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  • Solidariedade internacional: membro do CIT e outros três são presos na Rússia

    Este artigo é uma tradução do texto publicado em inglês no socialistworld.net, plataforma do Comitê por uma Internacional dos Trabalhadores (CIT). Aqui está o link para artigo original.

    Apelo urgente: membro da CIT e outros três encaram sentença de prisão na Rússia

    Quatro participantes da anual marcha anti-fascista em Moscou foram presos hoje incluindo Igor Yashin, liderança da “Alternativa Socialista”, seção russa do CIT. Eles ficarão detidos na delegacia até segunda-feira, quando haverá audiência para responderem por desobedecer a polícia. Os ativistas podem continuar presos por 15 dias.

    A marcha anti-fascista ocorre todo ano para relembrar o assassinato brutal do advogado Stanislav Markelov e a jornalista Anastasia Baburouba cometido por fascistas dez anos atrás. Stanislav era membro ativo da “Juventude contra o Racismo na Europa”.

    A marcha estava acontecendo de forma tranquila, ainda que chamativa, enquanto passava pelo centro de Moscou. Tinha significativa importância na marcha, além dos grupos políticos tradicionais que incluíam setor da CIT, o contingente de sindicatos presentes liderados pelo sindicato de jornalistas, do qual Igor é vice-presidente. Igor havia protagonizado a organização deste contingente. Aparentemente, a polícia não permitia palavras-de-ordem que denunciassem a prisão, tortura e morte de LGBTs na Chechênia (onde pesquisas apontam que nova onda de violência começou).

    Parece que a polícia prendeu Igor por algum motivo. Quando os policiais tentaram prendê-lo outros manifestantes o cercaram e impediram Igor de ser levado. Levaram bons 5 minutos antes da tropa de choque intervisse para prender Igor e outros três ativistas.

    O diretor da seção russa da Anistia Internacional já se pronunciou sobre o assunto: “a prisão de pessoas que participam de manifestação pacífica apenas por expressarem sua opinião é inaceitável. O objetivo da polícia em eventos como esse é garantir a segurança das pessoas, não censurá-las. Reivindicamos a liberdade de todos os presos”. O diretor está agora na delegacia de polícia de Moscou Arbat. A polícia não deixou advogados entrarem em contato com os presos desde então e não seguiu os procedimentos normais, de liberação dos presos depois de três horas.

    Nós pedimos urgentemente que sejam enviados protestos para que as acusações contra os quatro presos – Igor Yashin, Nikolai Kretov, Dmitrii Borisenko e Mikhail Komrakov – sejam retiradas.

    Qualquer pessoa que fale russo pode telefonar diretamente para a delegacia de polícia para exigir informações no número +7 4992410945 ou +7 499 2412814

    Ou por favor mandes mensagens ou e-mail para a embaixada russa em seus países.

    Por favor mandar mensagens de apoio para Igor e os outros presos no email [email protected]

  • Histórico da extrema-direita espanhola até o auge do VOX

    A onda reacionária chega a Espanha

    Publicado originalmente no site Viento Sur

    No início da década de 1970, a maioria dos europeus pensavam que o renascimento das organizações  fascistas se articulariam em torno dos restos das ditaduras mediterrâneas( Grécia, Portugal e na Espanha). O tempo tem demonstrado o contrário, salvo o caso particular de Grécia, tanto em Portugal como em Espanha, as opções partidárias vinculadas ao espectro da extrema-direita tem conseguido tradicionalmente os piores resultados eleitorais do continente. Ao menos até as eleições na Andaluzia, no início de dezembro, onde a extrema-direita representada por Vox alcançou um surpreendente 10% dos votos e 12 deputados.  Foi um terremoto eleitoral não somente pela chegada da extrema-direita no parlamento Andaluz, como também porque a esquerda perdeu a maioria parlamentar. Uma situação que abre a porta para que pela primeira vez desde a transição para a democracia, a direita governe a Andaluzia. Governo que não será possível sem o apoio de VOX.

    Mas não nos enganemos, os fracassos eleitorais da extrema-direita espanhola até agora não significou que os valores próprios da extrema-direita não se encontravam no nosso arco institucional. Pelo contrário, a “presença ausente” da extrema-direita é perceptível na persistência de um franquismo sociológico neoconservador e xenofóbico. Isto, sem dúvida, até então carecia de expressão política e se encontrava diluída até agora no interior de um Partido Popular acolhedor”. Agora, pela primeira vez parece haver encontrado uma expressão política própria em VOX.

    A experiência frustrada da extrema-direita na transição

    No final da ditadura, se conformou um setor de extrema-direita que atuou como lobby político, designado particularmente como “o Bunker”, que seria o germe da grande maioria dos partidos da extrema direita durante a transição. Os dois grupos hegemônicos deste setor foram: Fuerza Nueva e a Confederacion Nacional de Ex Combatientes.

    A ultra-católica Fuerza Nueva , liderada por Blas Piñar, fundada em 1967, aglutinou uma grande parte dos elementos mais nostálgicos do franquismo e a um setor juvenil muito ativo , gozando de grande capacidade de mobilização, uma das características genéticas da extrema-direita. “Seu objetivo prioritário era converter-se no eixo de um movimento aglutinante de todos aqueles franquistas nostálgicos do espírito da Cruzada e partidários do que o regime puser em prática uma repressão mais enérgica frente a oposição e fazer o possível para a continuidade do sistema.

    De fato, Fuerza Nueva, constituído em partido político a partir de 1976, tem sido até o momento o único partido de extrema direita que tem conseguido representação parlamentar no congresso dos deputados( 1979; 379.463 votos). Em 1979 alcançou seu auge organizativo como uma afiliação que oscilava entre os 40 mil e 60 mil filiados, fundou um sindicato próprio (Fuerza Nacional del Trabajo), El Alcázar, revista semanal, que manteve uma tiragem de 45.000 exemplares vendidos por número e 13.000 assinantes.

    O fracasso do golpe de estado de 23 de fevereiro de 1981 e os fracos resultados eleitorais de 1982 fecharam as portas da transição política para a extrema-direita, que se viu incapaz de encontrar alguma saída ao processo de reforma política  empreendida tardiamente pelo franquismo. Esta situação gerou um sentimento de desânimo e desorientação nos principais núcleos militantes da extrema-direita, acrescentando-se ainda o anúncio de dissolução de Fuerza Nueva em 20 de novembro de 1982, motivadas pelo mal resultado eleitoral conseguidos nas eleições gerais do mesmo ano.

    A maioria dos militantes e quadros políticos da Fuerza Nueva se sentiram abandonados e traídos pela organização em que haviam militado, engrossando as fileiras de outros pequenos partidos da extrema-direita espanhola e/ou majoritariamente encontrando refúgio na Alianza Popular. Esta experiência política teve uma importante repercussão na extrema-direita espanhola, até ao ponto que marcaria a história e as relações futuras entre os diferentes setores da extrema direita espanhola desde sua fundação quase até nossos dias.

    Com a dissolução de Fuerza Nueva se dava por concluída a experiência da principal organização política do chamado bunker franquista. Fuerza Nueva, havia sido o partido de extrema-direita que mais apoio eleitoral havia conquistado até o presente período no Estado Espanhol. Alguns anos mais tarde, em 1988 se fechava El Alcázar. Desta forma se fechava definitivamente o último resquício do chamado bunkerfranquista, inaugurando-se uma larga travessia pelo deserto que continua todavia em nossos dias.

    Alianza Popular: uma direita acolhedora

    A transição incorporou não poucos elementos da ditadura ao sistema democrático, em um processo sem solução de continuidade no que se refere a uma parte muito importante da estrutura do regime franquista, que nunca foi depurado. Diversos autores assinalam esta impunidade como uma razão substancial a hora de explicar a incapacidade de articular um movimento de extrema-direita verdadeiramente forte em Espanha. De fato, em diferentes estudos comparados o ressurgimento da extrema-direita no âmbito europeu se reconhece que a especificidade espanhola está relacionada, entre outros motivos, com o tipo de partido majoritário de direita que se conformou em nosso país.

    Neste sentido, não podemos esquecer que as origens do próprio Partido Popular se encontram na Alianza Popular promovida por Manuel Fraga em Setembro de 1976. Se tratava de uma formação surgida de um grupo de notáveis do franquismo e caracterizava não somente pela grande presença nos cargos públicos da ditadura, se não sobretudo por tratar de dar base social e eleitoral a um movimento de resistência a ruptura institucional com o regime franquista. Pese os seus limitados resultados eleitorais nas duas primeiras eleições gerais, essa tática de resistência possibilitou que, nos comícios de 1982, Alianza Popular obtivesse votos procedentes tanto do partido de Suarez, Centro Democrático y Social(CDS), como de Fuerza Nueva ( em torno de dois terços dos votos obtidos por FN nas eleições de 1979) e provocou uma crise nesta última formação que, como vimos antes, a levaria a sua autodissolução.

    Já temos assinalado como muitos militantes e quadros políticos de Fuerza Nueva engrossaram as fileiras da Alianza Popular e logo o Partido Popular se configuraram como as únicas expressões eleitorais do franquismo sociológico. Neste sentido, Aquilino Duque assinala que “não direi eu que todos os votantes do PP sejam franquistas mas sim que todos ou quase todos os franquistas de Espanha votam no PP, entre outras coisas porque não lhes resta outra alternativa, ou seja, porque, ainda que seja de modo vergonhoso e com pedido de desculpas, o PP defende  aqueles valores que eram a razão de ser do franquismo, a saber: a pátria, a religião e a família.

    A persistência de um enraizado franquismo sociológico quarenta anos depois do final da ditadura, demonstra os limites da democracia de baixa intensidade do regime de 78, que todavia nem sequer tem podido julgar os crimes do franquismo, o qual denota que a impunidade é um elemento indispensável da marca Espanha. Isto explica , por sua vez, muitos dos problemas que se tem posto sobre a mesa com a denominada crise catalã ou a tentativa de exumar o ditador Franco do memorial do Valle de Cuelgamuros.

    O Aznarismo

    A transformação de Alianza Popular no Partido Popular foi considerada por alguns analistas políticos como um giro até o centro, mas realmente seria mais adequado definir-la a partir da vontade de construir um partido que incluísse tudo, que abarcasse desde a extrema-direita até o chamado centro político. Nesta nova oferta, neoliberalismo e neoconservadorismo ( a americana) tem convivido com um nacionalismo espanhol que não pode ocultar sua continuidade com o franquismo e que tampouco lhe permite apostar por um laicismo que rompa seus laços com o catolicismo predominante em um amplo setor de seu eleitorado. Assim mesmo, a adesão ao discurso neoconservador do denominado choque de civilização facilitou a introdução progressiva de um discurso xenófobo. Mediante a exploração do mal estar de camadas populares autóctones diante das consequências da crise sistêmica que se projetou frente a população trabalhadora imigrante de religião mulçumana em nome da defesa de supostos valores ocidentais.

    Tendo em conta essa combinação de mensagens e propostas, tão inadequado seria considerar ao PP um partido de direita clássico – similar ao CDU de Merkel – como assimila-lo ao ascenso da extrema-direita ou da direita neofascista européia. Com os primeiros tem uma diferença de raiz histórica uma vez que não tem renegado seus antecedentes franquistas e, ademais, tem mostrado sua predisposição a recorrer a formas de mobilização extraparlamentar alheias as desses partidos, salvo em situações extremas( como ocorreu, por exemplo, na França em Maio de 1968). Por sua parte, dos segundos se distingue porque, pese a reconhecer parte de suas mensagens e formas de protesto, não o faz com a beligerância ideológica própria desses grupos nem os situa no primeiro plano de sua agenda política.

    Mas podemos dizer, que a crise do PP se tem convertido em uma crise da direita espanhola que tem aberto a janela de oportunidade a que pela primeira vez em décadas pode haver um espaço eleitoral próprio para a extrema-direita espanhola que tem seu elemento mais paradigmático na inédita competência eleitoral nesse espectro político, hegemonizada em solitário até agora pelo PP.

    VOX, uma divisão vitoriosa do PP

    Apesar do seu repentino êxito eleitoral e midiático, não se pode dizer que VOX é um partido novo: conta com cinco anos de existência e um histórico de fracassos eleitorais até seu crescimento no parlamento andaluz. Vox foi fundado em dezembro de 2013 como uma cisão do PP que acusa a Mariano Rajoy de se distanciar dos princípios mais conversadores do partido( é justamente nestes tempos quando Aznar e a própria Esperanza Aguirre começam a manifestar publicamente suas diferenças com a direção Popular). VOX foi liderado inicialmente pelos dois cargos públicos mais conhecidos do PP envolvidos na ruptura, Alex Vidal-Quadras, eurodeputado e ex-presidente do PP Catalão, e Santiago Abascal, ex-deputado do PP do País Basco e ex-presidente da Fundacióm para la Defensa de la Nación Española(DENAES).

    Se bem podemos afirmar que VOX é o reflexo espanhol de um fenômeno reacionário e autoritário que tem ocorrido globalmente, ao mesmo tempo, não é menos certo que VOX tem características peculiares que dependem da história e o contexto político espanhol. A diferença da maioria de seus homólogos europeus, VOX é uma cisão da direita espanhola e não um fenômeno novo que nasce a sua margem como é o da Frente Nacional ou da Liga Norte. Talvez a primeira cisão pela direita do PP que tem tido êxito, a diferença de outras como o PADE criado em 1997 e que apenas conseguiu um punhado de vereadores em Madrid.

    Em certa medida, VOX representa tanto esse franquismo sociológico que durante anos tem convivido no seio do PP e que não tem expressão política própria desde a dissolução de Fuerza Nueva, como os setores mais neoconservadores agrupados até agora em uma espécie de TeaParty a espanhola, que tem passado de fazer lobby ao PP a encontrar um espaço político próprio com VOX. Entre eles encontraríamos o universo mediático e de agitação articulado em torno ao Grupo intereconomia e a Libertad Digital, o think-tank neoconservador grupo de Estudios Estratégicos (Gees); e páginas e/ou plataformas de agitação como Hazte Oir.

    As reminiscências históricas da extrema-direita espanhola ligam VOX com um confessionalismo que se aproxima mais da extrema-direita do leste europeu, como os polacos de Ley y Justicia, que o Frente Nacional de Le Pen. A questão da unidade nacional e a luta contra o separatismo , com Catalunha como tema central, recorda muito bem a falange espanhola. Como eixo central tem a “unidade de destino no universal”, que mais tarde ficou sentenciado nos princípios do movimento nacional como: “A unidade da pátria é um dos pilares da nova Espanha, para o qual o exército a garantirá frente a qualquer agressão externa ou interna”. Dai surge o tema chave da recentralização( fim das autonomias, fechamento do Senado, etc.), com a idéia de Espanha como um Estado uninacional e a negação de qualquer nacionalismo que não seja o espanhol. Uma idéia força que se entrelaça em seu discurso com a luta contra a corrupção, o clientelismo e o desperdício que supõe o estado das autonomias. Desde o ponto de vista social, o discurso de VOX é claramente neoliberal, desmarcando-se ao menos em parte de outras extrema-direita, ainda que seja sobre tudo retórica um discurso protecionista(Trump) ou estatista(Salvini) e inclusive de certo chauvinismo de estado de bem estar social ( Le PEN). Desta forma, podemos dizer que Abascal é muito mais Bolsonaro que Le Pen.

    Nos últimos tempos, VOX está demonstrando ser um aluno favorito do neoconservadorismo norte-americano que em seu momento apoiaram em Espanha tanto Aznar como Aguirre, não tendo medo a atacar contra os sensos comuns conquistados pelas forças progressistas. Um bom exemplo disso é a cruzada contra o movimento feminista em temas como o aborto, questionando a violência machista e sobre tudo contra o que catalogam sobre o conceito de ideologia de gênero. Isto é um movimento em direção aos setores mais radicais, da hierarquia católica , HazteOir e/ou Foro Español de la familia entre outros, popularizando um conceito – o de ideologia de gênero – que em outros países, fundamentalmente na Polônia, está servindo como ativador e aglutinador político da extrema-direita.

    Neste olhar até as experiências do outro lado do atlântico, também temos adotado elementos ou slogans do trumpismo, como a consigna “fazer a Espanha grande outra vez”. Assim como na lógica de buscar um leitmov político na construção de um muro fronteiriço a Ceuta e Melilla, que tenta problematizar com as políticas imigratórias do governo e o aumento das chegadas de imigrantes nos últimos anos. Praticamente a totalidade das organizações do heterogêneo ambiente político da extrema-direita apontam as e os imigrantes, preferencialmente pobres e não ocidentais, como bode expiatório de uma degradação sócio-econômica e cultural. Mas os muros de hoje já não cumprem tanto uma função de controle fronteiriço, se não que se tem convertido, sobretudo, em um elemento fundamental de propaganda política. Levantar um muro ou uma cerca é uma medida rápida e de impacto sobre a opinião pública que configura uma espécie de populismo das cercas. Que melhor maneira de visualizar a segurança ante as invasões de imigrantes que com uma fronteira de cercas?

    Desta forma, a migração é abordada desde a perspectiva da insegurança cidadã. Isto constitui um dos elementos mais comuns de estigmatização da população migrante, da pobreza e das pessoas pobres em geral, através de uma assimilação pesada entre delinquência, insegurança e imigração. Se conecta com o imaginário que constroem as políticas de austeridade que, mais além dos cortes e privatizações que carregam, são a “imposição para uns 80% da população européia de um férreo imaginário da escassez”. Um não tem o suficiente para todos generalizado que fomenta mecanismos de exclusão, que Habermas definia como característicos de um”chauvinismo do bem-estar”e que concentram a tensão latente entre o estatuto de cidadania e a identidade nacional. Desta forma, se consegue que o mal estar social e a polarização política provocadas pelas políticas de escassez se canalizem através do elo mais débil: os imigrantes, o estrangeiro ou simplesmente o outro. Deste modo se exime assim as elites políticas e econômicas responsáveis reais do espólio. Porque se não há para todos, então sobra gente, ou seja não cabemos todos. E assim, se dissemina a fina linha que conecta o imaginário da austeridade com o da exclusão, sobre o que se constrói a potencialidade da consigna primeiro os espanhóis.

    Todas estas características, nos levam a dizer que VOX se liga entre o passado e o presente, com posicionamentos que lhe homologam a nova extrema-direita européia enquanto que preserva traços próprios que o vinculariam com uma certa atualização da extrema-direita espanhola do franquismo tardio até a transição. Talvez seja a consigna da reconquista da Espanha a que sintetiza melhor essa idéia de passado e presente. Por um lado, conecta com os movimentos da extrema-direita atual, com a lógica de choque de civilizações e o perigo da imigração. E por outro lado, com a idéia nostálgica da cruzada para recuperar Espanha das mãos dos vermelhos mediante o levantamento militar de dezoito de julho de 1936.

    Por que agora o crescimento de VOX?

    1) a crise do PP, encurralado por escândalos de corrupção, como o único partido da direita espanhola tem propiciado uma não habitual concorrência eleitoral que tem favorecido a dispersão do voto entre várias opções diluindo a idéia força do voto útil. Idéia que até o momento havia servido de bloqueio para a emergência de outras opções conservadoras.

    2) Uma concorrência entre as direitas que tem propiciado uma radicalização das propostas do PP e Ciudadanos em temas tão importantes como a imigração ou a questão do conflito político catalão, que tem construído a normalização de VOX. Ambos partidos se tem negado a catalogar a VOX como um partido de extrema-direita ao longo da campanha andaluz e com o que atualmente negociam pactuar para formar governo, diante do espanto de suas famílias políticas européias. O PSOE, por sua parte, tem recorrido a VOX para deslegitimar seus rivais, PP e C’s. Deste modo, a formação de extrema-direita tem conseguido uma inesperada centralidade durante a campanha eleitoral.

    3) A própria onda mundial de ascenso dos novos populismos xenófobos e punitivos tem outorgado mais audiência e interesse midiático a temas novos na agenda do debate político espanhol, como a denúncia das supostas ameaças do Islam em Espanha. VOX, em seu ato em Vistalegre, inclusive reivindicou a Espanha de Lepanto, já que salvou “a civilização ocidental frente a barbárie.

    4) O quadro do conflito territorial catalão. O fato de exercer a acusação popular do processo sobre a divisão da Catalunha no Tribunal Supremo lhes tem outorgado uma importante visibilidade, se transformando em uma alternativa anti-separatista dura. Se trata de uma corrida onde os conjuntos das opções de direita competem por converter-se no autêntico e genuíno defensor da unidade da Espanha.

    5) A controvérsia gerada pela exumação do cadáver de Franco do Valle de Cuelgamuros tem gerado uma importante remobilização de setores franquistas que todavia perduram na Espanha. Está em primeiro plano a lei da memória histórica, diante da qual o VOX tem levantado claramente a bandeira de oposição.

    6) As políticas de austeridade no marco de uma crise sistêmica que vivemos desde faz mais de uma década tem gerado uma quebra da coesão social, que se traduz no desemprego, insegurança econômica e descontentamento. Uma situação especialmente grave em Andaluzia, a comunidade com maior população da Espanha, que tem sofrido mais que o resto a crise: renda per capita ainda menor, mais desempregados, maior risco de exclusão, maior pobreza energética e maior desigualdade. Esta polarização de renda que tem esvaziado os bolsos das classes populares e médias, produz a sua vez polarização política, um fenômeno que impacta diretamente sobre a estabilidade do sistema de partidos.

    Quem vota em Vox?

    Estudos pós-eleitorais na Andaluzia mostram que o voto em VOX vem principalmente das fileiras do PP e, em menor medida, de Ciudadanos. Mais da metade dos eleitores do partido de extrema direita apoiaram o PP em 2015 (54,4%); e outros 23,9% optaram pela sigla que Albert Rivera lidera. A perda de votos à esquerda foram insignificantes, por outro lado. De fato, os dados mostram que  VOX entrou fortemente nos lugares onde o PP se impôs em 2016 nas últimas eleições gerais. Onde o PP tem mais de 50% dos votos, o partido à sua direita tem cerca de 20%.

    A partir dos mapas e dados eleitorais, observa-se que VOX tem mais força na área urbana do que nas áreas rurais e interior. Da mesma forma, os gráficos apontam para uma tendência de que, nos municípios com maior renda média, o voto para a VOX é maior do que nos municípios com menor renda.

    Todos esses dados nos fazem supor que o fenômeno VOX não tem paralelos no momento, pelo menos na origem da votação, com o que acontece com outras forças de direita na Europa, onde há uma transferência do eleitorado entre os blocos e, fundamentalmente, desde a abstenção.

    E agora o que fazemos?

    Há uma tentação de tentar impedir o avanço do neofascismo, unindo as fileiras acriticamente com os partidos de centro (PSOE, Cs e PP), o que pode contribuir para dois processos muito perigosos. Em primeiro lugar,  seguir alimentando as supostas bondades democráticas e progressistas de quem tem colocado tudo de sua parte para que hoje estejamos assim, reforçando desse modo a armadilha binária que nos obriga a eleger entre o populismo xenófobo ou um neoliberalismo que se apresenta como progressista no reflexo do espelho da besta autoritária.Em segundo lugar, abraçar-se ao centro sem contrapesos deixa a VOX o monopólio do voto de protesto anti-establishment e a etiqueta tão útil de outsider de um sistema que gera crescente mal estar..

    Pode uma certa orfandade à esquerda ser traduzida em uma mudança de eleitores para a extrema direita?

    Não de uma forma matemática; em vez disso, pode ser traduzido no que já aconteceu nesse domingo( dias das eleições na Andaluzia- nota do tradutor) e isso não está sendo enfatizado: em um aumento crescente da abstenção da esquerda. Vamos analisar por que VOX (ou Cs) ilude parte do eleitorado conservador (que já votou em outros partidos de direita e aqueles que se abstiveram), até que ponto eles coletam suas aspirações e medos, e até que ponto eles são percebidos como ferramentas de protesto eleitoral desde a direita. E façamos o mesmo para tentar entender por que o contrário ocorre hoje com as novas formações da esquerda, estão em situação oposta do que ocorria faz somente um par de anos. Ou, para ser mais justo, o que fizemos para deixar ser essa ferramenta de atração do descontentamento e da contestação, do protesto contra o establishment, da ilusão daqueles abaixo, e como podemos ser novamente.
    Além das múltiplas causas e das conseqüências e variadas lições, no quadro eleitoral que nos é apresentado pelo 2 de dezembro, em Andaluzia, e com ela na Espanha, hoje eles se parecem um pouco mais com a Europa: o bipartidarismo rompido, o centro neoliberal em recomposição, sua perna social-liberal afundando, extrema direita em ascensão, uma esquerda impotente e resultando em parlamentos fragmentados. A tendência vem de longe no tempo e no espaço. Hoje na Espanha estamos um pouco mais próximos, o desafio é como reverter essa onda reacionária global e voltar a decantar a iniciativa política até os interesses do campo popular.

    Miguel Urbán é eurodeputado e membro do conselho de Viento Sur

    Este artigo foi publicado originalmente em inglês na revista Jacobin

    Tradução Rodrigo Claudio

    1/ Rodríguez 1998, pág. 166.

    2/ Aniversario de la muerte del dictador Francisco Franco y fecha señalada para la nostalgia franquista en España

    3/ Duque, A.: «Franquismo sociológico», Libertad Digital, 18 de marzo de 2005, disponible en <https://www.libertaddigital.com/opinion/aquilino-duque/franquismo-sociologico-23835/>. [Consulta: 3 de mayo de 2018].

    4/ El Valle de Cuelgamuros, conocido como Valle de los Caídos por su denominación franquista.

    5/ La Ley de Principios del Movimiento Nacional (1958) es una de las siete Leyes Fundamentales del régimen de Franco. Establecía, como su nombre indica, los principios en los cuales estaba basado el régimen, los ideales de Patria, familia y religión,

  • Rosa Luxemburgo, 100 anos depois de seu assassinato

    Publicado no viento sur

    Em janeiro de 1919 Rosa Luxemburgo, fundadora do Partido Comunista Alemão( Liga Spartakus) foi assassinada por uma unidade das Freikorps, milícia de oficiais e militares contrarrevolucionários – futuro berçário do partido nazista – que foram enviados para Berlim pelo ministro social-democrata Gustav Noske para acabar com o levante espartaquista.

    É, como Emiliano Zapata nesse mesmo ano, uma “vencida da história”. Mas sua mensagem continua viva no que Walter Benjamin define como “a tradição dos oprimidos”; uma mensagem de cada vez, e inseparavelmente, marxista, revolucionário e humanista. Tanto no que diz respeito à crítica do capitalismo como um sistema desumano, seu combate contra o militarismo, o colonialismo, o imperialismo, como em sua visão de uma sociedade emancipada e sua utopia de um mundo sem exploração, sem alienação e sem fronteiras, este humanismo comunista atravessa como um fio vermelho o conjunto dos seus escritos políticos e também sua correspondência, suas emotivas cartas do cárcere, lidas e relidas por sucessivas gerações de jovens militantes do movimento operário.

    Na perspectiva de uma refundação comunista para o século XXI ressaltaria de forma particular quatro temas de seu pensamento: o internacionalismo, a concepção aberta da história, a importância da democracia nos processos revolucionários e seus interesses pelas tradições comunistas pré-modernas.

    O internacionalismo

    Na época da globalização capitalista, da mundialização neoliberal, da dominação planetária do grande capital financeiro, da internacionalização da economia a serviço do lucro, da especulação e da acumulação, a necessidade de uma resposta internacional, de um novo internacionalismo está mais atual que nunca. Neste sentido, poucas figuras do movimento operário encarnaram de forma tão radical como Rosa Luxemburgo a idéia do internacionalismo, o imperativo categórico da unidade, da associação, da cooperação, da fraternidade das e dos explorados e oprimidos de todos os países e de todos os continentes.

    Irreconciliável adversária dos projetos belicistas do império germânico, não cessou de denunciar o militarismo e a corrida armamentista. É por isso que ela se opôs as barganhas obscuras de Wolfgang Heine e Max Schippel, revisionistas da direita social-democrata, com o governo do Kaiser: voto a favor dos créditos de guerra em troca de medidas sociais, apoio ao militarismo ( reforço a frota naval) para criar postos de trabalho, etc. Rechaçou as pseudo-vantagens obtidas ao preço de consolidar a força militar que, mais cedo ou tarde, será empregada contra outros povos, na Europa ou nas colônias, e inclusive contra os próprios operários e operárias alemães.(1)

    Como se sabe, junto a Karl Liebknecht, foi uma das raras dirigentes do socialismo alemão e europeu que se opôs a União Sagrada e ao voto a favor dos créditos de guerra em 1914. As autoridades do império alemão – com o apoio da direita social-democrata – lhe fizeram pagar caro sua coerente oposição internacionalista a guerra prendendo Rosa durante a maior parte que durou o conflito. É então quando define seu principal ponto de vista em um escrito de 1916: “a pátria dos operários, a cuja defesa tem de subordina-se todos os demais, é a Internacional Socialista.(2)

    Confrontada diante do dramático fracasso da II internacional, se dispôs a unir-se a outros marxistas para criar uma nova internacional. Sonhava com a criação de uma nova internacional dos trabalhadores e somente a morte lhe impediu de participar, junto as e os revolucionários russos, na fundação da Internacional Comunista em 1919.

    Pouca gente compreendeu como ela o perigo mortal que representava para os trabalhadores e trabalhadoras o nacionalismo, o chauvinismo, o racismo, a xenofobia, o militarismo e o expansionismo colonial ou imperial. A tarefa imediata do socialismo, escreveu neste documento espartaquista de 1916, “é a liberação espiritual do proletariado da tutela da burguesia, que se manifesta na influência da ideologia nacionalista.(3) O que ela entende por nacionalismo não são as culturas nacionais dos diferentes povos, se não a ideologia que converte a nação em um valor político e moral supremo, ao que deve subordinar-se tudo. ( “Deutschland über alles”).

    Concordando ou discordando de suas teses sobre a questão nacional, não se pode questionar a força profética de seus escritos. Utilizo a palavra profeta em seu sentido bíblico original ( tão bem definido por Daniel Bensaid em seus últimos escritos): não quem pretende “adivinhar o futuro”se não quem expressa uma antecipação condicional, quem adverte ao povo das catástrofes que acontecerão se não se toma outro caminho.

    Sempre no mesmo documento de 1916, advertiu: enquanto existir o capitalismo e o imperialismo haverá novas guerras””A paz mundial não pode ser assegurada por meio de planos utópicos ou, no fundo, reacionários, como tribunais arbitrais internacionais de diplomatas capitalistas, acordo diplomáticos de desarmamento(…) federações de estados europeus, uniões alfandegárias da Europa central e similares. O imperialismo, o militarismo e as guerras não poderão ser eliminadas ou limitadas enquanto as classes capitalistas sigam exercendo incontestavelmente seu domínio de classe.(4)

    Suas intuições foram proféticas na medida que os priores crimes do século XX – da primeira a segunda guerra mundial ( Auschwitz, Hiroshima) e outros – se cometeram em nome do nacionalismo, da hegemonia nacional, da defesa nacional, do espaço vital nacional e assim sucessivamente. O estalinismo é também o produto de uma degeneração nacionalista do estado soviético, materializada na consigna socialismo em um só país.

    Se pode criticar algumas de suas posições sobre as reivindicações nacionais ( contrariamente a Lênin, se opunha ao direito a autodeterminação das nacionalidades-, mas percebeu de forma clara os perigos das políticas nacionais estatais: conflitos territoriais , depurações étnicas, opressão de minorias. Não pode prever os genocídios…

    Uma concepção aberta da história

    Em segundo lugar, neste final de um século que foi não somente dos “extremos” (Eric Hobsbawm), mas também das manifestações mais brutais da barbárie na história da humanidade, apenas podemos admirar um pensamento revolucionário como o de Rosa Luxemburgo, que soube recusar a ideologia cômoda e conformista do progresso linear, o fatalismo otimista e o evolucionismo passivo da social-democracia, a ilusão perigosa – como fala Walter Benjamin nas suas Teses de 1940 – de que bastaria “nadar a favor da corrente”, deixar que as “condições objetivas” atuassem.Ao anunciar, numa brochura de 1915, A crise da social-democracia (assinada como Junius), a palavra de ordem “socialismo ou barbárie”, Rosa Luxemburgo rompeu com a concepção – de origem burguesa, mas adotada pela Segunda Internacional – da história como progresso irresistível, inevitável, “garantido” pelas leis “objetivas” do desenvolvimento econômico ou da evolução social. Uma concepção maravilhosamente resumida por Gyorgy Valentinovitch Plekhanov, que escreveu: “A vitória de nosso programa é tão inevitável como o nascimento do sol amanhã”. A conclusão política desta ideologia “progressista” não podia deixar de ser a passividade: ninguém teria a brilhante ideia de lutar, arriscar a sua vida, combater, para assegurar a aparição matinal do sol…

    Detenhamo-nos por alguns instantes sobre o alcance político e “filosófico” da palavra de ordem “socialismo ou barbárie”. Ela era sugerida por alguns textos de Marx ou de Engels, mas foi Rosa Luxemburgo que lhe deu esta formulação explícita e definida. A história é percebida como um processo aberto, como uma série de “bifurcações”, onde o “fator subjetivo” – consciência, organização, iniciativa – dos oprimidos torna-se decisivo. Não se trata mais de esperar que o fruto “amadurecesse”, segundo as “leis naturais” da economia ou da história, mas de agir antes que seja tarde demais. Porque a outra cara da alternativa é um perigo sinistro: a barbárie. Através deste termo, Rosa Luxemburgo não designa uma “regressão” impossível a um passado tribal, primitivo ou “selvagem”: trata-se, a seus olhos, de uma barbárie eminentemente moderna, da qual a Primeira Guerra Mundial oferece um exemplo impressionante, muito pior, na sua desumanidade assassina, que as práticas guerreiras dos conquistadores “bárbaros” do fim do Império Romano. Jamais no passado tecnologias tão modernas – os tanques, o gás, a aviação militar – foram empregadas a serviço de uma política imperialista de massacre e de agressão em uma escala tão grande.

    A palavra de ordem de Rosa Luxemburgo também se revelou profética do ponto de vista da história do século XX: a derrota do socialismo no Alemanha abriu o caminho para a vitória do fascismo hitleriano e, em seguida, para a Segunda Guerra Mundial e as formas mais monstruosas de barbárie moderna que a humanidade já conheceu, cujo nome, Auschwitz, tornou-se o símbolo e o resumo.

    Não é casual que a expressão “socialismo ou barbárie” tenha servido de bandeira a um dos grupos mais criativos da esquerda marxista do pós-guerra na França: aquele ao redor da revista do mesmo nome impulsionada nos anos 50 e 60 por Cornelius Castoriadis e Claude Lefort.

    A escolha e o aviso indicados pela palavra de ordem de Rosa Luxemburgo continuam na ordem do dia também na nossa época. O longo período de recuo das forças revolucionárias – do qual começamos pouco a pouco a sair – foi acompanhado da multiplicação de guerras e de massacres de “purificação étnica”, dos Bálcãs à África, do ascenso de racismos, de chauvinismos, de integrismos de toda espécie, inclusive no coração da Europa “civilizada”.

    Mas apresenta-se também um perigo novo, não previsto por Rosa Luxemburgo. Ernest Mandel assinalava, nos seus últimos escritos, que a escolha da humanidade para o século XXI não é mais, como em 1915, “socialismo ou barbárie”, mas “o socialismo ou a morte”. Ele designava, desta forma, o risco da catástrofe ecológica resultante da expansão capitalista mundial, com a sua lógica destruidora do meio ambiente. Se o socialismo não interromper esta corrida vertiginosa para o abismo – da qual a elevação da temperatura do planeta e a destruição da camada de ozono são os sinais mais visíveis – a própria sobrevivência da espécie humana está ameaçada.

    A democracia no socialismo

    Em terceiro lugar, as correntes dominantes do movimento operário conheceram uma derrota histórica – de um lado, pelo colapso pouco glorioso do pretenso “socialismo real”, herdeiro de sessenta anos de estalinismo, e de outro, pela submissão passiva (ou adesão ativa?) da social-democracia às regras neoliberais do jogo capitalista mundial. Frente a isto, a alternativa representada por Rosa Luxemburgo aparece mais do que nunca pertinente: a de um socialismo ao mesmo tempo autenticamente revolucionário e radicalmente democrático.

    Como militante do movimento operário do Império Czarista – ela foi fundadora do Partido Social-Democrata da Polônia e da Lituânia, filiado ao Partido Operário Social-Democrata Russo – ela tinha criticado as tendências, a seu ver muito autoritárias e centralistas, das teses defendidas por Lenin antes de 1905. A sua crítica coincidia, neste ponto, com aquela do jovem Trotsky em As nossas tarefas políticas (1904).

    Ao mesmo tempo, enquanto dirigente da ala esquerda da social-democracia alemã, ela combate a tendência da burocracia (sindical ou política) e das representações parlamentares a monopolizarem as decisões. A greve geral russa de 1905 parece-lhe um exemplo a ser seguido também na Alemanha: ela confia mais na iniciativa das bases operárias que nas decisões sábias dos órgãos dirigentes do movimento operário alemão.

    Tomando conhecimento, na prisão, dos acontecimentos de Outubro de 1917, ela vai imediatamente solidarizar-se com os revolucionários russos. Na brochura sobre a Revolução Russa, redigida em 1918 na prisão (e que só seria publicada depois da sua morte, em 1921), ela saúda com entusiasmo este grande ato histórico emancipador, e presta uma homenagem calorosa aos dirigentes revolucionários de Outubro.

    “Toda a coragem, a energia, a inteligência revolucionária, a lógica que um partido revolucionário pode dar provas em um momento histórico foi demonstrada por Lenin, Trotsky e os seus amigos. Toda a honra e a capacidade de ação revolucionária que faltou à social-democracia ocidental encontra-se entre os bolcheviques. A insurreição de Outubro não serviu apenas para salvar efetivamente a revolução russa, mas também a honra do socialismo internacional”.

    Esta solidariedade não a impede de criticar o que lhe parece errôneo ou perigoso na política dos bolcheviques. Se algumas das suas críticas – sobre a autodeterminação nacional ou sobre a distribuição das terras – são muito discutíveis, e pouco realistas, outras, que tratam da questão da democracia, são muito pertinentes e de uma atualidade notável. Constatando a impossibilidade, nas circunstâncias dramáticas da guerra civil e da intervenção estrangeira, de criar “como que por magia, a mais bela das democracias”, Rosa não deixa de chamar a atenção para o perigo de um certo deslizamento autoritário e reafirma alguns princípios fundamentais da democracia revolucionária.

    “A liberdade apenas para os partidários do governo, só para os membros de um partido – por numerosos que sejam – não é a liberdade. A liberdade é sempre, pelo menos, a liberdade do que pensa de outra forma (…). Sem eleições gerais, sem uma liberdade de imprensa e de reunião ilimitada, sem uma luta de opinião livre, a vida acaba em todas as instituições públicas, vegeta e a burocracia se torna o único elemento ativo”.

    É difícil não reconhecer o alcance profético desta advertência. Alguns anos mais tarde a burocracia apropriou-se da totalidade do poder, excluiu progressivamente os revolucionários de Outubro de 1917 – antes de, no correr dos anos 30, eliminá-los sem piedade. Uma verdadeira refundação do comunismo no século XXI não pode se privar da mensagem revolucionária, marxista, democrática, socialista e libertária de Rosa Luxemburgo.

    Comunismo e comunidade primitiva

    Em quarto lugar, o interesse de Rosa Luxemburgo pela comunidade primitiva é muito menos conhecido e, por isso, vamos dedicar-lhe uma atenção especial neste artigo. O tema central de sua introdução a economia política( manuscrito inacabado publicado por Paul Levi em 1915) é a análise do que ela denomina como sociedade comunista primitiva e sua contraposição a sociedade capitalista mercantil. É certo que se trata de um texto incompleto, escrito na prisão até 1916 a partir das notas de seu curso de economia política na escola do partido social-democrata (1907-1914); tinha previsto outros capítulos que não foram escritos ou que se perderam. Mas isso não explica porque os capítulos dedicados a sociedade comunista primitiva e sua dissolução ocupam mais páginas do que as dedicadas a produção de mercadorias, o trabalho assalariado e as tendências da economia capitalista tomada em seu conjunto.

    Esta forma inabitual de abordar a economia política é provavelmente uma das principais razões porque não se tem dado a devida atenção a este livro, tem sido renegado ou ignorado pela maioria dos economistas marxista e inclusive por biógrafos ou especialistas nos trabalhos de Rosa Luxemburgo. Paul Frolich é uma das raras exceções, assim como Ernest Mandel, autor do prefácio da edição francesa. Pelo contrário, Nettl apenas se refere a ele e não oferece nenhuma informação ou comentário sobre seu conteúdo. Quanto ao Instituto Marx-Engels-Lenin-Stalin de Berlim Oriental, responsável pela edição do texto em 1951, pretende ( em sua introdução) que se trata de uma “apresentação popular dos elementos fundamentais do modo de produção capitalista”, sem fazer nenhuma referência ao fato de que quase a metade do livro está na realidade consagrado ao comunismo primitivo…(5). Portanto, desde nosso ponto de vista, o que dá valor a este livro é precisamente sua visão das comunidades pré-capitalistas e sua forma crítica e original de conceber a evolução das formações sociais , desde o ponto de vista orientado, como diria Walter Benjamin, a escovar a história a contrapelo.

    ***

    Como explicar o interesse de Rosa Luxemburgo pelas comunidades primitivas? Por um lado, é evidente que na existência destas antigas sociedades comunistas se vê uma forma de sacudir e inclusive destruir a “velha noção do caráter eterno da propriedade privada e de sua existência desde a origem do mundo”. (6) É devido a incapacidade de conceber a propriedade comunal e a incompreensão de todo o que não se assemelhe a civilização capitalista que os economistas burgueses rechaçaram obstinadamente reconhecer o feito histórico das comunidades. Assim pois, para Rosa Luxemburgo se trata de um elemento de luta teórica e política sobre um aspecto fundamental da ciência econômica. Por outra parte, desde seu ponto de vista, o comunismo primitivo constitui uma preciosa referência histórica para criticar o capitalismo, para expor seu caráter irracional, reificado, anárquico e para por em evidência a oposição radical entre valor de uso e valor de câmbio.

    Como Mandel ressalta corretamente no prefácio, “a explicação das diferenças fundamentais entre uma economia baseada na produção de valores de uso destinados a satisfazer as necessidades dos produtores e uma economia baseada na produção de mercadorias ocupa a maior parte do deste livro “(7 ). Para Rosa, trata-se de encontrar e resgatar do passado primitivo tudo o que pode, até certo ponto, prefigurar o comunismo moderno.

    Esta atitude de Rosa Luxemburgo não é estranha a uma certa afinidade com as concepções românticas da história, que rejeitam a ideologia burguesa do progresso e criticam os aspectos desumanos da civilização industrial / capitalista (daí o seu interesse em um trabalho de um economista romântico como Sismondi). Enquanto o romantismo tradicional aspira a restaurar um passado idealizado, o romantismo revolucionário do qual Rosa Luxemburgo está próxima procura em certas formas do passado pré-capitalista elementos e aspectos que antecipem o futuro pós-capitalista.

    Em seus escritos e correspondências, Marx e Engels já haviam chamado a atenção para as obras do historiador (romântico) Georg Ludwig von Maurer em relação à antiga comuna germânica (mark). Como Marx e Engels, Rosa Luxemburgo estudou com paixão os escritos de Maurer e maravilhou-se com o funcionamento democrático e igualitário da Comuna e sua transparência social: “É impossível imaginar algo ao mesmo tempo mais simples e mais harmonioso que este sistema econômico da antiga marca germânica. Todo o mecanismo da vida social aparece com absoluta clareza. Um plano estrito e uma organização sólida envolvem aqui a atividade de cada um integrando-o ao todo como uma peça. O ponto de partida e o fim de toda a organização são as necessidades diretas da vida cotidiana e sua satisfação, garantida para todos “(8)

    O que ela valoriza e revela são os elementos dessa formação comunista primitiva que se opõe ao capitalismo e que o torna, até certo ponto, humanamente superior à civilização industrial burguesa. “Há dois mil anos, e ainda antes, naquela antiguidade remota dos povos germânicos, da qual a história escrita ainda não sabe, prevaleceram condições entre os alemães, radicalmente diferentes do presente.

    “Não se conhecia então o estado com leis escritas coercivas, a divisão entre ricos e pobres, dominadores e trabalhadores”(9)

    Com base nos trabalhos do historiador russo Maxime Kovalevsky (pelo que Marx havia se interessado muito), Rosa Luxemburgo insiste sobre a universalidade do comunismo agrário como a forma geral da sociedade humana em um certo estágio de seu desenvolvimento, é encontrada tanto entre os índios das Américas, os incas, os astecas, bem como os cabileños, as tribos africanas e os hindus. O exemplo peruano parece particularmente significativo e há, também, não pode ser impedido de sugerir uma comparação entre a marca dos Incas e sociedade civilizada: “A arte moderna de estar alimentando exclusivamente pelo trabalho dos outros e fazer do ócio atributo de dominação, ainda era estranho à essência dessa organização social em que a propriedade comum e a obrigação geral de trabalhar constituíam costumes populares profundamente arraigados ”. Ela também expressa sua admiração pela “fantástica tenacidade do povo indígena e pelos mecanismos da comunidade da marca, considerando que restos de ambos sobreviveram, apesar de tudo, até o século XXI” (10). Vinte anos mais tarde, o eminente pensador peruano marxista José Carlos Mariátegui encaminha um ponto de vista que mostra coincidências impressionantes com as ideias de Rosa Luxemburgo (da que sem dúvida ignorava suas observações sobre o Peru): o socialismo moderno deve apoiar-se nas tradições indígenas que remontam ao comunismo inca, para ganhar as massas camponesas à sua luta.

    Agora, nesse campo, o autor mais importante para Rosa Luxemburgo, como para Engels em A origem da família, é o antropólogo americano L. H. Morgan. Inspirando-se em sua obra clássica  (Ancient Society, 1877), vai mais longe do que Marx e Engels e desenvolve toda uma visão espetacular da história, uma concepção inovadora e intrépida da evolução milenar da humanidade, na que a civilização atual “com sua propriedade privada, sua dominação de classe, sua dominação masculina, seu estado e seu matrimônio coercitivo”aparece como um simples parênteses, uma transição entre a sociedade comunista primitiva e a sociedade comunista do futuro. A ideia romântica / revolucionária da relação entre o passado e o futuro aparece explicitamente aqui: “A nobre tradição do passado distante estendeu a mão aos esforços revolucionários do futuro, o círculo de conhecimento se fechou harmoniosamente e, nessa perspectiva , o mundo atual de dominação e exploração de classe, que afirmava ser a totalidade da cultura, o objetivo mais alto da história mundial, era simplesmente mostrado como um estágio diminuto e passageiro da grande marcha para frente da humanidade. “(11)

    Nesta perspectiva, a colonização européia dos povos do Terceiro Mundo parece fundamentalmente uma atividade socialmente destrutiva, bárbara e desumana; como é o caso, acima de tudo, da ocupação britânica das Índias, que saquearam e desintegraram as estruturas agrárias comunistas tradicionais, com trágicas consequências para o campesinato. Rosa Luxemburgo compartilha com Marx a convicção de que o imperialismo traz progresso econômico para os países colonizados, embora o faça através dos “métodos infames de uma sociedade de classes”.(12)

    No entanto, enquanto Marx, sem esconder sua indignação com esses métodos, insiste, acima de tudo, no papel economicamente progressista das ferrovias introduzidas pela Inglaterra na Índia, Rosa Luxemburgo coloca mais ênfase nas conseqüências socialmente desastrosas desse progresso capitalista: os laços antigos foram quebrados, o isolamento silencioso do comunismo foi aniquilado e substituído por briga, discórdia, desigualdade e exploração. O resultado foram enormes latifúndios, por um lado, e, por outro, grandes massas de milhões de arrendatários camponeses. A propriedade privada fez sua entrada na Índia e, com ela, o tifo, a fome e o escorbuto tornaram-se os hóspedes permanentes das planícies do Ganges ” (13)

    Este problema não é apenas abordado em Introdução à Economia Política, mas também em A acumulação de capital, onde critica novamente o papel histórico do colonialismo inglês e fica indignado com o desprezo criminoso que os conquistadores europeus manifestaram em relação ao sistema tradicional de irrigação: O capital, em sua cegueira voraz, “é incapaz de enxergar o suficiente para reconhecer os monumentos econômicos de uma civilização mais antiga”; A política colonial produziu o declínio desse sistema tradicional e, como resultado, a fome começou, a partir de 1867, a causar milhões de vítimas na Índia. Quanto à colonização francesa na Argélia, caracterizou-se, a seu ver, por uma tentativa sistemática e deliberada de destruir e dispersar a propriedade comunal, levando à ruína econômica da população indígena.(14)

    Mas além desses exemplos, é o sistema colonial como um todo – espanhol, português, holandês, inglês, alemão, na América Latina, na África ou na Ásia – o que Rosa Luxemburgo denuncia, que permanece firmemente no ponto de vista das vítimas do progresso capitalista: “Para todos os povos primitivos dos países coloniais, o passo das condições comunistas primitivas as capitalistas modernos ocorreu como uma catástrofe repentina, como um infortúnio indescritível cheio de horríveis dores” (15 ). Essa preocupação com a condição social das populações colonizadas é um dos sinais da surpreendente modernidade desse texto; especialmente quando comparado ao livro equivalente de Kautsky (publicado em 1886), em que os povos não europeus estão praticamente ausentes (16 ).

    Esta análise mostra a solidariedade de Rosa Luxemburgo com a luta dos indígenas contra as metrópoles imperialistas; combate em que ela percebe a resistência tenaz e digna de admiração das antigas tradições comunistas contra a busca do lucro e contra a europeização capitalista. Implicitamente, aqui está a idéia de uma aliança entre a luta anticolonial desses povos e a luta anticapitalista do proletariado moderno como uma convergência revolucionária entre o antigo e o novo comunismo …(17)

    Segundo Gilbert Badia, cujo livro sobre Rosa Luxemburgo é um dos raros em examinar criticamente esta problemática, na Introdução à economia política as antigas estruturas das sociedades colonizadas são frequentemente apresentadas como fixas “e radicalmente opostas, por um contraste entre o branco e preto, ao capitalismo “. Em outras palavras: “Para essas comunidades dotadas de todas as virtudes e concebidas como quase imóveis, Rosa Luxemburgo se opõe à função destruidora de um capitalismo que nada tem de progressivo. Estamos longe da burguesia conquistadora evocada por Marx no Manifesto”.(18)

    Essas objeções não parecem justificadas pelas seguintes razões: 1) Rosa Luxemburgo não vê as comunidades como fixas e imóveis: ao contrário, ela mostra suas contradições e transformações. Indica que “A sociedade comunista primitiva conduz pelo seu desenvolvimento interno a desigualdade e o despotismo” (19); 2) Não nega o papel economicamente progressista do capitalismo, mas denuncia os aspectos sujos e socialmente regressivos da colonização capitalista; 3) Apesar de apontar os aspectos positivos do comunismo primitivo, em contraste com a civilização burguesa, tampouco esconde suas limitações e defeitos: estreiteza local, baixa produtividade do trabalho e de desenvolvimento da civilização, impotência frente a natureza, violência brutal, permanente estado de guerra entre as comunidades, etc. (20 ); 4) De fato, o ponto de vista de Rosa Luxemburgo é muito distante do hino a burguesia de Marx em 1848; pelo contrário, está muito próximo do espírito do Capítulo XXXI do Capital (a gênese do capitalismo industrial), no que Marx descreve as barbaridades e atrocidades da colonização européia.

    Na verdade, em relação à comunidade rural russa, Rosa Luxemburgo tem uma visão muito mais crítica do que o próprio Marx. A partir da análise de Engels, que encontrou no final do século XIX o declínio da Obchtchina e sua degeneração, mostra, através desse exemplo, os limites históricos da comunidade tradicional e a necessidade de superá-la.(21)

    Seu olhar é decididamente voltado para o futuro e aqui ele se distancia do romantismo econômico em geral e dos populistas russos em particular, para enfatizar “a diferença fundamental entre a economia socialista mundial do futuro e os grupos comunistas primitivos da pré-história. “(22)

    ***

    Centrando a atenção nesses textos, só queríamos salvar do esquecimento um capítulo desconhecido das obras de Rosa Luxemburgo. Parece-nos que eles abrigam muito mais do que um ponto de vista acadêmico sobre a história econômica: eles sugerem uma outra maneira de conceber o passado e o presente, a historicidade social, o progresso, a modernidade. Confrontando a civilização capitalista industrial com o passado comunitário da humanidade. Rosa Luxemburgo rompe com o evolucionismo linear, o progressivismo positivista, o darwinismo social e todas as interpretações do marxismo que o reduzem a uma versão mais avançada da filosofia do Monsieur Homais [personagem ficcional de Gustav Flaubert em Madame Bovary]. Em última análise, esses textos representam o significado da concepção marxista da história.

     E hoje em dia, quando em várias regiões do mundo e especialmente na América Latina – México, Equador, Bolívia, Peru, entre outros – assistimos a luta de comunidades camponesas e indígenas, com tradições pré-capitalistas ainda muito vivas, em defesa das florestas, de suas terras e rios contra as multinacionais petroleiras e de mineração, o agronegócio capitalista e as políticas neoliberais do governo, responsáveis pelos maiores desastres sociais e ecológicos, adquirem uma relevância renovada,

    13/01/2019

    O original do artigo será publicado no número 659/660 da Inprecor

    Ver também: Rosa Luxemburgo e a social-democracia alemã disponível em:https://www.marxists.org/espanol/mandel/1971/marzo/rosa_l_y_la_socdem_alemana.html

    Notas:

     1/ Compare a análise penetrante deste episódio de Lelio Basso em sua Introdução à R.L., Scritti Politici, Roma, Editori Riuniti, 1967, pp. 26-37 com a incompreensão do biógrafo universitário JPNettl, que não viu em sua crítica do militarismo e  de Schippel mais do que um exercício “árido e formal”, que condenava os trabalhadores ao desemprego, que para Rosa Luxemburgo seria um “estímulo necessário para a luta de classes”! cf. J.P.Nettl, Rosa Luxemburgo, Londres, Oxford University Press, 1966, vol. Eu pp. 216-217.

    2/ Rosa Luxemburg, Tesis sobre las tareas de la socialdemocracia internacional, en El pensamiento de Rosa Luexemburg Antología a cargo de María José Aubet. Ediciones del Serbal 1ª edición 1.983. Disponible en https://www.marxists.org/espanol/luxem/1916/xx.htm

    3/ Ibid.

    4/ Ibid.

    5/ Véase Paul Frölich, Rosa Luxemburg, Paris, Maspéro, 1965, p. 189-192 ; Ernest Mandel, “Préface” à Rosa Luxemburg, Introduction à l’Économie Politique, Paris, Éditions Anthropos, 1970 ; P. Nettl, Rosa Luxemburg. Oxford University Press, 1969, p. 265 ; Marx-Engels-Lenin-Stalin Institut beim ZK der SED, “Bemerkungen zu Rosa Luxemburgs Einfùhrung in die Nationalôkonomic” in Rosa Luxemburg, Ausgewählte Reden und Schriften, Berlin, Dietz Verlag, 1955, p. 403-410.

    6/ Rosa Luxemburg, Introducción a la economía política (IEP), p. 51.

    7/ E. Mandel, Préface a IEP, p. XVIII, disponible en http://www.ernestmandel.org/new/ecrits/article/preface-a-introduction-a-l

    8/ R. Luxemburg. IEP, p. 83.

    9/ Ibid. p. 45.

    10/ Ibid, pp. 58.

    11/ Ibid., p. 56.

    12/ Ibid., pp. 108

    13/ Ibid. P. 49. Este fragmento parece sugerir uma visão idílica da estrutura social tradicional na índia: entretanto, em outro capítulo do libro, Rosa Luxemburgo reconhece a existência, por cima das comunidades rurais, de um poder despótico e de uma casta de sacerdotes privilegiados que instituiam relações de exploração e desigualdade social.

    14/ Rosa Luxemburg, The Accumulation of Capital, London, Routledge and Kegan Paul, 1951, pp. 376, 380.

    15/ IEP, p.120.

    16/ Véase el prefacio de E. Mandel, IEP, p. XVII-XVIII.

    17/ IEP, p. 92.

    18/ G. Badia, Rosa Luxemburg. Journaliste, Polémiste. Révolutionnaire, Paris, Éditions Sociales 1975, p. 498, 501.

    19/ IEP. p. 158.

    20/ , pp. 85.

    21/ lbid..p. 102.

    22/ ,p.80. No mesmo contexto, Rosa Luxemburgo reconhece (como Marx) que “a sociedade capitalista oferece pela primeira vez a possibilidade histórica de realizar o socialismo”, sobretudo através da unificação econômica do mundo e do desenvolvimento das forças produtivas.

  • Greve de 150 milhões e as próximas eleições na Índia

    Na última semana repercutiu na mídia alternativa a greve geral de dois dias que aconteceu na Índia. No Brasil, nenhum comentário na grande mídia.

    Uma Convenção Nacional da Classe Trabalhadora envolvendo a INTUC, AITUC, HMS, CITU, AIUTUC, TUCC, SEWA, AICCTU, LPF e UTUC convocou a greve e aprovou uma carta de 12 reivindicações dirigidas ao Governo Narendra Modi, eleito em 2014. Dentre as principais reivindicações estão o cancelamento das emendas as Leis Sindicais que atacam a organização sindical e proteção ao trabalho, aumento do salário mínimo e fim das privatizações.

    Segundo os sindicatos, foram mobilizados mais de 150 milhões de trabalhadores, alguns chegam afirmam 200 milhões. Com esses números pode ser considerada a maior greve da história em número de aderentes, a segunda sob o governo Narendra Modi, sendo que a primeira foi em 6 de setembro de 2016. Apenas uma central retirou-se da greve nacional: o Bharatiya Mazdoor Sangh (BMS), dirigido pelo grupo nacionalista hindu Rashtriya Swayamsevak Sangh, mesmo partido do governo.

    Segundo Amarjeet Kaur, do AITUC, a greve paralisou praticamente oito estados, principalmente no nordeste, Kerala, Bihar e Goa. As centrais sindicais e sindicatos ameaçaram seguir a greve por tempo indefinido, caso o governo não atendesse às reivindicações.

    A aplicação da política “nacionalista” e economia ultraliberal do governo Modi levou a considerável piora das condições de vida da classe trabalhadora, da juventude, das mulheres e no campo. Todos estes setores têm se mobilizado contra o governo do Bharatiya Janata Party (BJP), partido nacionalista hindu, de centro-direita, sob a liderança de Narendra Modi que foi eleito com a promessa de criação de 10 milhões de empregos por ano e “Vikas” (progresso). Entretanto, nenhuma de suas promessas foram realizadas, ao contrário, as condições de vida só pioraram.

    Nos últimos anos as mobilizações têm crescido e o sucesso desta greve geral deve também a grande adesão dos estudantes que há anos tem realizado protestos contra a política educacional do governo e dos pequenos agricultores.

    Após uma onda de vitórias no sul asiático de partidos de extrema-direita com discursos de ordem, contra a corrupção, de caráter “nacionalista” e políticas ultraliberais, grandes mobilizações na Índia, Paquistão e Bangladesh demonstram uma importante resistência e a possibilidade de movimentos que podem alterar a geopolítica desta região com efeitos em todo mundo.

    Assim, ganham muita importância os próximos passos a serem dados pelo movimento após esta greve geral na Índia, já que podem afetar significativamente o resultado das eleições previstas para abril ou maio deste ano. Uma derrota do governo modificaria bastante o quadro da luta de classes e da própria geopolítica na região.

    O movimento operário e a esquerda socialista devem acompanhar atentamente estes acontecimentos.

  • Por uma campanha internacional em defesa da soberania da Venezuela

    No dia 10 de janeiro, tomou posse da Presidência da República Bolivariana da Venezuela para exercer seu segundo mandato, Nicolás Maduro, Partido Socialista Unido da Venezuela-PSUV, reeleito por eleições diretas e secretas ocorridas no mês de maio de 2018.

    Tal posse, desencadeou toda uma evidência nas mídias empresariais, nos meios de esquerda e no posicionamento dos governos pelo mundo afora. Uma análise marxista da situação da Venezuela não deve esquecer pelo menos 3 elementos:

    • Primeiro, as agências de notícias internacionais (Agence France-Presse/AFP, CNN, Reuters, BBC) nas quais se pautam a maioria das empresas do jornalismo brasileiro e forma inclusive a opinião dos próprios profissionais são corporações empresariais a serviço do grande capital, portanto, as notícias vindas desse meio devem ser sempre checadas e reavaliadas por fontes diversas;

    • Segundo, existe no mundo uma hierarquia global no sistema mundial de Estados, na qual, os Estados imperialistas ditam a agenda diplomática, política, militar e econômica global, neste caso, a Venezuela é um país independente politicamente, mas não é um país socialista. O fato de o bolivarianismo ter cometido vários erros por sua própria natureza social não nega que buscaram afirmar política e juridicamente sua soberania nacional, ainda que parcial, e, por isso mesmo, tornaram-se alvo da fúria dos países imperialistas e dos seus governos sócios mais servis a exemplo da Colômbia e do Brasil;

    • Terceiro, um Estado capitalista, por mais democrático que seja sempre será uma ditadura de uma classe que exerce seu poder e opressão sobre as demais classes subalternas e, nestes termos, também é a natureza dos parlamentos liberais-democráticos.

    Analisando formalmente, sob a ótica da democracia liberal, não se pode dizer que a maioria dos países latino-americanos são mais democráticos do que a Venezuela, pois em maio de 2018 ocorreu a 23ª eleição do chamado processo bolivariano. Foi naquela eleição que Maduro venceu concorrendo contra outros três candidatos.

    No Brasil, por exemplo, existem eleições diretas e secretas, mas não existem eleições livres, já que a compra de votos que impera nas regiões mais pobres do país, o financiamento (mesmo oficial) extremamente desigual de campanha e a manipulação da mídia empresarial em favor de alguns candidatos preferidos do capital, como o ocorreu com a candidatura de Bolsonaro, facilmente demonstra que as eleições burguesas possuem uma natureza cuja mudança sempre esbarra no limite do sistema econômico e político a qual está inserida, o sistema capitalista.

    O calendário eleitoral vigente na Venezuela, que hoje é totalmente ocultado de forma proposital pelas grandes corporações empresárias de agências de notícias, foi aprovado anteriormente pela Assembleia Nacional Constituinte (ANC), a qual foi convocada em 1º de maio de 2017 e realizadas em 30 de julho do mesmo ano, sob o boicote da oposição (MUD).

    A MUD controlava a maioria da Assembleia Nacional (Congresso) e pretendia com essa maioria provocar um golpe parlamentar ou mesmo a renúncia de Maduro. Naquele contexto, a mesma OEA que legitimou o golpe contra Zelaya em Honduras, contra Lugo no Paraguai e contra Dilma no Brasil, passou a boicotar qualquer decisão da ANC e do governo Maduro.

    Apoiados pela OEA, pelo Governo Trump e pela União Europeia, a direita venezuelana apostou todas as suas fichas no boicote da ANC, utilizando duas táticas: por um lado, convocou um plebiscito informal para tentar revogar o mandato de Maduro (não reconhecido pelo Conselho Nacional Eleitoral) e, por outro, organizaram ações diretas com as chamadas “guarimbas” que foram os bloqueios violentos e armados de rua onde ativistas sociais chavistas ou pessoas “de vermelho” eram queimadas vivas.

    As duas táticas da MUD foram derrotadas e pouco a pouco as “guarimbas” foram reprimidas ou foram se esvaziando, e a ANC se legitimou institucionalmente perante a Assembleia Nacional (Congresso). Neste contexto, a ANC aprovou um novo calendário eleitoral com novas eleições regionais (outubro de 2017), presidenciais (maio de 2018) e municipais (dezembro de 2018).

    Seguindo o calendário eleitoral da ANC, ocorreram as duas mais importantes eleições: as regionais de outubro de 2017 e as presidenciais de maio de 2018. Nas regionais, o governo perdeu em 5 dos 23 Estados da Federação (Anzoátegui, Mérida, Táchira, Nueva Esparta e Zulia). A MUD que se apresentou totalmente dividida nesta disputa, pois uma parte chamou o já conhecido boicote, e passou a agitar fraude sem grandes apoios das ruas.

    As presidenciais ocorreram em maio de 2018, com um colégio eleitoral de mais de 20 milhões de eleitores, assinalando uma participação de mais de 9 milhões de eleitores. Nicolás Maduro, obteve 6.245.862 de votos (67,8% dos votos válidos), Henri Falcón obteve 1.927.387 de votos (20,99% dos válidos), Javier Bertucci 996.181 votos (10,82% dos votos válidos), e Reinaldo Quijada 36.246 votos (3,96% dos votos válidos). Igualmente, um setor da oposição de direita chamou ao boicote.

    Nestes termos, Maduro obteve uma vitória eleitoral, nos marcos de um regime democrático-burguês, com características bonapartistas e nacionalistas. Sob essa ótica sua posse é totalmente legítima. Seu grande erro não foi ter respondido à tentativa de golpe da MUD com a convocação da ANC, seu erro foi não alargar as atribuições da Constituinte para que haja uma expropriação de todos grandes grupos privados do país, no monopólio do comércio exterior e na planificação da economia, em favor de uma transição ao socialismo, apoiado no controle popular e democrático.

    Um dos principais erros de Maduro tem sido se apoiar mais nas instituições coercitivas do Estado para combater a direita do que se apoiar na classe operária e nos setores populares para expropriar o capital. No entanto, frente a isso, defender a Assembleia Nacional (Congresso) contra a ANC é um erro completo de setores democráticos e de esquerda.

    A gigantesca e mais importante tarefa que está no topo da hierarquia da luta anti-imperialista é a defesa da soberania nacional de todos países da América Latina, ainda mais diante do cerco de governos de direita que estamos presenciando no Brasil, Argentina e Colômbia. Sem enfrentar o domínio do imperialismo torna-se impossível defender os interesses da classe trabalhadora e demais setores oprimidos.

    Defender a soberania dos países contra o imperialismo: a primeira das tarefas das organizações de esquerda

    Com a vitória de Ivan Duque na Colômbia e de Bolsonaro no Brasil, e agora com o apoio direto da OEA e do Grupo de Lima, juntamente com o boicote econômico e diplomático dos EUA, que é a principal causa da crise econômica e migratória do país, a direita golpista da MUD se sentiu fortalecida para tentar criar novamente um ambiente para intervenções militares estrangeiras e/ou dissidências internas nas forças armadas daquele país.

    A declaração do líder direitista, Juan Guaidó, presidente da deslegitimada Assembleia Nacional (Congresso) se dispondo a assumir a presidência, sem ter sido sequer candidato em maio de 2018, não deixa margens de dúvidas.

    Chávez e Maduro por sua natureza social e pelos limites do seu programa não construíram saídas estruturais em direção ao socialismo – começando por mudar a matriz econômica do país há muito dependente da renda do petróleo, quando o preço do petróleo estava no auge no mercado internacional – para que efetivamente se pudesse substituir a dependência das importações de produtos de consumo de primeira necessidade como alimentos, roupas e remédios, produzidos por uma base industrial estatal.

    Reconhecer os erros e limites do processo bolivariano não pode nos fazer cair na armadilha de na política concreta para ação se aproximar da estratégia do imperialismo que é derrubar o governo Maduro e impor de imediato um governo da direita, o que significaria uma derrota histórica dos trabalhadores e do povo daquele país e de toda esquerda no continente.

    Para enfrentar o capital em todos os terrenos é preciso organizar e construir uma saída da classe trabalhadora, mas sem perder de vista que tal construção passa por defender em primeiro lugar a soberania nacional. Defender a soberania nacional contra a ingerência imperialista e da OEA, das agências de notícias internacionais e dos governos da direita regional, é a primeira tarefa democrática da esquerda no mundo.

    Não podemos permitir em hipótese alguma que o governo Maduro seja derrotado pela MUD e pelo Grupo de Lima. Neste sentido, deixamos aqui um chamado para que a esquerda se una numa frente em defesa da soberania da Venezuela. Por outro lado, temos que exigir do governo Maduro que combate aos golpistas da MUD não pode justificar nenhuma medida coercitiva contra as organizações populares, o movimento operário e a esquerda socialista. Isso debilita a luta pelo socialismo que o próprio governo reivindica em seus discursos.

    Diante do cerco cada vez maior do imperialismo à Venezuela, é urgente que a esquerda latino-americana coloque em marcha uma campanha que levante bem alto a bandeira: Fora Trump da América Latina! Tirem as mãos da Venezuela!

  • O fenômeno Alexandria Ocasio-Cortez e o fascínio da esquerda

    Introdução

    Tem causado grande repercussão a proposta realizada durante uma entrevista para a TV da parlamentar estadunidense, Alexandria Ocasio-Lopez. A congressista, de 29 anos, defende o aumento da taxação para 70% da renda dos que ganham mais de US$ 10 milhões por ano. Apesar do verdadeiro escândalo feito pelos partidos políticos tradicionais e a grande mídia contra essa proposta, a mesma foi recebida com grande euforia por organizações socialistas para além dos EUA. Porém, o quão “radical” de fato representa essa proposta, quais seriam seus efeitos na realidade e o quanto é uma medida de um programa socialista?

    O fenômeno Ocasio-Cortez e o “socialismo democrático”

    Há um movimento político que vem crescendo de forma exponencial nos últimos anos nos EUA, reconhecido pela sigla em inglês como DSA (Socialistas Democráticos da América). O número de filiados cresceu mais de 10 vezes de 2016 para 2018[1], ultrapassando 50 mil pessoas. O fenômeno mais recente pertencente a esta organização se chama Alexandrina Ocasio-Cortez. Com apenas 29 anos, filha de mãe porto-riquenha e pai nascido no Bronx, tornou-se a mulher mais jovem a ocupar uma cadeira no Congresso estadunidense, em uma vitória arrebatadora contra o candidato republicano Anthony Papas. Anteriormente, conseguiu a candidatura pelos Democratas[2], derrotando de forma surpreendente o candidato Joe Crowley, forte nome do partido, que ocupava uma cadeira no parlamento desde 1999. Ocasio-Cortez fez uma campanha com forte mobilização de base, sem aceitar dinheiro de grandes empresas. Cerca de 70% do total das doações foram individuais e com valores inferiores a US$ 200,00[3], equivalente a menos de ¼ do concorrente democrata.

    Ocasio-Cortez, que até um pouco mais de 1 ano atrás trabalhava como garçonete em um bar, e ainda hoje paga pelas despesas do financiamento da faculdade – onde se formou em Relações Econômicas e Internacionais na Universidade de Boston -, trabalhou voluntariamente na campanha do senador Bernie Sanders, em 2016, pelas primárias para a candidatura presidencial democrata. O candidato foi derrotado por Hillary Clinton, que posteriormente foi derrotada nas eleições por Donald Trump. Sanders, que também se reivindica como um socialista democrático, embora nunca tenha se apresentado oficialmente pela DSA, alavancou o nome da organização a nível nacional, atraindo muitos ativistas, majoritariamente jovens. Como era de se esperar, a palavra socialismo ganhou grande destaque no cenário dos EUA, além de trazer muitos questionamentos do ativismo sobre o que é de fato o “socialismo democrático” defendido por Sanders, Ocasio-Cortez, entre outras figuras do DSA. É comum também questionamentos da relação deste “socialismo democrático” com experiências internacionais anteriores que se reivindicavam socialistas.

    A “radical” proposta de Ocasio-Cortez: taxação de 70% da renda de superricos

    Uma das grandes polêmicas envolvendo a mais jovem congressista dos EUA se relaciona com a proposta apresentada no programa “60 Minutes”[4]. Na entrevista, Ocasio-Cortez propõe uma taxação de 70% da renda das pessoas que recebem mais de US$ 10 milhões por ano (o equivalente a uma renda mensal superior a US$ 833 mil). O objetivo da proposta seria o financiamento de um novo plano de políticas ambientais. Logo que divulgada, os principais meios de comunicação nacionais ficaram escandalizados com a proposta, não economizando na utilização de adjetivos negativos. A recepção positiva a proposta de Ocasio-Cortez vieram dos setores mais à esquerda da sociedade, em nível internacional, incluindo o Brasil. “Radicalização” foi uma palavra bastante utilizada por ambos os lados, porém com conotações obviamente opostas.

    A surpresa – sobretudo para a esquerda não-estadunidense – é que este valor de taxação não é uma novidade na história do país. Tão pouco foi uma medida reconhecida como radical e/ou socialista à época. Ocasio-Cortez quer na verdade retornar as taxas da década de 80 – antes do governo de Ronald Reagan – do imposto de renda dos setores mais ricos. A taxa naquela época era a mesma proposta atualmente: 70%. Segundo reportagem recente da New York Magazine[5], esta medida, além de ser dominante naquele período, era também considerada como moderada. Destaca-se ainda que Ocasio-Cortez quer a taxação apenas dos que recebem acima de US$ 10 milhões anuais. Já a medida anterior afetava as rendas acima de US$ 216 mil anuais (o que equivale um pouco mais US$ 658 mil nos dias atuais). Além disso, os níveis de desigualdade social antes eram consideravelmente menores do que são hoje.

    Apesar da proposta da congressista não ter como fim políticas para redução da desigualdade, e sim de financiamento de políticas ambientais, há de se questionar também a efetividade dessa medida. Atualmente, há mecanismos dos mais diversos de evasão tributária, sendo um dos mais famosos os conhecidos “paraísos fiscais”. Ou seja, para que essa política tivesse uma efetividade relevante, deveria ser travada uma dura batalha por uma reforma sobre a atual liberdade de movimentações de capitais internacionais. Esta medida obviamente está para além do território estadunidense.

    O deslumbre de movimentos socialistas internacionais com o DSA

    O que fez a opinião não só dos grandes canais de comunicação, mas também das principais frações políticas burguesas e das instituições governamentais mudarem de forma tão radical quanto a uma proposta muito mais moderada do que a de décadas atrás (que já era considerada moderada)? A resposta pode estar nas transformações que o capitalismo tem sofrido nas últimas décadas, além da força da crise estrutural iniciada em 2008. A reação do capital tem sido violenta na retirada de direitos, ofensiva ideológica e precarização brutal da vida dos(as) trabalhadores(as), para conseguir manter suas taxas de lucro e sobreviver à concorrência do mercado. Portanto, não é de se surpreender que organizações direta ou indiretamente ligadas ao capital irão considerar um verdadeiro escândalo a proposta de Ocasio-Cortez.

    O surpreendente, porém, é ver organizações e militantes de movimentos socialistas encantados com essa proposta, tomando-o como um grande exemplo de política de um programa socialista. Sabemos que o socialismo nunca foi tão falado – a nível internacional – nos últimos anos, como nos dias de hoje. Está presente desde as falas da campanha e posse de Jair Bolsonaro (“O Brasil começa a se libertar do socialismo”[6]), até nas de políticos e organizações como Sanders e o DSA que se reivindicam socialistas. Mas afinal, alguma dessas “versões”, tem alguma relação com o socialismo?

    Bernie Sanders, já defendeu ideias como “manter o forte espírito empreendedor que temos neste país para continuar a produzir riqueza, mas garantir que a riqueza seja distribuída mais igualmente que hoje”[7]. Além disso, diz se inspirar em regimes como dos países nórdicos e os sistemas públicos e gratuitos criados por estes nas áreas de saúde e educação. Por outro lado, há grande diversificação ideológica dentro do DSA, com espectros que defendem desde o Estado de bem-estar social liberal, até de fato os que defendem uma mudança sistêmica radical com a derrocada do capitalismo.

    O deslumbramento de diversos movimentos socialistas pelo mundo (em sua maioria pequenos grupos) pelas plataformas políticas como as de Sanders e Ocasio-Cortez dizem muito sobre o momento amargo que vivemos. Não raras às vezes, a política de organizações socialistas tem como horizonte a reforma do Estado capitalista. Porém, sequer tangenciam questões centrais como a socialização do poder político-econômico pelos trabalhadores ou formas de transição para alcança-la. Tudo isso não quer dizer que essas experiências citadas não sejam relevantes, muito menos que não nos tragam ensinamentos importantes – sobretudo em relação ao trabalho de base. Porém, se quisermos que o socialismo seja uma alternativa real para a classe trabalhadora, sem ser o espantalho usado pelo o neofascismo, nem a versão moderada usada pela social democracia, será preciso questionar os limites cada vez mais gritantes do capitalismo.

    *Esse texto reflete a opinião do autor e não, necessariamente, a opinião editorial do Esquerda Online

    [1] https://www.bbc.com/portuguese/internacional-46083388

    [2] Os militantes do DSA que concorrem a cargos políticos, não utilizam a sigla própria na esmagadora maioria dos casos, e concorrem pelo Partido Democrata, por opção tática.

    [3] https://oglobo.globo.com/mundo/nasce-uma-estrela-quem-alexandria-ocasio-cortez-que-derrotou-raposa-democrata-22825978

    [4] https://www.cbsnews.com/news/alexandria-ocasio-cortez-the-rookie-congresswoman-challenging-the-democratic-establishment-60-minutes-interview-full-transcript-2019-01-06/

    [5] http://nymag.com/intelligencer/2019/01/alexandria-ocasio-cortez-70-top-tax-rate-60-minutes-green-new-deal.html?fbclid=IwAR3Y6BaGRi89dkATpgE6P6R15A3OP21VJb91Pk0ukkRBGJ9kL5VrBcm5XtI

    [6] https://brasil.elpais.com/brasil/2019/01/01/politica/1546380630_050685.html

    [7] https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/02/160220_bernie_sanders_socialista_eua_eleicoes_jf_rb

  • Defender a Venezuela dos ataques de Trump e Bolsonaro

    Um país cheio de petróleo tem uma crise de governo. O presidente dos EUA afirma que aquele governo é uma ditadura e ameaça intervir. Uma campanha contra o governo daquele país é feita, parte da população dos EUA começa a apoiar um ataque militar contra o país. Os EUA invadem o país numa guerra sangrenta, derrubam o governo ditatorial e estabelecem outro governo ditatorial, mas que é submisso aos EUA e permite que as multinacionais estadunidenses explorem o petróleo naquele país.

    A história se repete, só que dessa vez o suposto inimigo não são os “fundamentalistas islâmicos” e sim a “ditadura comunista” da Venezuela. É verdade que o governo venezuelano não é democrático, mas não é a única ditadura do mundo e nem se pode dizer que é a pior. O interesse dos EUA não é acabar com a “ditadura comunista venezuelana”, mas sim eliminar um obstáculo a seus interesses político-financeiros na América Latina.

    Nem Trump, nem Bolsonaro são amigos do povo venezuelano, são apenas oportunistas. Bolsonaro é conhecido defensor da Ditadura Militar de 1964 e não tem moral nenhuma para criticar o autoritarismo de Maduro. Muito menos Trump, que é o maior representante do novo ascenso da extrema-direita neofascista internacional.

    Apesar de tudo isso, é verdade que o governo venezuelano é autoritário, do tipo bonapartista: um governo populista militarista que massacra a oposição, ora a partir de medidas populistas, utilizando a popularidade do presidente, ora a partir da repressão militar e do controle absoluto das instituições “democráticas” pelo partido que está no governo.

    Entretanto, a única forma de derrotar o bonapartismo de Nicolás Maduro é primeiro, derrotar a política internacional de boicote econômico à Venezuela, política encabeçada justamente pelos Estados Unidos. Segundo, restaurar a soberania nacional do povo venezuelano, que é o único que tem o direito de julgar a legitimidade do governo Maduro. É o povo venezuelano que deve se organizar politicamente para resolver esse impasse, rejeitando, em primeiro lugar, a política imperialista estadunidense.

    Nem Trump, nem Bolsonaro pretendem realmente “restaurar a democracia” na Venezuela. Tudo o que pretendem, na verdade, é restaurar um governo que seja submisso aos interesses dos EUA na América Latina.

    Uma polêmica com a esquerda

    Eu vejo que existem, hoje, duas posições equivocadas no espectro da esquerda.

    A primeira é a que coloca em primeiro lugar a oposição a Maduro. A oposição à política dos EUA fica em segundo plano, muitas vezes numa nota de rodapé. Numa disputa entre setores burgueses – de um lado, a burguesia imperialista e, de outro, a chamada boliburguesia que se formou na Venezuela a partir da exploração do petróleo – é preciso entender qual é o inimigo mais imediato, o mais forte e que mais se opõe aos verdadeiros interesses do povo venezuelano. Neste caso, obviamente, a burguesia imperialista.

    Leon Trotsky faz uma analogia interessante para esses casos:

    Quando um dos meus inimigos coloca diante de mim pequenas porções diárias de veneno e o segundo, por outro lado, está prestes a dar-me um tiro, devo, primeiro, arrancar o revólver da mão do meu segundo inimigo, pois isso me dá a oportunidade de me livrar do meu primeiro inimigo. Mas isso não significa que o veneno seja um “mal menor” em comparação com o revólver.

    Assim, nem Maduro nem Trump são o “mal menor da Venezuela”. Entretanto, é evidente que a política de Trump é a que, de imediato, representa o maior perigo: a política de boicote e intervenção militar é uma ameaça imediata à vida do povo trabalhador venezuelano. Sem a crise de fome e sem a ameaça de uma guerra, este povo terá muito mais condições de enfrentar seu envenenamento diário, o governo Maduro.

    A segunda posição equivocada é a que diz que “não reconhecer a legitimidade do governo Maduro é apoiar o golpe e a intervenção militar imperialista”. Ora, o que determina a “legitimidade ou não” de Maduro não são as intenções do imperialismo, e sim a forma como seu governo estabelece seu próprio poder.

    Considero muito estranho que um socialista, ainda mais da ala revolucionária, diga que um governo burguês qualquer (ainda que seja nacionalista burguês) é “legítimo”. Em minha opinião, não existe governo burguês “legítimo”, ainda mais um governo bonapartista, que, apenas para começo de conversa, para se eleger, deu vários golpes nos partidos que não são seus diretos aliados, colocando na ilegalidade 37 deles com uma exigência absurda e infactível de “recadastramento”.

    As eleições burguesas, nós sabemos, são uma farsa, um verdadeiro “show” para alienar o povo. Na verdade, embora haja muitas variáveis em jogo, a variável determinante para a eleição de um governante, em última instância, são os interesses daqueles que detém o poder econômico da sociedade. Apenas combatendo esse poder econômico seria possível eleger um governo “legítimo”. Um governo escolhido pela burguesia por acaso pode ser considerado legítimo?

    É verdade que há uma ofensiva imperialista para derrotar o povo venezuelano a partir do discurso de “ilegitimidade” de Maduro. Mas nós não mudamos a caracterização de um governo ao sabor do vento. Determinar se um governo é legítimo depende apenas das características desse governo e não da política imperialista. Nós não podemos mudar a caracterização de acordo com a política, pelo contrário: nós temos que adequar à política de acordo com a caracterização.

    Não é possível mudar os fatos pelo desejo. Apenas a ação política concreta é capaz de mudar fatos. O combate à política imperialista só pode ser efetivo se nós dissermos a verdade: não há nada de legítimo no governo Maduro, mas é o povo venezuelano que tem que tirar essa conclusão, sem ilusão no oportunismo do Trump.

    *Esse texto reflete a opinião do autor e não, necessariamente, a opinião editorial do Esquerda Online

  • Acordo do Brexit é rejeitado. Corbyn protocola “Moção de Desconfiança” do governo de Theresa May

    Theresa May bateu recorde nesta terça-feira, 15 de janeiro. Na sessão do Parlamento que votou sua Proposta de Acordo para a saída da União Europeia, o Projeto do Brexit, seu governo foi derrotado por 432 a 202 votos. Esta diferença de 202 votos foi a maior derrota que um governo já sofreu na história do Parlamento, batendo a marca de 166 votos do governo de minoria de Ramsay MacDonald, em 1924.

    Logo após o anúncio da derrota categórica do governo, justamente no item central de seu governo e sua atividade prioritária nos últimos dois anos, o líder da oposição Jeremy Corbyn protocolou uma Moção de Desconfiança – a ser submetida ao parlamento já nesta quarta-feira, dia 16. Caso a PM Theresa May seja derrotada e um novo governo não seja montado e aprovado em até quinze dias, seu governo é destituído e novas Eleições Gerais serão convocadas.

    Porém, não é provável que Theresa May tenha a mesma derrota que nesta votação. A maioria dos parlamentares rejeita seu projeto de Brexit – seja por não querer a saída da União Europeia, seja por achar que o acordo não leva ao nível desejado de separação – mas se apavora com a perspectiva de antecipação das eleições.

    Uma nova eleição, segundo a maioria das pesquisas de opinião, muito provavelmente levaria a um governo de maioria Labour, liderado por Jeremy Corbyn e seu Manifesto “For the Many, not the Few” (“Para a maioria, não para a minoria”). É um programa que, embora não possa ser classificado como socialista, defende o fim das privatizações e a nacionalização de empresas privatizadas, a taxação de grandes fortunas, fim dos cortes nas áreas sociais e o fim das taxas em serviços como educação superior e saúde.

    Mas provavelmente, mesmo vencendo a votação da Moção, o governo May ainda estará, para dizer o mínimo, profundamente desgastado. Segundo analistas de diversos canais, ao analisar a derrota colossal de hoje, o governo May já seria um zumbi, sem condições de governabilidade.

    É urgente e necessário que, além da pressão no Parlamento, os sindicatos e o Labour Party convoquem – e joguem peso – em manifestações, lutas e greves, para garantir o fim do governo de May e que o país tenha um governo Corbyn que aplique as linhas de seu manifesto, governando de fato para a maioria com uma agenda anti-austeridade e anti-capitalista. Um governo Corbyn com este perfil em um país como a Grã-Bretanha teria, certamente, um impacto positivo nas lutas sociais não somente na Europa, mas em nível internacional.

    Fora May – Eleições Gerais Já! Corbyn PM – For the Many, not the Few!

    O Labour está em campanha por novas Eleições Gerais – embora não descarte uma futura campanha por um novo referendo caso o governo May ou outro Conservador siga em Westminster ao longo deste processo. Esse debate está presente também na sociedade, nos locais de trabalho e nos movimentos sociais e organizações de esquerda.

    Neste momento, o primordial é a unificação das lutas pela saída de May e dos Conservadores do poder e que Corbyn governe sem alianças com a direita para aplicar as políticas do Manifesto. Até mesmo porque, como ficou claro no caso do Syriza na Grécia, em 2015, a União Europeia não é um bloco democrático que apoia agendas anti-austeridade entre seus países membros.

    É preciso combater o projeto do acordo de Brexit da direita Tory (Partido Conservador), mas a tarefa do momento é derrubar este governo e garantir novas eleições. Para isso, que não é um objetivo impossível, é necessário ter a firmeza no programa e disposição de luta não apenas no Parlamento, mas principalmente nas ruas, escolas e locais de trabalho de todo o país.

  • Um marxismo esquecido, Rosa Luxemburgo cem anos depois: por que devemos voltar ao seu pensamento?

    “Aqui jaz Rosa Luxemburgo, judia da Polônia, vanguarda dos operários alemães, morta por ordem dos opressores. Oprimidos, enterrai vossas desavenças!” (Bertold Brecht no epitáfio de Rosa Luxemburgo, 1919)

    Não se pode lançar contra os operários insulto mais grosseiro, nem calúnia mais indigna que a frase ‘as polêmicas são para os acadêmicos”. (Rosa Luxemburgo, em Reforma ou Revolução social, 1900)

    Rosa Luxemburgo (1871-1919) foi a principal dirigente e teórica do marxismo revolucionário. Judia sem religião, polaca sem passaporte, militante socialista desde os 15 anos, doutorada em Zurique, naturalizada alemã, mas internacionalista irredutível, dirigente política quando as mulheres ainda nem podiam votar, Rosa Luxemburgo era considerada por apoiadores e adversários como “uma das melhores cabeças do socialismo internacional”. Foi assassinada há cem anos, em 15 de janeiro de 1919, a mando dos seus antigos camaradas socialdemocratas.

    Mas, no ano em marca o centenário de sua trágica morte, Rosa Luxemburgo continua sendo mais reverenciada como “ícone revolucionária do que por suas ideias”, como diz Isabel Loureiro, principal estudiosa e tradutora de grande parte de sua obra para o português.1

    *

    A marca registrada de trajetória de vida de Rosa Luxemburgo foi o engajamento total, “de corpo e alma”, na militância do movimento socialista internacional entre 1893 a 1919. Oradora brilhante, capaz de chacoalhar o sempre disciplinado e monótono auditório socialdemocrata cada vez mais reformista. Incansável agitadora que percorria fábricas, meetins e demais associações operárias tanto na Polônia russa2, quanto nas cidades do Império alemão. Talentosa teórica, sendo uma das principais instrutoras das escolas políticas do SPD (Partido Social-Democrata Alemão), sobretudo de cursos de economia política.

    Mas foi, sobretudo, uma implacável polemista que desafiou os principais nomes do socialismo alemão (e, portanto, também da direção da II Internacional). Na virada do século foi protagonista no debate contra as propostas de Eduard Bernstein – conhecidas por revisionismo – que visavam converter o SPD num partido dedicado à reforma gradual do capitalismo – não mais à luta pelo socialismo. Fizera-o com tal vigor, e publicado em seu livro, Reforma social ou revolução3, que a velha direção do SPD, inicialmente inclinada a apoiar Bernstein, acabou por rejeitar as inovações que este propugnava.

    Alertava também contra a tentação da socialdemocracia alemã para escolher os seus temas agitativos em função da respectiva utilidade eleitoral. E alertava contra o que classificava de “cretinismo parlamentar” – a ideia de que os deputados socialdemocratas pudessem conseguir em combinações de bastidores alguma melhoria significativa para a classe operária. Tal tendência, conhecida como reformismo, era defendia por Karl Kautsky, o que fez que ela rompesse com ele em 1910.

    Em 1906, com seu pequeno trabalho Greve de Massas, Partidos e Sindicatos, escrito no calor dos acontecimentos da Revolução Russa de 1905 (chamada por Lenin de “O ensaio geral”) é que empiricamente darão a Rosa um substrato real no seu combate contra o reformismo em todas as suas vertentes. Também lhe dá a convicção de que as grandes transformações históricas não são desencadeadas pelas organizações (ainda que reconheça que ela tenha um papel relevante a desempenhar nesse processo) e de que a consciência de classe é resultado da luta revolucionária: “um ano de revolução deu ao proletariado russo essa ‘educação’ que trinta anos de lutas parlamentares e sindicais não podem dar artificialmente ao proletariado alemão”.4 Então, para ela, o debate sobre a greve de massas ocupa lugar especial em sua teoria revolucionária, em particular sobre a consciência de classe. Não se tratava de mais uma greve geral por reivindicações econômicas como eram tradicionalmente, mas sim, de uma greve política de enfrentamento com a autocracia czarista, usando os mais variados métodos de ação criativa, consciente e revolucionária do proletariado russo, cujo principal legado foi o surgimento de uma nova forma de organização social e de poder popular: os conselhos (Sovietes), germe, portanto, da democracia socialista.

    Vale dizer que durante muito tempo houve uma tradição política (seja stalinista ou mesmo de correntes trotskistas5) que passaram a relegar Rosa Luxemburgo como uma “teórica do espontaneísmo das massas”. Na realidade, a dirigente revolucionária polaco-alemã enxergou a relação dialética entre a espontaneidade das massas e a ação “pedagógica” da organização revolucionária em impulsionar (ou nas próprias palavras de Rosa “se adiantar”) a “ação/direção política” do conjunto do movimento. É extraordinário o fato de como uma pequena obra, que aparentemente só analisa um ano, soube transmitir o sentido histórico como que se projeta a batalha pela emancipação social.

    Nos sete anos seguintes que antecedem a Primeira Grande Guerra, a preocupação principal de Rosa Luxemburgo é uma intensa elaboração teórica com o objetivo de criar uma estratégia ofensiva contra o imperialismo. Ocupa-se, sobretudo, da economia política, cujo material usado nos cursos de formação do SPD foi base para seu célebre A acumulação de capital (1913). Nessa obra, uma das principais preocupações era a relação existente entre a política expansionista e os estágios do capitalismo imperialista, com sua corrida às armas. Dedica-se, então, em discursos apaixonados contra o militarismo, na esperança de que a classe operária alemã pudesse resistir a tal insanidade. Mas a aprovação dos créditos de guerra por parte da bancada socialdemocrata no Reichstag (Parlamento) representa o golpe de misericórdia nas suas esperanças. A partir desse momento sua vida e obra são dominadas, num primeiro momento pela Guerra e, posteriormente, pelas Revoluções Russa e Alemã.

    Da esperança ao desespero. Essa mudança alternada influi no comportamento de Rosa Luxemburgo. Mesmo assim, não fica paralisada. Nessa época se torna amiga de Karl Liebknecht6 e forma o Grupo Internacional7, pequeno grupo de socialistas independentes que se opõe à Guerra. Rosa seria mais tarde criticada por não romper imediatamente com a Socialdemocracia, mas ter permanecido nela até 1917, indo depois para o Partido Social-Democrata Independente da Alemanha (USPD), conservando, no entanto, a autonomia política de seu grupo político. Segundo o historiador alemão Jörn Schütrumpf, Rosa considerava prejudicial a criação de um partido próprio, pois pensava “que, se uma revolução ocorresse, o movimento de massas – tal como se dera na Rússia de 1905, com os sovietes – produziria as formas organizativas correspondentes. Por isso só, concordou que o Grupo Spartakus se transformasse em Liga Spartakus independente depois que a revolução [alemã de 1918] eclodiu. O Partido Comunista Alemão (KPD) – nome que não lhe agradava – que daí resultou era produto dessa revolução”.8

    Mesmo decepcionada com a vergonhosa decisão da II Internacional em cerrar fileiras com a política de “União Sagrada em torno da Pátria”, Rosa está convencida de que uma nova Internacional não pode nascer sem ser de um novo protagonismo do movimento de massas. As “Teses sobre as tarefas fundamentais da socialdemocracia internacional” (aprovadas com algumas mudanças propostas por Liebknecht) que elabora para a fundação da Liga Spartakus vai precisamente nessa direção. Em seu ponto 10, afirma:

    “(…) A tarefa essencial do socialismo consiste em reunir o proletariado de todos os países numa força revolucionária viva que, por meio de uma forte organização internacional com uma concepção unificada dos seus interesses e das suas tarefas, com uma tática e uma capacidade de ação política unificadas tanto na paz quanto na guerra, faça Del o fator decisivo da vida política a que está destinado pela história”9

    Em 1915 Rosa é presa, condenada por agitação antimilitarista. Foi condenada a duas penas de prisão. No cumprimento dessas penas, viria a passar na cadeia três dos quatro anos da Guerra. Só seria libertada com a Revolução de 9 de novembro de 1918.

    Durante a permanência na prisão, escreve A crise da socialdemocracia (conhecido como “Folheto Junius”), em que faz um acerto de contas com a II Internacional socialista, com a socialdemocracia alemã e com o próprio proletariado, por terem todos, cada um à sua maneira, aderido ao delírio bélico. Para ela, a humanidade encontra-se na seguinte alternativa: socialismo ou barbárie. Pensa, entretanto, que nem tudo está perdido se o proletariado souber tirar lições de seus próprios erros.

    É também no seu terceiro ano de prisão que Rosa Luxemburgo escreve as notas conhecidas como Revolução Russa.10 Inicialmente, reconhece a “ousadia” e o “mérito histórico” dos bolcheviques que colocaram na ordem do dia o destino do socialismo, em escala internacional. Tinha consciência do valor excepcional da Revolução Russa de Outubro de 1917, como “fato mais marcante da guerra mundial”11 do único país onde o socialismo seguiu fiel a seus princípios, diante da traição protagonizada pela II Internacional, buscando esclarecer que o proletariado alemão precisaria “cumprir a mesma missão”. Mas, inicia uma análise crítica e reflexiva do processo revolucionário russo, como “melhor meio de educar os operários alemãs e de outros países para as tarefas resultantes da situação atual”.

    Rosa Luxemburgo assimilou da história das revoluções anteriores que a primeira experiência do proletariado é necessariamente parcial, contraditória, errônea. Desde a Comuna de Paris, até a Revolução de 1905, a via de emancipação dos trabalhadores está semeada de erros e passos em falso. Devido a isso, também a Revolução Russa deve ser criticada, não só para que não se repitam os mesmos erros, mas para que sirvam de aprendizado e de avanço na consciência para a classe trabalhadora. Esta última é uma condição imprescindível para o desenvolvimento da revolução, no sentido socialista, e o erro (ou limite) principal dos bolcheviques consiste em ter submetido ao movimento de massas o cálculo das relações de força do movimento. Ou seja, adverte que o principal perigo seria que a revolução fosse freada pelos mesmos revolucionários que chegaram ao poder. Por isso, é uma ardorosa defensora da existência do mais profundo debate, das opções, da plena liberdade para as massas para que elas assumam o poder. “É preciso que toda a massa popular participe. Senão o socialismo é decretado, outorgado por uma dúzia de intelectuais fechados num gabinete”.12

    É ainda mais categórica na sua formulação sobre a essência do socialismo:

    “A tarefa histórica do proletariado, quando toma o poder consiste em instaurar a democracia socialista no lugar da democracia burguesa, e não em suprimir toda democracia. (…) A democracia socialista começa com a destruição da dominação de classe a construção do socialismo. Ela começa no momento da conquista do poder pelo partido socialista. Ela nada mais é do que a ditadura do proletariado.

    Perfeitamente: ditadura! Mas esta ditadura consiste na maneira de aplicar a democracia, não na sua supressão; (…), sem o que a transformação socialista não pode ser realizada. Mas tal ditadura precisar ser obra da classe, não de uma pequena minoria que dirige em nome da classe; quer dizer, ela deve, a cada passo, resultar da participação ativa das massas, ser imediatamente influenciada por elas, ser submetida ao controle público no seu conjunto, emanar da formação política crescente das massas populares”.13

    Sua incansável exigência de democracia socialista – entendida como vida pública no campo da esquerda – assim com sua insistência na liberdade, como condição fundamental para qualquer movimento emancipador era o que a faria tão perigosa para o stalinismo em ascensão. O fato indiscutível é que sua crítica à burocratização do processo russo foi premonitória.

    Visivelmente envelhecida, com o cabelo quase todo branco, a mulher de 47 anos é posta em liberdade no dia 8 de novembro de 1918. Um dia depois, explode, em Berlim, uma greve geral e tem o surgimento dos conselhos. O imperador Guilherme II renuncia e Ebert, presidente do SPD, assume a chefia do governo. É proclamada a República, e o poder passa a ser exercido por uma coalização de partidos, inclusive socialistas, cujo objetivo é formar um governo de “união nacional” e negociar a paz. É uma tentativa clara de minimizar os protestos populares.

    A questão central na política, no final de 1918 e início de 1919, e decisiva para o destino da luta de classes na Alemanha, era se o poder deveria ficar nas mãos dos conselhos (como defendiam os spartaquistas) ou se devia-se eleger uma Assembleia Constituinte (como defendiam os socialdemocratas). Entre 16 a 21 de dezembro de 1918 é realizado, em Berlim, o Congresso Nacional dos Conselhos Trabalhadores e Soldados. Segundo Perla Haimovich, esse encontro selou a derrota dos partidários dos conselhos por “400 votos a 50”.14 A vitória era da proposta de convocação de novas eleições para a Constituinte que seria eleita no dia 19 de janeiro de 1919.

    A Liga Spartakus – grupo que Rosa, Karl Liebknecht, Leo Joghiches, Franz Mering, Clara Zetkin separa definitivamente do Partido Social-Democrata Independente quando este aceita fazer parte do novo governo de coalizão, objetivando paralisar a revolução. Nas linhas gerais que Rosa redigiu para o Programa da Liga Spartakus15 aparecem mais uma vez a alternativa “socialismo ou barbárie”, posta pela Guerra perante a sociedade; também está presente a ideia já defendida por ela antes, de que o “socialismo é obra dos próprios trabalhadores”. A inovação desse pequeno panfleto é, sem dúvida, a experiência concreta da criação do Conselho de Trabalhadores e Soldados por várias partes da Alemanha. É a partir dele que Rosa se aproxima da formulação de “República dos sovietes”. E também e, não menos importante, seria a sua visão de que a vanguarda política (o partido) está intimamente associada à consciência da classe trabalhadora. Não a substitui. Essa formulação, já existente durante sua análise da Revolução de 1905, ganha mais clareza quando afirma:

    “A Liga Spartakus não é um partido que queira chegar ao socialismo por cima da massa operária ou servindo-se da massa operária. A Liga Spartakus é apenas a parte mais consciente do proletariado que (…) defende os interesses da revolução mundial. (…)

    A Liga Spartakus nunca tomará o poder a não ser pela vontade clara e inequívoca da grande maioria da massa proletária em toda a Alemanha. Ela só tomará o poder se essa massa aprovar conscientemente os projetos, objetivos e métodos de luta da Liga Spartakus”.16

    Em 29 de dezembro é convocado um Congresso Nacional, em Berlim, onde os spartakistas se fundem com outros grupos pequenos, passando a formar o Partido Comunista Alemão (KPD). Com influência restrita a certas franjas do movimento operário, o novo partido prioriza a propaganda socialista e a denúncia contundente dos socialdemocratas e dos socialdemocratas independentes por adotarem medidas que favoreciam a contra-revolução.

    No discurso aos delegados do Congresso de fundação do KPD, Rosa enfatiza incansavelmente a necessidade de conquistar progressivamente o poder pela base e que a revolução é uma tarefa árdua. Talvez nesse momento Rosa estivesse dividida entre o que Gramsci chamou de otimismo da vontade e pessimismo da razão. Por um lado, ela era uma incansável defensora da ação consciente das massas e do socialismo como alternativa à conciliação de classes. Mas, por outro lado, o ímpeto revolucionário imediatista dos mais jovens militantes era uma preocupação. Eles são contrários à participação nas eleições para a Assembleia Constituinte, marcadas para meados de janeiro de 1919. Ela pensa diferente. Para Rosa era um meio tático a ser utilizado na sua incansável tarefa dos revolucionários, que era a educação das massas.

    Os acontecimentos precipitam-se. Multidões de operários ocupam as ruas de Berlim. Manifestações ocorrem a todo momento com pequenos incidentes. Alguns spartakistas, como Liebknecht, começam a ensaiar a possibilidade de um levante armado. A respeito desses terríveis desdobramentos para a Liga Spartakus e para o insucesso da Revolução Alemã que custou a vida de Rosa Luxemburgo, o historiador Jörn Schütrump diz:

    “A primeira onda de guerra civil, em janeiro de 1919 havia lhe custado a vida: quando explodiram as lutas de rua no centro de Berlim, os trabalhadores, para os quais o recém-fundado Partido Comunista Alemão ela – perante a alternativa de posicionar-se a favor ou contra uma ação desesperada – se decidiu pelo apoio. Sua influência permaneceu marginal; contudo ainda hoje se fala em insurreição spartakista. Rosa Luxemburgo se comportou como Karl Marx em 1871, durante a Comuna de Paris. Com uma diferença: Marx estava em um refúgio seguro, vivia em Londres, ao passo que Rosa Luxemburgo caiu nas mãos de seus assassinos. Gustav Noske (SPD), recém-nomeado comandante em chefe das Forças Armadas, havia dado sua benção ao assassinato, como se pôde comprovar há alguns anos”.17

    Na véspera de sua trágica morte, Rosa Luxemburgo publicou “A Ordem Reina em Berlim”, considerado seu “testamento político”. Nesse escrito, ela reconhece que o revés da Revolução Alemã deveu-se à “insuficiente imaturidade política das massas e dos soldados”, “lutas isoladas” e ao “fracasso da direção”. Mas surpreende em sua análise com otimismo, ao dizer: “Mas a revolução é a única forma de ‘guerra’ – esta é também uma de suas peculiares leis vitais – em que a vitória final só pode ser preparada por uma série de ‘derrotas’(…) das quais extraímos experiência histórica, conhecimento, poder, idealismo!18 Segundo ela, “as massas fizeram dessa ‘derrota’ um elo daquelas derrotas históricas que constituem o orgulho e a força do socialismo internacional. É por isso que vitória futura florescerá dessa derrota”19.

    Mesmo com toda sua incansável trajetória na construção da revolução socialista internacional, o pensamento de Rosa Luxemburgo permaneceu por quase 50 anos esquecido, marginalizado, silenciado, ou mesmo deturpado. A matriz socialdemocrata por seu reformismo endêmico no interior do Estado burguês queria extirpar um discurso que defendia a revolução social. Para a nascente burocracia soviética, por sua vez, tratava-se de um pensamento “não leninista”. Isso pode ser comprovado, já em 1925, na resolução elaborada pelo Executivo ampliado da III Internacional (destinado a lançar a campanha em prol da “bolchevização” dos PCs), quando afirma que Rosa Luxemburgo era a principal: responsável pelos erros mais importantes, [pois] tratou de um modo não bolchevique a questão da espontaneidade e da organização, impossibilitando a compreensão adequada do papel do partido na revolução”20.

    No início dos anos 1930 com Stalin, o pensamento de Rosa Luxemburgo foi definitivamente falsificado. Numa carta enviada pra uma revista, afirmava que Rosa (juntamente com Parvus21) “inventaram um esquema utópico e semimenchevique de revolução permanente – imagem deformada do esquema marxista de revolução – penetrado até a medula pela negação menchevique da aliança entre a classe operária e os camponeses e a contrapuseram ao esquema da ditadura democrática revolucionária do proletariado e dos camponeses. Mais tarde esse esquema semimenchevique da revolução permanente foi adotada por Trotsky, convertendo em arma de luta contra o lenininsmo”22

    A partir desse momento, começa o amordaçamento do pensamento da revolucionária polaco-alemã, apenas rompida – parcialmente – pela voz solitária de Trotsky, que escreveu um artigo de denúncia sobre as falsificações de Stalin, intitulado “Tire as mãos de Rosa Luxemburgo” (28.06.1932)23.

    A tarefa de conhecimento de alguns dos escritos de Rosa seguiu como tarefa e empenho de pequenos grupos de revolucionários que continuaram fiéis à sua memória24. As rebeliões estudantis e anticapitalistas que varreram o mundo em 1968 e as lutas de massas contra o modelo autoritário do socialismo real foram determinantes para a redescoberta das ideias de Rosa Luxemburgo.

    Nos últimos anos, as novas gerações mais combativas e radicais, envolvidas na luta contra o capital globalizado e o imperialismo e, mais recentemente, nas marchas multidudinárias de mulheres que desafiam o patriarcado, voltaram a recuperar o espírito rebelde, a dimensão libertária de seu socialismo antiautoritário e antiburocrático, mostrando que o século XXI poderá ser século da rebelião e da revolução.

    *

    Devemos nos perguntar o por quê da permanência de um esquecimento (ocultação?) do pensamento de Rosa Luxemburgo, sempre em busca da contradição. Seria uma dificuldade (confessa) da esquerda socialista (ontem e ainda hoje) de pensar no saudável procedimento de “submeter todas as ideias ao severo exame da crítica”, como lembra Valerio Arcary a respeito de Rosa Luxemburgo25? O que me parece mais relevante salientar é que o conjunto dos militantes das organizações, em suas mais diversas origens e tradições, possam, finalmente, estudar e conhecer o pensamento dessa incrível mulher revolucionária que, sem dúvida, nos serve de inspiração para a necessária atualização da revolução socialista, nesses tempos difíceis, mas ao mesmo tempo desafiadores.

    1 Entre algumas das principais obras de Isabel Loureiro destaco a sua ótima pesquisa Rosa Luxemburg: os dilemas da ação revolucionária (SP: Unesp, 1ª ed., 1995), além de organizar uma preciosa coletânea de três volumes, onde estão reunidos textos e cartas da revolucionária polonesa (a partir da tradução alemã) e na sua recente seleção de Rosa Luxemburgo: Textos escolhidos: vol. I (1889-1914), vol. II(1914-1919) e vol. III (cartas) – SP: Editora da Unesp, 2011.

    2 Rosa Luxemburgo nasceu em Zamosc, em 1871, na parte da Polônia pertencente ao Império Russo. Prússia e o Império Austríaco ocupavam o restante do território polonês, no final do século XIX. Ela foi uma das fundadoras, em 1894 do Partido Social-Democrata do Reino da Polônia (SDKP), depois unificado com camaradas da Lituânia (1900), tornando o Socialdemocracia do Reino da Polônia e da Lituânia SDKPiL) da qual seria delegada em vários Congressos da II Internacional.

    3 Rosa Luxemburgo. Reforma social ou revolução. São Paulo: Global Editores, 1986.

    4 Rosa Luxemburg. Huelga de Masas, partido y sindicatos. Cuadernos de Passado y Presente / 13. Buenos Aires. 1970, p. 100.

    5 Quando estava terminando de escrever esse artigo (na véspera portanto do centenário do assassinato de Rosa Luxemburgo) tomei contato casual com o site da Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional (LIT-QI) na qual a mesma análise reducionista (ou seria caricatural?) de uma certa tradição trotskista acerca do “espontaneísmo” de Rosa permanecee. Ver https://litci.org/pt/teoria/historia/rosa-luxemburgo-a-aguia-revolucionaria/ (Consultado em 14.01.2019). Para uma interessantíssima problematização sobre o tema da relação entre espontaneidade da classe e o papel do sujeito político (o partido) ver o instigante artigo de Valério Arcary, intitulado A história deu razão a Rosa Luxemburgo ou a Lenin? Em https://esquerdaonline.com.br/2017/03/29/a-historia-deu-razao/ (Consultado em 12.01.2019).

    6 Durante a segunda sessão de guerra no Reichstag, Karl Liebknecht foi o único deputado do SPD que votou contra os créditos de guerra. Ver discurso em https://www.marxists.org/espanol/liebknecht/1914/diciembre/02.htm

    7 Depois adotará o nome Liga Spartakus.

    8 Jörn Schütrump. “Entre o amor e a cólera”. In ___. (Org). Rosa Luxemburgo ou o preço da liberdade. Trad. Isabel Loureiro et alii. 2ª edição ampliada. São Paulo: Fundação Rosa Luxemburgo, 2015, p. 63.

    9 Rosa Luxemburgo (Teses sobre as tarefas da social democracia internacional – fev. 1916), publicada como “Rascunho das Teses de Junius” in Isabel Loureiro (org). Rosa Luxemburgo: textos escolhidos – vol.II (1914-1919). São Paulo: Editora Unesp, 2011, p. 12.

    10 Como lembra Isabel Loureiro, essas notas só seriam publicada postumamente em 1922, por Paul Levi. Há toda uma controvérsia nessa história, pelo fato de Levi – não obstante ter sido uma figura de destaque na direção do Partido Comunista Alemão (KPD) – ter convencido Rosa a não publicar seus escritos em 1918. Mas, o fez um ano após ter sido expulso do partido comunista, e ter regressado ao SPD. Mera coincidência? O fato é que Paul Levi se suicidaria pouco tempo depois.

    11 Rosa Luxemburgo. “A Revolução Russa” (1918) in Isabel Loureiro (org). Rosa Luxemburgo: textos escolhidos – vol.II (1914-1919), op., cit., p. 175.

    12 Idem, p.207

    13 Idem, p.210

    14 Perla L. Haimovich. “Rosa Luxemburgo y la revolución espartaquista”. In Historia Del Movimento Obrero , vol 3. Editora Buenos Aires, Centro de Editor de Latinoamerica, 1973, p. 150.

    15 O programa da Liga Spartakus (14.12.1918) foi adotado por unanimidade, com apenas algumas modificações, no Congresso de fundação do Partido Comunista Alemão, dez/jan de 1919.

    16O que quer a Liga Spartakus” In Isabel Loureiro (org). Rosa Luxemburgo: textos escolhidos – vol.II (1914-1919), op., cit., p. 297-298.

    17 Jörn Schütrump. “Entre o amor e a cólera”. In ___. (Org). Rosa Luxemburgo ou o preço da liberdade. Op, cit., p. 65. Karl Liebknecht também foi assassinado no mesmo dia.

    18 Rosa Luxemburgo. “A ordem reina em Berlim” 14.jan.1919, In Isabel Loureiro (org). Rosa Luxemburgo: textos escolhidos – vol.II (1914-1919), op., cit., p. 399.

    19 Idem, p. 401.

    20 Citado na “advertencia” de Rosa Luxemburg – Huelga de Massas, partido y sindicatos. Cuadernos de Passado y Presente / 13 – Córdoba, 1970, p. 7-8. (Grifos meus).

    21 Alexander Parvus (1869-1924): destacado teórico marxista da Europa oriental no pré-guerra, colaborou com Trotsky e chegou a conclusões similares às da teoria da revolução permanente.

    22 Stalin, J. “Sobre algunas cuestiones de la historia del bolchevismo” in _____. Obras, tomo XIII (1930-1934), p. 41 (Ediciones Lenguas estranjeras, Moscú, 1953). Extraído de https://www.marxists.org/espanol/stalin/obras/oe15/Stalin%20-%20Obras%2013-15.pdf (Consultado em 08.01.2019).

    23 Ver https://esquerdaonline.com.br/2018/01/15/leon-trotski-tirem-as-maos-de-rosa-luxemburgo/ (Consultado em 10.01.2019).

    24 No Brasil, coube a Mario Pedrosa (militante trotskista), a divulgação dos primeiros textos de Rosa Luxemburgo, publicados em seu jornal, A Vanguarda Socialista, em 1945.

    25 Valério Arcary. “O que é ser marxista no século XXI” em https://esquerdaonline.com.br/2017/03/21/o-que-e-ser-marxista-no-seculo-xxi (Consultado em 12.01.2019).

    Roberto Mansilla é professor de História da rede municipal de educação RJ e militante da Resistência/PSOL-Niterói

  • A extrema-direita: Um fenômeno global

    Publicado na International View Point

    Nos últimos anos, a extrema direita reacionária, autoritária e / ou fascista tem estado em ascensão em todo o mundo: ela já governa metade dos países do mundo. Entre os exemplos mais conhecidos estão: Trump (Estados Unidos), Modi (Índia), Orbán (Hungria), Erdoğan (Turquia), Daesh (Estado Islâmico), Salvini (Itália), Duterte (Filipinas) e agora Bolsonaro (Brasil). Mas em vários outros países temos governos próximos a essa tendência, mesmo que eles não tenham uma definição tão explícita: Rússia (Putin), Israel (Netanyahu), Japão (Shinzō Abe), Áustria, Polônia, Birmânia, Colômbia e assim por diante. De fato, a distinção entre esses dois grupos é completamente relativa.

    “Pós-fascismo” não “populismo”

    Em cada país, esta extrema direita tem características próprias: em muitos casos (Europa, Estados Unidos, Índia, Birmânia), “o inimigo” – isto é, o bode expiatório – são muçulmanos e / ou imigrantes; em alguns países muçulmanos, são minorias religiosas (cristãos, judeus, yazidis). Em alguns casos, o nacionalismo e o racismo xenofóbicos prevalecem, em outros o fundamentalismo religioso, ou o ódio pela esquerda, o feminismo e os homossexuais. Apesar desta diversidade, existem algumas características comuns à maioria, senão a todos: autoritarismo, nacionalismo fundamentalista – “Deutschland über alles” e suas variantes locais: “America First”, “O Brasil acima de tudo” e assim por diante – religiosas ou intolerância étnica (racista), violência policial / militar como única resposta aos problemas sociais e ao crime. A caracterização como fascista ou semi-fascista pode se aplicar a alguns, mas não a todos. Enzo Traverso usa o termo “pós-fascismo”, que pode ser útil, designando tanto a continuidade quanto a diferença.

    Por outro lado, o conceito de populismo, usado por alguns cientistas políticos, a mídia e até mesmo uma parte da esquerda, é completamente incapaz de explicar o fenômeno em questão, e só serve para confundir a questão. Se na América Latina, entre as décadas de 1930 e 1960, o termo correspondia a algo relativamente preciso – o varguismo, o peronismo e assim por diante -, seu uso na Europa a partir da década de 1990 é cada vez mais vago e impreciso.

    O populismo é definido como “uma posição política que apóia o povo contra a elite”, que pode ser aplicada a quase qualquer movimento ou partido político! Esse pseudoconceito, aplicado a partidos de extrema direita, leva – voluntária ou involuntariamente – a sua legitimação, tornando-os mais aceitáveis, senão simpáticos (quem não é pelo povo contra a elite?), evitando cuidadosamente termos problemáticos: racismo , xenofobia, fascismo, extrema direita. O “populismo” também é usado de forma deliberadamente mistificadora pelos ideólogos neoliberais para criar uma fusão entre a extrema direita e a esquerda radical, caracterizada como “populismo de direita” e “populismo de esquerda” em oposição às políticas neoliberais, “Europa” e assim por diante.

    Hipóteses

    Como explicamos essa ascensão espetacular da extrema-direita, na forma de governos, mas também de partidos políticos que ainda não governam, mas têm uma ampla base eleitoral e influenciam a vida política do país (França, Bélgica, Holanda, Suíça, Suécia, Dinamarca e outros)? É difícil propor uma explicação geral para fenômenos tão diferentes, expressivos de contradições específicas para cada país ou região do mundo; mas como é uma tendência planetária, devemos pelo menos considerar algumas hipóteses.

    Uma “explicação” a rejeitar seria aquela que atribui a ascensão da direita radical às ondas migratórias, particularmente nos Estados Unidos e na Europa. Os migrantes são o pretexto conveniente, para os ataques de forças xenófobas e racistas, mas de forma alguma a “causa” de seu sucesso. Além disso, a extrema direita está florescendo em muitos países – Brasil, Índia, Filipinas … – sem qualquer menção à imigração.

    A explicação mais óbvia, e sem dúvida relevante, é que a globalização capitalista, que é também um processo de homogeneização cultural brutal, produz e reproduz, em escala mundial, formas de pânico identitário (o termo é de Daniel Bensaïd), levando a manifestações nacionalistas e / ou religiosas intolerantes e favorecendo conflitos étnicos ou confessionais. Quanto mais as nações perdem seu poder econômico, mais a imensa glória da Nação é proclamada “acima de tudo”.

    Outra explicação seria a crise financeira do capitalismo, que causou depressão econômica, desemprego, marginalização social desde 2008. Esse fator pode ter sido importante para possibilitar uma vitória de Trump ou Bolsonaro, mas é pouco válida para a Europa: nos países ricos, entre outros, os menos afetados pela crise, como Áustria ou Suíça, a extrema-direita é muito poderosa, enquanto nos países mais afetados pela crise, como Espanha ou Portugal, a esquerda e o centro-esquerda são hegemônicos, e a extrema direita continua marginal.

    Esses processos ocorrem nas sociedades capitalistas, onde o neoliberalismo domina desde os anos 80, destruindo laços sociais e solidariedades, aprofundando as desigualdades sociais, as injustiças e a concentração de riqueza. Devemos também levar em conta o enfraquecimento da esquerda comunista após o colapso do chamado “socialismo real”, sem que outras forças de esquerda mais radicais tenham sucesso em ocupar esse espaço político.

    Essas explicações são úteis, pelo menos em alguns casos, mas são insuficientes. Nós ainda não temos uma análise global para um fenômeno que é global, e que ocorre em um momento histórico particular.

    Isso é um retorno aos anos 1930?

    A história não se repete: podemos encontrar semelhanças ou analogias, mas os fenômenos atuais são bem diferentes dos modelos do passado. Acima de tudo, não temos – ainda – estados totalitários comparáveis ​​aos da pré-guerra. A análise marxista clássica do fascismo definiu-o como uma reação do grande capital, com o apoio da pequena burguesia, diante de uma ameaça revolucionária do movimento operário. Alguém se pergunta se essa interpretação realmente explica a ascensão do fascismo na Itália, na Alemanha e na Espanha, nas décadas de 1920 e 1930. Em todo caso, não é relevante no mundo de hoje, onde em nenhum lugar existe uma “ameaça revolucionária”. Sem mencionar o fato óbvio de que o grande capital financeiro demonstra pouco entusiasmo pelo “nacionalismo” da extrema direita – mesmo que esteja pronto para se adaptar a ele, se necessário.

    O fenômeno Bolsonaro

    Algumas palavras sobre o último episódio dessa “onda marrom” global, o fenômeno Bolsonaro no Brasil. Parece o mais próximo do fascismo clássico, com seu culto de violência e ódio visceral da esquerda e do movimento trabalhista, mas ao contrário de vários partidos europeus – da FPO austríaca à francesa FN (agora Rassemblement national, RN) – não tem raízes nos movimentos fascistas do passado, representados no caso brasileiro pela Ação Integralista Brasileira liderada por Plinio Salgado na década de 1930.

    Nem faz do racismo sua bandeira principal, ao contrário da extrema-direita européia.. Certamente, ele fez algumas declarações racistas, mas isso não era o foco da sua campanha. A partir daí, assemelha-se ao fascismo italiano da década de 1920, antes da aliança com Hitler.

    Se compararmos Bolsonaro com a extrema direita européia, vemos várias diferenças significativas:

    – A importância do tema da “luta contra a corrupção”, o antigo cavalo de guerra da direita conservadora no Brasil desde os anos 1950. Bolsonaro conseguiu manipular a indignação popular legítima contra políticos corruptos. Este tema não está ausente no discurso da extrema direita na Europa, mas está longe de ocupar um lugar central.

    – O ódio à esquerda, ou a centro-esquerda (o PT brasileiro), foi um dos principais temas mobilizadores de Bolsonaro. É encontrado menos na Europa, exceto nas forças fascistas das primeiras democracias populares. Mas neste caso, é uma manipulação (demonização) que se refere a uma experiência real do passado. Nada disso no Brasil: o discurso violentamente anticomunista de Bolsonaro nada tem a ver com a realidade brasileira presente ou passada. É ainda mais surpreendente, na medida em que a Guerra Fria já terminou há décadas, a União Soviética não existe mais, e o PT obviamente não tem nada a ver com o comunismo (em todas as definições possíveis deste termo).

    – Enquanto a extrema direita européia denuncia a globalização neoliberal, em nome do protecionismo, do nacionalismo econômico, contra as “finanças internacionais”, Bolsonaro apresentou um programa econômico ultra-neoliberal: mais mercado, abertura ao investimento estrangeiro, privatização e alinhamento total às políticas dos EUA. . Isso sem dúvida explica o massivo reagrupamento das classes dominantes à sua candidatura, uma vez que se notou a óbvia impopularidade do candidato da direita tradicional (Geraldo Alckmin).

    O que é comum a Trump, Bolsonaro e a extrema direita europeia são três temas de agitação sócio-cultural reacionária:

    – Autoritarismo, adesão a um homem forte, um líder capaz de “restaurar a ordem”.

    – Uma ideologia repressiva, o culto da violência policial, o apelo ao restabelecimento da pena de morte e a distribuição de armas à população para sua “defesa contra os criminosos”.

    – Intolerância contra minorias sexuais, especialmente pessoas LGBTI. É um tema agitado, com algum sucesso, por setores religiosos reacionários, seja católico (na França) ou neopentecostalista (Brasil).

    Esses três temas, juntamente com a “guerra à corrupção”, foram decisivos para a vitória de Bolsonaro, graças à disseminação maciça de notícias falsas pelas mídias sociais (continua a ser necessário explicar por que tantas pessoas acreditaram nessas mentiras grosseiras). Mas ainda não temos uma explicação convincente do incrível sucesso, em poucas semanas, de sua candidatura, apesar da violência, da brutalidade de seus discursos de guerra civil, de sua misoginia, de sua falta de programa e pela apologia descarada pela ditadura militar e tortura.

    Antifascismo consistente

    Como lutamos contra isso? Infelizmente, não há fórmula mágica para combater essa nova onda marrom global. O apelo de Bernie Sanders para uma Frente Anti-fascista Mundial é uma excelente proposta. Ao mesmo tempo, coalizões amplas em defesa das liberdades democráticas devem ser construídas em cada país em questão.

    Mas também deve ser considerado que o sistema capitalista, especialmente em tempos de crise, constantemente produz e reproduz fenômenos como o fascismo, golpes e regimes autoritários. A raiz dessas tendências é sistêmica e a alternativa deve ser radical, isto é, anti-sistêmica. Em 1938, Max Horkheimer, um dos principais pensadores da Escola de Teoria Crítica de Frankfurt, escreveu: “Se você não quer falar sobre capitalismo, não tem nada a dizer sobre o fascismo”. Em outras palavras, o consistente antifascista é um anti-capitalista.