também ficou demonstrado ao governo que se ele for atacar os trabalhadores e o serviço público, não conseguirá governar. A vitória é relativa, sabe-se disso, pois o governo não sentou para negociar os dias parados ou o parcelamento dos salários da categoria. Contudo, o ingresso no estado de greve deve ter um significado todo especial de alerta ao governo: que amplos setores que já vinham se organizando e se erguendo, como os trabalhadores da Saúde, como os trabalhadores do Dmae, como os da Educação, com destaque para as escolas organizadas regionalmente, como as “Escolas dos Altos do Partenon”, que busca resgatar o diálogo e a participação das comunidades periféricas e uma atuação mais unitária, e outros, continuam firmes na luta e de prontidão para a mobilização.

    Da mesma forma, tal condição de luta deve ter o sentido de que a categoria continuará sua mobilização nos locais de trabalho, continuará o diálogo com a população local e com as articulações táticas na Câmara, mas fundamentalmente seguirá com o contundente e sistemático afronte ao governo Marchezan Jr.

    Em tempos de ataques em todos os níveis aos trabalhadores, reforma trabalhista, privatizações, reforma previdenciária, descaracterização da lei que proíbe trabalho escravo, corte de recursos na educação e saúde, a vitória dos servidores municipais de Porto Alegre é mais que uma alento, é a demonstração de que os trabalhadores organizados e mobilizados podem obter vitórias.

  • VÍDEO | Servidores da Saúde e docentes a UERN estão em greve, no Rio Grande do Norte

    Por: Rielda Alves, de Natal, RN

    Iniciou, nesta segunda-feira (13), a greve dos servidores da saúde do Rio Grande do Norte. O dia foi marcado por ato unificado junto aos servidores do ITEP e docentes da UERN, que estão em greve desde o dia 10 de novembro. Durante todo o dia, os servidores tentaram uma negociação com o governo, que os recebeu com muita truculência. A segurança da Governadoria utilizou spray de pimenta para tentar dispersar os que ali estavam. Apesar disso, os servidores seguiram firmes e mantiveram o ato.

    A principal reivindicação dos servidores é o pagamento dos salários atrasados e a retirada do “pacote de maldades” do governo, que ataca e precariza ainda mais as condições de trabalho do funcionalismo estadual.

    Até o momento, o governo não apresentou proposta de negociação às categorias, que resolveram instalar acampamento na sede da Governadoria.

    O Esquerda Online conversou com Luana Paola, da direção da ADUERN, e com Simone Dutra, diretora do Sindsaúde para entender mais sobre o movimento. Assistam no vídeo:

  • Reunião Nacional de Entidades Classistas, Movimentos Sociais e Estudantis convocada pelo Andes-SN reúne ativistas, no Rio

    Por: Raquel Dias, diretora da Regional NE1 do ANDES e militante do MAIS Ceará

    O ANDES-SN realizou uma reunião para discutir a reorganização da classe, no Último dia 11 de novembro, no Rio de Janeiro, da qual participaram organizações políticas, entidades sindicais, do movimento popular e estudantil. O Sindicato Nacional apresentou a proposta de realização dessa reunião no III Congresso da CSP Conlutas, tendo sido aprovada por ampla maioria de delegados e delegadas.

    Na parte da manhã, participaram da mesa as organizações políticas e partidos, a saber, MAIS – Movimento por uma Alternativa Independente e Socialista, NOS – Nova Organização Socialista, MES – Movimento de Esquerda Socialista, PCB e PSTU. À tarde, a mesa foi composta por representantes dos movimentos popular e estudantil e das centrais sindicais, contando com a presença da CSP Conlutas, da Intersindical, do MTST, da Esquerda da UNE e da ANEL.

    Mauro Puerro, do MAIS, que participou da mesa da manhã, situou a reorganização da classe, principalmente nesse último período, após o golpe parlamentar que destituiu Dilma e colocou Temer em seu lugar. Chamou a atenção para uma análise da realidade que considere que Dilma caiu não pela ação das massas e que, a partir de sua queda, aprofundou-se a situação defensiva da classe trabalhadora que, mesmo lutando, não se colocou ainda à altura de derrotar Temer e as reformas.

    Nesse processo, é fundamental observar que a reorganização é disputada também pelos setores ex-governistas, como PT, PCdoB, CUT, entre outros, segundo pontuou Puerro. Ou seja, é preciso partir do ponto de que o PT e Dilma não governam mais, que Temer é o presidente golpista e que a reorganização passa por dentro e por fora da CSP-Conlutas, apontada por diversos participantes e destacada por Mauro Puerro (MAIS) como o pólo mais dinâmico da reorganização à esquerda da CUT e do PT e, por isso mesmo, chamada a assumir o papel de protagonista desse processo iniciado pelo ANDES-SN.

    Essa reunião revestiu-se da maior importância nesse momento em que estamos vivendo, marcado por uma conjuntura de profundos ataques à classe, que impõe a mais ampla unidade dos lutadores e das lutadoras do nosso país. Nesse marco, debater a reorganização da classe com objetivo de ir construindo um campo alternativo à experiência de conciliação de classes e do lulopetismo e, ao mesmo tempo, combater o avanço da direita e da extrema-direita coloca-se como uma tarefa urgente. Para tanto, é preciso romper com o sectarismo, a autoproclamação e reconhecer que não podemos realizar essa tarefa sozinhos.

    A reunião, que contou com a participação de ativistas de várias organizações e entidades e de movimentos sociais para além daqueles representados na mesa, apresentou como síntese a proposta de seguir o debate sobre a reorganização, na forma de seminários locais e nacionais, para avançar na unificação das lutadoras e dos lutadores. Proposta necessária e urgente!

    Assista no vídeo, a entrevista do Esquerda Online com Mauro Puerro

  • Saiba por que os trabalhadores da EBC estão em greve

    Trabalhadores iniciaram movimento nesta terça-feira (14)

    Da Redação

    Congelamento dos salários, retirada de direitos, corte de benefícios do Acordo Coletivo de Trabalho 2017/2018. Esses são alguns motivos pelos quais os trabalhadores da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) cruzaram os braços a partir das 0h desta terça-feira (14), por tempo indeterminado. Movimento também denuncia a política do governo Temer de sucatear a empresa e retirá-la, cada vez mais, do controle da sociedade. Decisão da categoria aconteceu na última sexta-feira (10), em assembleia nacional com a presença de quase 300 pessoas, representantes dos estados do Maranhão, Rio de Janeiro, São Paulo e de Brasília.

    Reivindicações
    Esse é o terceiro movimento grevista dos trabalhadores da EBC, que já paralisaram as atividades nos anos de 2013 e 2015. Esse ano, após oito rodadas de negociação com a empresa, que se nega a negociar sobre as cláusulas econômicas e defende proposta de 0% de aumento nos salários e em benefícios, decidiram novamente por optar pelo movimento paredista. A categoria reivindica 4% de reajuste como reposição da inflação e perdas acumuladas. Outros direitos também estão sendo atacados.

    A EBC é responsável pela TV Brasil, TV Brasil Internacional, Agência Brasil, Portal EBC, Radioagência Nacional, além de oito emissoras de rádio, como as Rádios Nacional do Rio de Janeiro e de Brasília e as Rádios MEC AM e FM. Opera também serviços como o canal de televisão NBr e o programa de rádio “Voz do Brasil”.

    Leia a íntegra da carta dos funcionários da EBC

    POR QUE DECIDIMOS PELA GREVE

    Na última assembleia, os trabalhadores da EBC decidiram pela greve a partir desta terça-feira! O importante agora é estarmos todos juntos lutando por nossos direitos.

    Mas quais os motivos da greve?

    – Após oito reuniões de negociação, a EBC não apresentou nenhuma proposta econômica e ainda deseja retirar direitos já previstos no nosso ACT.
    – A EBC deseja congelar os salários, prevendo reajuste zero para todas as cláusulas econômicas: salário, tickets, auxílio creche e auxílio pessoas com deficiência.
    – A direção da empresa ainda deseja acabar com os dois tickets extras, com vale cultura e com a multa de descumprimento do ACT. – Os tickets extra, diga-se de passagem, foram conquistas de greves passadas em que o aumento no salário foram trocados por eles. O que significa que estamos PERDENDO conquistas lutas anteriores. Também importante ressaltar que essas perdas são referentes a um salário a menos por ano dos profissionais de nível médio.
    – A EBC ainda quer retirar direitos nas cláusulas relativas ao transporte, anuênio/quinquênios (para quem ingressar na empresa a partir deste ano), verbas rescisórias e homologações.
    – A empresa ainda não aceitou propostas apresentadas pela assembleia sobre a gratificação de função, férias, intrajornada e contribuição assistencial.
    – A EBC ainda rejeitou todas as novas cláusulas dos trabalhadores, como preservação do quadro, direito de consciência, controle de frequência, mesa permanente, redução de jornada.
    – Enquanto que os empregados recuaram em 17 propostas, mantendo o texto do ACT atual, a direção da EBC só aceitou recuar em 3 propostas na última mesa.
    – Contra as perseguições, censuras, ameaças implementadas pela direção da EBC no último ano! Em defesa da comunicação pública!

    A intransigência da EBC na mesa de negociação, sem apresentar nenhuma proposta concreta, levou os trabalhadores a decidirem cruzar os braços em defesa dos seus direitos!

    Juntos mostraremos nossa força!
    🤜🏽NESTA TERÇA (14), GREVE GERAL NA EBC!

  • Frente Sindical realiza formação política nesta quinta-feira, em Santos

    Por: Leandro Olimpio, de Santos, SP

    Mergulhado em uma profunda crise, o Brasil abriga hoje quase 13 milhões de desempregados. Se não bastasse isso, diariamente novas medidas econômicas exigem ainda mais sacrifícios da população: aumento na conta de luz, gás de cozinha mais caro, redução salarial em diversos segmentos para quem ainda segue no mercado de trabalho. E se por um lado as pesquisas apontam que Michel Temer é o presidente com a maior rejeição da história (apenas 3,4% avaliam seu governo como positivo), por outro essa reprovação não tem se concretizado em mobilizações populares.

    Para tentar compreender este cenário complexo, cheio de contradições e desafios, e buscar formas de atuar nessa realidade, a Frente Sindical Classista da Baixada Santista realiza nesta quinta-feira (16), em Santos, uma formação política aberta ao público. O evento acontece na sede do Sindipetro Litoral Paulista (Av. Conselheiro Nébias, 248), às 19 horas, e inaugura um calendário de análise da conjuntura política brasileira que deve se estender pelos próximos meses.

    “Inicialmente, esta atividade seria restrita às direções sindicais que compõem a Frente. Refletindo melhor, decidimos convidar setores da sociedade da região para compartilhar esse momento de aprendizado e de preparação para a luta”, explica Flávio Saraiva, presidente do Sindicato dos Servidores de Santos.

    A atividade será conduzida por Mauro Iasi, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Além da longa trajetória acadêmica, Iasi também se dedica há mais de vinte anos à militância prática e teórica em educação popular, sendo também dirigente sindical, escritor e poeta, com livros publicados pela editora Boitempo.

    “É nítida a impopularidade de Temer. Mesmo com toda campanha publicitária governamental em favor das reformas trabalhista e previdenciária, por exemplo, a maioria dos trabalhadores segue contra essas medidas. Eles sentem na pele os efeitos de uma política econômica que exige sacrifícios da maioria da população para beneficiar os grandes empresários. Fazer com que essa oposição se transforme em força de ação popular é o desafio dos setores mais conscientes da população, dos setores sindicais combativos. Essa atividade é parte desta tarefa. Quem compreende melhor a realidade, pode lutar melhor”, opina Iasi.

    Em seu convite aberto para a atividade, a Frente Sindical afirma que “as novas gerações são empurradas em direção ao futuro sombrio. Além da destruição das empresas públicas, as já limitadas políticas de proteção social estão se tornando parte das lembranças relacionadas ao passado”.

    Segundo Saraiva, a Frente reúne sindicatos e oposições sindicais da região combativos. “São entidades e ativistas que não se venderam, que não fazem o jogo dos patrões e governos. Sabemos que existe um sentimento de apatia na população, uma dificuldade de retomar processos de luta que questionem essas medidas. Todas elas tomadas sem qualquer consulta à população, diga-se de passagem. Mas sabemos também que existe no próprio movimento sindical setores que se recusam a cumprir o seu papel, o de mobilizar os trabalhadores em defesa de seus interesses”, afirma.

    Integram a Frente os sindicatos dos servidores de Santos, petroleiros, metalúrgicos, advogados, bancários, judiciário estadual e federal, servidores federais da edução, além das oposições sindicais de servidores de Cubatão e São Vicente.

    Crédito para foto: Romerito Pontes

  • 10 de Novembro: dia nacional de lutas em São Caetano do Sul

    Por Michelle Dias Forão, MAIS ABCh

    O dia 10 de novembro foi marcado por inúmeros protestos, passeatas, barricadas e atos dos/as trabalhadores/as das fábricas, servidores/as públicos, trabalhadores Não desempregados, movimentos populares e de moradia.

    Sem dúvida, o Dia Nacional de Lutas retoma o fôlego para seguirmos firmes contra os ataques perversos deste governo ilegítimo e seus aliados. Lutas significativas tem travado resistência pelo país. A Ocupação do Povo Sem Medo em São Bernardo do Campo – ABC Paulista é um dos setores de maior resistência da nossa classe. Essa existência e resistência diária tem gerado frutos em outras regiões do ABC.

    O MORASUL – Movimento de Moradia Popular São Caetano do Sul localizado no Bairro Prosperidade, um dos bairros mais pauperizados e esquecidos por todos os governos da cidade no que tange as necessidades da população local. A caracterização do bairro se resume em dois polos – a pobreza e a grandes indústrias geradoras de recursos exorbitantes para o cofre público.

    A iniciativa da Juventude Por Mais Direitos coletando demandas e extratos da realidade dos/as moradores/as da prosperidade fez retomar a luta pelo direito à moradia que há anos não se tratava. Há três meses, o MORASUL tem se organizado sistematicamente e no dia 10 de novembro somaram com as demais lutas que se colocam contrários a retiradas de direitos. O ato contou com a participação de 50 moradores que se dirigiram até à Câmara Municipal no Centro, travando à principal avenida da cidade na luta pelo direito à melhores condições de vida e por moradias.

    Abaixo segue o vídeo de um dos integrantes do MORASUL, o ativista Lucas dando o recado!

  • Justiça baiana autoriza uso de força policial contra o Sindiquimica

    Por Matheus Quadros, de Camaçari,BA

    Nesta quinta (9), a justiça baiana concedeu salvo conduto para a utilização de forca policial contra o sindicato dos trabalhadores do ramo químico (Sindiquimica) caso este se envolva nas manifestações desta sexta (10), dia nacional de paralisação.

    A decisão atende a um pedido de habeas corpus preventivo impetrado pelo sindicato patronal (SINPEQ), que representa as indústrias químicas de Camaçari e região, mas que fez o pedido em nome dos trabalhadores do setor.

    A decisão arbitrária impede a ação do sindicato para garantir o direito de greve e manifestação dos trabalhadores que se quiserem parar terão que fazer por iniciativa própria sem seus representantes legais.

    Em resposta, o Sindiquimica antecipou as mobilizações na base da categoria ainda para a noite de quinta (9).

    Vivemos um momento delicado no país, de muitos ataques a direitos históricos dos trabalhadores, e a criminalização da ação do sindicato é mais um duro ataque, por isso é importante prestar solidariedade aos companheiros e garantir que o dia 10 de novembro represente de verdade nosso repúdio à esta reforma trabalhista.

  • Trabalhadores municipais do SUAS em São Luís, deliberam participação da Paralisação Nacional do dia 10 de Novembro

    Por Ana Raíssa Mendes, Assistente Social e militante do Mais e Jheny Maia, Estudante de Serviço Social e militante do Mais.

    Os trabalhadores do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) de São Luís aderiram a participação da greve geral nacional do dia 10 de novembro. Esta decisão foi resultante de reunião convocada pelo Fórum Municipal dos Trabalhadores do SUAS (FMTSUAS) de São Luís, com a participação dos servidores, de entidades de organização dos trabalhadores, de estudantes e de usuários da política de assistência social. A principal motivação é o corte orçamentário gigantesco proposto pelo governo Temer para esta política.

    Em nota, o FMTSUAS informa que os trabalhadores municipais da assistência social vão parar os 20 Centros de Referência de Assistência Social – CRAS e 5 Centros de Referência Especializada de Assistência Social – CREAS da cidade. Além da paralisação no turno da manhã, a categoria também assinalou a participação em massa em audiência pública proposta para a mesma data. Os serviços essenciais de alta complexidade serão mantidos, enviando apenas representantes para as atividades.

    Tal decisão é importante vinda dos trabalhadores que, neste momento de profunda retirada de direitos, compreendem os reflexos perversos da ofensiva neoliberal do governo Temer para o desmantelamento da Assistência Social, tanto para a categoria, como para os usuários dos serviços e programas que compõe o SUAS.  O governo prevê um corte orçamentário de 98% para o SUAS no ano de 2018. O Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS) havia aprovado uma Proposta de Orçamento de 52 bilhões de reais para o próximo período (Resolução 12/2017), porém, o Ministério do Planejamento lançou em sua última proposta um valor bem abaixo, inclusive de seu limite que seria de 900 milhões, sendo então de apenas R$78 milhões, valor completamente insuficiente para abarcar toda uma política social que vem atendendo a população em situação de vulnerabilidade social e pobreza.  O anúncio do corte veio através da Secretaria Nacional de Assistência Social (SNAS), durante reunião da Comissão de Intergestores Tripartite (CIT).

    Os impactos desse ajuste perverso recairão sobre os brasileiros mais pobres, e que por motivos relacionados, principalmente, ao desenvolvimento excludente do país e à corrupção, já não possuem acesso de forma eficiente às demais políticas públicas como saúde e educação. Este ataque implicará na descontinuidade de serviços que atendem crianças, adolescentes, mulheres, LGBT’s e pessoas com deficiências, que são o público prioritário dessa política, bem como na prevenção e acompanhamento em situações de risco, e impactos duríssimos no Programa Bolsa Família (que atende a 13 milhões de famílias).

    Diante disso, entidades e movimentos nacionais iniciaram uma articulação contra esse ataque, como o Conselho Federal de Serviço Social (CFESS), a Frente Nacional em Defesa do SUAS e da Seguridade Social, entre outros. Na capital maranhense, conformou-se uma Frente em Defesa do SUAS, composta inicialmente pelo Fórum Municipal dos Trabalhadores do SUAS (FMTSUAS), Conselho Regional de Psicologia (CRP), Conselho Regional de Serviço Social CRESS, Sindicato dos Assistentes Sociais do Estado do Maranhão (SASEMA), Conselho Municipal de Assistência Social (CMAS), Conselho Estadual de Assistência Social (CEAS), Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social (SEDES), Secretaria Municipal da Crianças e Assistência Social (SEMCAS), e Colegiado Estadual de Gestores Municipais de Assistência Sociais.

    Uma comissão que daria início a esta frente vem organizando desde setembro, rodas de diálogo com a temática da defesa do SUAS, momentos em que o debate se aprofundou, e onde mais entidades e movimentos se integraram a frente, como a Associação dos Professores da UFMA (APRUMA – Seção do ANDES), Centros Acadêmicos de Serviço Social da UFMA e Pitágoras, Fórum Estadual dos Usuários do SUAS, Fórum Estadual das Pessoas com Deficiência, coordenações dos curso de serviço social do IESF, FACAM, UNICEUMA, UFMA e Pitágoras, Movimento por uma Alternativa Independente e Socialista ( MAIS – São Luís), entre outros.

    A culminância dessas rodas de diálogo foi o ato público, realizado no dia 31 de outubro, no momento em que ocorria a Conferência Estadual de Assistência Social (Maranhão). Com a participação dos representantes dos usuários, dos profissionais e da sociedade civil representando os diversos municípios maranhenses, juntamente com outras entidades já relacionadas. Um vitorioso ato, que ocupou as duas pistas da Avenida dos Holandeses, uma das maiores da cidade, e chamou a atenção das pessoas que passavam, a partir das falas das entidades, bem como da animação e coragem dos envolvidos na manifestação, que fortemente gritavam palavras de ordem como “É ou não é palhaçada nacional, cortar o orçamento da assistência social”, “Fora Temer” entre outras.

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

    Em conversa com a assistente social Luciana Azevedo, trabalhadora do SUAS e integrante da Frente Em Defesa do SUAS, foi avaliado que os próximos passos dessa luta, a nível regional, perpassa pela mobilização e participação do dia 10 de novembro:

    “Localmente entendemos que precisamos centrar forças no dia 10 (de novembro), enquanto pólo aglutinador em defesa dos direitos sociais, sobretudo, porque a maior parte da bancada maranhense em Brasília (à exceção dos Deputados Weverton Rocha e Zé Carlos) vota apenas com Michel Temer, ou seja, totalmente alheia àquilo que o grosso da população reivindica. Nacionalmente, sabemos que a há um movimento de gestores tentando em Brasília garantir um orçamento maior que 3%, mas está muito tímido. A verdade é que a política de assistência social historicamente foi utilizada como mecanismo de promoção política dos próprios gestores, que pouco ou nada fizeram para que o cidadão compreendesse que essa política é um direito garantido na Constituição Federal e regulamentado pela Lei Orgânica da Assistência Social. E agora o feitiço vira-se contra o feiticeiro, pois sem recursos não há como tais gestores executarem aquilo que a Lei exige e que o judiciário vem cobrando deles sob pena de responderem por improbidade administrativa.”

    E complementa:

    “Então o fato de se utilizarem da política de assistência social para se elegerem, como se esta fosse uma benesse, e o próprio conservadorismo presente no discurso senso comum divulgado pela mídia, respondem pelo fato de o cidadão que se utiliza dessa política sentir-se muitas vezes numa condição de não direito, em que reivindicar a permanência de tais serviços seria querer gozar de privilégios. Por isso, a tímida participação popular nessa luta. O grande desafio da Frente em Defesa do SUAS é trazer para o centro dessa luta, além do trabalhador do SUAS, o cidadão que tem direito aos serviços oferecidos por essa política. E não vejo que seja esse o objetivo da maioria dos gestores, imbuídos do interesse em participação social apenas garantir o orçamento.”

    Já sobre a percepção da população acerca desta importante luta, a ativista explica:

    “Ademais o discurso de corte no orçamento do SUAS não sensibiliza o grosso da opinião pública que assiste a Globo, por exemplo. Porque vai ao encontro do discurso da classe média de que o pobre não quer trabalha porque recebe o Bolsa Família. Sabemos que é um discurso falacioso e que fortalece inclusive o trabalho escravo, mas veio no bojo do conservadorismo que reacende fortemente na sociedade e repassa para os setores mais vulneráveis os custos da crise, restringindo no SUAS o teto de gastos, enquanto Michel Temer perdoa dívidas do grande capital.”

    E continua sobre as tarefas da Frente em defesa do SUAS:

    “Vejo que a grande tarefa está nas mãos dos trabalhadores do SUAS em fortalecer a luta coletiva, tencionar as audiências públicas que ocorrem nos municípios e romper com a lógica do favor para fazer chegar à ponta (ao cidadão usuário da política de assistência) a realidade do SUAS hoje. Só fortalecendo esse cidadão e sua participação é possível pensar num grau de consciência que gere luta. Para isso, penso que as rodas de diálogos são estratégias a serem utilizadas nos trabalhos realizados em CRAS, CREAS, serviços de convivência e demais serviços.”

    Entendemos que a luta em defesa do SUAS perpassa pela luta contra o governo Temer e suas contra-reformas. Nenhuma demanda hoje conseguirá vitórias de forma isolada e fragmentada. Os cortes na Assistência Social é parte da série de medidas de desmonte da Seguridade Social, que Temer vem adotando desde o inicio do seu governo ilegítimo, sob a falácia do déficit no orçamento público e mais especificamente na previdência. Enquanto isso, o governo aumenta a isenção fiscal para o empresariado e perdoa as dívidas gigantescas, que já retiram mais de 400 bilhões dos cofres públicos.  

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

    A reforma ministerial, que incorpora a Previdência Social ao Ministério da Fazenda e o INSS ao Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário, a PEC 241 que congela os gastos públicos, atingindo fortemente as políticas de Saúde e Assistência social, os cortes na Saúde e agora na Assistência Social, expressam uma ameaça ao tripé Saúde-Assistência-Previdência. É isto que está em jogo, o fim da Seguridade Social e de tantos outros direitos básicos dos trabalhadores, para garantir os lucros dos banqueiros e empresários. Não á toa que os próximos passos do governo é tentar aprovar a todo custo e o mais rápido possível a Reforma da Previdência. Para isso, já se fala na antecipação da reforma ministerial prevista para Abril de 2018, podendo ficar para Janeiro ou para logo após o feriado do dia 15 de Novembro. Não podemos perder tempo, essa reforma é parte das “negociações” entre os partidos que formam o bloco “centrão” e o governo, para garantir a votação da Reforma da Previdência. Não podemos permitir!

    É preciso toda unidade possível para combater estes retrocessos aos direitos da classe trabalhadora. A Frente em defesa do SUAS é parte aliada disso e precisa extrapolar os profissionais que trabalham com a política, tem que ser um movimento capaz de aglutinar diversos setores e estar articulado com as demais formas de resistência que estão sendo mobilizadas. O dia 10 de Novembro – Dia Nacional de paralisações é um passo importante nesse sentido, mas apenas o primeiro.

     

  • Produtivismo – A violência institucional que pode adoecer, matar e até levar ao suicídio docente

    Por Murilo Bereta

    Especialistas afirmam que a melhor forma de prevenção ao comportamento suicida é ampliar o debate qualificado na sociedade. Tema ainda é considerado um tabu

    O recente suicídio de um doutorando da USP, dentro do laboratório em que trabalhava no Instituto de Ciências Biomédicas, trouxe à tona questões que, embora frequentes, são pouco discutidas. Problemas vividos no dia a dia dos docentes e pesquisadores das universidades públicas, como precárias condições de trabalho, adoecimento do trabalhador e até o tabu do suicídio necessitam ser debatidos junto à sociedade. A discussão qualificada do problema é considerada um caminho à prevenção.

    Excesso de carga horária, falta de infraestrutura adequada, pressão para cumprir prazos, ambientes insalubres, assédios morais e sexuais, baixa remuneração, entre outros, são problemas a que professores estão expostos cotidianamente. Quando o foco são os docentes da educação pública superior, soma-se a questão da imposição do produtivismo acadêmico, fruto sobretudo das políticas desumanas dos órgãos responsáveis pelos financiamentos das pesquisas. Dois desses exemplos são o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

    A grave questão ganha contornos trágicos quando inserida no atual contexto político, em que medidas neoliberais, empregadas pelo governo de Michel Temer, como as reformas trabalhistas, da previdência e a Lei das Terceirizações, cortam direitos trabalhistas e sociais. Diante do cenário amplamente desfavorável, torna-se de fácil compreensão a análise da Organização Internacional do Trabalho, a qual identifica a profissão de professor como a segunda com a maior probabilidade a desenvolver doenças.

     

     

     

     

     

     

    Produtivismo

    Pesquisa divulgada pelo ANDES-SN e pela Associação dos Docentes da Universidade Federal do Pará (Adufpa), de 2014, evidenciou que condições de trabalho adversas, oriundas da imposição do produtivismo acadêmico, podem levar docentes ao adoecimento mental. De 2006 a 2010, de todas as solicitações de afastamentos de professores do trabalho na Ufpa, 14,13% foram por questões relacionadas à saúde mental. A pesquisa “Trabalho Docente e Saúde: Tensões da Educação Superior” foi coordenada pelo médico e professor Jadir Campos (Ufpa).

    Com atuação na área da saúde há 34 anos, o pesquisador João Fernando Marcolan, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) analisa que a competição instalada entre docentes pelo sistema produtivista, imposta por Capes e CNPq, é motor para o sofrimento psíquico. Além disso, leva a sentimentos de inferioridade, incapacidade e incompetência. “O sistema é perverso, pois não há verbas para todos, determinados grupos de pesquisa ficam com boa parte das verbas, não há isonomia de tratamento para as diferentes regiões brasileiras e suas necessidades específicas, o mérito é muito subjetivo por parte do avaliador, há interesses políticos-ideológicos em escolhas. Enfim, caso o docente não perceba as engrenagens do sistema ainda toma para si a culpa de não ter obtido sucesso em sua aventura de não perecer. Caso saiba das engrenagens, resta o sentimento de impotência e frustração”, afirma Marcolan.

    As consequências do produtivismo na saúde do docente são ainda mais impactantes em quem atua na pós-graduação. Essa é uma das análises do artigo científico “Professores do ensino público superior: produtividade, produtivismo e adoecimento”, publicado em 2013, pela Univ. Psychol, de Bogotá, Colombia. De autoria de Izabel Cristina Borsoi (Universidade Federal do Espírito Santo) e Flavilio Pereira (Instituto Ideias Vitória), o trabalho teve como base uma pesquisa realizada, entre 2009 e 2010, com docentes da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

    De acordo com a pesquisa da Ufes, dos 80 docentes que informaram ter procurado ajuda médica e/ou psicológica, 62,5% pertenciam a programas de pós-graduação. Mais de 80% também informaram sofrer de enxaqueca, cistite e crises gástricas.

    O artigo de Bolsoi e Pereira explicita o papel que o docente foi obrigado a assumir diante do processo produtivista. “O professor passou a assumir um leque de tarefas não só qualitativamente distintas, mas também, e principalmente, impactantes em termos quantitativos. É essa nova dimensão do trabalho que faz com que o docente não consiga estabelecer limites para sua jornada de trabalho, sendo forçado a invadir o tempo da vida privada com demandas laborais” (página 1216).

     

     

     

     

     

     

     

    Sucateamento

    Para a diretora da ADUNEB e do ANDES-SN, Caroline Lima, parcela dos docentes se tornam reféns das imposições das agências de fomento, devido às políticas estaduais e federal de sucateamento das universidades públicas. Sem orçamento e recursos para custeio e investimento, as administrações das instituições de ensino superior delegam aos docentes a tarefa de captar recursos a suas pesquisas e laboratórios. A excelência profissional se atrelou à publicação, como se o trabalho intelectual fosse um produto resultado de um trabalho em série, sem reflexão, só tecnicista. A atividade docente dentro do capitalismo não deixa espaço para o lazer.

    Caroline Lima reforça a denúncia sobre o problema da competitividade gerada pela falta de orçamento e a necessidade do produtivismo. O processo de competição vem como consequência da mercantilização do trabalho docente. A educação foi transformada em mercadoria, a produção intelectual em produto, em resultado. “Com o novo marco legal da ciência e tecnologia, a produção intelectual tornou-se mercadoria. Isso acirra as relações de poder dentro das universidades. Precisamos fomentar espaços de sociabilidade para a categoria e também a solidariedade entre nós, assim poderemos vencer o clima de disputa que tanto prejudica a luta de classes”, comenta a diretora.

    Burnout

    A síndrome de Burnout é caracterizada pelos especialistas ouvidos pela reportagem como uma das principais doenças que surgem como consequência do produtivismo. O problema acontece principalmente a partir do esgotamento profissional, da tensão no ambiente de trabalho e estresse crônico. A síndrome tem como de seus principais efeitos a depressão.

     

     

     

     

     

     

     

     

     

    Suicídio

    Embora a questão traga incômodo à sociedade e ao universo acadêmico, casos mais graves de adoecimento docente e depressão podem levar o professor ao suicídio. A questão, embora seja tabu, segundo os especialistas, precisa ser discutida para que possa ser prevenida. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho, a depressão é o principal fator de risco associado ao comportamento suicida. O professor da Unifesp, João Marcolan, define por comportamento suicida “Ter ideias de se matar, planejamento para se matar, tentativas que não resultem na própria morte e o suicídio”.

    A reportagem não encontrou pesquisas específicas sobre o suicídio de docentes da educação pública superior. O pesquisador Marcolan, após afirmar também não conhecer pesquisas sobre o tema, alertou que a própria ausência de dados é um indicativo que o comportamento suicida ainda causa incômodo na sociedade brasileira. Para o professor, as informações ficam escondidas e subnotificadas em meio aos dados da população geral. “Percebe-se que o preconceito é ainda maior quando se trata dos estratos sociais não vulneráveis e considerados bem-sucedidos”, comentou.

    Para além da ausência das pesquisas que mensurem o problema, o fato é que o suicídio na categoria docente existe e pode ter índices assustadores de frequência. Um levantamento feito pela reportagem junto às associações docentes, das universidades estaduais baianas, evidenciou que, apenas nos últimos três anos, ocorreram quatro casos de suicídio de professores da Uneb e três na Uesb. Acredita-se que em algumas das ocorrências, o adoecimento que levou à morte, também possa ter sido agravado por preconceitos sociais, a exemplo da LGBTfobia.

    Em dados gerais, baseado no relatório da Organização Mundial de Saúde, o Brasil é apontado como o 8º país em incidência de suicídio no mundo, com mais de 11 mil registros anuais. No planeta todo, mais de um milhão de pessoas tiram a própria vida durante o ano, isso significa uma morte a cada 40 segundos.

    Isolamento

    O psicólogo e professor, formado pela USP, Samir Mortada, trabalha no Ifba de Salvador, local que em setembro deste ano outro docente também deu fim à própria vida. Mortada explica que o suicídio, geralmente, acontece devido a uma somatória de fatores, de problemas que, juntos, fazem com que a pessoa entenda que a única saída seja desistir da vida. Para o psicólogo, o conflito pessoal geralmente ainda tem como pano de fundo o isolamento social. Quando as pessoas não se sentem protegidas a partir das ações políticas, das ações organizadas e coletivas, a pressão recai mais forte sobre o indivíduo. Ele tenta lidar sozinho com os problemas e, portanto, geralmente de uma maneira mais frágil. O resultado é que dentro da complexa sociedade atual os indivíduos estão cada vez mais isolados, mesmo dentro de casa se isolam em seus celulares, computadores, em si mesmos. Assim, os vínculos interpessoais são enfraquecidos. Nesse modelo, partilhar tristezas, problemas é algo cada vez mais difícil. “Quem sofre o problema, a depressão, vê como fraqueza pessoal, não quer incomodar. A tristeza não é bem vista publicamente. Pensar a tristeza é algo desvalorizado do ponto de vista social, então, se vive o problema sozinho. Com a piora das condições de trabalho, isso se torna mais um fator agravante”, comenta Samir Mortada.

     

     

     

     

     

     

     

    Preconceito

    Como já citado na reportagem pelo psicólogo do Ifba, o processo de adoecimento que resulta em comportamento suicida, geralmente, é multifatorial. Assim, além dos problemas profissionais, outras questões ainda agravam o quadro. Nesse cenário, é comum que pessoas pertencentes a grupos minoritários e oprimidos, a exemplo de LGBTs, negras e mulheres, sejam ainda mais prejudicadas.

    Caroline Lima, que além de diretora da ADUNEB é historiadora, defende a tese de que o preconceito, também dentro da academia, seja um forte agravante de quadros de comportamento suicida. Com base no processo histórico, ela explica que a universidade brasileira não foi pensada para as minorias. No século XIX, as faculdades eram formadas apenas por homens, brancos e filhos da elite. A homossexualidade foi tratada como doença até a década de 1990, e como crime até o início do século XX. Tais questões, que precisam ser combatidas, estão até hoje enraizadas na academia e são levadas à frente por grupos conservadores. “Enquanto não reconhecermos que assédios, LGBTfobia, machismo, racismo e sexismo matam, assim como a exploração do trabalho, vamos continuar assistindo colegas tirarem a própria vida por não suportarem mais sentir a dor causada pelo preconceito”.  

    Prevenção

    Quanto à prevenção ao adoecimento docente e todas as suas possíveis consequências, de acordo com os entrevistados, é necessário caminhar por dois campos distintos. O primeiro ponto, defendido tanto por Marcolan (Unifesp) quanto por Mortada (Ifba), é a ampla discussão do problema, de maneira qualificada e adequada na sociedade; a criação e ampliação de espaços de escuta para o suporte social aos indivíduos em risco; a formação de agentes sociais (professores, religiosos, líderes comunitários etc) para atuarem na prevenção e qualificação dos profissionais da saúde para atendimento desses casos; além da prática da vida saudável, prezando por alimentação, descanso, recreação, atividades físicas etc.

    Já o segundo campo diz respeito à atuação política. Para a diretora da ADUNEB, culturalmente a prática docente foi constituída como a profissão do cuidado, responsável pela formação dos sujeitos. Esses elementos culturais criaram no imaginário que ser professor é ser intelectual, mas não um trabalhador. Diante disso, é necessário investir em espaços de formação política para apontar os problemas presentes na universidade e nas condições de trabalho. Segundo Caroline, a ADUNEB atua na formação crítica da categoria, destaca como a lógica produtivista sobrecarrega a categoria e com isso o processo de adoecimento. Duas das ações do sindicato são a organização de constantes debates e seminários, além da produção de cartilhas sobre assédio moral, combate as opressões e sobre a mercantilização da educação. A ampla distribuição desses materiais à categoria contribui no processo de formação política dos docentes e no avanço da consciência de classe.

     

     

     

     

     

     

     

    Quem procurar

    Para auxiliar casos de comportamento suicida, em Salvador, entre outros, dois espaços são indicados:

    Núcleo de Estudo e Prevenção ao Suicídio (NEPS) – atendem casos de pacientes que tentaram o suicídio e também de quem necessita de apoio preventivo. Os atendimentos são ambulatoriais, agendados com antecedência e não atendem casos de emergência. Contato para agendar consulta: (71) 3116-9440. Existe fila de espera.

    Centro de Valorização da Vida (CVV) – atendimento realizado por internet e telefone. O único custo é o da ligação local. Voluntários estão disponíveis 24h por dia para quem precisar conversar sobre os problemas enfrentados. Telefone: 141 / site https://www.cvv.org.br

     

    FONTE:

    Revista Javeriana http://revistas.javeriana.edu.co/index.php/revPsycho/article/viewFile/6499/5925

    ANDES-SN

    Adufpa

    Organização Mundial da Saúde https://nacoesunidas.org/oms-suicidio-e-responsavel-por-uma-morte-a-cada-40-segundos-no-mundo/

  • Dia 10 de novembro em São Paulo: um dia de lutas e resistência

    Por: Sirlene Maciel, da Executiva Estadual da CSP-Conlutas São Paulo

    Às vésperas da entrada em vigor das mudanças aprovadas pela Reforma Trabalhista, milhares de trabalhadores no país todo irão se mobilizar contra as medidas do governo Temer, que rasgam direitos históricos da CLT e passam por cima da Constituição Federal. O movimento, organizado pelo Brasil Metalúrgico e convocado pelas centrais sindicais CSP- Conlutas, Intersindical, CUT, CTB, CGTB, UGT, CSB, Força Sindical, incorporou também, na pauta, entre outras reivindicações, a luta contra a terceirização e a Reforma da Previdência, que deve voltar para a pauta do Congresso Nacional ainda neste ano.

    Em São Paulo, várias categorias irão atrasar a entrada, fazer atos e manifestações. É o caso dos bancários, em São Paulo, que vão paralisar a entrada de algumas agências pela manhã. Os metroviários, em protesto, vão trabalhar sem uniforme com adesivo contra as reformas. Já os previdenciários, farão reuniões nas agências. Haverá também paralisações em diversas fábricas nas regiões da cidade.

    Os professores municipais irão paralisar suas atividades e realizarão assembleia, às 10h, em frente à Prefeitura de São Paulo, para protocolar suas reivindicações contra o Sampaprev, a terceirização da educação e contra as reformas, e devem seguir em marcha para a Praça da Sé, onde encontrarão o Ato Nacional das Centrais Sindicais que está marcado para 10h, com caminhada até a Avenida Paulista. Neste ato, estarão presentes representantes de diversas categorias.

    Na parte da tarde, os trabalhadores do Judiciário Federal farão um ato na Avenida Paulista, às 14h, em frente ao Fórum Pedro Lessa. Já o funcionalismo público estadual, incorporou ao dia de luta a pauta específica que contempla o reajuste salarial, direito às negociações coletivas, contra o fim dos concursos públicos, não à privatização e à terceirização, em defesa do IAMSPE e, sobretudo, contra o PL 920/2017, que congela os salários, quinquênios e evoluções dos servidores.

    Neste sentido, está marcada uma concentração às 14h, em frente ao estádio do Morumbi, com caminhada até o Palácio dos Bandeirantes, para a entrega da pauta do funcionalismo público para o Governo do Estado de São Paulo. Estarão presentes as professoras e os professores estaduais que paralisarão neste dia, trabalhadoras e trabalhadores de diversas categorias como Centro Paula Souza, Sabesp, Judiciário Estadual, Saúde, entre outros.

    O dia 10 de novembro será um importante dia de luta em todo o país. Precisamos, cada vez mais, somar forças para derrotar Temer e seus aliados, que pretendem impor “goela abaixo” os planos de ajuste fiscal contra os trabalhadores. A unidade de toda a classe trabalhadora e dos sindicatos e centrais sindicais é o elemento que pode mudar essa situação de retiradas de direitos a toque de caixa. Queremos a revogação das reformas aprovadas: Reforma Trabalhista e Reforma do Ensino Médio, e da terceirização, além da não aprovação da Reforma da Previdência. Contra as reformas, não aceitaremos nenhum direito a menos. Vamos resistir!

    ATO NACIONAL DAS CENTRAIS

    10h, na Praça da Sé – caminhada até a Av. Paulista

    ATO PROFESSORES MUNICIPAIS

    10h, na Prefeitura de São Paulo, com caminhada até a Praça da Sé, para encontrar o Ato Nacional e ir para a Av. Paulista

    ATO DO JUDICIÁRIO FEDERAL

    14h, na Av. Paulista, em frente ao Fórum Pedro Lessa

    ATO DO FUNCIONALISMO PÚBLICO ESTADUAL

    14h, com concentração em frente ao estádio do Morumbi e caminhada até o Palácio dos Bandeirantes.