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  • Atentado na Somália deixa mais de 300 mortos e de 350 feridos

    Por: Jéssica Milaré, colunista do Esquerda Online

    Dois caminhões-bomba explodiram no centro de Mogadíscio, capital da Somália, na tarde deste sábado, dia 14 de outubro. Até ontem à noite, foram contabilizadas 300 pessoas mortas e pelo menos outras 350 ficaram feridas.

    O primeiro caminhão explodiu numa esquina muito movimentada, ao lado de um caminhão de combustível, que potencializou a explosão, atingindo quarteirões inteiros, incluindo hotéis, embaixadas, prédios do governo, dezenas de veículos e a embaixada do Catar. O segundo explodiu em um mercado, deixando centenas de pessoas feridas.

    É possível que o atentado esteja ligado à guerra civil que assola o país há 20 anos. O governo e a imprensa local afirmam que o ataque foi realizado pela milícia jihadista Al Shabab, a principal oposição do governo na guerra. Entretanto, até agora, nenhum grupo assumiu autoria do ataque.

    Os feridos lotaram os hospitais, que ficaram sem remédios para atender a todos. Cerca de 70 pessoas feridas foram levadas para serem atendidas na Turquia.

    Nenhuma intervenção militar imperialista na Somália
    Diante da situação, a União Europeia pediu ao governo somali que tenha unidade na luta contra o terrorismo. Os Estados Unidos ofereceram-se para “ajudar” a Somália na luta contra os responsáveis pelo atentado. Outros países, como a França e a Grã-Bretanha, também manifestaram apoio.

    Uma intervenção militar dos países imperialistas não seria em benefício do povo somali. Muito pelo contrário, serviria para reprimir e oprimir o país. Não podemos nos esquecer que, até a segunda metade do século passado, a maioria dos países da África eram colonizados por países europeus. Somos contra o aprofundamento da relação de dominação política e militar da União Europeia e dos EUA sobre os países da África, da Ásia e da América Latina.

    Se os EUA e alguns países europeus quisessem mesmo ajudar, então já teriam ajudado há muito tempo, com seus vastos recursos, a acabar com a miséria e a pobreza na África. Este ano, o governo Trump aumentou o orçamento militares dos EUA em US$ 54 bilhões, totalizando US$ 596 bilhões. Destes, US$ 7,5 bilhões são destinados à luta contra o “terrorismo”, em particular o Estado Islâmico. Esse dinheiro é maior que o PIB da Somália, que é de US$ 6,2. Sem dúvida, os gastos militares dos EUA ajudariam muito mais na luta contra o “terrorismo” se fossem investidos em infraestrutura, alimentação, educação e saúde para esses povos.

    Solidariedade ao povo da Somália
    O PSOL reproduziu a seguinte nota de solidariedade à Somália, com a qual temos pleno acordo:

    “O Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) presta a sua solidariedade ao povo da Somália, país localizado no Nordeste Africano, cuja população sofreu, no último sábado (14/10), um massivo ataque, considerado o mais violento nos últimos dez anos. Pelo menos 276 pessoas foram mortas na capital Mogadíscio. Outras 300 pessoas ficaram feridas, depois que dois caminhões repletos de explosivos foram detonados próximo a um hotel. A maioria das vítimas é de civis.

    É o ataque mais mortal na Somália desde que o grupo islâmico al-Shabab iniciou sua ofensiva, em 2007. Embora ainda não tenha sido confirmada a autoria do atentado, há fortes suspeitas de que o grupo seja o responsável, já que Mogadíscio é alvo da milícia jihadista que assola a região com constantes ataques.

    Além de nos solidarizarmos com o povo somali, também repudiamos a ação, que em nome do fundamentalismo religioso, ameaça a vida de milhares de pessoas daquele país. Também repudiamos a cobertura da imprensa brasileira, que quase nada tem falado a respeito do atentado, como se a vida daquele povo não tivesse importância.

    16 de outubro de 2017

    Executiva Nacional do PSOL”

    Foto: Local do atentado com caminhão-bomba que deixou mais de 200 mortos na Somália MOHAMED ABDIWAHAB (AFP)

  • Cem anos depois: Quem são, hoje, os adversários de 1917?

    Por Felipe Demier, Professor da UERJ e militante da NOS

    Uma anedota sobre a antiga União Soviética dizia que nos livros de história do país o futuro era certo, e o passado, imprevisível. De Stálin a Gorbachev, a cada cúpula burocrática que ascendia ao poder a historiografia oficial via-se impelida a realizar novas alterações nos tempos pretéritos, mudando não só a interpretação de certos fatos, como inserindo novos personagens e apagando outros. A sarcástica anedota encontra um paralelo científico em certa advertência feita por historiadores marxistas contemporâneos que, argutamente, nos lembraram de que a história feita pelos pesquisadores é sempre a história do tempo presente, isto é, que as análises do passado não são desvinculadas dos projetos societários abraçados por aqueles que as fazem. Tanto a anedota soviética quanto a advertência científica parecem perfeitamente apropriadas aos debates ocorridos quando de importantes efemérides, nos quais historiadores, cientistas sociais, jornalistas e intelectuais se enfrentam tanto no passado, quanto no presente. Argumentos são esgrimidos e atraentes polêmicas são travadas. Ao que tudo indica, este é o caso do presente centenário da Revolução Russa de outubro de 1917.

    Quando a Revolução Francesa completou seu bicentenário, em 1989, o historiador britânico Eric Hobsbawn percebeu como as polêmicas que então se davam sobre o tema permitiam dividir seus participantes em dois campos: os defensores e os adversários da Grande Revolução. Naquela ocasião – destacou Hobsbawn –, em função do avanço do neoliberalismo, pareciam predominar no mainstream acadêmico, jornalístico e político os participantes do segundo campo. Atualmente, o mesmo parece já ocorrer com o centenário soviético, quando os adversários hodiernos da Revolução Russa vêm obtendo, claro, mais espaço e público para suas diatribes dirigidas à primeira experiência vitoriosa de uma revolução realizada por trabalhadores e trabalhadoras. Embalados pela Onda Conservadora, os amantes mais ou menos declarados da reacionária ordem atual se esforçam para deslegitimar os feitos de Outubro de 1917, tratando-os, todos, como expressões de um terrorismo despropositado desencadeado por massas manipuladas por dirigentes sanguinários ávidos por edificar e preservar um poder despótico.

    Nesse raciocínio, os adversários contemporâneos de Outubro parecem apenas reeditar o esquema analítico dos adversários neoliberais da revolução francesa quando de seu mencionado bicentenário, substituindo apenas os personagens da trama: se o “ignorante” proletariado de São Petersburgo assume o papel dos “raivosos” sans-culottes parisienses, o “criminoso” partido bolchevique toma o lugar do “terrorista” clube jacobino e, óbvio, os tiranos Lênin, Trotsky, Sverdlov e demais artífices da tomada do Palácio de Inverno substituem os “irascíveis” Robespierre, Danton, Marrat e cia. Segundo seus atuais detratores, a Revolução Russa não teria sido senão a consumação de um projeto totalitário, gestado, pelo menos, desde 1903 pelos bolcheviques, ao passo que Lenin não passaria de um antecessor – e mesmo um preparador político – de Stálin na sucessão de um regime despótico iniciado com a queda do Governo Provisório de Kerensky.

    O que vertebra, portanto, a argumentação dos atuais adversários de Outubro é a tese de que o estalinismo seria uma simples continuidade linear do leninismo, cuja essência seria um projeto político de corte totalitário que acabou por se estabelecer em face de massas populares atrasadas, analfabetas e impotentes. Durante um bom tempo, no espírito da “guerra fria”, a historiografia e ciência política liberais, em especial as de influência norte-americanas, trabalhavam com a noção de um “povo russo” (incluindo aí as outras nacionalidades não russas que integravam a extinta União Soviética) subjugado por uma ditadura totalitária implantada por Lênin e Trotsky, e simplesmente continuada por Stalin e seus sucessores. De uns anos pra cá, antenados com a perspectiva revisionista que impregna boa parte das pesquisas históricas – e que já havia se apresentado com força quando do bicentenário da Revolução Francesa, como notou Hobsbawn –, uma certa corrente historiográfica, também de matiz liberal, passou a afirmar que o próprio “povo russo” nutriria secularmente uma concepção autoritária acerca das relações sociais e políticas (uma “cultura política autoritária”), e, nesse sentido, teria tido na ditadura inaugurada em 1917 uma expressão estatal compatível com sua subjetividade e anseios políticos. Para tal corrente interpretativa de Outubro, não só Stalin teria sido um legítimo sucessor e continuador de Lênin, como este último, por sua vez, teria – após um breve interregno entre fevereiro e outubro de 1917 – sucedido a dinastia dos Romanov enquanto representante político de uma “sociedade autoritária”.

    Destaquemos aqui, brevemente, dois aspectos que estruturam as narrativas produzidas por este grande campo liberal dos intérpretes de Outubro, isto é, destes adversários, no passado e no presente, da Revolução Russa.

    O primeiro deles é que não é difícil notar em suas perspectivas analíticas o culto à democracia liberal como a forma plena e perfeita de organização política da espécie humana, o que leva a uma virulenta condenação dos bolcheviques, e mesmo do “povo russo”, no caso dos revisionistas, por terem dela se afastado. A essa dimensão idealista, soma-se um indisfarçável anacronismo. Não só a democracia representativa – com todos os seus inexpugnáveis ingredientes repressivos contra o movimento operário, não custa lembrar – só existia, quando da Revolução de Outubro, em algumas poucas nações originárias do capitalismo industrial (com destaque para Inglaterra, França e Estados Unidos), como o desenvolvimento desigual e combinado da industrialização na atrasada formação histórico-social russa não permitia que um regime democrático-liberal aparecesse como uma opção exequível no cardápio político do país. Esta impossibilidade democrático-liberal, por assim dizer, ficou evidente em todo o comportamento da burguesia russa ao longo das duas primeiras décadas do século XX. Sem jamais ter desafiado seriamente o absolutismo czarista empunhando um programa democrático, nem mesmo tendo buscado qualquer tipo de aproximação com as ingentes massas camponesas ou mesmo com a numericamente reduzida, porém socialmente concentrada, classe operária do país, a burguesia liberal russa foi conduzida ao poder em fevereiro de 1917 por meio de uma revolução popular na qual ela não tomou parte. De porte do leme do Estado, não ousou, até ser deposta por uma insurreição operária meses depois, tomar nenhuma só medida de cunho democrático. O Governo Provisório não foi capaz de alterar em um milímetro a nobiliárquica estrutura agrária do país, não atendeu às reivindicações por direitos sociais dos trabalhadores fabris, não garantiu nenhum direito às nacionalidades oprimidas pelo império czarista, protelou ao máximo as eleições para uma assembleia constituinte e, por fim, não ousou retirar o país de uma guerra a qual, interessante apenas para as burguesias imperialistas do Ocidente, lhe custava milhões de vidas camponesas no front, acirrava a fome no campo e intensificava a carestia nas cidades. Não satisfeita em nada fazer para edificar um regime democrático-liberal, tal como preconizado pelos mencheviques (e mesmo pelos “velhos bolcheviques” – como Zinoviev, Kamenev e Stalin – até a chegada de Lênin em abril), a burguesia russa conspirou incessantemente para derrubar a possibilidade de sua construção. O apoio da maioria da burguesia russa e seus partidos ao levante de Kornilov deixou evidente que a classe dominante do país buscava não só derrubar o seu próprio Governo Provisório (por demais “democrático” e permeável à presença de lideranças advindas de partidos ligados aos trabalhadores), como desejava substituí-lo por uma ditadura militar restauracionista.

    Desse modo, não seria equivocado dizer que os liberais historiadores de hoje são os únicos que, retrospectivamente, desejam verdadeiramente que houvesse tido uma democracia liberal na Rússia de 1917, ao passo que os liberais de ontem, mais realistas, sabiam muito bem que só uma cruenta ditadura poderia lhes salvar a pele e a propriedade. O desejo dos historiadores liberais de hoje por um regime democrático-liberal na Rússia de cem anos atrás diz mais sobre o seu apego a nossa insípida democracia representativa do século XXI, cada vez mais blindada às aspirações populares, do que propriamente sobre a possibilidade real de sua implantação na sociedade russa do início do século XX. Tomando a revolução como um terrível e lamentável acidente dentro de um inelutável curso “democrático-liberal” dos povos, os analistas liberais do passado não intentam mais do que fechar as portas da história a ela no futuro. Seus verbos estão no pretérito, mas suas armas, no presente.

    O segundo aspecto a ser destacado referente a estas tendências historiográficas hostis a Outubro é sua junção proposital entre dois momentos, duas fases distintas do processo aberto com a tomada do poder pelos bolcheviques, o que se verifica na já mencionada concepção liberal de que o stalinismo não teria sido senão uma evolução natural do leninismo. Muitos argumentos poderiam ser utilizados para refurtar tal assertiva, e desde há muito tempo as pesquisas históricas disponibilizam dados à porfia que evidenciam profundas diferenças, em vários níveis da vida social e política, entre os períodos anterior e posterior a 1928, quando já se pode falar em uma consolidação do estalinismo na União Soviética. O aumento significativo da diferença salarial, a reaparição da prostituição, o desrespeito à autonomia das nacionalidades não russas, o crescimento exponencial de uma casta burocrática privilegiada e a proibição a qualquer tipo de divergência política no interior do partido bolchevique são alguns dos muitos elementos que, já nos anos 1930, expressavam as profundas mudanças ocorridas no tecido social soviético em função das opções políticas e econômicas da camarilha estalinista que se assenhoreou do poder após a morte de Lênin, em 1924. No entanto, para refutar a tese liberal em tela bastaria assinalar o fato de que, sob ordens de Stalin, milhares de revolucionários do período 1917-1924, entre eles praticamente todos os componentes do comitê central presidido por Lênin quando da Revolução de Outubro, foram presos, enviados a campos de trabalho forçado e fuzilados. Na sede da tenebrosa Lubianka, muitos dos íntimos colaboradores de Lênin foram barbaramente torturados para, com suas famílias feitas reféns, confessar crimes inexistentes e depois assassinados impudentemente. Assim, falta aos adeptos da tese da continuidade Lênin-Stalin explicar por que o último, um “mero continuador”, teve que eliminar fisicamente praticamente todos os aliados do primeiro, “seu mestre”.

    Buscando contornar essa incontornável objeção, muitos dos intérpretes liberais de Outubro se refugiam na afirmação de que, sob o comando de Lênin e Trotsky, o aparelho repressivo também vitimou milhares de pessoas. Tratando abstratamente a violência, esses intérpretes perdem de vista o conteúdo histórico social da repressão da qual lançou mão o jovem regime revolucionário, imerso em uma guerra civil resultante da ofensiva militar desencadeada pelos adeptos da velha ordem aliados a exércitos de mais de uma dezena de nações capitalistas que invadiram o país. Salvo condenáveis exceções (como o crasso erro em Kronstad), foi contra estas forças militares contrarrevolucionárias que os bolcheviques de Lenin e Trotsky dirigiram suas armas, e não contra os próprios revolucionários, como faria posteriormente Stalin. Tentar igualar historicamente ambas as repressões por serem ambas repressivas é tão despropositado como querer igualar – para lembrarmos mais uma vez o caso francês – Robespierre tanto aos girondinos do Diretório, quanto a Luís XVI e sua entourage absolutista, pelo simples fato de que todos eles deceparam a cabeça de seus inimigos. Convém lembrar, ainda, que, diferentemente do incorruptível chefe jacobino, Lênin e Trotsky não executaram nenhum só dos seus Dantons.

    Por fim, ao igualar Lênin a Stalin, o que fazem os intérpretes liberais de Outubro é, simplesmente, igualar a revolução à contrarrevolução. Nesse ponto, aliás, convergem inteiramente com os decrépitos estalinistas do presente. Tanto uns quanto outros maculam a revolução em sua história, fazendo-a assumir os crimes dos seus corrosivos inimigos internos do passado. Com isso, sejam eles críticos ou apologetas do Outubro centenário, não passam, no presente, de irreconciliáveis inimigos daqueles que não suportam esperar mais cem anos para outra revolução socialista.

    Imagem: Capa do livro 100 anos depois: A revolução russa de 1917 organizado por Felipe Demier e Márcio Lauria Monteiro. Lançamento dia 25 de outubro, na livraria blooks ( Praia de Botafogo, 316 no Rio de Janeiro) às 19 horas.

  • Chavismo vence as eleições regionais na Venezuela. E agora?

    Por Paulo Aguena “Catatau”, de São Paulo, SP

    No domingo, 15 de outubro, ocorreram eleições para governadores nos 23 estados venezuelanos, menos o Distrito Capital. O chavismo e o Polo patriótico – uma frente que além do PSUV está o PCV, PPT, etc. –   venceram em 18 estados, obtendo 54% dos votos. A MUD, uma frente opositora de direita, venceu em 5 estados, totalizando 45% dos votos. A polarização foi imensa. Todas as demais alternativas, à esquerda e à direita, tiveram juntas, quando muito, 2% dos votos.

    O chavismo ganhou nos três estados governados pela oposição, mas perdeu em cinco em que governava. A derrota que o oficialismo sofreu em Zulia e Táchira, estados fronteiriços com Colômbia, foi grave. Mas tiraram das mãos da direita o estado de Miranda – governado por Capriles, líder simbólico da oposição – e Lara. Além disso, derrotou a oposição em seu maior bastião, Carabobo.

    Com 11 milhões de votantes, a abstenção foi de 39%. Embora alta, foi a menor de todas as quatro eleições para governadores realizadas sob o chavismo. Esse quadro configura uma derrota da MUD e de Trump. Trata-se também de uma importante recuperação do chavismo, quando há um ano a previsão era que ganharia em apenas 5 dos 23 estados.

     

    O que ocorreu?

    O resultado eleitoral expressou a mudança na relação de forças após meses de uma brutal ofensiva da direita. O jogo virou a partir das eleições para a Assembleia Nacional Constituinte (ANC), realizadas em 30 de julho. Apesar do violento boicote da direita – locaute, paralisação dos transportes, cortes de vias através de barricadas (“guarimbas”), etc. -, o fato é que 8 milhões venezuelanos se mobilizaram para chegar às urnas e eleger seus representantes. A Constituinte foi instalada e as guarimbas, derrotadas. Dividida, à MUD só restou participar das atuais eleições regionais.

    Muitos analistas, tanto de esquerda quanto de direita, influenciados por fontes de informações das agências internacionais como a Reuters, EFE, etc., ficaram desconcertados diante do resultado. A alguns só resta fazer eco à costumeira campanha de uma parcela da oposição – dessa vez, sequer de toda – de que houve fraude. Não por acaso, os EUA já declararam uma vez mais que as eleições não foram “livres” nem “justas”.

    De fato, considerando o aumento do cerco imperialista, a brutal crise econômica que assola o país com uma hiperinflação que na semana anterior às eleições, bateu na casa de 1.500% anualizados; uma especulação cambial que na mesma semana elevou o dólar no paralelo sustentado desde Miami (dólar today) a 25 mil bolívares; considerando tudo isso, a mudança da relação de forças e a própria vitória do chavismo parece um milagre.

    Na verdade, são análises superficiais que subestimam a profundidade do processo revolucionário venezuelano. Ela tem suas raízes mais remotas e profundas na vitoriosa guerra da independência liderada por Simon Bolívar (1810-1823), na qual, diga-se de passagem, morreu metade da população. Elas se desenvolveram ao longo da história das lutas de classes no país, cujo último período esteve marcado pela rebelião popular de 89 (Caracazo), pela derrota do golpe da direita que tentou depor Chávez (2002) e, por fim, pela derrota do locaute patronal encabeçado pela antiga direção da PDVSA (2002-2003). Por isso, apesar das imensas dificuldades e sacrifícios, as massas operárias e populares, verdadeiros protagonistas desse processo, demonstraram uma vez mais que não estão dispostas a abrir mãos de suas conquistas e depositam sua esperança em encontrar uma saída socialista para crise.

    Encruzilhada

    Apesar de ainda gozar da confiança da maioria dos setores mais organizados e combativos da população, existe um enorme descontentamento das bases com os dirigentes chavistas. Não é à toa.

    O processo revolucionário permitiu que a Venezuela se tornasse um país politicamente muito mais independente do imperialismo. Entretanto, passados 19 anos, o chavismo não foi capaz de romper com o modelo econômico dependente da renda petrolífera. O país seguiu importando praticamente tudo, ao mesmo tempo em que uma nova burocracia estatal (boliburguesia) desvia uma parte da renda nacional em proveito próprio. Esse modelo pôde se sustentar enquanto o preço do petróleo estava em alta. A queda trouxe seu colapso.

    Existe o risco de que o triunfo do chavismo no último dia 15 se transforme em bebedeira eleitoral. Afinal, é a vigésima eleição que o chavismo vence nas 22 ocorridas desde que Chávez chegou ao poder há 19 anos. Mas agora a situação é diferente. Existe um esgotamento do modelo político e econômico chavista. O imperialismo sabe disso, por isso, sua ofensiva, a começar pela guerra econômica, tende a se intensificar. Não haverá paz. Assim, a verdade nua e crua é que o país se encontra numa encruzilhada: ou o processo revolucionário avança de forma decidida rumo ao socialismo ou será derrotado.

    O movimento operário e popular, que enfrenta de forma heroica a desesperadora guerra econômica, tem essa intuição. Por isso, exige que o governo abandone os discursos, puna os corruptos e adote urgentemente medidas radicais contra o capital e a direita. O governo e a Constituinte se encontram agora mais do que nunca sob essa justa pressão.  

    Um modelo verdadeiramente socialista

    A Constituinte é uma oportunidade quase única para tomar essas medidas, substituindo o modelo econômico capitalista dependente da renda petrolífera e das importações por um modelo verdadeiramente socialista. Para isso, ao invés de buscar o controle do mercado através de uma economia mista, o Estado deve concentrar em suas mãos os principais meios de produção e, sob a direção democrática dos trabalhadores, passar à planificação de toda a economia. Somente assim, se poderá construir um parque industrial que alavanque a produção nacional e estruturar uma produção agropecuária com o objetivo de alcançar a soberania alimentar.

    Avançar na expropriação das empresas, colocando-as sob controle dos trabalhadores; garantir uma PDVSA 100% estatal que coloque um fim às empresas mistas entre o Estado (51%) e capital estrangeiro (49%); suspender o pagamento da dívida externa e aplicar o montante como parte de um plano de investimentos maciços para reverter o processo de desindustrialização; avançar no controle dos preços através do controle da distribuição por parte do Estado; expropriar os grandes grupos atacadistas como medida de emergência para garantir a oferta de produtos; instituir o monopólio estatal do comércio exterior de forma a proteger os interesses do país e atender às necessidades dos trabalhadores; centralizar e estatizar o conjunto do sistema financeiro, adotando uma rígida política monetária e cambial; instaurar um Governo dos Trabalhadores por meio de um organismo que exerça as funções legislativas e executivas,  em âmbito nacional, estadual e local, a partir de representantes eleitos nos locais de trabalho e nos bairros. Eis alguns dos principais pontos programáticos colocados na ordem do dia para esquerda revolucionária defender junto à Assembleia Nacional Constituinte e às massas venezuelanas. A situação exige firmeza. Definitivamente, não se pode dar mais voltas.

    Foto: Guilherme imbassahy – jornalistas livres

    Mapa do resultado eleitoral

  • A Revolução que abalou o mundo (parte 1)

    Por Carlos Zacarias de Sena Júnior, Colunista do Esquerda Online – Publicado no jornal A tarde, em Salvador

    “Não foi coincidência que a greve mais importante da história mundial tenha começado com mulheres do setor têxtil em Petrogrado no Dia Internacional da Mulher de 1917 – 23 de fevereiro no antigo calendário juliano”, escreveu o historiador norte-americano Kevin Murphy, professor da Universidade de Massachusetts. Autor do magistral Revolution and counterrevolution: class struggle in a Moscow metal factory, ainda sem tradução no país, Murphy esteve no Rio em setembro para participar de um evento na universidade e para refletir sobre o centenário da Revolução que mudou o mundo, tema em que é dos principais especialistas na atualidade.

    A chamada Revolução de Fevereiro aconteceu quando da deflagração de greves que logo se generalizaram pelas principais cidades. Segundo Murphy, as mulheres russas trabalhavam 13 horas por dia, enquanto seus maridos e filhos estavam no front combatendo na guerra. Condenadas “a uma vida monótona e imutável, provendo suas famílias e esperando numa fila, durante horas, num frio abaixo de zero graus, na esperança de conseguir um pão”, as mulheres não precisavam de muito convencimento para se lançarem à luta. Desencadeada a partir do setor têxtil de Petrogrado, em poucos dias, a greve iniciada por algumas centenas de mulheres se alastrou e pôs regime tzarista nas cordas.

    A Revolução de Fevereiro foi, para a Rússia, aquilo que a Revolução de 1789 foi para os franceses, uma revolução tipicamente burguesa. A autocracia tzarista, sustentada num regime brutal e senil que perdurava por séculos, muito além do absolutismo no ocidente europeu, não teve como opor resistência. Não obstante, a disposição dos trabalhadores, que há apenas 12 anos tinham oferecido ao mundo um mecanismo de auto-organização e de duplo poder absolutamente eficaz, os sovietes, logo sugeriu que os protagonistas da revolução não pretendiam circunscreve-la ao horizonte burguês.

    Mergulhados numa crise econômica e social profunda, cujo pano de fundo era o abismo que dividia ricos e pobres, o brutal regime tzarista não resistiu. Depois de alguns dias, Nicolau II saiu da história pelas portas dos fundos, dando lugar a um governo constituído, em sua maioria, por Socialistas-Revolucionários e Cadetes e uma minoria de mencheviques.

    Do exílio na Suíça, Vladimir Ilitch Lenin, principal dirigente bolchevique, arrumou as malas para partir para Petrogrado. Antes de tomar o trem blindado com destino à Estação Finlândia, Lenin redigiu suas Cartas de longe, um poderoso manifesto em que colocava as suas impressões sobre os acontecimentos na Rússia e apontava as principais tarefas dos bolcheviques: “A primeira revolução gerada pela guerra mundial imperialista eclodiu. Esta primeira revolução não será, certamente, a última”, escreveu. Premonitório, Lenin partiu para a Rússia destinado a escrever uma das mais importantes páginas da história da humanidade.

  • Greve geral do funcionalismo público agita a França

     

    Por Renato Fernandes, Campinas/SP

     

    Manifestantes em Paris. Crédito AP.

     

     

    No último dia 10 de outubro, uma greve geral do funcionalismo público agitou a França. De acordo com a principal central sindical do país, a CGT, cerca de 400 mil funcionários se manifestaram em 130 cidades do país contra os ataques que o funcionalismo vem sofrendo. Foram trabalhadores da educação, da saúde, dos trens, dos aeroportos (30% dos voos cancelados), entre outras categorias que agitam a luta dos trabalhadores no país.

     

    Macron e a destruição dos serviços públicos na França

     

    Se há uma coisa que a União Europeia e o presidente Emmanuel Macron concordam é que o funcionalismo público é um gasto muito grande para a França. Atualmente são cerca de 5,4 milhões de funcionários públicos. Isso representa o maior contingente da Europa. Um dos ótimos resultados deste funcionalismo público é que a França tem um dos melhores serviços de saúde do mundo. Porém, em relação ao número de habitantes, atualmente a França tem 1 funcionário público para cada 82 mil habitantes, enquanto a média europeia em 2016 era de 1 funcionário público para cada 61 mil – só para uma comparação, países como a Grécia, que realizou diversos cortes no funcionalismo público, tem 1 funcionário para cada 33 mil, enquanto a Alemanha, o país mais rico do continente e que já executou um corte no funcionalismo na Agenda 2010, tem 1 para cada 59 mil. No Brasil, seguindo a tendência dos países dependentes, temos 1 um funcionário para cada 44 mil habitantes, segundo dados de 2014.

    Como os serviços públicos são considerados gastos e não investimentos, Macron tem um projeto de desmonte do funcionalismo: demissão de 120 mil funcionários em 5 anos, através da não reposição dos aposentados; a continuação do congelamento de salários: o último aumento ocorreu em 2016, após 6 anos de congelamento, porém em relação ao poder de compra, os funcionários públicos tiveram uma queda de 9% desde 2000, enquanto os dos setores privados tiveram uma alta de quase 17%; além de retirada de direitos trabalhistas que estão sendo atacados na reforma trabalhista que está sendo discutida neste momento no Legislativo.

    O objetivo de todas essas medidas é o de economizar para pagar a dívida pública francesa e, dessa forma, retomar os investimentos privados no país, que buscam taxas de lucro mais atrativas. Isso também faz parte de um acordo mais geral com Angela Merkel (primeira-ministra alemã): como apontam diversos analistas, a redução dos gastos do Estado francês e da diminuição do Estado, com a consequente piora dos serviços públicos e retirada dos direitos trabalhistas, é parte da negociação sobre o fortalecimento da União Europeia, principalmente para o debate de um orçamento europeu comum e também sobre a mutualização das dívidas por meio dos Eurobônus.

     

    A classe trabalhadora está mostrando o caminho

     

    Desde setembro, a classe trabalhadora francesa já demonstrou disposição para lutar. Foram duas greves gerais (12 e 21 de setembro). Uma grande manifestação política contra o “golpe de Estado social” (23 de setembro), além de grandes manifestações parciais com bloqueios de estradas, de refinarias, com aposentados, entre outras lutas. Centenas de milhares de trabalhadores se colocaram em movimento e rejeitam abertamente o projeto de sociedade neoliberal que defende Macron.

    Porém, as direções das centrais sindicais estão muito aquém dessa luta. A greve do funcionalismo público foi a primeira, desde 2007, convocada pelas 9 centrais que representam a categoria. Nas greves de setembro, apenas 3 centrais sindicais convocaram-nas. Essa unidade das centrais foi fundamental para o sucesso da mobilização dos funcionários públicos, porém é necessário ir além de um dia de greve. É preciso a unidade das centrais e também uma greve geral com mais impacto que realize a convergência das lutas para derrotar os projetos de Macron: combater os ataques ao funcionalismo, mas também a reforma trabalhista que foi aprovada como uma espécie de Medida Provisória e que deve ser votada em novembro.

    Ir além dos limites impostos pelas direções sindicais é uma das tarefas que a esquerda combativa e os ativistas sindicais devem tomar para si. Um bom exemplo foi a última plenária federativa da Force Ouvrière (FO), realizada no último 30 de setembro. A FO é a terceira maior central sindical do país, representando cerca de 15% dos sindicalizados. Contra a política do secretário geral, Jean-Claude Mailly, que se opôs a convocação da greve geral contra a reforma trabalhista, os dirigentes de base votaram uma resolução para uma “mobilização interprofissional antes da ratificação da reforma (prevista para novembro). Essa rebelião de base demonstra o caminho e a disposição que os diversos sindicalistas e trabalhadores tem para derrotar os projetos neoliberais de Macron.

  • OPINIÃO | A direita se levanta na Bolívia

    Por: Nericilda, de Fortaleza, CE

    10 de outubro na Bolívia. De longe, arrisco uma opinião sobre um país que vivi durante cinco anos e me apaixonei.

    O 10 de outubro foi marcado por gigantescas mobilizações nas nove capitais do país, convocadas e captalizadas pela direita.

    A exigência é para que Evo Morales não se postule ao quarto mandato, ou seja, que seja aplicado o resultado do referendo do 21F que disse NO a mais uma reeleição de Evo.

    A direita boliviana evidentemente surfa na onda conservadora para se reerguer. A esquerda, por outro lado, imersa na cooptação governista que caracterizou os chamados “governos progressistas”, não tem uma liderança/partido/organização à altura de fazer frente à direita. Aliás, aí reside o grande desserviço desses governos de colaboração de classes com a burguesia ou setores dela. E é por isso que a política leninista-trotskista de nenhum apoio a estes governos foi e segue sendo corretíssima.

    Apresentar uma saída de esquerda, uma frente que unifique toda a esquerda boliviana, com um programa firme de combate à direita, antiimperialista, de nacionalização do gás e das minas sob controle dos trabalhadores e do povo, é fundamental.

    Mas isso só será possível se a Central Obrera Boliviana (COB) e todos os movimentos sociais que ainda estão baixo as asas do MAS e do governo, rompam com eles e encabecem um pólo de esquerda alternativo à direita e ao governismo. Do contrário, a polarização direita versus governo levará o país a uma “quase Venezuela”, guardada as devidas proporções.

    Os trabalhadores e a esquerda boliviana podem pagar um alto preço por não terem levado adiante a política de construção de um partido de esquerda independente, o PT, que chegou a ser fundado em 2013. O PT foi um projeto encabeçado pelos combativos mineiros de Huanuni, histórico distrito mineiro e palco de muitos processos revolucionários, mas que foi desarticulado por forte atuação do próprio Evo. Na época, fomos parte da construção desse movimento que terminou derrotado pela capitulação da direção dos mineiros, em particular da COB e da Federação dos Mineiros, ao governo.

    Não avançou uma alternativa de esquerda e agora, mais uma vez, desde o fatídico ano de 2008, quando a direita se levantou pela autonomia das regiões em que governava, a direita levanta a cabeça.

    Algumas semelhanças e várias diferenças com a atual situação política venezuelana e brasileira, no entanto, o mesmo desafio, o de construir uma alternativa de esquerda à direita e à esquerda que foi governo e que ainda é, no caso boliviano.

    Foto: Reuters

  • Reunião de movimentos sociais aprova campanha em defesa de Cesare Battisti

    Por: Richard Araújo, de São Paulo, SP

    Nesta segunda-feira (9), algumas dezenas de militantes dos movimentos sociais e sindical, ativistas políticos e membros de organizações da esquerda socialista, se reuniram na Faculdade de Direito da USP para construir ações políticas de solidariedade e defesa dos direitos democráticos do escritor e ativista político italiano Cesare Battisti, que recentemente, no último dia 4 de outubro, foi alvo de uma operação da Polícia Federal que o prendeu no Mato Grosso do Sul.

    Battisti foi preso “em flagrante” por “evasão de divisas e lavagem dinheiro” e teve decretada a prisão preventiva por tentar atravessar a fronteira entre o Brasil e a Bolívia com 6 mil dólares e 1.300 euros (próximo a R$ 20.000). Todos os aspectos ilegais da prisão, que ferem, inclusive, direitos constitucionais garantidos a estrangeiros com visto permanente de asilo político, aumentam a preocupação do movimento com a ligação da prisão e as tratativas entre o governo golpista de Temer e o governo italiano para a extradição de Cesare Battisti para a Itália, onde está condenado a tries prisões perpétuas e sob ameaça de morte das forças do sistema penitenciário.

    A reunião aprovou um Manifesto firmado pelas organizações presentes e para o qual buscará a adesão de outros sindicatos, movimentos sociais, organizações políticas, intelectuais e parlamentares, um abaixo-assinado para ser trabalhado nas bases das categorias, movimentos e organizações, que estará à disposição já nos próximos dias para ser divulgado no 3º Congresso da CSP-Conlutas, e uma reunião de lideranças do movimento e parlamentares com o Ministro do STF responsável pelo caso, Luiz Fux, além de retomar as atividades do comitê em defesa de Battisti, criado quando ele se encontrava preso em Brasília.

    As iniciativas políticas aprovadas assumem ainda mais importância diante da ingerência do governo italiano sobre o governo brasileiro. Uma ação que desrespeita a soberania nacional, tendo em vista que, desde 2010, o escritor e ativista italiano teve concedido o visto permanente de asilado político, o que o torna um estrangeiro em situação legal no país, onde inclusive constituiu família. Fato este que por si só, pelo que determina a lei, impediria sua expulsão ou extradição. No entanto, como se trata de uma pressão política importante feita sobre um governo golpista e que está a cada dia rasgando todas e quaisquer garantias democráticas ou constitucionais, somente a pressão do movimento social poderá impedir que o governo Temer e a Justiça cometam mais este crime contra as liberdades democráticas no país.

    Caso o governo golpista de Temer aceite as pressões italianas para a extradição de Battisti, além de mais um atentado contra as liberdades democráticas, estaremos diante da rubrica do governo brasileiro ao risco de morte de Battisti, que há anos sofre ameaças de morte por membros das forças de segurança e penitenciárias na Itália.

    Para ajudara a entender melhor o caso
    Cesare Battisti foi membro da organização política “Proletários Armados pelo Comunismo” (PAC), que atuava na Itália na década de 1970 contra as organizações fascistas que estavam em atividade no país à época. Em 1979, foi preso sob a acusação de “subversão contra a ordem do Estado”, ficando detido até 1982, quando foge para o México.

    Neste mesmo ano, o ex-companheiro do PAC, Pedro Mutti, é preso pela Polícia Italiana e, tempos depois, como parte de um acordo de “delação premiada”, teve sua prisão perpétua reduzida para nove anos de detenção. Neste acordo, Mutti acusa Battisti de responsabilidade sobre quatro assassinatos e, mesmo sem nenhuma prova que comprovasse seu envolvimento nos assassinatos, inclusive sendo duas acusações de assassinatos “cometidos” no mês dia e horário numa distância de 500 quilômetros entre eles, ou garantia de defesa no julgamento, tendo em vista que Battisti não se encontrava no país na época do julgamento e os advogados que o “defenderam” tinham procurações falsas, Battisti foi condenado pela Justiça italiana a três prisões perpétuas.

    Após alguns anos na França, de onde teve de sair pelas pressões feitas pelo governo italiano sobre o governo de Jacques Chirac, Cesare Battisti veio ao Brasil, onde vive desde então, apesar das pressões dos governos italianos para sua extradição desde 2007, ano em que foi descoberto seu paradeiro numa operação entre a PF e a Interpol que o levou a ser preso no Rio de Janeiro. Desde 2010, Battisti teve o status de asilado político concedido pelo Estado brasileiro, status que permanece vigente, apesar das sucessivas movimentações promovidas pelo governo e embaixada da Itália para que o Brasil anule tal condição.

     

  • La Higuera: 50 anos depois, repensando o Che

    Por Marcello Musto, Professor de teoria sociológica na Universidade de York, Toronto, Canadá. Publicado originalmente no site Sin Permiso.

    Tradução: Rodrigo Claudio

    Para visitar Vallagrande, o lugar onde Ernesto Che Guevara passou as últimas semanas da sua vida, é preciso fazer uma viagem muito longa. Primeiro temos que chegar em Santa Cruz, a cidade mais povoada da Bolívia e ali tomar um dos velhos e maltratados ônibus que percorrem uma sinuosa estrada montanhosa que se encontra em péssimo estado.

    Entretanto, nestes dias, Vallagrande está cheio de militantes( especialmente jovens) que vêm de muitas cidades do país, assim como dos mais diversos países, pelo motivo do quinquagésimo aniversário da morte do revolucionário latino-americano.

    Muitos se aproximam do hospital Nuestro Señor de Malta , em cuja lavanderia foi fotografado e exibido ao público pela última vez o corpo do Che, já sem vida, mas com os olhos ainda abertos. Aqui, como em outras províncias da Bolívia, trabalham grupos de médicos cubanos que atendem na Bolívia graças a um projeto solidário concebido por Fidel Castro depois da eleição de Evo Morales que tem como objetivo a criação de centros de saúde para melhorar os índices de assistência e atenção na região.

    A poucos quilômetros do centro da cidade se encontra a fossa comum – recentemente convertida em um museu – onde, na noite entre o dia 10 e 11 de outubro de 1967, depois de terem amputado as suas mãos, foi enterrado em segredo junto com seis guerrilheiros de sua coluna. O lugar é distante cerca de 150 metros da pequena pista de avião e do quartel militar onde os rangers bolivianos , orientados por agentes da CIA, levaram a cabo as operações de rastreamento para capturar Guevara. Seus restos somente aparecem depois de 30 anos, graças a investigações de uma equipe cubano-argentina. Hoje se conservam em um mausoléu em Santa Clara, a cidade onde, em dezembro de 1958, o Che dirigiu a batalha decisiva que marcou o final do regime de Fulgencio Batista e o triunfo da revolução em Cuba.

    Além de visitar esses dois lugares, quem estes dias chegam às ruas de Vallgrande tem participado de apresentações de livros, debates, exposições fotográficas e uma manifestação final, com a presença de uma ampla delegação cubana – incluindo a família de Che Guevara (o programa do evento pode ser consultado no site).

    Demora três horas de viagem de Vallgrande até La Higuera. Somente se pode chegar de Jeep porque o caminho que se conduz a esse pequeno povoado de apenas cinquenta casas, situado a mais de 2000 metros acima do nível do mar, não está afastado e é cheio de curvas. É um lugar isolado, ainda longe do mundo de hoje.

    No caminho se cruza com alguns camponeses. Eles cruzam a estrada acidentada , caminhando lentamente, tristes, com suas ferramentas de trabalho atrás deles. Não parece que tem mudado muito desde que o Che atravessou estes vales, com a intenção de derrotar a ditadura militar do general René Barrientos.

    Guevara elegeu a Bolívia não porque foi guiado, como às vezes é atribuído a ele injustamente, a idéia de reproduzir mecanicamente as estratégias políticos e militares aplicadas em Cuba. Estava convencido, entretanto, da necessidade de desenvolver um processo revolucionário que afetasse todo o cone sul. Um projeto supranacional que desde a Bolívia fosse capaz de estender-se ao Perú e a Argentina, para evitar que os Estados Unidos interviessem e pudessem aniquilar um foco único, e portanto mais débil, de resistência local. No centro do continente e rodeado por cinco países, Bolívia parecia o local mais adequado onde começar a formação de um grupo de quadros a quem confiar, depois de treinados, a tarefa de organizar as diferentes frentes de luta em toda a América latina.

    O Che fundou o Exército de Libertação da Bolívia com somente 45 guerrilheiros. Na introdução ao diário da Bolívia, Fidel Castro escreveu: “Impressiona profundamente a proeza realizada por este punhado de revolucionários. A solitária luta contra a natureza hostil em que desenvolviam sua ação constitui uma insuperável página de heroísmo. Nunca na história um número tão reduzido de homens empreendeu uma tarefa tão gigantesca.”

    A morte atingiu muitos deles inesperadamente, 11 meses depois do início da guerrilha. No 8 de outubro de 1967, de fato, o Che, surpreendido em Yuro junto com outros 16 companheiros, foi ferido na perna esquerda e capturado depois de três horas de combate. Transportado a vizinha La Higuera, foi assassinado no dia seguinte, por ordem de Barrientos.

    Depois da execução, o exército boliviano se apoderou da mochila de Che e de todos os documentos que havia dentro. Os dois cadernos com os diários da Bolívia puderam chegar rapidamente a Cuba. Pelo contrário, outro grupo de textos curtos apareceu muito mais tarde e se publicou em 1998 com o título Antes de Morrer: apontamentos e notas de leitura. Nestas páginas, Guevara copiou as passagens mais importantes de suas leituras e resumiu alguns dos estudos que estava fazendo, apesar das difíceis condições em que se encontrava. Essas notas foram escritas nos raros momentos de descanso e constituem uma prova a mais de sua extraordinária determinação. Assim, critica a falta de profundidade de análise do sociólogo Charles Wrigth Mills cujo Os Marxistas Che leu e resumiu: o definiu como “um claro exemplo da intelectualidade liberal de esquerda norte-americana”. Gyorgy Lukács, ao contrário, foi muito útil, já que o ajudou a entender a “complexidade da filosofia hegeliana”. Como guia para seus estudos de filosofia, Che utilizou o manual editado pelo cientista soviético Miguel Dynnik e o antiduring de Engels, do qual apreciou mais do que qualquer coisa “seus pensamentos inconclusos sobre a dialética”. Dedicava várias partes a História da Revolução Russa de Leon Trotsky, as vezes criticava, mas que, em sua opinião, era uma “fonte de importância essencial” sobre o nascimento do poder soviético. Por último, Guevara também se dedicou ao estudos dos autores locais e, ao comentar um livro intitulado Sobre o problema Nacional e Colonial da Bolívia assinala que defendia “uma tese interessante”, já que considerava esse país “como um estado multinacional”.

    Completam esta página de notas um roteiro de um projeto de estudos dos diferentes modos de produção , desde os pré-capitalistas até o socialismo. Nele se afirma que ” Marx tinha razão” em relação a pauperização do proletariado, mas também que “não previu o fenômeno imperialista. Atualmente os trabalhadores dos países imperialistas são sócios minoritários do sistema.”

    Além do estudo teórico, em suas últimas notas o Che copiou três poemas do escritor nicaraguense Rúben Dario. Nos versos finais dos últimos deles, Litania do Nosso Senhor Don Quixote, se descreve um personagem que, em muitos aspectos, é como ele: ” Cavaleiro errante entre os cavaleiros, (…) nobre peregrino entre os peregrinos, que santificaste todos os caminhos, com o passo de admiração pelo seu heroísmo, contra as certezas, contra as consciências, e contra as leis e contra as ciências, contra a mentira , contra a verdade. (…) Que força que você inspira e faz sonhar, coroada com um áureo capacete de ilusão, que ninguém ainda conseguiu vencer, ao longe, toda a fantasia e a lança em riste, coração inteiro.”

    Isso é o que pensam dele todos os jovens que chegaram essa semana a La Higuera, para recordar ao Che e para deixar novas pegadas na longa e difícil rota que ele empreendeu.

     

  • Apoio à Declaração Unilateral de Independência da Catalunha

    Por: Coordenação internacional do MAIS (Brasil) e MAS (Portugal)

    O referendo à independência da Catalunha de 1 de outubro, onde mais de dois milhões votaram pelo sim, mesmo sob uma selvática repressão executada pelo Estado Espanhol, e a gigantesca greve cívica ocorrida a 3 de outubro constituem a mobilização popular que suportam a proclamação da República Catalã de imediato. Esta terça-feira, dia 10 de outubro, o presidente do governo catalão irá ao parlamento autonómico apresentar os resultados do referendo e onde se espera que se pronuncie sobre a independência. Carles Puigdemont terá de cumprir a promessa feita e iniciar o processo da Catalunha se livrar de um regime opressor com uma Declaração Unilateral de Independência (DUI), garantindo que a autodeterminação é um direito inalienável dos povos.

    Se a repressão mais de uma semana antes do referendo, com prisão de elementos da administração da Catalunha, confisco directo de urnas e boletins de votos e tentativas de assalto a sedes de partidos de esquerda ,não travou a realização da consulta foi porque um massivo movimento popular saiu à rua e conformou comités de defesa do referendo. Se a selvajaria cometida por Rajoy no dia 1 de outubro sobre os eleitores não impediu que mais 2,3 milhões exercessem o seu direito de voto e que mais de 90% tenha votado a favor da independendência foi porque o mesmo movimento superou por sua massividade a barbaridade policial. E para que ficasse claro o repúdio à agressão por parte do estado espanhol, o movimento popular realizou uma suprema greve que paralisou a Catalunha dois dias depois. O povo conquistou o direito à independendência.

    A direcção nacionalista catalã não é de confiar
    O partido PDeCAT do presidente Puigdemont, a Esquerra Republicana Catalana (ERC), e as associações cívicas ANC e Òmnium, embora com diferentes ritmos, tendem a vacilar. Eles irão tanto mais longe quanto mais forte se mantiver o movimento popular, mas nunca serão os mais consequentes com o processo independentista e se no tempo não forem substituídos por uma direcção do movimento popular tenderão a claudicar. À volta destas organizações gira uma parte da burguesia catalã que com um acordo económico com Espanha mais favorável para si pode recuar facilmente.

    A esquerda catalã e o movimento popular devem tomar em mãos a liderança
    Enquanto principal força e referente anticapitalista e independentista catalã, que conta com 12 deputados no Parlament, as Candidatura d’Unitat Popular (CUP) têm a responsabilidade de incentivar e dirigir o movimento popular, junto com os comités de defesa do referendo, para alertar e impedir as vacilações da direcção nacionalista actual, com a perspectiva de a substituir. Não deverá ficar passivamente a pressionar Puigdemont, até porque este pode não declarar a independência ou ir postergando o tempo para esvaziar a vontade das massas. A esquerda revolucionária deverá apoiar as CUP nessa linha.

    Só a independência garante o direito de livre associação da Catalunha
    Diante da mobilização popular e da possibilidade da declaração de independência numa declaração histórica, o Rei Filipe VI acusou os dirigentes catalães de “deslealdade inadmissível”, de “se colocarem à margem da democracia” e anunciou que a Constituição “prevalecerá sobre qualquer ruptura”, constituição esta que não permite referendos de autodeterminação mas que reconhece a existência de nacionalidades. O monarca, como tal não eleito por ninguém, deu permissão e total liberdade de acção ao primeiro-ministro Mariano Rajoy e ao PP para executarem a repressão que entenderem. Não restam dúvidas do carácter reaccionário do regime espanhol saído do processo de transição de 1978, que clamando democracia impede um dos mais básicos direitos dos povos no mundo. Ora só com a independência o povo catalão poderá decidir livremente as formas de convivência com outros estados.

    Unidade do nacionalismo espanhol para reprimir a vontade da Catalunha
    É tão forte a rebelião popular que após um momento em que parecia Rajoy e o PP ficava isolado face à força bruta utilizada durante o referendo, as forças económicas e políticas que compõe o nacionalismo reacionário espanhol e o seu poder financeiro começaram a alinhar-se na pressão à Catalunha, assim, o PSOE (Partido Socialista Obrero Español, social-democrata), a Igreja Católica, as multinacionais, com o apoio da União Europeia, das multinacionais , dos fundos abutres de investimento e o Vaticano vieram respaldar qualquer que seja a resposta de Rajoy a uma DUI. Não há dúvidas, quem sairá enfraquecido com a independendência da Catalunha será não só a burguesia espanhola mas também o capital financeiro internacional.

    Chantagem económica e mobilizações espanholistas tomaram a ofensiva nos últimos dias
    Nos últimos dias vemos uma crescente movimentação da grande burguesia catalã a tentar pressionar  o processo no sentido de não acontecer uma DUI, através da deslocalização das sedes de grandes empresas para outras zonas de Espanha. Se na prática  é uma pantomima porque não tem implicações directas sobre a economia, politicamente joga um papel de medo sobre a viabilidade e isolamento de um novo estado. Ainda assim, a esquerda anticapitalista deverá propor a expropriação das empresas que pretendam sair. Juntando-se a estes sinais, as manifestações do “Parlem!” e pela unidade Espanha ocurridas este fim de semana fazem que o adiamento da DUI comece a diminuir o impacto que rebelião popular ganhou nas últimas semanas. 

    O carácter progressivo da movimento pela independendência da Catalunha
    Libertar os grilhões de uma nação subjugada a outra é só por si um passo progressivo na capacidade de um povo decidir o seu futuro política e economicamente. É também um avanço na destruição do regime semi-franquista de 1978, monárquico e altamente reaccionário, colocando a histórica luta dos povos da península ibérica pela república na ofensiva. Desenvolve e amadurece as condições objectivas para a organização dos trabalhadores. Pode permitir através de um processo constituinte democrático e popular mobilizar a classe trabalhadora através de uma alternativa anticapitalista, que derrote o projecto neoliberal da burguesia catalã. Coloca em pé de igualdade os trabalhadores de distintos países para acordarem qualquer forma de convivência comum.

    O carácter regressivo das direcções do PODEMOS e da Izquierda Unida
    Se o conjunto da burguesia espanhola e os seus partidos se batam repressivamente contra a independência e o direito de decidir da Catalunha é o que o esperamos dos inimigos da classe trabalhadora e dos povos. Mas quando as direcções do PODEMOS e da Izquierda Unida, que são as principais forças representativas da esquerda em Espanha, se opõem a uma DUI e mobilizam para que se chegue a um acordo para um referendo com Madrid, quando sabem que a Constituição e o Regime de 1978 que tanto criticam não o possibilitam, cometem um crime político contra os trabalhadores. Estão em confronto directo com as aspirações emancipatórias do povo da Catalunha em nome de se manterem num estado centralizado mas monárquico, judicialmente, militarmente e policialmente franquista e economicamente neoliberal. 

    Unir as lutas contra a austeridade de todos os trabalhadores do Estado Espanhol com a luta pela independendência

    Também as centrais sindicais espanholas mais representativas dos trabalhadores têm um corte espanholista acentuado e partilham da mesma capitulação de PODEMOS e Izquierda Unida. Talvez porque o Estado espanhol lhes garante uma enorme fatia no seus orçamentos anuais e que lhes permitem sustentar a sua burocracia e privilégios, por isso preferem manter os trabalhadores catalães a prestarem vassalagem a Filipe VI. 

    Unificando a luta contras os planos de austeridade de Rajoy/PP  e de Puigdemont/PDeCAT com a luta pela independendência da Catalunha o poder das classes trabalhadoras ibéricas colocará em perigo não só o regime bem como a possibilidade de reverter esses planos.

    Rodear internacionalmente a luta da Catalunha com solidariedade
    Da nossa parte não vacilamos, com as nossas forças, apelamos a que toda esquerda no mundo realize manifestações e acções de apoio a independendência da Catalunha. No cenário de a DUI acontecer, exigir aos governos dos países que reconheçam o novo País. No cenário de a DUI não acontecer, apoiar o movimento popular e a classe trabalhadora a libertarem-se da direcção nacionalista e as forças de esquerda para que tomem a dianteira do processo.

    Um programa anticapitalista para a Catalunha

    • MOBILIZAÇÃO NÃO PODE PARAR ATÉ ASSEGURAR E DEFENDER A INDEPENDÊNCIA
    • DECLARAÇÃO UNILATERAL DE INDEPENDÊNCIA IMEDIATA
    • PROCLAMAÇÃO DA REPUBLICA CATALÃ
    • EXPROPRIAÇÃO DAS EMPRESAS QUE DESLOCALIZEM A SUA SEDE
    • PROCESSO CONSTITUINTE POPULAR E DEMOCRÁTICO

    Declaração da Coordenação internacional dos partidos MAIS (Brasil) e MAS (Portugal)

    09/10/2017

  • O Exemplo do Che Guevara Inspirará Milhões de Militantes pelo Mundo

    Por Ernest Mandel. Editorial de La Gauche“, n.º 39, publicado em 21 de Outubro de 1967. Retirado do site marxists.org

    A humanidade progressista vem de sofrer uma terrível perda: Ernesto «Che» Guevara não existe mais. Morreu no combate, como Jaurès, como Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo, como Durruti e Trotski. Tal como era ele, não esperaria outra morte que esta.

    A revolução cubana e latino-americana perde um dos seus principais dirigentes; nós perdemos um camarada muito caro. Todos os que se lhe aproximaram, de perto ou de longe, foram comovidos pelo seu idealismo, a sua coragem, a sua franqueza e a sua lhaneza. Com Fidel Castro, e melhor do que qualquer outro no mundo de hoje, soube reencarnar as virtudes essenciais do revolucionário que o estalinismo tinha substituído por uma caricatura repugnante: a lealdade prioritária quanto aos deserdados de todo o mundo; a lucidez sem falha que não respeita nenhum dogma; a resolução bravia de pôr os seus actos em concordância com as suas convicções. Director do Banco do Estado cubano, assinou os bilhetes bancários com o simples pseudónimo de «Che», para patentear bem o desprezo fundamental que qualquer socialista tem de ter para o dinheiro. Persuadido de que o caminho das guerrilhas era o único meio adequado para a vitória da revolução na América Latina, ele próprio partiu para o combate, junto aos seus camaradas bolivianos. Marx que lutou toda a sua vida pela unidade da teoria e da prática orgulharia-se dele.

    Os cínicos ou desenganados que pasmaram de que um dirigente como o «Che» lutasse em primeira linha e suspeitaram de alguma «maquinação política»; simplesmente provam que não conhecem nem podem compreender os homens como Guevara. Outros veem na sua morte a confirmação de que não teria sido mais que um «aventureiro irresponsável»; os «responsáveis» dignos de louvor não são outros, sem dúvida, que aqueles que sentados nas suas poltronas, não correm qualquer risco.

    Outros ainda dirão que «pregando a violência», «morreu pola violência». Não entenderão jamais que ele morreu para livrar os vietnamitas de uma chuva ininterrupta de bombas mortíferas, que ele morreu para tirar milhões de meninos do seu continente da morte prematura, por centenas de milhões de afligidos por doenças cruéis e inúteis, sentenciados por um regime já condenado pela história.

    A reacção triunfa. Os generais bolivianos, com as mãos vermelhas do sangue dos mineiros do seu país, celebram a morte do «intruso estrangeiro». Os trabalhadores bolivianos pregarão a memória deste «estrangeiro», que deu a sua vida pela sua libertação.

    Os gritos de vitória dos agentes imperialistas traduzem bem o seu pânico e a sua covardia. «A guerrilha era um grave perigo»; «a guerrilha está vencida». Néscios! Podeis matar um homem. Não podeis matar uma ideia que enterra as suas raízes na realidade social mais profunda.

    Milhares de bolivianos, de peruanos, de colombianos, de argentinos, de operários, de estudantes, de camponeses, de intelectuais da América Latina, apanharão o fuzil que o «Che» deixou cair das suas mãos agonizantes. O seu nome tornou-se já uma bandeira e um programa, um apelo à revolta que retumba pelos cinco continentes. As vossas miseráveis mascaradas não demorarão [adiarão] um dia o momento do vosso desmoronamento. O exemplo do «Che» estimulará milhões de revolucionários a tirar a imundice, a redobrar o fervor na luta contra o imperialismo e o capitalismo.

    Nós choramos um grande amigo, um camarada exemplar, um militante heróico. Porém sabemos que a sua causa é invencível. Ele entrou vivo na história que cobrirá de desprezo o nome dos seus assassinos. Porque encarna esta Revolução, esta emancipação definitiva do Trabalho e do Homem para a que toda a realidade da nossa época proclama o que dera como epitáfio outra grande vítima de verdugos embrutecidos, Rosa Luxemburgo: ERA, SOU, E SEREI!