Mundo

q1111233
  • Venezuela: Maduro vence eleições, mas a situação do país é crítica

    Neste último domingo, 20 de maio, ocorreram as eleições presidenciais e parlamentares regionais na Venezuela. Tal calendário foi aprovado pela ANC (Assembleia Nacional Constituinte) de 2017, que superou o velho Congresso Nacional como instituição parlamentar daquele país e, por isso, tem sido contestada pelo imperialismo norte-americano e sua subordinada OEA (Organização dos Estados Americanos).

    O Conselho Nacional Eleitoral, através de sua presidenta, Tibisay Lucena, divulgou o resultado por volta das 23h15 (horário de Caracas), com uma totalização de 93% das urnas, apontando tendências irreversíveis. A disputa presidencial teve quatro candidatos e um total de 8,6 milhões de votantes. O atual presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, da Frente Ampla da Pátria/PSUV (nacionalismo governista) obteve 5.823 milhões de votos (67,6%); Henri Falcón, apoiado pelo MAS e COPEI (social cristão) alcançou 1.820 milhões de votos (21,15%); Javier Bertucci, da Esperança pela Mudança (direita evangélica), recebeu 925 mil votos (10,7%) e Reinaldo Quijada, da Unidade Política Popular 89 (UPP89, esquerda, ex-PSUV) obteve 34 mil (0,4%).

    O cenário que marca as eleições deste ano é o da não superação da crise econômica do país, com altas taxas de inflação e desabastecimentos de bens de consumo, e uma forte divisão da antiga MUD (Mesa Unidade Democrática), a oposição de direita, que, desde que patrocinou o derrotado boicote às eleições para Assembleia Constituinte em julho de 2017, saiu extremamente desmoralizada e sem forças, ante um forte comparecimento para a eleição e uma evidente legitimidade popular alcançada com sua instalação, em agosto do ano passado.

    A MUD, então hegemonizada pela direita pró-imperialista, que havia apostado numa derrubada de Maduro pela via dos enfrentamentos de rua com os métodos fascistas das “guarimbas” (corte de estradas e ruas combinadas com agressões e assassinatos de chavistas), além do fracassado boicote da ANC, foi fragorosamente derrotada nas eleições regionais nos Estados, em outubro de 2017, onde o chavismo havia vencido a 20ª vez das 22 que foram eleitas depois de iniciada a etapa nacional-bolivariana. Tanto na eleição para a ANC quanto nas regionais, a grande mídia empresarial, agências internacionais e porta-vozes da direita levantaram acusações de fraude antes mesmo de iniciar a apuração dos votos.

    Um setor da MUD, Henri Falcón, apoiado pela COPEI e MAS, nas presidenciais apresentou uma plataforma de centro-direita cujos eixos principais foram a defesa de um pacto nacional de reconciliação, o respeito à institucionalidade e como medida imediata de choque econômico a defesa da dolarização da economia (no modelo que já foi tragicamente implantado no Equador) para atrair investimentos externos direitos como forma de tirar o país da crise. Falcon, militar dissidente do chavismo, apoiado pelo setor moderado da MUD, no entanto, foi seriamente prejudicado pelo chamado ao boicote da extrema-direita da MUD, haja vista que houve um alto índice de abstenção que poderá chegar a cerca de 50% dos eleitores aptos a votar.

    Os setores populares que apoiam o governo Maduro, sabendo que as alternativas direitistas de Falcon e Bertucci não resolveriam a crise do país senão que poderiam piorá-la, iniciando um tratamento de choques neoliberais, preferiram não vacilar com a direita e votaram novamente no chavismo.

    Diante da realização soberana destas eleições presidenciais, o Departamento de Estado Americano (DEA), órgão do governo imperialista dos Estados Unidos cuja missão na América Latina tem sido intervir na vida política dos países que não se dobram aos ditames de Donald Trump, apoiado pelos governos títeres de Colômbia, Argentina e Brasil, já havia exortado o mundo a não reconhecer o resultado eleitoral. Trata-se de mais uma tentativa para desestabilizar o país latino-americano para novamente recriar um clima para uma tentativa de golpe ou intervenção externa no país.

     

    Avançar rumo à independência econômica e ao socialismo

    A Venezuela encontra-se em uma forte crise econômica. O embargo imposto por Trump aumenta a falta de bens de consumo, de alimentos medicamentos e de divisas. A hiperinflação chega à casa astronômica dos 750% mensais e ataque especulativo à moeda é brutal.

    Em que pese a guerra não declarada por parte do imperialismo, existe o problema que, depois de 20 anos de governo, o chavismo não superou a dependência da renda petroleira, que segue sendo a principal matriz econômica produtiva do país. Sem um parque industrial e uma produção agrícola nacionais, a Venezuela seguirá dependendo das importações de bens de consumo o que a torna totalmente vulnerável aos capitalistas especuladores, aos rentistas e ao imperialismo.

    A política econômica levada a cabo pelo governo Maduro, além de insuficiente para fazer frente ao cerco imperialista, não resolve a crise econômica que penaliza os trabalhadores.

    É urgente um plano de investimento maciço dirigida à produção de bens, a planificação centralizada da produção e distribuição, o monopólio do comércio exterior – ninguém importa nem exporta senão sob controle estrito do Estado -, a nacionalização dos bancos, a suspensão do pagamento da dívida externa e controle das transações financeiras. Em outras palavras: é necessário colocar um fim à economia mista e iniciar uma transição real ao socialismo. Os trabalhadores devem elaborar e controlar a aplicação do plano – seja em termos de produção, distribuição e dos preços e eliminar a corrupção encrustada nos meios estatais.

    A defesa da soberania nacional e da vontade popular eleitoral expressa nas urnas deve ser uma tarefa da esquerda latino-americana. Trata-se até mesmo de uma condição básica para a necessária crítica para mudanças de rumos no país, não pelas mãos do imperialismo e dos golpistas da MUD, mas pela força da classe trabalhadora e de seus aliados.

  • M5E e Liga chegam a um acordo: coalizão populista e de extrema-direita governará Itália

    Depois de quase três meses de negociações e uma ameaça de novas eleições feita pelo presidente Sergio Mattarella, o Movimento 5 Estrelas (M5E) e a Liga chegaram finalmente a um acordo de governo. No dia 19 de maio, sexta-feira, foi divulgado o “Contrato para um Governo de Mudança”, a base programática da nova coalizão. Também foi criado o “Comitê de Reconciliação”, que irá reunir o primeiro ministro (ainda a ser decidido) mais os líderes do M5E e Liga, Luigi Di Maio e Matteo Salvini, respectivamente.

    União Europeia
    Em relação à União Europeia, a coalizão decidiu recuar tanto na proposta de fazer um referendo para uma possível saída da EU como da moratória de 250 bilhões da dívida italiana com o Banco Central Europeu. O que foi anunciado são iniciativas genéricas como “revisão da política fiscal e monetária da UE” ou “revisão das regras do mercado único”. No entanto, na parte econômica do programa de governo consta a oposição às propostas de acordos de livre comércio entre a UE e os Estados Unidos, conhecido como TTIP (Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento), e entre a UE e o Canadá, o CETA (Acordo Integral de Economia e Comércio). O novo governo promete ainda reforçar a indústria nacional, como é o caso da recriação da companhia aérea Alitalia e a construção de um trem de alta velocidade entre Turin e Lyon.

    Economia doméstica
    Já na parte econômica doméstica foi estabelecida a criação da “renda básica cidadã” de 780 euros por mês para famílias pobres com cidadania italiana, principal proposta do 5 Estrelas durante a campanha. Também será aplicado o imposto único sobre o rendimento de pessoas e empresas, política econômica proposta pela Liga, que implicará a diminuição da taxação sobre grandes empresas e redução do orçamento público. Está prevista ainda a anulação da reforma previdenciária de 2011 que subiu a idade mínima da aposentadoria para 67 anos.

    Os mercados reagiram fortemente contra estas medidas, afirmando que elas aumentam o orçamento público via renda cidadã e o cancelamento da reforma previdenciária, ao mesmo tempo em que diminuem a arrecadação via corte de impostos sobre grandes empresas. Este fato torna provável a fuga de capital estrangeiro do país e chantagem dos bancos contra o governo italiano, que enseja confrontar certas medidas de austeridade da UE.

    Imigração
    O ponto mais preocupante do programa apresentado pelos partidos é o que tange o tema da imigração e dos refugiados. Foi estipulada a aplicação imediata de um plano de deportação de 500 mil refugiados residentes na Itália em um prazo de 18 meses. Para tanto, serão expandidos os “Centros de Permanência Temporários”, onde os refugiados ficariam presos até serem enviados aos seus países de origem, por definição atingidos por guerras, miséria ou repressão política.

    Determina também o cancelamento da participação da Itália nas missões da UE no Mar Mediterrâneo para resgatar refugiados em situação de risco. Ou seja, o novo governo irá boicotar as iniciativas já insuficientes da UE para impedir as dezenas de milhares de mortes de refugiados que ocorrem nas águas europeias. Desde 2014, quase 24 mil refugiados morreram ou desapareceram, sendo que metade foi no trajeto entre a África do Norte e Sul da Europa.

    Por fim, será criada ainda uma lei especial para “impedir a difusão do radicalismo islâmico”, que prevê o registro de Imãs, líderes religiosos muçulmanos, e o fechamento de mesquitas acusadas de propagar o islamismo radical. Contudo, esta lei irá ameaçar a liberdade de culto à religião muçulmana pois quem irá julgar os Imãs e as mesquitas são os próprios fiscais islamofóbicos apontados pela Liga, que acreditam que o Al Corão (livro sagrado muçulmano) é islâmico radical em si mesmo.

    Política externa
    Em relação à política externa, os partidos anunciaram que não irão contestar a participação da Itália na OTAN, mesmo mantendo seu posicionamento favorável à Rússia na região da Ucrânia e Síria. Contudo, ainda que a Itália permaneça na OTAN, a coalizão M5E-Liga anunciou que se opõe às sanções econômicas impostas à Rússia em 2014 pela anexação da Crimeia, fato que pode gerar conflitos com os norte-americanos, principais defensores e aplicadores das medidas tomadas contra a Rússia.

    A direita extrema-direita avança na Europa
    Assim como nas “eleições perigosas” de 2017 na Europa – França, Holanda e Alemanha – a Itália confirma o paradigma político que percorre o continente: o avanço da direita e da extrema direita. Agora a UE já possui quatro países em que a extrema direita se encontra no governo – Polônia, Hungria, Áustria e, agora, Itália.

    Porém, o caso italiano tem uma particularidade importante. Os dois partidos tradicionais do establishment político – Partido Democrático (PD) e Força Itália – foram substituídos por partidos populistas de direita e de extrema direita. Apesar de isso já ocorrer na Polônia e Hungria, essa situação é inédita nos países mais ricos da Europa. Na Áustria, onde o Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ em alemão), de extrema direita, está no governo, ele é parte minoritária da coalizão, dividindo-a com o tradicional partido liberal, o Partido do Povo Austríaco (ÖVP, em alemão).

    Após as eleições de março há uma dinâmica de crescimento da extrema direita italiana a partir da coalização. Uma recente pesquisa de opinião aponta que a popularidade da Liga subiu de 18% para 25%, enquanto o M5E permanece com 32%. Por outro lado, o grande bastião do 5 Estrelas é a região Sul da Itália, que enxerga a Liga ainda quanto a Liga “Norte”, que queria se separar do sul italiano pelo seu racismo e xenofobia. Por isso não se pode descartar uma dinâmica de queda na popularidade do M5E nos próximos meses pela aliança com a Liga, inclusive deserções de parlamentares descontentes com a coalizão.

    Sob a sombra de Trump
    Pouco antes das eleições de março, Steve Bannon, ex-estrategista do governo Trump e articulador do Brexit, esteve na Itália. Afirmou ser o país mais propício a entrar na tendência do neo-nacionalismo econômico de direita. Bannon é um dos principais articuladores do neofascismo contemporâneo, que há anos vem articulando laços com a extrema direita europeia.

    Não por acaso, o novo governo italiano adota uma postura comercial mais protecionista, similar ao America First (América Primeiro) de Donald Trump. Desde que chegou ao governo em 2017, Trump cancelou o acordo comercial TPP (Parceria Trans-Pacífica) entre os EUA e os países do oceano pacífico e incentivou a reconstrução da indústria nacional por meio de medidas protecionistas como o aumento das tarifas de importação de aço e alumínio.

    O novo governo italiano encabeçado pela coalização é um governo populista de direita, reacionário, xenofóbico e nacionalista. A renda mínima cidadã e outra medidas anti-austeridade não devem confundir o real caráter do governo. A Liga representa a entrada de um partido composto pela extrema-direita dentro do Poder Executivo da terceira maior economia da UE.

    Resultado eleitoral: veja quem é quem na Itália
    O partido vencedor das eleições italianas de março deste ano foi o populista Movimento 5 Estrelas (M5E) que atingiu 32,7% dos votos, um salto de 8% em relação à 2013. Apesar de o M5E ter sido o partido que individualmente ficou em primeiro lugar, a Coalizão de Direita foi quem obteve a maior votação conjunta, atingindo 36,1% dos votos. A coalizão é formada pela Liga, que recebeu 17,4%, a Força Itália (14%) e os Irmãos de Itália (4,3%). No total, a Coalizão recebeu 12 milhões de votos, 2 a mais que em 2013, mas ainda distante dos 18 milhões em 2001 e 17 milhões em 2007.

    Movimento 5 Estrelas
    O M5E é um caso sui generis na política europeia. Fundado em 2009 pelo comediante Beppe Grillo e o empresário Davide Casaleggio, o 5 Estrelas é o principal partido opositor à União Europeia (UE) no país. Defende um programa econômico reformista, em defesa da renda mínima universal e contra a austeridade fiscal da UE, ao mesmo tempo que apoia a restrição da chegada de refugiados na Itália, associada por eles à política de “portas abertas” da chanceler alemã Angela Merkel em 2015.

    Ainda, apesar de ter sido contrário às reformas neoliberais de Renzi (ex-primeiro ministro), o M5E não promoveu atos de rua nem impulsionou um movimento de massas nesse sentido. Por isso, não pode ser enquadrado entre os novos partidos de esquerda europeia – Podemos, Siryza, França Insubmissa – tampouco entre os de extrema direita – AfD, Frente Nacional, UKIP. Trata-se, portanto, de um populismo neo-nacionalista, cujo programa combina políticas de esquerda e direita.

    A Liga
    Apesar da Coalizão ter recebido uma quantidade de votos na média das últimas eleições, ocorreu uma radicalização do campo direitista. A Força Itália, do ex-primeiro ministro Berlusconi, foi substituída como liderança da Coalizão pela Liga, um partido com sérias inclinações neofascistas. Conhecida anteriormente como Liga Norte, a Liga abandonou o seu programa separatista voltando com seu discurso xenofóbico em relação aos imigrantes africanos e em defesa de uma suposta “identidade italiana”. Desde a crise dos refugiados, a Liga teve uma ascensão meteórica, crescendo 13% desde as eleições de 2013, às custas dos 8% perdidos pela Força Itália.

    Irmãos de Itália
    Menores, porém, não menos relevantes, são os quase 5% de votos alcançados pelos Irmãos de Itália. Este partido, fundado em 2012, é o herdeiro do neo-fascismo pós-Guerra do Movimento Social Italiano (1946-1995) e da Aliança Nacional (1995-2009). Os “Irmãos” são apoiados pelos movimentos neofascistas Casa Pound, Forza Nuova e La Destra, que apesar de não terem espaço político-institucional, organizam ataques à grupos de refugiados e estão ganhando cada vez mais espaço em atos de rua.

    Partido Democrático
    O Partido Democrático (PD) foi o grande derrotado das eleições, perdendo cerca de 2 milhões e meio de votos em relação à 2013, chegando à casa dos 18,7%. Apesar de ser o herdeiro do Partido Comunista Italiano, seu último ministro, Matteo Renzi, era originalmente da antiga Democracia Cristã. Ele aplicou uma reforma neoliberal radical durante seu governo, cuja consequência foi a pior votação da socialdemocracia no pós-Guerra. O partido “Livres e Iguais”, racha do PD, chegou apenas a marca dos 3,4%, não conseguindo aglutinar os votos perdidos pelos socialdemocratas.

    Poder ao Povo
    Já a esquerda radical, que esteve reunida na coalizão Poder ao Povo (PAP), obteve sua menor votação no pós-Guerra com meros 1,1%, equivalente a 370 mil votos. Esta coalizão agrupa um leque diverso de organizações socialistas, inclusive partidos trotskyistas, como as seções italianas do Secretariado Unificado – SU (Esquerda Anticapitalista) e do Comitê por uma Internacional dos Trabalhadores – CIT (Resistência Internacional). As causas desta derrota são tanto o giro à direita na consciência da classe trabalhadora europeia, como o voto útil no PD frente à ascensão da Liga.

    Saiba Mais: 

    Eleições Italianas: o crescimento da extrema-direita e do M5S; a necessidade de uma alternativa anti-capitalista

    Itália: Derrota do governo no Referendo Constitucional aumenta instabilidade no país e na UE

     

     

     

  • A Argentina e o efeito orloff

    “O dinheiro é um meio e não um fim
    A fortuna torna insolentes os seus favoritos”
    Sabedoria popular portuguesa

    Nos anos oitenta se brincava sobre a propaganda enganosa de uma vodka que prometia que não haveria ressaca no dia seguinte, o efeito orloff: ela prometia “eu sou você amanhã”, e apresentava um sujeito sorridente, apesar das barbaridades alcoolicas. Ninguém com juízo acreditava. Adaptada às incríveis peripécias da vida econômica e social debaixo da superinflação, dizia-se que o Brasil imitava a Argentina, só que com atraso.

    É bom levarmos mais a sério o efeito orlof. Nenhum país da periferia está blindado diante das turbulências no mercado mundial. E elas estão aumentando porque a fase aberta após a crise de 2008 pela política de relaxamento monetário (Quantitative Easing) está se encerrando, e a injeção de liquidez para diminuir o impacto da longa recessão vai acabar. A farra do crédito barato, que permitia tomar empréstimos nos países centrais e financiar a dívida pública nos periféricos, tem data marcada e prazo de validade esgotado.

    Na Argentina o déficit negativo foi de 4.8% do PIB em 2017, e no Brasil de 0,5%, uma diferença de qualidade. Mas, em contrapartida, na Argentina o déficit fiscal nominal (incluindo pagamento de juros) em % do PIB foi de 6% do PIB, e no Brasil de 7,8% do PIB, ou seja, níveis muito próximos [1].

    Argumenta-se que o fato do Brasil ter reservas internacionais acima de US$ 380 bilhões para um PIB de US$ 2,02 trilhões, um pouco menos de dois anos de importações no patamar atual, é uma proteção suficiente diante das pressões internacionais [2]. Mas a Argentina também mantém reservas internacionais, relativamente, elevadas de US$ 56.15 bilhões, para um PIB estimado em US$ 771 bilhões, embora, proporcionalmente, menores [3].

    O Brasil está menos vulnerável porque sua dívida pública está emitida, em amplíssima maioria, em títulos que remuneram em moeda nacional. E o Brasil se beneficia, também, de estar recebendo um volume de IED que reduz o impacto do déficit no balanço de pagamentos.

    Mas seria imprudente ignorar que estes fatores não são blindagem suficiente. Porque a política governa a economia. E as dificuldades da candidatura Alckmin decolar agrega grande incerteza às previsões da continuidade da estratégia de ajuste fiscal gradual iniciada por Temer. Por outro lado, parece creser no mercado mundial uma percepção de que os prazos para alcançar significativos patamares de superávit fiscal são demasiado longos. A campanha eleitoral pode estimular, portanto, uma desvalorização do real, com todas sequelas inflacionárias conhecidas.

    O balanço de pagamentos inclui a balança comercial, os serviços, transferências de lucros empresariais e remessas de imigrantes. Os saldos negativos devem ser cobertos com investimentos(IED) [4], ou empréstimos do exterior. Um patamar de reservas internacionais que equivalem a pouco menos de dois anos de importações, não podem proteger, indefinidamente, a moeda nacional.

    O déficit primário [5] foi de R$ 124,401 bilhões, em 2017, o que equivale a 1,9% do PIB. Em 2016 o déficit primário, anterior ao pagamento dos juros da dívida pública foi de R$ 159, 473 bilhões. Esta foi a grande façanha de Temer: o ajuste fiscal. Mas tem um custo incalculável: a estagnação econômica se mantém. As previsões de evolução do PIB são mais pessimistas a cada dia. O que teria por consequência que a previsão de entrada de US$ 80 bilhões em IED em 2018 pode não se concretizar, e o déficit no balanço de pagamentos deve aumentar. Parece, portanto, sensato saber que o Brasil não está, realmente, blindado, se considerarmos um dos “calcanhares de aquiles” histórico que tem sido o déficit no balanço de pagamentos, que depende do investimento direto estrangeiro (IED) para fechar [6].

    Ranking dos países. Entrada e saída de IED
    Nesse contexto precisamos compreender que o FMI já voltou à Argentina e tem um plano. A desvalorização acentuada do peso argentino levou o governo a procurar um empréstimo de US$ 30 bilhões. O governo Macri procurou o FMI ameaçado por uma corrida ao dólar, em um país traumatizado, como o Brasil, pela superinflação. A desvalorização foi, contudo, somente o gatilho.

    Os sinais de uma recolonização vinham de antes. Tanto no Brasil como na Argentina avançou a estratégia de ajuste fiscal para estabelecer superavits primários e tranquilizar os credores. Macri obteve vitórias com reformas muito semelhantes, algumas até maiores, que as de Temer, mas, afinal, não foram suficientes.

    Quatro fatores parecem ter provocado este giro preventivo de Macri: (a) fuga de capitais estrangeiros; (b) elevação mundial do dólar como expressão de uma inquietação crescente pela guerra comercial de Trump contra a China, o encarecimento do petróleo e a elevação das taxas do FED; (c) insegurança dos investidores com a estratégia de ajuste fiscal gradual, calibrado para uma transição lenta dos deficits orçamentários para superavits primários, enquanto o crescimento do PIB patina; (d) níveis de resistência social mais elevados ao ajuste mais elevados do que o previsto, em um país em que, apesar da força de contenção da burocracia sindical, a combatividade de uma classe trabalhadora jovem e concentrada não pode ser desconsiderada.

    Procurar o FMI é uma decisão, políticamente, grave, se considerarmos o seu papel durante três décadas, entre os anos setenta e dois mil, como instrumento de defesa dos interesses, em primeiro lugar, do imperialismo norte-americano. É assim em todo continente, mas na Argentina em especial. Lembremos que a Argentina foi até ao default ou calote, há quinze anos, ou seja, a suspensão dos pagamentos da dívida externa[7]. A crise das dívidas externas e as sequelas deixadas pelas políticas anti-inflacionárias deixaram uma devastadora memória na consciência das massas populares.

    Em janeiro, o FMI tinha referendado a posição do governo de expectativa de queda da taxa anual de inflação para 15% em 2018. No ano passado foi de 24,8% ao ano [8]. Ela ficou muito acima da meta de 17%. A inflação na Argentina tinha chegado a 41% em 2016. Macri tentou aumentos apocalípticos da taxa de juros básica, que servem de piso para todas as outras taxas de empréstimos, para conter as pressões inflacionárias. Mas não foi suficiente. Já estavam em 27% em abril, e atingiram os 40% ao ano na primeira semana de maio.

    O crescimento do quociente dívida pública/PIB corresponde hoje a 60% do PIB da Argentina [9]. O quociente dívida/PIB é um indicador que remete à projeção da capacidade futura do Estado de garantir a rolagem dos juros: quando a taxa de juros sobe e, simultaneamente, a arrecadação fiscal cai, porque o país entra em recessão, a confiança dos investidores diminui. Em suma, taxa de juros mais altas, se o PIB desacelera, aumentam a proporção da dívida/PIB, e exigem superavits mais elevados para a rolagem dos juros.

    As estimativas do Banco Mundial são de alta do PIB de 2,7% em 2018, mas podem estar superestimadas [10]. Ainda prevalece uma grande incerteza. Dez anos depois da crise de 2008 a enorme e inusitada liquidez mundial deve diminuir [11]. Injetada pelo FED norte-americano, seguido pelo Banco Central europeu e japonês, ela aumentou, em velocidade vertiginosa, a dívida pública dos países periféricos. Como já tinha acontecido na década de oitenta, com os contratos com taxas pós-fixadas. Agigantou, também, a dívida dos imperialistas, socializando os custos da destruição de capitais provocada pela crise recessiva. A expectativa é que as taxas de juros no mercado mundial se elevem, em função da recuperação econômica nos EUA, encarecendo o endividamento da periferia, o que pressionará, também, a rolagem da dívida pública do Brasil.

    O capitalismo brasileiro está protegido? A maior parte do déficit público brasileiro deriva, em perspectiva histórica, do alto custo da rolagem da dívida pública, em função de taxas de juros que estiveram, em média, entre as mais altas do mundo por muitas décadas. A dívida pública do governo brasileiro já ultrapassou 75% do PIB (Produto Interno Bruto), maior que a da Argentina, e o déficit operacional recorrente do setor público permanece na casa de 5% do PIB. [12]. O ajuste fiscal mais duro ainda está por fazer. A estratégia gradualista que veio sendo aplicada tanto em Buenos Aires por Macri, como em Brasília por Temer não corresponde ainda, plenamente, às expectativas e aos interesses dos investidores estrangeiros. Eles querem uma política de choque muito mais dura. É bom sabermos contra quem lutamos.

    FOTO: Michel Temer recebe Mauricio Macri, presidente da Argentina, durante a 51ª Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul e Estados Associados, em dezembro de 2017, no Palácio Itamaraty (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

    NOTAS
    [1] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/05/entenda-como-a-argentina-chegou-a-crise-atual.shtml
    Consulta em 17/05/2018

    [2] Em 2017, o PIB (Produto Interno Bruto) cresceu 1,0% em relação a 2016, após duas quedas consecutivas, ambas de 3,5%, em 2015 e 2016. O PIB totalizou R$ 6,6 trilhões em 2017. A taxa de investimento em 2017 foi de 15,6% do PIB, abaixo do observado no ano anterior (16,1%). A taxa de poupança foi de 14,8% em 2017 (ante 13,9% no ano anterior).
    https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2013-agencia-de-noticias/releases/20166-pib-avanca-1-0-em-2017-e-fecha-ano-em-r-6-6-trilhoes.html
    Consulta em 17/05/2018

    [3] O PIB nominal não leva em consideração as diferenças no custo de vida em diferentes países, e os resultados podem variar muito de um ano para outro com base em flutuações nas taxas de câmbio e valor da moeda do país.
    https://economia.uol.com.br/noticias/efe/2018/03/21/pib-da-argentina-cresceu-29-em-2017-segundo-dados-oficiais.htm
    Consulta em 17/05/2018.

    [4]  O World Investment Report 2017 divulgado pela Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) é uma referência para o tema do IED. Os investimentos diretos estrangeiros (IED) no Brasil estiveram em franca expansão durante 2009-2011, mas vêm reduzindo desde então. Depois de terem atingido 64 bilhões de dólares em 2013, os fluxos de IED para o Brasil baixaram para 62 bilhões de dólares em 2014 e para 56 bilhões em 2015 – um decréscimo de 23% em relação ao ano anterior. Em 2016, os investimentos continuaram a cair, alcançando os 50 bilhões de dólares. No entanto, o Brasil continua sendo o primeiro destino de IED da América Latina e o oitavo destino no cenário mundial. O país é atualmente o quarto investidor entre os países emergentes e o primeiro da América Latina. https://pt.portal.santandertrade.com/internacionalize-se/brasil/fluxos-de-ied-2
    Consulta em 17/05/2018.

    [5]déficit primário é o resultado negativo nas contas públicas, desconsiderando o pagamento de juros da dívida pública.

    [6] Os investimentos estrangeiros diretos (IED) chegaram, no ano passado, aos 70,332 bilhões de dólares. O Brasil registrou, em 2017, um déficit de conta corrente de 9,8 bilhões de dólares, o menor em dez anos, frente a um rombo de 23,546 bilhões em 2016. Em 2014, em meio à crise, o déficit chegou a 104,181 bilhões.
    https://economia.uol.com.br/noticias/afp/2018/01/26/brasil-registrou-menor-deficit-da-conta-corrente-em-10-anos-em-2017.htm Consulta em 17/05/2018.

    [7] A desvalorização abrupta do peso tornou impagável a dívida pública (externa e interna) do país, que era em boa parte corrigida pelo dólar. Sem reservas internacionais para honrar os compromissos, a Argentina viu-se obrigada a deixar de pagar os juros e a dívida principal dos papéis que havia emitido. Entre 2005 e 2010, a Argentina renegociou a dívida e apresentou diversos planos de reestruturação. Dos credores internacionais, 93% aceitaram a proposta do governo argentino para quitar os débitos de forma parcelada com desconto de 60% a 65% no valor da dívida. No entanto, 7% não aceitaram o plano e decidiram contestar o acordo na Justiça norte-americana, que tem jurisdição sobre os títulos emitidos na Bolsa de Nova York. Consulta em 17/05/2018.

    http://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2014-08/entenda-crise-que-levou-argentina-calote-tecnico

    [8] https://economia.uol.com.br/noticias/afp/2018/01/11/inflacao-da-argentina-foi-de-248-em-2017.htm  Consulta em 16/05/2018.

    [9]ministro da Fazenda, Nicolás Dujovne, ratificou que serão mantidas as projeções de redução do déficit fiscal. O ano passado fechou com uma diferença equivalente a 4,2% do PIB. O objetivo é que diminua em 2018 até 3,2%. Consulta em 16/05/2018.
    https://brasil.elpais.com/brasil/2018/01/01/internacional/1514832832_626904.html

    [10] O Banco Mundial divulgou o relatório “Ajuste Fiscal na América Latina e Caribe: o relatório faz a ressalva de que após vários anos de baixo crescimento, a situação fiscal de muitos desses países é frágil: a dívida pública da região como um todo representa 57,6% do Produto Interno Bruno (PIB) latino-americano e quase todos os países da região fecharam 2017 com déficits fiscais. O documento afirma que caso o Brasil conseguisse diminuir sua relação dívida pública sobre o PIB do número atual de 74% para 61,5%, poderia recuperar o grau de investimento, classificação de risco por agências estrangeira, em até dez anos. Isso se faria por meio de sucessivos superávits primários entre 2018 e 2028, começando com 7,5% neste ano e subindo para 5,8% a partir do ano que vem. Disponível em: http://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2018-04/america-latina-volta-crescer-liderada-por-brasil-e-argentina Consulta em 16/05/2018.

    [11] O Federal Reserve (Fed, o Banco Central americano) decidiu elevar nesta quarta-feira (21) a taxa de juros em sua primeira reunião sob o comando de Jerome Powell. O juro básico na maior economia do mundo subiu para uma faixa entre 1,50% a 1,75%, um aumento de 0,25 ponto percentual. Consulta em 16/05/2018.
    https://g1.globo.com/economia/noticia/fed-eleva-taxas-de-juros-nos-eua-pela-1-vez-em-2018.ghtml

    [12] A dívida bruta do governo geral – governo federal, INSS, governos estaduais e municipais – saiu de R$ 4,9 trilhões em janeiro para R$ 4,957 trilhões um mês depois. Em relação ao PIB, a dívida subiu de 74,5% para 75,1%, novo recorde da série iniciada em2006. Consulta em 16/05/2018.
    http://www.valor.com.br/brasil/5414633/divida-publica-bruta-vai-751-do-pib-em-fevereiro-novo-recorde

    Save

    Save

    Save

    Save

    Save

    Save

    Save

  • As tragédias ensinam, as atitudes inspiram

    Desabafo. Desculpem pelo texto longo e pessoal. Mas sinto que precisava falar alguma coisa mais personalizada. Em meio ao horror, é hora de refletir. Escutei e li muitas coisas sobre o massacre de Gaza. Algumas emocionantes, sentidas, sofridas, surpresas, enojadas. Outras cínicas. Algumas diretamente desumanas, burras, cruéis, ignorantes, racistas, islamofóbicas, justificatórias. Não subestimo as últimas, mas elas merecem o meu desprezo total.

    Queria compartilhar com aqueles que estão chocados, os que não sabiam o que significava o terror sionista, um depoimento que me emocionou da forma mais forte. Uma mulher, judia, israelense, Nurit-Peled Elhanan, cujo avô foi um dos signatários da declaração de independência do estado de Israel, cujo pai foi Mati Peled, um general herói de guerra de Israel e que já na reserva se transformou em um pacifista. Em seus círculos familiares e de conhecidos estava o atual assassino que dirige Israel, cujo nome não quero repetir. Pois, em 1997, após todas as frustrações de muitos anos de abandono, miséria, perseguição, um terrorista suicida se explode, matando algumas pessoas. Entre elas, sua filha, Smadar, 13 anos. Como se sabe, não há dor maior que a perda de um filho. Ao terminar o enterro, as cerimônias, a imprensa pediu para que ela falasse o que pensava sobre a responsabilidade da direção palestina pelas mortes. Sua resposta foi clara: “Isso é o fruto dos crimes de Israel”. Acrescentou: “Isso serve aos seus propósitos. Querem matar o processo de paz e colocar a culpa nos árabes”.

    Ela já era de esquerda, mas a morte de sua filha a fez colocar todas as suas energias para combater as raízes do mal que causou a morte de sua filha. Ela tornou-se ativista contra as práticas do estado e seu irmão, Miko Peled, começou sua militância como ativista antissionista, inspirado na trajetória, atitude e palavras de Nurit. Ela publicou um livro notável sobre a educação das crianças em Israel, mostrando como são incutidas de ódio aos palestinos, e com uma versão que ignora quem habitava o país (Palestine in Israeli School  Ideology and Propaganda in Education). Seu irmão, Miko, publicou sua trajetória no livro “O Filho do General” e se tornou um grande ativista antissionista.

    Tenho amigos de infância que continuam apegados aos velhos mitos da supremacia sionista. Paciência. A história julgará, já que eles não aprenderam da sua própria. Outros, queridos amigos, que há muito romperam com isso e com quem tenho o maior prazer de compartilhar ideias e emoções. Cada um tem seu ponto de ruptura. O meu foi ainda em Israel, em 1970, com 17 anos, quando em um ônibus de Ashkelon para Gaza, eu descia no meio do caminho para ir para o kibutz em que estava trabalhando. O ônibus estava lotado de trabalhadores palestinos que voltavam para suas casas após trabalharem em Israel. Um deles, perguntou para mim: “aonde você vai?”. Eu falei, “para o kibutz Zikim”. E ele, “minha família morava lá há 23 anos”. Eu fiquei atordoado, fiz que não havia entendido. E desci do ônibus. Foi o ponto decisivo para entender que éramos intrusos, invasores, colonos, que a terra tinha donos (Ou como uma comissão de rabinos húngaros que visitou a Palestina ao início do século XX a mando dos sionistas e voltou dizendo: “A noiva é bonita, mas já está comprometida”.

    Poderia citar também, Tikva Honnig-Parnass, que tinha 17 anos em 1947, lutou na Guerra e compreendeu como o processo estava mal parado. Desde então, hoje com 89 anos, escreve textos excelentes sobre o sionismo, um deles, devastador, sobre a sua versão de “esquerda” (The False Prophets of Peace: Liberal Zionism and the Struggle for Palestine). Aqui uma entrevista com ela.

    Desde então, fui rompendo com o sionismo por processos intelectuais. Provavelmente, a família daquele palestino ainda vive em Gaza, possivelmente alguns deles nunca puderam sair de lá, pois é um lugar cercado e fechado, controlado pela potência colonial, ajudada pelos governos egípcios. Muitos anos depois, verifiquei nos mapas da Nakba, feitas pela organização israelense Zochrot, dedicada a mapear as aldeias e cidades que foram eliminadas pelos sionistas em 1948, que efetivamente havia uma aldeia palestina onde tinha sido construído o kibutz.

    Minha mãe, D. Fany, como já contei várias vezes, tinha outra visão. Tinha vindo criança ao Brasil e sua família tinha sido exterminada em Aushwitz. Ela dizia, “não havia outra saída”. Em 1982, foi a experiência decisiva dela. Com a invasão israelense, as milícias falangistas cristãs do Líbano ocuparam os campos de Sabra e Chatila, nos arredores de Beirute, e executaram centenas de palestinos refugiados, com a proteção das tropas sionistas que lhes deram total cobertura. Uma imensa crise atingiu Israel, centenas de milhares de pessoas saíram às ruas em protesto. Minha mãe tomou a decisão e na semana seguinte, quando as pessoas que recolhiam sua contribuição para a Organização Sionista chegaram, ela disse: “Depois de Sabra e Chatila, não haverá mais um centavo para vocês!”.

    Bem, são essas as atitudes que inspiram. As tragédias servem para ensinar. Que regime é capaz de fazer o que fez Israel em Gaza, sem que provoque uma comoção nacional? Houve algumas centenas de pessoas se manifestando em Tel-Aviv, além das manifestações dos palestinos de Israel. Mas foi só. Quem sabe este evento seja o momento de despertar de muitos judeus israelenses e pelo mundo.

    A dominação de Israel é a maior desde que começou a colonização sionista. Parece absolutamente triunfante. E tem sido. Mas seus pés são de barro. Não é uma fanfarronice bizarra, para me animar ou os militantes, mas uma reflexão histórica. Nenhum colonizador conseguiu impor-se eternamente. A não ser que tenha praticado o genocídio, como os que colonizaram os EUA, ou a América espanhola, ou o Brasil.

    O regime do apartheid sul-africano também era um sucesso completo por muitas décadas. As semelhanças com o regime israelense são notáveis. Aliás, os ativistas que estiveram em Israel dizem que o apartheid não era tão duro e inumano como o que viram na Cisjordânia. E ele caiu. A luta dos negros tornou impossível a sua manutenção. Mas os negros pagaram um preço terrível, entre mortos, presos, torturados, esfomeados e humilhados. Mas venceram. E sua estratégia era a de unir a todos os que se opunham ao apartheid. Foi a estratégia de Mandela, do Conselho Nacional Africano. Pagaram com décadas de prisão, mas a força da luta interna e da solidariedade mundial acabou se impondo.

    Os mesmos que consideravam Mandela um terrorista (Thatcher!), tiveram que se curvar. Entre os aderentes do CNA, muitos brancos, inclusive muitos judeus, como Ruth Fischer, Joe Slovo, Ronnie Kasrils (que ainda vive), da alta direção do CNA e do PC sul-africano. Akhmed Katrada, dirigente do CNA, da colônia hindu do país, que passou cerca de vinte anos preso com Mandela, tomou uma posição muito clara sobre o sionismo.

    Aliás, Katrada conta um detalhe que eu não sabia: Gandhi, sim, aquele da luta não violenta contra o império britânico foi várias vezes pressionado a apoiar os projetos sionistas. E vejam o que ele respondeu: “A Palestina pertence aos árabes, da mesma forma que a Inglaterra pertence aos ingleses, ou a França aos franceses. É errado e inumano impor os judeus sobre os árabes… certamente, seria um crime contra a humanidade reduzir os orgulhosos árabes de forma a que a Palestina possa ser restaurada para os judeus em parte ou no todo, como sua nova pátria”.

    E já ao final da vida dizia: “Mas em minha opinião, eles [os judeus} erraram muito ao tentar se impor na Palestina com o apoio americano e britânico, e agora por meio do terrorismo puro… Por que deveriam depender do dinheiro americano e das armas britânicas para forçar sua presença em uma terra que não os quer? Por que deveriam eles recorrer ao terrorismo para conseguir seu pouco forçado na Palestina?”

    Sua última declaração antes de ser assassinado em 1947, foi: “O problema se tornou quase insolúvel. Se eu fosse um judeu, eu diria a eles: ‘não sejam tão estúpidos em recorrer ao terrorismo…Os judeus devem se reunir com os árabes, tornar-se amigos deles e não depender da ajuda britânica ou americana, salvo o que provenha de Jeová”.

    Ghandi, como lutador anticolonial, compreendia que os judeus estavam repetindo o papel dos colonizadores em outros lugares e que teriam problemas similares, que os nativos, os palestinos, nunca aceitariam perder a sua pátria. “Compartilhá-la com respeito sim, como acolheram bem os primeiros imigrantes até perceber qual era sua atitude e com quem se aliavam”. 

    Por isso, não é estranho que não haja estátuas de Gandhi em Israel, ou se as existem são muito, muito raras.
    Quanto à África do Sul, infelizmente, na queda do apartheid, as conquistas políticas se viram limitadas pelo acordo com a elite capitalista branca e o apartheid econômico se perpetuou.

    Todos esses são exemplos a serem seguidos. Não pelo apelo emotivo, mas pelo significado profundo. Assim como ninguém que defendesse princípios democráticos duvidava da necessidade de boicotar o nefasto regime do apartheid nos anos 1960, 1979 e 1980, espero que cada vez mais se compreenda o porquê de boicotar Israel. Não foi um movimento de curto fôlego. Levou décadas para começar a produzir efeitos. O BDS ainda é uma criança, tem só 13 anos, mas o desespero e a agressividade dos sionistas contra ele são um alento, mostram que, pouco a pouco, começam a perder a batalha pelos corações e mentes. Que os mártires de Gaza, a rebelde, a insubmissa, sirvam para inspirar ódio, repulsa, e coragem aos muitos que ainda hesitam. Não é hora de se calar!

    Foto: Massacre dos campos de Sabra e Chatila, em 1982, com a cobertura das tropas de Israel.

  • Desigualdade mundial crescente

    Um livro está repercutindo na mídia comercial no momento. É chamado de Factfulness*. Ele pretende argumentar que, ao contrário da sabedoria convencional, o mundo está se tornando um lugar melhor. A pobreza está caindo, a expectativa de vida está aumentando; os níveis de saúde estão melhorando; as pessoas têm mais coisas e melhores serviços. Até a violência e as guerras estão em declínio.

    Esta é uma velha mensagem antiga que foi exposta no passado pelo bilionário Bill Gates, entre outros. De fato, ele dá a este novo livro muitos elogios – como justifica sua visão de que as coisas estão melhorando para a maioria e com as políticas corretas em saúde, educação, população, mudanças climáticas etc., o mundo pode progredir sem qualquer mudança em seu modo de produção e estrutura social.

    Tomei essa mensagem otimista em posts anteriores e meu último livro, Marx 200, discute a natureza dialética do desenvolvimento do capitalismo – algo que Marx reconheceu já em 1848 no Manifesto Comunista. Sim, o capitalismo levou adiante as forças produtivas como nenhum outro modo de produção (sociedade escravista, feudalismo e despotismo asiático), mas também carrega um lado sombrio de crescente exploração, domínio do mercado e máquina sobre a liberdade e a subsistência das pessoas; e guerras globais, e até mesmo a destruição do planeta.

    Em contraste com o otimismo de Factfulness, o último Relatório Mundial de Desigualdade é uma análise preocupante. A desigualdade entre ricos e pobres está aumentando em ritmo crescente. Os autores, os mais respeitados especialistas em desigualdade de renda e riqueza globalmente, concluem que o número de bilionários subiu pelo maior valor de sempre em 2017, enquanto mais da metade da população mundial vive entre US $ 2 e US $ 10 por dia. O relatório mostra que a parcela de riqueza detida pelos 1% dos maiores proprietários nos EUA dobrou de 10% para 20% entre 1980 e 2016, enquanto os 50% inferiores caíram de 20% para 13% no mesmo período.
    Kofi Annan, ex-chefe das Nações Unidas, chamou essa escala de desigualdade econômica global de “desconcertante e vergonhosa”. Os autores descobriram que a desigualdade de renda aumentou em quase todas as regiões do mundo nas últimas décadas, mas em velocidades diferentes. Desde 1980, a desigualdade de renda aumentou rapidamente na América do Norte, China, Índia e Rússia. A desigualdade cresceu moderadamente na Europa.

    No nível global, a desigualdade aumentou acentuadamente desde 1980, apesar do forte crescimento na China. A metade mais pobre da população global viu sua renda crescer significativamente graças ao alto crescimento na Ásia (particularmente na China e na Índia). No entanto, devido à alta e crescente desigualdade dentro dos países, os 1% mais ricos do mundo captaram duas vezes mais crescimento do que os 50% mais pobres desde 1980.

    Quando se trata de desigualdade de riqueza em oposição à renda, há algumas conclusões surpreendentes no relatório. “A desigualdade econômica é em grande parte impulsionada pela propriedade desigual do capital, que pode ser de propriedade privada ou pública. Mostramos que, desde 1980, ocorreram transferências muito grandes de riqueza pública para privada em quase todos os países, sejam eles ricos ou emergentes. Embora a riqueza nacional tenha aumentado substancialmente, a riqueza pública é agora negativa ou próxima de zero nos países ricos ”. 
    Os autores sugerem que a combinação de grandes privatizações e o aumento da desigualdade de renda dentro dos países alimentou o aumento da desigualdade de riqueza, mesmo que ela ainda não tenha retornado ao seu nível extremamente alto no início do século XX nos países ricos. O aumento da desigualdade de riqueza, no entanto, é muito grande nos Estados Unidos, onde a parte de riqueza de 1% subiu de 22% em 1980 para 39% em 2014. A maior parte desse aumento foi devido à alta da riqueza de 0,1%. os proprietários. 
    A meu ver, a desigualdade de riqueza e renda é uma característica inerente às sociedades de classes, e o capitalismo não é exceção. Mas isso não significa que aumentaria indefinidamente, um ponto feito pelo relatório sobre a desigualdade. Isso depende da dinâmica de acumulação de capital e da ação política dos governos.

    Naturalmente, os autores (ou Kofi Annan) não propõem uma reestruturação radical do sistema capitalista, isto é, sua substituição. Em vez disso, eles buscam uma tributação progressiva dos rendimentos; controlo da evasão fiscal e dos paraísos fiscais para a riqueza; “mais educação” e investimento público. O problema dessas políticas, que merecem respeito, é que elas não podem ser implementadas se os interesses do capital forem protegidos, particularmente, quando o capitalismo está lutando para sustentar a lucratividade do capital, precisamente, diminuindo a força sindical (que é um importante fator de contra-pressão contra a crescente desigualdade) ignorado pelos autores; mantendo as privatizações (não o investimento público) e “desregulamentando” os mercados de trabalho, isto é, aumentando a exploração total do trabalho.

    Além disso, crises recorrentes na produção capitalista não são o resultado do aumento da desigualdade (embora algunes na esquerda argumentem isso); e assim as verdadeiras contradições e limites do capitalismo não serão resolvidas pela redução da desigualdade.

    O que também está faltando no relatório é por que a desigualdade de riqueza aumentou – é principalmente o resultado do aumento da concentração e centralização de ativos produtivos capitalistas em poucas mãos. A concentração real da riqueza é expressa no fato de que o grande capital (finanças e negócios) controla o investimento, o emprego e as decisões financeiras do mundo. Um núcleo dominante de 147 empresas, através de participações interligadas em outros, controla, juntas, 40% da riqueza na rede global, de acordo com o Instituto Suíço de Tecnologia. Um total de 737 empresas controlam 80% do total. Essa é a desigualdade que importa para o funcionamento do capitalismo – o poder concentrado do capital.

    *Livro – Factfulness: Ten Reasons We’re Wrong About the World-and Why Things Are Better Than You think, by Hans Rosling
    Tradução – Fatualidade: dez razões pelas quais estamos errados em relação ao mundo – e por que as coisas são melhores do que você pensa, de Hans Rosling

    ** Artigo publicado originalmente em Thenextrecession

    Foto: Reprodução Youtube

  • Nakba: 70 anos depois, a bandeira da Palestina Livre tremula em Gaza

    Neste dia 15 de maio, recordamos os 70 anos da Nakba, em meio aos ataques de Israel à Marcha do Retorno, que no dia anterior mobilizou cerca de 50 mil palestinos em Gaza e teve 60 mortos e 2.400 feridos. Nabka em árabe significa “catástrofe”, em referência à expulsão de cerca de 80% da população palestina do país, com a criação de Israel. Centenas de milhares de palestinos transformados em refugiados, que, com seus descendentes, somam cinco milhões de pessoas, a maioria vivendo em precários campos em países vizinhos, a poucos quilômetros de suas terras.

    Israel domina desde 1967 todo o território do que foi a Palestina Histórica e submete seus habitantes a graus variados de opressão.

    É um regime de apartheid legalizado. Os palestinos que são cidadãos israelenses possuem direitos civis limitados, mas não direitos nacionais, e são discriminados duramente na distribuição de verbas, na moradia, saúde e educação. Além de estarem sob suspeita permanente de serem leais a seus irmãos que não são cidadãos.

    Os 300 mil palestinos de Jerusalém Oriental, anexada por Israel após a guerra de 1967, possuem residência permanente no país, mas não são cidadãos e podem perder esse status a qualquer momento e sofrem cada vez mais um processo de “israelização” ou “judaização” (assim chamado pelos próprios israelenses) patrocinado pelo governo.

    Os palestinos da Cisjordânia são submetidos à presença cada vez mais agressiva de centenas de milhares de colonos judeus, que recebem subsídios do Estado, proteção militar e são regidos pelas leis de Israel, ao passo que para os palestinos vale a legislação da ocupação, herdada do Mandato Britânico.

    Já os habitantes de Gaza ocupam o patamar mais baixo na intrincada hierarquia de opressão organizada pelo estado de Israel. Gaza era uma pequena cidade de 80 mil habitantes em 1948 e tornou-se um dos lugares com maior densidade populacional do planeta com a chegada de 250 mil refugiados em 1948, até chegar aos dois milhões hoje. O Egito, em particular a partir dos anos 1980, participa ativamente no controle da população da Faixa.

    Seus habitantes nunca se resignaram e sempre procuraram retornar a suas terras. Muito antes do surgimento do Hamas – movimento nacionalista islâmico – já sofriam as “expedições punitivas” do exército de Israel que resultaram em incontáveis mortes. A ocupação de 1967 piorou muito sua vida. Como era impossível colonizar a Faixa, a alternativa foi a de sufocá-lacada vez. Em 1988, a primeira grande rebelião contra a ocupação, conhecida como Intifada, começou justamente em Jabaliah, o maior campo de refugiados de Gaza e se expandiu para toda a Palestina ocupada.

    A Primeira Intifada só foi encerrada com os Acordos de Oslo, em 1993, nos quais Israel prometeu atender às demandas palestinas, mas nunca cumpriu. Somente ganhou tempo para retomar o controle absoluto da região, mesmo aceitando a existência de um autogoverno que alguns como Edward Said – intelectual e ativista palestino (1935-2003) – chamavam de governo de colaboração com a ocupação, o que se mostrou tragicamente correto.

    Os sionistas aproveitaram a ilusão de Oslo para acelerar drasticamente a colonização e esmagar militarmente as tentativas de resistência palestina. Em 2005, Israel realiza um simulacro de “desocupação” de Gaza, retirando os poucos colonos judeus e impondo um bloqueio quase absoluto por meio do controle da “fronteira” que construiu para impedir a livre movimentação dos seus habitantes. Contou para isso com a colaboração dos diversos governos egípcios das últimas décadas.

    Em 2006, em eleições livres, os palestinos deram a maioria relativa em seu parlamento para o Hamas. É bom recordar que nos anos 1980, o Hamas foi estimulado por Israel a fazer oposição à OLP (Organização de Libertação da Palestina) de Yasser Arafat, à época mais radical. Em 2007, com apoio dos israelenses, o Fatah, principal organização da OLP, tenta depor o governo e o Hamas reage e mantém o controle de Gaza, ficando a Cisjordânia com Mahmoud Abbas, do Fatah. Isso selou a divisão ainda maior entre os palestinos e o isolamento de Gaza.

    A tentativa de romper o bloqueio por parte dos habitantes de Gaza, de qualquer forma que fosse, sempre encontrou uma agressividade israelense, cada vez mais brutal. A partir de 2008, Israel efetuou três ataques militares a Gaza, incluindo bombardeios aéreos e com tanques. O último dos quais, em 2014, deixou milhares de mortos. Há um mês, o ministro da Defesa de Israel, Avigdor Lieberman, declarou que “não há gente inocente” em Gaza.

    Trump: um novo momento, uma nova ofensiva
    A ascensão de Donald Trump fez com que Israel se animasse a aumentar o cerco sobre a população de Gaza. Seu objetivo é tornar a vida tão miserável que uma parte importante da população aceite a “transferência” para qualquer lugar, inclusive o mais óbvio, o deserto do Sinai. Mas não contava que surgisse um movimento das organizações sociais e políticas palestinas que planejou a “Marcha do Retorno”, uma série de manifestações de massas, sem o uso de armas, que tentaria por várias semanas, se aproximar da “fronteira” de Gaza.

    Jerusalém e Tel-Aviv fazem festa. Gaza sangra.
    A atitude de Israel foi brutal: desde o primeiro dia de manifestações, posicionou seus atiradores de elite para assassinar a sangue frio os que se atreviam a desafiar o domínio colonial. O total de mortos já chegou a mais de 100, os feridos se contam aos milhares.
    Em um contraste de um simbolismo macabro, a poucas dezenas de quilômetros da Gaza, em Jerusalém havia uma festa de Gala na inauguração da embaixada americana. Como em todo o passado colonial. Enquanto se divertiam, riam, comiam, bebiam e tramavam maldades contra os povos da região, seus soldados assassinavam o povo rebelde de Gaza. E em Tel Aviv, milhares festejavam nas ruas a vitória inédita de uma cantora israelense no Festival Eurovisão. Vida normal.

    Nenhuma emoção com os dois milhões aprisionados, massacrados, desesperados, esfomeados, sem emprego, sem saúde (nem para tratar seus feridos) – mas não rendidos.

    Alguns, inclusive no Brasil, atribuem as manifestações do Dia do Regresso a uma possível manipulação do Hamas. A disposição das pessoas para a Marcha do Regresso só se explica por motivos sociais profundos. Nada explica a quantidade de pessoas dispostas a encarar a morte, tendo diante de si um exército assassino, em uma ação friamente calculada e preparada por seu regime e seu estado.

    Impedir o massacre em Gaza. Palestina Livre!
    Esse massacre precisa ser parado imediatamente. Qualquer que seja a opinião sobre a solução definitiva para a Palestina e Israel, não há desculpa para a omissão. Nenhuma organização dos trabalhadores, do movimento popular e democrático pode se omitir. É preciso realizar atos e manifestações em apoio ao povo palestino, e fortalecer os que já estão marcados no dia de hoje, a exemplo da grande manifestação que ocorreu ontem em Istambul.

    Devemos exigir o posicionamento dos países, como o da África do Sul, que retirou seu embaixador de Israel, e vários outros governos, que condenaram a repressão de Israel. Precisamos exigir do governo ilegítimo brasileiro que adote uma medida imediata e rompa relações diplomáticas com Israel, suspendendo ainda os acordos comerciais, em especial, a compra de armamentos, tecnologia e treinamento militar. O Brasil é hoje um dos maiores compradores de Israel, inclusive de blindados, que são utilizados nas comunidades do Rio de Janeiro e nas periferias das grandes cidades, para reprimir a população negra e pobre, que vive em um regime de apartheid social, agravado com a ocupação militar.

    Não há um minuto a perder. O massacre mostrou para todos a real natureza do estado de Israel, baseado na colonização e opressão contra outro povo e que promove uma política de extermínio.

    Que os que caíram lutando pelos seus direitos iluminem as lutas dos que sobreviveram na Palestina e no mundo. Pelo fim imediato ao massacre e fim incondicional do bloqueio a Gaza. Hoje, tanto quanto a 70 anos atrás, ainda tremula bem alto junto aos palestinos na “Marcha do Retorno” a bandeira da Palestina Livre. Essa é também a nossa bandeira.

    LEIA TAMBÉM

    Palestina: aberta a embaixada dos EUA em Jerusalém e 55 palestinos pagaram com sua vida hoje

    Save

  • Israel e Palestina em 2018: descolonização e não paz

    Na Palestina vivem-se dias dramáticos, agravando uma situação desesperadora que já dura 70 anos. O cerco a Gaza que torna a vida quase impossível levou à “marcha pelo retorno” e ao covarde massacre que estamos vendo nestes dias. Somente hoje, são 60 mortos e mais de dois mil feridos, atingidos por soldados armados até os dentes, que utilizaram todas as armas a seu dispor, inclusive bombardeios aéreos para impedir que dezenas de milhares de palestinos sequer se aproximassem da cerca de arame farpado que separa a Faixa de Gaza do território israelense.

    Menahem Kahana/AFP

    As imagens contrapostas da festa pela instalação da embaixada americana em Jerusalém não poderiam ser mais chocantes.

    Do alto de seu poderio, Israel se constitui no único poder real em todo o território da Palestina histórica. E um poder discriminatório, que nega os direitos dos cinco milhões de palestinos sob seu poder e aos milhões de refugiados e seus descendentes, que em alguns casos vivem a poucos quilômetros de distância de suas terras e propriedades roubadas. Aproveita-se cinicamente do apoio total da nova administração americana e do cenário desolador de derrota dos levantes nos países árabes em 2011. Regimes que cada vez mais apoiam a convivência com Israel e suas práticas.

    Mahmud Hams/AFP

    Mas a magnitude das manifestações coloca de forma acentuada um grande problema: a estratégia da liderança palestina desde 1988 é o estabelecimento de dois estados lado a lado, um judaico e outro palestino. A realidade demonstrou, mais além da teoria, que não é o mais provável que haja dois estados, mesmo um soberano e outro vassalo. A antiga bandeira palestina de uma Palestina laica, democrática e não racista em que convivam todas as nacionalidades é uma pista para modificar essa estratégia. Uma que possa conquistar apoio em um setor importante dos judeus israelenses, baseada na restituição dos direitos dos palestinos e na convivência igualitária. Um ponto de partida para mudanças completas em um território castigado pela opressão, racismo e discriminação há setenta anos.

    Publicamos as reflexões estratégicos do principal historiador israelense sobre a catástrofe palestina, Ilan Pappe, que está participando de um movimento por um único estado democrático na Palestina histórica.  O artigo foi publicado no dia 14/05 no site da Al Jazeera.

    Setenta anos depois da criação do estado de Israel, não se pode mais falar de um conflito israelense-palestino

    Por: Ilan Pappe

    Os fundadores do estado de Israel eram em sua maioria pessoas que se instalaram na Palestina no começo do século 20. Provinham especialmente da Europa Oriental, inspirados pelas ideologias nacionais românticas populares em seus países, desapontados pela sua incapacidade de assimilar em seu interior novos movimentos nacionalistas e entusiasmados pelas perspectivas de um colonialismo moderno.

    Alguns eram veteranos de movimentos socialistas que tinham a esperança de fundir seu nacionalismo romântico com experiências nas novas colônias. A Palestina não foi sempre sua única opção, mas se tornou a preferida quando ficou claro que ela se adaptava bem às estratégicas do Império Britânico e à visão de mundo dos Sionistas cristãos em ambos os lados do Atlântico.

    Desde a Declaração Balfour de 1917 e durante o período do Mandato Britânico entre 1918 e1948, os sionistas europeias começaram a construir a infraestrutura de um futuro estado com a ajuda do Império Britânico. Sabemos também que esses fundadores do moderno estado judaico eram conscientes da presença de uma população nativa com suas próprias aspirações e visão sobre o futuro de sua pátria.

    A solução para esse “problema” – do ponto de vista dos fundadores do sionismo – era de-arabizar a Palestina para abrir o caminho para o surgimento do moderno estado Judaico. Fossem socialistas, nacionalistas, religiosos ou laicos, a liderança sionista contemplava o despovoamento da Palestina desde os anos 1930.

    Próximo ao final do Mandato Britânico, ficou claro para a liderança sionista que o que eles haviam imaginado como um estado democrático somente poderia existir em base a uma presença judaico absoluta em sem território.

    Setenta anos de contínua limpeza étnica


    Apesar de oficialmente aceitarem a Resolução 181 da ONU de 29 de novembro de 1947 que aplicava a partilha do país (sabendo que ela seria rejeitada pelos palestinos e pelo mundo árabe), eles a consideravam como desastrosa, pois previa um número quase igual de palestinos e judeus no estado judaico. O fato de que somente 54% da Palestina tinha sido outorgada ao estado judaico nessa resolução foi também considerado insatisfatório.

    A resposta sionista a esses desafios foi a de começar uma operação de limpeza étnica que expulsou metade da população da Palestina e demoliu metade de suas aldeias e a maioria de suas cidades. Uma insuficiente e tardia resposta pan-árabe não pode impedir a conquista pelos sionistas de 78 por centro dos territórios palestinos.

    No entanto, esse “sucesso” não resolveu o “problema palestino” para o estado de Israel recentemente fundado. À primeira vista, ele parecia administrável: a minoria palestina que permaneceu em Israel foi posta sob um brutal regime militar, ao passo que o mundo não parecia se importar ou questionar a pretensão de Israel de ser a única democracia do Oriente Médio. Além disso, a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) somente foi fundada em 1964 e demorou para afetar a realidade na região.

    Então, parecia que os líderes do mundo árabe, tais como Gamal Abdel Nasser, iriam vir em socorro dos palestinos. No entanto, esse momento histórico de esperança foi breve. A derrota do exército egípcio na guerra de junho de 1967 e seu sucesso parcial na guerra de outubro de 1973 diminuiu o compromisso oficial egípcio com a Palestina. Desde então, nenhum regime árabe teve um interesse genuíno no destino da Palestina, apesar do fato que ele tenha sido assumido totalmente pelas sociedades árabes.

    A guerra de junho de 1967 permitiu que Israel conquistasse toda a Palestina do Mandato, mas isso somente aprofundou o dilema que estava enfrentando como um estado colonial: mais espaço traz mais população nativa.

    A guerra também transformou a liderança central do estado judaico: o pragmático partido Laborista foi substituído pelos revisionistas  de direita que se preocupavam menos pela imagem externa de Israel. Ao contrário, eles estavam determinados a manter os territórios ocupados como parte do estado de Israel, ao mesmo tempo que continuavam a limpeza étnica por outros meios: por meio da transferência e do confinamento da população local em enclaves e destituindo-a de quaisquer direitos civis e humanos elementares, ao mesmo tempo em que institucionalizavam um novo marco jurídico para a minoria palestina dentro de Israel que perpetuava seus status de cidadãos de segunda categoria.

    A resistência palestina na forma de duas intifadas e protestos cívicos dentro de Israel não impediu o estado judaico de estabelecer no começo deste século um estado de apartheid judaico em toda a Palestina histórica. A resistência palestina – ignorada pelos países árabes e pelo resto do mundo – evocou as brutais e bárbaras ações israelenses que desgastaram o status moral de Israel no mundo.

    No entanto, a “guerra ao terror” após os ataques de 11 de Setembro e os frutos amargos da invasão anglo-americana do Iraque e da Primavera Árabe permitiram que Israel mantivesse suas alianças estratégicas com as elites políticas e econômicas no Ocidente e além dele (com a China e a Índia e inclusive com a Arábia Saudita).

    Esse ambíguo status internacional ainda não prejudicou a realidade econômica de Israel. É um país de alta tecnologia, com uma economia neoliberal que se deu bem na crise de 2008, mas que possui uma das mais altas desigualdade e polarização entre membros da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Essa realidade socioeconômica volátil gerou um movimento popular, mas bem ineficaz em 2011. No entanto, o potencial para outra onda de protesto ainda está presente, e pode ser deflagrado se houver outro levante palestino ou uma guerra devido às atuais políticas irresponsáveis do presidente dos EUA, Donald Trump, e do Primeiro-Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Ambos estão fazendo o seu melhor para arrastar Israel a uma guerra com o Irã e o Hezbollah.

    Da descolonização à paz


    Setenta anos depois do estabelecimento do estado, Israel se destaca com um estado racista, de apartheid, cuja opressão estrutural dos palestinos se mantém como o principal obstáculo para a paz e a reconciliação.

    Israel teve muito sucesso ao fundir comunidades judaicas de todo o mundo em uma nova cultura hebraica e estabelecer o mais forte exército na região. No entanto, todas essas conquistas não legitimaram o estado aos olhos de muitos ao redor do mundo.

    Paradoxalmente, são somente os palestinos que poderiam dar legitimidade completa para esse estado ou aceitar como legítima a presença de milhões de colonos judeus ao buscar uma solução de um único estado.

    O processo de paz imitado e orquestrado pelos EUA desde 1967 ignorou completamente a questão da legitimidade de Israel e perspectiva palestina do conflito. Esse desprezo, junto com os esforços diplomáticos que não questionaram a ideologia sionista que conforma as atitudes da maioria dos judeus israelenses são as principais razões desse fracasso.

    Em 2018, não se pode mais falar de conflito árabe-israelense. Os regimes árabes estão dispostos a estabelecer relações estratégicas com Israel, apesar da objeção de seus cidadãos e, apesar de haver ainda um risco de uma guerra de Israel com o Irã, neste exato momento não parece que envolverá qualquer um dos estados árabes.

    A partir de nossa posição estratégica é também inútil falar do conflito palestino-israelense. A terminologia correta para descreve o atual estado dos acontecimentos é a contínua colonização israelense da Palestina histórica, ou como os palestinos a denominam – “al-Nakba al-Mustamera” (a Nakba permanente).

    Portanto, setenta anos depois, é preciso recorrer a um termo que pode parecer ultrapassado para descrever o que pode genuinamente trazer a paz e a reconciliação para Israel e a Palestina: descolonização. Como isso ocorrerá exatamente ainda está por se ver. Isso irá exigir em primeiro lugar uma posição sobre a estratégia política ou uma visão atualizada do projeto de libertação.

    Essa visão será apoiada por israelenses progressistas e pela comunidade internacional, que também terão que desempenhar seu papel. Eles precisam trabalhar para a criação de uma democracia para todos do Rio Jordão até o Mediterrâneo. Baseada na restituição dos direitos negados aos palestinos nos últimos 70 anos, em particular o direito de retorno dos refugiados

    Esse não é um plano para o curto prazo e irá exigir uma constante pressão sobre a sociedade israelense para renunciar aos seus privilégios e encarar a verdade de que esta é a única forma de atingir a paz e a reconciliação a um país internamente desgarrado

    Sobre o autor
    Ilan Pappe
    Ilan Pappe is the Director of European Center of Palestine Studies at the University of Exeter.

  • Palestina: aberta a embaixada dos EUA em Jerusalém e 55 palestinos pagaram com sua vida hoje

    Desde que começou a onda de protestos em Gaza no dia 30 de março, este é o maior massacre feito por atiradores de elite (Snipers) israelenses. Apenas nesta manhã, os snipers executaram pelo menos 55 manifestantes civis desarmados e feriram mais de duas mil pessoas, entre jornalistas, idosos e crianças. É um recorde de vítimas sem precedentes em Gaza em um único dia desde 2014.

    No dia 30 de março, conhecido como “Dia da Terra” (tradicional data de mobilizações palestinas), começou a Grande Marcha Pelo Retorno: uma manifestação de seis semanas com pico às sextas-feiras, que reivindica o direito dos palestinos retornarem a suas casas, da onde têm sido expulsos pela ocupação israelense há 70 anos. Nestas semanas, a mobilização foi centrada em Gaza e hoje começaram a entrar os palestinos de Jerusalém e da Cisjordânia. A Grande Marcha está planejada para acabar nesta terça-feira (15/5), data na qual que se marca os 70 anos da criação do Estado de Israel e a catástrofe palestina (Nakba).

    O massacre ocorre no mesmo dia da mudança da embaixada norte-americana para Jerusalém, uma promessa de Donald Trump ao governo Israelense. E poucos dias depois do Estado Israelense destinar aproximadamente 700 milhões de dólares para ocupar e colonizar o Leste de Jerusalém.

    Entre tantos absurdos do dia, um fato chamou muito a atenção. Embora todo o discurso na abertura da embaixada seja feito em nome da justiça contra os preconceitos e violações sofridas pelos judeus (como por exemplo por Hitler), quem fez a oração no ato de inauguração da embaixada foi um proeminente líder batista chamado Robert Jeffress. Ele é conhecido por ser um intolerante religioso e entre suas pérolas já afirmou que ele acredita que “os judeus estão destinados ao inferno”. Não satisfeito, o pastor batista ainda preferiu ofensas aos mórmons, hindus e budistas, chegando a afirmar que “o Islã é uma religião que promove a pedofilia e o sexo com crianças”.

    Imagem: AP

    A brutal ofensiva israelense contra o povo palestino vem se intensificando desde que Trump assumiu o governo e declarou a mudança da embaixada para Jerusalém. A mudança da embaixada no dia anterior aos 70 anos da criação do Estado de Israel busca enviar uma mensagem clara aos povos do mundo árabe: a aliança EUA-Israel está mais forte do que nunca e o compromisso de preservar os mais ínfimos direitos dos cidadãos palestinos está descartado. É um cheque em branco para o massacre que Israel vem realizando.

    Foto: Adel Hana/AP

    Saiba mais:

    A declaração de Trump: Novo incêndio no Oriente Médio?

    Jerusalém: Uma limpeza étnica para dispersar os palestinos da cidade

    Declaração do BDS da Palestina no dia da Nakba

    Palestina: professor Ilan Pappe e a iniciativa comum por um só estado democrático

  • Más argumentos, menos provocaciones

    11 de mayo de 2018

     

    El #MAIS dejó de existir el 28 de abril y con inmensa alegría nos fusionamos a NOS para conformar la Resistencia. A pesar de eso, la organización ya extinta fue citada 11 veces en un texto de polémica reciente. El título del artículo de Mariucha Fontana, del PSTU, se refiere explícitamente a Valério Arcary y busca explicar las “verdaderas razones” por las que él criticó a ese partido.

    La polémica es absolutamente normal dentro de la izquierda, pero para ser de buena calidad, es bueno que sea guiada por argumentos y no por la obsesión en deconstruir la trayectoria militante del oponente. Debemos superar esta lógica. Somos todos mejores que eso.

    El Brasil cambió

    Brasil pasó por 13 años de gobiernos de colaboración de clases que la tradición política que reivindico denomina como un gobierno de Frente Popular. Este hecho de enorme importancia para la lucha de clases dividió el movimiento de los trabajadores, los sindicatos, movimientos y partidos políticos. Se estableció un divisor de aguas entre aquellos que fueron a administrar el Estado brasileño y otros que mantuvieron sus posiciones junto a la lucha de los trabajadores, enfrentando, inclusive, ataques de los gobiernos petistas. Siempre un marxista da mucha importancia a la lucha contra el gobierno de turno, contra el partido que en aquel momento administra los negocios de la burguesía.

    Recuerdo que por muchos años una parte de la izquierda ignoraba este hecho y, en el intento de colaborar con el  gobierno del PT, concentraba su agitación política en denuncias contra Fernando Henrique Cardoso. Sí. No hay futuro sin historia. En los buenos momentos de los gobiernos del PT, donde quedaban cargos y “favores”, es bueno recordar dónde estaba Valerio Arcary. ¿Quién no recuerda las polémicas duras hechas con el PT? Numerosos artículos, incontables debates públicos.

    No es razonable ofrecer como “verdadera explicación” a las posiciones políticas hoy defendidas por Valério que, después de pasar 13 años haciendo oposición de izquierda, ahora decidió “subir a un vagón del tren del campo de colaboración de clases de Lula, sucumbiendo a presiones electorales, de los aparatos burocráticos y de medios intelectuales pequeñoburgueses”. Además de extremadamente irrespetuoso, este ataque no presenta ningún argumento. Solo obedece a la lógica de separar personas y organizaciones entre aquellos que son verdaderamente revolucionarios (o en otras palabras, con los que estoy de acuerdo) y aquellos que son traidores y oportunistas (con los que estoy en desacuerdo).

    Es necesario decir: Brasil ha cambiado. El PT no gobierna más. Hoy, una parte de la izquierda socialista parece sufrir del mismo mal que le sucedió a aquellos que concentraban su denuncia en FHC cuando quien gobernaba era el PT. Pero hoy ha habido un golpe parlamentario y hay un nuevo gobierno, producto de este golpe.

    Una de los recursos del texto es usar una cita de Valerio sobre 2013. El Brasil de 2013 no tiene nada que ver con el Brasil de hoy. Las Jornadas de Junio ​​fueron un proceso muy progresivo, se enfrentaron contra todos los gobiernos; trajeron a la luz demandas importantes como transporte, salud, educación, derechos; movilizaron una base social joven y trabajadora. Las movilizaciones de 2015 significaron lo opuesto en los tres criterios, tenían una dirección de derecha, por lo que se enfrentaban solo contra el PT; empuñaban banderas reaccionarias tanto en la política como en las costumbres; llevaron a las calles una base social de clase media alta, esencialmente blanca y con fuerte instinto antipopular.

    No hay continuidad. El PT está en la oposición, recupera peso y prestigio en una parte importante del activismo. Lula está preso, Bolsonaro tiene apoyo activo dentro de la clase trabajadora, 71 militares deberán disputar de forma organizada las elecciones de 2018. Se aprobaron retrocesos históricos contra los derechos de la clase trabajadora y del pueblo pobre. Las conquistas de la Constitución de 1988 fueron destruidas con la Enmienda Constitucional 55, y también derechos laborales básicos que estaban en la CLT desde 1943 fueron despedazados por la Ley 13.467. El Brasil cambió, la política ya no puede seguir siendo la misma.

    El divisor de aguas ahora es otro. La derecha creció, movilizó una expresiva base social de clase media, la extrema derecha ganó prestigio, se instaló en el país, una crisis de régimen por la derecha, instituciones como la Policía Federal, el Poder Judicial y las Fuerzas Armadas ganaron fuerza. En el afán de no capitular al gobierno depuesto, el PSTU terminó capitulando a la burguesía tradicional.

    Valério estuvo contra el PT durante sus gobiernos, cuando muchos querían cargos y prestigio. Y él también estuvo en el acto del Circo Volador y luego en la puerta de los Sindicato de los Metalúrgicos del ABC, cuando el Poder Judicial y la PF ejecutaron una orden de arresto contra Lula. Lo que nos guió fue la brújula de clase. Lo que cambió radicalmente fue la realidad política nacional. Los enemigos de nuestros enemigos no son nuestros amigos.

    El PSTU también cambió

    La Convergencia Socialista, que atrajo la simpatía de miles de activistas en la década de 1980, un ejemplo de flexibilidad táctica y firmeza en los principios para el movimiento trotskista, ya no tiene nada que ver con lo que es hoy el PSTU. El partido que compuso el Frente de Izquierda con PSOL y PCB en 2006, compuso varias Frentes Estatales en 2012 y 2014, buscando el diálogo con un importante sector de la clase trabajadora, ya no guarda ninguna semejanza con una campaña cuyo centro es convocar a una rebelión. La organización que luchó para elegir parlamentarios revolucionarios en Río de Janeiro, Natal, Belém, Minas Gerais y Porto Alegre nada tiene que ver con el completo desprecio por la actividad institucional. El PSTU pasó por una profunda revisión programática, lo que es legítimo. Lo honesto, sin embargo, es que sea abiertamente reconocido.

    La línea del “Fuera Todos”, aplicada en 2006 y abiertamente criticada, volvió con fuerza en el 2015 y se elevó a la categoría de programa, ya que hace tres años ininterrumpidos esta consigna es utilizada. Las mediaciones fueron sustituidas por el ultimatismo, los matices ya no son admitidos. La política es siempre la agitación de la estrategia final.

    En el movimiento de los trabajadores también es perceptible el cambio. En el 2007, el PSTU participó en un encuentro nacional con PCdoB y MST. Hoy se niega incluso a participar del tradicional Primero de mayo en la Praça da Sé.

    La virtud convertida en defecto

    En el artículo, me llamó la atención en particular la utilización de una intervención de Valerio en 2010, defendiendo la candidatura propia del PSTU, para sostener la visión de que él renegó de su propia historia. ¿Qué se espera de un intelectual militante de un partido político trotskista? ¿Que defiende sólo lo que tiene acuerdo? ¿Que utilice su posición de notoriedad para militar solo? Aprendimos exactamente lo opuesto. Tener conciencia de nuestro pequeño tamaño frente a la grandeza del proyecto socialista nos hace estar seguros de que no nos bastamos. Vivimos tiempos de individualismo exacerbado y por eso construir un colectivo, tener la conciencia de que muchas veces es mejor errar juntos que acertar solo, son valores fundamentales para nosotros.

    Valério discrepó muchas veces, pero rompió apenas una vez, cuando las circunstancias de la lucha de clases y de la lucha interna tornaron las divergencias irreconciliables. Esta postura es para nosotros un ejemplo, porque en nuestra esencia, somos constructores del colectivo y no rupturistas crónicos.

    Hagamos del embate de argumentos algo productivo, hasta para que el tiempo nos permita evaluar de acuerdo con el desarrollo de la realidad qué apreciaciones se han demostrado más correctas.

    Imagen: Blue, 1925, Kandinsky

     

     

  • Manuela Castañera: ‘A luta das mulheres vai conquistar o aborto legal na Argentina’

    Conversamos com Manuela Castañera sobre o avanço da discussão acerca da legalização do aborto na Argentina. Ela é socióloga, professora e líder do Novo MAS, um partido da esquerda radical Argentina, e do coletivo feminista Las Rojas (“As vermelhas”). Foi pré-candidata a deputada federal pela Esquerda à Frente pelo Socialismo, em 2017, tendo recebido mais de cem mil votos* na província de Buenos Aires. Castañeira afirma que dia 03 de junho, aniversário da mobilização por #NiUnaMenos, será um dia de reunir centenas de milhares em Buenos Aires pelo direito ao aborto legal, seguro e gratuito. Confira na entrevista exclusiva para o Esquerda Online.

    Esquerda Online: Olá Manuela, obrigado pela disponibilidade para esta entrevista. Recentemente, a luta das mulheres e dos movimentos sociais pelo direito ao aborto virou um tema de impacto nacional. Conte aos leitores brasileiros porque isso ocorreu. O que está acontecendo na Argentina?

    Manuela Castañera: O que está acontecendo na Argentina é algo que também se vê no mundo, mas aqui com mais força: o movimento de mulheres se põe de pé. Nos últimos anos, com as mobilizações por #NiUnaMenos (Nenhuma mulher a menos, luta contra o feminicídio), os encontros nacionais de mulher (um evento anual auto organizado pelas bases muito importante), a luta por aborto em casos de estupro, e sobretudo uma nova geração de jovens que questiona o lugar da mulher na sociedade, se produziu um movimento de mulheres muito forte.

    Isto se combinou com uma questão que ocorreu no país que foram as jornadas de 14 e 18 de dezembro do ano passado onde o povo trabalhador se mobilizou contra o ajuste do governo abrindo uma crise política no país – que agora está tendo seu correlato em uma crise econômica.

    Então o Governo Macri se viu obrigado a conceder algo. Em síntese, creio que o enorme movimento de mulheres obrigou o governo a abrir o debate. Um governo que está contra o direito ao aborto no hospital, que é um governo reacionário.

    EOL: Sim. E como o governo fez para abrir o debate? O que ele fez? 

    Manuela: O movimento de mulheres vem apresentando o projeto de lei por sua conta faz mais de 10 anos. Já apresentamos 7 vezes e sempre foi barrado até mesmo a discussão. O que mudou desta vez foi que o governo facilitou o debate no Parlamento. Essa era uma reivindicação muita sentida porque o governo anterior de Cristina Kirchner, uma mulher presidenta, jamais havia deixado que o projeto de lei entrasse em pauta.

    Hoje se está discutindo nas comissões a possibilidade de que se trate do tema na Câmara dos Deputados em Junho. O fato de que se abriu a discussão não garante que vão votar a favor. Se o movimento não segue nas ruas protestando e reivindicando, eles não vão votar.

    EOL: Sim, tu citou antes e eu queria saber: tu enxerga alguma relação entre a luta pelo direito ao aborto e as históricas mobilizações por #NiUnaMenos na Argentina?

    Manuela: Plena relação. Agora se está preparando a mobilização para o próximo 3 de junho (aniversário da mobilização por #NiUnaMenos) e estamos discutindo que a reivindicação central seja “NiUnaMenos por aborto clandestino. Aborto legal já!”. No 8 de março do ano passado, dia internacional da mulher trabalhadora, fomos quase meio milhão de mulheres somente em Buenos Aires, capital do país, marchando pelo aborto legal e contra a violência às mulheres.

    EOL: Por que é importante legalizar o aborto na Argentina?

    Manuela: O que estamos pedindo é aborto legal, seguro e gratuito. Porque é uma questão de saúde pública. É a primeira causa de morte de mulheres com idade fértil. Em nosso país, se faz um aborto em condições clandestinas e insalubres para cada nascimento.

    E porque acreditamos que nós mulheres temos direito a decidir sobre nossos corpos, que é decidir sobre nossas vidas, nossos sonhos e nosso futuro. Tudo isso está em jogo e muito mais quando lutamos por aborto legal no hospital.

    EOL: E agora, quais são os próximos passos dessa luta? Tu havia citado o 3 de junho.

    Manuela: No próximo 28 de maio que é o dia internacional da saúde da mulher faremos ações em todo o país. Mas estamos preparando para fazer uma mobilização de centenas de milhares na Capital Federal pelo aborto legal no próximo 3 de junho.

    EOL: Há uma data para votar no congresso?

    Manuela: Não. Há rumores de que talvez se vote em uma das duas câmaras do congresso em junho. Mas na outra Câmara não tem nem data. O governo abriu o debate, mas está contra este direito. E fazem manobras com o movimento de mulheres. Mas vai ser difícil pararem esta força. Abriram uma “Caixa de Pandora” e agora nós mulheres não vamos simplesmente nos conformar com o debate: queremos nosso direito!

    EOL: Muitas mulheres e movimentos sociais olham com esperança o que está passando na Argentina. Se o direito ao aborto for aprovado aí, será um exemplo enorme pra ampliar a luta aqui e pressionar pelo direito ao aborto legal aqui no Brasil. Tu imagina algo que se possa fazer para se somar à campanha? Há algum dia e ou articulação internacional desta luta?

    Manuela: Sim, creio que ajudaria a todas as mulheres latino americanas caso se aprove este direito na Argentina. Creio que o movimento de mulheres é um dos principais movimentos sociais a nível internacional e que conta com muitos laços de coordenação. Como por exemplo no 8M do ano passado em que se viu como nos mobilizamos no mundo inteiro. Ou agora por Marielle, que na Argentina também nos somamos ao grito de Justiça por Marielle! Mulher, negra, favelada e militante de esquerda.

    Tem que se avançar por este caminho e também em laços de coordenação entre os agrupamentos de mulheres dos nossos países. Para isso nós apostamos em Las Rojas, coletivo de mulheres feministas e socialistas, que constituímos em vários países.


    * O sistema eleitoral argentino é diferente do brasileiro. É feita através de um sistema de prévias chamado PASO: primárias abertas simultâneas obrigatórias. Segundo Renato Fernandes explica em matéria para este portal, “O objetivo inicial das PASO era o de criar uma ‘cláusula de barreira’ para impedir a participação dos pequenos partidos nas eleições e americanizar a disputa política. Ou seja, pretendiam reduzir o número de listas e de partidos competidores, principalmente com os da esquerda socialista radical e concentrar as disputas nos grandes partidos. Para que uma lista possa participar nas eleições é necessário que ela alcance 1,5% nessas primárias”. Manuela Castañera participou das PASO recebendo mais de 100 mil votos na província de Buenos Aires. Infelizmente, faltaram cerca de 30.000 votos para furar o sistema eleitoral restritivo argentino e participar das eleições.

    Save

    Save

    Save

    Save

    Save

    Save

    Save