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  • Cinco coisas que Daciolo deveria saber sobre a América Latina

    A trapalhada do Cabo Daciolo (Patriota) no primeiro debate entre os presidenciáveis, na TV Bandeirantes, viralizou e foi um dos assuntos mais comentados nas redes sociais. No afã de parecer mais conservador e antiesquerda, Daciolo perguntou, em tom acusatório, o que Ciro Gomes (PDT) teria a dizer sobre um plano para criar a Ursal (União das Repúblicas Socialistas da América Latina). Parece que a intenção do Cabo era desmascarar um “esquerdista” sobre um plano diabólico prejudicial ao povo brasileiro. Nem Ciro Gomes é de esquerda e nem existe o tal plano Ursal. Virou piada.

    Mas o candidato, em sua vã filosofia e ódio à esquerda, trouxe à tona um debate histórico, sobre a integração dos povos da América Latina. Um tema estratégico e que tem seu nascimento nas lutas no continente pela independência dos colonizadores europeus.

    1 – Colonização foi feita com saque às riquezas, escravidão e massacre
    Como todos sabem, a expansão marítima e comercial levada a cabo pelos países ibéricos (Portugal e Espanha) no final do século XV, realizou-se com a perda de milhões de vidas e o extermínio completo de muitas civilizações indígenas. Esta expansão era um projeto consciente para impor e manter um sistema de colonização que garantisse que a riqueza do “Novo Continente” sustentasse as monarquias parasitárias do Velho Continente, ao mesmo tempo que a acumulação de capital também serviria para a posterior ascensão da nova classe burguesa. Assim se impôs, pela força da espada, o regime colonial de exploração e dominação, que transformou o que hoje conhecemos como América Latina, em meras colônias.

    Tão logo foram descobertas as minas de ouro e prata no Peru e no México, a Coroa espanhola começou a explorá-las, utilizando-se para isso da mão-de-obra indígena. A partir daí, foi organizado um vasto sistema de exploração econômica, que baseava-se na servidão e na escravidão. No Brasil o mecanismo não foi diferente, e contou com seis milhões de negros e negras escravizados e trazidos da África.

    Embora houvesse diferenças, as relações entre as metrópoles ibéricas e suas colônias americanas seguiam mais ou menos a mesma lógica: as colônias deveriam produzir mercadorias rentáveis no mercado europeu (principalmente gêneros agrícolas tropicais e metais preciosos) que seriam exportados para a metrópole e de lá reexportados para outros países; as colônias não poderiam fabricar produtos manufaturados, tendo que comprá-los da metrópole.

    2 – Povos indígenas resistiram e cercaram colonizadores
    Essa colonização enfrentou uma permanente resistência, com rebeliões indígenas contra os colonizadores, como a revolta de Tupac Amaru II, em 1870, iniciada com o cerco à antiga capital inca, a cidade de Cuzco, logo se expandindo pelas terras altas do Peru e chegando até o norte do atual território argentino. Tupac Amaru II foi preso e entregue aos espanhóis, acabou torturado e morto, em maio de 1781. Sua língua foi cortada, por recusar-se a revelar os nomes de seus aliados, e seu corpo, não tendo sido desmembrado após sofrer a força contrária de quatro cavalos puxando-o em direções distintas, acabou esquartejado por seus captores. Seus membros e sua cabeça foram enviados a diversas províncias, como lembrete do poder da Coroa espanhola e como forma de intimidação aos demais indígenas e mestiços insatisfeitos.

    Bartolina Sisa

    Bartolina Sisa

    De todas as rebeliões na América Latina, a que conheci seus impactos mais de perto e sua força simbólica até os dias atuais na consciência dos povos indígenas foi a rebelião liderada em março de 1781 pelo indígena Julián Apaza, mais conhecido pelo nome de Tupac Katari, e sua esposa e comandante Bartolina Sisa, que cercou a cidade de La Paz. Aqui um parêntese para esta mulher, Bartolina Sisa, que, aos 25 anos, comandou as tropas de indígenas que sitiaram La Paz por duas vezes no decorrer do ano, em um cerco contra os colonizadores espanhóis.

    Concentraram-se onde hoje se localiza a cidade boliviana de El Alto (mesmo local onde explodiu a revolta popular de outubro de 2003 que expulsou o governo do gringo Goni) e mantiveram o cerco por meses, até serem derrotados pelos reforços militares enviados pelo Vice-Reinado de Buenos Aires. O nome de Bartolina tornou-se exemplo de luta para as mulheres bolivianas.

    A crueldade de sua morte e de seu esposo entrou para a história, assim como sua valentia. Katari foi esquartejado e Bartolina foi levada nua pelas ruas de La Paz e torturada em 1782. Arrastada por cavalos pela praça central, sua língua foi arrancada para calar os gritos. Partes de seu corpo foram levadas a locais simbólicos de resistência indígena, para exibição pública. Além de Bartolina, há Gregoria Apaza, Micaela Bastidas (uma comandante indígena peruana brilhante!) e tantas outras que se levantaram contra a exploração e o jugo dos colonizadores.

    Mas, estas histórias são pouco conhecidas. Afinal, são apenas mulheres indígenas (o machismo desconfigura até os fatos). Os mais progressistas reconhecem o papel libertário de Simón Bolívar (1783-1830) e San Martín (1778-1850), e o ideal de Pátria Grande de Bolívar. Evidentemente, que o Cabo Daciolo, idealizador da URSAL, nem mesmo isso (re)conhece.

    3 – Simón Bolívar liderou a luta pela Pátria Grande, contra os opressores
    Bolívar foi o principal líder da independência da América do Sul espanhola. Seu nome está em monumentos de praticamente todos os países da América Latina e batizou até mesmo um país: a Bolívia. Nascido em Caracas, na Venezuela, e em uma família rica, teve acesso à educação mais avançada de seu tempo. Em sua temporada na Europa, testemunhou o sentido progressista da Revolução Francesa associado ao fim do Antigo Regime. De volta a Caracas, era um republicano, filho das oligarquias locais, mas apenas um crioulo. Ou seja, como eram chamados os descendentes de europeus que nasciam em países originários da colonização europeia e por isso não gozavam de todos os privilégios.

    Bolívar foi um revolucionário para sua época. Compreendeu a necessidade de ampliar as bases sociais da luta contra os colonizadores, e o fez. Compreendeu que era necessário uma revolução e a empreendeu. Libertou escravos e rompeu com o horizonte aristocrático e constituiu um exército de base popular. De muita capacidade política e habilidade militar, Bolívar conduziu seus homens a Nova Granada (atual Colômbia), e após alguns combates vitoriosos, entrou triunfante em Bogotá, em 1819. Assim foi fundada a República da Colômbia, que, originalmente, compreendia o território dos atuais estados de Venezuela, Colômbia, Panamá e Equador. A libertação da atual Venezuela seria um feito espetacular na batalha de Carabobo, dois anos depois. Não por acaso, Bolívar é o maior herói popular venezuelano.

    Vitoriosa a independência ao Norte, Bolívar deslocou-se rumo ao Peru e reuniu-se com o comandante da revolução do sul da América, o general San Martín, que em 1822 já havia tomado Lima e declarado a independência do país. Em seguida, Bolívar se soma ao exército comandado pelo general Sucre na batalha de Ayacucho, em 1824, símbolo do fim do império espanhol na América continental.

    Para os libertadores da América, a construção de uma Pátria Grande latino-americana era uma necessidade. Só a união dos povos hispano-americanos permitiria derrubar o poder colonial e garantir a soberania política. A ideia de uma Pátria Grande supunha, na época, a unificação territorial, a soberania política e o anti-imperialismo. A Pátria Grande só seria possível no contexto de um projeto político sustentado pela mobilização popular e oposto aos interesses das elites oligárquicas associadas às potências estrangeiras. Por isso o exército constituído popularmente e as batalhas travadas já eram parte dessa integração e causa comum: a libertação dos colonizadores.

    A “Pátria Grande” representaria, principalmente, integração entre os povos para sua libertação e construção de um futuro onde não estivesse reservado a esses países o papel de colônias. Significaria independência econômica e política, autonomia e soberania.

    4 – Os Estados Unidos fazem de tudo para manter o controle da Região
    O imperialismo estadunidense sempre atuou contra a integração latino-americana e essa soberania dos países. Do slogan “América para os americanos” ao “America First”, de Trump, os EUA impuseram uma “integração” voltada aos interesses de sua economia, aos seus moldes e sob seu controle. Para isso, através de regimes militares, deflagrou uma contrarrevolução que sangrou as economias latino-americanas com o mecanismo da dívida externa, nos anos 1960 e 1970. Depois, voltou a carga para recolonizar-nos com o neoliberalismo, com a abertura completa de nossas economias com a globalização, a privatização de estatais, a reativação em 2008 da Quarta Frota da Marinha dos EUA para patrulhar os mares da América Latina e o projeto da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas).

    As lutas dos trabalhadores e movimentos sociais barrou a ALCA, mas os tratados bilaterais, os Tratados de Livre Comércio (TLCs) e o controle dos recursos naturais dos países latino-americanos, em especial o petróleo, prosseguiram. Neste momento, o secretário de Defesa dos Estados Unidos, James Mattis, está no Brasil. Vem garantir mais entrega do pré-sal e a instalação de uma base militar dos EUA em Alcântara (MA).

    A nova estratégia do imperialismo para a América Latina, no governo Trump, é parte da resposta à disputa agressiva com outras potências mundiais por mercados e, por isso, já produz ainda mais interferência sobre a economia e a política dos países da região.

    5 – A luta antiimperialista e por uma segunda independência continua atual
    A luta pelo que muitos autores e movimentos sociais chamamos de Segunda Independência foi o grande tema de todo o século XX e XXI e segue atual, já que a dominação continuou por outras formas e mecanismos e se ampliou após a crise econômica.

    É necessário lutar por uma nova independência, por soberania e pela integração dos povos e países latino-americanos. Uma integração que vá muito além das iniciativas dos governos ditos progressistas, que ascenderam após o fracasso do neoliberalismo e das rebeliões que sacudiram o continente na primeira metade dos anos 2000. Mesmo Hugo Chávez, com a ALBA (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América, fundada em 2004), a Unasur (União de Nações Sul-Americanas, criada em 2008) e a CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos, fundado em 2010), ao não romper com o imperialismo de fato, não obteve êxito.

    Precisamos de uma integração que se enfrente com o imperialismo, rompendo com o modelo de exportação de matérias-primas (commodities), como petróleo, soja e minério, e os mecanismos das dívidas. Com a crise econômica mundial, esse modelo econômico de exportação e o projeto de colaboração de classes – inclusive o do PT – vieram abaixo, pois não há mais espaço para concessões, por mínimas que sejam.

    Todos os 50 tons de Temer, no debate ou fora dele, se incomodam com o tema da integração dos povos latino-americanos numa perspectiva antiimperialista. Interessa a eles que o Brasil continue de costas para seus irmãos latino-americanos, como colônia, sem enxergar o significado e o potencial de uma integração econômica e solidária de uma região com tantas riquezas.

    Acima de tudo, sabem da trajetória de nossos povos, de nossa longa história de revoluções e insurreições indígenas, negras, operárias e populares. Temem uma luta permanente antiimperialista, que busque uma segunda independência, que reestabeleça a unidade dos trabalhadores e povos da região, apontando, nessas lutas, uma perspectiva socialista.

    Obviamente, com um nome mais criativo do que URSAL…

    *Nericilda Rocha é mestre em Educação pela UFCE (Universidade Federal do Ceará) e viveu em La Paz, Bolívia.

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  • Um pouco de História: Sobre eleições na Argentina, mas também no Brasil

    Na Argentina, no ano de 1973, aconteceram duas eleições presidenciais seguidas, no mesmo ano. Até a primeira eleição daquele ano, havia uma ditadura no país, depois de sucessivos golpes militares (1955 / 1962 / 1966). Depois de uma forte onda de greves e protestos – uma verdadeira insurreição popular, iniciada na Cidade de Córdoba, em 1969, que ficou conhecida com o nome de Cordobazzo – foram chamadas, finalmente, eleições. A luta do povo desestabilizou essa ditadura sangrenta.

    Juan Domingo Perón, ex-presidente deposto em 1955, que estava no exílio no Estado Espanhol, foi impedido de voltar ao país e concorrer nas eleições presidenciais de março de 1973. Apesar de todas as enormes diferenças com Perón e o peronismo, o fato de Perón ter sido impedido de ser candidato foi um verdadeiro absurdo e um ataque as liberdades democráticas mínimas. Felizmente, essa foi a análise e posição de pelo menos parte dos marxistas revolucionários argentinos da época.

    Diante do impedimento de Perón, o Partido / Frente Justicialista (os peronistas) resolveram lançar outro candidato por sua legenda – Hector Cámpora – que acabou sendo um representante direto de Perón na campanha. Cámpora concorre às eleições e sai vitorioso, com 49% dos votos válidos. Um resultado realmente impressionante. Mas, a história não acaba aí.

    Logo depois de tomar posse – 49 dias depois – Cámpora renúncia e, de acordo com a legislação vigente, são convocadas novas eleições presidenciais, que aconteceram em setembro do mesmo ano. Nesta segunda eleição, Perón pode retornar ao país e ser candidato. Ele foi eleito de forma acachapante, com 61% dos votos.

    Em ambas as eleições presidenciais de 1973, diferentemente de alguns grupos socialistas que definiram boicotar as eleições, os mesmos marxistas revolucionários que apoiaram o direito de Perón ser candidato, mesmo com grandes diferenças políticas e programáticas com ele, tiveram candidaturas próprias para Presidente, separadas do Peronismo.

    Essa foi a primeira eleição na qual concorreu pela legenda legal o Partido Socialista dos Trabalhadores – o saudoso PST argentino – tendo como candidato à presidente da República Juan Carlos Coral – um ex-deputado nacional cassado, com origem no velho Partido Socialista argentino. Na segunda eleição, Coral obteve 1,5% dos votos.

    Nahuel Moreno, um dos dirigentes do trotskismo argentino e mundial, que ainda hoje influencia muito a minha militância, viu no acordo com Coral a possibilidade de lançar um novo partido, com presença nacional, com mais capacidade de se postular como uma nova alternativa política para os lutadores do Cordobazo, o povo trabalhador e a juventude da Argentina.

    Um alerta sobre as analogias históricas
    Construir opiniões sobre a realidade política atual a partir de analogias históricas é sempre muito perigoso, pode levar a erros importantes. Ainda mais em relação a fatos que ocorreram 45 anos atrás, em países diferentes. Entretanto, algumas analogias são realmente interessantes, e isso não é “mania” de historiador.

    Guardadas as enormes proporções entre as eleições presidenciais da Argentina em 1973 e as eleições do Brasil em 2018, depois da decisão da direção do PT do último domingo (05 de agosto), é impossível não pensar no seguinte: “Haddad está para Lula assim como Cámpora esteve para Perón”.

    Evidentemente, é impossível prever se os resultados práticos das eleições serão os mesmos. Inclusive, é bem possível que o resultado seja distinto daquele do país vizinho nosso. Mas, o que é seguro dizer, com toda a convicção, que o impedimento de Lula concorrer nas eleições brasileiras atuais é um ataque às liberdades democráticas, como também foi impedir Perón de concorrer nas primeiras eleições presidenciais argentinas de 1973.

    No Brasil atual, a condenação sem provas, a prisão política e o eventual impedimento da candidatura presidencial de Lula é parte inseparável do golpe parlamentar do impeachment e do caráter reacionário e seletivo da operação jurídico–policial da Lava Jato.

    Há outras analogias possíveis de serem feitas sobre a relação entre estas eleições. Por exemplo, sobre a política dos marxistas revolucionários para a Argentina de 1973 e para as atuais eleições brasileiras. Mas, sobre este tema, deixo para a imaginação de cada um (a), para evitar polêmicas desnecessárias.

    Uma nova esperança de esquerda
    Assim como os marxistas revolucionários argentinos do velho PST investiram todo o seu esforço militante na afirmação de uma nova alternativa política de independência de classe nas eleições argentinas de 1973, no Brasil atual acredito que o caminho deve ser no mesmo sentido.

    Devemos jogar todas nossas fichas no fortalecimento de uma nova alternativa política, de esquerda e socialista, que nas eleições atuais passa principalmente pela construção das pré-candidaturas presidenciais de Guilherme Boulos e Sônia Guajajara, lançadas por uma frente política e social inédita em nosso país, formada principalmente pelos partidos de esquerda PSOL e PCB e movimentos sociais combativos como MTST e a APIB.

    Uma nova alternativa política que não mantém alianças políticas com a velha direita e os golpistas. Como, infelizmente, vem fazendo as direções do PT e do PCdoB em vários Estados importantes brasileiros.

    Uma campanha que propõe um programa que enfrente de verdade os privilégios das grandes empresas e bancos para atender as reivindicações e as demandas mais sentidas do povo trabalhador, dos oprimidos e da juventude. Construída de forma democrática e com participação popular e dos ativistas. Vamos, sem medo de mudar o Brasil!

     

    Referência Bibliográfica: MORENO, Nahuel. “Depois do Cordobazo”

  • Quem ganhou e quem perdeu na preparação da disputa eleitoral até agora?

    O que não tem remédio remediado está.
    Não vendas a pele do urso antes de o matar.
    No aperto e no perigo se conhece o amigo.
    Sabedoria popular portuguesa

    Alckmin e o PSDB, e Lula e o PT saíram fortalecidos. Bolsonaro e Ciro Gomes saíram diminuídos. Marina perdeu espaço político para Alckmin e caminha para a marginalidade. O PCdB fez um excelente acordo. Meirelles será uma candidatura zumbi com muito tempo de TV. Boulos tende a crescer.

    Análises não devem ser instrumentais. Interpretações engajadas são inúteis. Uma análise só é marxista se for, intelectualmente, honesta. Deve olhar as coisas como são, ainda quando a realidade nos é desconfortável. Análise séria tem compromisso com a máxima objetividade e a busca da verdade. É indispensável um distanciamento metodológico das nossas preferências. Não importa o nosso desagrado, mal estar, inquietação ou ansiedade. Uma análise só é marxista se tem como referência as classes sociais e suas representações.

    Estudar a relação de forças exige dois níveis distintos de abstração: a avaliação social e a avaliação política. A primeira considera as classes, ou seja, a estrutura da sociedade. A segunda considera as suas representações, os partidos, as lideranças. A relação de forças está sempre em disputa. Nunca permanece congelada. As mudanças quantitativas são frequentes. As qualitativas são muito mais difíceis.

    As batalhas eleitorais são, por definição, uma luta entre partidos. Mas são, também, um terreno, uma arena, um campo de disputa da luta entre as classes. Um espaço desfavorável, mas não por isso menos importante. Elas são, em condições normais, uma refração distorcida da relação social de forças. Enganam-se aqueles que pensam que elas são irrelevantes, e que tudo se disputa “nas ruas”. Enganam-se, no entanto, também, aqueles que imaginam que a classe dominante se resigna com o resultado das urnas. Nunca foi assim.

    Alckmin se consolidou como a principal candidatura da classe dominante, em especial de sua fração paulista. Saiu fortalecido até o momento porque: (a) garantiu a frente eleitoral mais poderosa, com o maior tempo de TV (que ainda conta e muito), ampla representação nacional nos palanques, e capilaridade nos Estados; (b) uma vice do Sul (que diminuiu Alvaro Dias), uma inflexão à direita (que dificulta Bolsonaro) e aliança com o agronegócio (que diminui Meirelles). Além disso, Alckmin tem um discurso: a pacificação do país contra os extremismos.

    A direção do PT conseguiu uma solução inteligente para um problema delicado. A coligação liderada pelo PT terá uma chapa formal provisória com Lula/Haddad, o que dará a Haddad direito de fazer campanha (representar Lula em debates, participar de entrevistas, viajar pelo país), enquanto defende o direito de Lula ser candidato. Mas terá uma chapa preventiva com Haddad/Manuela, para quando se oficializar a provável impugnação de Lula pelo efeito da lei da ficha limpa. Além disso, já tinham consolidado as alianças com frações do MDB como Requião no Paraná, Renan Calheiros em Alagoas, e Eunício Oliveira no Ceará.

    Existiu uma tensão final no PT nos últimos quatro dias. Foi por isso que a divulgação da chapa presidencial só feita no domingo dia 5/08 à meia noite, em cima da hora limite, porque dia 6 de agosto deve ser feita a inscrição legal. Não era esse, evidentemente, o plano original. Todo esse suspense não fazia parte do plano. E a dificuldade da finalização da negociação com o PCdB, que existiu, não foi o problema central. Parece inequívoco que a direção do PT conseguiu uma articulação inventiva para o imbroglio da formação da chapa. Os tempos na luta política têm a sua importância. E a direção do PT precisou improvisar com o cerco da Justiça Eleitoral.

    O eixo central da campanha do PT será a defesa de que a prisão de Lula culmina a obra do golpe parlamentar contra Dilma Roussefff, e teve como objetivo impedi-lo de ser candidato. Este discurso tem grande credibilidade por três razões. A primeira, e mais importante, é porque é verdade, não é um discurso ideológico, uma “narrativa”. Aconteceu mesmo uma ruptura da ordem legal com o impeachment, porque o crime de responsabilidade, previsto na lei, não foi demonstrado com as chamadas “pedaladas fiscais”. E a condenação de Lula pelo apartamento triplex foi uma aberração jurídica. E a verdade conta na luta política. A segunda é que Lula permanece favorito em todas as pesquisas, mesmo depois de cem dias preso. A terceira é que a evolução da situação econômica e social, dois anos depois do impeachment, não só não melhorou, como piorou.

    Mas a direção do PT é consciente, também, que na atual relação social e política de forças não tem condições de construir uma mobilização de massas para garantir a Lula o direito de ser candidato. Seria necessária uma mobilização na escala de milhões. As derrotas acumuladas nos últimos dois anos têm um custo, e não são indolores. Não existe disposição, ânimo, confiança entre os trabalhadores e o povo para uma comoção nessa escala. Evidentemente, a direção do PT não é inocente e tem imensas responsabilidades nestas derrotas.

    Mas a direção do PT não pode ir até ao limite de boicote das eleições. A legítima denúncia da fraude não pode ir até o ponto de “não retorno”. Por isso, a apresentação da candidatura de Lula, até o último momento, é e sempre foi, essencialmente, um instrumento de agitação para obrigar a Justiça Eleitoral a assumir a responsabilidade da impugnação.

    Existiram diversas turbulências, de tipo, força, e alcance diferentes. A resistência em aceitar o sacrifício da candidatura de Marília Arraes, em Pernambuco, sem sequer a contrapartida de uma coligação nacional do PSB, foi grande. Uniu as principais correntes da esquerda do PT – da AE (Articulação de Esquerda) à DS (Democracia Socialista), do DAP (Diálogo e Ação Petista) onde está a corrente O Trabalho, a aliados que vinham da CNB. Tudo sugere que o acordo com o PSB foi um erro. O PSB não é um partido de esquerda, é uma legenda de aluguel. Estava blefando com a possiblidade de coligar com Ciro Gomes. Explodiria, senão durante, logo depois da eleição. A sua fração de Pernambuco queria o acordo por razões, estritamente, locais, a sobrevivência do grupo em torno de Paulo Câmara, sem poder garantir compensações em Minhas Gerais ou outros Estados.

    O Encontro Nacional do PT transferiu, no sábado, a decisão final para a Executiva Nacional no domingo. Porque ficou claro que tinha que apresentar o nome do vice agora, diante da possibilidade da Justiça impugnar a inscrição da chapa, e não no prazo final do dia 15. A interpretação de que a Justiça Eleitoral poderia não aceitar a apresentação de uma chapa sem o nome do vice passou a ser, seriamente, considerada depois das ameaças explícitas feitas por Fux, alguns dias antes. Ao que parece, Lula e a direçção do PT queriam ganhar tempo para pressionar, até o último momento, Ciro Gomes a aceitar a vice, mas a ameaça de que o dia 06/08 seria o prazo final para a formalização de coligações partidárias acabou pesando mais forte. Entretanto, não tinha sido construído, internamente, o nome que irá substituir Lula, com alguma resistência ao perfil de Haddad, diante da desistência de Jacques Wagner, em princípio o favorito de Lula, no sábado, em condições nebulosas.

    Dois problemas de gestão interna do PT permanecem em aberto, mas não devem ser muito graves: (a) a projeção do nome de Haddad como “herdeiro” de Lula é pouco agregadora, e não terá futuro, a menos que chegue ao segundo turno, o que é possível, porém, imprevisível; (b) o lançamento, simultâneo, de dois vices – uma vitória do PCdB – o que sinaliza que admitem, antes da hora, como perdida a luta pela candidatura de Lula como sendo “pra valer”.

    De qualquer forma é bom lembrar que serão duas eleições. Não é somente um jogo em dois tempos, como no futebol. A candidatura do PT, com o apoio de Lula, deve ser a mais forte no Nordeste, vai certamente, bem no Norte, deve perder feio no Sul, em especial, no Paraná e Santa Catarina, provavelmente, no Centro-Oeste, e deve perder, também, no Sudeste, mas por diferença menor.

    Considerando que a coligação com Ciro Gomes era impossível, a não ser que o PT aceitasse a indicação de um vice e, portanto, admitisse, antes da votação do primeiro turno, transferir para Ciro Gomes o lugar de liderança que ainda é seu, o acordo foi o melhor que era possível. Haddad será, provavelmente, o melhor nome para um possível segundo turno, em função do peso eleitoral de São Paulo. Lula e o PT, com apoio de Ciro Gomes, carregam o nome de Haddad no nordeste, mas, dificilmente, outro nome do PT garantiria uma votação melhor em São Paulo.

    Bolsonaro, embora tenha saído, aparentemente, incólume nas sabatinas do Roda Viva e na Globo News, permaneceu isolado, ainda que sua resiliência, depois de meses de pré-campanha seja surpreendente. A coligação com o esdrúxulo PRTB, e a indicação de Mourão, um general tão ou mais extremista do que ele, não acrescenta nada, eleitoralmente, e ainda pode prejudicar, se fizer declarações provocativas.

    Ciro Gomes errou em todos os cálculos. O maior de todos, até agora, foi a subestimação do PT e de Lula: não esteve presente em São Bernardo no dia da prisão. Na sequência, fez movimentos erráticos à esquerda – declarações contra a desnacionalização do pré-sal, contra a venda da Embraer, em defesa do indulto para Lula – e à direita, com a indicação de Kátia Abreu como vice. Saiu diminuído. O PDT é uma legenda de aluguel desvertebrado, não terá palanques nos Estados, não terá tempo de TV, e sua única esperança é o desempenho nos debates. Mas encontrará pela frente Guilherme Boulos.

    A candidatura da Aliança liderada pelo Psol com Boulos/Guajajara conseguiu se firmar em um espaço à esquerda do PT como um polo de esperança na reorganização da esquerda. Tem reunido dezenas de milhares de ativistas em escala nacional. Embora ainda sem expressão nas pesquisas, o que se explica em grande medida pelo desconhecimento, é a representação de futuro para a esquerda.

    *Texto também publicado na Revista Forum

  • Sete propostas pra construir um Brasil para a maioria

    A crise brasileira não pode ser resolvida por meio da conciliação com o andar de cima. Os grandes capitalistas e os governos já perceberam isso e conduzem uma guerra contra os direitos e as condições de vida da classe trabalhadora e dos oprimidos.

    É hora de apresentar um programa anticapitalista, que constitua um verdadeiro contra-ataque às medidas golpistas. Por isso, nessas eleições, estamos com a candidatura de Guilherme Boulos e Sonia Guajajara (PSOL/PCB). Sete das nossas principais propostas programáticas são apresentadas a seguir.

    Nenhum direito a menos 
    1) Revogação das contrarreformas de Temer
    Depois de dar um golpe, Temer aprovou contrarreformas que retiram direitos sociais e trabalhistas da população, afetando sobretudo as mulheres, os negros e os mais pobres. Defendemos a revogação de todas elas, como a Emenda Constitucional que congela os investimentos sociais por 20 anos, a reforma trabalhista e a do ensino médio. E somos contra a reforma da previdência que todos os candidatos da direita defendem. É preciso mais direitos sociais e democráticos, começando pela efetivação e ampliação dos já existentes.

    Gerar emprego e renda
    2) Redução da Jornada de Trabalho e elevação do salário mínimo

    O desemprego e o sub-emprego atingem quase 30 milhões de brasileiros, em grande parte jovens. A jornada de trabalho no Brasil, de 44 horas, é uma das mais altas do mundo.  Com a redução para 40 horas semanais, sem redução salarial, é possível gerar 3 milhões de novos empregos com carteira assinada.

    Temos 44,5 milhões de pessoas que ganham menos de 1 salário mínimo por mês. O valor do mínimo é de apenas R$ 954,00, absolutamente insuficiente para as necessidades básicas de uma família. Com a elevação imediata e progressiva do salário mínimo, seria possível retirar da pobreza dezenas de milhões de brasileiros.

    Combater a desigualdade social
    3) Taxar os mais ricos e realizar a auditoria da dívida

    Apenas cinco bilionários brasileiros concentram patrimônio equivalente à renda da metade da população. Para mudar esse cenário, defendemos uma reforma tributária de caráter progressivo, buscando taxar os mais ricos e diminuindo os impostos dos mais pobres. Atualmente, os milionários pagam proporcionalmente muito menos impostos do que os trabalhadores. Isso significa que devemos ter mais impostos sobre os lucros das grandes empresas, altas rendas, patrimônio e herança. Quem ganha até 7 salários mínimos deve ser isento do pagamento de imposto de renda.

    Para completar, é preciso acabar com a farra dos bancos. O pagamento da dívida pública transfere renda para especuladores nacionais e estrangeiros. O pagamento dos elevados juros tem drenado recursos públicos que deveriam ser investidos nas áreas sociais. Para garantir esses pagamentos, existem a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) e a Emenda Constitucional que determinou o teto de gastos públicos. É preciso, portanto, revogar essas leis e auditar a dívida pública, suspendendo o pagamento de todos os títulos ilegítimos e/ou em posse dos grandes capitalistas nacionais e internacionais.

    Defender a soberania nacional
    4) Reversão das privatizações e investimentos sociais 

    Temer avançou na privatização da infraestrutura do país (estradas, portos, aeroportos) e das empresas estatais, com o Petrobras e a Eletrobrás. A entrega do pré-sal às multinacionais deu um novo salto depois do golpe. Querem privatizar também os Correios e os bancos públicos. E a Embraer foi vendida à Boeing a preço de banana. A soberania nacional, já muito enfraquecida, está sendo enterrada de vez. Defendemos que esses bens sejam retomados pelo Estado, a começar por garantir uma Petrobras 100% estatal, para estarem a serviço da população trabalhadora e do desenvolvimento soberano do país.

    Por outro lado, é preciso investir maciçamente nos serviços essenciais previstos na Constituição, como saúde, educação, moradia e transporte público. É preciso, também, elaborar um amplo plano de investimentos em infraestrutura e capacidade produtiva, que aposte em novas matrizes energéticas e num modelo de desenvolvimento que possibilite a convivência equilibrada entre os seres humanos e a natureza.

    As vidas das mulheres, negros e negras e LGBTs importam
    5) Combate às opressões

    No Brasil, a desigualdade social se combina fortemente com a opressão às mulheres, negras e negros e LGBTs. Por isso, avançar no sentido da justiça social significa, também, combater toda forma de violência e discriminação.

    As mulheres devem ter salários iguais aos dos homens, acesso ao aborto legal e seguro e uma rede integrada de combate à violência à mulher. Além disso, é necessário que haja uma ampla rede de creches e serviços públicos, que possibilite a socialização do trabalho doméstico.

    O racismo deve ser combatido, em primeiro lugar, colocando fim ao extermínio do povo negro pelas mãos da polícia e do crime organizado. E passa também pelo fortalecimento de políticas públicas, como o sistema de cotas, pela efetiva implementação da lei 10.639, que institui a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-Brasileira, e pelo avanço na demarcação das terras quilombolas e indígenas.

    Já em relação aos LGBTs, defendemos uma política nacional de combate à violência, a criminalização da LGTBfobia, o acesso a uma saúde pública especializada e direito às pessoas trans ao reconhecimento de sua identidade de gênero. É necessário, também, uma política de acesso e permanência de pessoas trans nas universidades e no mercado de trabalho e discussão sobre gênero, sexualidade e discriminação das LGBTs nas escolas, tendo em vista o combate à discriminação e o bullying escolar.

    Basta de extermínio da população negra e pobre
    6) Segurança pública para defender a vida

    Os índices de mortes violentas não param de subir. As violentas operações policiais nas favelas e periferias passam longe de pegar os verdadeiros criminosos. O maior exemplo disso é a intervenção federal e militar no Rio de Janeiro. O resultado continua sendo o de sempre: seguidas mortes de inocentes (inclusive crianças) e nenhuma redução dos índices de criminalidade. A atual política de segurança não visa o combate ao crime, mas sim o controle e repressão, levando ao encarceramento em massa e ao extermínio do povo negro e pobre.

    Uma política de segurança pública deve ter um princípio oposto: a defesa da vida. Para isso, é preciso ter uma polícia desmilitarizada, controlada socialmente, voltada para a prevenção e equipada para a investigação. Também é necessário iniciar um processo de legalização e regulamentação das drogas, começando pela maconha. A ilegalidade cria o tráfico, produzindo violência e impedindo o tratamento de saúde dos usuários.

    Mais poder para o povo
    7) Reformas democráticas para mudar o sistema

    O sistema político-eleitoral é controlado pelos grandes empresários e banqueiros. Seja por meio do financiamento de campanhas (caixa 1 e 2), seja pelo milionário lobby empresarial e corrupção instalados em Brasília, os distintos setores da classe dominante têm em suas mãos o Congresso, o Governo e o Judiciário.

    Para começar a mudar essa realidade, defendemos cinco medidas democráticas: (1) expropriação dos bens de todos políticos corruptos e empresas corruptoras; (2) fim de todos privilégios e dos supersalários dos políticos, juízes e da cúpula das Forças Armadas; (3) plebiscitos e referendos para que a população decida sobre as principais questões nacionais; (4) fim vitaliciedade, e elegibilidade e revogabilidade para os cargos da magistratura e do Ministério Público; e (5) democratização da mídia, para quebrar o monopólio dos meios de comunicação.

    Essas e outras medidas democrático-radicais só poderão ser efetivadas com a força da mobilização e organização popular e operária, que deve ser a base de sustentação de um governo dos trabalhadores e do povo comprometido com a construção de uma sociedade socialista.

     

    LEIA MAIS – EDITORIAL PROGRAMÁTICO

    A importância da auditoria da dívida para enfrentar os lucros exorbitantes dos bancos

     

  • A importância da auditoria da dívida para enfrentar os lucros exorbitantes dos bancos

    Está aberta uma importante discussão programática na campanha de Guilherme Boulos e Sonia Guajajara para a Presidência da República (MTST-PSOL-PCB-APIB, entre outros movimentos e organizações) em torno do tema da dívida pública. Em função da importância desse tema, julgamos fundamental abrir um diálogo franco com o conjunto dos movimentos e organizações que constroem essa candidatura.

    A auditoria da dívida é uma proposta constantemente reivindicada pelos movimentos sociais brasileiros e a esquerda socialista nas últimas décadas. Essa iniciativa tem demonstrado ser de grande valor pedagógico para explicar os mecanismos de transferência de dinheiro público para os grandes bancos e instituições financeiras. O próprio PSOL tem, em sua trajetória, uma grande vinculação com esta bandeira. Por exemplo, em 2015, a bancada do partido na Câmara dos Deputados conseguiu incluir a auditoria da dívida no chamado Plano Plurianual. Infelizmente, a ex-presidente Dilma (PT) vetou esta proposta.

    Apesar desse veto, não se deve considerar que se trata de uma proposta impraticável. Experiências de auditorias das dívidas públicas já foram conduzidas em outros países, como o Equador e a Grécia. Nos dois casos, independentemente dos seus resultados efetivos, é preciso indicar que essa iniciativa não significou uma ruptura com os agentes financeiros internacionais, o que demonstra se tratar de uma iniciativa possível, mesmo nos marcos do regime político atual. Lembramos, ainda, que a proposta da auditoria da dívida, longe de representar uma proposta de calote nos pequenos investidores, é um recurso previsto na Constituição Federal, e tem como objetivo atacar as ilegalidades na conformação do montante da dívida e nos juros aplicados sobre ela. Portanto, mesmo respeitando os (as) companheiros (as) que divergem de nossa posição, seguimos considerando fundamental que a auditoria da dívida seja parte do programa da esquerda socialista para as próximas eleições, principalmente pelos elementos que listaremos ao longo deste texto.

    A dívida brasileira
    A dívida interna brasileira saltou de R$ 86 bilhões em 1995 para mais de R$ 3 trilhões e meio em 2018. Esse salto absurdo é fruto dos juros exorbitantes e de especulação financeira. Entre os países da América Latina, o Brasil tem o maior percentual da dívida em relação ao seu Produto Interno Bruto (PIB), chegando a 74%. Segundo previsões de importantes agentes do mercado financeiro, essa relação deve se agravar nos próximos anos, alcançando os 80% até 2022. Portanto, é um erro desconsiderar o problema da dívida e suas consequências sobre o grau de dependência da economia brasileira em relação ao mercado financeiro, seja ele nacional ou internacional.

    Segundo o Tesouro Nacional, hoje temos um estoque total de dívida de R$ 3,63 trilhões, sendo 96,33% desta dívida interna, 3,67% externa e 0,37% contratuais (ou seja, através de contratos e não de títulos, com organismos multilaterais, agências governamentais e outros). O valor gasto apenas com o pagamento de juros anualmente é estratosférico, sem considerar o que se paga da dívida em si. Em 2017 foram mais de R$ 203 bilhões gastos em juros, o que equivale ao dobro do que se gastou em todo o ano em Educação (R$ 103 bilhões) ou em Saúde (R$ 102 bilhões).

    Já a Campanha Nacional pela Auditoria Cidadã apresenta dados ainda mais preocupantes, indicando que, em 2017, a dívida interna brasileira superou os R$ 5 trilhões. E a dívida externa chegou a 550 bilhões de dólares. Valores que são muito altos e que comprometem bastante a capacidade de investimentos do Estado brasileiro. Segundo a mesma fonte, no ano de 2017, foram pagos R$ 986 bilhões de juros e amortizações da dívida pública federal. Este valor representa cerca de 40% do total do Orçamento da União.

    Esse quadro é continuamente agravado pelo fato de que a taxa de juros brasileira continua entre as maiores do mundo. Em um levantamento feito pelo Esquerda Online com 168 economias, o Brasil mantém – mesmo com a recente diminuição da SELIC – uma taxa de juros de quase duas vezes e meia e mediana mundial. Apesar de estar na 43a posição, poucas economias relevantes estão à nossa frente (Argentina, Irã, Equador, Turquia, Egito, Rússia e Iraque). Isto torna o negócio da dívida no Brasil algo muito lucrativo, atraindo bancos e investidores estrangeiros para ganhar dinheiro com esta usurpação nacional.

    Quem se beneficia da dívida?
    A dívida interna brasileira – que compõe a imensa maioria da dívida pública – não está nas mãos de pequenos poupadores. Segundo o Tesouro, quase metade dela remunera os maiores agentes do mercado financeiro, destacando-se os bancos (21,76%) e os fundos de investimento (27,29%), sempre ligado a bancos. Assim, em 2017, segundo estudo feito pelo DIEESE sobre os balanços dos cinco maiores bancos do Brasil, R$ 199 bilhões das suas receitas tiveram origem justamente nos títulos e valores mobiliários, a maior parte desses valores é ligado aos ganhos referentes ao mecanismo da dívida.

    Além de controlarem a maior parte dos papeis da dívida, os bancos também gerenciam as transações desses papeis. Todo ano, o Tesouro Nacional nomeia os chamados “Dealers” (negociantes, na tradução do inglês), que são instituições financeiras credenciadas para controlar as regras do mercado de títulos da dívida. Atualmente, 12 instituições financeiras são os “Dealers” da dívida interna brasileira. Entre elas, nove bancos nacionais e estrangeiros e corretoras de valores e distribuidoras. É a velha máxima: “Colocar as raposas para tomar conta do galinheiro”.

    Por outro lado, o fundo público (aquilo que a economia burguesa chama de “orçamento público”) que é usado para remunerar os títulos da dívida é composto majoritariamente por recursos oriundos dos trabalhadores. Em função da estrutura tributária absolutamente regressiva do Brasil, as grandes fortunas não são taxadas e os impostos sobre consumo possuem grande peso, atingindo de forma desproporcional os trabalhadores. Além disso, mesmo os impostos pagos pela burguesia são fruto do trabalho não pago (mais-valor) extraído da classe trabalhadora.

    A dívida não é solução
    Em função da grave crise enfrentada pelo Brasil, uma parte da esquerda considera que o endividamento do Estado pode ser importante para dinamizar a economia, atacar o desemprego e incentivar os investimentos privados. De acordo com esse raciocínio, uma dívida com maiores prazos de pagamento e remunerada a uma taxa de juros mais baixa poderia gerar os recursos necessários para essa recuperação. Essa proposta se sustenta no arsenal teórico keynesiano.

    Partindo de um ponto de vista marxista, nossa posição é outra. Embora o Estado seja um importante indutor das ações econômicas, não é capaz, sozinho, de convencer os milhares de agentes privados a aumentarem seus investimentos. Em uma economia capitalista, o fator mais relevante para incentivar os investimentos privados é a taxa de lucros do capital, que permanece em patamares limitados, quando comparados com os níveis anteriores ao início da crise. Além disso, no cenário de um eventual governo do PSOL, a desconfiança do conjunto da burguesia seria redobrada, tornando-a ainda mais cautelosa em seus investimentos. Ou seja, também não é possível pensar que esse governo contaria com o apoio maciço de uma burguesia “produtiva” em oposição à burguesia financeira.

    Em suma, a dívida pública não é uma solução para a crise brasileira, nem deve ser tratada como um tema de gestão técnica do Estado. Se trata, pelo contrário, de um grande problema político, que está na raiz das limitações às ações do próprio Estado brasileiro.

    Acabar com o controle dos bancos sobre o mecanismo da dívida
    A auditoria da dívida vai ajudar a demonstrar as ilegalidades praticadas pelos grandes bancos e instituições financeiras, suspendendo e anulando as partes ilegais dessa dívida e devolvendo ao Estado brasileiro o controle sobre essas importantes operações financeiras. É ela que possibilitará colocar realmente o “dedo na ferida” e atacar o poder político dos bancos. É impossível pensar um país realmente independente, que ataque os enormes privilégios do 1% mais ricos, sem interromper a terrível transferência anual de recursos públicos para o capital financeiro.

    Nos últimos anos, a economia brasileira vem se tornando cada vez mais dependente do mercado mundial. Portanto, não se recupera de forma significativa a capacidade de investimento do Estado brasileiro sem mexer no mecanismo perverso gerado pela dívida pública, com seus juros exorbitantes e amortizações.

    Além disto, através das agências de risco, os bancos chantageiam Estados a partir de suas dívidas públicas. Rebaixam notas de crédito quando não aprovam reformas como a da Previdência e Trabalhista, ameaçando assim as dívidas públicas destes países, assim como faziam na década de 1990 o FMI e o Banco Mundial.

    Simplesmente levantar uma proposta de alargamento dos prazos de pagamentos e serviços da dívida, ou pior, acreditar que uma dívida deste montante seja positiva para o desenvolvimento nacional, é deixar de enfrentar a grande fonte de lucros exorbitantes e ilegais dos bancos e instituições financeiras em nosso país.

    Por isso, a campanha da Auditoria Cidadã publicou uma carta aberta à população, cobrando dos pré-candidatos nas eleições deste ano a defesa da auditoria da dívida pública, entre outras propostas que visam combater os lucros exorbitantes dos grandes bancos.

    Vamos, sem medo de mudar o Brasil. E um dos primeiros passos fundamentais dessa mudança deve ser o compromisso fundamental da nossa campanha com a defesa da auditoria da dívida, sempre se apoiando na mobilização e organização do povo trabalhador, da juventude e do conjunto dos explorados e oprimidos para garantirmos a efetivação de nossas propostas e do nosso programa para o país.

  • Mortes na Maré: Contra a fúria de tiros, é urgente a unidade e a resistência!

    A notícia de que o corpo do adolescente Marcos Vinicius da Silva, de 14 anos, que foi baleado durante uma operação policial na quarta-feira, 20, na comunidade da Maré, estava sendo velado na tarde da quinta-feira (21) no Palácio da Cidade, em Botafogo, nos levou a lembrar do grito de protesto: “Chega de hipocrisia, esse governo mata pobre todo dia”, ecoado por moradores da Maré, em atos contra chacinas realizadas em anos anteriores e nos atos contra a execução de Marielle Franco, cria da Maré.

    A operação policial envolveu agentes das forças de intervenção militar do Rio de janeiro e policiais civis. Atingido nas costas, Marcos Vinicius ainda foi atendido na UPA e levado a um hospital, mas não resistiu. Moradores denunciam que a polícia impediu a entrada da ambulância que fora resgatá-lo.

    Outras seis pessoas foram assassinadas nesta operação, conforme divulgado pela Redes da Maré – Somos Todos Maré: outro adolescente, Levi, de 18 anos, e cinco jovens, que teriam sido simplesmente executados em uma casa na Vila dos Pinheiros por agentes do Estado, que utilizaram luvas e desfeito a cena do crime. Os corpos teriam sido jogados do segundo andar da casa onde ocorreu o crime, impedindo a garantia de investigação e perícia. A operação foi vista como uma “vingança” depois da morte de um policial, no dia 12 de junho.

    “Caveirão voador”
    Moradores registraram em vídeos o helicóptero da Polícia Civil, atirando para baixo indiscriminadamente. Segundo a Redes da Maré, essa é uma prática ilegal, que tem sido usada nas últimas operações policiais no complexo de favelas.

    Ainda de acordo com o relatório da Rede, logo após a operação o chão da favela estava com muitas marcas de tiro e com restos de munição. “Nas ruas da Vila dos Pinheiros e na Praça do Salsa, o cenário é aterrorizante: na B1, em um perímetro de 280 metros a equipe da Redes da Maré contabilizou 59 marcas de tiro no chão. Ainda nessa região, muito próxima as escolas do Campus Maré II e Creche da Vila dos Pinheiros, registramos mais de 100 marcas de tiro do chão.” 

    Segundo depoimento de uma professora ao jornal O Globo, foram cinco ou seis rasantes perto da escola, com tiros sendo disparados do helicóptero. Durante todo esse tempo, os alunos permaneceram abraçados e chorando. A Redes da Maré divulgou esta nota. A Defensoria Pública do Rio de Janeiro se manifestou e pediu a suspensão do uso de helicópteros em voos rasantes e para disparos em operações policiais em comunidades e locais densamente povoados. No dia 21, a Justiça do Rio de Janeiro negou o pedido, autorizando o uso do “caveirão alado”.

    Tempo do Medo x Tempo de resistir
    Os moradores da Maré, das favelas e periferias urbanas do Brasil conhecem, profundamente, o rol de violências, usurpações e violações executado com a atuação direta ou indireta do Estado brasileiro. O Estado que, historicamente, mata pobres e negros nas favelas o faz para promover uma “limpeza étnica e social” a serviço de um projeto empresarial de cidade, o qual, nos termos de Henri Lefebvre, quanto mais concentra os meios de vida, mais torna-se insuportável nela viver. O recado da burguesia é, terrivelmente, claro: na cidade dos negócios não há lugar para os pobres!

    Não por acaso, conforme descrito por Helena Araújo em “Museu da Maré: entre educação, memórias e identidades”, há no Museu da comunidade um espaço alusivo ao Tempo do Medo, “onde as paredes são escuras, o ambiente é mais fechado, sem colorido, apenas muitas e muitas cápsulas de tiros, fotos com paredes perfuradas por tiros… é a violências de várias favelas, do Rio de Janeiro, das grandes cidades, do mundo. Se antes a luta dos moradores da favela da Maré era acabar com os alagados, ter casas de alvenaria e saneamento básico, atualmente é acabar e combater a violência no local. ” 

    Em contraposição ao Tempo do Medo, a autora ressalta que há um espaço dedicado ao Tempo da resistência, pois na Maré foi (e é) necessário fincar trincheiras solidárias: “à maré, à polícia, à remoção. Neste espaço é mostrado a resistência através de jornais das associações de moradores se mobilizando nas lutas por melhoria das condições de vida, documentos de posse de casas, etc.” 

    Chega de genocídio do povo negro
    A execução de jovens nesta semana da Maré engrossa a lista de assassinatos divulgada no Atlas da Violência 2017. Segundo os dados, em 2015 aconteceram 59.080 homicídios no país. Quase uma década atrás, em 2007, a taxa foi cerca de 48 mil. Ainda segundo o estudo, homens jovens, negros e de baixa escolaridade são as principais vítimas de mortes violentas. A população negra corresponde a maioria (78,9%) dos 10% dos indivíduos com mais chances de serem vítimas de crimes.

    O fenômeno da violência letal contra crianças e adolescentes, no Brasil, não é, infelizmente, algo novo. Sua constatação, em termos científicos,  iniciou-se a partir das décadas de 1980 e 1990, com a elaboração de estudos como: o Dossiê do Menor, realizado pelo Defense for Children International (ONU, 1987) ou nos primeiros Mapas da Violência divulgados pela UNESCO (WAISELFIZ, 1998). Nesses documentos, os números expressavam altos índices de homicídios de crianças e adolescentes, obtidos através de dados do Ministério da Saúde, dos Institutos Médico-Legais e da imprensa em geral. Nestes, os dados  também demonstram a probabilidade quase três vezes maior de negros serem vítimas de homicídios, quando comparado aos assassinatos de  brancos.

    Esses estudos já revelavam, com toda a nitidez, as marcas históricas de uma sociedade cujo poder dominante determina ou aceita perder toda uma faixa de idade de jovens – mortos, encarcerados ou simplesmente apartados do direito à  educação pública e ao emprego– em nome da reprodução e da manutenção de uma estrutura social fundada sobre o racismo e o ódio de classe!

    Os dados do Observatório da Intervenção, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes (CESeC/Ucam), não deixam dúvida de que a intervenção militar no Rio de Janeiro promovida por Temer e Pezão há quatro meses visa o aprofundamento da face penal, violadora e militarizada da  política de segurança pública do estado para intensificar a submissão de territórios e vidas dos segmentos pauperizados da classe trabalhadora à ponta do fuzil.

    De acordo com o relatório do Observatório, nos primeiros dois meses  da  intervenção o número de chacinas dobrou, passando de seis para 12 casos entre 06 de fevereiro a 16 de abril deste ano em comparação com o ano passado e elevou o número de vítimas de 27 para 52 pessoas. O relatório registra ainda que, de 16 de fevereiro a 16 de abril, houve 1.502 tiroteios, que resultaram em 294 mortes e 193 feridos.

    Passados 120 dias da intervenção federal na segurança do Rio de  Janeiro, houve uma aumento expressivo do número de tiroteios passando de 2.355 nos quatro meses pré-intervenção para 3.210 nos últimos quatro meses, conforme demonstra o infográfico a seguir:

    Expressando seu absoluto compromisso em levar adiante o genocídio que vem sendo praticado pelo estado brasileiro, o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, sugeriu que a intervenção seja prorrogada por mais um ano, até o fim de 2019.

    Não foi “mais do mesmo”
    Os acontecimentos desta última quarta-feira (20) na favela da Maré devem provocar um forte questionamento à  ideia  de que a intervenção militar do Rio de Janeiro significa “mais do mesmo”. Se é fato que a  violência e a opressão de forças policiais sempre foram uma realidade nas favelas e áreas periféricas do Rio de Janeiro, habitadas por uma ampla maioria de negras e negros, a  intervenção federal militar no Rio de Janeiro é uma prova cabal de que o genocídio de jovens negros moradores de favelas e periferias está se constituindo como  um dos instrumentos prioritários da ofensiva burguesa para enfrentar a crise do capital, sobretudo, após a ascensão, via golpe, de Michel Temer à Presidência da República, num contexto de crise do capital. Neste contexto de forte instabilidade política e econômica, a burguesia e seus governos buscam produzir coesão para enfrentar a sua impopularidade e  ilegitimidade por meio da utilização de mais e maior coercitividade.

    Lamentavelmente, acontecimentos como o ocorrido na Maré nesta semana não têm provocado a mobilização de atos de solidariedade às famílias enlutadas e de protesto organizados por movimentos populares, estudantis e entidades sindicais contra Temer e Pezão – os grandes responsáveis pela chacina. A fragmentação entre os movimentos sociais de esquerda e a naturalização e banalização da violência do estado contra a juventude negra e pobre também atingem-nos brutalmente!

    Tornar- se cada vez mais urgente e necessário unir esforços para vencer a fragmentação da esquerda e a banalização da violência promovida pelo estado para que os jovens pobres e negros possam desfrutar de sua juventude sem a constante e permanente  ameaça à sobrevivência e à morte iminente!

    • Contra a intervenção militar no RJ!
    • Toda a solidariedade à família de Marcos Vinicius e às dos demais adolescentes assassinados na chacina da favela da Maré!
    • Por Marielle e por mais unidade e solidariedade entre nós para resistir e lutar contra a barbárie capitalista e o genocídio do povo negro!   

    FOTO: Enterro do jovem Marco Vinicius. Marcelo Frazão/Agência Brasil

     

    LEIA MAIS – Coluna Silvia Ferraro

    ‘Eles não viram que eu estava com a roupa da escola, mãe?’

     

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  • Não seremos interrompidas: seminário convoca lutas pela vida das mulheres

    Reunidas no seminário Não seremos interrompidas: Marielle Vive!, no Rio de Janeiro, as mulheres do PSOL convocaram uma jornada de lutas trazendo à tona diversas pautas do movimento feminista, como a legalização do aborto e o enfrentamento à bancada conservadora do Congresso Nacional.

    O seminário ocorreu no último fim de semana (15 e 16) e contou com a presença de dezenas de mulheres de todas as regiões do país e a pré-candidata a co-presidenta pelo PSOL, Sonia Guajajara.

    A principal resolução do encontro cita as recentes vitórias feministas em países como a Irlanda, Chile e a Argentina, afirmando que “o debate sobre a legalização do aborto voltou a ordem do dia e se choca frontalmente com setores conservadores que reagem e disputam conosco a consciência e a opinião pública”.

    O texto também traz a recente convocação pelo STF de audiência pública para debater a ADPF 442/17, de autoria do PSOL e da Anis – Instituto de Bioética, que pede a descriminalização do aborto até a 12ª semana de gravidez. A audiência vai ocorrer em agosto.

    Clique aqui e leia, na íntegra, a Resolução pela vida das mulheres

    O encontro também aprovou uma moção de apoio à militante feminista e filiada ao PSOL Débora Anhaia Campos, de Londrina/PR, perseguida por setores da direita conservadora por defender os direitos reprodutivos das mulheres e os direitos civis da população LGBTI. Clique aqui e leia a moção completa.

  • Argentina: Como e por que a luta das mulheres encurralou o governo Macri

    O 13 de junho já pode ser considerado um dia histórico na Argentina: após anos de mobilização feminista com manifestações, debates, ocupações e dezenas de audiências públicas, as mulheres conseguiram arrancar a aprovação do projeto de Interrupção Voluntária da Gravidez na Argentina. Foi um primeiro passo importante conquistado com uma das maiores mobilizações já realizadas no país e que demonstra a potência da movimentação das mulheres.
    Porém essa vitória é parcial. O projeto ainda precisa ser aprovado no Senado e enfrenta inimigos poderosos. Somente mantendo a mobilização é que as mulheres conseguirão concretizar a maior vitória democrática das últimas décadas no continente.

    Macri, o Estado e a Igreja
    O governo de Mauricio Macri, do Cambiemos, está cambaleando desde o ano passado. Após uma vitória eleitoral, o governo se sentiu fortalecido para aplicar um ajuste fiscal mais pesado. Porém, a luta e a mobilização contra a reforma da previdência, ainda que esta tenha sido aprovada, demonstraram uma maior fragilidade de Macri.

    Foi neste contexto que no 8 de março, Macri deu o aval para o debate sobre a Lei de Interrupção Voluntária da Gravidez. Esse aval demonstra o poder que o executivo tem nesses países, já que sem ele, seria praticamente impossível colocar em debate o projeto. Esse aval de Macri, que é claramente contra o projeto – participando inclusive de missas contrárias a ele – não foi uma “bondade” do presidente, foi uma manobra que teve como base dois processos: resultado da pressão do movimento feminista, que vem num crescente, pelo menos desde 2015; a situação de deterioração econômica e social do país.

    É importante ressaltar o peso da Igreja Católica na Argentina. Até hoje, a Igreja Católica é financiada diretamente pelo Estado, que paga salários a parte da própria Igreja. A maior parte das leis que garantem esse funcionamento são frutos da Ditadura Militar (1976-1983) que vigorou no país. Vale lembrar que durante o governo de Perón (1946-1955), foi justamente sua ruptura com a Igreja Católica, em 1954, que levou ao golpe imperialista de 1955.

    A Igreja Católica, com seu chefe-maior, o Papa Francisco, foi a ponta de lança da campanha “pró-vida” – que ignora completamente a vida das mulheres que realizam o procedimento de aborto clandestino no país. De acordo com dados reunidos pelo movimento feminista, se estima que ocorram cerca de 500 mil abortos clandestinos por ano no país, morrendo mais de uma mulher por dia em ocasião desses abortos. Essa frente conservadora e reacionária realizou diversas atividades contra o projeto. Porém nenhuma delas teve a força que o movimento de mulheres conseguiu atingir e, muito menos, o impacto na consciência de milhões de pessoas, principalmente das jovens mulheres estudantes e trabalhadoras do país.

    Uma onda feminista que atravessa o país
    A tradição do movimento feminista argentino é de longa data. Uma das mais importantes tradições é o Encontro Nacional de Mulheres: fundado em 1986 é um encontro anual que reúne milhares de movimentos e coletivos de mulheres, de distintas orientações, para intercâmbio de experiências, debates, formação política e também de preparação de campanhas do movimento feminista. Em 2017, estima-se que o Encontro reuniu 60 mil mulheres de todo o país no qual ocorreram 71 oficinas.

    Essa tradição foi fortalecida por dois movimentos importantes. Um primeiro é uma onda crescente de feminismo que percorreu todo o mundo nos últimos anos e que tem levado a algumas autoras chamarem de “terceira onda” do feminismo. No Brasil, essa onda se expressou na “primavera feminista” que cresceu bastante após 2013. Na Argentina, isso se expressou no movimento impressionante que foi o “#NiUnaAMenos: um grito coletivo contra a violência machista” que luta contra o feminicídio no país – a cada 30 horas uma mulher morre por ser mulher na Argentina. Esse movimento de mulheres conseguiu impulsionar várias mobilizações impressionantes com centenas de milhares de mulheres das quais podemos destacar a ocorrida em 3 de junho de 2015 e a de 19 de outubro de 2016, após o brutal assassinato da jovem Lucía Perez.

    Essa combinação foi importantíssima para toda a mobilização em torno da campanha pelo Aborto Legal. É essa combinação que explica a força do movimento e também da consciência pró-direito ao Aborto – entre 60-70% da população apoiava a medida. Desde que o debate começou, o movimento se organizou para intervir tanto nas audiências públicas, quanto nos debates organizados nas universidades, escolas, sindicatos, associações, etc., e nas mobilizações de rua. Vale destacar a ocupação de escolas e universidades exigindo o aborto legal, assim como o peso da esquerda socialista nas mobilizações e também no parlamento pressionando pelo debate e sendo a única bancada coerente com o projeto.

    Dentre as mobilizações o destaque foram para as mobilizações de 3 e 4 de junho, nas quais centenas de milhares foram às ruas exigir a votação do projeto e, logicamente, a própria mobilização do dia 13 de junho, na qual cerca de 1 milhão de pessoas se vestiram com o pano verde, símbolo da campanha, e ocuparam as ruas de Buenos Aires para exigir a votação.

    Foi essa mobilização histórica que conseguiu a aprovação apertada de 129 votos a favor, 125 contra, com uma abstenção. Essa votação foi conquistada na última hora quando três deputados mudaram seu voto e reverteram o placar que favorecia os contrários a vida das mulheres.

    A pressão aumentará: greve geral contra o acordo com o FMI e as mobilizações #NiUnaAMenos
    A situação econômica e política na Argentina é bastante complicada: o novo empréstimo para o FMI é somente a ponta de um iceberg de uma difícil situação do país. Neste campo social, está previsto uma grande mobilização para o dia 25 de junho que se combinará com uma greve geral no país. A mobilização das mulheres em torno ao aborto legal, sem dúvida alguma, é um potente elo dessas novas mobilizações no país.

    A importante conquista democrática do movimento feminista tem que se consolidar com a vitória no Senado. É importante lembrar que o Senado é uma representação ainda mais antidemocrática das demandas da população, pois a representação não é proporcional a população, mas igual para cada província. Nesse sentido, a pressão do movimento feminista, que tem um caráter muito mais urbano e nos grandes centros populacionais, estará menos representada nessa “Câmara Alta”.

    Diferentemente da Câmara de Deputados, o Senado tem majoritariamente políticos peronistas (divididos em vários partidos) e a presença da esquerda socialista é nula. Nesse sentido, está “aparentemente” nas mãos dos peronistas a aprovação do projeto. De acordo com os analistas, a votação deve ocorrer entre setembro e outubro deste ano. Porém, assim como foi com os deputados, quem decidirá a sorte do Aborto Legal será o movimento feminista nas ruas. E será com elas, que as mulheres de toda a América Latina poderão se levantar e erguer suas lutas em todo continente.

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    Vivas nos queremos! A Argentina mostra o caminho: aborto legal, seguro e gratuito, já!

     

  • Vivas nos queremos! A Argentina mostra o caminho: aborto legal, seguro e gratuito, já!

    Amanhecemos nesta quinta (14), com a expectativa da votação sobre a legalização do aborto na Argentina. Em mais de vinte horas de debates, a Câmara dos Deputados foi palco de uma disputa ímpar, voto a voto, que dividiu bancadas políticas e regionais. Do lado de fora, a pressão popular se fez sentir na gelada noite portenha. A primeira batalha foi ganha e a votação segue agora para o Senado, em uma situação que nos parece irreversível.

    Os debates realizados no parlamento argentino foram de ótimo nível e, em quase sua totalidade, usaram argumentos de cunho científico – seja sob a ótica do direito, da biologia ou da sociologia. Mas a prevalência do argumento que defendeu a aprovação do projeto se baseia irrevogavelmente na política: o voto não se dividia entre aceitar ou não a legalidade do aborto. O voto se dividia entre aceitar a realidade e optar entre defender a vida das mulheres que praticam, sim, o aborto, tornando-o legal e orientado por um protocolo de práticas em saúde ou se condenariam as mulheres a seguir submetendo-se aos abortos em clínicas clandestinas, aos remédios vendidos irregularmente e às práticas caseiras.

    Votar sim permitiria às mulheres, que necessitam ou desejam, poderem abortar em segurança sem impôr nenhum risco ou restrição às mulheres que desejam seguir sua gestação. Votar não imporia às que não podem ou não querem dar sequência à gestação a clandestinidade e a violência psicológica e estatal (criminalizando a prática).

    Ganhou a realidade que é o aborto existente, apesar de proibido, e que mostra que na Argentina, como no Brasil, a prática do aborto seguro é uma questão de classe: quem tem dinheiro, paga; quem não tem, corre risco de morte. Na Argentina, diferentemente do Brasil, a legalização do aborto rompe o moralismo e se impõe como uma questão de saúde pública e de direitos reprodutivos das mulheres.

    VEJA O MOMENTO DA COMEMORAÇÃO

    O debate generalizado na sociedade argentina e os argumentos dos defensores de cada opinião, assim como o mapa geográfico dos votantes, nos mostram referências importantes. A mídia tradicional informou que ao sul do Parlamento, espaço destinado aos apoiadores do “não”, “algumas centenas de participantes, majoritariamente homens, carregavam faixas com dizeres religiosos em defesa da vida” e, ao norte do Parlamento, local reservado aos apoiadores do “sim”, “algumas dezenas de milhares de pessoas, majoritariamente mulheres, acompanhavam a votação com seus lenços verdes”.

    Não nos surpreende o amplo apoio masculino ao “não” em uma sociedade onde a responsabilidade naturalizada do cuidado da criança é atribuída às mulheres. O mesmo apego ao feto não se manifesta em apego à criança. Usando dados do Brasil, os índices de abandono parental, considerando apenas a ausência registro civil da criança, demonstra que há cinco milhões de menores sem o reconhecimento e, consequentemente, sem a responsabilização paterna. A gestação e o cuidado parecem desconectadas para alguns.

    A divisão geográfica das bancadas também demonstrou uma situação importante: as bancadas do norte do país, regiões mais pobres e de marcada política caudilhesca, votaram majoritariamente pelo “não”, enquanto o sul do país, região mais desenvolvida economicamente, votou majoritariamente pelo “sim”. Este aspecto nos permite observar o profundo recorte de classe que atravessa esse debate e que impõe uma “moralidade” a partir da confortável posição econômica das elites, sustentada na possibilidade real de, mediante uma gravidez indesejada, realizar o aborto em condições salubres em caras clínicas clandestinas ou em países onde o procedimento é legalizado (Uruguai, Colômbia, Portugal).

    Outro aspecto relevante é que, apesar de a Argentina ter uma das maiores bancadas parlamentares femininas da América Latina, apenas 49 das 100 deputadas votaram a favor do projeto, o que nos mostra que, mais do que a condição de ser mulher, é necessário uma decisão política de luta pelos direitos das mulheres.

    O centro dos argumentos contrários, ainda que bem construídos, se dão com defesa da Convenção Americana do Direitos Humanos, sob uma concepção de que a vida se origina a partir da concepção e, na qual, o direito do feto está acima do direito da mulher que o gesta, pois o feto é um ser novo, de DNA próprio, que o Estado tem o dever de defender. Contudo, é importante ressaltar que esta interpretação de “origem da vida” desconsidera um outro ponto comum da concepção científica hoje: a vida existe quando há atividade completa do sistema nervoso central, o que no feto só acontece com as 12 semanas de vida. Por isso, é necessário coerentizar os argumentos e este foi, visivelmente, o esforço de diversos parlamentares nas mais de 20 horas de debate: que o critério para decretar a vida seja o mesmo utilizado para decretar a morte, cientificamente. Associado ao argumento da “origem da vida” a partir da concepção apresentam-se pressupostos religiosos do direito à vida como um dom divino e não passível de julgamento humano. Realçamos que esta visão em nenhum momento considera os desejos pessoais e as possibilidades materiais das mulheres que gestam os bebês e, tampouco, estendem os deveres de “defesa da vida”, apregoados ao Estado, à criança nascida: educação, alimentação, saúde, moradia digna, emprego, nada disso entra na pauta como parte do “direito à vida”.

    Já os argumentos dos que defendem o “sim” ganham lastro da realidade das mulheres para além do direito individual, elencando as necessidades sociais coletivas de atendimento à mãe e ao bebê durante toda a vida, ao mesmo tempo apresentaram duros argumentos e denúncias sobre o papel da Igreja nos abortos de prisioneiras da Ditadura Militar Argentina e no silenciamento, quando não o apoio, às medidas de austeridade do governo Macri. No debate, a pressão das ruas definiu a primeira parte da jornada pela legalização do aborto na Argentina e a próxima batalha será impôr a mesma pressão ao Senado.

    O processo argentino, que ainda nos permitirá aprofundar as análises e nos permite já muitos aprendizados, deve ser inspiração e também deve impactar o Brasil sobre o tema. Tramita para julgamento no STF a ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) 442 movida pelo PSOL que visa descriminalizar as práticas abortivas. Em agosto haverá a primeira audiência pública chama da pelo STF (ministra Rosa Weber) como espaço de construção da argumentação para o voto do Tribunal. Será um primeiro espaço para aferirmos o grau do debate político sobre o tema no país.

    Porém, a luta no Brasil também se dá contra o conservadorismo que se amplia na opinião pública e se materializa em movimentos como “Escola Sem Partido” que tenta bloquear qualquer direito à educação sexual e de gênero nas escolas. Precisamos também enfrentar o lobby da Bancada da Bíblia, que durante os governos petistas impôs sua força e usou os debates dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres em barganhas políticas, às quais os governos cederam como a não implementação do protocolo de abortos previstos na legislação sobre o SUS e o impedimento do kit de combate à LGBTfobia. É preciso politizar o debate e ganhar campo na sociedade. A realidade das mulheres brasileiras é a mesma das mulheres argentinas.

    FOTO: Mulheres argentinas comemoram resultado, em frente ao Congresso. Jorge Saenz/AP

     

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  • Seis motivos para não confiar em Marina Silva

    Pré-candidata da Rede disputa novamente a possibilidade de ir ao segundo turno das eleições presidenciais

    Na última pesquisa do Datafolha, a pré-candidata da Rede, Marina Silva, aparece em segundo lugar, quando não é incluído o nome do ex-presidente Lula (PT), condenado sem provas e preso há mais de dois meses em Curitiba (PR).

    Neste cenário, ela aparece com 15% das intenções de voto, ficando atrás apenas do famigerado Jair Bolsonaro (PSL-RJ), que tem 19%. Os dados revelam que, pelo menos até o momento, Marina vem se beneficiando quando o nome de Lula não é incluído nas sondagens.

    A ex-senadora foi candidata nas últimas duas eleições presidenciais, em 2010 pelo PV e em 2014 pelo PSB (filiou-se a este partido porque a Rede não se legalizou a tempo). Nas duas oportunidades, chegou perto do segundo turno, ficando em terceiro lugar, com cerca de 20% dos votos válidos.

    Em seus discursos, Marina sempre se propõe a construir uma nova forma de fazer política, mas diferentemente de outros momentos, suas promessas já não tem o mesmo apelo popular. Este fato se explica porque, longe de representar de fato uma nova alternativa de mudança, a pré-candidata da Rede, infelizmente, representa a continuidade de governos que não enfrentam realmente os privilégios dos ricos e poderosos.

    Vejam seis argumentos que comprovam a completa incoerência entre o discurso e a prática de Marina Silva:

    1- Marina apoiou o golpe do impeachment
    O discurso da defesa de uma nova política “cai por terra” quando lembramos que Marina Silva apoiou abertamente a manobra reacionária do Impeachment. Na votação do impeachment não se comprovou crime de responsabilidade, revelando-se um verdadeiro um golpe parlamentar, encabeçado pelo o que tem mais podre na política brasileira, chefiado por nada mais nada menos o ex-deputado Eduardo Cunha (MDB-RJ), atualmente preso.

    Marina não só apoiou como cobrou dos parlamentares ligados a Rede que votassem a favor. Lembrando que foi o impeachment que possibilitou a posse do presidente ilegítimo Michel Temer (MDB-SP), o mais impopular da história recente brasileira.

    2 – Ex-senadora apoia a reforma da Previdência
    Em entrevista recente, a ex-senadora e pré-candidata a presidente pela Rede defende a necessidade de uma nova reforma da Previdência. Embora, atualmente, diga que Temer não tem legitimidade para realizar essa reforma, admite a necessidade da reforma, pois, segundo ela, existe um grande déficit da Previdência Social.

    Nenhuma palavra sobre as grandes empresas que devem bilhões à Previdência Social. Mas, ela rapidamente apressa-se a defender o aumento da idade mínima para que o povo trabalhador consiga se aposentar.

    3 – Alianças com a velha política
    Quem poderia esquecer do vídeo de Marina apoiando Aécio Neves (PSDB-MG), no segundo turno das eleições presidenciais passadas. Onde ela chama os brasileiros a engrossar o movimento de mudança representado pela candidatura tucana.

    Agora, que Aécio virou um símbolo da corrupção na política brasileira, embora siga exercendo seu mandato livremente, Marina tenta se afastar de seu aliado nas eleições passadas. Mas, nada que faça a ex-senadora mudar a sua política de alianças espúrias. Na mesma entrevista na Folha de S. Paulo e ao UOL, ela afirma que pode governar com políticos do MDB, PSDB e PT.

    4 – Seus projetos políticos são financiados por grandes empresas e bancos
    Nas duas campanhas presidenciais que participou, Marina contou com o financiamento milionário da herdeira do Banco Itaú, Maria Alice Setubal (“Neca”), e do dono da Natura, Guilherme Leal (que foi seu vice nas eleições de 2010), um dos homens mais ricos do Brasil.

    Mas, não é só nas eleições, que grandes empresários financiam os projetos políticos de Marina. Por exemplo, em 2013 a herdeira do Itaú, “doou” cerca de um milhão de reais para o instituto de Marina, arcando com mais de 80% das despesas da entidade que foi criada pela ex-senadora.

    5 – Incoerência na defesa do meio ambiente
    Embora Marina Silva tenha na sua história política a defesa do meio ambiente e dos povos da floresta, a sua prática política nos últimos anos vem demonstrando que também neste terreno ela vem praticando o velho discurso “esqueça o que eu disse”.

    Marina, nas últimas eleições defendeu a utilização dos transgênicos que, segundo ela, é uma necessidade do desenvolvimento. Abandonando uma das causas mais sentidas dos movimentos sociais que defendem o meio ambiente.

    Essa defesa não deveria chegar a surpreender, pois nas eleições passadas, em 2014, o vice de Marina era Beto Albuquerque (PSB-RS). Ele, como deputado, atuou ativamente na Câmara para regulamentar a utilização da soja transgênica na legislação brasileira, quando ainda Marina Silva era ministra de Meio Ambiente, no governo de Lula (PT).

    6 – Falta de compromisso com a pauta dos oprimidos
    Marina tenta sempre disputar o voto dos evangélicos, religião que se considera uma praticante. Esta localização a faz se afastar de forma contundente com bandeiras historicamente defendidas pelos movimentos de luta dos oprimidos, tais como a legalização do aborto, entre outras discussões.

    Na campanha presidencial passada, inclusive, envolveu-se em uma polêmica quando recuou da defesa de projetos que garantiam o direito pleno do casamento entre homossexuais e a discussão contra discriminação de LGBTs e a homofobia nas escolas, depois que o ultrarreacionário Pastor Malafaia criticou seu programa de governo.

    Construir uma nova alternativa política, de esquerda e socialista
    Para mudar de verdade, enfrentar a velha direita, derrotar o golpe, acabar com as alianças espúrias, nós precisamos apostar em uma alternativa que realmente defenda os interesses do povo trabalhador, da juventude e do conjunto dos explorados e oprimidos.

    Uma pré-candidatura que não tenha medo de enfrentar os enormes privilégios das grandes empresas e dos bancos. Enfim, que faça os ricos e poderosos começarem a perder, para que a maioria da população tenha atendida as suas reivindicações e direitos.

    Por isso, devemos construir de forma coletiva a chapa presidencial de Guilherme Boulos e Sonia Guajajara, lançada por uma frente política e social inédita, formada por partidos de esquerda e movimentos sociais combativos. Ela já tem o apoio do MTST, do PSOL, do PCB e da APIB, entre outros movimentos e organizações. Vamos, sem medo de mudar o Brasil!

    FOTO: Elza Fiuza / Agência Brasil