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  • EUA buscam recuperar espaço perdido para a China e Rússia no sul-asiático

    No mês de setembro foram realizados intensos encontros bilaterais entre países do subcontinente sul-asiático. Cada vez mais, desde a crise de 2007-2008, as peças do tabuleiro na região estão em intenso movimento revelando as mudanças geopolíticas que estão se operando no cenário mundial.

    Destaco dois importantes encontros ocorridos nos últimos meses. O primeiro foi dos chanceleres do recém-eleito primeiro-ministro do Paquistão, Inram Khan, e o ministro do exterior da China. O segundo foi o encontro de cúpula entre os EUA e a Índia.

    Desde o encontro de Donald Trump e o primeiro-ministro da Índia, Narandra Modi, ocorrido em Washington nos dias 25 e 26 de junho de 2017, houve uma maior aproximação entre os dois países. Os dois mandatários têm muita similaridade em seus nacionalismos, até em seus slogans de campanha eleitoral “American First” (América Primeiro) e “Make in India” (Faça na Índia). Mas essa aproximação não para por aí. Apesar da relação econômica entre os dois países ser relativamente estável, a administração Trump está na briga para abocanhar um pedaço do mercado na Índia, hoje nas mãos da Rússia.

    Em 2017, o comércio entre Rússia e Índia atingiu o montante de US$ 8,2 bilhões (R$ 30 bilhões), com saldo positivo a favor da Rússia. As exportações russas para a Índia atingiram US$ 5,6 bilhões (R$ 21 bilhões); as importações cifraram-se em US$ 2,6 bilhões (R$ 9,7 bilhões). Por sua vez, segundo o Instituto Internacional de Estudos para a Paz de Estocolmo (SIPRI, na sigla em inglês), a exportação de armas da Rússia para a Índia caiu de US$ 2,2 bilhões (R$ 8,2 bilhões) para US$ 1,9 bilhões (R$ 7,1 bilhões). Consequentemente, a parcela de bens não militares exportados é de 66%, uma ampliação em termos relativos.

    De toda forma, cabe destacar que as exportações russas de armamentos e tecnologia militar para a Índia tem como principal item o novo sistema de rastreamento e defesa antimísseis S 400, já adquirido pela China, um negócio de 6 bilhões de dólares. Junto com ele estão os projetos dos aviões de caça “Make in India”. Entre tais projetos estão incluídos o caça Su-30MKI, os tanques T-72M1 e T-90S, entre outros. Nenhum país firma esses acordos desse tipo, exceto a Rússia.

    O desagrado do governo dos EUA com essa relação Rússia-Índia, seguramente estão por trás das medidas protecionistas dos EUA às importações da Índia, tal como foi o caso do Alumínio e outros bens, e, também, a denúncia que o governo Trump fez na OMC, em 9 de maio deste ano, contra os preços dos grãos. O último capítulo que revela o interesse dos EUA em ter uma relação econômica mais estreita com a Índia numa disputa clara com a Rússia, foi um acordo de cooperação militar assinado entre os dois países no último dia 6 de setembro. Segundo a Folha/UOL 7 de setembro 2018, “A ministra da defesa da Índia, Nirmala Sitharam, disse que a cooperação militar se tornou o propulsor das relações EUA x Índia, que, segundo ela, estão sendo ´levadas a outro nível´. Discutiu-se também até onde a Índia cortaria suas importações de petróleo Iraniano, além de um possível maior papel da Índia em um nascente bloco econômico formado por EUA, Índia, Japão e Austrália.”

    China e Paquistão: o contraponto

    Outra importante movimentação tem sido a aproximação da China com o Paquistão, intensificada após a vitória de Imram Khan e seu partido, o PTI (Pakistan Tehreek-e-Insaf, ou, Movimento Paquistanês pela Justiça), garantindo sua eleição para primeiro-ministro. Mesmo antes das eleições gerais de julho, a China emprestou mais 1 bilhão de dólares (https://www.dci.com.br/mundo/china-empresta-1-bi-de-dolares-ao-paquist-o-para-que-recupere-reservas-1.720130) , chegando a um montante que deve ultrapassar os 5 bilhões de dólares em empréstimos ainda este ano.

    Em abril deste ano, houve um encontro de cúpula entre os dois países onde essa tendência se aprofundou. Neste encontro o presidente chinês Xi Jinping apontou que os laços entre os dois países devem tornar-se um modelo de relação de boa vizinhança e de cooperação internacional sob a “Iniciativa do Cinturão e Rota” (One Belt One Road), o megaprojeto chinês, conhecido como a “Nova Rota da Sede”. Uma alusão à antiga rota comercial oriente-ocidente dominada pela China entre os séculos II a.c e XIV d.c., conhecida como “Rota da Seda”.

    Segundo Daily Times 23 de abril de 2018 (https://dailytimes.com.pk/231411/no-military-aim-of-corridor-project-with-pakistan-china/) “A parceria de cooperação estratégica, sob todas as condições, entre a China e o Paquistão fez um progresso destacado desde que visitei o país vizinho em 2015”, expressou Xi.

    O presidente chinês destacou ainda que a situação internacional e regional está registrando mudanças profundas e complexas, o que torna mais importante que os dois países consolidem a amizade e aprofundem a cooperação estratégica. Ele apontou que a China está disposta a fazer esforços conjuntos com o Paquistão para impulsionar os laços bilaterais para um nível superior e construir uma comunidade com futuro compartilhado mais estreitamente entrelaçada entre os dois países. Ele ainda pediu esforços das duas partes para avançar na construção do Corredor Econômico China-Paquistão (CECP), e garantir o planejamento e a implementação estáveis de projetos de cooperação que envolvam a construção de infraestrutura, tais como o porto de Gwadar, assim como parques de energia e industriais.

    O Corredor Econômico China-Paquistão (CECP)

    A China posicionou o CECP como o principal projeto de sua iniciativa global de “Cinturão e Estrada”, estimado em US $ 1 trilhão (BRI), defendida pelo presidente Xi Jinping. O embaixador chinês nesta reunião disse que dentro de cinco anos de finalização e lançamento do CPEC, 22 projetos de ‘colheita antecipada’ dos 43 projetos totais sob CECP foram concluídos ou estão em construção, com um investimento total de cerca de US $ 19 bilhões, o maior influxo de investimento estrangeiro da história em 70 anos no Paquistão. Os projetos já trouxeram 60.000 empregos locais, além de enfrentar a crise energética do país.

    Em sua declaração após as eleições o primeiro-ministro Inram Khan, elogiou o “modelo chinês” para combater a pobreza no Paquistão. No dia 8 de setembro de 2018, aconteceu um encontro entre os chanceleres do Paquistão e China. Em visita oficial de três dias no Paquistão o ministro das relações exteriores da China Wang Yi se encontrou pessoalmente com o ministro do exterior do Paquistão Shah Mehmood Qureshi.

    Yi, enviou um convite ao primeiro-ministro Imran Khan para ser o convidado de honra da International Import Expo na China. Encontrou-se também com militares para discutir cooperação na área de segurança. De acordo com o Daily Times de 8 de setembro 2018 (https://dailytimes.com.pk/294854/pakistan-china-to-strengthen-bilateral-ties/), o porta-voz do governo Dr. Muhammad Faisal afirmou: “a visita do ministro das Relações Exteriores chinês ao Paquistão é um desenvolvimento “muito positivo”, afirmando que desde a formação do governo do PTI as visitas de chanceleres iranianos, norte-americanos e chineses significam a importância do Paquistão na região e no mundo”. E ainda, “O Corredor Econômico China-Paquistão (CPEC), a cooperação econômica, os intercâmbios culturais e educacionais e a situação regional foram discutidas durante a reunião”, acrescentou o porta-voz.

    Acirramento da disputa geopolítica

    Os EUA têm razão para se preocupar. A ofensiva da China na região e as relações da Rússia com a Índia, seu histórico aliado na região, ameaçam completamente seu controle da região.

    Essa situação reflete o avanço da China sobre a geopolítica mundial como também a política que a Rússia vem aplicando para barrar o avanço constante da OTAN em direção ao Leste, o que ele considera uma violação do acordo coma ex-URSS durante o processo de unificação da Alemanha. O conflito da Ucrânia, em 2014, levando a divisão do país entre oeste (governo pró União Europeia) e leste (pró Rússia), e a anexação da Criméia pela Rússia, é um exemplo de que Putin quer colocar um ponto final a esse avanço. A Rússia vem sofrendo sanções dos EUA por conta de sua atuação na Ucrânia, mas a intervenção da Rússia na Síria mostra que Putin não se intimida.

    É levando em conta toda essa nova situação que a Estratégia de Segurança e de Defesa Nacional de Donald Trump, anunciadas em final de 2017 e início de 2018, respectivamente, elencou a China e a Rússia como seus principais inimigos. É a primeira vez desde a queda do Leste e o fim da “chamada “guerra fria” que o conflito entre Estados-potência passa a ser objeto da doutrina de Segurança e de Defesa dos EUA. Até então girava em torno de inimigos não-estatais como as “organizações terroristas” e envolvia países a exemplo do Iraque, Afeganistão e a Líbia.

    Esse novo momento da geopolítica em que os EUA hierarquizam o conflito com a China e a Rússia abre um cenário de grande instabilidade mundial. As recentes movimentações e o aumento das tensões no subcontinente sul-asiático envolvendo a Índia e o Paquistão é somente uma expressão desta nova situação.

    Referências:

    https://esquerdaonline.com.br/2018/08/14/paquistao-o-modelo-chines-de-inram-khan-para-aliviar-a-pobreza/

    https://jornal.ceiri.com.br/primeiro-ministro-da-india-visita-o-presidente-dos-eua/

    http://www.marxistreview.asia/chimera-of-foreign-direct-investment/

  • O futuro do governo Trump nas eleições de novembro

    Como no Brasil, os americanos também têm eleições a cada dois anos: uma que escolhe o presidente e outra que elege os governadores e os membros do Congresso – as MidTerms ou Meio mandato, em tradução livre. Nas próximas eleições americanas, em novembro, os eleitores escolherão 35 senadores, 36 governadores e 435 deputados.

    Atualmente, tanto a Câmara, como o Senado têm maioria de republicanos. Manter esta maioria é o grande objetivo de Trump e do Partido Republicano, pois isto vai determinar como serão os dois últimos anos de mandato do presidente.

    A força e a fraqueza de Donald Trump e dos Democratas

    A crise econômica de 2008 gerou as condições para que movimentos populistas crescessem em todo o mundo. Esta foi a base da eleição de Trump, em 2016, que prometia a melhoria da população trabalhadora mais pobre americana, não atingida pela recuperação econômica dos dois governos de Obama.

    Os grandes números da economia dos EUA mostram a recuperação econômica: as bolsas crescem desde 2008, com altas de 275% na Nasdaq e de 137% na Bolsa de Nova York. O desemprego caiu de 10% para 3,9%. Os financiamentos imobiliários somam US$ 9,43 trilhões em 2018, e eram de US$ 9,9 trilhões em 2008 no auge da crise. A economia vai bem obrigado, e esta é a força de Trump nestas eleições.

    De toda forma, para os americanos, em especial para a classe trabalhadora, embora haja uma sensação de que o pior momento tenha ficado para trás, o fato é que sob o governo Trump, até agora, não houve uma melhoria real. O salário médio semanal dos americanos cresceu apenas 19%, enquanto a inflação avançou 19,4% no mesmo período. A diminuição do desemprego se deu em base ao trabalho precário. A pobreza aumentou de 12,5% para 12,7%, e hoje cerca de 20 milhões de pessoas (6% da população americana) vivem em trailers, ou seja, a soma da população de São Paulo e do Rio de Janeiro. Assim, a renda cresceu mais para os ricos, e grande parte da população pobre se sente desalentada, exatamente naquelas regiões que deram a vitória a Trump nas últimas eleições presidenciais.

    Mas o elemento de maior fragilidade de Trump segue sendo a sua relação política com a massa, desde que foi eleito. Não podemos esquecer que ele perdeu para Hilary Clinton na eleição direta, e desde então sua popularidade só fez diminuir. As pesquisas apontam que 60% dos americanos não apoiam o governo. Isto está se refletindo na intenção de voto para as midterms.

    Uma pesquisa realizada pelo jornal The Washington Post em parceria com a emissora ABC News mostrou que os democratas apresentam uma boa vantagem em relação aos republicanos em intenções de votos, a pouco mais de dois meses das eleições legislativas nos Estados Unidos. Segundo os resultados divulgados, 45,2% dos eleitores entrevistados votarão em um candidato do Partido Democrata, contra 38% que escolherão um republicano para o Congresso.

    A isto se acrescenta o fato de que tradicionalmente, nas eleições legislativas, o eleitor americano dá a vitória ao partido que não está na presidência. Desde 1934 foram realizadas 21 eleições legislativas, o partido do presidente só conseguiu ser maioria na Câmara três vezes e no Senado cinco vezes. Esta é a forma tradicional americana de equilibrar o poder. A relação ruim dos eleitores com o governo Trump é a força dos democratas.

    Os pesquisadores Erica Chenoweth, da Universidade de Denver, e Jeremy Pressman, da Universidade de Connecticut, fazem o mapeamento dos protestos nos EUA. Em 2017 eles registraram 8,7 mil protestos no país, sendo 74% contra Trump. Em 2018 já ocorreram 4 mil protestos. A mesma pesquisa também mostrou uma grande frustração com o sistema político em geral. Mais de seis em cada dez americanos dizem que o presidente Trump e seu Partido estão fora de sintonia com a maioria das pessoas no país. Para 51% dos entrevistados, os democratas também estão desconectados de seus eleitores. Isto explica o crescimento de candidaturas de mulheres, negros (as), LGBTs e imigrantes, e é nesta desconfiança que reside à fraqueza tanto dos republicanos, quanto dos democratas.

    Candidaturas de mulheres e demais oprimidos cresce

    Graças à polarização entre democratas e republicanos, os primeiros viram crescer o número de candidatos (as) interessados em concorrer pelo Partido Democrata. Em 2018 será a primeira vez que os democratas terão mais candidatos do que os republicanos. Os democratas terão 1.500 candidatos(as) disputando as eleições primárias do partido, 500 a mais do que há quatro anos. Desses, 350 são mulheres.

    Na verdade, as candidaturas femininas cresceram nos dois partidos. Um número record de mulheres disputarão a Câmara e o senado neste ano: 523 até agora. Isto é consequência da enorme oposição que as mulheres vêm fazendo à Donald Trump desde o dia de sua posse, quando então levou 4 milhões de mulheres às ruas em 600 cidades americanas.

    As primárias têm se mostrado um marco para candidatas negras – pelo menos 50 irão concorrer ao Congresso. A Georgia pode eleger Stacey Abrams como a primeira governadora negra do País. Em Idaho, Paulette Jordan pode ser a primeira governadora indígena e Christine Hallquist é a primeira mulher transgênero a vencer as primárias, do estado de Vermont. Os estados de Michigan e Minnesota podem eleger as primeiras mulçulmanas para o Congresso ambas pelo partido Democrata.

    O crescimento feminino levou a que a latina Alexandria Ocasio-Cortez, do grupo de esquerda Democratic Socialists of America (DSA), derrotasse um tradicional político do Partido democrata em Nova York, e concorrerá a Câmara. O gráfico abaixo mostra o crescimento das candidaturas mulheres nos últimos 18 anos.

    Gráfico com o número de mulheres indicadas por cada Partido.

    Por trás das polêmicas está a disputa eleitoral entre democratas e republicanos

    Todos os dias vemos alguma declaração polêmica de Trump na mídia. Ora para defender sua política externa, ora para polemizar com os democratas, a principal oposição a seu governo. O crescente aumento da tensão política interna entre democratas e republicanos tem um único objetivo: a disputa eleitoral de novembro que vai determinar como será o governo Trump nos próximos dois anos. Caso mantenha a maioria republicana atual, Trump terá melhores condições de implementar seu projeto político, dentro e fora dos EUA, mesmo enfrentando um crescente desgaste popular e mesmo dentro do Partido Republicano.

    Caso os democratas ganhem a maioria na Câmara, no Senado ou em ambos, Trump terá muita dificuldade para governar. Claro, seu governo não estaria necessariamente inviabilizado. Diferente de um sistema parlamentarista, a posição do presidente no sistema político norte-americano ainda lhe confere um enorme poder. Como vimos, raramente o partido do presidente vence as MidTerms. Obama tampouco as venceu em 2014. Mas, sem dúvida, a vida de Trump estaria bem complicada.

    Os democratas estão usando todas as contradições do governo para bombardear Trump. Nesta semana Obama entrou em campanha, fazendo vários ataques a Trump, declarando que a democracia está em risco, e fazendo um chamado aos americanos para votarem nas eleições legislativas de novembro.

    Os democratas voltaram a falar novamente no impeachment de Trump, principalmente depois da publicação do artigo anônimo no New York Times, que explica como os republicanos atuam dentro do governo para impedir “as piores inclinações” do presidente, e que este grupo chegou a pensar em pedir o afastamento de Trump por incapacidade.

    Essa queda de braço entre republicanos e democratas se define nas urnas em novembro. Se as pesquisas estiverem certas, os democratas sairão vitoriosos. Pior cenário para Trump. De qualquer forma, o futuro do governo está em jogo nestas eleições, e como consequência indireta, o do mundo também.

    Foto: EBC

  • O estado do capitalismo no IIPPE

    A conferência deste ano da Iniciativa Internacional para a Promoção da Economia Política (IIPPE), International Initiative for the Promotion of Political Economy (IIPPE),  em Pula, Croácia, teve como tema O Estado do Capitalismo e o Estado da Economia Política. A maioria das comunicações concentrou-se no primeiro tema, embora as apresentações em plenário tenham como objetivo ambos.

    Fiquei impressionado com o número de artigos (IIPPE 2018 – Abstracts) sobre a situação no Brasil, China e Turquia – um sinal dos tempos -, mas também pela relativa juventude dos participantes, particularmente da Ásia e do “sul global”. Os rostos familiares da geração “baby boomer” de economistas marxistas e heterodoxos (minha própria geração) estavam menos evidentes.

    Obviamente, não pude comparecer a todas as sessões simultâneas, por isso me concentrei na macroeconomia das economias capitalistas avançadas. Na verdade, minha própria sessão estava entre as primeiras da conferência. Sob o título Os limites para a gestão da política econômica na era da financeirização apresentei um artigo sobre Os limites da política fiscal (minha apresentação do PP está aqui).

    Argumentei que, durante a Grande Depressão dos anos 1930, Keynes reconhecera que a política monetária não funcionaria para tirar as economias deprimidas de uma recessão, se a política monetária era “convencional” (alterando a taxa de juros para empréstimos) ou “não convencional” ( bancos centrais que compram ativos financeiros “imprimindo” dinheiro). No final, Keynes optou pelo estímulo fiscal como a única maneira de os governos impulsionarem a economia capitalista.

    Na atual Longa Depressão, agora com dez anos de existência tanto a política monetária convencional (taxa de juros zero) quanto a política monetária não convencional (Quantitative Easing ou relaxamento monetário), mais uma vez se mostraram ineficazes. O relaxamento monetário, em vez disso, apenas restaurou a liquidez bancária (salvou os bancos) e alimentou uma bonança de mercado de ações e títulos. A economia “real” ou produtiva definhou com baixo crescimento real do PIB, investimento e renda salarial.

    Maria Ivanova da Goldsmiths University of London também apresentou em minha sessão (Ivanova_Quantitative Easing_IJPE_forthcoming) e mostrou claramente que as políticas monetárias convencionais e não convencionais adotadas pelo Fed dos EUA pouco contribuíram para ajudar o crescimento ou o investimento e levaram apenas a um novo boom financeiro. ativos e um aumento acentuado na dívida corporativa, agora provavelmente será o elo fraco na circulação de capital na próxima queda.

    O estímulo fiscal de estilo keynesiano quase não foi tentado nos últimos dez anos (em vez disso, a “austeridade” nos gastos e orçamentos do governo era geralmente a ordem do dia). Assim, os keynesianos continuam a afirmar que os gastos fiscais poderiam ter mudado as coisas. De fato, Paul Krugman argumentou exatamente isso no New York Times quando a conferência do IIPPE aconteceu.

    Mas no meu artigo, refiro-me à evidência de Krugman para isso, e mostro que no passado os gastos do governo e/ou a execução de déficits orçamentários tiveram pouco efeito em impulsionar o crescimento ou o investimento. Isso porque, sob uma economia capitalista, onde 80 a 90% de todo investimento produtivo é feito por empresas privadas que produzem na busca de lucros, é o nível de rentabilidade do capital que é o fator decisivo para o crescimento, e não os gastos do governo que impulsionam a “demanda agregada”. Nos últimos dez anos desde a Grande Recessão, enquanto os lucros aumentaram para algumas grandes corporações, a rentabilidade média do capital empregado permaneceu baixa (average profitability on capital employed has remained low and below pre-crash levels) e abaixo dos níveis pré-crise de 2008 (veja a tabela de lucratividade abaixo com base nos dados da AMECO). Ao mesmo tempo, a dívida das enpresas saltou à medida que as grandes corporações tomam empréstimos a taxas próximas de zero, para comprar suas próprias ações (para aumentar os seus preços) e/ou aumentar os pagamentos aos acionistas.


    Os gastos do governo com benefícios sociais e serviços públicos, juntamente com cortes de impostos para impulsionar a “demanda do consumidor”, é o que os keynesianos modernos presumem ser a política correta. Mas isso não resolveria o problema (e Keynes também pensava isso na década de 1940). De fato, o que é necessário é uma mudança maciça para a “socialização do investimento”, para usar o termo de Keynes, ou seja, o governo deve retomar a responsabilidade pela maior parte do investimento e sua direção. Durante a década de 1940, Keynes defendeu que até 75% de todo investimento em uma economia deveria ser investimento estatal, reduzindo o papel do setor capitalista ao mínimo (ver Kregel, JA (1985), “Déficits Orçamentários, Política de Estabilização e Liquidez”. Preferência: Propostas de Política Pós-Guerra de Keynes ”, em F. Vicarelli (ed.), Relevance Today de Keynes, Londres, Macmillan, pp. 28-50).

    É claro que tal política só aconteceu em uma economia de guerra. Seria rapidamente oposta e foi descartada em “tempo de paz”. Isso porque isso ameaçaria a própria existência da acumulação capitalista, como Michal Kalecki apontou em seu artigo de 1943.

    Agora, em 2018, o Partido Trabalhista do Reino Unido quer criar um Banco Nacional de Investimentos no estilo keynesiano que investiria em infra-estrutura, junto com os cinco grandes bancos britânicos que continuarão conduzindo os negócios normalmente, ou seja, hipotecas e especulação financeira. Sob estas propostas trabalhistas, o investimento do governo (mesmo que implementado na íntegra) aumentaria para apenas 3,5% do PIB, menos de 20% do investimento total na economia – dificilmente “socialização” à la Keynes em sua forma mais radical.

    Mas talvez a versão do presidente Trump do estímulo fiscal keynesiano (imensos cortes de impostos para os ricos e as corporações, aumentando o déficit orçamentário) seja o suficiente. É uma ironia que seja Trump quem adotou a política keynesiana. Ele certamente acha que está funcionando – com a economia dos EUA crescendo a uma taxa anual de 4% no momento e as taxas oficiais de desemprego em níveis baixos quase recordes. Mas uma excelente apresentação de Trevor Evans, da Escola de Economia de Berlim, derramou água fria nesse otimismo. Com uma enxurrada de dados, ele mostrou que os lucros corporativos estão realmente estagnados, a dívida corporativa está aumentando e a renda salarial está estável, ao lado de mercados de ações e títulos altamente inflacionados. O boom do Trump provavelmente vai fracassar e se transformar no seu oposto.

    Além disso, Arturo Guillen, da Universidade Metropolitana da Cidade do México (IIPPE 2018 inglés) nos lembrou que a trajetória de médio prazo do crescimento econômico dos EUA era muito fraca, com crescimento de produtividade muito baixo e investimento produtivo rastejando. Nesse sentido, os EUA estavam sofrendo de “estagnação secular”, mas não pelas razões citadas pelos keynesianos como Larry Summers (falta de demanda) ou por críticas neoclássicas como Robert Gordon (inovação ineficaz), mas por causa da baixa rentabilidade do capital.

    Em outra sessão, Joseph Choonara, levou isso adiante. Choonara viu a crise atual arraigada em um longo declínio na lucratividade no período entre o final da década de 1940 e o início da década de 1980. O período neoliberal subsequente desenvolveu novos mecanismos para adiar as crises, notadamente a financeirização e a expansão do crédito. Na longa depressão desde 2009, impulsionada em grande parte pela resposta do banco central, a dívida continua a aumentar. O resultado é uma recuperação financeiramente frágil e incerta, que está criando as condições para uma nova crise

    Houve também algumas sessões sobre teoria econômica marxista no IIPEP, incluindo uma visão sobre por que Marx enviou tanto tempo aprendendo cálculo diferencial (Andrea Ricci) e por que a transformação de valores em preços de produção em Marx é dialética em sua solução (Cecilia Escobar). Também Paul Zarembka, da Universidade de Buffalo, EUA, apresentou um artigo argumentando que a composição orgânica do capital nos EUA não aumentou no período do pós-guerra e, portanto, não pode ser a causa de qualquer queda na taxa de lucro.

    Seus conceitos e evidências não se sustentam a minha opinião. Zarembka argumenta que há um grande problema com relação ao uso do capital variável v no denominador na composição orgânica comumente expressa do capital, C / v. Isso porque v pode mudar sem qualquer alteração na composição técnica. Usando, em vez disso, o que ele chama de ‘composição materializada do capital’, C / (v + s), o movimento em C / v pode ser separado entre o fator técnico e o fator distributivo, pois C / v = (1 + s / v ). Com essa abordagem, Zarembka sugere, usando dados dos EUA, que ele  pode mostrar que não houve aumento na composição orgânica do capital nos EUA, e nenhuma conexão entre a categoria básica de Marx para as leis do movimento no capitalismo e a taxa de lucro.

    Mas acho que sua categoria C / (v + s) confunde a visão de Marx da “tendência” básica (c / v) na acumulação de capital com a menor “contra-tendência” (s / v) e assim embaralha o processo causal. Isso torna a lei da taxa de lucro de Marx “indeterminada” da mesma maneira que Sweezy e Heinrich etc. reivindicam. Quanto às consequências empíricas de rejeitar o argumento de Zarembka, refiro-o a um excelente artigo de Lefteris Tsoulfidis.

    Como eu disse anteriormente, houve uma série de sessões sobre o Brasil, a África Austral e a China, a maioria das quais não pude participar. Na China, o que eu pareci notar foi que quase todos os apresentadores aceitaram que a China era “capitalista” exatamente da mesma maneira que os EUA ou pelo menos como Japão ou Coréia, se menos avançada. E, no entanto, todos eles reconheceram que o Estado desempenhou um papel enorme na economia em comparação com outros – então existe uma diferença entre capitalismo de estado e capitalismo? Eu não posso dizer nada sobre as comunicações sobre o Brasil, exceto sugerir uma pesquisa  no IIPPE 2018 – Abstracts. O Brasil tem uma eleição dentro de um mês e eu cobrirei isso então – e estas são minhas postagens anteriores no Brasil.

    Havia outros trabalhos interessantes sobre automação e IA (Martin Upchurch) e sobre bitcoin e uma economia sem dinheiro (Philip Mader), bem como sobre a grande questão do imperialismo e da teoria da dependência (que está de volta na moda).

    A plenária principal sobre o estado do capitalismo foi abordada por Fiona Tregena, da Universidade de Joanesburgo. Sua principal área de pesquisa é a mudança estrutural, com um foco particular na desindustrialização. A Prof Tregena promoveu o conceito de desindustrialização prematura. A desindustrialização prematura pode ser definida como a desindustrialização que se inicia em um nível mais baixo do PIB per capita e/ou em um nível mais baixo de manufatura como proporção do emprego total e do PIB, do que costuma ser o caso, internacionalmente. Muitos dos casos de desindustrialização prematura estão na África subsaariana, em alguns casos assumindo a forma de “desindustrialização pré-industrialização”. Ela argumentou que a desindustrialização precoce provavelmente terá efeitos especialmente negativos sobre o crescimento.

    Quanto ao estado da economia política, Andrew Brown, da Leeds University, explicou alguns dos fracassos da economia mainstream, particularmente a teoria da utilidade marginal. A teoria marginal da utilidade não foi desenvolvida até hoje em uma direção concreta e realista, não porque seja apenas uma apologética vulgar do capitalismo, mas porque é teoricamente sem sentido. A teoria marginal da utilidade não permite compreender os agregados macroeconômicos que impulsionam a reprodução e o desenvolvimento do sistema econômico.

    “Financialização” é a palavra/conceito que domina as conferências do IIPPE. É um conceito que tem algum valor quando descreve a mudança na estrutura do setor financeiro de bancos puros para uma variedade de instituições financeiras não depositárias e as atividades financeiras de corporações não financeiras nos últimos 40 anos.

    Mas não estou feliz com o conceito quando costumava sugerir que o crash financeiro e a Grande Recessão foram o resultado de algum novo “estágio” no capitalismo. A partir disso, argumenta-se que as crises agora ocorrem não devido à queda nos setores produtivos, mas devido ao papel especulativo da “financeirização”. Essa abordagem, a meu ver, não só está errada teoricamente, mas também não se encaixa nos fatos. bem como nas leis do movimento de Marx: a lei do valor, a lei da acumulação e a lei da taxa de lucro.

    Para mim, a financeirização não é um novo estágio no capitalismo que nos força a rejeitar as leis de movimento de Marx em O capital, e a economia neoliberal não é, de algum modo, a nova economia da financeirização e uma teoria diferente das crises de Marx. As finanças não impulsionam o capitalismo, o lucro sim. As finanças não criam novo valor ou mais-valia, mas encontram novas maneiras de circulação e distribuição. O núcleo das crises permanece assim com a produção de valor. O neoliberalismo é meramente uma palavra inventada para descrever os últimos 40 anos ou mais de políticas destinadas a restaurar a lucratividade do capital que caiu para níveis mais baixos nos anos 70. Não é a economia de um novo estágio no capitalismo.

    Claro, cada crise tem suas características particulares e a Grande Recessão tinha isso com seus “serviços bancários invisíveis ou sombras” (shadow banking), instrumentos de investimento especiais, derivativos de crédito e o resto. Mas a causa subjacente continuou sendo a natureza do sistema de produção orientado para a busca do lucro. Se a financeirização significa que o setor financeiro se divorciou do sistema capitalista mais amplo, na minha opinião, isso está claramente errado.

     

    *Artigo publicado no blog The Next Recession. Tradução Valerio Arcary

  • Catalães tomam as ruas no dia 11, por uma República independente

    Os catalães celebram anualmente no dia 11 de setembro o Dia Nacional da Catalunha, o Diada. A data comemora a resistência catalã até a morte durante o Cerco de Barcelona durante a Guerra da Sucessão, finalmente derrotada pelas forças bourbônicas, em 11 de setembro de 1714. O Diada nos últimos anos, a partir de 2012 especificamente, tem se tornando uma importante manifestação política que dita os ritmos e a pauta independentista para o período seguinte. Assim, o lema que a marcha comemorativa assume é a tarefa política das forças empenhadas na independência da região.

    Em 2018, o Diada tem uma importância superior ao ocorrido em anos anteriores. É o primeiro após o referendo pela independência da região, realizado em outubro do ano passado. Referendo este no qual a maioria dos participantes votou pelo “Si”, ou seja, pela independência da Catalunha. E que, porém, foi considerado ilegal e ilegítimo pelo governo espanhol, que fez o possível e o impossível para impedir a votação ao esconder urnas e dispersar filas de votantes através de forte repressão policial, deixando mais de mil feridos.

    O então presidente catalão, Puigdemont, depois de hesitar, acabou por declarar em 27 de outubro a independência da região. Poucas horas depois, em Madrid, o Senado do Estado Espanhol aprovou a entrada em vigor do artigo 155 da Constituição, permitindo o então presidente Rajoy dissolver o Parlamento e por fim ao governo catalão.

    Lideranças independentistas, incluindo Puigdemont, fugiram para outros países, em especial para Bruxelas, na Bélgica. Outras que ficaram na Catalunha foram presas. O Estado Espanhol acusa os membros do parlamento catalão de rebelião, acusação da qual foram considerados inocentes pela Justiça dos países em que estes parlamentares se encontram detidos.

    Entretanto, em 1º de junho o governo conservador de Rajoy (PP) é destituído pelo parlamento, sendo substituído por Pedro Sanchez (PSOE). Em 12 de junho, a justiça alemã extradita Puigdemont para o estado espanhol abrindo a possibilidade de reanimar a luta pela independência.

    Uma nova situação
    Refletindo essa nova situação, o Diada deste ano organizado pela Assembleia Nacional Catalã aconteceu sob o lema: “Façamos a República Catalã”. Os manifestantes defendiam a liberdade dos dirigentes políticos presos, a independência da região e a proclamação de uma República na região. Críticas ao Rei espanhol, Felipe VI, foram vistas em palavras de ordem e em faixas ostentadas pelos participantes.

    A quantidade de pessoas na manifestação varia de acordo com a fonte. De acordo com o jornal El Pais, foram 400 mil pessoas; as forças de segurança que acompanharam o ato informam que o número de participantes chegou a um milhão de pessoas.

    O atual governo espanhol, liderado por Pedro Sánchez, do PSOE, propôs negociar sem pré-condições com os independentistas, até se chegar a um acordo de autogoverno, algo que se difere da independência da região diante do Estado Espanhol. Esta proposta seria facilmente aceita em anos anteriores e é muito superior a qualquer coisa que o ex-primeiro-ministro Rajoy já tenha prometido a região. Porém, hoje, com o atual nível de manifestações e grau de polarização independentista, ela foi prontamente recusada pelo atual presidente catalão Quim Torra, eleito pelo Parlamento em 02 de junho deste ano, sob a indicação de Puigdemont.

    Entretanto, a proposta feita por Sánchez aumentou a crise existente nas forças independentistas. Elas hoje são maioria no Parlamento Catalão, mas discordam sobre a forma que a luta independentista deve ser realizada.

    O Junts per Catalunya, aliança eleitoral encabeçada pelo PDeCAT (Partido Democrata Europeu Catalão)  de Puigdemont e a Esquerra Republicana (ERC) de Oriol Junqueras e Marta Rovira, divergem publicamente. A Esquerra Republicana critica a forma que Quim Torra lidou com a proposta vinda de Madrid. Eles defendem uma mesa de negociação e um referendo realizado de forma conjunta com o Estado Espanhol, porém, tendem a aceitar a proposta feita por Sánchez. Acusam Torra de fazer sempre um discurso unilateral sobre a independência da região, mas nunca detalhando como fará para alcaçar esse objetivo. O Junts per Catalunya tende a defender a posição de Torra, apoiando a pressão que ele exerce pela liberdade dos presos políticos independentistas.

    Seja como for, a manifestação do Diada deste ano se diferencia das anteriores pela pauta explícita do chamado a uma República, algo que confronta diretamente a formação atual do Estado Espanhol. Apesar dos milhares que lotaram as ruas de Barcelona pedindo independência e o fim do controle de Madrid e da monarquia sobre a região, a verdade é que as forças independentistas parecem recuadas. Os partidos que lideraram o processo no período anterior indicam cansaço chegando ao limite de suas contradições, evitando um confronto maior com o Estado e a burguesia espanhola. Assim, é possível que haja um pacto entre o atual governo do PSOE e as forças independentistas na Catalunha. Diante de toda essa situação uma coisa é certa: sem a mobilização popular a independência se tornará algo cada vez mais distante e difícil. No entanto, o Diada demonstrou que o ânimo das massas nutre novas esperanças. Nem tudo está perdido.

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  • Eleições na Suécia: Social Democratas vencem, mas a extrema direita avança e abre crise na sucessão

    Neste domingo, 9 de setembro, ocorreram as eleições parlamentares da Suécia. As pesquisas apontavam a possibilidade do partido de extrema direita, o Democratas Suecos, ficar em primeiro lugar. Mas ao final, a socialdemocracia conseguiu garantir a liderança, ainda que com sua menor votação em mais de um século. Por conta disso, e do fracionamento entre os partidos de centro-esquerda e centro-direita, o país permanecerá por semanas, ou meses, em estado de indefinição quanto à composição do novo governo.

    O contexto: uma breve história
    A Suécia tem um regime político de monarquia-parlamentarista, em que o principal posto de poder é o do primeiro-ministro, eleito pelo parlamento.

    A Suécia é um dos países, e talvez o principal, em que a socialdemocracia europeia foi bem-sucedida. Fundado em 1889, o Partido Social Democrata entrou no governo pela primeira vez em 1917. Posteriormente, permaneceu de forma ininterrupta no poder entre 1932 e 1976. Neste período, a Suécia era um dos países mais avançados da Europa em termos da conquista de direitos democráticos e bem-estar social.

    Contudo, após a queda do muro de Berlim, o partido iniciou um processo de declínio. Desde os anos 30, os socialdemocratas sempre conquistavam no mínimo 40% dos votos. Atualmente, a última vez que isso ocorreu foi em 1994, e a cada ano vêm diminuindo cada vez mais sua pontuação.

    Nas eleições de 2006 e 2010, foi derrotada pela “Aliança para a Suécia”, uma frente de partidos de direita liberais e conservadores que incluí os Moderados, Centro, Liberais e Cristãos Democratas. Pela primeira vez em um século, o partido ficou fora do governo por oito anos.

    Isto se deveu, em parte, pela adaptação do partido ao neoliberalismo, fortalecido após a queda da União Soviética. Um dos resultados dessa virada foi a entrada da Suécia para a União Europeia (UE), em 1995, cujo efeito foi a redução das políticas de bem-estar social, uma das obrigações que o bloco impõe aos países membros.

    Neste período, também, houve o surgimento e fortalecimento de um novo partido de extrema direita com origem em movimentos neonazistas. Fundado em 1988, os Democratas Suecos começaram como um movimento abertamente supremacista branco. Inclusive, o partido foi fundado por pessoas diretamente ligadas ao nazismo sueco, como Gustaf Ekström e Anders Klarström.

    Porém, em 1995, os Democratas Suecos começaram um processo de ida ao centro, que acabou se consolidando em 2006 sob a liderança de Jimmie Åkesson, atual candidato a primeiro-ministro, que expulsou membros mais diretamente vinculados ao nazismo.

    Desde então, os Democratas Suecos passaram a ter uma identidade mais próxima à Frente Nacional, da França, ou ao Partido Popular Dinamarquês, que apesar de serem de extrema direita não defendem (pelo menos abertamente) o supremacismo branco ou o nacionalismo étnico. O resultado foi a entrada do partido no parlamento em 2010 e um crescimento exponencial nas últimas eleições.

    Apesar do declínio nas últimas duas décadas, os socialdemocratas voltaram ao poder em 2014 sob a liderança de Stefan Löfven. Este retorno, todavia, não foi suficiente para recuperar a força histórica do partido, que atingiu apenas 31% dos votos.

    Além disso, não conseguiram formar uma coalizão de maioria, tendo que recorrer à um governo de minoria – na Suécia, é possível que o partido mais votado faça um governo de minoria contanto ele consiga que os outros partidos lhe concedam um voto de confiança para aprovar as questões fundamentais de governo, como orçamento e projetos de defesa.

    O resultado eleitoral
    Nas eleições deste ano, em primeiro lugar, ficou novamente a Social Democracia, com 28,4%. Apesar de manter a liderança, o partido perdeu 2,8% de votos em relação à 2014, confirmando a tendência ao declínio que se iniciou em 2006. Este foi o pior resultado eleitoral social-democrata desde 1914, quando fez 14,5%.

    No espectro do “bloco de esquerda” está também o Verdes, que caiu 2,3% de votos e ficou com apenas 4,3%. Já a Esquerda subiu 2,2% em relação às eleições passadas e chegou à 7,9% dos votos. No total, os três partidos fizeram 40,6% dos votos.

    A Esquerda surgiu do antigo Partido Comunista, que rompeu com a socialdemocracia em 1917, permanecendo como tal até 1990, às vésperas do fim da União Soviética. Naquele ano o PC mudou de nome para Esquerda, oscilando desde então entre 5% e 12% dos votos.

    Já no espectro dos partidos de direita, que formam a “Aliança para a Suécia”, o Moderados, líder da aliança, perdeu 3,5% dos votos em relação à eleição passada e ficou com 19,8%. Apesar de ter sido o partido que mais perdeu votos de 2014 pra cá, permaneceu como segunda força política do país.

    Já o Centro cresceu 2,5% e chegou à 8,6% este ano, enquanto os Cristãos Democratas cresceram 1,8% e chegaram a 6,4%. Os Liberais, por sua vez, cresceram apenas 0,1% e permaneceram estáveis com 5,5%. No total, os três partidos fizeram 40,3%.

    Em terceiro lugar ficou a extrema direita dos Democratas Suecos, com 17,6%. Apesar de o partido ter sido derrotado, tendo em vista as pesquisas de boca de urna que apontavam um possível primeiro lugar, foram também os que mais cresceram de 2014 pra cá, aumentando em 4,7% de votos.

    Isto confirma a tendência de crescimento deste partido que estreou no parlamento em 2010 com 5,7% e, depois, subiu para 12,9% em 2014. Além disso, a paridade entre os blocos de direita e esquerda acabou tornando central o papel de o Democratas Suecos irá cumprir na formação da nova coalizão de governo.

    Dificuldades para uma coalizão de governo
    Apesar de a Social Democracia ter ficado em primeiro lugar nas eleições, é difícil que o partido consiga formar uma coalizão de governo. Mesmo os três partidos do bloco de esquerda juntos não têm representação parlamentar suficiente para formar uma coalizão de maioria, ainda que restasse a possibilidade de formar um governo de minoria caso obtivessem o voto de confiança de outros partidos.

    Contudo, o ministro Stefan Löfven vem tendo cada vez mais atritos com a Esquerda. Ambos divergem sobre um dos principais temas das eleições, que é o orçamento sueco. Enquanto os social-democratas defendem uma política de austeridade fiscal, apoiada pelo empresariado, a Esquerda se posiciona pela preservação do estado de bem-estar social do país.

    Dada a centralidade da política orçamentária para a execução do governo, o ministro Löfven vem demonstrando que não irá negociar com a Esquerda. Além disso, uma aliança com a Esquerda impossibilitaria a Social-Democracia conseguir um acordo com outros partidos de direita, que são a preferência do primeiro ministro.

    Segundo, os Moderados e Cristãos Democratas estão tentando convencer o Centro e os Liberais a fazer um acordo com os Democratas Suecos, para que eles concedam um voto de confiança à “Aliança” e lhes habilite a formar um governo de minoria. Ainda não está claro quais seriam as concessões feitas aos Democratas Suecos por este voto.

    Também permanece indefinido se os partidos de direita conseguiriam manter sua unidade, dado que o Centro e os Liberais se mostram firmes em seu posicionamento anterior de não fazer qualquer aliança com a extrema direita. Ainda assim, após uma reunião da “Aliança” na terça feira, 11, os partidos informaram que estão em processo de negociação e que um acordo com a Social-Democracia está descartado.

    Isto frustrou as esperanças de Löfven em tentar um acordo com o Centro e os Liberais para formar uma coalizão, cenário que ainda não está completamente descartado.

    Caso nenhuma destas possibilidades ocorra, é possível que haja de novo um frágil governo de minoria na Suécia, seja da Social Democracia ou do Moderados, apesar de este também ser um cenário improvável. Foi justamente durante os oito anos em que isso ocorreu que a extrema direita teve sua grande ascensão, aumentando mais de 10% em duas eleições.

     

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  • Governo Evo e o roubo das joias do Estado: uma história digna de novelas

    Em 06 de agosto, comemorou-se a independência da Bolívia e, no dia seguinte, o feriado das Forças Armadas. Naquela noite, entre uma comemoração e outra, a medalha e a faixa presidencial foram roubadas em circunstâncias bizarras.

    A medalha e a faixa presidencial são símbolos históricos que o presidente tem por hábito levar em todos os atos relevantes. A medalha tem um valor patrimonial incalculável, é um presente ofertado ao presidente Simón Bolivar em 1825 e herdado pela jovem nação boliviana após a morte de seu libertador.

    O roubo ocorreu na cidade vizinha a La Paz, El Alto, onde está localizado o aeroporto. Ambos objetos estavam sob a guarda de um tenente do exército, guarda-costas de Evo, encarregado do transporte desses objetos históricos. Ele explicou que perdeu o voo para Cochabamba, onde ia encontrar a comitiva presidencial e, enquanto esperava o próximo voo, foi a vários bordéis na área, deixando o carro estacionado nas proximidades. Nesse ínterim, arrombaram o carro e roubaram a mochila onde estavam a medalha e a faixa presidencial.

    Eu saí do veículo, mas não antes de cobrir minha mochila preta com uma colcha, e então eu fui para as instalações na avenida 12 de outubro. Eu fui a vários desses lugares, depois voltei para onde eu tinha deixado o carro. Quando cheguei a minha mochila tinha sido roubada “, explicou o militar.

    Foi um escândalo nacional e uma grande operação policial teve início. Evo teve de participar dos atos oficiais sem usar os símbolos pátrios, que gosta de exibir nessas ocasiões. Horas depois, as joias foram encontradas em uma igreja de La Paz, deixadas pelos próprios ladrões, que informaram à polícia por chamada telefônica anônima…

    Esse evento não é um fato isolado. Um dia depois, um deputado do MAS, completamente bêbado, insultou o público aos gritos e ficou nu no aeroporto de Cochabamba. No dia seguinte, em entrevista de rádio, Evo disse: “todos nós, os membros do governo, amanhecemos de ressaca, depois da festa das Forças Armadas.”

    Durante o feriado nacional, na cidade de Potosí, o presidente teve que encurtar seu discurso para 20 minutos – normalmente demora quatro horas! – diante dos protestos e gritos do público “Bolívia disse NÃO”, ainda que algumas providências tenham sido tomadas: a praça de Potosí foi fechada, e o ingresso só foi permitido a autoridades do governo. Assim mesmo, o vice-presidente Alvaro Garcia Linera não abriu a Feira do Livro como faz todos os anos, por causa dos protestos. Semelhante situação ocorreu na inauguração do edifício do Banco da União. Em todo ato público, há uma massa que grita “Bolívia disse NÃO”.

    Em outro erro sintomático, a diretora da Unidade de Investigação Financeira (UIF) publicou, finalmente, o relatório do patrimônio do presidente e do vice-presidente, embora o segredo bancário fora oficialmente suspenso há 8 anos. Descobre-se que o vice declarou apenas 27.000 bolivianos de patrimônio (3.500 dólares) quando é de conhecimento público suas várias empresas…Por sua parte, o presidente guarda metade de suas economias em uma conta em dólar, com um valor superior a US$ 100.000, enquanto defende publicamente a necessidade de economizar em moeda nacional! Foi uma tentativa de mostrar sua inocência, mas foi um tiro pela culatra…

    Esses eventos constrangedores e pontuais são transformados em uma cadeia de contratempos permanentes e demonstram o crescente desgaste do governo Evo-Linera, bem como o medo e cansaço por parte dos governantes. Na população em geral e em certas bases sociais do MAS, cresce um sentimento de fadiga e raiva pela arrogância e impunidade dos representantes da “massa”, especialmente na população urbana, hoje majoritária na Bolívia. 

    Brechas abertas…

    Como explicar isso? As pontuais e erráticas políticas sociais do governo de Evo não resolveram nenhum dos graves problemas estruturais da Bolívia; ao contrário, aprofundou o caráter dependente do país, que é exportador de matérias-primas (minerais e energia). A população está se desencantando.

    Os doze anos de governo de Evo evoluíram para uma excessiva centralização de poder, com elementos crescentes de bonapartismo e restrições às liberdades democráticas dos opositores. Por outro lado, há corrupção institucionalizada, flagrante e crescente, em todos os setores de atividades. Além disso, afloram elementos de apodrecimento do regime e do partido, que os governantes não conseguem mais tapar. Revela-se a falta de controle do MAS sobre seus militantes que se sentem impunes. Por fim, ressurge o conflito central na Bolívia: a produção da folha de coca, ligada ao problema do narcotráfico.

    As críticas da população são ouvidas em táxis, vans, mercados e, além dos centros urbanos, nas áreas rurais. Não há mais aquela unanimidade de apoio popular por trás do líder indígena. Brechas se abrem em todas as partes. Os setores produtores de coca estão divididos entre Yungas versus Chapare (região nativa de Evo). No ano passado, uma lei da coca definiu novas cotas de produção, mas ela continuou aumentando em novas áreas.

    O governo pretende controlar a produção das zonas tradicionais e reativou as forças policiais, especializadas na luta contra o narcotráfico, FELCN, infelizmente, célebres nas décadas anteriores. A luta contra essas forças de repressão, financiadas pelos norte-americanos, foi um dos eixos de luta quando se criou o IPSP-MAS nos anos 90. Hoje estamos à beira de uma nova guerra da coca, desta vez, entre um setor de produtores e o governo de Evo.

    O movimento “BOLÍVIA DISSE NÃO”
    Por outro lado, o movimento “Bolívia disse NÃO” se refere ao referendo realizado em 21 de fevereiro de 2016, quando o NÃO ganhou, contra a mudança de um artigo da Constituição que permitiria a reeleição de Evo em 2019, para o quarto mandato de cinco anos. Transformou-se em um amplo movimento de base, o 21F.

    Em qualquer ato público do governo, os representantes do movimento organizam-se para tornar visível o seu lema “Bolívia disse NÃO”, que aparece nas paredes das cidades, nas rodovias, nos postes de luz ou nos painéis publicitários. É um movimento cidadão, não controlado pela oposição política, nem financiado por qualquer candidato, parecido ao movimento dos Indignados na Espanha. Ele cresce porque se apoia no desapontamento de setores da população e no distanciamento do projeto político do MAS.

    As próximas eleições nacionais serão no final de 2019, mas a campanha já está na boca do povo. Todo ato cívico está a serviço de demonstrar a bondade do governo e de se defender das críticas que se acumulam. Prebendalismo oficial na ordem do dia, mais do que nunca. Isso não vai melhorar em nada, apenas aumentará as tensões entre os prós e os anti-Evo, dividindo a população e criando temores sobre o que pode acontecer. Panorama triste, longe das esperanças de ontem … .

  • Lei anti LGBT cai na Índia

    O Supremo Tribunal da Índia revogou no dia 6 de setembro de 2018, unanimemente, a lei imposta durante o domínio britânico, conhecida por “secção 377”, que proibia as relações homossexuais.

    Não foi evento inédito para o país que em 2009, e por 4 anos, havia revogado a lei 377 com fundamento de que a proibição do sexo homossexual violava os direitos fundamentais.

    Essa decisão, que só se aplicava à região de Deli, foi anulada pelo Supremo Tribunal em 2013, após uma petição lançada por uma coligação de grupos cristãos, hindus e muçulmanos.

    Dentro desse hiato à criminalização das relações homossexuais, crimes contra a população LBTQI+ continuaram a ser reportadas, dentro da Lei instituída na altura, no entanto o cenário piorou drasticamente após 2013, época em que as penas para um acusado de envolvência em práticas homossexuais, eram de 10 anos.

    Após vários anos de luta nas ruas e nos tribunais, a decisão de descriminalizar as relações homossexuais na India foi sem dúvida uma grandiosa vitória, mas temos um longo caminho pela frente até a lei formal criar uma real mudança na mentalidade conservadora que ainda perdura no país.

    Na opinião popular, cerca de 50% ainda acha correto atuar criminalmente sobre um cidadão que se identifique como homossexual e essa percentagem é ultrapassada quando a questão é referente a cidadãos transexuais. Um numero preocupante, tendo em conta que a Índia é um país com mais de 1,2 bilhão de habitantes, agregando cerca de 18% da população LGBTI do mundo.

    O caminho para todos/as serem livres e terem os mesmos direitos foi aprofundado no dia de hoje com a abolição da Secção 377 e o efeito positivo que essa decisão teve no país e no mundo deverá ter uma continuidade nas ruas no sentido de criar espaço e dar visibilidade à comunidade LGBT.

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    LGBTIs no mundo: A Índia e a descriminalização da homossexualidade

     

  • Alemanha: acirra-se o enfrentamento entre forças neofascistas e anti-fascistas

    Desde o último domingo (26), na cidade de Chemnitz, quando dois refugiados sírios e iraquianos foram acusados de assassinar um homem no centro do município, se iniciou uma onda de protestos anti-imigração organizada pela frente “Pró-Chemnitz”, composta por grupos de extrema direita como o Pegida (Europeus Patriotas Contra a Islamização do Ocidente) e o neonazista NPD (Partido Nacional Democrático).

    O estopim para as manifestações foi quando o líder do Pegida, Lutz Bachmann, publicou na internet documentos vazados da polícia que mostravam que um dos refugiados suspeitos tinha uma ordem de prisão não cumprida. O resultado foi que na segunda-feira (27), um dia depois do assassinato, 6 mil pessoas participaram da manifestação convocada pela “Pró-Chemnitz”, em contraste com as 1.500 da frente antifascista “Chemnitz sem Nazismo”.

    A região de Chemnitz, junto com Dresden e Leipzig, compõe o estado da Saxônia, na parte leste da Alemanha, que hoje é o principal bastião da extrema direita do país. Foi justamente em Dresden, no ano de 2014, que surgiu o movimento Pegida, responsável por organizar na cidade os primeiros protestos de massas na Alemanha contra a entrada de refugiados.

    O estado da Saxônia, também, foi o que mais votou na AfD nas eleições federais de 2017. Lá, a AfD fez 27%, único estado em que o partido ficou em primeiro lugar. Nacionalmente o partido fez 13.5%, equivalente à 94 cadeiras parlamentares de um total de 709, estreando sua presença no parlamento como maior partido de oposição. De forma geral, os estados onde a AfD mais cresce são na antiga parte oriental do país, que ainda está longe de ter um nível de vida como no oeste e onde o desemprego e os baixos salários são um grave problema (onde estão os chamados “deixados pra trás na globalização”)[1].

    Portanto, a extrema-direita tem muita influência nesta região, que a possibilitou agilidade em organizar manifestações logo após a acusação do assassinato. Apesar de o Pegida suavizar o envolvimento de neonazistas nestes atos, diversos vídeos que circularam na internet mostravam diversas bandeiras do NPD e pessoas fazendo a saudação nazista. Contudo, o mais chocante foi a forte presença de grupos de assalto que assediavam e agrediam pessoas com “feições estrangeiras”, e que contaram com a leniência da polícia para contê-los.

    É evidente neste caso, como mostra o jornal The Intercept, a infiltração do Pegida em setores da polícia na Saxônia. Além da tolerância para com a violência dos manifestantes nos últimos dias, há duas semanas um policial que é membro do Pegida expulsou um jornalista da ZDF de uma manifestação em Chemnitz. Inclusive, especula-se que Bachmann conseguiu os documentos vazados por meio de um infiltrado da organização na polícia.

    Contra-atos

    Nessa situação de ataque, grupos de esquerda e antifascistas promoveram contra-atos de bloqueio às manifestações da extrema direita, gerando uma série de confrontos entre si e com a polícia. Também em outras cidades da Alemanha ocorreram protestos, como foi o ato de 10 mil em Berlim na sexta-feira (31).

    O ápice, contudo, se deu no sábado (1), quando a própria AfD organizou com o Pegida um ato em Chemnitz. Devido às imagens de neonazistas nas manifestações durante a semana, os organizadores pediram para as pessoas usarem apenas bandeiras oficiais da Alemanha, como forma de “suavizar” as repercussões negativas. Com isso, a extrema direita acabou juntando cerca de 8 mil pessoas na cidade, em contraste com os 3 mil manifestantes contrários.

    Ao final dos protestos, ocorreram combates entre a extrema direita e os grupos antifascistas, deixando 18 pessoas feridas. Ainda, o parlamentar social democrata Sören Bartol afirmou no twitter que seu carro foi alvo de uma emboscada feita por neonazistas no sábado. A polícia também afirmou que um homem afegão de 20 anos foi agredido por cerca de 4 “encapuzados” durante as manifestações. O serviço de inteligência alemão afirmou que irá começar a monitorar a “Juventude da AfD”, que vem se radicalizando cada vez mais, ganhando espaço no partido e é suspeita de organizar os atos de violência no sábado.

    Em resposta, nesta segunda-feira (4), 65 mil pessoas participaram em Chemnitz do festival de música chamado “Nós Somos Mais” (Wir Sind Mehr), ironizando a palavra de ordem da extrema direita “Nós Somos o Povo” (Wir Sind Das Volk). O festival foi organizado por artistas e diversos partidos políticos diferentes, contando com a participação de bandas famosas como Die Toten Hosen, Marteria e Kraftclub.

    Isso mostra que o crescimento da nova extrema-direita, a AfD no caso alemão, vem acompanhada também de um crescimento de células neonazistas tradicionais, baseadas no racismo escancarado e prática de atos de violência contra imigrantes, refugiados e militantes de esquerda. É necessário que na Alemanha, bem como em todo país que esse fenômeno se desenvolve, faz-se necessário que se constitua com a máxima urgência frentes únicas de combate ao inimigo comum. Quiçá um encontro das forças anti-fascistas na Europa já se faça necessário.

    NOTAS
    [1] “Alemães vão às urnas e Merkel tenta reeleição”: https://esquerdaonline.com.br/2017/09/21/alemaes-vao-as-urnas-e-merkel-tenta-reeleicao/

  • Trump acossado: Risco de impeachment?

    Uma pesquisa realizada pelo jornal “Washington Post” e pela emissora ABC News, publicada no dia 31 de julho, revelou que apenas 36% dos norte-americanos aprovam Trump como presidente, enquanto 60% desaprovam sua gestão. Sua popularidade não é a mesma entre republicanos e democratas: 78% dos republicanos aprovam sua administração, enquanto 93% dos democratas e 59% dos independentes a desaprovam.

    Em uma pesquisa anterior, realizada em abril, Trump contava com o apoio de 40% e sua desaprovação chegava a 56%. Com a nova pesquisa, Trump torna-se um dos presidentes mais impopulares da história dos EUA. E é a mais baixa popularidade desde a sua posse, em janeiro de 2017.

    A pesquisa ainda indica que a maioria acredita que o republicano tentou interferir na Justiça, com 63% a favor da investigação do procurador Robert Mueller sobre interferência russa. Ainda, 49% dos entrevistados disseram que o Congresso deveria iniciar o processo de impeachment e 46% se mostraram contrários a tal procedimento. Já sobre como Trump lida com a economia, 45% se manifestaram favoráveis e 47% desaprovam a condução econômica de seu governo.

    A pesquisa foi divulgada uma semana após um tribunal do estado da Virgínia condenar seu ex-chefe da campanha, Paul Manafort, por oito das dezoito acusações de fraude bancária e fiscal. Manafort foi condenado em cinco acusações de apresentação de declarações fiscais falsas, uma acusação por não declarar contas no exterior e por duas acusações relacionadas a fraudes bancárias.

    As acusações são resultado da investigação conduzida pelo procurador especial Robert Mueller sobre a ingerência da Rússia na eleição presidencial de 2016.

    Manafort passou mais de uma década como consultor político na Ucrânia. Ele deixou a campanha de Trump em agosto de 2016, depois de ser acusado de ter ligações com grupos pró-Rússia. Ele teria participado de uma reunião, em junho de 2016, com cidadãos russos que tentavam fornecer à equipe de Trump informações secretas sobre Hillary Clinton. O organizador da reunião teria sido o filho mais velho de Trump, Donald Trump Jr., segundo e-mails divulgados ainda em 2017.

    A condenação reacendeu especulações a respeito de um processo de impeachment de Trump, agravadas pela declaração de seu ex-advogado: Michael Cohen se declarou culpado a um tribunal de Nova York em oito acusações de fraudes fiscais, violação de financiamento de campanha e falsas declarações a uma instituição financeira, afirmando ainda ter subornado mulheres que disseram ter tido casos com o presidente. Os pagamentos para que elas não divulgassem os casos à imprensa durante a campanha eleitoral, segundo Cohen, ocorreram não apenas com ciência de Trump, mas sob suas ordens. As declarações ocorreram na terça-feira dia 21/07, o mesmo dia da condenação de Manafort, acentuando o desgaste da figura de Trump.

    Cohen trabalhou nas empresas de Donald Trump por mais de dez anos e permaneceu como advogado pessoal do presidente após as eleições. Deixou tal condição apenas em maio deste ano.

    O risco de impeachment
    Para que seja instaurado o processo de impeachment, as acusações contra Trump deveriam ser levadas para o Congresso, que hoje tem maioria republicana, o que pode mudar nas eleições legislativas de novembro. O Congresso pode iniciar o processo por maioria simples, mas este seguiria ao senado, onde seria necessário 2/3 dos votos, ou seja, 67 senadores precisariam votar favoráveis à abertura de processo político contra Trump. Um marco nunca foi alcançado na história dos EUA.

    Apenas dois presidentes foram alvo de processo de impeachment nos EUA. Nenhum foi condenado. Bill Clinton (o 42º presidente americano) foi acusado pelos crimes de perjúrio e obstrução à justiça, após mentir sobre a natureza de seu caso com a ex-estagiária da Casa Branca Monica Lewinsky. O primeiro foi Andrew Johnson, 17º presidente americano, que assumiu o cargo em 1865 e ficou no poder por quatro anos. A Câmara de Representantes aprovou a abertura de processo contra ele em 1868, após ele ter afastado Edwin Stanton, então secretário de guerra, que não concordava com suas políticas. Foi absolvido por apenas um voto de diferença.

    O senado também é constituído de maioria republicana. E pela Constituição americana, um presidente só pode ser impedido durante um mandato caso comprovado crime de traição ou suborno ou ainda outros crimes graves e contravenções, como obstrução de justiça, outra acusação que pesa sobre Trump.

    Trump inicialmente negou, mas admitiu que Cohen chegou a um acordo de confidencialidade com a atriz pornô Stormy Daniels em seu nome. Afirma ainda que reembolsou a Cohen o valor de US$ 130 mil (R$ 520 mil reais). Cohen teria pago esse valor a Stormy Daniels dias antes da eleição de Trump, para que ela não se pronunciasse publicamente sobre o caso. Trump afirma que não cometeu crime, uma vez que o dinheiro não procedia de sua campanha eleitoral, mas era seu próprio dinheiro e reforçou que as acusações da atriz eram “falsas e extorsivas”, em um esforço de se apresentar como vítima na situação.

    Há um outro episódio de suborno para que mulheres não se pronunciem sobre casos extra conjugais com Trump: Cohen, o advogado de Trump, divulgou um áudio em que discute com Trump o pagamento à Karen MacDougal.

    Por se tratar de um pagamento secreto por parte de candidato, com intenção de influenciar o resultado eleitoral, segundo alegação de Cohen, pode ser considerado como violação das leis eleitorais dos EUA e envolver Trump em um crime eleitoral.

    Michael Cohen foi liberado após pagar uma fiança de US$ 500 mil e terá uma nova audiência no dia 12 de dezembro, na qual será conhecida sua sentença.

    O advogado de Trump, Rudy Giuliani, declarou a jornalistas que “não há nenhuma alegação de cometimento de crimes da parte do presidente, e nas acusações dirigidas pelos procuradores contra Cohen (…) Está claro que, como dito pelos procuradores, as ações de Cohen refletem um padrão de mentiras e desonestidade, durante muito tempo”.

    Sobre Paul Manafort, Trump disse que seu ex-assessor é um “homem bom” que está sendo vítima de uma “caça às bruxas”. Segundo o ex-assessor de Trump, Michael Caputo: “O veredicto no julgamento de Manafort não é tão preocupante quanto as declarações de Cohen”, que “É provavelmente a pior coisa até agora em toda esta fase de investigação da presidência.”

    Os mercados
    Em uma entrevista a rede de televisão Fox News no dia 23/07, Trump afirmou que “(…) se eu sofrer um impeachment, acho que o mercado ruiria. Acho que todos ficariam muito pobres”. Ele se refere ao fato de que o S&P 500 – abreviação de Standard & Poor’s 500, trata-se de um índice composto por quinhentos ativos (ações) cotados nas bolsas de NYSE ou NASDAQ – atingiu seu máximo histórico e registrou 3.453 dias em tendência de alta. A maior fase ascendente de todos os tempos. Trump atribui a si esse mérito, ainda que a maior parte da alta tenha ocorrido sob a presidência de Barack Obama.

    O site InfoMoney, entretanto, não acredita em um impacto negativo como o que Trump vaticina. E o chefe de estratégias de investimento da CFRA, Sam Stovall, prevê que as ações podem cair entre 5% e 10% ou até mesmo 20%, mas “não acreditamos que isso leve a uma recessão”.

    Caso ocorra o impeachment, Trump seria substituído por seu vice-presidente, Mike Pence, que deve apoiar políticas tributárias e regulatórias frouxas e mais favoráveis ao mercado, mas manter as guerras comerciais de Trump, que preocupam Wall Street.

    A situação permanece aberta, mas impactou negativamente e desgastou Trump junto à opinião pública. O que pode refletir nos resultados eleitorais de novembro favoravelmente aos democratas.

  • A globalização dos incêndios

    Dois anos e meio após a “Cúpula Mundial sobre Mudança Climática”

    As catástrofes ecológicas se agravam e se multiplicam

    Não vamos culpar a Deus nem ao Diabo. Nem nos preocupemos em orar e/ou fazer feitiços para ganhar o favor de ambos os personagens. Os responsáveis são homens. Ou, mais precisamente, os homens que enchem seus bolsos envenenando a atmosfera, como os gratos acionistas das mineradoras de carvão dos Estados Unidos, a quem Trump deu rédea solta. Ou os empresários que estão destruindo os mares e oceanos jogando fora seu lixo industrial, pelo qual apenas 13% do total da água oceânica no mundo permanece em estado virgem. (revista Current Biology, UK, 26/jul/2018).
    Mas o mais espetacular das últimas semanas tem sido os casos de superaquecimento, que também causaram incêndios com inúmeras vítimas fatais em vários países do hemisfério norte, onde hoje é verão. Como veremos, isso é derivado, por um lado, da continuidade do crescimento das temperaturas. Além disso, por outro lado, da exploração catastrófica de terras e florestas, que o capitalismo – baseado em lucros máximos – executa sem controle. Esta é uma combinação incendiária, no sentido literal da palavra.

    A conclusão é que o capitalismo e seus governos – de um Trump que nega a mudança climática, a ecologistas “pour la gallerie” da União Européia – não fazem nada coordenadamente para lidar com esse perigo que ameaça a existência mesma da humanidade.

    Explodem os termômetros

    De fato, este verão boreal seria um dos mais insuportáveis. Se tem batido recordes de temperatura, global e localmente. No geral, estima-se que julho passado foi o mais quente no hemisfério norte nos últimos 260 anos (BBC News, 25/07/2018).

    Mas isso é apenas uma média. Não expressa em toda sua magnitude os picos atingidos pelo aquecimento. As Ilhas Britânicas, por exemplo, atingiram níveis de temperatura sem precedentes em 400 anos (BBC, cit.)

    Um recorde surpreendente também foi alcançado pela Sibéria polar, que em alguns dias de julho atingiu 37 graus de temperatura.

    Longe dali, embora também no continente eurasiano, se quebravam outros recordes. A capital da Geórgia, Tbilisi, atingiu o máximo histórico de 40,5ºC em 4 de julho.

    No continente americano, o Canadá não ficou atrás: “Na capital do país, Ottawa, na província de Ontário, com o método combinado de medição de umidade e temperatura (sensação térmica) foi atingido 47°C em 2 de julho.” (BBC News, 14/07/2018)

    Mais ao sul, na Califórnia, a cidade de Chino, perto de Los Angeles, registrou sua maior temperatura na história: 48,9ºC. Na Universidade da Califórnia, a temperatura chegou a 43,9ºC. É a maior registrada em 79 anos.

    E assim os números recordes continuam, enquanto vamos andando ao redor do globo. Na África, a maior temperatura do continente ocorreu em Ouargla, norte da Argélia, em 5 de julho. Os 51,3°C foram atingidos. Este também é um registro histórico.

    Comentando esse recorde, Matt McGrath, especialista em Meio Ambiente da BBC, enfatiza que isso não é uma peculiaridade da região: “A explicação, no caso da África, é parte do que vem acontecendo em várias partes do mundo”, diz . “A Argélia tem visto um aumento nas temperaturas nos últimos 30 anos, especialmente devido ao efeito de ondas de calor que dobraram em intensidade e duração desde 1988”.

    “Na verdade, os pesquisadores acreditam que a Argélia é um dos lugares mais afetados pela mudança climática. Um estudo de 2014 do Banco Mundial sugeriu que as temperaturas mais altas no norte da África ocorreriam na Argélia “, acrescentou. “Se o planeta não conseguir reduzir suas emissões de CO2, a Argélia poderá ver suas marcas de termômetros aumentarem até 8ºC até o final deste século”, alertou.

    Mas esses casos que comentamos não são exceções. Da mesma forma no Reino Unido, Noruega, Suécia, Austrália, Japão e ao redor do Mar Cáspio, novos registros de temperaturas e/ou sensação térmica foram quebrados.

    Também ardem os bosques

    O que é comum entre a Grécia, a Califórnia, o Canadá e outros países e regiões castigados com temperaturas recordes? Que se tiverem a sorte (ou o infortúnio) de ter grandes e belos bosques, neles incêndios catastróficos explodem espontaneamente e, além disso, difíceis de extinguir.

    Nesta temporada, em muitos países e regiões, da Califórnia à Grécia, esses incêndios têm acontecido com muitas vítimas.

    Incêndios florestais iniciados espontaneamente por altas temperaturas, são muito mais difíceis de controlar e extinguir do que aqueles originados, por exemplo, em algum descuido humano. É que, nos primeiros os focos de fogo tendem a se reproduzir e se espalhar de forma imprevisível.

    Isso pode ser perigosíssimo em áreas habitadas, como o foi especialmente na Grécia. Os habitantes da área e os próprios bombeiros podem encontrar-se inesperadamente cercados, sem possibilidade de fuga e sobrevivência. É por isso que neste verão, na Grécia, na Califórnia e em outras regiões, o número de vítimas aumentou dramaticamente.

    Por que esse perigo (e suas vítimas) vão se multiplicando?

    Esta é outra consequência da fome insaciável do capitalismo por lucros. Paradoxalmente, o desmatamento das florestas não diminui o perigo de incêndios florestais devastadores, pelo contrário, aumenta-o.

    É que o desflorestamento, o desmatamento indiscriminado e desmedido de bosques, colocam simultaneamente em perigo os setores que não foram cortados.

    Como um estudo recente aponta, “o desmatamento das florestas interrompe o padrão regional de chuvas. Quando as árvores da floresta são cortadas, além de liberar carbono na atmosfera, menos vapor de água sai … As florestas usam a água para se refrescar e ao redor, liberando umidade na atmosfera que depois de alguns dias cai sob a forma de chuva a uma distância próxima ou distante, dependendo da velocidade do vento. […] Em particular, é a evaporação da água e a transpiração das plantas na superfície terrestre, que contribui em média para 63% das chuvas na terra … “(EFE, Roma, 20/07/2018).

    As altas temperaturas então impactam na terra e nas florestas parcialmente cortadas e, portanto, muito mais secas. Isso é especialmente pior em áreas habitadas. É uma combinação mortal que leva a tragédias como a da Grécia.

    Há dois anos e meio dos “Acordos de Paris”… sem qualquer melhoria

    Há dois anos e meio, em dezembro de 2015, a COP21 fse realizou em Paris, a última “Cúpula sobre Mudanças Climáticas”, patrocinada pela ONU.

    Em torno dessa cúpula foi criado um espectacular “teatro”. Se fez crer a grande parte do planeta que finalmente iriam tomar medidas para evitar um Apocalipse ecológico, que ameaça a própria existência da humanidade. De nossa parte, cumprimos o dever de dizer a verdade sobre aquela reunião muito divulgada, mesmo que fossemos considerados chatos e estraga festas permanentes.

    Relembremos a definição que fizemos do documento acordado nessa Cúpula, denominado “Convenção-Marco sobre Mudança do Clima”: “Uma farsa diplomática que pode ter conseqüências trágicas para a humanidade a longo prazo”. E explicamos nossa denúncia e rejeição:

    “No último final de semana, a COP21, a última Cúpula da Mudança Climática, terminou em Paris. Infelizmente, a ameaça que as mudanças climáticas causadas pela poluição implicam para a sobrevivência da humanidade, não teve uma resposta séria, a ltura deste difícil desafio.

    “A Cúpula do Clima anterior, realizada em Copenhague em 2009, teve um fim vergonhoso, uma desarticulação das delegações, sem chegar a acordos para enfrentar esse perigo cada vez mais evidente …

    “Agora, seis anos depois, os governos, em primeiro lugar os EUA, a China e a União Européia, não podiam repetir um resultado semelhante, nem tampouco repetirem os desentendimentos. Teriam sido incinerados à vista de todos!

    “Mas o principal trabalho desses personagens é colocar a máscara mais conveniente de acordo com as circunstâncias. Então, todos eles, da noite para o dia, se tornaram “ambientalistas”. E a Cúpula COP21 terminou em um show de mídia, que não deixava nada a invejar na entrega do Oscar.

    “Como um comentarista disse mais tarde: «Antes de tudo que pareça que os governos fazem algo para lutar contra a mudança climática. Porque a primeira coisa é preservar as boas intenções dos governantes, alimentar a ideia de que são pessoas preocupadas com o meio ambiente e com o bem-estar das pessoas. Então, temos as fotos ridículas nas capas, com os líderes de mãos dadas e levantando os braços. E manchetes eufóricas sobre um acordo que não deve ser chamado de histórico, mas histriônico, porque se algo deu um salto qualitativo aqui foi a teatralidade dos governos».

    “Efectivamente, a diferencia de Copenhague, aquí se salió con un papel firmado, la «Convención-Marco sobre el Cambio Climático». Después de trabajosas deliberaciones, firmaron el 12 de diciembre 32 páginas donde se detallan medidas para la «mitigación» de las «emisiones anuales mundiales de gases de efecto invernadero»… para «poder mantener el aumento de la temperatura media mundial por debajo de 2ºC con respecto a los niveles preindustriales, y de seguir esforzándose por limitar el aumento de la temperatura a 1,5ºC», etc., etc….

    “De fato, ao contrário de Copenhague, aqui saiu um documento assinado, a “Convenção-Marco sobre Mudança do Clima”. Após cuidadosas deliberações, no dia 12 de dezembro eles assinaram 32 páginas detalhando medidas para a “mitigação” das «emissões anuais globais de gases de efeito estufa»… para «poder manter o aumento da temperatura média global abaixo de 2ºC com em relação aos níveis pré-industriais, e continuar lutando para limitar o aumento da temperatura a 1,5ºC», etc., etc …

    “Nada a festejar…

    “No entanto, se você ler atentamente as 32 páginas dessa” Convenção-Marco “- redigidas em linguagem diplomática ambígua, onde se pode ler “branco” mas também “negro” – a conclusão é que não há muito o que comemorar …

    “Vamos começar com a dissecação da enviasada citação acima. O que o mundo está se jogando? O que nós pretendemos? A limitar o aumento da temperatura média mundial a 1.5ºC ou 2ºC?

    “Isso pode parecer uma discussão ociosa, mas não é. Especialistas da área concordam que um aumento de 2ºC na temperatura média mundial já poderia implicar em mudanças catastróficas, entre elas o já mencionado derretimento do gelo.

    “O fato é que a Cúpula das Mudanças Climáticas em Paris não estabeleceu uma meta categórica e obrigatória, mas sim «continuar a se esforçar para limitar o aumento da temperatura média global a 1,5ºC». Em outras palavras, uma expressão de desejos … Algo assim como: «Tomara eu queime a gordura do Natal!».

    “Mas, nem os 2°C são o “teto” do aquecimento global estabelecido imperiosamente em relação à era pré-industrial. Como não há medidas drásticas – isto é, medidas revolucionárias e não “evolutivas” -, isso pode ir além. A história de não conformidade e/ou a não aceitação de acordos anteriores, como o Protocolo de Kyoto de 1997, nos torna razoavelmente pessimistas nesse sentido.

    É que a medida fundamental (embora não a única) para enfrentar o aumento da temperatura média global é reduzir drasticamente as emissões dos gases de efeito estufa que causam o aquecimento global: dióxido de carbono, metano, óxido nitroso e gases industriais fluorados.

    “Pero esto exigiría una transformación revolucionaria de la producción industrial y del transporte –en primer lugar en los dos grandes envenenadores del mundo, Estados Unidos y China–, que además golpearía directamente los intereses de las petroleras y otros sectores mineros e industriales.”

    “Mas isso exigiria uma transformação revolucionária da produção industrial e do transporte – em primeiro lugar pelos dois maiores envenenadores do mundo, os Estados Unidos e a China – o que ademais atingiria diretamente os interesses das empresas petrolíferas e de outros setores industriais e de mineração”.

    E finalizávamos dizendo:

    “O capitalismo não pode ir além da luta mais feroz por lucros. Após esse objetivo, erigiu estados imperialistas que desencadearam guerras mundiais que custaram dezenas de milhões de vítimas. Para isso, ele escravizou (e continua a escravizar) outros povos. Mas agora, quando a humanidade enfrenta uma ameaça sem precedentes, não é capaz de mover um dedo.

    “Portanto, enfrentar esse perigo consequentemente, implica necessariamente a luta por uma nova sociedade. Acabar com o capitalismo, impor revolucionarioamente uma sociedade socialista, é a única garantia de que a humanidade poderá se unir para enfrentar essa ameaça mortal”.

    Infelizmente, os fatos nos deram razão: não há um esforço mundial sério para lidar com essa questão que acabará sendo de vida ou morte.

    Trump agrava ainda mais o cenário

    Para concluir, vamos enfatizar que Trump fez o cenário piorar muito mais. À frente do imperialismo ianque está um negador da mudança climática. Estreitamente relacionado à indústria mais poluidora, a do carvão, Trump deixou de lado a máscara hipócrita do “progressista” Obama.

    Trump defende a “liberdade de empreender” … para envenenar o mundo e levar a humanidade a uma catástrofe ecológica. Tudo por causa dos bolsos sagrados de seus parceiros e amigos.

    Portanto, mais do que nunca, a luta para salvar a humanidade deste perigo mortal é inseparável da luta por um novo sistema social: acabar com o capitalismo e impor uma ordem socialista.

    *Originalmente publicado em https://socialismooubarbarie.org