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Agora somos Resistência

José Carlos Miranda

José Carlos Miranda foi ferroviário e metalúrgico. Ativista dos movimentos sociais desde os anos 1981, é da Coordenação Nacional da Resistência/PSOL, membro do Conselho Curador da Fundação Lauro Campos (PSOL) e da Direção do PSOL-SP

No último dia 27 de maio, nossa pequena organização, o M-LPS (Movimento Luta Pelo Socialismo), em Conferência Nacional decidiu por unanimidade unir-se à Resistência, corrente interna do PSOL, nascida quase um mês antes da fusão, após um ano de debates e discussões de duas organizações, a NOS (Nova Organização Socialista) e o MAIS (Movimento Alternativo Independente Socialista). A fusão de correntes políticas de origens e tradições diferentes é um raro acontecimento na história das organizações que se reivindicam do legado de Leon Trotsky, em última análise é fruto desta desafiadora conjuntura.

Creio ser de suma importância a localização deste acontecimento e a luta pela superação da fragmentação e dispersão dos marxistas revolucionários construindo um ponto de apoio para avançar para a superação do reformismo, construindo uma alternativa de esquerda, de independência de classe que abra caminho para construção de um partido revolucionário de massas e enraizado na classe trabalhadora, no proletariado e nos explorados e oprimidos.

As jornadas de junho e julho de 2013 foram um marco na luta de classes no Brasil e seus desdobramentos colocaram em xeque a posição dos partidos, grupos, correntes e militantes à prova. Esta situação, componente da situação internacional, aberta desde a crise 2007/2008, que abriu um novo patamar da luta de classes, a partir da intensificação por parte do imperialismo, da exploração da mais valia, atacando brutalmente as condições de vida dos povos em todos os cantos do planeta.

Esta conjuntura nacional e internacional, onde de um lado estão estes ataques do imperialismo e avanço da extrema-direita, em especial na Europa, de outro uma brava resistência em defesa dos direitos e conquistas criando situações de polarização social onde até este momento a classe trabalhadora tem sofrido derrotas com perda de direitos e aplicação das políticas de corte nos gastos públicos.

A aplicação destas políticas, inclusive por governos de colaboração de classes com participação ou mesmo sendo majoritários de partidos da esquerda tradicional que em geral também são a direção dos sindicatos e da maioria dos movimentos sociais, impõe imensos desafios aos marxistas revolucionários. Aliás, situação que criou as condições para o surgimento de vários fenômenos nascidos em geral por fora das organizações tradicionais do proletariado, também denominados “neorreformistas”.

O surgimento destes fenômenos – e diga-se de passagem foram vários, com particularidades e em vários países – são fruto da busca pelas massas (mesmo que de forma inconsciente num primeiro momento) de romper o bloqueio das direções tradicionais, ora porque estavam nos governos, portanto sendo aplicadoras das políticas de ajustes mesmo que de forma diferente de um governo “puro sangue” da burguesia, ora através de orientações reformistas que bloqueavam uma autêntica saída de esquerda nas lutas. Das mobilizações espontâneas ou agarrando-se em setores à esquerda dos partidos e direções tradicionais, esses fenômenos se transformaram em ponto de apoio para as massas, particularmente nas lutas por reivindicações democráticas, em especial dos setores oprimidos como mulheres, imigrantes, lgbts, minorias, entre outros.

E no desenvolvimento desta situação cresce a extrema-direita, com elementos fascistas e xenófobos na Europa e, em alguns locais, como no Brasil, a esquerda reformista volta a ser oposição após o golpe parlamentar, interrompendo-se a experiência das massas com a política de colaboração de classes, revelando as enormes reservas de liderança que as direções reformistas têm na classe trabalhadora, o que mantem o bloqueio para uma saída pela esquerda para enfrentar a crise, cujo custo é jogado nas costas da classe trabalhadora, dos explorados e oprimidos.

Logo após a constituição do M-LPS, em 22 de maio de 2017, escrevi um artigo escrito junto com o Bel – Humberto Belvedere (falecido poucos meses depois da constituição do M-LPS), onde dizíamos: … ajudar o movimento operário de massa a resistir e manter a iniciativa é algo que ultrapassa nossas humildes forças. Mas podemos começar a fazer a nossa parte, que juntando com outras partes, na linha da frente única, pode abrir uma saída para desbloquear essa situação. O que coloca na ordem do dia as iniciativas políticas em direção a constituição de um partido operário de classe, independente, socialista e de massas. Que pode se desenvolver inclusive no próprio seio do PSOL, porém ainda num quadro indefinido na situação de organização e reorganização dos grupos, partidos e organizações que se reivindicam da luta pelo Socialismo.”

E foi a partir da profunda compreensão desta tarefa que nos dispusemos de maneira franca e leal ao debate com o antigo MAIS. Lemos os documentos, expusemos de maneira clara e transparente todas nossas posições, realizamos iniciativas comuns na luta de classes. Aprofundamos o conhecimento mútuo ao logo de um ano, inclusive em vários momentos os textos e artigos de análises da situação eram muito parecidos e mesmo se em alguns pontos considerados táticos por ambas as partes existem discordâncias, nas questões de fundo, estratégicas e de princípios existem um amplo acordo.

Foram vários meses de preparação de nossa Conferência Nacional, que teve uma excepcional participação de todos militantes, com Boletins Internos, preparação, plenárias, textos lidos e debatidos na base e chegando ao final à conclusão unânime da fusão entre o M-LPS e a Resistência. O ânimo e disposição estampado por todos e todas ao final da Conferência era contagiante. O sucesso desta fusão também foi a demonstração do método utilizado estar baseado nas melhores tradições do bolchevismo.

Apesar das nossas humildes forças no amplo movimento dos trabalhadores, temos a gigante convicção de estar no caminho certo para honrar todos e todas camaradas que dedicaram suas vidas na construção de uma ferramenta que ajude a superar a fragmentação da esquerda. Construiremos a Resistência na luta de classes, abrindo caminho para a construção de um partido socialista, revolucionário e de massas, que neste momento passa pela construção do PSOL. E ao mesmo tempo, seja um ponto de apoio na luta por uma internacional revolucionária e de massas. Este é o desafio e o legado que recebemos das gerações que nos precederam, estes são os combates do próximo período. À luta, camaradas.

Vida Longa à Resistência!
Viva a luta da classe trabalhadora!
Viva a Luta Pelo Socialismo!

*José Carlos Miranda foi ferroviário e metalúrgico, militante desde os anos 1981, é da Coordenação Nacional da Resistência, membro do Conselho Curador da Fundação Lauro Campos (PSOL) e da Direção do PSOL-SP

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