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  • Ministra Damares: um retorno à Idade Média

    Desde o dia 06 de dezembro, quando foi anunciada a pastora evangélica Damares Alves para ocupar o (novo) Ministério das Mulheres, Família e Direitos Humanos, que somos “brindadas” com as mais bizarras declarações da futura ministra.

    Vejamos algumas: mulher nasceu para ser mãe”, “ideologia de gênero é morte de identidade”, “não é a política que vai mudar esta nação, é a igreja evangélica, que se preocupa com a ausência da mulher de casa”, etc. O conteúdo dessas declarações nos faz questionar qual tipo de família é considerado legítimo pela pastora Damares? Uma pergunta que já sabemos a resposta.

    Importante ressaltar que a pastora Damares é um agrado de Bolsonaro para a bancada evangélica, tão fundamental em sua eleição, e não à toa a efusiva felicidade pela escolha, visto que esta bancada composta por deputadas/os federais ultraconservadores quer ter o poder de definir os rumos, ou melhor, os descaminhos da discussão sobre direitos reprodutivos das mulheres, criminalização da lgbtfobia, casamento homoafetivo, entre outras pautas nesse sentido. Já que os setores oprimidos fomos a linha de frente do enfrentamento contra o governo do vampiro Temer, abrimos as portas para a grandiosa greve geral de 2017, e ainda realizamos as maiores marchas de mulheres (de norte a sul) desse país, o movimento #EleNão, inaugurando o combate contra o governo de viés neofascista de Jair Bolsonaro, deixando negritado que as mulheres trabalhadoras, negras e negros e as LGBTQI não aceitaremos voltar para a cozinha, para a senzala e nem para o armário, tampouco abriremos mãos de nossos direitos.

    Não vivemos um Estado verdadeiramente laico, isso é verdade. Contudo, criar um Ministério com a nomenclatura de “Família” e ainda colocar uma pastora evangélica de cariz ultraconservador para dirigir, é um retrocesso sem tamanho, como se tivéssemos voltado à Idade Média (guardadas as diferenças dessas proporções), é andar muitas casas para trás, é uma afronta aos avanços que já tivemos até aqui.

    Primeiro, que o movimento de combate às opressões, as/os ativistas de Direitos Humanos, as/os profissionais da Assistência Social, já estamos há anos e anos na luta para garantir que todos os arranjos familiares sejam compreendidos como tal, há anos combatendo a noção de que família é apenas aquela composta por um homem/mulher/filhos, a família heteronormativa, padronizada, a única aceita pela estrutura capitalista patriarcal, inclusive nesse terreno já temos conquistas. As famílias brasileiras são muitas, diversas, múltiplas, e devem ter seus direitos jurídicos/legais/políticos garantidos a partir desses modelos.

    Além das declarações expostas acima, a futura ministra ainda se posicionou contra a legalização/descriminalização do aborto, pauta histórica e necessária para salvar a vida de milhares de mulheres, especialmente, negras e pobres que morrem submetidas a abortos clandestinos.

    E ainda não acabou por aí, tem um vídeo circulando no qual a pastora está fazendo um culto para milhares de pessoas (ela chegou a reunir 6 mil pessoas num culto), no qual criminaliza a cultura e as religiões afro-brasileira, dizendo que as crianças, através desse ensino, estão sendo obrigadas a se “converter” a tal religião, é uma imposição de uma religião não cristã, que as bíblias terão que voltar para as escolas. Basta ter o mínimo de bom senso e conhecer a realidade das salas de aula das escolas públicas desse país, para saber que a pastora Damares está completamente equivocada, melhor dizendo, se utilizando da fé de milhares de pessoas para alienar mais, para disseminar o ódio, o preconceito. O que ela e os setores conservadores não aceitam é o fato de haver uma lei, que foi aprovada com muito custo, a Lei 10.639/03 alterada pela Lei 11.645/08, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana, uma história tão invisibilizada e propositalmente escanteada pela elite branca brasileira.

    A pasta que Damares assumirá também ficará responsável pela FUNAI. Isso é preocupante diante da postura da pastora diante dos povos originários. Não bastasse, de um lado, a violência contra os indígenas, invasões e ameaças a suas terras e reservas, de outro veremos o aumento das tentativas de evangelizar os povos indígenas, como forma de “salvar suas almas”.

    A primavera feminista derrotou Eduardo Cunha e sua tentativa de aprovar o Estatuto do Nascituro, que dentre outros grandes retrocessos, prevê que, caso uma mulher engravide a partir de um estupro, esta mulher terá esse filho e ainda vai contar com uma ajuda financeira por parte do governo. A futura ministra reavivou a discussão, e nesta terça, dia 11, deu entrevista dizendo que é a favor da aprovação dessa lei. A tal ajuda financeira seria interrompida caso o estuprador fosse identificado. Ou seja, além de a vítima de estupro ser obrigada a ter o filho, ainda teria que reconhecer o estuprador como pai e conviver com ele. Um absurdo.

    Logo, nós militantes feministas, teremos como tarefa para 2019, reorganizar as fileiras, cerrar os punhos, e continuar na linha de frente junto à classe trabalhadora de conjunto, para derrotar qualquer tentativa de ataque por parte da pastora Damares e do governo neofacista de Jair Bolsonaro.

    Portanto, não basta ser mulher para lutar contra a opressão machista, contra a violência às mulheres, pelo nosso direito de decidir sobre nosso próprio corpo. A futura ministra está na contramão de nossas lutas enquanto mulheres trabalhadoras. Repudiamos a criação de um Ministério com essas características, e mais ainda as declarações assombrosas da pastora Damares.

    Como pronunciou Marielle Franco, “não seremos interrompidas”. Ninguém larga a mão de ninguém, é preciso estar atento e forte.

     

    FOTO: Valter Campanato/Agência Brasil

  • Por que Bolsonaro prestou continência ao assessor de Segurança Nacional dos EUA?

    No dia 29 de novembro, Jair Bolsonaro recebeu, no Rio de Janeiro, o assessor de Segurança Nacional dos Estados Unidos, John Bolton. Segundo o próprio Bolsonaro, assuntos como a crise com a Venezuela, a possível mudança da embaixada brasileira em Israel e as relações comerciais com a China dominaram a conversa.

    Ao final, Bolsonaro foi convidado por Bolton para visitar os EUA, para se reunir com Trump. Bolsonaro já declarou em várias ocasiões que o atual Presidente dos EUA é um exemplo para ele e uma das suas referências na política.

    Entretanto, uma imagem chamou muita atenção na visita. No momento exato do encontro entre os dois, Bolsonaro prestou continência ao representante do governo dos EUA. O vídeo circulou pelos sites dos principais jornais do país, que destacaram a cena que é, no mínimo, inusitada. Bolton não devolveu o cumprimento.

    O assunto não chega impressionar ou mesmo ser inédito. Afinal, na campanha eleitoral passada, outro vídeo polêmico circulou nas redes sociais, onde Bolsonaro presta continência diante da bandeira dos EUA, durante um comício realizado num restaurante na Flórida, em outubro de 2017.

    O que faz um político de origem militar, que se prepara para assumir a Presidência da República do Brasil e que tanto se orgulha em se dizer um patriota acostumar-se a prestar continência aos símbolos e representações dos EUA?

    O acontecido se revela apenas uma obra do acaso? Ou existem razões mais significativas para explicar tanta benevolência de Bolsonaro para com os EUA?

    As relações da elite das Forças Armadas brasileiras com os EUA

    Até a participação do Brasil no esforço militar da II Guerra Mundial, nossas Forças Armadas eram fortemente influenciadas em sua formação pela França e, mais secundariamente, pela própria Alemanha.

    Inclusive, houve durante o período da ditadura do Estado Novo, uma forte simpatia de elementos importantes da cúpula das Forças Armadas brasileiras com o Eixo – nome da aliança militar entre Alemanha, Itália, Japão, entre outros – como, por exemplo, o próprio General Eurico Gaspar Dutra, Ministro da Guerra neste período e que, posteriormente, viria a ser presidente da República.

    Mas, a tardia definição do Brasil de entrar na II Guerra Mundial ao lado das Forças Aliadas e o envio de tropas brasileiras para o confronto direto no continente europeu, através da criação da Força Expedicionária Brasileira (FEB), marcou a inauguração das relações privilegiadas entre as Forças Armadas brasileiras e a dos EUA.

    Veterano da FEB, o general Castelo Branco foi um desses militares que se aproximaram muito dos EUA, inclusive participando de cursos de formação promovidos pelas Forças Armadas estadunidenses. Não a toa Castelo Branco viria a ser o primeiro presidente indicado, depois do golpe militar de 1964.

    Influenciados pela ideologia liberal conservadora, predominante entre os militares dos EUA, os generais brasileiros voltaram da II Guerra já convencidos da necessidade de acabar com o Estado Novo e dar início a um “regime democrático”, sob a tutela das Forças Armadas e em estreita colaboração com os EUA.

    Getúlio Vargas é destituído ainda em 1945, mesmo depois de já ter concedido anistia política, instituído a liberdade partidária – inclusive para o PCB – e marcado novas eleições para o fim do ano. Mesmo assim, os mesmos generais que apoiaram a criação do Estado Novo, agora convertidos em “liberais”, derrubaram Getúlio.

    Em dezembro daquele ano, o General Dutra, já como membro do PSD, era eleito Presidente da República. A partir de então se pode perceber, sem dificuldade nenhuma, a forte influência dos EUA sobre as Forças Armadas e os próprios governos brasileiros.

    Já em 1947, é assinado, no Rio de Janeiro, o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR), que dava liberdade ao governo dos EUA a intervir em países da América Latina, em caso de assuntos de defesa nacional. Também em 1947, é cassada a legalidade do PCB.

    Neste período já estava em franco funcionamento a Comissão Militar Mista Brasil/EUA. Em 1954, essa comissão chegou a ser registrada nas Nações Unidas (ONU) como uma comissão permanente, com o objetivo de cuidar de vendas de armamentos e da assistência militar mútua.

    Em 1949, o Pentágono auxiliou as Forças Armadas brasileiras a fundarem a Escola Superior de Guerra (ESG), que passou a ser o local mais importante de produção de ciências militares e de produção ideológica para os militares brasileiros. A presença de militares dos EUA entre os professores da ESG durou até pelo menos 1960.

    Também em 1949 é criada a Escola das Américas (que depois ficou conhecida como “escolas de ditadores”), na região do Canal do Panamá. Neste local, os militares dos EUA treinaram durante vários anos não só militares brasileiros, como de vários outros países da América Latina. Boa parte dos militares brasileiros, que estiveram à frente do golpe de 1964, fez formação neste espaço.

    Em 1952, já no novo Governo de Getúlio Vargas, agora eleito pelo voto popular, é firmado o acordo militar entre Brasil e EUA, com o objetivo de regulamentar a troca de estratégia e equipamentos militares.

    Por trás da criação deste acordo estava o Chefe do Estado Maior das Forças Armadas brasileiras à época, general Góes Monteiro, outro expoente da ala militar brasileira mais afinada aos interesses estadunidense (ala entreguista, chamada assim por seus opositores à época). Esse acordo é visto por alguns autores como uma concessão política de Getúlio Vargas para a ala entreguista das Forças Armadas, que ficou muito insatisfeita com a nacionalização do petróleo brasileiro.

    Embora tivesse havido forte resistência no interior das Forças Armadas brasileiras, construída por uma ala nacionalista, que se colocou totalmente contrária à linha de subordinação aos interesses estadunidenses, à política entreguista acabou prevalecendo entre a elite militar brasileira. Já no início da década de 1960, o comando das Forças Armadas brasileiras já está totalmente aliado e subordinado aos EUA.

    Ideologias como “defesa nacional”, “inimigo interno” e “perigo comunista”, produzidas em Washington e disseminadas entre os militares brasileiros, principalmente através das suas escolas de formação, como a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), foram à base para as tentativas golpistas frustradas durante a década de 1950 e início da década de 1960.

    Até que, em 1964, é desferido o golpe militar, já em estreita e absoluta aliança com os EUA. As mais de duas décadas de ditadura militar marcam de forma inequívoca o atrelamento definitivo do nosso país aos interesses políticos, militares e econômicos estadunidenses.

    Em defesa da soberania nacional

    Bolsonaro não tem nada de patriota. Ele defende até hoje ideologias muito similares a estas que fundaram a sinistra aliança e subordinação dos militares brasileiros aos estadunidenses. Portanto, não tem nada de casual que o atual presidente eleito brasileiro preste continência para autoridades estadunidenses e até para a bandeira deste país imperialista.

    Com esse gesto, ele faz nada mais nada menos, do que fizeram sempre a maioria dos generais brasileiros, como Dutra, Góes Monteiro, Castelo Branco, Golbery e tantos outros. Ou seja, “se ajoelhar” diante dos seus chefes ianques.

    Mais uma vez, a defesa da nossa soberania nacional, assim como de nossos irmãos latino-americanos, cairá sobre os ombros do povo trabalhador, da juventude e dos oprimidos. Essa tarefa será, com certeza, uma das mais importantes durante o governo de Bolsonaro.

     

    Referência Bibliográfica:

    . BARBOSA, Jefferson; GONÇALVES, Leandro; VIANNA, Marly; e CUNHA, Paulo (Organizadores), MILITARES E POLÍTICA NO BRASIL, Expressão Popular, São Paulo, 2018.

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  • 25 de novembro: Em defesa da vida das mulheres

    O 25 de novembro é Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher. A data é uma iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU) e abre o calendário “16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres”, uma campanha anual global que acontece de 25 de novembro a 10 de dezembro.

    No Brasil os dias de ativismo iniciam-se no dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. A motivação disso é a combinação explosiva do racismo com o machismo. Além da violência doméstica e familiar, o racismo é um fator preponderante que coloca a vida das mulheres em risco no nosso país.

    Os números da violência brasileira
    Ato contra a violencia

    Ato em Curitiba. Foto Gibran Mendes/Fotos Públicas

    Segundo o Instituto Patrícia Galvão em 2016 o Brasil registrou 4.645 mulheres assassinadas, ou seja, 13 mortes violentas de mulheres por dia representando uma taxa de 4,5 homicídios para cada 100 mil brasileiras, um aumento de 6,4% no período de dez anos (Atlas da Violência 2018). O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) divulgou que em 2017 foram registrados 4.829 sentenças por feminicídio Os tribunais de justiça de todo o país movimentaram 13.825 casos de feminicídio em 2017: 3.039 processos foram baixados, restando pendentes ao final do ano 10.786 processos (O Poder Judiciário na Aplicação da Lei Maria da Penha – CNJ, 2018).

    Em 10 anos, a taxa de mortes de mulheres negras subiu, enquanto a de não negras caiu.

    Os altos índices de violência revelam, sobretudo, o peso do racismo estrutural na nossa sociedade: a taxa de homicídios é maior entre as mulheres negras correspondendo a 5,3 por 100 mil brasileiras e de 3,1 por 100 mil brasileiras entre as mulheres não negras (Atlas da Violência 2018 ). Uma diferença de 71% .

    O medo e terror da violência cotidiana caminham junto com as mulheres negras no nosso país. A militarização da vida nas favelas e periferias não permite o mínimo de tranquilidade, de paz. Todos os dias milhões de mulheres negras acordam e batalham para conseguir chegar ao fim do dia vivas, com dignidade.

    Violência x Resistência

    Vivemos uma pandemia da violência contra as mulheres. Estima-se que uma em cada três mulheres em algum momento da vida será vítima de violência. Este fenômeno não é recente, assim como as formas de resistência em resposta à intensificação da violação aos direitos das mulheres.

    Em tempos de tamanho retrocesso em nosso país é necessário defendermos conquistas, ainda que limitadas, como a Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio.

    Acompanhamos várias movimentações globais de resistência e denúncia contra a violência às mulheres como observado nas redes sociais, reunidas pelas hashtags #MeToo”, “#NiUnaMenos” e também o nosso “#EleNão”.

    Ao mesmo tempo em que a luta e resistência cresce por parte das mulheres, também cresce a reação do outro lado.

    O avanço da extrema direita em diversos países, a vitória de Trump nos EUA e a de Bolsonaro no Brasil têm relação direta com a tentativa de frear as mulheres em movimento. Eles combinaram de nos calar e matar; combinaram de nos mandar de volta para cozinha, para senzalas modernas e armários. Nós precisamos combinar a nossa resistência gigante, unitária e viva!

     

  • Defender a aposentadoria contra a Reforma de Bolsonaro

    Dia 22 de novembro é dia nacional de mobilização em defesa da Previdência, convocado pelas principais centrais sindicais do país. A data faz parte de uma campanha permanente em defesa da aposentadoria, diante da ameaça que representa a reforma da Previdência que Jair Bolsonaro já disse que será prioridade de seu governo.

    A reforma da Previdência já é prioridade desde o governo golpista de Michel Temer. Ele não conseguiu aprovar a reforma, pois enfrentou mobilizações dos trabalhadores, como a greve geral de 28 de abril de 2017 e também graves crises políticas, como a decorrente das denúncias de Joesley Batista, da JBS.

    A reforma da Previdência é a mais desejada pelo grande capital e a mais temida pelos trabalhadores. Devido à sua impopularidade, não foi tema de destaque na campanha eleitoral do presidente eleito, Jair Bolsonaro. No entanto, tão logo foi anunciada sua eleição, Bolsonaro e Paulo Guedes já trataram de se comprometer com os ataques à aposentadoria, chegando a afirmar que, embora a reforma proposta por Temer não fosse suficiente, gostariam de aprová-la ainda neste ano e, no próximo, avançar em direção a uma reforma mais profunda.

    A reforma mais profunda de Bolsonaro é, na verdade, o fim da Previdência publica, com a implementação do sistema de capitalização, que funciona exatamente como um plano de previdência privada, em que o trabalhador faz a própria poupança e terá direito a receber, na aposentadoria, aquilo que recolheu durante sua vida laboral. Hoje, a Previdência no Brasil funciona sob um sistema de repartição, de solidariedade entre gerações, em que os trabalhadores ativos pagam a aposentadoria dos inativos.

    O modelo de capitalização é aplicado no Chile há 35 anos, tendo sido implementado durante a ditadura de Pinochet. A contribuição do trabalhador, que deve ser de, no mínimo, 10% do seu salário, fica depositada em uma conta individual e é administrada por empresas privadas, que podem investir no mercado financeiro. Lá, o trabalhador precisa contribuir por, no mínimo, 20 anos para poder se aposentar, respeitando as idades mínimas de 65 anos para homens e 60 para mulheres. Somente o trabalhador contribui, não havendo contribuição dos empregadores ou do Estado.

    Os resultados são assustadores: hoje, 90,9% dos aposentados recebem menos de 149.435 pesos (equivalente a R$ 694,08), enquanto o salário mínimo no pais é de 264.000 pesos (cerca de R$ 1.226,20). A principal explicação é que os trabalhadores, principalmente devido a informalidade, não conseguem contribuir o suficiente para recolher o beneficio depois.

    Agora, imaginemos esse modelo no Brasil de Temer e Bolsonaro, em que já está em vigor uma reforma trabalhista que retira diversos direitos, uma lei que libera geral as terceirizações e precariza os empregos e o presidente eleito já avisou que, se depender dele, os trabalhadores terão que escolher entre emprego ou direitos.

    A eleição de Bolsonaro coloca como tarefa imediata para as organizações dos trabalhadores a organização de frentes comuns para lutar. Entre as lutas necessárias, a defesa da aposentadoria tem importância fundamental. A luta contra a reforma da Previdência foi responsável pelas principais mobilizações dos trabalhadores durante o governo Temer. Agora, é preciso voltar com força a este debate, em cada local de trabalho, estudo e moradia, pois a reforma proposta é muito mais profunda e está em jogo o direito à aposentadoria das futuras gerações.

    Reunir as centrais sindicais e deliberar por uma campanha permanente foi uma importante iniciativa. O dia 22 deve ser um primeiro passo. Após este pontapé inicial, devemos avançar no calendário unificado de mobilizações e jogar nossos esforços para realmente envolver a classe trabalhadora nesta luta, reunindo a força necessária para barrar esta reforma e defender nossas aposentadorias.

    Foto: EBC

     

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    Centrais farão campanha em defesa da Previdência e atos nos dias 22 e 26

     

  • Sinais de fascismo, voluntarismo e uma nau sem rumo: os primeiros dias do governo eleito

    Decifrar os sinais emitidos pelo governo eleito há pouco mais de duas semanas do segundo turno, não é tarefa fácil, mas por se constituir em uma necessidade, é preciso algum exercício de especulação à luz do que vem sendo dito e do que está sendo feito na montagem do novo governo, o que inclui as articulações para a composição do ministério.

    Como ideologia, sem ter sido capaz de se constituir em movimento, o discurso de Bolsonaro e do núcleo duro dos que estão no seu entorno, permanece um discurso fascistizante. Em que pese que Bolsonaro tenha atenuado o tom histriônico que o caracterizou ao longo dos 28 anos como congressista, algo que ativou um embrionário, mas demasiadamente perigoso movimento fascistizante com grupos organizados e indivíduos que correram para proclamar a “nova era” bolsonarista, parece evidente que pressões exercidas pelas direitas tradicionais desde sua vitória nas urnas determinaram algum nível de moderação. Bolsonaro já minimizou falas mais agressivas de seu homem forte da economia, também já pediu desculpas à ministra Rosa Weber pelo que chamou de “caneladas durante a campanha eleitoral” e até moderou o tom em alguns quesitos, mas não se pode esperar que não siga atendendo ao projeto que permitiu a sua eleição, tanto pelo fato de que a parte fascista do seu eleitorado vai seguir lhe pressionando pela extrema-direita, quanto porque sabe que a sua força subjaz no discurso antissistêmico, algo avesso a política e ao agentes econômicos que se movimentam em torno dos projetos de poder.

    Se Bolsonaro é a negação da política da forma como a conhecemos e da forma como foram efetivados os acordos ao nível da concertação estabelecida pela Nova República, parece evidente que diversas pressões já vem sendo efetivadas no interior da sua equipe de modo a trazê-lo ao pântano seguro da política habitualmente praticada pelos setores conservadores e das direitas tradicionais. Sobre o assunto, é Onyx Lorenzoni, deputado do DEM, que deverá ser responsável pela Casa Civil do novo governo, é aquele que se movimenta para assentar o presidente eleito dentro do terreno seguro das direitas tradicionais, afastando-o da alternativa fascista baseada na mobilização de setores de massa. Para que tal movimento se efetive, Lorenzoni precisará sepultar as acusações de caixa 2 que pesam sobre si, algo absolutamente comum nas práticas políticas dos últimos 30 anos, mas  que arrepia o fiel eleitorado bolsonarista que fez sua aposta contra tudo o que está aí sob a marca de um insustentável discurso de honestidade e anticorrupção.

    Todavia, é justamente por não estar mais diretamente na esfera do controle político exercido por grupos econômicos que Bolsonaro ensaia formas novas do que parece ser um voluntarismo desenfreado e com pouco controle dos agentes econômicos que habitualmente operam a política do país. Por conta disso, Bolsonaro caminha erraticamente em relação aos ministérios que pretende manter e a novas pastas que serão criadas, da mesma forma que indica personagens absolutamente incomuns para dirigir alguns dos ministérios mais importantes. A começar pelo fato de que, para manter a promessa de reduzir o número de ministérios ao mínimo do que acha ser possível para governar, Bolsonaro vai extinguir a pasta da Indústria e Comércio, contra a grita das frações da burguesia interna que lhe depositaram esperanças, após terem rompido com o PT. A pasta, que será extinta, juntamente com a Fazenda e o Planejamento, deverá ser concentrada num super-ministério da Economia sob controle do Chicago boy e ultra-neoliberal Paulo Guedes, alguém que promete abolir as tarifas de importação, para desespero dos industriais do país.

    Se são relativamente conhecidos os projetos ultra-neoliberais da equipe de Bolsonaro colocada sob o comando de Paulo Guedes, algo que ainda inclui a reforma da Previdência, a redução drástica de direitos permitida pela reforma trabalhista e pela lei de terceirizações, algo que se completa com a escassez de recursos oriunda da EC 95 e da prometida redução do Estado, é em outros setores que o novo governo demonstra total falta de projeto, algo que nos remete à imagem de uma nau sem rumo.

    Sobre a Educação, para além das suas disposições criminalizadoras sobre o direito de ensinar, algo que gira em torno dos projetos vinculados ao movimento Escola sem Partido, mas também surge no bojo dos mecanismos de perseguição instituídos ao arrepio da lei em diversas universidades pelo país, sua falta de projeto repercute anúncio da vinculação das universidades ao Ministério da Ciência e Tecnologia, uma pasta que estará sob a responsabilidade do inexpressivo astronauta Marcos Pontes. Como se sabe, Bolsonaro voltou atrás na intenção de colocar as universidades sob a direção da Ciência e Tecnologia, mas pouco se sabe do que pretende com a indicação de Pontes.

    Na Educação, uma pasta que deve fundir os ministério da Cultura e o ministério dos Esportes, as especulações em torno de nomes tão díspares como Mendonça Filho, ex-deputado do DEM e ex-ministro de Temer, do general Aléssio Ribeiro Souto, membro da equipe técnica para a área de Educação da campanha de Bolsonaro, além do homem da educação à distância Stravos Xanthopoylos, conhecido como grego, e Viviane Senna, presidente do Instituto Ayrton Senna, que começou a aparecer com mais destaque nos últimos dias, dão provas de que Bolsonaro não tem a mínima ideia do que pretende para a área. Para além do que já se sabe, pois consta no seu programa de governo ou foi repetido inúmeras vezes durante a campanha, algo como aumentar o ensino a distância, reduzir investimentos nas universidades, combater a “ideologia de gênero” e a “doutrinação marxista” nas escolas e universidades, o novo governo não parece ter a mínima ideia do que fazer no setor, algo tão distante dos seus homens de confiança como é a Filosofia para Bolsoanro, que em diversas aparições posou com um livro de Olavo de Carvalho nas mãos, pensando estar ao lado do livro de um filósofo.

    Foi, entretanto, com a indicação do embaixador Ernesto Araújo para o Ministério das Relações Exteriores, que o governo Bolsonaro demonstrou de maneira cabal que não tem a mínima ideia sobre como governar o país. Apenas para que se tenha uma ideia, o novo ministro, a quem Bolsonaro chamou de “brilhante intelectual” e de quem se espera que faça comércio e trave relações internacionais “sem viés ideológico” (sic), é alguém que mantinha um blog no qual se referia ao PT como “Partido Terrorista” e ainda escrevia querer ajudar “o Brasil e o mundo a se libertarem da ideologia globalista”, acrescentando que “Globalismo é a globalização econômica que passou a ser pilotada pelo marxismo cultural. É um sistema anti-humano e anti-cristão”.

    Bolsonaro foi eleito há duas semanas, tempo insuficiente para sabermos efetivamente sobre como será o seu governo, mas já o bastante para entendermos as fortes emoções que atravessaremos em 2019. De um futuro ministro da Economia que não sabe o que é uma Lei Orçamentária Anual (LOA), a declarações “ameaçadoras” capazes de fazer com que a Organização Panamericana de Saúde (OPAS) rompesse relações com o Brasil, determinando o retorno de mais de oito mil médicos cubanos para a ilha, algo que  determinará que quase 30 milhões de brasileiros ficarão desassistidos por profissionais que vinham se destacando pela dedicação, humanismo e empatia, até as promessas de perseguição à esquerda e criminalização crescente dos movimentos sociais da parte do superministro da Justiça Sérgio Moro, o fato é que o Brasil dos próximos anos será um país com constantes desafios à nossa capacidade de interpretação, mas ainda maiores desafios de resistência e sobrevivência aos duros e sombrios tempos que nos são todos os dias prometidos.

    FOTO: O presidente eleito Jair Bolsonaro e o futuro ministro das Relações Exteriores, embaixador Ernesto Fraga Araújo, concedem entrevista à imprensa no CCBB. Valter Campanato / Agência Brasil

  • Uma polêmica com o balanço eleitoral do MES

    O debate de ideias na esquerda socialista é parte do melhor da tradição marxista. Há pelo menos dois anos desenvolvemos visões distintas do MES (Movimento Esquerda Socialista) sobre importantes fenômenos da luta de classes no Brasil: a Lava Jato, o sentido das mobilizações de 2015, a profundidade do golpe parlamentar, a prisão de Lula. Mas isso não diminui o respeito mútuo e os nossos acordos – partilhamos uma herança comum na Quarta Internacional, somos do mesmo partido e temos inúmeros objetivos comuns na luta pela construção de uma alternativa de esquerda para a crise brasileira.

    O MES foi uma das correntes fundadoras do PSOL. Esse acerto deve ser sempre reconhecido e lembrado. A candidatura de Luciana Genro em 2014, felizmente aceita pelo PSOL depois da renúncia de Randolfe Rodrigues, fez a bandeira da esquerda socialista brilhar. Além disso, o MES foi uma das primeiras correntes do PSOL a se posicionar pelo acolhimento do ex-MAIS no PSOL, em 2016, e nunca esqueceremos essa solidariedade. Tudo isso nos une. E tem muito valor. Queremos construir relações de confiança. Mas isso só é possível esclarecendo as divergências, como já fizemos de forma respeitosa contra a posição desta corrente, quando esta defendeu uma suposta progressividade da Lava Jato.

    Nos referimos neste texto ao balanço eleitoral publicado pela sua Coordenação Nacional, no qual faz uma avaliação da situação brasileira e do lugar do PSOL da qual discordamos.

    Essa avaliação parte da premissa de que a explicação para o crescimento de Bolsonaro e da extrema direita neofascista é um sentimento predominante de renovação, “contra tudo que está aí”. E a partir daí, o texto apresenta um balanço duro do PSOL:

    “a esquerda crítica ao PT perdeu oportunidades para converter-se num polo anticapitalista e anti-regime com grande audiência nacional. A escolha do PSOL, desde 2015, de abster-se nos momentos mais decisivos, de adotar uma posição independente do PT impediu que surgisse uma alternativa à esquerda com peso de massas. Esta ausência cobra seu preço quando frações da classe trabalhadora, das massas populares e da pequena-burguesia, que poderiam ser convencidas por nossas ideias, iludem-se por uma liquidação reacionária do regime da Nova República.”

    Trata-se de uma crítica muito grave. O PSOL teria sido, de alguma maneira, corresponsável pelo crescimento de Bolsonaro e do neofascismo no Brasil, colocando-se como um empecilho para que a esquerda radical capitalizasse a crise brasileira.

    Por que Bolsonaro conquistou influência  eleitoral de massas?

    Desde março de 2015, com as grandes mobilizações da classe média urbana mais abastada, assistimos a uma ofensiva  burguesa. Essa ofensiva inverteu a relação social de forças de forma desfavorável para a classe trabalhadora e sua juventude. As mobilizações pelo impeachment de Dilma Rousseff alcançaram a dimensão de vários milhões, a votação no Congresso consagrou o golpe parlamentar e ocorreu uma derrota política que não foi somente uma derrota do PT, mas abriu-se uma ofensiva de classe que provocou avanços concretos sobre a classe trabalhadora, como a reforma trabalhista e a PEC do teto de gastos.

    O debate sobre esta mudança qualitativa na situação política é parte importante das nossas diferenças de caracterização e política. O MES considera que o impulso de junho de 2013 permaneceu ininterrupto, vivo, até agora, em outubro de 2018, às vésperas do início do governo Bolsonaro.

    Evidentemente existe luta e resistência, as derrotas não são o “fim da história”, o jogo continua sendo jogado. Há disposição de luta nos setores mais jovens  e entre os oprimidos e essa é nossa fortaleza para enfrentarmos este cenário. Houve uma potente resistência, que barrou a reforma da Previdência, mas não sendo suficiente para inverter o signo da correlação de forças, a reação burguesa pôde avançar.

    Bolsonaro capitalizou, em uma situação de crise política, social e econômica, o crescente antipetismo na classe média, fomentado pelos grandes grupos econômicos e de mídia. Foram três anos de propaganda massiva contra o PT. A operação Lava Jato teve como objetivo principal derrubar o governo Dilma e criminalizar o PT, foi um dos agentes decisivos do golpe. E posteriormente, em um segundo momento, condenou, prendeu e impediu Lula de ser candidato a presidente da República. Ela teve papel decisivo para a evolução negativa da situação política. Ela alimentou, na pequena burguesia enraivecida pelo impacto da crise econômico-social, a ideologia reacionária de que o maior problema do Brasil seria a corrupção do PT. Finalmente, uma parte da classe trabalhadora do Sul e Sudeste foi arrastada para a base social da reação. Para completar o caráter reacionário da Lava Jato, Sergio Moro acaba de anunciar que será o superministro da Justiça do governo Bolsonaro.

    Não é de se estranhar que, por conta dessa avaliação equivocada a respeito da Lava Jato, Roberto Robaína, aponte o superministério nas mãos de Moro como um elemento contraditório do governo Bolsonaro, uma espécie de ala disputável do governo.

    Vemos o oposto: o superministério de Moro desnuda que a Lava Jato era uma operação política, com o objetivo de abrir caminho para a ofensiva brutal de classe da burguesia. Antes a partir dos poderes de um juiz de primeira instância, agora com os poderes de ministro.

    A desmoralização do PSDB, com os escândalos envolvendo Aécio Neves e sua participação desastrosa no governo Temer, ajudou Bolsonaro a se conectar com a base social do golpe, pressionada pelo aumento dos custos dos serviços. Não conseguiam mais pagar a dívida da casa própria, do carro e até do estacionamento, o plano de saúde, a escola particular dos filhos, a mensalidade do clube, a empregada doméstica. O agravamento da insegurança pública acendeu o rastilho de pólvora do ressentimento social.

    O rancor social se identificou, profundamente, com o discurso de ódio de Bolsonaro criminalizando a esquerda pela crise. Não fosse tudo isso o bastante, Bolsonaro inflamou o racismo, o machismo e a LGBTfobia naqueles que viam com desgosto as pequenas conquistas dos oprimidos.

    O “bode expiatório” tinha sido encontrado. A conivência das instituições ajudou. A justiça, o parlamento, o ministério público se calaram perante a ofensiva reacionária da extrema-direita. Por fim, com o fracasso de Alckmin, depois dos resultados do primeiro turno, a maioria da burguesia brasileira aderiu à candidatura de Bolsonaro.

    A evolução da situação política desautorizou as caracterizações do MES. A Lava Jato não cumpriu um papel progressivo “limpando a política das velhas castas”. Ao contrário, foi elemento decisivo da virada reacionária na situação política. O regime democrático eleitoral, o semipresidencialismo consagrado pela Constituição de 1988 passou a ter elementos bonapartistas, autoritários, mais acentuados. Jair Bolsonaro lidera uma corrente eleitoral de massas e grupos neofascistas estão tendo um protagonismo inédito na história recente do Brasil.

    O papel do PSOL e da aliança nas eleições de 2018

    A tarefa do PSOL na situação aberta após o golpe parlamentar e, portanto, nessas eleições era, centralmente, lutar contra a ofensiva de classe da burguesia. Esta ofensiva se expressou através dos ataques aos direitos da classe trabalhadora e às liberdades democráticas impostos pelo governo Temer. Esta tarefa era indivisível do enfrentamento com Bolsonaro. Porque desde o início da campanha era inconfundível que Bolsonaro era a candidatura com maior força eleitoral, já que a prisão de Lula deixava o PT descabeçado. Mais grave, depois do episódio do atentado da facada em Juiz de Fora do dia 6 de setembro, ficou claro que Alckmin não conseguiria recuperar a influência eleitoral do PSDB.

    É inequívoco o papel do PSOL nas lutas contra o golpe e contra Bolsonaro. As denúncias que fizemos nas eleições, especialmente nos debates, tendo Guilherme Boulos como porta voz, a política foi certeira: enfrentamento prioritário a Jair Bolsonaro, revogação das reformas de Temer, contra a reforma da Previdência, contra as privatizações, reforma tributária progressiva e etc.

    Mas existe outra tarefa estratégica que cabe ao PSOL. Ela é cara tanto para o MES quanto para a Resistência. Mas seria injusto não reconhecer que ela foi assumida, também, pela aliança entre PSOL, MTST, PCB, Mídia Ninja e APIB. A tarefa de fortalecer um polo de independência de classe em condições de superar o PT, e se colocar como alternativa de direção ao movimento de massas.

    O MES avalia que diante dessa tarefa fracassamos. Mais grave. Que teríamos sido, em alguma medida, de alguma maneira, responsáveis pela audiência da extrema direita. Porque a campanha Boulos/Sonia, ao não ter uma política independente do PT, não teria sido capaz de dialogar com um setor de massas e da vanguarda antipetistas. Tentar semear uma alternativa de esquerda no campo do antipetismo é uma grande ilusão. O antipetismo é anti-estatais, é pró-privatizações, é anti-povo, é misógeno, racista e LGBTfóbico. É infantil achar que era possível ganhar às massas em meio a uma situação reacionária, onde as ideias da esquerda radical estão em completa minoria. A linha correta era de combate ideológico. Justamente por isso, consideramos que o respeito conquistado pelo PSOL, nestas eleições, nunca foi tão grande. Consideramos que Boulos se transformou em uma das maiores lideranças de massas da esquerda brasileira e que afirmamos uma alternativa ao PT.

    Resta saber o que os companheiros interpretam como uma política independente do PT. Não consideramos que a defesa de Lula contra a sua prisão arbitrária tenha rompido com a independência política do PSOL, pois se deu nos marcos de uma frente em defesa das liberdades democráticas. Participamos com nossa própria pré-candidatura, sem nos comprometer com o programa petista. Não acreditamos que seria correto ignorar, no primeiro debate na TV, que o primeiro colocado nas pesquisas estava preso por uma operação política, que no momento em que escrevemos este texto está evidente.

    No entanto, essa posição não nos impediu de criticar o PT. Denunciamos as alianças nos estados com MDB, inclusive, no debate na TV. A diferenciação também se deu nos marcos do programa defendendo investimento público na educação, desmilitarização das polícias, contra a reforma da Previdência, contra os privilégios do judiciário, legalização do aborto e etc. Para ilustrar trazemos algumas matérias da grande imprensa: “Boulos critica ‘beija-mão’ de Haddad a caciques do MDB e diz que é ‘caso de masoquismo” (Folha de S. Paulo), “Boulos critica encontro de Haddad com Renan e diz ser único candidato que ‘enfrenta de verdade esse sistema”  (G1).

    A campanha teve, certamente, erros. Em nossa opinião foram quantitativos, não qualitativos. A Resistência fez, por exemplo, ao lado do MES, nos organismos do PSOL e até publicamente, um debate para que se incorporasse o tema da auditoria da dívida pública, que consideramos essencial.

    Nesse sentido discordamos, frontalmente, que não houve independência do PT na campanha de Guilherme Boulos e do PSOL. E consideramos, mais que um exagero polêmico, um desatino, a acusação de que a linha da campanha do PSOL tenha entregue parte das massas a Bolsonaro.

    Portanto, se o MES entende por “independência do PT” que a campanha não deveria ter se posicionado, ativamente, contra a prisão de Lula, divergimos. Ou, se o MES entende que não deveríamos ter buscado impulsionar a frente antifascista depois do assassinato de Marielle, a partir do ato no Circo Voador, no Rio de Janeiro, diante dos ataques à caravana Lula, estamos diante de outra discordância.

    Porque todos estes ataques, e muitos outros, são contra às liberdades democráticas, aos movimentos sociais, e à toda a esquerda, não só ao PT. Na verdade, estes  posicionamentos fazem com que tenhamos futuro. O PSOL passou na prova da história. Não esperamos Bolsonaro chegar às portas do poder para construir a frente antifascista que hoje se coloca na ordem do dia. Que bom que cálculos eleitorais não nos cegaram nesse momento histórico.

    O antipetismo é um caminho válido para a tarefa necessária de superação do PT?

    É evidente que a burguesia, especialmente através da extrema-direita, tem hoje a iniciativa política e por isso acaudilha outros setores sociais e arrasta parte da classe trabalhadora. Nossa tarefa é sim inverter o signo e buscar com que nossas organizações e a classe trabalhadora dividam a classe média e arrastem uma parcela expressa dela e do sub proletariado. É preciso disputar, sim, amplas massas proletárias e subproletárias que enxergam nas propostas reacionárias de Bolsonaro uma saída para a situação desesperadora na qual se encontram. Mas o antipetismo não é um atalho válido para essa disputa, porque ele é reacionário e alimenta ideologicamente as forças sociais contrárias a nós.

    A tentação de “pegar carona” no repúdio ao PT embrulhado no discurso anticorrupção nos levaria a um beco sem saída. O ódio da classe média contra o PT foi incendiado pela LavaJato, mas tem raízes de classe mais profundas e complexas e, infelizmente, reacionárias. Não é um sentimento democrático progressivo.

    O caminho para fazer essa disputa é nos ligando com os anseios da classe trabalhadora na sua experiência com este governo. Será, portanto, a campanha política e a luta contra a reforma da Previdência já anunciada, a luta contra a privatização do ensino público superior, a luta contra uma anunciada reforma trabalhista ainda mais radical, a luta contra as privatizações, o desmascaramento da Lava Jato como operação política e o desmascaramento das entranhas corruptas deste governo. Enfim, é necessário nos apresentar para as lutas na defesa da classe trabalhadora para nos reconectarmos com os setores da classe trabalhadora iludidos com o neofascismo.

    Não é qualquer ruptura com o PT que é progressiva. Não é qualquer caminho que nos serve para reconquistar as massas desiludidas com o PT, é preciso um caminho que busque reverter a deseducação promovida pelo próprio PT. Devemos ser instrumentos para retomar o classismo, a independência de classe, a desconfiança das instituições burguesas, inclusive do judiciário e da polícia. Nossas ideias certamente encontrarão terreno para serem semeadas na luta de resistência nas quais seremos linha de frente.

    Da mesma maneira devemos dialogar com os setores de esquerda iludidos com Ciro Gomes, como alternativa de esquerda. Aliás Guilherme Boulos tem a simpatia de parte importante do ativismo que votou em Ciro. Como político burguês que é, se restringirá a imprensa e a luta institucional.

    É verdade que Ciro Gomes fez essa opção de cavalgar num suposto “antipetismo” independente. Vejamos onde foi parar: durante a campanha de segundo turno, a opção de Ciro Gomes por preservar uma imagem de oposição ao PT determinou que tivesse fora da frente democrática e do enfrentamento a Jair Bolsonaro e o neofascismo. Ciro preferiu preservar sua imagem de oposição ao PT pensando nas eleições de 2022 e apostando que mais a frente pode ser aceito por uma parcela da burguesia brasileira. Um projeto que busca construir uma esquerda “neo-desenvolvimentista” por dentro da burguesia, e não por organizações da classe trabalhadora. Por isso, surge como um adversário político que precisa ser derrotado no próximo período. Não podemos absolver Ciro dos seus erros e irresponsabilidades políticas perante a gravidade da situação política aberta no segundo turno com a possibilidade de vitória de Bolsonaro que acabou se confirmando. É decisivo que de maneira unificada façamos esse balanço.

    Mas resta o argumento de que o “antipetismo” de Ciro poderia ter vencido, no segundo turno, Bolsonaro. Esta é uma hipótese que nunca vai se comprovar por não ter efetivamente se dado, o que não impediu que parte da esquerda fizesse um cálculo eleitoral. Alguns consideraram que Ciro Gomes poderia ser uma opção mais viável que Haddad para vencer Bolsonaro no segundo turno. Sabemos que esta não foi a posição do MES, que se manteve firme na defesa da candidatura Boulos, mesmo tendo apoiado como pré-candidato Plínio de Arruda Sampaio Jr.

    Mas a presunção de que Ciro Gomes não seria atingido pelo antipetismo é equivocada. A verdade é que esse movimento de pensar o melhor candidato para derrubar Bolsonaro menospreza a ofensiva reacionária em curso e que o antipetismo é também anti-esquerda e anti-direitos, ou seja, Ciro Gomes também sofreria o impacto dessa reação.

    O documento da coordenação nacional do MES também afirma:

    “O que devemos debater com a base petista é que Lula inviabilizou qualquer política de frente democrática, resultando numa linha hegemonista que debilitou o diálogo com quem rompeu ou não quer se colocar no espectro petista. A falta de uma autocrítica de Lula e da direção do PT levou a afastar Ciro de um empenho militante no segundo turno, mesmo que tenha tido uma votação ampla dos setores democráticos.”

    É verdade que o PT frequentemente tem uma postura hegemonista no movimento de massas, na frente única e nas frentes democráticas, enfraquecendo a unidade necessária para combater a burguesia. Nós lutamos contra tal hegemonismo e por uma frente que realmente possa unificar a classe trabalhadora em defesa das liberdades democráticas. Mas não concordamos que qualquer justificativa caiba para amenizar a traição de Ciro Gomes que abandonou o país durante um dos períodos de mais agonia, diante da luta para tentar impedir que um neofascista chegasse ao poder.

    Não acreditamos que o PT deveria ter aberto mão da luta contra a prisão de Lula, contra a operação política reacionária de prender o primeiro colocado nas pesquisas. Mas debater as táticas eleitorais do PT é cair na lógica de que as eleições se deram em uma correlação de forças totalmente aberta, é cair na lógica eleitoral, é ajudar a manter sob a neblina os reais erros do PT, que são mais graves do que um possível erro eleitoral.  O maior erro da direção do PT foi não ter aproveitado a oportunidade aberta pela greve geral de abril de 2017 contra a reforma da Previdência do governo Temer. Ela abriu uma janela, quando o escândalo das denúncias da JBS, deixou o governo Temer suspenso, a classe dominante dividida, e a luta pela antecipação das eleições diretas se colocou na ordem do dia. A direção do PT fez uma aposta errada, e foi um grande entrave para as mobilizações. O PSOL, ao contrário, respondeu com firmeza à nova conjuntura, a partir da iniciativa enérgica de convocação de atos de massas no Rio de Janeiro e São Paulo por Diretas. O PT preferiu apostar no respeito ao calendário eleitoral e na possibilidade de reverter, no TRF-4 de Porto Alegre, a sentença de Moro na primeira instância de Curitiba. A direção do PT tremeu com medo de ser acusada de tentar usar contra Temer as mesmas armas usadas pelo MDB/PSDB contra Dilma Rousseff. Sua “lealdade” ao regime foi até o limite do suicídio político.

    A unidade necessária para enfrentar Bolsonaro não pode nos impedir de criticar o PT. Mas o conteúdo da crítica faz diferença. O PT deve ser superado porque caducou historicamente. Não pode mais impulsionar a mobilização e organização independente dos trabalhadores. Foram anos de abandono da luta ideológica e do classismo depositando toda a esperança e insatisfação nas urnas e na institucionalidade. Isso custou mais do que a prisão de seu principal líder. Custou desmoralização entre os trabalhadores e enfraquecimento de suas entidades. Em treze anos de governo se fortaleceram as instituições repressivas do Estado e o Judiciário. A manutenção do mesmo aparato militar da ditadura sem a punição para os agentes da repressão fez crescer o genocídio da juventude negra, o encarceramento dos filhos da classe trabalhadora, e os deixou livres para que neste momento oferecessem a “ordem” como saída para a crise. Este é o conteúdo da crítica que propomos fazer ao PT.

    Caducar historicamente não é caducar politicamente e, por isso, o PT, após tamanha ofensiva, chegou ao segundo turno, e obteve a maior bancada da Câmara dos Deputados, e segue dirigindo o movimento social organizado de forma ainda majoritária. Isso significa que a diferenciação com o PT não deve ser sectária, nem nos impedir de dialogar com sua base, muito menos nos impedir de golpear juntos contra o fascismo.

    Por isso a superação do PT passa por nos apresentarmos na linha de frente para os enfrentamentos que virão. Passa por dialogar com as demandas concretas dos trabalhadores e passa por apresentarmos um programa anticapitalista, e isso não pode ser feito cortando caminho pelo atalho do antipetismo que é hoje uma ideologia reacionária.

    Para disputar amplos setores de massas hoje iludidos pelo fascismo é preciso reavivar o movimento de massas da classe trabalhadora e colocá-lo em ação. A frente única antifascista está no centro da tática política. É assim que disputaremos a consciência de milhões. A autoridade moral do PSOL diante dos setores que neste momento podem ser ganhos para a superação a esquerda do PT é imensa. Seja a base que votou em Ciro, seja a base que votou em Haddad.

    O enfrentamento dos setores oprimidos a Bolsonaro foi o fato político mais importante das eleições. Esse fenômeno segue uma tendência mundial. São as mulheres, negros, LGBTs e jovens que estão na vanguarda das lutas, em especial, contra a extrema-direita. Esse fato foi determinante para o crescimento eleitoral do PSOL e para que o partido ultrapassasse a cláusula de barreira. Isso porque estamos ligados às lutas dos oprimidos. Esse foi um importante passo para a construção da Frente Antifascista que devemos nutrir e fortalecer desde já. Aí também reside parte da votação expressiva que tivemos em nossas candidatas feministas, especialmente, as mulheres negras.

    A resistência pujante nas universidades e os atos do dia 29 de setembro apontam o caminho: organizar a resistência e construir aí uma nova esquerda!

    A vitória política da candidatura Guilherme Boulos e Sonia Guajajara

    A baixa votação da candidatura Boulos/Sônia Guajajara tem explicação. Foi o fenômeno do voto útil que foi antecipado para o primeiro turno como reação à ameaça Bolsonaro. O MES fez uma forte campanha e sabe que inúmeras pessoas justificavam o não voto em Boulos. Queriam votar em uma candidatura em condições de ir para o segundo turno enfrentar Bolsonaro.

    A explicação que o MES propõe para explicar a contradição entre votos proporcionais e votos para a chapa Boulos-Sônia é instrumental, e limitada a lógica eleitoral. O documento da coordenação nacional do MES afirma:

    “O PSOL teve, nesse marco, um desempenho eleitoral contraditório: se, por um lado, em sua localização nacional, o partido teve uma campanha presidencial fraca e recuou em sua capacidade de implantar seu projeto; por outro, o crescimento de suas bancadas federais e estaduais revelou justamente a força que uma política independente e colada ao movimento democrático pode ter…”

    “Guilherme Boulos, na preparação de sua candidatura, optou por uma linha política de não independência, que o impediu de apresentar um novo rumo para o país por não poder apresentar uma crítica real ao regime e a seus principais atores. Ao final da campanha, quando chamou a luta contra Bolsonaro, pôde encerrar sua participação nos debates eleitorais com dignidade. Pela construção anterior de sua candidatura, entretanto, Boulos não pôde apresentar-se como líder de um novo projeto.”

    Não é uma suposta diferença na linha política das candidaturas proporcionais na relação com o PT que explica a contradição. Em primeiro lugar, porque nossos deputados e deputadas eleitos não tiveram uma linha diferente em relação ao PT. Inclusive o perfil das candidatas eleitas do MES, Sâmia e Fernanda, eram bem próximos ao perfil do PSOL, e de forma alguma fizeram demarcações mais explícitas que as de Boulos com o PT em seus vídeos, programas de TV e materiais. Definitivamente as candidaturas eleitas, incluindo as do MES, não foram vistas por amplas massas e nem pela vanguarda como candidaturas que demarcavam uma suposta independência do PT ausente na candidatura presidencial. Parte dos votos de nossas candidatas e candidatos eleitos foram inclusive de setores petistas.

    Por outro lado há algumas possibilidades de aferir a política defendida pela Revista Movimento, que contraditoriamente não foi testada pelas candidatas eleitas do MES, mas por exemplo, pelo PSTU, que implementou uma variante da tática proposta pelos camaradas e navegou no “contra tudo que está aí”. Mesmo tendo Vera como candidata, uma mulher negra e nordestina, não saiu do primeiro turno com sua imagem ou prestígio aumentado  na vanguarda. Ao contrário, saiu ainda mais isolado, com menos votos do que nunca, e com ainda menos capacidade de mobilização. Outros candidatos do próprio PSOL, como o vereador Babá, da CST, com perfil de priorizar a crítica ao PT, ante o enfrentamento as alternativas da direita e extrema direita, tiveram resultados eleitorais baixíssimos que revelam que não foi essa a razão de sucesso da nossa importante e valorosa bancada.

    O posicionamento do PSOL de conjunto e da aliança estando na linha de frente da luta contra a extrema-direita e cumprindo um papel decisivo nas mobilizações de mulheres #EleNão do dia 29 de setembro potencializou nossas figuras públicas e foi decisiva para nossa vitória eleitoral. Esse mérito não é de uma corrente do PSOL, em especial, mas do partido de conjunto e da aliança que construímos, que soube se conectar a luta dos oprimidos, vanguarda da luta contra Bolsonaro.

    Justamente, por isso, entendemos que também houve nos proporcionais um voto de compensação, impulsionados inclusive pela campanha Boulos, e a simpatia que esta teve por parte da vanguarda. O PSOL acabou tendo uma vitória política e eleitoral, superando a cláusula de barreira, chegando a quase 3% dos votos para deputado federal.

    A vanguarda tem respondido aos chamados de Boulos e do PSOL a ação e esse é o objetivo mais almejado pelos revolucionários. A recepção de Boulos nas Universidades durante a disputa de segundo turno também  demonstram de forma inequívoca o prestígio que adquiriu nossa aliança na disputa eleitoral. Boulos sai como uma das principais figuras da esquerda no país, e o PSOL como o partido mais engajado na luta eleitoral e das ruas para derrotar Bolsonaro. Foram milhares de estudantes por onde passou. Boulos foi ovacionado no ato do dia 29 de setembro, assim como em todas as mobilizações do segundo turno no país e agora, depois do segundo turno, esteve a frente das mobilizações e plenárias convocadas no dia 30 de outubro.

    As Brigadas pela Democracia convocadas pela aliança já tem mais de 20 mil inscritos para se organizar conosco na luta contra o fascismo.

    Este saldo se deve a correta tática de lançar uma aliança entre PSOL, MTST, PCB, Mídia Ninja, APIB. Essa aliança, ao invés de enfraquecer o PSOL, como previa o MES, nos fortaleceu. Mesmo com votações superiores, nenhuma candidatura presidencial anterior do PSOL proporcionou tanta capacidade de mobilização social, nem teve tanto prestígio sobre setores mais amplos que a base do próprio partido. Tudo isso para nós é muito significativo, pois o PSOL está melhor localizado para disputar a direção das lutas, terreno onde o PT deve ser superado. Comparar essa votação com outros momentos políticos é descabido, já que a existência de uma corrente neofascista com peso eleitoral de massas é inédito.

    O MES se opôs a candidatura Boulos e Sônia. Talvez por isso, agora, defenda que a diminuição da votação de Boulos em relação à de Luciana Genro, por exemplo, confirmaria sua posição. Temos outros parâmetros. Será que o perfil “antipetista” defendido pelo MES ao sustentar Plínio de Arruda Sampaio Jr. nos colocaria em melhores condições para a disputa do movimento de massas, e para chamados à ação dos trabalhadores? Sairíamos com tanto prestígio reunindo milhares por onde passamos? Categoricamente, afirmamos que não.

    A disputa das massas para a esquerda socialista vai se dar, e já está se dando, nos conectando as lutas pelas suas demandas concretas, e de forma alguma pelo atalho reacionário do antipetismo. As críticas ao PT devem ser feitas no sentido de reeducar a classe trabalhadora contra a ideologia da conciliação de classes que o PT promoveu, no classismo, revelando o caráter das instituições repressivas do estado e o caráter dos governos. A chapa Boulos/Sônia, com um líder dos sem-teto e uma líder indígena conferiu ao PSOL mais força e enraizamento do que nunca. Por isso, essa aliança, longe de ser um erro, foi uma importante vitória política do PSOL, uma necessidade para que o PSOL pudesse se colocar na linha de frente da luta contra o neofascismo representado pelo governo de Bolsonaro e para que possamos superar o fracassado projeto de conciliação de classes defendido pelo PT.

  • Dez notas iniciais depois da eleição de Bolsonaro

    Passada uma noite, dá para começar a organizar as ideias. Em março de 1921, profundamente indignado com os resultados do Congresso da Confederacione Generale del Lavoro, que não tirou medidas concretas de enfrentamento ao fascismo, Gramsci escreveu: “Aumentou nosso pessimismo, mas é sempre viva e atual nossa divisa: pessimismo da inteligência, otimismo da vontade”. O que seguiu-se depois foi trágico, mas a história não se repete da mesma forma e a divisa é pertinente para o momento.

    1. A vitória eleitoral de um fascista é um evento terrível. É compreensível que estejamos tristes, arrasados, um tanto desorientados e profundamente decepcionados, inclusive porque todos temos pessoas próximas que revelaram serem algo que não imaginávamos. Mas é imprescindível ter claro que há uma diferença grande entre uma vitória eleitoral do fascismo e a instituição de um regime fascista. Devemos ter clareza de que qualquer discurso de moderação de Bolsonaro é uma simulação mal-feita, mas isto não significa que tenha o caminho aberto para instituir uma ditadura. A intenção existe, mas sua concretização não está dada e pode ser barrada.

    2. Há dez dias, desenhava-se uma vitória avassaladora de Bolsonaro. Não foi assim. Bolsonaro teve MENOS DA METADE dos votos DOS ELEITORES QUE FORAM VOTAR, e não chegou a 39% dos votos do eleitorado total. Para as condições da resistência, é MUITO diferente este resultado do que seria uma derrota acachapante. Não fosse a estúpida insistência da campanha petista até metade do segundo turno com “não ataquem Bolsonaro, quem não é visto não é lembrado, foquem apenas em Haddad”, este resultado poderia ter sido revertido.

    3. O outro lado deste processo é que, mesmo nas condições limitadas de uma eleição, reaprendemos a importância do trabalho de base. Em centenas de cidades, organizaram-se grupos incluindo muita gente com pouca ou nenhuma experiência de militância que percorreram os bairros ouvindo as pessoas, conversando e dialogando. Nos aproximamos do mundo real e avançamos no sentido da constituição de uma esquerda mais próxima da realidade e com maior capacidade de dialogar. Dar continuidade a isto permitirá na prática atropelar as visões e direções burocráticas que paralisam e obstaculizam a esquerda.

    4. Da minha experiência particular em um canto do Brasil onde Bolsonaro teve 71% no primeiro turno. Quase uma centena de pessoas – a ampla maioria jovem e sem filiação partidária – mobilizou-se, passou de casa em casa em todos os bairros populares ao longo de quinze dias e ouviu muito o que as pessoas tinham a dizer. As forças do outro lado eram poderosas demais, passando pela pressão empresarial, relações clientelistas e coação praticada dentro de igrejas. Uma visão simplória e rápida dos resultados eleitorais parece indicar que não tivemos êxito. Bolsonaro fez 77% dos votos. Mas Haddad passou de 3.961 para 6.664, o que significa 500 votos a mais do que a soma de sua votação com Ciro, Boulos, Marina, Vera, João Goular e Eymael. Ou seja, ainda que em uma dimensão insuficiente para mudar o resultado, o debate logrou reverter votos dados à direita e ao próprio Bolsonaro.

    5. Desta experiência salta aos olhos a impressionante consciência de classes das camadas mais pobres. Na quase totalidade das casas mais precárias, encontramos não apenas a disposição convicta do voto (muitas vezes com “se for do Bolsonaro nem entrega!”), mas um entendimento do significado desta eleição que surpreenderia muitos intelectuais. Por outro lado, em bairros populares de renda um pouco superior e casa relativamente melhores – naquilo que se convencionou chamar de classe “c” ou que nas pesquisas aparece como “2 a 5 salários mínimos”, encontramos não apenas uma avassaladora maioria bolsonarista, como também a expressão ideológica do empreendedorismo, da meritocracia e uma identificação entre pobreza e vagabundagem. São setores que ascenderam durante os governos petistas mas que além de ter sua ascensão apenas pelo consumo, foram educados a pensarem como burgueses.

    6. Encontramos muita reprodução de fake news bizarras. Nos últimos dias, ouvi muitas vezes que Haddad queima bíblias. Mas mais do que todas elas, me parece que um êxito fundamental da campanha de Bolsonaro foi ter conseguido, contra todos os dados da realidade, se apresentar como o anti-Temer e caracterizar Temer como produto do PT. Quando encontrávamos esta visão, nenhum argumento era capaz de desconstruí-la.

    7. Além de sua monumental incapacidade intelectual e propensão a proferir disparates, Bolsonaro tem pela frente uma enorme dificuldade. Por mais que entendamos que genericamente o voto nele expressa um conteúdo reacionário (algo inegável), ele é motivo por expectativas muito díspares, e grande parte delas será contrariada muito rapidamente. Ouvi muitos dizendo que votavam nele para voltar a ter gasolina e gás baratos!!! Podemos rir deste disparate, mas é melhor tentarmos entender. Ouvi buzinas de caminhão a noite toda e sabemos que a expectativa deles de uma redução do dieses é diametralmente oposta ao eixo do projeto de Paulo Guedes. A reforma da previdência – provavelmente ainda neste ano – deixará às claras a cumplicidade entre Temer e Bolsonaro e trará à luz um das principais razões do entusiasmo do “mercado” com ele. Se na alta classe média há clareza quanto ao sentido social reacionário e com isto perspectivas de manutenção de um apoio ao seu projeto real, no conjunto dos setores populares que o apoiou a decepção será rápida, ainda que se possa imaginar estratégias diversionistas, como a pauta moral. Mas na presidência não terá como sustentar-se apenas com isto.

    8. Bolsonaro tem um vice que é objetivamente um adversário político (com um projeto pessoal e posições ainda mais extremistas). Não sei como este conflito será gerido.

    9. Já escrevi sobre a necessidade de ter clareza em relação à cumplicidade da justiça na ascensão do fascismo. Não será a Justiça, ou as instituições do Estado como um todo que barrarão o fascismo. Ainda assim, a força da organização popular incide também neste aspecto e estarmos organizados e mobilizados, inclusive denunciando esta cumplicidade, é a única possibilidade de que algumas barreiras inclusive jurídicas sejam interpostas à escalada fascista.

    10. Por último, e mais importante: NÃO SAIAM DAS REDES SOCIAIS, NÃO SE ISOLEM. Só se pode enfrentar o fascismo com organização e ação coletiva. As razões para temer são muito concretas, mas só nos fortalecemos e nos protegemos coletivamente. O isolamento nos deixa mais vulneráveis, mais desprotegidos e mais impossibilitados de disputar a hegemonia. Avançamos muito nos últimos dias, é hora de nos protegermos, mas não é momento de nos isolarmos.

    *Gilberto Calil é doutor em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e professor do curso de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), integrando o Grupo de Pesquisa História e Poder. É autor, entre outros livros, de “Integralismo e Hegemonia Burguesa” (Edunioeste, 2011) e pesquisa sobre Estado, Poder, Direita, Hegemonia, Ditadura e Fascismo.

    FOTO: Apoiadores de Bolsonaro comemoram em Brasília. Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

     

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  • As elites brasileiras não têm compromisso com as liberdades democráticas

    Não distinguir entre os diversos tipos de regime político fez com que muitos subestimassem o crescimento das ideias reacionárias nos últimos anos. Alguns chegaram a considerar desnecessária a luta pela frente única com as organizações políticas, populares e sindicais “tradicionais” para defender as liberdades democráticas e os direitos porque a classe operária, média e a juventude teriam rompido totalmente com elas e estavam dispostas a seguir os que durante os 14 anos de governo do PT fizeram oposição de esquerda.

    Estamos longe de querer convencer aqueles que ainda consideram que o impeachment não foi um golpe parlamentar-jurídico-midiático no Brasil. O importante agora é fazer o possível e o impossível para viabilizar a virada. Sabendo que enfrentamos uma eleição antidemocrática.

    O vídeo do filho do Bolsonaro ameaçando o STF. As declarações do coronel da reserva Carlos Alves contra a presidenta do TSE. No vídeo, publicado numa rede social, o coronel fala que a ministra “não se atreva” a dar seguimento à ação eleitoral contra o candidato Jair Bolsonaro (PSL) ou “nós vamos derrubar vocês aí”. As ameaças públicas de Bolsonaro contra todos que não concordem com ele. Como bem definiu a jornalista Eleonora de Lucena, ex-editora-executiva da Folha de S. Paulo (2000-2010): “As palavras são ditas de forma crua, sem tergiversação – com brutalidade, com boçalidade, com uma agressividade do tempo das cavernas. Não há um mísero traço de civilidade. É tacape, é esgoto, é fuzil”.

    As intimidações ao jornal e a outros órgãos de comunicação só confirmam a expressão que Guilherme Boulos tem utilizado em suas postagens: “Cría cuervos y te sacarán los ojos”. Não adianta pedir desculpas 50 anos depois.

    Todos estes setores tramaram o golpe parlamentar-jurídico-midiático e construíram a narrativa para excluir o ex-presidente Lula da disputa eleitoral. Para realizar a “eleição do golpe”.

    O trem saiu dos trilhos, é verdade. Uma candidatura neofascista capitalizou o sentimento de raiva e desesperança. Mas que ninguém se iluda. Os arrivistas do mercado financeiro, o agronegócio, os banqueiros , os grandes industriais e os porta-vozes de todos eles, em todas as esferas de poder político, jurídico e midiático, já se reposicionaram. Para eles, pouco importam o país e seu povo. Só consideram seus lucros e privilégios.

    Os pronunciamentos cheio de pompa dos ministros do STF, editoriais do grupo Folha são para “para efeito de aparência, sem validez”, visam tão somente pressionar Bolsonaro para que ele não fale tanta bobagem a ponto de atrapalhar o planejamento original: concluir o golpe com a vitória de uma candidatura comprometida com o aprofundamento das medidas antipopulares iniciadas por Temer. Enquanto isso, nada de efetivo fazem contra as ilegalidades cometidas pelo candidato neofascista. Ao contrário, tomam decisões que o favorecem: a negativa de se tomar providências imediatas para comprovar os crimes eleitorais praticados por Bolsonaro em tempo hábil para cassar sua candidatura, o cancelamento do debate da Globo por causa da covardia do candidato fujão, as inúmeras ações da justiça eleitoral contra as entidades de classe e universidades públicas censurando o debate de ideias. O compromisso das elites brasileiras com as liberdades democráticas é zero. Cabe ao povo defender o que conquistamos com muita luta e sacrifício.

    A boa notícia é que parcela significativa da população tomou para si esta tarefa. E depois de muitos anos fragmentada, por razões absolutamente justificáveis, mas que não é hora de debater, a esquerda, em um sentido amplo da palavra, entendeu que precisa se unir para barrar o avanço das ideias reacionárias e autoritárias. Vamos à luta. Votando 13.

  • O guarda da esquina e a escalada fascista

    O jornalista Carlos Chagas costumava contar uma história: em meio à reunião em que se discutiu a edição do AI-5, enquanto o vice-presidente Pedro Aleixo apresenta ressalvas, o então ministro da Justiça, Gama e Silva, lhe pergunta: “Mas Dr. Pedro, o senhor tem alguma coisa contra as mãos honradas do presidente Costa e Silva que está aqui? É ele é quem vai aplicar o AI-5”, ao que Pedro Aleixo responde: “Não, das mãos honradas do presidente da República eu não tenho o menor medo, eu tenho medo é do guarda da esquina”.

    Decretado em 13 de dezembro de 1968, o Ato Institucional nº 5 foi o verdadeiro tour de force do regime implantado em 1964 e na feliz expressão do jornalista Élio Gáspari, foi o momento em que a ditadura perdeu a vergonha e escancarou de vez sua verdadeira face e mandou “às favas todos os escrúpulos de consciência”, como se referiu Jarbas Passarinho, ministro do Trabalho do ditador de plantão, na mesma fatídica reunião.[i]

    Apesar da extrema brutalidade, a ditadura militar existente no Brasil entre 1964 e 1985, não podia ser dita como fascista, isto pois não tinha surgido no rastro de uma crise econômica combinada com uma ofensiva contrarrevolucionária surgida da derrota da revolução mundial e também porque não conseguiu reunir em torno de si nenhuma espécie de consenso ativo em setores da sociedade civil agrupados num partido de massas e com amplo apoio popular. Por conta disso, a ditadura brasileira estava inscrita na investida que sobre o continente latino americano promoveu ditaduras de Segurança Nacional, modelos cujo tipo de violência partia essencialmente do Estado, não obstante, nas franjas do poder constituído, grupos de extermínio e milícias paramilitares não deixavam de aterrorizar a vida da população vulnerável.

    Nas últimas semanas, assistimos situações em que pessoas foram atacadas, agredidas e ameaçadas por apoiadores de Bolsonaro apenas porque vestiam camisa vermelha ou se posicionavam publicamente como eleitores do PT. É certo que essa escalada de violência se relaciona com o crescente antipetismo que tomou a sociedade, algo intensificado desde o golpe de 2016 e que nos últimos meses definiu o contorno da ofensiva autocrática e contrarrevolucionária de uma burguesia retardatária que se sentiu ameaçada por pequeníssimas reformas dos tempos dos governos petistas.

    Há alguns dias, a cena em que dois homens brancos e fortes seguram a placa em homenagem a Marielle Franco partida ao meio, viralizou na internet como símbolo da profanação e de uma segunda execução da vereadora, uma mulher negra, socialista e defensora dos direitos humanos. Há quem ache exagero nos que apontam os riscos que corremos com o avanço do fascismo e a possibilidade de um candidato que exorta o ódio e a violência vencer as eleições, mas exemplos históricos existem aos montes e apontam para a gravidade do momento que combina crise econômica, política e social com uma incontornável fraqueza do proletariado e de suas direções. A propósito do fenômeno, analisando as condições da Alemanha em inícios dos anos 1930, Trostky anotou:

    O fascismo provém de duas condições: de um lado, de uma grave crise social; de outro lado, da fraqueza revolucionária do proletariado alemão. A fraqueza do proletariado, por sua vez, tem duas causas: primeiro, o papel histórico particular da social-democracia, que ainda é agência poderosa do capitalismo nas fileiras do proletariado; em seguida a incapacidade da direção centrista do PC em unir os operários sob a bandeira da revolução.[ii]

    Obviamente que as condições observadas na Alemanha, embora semelhantes em alguma medida ao caso brasileiro, não podem ser tomadas sem cuidado, haja vista que não houve, no Brasil, nenhum grande ascenso revolucionário. Apesar disso, as jornadas de Junho de 2013 demarcam o momento de inflexão de uma conjuntura de inúmeras greves e lutas políticas, para uma outra de sinal invertido, com ofensiva de frações da burguesia que passaram a exercer a hegemonia sobre os setores médios, frente a um proletariado apassivado e incapacitado por suas tradicionais direções.

    O fascismo não se caracteriza apenas pelo ódio ou pelas promessas de ordem a qualquer custo partidas das bocas dos seus chefes. A característica principal do fenômeno é que, em meio ao desespero de milhões, quando os chefes autorizam, estimulam e sugerem que tudo será resolvido de maneira simples, e que o culpado é o sempre o outro (as mulheres, os negros, os LGBTs, os refugiados e as pessoas de esquerda), hordas de indivíduos, milícias e grupamentos paramilitares decidem que vão tratar dos problemas à revelia do Estado, das autoridades e das Leis estabelecidas.

    No descrito episódio da placa de Marielle, as palavras do então candidato ao senado, Flavio Bolsonaro, que defendeu o acontecido dizendo tratar-se de “restauração da ordem”, reforçam a dimensão restauradora do fenômeno e a premissa de que o fascismo não se resume aos seus chefes. Já as declarações de Jair Bolsonaro, que disse não poder controlar seus apoiadores, um dos quais assassinou o mestre capoeirista e importante personagem da cultura afro-brasileira na Bahia, Moa do Katendê, acendem a luz de alerta para a vertiginosa escalada fascista que se dá sob os nossos olhos, com a conivência da imprensa e das autoridades do judiciário, bastante mais preocupadas em acusar a corrupção do PT do que procurar deter a violência motivada por questões políticas e pelo antipetismo.

    Mas esse tipo de violência são suficientes para caracterizar o momento vivido como fascista ou, no mínimo, tendencialmente fascista ou fascistizante? Por certo que o processo vivenciado permanece aberto, mas não parece exagerado sugerir aproximações com a síntese estabelecida pelo historiador Robert Paxton que definiu o fascismo como

    forma de comportamento político marcada por uma preocupação excessiva com a decadência e a humilhação da comunidade, vista como vítima, e por cultos compensatórios da unidade, da energia e da pureza, nas quais um partido de base popular formado por militantes nacionalistas engajados, operando em cooperação desconfortável, mas eficaz com as elites tradicionais, repudia liberdades democráticas e passa a perseguir objetivos de limpeza étnica e expansão externa por meio de uma violência redentora e sem estar submetido a restrições éticas ou legais de qualquer natureza.[iii]

    E se está claro que ao lado de Bolsonaro não existe um partido de base popular, se não estão confirmadas as intenções de expansão externa em suas propostas, não deixam de sobressair a atuação de militantes que exaltam o nacionalismo e a unidade, associados às elites tradicionais que observam coniventes, quando não emprestam apoio ativo. Tal componente, combinado com a aberta crítica aos refugiados, especialmente os venezuelanos, que são tripudiados por eleitores que exaltam a violência redentora, dão aos guardas da esquina desses novos tempos sombrios as dimensões protofascistas que não existiam em sua plenitude na ditadura instalada em 1964, mas que agora vem recheada de ódio e promessas de ordem e extinção do ativismo. Por tudo isso, contra essa escalada fascista, é preciso resistir pela democracia construindo a necessária frente única antifascista.

     

    [i] As menções feitas aos pronunciamentos feitos na reunião do Conselho de Segurança Nacional podem ser conferidas no filme Utopia e barbárie, de Silvio Tendler . Ver em Youtube

    [ii] TROTSKY, Leon. Revolução e contra-revolução na Alemanha. Lisboa, Porto, Luanda: Centro do Livro Brasileiro, s/d, p 27.

    [iii] PAXTON, Robert. A anatomia do fascismo. São Paulo: Paz e Terra, 2007, p. 358-359.

  • Bolsonaro não é imbatível

    Cria corvos e eles te arrancarão os olhos
    Sabedoria popular espanhola

    É preferível ser dono de uma moeda a ser escravo de duas.
    Sabedoria popular grega

    Nada está perdido. Segundo turno é uma nova eleição. Viradas são possíveis e já aconteceram muitas. Serenidade e firmeza. Ganhamos tempo ontem. Foi por pouco, é verdade. Mas há possibilidades reais. Tudo vai depender, como em qualquer luta difícil, porém, indefinida, da nossa estratégia e disposição.

    Isto posto, duas observações muito rápidas.

    Bolsonaro foi muito subestimado. Liderou uma onda eleitoral avassaladora, um movimento sísmico profundo. Não é verdade, contudo, que tenha sido uma surpresa. Sejamos sérios, não foi. Era previsível desde  muito tempo atrás, um ano pelo menos, e provável desde o atentado. E demonstrou que a política conta. A política não é somente um discurso, embora o que se diz e se propõe tenha importância. Tanto mais que o Brasil de hoje não é o mesmo de trinta anos atrás. É mais urbanizado e instruído. Mas as preferências políticas, em uma sociedade fraturada como o Brasil, respondem a alinhamentos de classe que, por sua vez, estão determinados por uma experiência prática. As ideias contam, mas estes dois elementos – interesses e as provas da vida – são a chave.

    A imensa maioria da classe trabalhadora brasileira, portanto, do povo em geral, não se define, politicamente, como de esquerda ou de direita, como entre nossos vizinhos uruguaios ou argentinos, mais ideologizados. Isto não autoriza concluir que não tem importância saber que Bolsonaro é um neofascista, como insistem, teimosamente, alguns na própria esquerda. Mas nos ajuda a compreender quais são flancos mais frágeis de Bolsonaro, portanto, onde devemos bater.

    O núcleo duro da votação do neofascista é a pequena burguesia, mas a audiência hoje é muito mais ampla. Uma votação de 46% só é possível com apoio, na escala de dezenas de milhões, de setores populares. O que a votação de ontem revelou, em primeiro lugar, foi a força do campo social e político que saiu às ruas entre 2015/16 e culminou com o impeachment, abrindo uma situação defensiva para os trabalhadores e o povo.

    Mas a eleição demonstrou, também, que as forças políticas que deram sustentação ao governo Temer desmoronaram. E Bolsonaro defende o programa do governo Temer, só que com métodos selvagens. Assume que é necessário acabar com os programas sociais de transferência de renda como o Bolsa Família. Assume que quer impedir qualquer reforma agrária ou urbana. Assume que quer privatizar tudo que for possível. Assume que há direitos sociais demais, e o povo deve estar disposto a perder direitos para que os investimentos voltem.

    A eleição revelou, também, que uma parcela das massas populares, em especial no nordeste, mantém uma referência no lulismo e no PT, em função da memória do que foram algumas reformas nos anos de crescimento econômico.

    Frações burguesas mais amplas estarão agora com Bolsonaro no segundo turno. Mas a estratégia do núcleo duro da burguesia já se desenha. Manterão a ambiguidade, para fazer Haddad assumir a política econômica que responde a seus interesses: ajuste fiscal, reforma da previdência, etc. E fazer Bolsonaro assumir uma concertação institucional das relações de poder, aceitando negociações que garantam a terceirização de posições chaves no governo para técnicos de sua confiança.

    Sendo assim, o maior erro de Haddad seria ceder à pressão burguesa. Seria um erro político, mas, também, eleitoral. A votação para Haddad, Ciro, Boulos pode chegar a 42%. Não é nada claro que toda a votação de Ciro possa ser transferida, por suposto. Nunca ocorre uma transferência “intacta”. Uma parcela do 1% que foi para Marina Silva pode ser, também, atraída. Assim como frações das votações da classe média em outros candidatos. Porque embora tenham repulsa pelo PT, a figura de Haddad desperta menos hostilidade e, sobretudo, temem o perigo de um fascista na presidência.

    Não obstante, a defesa de uma linha de classe é a chave para manter os votos que o PT obteve no primeiro turno, e expandir. Chegou a hora de colocar a classe operária em movimento. Chegou a hora dos sindicatos, dos movimentos populares e, também, do movimento estudantil. E os movimentos feministas que construíram o #elenão são o embrião do movimento anti-fascista. Porque, além da televisão, vamos ter que colocar força nas ruas. Muita força significa ir além do um milhão que já manifestou. Expandir  para  o campo das abstenções, nulos e brancos que somaram 29%. A tendência é que este volume se reduza. Deslocar votos de Bolsonaro nas classes populares, embora muito difícil, também, será necessário. Aliados importantes nesta disputa serão os setores lúcidos da Igreja Católica.

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