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  • Argélia: 800 mil nas ruas contra um quinto mandato para o presidente Bouteflika

    No dia 1º de março, a Argélia viu o povo sair às ruas, com centenas de milhares em todo o país, para protestar contra um quinto mandato do presidente Abdelaziz Bouteflika, há 20 anos no poder.  Com 82 anos, Bouteflika está numa clínica na Suíça para exames médicos. Ele está muito doente, ainda consequência de um acidente vascular cerebral em 2013. O regime, no entanto, confirmou sua candidatura para as próximas eleições presidenciais marcadas para 18 de abril, com outros 19 nomes.

    A magnitude do movimento

    Apesar de proibidas desde 2001 e do grande aparato de segurança, o país viu as maiores mobilizações em décadas. O movimento começou em 22 de fevereiro na capital, Argel e, a partir daí, as mobilizações não pararam. Na terça-feira, 26, os estudantes saíram às ruas apesar dos dispositivos policiais que bloquearam as universidades e faculdades, e ignorando os sindicatos controlados pela burocracia que permaneceu leal àqueles que estão no poder. Na quarta-feira, mais de mil jornalistas protestaram contra a censura do regime, sofrendo severa repressão e muitos detentos. Os professores lançaram uma greve nacional de educação nos dias 26 e 27 de fevereiro.

    A mobilização de 1º de março foi ainda mais impressionante, com 800 mil pessoas em Argel. Ela se espalhou como um maremoto nas ruas e nas redes sociais, no país inteiro.  O site Tudo Sobre a Argélia (TSA) insiste na presença de todas as gerações, todas as corporações, todas as camadas populares, homens, mulheres, crianças, mujahideen, desempregados e empresários saíram para dizer não à presidência e pedir uma mudança pacífica.”

    A polícia tentou gás lacrimogêneo e bastões, mas foi ultrapassada pela multidão.  Os incidentes, provocadores no final da manifestação e a morte de uma pessoa, não conseguiram dividir a marcha. Nas redes sociais, os manifestantes disseram que ficaram surpresos pela vitalidade do movimento empurrado por uma juventude alegre que não quer mais esse poder, mesmo que nunca tenha conhecido outro. Cabe enfatizar também uma forte participação das mulheres. Não se tinha visto um movimento tão espontâneo desde a independência em 1962, uma multidão pacífica e bem-humorada que defendeu e protegeu a sua mobilização.

    A escala das mobilizações mostra que esta é uma onda de fundo alimentada pelo descontentamento popular e pela raiva de todo um povo diante de um regime autoritário e antissocial. Isso foi expresso em palavras de ordem como “Fora Bouteflika!”, “Fora FLN!”, “Abaixo o sistema!”, “O povo quer a queda do regime”, “Poder assassino” e em gritos também dirigidos contra o primeiro-ministro, Ahmed Ouyahia: “Ouyahia, a Argélia não é Síria!”.

    O fator juventude, a onda de quebra

    A Argélia é um país jovem: de uma população de 42 milhões, 45% tem menos de 25 anos. É a juventude, bem formada mas desempregada e sem futuro, quem virou tudo no avesso; ela não acredita nem em Bouteflika nem em islamistas; requer mais transparência e democracia. “Você pode imaginar a miséria em que vivemos”, disse um deles a jornalistas que cobriam o evento. Querem conversar para explicar o impasse em que se encontram, para expressar esse sentimento de não ter futuro apesar dos diplomas … [1]

    No facebook, o blogueiro e ativista Sidali Kouidri Filali testemunha: “Eu chorei hoje duas vezes. A primeira quando recebi gás lacrimogêneo na boca (…) A segunda quando parei depois de me manifestar por uma boa hora (…) Porque vi um povo que pensei que estava perdido, porque vi que não estamos mortos, e que nesta terra, os dignos serão para sempre. Porque pela primeira vez vi uma Argel livre de seus medos e que sorria. Porque cheirava a liberdade, e eu era como uma criança, feliz com essa novidade”.[2]

    Neste início de março, os protestos estudantis continuam e pedem uma greve geral. O poder está prestes a reprimir. Em Argel, a polícia atacou os manifestantes com bombas de gás lacrimogêneo, mas o chamado dos jovens é ouvido: advogados congelam suas atividades e denunciam ataques à Constituição. Os médicos convocam comícios em hospitais. Seções da União Geral dos Trabalhadores Argelinos (UGTA), dos trabalhadores fiscais, do registro de terras e trabalhadores do orçamento rebelam-se contra o presidente da UGTA, Abdelmajid Sidi Said, que apoia o quinto mandato, e apoiam os manifestantes.  A candidatura para o quinto mandato foi, portanto, a faísca que desencadeou o incêndio.

    O regime sem fôlego

    O personagem de Bouteflika está na vida política argelina desde a independência. Em 1962, após oito anos de luta, a Frente Nacional de Libertação (FLN) chegou ao poder e lá permaneceu até 1989. Aos 26 anos, Bouteflika tornou-se o mais jovem ministro das Relações Exteriores do primeiro governo independente do país. De 1965 a 1978, estava no cargo na ONU. Na década de 1990, a Argélia foi dilacerada por uma sangrenta guerra civil (1991-1999) entre os militares no poder e vários grupos islâmicos, com um saldo de mais de 200 mil mortos. Em 1999, Bouteflika ganha as eleições e se torna presidente do país, mas manteve um regime autocrático. Em 2009, ele alterou a Constituição para ser reeleito para um terceiro mandato.

    Bouteflika sempre pôde contar com o apoio internacional, particularmente da França, que continua a ter fortes interesses econômicos. A Argélia é um de seus principais fornecedores de gás e petróleo, mas tem que importar quase 80% do que consome.

    Este poderoso regime de segurança é apoiado por três polos de poder: a Presidência, que conta com grandes investidores e multinacionais; os generais, que controlam o Estado-Maior, com diferentes sensibilidades dentro dele e Serviços argelinos de Segurança. Uma cúpula opaca, aliada a uma nova casta de empresários muito ricos que formam alianças e grupos de interesses. Nos últimos anos, com a doença do Presidente, o regime presidencial fortaleceu e reduziu fortemente o poder do exército, tomou posse do Parlamento e da FLN. Um profundo mal-estar existe dentro dos partidos da Aliança Presidencial, que se expressa através de políticos rejeitando a escolha de apoiar o presidente cessante.

    Hoje, o regime está em plena decomposição; é um clã que detém o país: Saïd, o irmão do Presidente, dirige em seu nome e assume as decisões; o exército – principalmente mobilizado nas fronteiras do Saara – apoia o poder forte, na ausência de uma oposição, bastante silenciosa e não unificada. Em 2014, para a quarta reeleição, houve uma unificação da oposição secular e islamista em uma plataforma comum, mas não deu em nada.

    Por 20 anos, o regime bloqueou tudo e atomizou qualquer alternativa política. Muitos problemas sociais invadiram o cenário político nacional: o desemprego não para de aumentar e os padrões de vida, de cair como resultado da crise econômica. O sistema, estropiado pela corrupção, sua lógica autoritária e a fuga de capitais para o exterior, não têm mais apoio popular.  Agora cai o muro do medo, as mobilizações abrem um momento de transição.

    Para tentar moderar as mobilizações em andamento, em uma carta endereçada ao povo argelino nesta segunda-feira 4 de março, o Presidente anunciou que, se eleito, ele organizará uma grande Conferência Nacional inclusiva e independente, que iria discutir um novo plano de medidas econômicas, políticas e sociais que formariam a base de um novo regime. Ele concordou em convocar novas eleições antecipadas para as quais ele não seria mais candidato. De fato, o poder quer economizar tempo criando as condições de sua sucessão.

    Na beira de uma nova primavera …

    Mas o povo não deixa-se enganar. Ao continuar as manifestações, ele demonstra que essas promessas não estão à altura de suas aspirações. A Argélia está, portanto, no início de um processo de libertação que diz respeito a toda a sociedade que quer remover a opressão que pesa sobre ela desde 1991. A rua exige mudanças institucionais.

    O poder foi surpreendido pela escala da crescente mobilização e é apanhado em curto, sem alternativa, mas não vai deixar o lugar de boa graça. Por enquanto, todas as instituições do regime permaneceram em silêncio. O partido do Presidente emitiu uma declaração apoiando sua carta à nação. Os partidos de oposição se reuniram em conclave para tentar chegar a acordo sobre candidato único para eleições de 18 de abril. Por seu turno, o exército – que não quer estar na situação dos anos 90 – não se pronunciou e, portanto, permanece alinhado com o Presidente. Três cenários parecem estar emergindo para o poder: 1) sustentar, seja qual for o custo, a candidatura de Bouteflika, por falta de outra alternativa; 2) uma mudança de governo para tentar acalmar o jogo 3) uma parada do processo eleitoral para enfrentar os protestos.

    Continuar as mobilizações e fortalecer a unidade

    Para manter a pressão por uma abertura democrática, será necessária a maior unidade de todos os setores da sociedade e a manutenção das mobilizações de rua. Em seu comunicado de 3 de março, o Partido Socialista dos Trabalhadores (PST) – Quarta Internacional, coloca: “É imperativo manter nossa mobilização, iniciar o estabelecimento da auto-organização democrática das massas nos bairros da classe trabalhadora, locais de trabalho, universidades e, sempre que possível, envolver a comunidade. Sempre que possível, promover um debate sobre como eleger uma Assembleia Constituinte soberana, representante das aspirações de liberdade e justiça social da maioria do nosso povo. Ao mesmo tempo, o uso de uma greve geral para impor as mudanças pelas quais aspiramos permanece uma possível opção a não ser excluída. ” [3]

    NOTAS

    1 – https://alencontre.org/moyenorient/algerie/algerie-la-deferlante-du-1er-mars-2019.html

    2 – https://www.mediapart.fr/journal/international/010319/le-pouvoir-algerien-accule-par-un-raz-de-maree-de-manifestants?utm

    3 – [email protected] – https://www.facebook.com/PSTDZ/

  • Venezuela: 30 anos depois, “o Caracazo ainda não acabou”

    A Venezuela, submetida à ameaça de intervenção imperialista e com uma grave crise interna política e econômica, hoje comemora trinta anos da insurreição popular de 27 de fevereiro de 1989, conhecida internacionalmente como o “Caracazo” e que na Venezuela é conhecida como o 27F, acontecimento que abalou o país e que mudou a história da Venezuela por meio de um giro de 180 graus. Nada foi igual na Venezuela depois do Caracazo.

    Quando se cumpriram os primeiros dez anos do Caracazo, em 1999, três semanas depois que Chavez assumiu a presidência e convocou, no mesmo ato de proclamação, um referendo para consultar o povo sobre a convocação de uma Assembleia Constituinte que o Congresso Nacional daquele momento, com maioria da direita, queria impedir, um representante da burguesia exclamou: “o Caracazo ainda não acabou”. Trinta anos depois se mantém no ar a mesma ideia: o Caracazo ainda não acabou.

    O modelo rentista petroleiro

    O desenvolvimento do capitalismo na Venezuela tem suas características particulares, já desde o final do século XIX, quando começa a exploração petrolífera para o mercado internacional. O território venezuelano teve a vantagem (e a desgraça) de o petróleo ter brotado ainda antes da chegada de Cristóvão Colomb. Os caraíbas o utilizavam para calafetar suas embarcações que cobriam longos trajetos da Venezuela para a Flórida e depois durante o período colonial utilizavam as ilhas venezuelanas para reparar seus barcos devido às vantagens do “breu” que brotava do subsolo. Os indígenas chamavam esses brotes de “mene”, nome pelo qual se conhecem muitas cidades da Venezuela.

    A Constituição de 1830, que projetou a República da Colômbia (ainda por ser libertada) redigida por Simón Bolívar estabeleceu a propriedade do subsolo e das riquezas nele contidas como propriedade do Estado. Por isso, desde que começou a exportação petroleira ela se converteu em uma renda do Estado. Na Venezuela não existe uma burguesia petroleira que tenha se desenvolvido a partir da exploração do petróleo, o que foi feito pelas multinacionais desde o começo, mas se desenvolveu a partir da apropriação dos recursos, direta ou indiretamente, que eram gerados ao país pela exportação do petróleo ao mercado internacional.

    A burguesia venezuelana não somente é rentista e parasitaria, mas também é subordinada à política petroleira imperial. Durante o século XX, o desenvolvimento político e econômico da Venezuela esteve marcado por uma subordinação ao imperialismo petroleiro e também por choques com as multinacionais para uma melhor colocação e participação na renda petroleira.

    VEJA DEPOIMENTO DO AUTOR DESTE TEXTO

    A base do modelo rentista era uma moeda interna forte e sobrevalorizada, que obrigava às empresas petroleiras a trocar mais dólares para obter os mesmos bolívares para cobrir seus gastos internos, o que se traduziu em uma burguesia comercial importadora e/ou produtiva importadora que bebia diretamente da fonte de petróleo. Um economista dos anos cinquenta indicava que a Venezuela não era produtora petróleo, mas de dólares. Um longo período de estabilidade cambiaria que não estimulava as atividades produtivas nos chamados sectores com produção comercializável, como a agricultura e a indústria, mas sim um setor público muito forte e um setor privado com alta dependência do governo.

    Uma sociedade comerciantes e burocratas, com um nível de desigualdade muito alto. Uma burguesia muito rica, quase a mesma desde a colônia. Uma ampla classe média com alto poder aquisitivo vinculada aos contratos com o governo, às relações com a burocracia estatal e ao comércio. E uma camada grande da população com escassos recursos, cuja migração forçada do campo para a cidade gerou enormes cordões de miséria nas cidades. No entanto, apesar da desigualdade social, houve um crescimento econômico constante desde 1920 até quase 1980, que se traduziu em melhorias no nível de vida inclusive dos setores mais empobrecidos.

    As contínuas disputas com o imperialismo para melhorar a participação do estado na renta petroleira, sem um desenvolvimento produtivo real senão parasitário, em direção a uma economia cada vez mais dependente da renda. Situação que teve um salto qualitativo em 1974, quando foi nacionalizada a indústria petroleira. Por dez anos, as três empresas transnacionais que monopolizavam a exploração petroleira passaram a ser empresas venezuelanas (sociedade 50%-50% com o governo).

    Esse momento de boom petroleiro marcou uma das épocas de maior bonança econômica (até a que ocorreu com Chavez em 2006), que aprofundou o modelo rentista, mas também significou um aumento do poder aquisitivo, fundamentalmente da classe média alta e também, em menor medida, do restante da população. Aproveitando a imensa massa de recursos que significou o aumento de preços pela crise no Oriente Médio (1975), o governo de Carlos Andres Perez (1973-1978) abordou uma série de projetos faraônicos de desenvolvimento petroquímico e siderúrgico (aço-alumínio), no marco do mesmo modelo rentista, que não prosperaram e terminaram gerando uma enorme dívida externa que até aquele momento não existia.

    1979 marca o fim da bonança econômica e o começo de uma queda que duraria vinte anos. A enorme dívida externa obrigou o governo a seguir os ditames do FMI e do Banco Mundial. A renda petroleira garantia o pagamento das obrigações da dívida, o que lhe permitia uma certa margem de manobra com relação aos programas do FMI, mesmo tendo que aceitar algumas medidas para a correção das “distorções de uma economia rentista”.

    O serviço da dívida absorveu um percentual importante dos recursos do Estado, mas houve duas medidas inspiradas pelo FMI que marcaram a crise desses anos: a livre flutuação da moeda com relação ao dólar e a autonomia operacional e financeira da indústria petroleira frente ao Estado.

    Com uma moeda sobrevalorizada há mais de meio século, a liberação do dólar em um país com alta dependência da importação provocou uma inflação desmesurada e descalabro de uma indústria dependente e subsidiada que mal cobria o mercado interno.

    O nascimento da PDVSA em 1983 (depois de passados dez anos da nacionalização) a partir da fusão das três empresas anteriores não significou novos recursos para o governo. A autonomia operativa e financeira limitou o governo a viver dos lucros anuais, deixando todas as decisões em matéria petroleira (inclusive as políticas) nas mãos de uma nova gerência, formada pelas transnacionais. A PDVSA se converteu em um Estado dentro do Estado, com maior capacidade financeira e operacional que o próprio governo, que assumiu as diretrizes do desenvolvimento econômico (petroleiro e não petroleiro), enquanto um governo falido sustentava a crise galopante da saúde, educação, emprego e o aumento da miséria dos setores populares.

    Nesse marco ocorreram as eleições de 1988, em que, casualmente, apresentou-se como candidato para a segunda eleição Carlos Andres Perez, que fora presidente durante a última bonança econômica. Enquanto transcorria uma campanha eleitoral que apregoava um futuro esplendoroso, o país estava se destruindo: os artigos de primeira necessidade desapareciam ou estavam a preços inalcançáveis. Cada dia fechava as portas uma empresa e diminuíam as fontes de emprego, a economia informal chegou a 70% e a miséria extrema a 30%. O progresso econômico prometido pelo candidato era música para o ouvido das pessoas que tinham dificuldade de conseguir diariamente o que comer. Assim, Carlos Andres Perez ganhou as eleições com a mais alta votação de toda a história democrática do país.

    Mas o modelo de desenvolvimento que Carlos Andres Perez propunha era o que deveria surgir como resultado de uma política de choque “fundomonetarista”, dirigida a “corrigir” a economia. O que ele não disse na campanha eleitoral, mas disse quando tomou posse em 2 de fevereiro de 1989, era que era necessário um enorme sacrifício dos venezuelanos para mudar o rumo da economia. Em entrevista em dias posteriores disse: “só eu tenho a liderança necessária para impor um plano de austeridade sim conflitos” e “ao terminar o mandato o povo me carregará em seus ombros do [palácio de] Miraflores”. Só passaram 25 dias.

    O Caracazo

    Nas três semanas de governo foram sendo anunciadas e implementadas medidas. Enquanto se consolidavam os anúncios, desapareceram os produtos de primeira necessidade de todas as gondolas, em antecipação à escalada de preços. O anúncio da desregulamentação dos benefícios laborais, sem especificar o que significava isso, colocou de cabelos em pé até os representantes da CTV, central sindical governista. No dia 23 de fevereiro foi anunciado o aumento do preço da gasolina que há um ano não aumentava (nunca havia aumento em ano eleitoral) e isso teve um efeito direto na triplicação do preço do transporte urbano e na eliminação da passagem estudantil (que custava 30% da passagem normal).

    As federações estudantis, em mãos de movimentos independentes que haviam confrontado violentamente o governo de Lusinchi (antes de Carlos Andres) saíram às ruas para protestar na sexta-feira 24 tendo sido reprimidos, com saldo de dois mortos. Em resposta, anunciaram novas medidas de protesto para a segunda-feira dia 27.

    Nessa segunda-feira, às cinco da manhã, os terminais de transporte que atendem as cidades-dormitório ao redor de Caracas amanheceram tomados por pequenos grupos estudantis. Muitos ônibus ficaram retidos dentro dos terminais e o restante começou a fazer transporte “pirata” para Caracas. Sobre a passagem já triplicada conforme autorização do governo, aumentaram mais para “aproveitar” as dificuldades de transporte geradas pelos protestos. Os incômodos das pessoas fraudadas, fundamentalmente trabalhadores e estudantes, fez com que, ao chegarem em Caracas, em vez de se dirigir a seus trabalhos, somavam-se aos protestos que havia tempo que tinha deixado de meramente estudantil. Às dez da manhã do dia 27 de fevereiro, pelo menos quarenta mil pessoas ocupavam as principais avenidas do centro da cidade. Não havia palavras de ordem. A exigência dos estudantes de reinstaurar a passagem estudantil já era insuficiente para a mobilização. Pouco a pouco o cenário foi mudando: anulação do aumento da passagem, anulação do aumento da gasolina, que aparecesse a comida, aumento general do salário até chegar a abaixo o pacote econômico.

    Nas primeiras horas da manhã, várias das cidades dormitório de Caracas, principalmente Guarenas, tinham enfrentamentos com os destacamentos policiais que pretendiam dissolver as manifestações. Cerca do meio-dia, começou a repressão em Caracas. A enorme massa de gente que cobria o centro da cidade foi atacada desde vários pontos com balas e bombas de gás lacrimogêneo, provocando correrias em todas direções ao se verem encurraladas pelo cerco repressivo. Instintivamente, em meio de um cerco sem saída, a massa se lançou contra as barricadas policiais: em menos de duas horas, todas as barricadas haviam sido superadas, estendendo-se além do centro da cidade.

    No meio da tarde, a massa enfurecida, já com alguns mortos, arremeteu contra a cidade, todos e cada um dos estabelecimentos comerciais da cidade foram saqueados e incendiados, uma enorme coluna de fumaça se levantava do centro da cidade. As pessoas dos bairros começavam a vir para a cidade e, em seu caminho, iam destroçando a cidade. Os protestos da manhã se transformaram em uma insurreição popular. Os pobres se tornaram donos de suas ruas, da cidade que sempre os havia excluído: estabelecimentos comerciais, bancos, repartições governamentais, transporte público e do governo foram destroçados em uma fúria sem limites (só se salvaram farmácias e centros de saúde). Os destacamentos policiais, derrotados e superados, foram se retirando das ruas para garantir sua segurança pessoal. Foi a primeira resposta popular ao FMI e de tal magnitude e violência que quebrou a vitrine da democracia que era a Venezuela.

    O governo, sufocado pela insurreição, decretou a suspensão das garantias constitucionais e o toque de recolher a partir da própria noite de 27 de fevereiro, mas foi incapaz de organizar um só piquete policial. Durante o restante da noite de 27 de fevereiro e no dia 28, o povo foi desmantelando a cidade, abrindo as lojas e armazéns e mudando a cidade para os bairros. Enquanto na parte de baixo, a cidade era queimada, nos morros dos pobres havia festas com a comida e as bebidas que lhes tinham sido negadas durante meses.

    Somente no dia primeiro de março, o exército pode entrar na cidade saqueada, levando tropas ao aeroporto da cidade e colocando-as sobre o terreno rapidamente. As tropas trazidas do interior do país avançavam disparando sobre o caos. A teimosia caribenha do venezuelano, fazia com que se mantivessem nas ruas mesmo na proximidade das tropas, somente depois de vários mortos retrocediam e mesmo assim em algumas horas voltavam à carga, mais organizados e mais armados.

    Ainda que em dois dias conseguiram retomar as principais vias da cidade, foi impossível entrar nos bairros. A tropa e os oficiais médios vacilavam. Em alguns pontos, a oficialidade negou-se a disparar e deixou que continuassem os saques perante seus olhos, com a esperança de que quando terminassem voltassem para suas casas. Em outros lugares, a própria oficialidade organizava as pessoas nas filas, quebravam as portas dos armazéns para entregar mercadorias para as pessoas (não somente comida, qualquer tipo de mercadoria). Uma semana depois do 27 de fevereiro, os incêndios tinham se reduzido, mas continuavam os saques. As avenidas eram controladas pelo exército, os bairros, pelo povo; de dia havia uma calma tensa, seguiam os saques sob os olhares dos militares; a partir das cinco da tarde, havia tiroteios em toda a cidade. Em uma semana foram contabilizados mais de mil mortos e os hospitais de Caracas entraram em colapso. O governo tinha controlado o interior do país, mas Caracas seguia indomável e paralisada.

    No dia 10 de março foi dada a ordem de ocupar os bairros. Não conseguiram. A resistência das pessoas foi inesperada. A impossibilidade de entrar levou-os a técnica de varredura: a cada vinte minutos se abria fogo e com balas de alto calibre contra o bairro por uns quinze minutos. Todas casas foram perfuradas. Cada vez que parava a varredura, os feridos eram descidos do bairro e colocados na rua para fossem levados aos hospitais enquanto o restante subia novamente para o bairro para manter a defesa.

    No dia 25 de março, em plena Semana Santa, a cidade recuperou a calma. A pessoas começaram a descer dos bairros para comprar nos caminhões que foram preparados com mercadoria trazida de outros países com urgência. As pessoas caminhavam entre os escombros da cidade saqueada. A insurreição tinha terminado, custando milhares de mortos (7,6 mil), o exército se retirou das ruas, sem vitória, porque não puderam entrar nos bairros. A insurreição se retirava, reprimida, mas sem ser derrotada.

    A queda do regime do Punto Fijo

    Depois da queda da última ditadura, em janeiro de 1958, produto da mobilização das juventudes operárias e estudantis, foi modelado, sob o auspicio dos EUA e das petroleiras, um plano de governabilidade de um governo compartilhado pelos três partidos, com eleições a cada cinco anos e um congresso bicameral que servia como válvula de escape e de negociação das diferenças políticas. Esse pacto, firmado no sítio Puntofijo foi conhecido como pacto de puntofijo ou puntofijismo. Esse modelo desmoronou com o Caracazo.

    Os efeitos da insurreição continuaram além disso. A burguesia, temerosa, começou a buscar uma mudança no regime que havia gerado uma burocracia corrupta, agora afetada pela queda dos preços do petróleo. Instaurou-se uma situação revolucionária que se expressava na incapacidade da burguesia em seguir dominando da forma como vinha fazendo e uma rebelião latente no povo que se negava a ser dominado como antes.

    A esquerda não soube interpretar o Caracazo, Centrou-se em divulgar a enorme violação de direitos humanos e os assassinatos durante o Caracazo, mas não deu importância às características insurrecionais deste.

    Dois anos depois do Caracazo começaram a circular panfletos assinados COMACATES, atribuídos a uma oficialidade descontenta (COMACATE: COmandantes, MAjores, CApitães, Tenentes, que são as patentes médias do exército). Nos panfletos se denunciava a corrupção no governo e os assassinatos aos quais foram obrigados a fazer contra a insurreição do povo. Pela primeira vez, o 27F é reivindicado como uma insurreição.

    Três anos depois do Caracazo, uma insurreição de oficiais médios ocasiona um golpe de estado contra o governo e o alto comando militar. Não se trata de uma fratura vertical das forças armadas, trata-se de uma fratura horizontal, dos mandos médios contra os mandos superiores. Sua declaração acusa o governo de ser o assassino do povo durante o Caracazo e de ter utilizado as Forças Armadas para reprimir una insurreição popular.

    O Caracazo destruiu os partidos do governo e a esquerda tradicional. O golpe de 4 de Fevereiro lhe deu a liderança a Chavez, não por ser o dirigente de um golpe, mas por reivindicar o Caracazo. Sete anos depois, assume o governo pelo triunfo eleitoral do MVR (Movimento V República) que é a expressão da situação revolucionária aberta depois de 27 de fevereiro de 1989.

    O dia 27 de fevereiro de 1989 foi um ensaio de revolução que permitiu o cenário para o contragolpe de abril de 2002. Esse mesmo povo do 27 de fevereiro foi às ruas depois do golpe contra Chavez e, repetindo a experiência do Caracazo, mas com o Norte fixado em derrubar o governo imposto, conseguiu dividir o exército que, desta vez, diferentemente do 27F, desobedecendo às ordens de seus mandos de reprimir o povo, somou-se às mobilizações e, juntos, derrotaram a intentona fascista.

    27 de fevereiro, 30 anos depois

    O país vive uma crise econômica, que combina um forte bloqueio, uma guerra e sabotagem econômica interna, com uma burocracia governamental que não pode impedir os efeitos da guerra econômica. Apesar disso, a mobilização do povo impôs várias derrotas às intentonas fascistas da burguesia, sendo a última a guarimba há dois anos.

    Apesar das enormes dificuldades, as críticas ao governo, o povo não se prestou aos protestos organizados pela direita que quiseram se disfarçar de “rebelião popular”. Ao contrário do 27F, as pessoas desceram dos bairros, enquanto a classe média alta e a grande burguesia aplaudiam o uso de metralhadoras nos bairros. A guarimba das urbanizações da zona leste apedrejava os transportes dos que iam a seus trabalhos, os insultavam e em vários lugares assassinaram pessoas por serem pobres e se identificarem com o chavismo.

    Cada vez mais há exigência da população para que o governo enfrente a guerra econômica, para que acabe a corrupção e que haja mais democracia. Mas o povo também tem claro que o inimigo principal segue sendo a ameaça imperialista. A revolução cobrará as responsabilidades do governo Maduro, mas a ameaça imperialista não é contra Maduro, mas contra o povo.

    Hoje, trinta anos depois do 27 de fevereiro, o simbolismo do 27 de fevereiro é claro para muita gente. Maduro foi um dos jovens de El Valle (sul de Caracas) que durante um mês lutaram para impedir a entrada da repressão em seus bairros. Guaidó é herdeiro dos grupos fascistas de classe média que se formaram durante os dias seguintes ao 27 de fevereiro para proteger as urbanizações da classe média dos vândalos que desciam dos morros e que causaram a morte de várias pessoas que procuravam comida nas zonas da classe média em meio ao cerco militar aos bairros. O simbolismo do 27F representa a classe.

    Hoje é a mesma luta de trinta anos atrás. Contra a política do império que nos quer impor um programa econômico subordinado às petroleiras e um governo à sua medida. Nossa luta não é por Maduro, mas pelo direito a nossa autodeterminação e para eleger o governo que queiramos, não o que nos imponham os EUA.

     

    Tradução: Waldo Merlmestein, de São Paulo, SP

    EM ESPANHOL

    Elio Francisco Colmenarez: “El caracazo aún no ha acabado”

    Fora Guaidó do Brasil! Fora Trump da Venezuela!

     

  • Relatos de Caracas – 3

    Nesta quinta feira (28/02) vamos retornar ao Brasil. No dia de ontem ocorreu a plenária final da Assembleia Nacional dos Povos. De forma uníssona mais de 400 delegados e delegadas de 85 países de todos os continentes reafirmaram a necessidade da solidariedade ativa e internacional entre os povos. O que une toda essa gente é uma situação política internacional de ofensiva imperialista em todo o planeta e a necessidade de combatermos muitos governos de direita, extrema direita e fascista que ascenderam nos últimos anos e a necessidade de defender os povos em luta, e os países que tem uma política independente diante do imperialismo como a Venezuela, principalmente nesse momento. Havia aqui inúmeras organizações diferentes, muitas críticas, inclusive ao chavismo, porém em plena unidade anti imperialista.

    Após isso dedicamos nosso dia a falar com ativistas chavistas e não chavistas que tem críticas ao governo. Pudemos ouvir que é necessário ampliar as estatizações e controle operário, que é preciso superar a burocracia e seus privilégios que domina muitas partes do estado. O mais marcante deste dia foi a conversa com Stalin Peres Borges, veterano militante trotskista venezuelano e perguntamos a ele se a sustentação do governo se dá pelo apoio do exército ou do povo. Sem titubear afirmou que o apoio do exército só existe porque o povo apóia o governo (em breve publicaremos a entrevista completa).

    Também pudemos assistir a concentração de 27 de fevereiro aniversário de 30 anos e o sentimento que geral que o Caracazzo foi a “chispa” da revolução bolivariana.

    Há pouco soubemos que Bolsonaro vai receber Guaidó em Brasília. O que quer Guaidó? Insistir em seu intento de convencer o Brasil e a Colômbia a atacar militarmente a Venezuela. É um absurdo receber este golpista, marionete de Trump. O Brasil não pode ser marionete dis EUA. O Brasil deve lutar contra o boicote e exigir a suspensão das sanções econômica.

    Fora Guaidó do Brasil! Tirem as mãos da Venezuela! Hands Off Venezuela.

     

  • Elio Francisco Colmenarez: “El caracazo aún no ha acabado”

    Venezuela, sometida a la amenaza de intervención imperialista y con una grave crisis interna política y económica, hoy conmemora treinta años de la insurrección popular del 27 de febrero de 1989, conocida internacionalmente como el “caracazo” y que en Venezuela se conoce como el 27F, suceso que conmocionó al país y que cambió la historia de Venezuela en un giro de 180 grados. Nada fue igual en Venezuela después del caracazo.

    Cuando se cumplieron los primeros diez años del a caracazo, en 1999, tres semanas después que Chávez asumiera la presidencia y convocara, en el mismo acto de proclamación, a un referéndum para consultar al pueblo sobre la convocatoria a una Asamblea Constituyente que el entonces Congreso Nacional con mayoría de la derecha quería impedir, un representante de la burguesía exclamaría: “el caracazo aún no ha acabado”. Treinta años después se mantiene en el aire la misma idea: el caracazo aún no ha acabado.

    El modelo rentista petrolero

    El desarrollo del capitalismo en Venezuela tiene sus características particulares, ya desde finales del siglo XIX, cuando empieza la explotación petrolera para el mercado internacional. El territorio venezolano tuvo la ventaja (y la desgracia) de tener brotes de petrolero aún antes de la llegada de Colón. Los caribes lo usaban para calafatear sus embarcaciones que cubrían largos trayectos desde Venezuela a la Florida y luego en la colonia los corsarios y piratas usaban las islas venezolanas para reparar sus barcos por las ventajas de la “brea” que brotaba del subsuelo. Los indígenas llamaban a esos brotes “mene”, nombre con el que aún se conocen muchas ciudades de Venezuela.

    La constitución de 1830, que proyectaba la República de Colombia (aun por liberar) redactada por Simón Bolívar establece la propiedad del subsuelo y las riquezas que contiene como propiedad del Estado. Por ello, desde que comienza la exportación petrolera se convierte en una renta del Estado. En Venezuela no existe una burguesía petrolera que se desarrolló a partir de la explotación petrolera, lo que correspondió a las transnacionales desde un principio, sino que se desarrolló a partir de la apropiación de los recursos, directa o indirectamente, que le generaba al país la exportación de petróleo al mercado internacional.

    La burguesía venezolana no solamente es rentista y parasitaria sino subordinada a la política petrolera imperial. A los largo del siglo XX el desarrollo político y económico de Venezuela estuvo marcado por una subordinación al imperialismo petrolero y a la vez por choques con las transnacionales para una mejor colocación y participación de la tajada petrolera.

    La base del modelo rentista era una moneda interna fuerte y sobrevaluada, que obligaba a las empresas petroleras a cambiar más dólares para obtener los mismos bolívares para cubrir sus gastos internos, lo que se tradujo en una burguesía comercial importadora y/o productora-importadora que bebía directamente de la fuente de petróleo. Un economista de los años cincuenta indicaría que Venezuela no era productor de petróleo sino de dólares. Un largo periodo de estabilidad cambiaria que no estimulaba las actividades productivas en los llamados sectores transables como agricultura e industria pero si un sector público muy fuerte y un sector privado de alta dependencia del gobierno.

    Una sociedad de comerciantes y burócratas, con un nivel de desigualdad muy alto. Una burguesía muy rica, casi la misma desde la colonia. Una amplia clase media con alto poder adquisitivo vinculada a los contratos con el gobierno, las relaciones con la burocracia estatal y el comercio. Y una franja grande de población con escasos recursos, cuya migración obligada del campo a la ciudad generó enormes cordones de miseria en las ciudades. Sin embargo, a pesar de la desigualdad social, hubo un crecimiento económico constante desde 1920 hasta casi 1980 que se tradujo en mejoras en el nivel de vida incluso de los sectores más empobrecidos.

    Las continuas disputas con el imperialismo por mejorar la participación del estado en la renta petrolera, sin un desarrollo productivo real sino parasitario, hacia la economía cada vez más dependiente de la renta. Situación que da un salto cualitativo en 1974 cuando se nacionaliza la industria petrolera. Por diez años las tres empresas transnacionales que monopolizaban la explotación petrolera pasaron a ser empresas venezolanas (sociedad 50-50 con el gobierno)

    Ese momento de boom petrolero marco una de las épocas de mayor bonanza económica (hasta Chávez en el 2006), que profundizo el modelo rentista pero también significó un aumento del poder adquisitivo, fundamentalmente de la clase media alta, pero también, en menor medida, el resto de la población. Aprovechando la inmensa masa de recursos que significo la subida de precios por la crisis de medios oriente (1975), el gobierno de Carlos Andrés Pérez (1973-1978) abordó una serie de proyectos faraónicos de desarrollo petroquímico y siderúrgico (acero-aluminio), en el marco del mismo modelo rentista, que no llegaron a dar frutos y terminaron generando una enorme deuda externa que hasta el momento no existía.

    1979 marca el fin de la bonanza económica y el comienzo de una caída que durará veinte años. La enorme deuda externa obliga al gobierno a seguir los dictámenes del FMI y el BM. La renta petrolera garantizaba el pago de las obligaciones de la deuda, lo que le permitía cierto margen de maniobra con respecto a los programas del FMI, aun así debió aceptar algunas medidas para la corrección de las “distorsiones de una economía rentista”
    El servicio de la deuda tomó un porcentaje importante de los recursos del Estado pero hubo dos medidas fondomonetaristas que marcaron la crisis de esos años: la libre fluctuación de la moneda respecto al dólar y la autonomía operativa y financiera de la industria petrolera frente al Estado.

    Con una moneda sobrevaluada desde hace más de medio siglo, la liberación del dólar en un país con alta dependencia de la importación, provocó una inflación desmesurada y el descalabro de una industria dependiente y subsidiada que apenas cubría el mercado interno.

    El nacimiento de PDVSA en 1983 (después de cumplirse los diez años de la nacionalización) a partir de la fusión de las tres empresas anteriores no significo nuevos recursos para el gobierno. La autonomía operativa y financiera, limito al gobierno a vivir de las ganancias anuales, dejando todas las decisiones en materia petrolera (incluso las políticas) en manos de la nueva gerencia que fue formada por las transnacionales. PDVSA se convirtió en un Estado dentro del Estado, con mayor capacidad financiera y operativa que el propio gobierno, PDVSA asumió las directrices del desarrollo económico (petrolero y no petrolero), mientras un gobierno quebrado sostenía la crisis galopante de la salud, la educación, el empleo y el aumento de la miseria de los sectores populares.

    En ese marco se dieron las elecciones de 1988, donde casualmente se presentó como candidato para la segunda elección Carlos Andrés Pérez, el que fuera presidente durante la última bonanza económica. Mientras se desarrollaba una campaña electoral que pregonaba un futuro esplendoroso, el país se iba destruyendo: los artículos de primera necesidad desaparecían o estaban a precios inalcanzables. Cada día cerraba una empresa y disminuían las fuentes de empleo, la economía informal llegó al 70% y la miseria critica al 30%. El progreso económico prometido por el candidato era música en el oído de quienes les costaba diariamente conseguir el que comer. Así Carlos Andrés Pérez ganó las elecciones con la más alta votación de toda la historia democrática del país.

    Pero el modelo de desarrollo que Carlos Andrés Pérez proponía era uno que debía surgir del resultado de una política de shock fondomonetarista dirigida a “corregir” la economía. Lo que no dijo en la campaña electoral pero si en su toma de posesión del 2 de febrero de 1989 era que era necesario un enorme sacrificio de los venezolanos para enrumbar la economía. En entrevista en los días posteriores diría: “solo yo tengo el liderazgo necesario para imponer un plan de austeridad sin conflictos” y “al terminar el mandato el pueblo me sacará en hombros de Miraflores”. Solo pasaron 25 días.

    El caracazo

    En las tres semanas de gobierno se fueron anunciando e implementando medidas. Mientras se consolidaban los anuncios, desaparecieron los productos de primera necesidad de todos los anaqueles, en previsión de la escalada de precios. El anuncio de la desregularización de los beneficios laborales, sin especificar que significaba eso, le erizo los pelos hasta a los representantes de la CTV, central sindical pro gobierno. El 23 de febrero se anuncia el ajuste del precio de la gasolina que hacía un año no aumentaba (nunca se realizaban ajustes en año electoral) y esta tuvo un efecto directo en la triplicación del precio del transporte urbano y la eliminación del pasaje estudiantil (30% del pasaje).

    Las federaciones estudiantiles, en manos de movimientos independientes que habían confrontado violentamente el gobierno de Lusinchi (antes de Carlos Andrés) salieron a protestar el propio viernes 24 siendo reprimidos con dos muertos. En respuesta anunciaron nuevas medidas de protesta para el lunes 27.

    Ese lunes, a las cinco de la mañana amanecieron tomados por pequeños grupos estudiantiles los terminales de transporte que cubren las ciudades dormitorios alrededor de Caracas. Muchos autobuses quedaron secuestrados dentro de los terminales, el resto empezó a hacer transporte “pirata” hacia Caracas. Al pasaje, ya triplicado autorizado por el gobierno, le aumentaron más para “aprovechar” las dificultades del transporte generado por las protestas. La molestia de la gente estafada, fundamentalmente trabajadores y estudiantes, hizo que al llegar a Caracas, en vez de dirigirse a sus trabajos, se sumaban a la protesta que hacía rato había dejado de ser meramente estudiantil. A las diez de la mañana del 27 de febrero, por lo menos cuarenta mil personas copaban las principales avenidas del centro de la ciudad. No habían consignas. La exigencia de los estudiantes de reinstaurar el pasaje estudiantil ya era insuficiente para la movilización. Poco a poco el escenario fue cambiando: anulación del aumento del pasaje, anulación del aumento de la gasolina, que aparezca la comida, aumento general del salario hasta llegar al abajo el paquete económico.

    En horas de la mañana, varias de las ciudades dormitorio de Caracas, principalmente Guarenas, estaban bajo enfrentamientos con los cuerpos policiales que pretendían disolver las manifestaciones. A horas de mediodía se inició la represión en Caracas. La enorme masa de gente que cubría el centro de la ciudad fue atacada desde varios puntos con perdigones y bombas lacrimógenas, provocando carreras en todas direcciones al verse atrapada en el cerco represivo. Instintivamente, en medio de un cerco sin salida la masa se lanzó contra las barricadas policiales y en menos de dos horas, todas las barricadas habían sido superadas, extendiéndose más allá del centro de la ciudad.

    A mediados de la tarde la masa enfurecida, con algunos muertos encima, arremetió contra la ciudad, todos y cada uno de los comercios de la ciudad fueron saqueados e incendiados, una enorme columna de humo se levantaba desde el centro de la ciudad. La gente de los barrios empezó a bajar a la ciudad y en su camino, iba destrozando la ciudad. Las protestas de la mañana derivaron en una insurrección popular. Los pobres se hicieron dueños de sus calles, de la ciudad que siempre los había excluido: comercios, bancos, oficinas gubernamentales, transporte público y del gobierno fueron destrozados en una furia sin límites (solo se salvaron farmacias y centros de salud). Los cuerpos policiales derrotados y superados se fueron retirando de las calles para garantizar su seguridad personal. Fue la primera respuesta popular al fondo monetario y de tal magnitud y violencia que rompió la “vitrina” de la democracia que era Venezuela.

    El gobierno, ahogado en la insurrección popular, decreto la suspensión de las garantías constitucionales y el toque de queda a partir de la misma noche del 27 de febrero, pero fue incapaz de organizar un solo piquete policial. Durante el resto de la noche del 27 de febrero y el día 28, el pueblo fue desmantelando la ciudad, abriendo los comercios y almacenes, y mudando la ciudad hacia los barrios – entiéndase en el sentido brasileño de periferias urbanas o favelas , N del R – . Mientras abajo la ciudad se quemaba arriba en los cerros de los pobres se hacía la fiesta con comida y licor que les habían negado durante meses.

    Solo el 1ro de marzo, pudo el ejército entrar a la ciudad bajo saqueo llevando tropas al aeropuerto de la ciudad y desplegándolas rápidamente. Las tropas traídas desde el interior del país avanzaban y disparaban sobre el caos. La tozudez caribeña del venezolano, les hacía mantenerse en las calles aun ante la cercanía de la tropa, solo después de varios muertos retrocedía y aun así en unas cuantas horas volvía a la carga, mas organizado y más armado.

    Aunque en dos días lograron retomar las principales vías de la ciudad, se les hizo imposible entrar a los barrios. La tropa y los oficiales medios vacilaban. En algunos puntos la oficialidad se negó a disparar y dejó que continuara el saqueo ante sus ojos con la esperanza que cuando terminara todo volvieran a sus casas. En otros sitios, la propia oficialidad organizaba la gente en colas, rompían las puertas de los almacenes, para entregarle la mercancía a la gente (no solo comida, cualquier tipo de mercancía). A una semana del 27 de febrero, se habían reducido los incendios, pero seguían los saqueos. Las avenidas eran controladas por el ejército, los barrios el pueblo; en el día había una tensa calma, seguían los saqueos bajo la mirada de los militares (siendo los “saqueadores” fundamentalmente mujeres y niños) y a partir de las cinco de la tarde la ciudad se llenaba de tiros. En una semana se contabilizaban más de mil muertos y los hospitales de Caracas colapsaron. El gobierno haba controlado el interior del país pero Caracas seguía indomable y paralizada.

    El día 10 de marzo se dio la orden de invadir los barrios. No pudieron. La resistencia de la gente fue inesperada. La imposibilidad de entrar los llevo a aplicar la técnica del barrido: cada veinte minutos se disparaba a fuego abierto y balas de alto calibre contra el barrio por unos quince minutos. Todas las viviendas quedaron perforadas. Cada vez que paraba el barrido, los heridos eran bajados del barrio y colocados en la calle para que los llevaran a los hospitales mientras el resto subía de nuevo al barrio a mantener la defensa.

    Para el 25 de marzo, en plena semana santa, la ciudad recupero la calma. La gente empezó a bajar de los barrios a comprar en los camiones que se habilitaron con mercancía traída de otros países con urgencia. La gente caminaba entre los escombros de la ciudad saqueada. La insurrección había acabado a un costo de miles de muertos (7,6 mil), el ejército se retiraba de las calles, sin victoria porque no pudieron entrar a los barrios. La insurrección se retiraba reprimida pero sin ser derrotada.

    CAIDA DEL PUNTOFIJISMO

    Después de la caída de la última dictadura en enero de 1958 producto de la movilización de las juventudes obreras y estudiantiles, bajo el auspicio de EEUU y las petroleras se modeló un plan de gobernabilidad de un gobierno compartido a tres partidos, con elecciones cada cinco años y un congreso bicameral que servía de válvula de escape y negociación a las diferencias políticas. Este pacto, firmado en la quinta Punto Fijo se le conoció como El Pacto de Punto Fijo o puntofijismo. Ese modelo se vino abajo con el caracazo.

    Los efectos de la insurrección continuaron más allá. La burguesía, temerosa, empezó a buscar un cambio en el régimen que había degenerado en una burocracia corrupta ahora afectada por la caída de los precios petroleros. Se implanto una situación revolucionaria que se expresaba en la incapacidad de la burguesía para seguir dominando de la manera que lo venía haciendo y una rebelión latente en el pueblo que se negaba a ser dominado como antes.
    La izquierda no supo interpretar el caracazo, Hizo centro en publicitar la enorme violación de derechos humanos y los asesinatos durante el caracazo pero no le dio importancia a las características insurreccionales del caracazo.

    A dos años del caracazo empezaron a circular volantes por la ciudad firmados COMACATES atribuidos a una oficialidad descontenta (COMACATE: COmandantes, MAyores, CApitanes, TEnientes que son los grados medios del ejército). En los volantes denunciaban la corrupción en el gobierno y los asesinatos a los que fueron obligados contra la insurrección del pueblo. Por primera vez se reivindica el 27F como una insurrección.

    A tres años del caracazo, una insurrección de oficiales medios lleva un golpe de estado contra el gobierno y el alto mando militar. No se trata de una fractura vertical de las fuerzas armadas, se trata de una fractura horizontal, de los mandos medios contra los mandos superiores. Su declaración acusa al gobierno de ser los asesinos del pueblo durante del caracazo y de haber utilizado las Fuerzas Armadas para reprimir una insurrección popular.

    El caracazo destruyo los partidos del gobierno y la izquierda tradicional. El golpe del 4F le dio liderazgo a Chávez, no por ser el dirigente de un golpe sino por reivindicar el caracazo. Siete años después asume el gobierno por el triunfo electoral del MVR (Movimiento V República) que es la expresión de la situación revolucionaria abierta después del 27 de febrero de 1989.

    El 27 de febrero 1989 fue un ensayo de revolución que permitió el escenario para el triunfo del contragolpe de abril de 2002. Ese mismo pueblo del 27 de febrero bajo a la calles luego del golpe contra Chávez, y repitiendo la experiencia del caracazo, pero con el norte fijo de derribar el gobierno impuesto, logro romper al ejército que esta vez, a diferencia del “27F desobedeciendo las ordenes de sus mandos de reprimir al pueblo se sumó a las movilizaciones y juntos derrotaron la intentona fascista.

    27 de febrero. 30 años después

    El país vive una crisis económica que combina un fuerte bloqueo, una guerra y sabotaje económico interno con una burocracia gubernamental que no ha podido impedir los efectos de la guerra económica. A pesar de ello la movilización del pueblo le ha impuesto varias derrotas a las intentonas fascistas de la burguesía, siendo la ultima la guarimba hace dos años.

    A pesar de las enormes dificultades y las críticas al gobierno, el pueblo no se ha prestado para las protestas organizadas por la derecha que ha querido disfrazar de “rebelión popular”. A diferencia del 27F la gente bajo de los barrios mientras la clase media alta y la gran burguesía aplaudía los ametrallamientos de los barrios. Los guarimberos en las urbanizaciones del este apedreaban los transportes de los que iban a sus trabajos, los insultaban y en varios sitios asesinaron a gente por ser pobre e identificarse con el chavismo.

    Cada vez más hay exigencia de la población para que el gobierno enfrente la guerra económica, para que se acabe la corrupción y haya más democracia. Pero también el pueblo está claro que el enemigo principal sigue siendo la amenaza imperialista. La revolución dará cuentas del gobierno de Maduro, pero la amenaza imperialista no es contra Maduro sino contra el pueblo.

    Hoy a treinta años del 27 de febrero, el simbolismo del 27 de febrero es claro para mucha gente. Maduro fue de los jóvenes de El Valle (sur de Caracas) que durante un mes se batieron para impedir la entrada de la represión a sus barrios. Guaidó es el heredero de los grupos fascistas de clase media que se formaron durante los días siguientes al 27 de febrero para proteger a las urbanizaciones de la clase media de los vándalos que bajaban de los cerros y que causaron la muerte de varias personas que buscaban comida por las zonas de clase media en medio del cerco militar a los barrios. El simbolismo del 27F representa la clase.

    Hoy es la misma lucha de hace treinta años. Contra la política del imperio que nos quiere imponer un programa económico subordinado a las petroleras y un gobierno a su medida. Nuestra lucha, no es por Maduro, sino por el derecho a nuestra autodeterminación y a elegir el gobierno que queramos, no el que nos impongan los EEUU.

     

  • O sonho latino-americano de Donald Trump

    “Os Estados Unidos parecem destinados pela Providência a infestar a América Latina com miséria em nome da liberdade.”
    Simón Bolívar

    A crise da globalização, saídas pela esquerda e pela direita

    A eleição e o governo de Donald Trump nos Estados Unidos tem sido uma expressão política da chamada crise da globalização neoliberal, iniciada em 2008, e que gerou, como apresenta Ruy Braga, uma globalização da crise.

    A queda da taxa de crescimento do PIB mundial, o encolhimento do fluxo internacional de capital, a perda de velocidade da expansão do comércio internacional, são exemplos do esgotamento do modelo neoliberal iniciado na década de 80 com Reagan e Tatcher. Na política essa crise se torna evidente com a vertiginosa queda de partidos tradicionais em todo globo. O modelo “bi-partidário” existente na maioria dos países que ocupam a centralidade da economia mundial entra em crise. Estes partidos, sejam de direita, centro direita, ou centro-esquerda, que durante décadas se revezavam no poder aplicando a política neoliberal enfrentam uma crise de representação, dando espaço para abertura para novos sujeitos políticos que não ocupavam a vida política cotidiana, e, seriam supostamente anti establishment.

    Outro dos efeitos da crise é um rearranjo no xadrez da geopolítica mundial. O dinamismo produtivo do capitalismo se volta para a China. O gigante asiático desponta para se tornar a maior potência do século XXI, observa o Império americano em exaustão perder força, enquanto vê os olhos do mundo todo virarem em sua direção.

    A crise de 2008 escancara os limites do atual sistema. Governos no mundo todo salvam bancos, destinando milhões de dólares aos banqueiros, e deixam centenas pessoas morrerem de fome, sem casa, e em estado de vulnerabilidade social. A recessão e a lenta retomada, mostram a fissura existente entre as elites e o povo trabalhador, evidenciando as desigualdades e injustiças de um modelo onde o lucro é mais importante que a vida.

    Dessa forma vimos de 2010 para cá diversos fenômenos de massa de luta contra o neoliberalismo e por direitos democráticos, o mais interessante é que esses fenômenos se interligam entre si e mostram um caráter global. Seja com a Primavera Árabe, com o Occupy Wall Street, com os Indignados, Geração À Rasca, Junho de 2013, a revolta dos guarda chuvas, o Ni Una a Menos, o Black Live Matter, entre tantos outros.

    Porém, não foi somente de movimentos progressivos que as ruas observaram durante esta década. O mercado financeiro e o capital também movimentaram suas peças. Vimos o crescimento de movimentos reacionários. A extrema direita, e movimentos com características fascistas surgiram. Os protestos reacionários da Ucrânia, o saída da Inglaterra da União Europeia, a derrubada de Dilma no Brasil com manifestações de massa da direita, os governos de Bolsonaro, Trump, Salvini, Orban, Duda (Brasil, Estados Unidos, Hungria e Polônia), o fim do chamado “ciclo progressista “ na América Latina, o surgimento do Vox na Espanha e a força de Le Pen, do Aurora Dourada, do AfD, na França, Grécia e Alemanha, respectivamente. São alguns exemplos da resposta do capital. O objetivo é um só: retirar direitos trabalhistas e sociais, privatizar e por fim ao que resta dos Estados de Bem Estar Social, retomar as taxas de lucro por meio de uma extração absoluta de mais valia. Assim como recuperar na geopolítica os mercados e influência perdida.

    Esta década viu novamente os meios de comunicação, pesquisadores e intelectuais de todo mundo, retomarem dois termos que os neoliberais afirmavam que não existiam mais: luta de classes e imperialismo.

    O imperialismo de Trump: “America first”

    O discurso antiglobalização, protecionista, e populista de Trump não é por acaso. Ele representa um programa que busca restringir a circulação de mercadorias para o investimento na indústria interna apoiado na sobrevalorização cambial. É um programa defensivo do imperialismo norte-americano ao observar que está perdendo força e atua perante os outros países e organismos internacionais como uma criança mimada que não aceita perder, agindo de forma birrenta e cada vez mais agressiva.

    O governo Trump ataca o multilateralismo, diversos organismos internacionais que visam melhorar universalmente o meio ambiente e cultura, faz discursos ofensivos e ameaças outros países. Vira as costas para aliados históricos como o Canadá e União Europeia. Trump parece se isolar.

    Porém, se o bilionário presidente norte-americano se afasta de cargos de lideranças internacional históricos para o seu país, e diminui sua presença no cenário mundial. Ele volta suas garras para o mercado e regiões mais próximas, buscando aumentar seu papel em nível regional. Mais precisamente, na América Latina.

    Trump busca alocar os Estados Unidos novamente como poder hegemônico em toda a América. Ao longo da história, todo império em declínio, buscou no momento que percebe sua queda, impedir a mesma voltando para as regiões fronteiriças, retraindo sua expansão para focar na defesa e controle ainda maior daqueles que estão sob seu comando.

    Analogia parecida pode ser feita com os Estados Unidos, que em decorrência de uma crise viu um sujeito aparentemente incontrolável chegar a presidência. Porém, esse sujeito louco, age de acordo com as regras do jogo, pode ter mudado a estratégia para a vitória, mas ainda assim atua de acordo com as regras. Se essa mudança irá impedir a queda do Império norte-americano ou somente intensificar o processo de decadência, ainda é incerto, porém, o desenrolar da situação da Venezuela será fator chave, para derrota ou vitória da arriscada política imperialista de Trump.

    No cenário mundial, os Estados Unidos reduz sua presença militar no Afeganistão e Síria, após duas derrotas militares sofrida pelo país. Ele exige também que os países membros da OTAN façam mais engajamento financeiro nas áreas militares, e dessa forma o papel de cão de guarda mundial, que durante décadas o país assumiu parece ser negligenciado por Trump e seu governo de neoconservadores que focam naquilo que o presidente chamou de “troika tirânica” em referência a Venezuela, Cuba e Nicarágua.

    Dessa forma a política externa norte-americana tem conseguido coisas até então inesperadas como uma aproximação da Rússia e da China. Uma criação de um exército europeu para os países membros da União Europeia. Uma aproximação econômica entre Alemanha e Rússia. Entre outros.

    Alguns governos e figuras liberais têm demonstrado preocupação com o resultado da política do governo Trump para o campo da geopolítica mundial. A futura posição dos países nesse jogo ainda é incerta. E muitos se perguntam se Trump e sua política isolacionista representa um ponto fora da curva, ou uma tendência ainda em gestação, que os países do centro do mercado capitalista mais cedo ou mais teriam que assumir para manter a reprodução do capital. Assim como se perguntam se o populismo de ultradireita seria o rosto político dessa nova tendência do capitalismo internacional.

    Sem entrar nesse tema, que envolveria uma explanação sobre o indicativo de crise econômica mundial para os próximos anos e o papel do Estado Nação no Modo de Produção Imperialista. Devemos focar no que é o central de nosso texto: o lema “America first” que Trump usou nas eleições, agora se transforma em “America Latina, first”. Somado a última parte da política do “Big Stick”. Se para Roosevelt se deveria “falar manso mas sempre carregar um porrete”. Donald Trump esquece a parte do falar manso, e leva consigo um grande porrete para a mesa de negociação, comícios e palestras.

    Os governos progressistas, a Venezuela Bolivariana, e a retomada da hegemonia norte americana na América do Sul

    Durante a primeira década do século XXI, vimos em diversos países da América Latina, como resultado de um aumento das lutas e levantes dos povos latino-americanos, a chegada de uma esquerda progressista ao poder, que chegou a governar praticamente todo o Cone Sul, e no nosso subcontinente, excetuando alguns países. A temperatura e a resistência nestas terras era diferente daquelas nos países centrais do capitalismo. A esquerda reformista liderou governos de frente popular, preservando a lógica neoliberal, garantindo o lucro das grandes empresas, a exceção de medidas pontuais e limitadas. Foram governos marcados por políticas neodesenvolvimentistas, que conciliavam os interesses do grande Capital com políticas de distribuição de renda e de combate à extrema miséria.

    Mesmo assim, não eram governos controlados diretamente pela vontade do Capital e, do ponto de vista geopolítico, geraram dificuldades ao imperialismo norte-americano. Por exemplo, um projeto de integração sul-americano foi intensificado com o MERCOSUL, assim como latino-americano com a ALBA, e caribenho com o PetroCaribe. Projetos bem distintos do da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas), tentativa de controle da região, derrotada em 2002 pela resistência dos povos latino-americanos.

    Se projetos multilaterais entre os países latinos e caribenhos já era considerado incômodo pelos Estados Unidos, uma aproximação destes com a Rússia e China era ainda pior para o tio sam. A conformação de um novo eixo geopolítico mundial colocava em risco o domínio norte-americano.

    A crise de 2008 também atingiu a esquerda latino-americana, as poucas conquistas foram postas a prova, e, por não serem mudanças estruturais, a maioria desapareceu, arrastada com a tsunami da crise. Por estarem no governo estes partidos começaram a sofrer pressão popular para lidar com a crise, a falta de radicalismo e excesso de conciliação da maior parte das experiências progressistas em nosso subcontinente, foi um dos fatores fundamentais para a derrota desta, que viu suas oligarquias nacionais, junto do imperialismo norte-americano, preparar a derrubada de seus governos e impor uma nova ordem político-econômica.

    Além do desmonte da esquerda sul americana, é crucial para os yankees o desmonte da indústria petroleira destes países. Os Estados Unidos buscou eliminar seu déficit referente ao petróleo, se transformando em uma indústria petroleira na gestão de Barack Obama. Para isso, era preciso que os países petrolíferos latino-americanos ficassem apenas na exportação de óleo cru. E o país fez o possível para forçar tais países a ocupar este posto. Utilizou um golpe de Estado no Brasil para derrubar Dilma e desmontar a Petrobrás. Em aliança com o governo neoliberal do México desmontou a PEMEX. E busca aquilo que seria a joia de sua coroa, a PDVSA. Para isso, os Estados Unidos, aplica uma política de estrangulamento financeiro na Venezuela, buscando derrubar Maduro e colocar um governo fantoche em seu lugar, que certamente iria privatizar e entregar o petróleo venezuelano para Trump. Vale lembrar que a PDVSA, é de acordo com a Constituição Bolivariana, de total controle do Estado sendo proibido qualquer medida para as privatizações de suas ações.

    É na República Bolivariana que se encontram as maiores reservas de petróleo do mundo, assim como a experiência de esquerda mais avançada na América do Sul. Na Venezuela, se encontram 24% de toda produção de petróleo da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo). No país existe capacidade para 301 mil bilhões de barris, com capacidade de produção para 362 anos. Sem falar que é na Venezuela que se encontram a maior reserva de ouro do mundo, além de uma vasta quantidade de cobre, ferro, bauxita, gás, água doce, diamantes e urânio.

    No campo político a aproximação e a relação entre Venezuela e China e até com a Rússia gera preocupação na Casa Branca. O ex secretário do governo norte-americano, Rex Tillerson, afirmou que era preocupante os “excessivos laços econômicos da região com a China”.

    A China empresta, inclusive, mais dinheiro para os países latinos do que o Banco Mundial. São os bancos chineses os maiores credores da Venezuela. Em troca do fornecimento de petróleo, o país asiático já emprestou US$ 65 milhões para Caracas. Isso sem contar com os investimentos em produtos de alta tecnologia, mineração e em áreas sociais.

    A Rússia também tem diversos acordos com a Venezuela, se destacando os de cooperação militar e econômica, tendo investido em caracas cerca de US$ 17 bilhões desde que Chávez chegou ao governo. Em troca de espaço para as petrolíferas russas, como a Rosnef, Putin tem perdoado dívidas do governo bolivariano, além de estender o prazo para o pagamento dos empréstimos.

    O governo venezuelano já comercializa o petróleo do país em outras moedas que não seja o dólar, como em yuan, rublo, euro e em rúpia indiana, dessa forma a desdolarização do comércio mundial acaba enfraquecendo a hegemonia norte-americana, pois o dólar deixa de ser o valor a absoluto para se basear as transações.

    O “big stick” de Trump busca retomar a hegemonia norte-americana na América do Sul. Retomar a hegemonia não significa que os Estados durante o “ciclo progressista” estava fora de nosso subcontinente, ou não tinha influência. Significa sim, que agora, o governo Trump vai buscar controlar de forma absoluta as relações de comércio, derrotando as forças de esquerda progressistas nacionais, afastando a influência de seus adversários, Rússia e China, no mercado global dos países da região, e aumentar sua influência militar e econômica sobre toda América.

    Com quantas crises se faz um golpe?

    Desde que Chávez tomou medidas para o fortalecimento da OPEP e confrontou as vontades norte-americanas ainda nos anos 2000, ele se tornou inimigo declarado dos Estados Unidos, sejam Republicanos ou Democratas, todos buscaram desestabilizar o governo venezuelano.

    Sob o argumento de que a Venezuela não seria uma democracia, e sim uma cruel ditadura, os Estados Unidos busca a quase duas décadas derrubar o regime bolivariano. Para os Estados Unidos, democráticos são aqueles governos que se submetem a sua vontade, que privatizam a preço de bananas suas estatais e se alinham nos mecanismos internacionais a vontade norte-americana. Dessa forma países como Arábia Saudita, Israel e Colômbia, são grandes exemplos de democracia.

    A primeira grande tentativa de derrubar o então presidente Chávez, ocorreu em 2002, com uma tentativa de golpe descaradamente apoiada e financiada pelos Estados Unidos. Durante o governo Bush, os Estados Unidos financiou empresários que estava descontentes com medidas de enfrentamento aos monopólios, que Chávez realizou, como a Lei dos Hidrocarbonetos. Assim a oposição abertamente buscou realizar um golpe. Chávez foi sequestrado, seu paradeiro ficou desconhecido por horas. O próprio Chávez não acreditava que iria sair dali com vida. O empresário Pedro Carmona, então presidente da Federação Venezuelana de Câmaras e Comércio, foi designado presidente. Tudo parecia que daria certo para os golpistas e seus financiadores. Mas gigantescas manifestações populares, de forma espontânea, tomaram as ruas das cidades venezuelanas, impediram o golpe de Estado, e Chávez saiu fortalecido do processo.

    Dois anos depois, em 2004, o NED (National Endowment for Democracy), um instituto norte-americano, financiou a ONG Súmate, para que ela realizasse na Venezuela um referendo revogatório contra o presidente Hugo Chávez (os mandatos de todos que são eleitos em qualquer processo eleitoral podem ser revogados de acordo com a Constituição do país).

    Dessa forma, os eleitores foram às urnas e deviam responder a seguinte pergunta: “Você concorda em deixar sem efeito o mandato popular outorgado mediante eleições democráticas legítimas ao cidadão Hugo Rafael Chávez Frías como Presidente da República Bolivariana da Venezuela para o atual período da presidência?”. Os eleitores deveria escolher entre o “sim” ou o “não”. E o não venceu com 59% dos votos. Chávez se mantinha na Presidência.

    Após a morte de Chávez, Nicolás Maduro foi eleito, em 2013. Barack Obama estava em seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos, e em 2015 impôs duras sanções à administração de Maduro. Essas sanções, se somaram com a queda do preço do petróleo no mercado mundial e com os erros do chavismo, em não buscar uma modificação da matriz econômica do país, aprofundando a crise venezuelana.

    Donald Trump, em seu primeiro ano de mandato, aplicou um bloqueio financeiro que foi descrito por membros do governo venezuelano como a “pior agressão contra o país”. Foi proibido negociações sobre dívidas e títulos emitidos pelo governo ou pela PDVSA.

    Recentemente, no início de fevereiro, os Estados Unidos deram mais um passo na tentativa de desgastar e derrubar Nicolás Maduro. A Casa Branca anunciou uma série de sanções contra a PDVSA e sua filial nos Estados Unidos, a Citgo.

    O conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Jonh Bolton, indicou que o governo norte-americano espera que as novas sanções bloqueiem 7 bilhões de dólares em ações da PDVSA e até o fim do ano o prejuízo com as quedas das exportações ultrapasse os 11 bilhões de dólares. As contas da PDVSA foram bloqueadas no país, e as empresas norte-americanas não poderão mais comprar petróleo diretamente com a estatal.

    As sanções norte-americanas buscam gerar crises econômicas no país, fazendo com que assim a população se revolte contra o governo. Além disso, os Estados Unidos aplicam sanções econômicas, financiam a oposição venezuelana, e agora abertamente negociam para a derrubada de Maduro ao apoiar Juan Guaidó.

    É sempre bom ressaltar, Guaidó foi membro do grupo El Manos Blancas, financiado pela USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento), que era uma espécie de grupo liberal para jovens de classe média organizarem protestos contra o governo.

    O “usurpador”, como se referiu Maduro a Juan Guaidó, tem em seu programa econômico receber US$20 bilhões dos Estados Unidos e União Europeia, em troca da privatização de três mil empresas, de por abaixo a Lei dos Hidrocarbonetos, e fazer com que a Venezuela se submeta a política do FMI e do Banco Mundial.

    O imperialismo em decadência norte-americano liderado por Trump, vê na tática de se realocar hegemonicamente na América Latina uma forma de garantir sua sobrevida. A derrubada de Maduro significa uma vitória imensa das forças golpistas, que com certeza irá desestabilizar os governos de Bolívia e impedir ações mais avançadas de Obrador no México. Assim como, derrubar a República Bolivariana é um avanço para as bases militares dos Estados Unidos na amazônia, e um passo adiante para governos reacionários como de Duque, na Colômbia, e Bolsonaro, no Brasil, criminalizarem movimentos sociais e avançar na retirada de direitos democráticos. Os BRICS por sua vez e toda articulação do Sul Global, como a União Africana e o Mercosul ficariam fragilizados. A Rússia e em especial a China que apesar de serem forças em expansão não são países imperialistas, teriam seu espaço de atuação geopolítico limitado, visto que toda América Latina se tornaria o quintal norte-americano.

    Caso Maduro se sustente, isso só será possível por uma radicalização do processo revolucionário e do movimento de massas iniciados em 1989, levaria a um crescimento das forças progressistas, um desgaste dos governos neoconservadores na região, e uma nova articulação entre os povos latinos.

    As cartas estão na mesa.

     

  • Relato de Caracas 2

    Nesta terça-feira (26/02), fomos visitar a Comuna Socialista Altos de Lídice e lá pudemos aprender como essa população se auto-organiza. Nas palavras deles e delas, que são 80% das Comunas e Milícias, é como uma estrutura de Estado, porém popular. Os moradores são eleitos para frentes de atuação, comissões. Se dividem, debatem e deliberam sobre Saúde, Transporte, Educação, Alimentação, Esporte e outros temas.

    Após subirmos quase 1300 metros, boa parte por escadas, conhecemos o local onde fazem sua plantação comunitária, bastante reduzida pela falta de sementes.

    Pudemos conversar com as companheiras da Comuna de Saúde, que organizaram três postos de saúde, construído por mutirão dentro da Comunidade (Cierro), que hoje tem três médicos permanentes e dois de apoio.

    Falamos com a médica, uma companheira venezuelana que disse que esse trabalho começou com os cubanos. Ela defendeu a luta anti-imperialista e a organização popular por comunas. Como já dissemos antes, a falta de remédio é um grave problema. É emocionante ver a garra dessa gente, mesmo com toda adversidade e a falta de água que atinge parte do bairro.

    Depois, fomos ao Comitê Local de Alimentação e Produção (CLAP), que organiza a distribuição das bolsas de alimentos distribuídas mensalmente pelo governo. São todas mulheres que, novamente, nos emocionaram ao dizer que, se preciso for, defenderão a revolução bolivariana e a Venezuela com suas vidas. Também nos disseram que elas eram invisíveis ao mundo e que, após o governo Chaves, elas se tornaram pessoas com dignidade e isso não admitirão perder. Por isso que lutam contra o imperialismo. Com estas guerreiras que marchamos.

    Depois disso, nos serviram um sopa tradicional de legumes com frango e fomos ao teatro Pedro Carrenho para a solenidade com Maduro. Confesso que a força da luta anti-imperialista são estas mulheres guerreiras das Comunas.

    Maduro refirmou a luta contra a intervenção e a defesa da paz e apresentou vários vídeos para mostrar a ação de mercenários na fronteira, no dia 23. Fez um bom discurso e demonstrou simpatia, mas o coração da luta anti-imperialista pulsa nos cierros.

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  • Marrocos: protestos, marchas e greves marcam início do ano no país

    Nesta quarta-feira, dia 20, o Marrocos viveu um dia de greves, paralisações e atos por todo o país. A data do 20 de fevereiro marca justamente o início das manifestações da primavera árabe em solo marroquino há oito anos.

    Naquela época, o reino no norte da África foi sacudido por milhões de pessoas que tomaram as ruas, exigindo reformas democráticas e mais igualdade social. As fortes manifestações no país não foram capazes de derrubar a monarquia, como chegou a acontecer com a derrubada dos ditadores em países vizinhos, como Tunísia e Egito. A elite do país buscou acalmar as ruas, atendendo a algumas vontades populares, já no mês seguinte, em março de 2011. Uma nova constituição foi criada no país, e o partido de oposição, o Justiça e Desenvolvimento, de orientação islâmica moderada, venceu as eleições parlamentares.

    Oito anos depois, a realidade do povo marroquino não melhorou. Na maioria das regiões do país o abuso policial se torna cada vez maior, como forma de reprimir as incessantes manifestações. A falta de água e energia, o desemprego, o crescimento da pobreza fruto de reformas neoliberais e a frustração são abundantes. Assim como os protestos.

    O Marrocos ostenta a marca de diariamente ver 48 manifestações diárias, seja de vias fechadas, seja de atos de ruas, ou novas categorias de trabalhadores entrando em greve, ou de mulheres pedindo o fim da violência sexual.

    Dessa forma, o ano começou com o uma importante greve geral nos dias 2 a 4 de janeiro, convocada ainda em novembro de 2018 pela União Trabalhista Marroquina (UMT) e pela Confederação Democrática dos Trabalhadores (CDT), e outras centrais menores e federações específicas.

    Dentre as diversas manifestações desta semana, se destacam as dos profissionais de educação. Milhares de professores, vestidos de branco, cor que, de acordo com a tradição do país, os professores vestem ao dar aula, vieram de todo país para uma grande marcha na capital Rabat, em busca de aumentos salariais e criticando a atual lei para professores substitutos, que não cobre assistência médica, nem a aposentadoria.

    Os professores substitutos e sua Coordenação Nacional de Professores Marroquinos (CNPCC), que completam uma semana de greve nesta sexta-feira, eram a vanguarda do movimento. Estes não têm direitos nem proteção por meio da Lei Trabalhista. Além dos contratos para os professores substitutos não cobrirem a assistência médica, plano de saúde, e a aposentadoria, estes podem ser demitidos a qualquer momento e sem reparação.

    A manifestação dos professores ultrapassou a pauta da educação e sindical do movimento, se transformando num verdadeiro movimento com amplas pautas. Os cartazes e as palavras de ordem do movimento iam desde “não aos desmanches das escolas públicas” e de “exigirmos salário justo”, passando por cartazes e gritos que se tornaram tradicionais nos protestos de 2011, e chegando no “abaixo a ditadura”, pedindo uma verdadeira mudança no regime no país do norte da África.

    Quando chegaram diante do Palácio Real do governo, os manifestantes foram surpreendidos pela rua lotada de carros de polícia. As forças de segurança marroquinas iniciaram uma forte repressão. Canhões de água foram disparados, e a polícia com seus cassetetes impedia o protesto de continuar. Centenas de professores ficaram feridos.

    Em outras regiões da cidade outros protestos de diferentes categorias aconteciam, assim como em outras cidades como Casablanca, Marraquexe, Tânger, Larache, Fez, Sefrou entre tantas outras. A União Geral dos Trabalhadores Marroquinos (UGTM), a Federação Democrática do Trabalho (FDT), assim como a UTM e CDT convocaram paralisação geral no setor público e marchas em memória ao 20 de fevereiro de 2011, e em confronto com a atual situação do país, exigindo mais reformas democráticas e melhorias econômicas.

    O atual estágio do Marrocos é de intensa mobilização social. A luta de classes borbulha e ferve em temperatura máxima no subsolo e tudo indica que irá explodir gerando manifestações, protestos e confrontos entre os movimentos sociais e as forças governistas e que sustentam o regime real.

    Em comparação com os protestos de oito anos atrás, podemos identificar algumas diferenças. A primeira é que o Marrocos, assim como outros países do norte africano, assistem a um crescimento de luta por direito das mulheres, com federações, associações e figuras públicas feministas, como nunca antes visto na região. O combate contra o assédio, violência sexual, igualdade jurídica e salarial faz com que o movimento de mulheres trabalhadoras seja uma força real no jogo político marroquino. Uma outra e importante diferença de 2019 com 2011, é que este ano os sindicatos e centrais sindicais estão mais organizados e com uma influência maior no conjunto da classe. Isto acaba por diminuir a influência de movimentos religiosos islâmicos. A própria experiência da classe com o Partido Justiça e Desenvolvimento serviu para isto. Assim como, a experiência ganha nos confrontos de rua em 2011, nas negociações e mentiras feitas pelo governo, faz com que o movimento de massas que se gera não tenha nenhuma ilusão em novas promessas vindas do palácio real.

    Nosso distanciamento da realidade marroquina impede uma leitura mais detalhada sobre o funcionamento, burocratização e radicalização dos sindicatos e centrais sindicais do país. Porém, é importante acompanharmos os movimentos dos trabalhadores marroquinos, pois, assim como na Tunísia, estes podem dar um novo fôlego para a luta de classes na região, e servir para a experiência coletiva do movimento de massas no norte da África e Oriente Médio, que é um vulcão pronto para entrar em ebulição.

  • 30 anos do Caracazo: EUA, tirem as mãos da Venezuela

    Hoje é um dia muito importante para a História da Venezuela, no qual lembramos os 30 anos do Caracazo. No dia 27 de fevereiro de 1989, eclodiu uma insurreição popular urbana, semi-espontânea, cujo centro foi a capital da Venezuela.

    O povo trabalhador reagiu contra um pacote neoliberal do governo “social-democrata” de Carlos Andrés Perez. O estopim foi o aumento no preço das passagens dos transportes públicos.

    Aconteceram saques de alimentos, protestos de todo o tipo, com forte enfrentamento com as forças de repressão. O governo da AD (Ação Democrática), partido de Perez, usou as forças armadas para reprimir a luta popular. O resultado foi mais de três mil mortos pela ação criminosa da burguesia venezuelana.

    Para se ter ideia da força do movimento: mesmo após três semanas da repressão, muitos trabalhadores não retornavam a produção, mesmo com toda a campanha midiática do governo e da imprensa.

    Independente das justas críticas aos limites e contradições do Chavismo, é importante reconhecer que tudo que se avançou na Venezuela nas últimas décadas teve um ato inaugural: a força revolucionária do povo venezuelano, expresso na onda de lutas iniciadas pelo Caracazo. A Venezuela nunca foi a mesma depois deste acontecimento histórico.

    Hoje, quando há ameaças do imperialismo dos EUA, com sua feição mais horrível, representada por Trump, ajudado por governos lacaios do Continente, como o de Bolsonaro, figura sinistra de extrema-direita, novamente o povo venezuelano é chamado à luta.

    A tarefa prioritária do momento é uma só: se apoiar na força do Caracazo para derrotar a agressão imperialista de Trump, Guaidó, Bolsonaro, entre outros golpistas.

    Quem deve decidir sobre seu futuro é o próprio povo venezuelano. EUA, tirem as mãos da Venezuela. Vamos à luta. A América Latina será anti-imperialista.

    Entrevista

    AO VIVO DA VENEZUELA | Nesta quarta-feira (27), nossos correspondentes na Venezuela entrevistaram  o ativista Élio Colmenares, que participou ativamente das manifestações do Caracazo à época. Élio conta como foi o movimento. “Foi uma mudança na história, um despertar do povo Venezuelano”, disse.

  • Venezuela: “Avançar para vencer”

    O dia 23 de fevereiro foi possivelmente o dia mais tenso dos últimos anos para todos os povos latino-americanos. A ameaça de uma intervenção militar a partir da suposta “ajuda humanitária” criou uma enorme tensão nas fronteiras da Venezuela e Colômbia e também com o Brasil. Neste dia chegamos em Caracas, capital da Venezuela, para participar da Assembleia Internacional dos Povos.

    Esta tensão e apreensão pode ser sentida na “live” que realizamos no dia 24 onde vários participantes nos perguntaram se haveria possibilidade de guerra. A grande operação montada pelo governo dos EUA com ajuda dos governos da Colômbia e do Brasil acabou se transformando num grande fiasco, pois as ações que geraram as tensões na fronteira com a Colômbia aconteceram do lado colombiano como as duas carretas com “ajuda humanitária” que foram incendiadas . E a tensão na fronteira brasileira ocorreu a 8 quilômetros longe da fronteira em território venezuelano.

    O recuo do grupo de Lima em relação a qualquer intervenção militar e o anúncio da União Europeia condenando qualquer ataque são uma vitória momentânea. Mas ainda é somente um respiro diante da situação criada pelas sanções econômicas e pela sabotagem interna que provocam a falta de produtos e a inflação galopante.

    Mas só é possível explicar a resiliência do processo venezuelano pelo enorme salto de consciência política, da organização e mobilização popular nos últimos 20 anos. Por certo que esse poderoso movimento, o mais avançado até agora da América latina encontra-se em uma encruzilhada. Apesar dos enormes avanços e conquistas estruturais que acompanharam este ascenso, o cansaço do povo, em especial da classe trabalhadora, que sempre foi protagonista deste processo é amplificado com a grave situação causada pelas sanções econômicas e pelas contradições e dificuldades do regime e do próprio movimento chavista. E é desta fragilidade que se apoia a direita e os golpistas pró imperialistas para construírem uma narrativa que encontre eco nas camadas populares. O que pudemos assistir até este momento é que as forças do chavismo têm muitas reservas, porém sem a resolução desta situação, ou seja, não é possível retroceder, ao contrário é necessário avançar e aprofundar as mudanças como dizem por aqui que “a revolução vá até o fim”.

  • Relatos de Caracas

    Chegamos em Caracas no sábado, dia 23 de fevereiro, dia anunciado para a entrada da chamada ajuda humanitária dos EUA, pelas fronteiras de Brasil e Colômbia. Em Cúcuta, na Colômbia, também aconteceu um show de apoio a essa iniciativa. Havia muita apreensão nossa ao chegar em Caracas, com a ameaça de um confronto nas fronteiras e que isso pudesse ter reflexos na capital.

    O aeroporto internacional Maiquetía – Simon Bolívar estava pouco movimentado, por causa dessa situação e também pela suspensão de vários voos à Venezuela, por conta do boicote. Nos 26 km de trajeto até o centro de Caracas, tivemos que fazer apenas um desvio, pois uma via estava interditada. Depois soubemos que era por conta da manifestação que ocorreu em apoio ao governo Maduro. Há uma unanimidade em dizer que foi a maior manifestação dos últimos anos, os mais otimistas falam em 1 milhão de pessoas. De qualquer ocorreu uma demonstração de força de Maduro, que impediu a entrada pelas fronteiras dos amigos de Trump e fez esse ato em Caracas.

    Nosso domingo (24/02) foi especial pois pudemos ouvir na parte da manhã a prefeita de Caracas, Érica Farias, e a tarde a vice-presidenta da Venezuela, Dayse Rodrigues, na abertura da Assembleia Internacional dos Povos. Ambas reafirmaram o compromisso das Forças Armadas com o governo, que as deserções são individuais e muito residuais e que o povo venezuelano irá resistir. Mas como todo domingo, a cidade estava pacata.

    Nessa segunda feira (25/02) fomos às ruas de Caracas e encontramos uma cidade em movimento, como todas as grandes cidades pelo mundo afora. A Venezuela tem cerca de 30 milhões de habitantes e a Grande Caracas cerca de 5 milhões. Os comércios estão abertos, nas bancas de jornal haviam jornais que defendiam Maduro e outros que defendiam Guaidó, o metrô é gratuito e funciona e os postos de gasolina, com algum rodízio garante o abastecimento dos automóveis. Um tanque de um carro de passeio pode ser abastecido por cerca de R$ 1 real e estes baixos preços se estendem à água e a luz.

    Mas a situação da população está muito difícil. Há alimentos. Os preços, porém, são impagáveis para a maioria da população, fazendo que dependam da cesta básica distribuída pelo estado. A inflação aqui é galopante e a moeda nacional, o bolívar, muito desvalorizada. Há muita gente na rua vendendo todo tipo de coisa e a situação está se agravando com o boicote, que já bloqueou mais de R$ 30 bilhões de dólares da Venezuela, o que impede a compra de alimentos de outros países. As escolas seguem funcionando, mas com dificuldades, pois a alimentação dos alunos está precária pela crise.

    De um modo geral a população tem se alimentado com menos calorias que o necessário, sendo comum o relato de que a maioria tem perdido peso nestes anos, porém a maior dificuldade é o acesso aos remédios. A dificuldade de comprar remédios, por conta do boicote, para diabetes e pressão alta por exemplo, é um assassinato silencioso de parte da população e esse crime é de responsabilidade dos EUA e seus apoiadores, como o Brasil.

    Apesar de tudo isso, a população trabalha e a cidade funciona, mas caso sigam o bloqueio e as sanções econômicas, pode ocorrer uma crise humanitária de grandes proporções.

    A Venezuela, por um acidente geográfico, tem a maior reserva de petróleo do mundo, e possivelmente a segunda maior reserva de ouro e esses são os verdadeiros motivos da agressão imperialista. Não há interesse humanitário, mas sim no petróleo que segue sendo a principal matriz energética do mundo capitalista moderno.

    Encontramos um povo sofrido, passando por uma situação de carestia, mas muito corajoso, que sabe quais são os interesses dos EUA e defendem a manutenção de Maduro, mesmo tendo muitas críticas ao seu governo. É com esse povo que estamos solidários e na luta contra o imperialismo.

    *João Zafalão, DIRETOR da APEOESP e do PSOL-SP, direto de Caracas
    Foto: João Zafalão