Opressões

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  • Intervenção no Rio: mais uma canetada racista de Temer

    Por Matheus Gomes, colunista do Esquerda Online

    O decreto que autoriza a intervenção militar no estado do Rio de Janeiro é, antes de qualquer coisa, uma solução racista diante da provável não aprovação da reforma da Previdência no Congresso Nacional.

    Por que afirmo isso? Bom, não é a maioria do Congresso que é contra a reforma da Previdência. Deputados e senadores já destruíram a Constituição quando aprovaram a PEC que fixa o teto nos gastos públicos nos próximos 20 anos, rasgaram a CLT ao instituir a reforma Trabalhista, eles já provaram seu compromisso com o mercado financeiro. Mas a razão para não votar “a cereja do bolo” da ponte para o passado é um simples cálculo: a maioria da população é contra a reforma e, em ano eleitoral, comprar essa briga agora é palatável para um presidente com 3% de aprovação, mas não para quem almeja a reeleição. A Previdência tem importância para quem é preto e pobre, ou seja, para a maioria do Brasil.

    A intervenção na segurança pública vai ampliar a violência no Rio de Janeiro. Na América Latina, México e Colômbia adotaram medidas similares para combater o tráfico de drogas e o resultado foi pífio. As UPPs, implementadas por Sérgio Cabral com o aval do governo federal, também não resolveram o problema. Aliás, uma pesquisa divulgada ano passado pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes, realizada com 2.479 moradores de 37 das 38 comunidades ocupadas, apresentada uma maioria entre 55% e 68% de pessoas que entendem que a UPP não modificou a situação nas comunidades. Quando a pergunta é se o morador se relacionou de alguma forma com a polícia, seja para pedir informação ou ajuda em casos de doenças, a variação negativa fica entre 95,2% e 98,2%. Já o percentual de moradores reivindicando outros serviços públicos nas comunidades é de 82%, ou seja, a intervenção que a periferia quer é social: trabalho decente, educação, saúde, moradia, transporte e por ai vai. A intervenção militar ampliará as mortes nas comunidades e não diminuirá nenhuma mazela social.

    Os militares e a Globo queriam mais
    A postura do alto comando do Exército é ainda mais contundente. “Queremos uma intervenção aos moldes do Haiti”, bradou a caserna. Anos de controle político-militar no país caribenho, quando vai chegar a hora do Brasil? O Ministro-General Etchegoyen afirmou que o “oba-oba” do carnaval foi o estopim. Mas ele se referia a que exatamente? As amplas críticas sociais presentes nas ruas e avenidas que levaram o desfile da Tuiuti a ser o segundo tema mais comentado no Twitter mundial? Ou a violência corriqueira nas ruas do Rio? Qual o fato novo? A diretora do Instituto de Segurança do Rio (ISP), Joana Monteiro, afirmou que nenhuma explosão de violência ocorreu durante o carnaval. A violência foi menor do que a registrada nos dois carnavais anteriores.

    Bolsonaro também desejava ir além. Posicionou-se contrário ao decreto porque não garante plenos poderes aos soldados em ação. Queria licença para matar, como afirmou recentemente.

    A aproximação dos militares com o poder político é preocupante. A medida pode ampliar a popularidade do Exército no setor social que sustentou o golpe entre 2015 e 2016 e hoje pede mais ordem nas grandes cidades, ao passo que vive distante do dia-a-dia das comunidades militarizadas.
    O mesmo General-Ministro afirmou hoje que a segurança vai ser o tema número de quem quer se eleger, enquanto a Globo não ficou para trás, afirmando em seu editorial que o prazo de 31 de dezembro pode ser pouco.

    Nunca houve punição aos crimes cometidos por militares no Brasil. Tivemos uma transição de regime pactuada, na qual a polícia criada por decreto em 1969 não foi dissolvida, nem os presos do regime anterior foram julgados por novas leis. Os caminhos agora estão mais abertos para a aproximação dos militares com o poder.

    Enquanto isso, o mercado financeiro…
    Parece acomodado ao decreto. A Eurásia, grupo que presta consultoria política a investidores do mundo inteiro, já reduziu a 20% as chances de aprovação da reforma em 2018. Não houve grande alteração nas bolsas e seguem as perspectivas de alta para a próxima semana. A nova localização de Temer no debate público, agora dando centralidade ao combate a violência, parece agradar os investidores já que a bandeira de Bolsonaro, candidato mal visto por eles, agora pode ser roubada por um candidato localizado mais ao centro. Enfim, vidas negras nunca foram significativas na balança do mercado.

    “Se eu chorar não leve a mal”
    A situação é triste, como dizia o enredo da Tuiuti, se a gente chorar, não nos levem a mal. Quem é negro ou morador de periferia vive as consequências trágicas da guerra às drogas dia-a-dia. A intervenção militar no Rio aprofundará essa situação com a ação de um exército despreparado para atuação em áreas urbanas onde vivem milhões de pessoas. E o pior, ainda pode servir de exemplo para outros estados. O movimento negro e todo movimento social precisam repudiar essa medida no Brasil inteiro, denunciando seu caráter racista e anti-popular. Gritemos, libertemos o cativeiro social!

  • Por um 8M que coloque as mulheres na linha de frente contra as reformas

    Por: Juliana Bimbi, de Porto Alegre, RS

    Dia 15 de fevereiro, quinta-feira, aconteceu a primeira plenária unificada para preparação do 8 de março de 2018 em Porto Alegre. Inspiradas no grande ato que ocorreu nessa data no ano passado, que deu o gás para as lutas que foram travadas o ano inteiro, mulheres de diversos sindicatos, centrais sindicais, organizações políticas, coletivos feministas e independentes se reuniram para preparar a agenda de lutas que marcará o Dia Internacional da Mulher na cidade.

    Partindo do debate sobre a situação em que o Brasil se encontra hoje e, a partir disso, as mulheres que nele vivem, a discussão girou em torno de definir o eixo político que norteará a atuação unificada do movimento de mulheres de Porto Alegre na data que remete à luta das mulheres trabalhadoras internacionalmente. A partir do entendimento de que é preciso ter um chamado que unifique e dialogue com todas as mulheres trabalhadoras da cidade e que englobe as lutas específicas que estão cada vez mais latentes, o acordo chegado foi de um chamado unitário contra as reformas, pelas liberdades democráticas e contra a violência de gênero.

    Acreditamos que os ataques que vêm sendo aprovados nos últimos anos são o que afeta diretamente a vida das mulheres no período atual. As mulheres serão as mais afetadas pela Reforma da Previdência, que iguala a idade de aposentaria dos homens e das mulheres, sem levar em consideração a dupla e tripla jornada de trabalho a que as mulheres são submetidas. São as mulheres negras que ocupam os postos de trabalho mais precarizados e que já vivem sobre a reforma trabalhista devido ao trabalho terceirizado, se agravando agora com a aprovação da lei da terceirização.

    Dentro disso, também é preciso lutar pelas liberdades democráticas em todo o país: o Brasil é um dos países que mais encarcera no mundo, e dentro disso são afetadas as mulheres negras e periféricas. Aproximadamente 34 mil mulheres brasileiras vivem hoje atrás das grades, e esse número não para de crescer. Um exemplo disso é o caso de Jéssica Monteiro, uma mulher de 24 anos que está mantida em uma cela com seu filho recém nascido por ter portado 90g de maconha. É preciso gritar: liberdade para Jéssica, já!

    A violência contra a mulher é um dos dados que não param de crescer no país: o feminicídio, o estupro, a violência doméstica, as mulheres que morrem na tentativa de fazer abortos clandestinos porque não têm outra alternativa. Além disso, não existem órgãos estatais que realmente dão conta dessas demandas. Muitas vezes, quando denunciam, as mulheres são humilhadas e suas denúncias invalidadas.

    É preciso armar um dia 8 de março que unifique todas as mulheres que querem lutar contra os ataques, que coloque as reformas como o principal eixo de luta que nos arma para derrubar o governo. Ano passado, as mulheres deram o recado de que são capazes de lutar não só por suas pautas específicas, mas que também podem ser a linha de frente da luta contra os ataques a toda a classe trabalhadora, sendo as primeiras a colocar em pauta a luta contra a Reforma da Previdência.

    Queremos um Dia Internacional da Mulher que coloque em pauta a violência que as mulheres negras sofrem todos os dias, em casa, no trabalho e na rua, que defenda as liberdades democráticas e que lute consequentemente contra o desmonte dos direitos de todas as trabalhadoras. Para isso, é preciso estarmos unidas e sem medo de enfrentar os patrões e os governos que encabeçam os ataques contra nós. Queremos um 8M classista e radical, que incorpore a consigna: se nossas vidas não importam, que produzam sem nós.

    Foto: Manifestações do Dia da Mulher na região central da capital paulista | Rovena Rosa/Agência Brasil

  • Na disputa da PM baiana com Igor Kannário, quem sofre são os jovens negros

    Por: *Henrique Oliveira

    O Carnaval de Salvador vem registrando desde 2012 uma redução dos números de crimes. Segundo a Secretaria de Comunicação do Estado (Secom), o Carnaval de 2012 teve uma queda de 16% no número dos delitos. Em 2012, no circuito Dodô (Barra/Ondina) foram registrados 73 casos de roubo, 14 a menos que em 2011 onde foram registradas 87 ocorrências. Os casos de furtos também diminuíram sendo 611 furtos contra 731, o mesmo para lesões corporais onde foram registradas 91 situações de agressão, enquanto em 2011 foram registrados 138 casos.

    Em 2014, a Secretaria de Segurança Pública divulgou que houve uma redução de 29% dos casos de lesões corporais, furtos reduziram em 40% e o roubo 28%. E, no ano passado (2017), as lesões corporais reduziram em 44% quando comparado com o ano de 2016.

    E quais são os motivos que têm levado à redução da violência no Carnaval de Salvador? Numa entrevista concedida à rádio Metrópole, logo após o carnaval de 2016, o Coronel Anselmo Brandão disse que os blocos sem cordas ‘reduziram bastante a violência, porque o que causa violência no bloco com corda é a conquista do espaço, ou seja, sem espaço o folião se sente oprimido’. O prefeito de Salvador, ACM Neto, também disse que a redução da violência no circuito da festa está relacionada com os blocos sem cordas.

    Mas, se a violência em geral está reduzindo no Carnaval de Salvador, por que a violência Policial também não segue o mesmo caminho, já que o discurso Policial é que as suas intervenções com uso da força física são para conter as brigas?

    Na segunda-feira de Carnaval (12), o cantor de pagode e vereador Igor Kannário arrastou uma verdadeira multidão no seu trio sem cordas no circuito Osmar (Campo Grande), e uma das marcas da passagem do trio foi a brutal violência Policial contra os foliões que acompanhavam o cantor. A ação da PM repercutiu negativamente e foi alvo de comentários e relatos no dia seguinte nas redes sociais e na imprensa. Vocês podem ver aqui e aqui que no momento das agressões proferidas pela PM não havia nenhuma motivação que justificasse, pelo menos, uma atitude de contenção policial.

    De cima do trio, o cantor Igor Kannário se posicionou contra a violência Policial dizendo que o governador precisava ver como os policiais estavam tratando as pessoas, afirmando que os PMs não podiam chegar agredindo o povo e que essas pessoas são as responsáveis pelo pagamento dos salários dos policiais.

    Em resposta aos fatos ocorridos, a Polícia Militar enviou uma nota ao jornal Bahia Meio Dia da Rede Bahia, dizendo que a violência Policial no dia anterior foi de responsabilidade de Igor Kannário, que segundo a PM, ‘incita o público a desrespeitar’ a Polícia. Ora, se a PM está incomodada com a postura de Igor Kannário, que entre na justiça com processo por danos morais, calúnia e difamação. No entanto, a PM prefere descontar seu desagravo com o cantor em cima dos corpos negros. O coronel Anselmo Brandão ainda disse que Igor Kannário é um ‘marginal’, porque ele já foi preso duas vezes por porte de drogas.

    A violência policial no carnaval se tornou objeto de denúncia nas redes sociais também pelo ator global Bruno Gagliasso, que estava em cima do trio de Bell Marques, no domingo (11), um dia antes do trio de Igor Kannário. O ator divulgou cinco vídeos em sua conta no aplicativo Instagram, sendo que em um deles é possível ouvir Bruno Gagliasso dizer: ‘Absurdo. Ele não fez nada’. Enquanto um homem era covardemente agredido por policiais. Em uma das imagens Bruno Gagliasso colocou uma legenda: “Essa é a polícia que você quer? Vergonha”. Diante desse fato, o Porta Voz da Polícia Militar, Capitão Bruno Ramos, rebateu as postagens de Bruno Gagliasso dizendo que era uma “crítica Nutella”, de quem estava na ‘mordomia de cima de um trio’. Esse é o nível de seriedade que um Porta Voz da PM lida com uma denúncia grave de agressão policial no carnaval.

    No entanto, o embate entre a PM baiana e o cantor Igor Kannário já vem “de outros carnavais”. O início desse processo de perseguição e indisposição da PM em relação ao cantor começou quando o mesmo foi detido duas vezes por porte de Maconha em 2015. A primeira prisão aconteceu no dia 7 janeiro de 2015, no bairro da Caixa D’água, acompanhado de mais dois homens, com uma quantidade de Maconha que indicava ser para consumo pessoal. A segunda prisão foi no dia 22 de Janeiro do mesmo ano, praticamente quinze dias depois da primeira prisão, dessa vez apenas com um cigarro de Maconha, na cidade de Candeias, localizada na Região Metropolitana de Salvador. Com a grande repercussão criada logo após essas prisões, o cantor esteve no programa televisivo Universo Axé onde assumiu ser usuário recreativo de Maconha.

    A partir dessas duas prisões a PM baiana passou então a fazer uma marcação cerrada sobre Igor Kannário, tanto que no carnaval de 2015 o cantor quase não colocou o seu bloco na rua e só participou da festa após uma intervenção política do prefeito ACM Neto. O efeito dessa ação do Prefeito pôde ser sentido no ano seguinte quando o cantor se tornou seu aliado político nas eleições, inclusive sendo eleito vereador pelo PHS, partido da base aliada do prefeito. Uma grande jogada de marketing político de ACM Neto.

    Na Micareta de Feira de Santana no ano passado, o cantor Igor Kannário discutiu com uma Policial Feminina que estaria agredindo as pessoas que seguiam o seu trio elétrico. Em meio a discussão Kannário disse que ‘a mulher era apenas uma PFem’ e que ele era muito mais autoridade do que ela, por ser um vereador. Momentos depois o cantor pediu para a banda parar o som, dizendo que a Policial Militar estava o mandando tomar no c…

    A soldada da Polícia Militar Tainá Gomes disse que se sentiu humilhada com as palavras de Igor Kannário, negou a agressão verbal alegando ainda ter usado a força para conter uma desordem no meio da festa. O coronel Aldemário Xavier, do Comando de Policiamento Regional Leste (CRPL), chegou a dizer na época que se fosse com ele a situação da discussão iria fazer Igor Kannário ‘engolir o microfone’ para aprender a respeitar a Polícia Militar. Este é o bom exemplo do nível de truculência que atua em todas as esferas da hierarquia policial. Por esse acontecido a Policial Militar chegou a processar o cantor por calúnia.

    Nessa disputa entre a PM baiana e o cantor Igor Kannário, o cantor não é o único alvo da ação dos policiais, juntamente com ele o seu público é criminalizado. Não é coincidência esse público ser formado por jovens negros e periféricos, vistos como perigosos e causadores de tumulto. As ações violentas do cotidiano da Polícia Militar atingem as pessoas que se encaixam justamente nesse mesmo perfil. Reflexo disso é que no ano de 2015 o estado da Bahia foi considerado o segundo mais violento para os jovens, sobretudo para a juventude negra.

    O que as agressões da PM no carnaval desse ano demonstram que o problema na verdade nunca foram à reatividade policial as brigas e confusões que aconteciam na festa, pois os casos de lesões físicas vêm decaindo enquanto a violência policial em nada mudou. O ponto central nesse debate na realidade é o abuso da autoridade por parte dos homens fardados.

    E para quem ainda acha que se trata de ‘casos isolados’ ou que são maus PM’s, eu digo que esse argumento de maus policiais e bons policiais não é capaz de explicar a violência sistemática da instituição. Vejam alguns casos recentes de agressão de PM’s em situações que não representavam nenhuma ameaça a vida dos policiais e a de terceiros: Policiais Militares são filmados agredindo e apontando armas para pessoas na praia de Cabuçu; nessa outra situação em frente a maternidade Tsylla Balbino no bairro do Pau Miúdo em Salvador, uma mulher depois de ouvir um ‘cala a boca’ recebe um tapa no rosto e é jogada no fundo de uma viatura, na UPA de Itapuã uma outra mulher foi agredida após reclamar do atraso no atendimento ao seu filho doente; já no bairro do Nordeste de Amaralina moradores são xingados e agredidos por PM’s.

    A violência policial no carnaval e na sociedade não é de forma alguma novidade, mas a questão é que não estamos mais reféns das câmeras da televisão, hoje em dia com um celular os casos de agressões da PM são divulgados com mais amplitude.

    Estamos lidando com uma polícia que é acostumada a forjar situações para legitimar o uso da força, até mesmo o seu uso letal. Nós estamos falando de uma Polícia que em 2015 matou 12 pessoas na conhecida ‘Chacina do Cabula’, alegando uma suposta troca de tiro, porém os laudos da perícia apontaram a existência de fortes indícios de execução, como tiros nas mãos e antebraços a curta distância. Algumas vítimas ainda foram atingidas de cima para baixo e só 4 dos 12 jovens tinham pólvoras nas mãos.

    Estamos falando de uma Polícia que atua na perspectiva de suspeição generalizada, onde jovens negros são suspeitos até que se prove ao contrário. Agindo com um olhar racializado, atenta aos gestos, não suportando ver uma concentração de pessoas negras sem pensar duas vezes que elas representam uma ameaça em potencial. São corpos negros livres, dançando, aproveitando um momento único com um artista que fala a mesma ‘língua’ produzindo assim uma identidade em comum. Esse debate também inclui o direito à cidade, pois ali se encontrava uma parcela expressiva da sociedade de Salvador que sofre a cada dia com a subtração dos espaços públicos de sociabilidade, tendo negado acesso a lazer e a cultura. A pipoca de Igor Kannário se torna então a oportunidade de furar o bloqueio social provocado pelo Racismo e a desigualdade.

    O que a Polícia Militar diz sobre Igor Kannário incitar o seu público a desrespeitar a PM não é nada além do que um discurso que preza pelo respeito às pessoas. A Polícia não pode agredir gratuitamente, porque o uso da força é garantido a PM, mas sob algumas condições, sendo necessária usá-la para se alcançar alguma finalidade. Pois bem, a violência que a Polícia Militar promove no carnaval não tem outro objetivo a não ser apenas agredir pessoas de forma generalizada. Os possíveis brigões não são contidos e a integridade física da maioria das pessoas não é garantida, pelo contrário, a ação da PM causa mais dano a integridade física do que as brigas. A PM continua sendo um instrumento antidemocrático, que não tolera o ambiente de pluralidade e liberdade, considerando que as pessoas que conhecem seus direitos e os reivindicam estão desacatando a sua autoridade.

    Henrique Oliveira é mestrando em História Social pela UFBA e militante do Coletivo Negro Minervino de Oliveira/Bahia

  • O STF e a política de reparação em favor das comunidades quilombolas

    Coluna Direito e (In) Justiça

    Por: Larissa Vieira e Juliana Benício Xavier, colunistas do Esquerda Online

    Hoje, dia 08 de fevereiro, o Supremo Tribunal Federal dará continuidade ao julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) n. 3239, proposta pelo antigo Partido da Frente Liberal (PFL) – atual Partido Democrata (DEM), com objetivo de questionar a constitucionalidade do Decreto 4.887/2003, que regulamentou o art. 68 dos Atos das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT), que diz:

    “Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos”.

    Esse Decreto é hoje o principal instrumento da política pública de acesso à terra e ao território para as comunidades quilombolas.

    Dos três votos que já foram proferidos, um foi pela inconstitucionalidade do Decreto (do Ministro aposentado Cezar Peluso, em 2012), um pela sua constitucionalidade (da Ministra Rosa Weber, em 2015) e um pela constitucionalidade, com estabelecimento do marco temporal (do Ministro Dias Tofoli, em 2017). Na última sessão, ocorrida dia 09/11/2017, o Ministro Edson Fachin pediu vistas e o novo encontro para julgamento foi marcado para amanhã, dia 08/02/2018.

    Em suma, o que está em jogo no STF é que, ainda que se reconheça a constitucionalidade do Decreto, pode-se estabelecer o ¨marco temporal¨, que seria o mesmo que ganhar e não levar.

    Explicamos: segundo a tese do ¨marco temporal¨, somente poderiam ser tituladas as terras dos remanescentes de quilombos que na data promulgação da Constituição de 1988, isto é, que em 5 de outubro de 1988, já ocupavam as terras. Do contrário, as comunidades devem comprovar por todos os meios de prova juridicamente admitidos, a suspensão ou perda da posse em decorrência de atos ilícitos praticados por terceiros.

    É preciso dizer o quanto a terra e o território são essenciais para sobrevivência e reprodução das comunidades quilombolas. Seguindo essa linha de raciocínio, o art. 68 da ADCT, posteriormente regulamentado pelo Decreto 4.887/2003, veio em forma de política afirmativa para reparar os mais de 300 anos de escravidão vividos pelos/as negros/as escravizados/as nesse país.

    O texto constitucional vigente, promulgado somente 100 anos após o fim formal da escravidão, já que materialmente nunca houve abolição, pretendeu garantir uma espécie de reparação, destinada aos descendentes da população escravizada nesse país. É certo que, após 1888, não foi viabilizada qualquer tipo de medida mitigatória da situação de inferioridade econômica e social a que foram impostos os contingentes de mulheres e homens negros escravizados. Assim, referida política pública é uma tentativa de reparar com o mínimo o racismo, presente de forma tão estrutural na sociedade brasileira.

    Vale destacar, ainda, que o Decreto 4.887/2003 sequer é cumprido em sua integralidade. Apenas a título de exemplo, no Brasil, reconhecidas pela Fundação Palmares, existem cerca de 2.900 comunidades quilombolas, sendo que esse número não reflete a totalidade das comunidades existentes.

    A certificação pela Fundação Palmares é apenas o primeiro passo para o início do processo de titulação que pode se dar em nível federal ou estadual. Estima-se que pelo menos 1.600 comunidades estejam em processo, mas apenas 33 foram tituladas pelo Instituto de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), órgão federal e principal responsável pela titulação das terras quilombolas, sendo que outras 183 comunidades foram tituladas por órgãos estaduais.

    Observa-se, assim, que o Decreto 4.887/2003 não tem sido efetivado em sua totalidade, mesmo em 15 anos de existência. Soma-se a isso, o fato de que nos últimos anos o orçamento destinado à execução da política pública de acesso à terra e território das comunidades quilombolas tem sofrido significativos cortes.

    Em junho de 2017, organizações da sociedade civil e movimentos sociais, fizeram representação perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), questionando o desinteresse do Estado brasileiro em elaborar uma estratégia para a titulação de todas as terras quilombolas em prazo razoável, já que no ritmo atual o INCRA demoraria cerca de 600 anos para titular todas as comunidades que já possuem processo perante o órgão.

    Se considerarmos que a titulação das terras quilombolas é apenas uma das várias medidas necessárias de reparação à histórica opressão racista contra o povo negro, e que a escravidão no Brasil durou 300 anos, demoraríamos o dobro de tempo para começar a engatinhar nas políticas públicas em favor da igualdade racial.

    Assim, o julgamento no STF amanhã é bastante significativo, pois ditará os rumos da política brasileira em prol do combate ao racismo. Acreditamos que julgar pela constitucionalidade do Decreto, sem estabelecer qualquer marco constitucional é o mínimo que uma corte 100% branca pode fazer na tentativa de trazer o mínimo de reparação ao povo negro.

    Foto: Sessão plenária do STF. Foto: Carlos Moura/SCO/STF (06/12/2017)

  • Carnaval de Salvador 2018 e masculinidade: olhar a ‘popa da bunda’, mas sem assédio

    Por: Henrique Oliveira, de Salvador, BA

    O Carnaval de Salvador se aproxima e, como sabemos, é uma das maiores festas populares do mundo, chegando a reunir milhares de pessoas nas ruas da cidade, com blocos e fantasias durante sete dias. Em todo o Carnaval, existe uma disputa em torno de qual será a música símbolo, a mais tocada, o hit carnavalesco do ano. E, para esse ano de 2018, a música que vem sendo apontada como a ‘música do Carnaval’, é “Elas Gostam” (Popa da Bunda) do coletivo Attoxxa, que foi regravada juntamente com o cantor Márcio Victor da banda de pagode Psirico. A música ‘Popa da bunda’ fala sobre mulheres que usam o short curto e bem justo no corpo, que são vistas como vulgares e sofrem demais julgamentos morais de cunho machista. Mas que elas gostam de usar, e que o cara não quer nem saber, porque ele só quer olhar a popa da bunda.

    Campanha por um Carnaval sem Assédio, na Bahia

    Numa matéria no jornal Correio da Bahia, um dos integrantes do grupo Attoxxa disse que a música foi criada como uma resposta aos homens que estavam invadindo os espaços das mulheres no show, que estavam ‘metendo a mão’, quer dizer, assediando as mulheres fisicamente, e que as mulheres iriam usar as roupas que elas quisessem, um posicionamento fundamental do grupo para a conscientização do público masculino. A banda ainda diz se preocupar em suas letras em acolher o público feminino, LGBT e negro, como um posicionamento político de combate as discriminações.

    A música ‘Popa da bunda’ é dotada de um conteúdo bem sensual, e infelizmente na nossa sociedade, que ainda é dominada pelos valores machistas, a sensualidade, a liberdade sexual feminina são lidas como brecha para que os homens possam assediá-las fisicamente. Uma pesquisa realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), em 2016, divulgou que 30% dos brasileiros concordam com a culpabilização da mulher que foi estuprada por causa, por exemplo, das roupas com qual a mesma estava vestida.

    Aqui nesse texto pretendo dialogar sobre a masculinidade e a relação de gênero, a partir da música ‘Popa da bunda’, no sentido de causar uma reflexão sobre as práticas e a responsabilização social de nós homens pela violência contra as mulheres.

    No Carnaval de 2016, um levantamento feito pelo Observatório da Discriminação Racial, LGBT, e Violência Contra a Mulher contabilizou que, somente nos primeiros cinco dias da festa, entre quarta-feira e domingo, tinham sido registradas 461 denúncias feitas por mulheres, envolvendo assédios, lesões corporais e até estupros. As denúncias feitas por mulheres lideraram o ranking do monitoramento feito pelo observatório, superando os caso de vulnerabilidade social e discriminação contra LGBT.

    Em 2015, um homem foi condenado a sete anos de prisão por estupro, após uma denúncia de beijo forçado no Carnaval de Salvador que ocorreu em 2008. Segundo a denúncia oferecida pelo Ministério Público, o homem foi preso ‘após agarrar a mulher pelo pescoço, dando uma gravata, e após imobilizá-la, beijou a sua boca várias vezes sem consentimento’.

    E por causa dessa condenação, o Bahia Meio Dia, jornal baiano da Rede Bahia, afiliada a Rede Globo, chegou ao cúmulo de realizar uma enquete, perguntando aos telespectadores se o ‘Beijo forçado no Carnaval deve ser proibido’. Mas, desde quando beijo forçado no Carnaval ou em outro lugar qualquer era permitido até então, para que ele passasse a ser proibido?

    E falar de assédio no Carnaval e violência contra a mulher é necessariamente falar sobre a formação da masculinidade, sobre os valores que formam e que informam o que é ser homem na nossa sociedade.

    Pois, segundo o artigo Masculinidade e violência: formação da identidade masculina e compreensão da violência praticada pelo homem, desde criança, nós do sexo masculino já passamos por um processo de interiorização da masculinidade, que implica na negação de sentimentos e afetos considerados femininos. E esses sentimentos reprimidos são canalizados na forma de ira contra si mesmo, as mulheres e outros homens.

    A violência contra a mulher é resultado direto das relações de poder hierarquizadas entre os sexos. É o mecanismo através do qual também o homem se afirma quanto tal, diferente da mulher, ou melhor, confirma a sua masculinidade em oposição à feminilidade. O modelo de masculinidade hegemônica impõe restrições emocionais e expressivas aos homens que a exercem em regime cotidiano a vigilância de seus sentimentos, bloqueando canais de expressão. As frustrações são canalizadas em ações violentas contra as mulheres, e outros homens ou em comportamentos autodestrutivo, como uso abusivo de álcool e outras drogas, ou suicídio.

    O sentido da violência de gênero praticado pelo homem é a reafirmação da sua preponderância na sociedade: demarcando a sua dominação sobre as mulheres, sua superioridade sobre outros homens e virilidade.

    Existem alguns motivos e causadores da violência masculina, entre eles o Prestígio, que envolve uma série de atitudes como demonstrações de força, de potência sexual e intransigência moral. O prestígio masculino compõe uma personalidade autoritária e predisposta à violência. O homem que busca possuir prestígio deve exercer cotidianamente a sua autoridade, não admitindo desvios da sua vontade, em que a aceitação e tolerância são vistas como sinal de fraqueza.

    A Preponderância Sexual é outro valor cultivado pela masculinidade que levam os homens a serem violentos, que se baseia numa noção de dominação, de poder, de subordinação, que coloca em evidência os atentados sexuais contra a mulher. A violência gerada pela Preponderância Sexual pode ser o estupro, os assédios, e se relacionam com elementos como a pornografia e a prostituição.

    Campanha Não é Não! se espalha pelos principais Carnavais do País

    A violência sexual é parte da dominação de gênero, do homem sobre a mulher. E para a masculinidade hegemônica, o homem deve ter a seu dispor, como um reflexo do seu poder as mulheres, que além de subordina las, deve realizar diversas formas de controle da sexualidade. Em 2016 o Brasil registrou 12 assassinatos e 135 estupros por dia.

    E a Preponderância Sexual é o fator chave para entendermos os assédios e demais violências sexuais e físicas contra as mulheres causadas pelos homens no Carnaval. No Carnaval de 2016, a nutricionista Ludmylla Souza foi agredida por dois homens, que saíram de um bloco no circuito Barra – Ondina, depois que rejeitou um assédio. Segundo Ludmylla, ela estava passando batom, quando dois homens que saíram do bloco ‘Eu Vou’ meteram a mão e a borraram, depois ficou agarrando a sua irmã pela cintura. Nesse momento, ela resolveu intervir pedindo para ele sair. O homem ainda disse que ela era ignorante, e que se não soubesse brincar ficasse em casa. Foi empurrada em cima de uma caixa de isopor em após levantar, o outro homem jogou um copo de acrílico no seu rosto. Ludmylla levou oito pontos na sobrancelha e chegou a desmaiar no posto de atendimento por ter perdido sangue.

    A Ambev teve que trocar uma peça publicitária da Skol para o Carnaval de 2015, chamada ‘Viva Redondo’, após a reclamação de muitos internautas sobre um cartaz que dizia ‘deixei o não em casa’. Os internautas disseram que a campanha era uma apologia ao estupro e a violência contra a mulher, pois tinha um claro viés de permissividade durante os festejos, o que poderia resultar em assédios.

    No artigo Masculinidade e Violência no Brasil: Contribuições para a reflexão no campo da saúde é argumentado que a identidade masculina viril e suas características têm contribuído para o aumento da criminalidade e vitimização envolvendo a população jovem masculina.

    E para embasar esse argumento, foram utilizados dados de mortalidades por causas externas e de mortalidades por agressões no Brasil, mais precisamente nas capitais, entre os anos de 1991 e 2000. Nesse período, aconteceram 1,118,651 mortes por causas externas, das quais 926,616, 82% delas as vítimas foram homens. Na faixa etária de 15 a 19 anos, a mortalidade dos homens por causa externa é 6,3 vezes maior, se comparada com a de mulheres, e na faixa etária dos 20 a 24 anos, essa taxa é 10 vezes maior.

    Os dados do SUS do ano 2000 demonstraram que o Brasil teve 34.132 internações hospitalares por agressão, correspondendo a 54% de todas as hospitalizações por causas externas. A maioria das internações foi de pessoas jovens e do sexo masculino. E as principais causas de agressão que levaram a internação foram armas de fogo 33%, objeto cortante e perfurante 26% e força física 14%.

    As duas principais causas externas de mortalidade masculina são homicídios e acidente de carro. E segundo o artigo, essas duas principais causas estão diretamente ligadas aos grandes símbolos da masculinidade no mundo atual, armas de fogo e carros, que exercem uma forte atração sobre os jovens. Os carros simbolizam o poder de locomoção, velocidade, liberdade e status social, signos de sucesso e sedução. As armas têm o poder de submeter o outro a seus desejos e interesses, o poder de decidir sobre a vida e a morte. Esses objetos são introduzidos desde cedo na vida do menino, na forma de brinquedo e passam a fazer parte do universo masculino.

    A masculinidade hegemônica, além de ser um instrumento de dominação sobre as mulheres, também é um dispositivo que expõe nós homens a violência.

    No Carnaval de 2017, a Secretaria Estadual de Política para as Mulheres (SPM) colocou um trio sem cordas chamado ‘Respeita as minas’, puxado pelas cantoras Larissa Luz, MC Carol e Tássia Reis, com a intenção de levar para o festejo a combate ao Machismo e a violência de gênero. Nesse ano de 2018, o trio ‘Respeita as minas’ terá como atrações as cantoras Larissa Luz, Pitty e Karina Buhr.

    E não podemos nos esquecer que, infelizmente, Salvador é a cidade mais violenta para as mulheres na região Nordeste, liderando os números de violência física, emocional e sexual. E enfatizo que depois que uma mulher diz não, qualquer tipo de atitude masculina se torna um assédio. Tocar no corpo feminino, beijar, abraçar, seja qual gesto for nesse Carnaval, só deve ser feito após permissão, o consentimento da mulher. Nós até podemos olhar a popa da bunda, mas sem assédio!

    *Henrique Oliveira é graduado em História, mestrando em História Social pela UFBA, colaborador da Revista Rever e militante do Coletivo Negro Minervino de Oliveira/Bahia.

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  • ‘Terrorismo contra Feministas’, denuncia senadora a Ministério da Justiça sobre caso de ameaça de blog extremista a ativistas

    Da Redação

    Nesta segunda-feira (29), a senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), Procuradora Especial da Mulher do Senado, enviou um ofício endereçado ao Ministro da Justiça, Torquato Jardim, para denunciar a incitação ao ódio e agressão física por parte de blog às quatro ativistas feministas Gleide Davis, Vera Kolontai, Eduarda Alfena e Jéssica Milaré, duas delas colunistas do Esquerda Online. O documento se encontra disponível no site do Senado Federal. 

    “Peço a Vossa Excelência devida atenção à denúncia feita pelas administradoras da Página de internet Feminismo Sem Demagogia, senhoras Gleide Davis, Vera Dias e Jéssica Milaré”, solicita ao, sem seguida, esclarecer o caso: “O referido relato informa que por meio de mensagens de seus seguidores do Facebook elas teriam recebido ameaças do site Rio de Nojeira, nas quais o autor da postagem oferece 10 mil reais para quem se oferecer a jogar ácido sulfúrico no corpo delas”.

    No documento, a senadora faz referência a uma prática de violência virtual conhecida como ‘doxxing’. “Consiste na divulgação pública de endereços e informações privadas não só da pessoa que se quer atingir como de seus parentes, enquanto forma de mostrar que elas estão sendo monitoradas, acompanhadas, vigiadas, e, portanto, estão expostas à possibilidade de alguma ação contra elas – a um tipo de agressão física (deformação com ácido) que a pesquisadora francesa Verónique Durand, no livro Órfãs da Esperança, afirma ter sido criada em Bangladesh, em 1967”, explica.

    Vanessa, ao final, reivindica a necessidade de punir os envolvidos no crime. “Faz-se imperiosa a necessidade de apurar, identificar e punir com todo rigor essa ameaça, verdadeiramente terrorista, contra as mulheres”, conclui.

    Entenda
    No dia 22 de janeiro, um blog de conteúdo sensacionalista e extremista, que já protagonizou outros episódios criminosos, incitou os leitores a jogar ácido nas ativistas para dar “uma lição” às feministas. Eduarda Alfena, Gleide Davis, Vera Kolontai  e Jéssica Milaré foram expostas como símbolo de feministas que, segundo o autor da postagem, deveriam ser exterminadas.

    As ativistas receberam solidariedade dos docentes das instituições de ensino superior brasileiras no congresso da categoria, que aconteceu do dia 22 a 27 de janeiro, em Salvador, na Bahia. A entidade divulgou, ainda, fotos de delegados com um cartaz em apoio. Jéssica Milaré, militante trans colunista do Esquerda Online, escreveu em sua coluna uma resposta pública ao ameaçador. 

    Assim como a senadora, toda a equipe do Portal Esquerda Online também pede a imediata punição aos envolvidos nesse crime bárbaro de cunho machista, racista e transfóbico.

    Abaixo, divulgamos a íntegra do ofício enviado pela senadora Vanessa Grazziotin ao Ministro da Justiça e publicada no site do Senado Federal: 

    Terrorismo contra Feministas
    29/01/2018 13:55

    Ofício nº 02/2018 –PROMUL Brasília-DF, 26 de janeiro de 2018.

    Ao Excelentíssimo Senhor

    Torquato Jardim

    Ministro de Estado

    Ministério da Justiça e Segurança

    Brasília – DF

    Referência: Denúncia de “doxxing” e incitação ao ódio e agressão física a feministas negras de Salvador

    Senhor Ministro,

    Cumprimento-o cordialmente e informo a Vossa Excelência que esta Procuradoria Especial da Mulher do Senado é o órgão do Poder Legislativo federal com a prerrogativa de zelar pela defesa dos direitos das mulheres, oferecendo orientação e dirigindo suas queixas e denúncias para análise de órgãos competentes.

    No que cabe especialmente ao escopo de sua pasta no Poder Executivo, peço a Vossa Excelência devida atenção à denúncia feita pelas administradoras da Página de internet Feminismo Sem Demagogia, senhoras Gleide Davis, Vera Dias e Jéssica Milaré.

    O referido relato informa que por meio de mensagens de seus seguidores do Facebook elas teriam recebido ameaças do site Rio de Nojeira, nas quais o autor da postagem oferece 10 mil reais para quem se oferecer a jogar ácido sulfúrico no corpo delas.

    Publicado na tarde de segunda-feira, 22 de janeiro de 2018, o autor da ameaça teria dado prazo de trinta dias para que indivíduos se habilitem a cometer o crime.

    Para a realização do ataque, a referida página oferece dados pessoais dos “alvos”, como nome completo, documentos pessoais, número de telefone e até mesmo o endereço pessoal e comercial, além de uma fatura de cartão de crédito.

    A ameaça feita às militantes feministas de Salvador combina práticas de um tipo de violência virtual muito específica, chamada “doxxing” – a qual consiste na divulgação pública de endereços e informações privadas não só da pessoa que se quer atingir como de seus parentes, enquanto forma de mostrar que elas estão sendo monitoradas, acompanhadas, vigiadas, e, portanto, estão expostas à possibilidade de alguma ação contra elas – a um tipo de agressão física (deformação com ácido) que a pesquisadora francesa Verónique Durand, no livro Órfãs da Esperança, afirma ter sido criada em Bangladesh, em 1967.

    Em setembro de 2017, a prática de “doxxing” foi uma das formas de violência virtual contra as mulheres denunciadas numa audiência pública realizada na Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, na Câmara dos Deputados, com apoio desta ProMul.

    Na ocasião, a jornalista, ativista e blogueira Lola Aronovich denunciou a prática de “doxxing” e se queixou da atuação da Polícia Federal e da própria Agência Brasileira de Inteligência, as quais, segundo ela, negligenciaram a atuação de monitoramento de atuação de grupos misóginos que têm ligação, inclusive, internacional com organizações neonazistas.

    Faz-se imperiosa a necessidade de apurar, identificar e punir com todo rigor essa ameaça, verdadeiramente terrorista, contra as mulheres.

    Na expectativa de contar com o inestimável apoio de Vossa Excelência, envio-lhe votos de consideração e respeito.

    Atenciosamente,

    Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM)

    Procuradora Especial da Mulher do Senado

    Foto: 21/03/2016- Brasília- DF, Brasil- Plenário do Senado durante sessão não deliberativa. Em discurso, senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM). |  Jefferson Rudy/ Agência Senado

  • Vítimas de violência machista, transfóbica e racista na internet recebem solidariedade do Congresso do Andes

    Delegados presentes, professores de instituições de ensino superior de todo país, aprovaram moção de apoio às vítimas

    Do dia 22 a 27 de janeiro, aconteceu o 37º Congresso da Associação Nacional dos Docentes de Ensino Superior (Andes-SN), em Salvador, na Bahia. Além de todas as demais discussões relativas aos interesses da categoria, os delegados presentes aprovaram uma moção se solidarizando com as quatro companheiras vítimas de conteúdo machista, racista e transfóbico por um blog extremista. Duas delas são colunistas do Esquerda Online. Mais de cem professores de instituições de ensino superior do país assinaram a nota. A entidade divulgou, ainda, fotos de delegados com um cartaz em apoio.

    Entenda
    No dia 22 de janeiro, um blog de conteúdo sensacionalista e extremista, que já protagonizou outros episódios criminosos, incitou os leitores a jogar ácido nas ativistas para dar “uma lição” às feministas. Eduarda Alfena, Gleide Davis, Vera Kolontai  e Jéssica Milaré foram expostas como símbolo de feministas que, segundo o autor da postagem, deveriam ser exterminadas. O conteúdo é, além de explicitamente machista, pois se direciona abertamente às feministas, também transfóbico e racista. Escolheram ativistas trans e negras para exalar o discurso de ódio. Jéssica escreveu uma resposta ao agressor, para sua coluna, no Esquerda Online.

    “É bizarro que você, de verdade, acredite que uma travesti é ‘tudo que há de mais errado neste mundo’, enquanto que jogar ácido na cara de mulheres inocentes, pra você, é absolutamente normal. Você quer jogar ácido na cara de mulheres porque simplesmente se recusam a abaixar a cabeça para você. E eu, que absurdo, que horror!, uso roupas femininas, tomo hormônios e falo fino”, afirma Jéssica.

    A postagem no blog foi retirada do ar. O domínio .com.br não é possível ser acessado mais e o .com foi removido. No entanto, o blog continua existindo e o responsável pela administração do conteúdo ainda não foi identificado e punido.

  • Um feminismo para os 99%: as mulheres entrarão em greve em 2018

    Em 8 de março, entraremos em greve contra violência de gênero – contra homens que cometem violência e contra o sistema que os protege

    Linda Alcoff, Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya, Rosa Clemente, Angela Davis, Zillah Eisenstein, Liza Featherstone, Nancy Fraser, Barbara Smith, Keeanga-Yamahtta Taylor

    Publicado originalmente em inglês: https://goo.gl/jWGCK7
    Tradução: Camila Ribeiro

    Ano passado, no 8 de março, nós, mulheres de todos os tipos, marchamos, paramos de trabalhar e tomamos as ruas em cinquenta países ao redor do mundo. Nos Estados Unidos, nos manifestamos, marchamos, deixamos as louças para os homens em todas as grandes cidades desse país e em incontáveis cidades menores. Nós interrompemos o funcionamento de três distritos escolares para provar ao mundo, mais uma vez, que enquanto sustentamos a sociedade nós também temos o poder de fechá-la.

    8 de março está chegando novamente e as coisas pioraram para as mulheres nesse país

    Nesse um ano de governo Trump, não fomos apenas atacadas com abuso verbal e ameaças misóginas sob o disfarce de declarações oficiais, o regime Trump colocou em prática políticas que continuarão tais ataques contra nós de formas profundamente institucionais.

    As reformas tributárias e trabalhistas (Tax Cuts e Job Acts) ceifam isenções que beneficiam trabalhadores de salários mais baixos cuja vasta maioria é composta de mulheres. Há planos para destruir o Medicaid e o Medicare, os dois únicos programas que restam nesse cruel cenário neoliberal que protegem os idosos e os pobres, os doentes e os deficientes, o planejamento familiar e as crianças – e, portanto, as mulheres, as quais fazem a maior parte do trabalho de cuidados. E enquanto o ato nega assistência médica para crianças imigrantes, introduz poupança universitária para “crianças não nascidas” [nascituros], uma maneira arrepiante de estabelecer por decreto legal “direitos” às “crianças não nascidas”, desse modo, assaltando nosso direito fundamental de tomar decisões sobre nosso próprio corpo.

    Mas essa não é toda a história.

    Com todas essas frentes de guerra abertas contra nós, não nos acovardamos. Nós devolvemos com luta.

    Quando, no outono passado, mulheres com visibilidade pública e acesso à mídia internacional decidiram romper o silêncio sobre assédio e violência sexual, as comportas foram finalmente abertas e uma torrente de denúncias públicas inundaram a rede.

    As campanhas #MeToo, #UsToo e #TimesUp tornaram visível aquilo que a maioria das mulheres já sabia: seja no ambiente de trabalho ou em casa, nas ruas ou nos campos, em prisões ou em centros de detenções do ICE [Immigration and Customs Enforcement], a violência de gênero com seu efeito racista diferenciado assombra a vida cotidiana das mulheres.

    O que também se tornou claro é que o silêncio público sobre algo que sempre soubemos, suportamos e lutamos contra, não existe apenas porque temos medo ou vergonha falar: o silêncio é forçado. O silêncio é imposto por leis do Congresso que fazem as mulheres passar por quase um ano de aconselhamento obrigatório e mediação se elas ousam prestar uma queixa oficial. Ele é afetado pelo sistema de justiça criminal que rotineiramente rejeita relatos de mulheres usando camadas adicionais de intimidação e violência. Em campi universitários, administradores dispostos encontram meios “legais” inteligentes para proteger a instituição e o criminoso enquanto jogam as mulheres aos lobos. Os fundamentos racistas desses procedimentos legais exigem uma resposta.

    #MeToo, #UsToo e #TimesUp não apenas expuseram estupradores individuais e misóginos, elas rasgaram o véu que escondia as instituições e estruturas que os autorizava.

    A violência de gênero baseada em raça é internacional, como deve ser a campanha contra ela. O imperialismo norte-americano, militarismo e colonialismo fomentam misoginia ao redor do mundo. Não é uma coincidência que Harvey Weinstein, em seus longos anos tentando silenciar e aterrorizar mulheres, usou a empresa de segurança Black Cube, que é feita de ex-agentes do Mossad [Instituto para Inteligência e Operações Especiais do Estado de Israel] e de outras agências de inteligência de Israel. Nós sabemos que o mesmo estado que manda dinheiro a Israel para brutalizar a palestina Ahed Tamimi e sua família também financia as prisões em que mulheres afro-americanas como Sandra Bland e outras morreram.

    Então, em 8 de março nós estraremos em greve contra a violência de gênero – contra os homens que cometem violência e contra o sistema que os protege.

    Nós acreditamos que não foi nenhum acidente que foram as nossas irmãs com posição social destacada que primeiro tornaram visível aquilo que todas sabíamos. A capacidade delas para isso foi mais forte do que a de nossas irmãs de salários mais baixos, tantas vezes de cor, que limpam quartos naquele chique hotel de Chicago ou de nossa irmã que colhe frutas nos campos da Califórnia.

    A vasta maioria de nós não se manifesta porque nos falta poder coletivo em nosso ambiente de trabalho, e porque nos é negado suportes sociais como assistência médica gratuita, fora dele. O trabalho, com seu salário baixo, com seu gerente assediador e seu chefe abusivo, com suas longas horas, se torna a única coisa que tememos perder, porque é a única forma de prover comida a nossas famílias e cuidados aos nossos doentes e enfermos.

    Nós não nos calamos. Nós somos forçadas pelo capitalismo a nos calar.

    Então, em 8 de março nós falaremos, pessoalmente, contra os abusadores individuais que tentaram arruinar nossas vidas, e nós falaremos, coletivamente, contra a insegurança econômica que nos impede de falar.

    Nós entraremos em greve porque queremos expor nossos abusadores pessoais. E entraremos em greve porque precisamos de programas de bem-estar social e trabalhos com salários dignos para alimentar nossas famílias bem como do direito de nos sindicalizar, caso formos demitidas por nos manifestar contra seus abusos.

    Então, em 8 de março nós entraremos em greve contra o encarceramento em massa, a violência da polícia e as patrulhas de fronteira, contra a supremacia branca e o rufar de tambores das guerras imperialistas norte-americanas, contra a pobreza e a violência estrutural mascarada que fecha nossas escolas e hospitais, envenena nossa água e comida e nos nega justiça reprodutiva.

    E nós entraremos em greve por direitos trabalhistas, direitos iguais para todos os imigrantes, igualdade salarial e salário digno, porque a violência sexual no ambiente de trabalho é permitida quando nos falta meios de defesa coletiva.

    8 de março será o dia do feminismo para os 99%: um dia de mobilização de mulheres negras e marrons, cis e bi, trabalhadores lésbicas e trans, das pobres e de salários baixos, das cuidadoras não pagas, das trabalhadoras sexuais e migrantes.

    Em 8 de março, #EntramosEmGreve.

     

  • Resposta pública ao ameaçador

    Por Jéssica Milaré, colunista do Esquerda Online.

    Você prometeu recompensa a quem jogar ácido em mim e outras três mulheres em uma página na segunda-feira, dia 22/01. Eu sei que uma resposta não vai mudar sua cabeça, mas eu tenho direito de dizer publicamente o que eu penso.

    Você não me conhece.

    É bizarro que você, de verdade, acredite que uma travesti é “tudo que há de mais errado neste mundo”, enquanto que jogar ácido na cara de mulheres inocentes, pra você, é absolutamente normal. Você quer jogar ácido na cara de mulheres porque simplesmente se recusam a abaixar a cabeça para você. E eu, que absurdo, que horror!, uso roupas femininas, tomo hormônios e falo fino.

    Você diz que eu me tornei trans pra poder “pegar mulheres lésbicas”. Fica evidente que você não nos conhece nem um pouco. Nenhum homem teria coragem de se tornar uma mulher pra “pegar mulheres lésbicas”. Pra ser uma travesti, é preciso muita coragem, coisa que a maioria dos homens não tem. Aliás, você mesmo diz, com seu raciocínio machista, “era muito mais fácil pagar uma puta”. Ou (cruzes!) estuprar alguém.

    Ironia: você, que não tem nem coragem de dizer quem é nem onde mora, diz que é fácil estuprar (sic) uma mulher. Isso é óbvio, não é preciso coragem para estuprar. Basta ser um homem vil e desprezível para se cometer esse crime. Agora, pra se tornar uma travesti, você mesmo admite, é muito difícil.

    Homens não são tão corajosos quanto se diz, aliás, muito pelo contrário. Nós, travestis, mulheres trans, ferimos a masculinidade dos homens. É por isso que você tem ódio de mim. Porque nós somos a prova viva de que as mulheres não são inferiores aos homens, não são inferiores a você. Minha existência questiona o poder de macho que você pensa que tem, fere de morte a sua masculinidade.

    E só pra constar, eu não sou mais administradora da página Feminismo Sem Demagogia, aliás, desde o ano retrasado. Mas não foi por isso que você escolheu meu nome, não é? Você escolheu a dedo as vítimas. Em primeiro lugar, a Verinha, principal administradora da página. Em segundo, Gleide, uma administradora negra (e você não consegue esconder seu racismo) que tem muita visibilidade. Em terceiro, eu, uma ex-administradora trans, junto com minha companheira. Você escolheu meu nome porque eu sou “tudo que há de mais errado neste mundo”.

    A História não perdoa os nazistas. No futuro, você será visto como os inquisidores da Idade Média, que tinham ódio de quem escrevia com a mão esquerda, de quem tem algum tipo de deficiência, das “bruxas” e dos sodomitas. Você será visto como os nazistas, que tinham ódio de todas as pessoas diferentes. Afinal, você é um nazista, não é mesmo?

  • 120 Batimentos por Minuto

    Por George Bezerra, de Fortaleza, CE

    Não é possível sair da sala de cinema, após assistir a “120 batimentos por minuto” (França, 2017 – Robin Campillo), e voltar ao curso normal da vida.

    O que eu planejei após a sessão, desisti. É preciso tempo para levantar da poltrona, dar vazão às lágrimas, voltar a caminhar normalmente e conseguir se reconectar com o mundo e as pessoas.

    Falar sobre AIDS não é fácil. Falar daqueles e daquelas que são portadores do HIV e se organizam para garantir tratamento, apoio psicossocial, medicação, prevenção, investimento em pesquisa e debate na sociedade sobre o tema é mais difícil ainda.

    Dar visibilidade e protagonismo positivo à população LGBT, nesse tema, fugindo dos esteriótipos que foram construídos ao longo das últimas três décadas é um desafio e tanto. Diria que uma necessidade política e uma obrigação moral.

    Campillo toma essa tarefa para si. É um filme político, mas, antes de tudo, é um filme sobre o amor. O amor que convive, lado a lado, com o prazer, o sexo, o sofrimento, a indignação, a raiva, a solidariedade, o medo, a morte e a dor. O amor e a vontade de viver como matérias-primas do ato de fazer política.

    No Brasil, em tempos de crescente audiência ao discurso de ódio contra a população LGBTTQ, aumento de infecção pelo HIV, principalmente entre os jovens, e de 16% de intenções de voto para um candidato de ultradireita, 120 batimentos por minuto é um forte recado contra os retrocessos históricos que a agenda conservadora está impondo.

    Vencedor do prêmio da crítica no festival de Cannes 2107, o filme está em cartaz, no Brasil, desde 11 de janeiro. Oxalá ganhe visibilidade e ajude o debate sobre o HIV a ganhar novos rumos.

    Prepara-se para 143 minutos de muita intensidade e beleza.