Opressões

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  • Marielle Franco, Presente! Uma flor que nasce no asfalto

    “Toda vez que um justo grita
    Um carrasco manda matar
    Que não presta fica vivo
    Quem é bom mandam matar”
    Cecilia Meireles

    O escritor uruguaio Eduardo Galeano, em um poema sobre a revolucionária polonesa Rosa Luxemburgo, fala de forma doce e delicada, sobre seu assassinato e sobre como que diariamente, centenas de pessoas, e porque não milhares de pessoas, ao longo dos anos, ao redor do mundo, recolhem da lama a bandeira de justiça e igualdade que Rosa deixou.

    Galeano escreveu:

    “O sapato. Em 1919, a revolucionária Rosa Luxemburgo foi assassinada em Berlim.
    Ela foi arrebentada a coronhadas de fuzil pelos assassinos, e depois jogada nas águas de um canal. No caminho, perdeu um sapato. Alguém recolheu esse sapato, jogado na lama. Rosa queria um mundo onde a justiça não fosse sacrificada em nome da liberdade, nem a liberdade sacrificada em nome da justiça. Todos os dias, alguém recolhe essa bandeira. Jogada no barro como o sapato.”

    Um ano depois do assassinato de Marielle Franco, podemos dizer que diariamente, centenas, e porque não milhares de pessoas levantam as bandeiras deixadas por Marielle.

    O tempo é cruel, sempre. Fez um ano. Ninguém esqueceu. Os seus assassinos, tanto aqueles que puxaram o gatilho, como aqueles que mandaram matar, acharam que o ocorrido naquele triste 14 de março iria passar despercebido, no máximo iriamos lembrar por uma semana, ou um mês. Nós não esquecemos.

    Quando foi assassinada Marielle era uma importante vereadora carioca e uma das maiores promessas de quadros do PSOL. Hoje, Marielle Franco se tornou um símbolo. É impressionante a força que a imagem e que seu nome tomaram. Seu rosto e seu nome, estampam bandeiras, faixas, cartazes, camisas, ruas, muros e são lembrados no mundo todo. Em toda luta. No Brasil, na França, no México, na Rússia. Todos conhecem Marielle. Seu legado se tornou eterno. Nos gritos das mulheres sem-teto, das camponesas, dos movimentos de juventude e de todos que lutam por justiça e igualdade.

    Dos mais diversos grupos e ideologias políticas. Dos mais diversos setores sociais e culturais. Dos mais diversos movimentos políticos. Das feministas, dos defensores dos direitos humanos, da luta contra o genocídio da juventude negra, da causa LGBT, dos democratas, da esquerda radical. Marielle se tornou um símbolo para todos estes.

    A socialista, a feminista, a antirracista, a defensora dos direitos humanos, da causa lgbt, a favelada, a negra, a bissexual, a mãe, a filha, a irmão. Em todos os aspectos, Marielle Franco será lembrada e estará presente. Em seu nome, em sua luta e sua vida, se misturam todos os aspectos e diversidades de resistências do povo brasileiro.

    Um ano atrás o Brasil chorou. Formos às ruas. Todos nós desabamos. Estávamos desolados, Não tínhamos nada além de uns aos outros. Muitos não conseguiram dormir, um grito de desespero e medo ecoava em nossos ouvidos como num filme de terror. Mas aquele momento mostrou que nós tínhamos uns aos outros. Os abraços e colos amigos, dos companheiros e dos camaradas era o que restava. Ninguém podia soltar a mão de ninguém.

    Um ano depois daquele triste, dolorido e inesquecível, 14 de março de 2018, os assassinos de Marielle e Anderson permanecem impunes. Um ano depois se confirma o que se esperava, a ligação de milicianos com o assassinato. Apenas três meses depois que assume um governo que sela uma aliança trágica e assassina, entre setores do Exercito e as milícias.

    A um ano atrás, Naquele dia 14 de Março o grito era de dor, neste 14 de Março o grito é por Justiça. A luta e o legado de Marielle, sua vida e sua obra, gerou fruto, virou sementes. Em cada ocupação de terra, cada ocupação por moradia, cada luta feminista, antirracista, cada luta democrática. Marielle se multiplicou. Os seus inimigos não a derrotaram. Marielle se tornou eterna.

    Quando gritamos “Marielle Vive”, quando exigimos “Justiça para Marielle”, não falamos sobre somente sua morte. Não falamos somente sobre o passado. Não é uma mera palavra de ordem. “Marielle Vive” é o grito entalado na garganta por 500 anos, que engloba todas as lutas e particularidades do povo brasileiro. Não é só recordar de Marielle, é manter vivo seu legado, e multiplica-lo, é uma denúncia contra a extrema-direita, contra o governo que unifica os setores do Exército com a milícia, é um grito contra as elites que mataram, seguem matando e acreditam que poderão matar e dominar nosso povo.

    Marielle Vive é a prova, que nós manteremos a chama acessa. Que nós não aceitaremos mais. Que nós não esqueceremos. Marielle se transformou, se multiplicou, surgiram novas, centenas e milhares. Em cada favela, cada bairro, cada local de estudo, surge uma nova Marielle.

    No fim, talvez não hoje, nesse 14 de Março, mas num 14 de Março em futuro não muito longe. Marielle vai vencer o capitão, a milícia, os banqueiros e todos aqueles que derramaram sangue de nosso povo.

    Até lá, diariamente, o legado de Marielle será lembrado. Como uma flor que cresce no asfalto. Apesar de nossos inimigos tentarem impedir que ela floresça, ela surgiu, cresceu e agora perfuma o seu arredor.

    Nós seguimos na luta e vamos vencer, por Marielle.

    Foto Plataforma Florescer por Marielle

     

  • Policial acusado de matar universitária é preso em Currais Novos (RN)

    Jovem Zaira Cruz foi morta no carnaval, na cidade de Caicó, no interior do Rio Grande do Norte

    Na manhã desta sexta-feira, 15, foi preso o sargento da Polícia Militar do Rio Grande do Norte Pedro Inácio, 37, principal suspeito pela morte da estudante Zaira Cruz, de 22 anos, na madrugada do dia 02 de março, sábado de carnaval. Segundo o laudo do ITEP (Instituto Técnico-Científico de Perícia), ela foi assassinada por asfixia mecânica e estrangulamento.

    Zaira Cruz era estudante de Engenharia Química na Ufersa (Universidade Federal Rural do Semi-Árido) e foi encontrada morta dentro do carro pertencente a Pedro Inácio. Ela passava o carnaval com amigos em Caicó, cidade a 87 km de Currais Novos, onde vivia com a família.

    Pedro chegou no local onde estava com amigos depois das 03h da manhã. Pela manhã, perguntou por Zaira às pessoas da casa. O corpo foi encontrado às 09h, no carro dele.

    Leonardo Germano, delegado responsável pelo caso, afirmou que, segundo a perícia, a estudante foi assassinada momentos antes da chegada ao local onde o corpo foi encontrado. A polícia ainda investiga as motivações do crime e se houve violência sexual contra Zaira. Também está sendo aguardado o resultado dos exames toxicológicos de Zaira e Pedro. O delegado descarta a participação de outra pessoa.

    O caso chocou o Rio Grande do Norte. O crime foi denunciado nos atos do 8 de Março. No domingo seguinte, um ato reuniu cerca de 300 mulheres, de todas as idades, na Praça de Currais Novos, exigindo justiça. No protesto, era possível perceber a indignação, além da tristeza pela morte de Zaira. A manifestação foi organizada por amigas e por um grupo de mulheres jovens de um coletivo feminista na cidade e teve repercussão na mídia do estado.

    A violência contra as mulheres é a face mais cruel da desigualdade de gênero no Brasil. A cada duas horas, uma mulher é morta o Brasil e os registros apontam que cresceu 12% o número de feminicídios no país, mas esses números não são apenas estatística. Zaira, a poucos dias de completar 23 anos, teve a sua história interrompida, todos os seus planos destruídos em instantes de uma noite de carnaval.

    Zaira presente! Nenhuma mulher a menos!

     

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    8 de Março: Chega de nos matar! Resistir para não morrermos!

     

    Cobertura colaborativa -Veja fotos do ato por Marielle em Natal (RN)

    As homenagens a Marielle Franco marcaram o dia 14 de março em Natal (RN). No início da manhã, ocorreram panfletagem e…

    Posted by Esquerda Online on Friday, March 15, 2019

     

  • Quem mandou matar Marielle?

    “Sou força porque todas nós somos,
    Sigo porque seguimos todas juntas,
    Eu sou Marielle Franco, mulher, negra, mãe, da favela,
    Eu sou porque nós somos”

    Marielle: Negra, mulher, favelada e LGBTQI+ em movimento

    No dia 14 de março a vereadora do Rio de Janeiro pelo PSOL Marielle Franco voltava de um evento na casa das pretas acompanhada de uma assessora e do motorista Anderson Gomes, quando foi brutalmente assassinada. O carro foi atingido com 13 disparos, pelo menos quatro atingiram Marielle na cabeça. Anderson também foi baleado e morreu no local.

    Quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro, conhecida como cria da Maré, unia em si todas as potencialidades e sonhos daqueles e daquelas que lutam cotidianamente contra as opressões e por outro modelo de sociedade.

    Marielle Franco era uma potência. Seu corpo, aliado a sua militância política, era uma combinação daquilo que os poderosos mais temem: o despertar da consciência dos pobres, oprimidos e explorados da força e do poder que tinham em suas mãos. Marielle sabia que só a luta coletiva era capaz de mudar o mundo, por isso sua vida militante e seu mandato estavam a serviço da luta coletiva, da mobilização dos oprimidos.

    Marielle ousou ocupar espaços que, historicamente, não eram tidos como seus. Isso porque o mantra que as assembleias e câmaras são a “casa do povo” não convence mais ninguém. Por natureza, esses espaços são feitos para permanecerem sob controle do capital, através de projetos políticos antipovo, que atacam a população mais pobre e trabalhadora e que têm como única finalidade continuar explorando e arrancando direitos.

    No entanto, Marielle mostrou que é possível construir um projeto diferente, construído por aqueles que habitam os morros e favelas, que carregam a opressão em seus corpos. Para construir esse projeto, Marielle denunciava cotidianamente a sanha por sangue negro nas favelas e nas comunidades, a política racista de combate às drogas do Estado responsável pelo o genocídio da juventude negra, denunciou a perigosa combinação entre política, polícia e corrupção e a intervenção federal no estado do Rio de Janeiro, que apenas serviu para trazer mais tragédias para o povo negro e pobre. Por isso, por ser a junção de tudo o que a burguesia brasileira mais odiava, Marielle foi assassinada. O recado era claro e evidente: o silêncio e a morte para aqueles que ousavam lutar e resistir.

    Depois da prisão dos executores ainda fica a pergunta, QUEM MANDOU MATAR MARIELLE E ANDERSON?

    O assassinato de Marielle representou um grave atentado contra as liberdades democráticas, conquista das lutas dessa brava gente. A execução de uma parlamentar em pleno exercício de suas funções é um sinal de alerta para todos e todas da conjuntura que estamos vivendo no País. O envolvimento da milícia e de políticos na morte de Marielle só ressalta que não estamos lidando com qualquer força, estamos lidando com o que há de mais perigoso na política: o envolvimento de forças do estado na execução de uma parlamentar eleita pelo povo. Marielle foi morta por causa das pautas que defendia, por ser uma defensora irrestrita de direitos humanos e pelo papel político que desempenhava na denúncia das violações de direitos nas favelas.

    A prisão de um PM reformado e de um ex-PM pelo assassinato de Marielle é a prova de que estamos lidando com forças poderosas e que, se foi importante essas prisões, é ainda mais imperioso responder outras perguntas ainda mais difíceis: Quem mandou matar Marielle e Anderson? Quais interesses políticos se escondem por trás dessa morte? Qual o envolvimento de agentes de estado na execução? Até onde vai a relação entre milicianos e políticos do Rio de Janeiro? Quem está envolvido no arsenal de fuzis que acaba de ser descoberto? São muitas as perguntas e poucas as respostas.

    Mas sabemos a resposta que não aceitamos. Não admitiremos que tente se explicar o assassinato de Marielle e Anderson como um crime de ódio, como uma ação isolada de dois atiradores, motivados pela intolerância e pelo ódio contra ideias de esquerda. Não. Marielle foi executada em uma ação planejada, executada por profissionais, que estão ligados a milícia. Não são atiradores a esmo. São parte de uma operação muito maior, que envolve grupos criminosos e políticos e que cada vez mais se aproxima da família do presidente da República. A prisão dos dois não é o bastante. Precisamos aprofundar a investigação, garantindo o seu caráter independente e ampliando para a participação de entidades de direitos humanos e da sociedade.

    “Eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer”: O legado de Marielle Franco

    São muitas as lições que temos a aprender com Marielle. Se por um lado exigir justiça todos os dias é de suma importância, por outro é necessário entender e fazer valer o legado que ela deixou. A mulher negra, favelada, LGBTQI+ mostrou que é possível construir política com aqueles e aquelas que estão completamente esquecidos pelo poder público. Mais do que isso, Marielle demonstrou que não era apenas mais uma representante parlamentar, mas lutou ombro a ombro, corpo a corpo, e fez do seu mandato um espaço para que as vozes dos e das invisíveis fossem ouvidas.

    No entanto, para além de toda a compreensão do papel de Marielle como parlamentar, refletir sobre corpos negros requer responsabilidade. Nesse sentido, Marielle deixa um legado da necessidade de compreendermos a luta antirracista e anticapitalista no Brasil, organizar os debaixo para derrubar os de cima significa colocar em marcha, principalmente negros e negras, mulheres e LGBTQI+, entender que o racismo no Brasil deve ocupar um lugar central em nossas análises, que o endurecimento do estado e o esvaziamento de seu papel em tempos de neoliberalismo afeta ainda mais os oprimidos.

    Por fim, honrar a memória de Marielle Franco significa, agora mais que nunca, lutar contra Bolsonaro e seu projeto de poder racista, misógino, LGBTQIfóbico, autoritário e antipovo. Lembrar Marielle é lutar por uma transformação social que coloque o povo explorado e oprimido em primeiro lugar.

    Por tudo isso, é muito importante transformarmos esse dia 14 em um grande dia de luta, histórico, repetindo os protestos durante o carnaval e os potentes atos do 8 de Março. Cada amanhecer, cada debate, cada flor e cartaz nesta quinta-feira será um passo a mais nas lutas de resistência que teremos pela frente, como a jornada de 21 dias contra o racismo e os atos nacionais contra a reforma da Previdência, no próximo dia 22.

     

     

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  • Chegou a vez de ouvir as mulheres! Viva as Marias, Mahins, Marielles, Malês!

    Depois de um carnaval marcado pela extasiante vitória da Mangueira, com seu samba-enredo que mais parece uma aula de história, da verdadeira história do Brasil, tivemos mais uma importante vitória: grandes, fortes e unificados atos no 8 de Março, Dia Internacional de Luta das Mulheres.

    Estava sobre os ombros das mulheres a responsabilidade de fazer o primeiro grande ato de enfrentamento ao governo de Jair Bolsonaro. Dar o primeiro passo na caminhada da resistência. A expectativa não era repetir o desempenho do movimento #EleNão, que arrastou milhões às ruas às vésperas do primeiro turno eleitoral de 2018, pois vivemos um momento político distinto daquele. Mas fazer fortes atos que moralizassem as mulheres e o conjunto dos movimentos sociais para acumular forças e enfrentar as grandes batalhas que temos pela frente.

    Podemos dizer que este objetivo foi cumprido com louvor. Em geral os atos repetiram o fabuloso desempenho do 8M de 2017, que abriu as portas da greve geral e derrotou a reforma da Previdência do então governo Temer. Foram atos com dezenas de milhares nas principais cidades do país, que cantaram os versos da Mangueira, gritaram a luta por justiça para Marielle e Anderson, denunciaram irrefutavelmente o aumento do feminicídio e anunciaram a tarefa de derrotar a nova reforma.

    O tamanho e força dos atos feministas não dependem mais apenas das oscilações positivas ou negativas da conjuntura. Mesmo diante de uma ofensiva de forças tão conservadoras, o movimento feminista vem se provando como vanguarda do processo de resistência no Brasil e no mundo. Em alguns países vimos milhões nas ruas, greves de mulheres que tiveram significado de greves gerais, como na Espanha, Portugal, Itália e Chile. Ocorreram atos em países da África, como Argélia, Quênia e Turquia, onde tradicionalmente não se viam atos, sendo que neste último as mulheres sofreram uma forte repressão. O 8M ocorreu em mais de 400 cidades no mundo, em atos grandes e históricos! É uma onda que cresce. É neste processo, na força das mulheres, que está a chave para despertar o conjunto dos trabalhadores para resistir a ofensiva ideológica, social e econômica que quer nos esmagar.

    No Brasil, o 8M foi uma importante resposta à ministra Damares, com seu discurso que reforça a já abismal desigualdade de gênero no país; ao discurso misógino, de ódio que permite o aumento de crimes bárbaros contra mulheres e pessoas lgbts; ao aumento significativo dos casos de feminicídio, que segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, no início de fevereiro já haviam sido notificados 126 feminicídios, número superior ao do mesmo período do ano de 2018, que, por sua vez, já havia crescido 12% em relação ao ano anterior. O 8M foi uma resposta ao racismo de estado, que extermina a juventude negra nas favelas e periferias do país, agora, ainda mais legalizado e institucionalizado com o pacote de “combate ao crime” de Sérgio Moro; aos planos draconianos de Paulo Guedes que quer transformar os trabalhadores brasileiros em um povo sem direitos. O governo Bolsonaro elegeu o movimento feminista como alvo, mas nós estamos de pé, cabeça erguida e braços dados.

    O primeiro passo foi dado, mas não podemos ter um minuto de descanso, pois o caminho é árduo e longo. A próxima tarefa é realizar um importante 14M, quando se completa um ano da execução politica de Marielle Franco, e preparar nos locais de trabalho, estudo, moradia, uma massa crítica sobre o fim da seguridade social, que consiga dar uma nova demonstração de forças no próximo dia 22, quando haverá o primeiro ato nacional contra a reforma da Previdência. É preciso dar continuidade a unidade forjada desde o #EleNão e que se estendeu na construção do 8M. Precisamos de uma frente entre o movimento feminista, centrais sindicais, frentes de luta e demais movimentos sociais para enfrentar a extrema-direita brasileira e seus ataques. Juntas e juntos somos gigantes!

    Como disse Mônica Benício, viúva de Marielle Franco, citando a escritora Conceição Evaristo, diante de uma Cinelândia lotada, “Eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer”. Resistiremos!

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    Manifesto Feminista Internacional

     

    8M: Ninguém pode dizer que não ouviu os gritos de resistência das mulheres negras

     

  • As mulheres e o amor

    Março é um mês de visibilidade da luta das mulheres. Neste ano estamos nas ruas, mais uma vez, para barrar esse projeto de Bolsonaro para o Brasil, que afronta nossos direitos. Pretendo discutir alguns temas que atravessam a minha compreensão acerca da vida das mulheres, começando pelo tema do amor e logo contarei porque vou começar por aqui. Março é também um mês especial para mim: nasci em 5 de março de 1974, mesmo dia de Rosa Luxemburgo – separadas por 103 anos.

    Tenho muito orgulho dessa coincidência porque Rosa lutou pelo socialismo com direito à liberdade e à felicidade pessoal.

    Apesar do governo federal, estadual e municipal e de todos os podres poderes da República, empenhados na total destruição de nossos direitos, resolvi festejar com amigas e amigos mais próximos e familiares, porque, como diz uma amiga psicanalista querida, nossa vingança é a felicidade e eu sou muito rica de afetos. Então, fizemos uma feijoada e celebramos a vida e a amizade. Obviamente foram as mulheres que fizeram as compras, picaram as carnes, cozinharam o feijão, fizeram o arroz, a couve, o vinagrete e a farofa. Eu, inclusive, queimei meus dedos descascando alho. Nem sabia que isso acontecia. Foram amigas que organizaram os pratos, talheres e copos, cadeiras e banquinhos, cuidaram da forração das mesas, e também da minha roupa, para garantir uma festa coletiva, como das antigas – que não se sabe o número certo de pessoas que vai aparecer e está tudo bem ser assim, e com menos gastos, afinal a coisa está feia. Quando as pessoas foram chegando, por incrível que pareça, alguns homens estavam picando a laranja e fazendo uma salada maravilhosa de guariroba, itens que vieram da minha cidade natal e isso foi suficiente para muita gente dizer: que legal, os homens estão na cozinha.

    Tive que esclarecer que todo o trabalho até então tinha sido feminino, correndo o risco de ofender os homens, mas para registrar que o mundo não é mesmo justo com as mulheres…

    Falemos do motivo pelo qual resolvi escrever sobre o amor. Ah, o amor! “É só o amor, é só o amor que conhece o que é verdade” (Renato Russo musicando a bíblia). Estava eu nessa festa maravilhosa, plena aos 45 anos de vida, querendo conversar com todas as pessoas – sem êxito – quando uma mulher amadíssima por mim veio me contar que numa noite dessas escondeu as facas da casa, com receio de que pudesse ser morta por seu marido. Esse evento me despertou a vontade de falar sobre as mulheres e o amor, na sociedade em que vivemos. Isso para pensar que desde pelo menos a invasão portuguesa no Brasil em 1500, há uma separação entre as mulheres que merecem amor, nos padrões dominantes por aqui, e as que não merecem.

    São merecedoras as brancas, jovens, magras, sem filhos/as, as outras servem para trabalhar e/ou transar. As primeiras também são objetificadas, mas sob a cortina do amor romântico, do relacionamento burguês.

    Eu mesma, quando adolescente na minha cidade, talvez por ser evangélica dos costumes até os 16, vivi a experiência de os meninos só quererem ficar comigo escondido. Vocês poderiam pensar: mas isso não é amor, é violência! Concordo. Mas talvez a gente tenha que pensar sobre a ideia de amor na nossa sociedade, para compreender porque a cada 15 segundos uma mulher é espancada no Brasil, porque a cada 2 horas uma mulher é morta no Brasil, porque o feminicídio diminuiu entre as brancas e cresceu entre as negras.

    Assim, a luta feminista é uma luta necessária. Porque vivemos em uma sociedade que ama os homens e despreza as mulheres. E que, face a essa dura realidade, nossa existência está condicionada a uma vida para os outros. Somos ótimas desde que façamos tudo que os homens querem. No caso dessa pessoa amada que lhes falei, por exemplo, era respeitada pelo marido até o momento em que, deixando de ser exclusivamente dona de casa e trabalhadora, passou a se interessar e participar da política. Foi o suficiente para passar a ser considerada por ele como vagabunda. E é isso que somos: somos todas vagabundas. O tempo inteiro somos medidas por nossas roupas, por nossos atos, somos julgadas e condenadas por fazer ou não fazer. Só as Micheles e Marcelas merecem amor.

    Desconfio que mesmo as belas, recatadas e do lar não estejam muito felizes com o amor que recebem, porque esse “amor” as aprisiona em uma relação que produz e reproduz desigualdade.

    Já nós feministas, dizem que o somos por sermos mal-amadas. Se lésbicas, dizem que foi por falta de homem. Se intelectuais casadas com intelectuais, somos apresentadas como esposas e não como pessoas com trajetórias próprias. É um grande desafio para as mulheres poderem viver todas as dimensões de suas vidas. Pensemos, por exemplo, sobre a Presidência da República, antes do golpe de 2016. Lula e Fernando Henrique tinham mulheres que lhes davam todo suporte: Penso na imagem de Marisa Letícia acompanhando Lula em todas as batalhas, lembro da cena, que me pareceu amorosa, dela raspando seus cabelos e barbas, por conta do câncer. E pergunto: Quem deu suporte a Dilma? Eu não sei como ela se sentiu, mas me pareceu que foram tempos de solidão no poder.

    Quem sustenta todas as mulheres para que estudem, trabalhem, participem da política? Quem as incentiva? Em regra, outras mulheres.

    Reconhecer avanços (tenho orgulho do PSOL pela paridade de gênero na Câmara Federal) e esforços de alguns companheiros homens não nos exime de reconhecer que, em geral, não há incentivo da participação das mulheres nos espaços públicos.

    Poderíamos pensar que não escolhemos a quem amar, mas penso que escolhemos sim, de certa maneira, pois é preciso primeiro disponibilidade. Quando era criança, em Monte Alegre, gostava de jabuticabas, goiabas e mangas. As crianças das cidades grandes, em geral, não gostam dessas frutas, porque não as conhecem e não se dispõem a conhece-las. Então, o gosto não é livre. O amor também não é. Ele é filtrado pelas nossas lentes. As lentes brasileiras, em geral, são machistas, racistas, elitistas, capacitistas, geracionistas. Não amamos gente, amamos uma ideia de amor, romântico. E nela não cabem as negras, não cabem as gordas, não cabem as velhas, não cabem as feias (lembrando que feias na nossa sociedade são as pobres), não cabem as mães (enquanto que para os homens ter filhos pode ser um charme), não cabem as mulheres com deficiência, não cabe quase mulher nenhuma…

    Tem uma campanha feminista que diz que o primeiro amor é o próprio. Seria bom que assim fosse, mas para quem cresceu, como a maioria das meninas, sendo desestimuladas a pensar sobre o seu valor é difícil construir uma autoestima positiva. Então um grande projeto feminista é dizer a cada menina que ela é capaz, que ela é linda como é, que ela só merece ser bem tratada, para que assim qualquer mulher que não seja bem tratada em um relacionamento possa buscar condições para sair dele.

    Que cada mulher tenha amigas que digam a ela sobre seu valor, sobre o seu direito de existir.

    Eu sou do signo de peixes e dizem que piscianas são românticas. A vida real é mais dura. Ela nos impõe pensar sobre esse ideal de relacionamento na sociedade em que vivemos, que diz para o homem que ele será feliz “pegando” todas e que diz à mulher que ela só será feliz se estiver em um relacionamento monogâmico. Há de haver outras formas de pensar e viver o amor.

    Desejo que todas nós sejamos amadas. Por nós, pelas outras, pelos outros, como quisermos, se quisermos.

    Mas o amor será um longo caminho. Ele passa por superação de desigualdades e opressões.

    “A nossa luta, como mulheres, é todo dia! Somos mulheres e não mercadoria”. Que a gente possa ser feliz, apesar de tudo isso e lutando contra tudo isso. Que o socialismo não se faça apenas nas condições materiais da vida, mas incluamos na nossa pauta o desejo e luta por uma subjetividade não opressiva. Eu estou nessa luta. Vamos juntas? Vou procurar aquela mulher da festa e pensar com ela outros amores possíveis e outra forma de organizar a vida.

    Com amor, Jorgê.

    *Militante do PSOL e docente do Instituto de História da Universidade Federal de Uberlândia. Texto publicado originalmente no Mídia Ninja
  • Bate-papo feminista: 8 de março e a luta das mulheres

    Neste 8 de março, tivemos o prazer de receber mulheres guerreiras para conversar conosco sobre a luta feminista no mundo e, em especial, no Brasil. Com mediação de Anna Carolina Costa, que participa da construção do 8M no Rio de Janeiro, conversamos com a mais jovem deputada estadual do Rio e vice-presidente da Comissão de Mulheres da Alerj, Dani Monteiro (PSOL); com uma das coordenadoras do MTST e ativista da Povo Sem Medo, Fabi; com a servidora da saúde, feminista e membro da direção do PSOL-RJ Tatianny Araújo (Resistência-PSOL) e com a secretária nacional de mulheres do PT, Anne Karolyne.

    Na conversa, foram abordados temas como a luta contra a Reforma da Previdência de Bolsonaro e o impacto sobre as mulheres, o legado de Marielle Franco e a luta das mulheres negras, a situação atual do país e a necessidade de lutar por democracia e direitos, a construção do 8 de março e a necessidade da unidade dos movimentos sociais para fortalecer o campo da resistência feminista, dos oprimidos e dos trabalhadores e povo pobre do país.

    Confira a íntegra:

  • Tithi Bhattacharya: O que é a teoria da reprodução social?

    * Tithi Bhattacharya é professora de História do Sul da Ásia e Diretora do Centro de Estudos Globais na Universidade de Purdue (EUA). Ela é uma proeminente feminista marxista e uma das organizadoras da Greve Internacional de Mulheres nos Estados Unidos, além de ativista da causa palestina. É coautora do manifesto “Feminismo para os 99%”, junto com Cinzia Arruza e Nancy Fraser (São Paulo: Boitempo, 2019).

    Este artigo foi originalmente publicado em Socialist Worker, em 10/09/2013, http://socialistworker.org/2013/09/10/what-is-social-reproduction-theory. Tradução para o português, Renata Vereza.

     

    Uma das acusações mais comuns contra o marxismo é que como teoria está focado na “classe” às expensas do gênero

    É importante estabelecer desde o princípio que a história das organizações que se dizem “marxistas” nem sempre foi positiva no que diz respeito às categorias de opressão, como o gênero e a raça. Todo mundo conhece alguém a quem um homem “marxista” tenha dito que assuntos “menores” como o sexismo ou o racismo se resolverão “depois da revolução”, portanto, nesse meio tempo, todos devemos por as mãos à obra e trabalhar em nossa luta de classes. Os incidentes de assédio sexual por parte de homens marxistas desafortunadamente também não são raros nas organizações de esquerda, tanto no passado quanto no presente.

    Em diversos exemplos de verdadeiro assédio, as mulheres relataram sentir-se rejeitadas, minadas e institucionalmente descartadas dentro das organizações. As vozes de mulheres ativistas como as comunistas indianas envolvidas na histórica luta de Telengana de 1947, comunistas britânicas como Doris Lessing, ou Peggy Dennis, membro destacado do Partido Comunista dos Estados Unidos, contam histórias desalentadoras de sexismo e desapontamento nas organizações que elas viam como o trabalho de suas vidas e fonte de esperança.

    Esse registro é particularmente terrível porque muitas de nós nos tornamos marxistas precisamente por que se supõe que revolucionários marxistas são os mais intolerantes com a opressão de gênero. Nos unimos às organizações revolucionárias porque pensamos no marxismo como uma teoria insurgente, que luta por – mas que nunca fica satisfeita com – qualquer reforma que ofereça o sistema e que apela à demolição completa do capitalismo – e é uma das melhores armas para lutar pela liberação feminina e pela justiça de gênero. Esse é o motivo, se somos revolucionários sérios e não irreflexivos predicadores do dogma, pelo qual temos que considerar que existem dois aspectos mutualmente contraditórios da história do marxismo que temos que levar em conta.

    Teoria Marxista

    Há um insight subdesenvolvido no coração da análise de Marx sobre o capitalismo. N’O Capital, Livro 1, Marx identifica a “força de trabalho”, ou nossa capacidade de trabalhar, como a “mercadoria especial” que o capitalista necessita para colocar o sistema em movimento e mantê-lo em funcionamento. Nossa força de trabalho, nos diz Marx, tem a “propriedade peculiar de ser uma fonte de valor” porque com essa força de trabalho criamos mercadorias e valor para o capitalismo. A apropriação do nosso trabalho excedente pelos capitalistas é a fonte de seu domínio. Então, sem essa força de trabalho o sistema colapsaria.

    Mas Marx é frustrantemente silencioso sobre o resto da história. Se a força de trabalho produz valor, como então a força de trabalho produz a si mesma? Certamente os trabalhadores não brotam do chão para chegar ao mercado, frescos e prontos para vender sua força de trabalho ao capitalista.

    Esse é o ponto a partir de onde posteriores estudiosos marxistas como Lise Vogel, Martha Gimenez, Johanna Brenner e, mais recentemente, Susan Ferguson e David McNally se apropriaram da visão transformadora, mas incompleta, de Marx e a desenvolveram ainda mais. Talvez seja importante para nós lembrarmos nesse contexto o potencial e a criatividade inerentes a tradição marxista, corretamente referida como uma tradição viva, a qual permitiu às novas gerações de marxistas examiná-la criticamente e expandi-la.

    Olhando de perto O Capital de Marx, estes estudiosos argumentam que a chave do sistema, nossa força de trabalho, na verdade se produz e se reproduz fora da produção capitalista, em um espaço “baseado em parentesco” chamado família. Em uma passagem excelente, Vogel explica claramente a conexão entre luta de classes e opressão das mulheres:

    A luta de classes sobre as condições de produção representa a dinâmica central do desenvolvimento social nas sociedades caracterizadas pela exploração. Nestas sociedades, o trabalho excedente é apropriado por uma classe dominante e uma condição essencial para a produção é a …renovação de uma classe subordinada de produtores diretos comprometidos com o processo laboral.  Normalmente, a reposição geracional fornece a maioria dos novos trabalhadores necessários para repor essa classe e a capacidade das mulheres para ter filhos tem um papel decisivo na sociedade de classes… Nas classes proprietárias… a opressão das mulheres flui do seu papel na manutenção e na herança da propriedade… nas classes subordinadas… a opressão feminina… deriva do envolvimento das mulheres no processo que renova os produtores diretos, assim como de seu envolvimento na produção. [1]

    Este é essencialmente o argumento principal do que Vogel e estas outras marxistas posteriores chamam de “teoria da reprodução social”. A teoria da reprodução social mostra como a “produção de bens e serviços e a produção da vida são partes de um processo integrado”, como expressou Meg Luxton. Se a economia formal é o local da produção de bens e serviços, as pessoas que produzem tais coisas se produzem a si mesmas fora do âmbito da economia formal a um custo muito baixo para o capital.

    Em geral, a força de trabalho é reproduzida por três processos interconectados

    1 – Por atividades que regeneram a trabalhadora fora do processo de produção e que a permitem regressar a ele. Estas incluem, entre muitas outras, comida, uma cama para dormir, mas também os cuidados com o as questões psíquicas que mantém uma pessoa inteira.

    2 – Por atividades que mantém e regeneram aos não trabalhadores fora do processo de produção –   quer dizer aqueles que são trabalhadores futuros ou passados, como as crianças e os adultos fora da força de trabalho por N razões, quer seja a velhice, a invalidez ou o desemprego.

    3 – Reproduzindo novos trabalhadores, através do parto

    Estas atividades, que formam a base mesma do capitalismo no sentido de que reproduzem o trabalhador, são feitas completamente grátis para o sistema por mulheres e homens dentro dos lares e da comunidade. Nos Estados Unidos, as mulheres ainda carregam uma parte desproporcional desse trabalho doméstico.

    Segundo uma pesquisa de 2012 [2], as mulheres nos Estados Unidos realizaram 25,9 horas semanais de trabalho doméstico não remunerado em 2010, enquanto que os homens realizaram 18,8 horas, uma diferença de mais de nove horas. A pesquisa inclui tarefas tais como o cuidado com as crianças, a cozinha, as compras e as tarefas domésticas, os trabalhos ocasionais, a jardinagem, entre outros.

    Segundo a revista Forbes[3], se o trabalho doméstico não remunerado fosse incluído no cálculo do PIB “o teria elevado em uns 26% em 2010”.  Mas, claro, também temos que agregar a esta já formidável lista tarefas adicionais não indexáveis, tais como fornecer atenção psíquica e apoio tanto aos empregados como aos não empregados do lar. Qualquer uma que tenha precisado acalmar uma criança depois de um dia duro em seu próprio local de trabalho ou cuidar de um pai idoso depois de um turno esgotante, sabe o quão importante podem ser essas tarefas aparentemente não materiais.

    A ideia mais importante da teoria da reprodução social é que o capitalismo é um sistema unitário que pode integrar com êxito, ainda que de maneira desigual, a esfera da reprodução e a esfera da produção. As mudanças em uma esfera têm efeito na outra. Salários baixos e a tendência neoliberal a redução dos custos no trabalho podem gerar execuções hipotecárias e violência doméstica no lar.

    Por que esta é a ideia mais importante? Porque dá substância histórica real a compreensão de: a) quem é um “trabalhador” e b) de que maneiras o trabalhador pode lutar contra o sistema. O mais importante é que esta teoria nos ajuda a compreender que qualquer vitória pelos direitos de gênero que realizarmos tanto na economia formal quanto fora dela somente pode ser temporária porque a base material da opressão das mulheres está ligada ao sistema em seu conjunto. Qualquer conversa sobre o fim da opressão e da emancipação necessita recorrer a uma conversa simultânea sobre o fim do sistema em si.

    A importância da esfera da produção

    Se as mulheres proporcionam o principal apoio para o capitalismo fora do local de trabalho através de seu trabalho não remunerado, isso faz com que os problemas do local de trabalho sejam então problemas de homens?

    Qualquer um que espere encontrar o estereótipo do século XIX do trabalhador branco em seu macacão com sua chave de porca deveria dar uma olhada ao mercado laboral norte-americano.

    A grande maioria das mulheres nos Estados Unidos tem que trabalhar para viver. Isso significa que vendem sua força de trabalho no mercado e são trabalhadoras. As mulheres representam a metade, uns 47%, da força de trabalho norte americana e a porcentagem das mães casadas que trabalham aumentou de 37% em 1968 para 65% em 2011. Segundo um estudo do Centro de Pesquisas Pew [4] publicado este ano, um recorde de 40% das mães estadunidenses são o principal sustento de suas famílias, em comparação com meros 11% em 1960.

    Se bem que a filiação sindical é baixa para todos os trabalhadores do EUA, a quantidade de mulheres sindicalizadas não está muito atrás do número de homens sindicalizados. Segundo a agência de estatísticas laborais dos EUA [5],  mesmo depois da forte queda na filiação sindical desde a recessão, as cifras de 2012 demonstram que a taxa de sindicalização foi de 12% para os homens, comparado com 10,5% para as mulheres. Esses dados também mostram que os trabalhadores negros eram mais propensos a ser membros de sindicatos que brancos, asiáticos ou latinos homólogos.

    Portanto, disso se deduz que qualquer um que argumente que os problemas das mulheres têm a ver somente com o que experimentamos ou suportamos no lar (violência sexual, saúde reprodutiva, cuidado infantil, etc.), ou fora da esfera de produção, está simplesmente incorreto. Qualquer discussão sobre os salários ou o local de trabalho, sobre a organização laboral ou sobre a luta por benefícios é um tema altamente relacionado com o gênero.

    Mas há duas tendências radicalmente contraditórias que marcam todas as noticias recentes sobre as mulheres. Uma é a pauperização insuportável da grande maioria das mulheres e a outra é a ascensão de um grupo incrivelmente próspero e multiétnico de mulheres na classe dominante.

    Mais de três quartos dos trabalhadores nas dez categoriais de trabalho com salários mais baixos são mulheres e mais de um terço são mulheres de cor. [6] Escrevi antes sobre como os Estados Unidos é um dos quatro únicos países do mundo que carecem de licença maternidade remunerada, o que faz com que seja extremamente difícil para as mulheres serem mães trabalhadoras. Além disso, um terço dos trabalhadores norte-americanos não tem acesso a licença médica remunerada e só 42% tem licença remunerada em caso de doença própria ou na família. [7]  Como assinalam corretamente os ativistas sindicais:

    Qual é o impacto na saúde pública quando as pessoas trabalhadoras não podem se dar ao luxo de tirar uma licença médica durante uma epidemia de gripe? Quem cuida de uma criança doente? Quem está em casa para preparar o jantar e ajudar com o dever de casa? Quem pode dedicar tempo a um pai ancião enfermo? [8]

    Como as mulheres devem equilibrar a carga de trabalho não remunerado no lar com o trabalho integral remunerado no local de trabalho? A verdadeira resposta é que elas não podem.

    Em 1990, a participação das mulheres na força de trabalho foi de 74%, o que coloca aos Estados Unidos no sexto lugar nesta medição entre 22 países desenvolvidos. Graças as políticas neoliberais das duas décadas seguintes, a participação das mulheres aumentou somente uma fração para 75,2%, enquanto que em outros países industrializados, aumentou de 67% para cerca de 80%.

    Não só as mulheres são obrigadas a trabalhar em tempo parcial, mas a hostilidade do local de trabalho com a natureza de gênero do trabalho doméstico é também o porquê de somente 9% das mães trabalharem mais de 50 horas por semana.

    Vamos pensar nisso por um minuto. Se as mães trabalharem, digamos 55 horas por semana e atribuímos um tempo médio de deslocamento, os sociólogos demonstraram que elas terão que sair de casa as 08h30 da manhã e regressar as 08h30 da noite todos os dias de trabalho.[9]

    Apesar dos vastos poderes da internet, as crianças ainda têm que ser buscadas na escola e alimentada por um ser humano vivo e os pais idosos devem ser atendidos pela mesma pessoa. Na maioria dos casos, nos Estados Unidos, esta pessoa segue sendo uma mulher.

    Depreende-se da pesquisa acima que qualquer problema relacionado com o lugar de trabalho também se refere às mulheres e ao gênero. As políticas que governam os locais de trabalho têm o poder de afetar às mulheres tanto no trabalho quanto no lar. Mas pelo que deveríamos lutar? Deveríamos lutar pela igualdade salarial em uma economia de salários baixos? Deveríamos lutar pela atenção médica universal, o que facilitaria nossa carga de trabalho? Deveríamos lutar como “mulheres” ou deveríamos lutar como “’trabalhadoras”?

    Há um grupo particularmente ativo de mulheres que surgiram na mídia nos últimos tempos para defender os direitos das mulheres. Joan C. Williams é uma socióloga muito perspicaz, cujo trabalho sobre classe e gênero deve ser lido amplamente. Mas, recentemente, fez a decepcionante observação de que “o feminismo executivo é exatamente o que necessitamos para impulsionar a estancada revolução de gênero”. [10] Por “feminismo executivo” literalmente se refere ao “feminismo” dos diretores executivos das grandes multinacionais. Ela nomeou a Sheryl Sandberg e a professora de Princeton Anne Marie Slaughter como as líderes dessa “nova fronteira feminista”.

    Muitos podem se deleitar com a invasão das salas de reunião corporativas por um punhado de mulheres. Estas salas de reunião e seus campos de golfe contíguos têm sido os bastiões do privilégio masculino de classe alta durante séculos. Contudo, isso nos leva a uma pergunta central: quais são os direitos de gênero se os separarmos da questão da classe? Atuarão as mulheres CEO (diretoras-executivas) no interesse de todas as mulheres?

    As melhores políticas para promover os interesses da maioria das mulheres são também as mesmas políticas que reduzem os lucros do capitalismo como um sistema de produção.

    Por exemplo, a saúde pública garantiria que todos os homens, mulheres e crianças, tendo ou não um emprego remunerado, tenham acesso à atenção médica gratuita. Isso reduziria a dependência de uma mulher desempregada de seu parceiro empregado e poderia eventualmente lhe permitir o controle sobre sua saúde e decisões reprodutivas, sem mencionar o apoio à saúde e a atenção com sua família. Ela poderá eleger quando e se quer ter filhos e obter ajuda doméstica gratuita para os membros idosos da família, o que reduziria drasticamente seu próprio trabalho no lar.

    Entretanto, a indústria médica é um negócio multimilionário que lutaria contra isso com unhas e dentes.  Da mesma maneira, é do interesse das mulheres que tenhamos um salário digno para todos os trabalhadores, já que as mulheres se encontram desproporcionalmente entre as pessoas pior pagas da economia. Ali também, nos chocaríamos com os lucros do Capitalismo e seria uma batalha difícil de ganhar.

    As Sheryl Sandbergs do mundo são claras guerreiras de classe que utilizam a linguagem dos direitos das mulheres para reforçar um sistema que só beneficia sua própria classe. A milionária Sandberg inclusive se negou a pagar seus próprios estagiários até que um protesto público a fez mudar de decisão.

    A mensagem central que vem desta nova geração de mulheres CEO é que trabalhar e trabalhar mais pesado liberará às mulheres.

    É certo que a independência econômica das mulheres é um direito duramente conquistado que deve ser reforçado constantemente mediante a luta. É por isso que encontramos nos escritos dos primeiros marxistas, como Nadezhda Krupskaya, uma forte ênfase no trabalho das mulheres na esfera da produção e seu potencial emancipador.

    Mas a ‘independência” econômica parece muito melhor em Sheryl Sandberg do que na mãe que trabalha no Taco Bell – porque a relação de Sandberg com o capitalismo, como uma chefe, é de controle, enquanto que a da mãe trabalhadora é de uma perda total de controle. No caso desta última, seu trabalho lhe proporciona uma limitada independência econômica de seu parceiro(a), mas uma completa dependência dos caprichos do mercado.

    Quando Sandberg diz que as mulheres precisam trabalhar mais arduamente para obter recompensas, ela está pedindo a uma certa classe de mulheres – a sua – que arranque mais controle dos homens de sua classe, enquanto mantém intacto o sistema que funciona através do trabalho remunerado e não remunerado da maioria das mulheres.

    De fato, acadêmicas como Karen Nussbaum argumentam que o sistema criou alguns poucos espaços para as mulheres da classe dominante no topo, a fim de evitar mudanças institucionais mais profundas que transformariam a relação da maioria das mulheres com o trabalho:

    Para conter as crescentes demandas das mulheres trabalhadoras, os empregadores criaram oportunidades para algumas mulheres, abrindo empregos profissionais e gerenciais para as graduadas universitárias, resistindo assim a demanda por mudanças institucionais que melhorariam os empregos para todas as mulheres. As mulheres em ambos os extremos da força de trabalho continuaram compartilhando as preocupações comuns da igualdade salarial e das políticas de trabalho-família, mas a intensidade desses temas diferiu na medida que as condições dos grupos iam mudando. Os empregadores haviam criado uma válvula de segurança. As mulheres educadas na universidade que haviam sido caixas de banco se converteram em gerentes de sucursais; as que faziam trabalho administrativo nas editoras estavam se convertendo em editoras. A porcentagem de mulheres gerentes ou em cargos técnicos de nível superior duplicou entre 1970 e 2004, de 19 para 38%. [11]

    É reducionista dizer que as batalhas de gênero em nossa sociedade são as mesmas batalhas que as de classe. Mas é correto dizer: a) seguindo a linha de Lise Vogel, que a luta de classes representa a “dinâmica central” do desenvolvimento social e b) que é do interesse do capitalismo como sistema evitar qualquer mudança ampla nas relações de gênero, porque as mudanças reais no gênero, em última análise, afetarão os lucros.

    A importância da esfera da reprodução

    É lógico então que a melhor maneira de lutar pelos direitos das mulheres na esfera da produção seja através das nossas organizações laborais. Existem alguns momentos verdadeiramente inspiradores na história dos trabalhadores nos quais os sindicatos lutaram pelo direito ao aborto, à igualdade salarial e contra a homofobia.

    Contudo, a classe trabalhadora não trabalha somente no seu local de trabalho. Uma mulher trabalhadora também dorme em sua casa, seus filhos jogam no parque público e vão à escola local e, algumas vezes, pedem ajuda a sua mãe aposentada para cozinhar. Em outras palavras, as principais funções que reproduzem a classe trabalhadora ocorrem fora do local de trabalho.

    Quem entende melhor este processo? O capitalismo. Este é a razão pela qual o capitalismo ataca brutalmente a reprodução social para ganhar a batalha na produção. É por isso que ataca os serviços públicos, empurra a carga de cuidados para as famílias individuais, reduz o cuidado social para fazer com que toda a classe trabalhadora seja vulnerável e menos capaz de resistir aos seus ataques no local de trabalho.

    Quem mais entende este processo? Os marxistas revolucionários. É por isso que podemos ser o vínculo entre a esfera da reprodução, a comunidade onde a escola está sendo fechada, o lar onde a mulher é submetida à violência; e a esfera da produção, onde lutamos por benefícios e por salários mais altos.

    Nós fazemos isso de duas maneiras. Nós (a) proporcionamos o vínculo analítico entre as “duas esferas” do sistema único, através da teoria marxista; e (b) atuamos como uma tribuna dos oprimidos, particularmente quando a luta não se generalizou no local de trabalho. Pois não é verdade que a classe trabalhadora não possa lutar na esfera da reprodução. No entanto, é verdade que só se pode ganhar contra o sistema na esfera da produção.

    Algumas das lutas mais importantes na história da classe trabalhadora começaram fora da esfera da produção. As duas revoluções mais importantes do mundo moderno, a francesa e a russa, começaram como revoltas por pão, dirigidas por mulheres.

    A compreensão do capitalismo como um sistema integrado, onde a produção está sustentada pela reprodução social, pode ajudar os ativistas a compreender a importância das lutas políticas em qualquer das esferas e a necessidade de uni-las.

    Tomemos o caso dos direitos reprodutivos, uma das lutas críticas de nossos tempos, que não é diretamente uma luta no local de trabalho. Os direitos reprodutivos se referem simplesmente à capacidade das mulheres terem acesso ao aborto e a contracepção?

    Na realidade os direitos reprodutivos deveriam se chamar justiça reprodutiva. Os direitos das mulheres em eleger não somente o direito a não ter bebês, mas também o direito a tê-los. A história das mulheres afro americanas e de outras mulheres de cor nos Estados Unidos está manchada por casos de esterilização forçada por parte do Estado. Ao longo da década de 1960, os estados de Illinois, Iowa, Ohio, Virginia e Tennessee consideraram leis de esterilização compulsória para a mães negras como assistência social. Quando o contraceptivo Norplant foi lançado pela primeira vez no mercado, um editorial no Philadelphia Inquirer sugeriu que era uma solução para a pobreza da população. Um destino similar aguardava as mulheres de Porto Rico. Quando a indústria norte americana, sob o programa econômico da “operação Bootstrap”, foi à ilha em busca de mão de obra barata nos anos 1930 e 1940, muitas fábricas administraram clínicas de controle de natalidade para mulheres trabalhadoras e algumas se negaram a contratar mulheres a menos que tivessem sido esterilizadas.

    Além disso, a opção reprodutiva não pode ser só sobre o controle dos nossos ovários. Trata-se de controlar nossas vidas: se queremos ter filhos, quando tê-los, quantos ter, o tempo para cuidar deles, que existam escolas públicas para enviá-los, que nem eles nem seus pais estejam atrás das grades e o mais importante, receber um salário decente para poder tomar decisões sobre todas essas coisas.

    O New York Times informou esta semana que houve uma diminuição de 9 por cento na taxa de fertilidade de 2007 a 2011, uma queda que os demógrafos creem que “começou depois que a recessão se estendeu e as estadunidenses começaram a se sentir menos seguras sobre suas situações econômicas”. Em outras palavras, o Times acaba de descobrir que a maioria das mulheres comuns e correntes preferem ter filhos quando sente que tem meios econômicos para alimentá-los e cria-los!

    Portanto, a questão da reprodução está ligada às questões mais fundamentais de nossa sociedade: quem trabalha, pra quem e por quanto tempo.

    Por uma luta integrada contra o capitalismo

    Neste momento particular da crise neoliberal, o gênero está sendo utilizado como a arma de luta de classe por parte do capital. A reiterada defesa de casos de violação por figuras do establishment, o severo ataque aos direitos reprodutivos e a crescente transfobia são resultados do capitalismo tentando de diversas formas resolver a crise econômica mediante ataques à vida da classe trabalhadora, tanto no trabalho, quanto no lar.

    Nossa solução como revolucionários marxistas não é simplesmente falar sobre a importância da luta de classes, mas vincular as lutas da economia formal com as que estão fora dela. Para que isso aconteça, é menos importante que “ganhemos a discussão” com as identidades oprimidas. É mais importante que ganhemos sua confiança, sendo os lutadores mais intransigentes na casa e no trabalho.

    Essa é a razão pela qual nas organizações onde lutamos por salários (por exemplo, nossos sindicatos) temos que levantar a questão da justiça reprodutiva; e em nossas organizações onde lutamos contra o sexismo e o racismo, temos que levantar a questão dos salários. Necessitamos de uma geração de mulheres e homens rebeldes para fazer essa conexão em nossos locais de trabalho, em nossos campi e nas ruas. Essa é a verdadeira tradição do marxismo.

    NOTAS

    1 – Vogel, Lise, Marxism and the oppression of women: towards an unitary theory, Leiden, Brill, 2013 (1ª ed. 1983), p. 129. (ênfase da autora)

    2 – Bridigman, B. (e outros), Accounting for Household Production in the National Accounts, 1965–2010 (Maio de 2012), https://apps.bea.gov/scb/pdf/2012/05%20May/0512_household.pdf, último acesso em fevereiro de 2019.

    3 – Coverte, Bryce, Putting a Price Tag on Unpaid Housework, Forbes, 30/05/2012, https://www.forbes.com/sites/brycecovert/2012/05/30/putting-a-price-tag-on-unpaid-housework/#4148e07d35c6, última consulta fevereiro de 2019

    4 – Wang (e outros) Breadwinner Moms, maio de 2013, http://www.pewsocialtrends.org/2013/05/29/breadwinner-moms/, último acesso em fevereiro de 2019.

    5 – Conforme https://www.bls.gov/news.release/pdf/union2.pdf, última consulta em fevereiro de 2019.

    6 – Women of color no original, referindo-se a mulheres “não brancas” na classificação usual nos Estados Unidos, o que inclui latinas, asiáticas e mulheres das populações nativas americanas (indígenas).

    7 – Tithi Bhattacharya, Marisa Mayer, the family and capitalism, Socialist Worker, março de 2013, https://socialistworker.org/2013/03/14/marissa-mayer-and-the-family, último acesso em fevereiro de 2019.

    8 – Improving work-life balance, https://aflcio.org/what-unions-do/empower-workers/work-life-balance, último acesso em fevereiro de 2019.

    9 – Williams, Joan, Why men work so many hours?, Harvard Business Review, maio de 2013, https://hbr.org/2013/05/why-men-work-so-many-hours, último acesso em fevereiro de 2019.

    10 – Williams, Joan & Dempsey, Rachel, The rise of executive feminism, Harvard Business Review, março de 2013, https://hbr.org/2013/03/the-rise-of-executive-feminism, último acesso fevereiro de 2019.

    11 – Nussbaum, Karen, “Working women’s insurgent consciousness”, Cobble, D. S. (ed.), The Sex of Class: Women Transforming American Labor, edited by Dorothy Sue Cobble, 1st ed., Cornell University Press, 2007, p. 165.

    12 – Gutiérrez, Elena & Fuentes, Liza, Population Control by Sterilization: The Cases of Puerto Rican and Mexican-Origin Women in the United States, Latino(a) Research Review, Volume 7, Number 3, 2009-2010, https://www.albany.edu/celac/LRR%202010.pdf, último acesso em fevereiro de 2019.

    13 – Tavernise, Sabrina, Fertility Rate Stabilizes as the Economy Grows, New York Times, 6/09/2013, https://www.nytimes.com/2013/09/06/health/fertility-rate-stabilizes-as-the-economy-grows.html, último acesso em fevereiro de 2019.

     

  • 8M: Ninguém pode dizer que não ouviu os gritos de resistência das mulheres negras

    Quem não viu a Mangueira tomar o Carnaval ecoando “Brasil, chegou a vez de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês”, contando que os verdadeiros heróis do nosso povo são pretos, pobres e índios? Ninguém nesse país pode dizer que não escutou o nosso grito de justiça por Marielle Franco. Ninguém pode dizer que não conhece Áurea Carolina e Talíria Petrone no Congresso Nacional. Todo mundo viu a Maju apresentando Jornal Nacional, todo mundo já ouviu, além do Brown, a Carol com K. Não podem dizer que não nos ouvem quando cerramos os punhos pelos nossos que morrem assassinados nas favelas, ruas e supermercados.

    É que o grito das mulheres negras anda soando alto! Em 2015, a marcha das mulheres negras no Brasil levou 50 mil mulheres a ocuparem a esplanada dos ministérios [1], inspiradas nas gigantescas marchas do movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), que ocorreram nos EUA no ano anterior; Em 2016, começou um verdadeiro fenômeno eleitoral, que elegeu, com votações impressionantes, mulheres negras nas câmaras de vereadores de suas cidades, em alguns casos, pela primeira vez [2]; Em 2018 centenas de milhares ocuparam as ruas de muitas cidades brasileiras em protesto contra o assassinato da vereadora Marielle Franco.

    Brasília – Marcha das Mulheres Negras Contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver em Brasília, reúne mulheres de todos os estados e regiões do Brasil (Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

    Nos dois meses que se passaram em 2019, a voz das mulheres não brancas já ecoaram no planeta. No primeiro dia do ano, as mulheres da Índia formaram uma barreira de 620 km reivindicando igualdade. [3]

    Mesmo o Carnaval, a maior festa popular do país, foi pautado pelo protesto ao governo e ao racismo. Das 28 escolas de samba do grupo especial do Rio de Janeiro e São Paulo, pelo menos 17 tocaram no tema racial de alguma forma. A campeã no Rio foi a Mangueira contando a história do país que não está no retrato, homenageando Dandara, Luiza Mahin e Marielle Franco. Em São Paulo, quem levou o título de melhor desfile do ano foi a Mancha-Verde, contando a saga de uma guerreira negra: Aqualtune, a avó de Zumbi dos Palmares.

    O PAÍS QUE NÃO ESTÁ NO RETRATO

    Sobre o que estamos gritando? Em todos os lugares precisamos falar do feminicídio e genocídio da população negra no Brasil. Segundo a ONU, seis mulheres morrem a cada hora no mundo.  [4] A maioria delas oriundas da África e da América. No Brasil, morrem 13 por dia. As mulheres negras morrem 2,2 vezes mais que as outras vítimas de homicídio. Isso quer dizer que mais de 60% das mulheres assassinadas no Brasil são negras. Vale a pena conferir os infográficos abaixo.

    Nota-se que a média dos países asiáticos e europeus são menores que a média mundial e dos países da África são muito maiores que a média mundial. Gráfico do G1, 2017.

    Os perfis de pessoas encarceradas seguem o mesmo padrão [5]. Mais de 60% da população privada de liberdade no Brasil é negra. A grande maioria da população encarcerada está nessa situação por crimes de origem econômica: 37% furto e roubo e 28% tráfico. Esse último, é o principal motivo de encarceramento feminino. É importante lembrar também que mais de 68% da população feminina encarcerada é negra.

    Em um país onde a população preta e pobre se encontra em situações de vulnerabilidade, o feminismo precisa ser interseccional e antirracista. A luta das mulheres brasileiras também é uma luta contra o genocídio e o encarceramento da juventude preta e periférica. Em outras palavras, a luta das mulheres negras necessariamente se encontra com a luta pela sua própria vida, assim como pela vida de seus filhos, irmãos, pais, vizinhos, amigos e companheiros. Essa luta está entrelaçada com o fim da desigualdade social, que é o principal motivo do genocídio e encarceramento em massa no Brasil.

    8 DE MARÇO: O CARRO ABRE ALAS DA LUTA POR DIREITOS

    O dia 8 de Março abre alas para as lutas de todos os anos. Em 2019, esse dia assume um caráter ainda mais importante por se tratar da primeira manifestação ampla diante do governo ultraconservador no Brasil.

    Estamos diante de um governo que incentiva os crimes de ódio. Bolsonaro não só não possui políticas de combate ao feminicídio, ao genocídio e ao encarceramento em massa, o atual presidente do país promove políticas, como a do armamento, que significa a promoção do assassinato e do encarceramento.

    E não para por aí. O governo federal possui uma agenda de retirada direitos da população o que afeta, em especial, as mulheres pobres. A reforma da Previdência pretende aumentar a idade mínima para aposentadoria das mulheres[6], além de aumentar também o tempo de contribuição mínima para aposentadoria e a idade para acesso ao Benefício de Prestação Continuada destinada a idosos e idosas em situação de miserabilidade. A reforma também prevê a redução do valor recebido na pensão por morte e o fim da acumulação de aposentadoria e pensões.

    Importante lembrarmos que as mulheres negras são especialmente prejudicadas sempre que os direitos da população são retirados ou suas vidas são negligenciadas. Não nos esqueçamos do crime de Brumadinho, em que a Vale matou mais de 300 pessoas – em sua maioria trabalhadores e trabalhadoras que deixaram suas filhas, companheiras e familiares desamparadas.

    A LUTA FEMINISTA INTERNACIONAL

    Há quem diga que estamos diante de uma nova onda do feminismo internacional. Um feminismo interseccional, antirracista, contra os muros e as fronteiras, contra o encarceramento em massa e linha de frente contra os governos da extrema-direita.

    Pelo terceiro ano seguido, mulheres de diversos países fazem um chamado pela paralisação internacional de mulheres no dia 8. Em 2017, o chamado para a greve internacional de mulheres foi “Se nossas vidas não importam, que produzam sem nós”. No ano passado, o grito feminista diante da crise econômica mundial e a superexploração das mulheres continuou e centenas de mulheres cruzaram os braços na Argentina, Itália e Espanha.

    Vale lembrar que levantes feministas acontecem no mundo inteiro: só no ano passado mais de um milhão de mulheres foram às ruas Argentinas pela legalização do aborto, que chegou a ser aprovado na Câmara dos Deputados mas foi barrado no Senado; as mulheres chilenas ocuparam universidades em todo o país por uma educação não sexista, aqui no Brasil fizemos gigantescas manifestações pelo #elenão e as estadunidenses seguem realizando a marcha das mulheres contra Trump.

    Há resistência internacional contra o Conservadorismo e em defesa dos nossos direitos. Mulheres do mundo inteiro tem se unificado em uma articulação feminista internacional, que prioriza o olhar para os países do Sul, em uma perspectiva anticolonial e anticapitalista. O Manifesto por uma Articulação Internacional Feminista já foi assinado por figuras como Angela Davis, Jupiara Castro e Sônia Bone Guajajara. Você também pode assinar.

    NA LUTA É QUE A GENTE SE ENCONTRA

    Hoje será um grande dia de manifestações em todos os estados brasileiros. Estaremos nas ruas reivindicando igualdade e não descansaremos. No próximo dia 14 completamos um ano sem Marielle. Em todas as regiões do Brasil, já tem atos marcados em busca de justiça. Até hoje os assassinos da Vereadora do Rio não foram encontrados. Nós queremos saber quem mandou matar Marielle e não dormiremos até virar o jogo contra a política genocida que executou nossa companheira.

    Apesar dos dias difíceis, sabemos que na luta, de braços dados, encontramos forças para continuar. Unidas seguiremos em frente contra o machismo, o racismo e a desigualdade social.

    NOTAS

    1 – Segundo a Organização das Nações Unidas

    2 – Aurea Carolina, em Belo Horizonte, Marielle Franco, no Rio de Janeiro, e Talíria Petrone, em Niterói (RJ)

    3 – Para ocupar essa quilometragem a estimativa é que é necessário muito mais que 1 milhão de mulheres juntas.

    4 – Dados de 2016 segundo o Atlas da Violência do Ipea e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

    5 – Dados de 2016, segundo o Departamento Penitenciário Nacional

    6 – As mulheres conquistaram o direito de aposentadoria por idade menor que a dos homens devido a dupla jornada de trabalho que recai sobre as mulheres.

  • Confira a programação do 8 de Março em Florianópolis

    Programação 8MARIELLE

    As atividades do 8 de Março em Florianópolis (SC) ocorrerão em frente ao Ticen. Serão rodas de conversa sobre diversos temas, a partir das 08h da manhã, além de apresentações, atividades, oficinas e intervenções!  Ao final, às 19h, terá início a marcha. Participe!

    08h – 09h Roda de Conversa: “Via campesina: Resistência do campo à cidade” – Mulheres da vila campesina
    09h – 18h Confecção de camisetas (stencil) e Brechó anticapitalista – Tathiana Zimmermann e Luana Amaral
    09h – 10h Roda de conversa: Branquitude e negritude – Lia Vainer, Vanda Pinedo, Maria Aparecida Conceição
    10h – 11h Roda de conversa: Mulheres e diversidade – Lirous K’yo Fonseca, Jeruse Romão e Guilhermina Cunha
    11h – 11h30 Roda de conversa: Violência Obstetrícia – Ivone Borges e Ariela Rodrigues
    12h – 12h30 Roda de conversa: Maternidade e descentralidade do cuidado – Ana Bezerra, Gabriela Balster e Juliana Dreher
    13h30 – 14h Roda de conversa: “Violência: Formas e recursos” – Paula Lopes, Fernanda Malty
    14h – 14h30 Roda de conversa: “Precisamos falar sobre aborto” – Ingrid Maria e Morgani Guzzo
    14h30 Juliana D’Passos – Pocket show de samba
    15h – 16h Roda de conversa: Direitos trabalhistas e previdenciários – Angela Conrad, Anna Julia Rodrigues e Edileuza Fortuna
    15h – 18h Oficina de Grafitte + Canetão – Kio Zaz e Oli
    16h Pocket Show Mc K47
    16h30 Pocket Show Mc Moda
    17h Pocket Show Mc Clandestina
    17h30 Samab das Yabás
    18h Yabás
    18h20 Baque Mulher
    A partir das 19h Cores de Aidê

    19h – MARCHA 8MARIELLE

     

    Foto: Ato do Ele Não, em 2018. Luiz Felipe Zimmermann

     

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  • Março lilás no ABC paulista

    O dia 8 de março vem chegando, e com ele floresce toda a disposição de luta e transformação social que as mulheres têm demonstrado em todo o mundo. Um chamado internacional pela articulação das mulheres, manifestos conjuntos de mulheres em importantes cidades do nosso país (aqui o do Rio) e a preparação de fortes manifestações em defesa das vidas das mulheres, contra a reforma da previdência e os retrocessos em nossos direitos impostos pelo governo Jair Bolsonaro.

    No ABC as mulheres não estão indiferentes à atmosfera de resistência que tomou conta do Brasil. Ao contrário, nessa região que tem uma história de luta tão bela e poderosa elas já sabem há muito tempo que nada em suas vidas vem de graça. E que cada conquista precisa de esforços para ser mantida.

    As estatísticas existem, mas as mulheres não precisam delas para perceber que entre 2016 e 2018 os casos de estupro tiveram um aumento de 30% no ABC[1]. No entanto, as prefeituras dos sete municípios que compõem a região [2] aplicam políticas contrárias à proteção das mulheres: as duas casas abrigo para mulheres vítimas de violência tiveram corte de um terço dos recursos para seu financiamento entre 2018 e 2019.

    Por isso, além das pautas comuns aos atos de 8 de março por todo país, no ABC a luta também é em defesa das casas abrigo e exigindo dos prefeitos da região as políticas de combate ao feminicídio e à violência contra a mulher. O ato será realizado na cidade de Santo André, no sábado, dia 9/3/19, pois no dia 8 as mulheres do ABC vão fortalecer o ato da cidade de São Paulo.

    Justiça para Marielle

    No dia 16 de março, na cidade de São Bernardo do Campo, haverá um ato lembrando um ano do assassinato de Marielle Franco, vereadora pelo PSOL na cidade do Rio de Janeiro, mulher negra e LGBT, ativista de direitos humanos que se contrapunha à atuação das milícias e aos desmandos da intervenção militar no Rio de Janeiro. Até hoje os responsáveis pelo bárbaro crime não foram punidos.


    Marielle virou semente, e seu espírito aguerrido tornou-se exemplo para pessoa que se indigna com as injustiças de nosso país tão desigual, com a violência contra a mulher, com o genocídio do povo negro, com a brutalidade policial, com a lgbtfobia. É com o intuito de fortalecer esse ânimo e exigir Justiça para Marielle que será realizado o ato do dia 16.

    NOTAS
    1 – Estatísticas Secretaria de Segurança Pública de São Paulo
    2 – Diadema, Mauá, Rio Grande da Serra, Ribeirão Pires, Santo André, São Caetano do Sul, São Bernardo do Campo.

     

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