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  • Conservadores e Social Democratas prestes a formar novo governo na Alemanha

    Por Victor Wolfgang Kegel Amal, de Berlin/Alemanha


    Após quase 6 meses de impasse político na Alemanha, os dois principais partidos do país, a Democracia Cristã (CDU) e a Social Democracia (SPD), lançaram no dia 6 de fevereiro um acordo para formar nova “grande coalizão” (Groko). Porém, o acordo ainda precisa ser ratificado em votação pelos 460 mil membros do SPD, que está divido sobre a repetição de uma coalizão com os conservadores.

    Eleições 2017    e o fracasso da coalizão Jamaica      
    Desde as eleições parlamentares de setembro de 2017 a Alemanha encontra-se sem governo. Já são quase 6 meses de impasse, o mais longo desde o fim da Segunda Guerra Mundial (1945).

    No ano passado, a CDU e a sua seção bávara, a CSU, obtiveram seu pior resultado na história do pós-Guerra: 33% dos votos, 8,5% à menos que em 2013. Isto ocorreu também com o SPD, em escala ainda pior, chegando a meros 20,5%, uma queda de 5,2% em relação à eleição passada, demonstrando mais uma vez a crise dos partidos tradicionais do país.

    Boa parte dos votos perdidos pelos partidos do establishment alemão foram para a Alternativa para a Alemanha (AfD), novo partido de extrema-direita que estreia neste ano no Bundestag (parlamento) com 12,6% dos votos, tornando-se a terceira força política nacional e assim o principal partido de oposição.

    Nesse contexto de derrota avassaladora da Social Democracia, seu presidente, Martin Schulz, anunciou logo após as eleições que não negociaria uma nova grande coalizão com Merkel. A CDU e o SPD formaram as chamadas “grandes coalizões” entre 2005 e 2009 e 2013 e 2017, fato considerado chave para a derrota do partido nas eleições passadas.

    Isto fez com que Merkel fosse obrigada a negociar uma coalizão inédita com o Partido Liberal Democrata (FDP) e o Partido Verde, que obtiveram respectivamente 10,7% e 8,9% dos votos. A Die Linke, partido de esquerda radical, obteve 9,2% e tanto eles próprios quanto a CDU sequer cogitaram abrir negociações.

    Contudo, em dezembro do ano passado, a chamada coalizão Jamaica (pelas cores preta da CDU, amarela da FDP e verde dos Verdes) fracassou devido à saída unilateral do FDP das negociações. Os liberais participaram entre 2009 e 2013 de uma coalizão com Merkel e, nas eleições de 2013, não chegaram a 5% dos votos e ficaram de fora do parlamento (5% é a cláusula de barreira para um partido obter representação parlamentar na Alemanha). Para o FDP, isso se deveu à capitulação do partido em vários pontos de seu programa para os conservadores, fato que os fez serem mais duros nas negociações deste ano e aproveitar confortavelmente seu lugar na oposição durante os próximos 4 anos.

    Negociações para a Groko e a crise no SPD        

    Após o colapso da coalizão Jamaica, em dezembro, Merkel tinha três opções: 1) um governo de minoria da CDU, que significaria na prática o não governo (hipótese majoritariamente descartada); 2) novas eleições; 3) nova Groko com o SPD. Neste ponto, as pesquisas de intenção de voto apontavam que, caso ocorressem novas eleições, a CDU cairia para 30% dos votos e o SPD para 17%, enquanto a AfD chegaria aos 15%. Portanto, este segundo cenário também não era o desejável para ambos os partidos.

    Dada a paralisia política que envolveu o país em dezembro, houve grande pressão do empresariado alemão e da União Europeia para que Martin Schulz revisse sua posição contrária à negociação de uma nova grande coalizão. Dito e feito, as negociações iniciaram-se no início de janeiro e, ao final do mês, a CDU e a CSU comunicaram um pré-acordo com o SPD. Posteriormente, o pré-acordo foi levado à votação em congresso extraordinário da Social Democracia e, em um placar muito apertado, o voto favorável à grande coalizão venceu por 362 delegados a 280, muito menos do que esperava a direção majoritária do partido.

    Isto se deveu, principalmente, à oposição ferrenha dos Jusos (Jovens Socialistas). Segundo eles, uma nova grande coalizão faria com que a extrema direita (AfD) ocupasse o posto de principal partido da oposição, gerando assim, seu crescimento inevitável nas eleições seguintes. Afinal, foi a coalizão com os conservadores que fez o partido afundar em sua pior votação desde a Segunda Guerra.

    Outro ponto levantado pelos Jusos, e que obteve repercussão em setores tradicionais do partido, é que o acordo não contemplava as principais pautas do SPD para as eleições: 1) integração da UE via Orçamento Comum Europeu, rumo aos Estados Unidos da Europa em 2025; 2) investimento em pensões, plano de saúde, educação e infraestrutura; 3) revisão parcial da reforma trabalhista neoliberal (Agenda 2010) feita pelo próprio SPD nos anos 2000 durante o governo Schroeder; 4) aumento da cota de recebimento de refugiados e direito dos residentes trazer suas famílias para a Alemanha. No pré-acordo, Schulz capitulou gravemente nos 4 pontos, e a pequena margem de vitória no congresso refletiu isso.

    Contudo, nas negociações seguintes, Schulz utilizou o argumento de que se os conservadores não recuassem em diversos pontos do pré-acordo, ele próprio não conseguiria convencer seu partido a votar pela Groko, pois o acordo final ainda deverá ser ratificado pelo partido. Contudo, a votação não será feita através de representação por delegados, como a anterior, mas diretamente pelos 460 mil membros, fato que torna a situação ainda mais sensível.

    O acordo final   

     

    Temendo a humilhação política de fracassar na segunda tentativa de montar uma coalizão, Merkel decidiu capitular em diversos pontos chave de seu programa para a Social Democracia, gerando grande surpresa no mundo político alemão ao lançar a plataforma de governo no dia 6 de fevereiro.
    A capitulação de Merkel se manifestou, em primeiro lugar, na composição dos ministérios. Enquanto a CDU permanece com a chancelaria e 5 ministérios, a Social Democracia obterá as pastas de 6 ministérios, incluindo 3 dos mais estratégicos: Finanças, Relações Exteriores e Trabalho. O principal ministério da CSU será o de Interior, o que lhe permitirá uma fiscalização mais rígida dos refugiados, sua principal pauta nas negociações.

    Sobre a pauta social democrata do combate à desigualdade, foi acordado que o superávit de 46 bilhões de euros do país será diretamente investido em programas sociais, assim como 2 bilhões serão utilizados para a construção de 1,5 milhão de novas moradias populares. As aposentadorias irão subir para 48% da contribuição, além de aumento para as mulheres e a regularização para pessoas com contratos terceirizados ou de meio período. Além disso, o imposto da solidariedade, criado após a reunificação em 1991 para reconstruir a Alemanha Oriental, será abolido apenas para pessoas de baixa renda.

    Em relação à União Europeia, foi decidido que o governo será favorável à transformação do Mecanismo de Estabilidade Europeu, orçamento para auxiliar o pagamento de países endividados, em Orçamento Comum Europeu. Ou seja, o ônus e o bônus do planejamento fiscal dos países integrantes do orçamento será compartilhado, incluindo a nomeação de um Ministro da Fazenda Europeu. Esta foi uma das grandes surpresas da negociação, pois a maior parte dos conservadores é radicalmente contrária à integração fiscal, por julgar que terão de “pagar a conta” de países atingidos pela crise da dívida, como a Grécia. Outros países da EU como Áustria e Holanda, governados por partidos de direita conservadora, já se manifestaram também contrários à inciativa social democrata.

    O ponto em que a CDU e a CSU se mostraram mais relutantes em recuar foi em relação ao endurecimento da política para os refugiados. Isto se deveu ao fato de que o partido irmão bávaro da Democracia Cristã, a CSU, tinha basicamente como pauta única a restrição da vinda de refugiados ao país para o máximo de 180 a 220 mil por ano; limite de repatriação de familiares para 1000 por mês; e reconhecimento do Marrocos, da Argélia e da Tunísia como destinos “seguros” para deportação de refugiados ilegais (dando continuidade ao projeto de disseminar verdadeiros campos de concentração para refugiados no Magreb). O SPD, depois de tantas vitórias, pouco se importou com a questão dos refugiados e consentiu calado.

    Crise nos partidos tradicionais  

     

    Apesar de as negociações terem se encaminhado e, inclusive, de forma favorável à Social Democracia, não é evidente e nem seguro que seus 460 mil membros irão votar favoráveis à nova grande coalizão no final deste mês. De um lado, Sigmar Gabriel, um dos principais chefes do partido, declarou publicamente descontentamento com Martin Schulz por ter anunciado que ele próprio irá liderar o Ministério de Relações Exteriores ao invés de conceder novo mandato a Gabriel (que esteve à frente da pasta entre 2013-2017). Este fato gerou enorme crise no SPD por Schulz ter anunciado que não formaria parte do governo, fato que o levou a abandonar a decisão de liderar o ministério depois da chuva de críticas.

    Por outro lado, os Jusos estão em plena campanha na base social democrata para que seus membros votem contra a nova grande coalizão. Inclusive, adotaram uma estratégia parecida com a esquerda inglesa que chamou a população a se filiar ao Partido Trabalhista para votar em Jeremy Corbyn e derrotar o setor direitista na disputa pela presidência do partido. Agora, os Jusos estão chamando a população em geral, insatisfeita com a perspectiva de uma nova grande coalizão, para que se filiem ao SPD e votem contra o acordo. Estima-se que entre 20 e 30 mil pessoas já se filiaram desde o começo da campanha dos Jusos. O resultado final da votação, que ocorrerá nas próximas semanas, será divulgado no dia 4 de março.

    E a crise não se restringiu ao SPD. Merkel, que é alvo de contestações pelo setor conservador do partido desde a sua política de abertura das fronteiras para os refugiados em 2015, encontra-se agora ainda mais isolada. De acordo com seus críticos, o jovem Jens Spahn e o “carrasco da Grécia” Wolfgang Schaueble, a CDU tomou um caminho liberal e próximo à social democracia durante os governos Merkel, cuja consequência disso foi o fortalecimento da AfD.

    Portanto, dada a crise de ambos os partidos, é crível que em breve haja uma radicalização tanto da CDU, via seus representantes conservadores, quanto do SPD, via Jusos. Este fato é central para a política europeia pois a Alemanha portava a figura de imune a “extremismos” e bastião da ordem liberal europeia. Contudo, é certo que, caso a nova Groko seja confirmada, a tendência é de acirramento e polarização ainda maior na sociedade alemã.

  • Fragmentação pós-moderna e a ascensão da extrema direita

    Raquel VarelaRaquel Varela*

    Mais do que o crédito do Banco Central Europeu (BCE), a imigração é o principal fator de diminuição do valor trabalho na criação de novo valor criado [1] na recente década, segundo o economista Michael Roberts. Olhemos um exemplo, o da quarta maior economia europeia. A população espanhola passou de menos de 40 milhões em 1999 para 47 milhões em 2010 [2]. a maior parte deste salto, um dos mais espetaculares no continente europeu, é resultado de migrações de Equador, Bolívia, Marrocos, etc. [3] Na Alemanha residem hoje 1,5 milhão de turcos com nacionalidade turca, que foram para o país em seis vagas de migrações desde 1961 [4]. Isso não inclui nem a imigração temporária – determinante depois de 2000 – nem as gerações já naturalizadas [5].

    A imigração é de fato uma das grandes fraturas que divide a sociedade europeia, e não só – o tema ocupou um do lugares-chave na eleição de Donald Trump para presidente dos EUA. A sociedade divide-se transversalmente quanto a este tema. Não é difícil encontrar um liberal que defende a imigração como “direito humano”. Nem um operário que esteja contra. Se a extrema-direita eleitoral questiona os migrantes, os partidos liberais são entusiastas da livre circulação – ainda que não da sua legalização. O tema atravessa, de forma não homogênea, as classes sociais.

    Argumentamos aqui que a razão é sobretudo de ordem política – a ausência de partidos fortes que representem interesses ligados às classes trabalhadoras deixou-as reféns de dois tipos de políticas nacionalistas. A complexidade de atitudes diante das migrações tem sido mediada sobretudo por duas visões, em suma: a racista/proibicionista (setor de extrema-direita) e a defesa da livre circulação de força de trabalho (partidos liberais e conservadores e social-democratas) e dos direitos humanos (partidos social-democratas). Não existe, a este respeito, uma política internacionalista com influência real nas sociedades europeias hoje.

    O real impacto das migrações na vida dos povos (de onde saem e qual o impacto nos países de onde vêm) e na dos países onde chegam tem sido ignorado. Fala-se do direito a ir. Nunca do direito a ficar. Isto é, do direito a dispor dos seus recursos, ser força de trabalho – e viver – no seu país.

    O direito histórico à autodeterminação dos povos disporem dos seus recursos e meios de sobrevivência – que celebra-se no fim da I Guerra Mundial [6] – é hoje marginal nos discursos das lideranças europeias. A razão fundamental é que a iniciativa da defesa das migrações parte das classes dirigentes europeias, para contrariar a elevação salarial, pela escassez previsível da força de trabalho.

    São, portanto, razões mais simples do que as propaladas divisões de pele, etnias, credos religiosos, que, existindo (e existem), têm sido ampliados pelos media e a indústria cultural, a reboque de políticas de regulação da flexibilização e/ou queda do preço da força de trabalho. Têm como força intelectual a esquerda pós moderna que sobrepõe a fragmentação identitária às classes [7], mesmo quando todos os trabalhos empíricos que têm como objeto estudos da competição salarial demonstram que os trabalhadores não são racistas com outros trabalhadores que não se apresentam como concorrentes diretos. Ou seja, um quadro intelectual de uma empresa pode vir de qualquer país estrangeiro para a Europa que por norma é bem recebido – o racismo surge se e quando há concorrência salarial, portanto perda do controle dos fatores de trabalho.

    Recordemos o trabalho de Dick Geary, que sustentou também que o machismo nas fábricas no século XIX estava intimamente ligado ao fato de as mulheres entrarem no mercado de trabalho ganhando menos [8], sendo portanto um concorrente direto e que a mesma hostilidade por parte dos operários era destinada a todos aqueles, mulheres, crianças, outros operários homens, que ganhassem menos. Isto quando não havia organizações sindicais internacionalistas – como o caso bem sucedido dos Wobblies nos EUA – que combatiam esta concorrência colocando em prática – e não só em palavras – formas de luta solidárias que levavam à elevação do salário para todos.

    Manifestação em Nova York, durante a greve de 1913, organizada pelo IWW (Industrial Workers of the World) , ou Wobbies

    A imigração está relacionada com um fator objetivo – o valor da massa salarial e a segurança no emprego. As políticas de “apelo à tolerância” mantendo a concorrência salarial, o dumping, conduzem os trabalhadores organizados à desmoralização ou ao apoio a partidos de extrema-direita, porque o fator objetivo mantém-se. Numa sociedade mercantilizada – em que a própria força de trabalho é ela mesmo uma mercadoria, em concorrência entre si -, os trabalhadores concorrem no setor, concorrem no mercado nacional, e concorrem no mercado internacional, para vender a sua força de trabalho. Ora, as políticas migratórias do lado dos Estados europeus têm respondido prioritariamente à gestão da força de trabalho e não em primeiro lugar – nem principalmente – a causas humanitárias ou de inspiração multicultural. Sem laços de solidariedade efetivos – como cotização para greve dos que ganham mais em favor dos que ganham menos, como fizeram em Portugal os estivadores, mantendo ambos a greve até fixar todos os salários no valor dos que ganham melhor – , o racismo terá base social onde progredir. Porque o sentido de justiça dos trabalhadores diz-lhes que a trabalho igual deve ser pago com salário igual. Não podemos deixar que a extrema-direita usufrua do beco sem saída oferecido pela “livre circulação”. Ao nacionalismo xenófobo deve contrapor-se a organização internacionalista, não a livre circulação liberal que na verdade de livre só tem a venda pelo preço mais baixo da força de trabalho, alternada com o desespero do desemprego.


    Raquel Varela é colunista do Esquerda Online, historiadora, investigadora e professora universitária. Especialista em história global do trabalho e história das revoluções.


    NOTAS
    [1] Michael Roberts, The Long Depression, Chicago, Haymarket Books, 2016, p. 147
    [2] Michael Roberts, The Long Depression, Chicago, Haymarket Books, 2016, p. 147
    [3] Michael Roberts, The Long Depression, Chicago, Haymarket Books, 2016, p. 147.
    [4] Referindo as migrações pós 1945, a Turquia tinha, enquanto Império Otomano já uma história de migrações para territórios germânicos.
    [5] Yasar Aidyn, The Germany-Torkey Migration Corridor, The Transatlantic Policy Migration, Migration Policy Institute, 2016, p. 4.
    [6] Robert O. Paxton, Europe in the Twenthith Century, Orlando, Harcourt Publisher, 1975, p. 171
    [7] Ellen Meiksins Wood, The Retreat of the Intellectuals, Socialist Register, 1990. Republicada em Jacobin (https://www.jacobinmag.com/2016/01/ellen-meiksins-wood-gramsci-socialism-capitalism-intellectuals-postmodernism-identity/ acesso em 2 de Fevereiro de 2018.
    [8] Dick Geary, European Labour. Politics From 1900 to the Depression, New Jersey, Atlantic Highlands, 1991.

     

     

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  • A estratégia do Syriza na Grécia

    Por Tiago Castelhano, `Portugal

    Artigo publicado originalmente no site do MAS de Portugal

    No passado dia 15 de janeiro, o Governo Syriza/Anel aprovou mais um conjunto de medidas de austeridade que lhe foram solicitadas pelas instituições europeias (UE/BCE) e o FMI. O Governo do Syriza/Anel como bom aluno que se tornou acedeu ao pedido.

    Uma das medidas aprovadas é a alteração à lei da greve que visa dificultar a convocação de greves. Isto porque as greves convocadas a nível local passam a requerer um quórum de 50% +1, em vez de um terço dos trabalhadores sindicalizados. Na verdade, trata-se de uma lei anti greve.Saliento esta medida de forma simbólica pelo passado do Syriza. Este é um partido com tradição no movimento de trabalhadores e que era constituído essencialmente por sindicalistas, trabalhadores(as) e jovens. Esta medida demonstra simbolicamente como o Syriza há muito passou para o outro lado da trincheira na luta de classes.

    É aqui que se coloca as questões: A estratégia que o Syriza adotou era a única possível? A estratégia da esquerda de aliar-se a partidos da classe dominante e às suas instituições é correta?

    Não nos parece. A história provou que não existe futuro para organizações de esquerda que não tem claro qual é a sua estratégia. O caminho do mal menor e da conciliação das classes é uma estratégia que tem condenado ao fracasso a construção de uma verdadeira alternativa à esquerda.

    O Syriza começou mal o caminho quando se coligou com um partido burguês (Anel). Além disto, toda a sua estratégia foi concebida com o intuito de manter a Grécia dentro da zona euro “custasse o que custasse” e em parceria com as instituições europeias e o FMI. Tirando os primeiros 6 meses em que o Governo Syriza/Anel tentou negociar – embora dentro dos marcos da zona euro – não assinando de cruz logo o que lhe iam propondo. A partir do referendo que se realizou no Verão de 2015 e em que o povo grego disse não ao acordo – já de si muito mau para a Grécia – o Syryza fez o contrário do votado. Contudo, esta decisão foi consequente com a sua estratégia de conciliação de classes e respeito pelos seus credores. Esta estratégia não poderia dar em outra coisa do que na total capitulação às instituições europeias e ao FMI e na consequente quebra das promessas que tinha apresentado ao povo grego.

    O recuo do Governo é tão gritante e humilhante que Alexis Tsipras, recentemente, em entrevista ao Diário de Noticias, chega ao ponto de salientar como grande diferença, entre os Governos anteriores (Nova Democracia e do PASOK) e o seu Governo, o timing quando é assinado o acordo: “Tivemos pela primeira vez umas eleições depois de um difícil acordo. Os anteriores governos decidiram sempre fazer os acordos só depois das eleições. Nós fizemos o oposto.”

    A estratégia de conciliar os interesses antagónicos da classe dominante e dos trabalhadores(as) gregos(as) teve como consequência a aplicação de duros programas de austeridade – com cortes nas pensões, flexibilização do mercado de trabalho, privatizações etc. – que em nada diferem dos aplicados pelos Governos anteriores da Nova Democracia e PASOK.

    A estratégia seguida pelo Syriza está bastante clara no recente livro intitulado “Comportem-se como adultos” de Varoufakis. Este saiu do Governo em julho de 2015 e demonstra claramente que a estratégia era chegar a acordo com os credores para manter a Grécia dentro da zona euro. Apesar deste se tentar demarcar de Tsipras afirmando que entre a capitulação ao memorando e a saída da zona euro preferia a última. O problema é que a lógica de raciocínio que Varoufakis e o Governo levaram a Bruxelas era equivocada, porque partia da premissa de fazer “tudo por tudo” para entrar em acordo com os credores, ou seja, com a burguesia. A perspetiva nunca foi apoiar-se no lado de cá da barricada, ou seja, na força e luta dos trabalhadores gregos e europeus. A perspetiva sempre foi que as instituições da classe dominante (UE, BCE e FMI) cedessem em algum ponto e que se continuasse a pagar uma dividia impagável aos credores. Ao invés a estratégia da burguesia foi clara desde o início, esmagar o povo grego. Não fazer qualquer concessão, ou seja, não negociar. Os credores sabiam bem qual a sua estratégia e apoiaram-se no seu campo, ou seja, nas diferentes burguesias para destruir a ousadia do povo grego. Ao Syriza faltou adotar a estratégia de confiar apenas e só na força e luta dos trabalhadores e apontar uma saída a favor dos interesses dos trabalhadores que passaria pela saída da zona euro e pela suspensão do pagamento da dívida. Não é possível adotar uma política que defenda os interesses de classes diferentes (trabalhadores e burguesia). O Syriza aptou pelos interesses da burguesia.

    E é assim que chegamos ao ponto de um partido de tradição operaria e trabalhadora aprovar uma medida anti greve. A aparente contradição é na verdade a consequência das iniciais opções contranaturas do Syriza de se aliar a um partido de direita (Anel) e à UE e FMI na aplicação do programa destes, abandonado o seu.

    O resultado é a adaptação do Syriza a mero gestor do capitalismo, não existindo atualmente grande diferença entre o Syriza e por exemplo o PASOK. Assim fica colocada a possibilidade de a direita (Nova Democracia) voltar ao poder nas eleições 2019, pelo menos é o que indicam as sondagens. Em resumo, a estratégia de conciliação de classes adotada pelo Syriza nada mais fez do que desmoralizar a esquerda em todo o mundo e sobretudo na Europa e fortalecer a direita.

  • Nota do PSOL: “Parem os ataques ao povo curdo”

    Entre os dias 20 e 21, a aviação turca abriu fogo contra a cidade de Afrin, no norte da Síria, buscando destruir as posições do Curdistião sírio. Uma agressão brutal e covarde, que deixou mortos e feridos civis, não apenas entre os curdos, mas também contra cristãos, árabes e demais povos da região.

    Essa agressão é um gesto de ódio, um crime de guerra. Muito similar aos crimes impetrados pelo Estado Islâmico. Agredir um país que não se encontra em estado de guerra é um ataque desmedido.

    O governo turco encabeçado pelo désposta Recep Tayyip Erdogan mantém o cerco em duas frentes: no ambito interno, perseguindo, prendendo opositores, fechando instituições para perpetuar um regime autoritário e no frente externo- em aliança com setores da AlQuaeda- tendo como estratégia liquidar as zonas liberadas pelos Curdos.

    Em sua primeira investida, a aviação turca matou seis civis e um combatente do YPG (Unidades em defesa do povo) e duas de YPJ (Unidades de defesa da Mulher); além de atacar Afrin, a aviação turca também o fez no campo de refugiados de Rubar.

    A partir desses ataques, se iniciou uma campanha internacional para denunciar os bombardeios. Precisamos somar forças e rodear de solidariedade o povo curdo. Vale lembrar que foram os curdos, com seus destacados batalhões femininos, que expulsaram o Estado Islâmico de Kobane.

    O PSOL se soma à solidariedade com o povo curdo, exigindo a imediata ruptura de relações com o governo turco. É preciso ampliar a campanha internacional de denúncia contra essa operação ilegal.

    Nossa posição é categórica e vamos amplificar a campanha “Parem as bombas contra o povo curdo” entre parlamentares, partidos progressistas, democratas, no Brasil e em todo continente americano.

    Partido Socialismo e Liberdade

    21/01/2018

  • O pensamento de Rosa Luxemburgo

    Por Michel Lowy

    Artigo originalmente publicado no número 15 da revista semestral Margem Esquerda – Ensaios Marxistas da Boitempo, com o título, “A centelha se acende na ação: a filosofia da práxis no pensamento de Rosa Luxemburgo”, e republicado a 5 de março de 2015 no Blog da Boitempo.

    Rosa Luxemburgo

    Algumas palavras pessoais, a título de introdução. Descobri a Rosa Luxemburgo por volta de 1955, aos 17 anos, graças ao meu amigo Paulo Singer. Paulo explicou-se longamente a teoria do imperialismo, mas o que me atraiu mesmo foram os textos políticos que me passou, a crítica do centralismo, a visão revolucionária e democrática de Rosa Luxemburgo. Aderimos juntos a uma pequena organização “luxemburguista”, a Liga Socialista Independente, da qual também faziam parte Maurício Tragtenberg, Hermínio Sacchetta e, alguns anos depois, os irmãos Sader. Tínhamos um local de reuniões no centro de São Paulo que media 2×5 metros e cuja única ornamentação era um quadro com um desenho que representava Rosa Luxemburgo. Nessa época, recebi da minha mãe um exemplar das cartas de prisão1 que tinha trazido de Viena quando emigrou para o Brasil, o que me permitiu apreciar melhor a dimensão humana e generosa da revolucionária intransigente. Anos mais tarde, escrevi, sob a orientação de Lucien Goldmann, uma tese sobre o jovem Marx, apresentada na Sorbonne em 19642, toda inspirada no marxismo de Rosa Luxemburgo. É uma paixão que dura até hoje.

    Marxismo e a filosofia da práxis

    Quando publicou as “Teses sobre Feuerbach” [Em “A ideologia alemã”, Boitempo 2007] de Marx, em 1888, Engels qualificou-as de “primeiro documento em que está depositado o germe genial de uma nova concepção do mundo”. Com efeito, nesse texto Marx supera dialeticamente – a famosa Aufhebung, negação/conservação/superação – o materialismo e o idealismo anteriores e formula uma nova teoria, que se poderia designar como filosofia da práxis. Enquanto os materialistas franceses insistiam que é necessário mudar as circunstâncias para que os seres humanos se transformem, os idealistas alemães acreditavam que, ao promover uma nova consciência nos indivíduos, se modifica depois a sociedade. Contra essas duas percepções unilaterais, que conduziam ao impasse – e à busca de um “Grande Educador” ou Salvador Supremo – Marx afirma na Tese III: “A coincidência da mudança das circunstâncias e da atividade humana, ou mudança de si mesmo [Selbstveränderung], pode ser apreendida e racionalmente compreendida apenas enquanto práxis revolucionária”. Por outras palavras: na prática revolucionária, na ação coletiva emancipadora, o sujeito histórico – as classes oprimidas – transforma ao mesmo tempo as circunstâncias materiais e sua própria consciência. Marx volta a essa problemática na Ideologia alemã, na qual escreve:

    “A revolução, portanto, não é apenas necessária porque não há outro meio de derrubar a classe dominante, mas porque a classe subversiva [stürzende] pode ter êxito apenas por meio de uma revolução para se livrar de toda a velha merda [Dreck] e tornar-se assim capaz de efetuar uma nova fundação da sociedade.”3

    Isso significa que a autoemancipação revolucionária é a única forma possível de libertação: é só pela sua própria práxis, pela sua experiência na ação, que as classes oprimidas podem transformar a sua consciência, ao mesmo tempo que subvertem o poder do capital. É verdade que em textos posteriores, como, por exemplo, no famoso prefácio de 1857 à “Contribuição à Crítica da Economia Política” [em “As armas da crítica”, Boitempo, 2012], encontramos uma versão muito mais determinista, que vê a revolução como resultado inevitável da contradição entre forças e relações de produção, mas o princípio da autoemancipação dos trabalhadores continua a inspirar o pensamento político de Marx.

    É Antonio Gramsci, nos “Cadernos da Prisão” [em “As armas da crítica”, Boitempo, 2012], que vai utilizar pela primeira vez a expressão “filosofia da práxis” para se referir ao marxismo. Afirmam alguns que isso seria apenas uma astúcia para enganar os guardas de prisão fascistas, que poderiam desconfiar de qualquer referência a Marx; mas esse argumento não explica porque não usou outra fórmula, como “dialética racional” ou “filosofia crítica”. Na verdade, com essa expressão, ele define de modo preciso e coerente o que distingue o marxismo como visão de mundo específica e distancia-se radicalmente das leituras positivistas e evolucionistas do materialismo histórico.

    A filosofia da práxis no pensamento de Rosa Luxemburgo

    Poucos marxistas do século XX estiveram tão próximos do espírito dessa filosofia marxista da práxis como Rosa Luxemburgo. Claro, ela não escrevia textos filosóficos nem elaborava teorias sistemáticas – como observa com razão Isabel Loureiro: “as suas ideias, dispersas em artigos de jornais, brochuras, discursos, cartas […] são muito mais respostas imediatas à conjuntura do que uma teoria lógica e internamente coerente”4. Ainda assim, a filosofia da práxis, que ela interpreta de maneira original e criativa, é o fio condutor – no sentido elétrico da palavra – da sua obra e da sua ação enquanto revolucionária. Mas o seu pensamento está longe de ser estático: é uma reflexão em movimento, que se enriquece com a experiência histórica. Tentaremos reconstituir a evolução do seu pensamento usando alguns exemplos.

    É verdade que os seus escritos são atravessados por uma tensão entre o determinismo histórico – a inevitabilidade da derrocada do capitalismo – e o voluntarismo da ação revolucionária. Isso aplica-se em particular aos seus primeiros trabalhos, anteriores a 1914; “Reforma ou revolução?”, de 1899, obra com que Rosa Luxemburgo se tornou conhecida no movimento operário alemão e internacional, é um exemplo claro dessa ambivalência. Contra Bernstein, insiste que a evolução do capitalismo se orienta no sentido de um desmoronamento (Zusammenbruch) e que esse desmoronamento é “a via histórica que conduz à realização da sociedade socialista”. Trata-se, em última análise, de uma variante socialista da ideologia do progresso linear e inevitável que dominou o pensamento ocidental desde a “Filosofia da Ilustração”. O que salva o seu argumento de um economicismo fatalista é a pedagogia revolucionária da ação: “Somente no curso […] de lutas demoradas e tenazes, poderá o proletariado chegar ao grau de maturidade política que lhe permita obter a vitória definitiva da revolução”.5

    Essa pedagogia dialética da luta é também um dos principais eixos da polémica com Lenine, em 1904:

    “É apenas no decorrer da luta que o exército do proletariado se recruta e que toma consciência dos fins dessa luta. A organização, a conscientização [Aufklärung] e o combate não são fases distintas, mecanicamente separadas no tempo […] mas apenas aspectos diversos de um único e mesmo processo.”

    É claro que a classe se pode se equivocar no decurso desse combate, mas, em última análise, “os erros cometidos por um movimento realmente revolucionário são histórica e infinitamente mais fecundos e valiosos que a infalibilidade do melhor ‘Comité Central’”.

    A autoemancipação dos oprimidos implica a autotransformação da classe revolucionária por sua experiência prática; esta, por sua vez, produz não só à consciência – tema clássico do marxismo –, mas também à vontade:

    “O movimento histórico-universal [Weltgeschichtlich] do proletariado até à sua vitória é um processo cuja particularidade reside no fato de que aqui, pela primeira vez na história, as próprias massas populares impõem a sua vontade contra as classes dominantes […]. Entretanto, as massas não podem conquistar essa vontade senão na luta quotidiana com a ordem estabelecida, isto é, no quadro dessa ordem”.6

    Poderíamos comparar a visão de Lenine com a de Rosa Luxemburgo na seguinte imagem: para Vladimir Ilitch, redator do jornal Iskra, a centelha revolucionária é trazida pela vanguarda política organizada, de fora para dentro das lutas espontâneas do proletariado; para a revolucionária judia polaca, a centelha da consciência e da vontade revolucionária acende-se no combate, na ação de massas. É verdade que a sua visão de partido como expressão orgânica da classe correspondia mais à situação na Alemanha do que na Rússia ou na Polónia, onde já se colocava a questão da diversidade de partidos em relação ao socialismo.

    Os eventos revolucionários de 1905 no Império Russo czarista vão amplamente confirmar Rosa Luxemburgo na sua convicção de que o processo de tomada de consciência das massas operárias resulta menos da atividade “esclarecedora” do partido do que da experiência de ação direta e autónoma dos trabalhadores:

    “É o proletariado que vai derrubar o absolutismo na Rússia. Mas o proletariado necessita para isso de um alto grau de educação política, de consciência de classe e de organização. Todas essas condições não podem surgir da leitura de panfletos e brochuras, mas somente na escola da luta e na luta política viva, no curso da revolução em marcha. […] O súbito levantamento geral [Generalerhebung] do proletariado em janeiro, sob a forte impulsão dos acontecimentos de São Petersburgo, foi, na sua ação dirigida para o exterior, um ato político de declaração de guerra revolucionária ao absolutismo. Mas essa primeira ação geral direta da classe teve um impacto ainda maior numa direção interna, despertando pela primeira vez, como que por um choque elétrico [einen elektrischen Schlag], o sentimento e a consciência de classe em milhões e milhões de indivíduos”.7

    É verdade que a fórmula polémica sobre “panfletos e brochuras” parece subestimar a importância da teoria revolucionária nesse processo; por outro lado, a atividade política de Rosa Luxemburgo, que consistia em grande parte na redação de artigos de jornais e de brochuras – sem falar de suas obras teóricas no campo da economia política – demonstra, sem dar margem a dúvidas, o significado decisivo que atribuía ao trabalho teórico e à polémica política no processo de preparação da revolução.

    Na famosa brochura de 1906 sobre a greve de massas [publicado em “As Armas da Crítica”, Boitempo 2012], Rosa Luxemburgo ainda utiliza os argumentos deterministas tradicionais: a revolução ocorrera “com a necessidade de uma lei da natureza”. Mas a sua visão concreta do processo revolucionário coincide com a teoria da revolução de Marx, tal como ele a desenvolve na Ideologia alemã, obra que ela não conhecia, já que só foi publicada após a sua morte: a consciência revolucionária não se pode generalizar senão no curso de um movimento “prático”, a transformação “maciça” dos oprimidos só pode se generalizar no decorrer da própria revolução. A categoria da práxis – que, para ela e para Marx, é a unidade dialética entre o objetivo e o subjetivo, a mediação pela qual a classe em si se torna para si – permite superar o dilema paralisante e metafísico da social-democracia alemã, entre o moralismo abstrato de Bernstein e o economicismo mecânico de Kautsky: enquanto, para o primeiro, a mudança “subjetiva”, moral e espiritual dos “homens” é a condição do advento da justiça social, para o segundo é a evolução económica objetiva que leva “fatalmente” ao socialismo. Isso permite entender melhor por que razão Rosa Luxemburgo se opunha não só aos revisionistas neokantianos, mas também, a partir de 1905, à estratégia de “atentismo” passivo defendida pelo assim chamado “centro ortodoxo” do partido.

    Essa mesma visão dialética da práxis é que lhe permite superar o tradicional dualismo encarnado no Programa de Erfurt do Partido Social-Democrata Alemão entre as reformas (ou o “programa mínimo”) e a revolução (ou o “objetivo final”). Pela estratégia da greve de massas que ela propõe em 1906 – contra a burocracia sindical – e em 1910 – contra Kautsky –, Rosa Luxemburgo encontra precisamente o caminho capaz de transformar as lutas econômicas ou o combate pelo sufrágio universal num movimento revolucionário geral.

    Ao contrário de Lenine, que distingue a “consciência sindical” da “consciência social-democrata”, ela sugere uma distinção entre a consciência teórica latente, característica do movimento operário no período de dominação do parlamentarismo burguês, e a consciência prática e ativa, que surge no processo revolucionário, quando as próprias massas, e não apenas os deputados e dirigentes do partido, aparecem na cena política, cristalizando a sua “educação ideológica” diretamente na práxis; é graças a essa consciência prático-ativa que as camadas menos organizadas e mais atrasadas se podem tornar, num período de luta revolucionária, o elemento mais radical. Dessa premissa decorre a sua crítica àqueles que baseiam a sua estratégia política numa superestimação do papel da organização na luta de classes – o que é acompanhado em geral da subestimação do proletariado não organizado –, esquecendo a ação pedagógica da luta revolucionária: “Seis meses de revolução farão mais para a educação das massas atualmente não organizadas do que dez anos de reuniões públicas e distribuição de panfletos”.8

    Então, Rosa Luxemburgo é espontaneísta? Não é bem assim. Na brochura sobre “Greve de massas, partido e sindicatos” (1906) [em “As armas da crítica”, Boitempo, 2012], ela insiste que o papel da “vanguarda consciente” não é esperar “com fatalismo” que o movimento popular espontâneo “caia do céu”. Ao contrário, seu papel é precisamente “preceder [vorauseilen] a evolução das coisas e tentar acelerá-la”. Ela reconhece que o partido socialista deve tomar “a direção política” da greve de massas, o que consiste em “dar à batalha a sua palavra de ordem, a sua tendência, assim como a tática da luta política”; chega a afirmar que a organização socialista é “a vanguarda [Vorhut] dirigente de todo o povo trabalhador” e que “a clareza política, a força, a unidade do movimento resultam precisamente dessa organização”.9

    É interessante observar que a organização polaca dirigida por Rosa Luxemburgo e Leo Jogiches, o Partido Social-Democrata do Reino da Polónia e Lituânia (SDKPiL), clandestina e revolucionária, tinha mais semelhanças com o partido bolchevique do que com a social-democracia alemã. Deve-se também levar em conta, na discussão das concepções organizacionais de Rosa Luxemburgo, as suas teses sobre a Internacional como partido mundial centralizado e disciplinado, propostas num documento redigido em 1914, após o colapso da Segunda Internacional. Por uma ironia da história, Karl Liebknecht, numa carta à amiga Rosa Luxemburgo, censurou essa concepção da nova Internacional como sendo “demasiado centralista e mecânica”, com “‘disciplina’ em excesso e muito pouca espontaneidade”, considerando as massas “demasiados instrumentos da ação, não portadoras de vontade; mais como instrumentos da ação desejados e decididos pela Internacional, e menos desejados e decididos por elas mesmas”.10

    O otimismo determinista (económico) da teoria do Zusammenbruch, a derrocada do capitalismo como vítima das suas próprias contradições, não desaparece dos seus escritos, mas, ao contrário, encontra-se no centro da sua grande obra económica “A acumulação do capital” [trecho em “As armas da crítica”, Boitempo, 2012], de 1911. O texto que vai superar essa visão tradicional do movimento socialista do começo do século é a brochura “A Crise da Social Democracia”, escrita na prisão em 1915, publicada na Suíça em janeiro de 1916 e assinada com o pseudónimo Junius. Esse documento, graças à palavra de ordem “socialismo ou barbárie”, é um marco na história do pensamento marxista. Curiosamente, o argumento de Rosa Luxemburgo começa por se referir às “leis inalteráveis da história”; ela observa que a ação do proletariado “contribui para determinar a história”, mas parece acreditar que se trata apenas de “acelerar ou retardar” o processo histórico. Até aqui, nada de novo!

    Logo em seguida, porém, ela compara a vitória do proletariado a “um salto da humanidade do reino animal para o reino da liberdade”, acrescentando: esse salto não será possível “se a faísca incendiária [zündende Funke] da vontade consciente das massas não surgir das circunstâncias materiais que são fruto do desenvolvimento anterior”. Aqui aparece então a famosa Iskra, essa centelha da vontade revolucionária que é capaz de fazer explodir a pólvora seca das condições materiais. Mas o que produz essa zündende Funke? É graças a uma “grande cadeia de poderosas lutas” que “o proletariado internacional fará o seu aprendizado sob a direção da social-democracia e tentará tomar em suas mãos a sua própria história [seine Geschichte]”.11 Por outras palavras: é na experiência prática da luta que se acende a centelha da consciência revolucionária dos oprimidos e explorados.

    1. Rosa Luxemburgo, “Briefe” (Berlim, Verlag der Jugend-Internationale, 1927).
    2. Esta tese está disponível no Brasil com o título “A teoria da revolução do jovem Marx” (Boitempo, 2013).
    3. Karl Marx e Friedrich Engels, “L’idéologie allemande” (Paris, Éditions Sociales, 1968), VI, p. 243. [Ed. bras.: “A ideologia alemã”, São Paulo, Boitempo, 2007.] 4. Isabel Loureiro, “Rosa Luxemburgo: os dilemas da ação revolucionária” (São Paulo, Unesp, 1995), p. 23.
    5. Rosa Luxemburgo, “Reforma ou revolução?” (São Paulo, Expressão Popular, 1999), p. 24, 41 e 105. Cito a tradução brasileira, de Lívio Xavier, bela figura militante e intelectual que ainda cheguei a conhecer.
    6. Idem, “Organisationsfragen der russischen Sozialdemokratie” (1904), em “Die Russische Revolution” (Frankfurt, Europäische Verlagsanstalt, 1963), p. 27-8, 42 e 44. [Ed. bras.: “A Revolução Russa”, Petrópolis, Vozes, 1991.] 7. Idem, “Massenstreik, Partei und Gewerkschaften”, em “Gewerkschaftskampf und Massenstreik” (Berlim, Vereinigung Internationaler Verlagsanstalten, 1928, p. 426-7) [ed. bras.: “Greve de massas, partido e sindicatos”, São Paulo, Kayros, 1979]. Trata-se de uma coletânea de ensaios de Rosa Luxemburgo sobre a greve de massas, organizada por seu excelente discípulo e biógrafo Paul Frölich, expulso nos anos 20 do Partido Comunista. Consegui esse livro num alfarrabista em Tel-Aviv; o exemplar tinha o carimbo do Kibutz Ein Harod, “Seminário de Ideias, Biblioteca Central”. O proprietário do livro era, sem dúvida, um esquerdista judeu alemão que emigrou para a Palestina em 1933 e entregou sua biblioteca ao kibutz onde se instalou. Com a morte dos velhos militantes do kibutz, e como a nova geração não lê alemão, a biblioteca vendeu ao alfarrabista o seu stock de livros na língua de Marx.
    8. Ibidem, p. 455-7.
    9. Ibidem, p. 445 e 457.
    10. Ver Karl Liebknecht, “À Rosa Luxemburg: remarques à propos de son projet de thèses pour le groupe ‘Internationale’”, Partisans, n. 45, jan. 1969, p. 113.
    11. Rosa Luxemburgo, “Brochura Junius”, em “Rosa, a vermelha” (2. ed., São Paulo, Busca Vida, 1988), p. 114-5, corrigido pelo original alemão Die Krise der Sozialdemokratie von Junius (Bern, Unionsdruckerei, 1916), p. 11. Essa cópia da edição original pertenceu ao meu professor e orientador Lucien Goldmann; recebi-a recentemente da sua viúva, Annie Goldmann.

     

  • Leon Trotski: Tirem as mãos de Rosa Luxemburgo!

    Por Leon Trotski

    Em seu artigo “Uma contribuição para a história da questão da ditadura” (outubro de 1920), Lênin, tratando de problemas do estado soviético e da ditadura do proletariado colocados já pela revolução de 1905, escrevia: “representantes destacados do proletariado revolucionário e do marxismo sem falsificações, tais como Rosa Luxemburgo, apreciaram imediatamente a importância desta experiência prática e a analisaram criticamente em reuniões e na imprensa”. Pelo contrário, “(…) pessoas do tipo dos futuros ‘kautskistas’ (…) provaram ser absolutamente incapazes de compreender a importância desta experiência (…)”[1]. Em poucas linhas, Lênin presta o tributo de seu reconhecimento da importância histórica da luta de Rosa Luxemburgo contra Kautski – uma luta que o próprio Lênin esteve longe de avaliar imediatamente em toda sua importância. Se para Stálin, o aliado de Chiang Kai-xek, e o camarada em armas de Purcell[2], o teórico do “partido operário-camponês”, da “ditadura democrática”, do “não antagonizar a burguesia”, etc. – se para ele Rosa Luxemburgo é representante do centrismo, para Lênin ela é representante do “marxismo sem falsificações”. Qualquer um que conheça minimamente Lênin sabe o que significa esta designação vinda da sua pena.

    Aproveito a ocasição para ressaltar aqui que nas notas das obras de Lênin há, entre outras coisas, as seguintes palavras sobre Rosa Luxemburgo: “durante o florescimento do revisionismo bernsteiniano e, mais tarde, do ministerialismo (Millerand[3]), Luxemburgo conduziu uma batalha decisiva contra esta tendência, tomando sua posição na ala esquerda do partido alemão (…) Em 1907 ela participou como delegada da Social Democracia da Polônia e da Lituânia no congresso de Londres do Partido Operário Social-Democrata Russo, apoiando a facção bolchevique em todas as questões básicas da revolução russa. Desde 1907, Luxemburgo se entregou inteiramente ao trabalho na Alemanha, assumindo uma posição de esquerda radical e conduzindo um combate contra as alas de centro e de direita (…) Sua participação na insurreição de janeiro de 1919 converteu seu nome em bandeira da revolução proletária”.

    É claro que o autor destas notas provavelmente confesse seus pecados amanhã e anuncie que ele as escreveu tomado por ignorância na época de Lênin, e que ele chegou ao completo esclarecimento apenas na época de Stálin. Atualmente a imprensa de Moscou publica todos os dias anúncios deste tipo – combinações de servilismo, bufonaria e idiotice. Mas eles não mudam a natureza das coisas: não há machado que possa cortar nem poderes que possam mudar aquilo que uma vez foi colocado em preto e branco. Sim, Rosa Luxemburgo se tornou uma bandeira da revolução proletária!

    No entanto, como e por quê Stálin se dedicou subitamente – depois de tanto tempo – à revisão da velha avaliação bolchevique de Rosa Luxemburgo? Tal como foi o caso com todos os seus abortos teóricos anteriores, com este último, e mais escandaloso, a origem está na lógica da sua luta contra a teoria da revolução permanente. Neste artigo “histórico”, Stálin mais uma vez dedica sua maior parte a esta teoria. Não há uma única palavra nova naquilo que ele diz. Respondi há muito tempo todos os seus argumentos no meu livro “A Revolução Permanente”. Do ponto de vista histórico, a questão estará suficientemente esclarecida, acredito, no segundo volume da “História da Revolução Russa” (A Revolução de Outubro), agora em impressão. No caso atual, a questão da revolução permanente nos interessa apenas na medida em que Stálin a relaciona ao nome de Rosa Luxemburgo. Veremos agora como o teórico infeliz armou uma armadilha mortífera para si mesmo.

    Depois de recapitular a polêmica entre os mencheviques e os bolcheviques na questão das forças motrizes da Revolução russa e depois de comprimir magistralmente uma série de erros em umas poucas linhas, os quais sou obrigado a deixar de lado sem examinar, Stálin escreve: “qual foi a atitude dos social-democratas alemães de esquerda, de Parvus[4] e Rosa Luxemburgo, diante desta polêmica? Eles inventaram um esquema utópico e semi-menchevique de revolução permanente (…) Pouco depois, Trótski (e, em parte Martov[5]) tomaram este esquema e o transformaram em uma arma na luta contra o leninismo”. Tal é a inesperada história da origem da teoria da revolução permanente, de acordo com as mais recentes pesquisas históricas de Stálin. Mas, certamente, o investigador esqueceu de consultar suas próprias e ilustres obras anteriores. Em 1925, o mesmo Stálin já havia se expressado sobre esta questão em sua polêmica contra Radek. Eis o que ele escreveu à época: “não é verdade que a teoria da revolução permanente (…) foi apresentada em 1905 por Rosa Luxemburgo e Trótski. Na realidade, esta teoria foi apresentada por Parvus e Trótski”. Esta afirmação pode ser conferida na página 185 de “Questões do Leninismo”, edição russa, 1926. Esperemos que figure em todas as edições estrangeiras.

    Portanto, em 1925, Stálin declarou Rosa Luxemburgo inocente do pecado capital de participar da criação da teoria da revolução permanente. “Na realidade, esta teoria foi apresentada por Parvus e Trótski”. Em 1931, fomos informados pelo mesmo Stálin que foram precisamente “Parvus e Rosa Luxemburgo (…) que criaram o esquema utópico e semi-menchevique da revolução permanente”. Enquanto Trótski, não criou a teoria, só “a colocou”, ao mesmo tempo que… Martov! Mais uma vez Stálin se enrolou sozinho. Talvez escreva sobre problemas dos quais não consegue distinguir nem pé nem cabeça. Ou ele está conscientemente embaralhando cartas marcadas ao jogar com as questões básicas do marxismo? É correto colocar esta questão como alternativa. Na realidade, tanto uma como a outra são verdadeiras. As falsificações stalinistas são conscientes na medida que estão ditadas a cada momento dado por interesses concretos inteiramente pessoais. Ao mesmo tempo elas são semi-conscientes, na medida que sua ignorância congênita não coloca qualquer impedimento às suas propensões teóricas.

    Mas os fatos permanecem sendo fatos. Na sua luta contra o “contrabando trotskista”, Stálin caiu em desgraça com um novo inimigo pessoal, Rosa Luxemburgo! Ele não parou por um momento antes de mentir sobre ela e vilipendiá-la; e mais ainda, antes de colocar em circulação suas doses gigantes de vulgaridade e deslealdade, ele nem mesmo se deu o trabalho de verificar o que ele mesmo disse sobre o mesmo assunto seis anos antes.

    A nova variante da história das idéias da revolução permanente teve sua origem sobretudo na necessidade de proporcionar um prato mais apimentado do que todos os anteriores. É desnecessário explicar que Martov foi arrastado pelos cabelos para tornar mais picante a culinária teórica e histórica. A atitude de Martov diante da teoria e prática da revolução permanente foi de um antagonismo inalterável, e nos velhos tempos, assinalou mais de uma vez que as concepções de Trótski sobre a revolução eram rejeitadas igualmente por bolcheviques e mencheviques. Mas não vale a pena deter-se sobre isso.

    O que é verdadeiramente fatal é que não há uma única questão importante da revolução proletária internacional sobre a qual Stálin não tenha expressado duas opiniões diretamente contraditórias. Todos sabemos que em abril de 1924, ele demonstrou de maneira conclusiva em “Questões do Leninismo” a impossibilidade de construir o socialismo em um só país. No outono, em uma nova edição do livro, ele substituiu esta demonstração pela demonstração – quer dizer, a simples afirmação – de que o proletariado “pode e deve” construir o socialismo em um só país. Todo o resto do texto foi deixado inalterado. No decurso de uns poucos anos, e às vezes de alguns meses, Stálin conseguiu apresentar posições mutamente excludentes sobre a questão do partido operário-camponês, das negociações de Brest-Litovsk, da liderança da Revolução de Outubro, sobre a questão nacional, etc., etc. Seria incorreto colocar a culpa de tudo em uma memória deficiente. O problema é mais profundo. Stálin carece de todo método de pensamento científico, de critérios de princípio. Ele encara todas as questões como se estas tivessem nascido neste mesmo momento e estivessem isoladas de todas as outras questões. Para emitir seus juízos se guia inteiramente pelo interesse pessoal mais importante e urgente do dia. As contradições em que cai são a consequência direta do seu empirismo vulgar. Não vê Rosa Luxemburgo no marco do movimento operário polonês, alemão e internacional do último meio século. Não, para ele, ela é cada vez uma figura nova e, além disso, isolada, diante da qual se vê obrigado a perguntar a cada nova situação: “quem está ali, amigo ou inimigo?” Seu instinto infalível sussurrou agora para o teórico do socialismo em um só país que a sombra de Rosa Luxemburgo lhe é inimiga irreconciliável. Mas isso não impede que esta grande sobra continue sendo a bandeira da revolução proletária internacional.

    Em 1918, em sua prisão, Rosa Luxemburgo criticou muito duramente e de maneira fundamentalmente incorreta a política dos bolcheviques. Mas, inclusive naquele que foi seu trabalho mais incorreto, percebem-se as asas de águia. Eis aqui sua caracterização geral da insurreição de outubro: “tudo o que o partido pode fazer no terreno da bravura, da ação firme, da previsão e coerência revolucionárias: tudo isto o fizeram Lênin, Trótski e seus camaradas. Toda a honra revolucionária e a capacidade de ação que tanto fizeram falta à social-democracia ocidental, os bolcheviques demonstraram possuir. Sua insurreição de outubro salvou não apenas a Revolução Russa como também a honra do socialismo internacional”. É possível que esta seja a voz do centrismo?

    Nas páginas seguintes, Luxemburgo submete a uma dura crítica a política dos bolcheviques no terreno agrário, sua palavra de ordem de autodeterminação nacional e sua rejeição à democracia formal. Podemos acrescentar que nesta crítica, dirigida tanto contra Lênin quanto contra Trótski, não faz nenhuma distinção entre as posições de ambos; e Rosa Luxemburgo sabia ler, compreender e perceber os matizes. Por exemplo, nem sequer lhe passou pela cabeça acusar-me de que, ao me solidarizar com Lênin na questão agrária, eu teria mudado minha posição sobre o campesinato. Além disso, ela conhecia muito bem meus pontos de vista, já que em 1909 os desenvolvi detalhadamente em seu jornal polonês. Rosa Luxemburgo termina assim sua crítica: “na política, o essencial do essencial, o fundamental do circunstancial”. Considera fundamental as forças das massas em ação, a vontade de chegar ao socialismo. “Neste sentido – escreve – Lênin, Trótski e seus companheiros foram os primeiros a dar o exemplo ao proletariado mundial; ainda são os únicos que, até agora, podem gritar com Huteen[6]: ‘eu ousei!'”

    Sim, Stálin tem motivos suficientes para odiar Rosa Luxemburgo. Mais imperiosa então é nossa obrigação de resgatar sua memória das calúnias de Stálin, que têm sido acolhidas pelos funcionários a soldo de ambos os hemisférios, e transmitir às jovens gerações proletárias, em toda sua grandeza e força inspiradora, esta imagem realmente bela, heróica e trágica.

    Notas

    [1] Obras Completas, Vol. 31, 20 de outubro de 1920

    [2] Albert Purcell (1872-1935): dirigente do Conselho Geral do Congresso Sindical Britânico e do Comitê Sindical Anglo-Russo na época da traição da greve geral britânica de 1926.

    [3] Alexandre Millerand (1859-1943): o primeiro socialista que tomou parte de um governo burguês, quando o designaram ministro do comércio no governo francês de 1899; foi logo expulso do Partido Socialista. Ocupou vários cargos ministeriais e foi presidente da República em 1920. Entre 1900 e 1901, Rosa Luxemburgo escreveu uma série de artigos reunidos sob o título “a crise socialista na França”, nos quais denunciou severamente Millerand

    [4] Alexander Parvus (1869-1924): destacado teórico marxista da Europa oriental no pré-guerra, colaborou com Trótski e chegou a conclusões similares às da teoria da revolução permanente. Trótski rompeu com Parvus em 1914, quando este se converteu em um dos dirigentes da ala pró-guerra da social-democracia alemã. Em 1917 tratou de reconciliar o partido social-democrata alemão com os bolcheviques e posteriormente os socialistas independentes com a direção social-democrata de Ebert-Noske.

    [5] Júlio Martov (1873-1923): um dos fundadores do Partido Operário Social-Democrata Russo; no início esteve estreitamente ligado a Lênin. Mais adiante se converteu em dirigente da ala esquerda menchevique, se colocou contra a Revolução de Outubro e em 1920 imigrou para a Alemanha.

    [6] Ulrich von Huteen (1488-1523): humanista e poeta alemão, foi um teórico dos membros da nobreza que estavam a favor de reformar o império eliminando os príncipes e secularizando a propriedade eclesiástica.

  • Haiti: 214 anos de uma revolução negra triunfante

    Por Matheus Gomes, Colunista do Esquerda Online

    Foi no dia 1° de janeiro de 1804 que o líder da maioria negra escravizada Jean-Jacques Dessalines proclamou, diante de uma multidão reunida na cidade de Gonaïves, a República do Haiti. Após mais de uma década de revoltas, nascia o segundo país independente das Américas e o primeiro a abolir a escravidão, já que o processo que levou à independência dos Estados Unidos, em 1776, não foi capaz de garantir liberdade ao povo negro da nação recém liberta do domínio inglês. O estabelecimento da Constituição que proibia qualquer estrangeiro de ser proprietário de terras ou imóveis no território haitiano foi fruto de um processo revolucionário singular – a primeira e única revolução protagonizada por escravos que se sagrou vitoriosa -, e desestabilizou potencias como a França e a Inglaterra.

    Colonização espanhola e francesa: a acumulação pela barbárie

    A região das Antilhas, ou América Central insular, foi a primeira a ser invadida pelos colonizadores liderados por Cristovão Colombo. Haiti significa terra montanhosa e era a forma como os Tainos – nativos da região – denominavam a ilha.

    Os primeiros relatos dos espanhóis afirmam que o território era dividido em diversos “cacicados” e classificava os autóctones como “mansos”, “sensíveis” e “tímidos”. O uso de tais adjetivos não impediram, no entanto, o genocídio dos nativos, por meio  de tentativas mal sucedidas de exploração da sua mão-de-obra. De acordo com o historiador Eric Williams, “Nesse local a população em 1492 era estimada entre 200 mil e 300 mil. Em 1508, o número tinha sido reduzido para 60 mil; em 1510, era 46 mil; em 1512, 20 mil; em 1514, 14 mil. Em 1548, Oviedo [historiador espanhol] duvidava se permaneciam 500 índios puros. Em 1570, tinham sobrevivido apenas dois povoados” .

    Foi nesse cenário de devastação e barbárie que os primeiros africanos escravizados desembarcaram na ilha a partir da segunda década do século XVI, dando início a três séculos de produção intensiva destinada a exportação e baseada no tráfico de escravos. Já em fins do século XVII, após a assinatura do acordo que findou a guerra entre a França e a Grande Aliança de Impérios, a parte ocidental da então ilha de “Santo Domingo” foi cedida aos franceses. Essa região teria sido inicialmente povoada por piratas, mas após a chegada dos enviados da coroa tornou-se o território mais valioso do Caribe, chegando a representar 2/3 dos negócios franceses. O desenvolvimento da exploração deu-se através das plantações de açúcar e, posteriormente, com o cultivo do café e, em menor escala, algodão e cacau.

    A divisão demográfica da ilha em meados do século XVIII nos ajuda a entender o alto grau de tensão social: mais de meio milhão de escravizados formavam cerca de 85% da população, o que obrigava os colonizadores a instituir um clima permanente de repressão e terror, sem qualquer direito a apelação.

    Quando “Liberté, Egalité, Fraternité” são levadas às últimas consequências

    Para entendermos a dinâmica da revolução é necessário conhecermos as peculiaridades da sociedade haitiana, que possuía uma estratificação social diferente de outras colônias, a exemplo do Brasil. Para o historiador cubano Sérgio Vilaboy, o elemento que distinguia Santo Domingo era a existência dos “mulatos livres”, agricultores emergentes que, na metade do século XVIII, representavam cerca de 5% da população, mas detinham um quarto da terra cultivável, tornando-se uma ameaça a hegemonia branca e ampliando a complexa relação entre cor e classe na ilha. Já nas últimas décadas do século XVIII, as vésperas da revolução, a composição étnica da população era a seguinte: brancos, 40 mil; mulatos, 96 mil, sendo 56 mil libertos e 40 mil sujeitos a distintas formas de escravidão; e 532 mil negros escravizados.

    Esse conjunto de classes em conflito permanente foi diretamente afetado pela Revolução Francesa de 1789. Para os grandes proprietários brancos, surgiu a oportunidade de dominar diretamente o governo de Santo Domingo estabelecendo o comércio livre e mantendo a escravidão. Em abril de 1790, foi convocada a Assembleia Geral da Parte Francesa de Santo Domingo, uma reunião com acesso limitado a proprietários com mais de 20 escravos, o que excluía os mulatos e brancos com menos posses. Contudo, as pretensões dos convocadores da Assembleia se chocavam com os interesses da metrópole, que viu na nascente Constituição Colonial as bases de uma declaração de independência, o que levou o Governador Conde de Peynier a dissolver em armas a empreitada, com apoio de mulatos e pequenos proprietários. Todavia, essa aliança entre mulatos e brancos não tardou em se desfazer à medida que era negada a igualdade de direitos entre eles, o que ocasionou uma série de levantes armados dos mulatos em 1791, que não incluíam em suas reivindicações a liberdade para os escravos.

    A dianteira dos mulatos no processo revolucionário começa a ser desfeita em agosto de 1791 quando iniciam as revoltas negras no norte. Vale destacar que o histórico de resistência dos escravizados remete a sua chegada à ilha e as constantes fugas e movimentos de guerrilha dos cimarrones – termo equivalente aos quilombolas do Brasil. A religiosidade mística e misteriosa do vodu cumpriu um papel importante na articulação de revoltas, como a liderada pelo escravo Makandal em 1758. Este dizia se inspirar nos deuses africanos e julgava-se forte o bastante para derrotar os senhores. De fato, além de uma rebelião massiva, ele ordenou diversos envenenamentos de brancos durante quatro anos, mas este movimento culminou no seu assassinato numa fogueira. Contudo, a repressão à religião nos anos seguintes não conseguiu impedir que o vodu seguisse aglutinando os escravizados, pelo contrário, o clima de conspiração instaurou-se fortemente e foi a partir do chamado do sacerdote Boukman que iniciou o levante escravo por todas as planícies do norte.

    Ao lado da metrópole, os grandes proprietários fizeram todas as manobras possíveis para conter a rebelião negra que se alastrava, mas a radicalização da Revolução Francesa novamente interferiu no processo. Encarregados de restaurar a ordem, três comissários franceses acompanhados de um forte efetivo militar desembarcaram na ilha em fins de 1792, entretanto, do outro lado do Atlântico aconteceria em janeiro de 1793 à execução de Luís XVI, acontecimento que transformou os grandes proprietários brancos em defensores diretos da causa realista. Enquanto o comissariado francês promulgava leis que concediam igualdade de direitos entre brancos, mulatos e negros livres, os grandes proprietários viam seu poder diminuir e organizavam sublevações contra a metrópole. Nesse interregno, as revoltas de escravos não cessaram, já que suas condições sociais permaneciam intactas e sem perspectiva de alteração, o que fica nítido nas palavras de um representante francês, que era enfático ao dizer que “não buscamos meio milhão de escravos na costa africana para fazer deles cidadãos franceses”, demonstrando que a igualdade, liberdade e fraternidade dos liberais franceses não se estendiam ao mundo colonial.

    Meses depois, no verão de 1793, o anseio pela liberdade e a impotência dos mulatos livres faz os escravizados, liderados por Toussaint Louverture, aliarem-se a Espanha, que invadiu a ilha prometendo liberdade aos negros, aproveitando-se da fragilidade da metrópole francesa ocasionada pela ofensiva internacional contrarrevolucionária. Por outro flanco, os ingleses também retomam a ofensiva militar, respaldados por colonos brancos e os mulatos. A intensificação da crise cria um beco sem saída para a metrópole que se vê obrigada, a partir de seu comissário Sonthonax, a declarar o fim da escravidão em 29 de agosto de 1793, medida respaldada pela Convenção Francesa em 4 de fevereiro de 1794 e garantia aos negros plenos direitos como cidadãos franceses.

    O acontecimento faz Louverture e outras lideranças como Dessalines, Jean Christophe e Charles Belair romperem sua aliança com os espanhóis e expulsarem seu exército da ilha, passando diretamente a vanguarda da resistência à ofensiva inglesa. Com base em pesquisas de historiadores do exército britânico, C.L.R. James afirma que as baixas da Grã Bretanha nas Antilhas chegam a quase 100.000 homens, o que é considerado o principal elemento da fraqueza do reino no final do século XVIII. Após liderar a expulsão dos ingleses em outubro de 1798 e já na condição de governador da colônia, Louverture enfrenta um conflito interno, pois a posição destacada dos ex-escravizados germinou a insatisfação entre os mulatos, que iniciam tentativas de sublevação contra o governo central, mas são derrotados rapidamente pelas tropas oficiais. O governo de Louverture promulga leis importantes como a ratificação da abolição da escravidão, a igualdade jurídica entre o conjunto da população e o reconhecimento do catolicismo como religião oficial.

    Entretanto, a reação de Napoleão Bonaparte e o Consulado na França impulsionaram a tentativa de fazer a ilha regressar a sua condição anterior a partir de 1802, fato que se consumou na Martinica e em Guadalupe. Contando com o apoio de alguns mulatos, que permaneciam como inimigos incontestes de Louverture, os franceses avançaram suas tropas e impuseram um regime de terror generalizado. Mas o ressentimento dos franceses também atingia os mulatos, nas palavras do General Leclerc – comandante da retomada -, “em minha opinião, temos que suprimir todos negros das montanhas (…) e não deixar na colônia nenhum mulato que carregue charretes” . Essa postura acabou forjando um bloco de classes entre escravizados e mulatos, em defesa da independência nacional e contra a escravidão. A revolta generalizada liderada por essa aliança acabou por derrotar o exército francês, que teve seus últimos destacamentos rendidos em 18 de novembro de 1803, na batalha de Vertieres. A partir daí florescia uma nação independente, mas também iniciava uma saga marcada por bloqueios econômicos, invasões estrangeiras e isolamento político.

    O impacto da revolução no Brasil

    Os ecos de liberdade ressoaram em nosso país e em toda a Afroamérica. Segundo o historiador Clóvis Moura, já em 1805, negros empregados nas tropas de artilharia do Rio de Janeiro foram presos por portarem um retrato de Dessalines. Nessa época, a impressão de qualquer gravura no Brasil era quase impossível, o que sugere a circulação da imagem a partir de escravos vindos de outras regiões do continente. Já na Bahia (não consta a data na referência), uma revolta de negros empregados na pescaria foi sufocada pelo governo central e os donos dos estabelecimentos relatavam que os acontecimentos revolucionários eram comentados abertamente entre os escravos. Ou seja, mesmo com todas as limitações de comunicação que a condição de escravizado impunha, o exemplo do Haiti se tornou uma utopia libertária para a parcela de escravizados que teve contato com os acontecimentos revolucionários.

    Esse período coincide com o momento em que os escravizados resistiram de forma mais ampla contra sua condição no Brasil: formação de quilombos, suicídios, crimes individuais contra os senhores, guerrilhas, assaltos nas estradas, uma série de ações contestatórias definiam o clima de corpo a corpo permanente entre escravos e senhores. O Haiti fez com que a metrópole e a burguesia nascente ampliassem as características repressivas do Estado e criou uma paranoia generalizada sobre a possibilidade de um movimento similar em nosso país.

    O cerco imperialista permanente

    A revolução logo colocou a República do Haiti numa encruzilhada. C.L.R. James escreve que Louverture, bem como seu sucessor Jean Christophe, “não conseguia ver outra saída para a economia haitiana senão as plantações de cana de açúcar. (…) Mas com a abolição da escravatura e a conquista da independência, a defesa das plantações, indelevelmente associadas à escravidão, tornou-se insustentável” , fazendo com que em poucos anos a economia da ilha se resumisse as necessidades de subsistência. Essa condição imposta pelo isolamento político e econômico internacional afundou o país na pobreza e criou conflitos políticos diversos. Mesmo assim, manteve-se entre a população um forte sentimento nacional, repleto de contradições cruzadas pelas divisões de classe da própria sociedade haitiana, pois, segundo James, após a revolução a elite haitiana sempre tentou reproduzir na ilha um modelo de civilização europeia que nunca se consolidou.

    O fato é que o Haiti jamais saiu da mira dos colonizadores de ontem e segue como alvo dos imperialistas de hoje. O sociólogo haitiano Franck Seguy, corroborando com o historiador e ex-presidente do Haiti Leslie Manigat, entende que as cinco razões principais da cobiça pelo território haitiano são “(1) a sua posição geoestratégica no caminho ao canal de Panamá (…); (2) a necessidade de transformação econômica do Haiti (sua liberalização) e de cumprir seu papel na divisão internacional do trabalho; (3) o controle do seu comércio exterior; (4) sua dívida externa; (5) a necessidade de comprovar que uma república negra é incapaz de se autogovernar.” .

    O último aspecto salientado tem relevância especial para refletirmos sobre o cruzamento entre os interesses de classe e a questão racial. Como seres considerados sem alma e inteligência poderiam erguer-se ante um Império? A verdade é que em 1804 toda a racionalização construída para legitimar a escravidão caiu de joelho ante a revolução negra, mas eles não tardaram em criar novas pseudo-justificativas para as suas ações ofensivas movidas por um profundo ressentimento racista. Desde a primeira invasão norte-americana em 1915 até a última ocupação liderada pelo governo brasileiro, as intervenções estrangeiras ocorrem em nome da paz, mas, na realidade, tem o intuito de frear a progressão de lutas sociais contra a opressão e a exploração no país. Qual guerra existe no Haiti? Quais são os campos em conflitos?  As ofensivas militares e a ingerência estadunidense na política haitiana em todo o século XX e as primeiras décadas do século XXI são a nova face do impedimento imperialista a autodeterminação haitiana. A repressão às lutas sociais promovida pela Minustah, à serviço da superexploração nas empresas da indústria têxtil, verdadeiros engenhos do século XXI, não foi divulgada pela grande imprensa no Brasil, mas é uma constante desde 2004. Nem o trágico terremoto, em 2010, sucedido por uma epidemia de cólera, foi capaz de suscitar o senso humanitário nas potencias imperialistas, tornando-se um dos fatores da emigração que hoje desagrega a nação.

    Como bem disse o uruguaio Eduardo Galeano, a tremenda sova dada pelos escravizados nos colonizadores jamais foi perdoada pelos europeus e “a história do assédio contra o Haiti (…) é também uma história do racismo na civilização ocidental.” . Mas relembrar a resistência das negras e negros haitianos é reacender a chama da esperança na potência desse povo e apostar que a consciência preservada historicamente ajudará a germinar novas lideranças, novos projetos e impulsionar a rebeldia. Viva a luta pela autodeterminação do Haiti!

    Seguem abaixo as referências utilizadas no texto e um convite para que ampliemos o estudo do tema:

    1 – texto completo da Constituição Haitiana de 1804 pode ser acessado, em espanhol, nesse link: http://www.bdigital.unal.edu.co/6602/33/12_Cap09.pdf.
    2 – WILLIAMS, Eric (1970) apud SHAWKI, Ahmed. Libertação negra e socialismo. São Paulo: Ed. Sundermann, 2017, p. 32.
    3 – VILLABOY, Sergio Guerra. El dilema de la independência. La Habana: Editorial Félix Varela, p 43.
    4 – Ibidem, p. 44.
    5 – MOURA, Clóvis. Dicionário de escravidão negra no Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2004, p. 357.
    6 – VILLABOY, op.cit. p. 45.
    7 – REGNAUL, Elias. Historia de las Antillas. Barcelona: Imprensa del fomente, 1846, p.46. Disponível em: https://issuu.com/scduag/docs/sch13116.
    8 – MOURA, op.cit. p. 358.
    9 – VILLABOY, p. 47.
    10 – Ibidem, p. 49, tradução nossa.
    11 – JAMES, C.R.L. A Revolução e o Negro. New International , Volume V, dezembro de 1939, pp 339-343. Transcrito por Ted Crawford. Disponível em http://pretotrotskismo.blogspot.com.br/2014/01/a-revolucao-e-o-negro-clr-james.html.
    12 – VILLABOY, p. 54, tradução nossa.
    13 – MOURA, op. cit. p. 359-361.
    14 – MOURA, Clóvis. Dialética Radical do Brasil Negro. São Paulo: Anita Garibaldi, 2014, p. 80.
    15 – JAMES, C.R.L. De Toussaint L’Ouverture a Fidel Castro. In: Manuela Ribeiro Sanches (Org) Malhas que os Impérios Tecem. Textos anticoloniais, contextos pós-coloniais. Lisboa: Edições 70, 2011, p. 158.
    16 – SEGUY, Franck. Para compreender a recolonização do Haiti. In: Revista Outubro, n° 22, 2° semestre/2014, p. 91. xvii – Ibidem, p. 96.
    17  -GALEANO, Eduardo. Os pecados do Haiti. Disponível em: http://resistir.info/galeano/haiti_18jan10.h
    Imagem: Batalha em San Domingo, pintado por January Suchodolski
  • Palestina/Israel: E se Ahed Tamimi fosse sua filha?

    Por Editoria Internacional: A prisão da jovem palestina de 16 anos, Ahed Tamimi, continua despertando indignação pelo mundo afora. Porque ocorreu em frente às câmeras, por um ato de resistência elementar contra soldados de ocupação que novamente violavam seu lar e prendiam seus parentes. O artigo, publicado no jornal Haaretz, foi escrito por Gydeon Levy, que é uma das poucas vozes entre os judeus israelenses que se levantam contra as barbáries realizadas contra os palestinos. É preciso ressaltar que o jornalista teve uma evolução política muito particular e rara, tendo transitado do sionismo mais tradicional a posições de denúncia da opressão dos palestinos e de apoio ao BDS contra Israel. O próprio artigo é uma condenação entristecida do grau de degeneração racista de sua sociedade. Nestes dias, mais um fato relevante: depois de vários anos, ocorreu a maior deserção coletiva de jovens israelenses que se negam publicamente a servir no exército de ocupação de Israel, com todas as consequências práticas, laborais e de ostracismo social que significa em uma sociedade baseada na opressão sistemática de outro povo.

    Foto: Ahed Tamimi, sendo escoltado pela polícia israelense no presídio de Ofir, na Palestina ocupada. Créditos: Ammar Awad/Reuters

    Como é que os israelenses estão totalmente indiferentes ao sofrimento da garota loira atrás das grades que poderia ser facilmente sua filha?

    Nas últimas duas semanas, ela apareceu nas salas de estar dos israelenses todos os dias por meio de informes superficiais sobre a extensão de sua detenção. Novamente, vemos seus cachos dourados; outra vez vemos a figura [ao estilo de pinturas] de Botticelli vestida com o uniforme marrom do serviço de segurança (o Shin Bet) e as algemas, parecendo mais uma garota de Ramat Hasharon do que uma de Nabi Saleh.

    Mas nem mesmo a aparência “não árabe” de Ahed Tamimi conseguiu tocar os corações por aqui. O muro de desumanização e demonização que foi construído por meio de campanhas de incitamento, propaganda e lavagem cerebral contra os palestinos triunfou inclusive contra a loira de Nabi Saleh.

    Ela poderia ser sua filha, ou a filha de um vizinho, mas o abuso que ela sofre não desperta sentimentos de solidariedade, compaixão ou humanidade básicos. Após a explosão de ódio pelo fato de ela ter tido a audácia de fazer o que fez sobreveio a impenetrabilidade. “Ela é uma terrorista”. Ela não poderia ser sua filha; ela é uma palestina.

     

    Ninguém se perguntou o que teria ocorrido se Tamimi fosse sua filha. Vocês não estariam orgulhosos dela, como seu pai, que, em um artigo de opinião que merece respeito, verbalizou esse orgulho? Vocês não teriam desejado uma filha como essa, que trocou sua juventude inexistente por uma corajosa luta pela liberdade? Ou vocês teriam preferido que sua filha fosse uma colaboradora? Ou que fosse uma cabeça oca?

     

    E o que vocês teriam sentido se os soldados de um país estrangeiro tivessem invadido sua casa de noite, sequestrado sua filha de sua cama perante seus próprios olhos, a tivesse algemado e detido por um período prolongado, simplesmente porque deu um tapa no soldado que invadiu sua casa, e deu um tapa na ocupação, que merece bem mais do que tapas?

    Essas perguntas não incomodam a ninguém. Tamimi é uma palestina, ou seja, uma terrorista, e, portanto, não merece nenhum sentimento de empatia. Nada irá romper o escudo defensivo que protege os israelenses dos sentimentos de culpa, ou pelo menos de desconforto, a respeito de sua prisão absurda, sobre a discriminação feita pelo sistema judicial, que nunca teria prestado nenhuma atenção a ela se ela fosse uma colona judia.

    Mesmo a mão independente do juiz, o Major Haim Balilti, não tremeu quando determinou que o “perigo” colocado por Tamimi, uma moça desarmada de 16 anos, justifica sua detenção prorrogada. O juiz, também, é somente uma peça na máquina, alguém que realiza seu trabalho e retorna para suas filhas e filhos à noite, orgulhoso de seu dia de trabalho desprezível.

    Israel se esconde atrás de uma cortina de ferro que não é mais possível furar. Nada do que Israel faça aos palestinos é mais capaz de produzir qualquer compaixão. Nem mesmo a garota-propaganda, Tamimi. Mesmo se ela fosse sentenciada à prisão perpetua por um tapa, mesmo se fosse condenada à morte, sua punição seria recebida com clara alegria ou com indiferença. Não há lugar para qualquer outra emoção humana com relação a qualquer palestino.

     

    As organizações que representam os deficientes físicos, que travaram uma impressionante batalha por seus próprios direitos, não emitiram um pio quando um atirador de elite do Exército de Israel matou um homem com deficiência física, com as duas pernas amputadas, na Faixa de Gaza, com um tiro na cabeça. As organizações de mulheres, que lutaram energicamente contra qualquer assédio sexual ainda precisam se levantar com indignação contra o encerramento de um caso de uma presa palestina que alegou ter sido estuprada por um Policial de Fronteiras. E os membros do Parlamento não protestaram contra a vergonhosa prisão de sua colega, Khalida Jarrar, cuja detenção sem julgamento foi novamente prorrogada na semana passada por outros seis meses.

    Se até Tamimi não conseguiu despertar sentimentos de solidariedade, choque ou culpa por aqui, então o processo de negação, encobrimento e repressão – a iniciativa mais importante da ocupação depois dos assentamentos – finalmente foi completado. Nunca houve tal horripilante indiferença por aqui, nunca o autoengano e as mentiras prevaleceram de forma tão completa em Israel e nunca houve tão poucos escrúpulos morais frente à injustiça. Nunca o incitamento tinha vencido de forma tão completa.

    Os israelenses não são mais capazes de se identificar com uma brava moça, mesmo quando ela se parece com sua filha, unicamente porque ela é palestina. Não há mais palestinos que possam tocar os corações dos israelenses. Não há injustiça que possa ainda elevar nossa consciência, que se extinguiu completamente

    Não nos incomodem; nossos corações e mentes estão impermeabilizados de uma forma aterrorizante.

  • Especial Internacional: Relembre os principais acontecimentos no mundo em 2017

    Para expressar em uma palavra, 2017 foi um ano intenso. Em que pese a continuidade da recuperação da economia mundial, o que afeta a conjuntura, ainda não há perspectivas de um novo ciclo de crescimento – nem mesmo ao estilo do boom das commodities dos anos 2000.

    Por Editoria Internacional

    Marcado pela continuidade da ofensiva reacionária no mundo, começando pela posse de Trump e suas medidas, pela continuidade da situação dramática dos milhões de refugiados na Síria e no Iêmen, pelo papel crescentemente bonapartista de muitos governos como os de Erdogan na Turquia; pelo aumento das tensões geopolíticas, com o Oriente Médio e a península coreana como pontos mais altos; com a afirmação oficial pelo Congresso do Partido Comunista da China do papel do país como potência mundial ascendente sob a liderança cada vez mais centralizadora de Xi Jinping; pela sequência de ataques aos direitos dos trabalhadores e da juventude, com leis que parecem copiadas umas das outras, como as contrarreformas trabalhistas, previdenciárias e privatizantes; pelo avanço das correntes de extrema-direita pelo mundo,  embora este avanço tenha sido mediado pela melhora relativa da situação econômica.

    Mas também com a resistência das massas em muitos lados que mostra os limites que esta ofensiva reacionária está encontrando, como na Argentina, Venezuela, França e Honduras. Como nos protestos em todo o mundo árabe e muçulmano pelo reconhecimento por Trump de Jerusalém como capital de Israel. Com novos picos da questão nacional como canalização da insatisfação social nos mais variados lugares, como a Catalunha e o Curdistão. Com um novo pico nas lutas das mulheres, com lugar muito destacado para o massivo 8 de março nos EUA e a marcha mundial das mulheres no mesmo mês. Com a luta ativa contra a extrema-direita, o racismo e a islamofobia nos EUA e na Europa.

    E o ano parece que teima em terminar com as manifestações contra o indulto ao monstro Fujimori no Peru e as imagens de Ahed Tamimi, a menina palestina que foi presa de forma indefinida por enfrentar com um tapa a um soldado da ocupação israelense.

    Relembre os principais acontecimentos no mundo em 2017

    Trump assume a presidência dos EUA prometendo grandes mudanças na política nacional e externa americanas. O Esquerda Online deu extensa cobertura aos seus planos e medidas, começando pela posse no dia 20 de janeiro.

    Imagem: New York Times

    Uma rara cena: reunificação familiar de refugiados sírios que conseguiram furar o cerco cada vez mais implacável que o governo Trump impôs aos refugiados de países em que os muçulmanos são maioria. Aeroporto de Chicago, dia 07 de fevereiro.

    Imagem: Joshua Lott/Gettyimages

    Batalha para expulsar o autodenominado Estado Islâmico em Mosul massacra civis, dia 04 de março.

    Imagem: Goran Tomasevic/Reuters

    Oito de Março: Um dia sem mulheres. Seguindo uma convocação internacional, milhões de mulheres tomaram as ruas e realizaram greves. Ocorreram cerca 673 marchas em 81 países. Nos EUA e na Argentina as manifestações foram gigantescas.

    Imagem: Francis Malasig/EFE

    As eleições na Holanda deram a vitória à direita e fortaleceram a extrema-direita de Gert Wilders que se tornou o segundo maior partido do país; dia 15 de março.

    Imagem: express.co.uk

    Gigantesca marcha das mulheres contra Trump em centenas de cidades dos EUA. Washington; dia 22 de março.

    Imagem: New York Times

    27 de março: Início da Greve Geral na Guiana Francesa com a participação dos sindicatos, coletivos e associações comunitárias e políticas. Ocorreram bloqueios de estradas, paralisações do funcionalismo, entre outras manifestações. No dia 21 de abril, o governo francês fechou um acordo no qual prometia maior investimento em infraestrutura e em políticas sociais na região.

    Imagem: New York Times

    No dia 29 de março, a primeira-ministra da Inglaterra, Theresa May, invocou o artigo 50 concretizando a saída do Reino Unido da União Europeia. No dia 8 de dezembro, o Reino Unido e a União Euriopeia anunciaram um acordo para concretizar o processo de retirada do país do bloco.

    Imagem: Mike Kemp/ Getty Images

    31 de março: O parlamento paraguaio aprovou emenda constitucional que permite a reeleição de presidentes que estejam no poder ou tenham exercido o poder. Manifestantes contrários ocuparam o parlamento e atearam fogo em uma ala da casa.

    Imagem: Jorge Adorno/Reuters

    02 de abril: Vitória do candidato governista Lenin Moreno nas eleições presidenciais do Equador. Em setembro, Moreno rompeu a aliança política com o ex-presidente Rafael Correa.

    Imagem: Revista Veja

    6 de abril: Os Estados Unidos realizam um ataque massivo com 59 mísseis Tomahawk contra a base área de Shayrat na Síria. O ataque foi uma resposta a um suposto ataque químico pelo presidente Sírio Bachar Al-Assad. A eficiência do ataque foi considerada baixa por especialistas.

    Imagem: Pentágono

    A tragédia dos refugiados continuou. Migrantes na costa da Líbia; 14 de abril. 

    Imagem: Darrin Zammit Lupi/Reuters

    16 de abril: Vitória do “Sim” no referendo turco amplia os poderes do presidente conservador Recep Erdogan caminhando para um regime cada vez mais bonapartista. A vitória foi bastante apertada, 51% contra 49%.

    Imagem: Murad Sezer/Reuters

    29 de abril: Marcha do Povo pelo Clima levou às ruas centenas de milhares de pessoas em 25 países, em defesa de justiça climática, contra o aquecimento global e outras consequências ecológicas da economia capitalista. O epicentro dos protestos foi nos EUA, onde houve protestos em mais de 370 cidades.

    Imagem: Heather Craig

    07 de maio: Em eleições bastante concorridas, o candidato neoliberal Emmanuel Macron venceu a candidata da extrema-direita Marine Le Pen no segundo turno na França. Nas eleições legislativas de junho, Macron obteve ampla maioria, numa eleição marcada por um alto nível de abstenção: mais de 57% dos eleitores não votaram.

    Imagem: Jean-François Monier/AFP

    Após visita de Trump em 20 de maio, Arábia Saudita lança bloqueio contra o Emirado do Qatar, causando a maior crise entre os países que formam o Conselho de Cooperação do Golfo.

    Imagem: The Wire

    01 de junho: Trump anuncia a retirada dos EUA do Acordo de Paris que previa a redução da emissão de CO².

     Imagem: The New York Times/Chappatte

    Milhares se manifestam em Rabat, capital do Marrocos, pela libertação dos presos da região do Riff, que protestam contra a monarquia de Mohammed VI; 11 de junho.

    Imagem: Middle East Monitor

    08 de junho: Eleições britânicas dão vitória apertada para Teresa May, com uma surpreendente votação do líder trabalhista Jeremy Corbyn. Imagem do discurso de Corbyn no Glastonbury Festival, em 26 de julho.

    Imagem: The Guardian

    Ocorreu em Hamburgo, Alemanha, entre os dias 6 e 8 de julho, a reunião do G20. As manifestações foram massivas contra a cúpula de presidentes, reunindo mais de 70 mil no último dia. Houveram diversos enfrentamentos.

    Imagem: Leon Neal/Getty Imagens 

    Palestinos enfrentam as tropas de ocupação em Jerusalém Oriental em protesto contra a imposição de revista individual dos que desejavam rezar na mesquita de Al-Aqsa; 21 de julho.

    Imagem: Ammar Awad/Reuters

    Manifestação contra o assassinato indiscriminado de milhares de pessoas desde a posse do presidente Duterte, nas Filipinas; 21 de julho.

    Imagem: AFP

    O chavismo ganha as eleições para a Assembleia Nacional Constituinte na Venezuela, em 30 de julho.

    Imagem: Prensa Latina

    05 de agosto: O Mercosul suspende a Venezuela do bloco econômico, demonstrando a submissão política do governo Temer e de Macri na Argentina às políticas imperialistas.

    Imagem: Alan Santos/Revista Veja

    12 de agosto: Em resposta a um encontro da extrema-direita, militantes antifascistas protestaram na cidade de Charlottesville nos EUA. Uma militante antifascista, Heather Heyer foi atropelada e morta por um militante da extrema direita que deixou também várias pessoas feridas.

    Imagem: Joshua Roberts / Reuters

    12 de setembro: Primeira manifestação contra a Reforma Trabalhista de Emannuel Macron na França reuniu mais de 400 mil pessoas em todo país. Um ciclo de manifestações foi desencadeado contra a reforma, incluindo uma greve geral do funcionalismo público em 10 de outubro. Apesar dos protestos, a reforma foi aprovada.

    Imagem: RF1

    A temporada dos furacões causa um recorde de destruição sobre o Caribe no mês de setembro, reforçando o debate sobre os efeitos calamitosos das mudanças climáticas. Porto Rico foi particularmente devastado pelos furacões Irma e Maria, somando-se aos estragos causados pela crise da dívida que levou a um programa de austeridade sem precedentes na ilha-colônia americana.

    Imagem: Jose Romero/NASA/GOES Project/AFP

    Mãe carrega bebê morto na limpeza étnica que expulsou mais de um milhão de etnia Rohyngia em Myanmar, 14/09, nas costas de Bangladesh.

    Imagem: Mohammad Ponir Hossair/Reuters

    Eleições na Alemanha registram queda do apoio a Angela Merkel, afundamento do Partido Social Democrata e entrada dos neonazistas pela primeira vez no Bundestag desde a Segunda Guerra Mundial; 24 de setembro.

    Imagem: S. Zeitz

    25 de setembro: Vitória do “Sim” no referendo pela independência do Curdistão com 92,73%. A participação foi de aproximadamente 70%. Após o referendo, o governo iraquiano pressionou o governo regional e o presidente regional, Massud Barzani, renunciou ao seu cargo em 29 de outubro.

    Imagem: Hammed/AFP/Getty Images

    Referendo na Catalunha em 1º de Outubro dá ampla vitória pela independência da região. A declaração de independência foi realizada de maneira unilateral (e suspensa no mesmo ato), porém o governo espanhol de Mariano Rajoy destitui o governo e convocou eleições regionais para dezembro.

    Imagem: Albert Gea/Reuters

    Vários massacres foram perpetrados pelas forças repressivas na Colômbia após a assinatura do Acordo de Paz com as FARC e a entrega das armas do grupo guerrilheiro. Na imagem, o ocorrido na cidade de Nariño no dia 05 de outubro.

    Imagem: El Universal

    14 de outubro: Atentado com caminhão bomba na em Mogadíscio, capital da Somália, deixa mais de 300 mortos. É considerado o maior atentado da história do país.

    Imagem: Mohamed Abdiwahab/AFP

    Eleições legislativas na Áustria, levam direita nacionalista e extrema-direita ao governo; 15 de outubro.

    Imagem: express.com

    22 de outubro: Vitória eleitoral da coligação governista do primeiro-ministro japonês Shinzo Abe. Ele antecipou as eleições que tiveram baixa participação (53%), porém obteve 313 das 465 cadeiras do parlamento, suficientes para obter a “super-maioria” para modificar a chamada “cláusula pacifista” da constituição.

    Imagem: Kyodo News

    Na Argentina, Macri ganha a primeira minoria nas eleições legislativas e a esquerda socialista consegue mais de 1 milhão e duzentos mil votos, por meio da Frente de Izquierda y de los Trabajadores (mais de 90% do total) e a Izquierda Al Frente; 24 de outubro.

    Imagem: Esquerda Diário

    05 de novembro: Mohammed bin Salman, príncipe herdeiro da Arábia Saudita, a principal produtora de petróleo do mundo, realiza golpe palaciano. Presas cerca de 200 de pessoas, entre membros da família real e alguns dos homens mais ricos do país.

    Imagem: Saudi Press Agency

    Deliberações do 18º Congresso do Partido Comunista da China, entre 8 e 14 de novembro, anunciam a nova política chinesa para se afirmar como grande potência e a centralização ainda maior do poder na liderança de Xi Jinping.

    Imagem: Johannes Eisele/AFP/Getty Images

    Fraude nas eleições em Honduras, 26 de novembro, gera levante popular, com mais de trinta mortos. Quase um mês depois, o candidato opositor, Salvador Nasralla, com receio do movimento, aceita o diálogo, lançado pelo governo, apoiado pela Organização dos Estados Americanos e pelos Estados Unidos.

    Imagem: Task Force on the Americas

    Tribunal Constitucional da Bolívia autoriza reeleição de Evo Morales pela terceira vez em 29 de novembro.

    Imagem: Danilo Balderrama/Reuters

    Manifestações em muitas cidades em todo o mundo contra a decisão de Trump de reconhecer Jerusalém como capital de Israel, avalizando a sua anexação. Imagem de milhares de pessoas protestando em Washington.

    Imagem: Elvis Barukcic/AFP

    Extrema-direita europeia reúne-se em Praga em 15 de dezembro e procura unidade anti-islâmica e anti-imigração.

    Imagem: Michak Cizek/AFP/JC 

    Direita ganha eleições no Chile em 17 de dezembro, mas a novidade foi a Frente Ampla, de esquerda, cuja candidata Beatriz Sánchez conseguiu 20,27%, ficando a 2% de ir para o segundo turno.

    Imagem: La Nación

    Cyril Ramaphosa, bilionário, ex-dirigente sindical, é eleito como presidente do Conselho Nacional Africano, da África do Sul em 18 de dezembro. Ele está diretamente implicado no Massacre de Marikana em que 34 mineiros de platina foram assassinados em 2012, é eleito como presidente do Conselho Nacional Africano, da África do Sul.

    Imagem: GCIS

    Manifestações massivas na Argentina contra a Reforma da Previdência. No dia 14, as manifestações haviam conseguido cancelar a votação no parlamento, no entanto, a reforma foi aprovada no dia 19 de dezembro.

    Imagem: El Pais

    21/12: Vitória dos independentistas nas eleições regionais da Catalunha, apesar de que o primeiro lugar ficou com Ciudadanos, 25% dos votos, força política contrária a independência.

    Imagem: Jeff J Mitchell/Getty/Atlas

    Depois de receber os votos decisivos contra seu impeachment por parte da ala liderada pelo filho de Fujimori, o presidente Pedro Pablo Kuczynski, do Peru, indulta no Natal o ex-ditador. A resposta popular foi imediata com grandes manifestações.

    Imagem: Mariana Bazo/ Reuters

    A última imagem do ano é a de Ahed-Tamimi(E), a corajosa adolescente palestina que representa a nova geração que luta contra a ocupação e dominação de seu povo por Israel. Pelo “crime” de dar um tapa no rosto de um soldado armado até os dentes no dia 22, ela segue presa de forma indefinida, sem acusação formal, prática comum na Cisjordânia.

    Imagem: Anadolu

  • Palestina: Carta do pai de Ahed Tamimi – Minha filha, estas são lágrimas de luta

    Por Editoria Internacional: Carta de Bassem Tamimi, ativista palestino, pai de Ahed Tamimi, a jovem de palestina de 16 anos, presa por enfrentar corajosamente os soldados israelenses que mais uma vez invadiam sua casa. Ela representa, como diz seu pai, uma nova geração, forjada na luta cotidiana contra a ocupação, que não se atemoriza nem se rende ao colonialismo e opressão israelenses, apoiados cada vez mais pelo governo da maior potência da Terra, os EUA. É uma das últimas imagens de um ano e representa dignamente as mulheres que tiveram um enorme protagonismo nas lutas em todo o mundo. A carta foi publicada no jornal israelense Haaretz em 29/12/2017.

    “Estou orgulhoso de minha filha. Ela é uma lutadora pela liberdade que, nos próximos anos, irá liderar a resistência à dominação israelense.”

    Foto: AHMAD GHARABLI/AFP

    Esta noite, como todas as noites desde que dezenas de soldados invadiram nossa casa no meio da noite, minha esposa Nariman, minha filha de 16 anos,  Ahed e seu primo, Nur, passarão atrás das grades. Ainda que seja a primeira prisão de Ahed, ela não é uma estranha às suas prisões. Minha filha passou toda sua vida sob a pesada sombra da prisão israelense – dos meus longos encarceramentos durante sua infância, às repetidas detenções de sua mãe, irmão e amigos, até a aberta-encoberta presença de seus soldados em nossas vidas. Portanto, sua própria prisão só era uma questão de tempo. Uma inevitável tragédia esperando para acontecer.

     

    Vários meses atrás, em uma viagem à África do Sul, projetamos para uma plateia um vídeo documentando a luta de nosso vilarejo, Nabi Saleh, contra a dominação imposta por Israel. Quando as luzes se acenderam, Ahed levantou-se para agradecer às pessoas pelo seu apoio. Quando ela percebeu que alguns membros do público tinham lágrimas em seus olhos, ela lhes disse: “Podemos ser vítimas do regime israelense, mas estamos muito orgulhosos de nossa escolha de lutar por nossa causa, apesar do sabido custo. Sabíamos onde esse caminho nos levaria, mas nossa identidade como um povo e como indivíduos está implantada na luta e extrai sua inspiração dela. Além da opressão e da opressão diárias dos prisioneiros, dos feridos e dos mortos, também conhecemos o tremendo poder que advém de pertencer a um movimento de resistência; a dedicação, o amor, os pequenos momentos sublimes que provêm da escolha de destruir os muros invisíveis da passividade.

     

    “Não quero ser percebida como uma vítima, e não concederei aos atos deles o poder de definir quem eu sou e o que serei. Eu escolho decidir por conta própria como vocês me verão. Não queremos que vocês nos apoiem por causa de algumas lágrimas fotogênicas, mas porque escolhemos a luta e nossa luta é justa. Esta é a única forma para podermos parar de chorar um dia.”

    Meses depois daquele evento na África do Sul, quando ela desafiou os soldados, que estavam armados até os dentes, não foi uma fúria repentina pelos graves ferimentos sofridos pouco antes por seu primo de 15 anos, Mohammed Tamimi, o que a motivou. Nem foi a provocação daqueles soldados entrando em nossa casa. Não. Aqueles soldados, ou outros que são idênticos em suas ações e em seu papel, eram hóspedes indesejados e não convidados em nossa casa desde que Ahed nasceu. Não. Ela os confrontou porque esta é a nossa forma, porque a liberdade não é dada como caridade, e porque apesar do pesado preço, estamos dispostos a pagar por ele.

    Minha filha só tem 16 anos de idade. Em outro mundo, no mundo de vocês, sua vida seria completamente diferente. Em nosso mundo, Ahed é uma representante de uma geração de pessoas, de jovens lutadores pela liberdade. Essa geração precisa lutar em duas frentes. Por um lado, ela tem o dever, é claro, de continuar desafiando e lutando contra o colonialismo israelense em que nasceu, até o dia em que ele acabe. Por outro, precisa enfrentar corajosamente a estagnação política e a degeneração que se espalhou entre nós. Essa geração precisa se tornar o sangue novo que irá reviver nossa revolução e resgatá-la da morte vinculada a uma cultura de passividade que emergiu depois de décadas de inatividade política.

    Ahed é uma de muitas jovens que nos próximos anos irá liderar a resistência à dominação israelense. Ela não está interessada no destaque que está recebendo agora por causa de sua prisão, mas em mudança genuína. Ela não é o produto de um dos velhos partidos ou movimentos, e em suas ações ela está enviando uma mensagem: para sobreviver, precisamos encarar sinceramente nossas franquezas e vencer nossos medos.

    Nessa situação, meu maior dever – e da minha geração – é o de apoiá-la e lhe dar passagem; contermo-nos e não tentar corromper e aprisionar essa jovem geração na velha cultura e ideologias sob as quais crescemos.

    Ahed, nenhum pai ou mãe deseja que sua filha passe seus dias em uma cela de prisão. No entanto, Ahed, ninguém tem mais orgulho de você do que eu. Você e sua geração são suficientemente corajosas, enfim, para vencer. Suas ações e coragem me enchem de admiração e trazem lágrimas aos meus olhos. Mas, de acordo com o seu pedido, estas não são lágrimas de tristeza ou remorso, mas antes de mais nada lágrimas de luta.

     

     

     

    Bassem Tamimi