José Carlos Miranda

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  • Operárias de São Paulo iniciam greve, com o adesivo do #EleNão

    Na sexta-feira, 28 de setembro, véspera dos atos nacionais organizados pelas Mulheres, pelo #EleNão, teve início uma greve na fábrica de embalagens de vidro Vitrale, na Zona Leste de São Paulo, onde as mulheres operárias somam 90% da força de trabalho.

    Às 06h30, na porta da fábrica, o sindicato distribuía um boletim específico, com reivindicações apresentadas há meses aos patrões.

    Ao mesmo tempo, militantes do PSOL e da corrente Resistência, como a diretora do Sindicato Cacilda de Paula, apresentavam às operárias Silvia Ferraro, candidata ao Senado e João Zafalão, candidato a deputado estadual, que estavam presentes.

    As 07 horas, a sirene do início da jornada tocou mas, como é tradição daquela fábrica, as operárias entraram, vestiram o uniforme de trabalho e praticamente todas retornaram para o lado de fora, para a assembleia. Em conversas miúdas, aguardavam o início da reunião, quando uma operária tomou a palavra e disse: “não aguentamos mais vamos ficar aqui fora até “eles” nos atenderem, não aguentamos mais enrolação”.  E assim se seguiram várias companheiras, muito revoltadas e indignadas com a situação, e exigindo a presença do Sindicato.

    E assim, por unanimidade, votaram aprovando uma paralisação, enquanto não houvesse negociação.

    Foi incrível a disposição e coragem das operárias. Começaram a cantar, a conversar com a Silvia, fizeram “live” e praticamente todas e todos pegaram os adesivos do PSOL com os Slogans #EleNão #EleNunca e botaram no peito.

    Vale ressaltar que há muito tempo esta fábrica não faz greve, ao menos nos últimos 15 anos, com certeza. Ficou clara e evidente a força e disposição das mulheres.

    A força da assembleia e a coragem das mulheres foi um aviso do grande ato contra o reacionário Bolsonaro no dia 29, com milhares nas ruas.

    Foto: José C. Miranda. A foto recebeu um filtro, para proteger a identidade das trabalhadoras, evitando perseguições.

  • Aos 41 anos do assassinato de Steve Biko

    “Quando tento dormir à noite
    Meus sonhos são vermelhos
    Lá fora o mundo é preto e branco
    Só uma cor morta.”

    “Você pode assoprar e apagar uma chama
    Mas não pode fazê-lo com uma fogueira
    Uma vez que as fagulhas incendeiam algo
    O vento as tornará maiores.”

    Trechos da canção Biko¹ , de Peter Gabriel

    O assassinato de Marielle completa seis meses sem nenhuma solução e recentemente vimos a brutalidade sofrida por uma advogada negra que foi impedida de exercer suas prerrogativas de advogada, algemada e presa por ordem de uma juíza na cidade de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro.

    Cito estes exemplos que estão frescos na memória, no entanto esses acontecimentos são o cotidiano da população negra no Brasil.

    Em tempos de crescimento de uma corrente de extrema direita no Brasil, de ataque às liberdades democráticas, num cenário de assassinato de jovens e pobres da periferia, negros em sua maioria, é imprescindível rememorar um dos mártires de nossa luta contra o racismo, contra as opressões e a exploração.

    O racismo é uma ideologia criada pelo capitalismo com o objetivo de justificar uma exploração e opressão inaceitáveis. Após o novo contrato social da grande Revolução Francesa e seus slogans de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, como justificar seres humanos sendo mercadorias e, ao mesmo tempo, dividir o proletariado para que os capitalistas explorem mais a todos? A base fundamental do racismo está nas absurdas e obsoletas teorias de que os seres humanos se dividem em raças. E essa ideologia reacionária e desumana é um dos pilares da burocracia privada ou pública e dos órgãos de repressão do estado.

    Estas teorias, já no século 20, formaram a base para a criação de leis segregacionistas e mesmo da perseguição a grupos e nacionalidades minoritárias (muitas vezes nem tanto minoritárias) em vários países, das quais as mais conhecidas, foram as Leis Jim Crow, nos EUA, e do Apartheid, na África do Sul.

    Antes de falar dessas, ressalto que no Brasil, apesar de não ter sido aprovada ou outorgada nenhuma lei de segregação racial, após a libertação dos escravos em 1888, os antigos escravos, em sua maioria agricultores, da noite para o dia se tornaram desempregados. Transformaram-se em sua maioria em exército de mão de obra barata do jovem e nascente proletariado urbano brasileiro. Essa herança da escravidão ficou incutida na memória e na realidade de gerações, alimentando o estereótipo da ideologia do racismo e da existência de raças humanas até os dias de hoje.

    As Leis Jim Crow² foram leis locais e estaduais de segregação racial em estados do sul dos EUA, na região das grandes fazendas de monoculturas (plantations) e que formaram o exército dos Confederados, derrotado na Guerra Civil.

    Estas leis dividiam as escolas para brancos e para negros, determinavam bares e locais públicos segregados, bebedouros separados, proibiam casamentos inter-raciais, separavam assentos nos ônibus etc.

    Em 1954, a Suprema Corte decidiu pela inconstitucionalidade da segregação escolar, dando início à derrocada das leis segregacionistas e aos espetaculares movimentos pelos direitos civis que mobilizaram milhões nos EUA pelos 15 anos seguintes.

    Na África do Sul, as leis do Apartheid³ (separação, na língua africâner) foram um conjunto de leis de segregação implantadas a partir de 1948.

    Em 1962, a ONU juntamente com diversos países, transforma a África do Sul num dos países mais isolados do mundo. Em 1963, Mandela, líder do Congresso Nacional Africano (CNA), que optou pela luta armada contra o regime, é preso e condenado a prisão perpétua.

    É nesta luta que surge o gigante Estephen Bantu Biko, militante antiapartheid desde muito jovem que se formou médico e fundou o Movimento Consciência Negra (BCM na sigla em inglês), sendo seu principal dirigente. Em 1970, tornou-se um dos principais líderes do movimento contra o Apartheid, sendo eleito em 1972 presidente honorário da maior organização de frente única dos negros na África do Sul, a Convenção do Povo Negro.

    Em 1973, Biko foi “banido” pelo regime, o que significou uma série de imposições à sua liberdade. Apesar dessas imensas restrições, Biko e o BCM desempenharam um papel significativo na organização dos protestos que culminaram com a Revolta de Soweto de 16 de junho de 1976, que despertaram a solidariedade e a inspiração de luta contra o regime em todo o mundo.

    Em 18 de agosto de 1977, Biko foi preso em uma barreira policial, interrogado e barbaramente torturado, levando à sua morte em 12 de setembro de 1977.

    Além da coragem e do desprendimento, o fundamental legado de Biko foi a compreensão da umbilical ligação entre o Apharteid e o capitalismo, portanto, do racismo e do capitalismo.

    Essas duas frases sintetizam os conceitos de Biko: “O racismo não implica apenas a exclusão de uma raça por outra – ele sempre pressupõe que a exclusão se faz para fins de dominação” e “Racismo e capitalismo são faces da mesma moeda”.

    A crença, mesmo que subjetiva, na existência de raças humanas continua sendo a base fundamental do racismo e é nosso dever combater cotidianamente essa crença. A luta contra o racismo é uma luta de todos, independentemente da cor da pele, pois o racismo que atinge brutalmente os negros faz parte do arcabouço de ideologias repugnantes do capitalismo para dividir e explorar mais a todos.

    Temos a certeza e a segurança de que quanto mais igualdade, menos racismo e só uma sociedade igualitária e fraterna poderá varrer de vez essas ideologias e seu moribundo sistema de desigualdades.

    Viva Steve Biko!

    Lutar por igualdade, Lutar contra o racismo, Lutar pelo socialismo!

    NOTAS

    ¹ A morte de Steve Biko foi um acontecimento que expôs ao mundo a barbaridade que era o regime do Apartheid Africa do Sul. Na época, Peter Gabriel muito conhecido e a canção ecoou por todo o mundo. Ao mesmo tempo o jornalista e escritor Donald Woods (15 Dezembro 1933 – 19 Agosto 2001) e Wendy Woods escreveram um livro, no qual foi baseado o filme “Cry Freedom” no Brasil intitulado Um Grito de Liberdade, dirigido por Richard Attenborough e protagonizado por Denzel Washington como Biko e Kevin Kline como Woods.   

     

    ² A expressão “Jim Crow” provavelmente originou-se da canção “Jump Jim Crow”, cantada e dançada pelo ator Thomas D. Rice com maquiagem blackface, caricaturando os negros. A canção foi lançada em 1832 e era usada para satirizar as políticas populistas de Andrew Jackson. Em consequência da fama de Rice, “Jim Crow” tornou-se, em 1838, uma forma pejorativa de se referir aos negros. No fim do século 19, quando as legislaturas sulistas aprovaram leis de segregação racial dirigidas contra os negros, essas leis ficaram conhecidas como “Jim Crow laws” (leis Jim Crow).

    ³ A nova legislação dividia os habitantes em grupos raciais (“negros”, “brancos”, “de cor” e “indianos”), segregando as áreas residenciais, muitas vezes através de remoções forçadas. A partir de finais da década de 1970, os negros foram privados de sua cidadania, tornando-se legalmente cidadãos de uma das dez pátrias tribais autônomas chamadas de “bantustões.” Nessa altura, o governo já havia segregado a saúde, a educação e outros serviços públicos, fornecendo aos negros serviços inferiores aos dos brancos.

     

    LEIA MAIS

    Há seis meses perguntamos: quem mandou matar Marielle?

     

  • Apuração da eleição do Sindicato dos Vidreiros de São Paulo será neste sábado

    Neste sábado, 11, ocorrerá a apuração dos votos da eleição para o Sindicato dos Vidreiros do Estado de São Paulo. A eleição começou na quarta-feira, 08, e foi até a sexta-feira, dia 10. Trata-se de um importante sindicato operário, tradicional de São Paulo, que representa trabalhadores de um segmento da indústria tem uma grande importância nas cadeias produtivas de praticamente todos os setores da indústria: construção civil; automobilística; embalagens para as indústrias farmacêuticas, alimentação, perfumaria e uso doméstico. E, justamente por isso, a maioria das fábricas estão localizadas nos principais polos industriais.

    O estado de São Paulo concentra cerca de 80% da produção de vidro do país e este é também o percentual de trabalhadores deste segmento no estado. O Sindicato estima hoje em 22 mil empregados no setor concentrados na Grande São Paulo, Vale do Paraíba, ABC, região de Sorocaba e região de Campinas. Destaca-se um importante segmento da categoria: os vidreiros manuais na cidade de Ferraz de Vasconcelos, região leste da Grande São Paulo, setor muito mobilizado e participativo das lutas operárias.

    O sindicato tem uma grande tradição de lutas e conquistas desde sua retomada por uma direção combativa desde 1981. A direção do sindicato teve participação ativa na fundação da CUT em 1983, nas greves gerais da década de 1980 e nas principais lutas do povo brasileiro como nas Diretas Já, Fora Collor, contra as privatizações de FHC, contra as medidas de ataque aos trabalhadores do governo Lula e Dilma. E no último período contra o impeachment de Dilma, na greve geral de abril de 2017, na Marcha em Brasília em 24 de maio de 2017, nos protestos e mobilizações contra as reacionárias medidas do golpista Temer.

    Isso sem dizer em inúmeras mobilizações, paralisações, protestos e greves em defesa dos direitos e conquistas dos trabalhadores no chão de fábrica. Se posicionando e organizando os trabalhadores e trabalhadoras no chão de fábrica contra o banco de horas, a coparticipação (pagamento de parte do valor dos planos de saúde pelos trabalhadores), em defesa das CIPAs combativas etc.

    Apesar da conjuntura defensiva de brutais ataques aos direitos trabalhistas e a organização sindical, os companheiros e companheiras tem se mantido firmes aos princípios da independência política e financeira dos patrões. A eleição teve chapa única, a Chapa 1 Nenhum Direito a Menos. A chapa é composta por companheiros e companheiras da Resistência/PSOL, da Artsind e da CTB, e o sindicato é filiado a CUT. Nesta chapa existe uma renovação de 30% dos membros da atual diretoria, com uma importante participação de mulheres, inclusive na Comissão Executiva.

    A eleição da Chapa 1, obtendo o quórum em primeiro turno, será uma importante vitória para os vidreiros e vidreiras seguirem com uma direção combativa e fiel aos interesses imediatos e históricos da classe trabalhadora.

    Todo apoio à Chapa 1 – Nenhum direito a menos!
    Viva a luta dos vidreiros e vidreiras!
    Viva o Sindicato dos Vidreiros!

    Artigo atualizado em 11 de agosto de 2o18

  • Ali Wazir, marxista e líder popular, é eleito deputado nacional no Paquistão

    No dia 25 de julho de 2018 foi realizada a 11ª eleição geral do Paquistão. Apesar de a série de atentados terroristas antecederem a eleição, aproximadamente 106 milhões de paquistaneses se inscreveram para votar nos 85.307 postos de votação em todo o país. Além dos tradicionais partidos PPP (Partido do Povo Paquistanês), Pakistan Muslim League-Nawaz (PML-N – Partido da Liga Muçulmana-Nawaz) e Pakistan Tehreek-e-Insaf (PTI – Partido Movimento e Justiça), disputaram a eleição mais 122 candidatos de pequenos partidos, religiosos e independentes. Outra grande e boa novidade é que, em algumas regiões da FATA (Áreas Tribais de Administração Federal), as mulheres puderam votar pela primeira vez.

    O PTI, um partido secular liderado por Inram Khan, ex-campeão mundial de críquete pela seleção nacional do Paquistão – esporte muito popular no país – surge como vitorioso nas urnas. Até o momento, o levantamento das informações dava o seguinte resultado de deputados eleitos, ainda não oficial: PTI 102 cadeiras, PML-N 72, PPP 39, MMA 6 (Muttahida Majlis–e–Amal – é partido/movimento islâmico conservador) e 20 independentes.

    Em seu discurso dirigido ao povo após as eleições, Inram Khan, ao falar sobre o Tesouro Nacional, disse que “o dinheiro será poupado para investir em capital humano”. Disse também querer “melhorar nossas relações com os países vizinhos”, numa menção à China. O resultado tem também, portanto, consequências no tabuleiro da geopolítica já bastante movimentado no último período.

    A vitoriosa eleição de Ali Wazir
    Ali é dirigente e membro do grupo marxista de tradição trotsquista paquistanês “The Struglle”. É uma inconteste liderança popular na região de Wanna, Warizistão do Sul, que pertence a uma FATA (Região de Áreas Tribais de Administração Federal) que foi uma das regiões mais atingidas pela guerra contra o terrorismo.

    Também é liderança de um dos principais movimentos de massas no país, o PTM (Movimento de Proteção do Paquistão), movimento de luta pelos direitos humanos das vítimas do terrorismo que ganhou projeção mundial, quando um de seus líderes foi assassinado por um inspetor da polícia em janeiro deste ano. Na luta contra o fundamentalismo e o terror, Ali perdeu 17 membros de sua família, dentre eles seu pai e um irmão. Ali Wazir é considerado um herói em muitas regiões do Paquistão por causa de toda essa história de luta e sacrifícios. Por ter um papel de liderança, em junho deste ano sofreu um atentado quando dezenas de militantes talibãs fortemente armados cercaram sua casa matando oito pessoas. Ali conseguiu fugir deste cerco e, com muito apoio popular, conseguiu se inscrever como candidato independente na eleição para a Assembleia Nacional (Câmara dos Deputados).

    Já em 2013, Wazir tinha sido eleito, mas devido a fraudes burocráticas não pode assumir. A atual eleição de Ali Wazir é um novo feito espetacular, principalmente considerando as condições terrivelmente adversas. Vencer a eleição, obtendo 23.530 votos contra os 7.515 votos do candidato do MMA (conservadores islâmicos), ainda mais na região N-50 que faz fronteira com o Afeganistão, onde o fundamentalismo religioso é muito forte, sem dúvida, trata-se de uma enorme vitória. Ela anima os militantes revolucionários que em todo mundo lutam contra a exploração e opressão do sistema capitalista.

    Nossas mais calorosas e revolucionárias congratulações a Ali Wazir, a todos camaradas que estiveram neste combate e a The Struglle por esta maravilhosa vitória.

    Viva o deputado Ali Wazir!
    Viva a luta contra todas formas de opressão e exploração!
    Viva a luta internacional da classe trabalhadora!

  • Lan Khan | Iraque: fênix renasce das cinzas

    No último período, vários movimentos populares de massas têm acontecido no sub continente Índico, região que ganhou maior relevância com a nova “rota da seda” da China. Temos acompanhado a luta da minoria pachtun, no Paquistão, e agora as eleições gerais, o movimento de estudantes no Sri Lanka e, na semana passada, uma rebelião impulsionada principalmente pela juventude no Iraque, que iniciou na cidade de Basra, principal produtora de petróleo.

    Publicamos agora artigo publicado em 23 de julho de 2018 no Daily Times, conceituado jornal paquistanês, também publicado no www.asianmarxistreview dia 24 de julho. O artigo joga luz para compreensão dos acontecimentos no Iraque e seus reflexos em toda região. O artigo é assinado por Lal Khan, teórico e dirigente marxista da corrente “The Struglle” (A Luta), no Paquistão.

    Por Lal Khan

    Mais de 15 anos de agressão e ocupação imperialistas, combinados com o terrível terrorismo fundamentalista, devastaram o Iraque. Apesar de ter sido dizimado, com a economia destruída, colapso do Estado e a sociedade dividida em pedaços, uma nova onda de protestos de massas está surgindo do ventre dos escombros do Iraque. Esta luta de classes renovada surgiu superando as divisões religiosas e os ódios sectários que marcam a sociedade iraquiana. Os estrategistas americanos, para dispersar o povo iraquiano através da tática de “dividir para reinar”, promoveram o sectarismo divisor e macabro.

    Milhares de pessoas participaram de manifestações de massas no sul do Iraque na semana passada contra o insuportável ataque social e econômico. A invasão militar liderada pelos EUA derrubou Saddam Hussein e destruiu o estado iraquiano. O partido político do governante fantoche do Iraque Haider Al-Abadi, Dawa, dominou a política iraquiana nas sombras das baionetas imperialistas desde 2003. Basra, outrora apelidada de “Veneza do Oriente Médio” por sua rede de canais, é agora um desastre socioeconômico.

    O regime de Al-Abadi tentou desesperadamente sufocar os protestos, diga-se sem precedentes, através de uma combinação de retórica conciliadora e brutal repressão estatal. Os protestos começaram em Basra em 8 de julho, quando as forças de segurança dispararam contra uma manifestação de jovens protestando contra a alta dos preços, falta de emprego e serviços essenciais, incluindo água e eletricidade.

    As quedas de energia recorrentes e a falta de água potável tornaram a vida miserável para os habitantes da classe trabalhadora da cidade durante os verões sufocantes. A escassez de energia foi exacerbada este ano por uma seca, que reduziu significativamente a produção de energia nas barragens hidrelétricas do país, e pela grande redução do fornecimento de eletricidade do Irã por falta de pagamento.

    A corrupção generalizada, o desemprego e os serviços públicos grosseiramente inadequados tornaram-se características definidoras da sociedade iraquiana desde a invasão e ocupação dos EUA.

    Essas manifestações continuaram desde então, com milhares de manifestantes bloqueando o tráfego, tentando sequestrar campos de petróleo e invadir prédios do governo, após o fracasso dos regimes em melhorar seus padrões de vida desde a queda do regime Ba’athista. “Centenas de pessoas tentaram invadir um tribunal”, disse um policial.

    A província de Basra é de longe a região mais rica em petróleo do país. Suas exportações de petróleo respondem por 95% da receita anual do governo iraquiano. Abadi ordenou que os conhecidos comandos do Serviço contra o Terrorismo do Iraque “defendessem” os campos de petróleo em Basra. O acesso à Internet foi encerrado para interromper a coordenação dos protestos.

    Os protestos, no entanto, ganharam ainda mais impulso. Na sexta-feira, os manifestantes bloquearam o acesso ao porto de Umm Qasr, enquanto o movimento se expandiu para as cidades de Amara, Nasiriya e Najaf, onde centenas de manifestantes invadiram o aeroporto e paralisaram o tráfego aéreo. As forças de segurança instaladas no aeroporto dispararam e mataram mais dois manifestantes, elevando o total para pelo menos oito manifestantes mortos durante a primeira semana da revolta. Esses protestos já se espalharam para Bagdá e para a cidade sagrada de Karbala.

    O Iraque possui as maiores reservas de petróleo do mundo depois da Arábia Saudita, enquanto seus habitantes comuns ainda sofrem com a opressão e a miséria. De fato, antes da guerra com o Irã, que começou em 1980, o Iraque estava perto de um estado de bem-estar social, de acordo com um relatório do PNUD. O Iraque teve uma série de revoltas revolucionárias na história moderna.

    Em 1958, mais de um milhão de pessoas protestavam nas ruas de Bagdá esperando que o Partido Comunista liderasse uma insurreição revolucionária. No entanto, a monarquia britânica imposta foi derrubada por um golpe de estado dos oficiais do exército jovem do Partido Socialista Baath, enquanto os líderes do PC vacilavam para tomar o poder.

    Em julho de 1968, o major-general Ahmad Hassan Al-Baker derrubou o regime do general Abdel Rahman Arif em um golpe de Estado prometendo mudanças radicais, incluindo a nacionalização do petróleo e o controle da economia. Isso os aproximou de uma economia socialista planejada que deu um tremendo impulso ao desenvolvimento social e à melhoria das vidas dos iraquianos comuns.

    Um relatório da ONU descreveu o Iraque no início dos anos 80 como um país que se aproximava rapidamente dos padrões de vida comparáveis ​​aos dos países desenvolvidos. Um extenso e sofisticado sistema de saúde foi introduzido. Água potável limpa e abundante era a norma. Estações avançadas de tratamento de esgoto mantiveram a qualidade da água do Tigre e do Eufrates limpas e uma moderna rede de telecomunicações foi estendida para áreas urbanas e rurais. Vinte e quatro estações de geração de energia elétrica foram a componente chave da infraestrutura.

    As mulheres urbanas e rurais eram ativas em todos os setores da economia e do governo, com uma liberdade social raramente testemunhada em outras partes do Oriente Médio. A educação das mulheres melhorou rapidamente com educação gratuita e obrigatória. No entanto, as taxas de abandono aumentaram substancialmente após a guerra do Golfo, a invasão dos EUA e o aumento do fanatismo islâmico violento.

    Antes da invasão imperialista, não havia nem traços de organizações fundamentalistas islâmicas que desde então causaram estragos no país. O terror fundamentalista islâmico transformou drasticamente a vida social, cultural e econômica das mulheres em um inferno. Com a guerra Irã-Iraque de oito anos (1980-1988), as duas guerras do Golfo, a tirania religiosa e as invasões imperialistas, o Iraque passou de relativa afluência a um abismo de pobreza e miséria maciças.

    Porém esta nova revolta na base da classe é um revestimento de prata na tragédia humana e no tumulto sangrento que assolou o Iraque por décadas. Os estados do Iraque, Líbano, Líbia, Síria, Iêmen e Líbia, que foram esculpidos na província Levante do Império Otomano pelos mestres imperialistas, desmoronaram. Não há possibilidade de restaurar qualquer desenvolvimento ou prosperidade através da ‘ajuda’ das instituições financeiras imperialistas ou ‘potências mundiais’, seja no Iraque ou qualquer um desses estados artificiais criados para saquear através do Tratado Sykes-Picot, Declaração Balfour e outros acordos traiçoeiros entre os poderes imperialistas vitoriosos após a Primeira Guerra Mundial.

    O atual movimento é um marco transformador na luta dos iraquianos pela emancipação. Quando tal movimento alcança um caráter revolucionário, ele não permanecerá confinado ao Iraque, mas se espalhará como uma tempestade revolucionária em todos os países do Levante, no Oriente Médio e muito além. Haverá fluxos e refluxos na trajetória desse movimento. Mas esta insurreição provou mais uma vez que, mesmo nas condições mais árduas, a juventude e as massas trabalhadoras podem se levantar e derrubar todos os obstáculos na luta pela sua emancipação.

    Texto publicado originalmente em: PSOL

  • Um ano sem Humberto Belvedere

    Neste momento de uma complexa e desafiadora conjuntura, completou-se um ano que perdemos o camarada Humberto Belvedere, o “Bel”, como a maioria o chamava.

    Há um ano deixamos de ter suas análises, sua experiência, seu ótimo humor nas condições mais adversas, mas tenho a certeza que mantemos seu legado. Conversei com ele na véspera de seu falecimento, já era noite e ele nesta conversa estava muito animado com as discussões que iniciamos com o MAIS e com as grandes possibilidades que se abriam para fazer o que não foi possível na antiga organização que militamos. Nesta conversa eu compartilhava este mesmo otimismo, mas insistia para deixarmos essa conversa para depois, pois ele precisava poupar energias para se recuperar. Essa foi a última vez.

    Foram mais de 50 anos de vida dedicados a luta dos explorados e oprimidos. Da militância na juventude nos anos 1960, do exílio no Chile, da guerrilha contra a ditadura, a prisão nos cárceres da ditadura a fundação do PT e a defesa do Trotskysmo, a constituição de nossa pequena organização em 1 de maio de 2017, o M-LPS até o início das discussões com o MAIS que resultaram em nossa fusão com a Resistência.

    Também neste último fim de semana participei da 1ª reunião da Coordenação Nacional da Resistência-PSOL, corrente política que nasceu da unificação do MAIS (Movimento Alternativo Independente e Socialista, ruptura do PSTU em 2016) e a NOS (Nova Organização Socialista) e neste fim de semana votou por unanimidade a unificação com a nossa antiga organização.

    Debatendo importantes temas foi uma rica e democrática discussão que seguramente armaram a Resistência para enfrentar a conjuntura e o próximo período da luta de classes, ajudando na campanha de Boulos e Sonia para Presidente, construindo o PSOL, na luta por Lula Livre e Justiça para Marielle e Anderson. Avançando no combate pela reorganização da esquerda, na via da construção de uma alternativa socialista e revolucionária no Brasil e no mundo.

    Camarada Bel, seu legado está aqui, vivo e animando nossa luta.

    Humberto Belvedere, Presente! Hoje e Sempre!

  • Agora somos Resistência

    No último dia 27 de maio, nossa pequena organização, o M-LPS (Movimento Luta Pelo Socialismo), em Conferência Nacional decidiu por unanimidade unir-se à Resistência, corrente interna do PSOL, nascida quase um mês antes da fusão, após um ano de debates e discussões de duas organizações, a NOS (Nova Organização Socialista) e o MAIS (Movimento Alternativo Independente Socialista). A fusão de correntes políticas de origens e tradições diferentes é um raro acontecimento na história das organizações que se reivindicam do legado de Leon Trotsky, em última análise é fruto desta desafiadora conjuntura.

    Creio ser de suma importância a localização deste acontecimento e a luta pela superação da fragmentação e dispersão dos marxistas revolucionários construindo um ponto de apoio para avançar para a superação do reformismo, construindo uma alternativa de esquerda, de independência de classe que abra caminho para construção de um partido revolucionário de massas e enraizado na classe trabalhadora, no proletariado e nos explorados e oprimidos.

    As jornadas de junho e julho de 2013 foram um marco na luta de classes no Brasil e seus desdobramentos colocaram em xeque a posição dos partidos, grupos, correntes e militantes à prova. Esta situação, componente da situação internacional, aberta desde a crise 2007/2008, que abriu um novo patamar da luta de classes, a partir da intensificação por parte do imperialismo, da exploração da mais valia, atacando brutalmente as condições de vida dos povos em todos os cantos do planeta.

    Esta conjuntura nacional e internacional, onde de um lado estão estes ataques do imperialismo e avanço da extrema-direita, em especial na Europa, de outro uma brava resistência em defesa dos direitos e conquistas criando situações de polarização social onde até este momento a classe trabalhadora tem sofrido derrotas com perda de direitos e aplicação das políticas de corte nos gastos públicos.

    A aplicação destas políticas, inclusive por governos de colaboração de classes com participação ou mesmo sendo majoritários de partidos da esquerda tradicional que em geral também são a direção dos sindicatos e da maioria dos movimentos sociais, impõe imensos desafios aos marxistas revolucionários. Aliás, situação que criou as condições para o surgimento de vários fenômenos nascidos em geral por fora das organizações tradicionais do proletariado, também denominados “neorreformistas”.

    O surgimento destes fenômenos – e diga-se de passagem foram vários, com particularidades e em vários países – são fruto da busca pelas massas (mesmo que de forma inconsciente num primeiro momento) de romper o bloqueio das direções tradicionais, ora porque estavam nos governos, portanto sendo aplicadoras das políticas de ajustes mesmo que de forma diferente de um governo “puro sangue” da burguesia, ora através de orientações reformistas que bloqueavam uma autêntica saída de esquerda nas lutas. Das mobilizações espontâneas ou agarrando-se em setores à esquerda dos partidos e direções tradicionais, esses fenômenos se transformaram em ponto de apoio para as massas, particularmente nas lutas por reivindicações democráticas, em especial dos setores oprimidos como mulheres, imigrantes, lgbts, minorias, entre outros.

    E no desenvolvimento desta situação cresce a extrema-direita, com elementos fascistas e xenófobos na Europa e, em alguns locais, como no Brasil, a esquerda reformista volta a ser oposição após o golpe parlamentar, interrompendo-se a experiência das massas com a política de colaboração de classes, revelando as enormes reservas de liderança que as direções reformistas têm na classe trabalhadora, o que mantem o bloqueio para uma saída pela esquerda para enfrentar a crise, cujo custo é jogado nas costas da classe trabalhadora, dos explorados e oprimidos.

    Logo após a constituição do M-LPS, em 22 de maio de 2017, escrevi um artigo escrito junto com o Bel – Humberto Belvedere (falecido poucos meses depois da constituição do M-LPS), onde dizíamos: … ajudar o movimento operário de massa a resistir e manter a iniciativa é algo que ultrapassa nossas humildes forças. Mas podemos começar a fazer a nossa parte, que juntando com outras partes, na linha da frente única, pode abrir uma saída para desbloquear essa situação. O que coloca na ordem do dia as iniciativas políticas em direção a constituição de um partido operário de classe, independente, socialista e de massas. Que pode se desenvolver inclusive no próprio seio do PSOL, porém ainda num quadro indefinido na situação de organização e reorganização dos grupos, partidos e organizações que se reivindicam da luta pelo Socialismo.”

    E foi a partir da profunda compreensão desta tarefa que nos dispusemos de maneira franca e leal ao debate com o antigo MAIS. Lemos os documentos, expusemos de maneira clara e transparente todas nossas posições, realizamos iniciativas comuns na luta de classes. Aprofundamos o conhecimento mútuo ao logo de um ano, inclusive em vários momentos os textos e artigos de análises da situação eram muito parecidos e mesmo se em alguns pontos considerados táticos por ambas as partes existem discordâncias, nas questões de fundo, estratégicas e de princípios existem um amplo acordo.

    Foram vários meses de preparação de nossa Conferência Nacional, que teve uma excepcional participação de todos militantes, com Boletins Internos, preparação, plenárias, textos lidos e debatidos na base e chegando ao final à conclusão unânime da fusão entre o M-LPS e a Resistência. O ânimo e disposição estampado por todos e todas ao final da Conferência era contagiante. O sucesso desta fusão também foi a demonstração do método utilizado estar baseado nas melhores tradições do bolchevismo.

    Apesar das nossas humildes forças no amplo movimento dos trabalhadores, temos a gigante convicção de estar no caminho certo para honrar todos e todas camaradas que dedicaram suas vidas na construção de uma ferramenta que ajude a superar a fragmentação da esquerda. Construiremos a Resistência na luta de classes, abrindo caminho para a construção de um partido socialista, revolucionário e de massas, que neste momento passa pela construção do PSOL. E ao mesmo tempo, seja um ponto de apoio na luta por uma internacional revolucionária e de massas. Este é o desafio e o legado que recebemos das gerações que nos precederam, estes são os combates do próximo período. À luta, camaradas.

    Vida Longa à Resistência!
    Viva a luta da classe trabalhadora!
    Viva a Luta Pelo Socialismo!

    *José Carlos Miranda foi ferroviário e metalúrgico, militante desde os anos 1981, é da Coordenação Nacional da Resistência, membro do Conselho Curador da Fundação Lauro Campos (PSOL) e da Direção do PSOL-SP