Home – Mundo

q1111233
  • Encontro Trump-Putin aumenta crise interna nos EUA

    Na segunda-feira (16), o presidente norte-americano Donald Trump, depois de passar pelo Reino Unido, terminou seu giro na Europa ao se reunir com o presidente russo, Vladimir Putin, na cidade de Helsinki, capital da Finlândia. Esta foi a primeira vez que os dois presidentes se encontraram para uma reunião bilateral oficial desde que Trump se elegeu. A recusa de Trump em admitir a interferência russa nas eleições de 2016, como afirma a CIA e o FBI, gerou duras críticas ao presidente dentro dos Estados Unidos.

    Encontro sob bombardeio
    Alguns dias antes do encontro, na sexta feira (13), o conselheiro especial do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, Robert Mueller, responsável por investigar uma possível interferência da Rússia nas eleições presidenciais de 2016, denunciou 12 oficiais militares russos por terem hackeado o e-mail do comitê de campanha de Hillary Clinton, do Partido Democrata.

    Supostamente, após obter os e-mails, estes oficiais os enviaram para publicação no site WikiLeaks. Neles continham informações sobre o favorecimento ilegal do alto escalão do Partido Democrata à Clinton em detrimento de Bernie Sanders, durante as prévias do partido para escolher seu candidato à presidência. Os democratas afirmam que esse vazamento foi crucial para a derrota de Hillary frente à Trump, em 2016.
    Este novo indiciamento gerou diversas críticas em Washington, tanto pelo Partido Democrata quanto pelo Republicano, incidindo sobre a reunião desta segunda entre Trump e Putin. Muitos pressionaram para que ela fosse cancelada e que o presidente exigisse de Putin a extradição imediata dos 12 oficiais militares em questão.
    Contudo, ao invés de criticar Putin sobre o resultado das investigações, Trump descreditou o trabalho de Mueller e o acusou de executar uma “caça às bruxas” contra seu governo. Em um tweet, na segunda-feira de manhã, o presidente afirmou que “nossa relação com a Rússia nunca foi tão ruim graças a muitos anos de tolice e estupidez norte-americana e agora, a manipulada ‘caça às bruxas’”.

    Temas espinhosos, acordos sigilosos
    Finalmente, o encontro ocorreu sob portas fechadas e durou cerca de 2 horas. De acordo com a entrevista concedida por ambos no final do dia, os principais temas discutidos foram a Coréia do Norte, Ucrânia, Síria, Israel, Irã e terrorismo.

    Todavia, não se sabe especificamente o que foi acordado em relação a todos estes pontos. Se algum acordo foi feito entre os presidentes durante sua reunião às portas fechadas, possivelmente isso só se saberá nos próximos nos próximos dias ou semanas.

    O que foi repassado por ambos na coletiva de imprensa que ocorreu em seguida, permaneceu no geral, com os chefes de estado se esquivando de todas perguntas concretas sobre as iniciativas futuras. Nela, os presidentes mencionaram esforços conjuntos para desnuclearizar a Coréia do Norte, atingir a paz na Síria e apoiar Israel, mas sem entrar em detalhes.

    Em relação à Ucrânia e Irã, confirmaram os desacordos, mas ficaram de manter canais de diálogo abertos sobre os temas. Entretanto, o principal assunto da entrevista foi a investigação sobre a interferência russa nas eleições norte-americanas de 2016.

    Putin declarou que “o estado russo não interferiu e nunca irá interferir em assuntos internos dos Estados Unidos” e negou a extradição dos 12 oficiais indiciados na sexta-feira. Contudo, o presidente afirmou que, caso seja requerido, irá permitir que Robert Mueller vá à Rússia interrogá-los pessoalmente.

    Para que isso ocorra, em contrapartida, os Estados Unidos deveriam permitir que autoridades russas interrogassem norte-americanos investigados por atividades ilegais em seu território. O governo da Rússia afirma há anos que, sob o comando de Hillary Clinton, oficiais dos EUA interferiram nas eleições de 2012 contra Putin. Esta condicionante jamais seria aceita pelos Estados Unidos, como o presidente russo bem sabe.

    Putin, no entanto, afirmou que, apesar de não ter interferido nas eleições, apoiou a candidatura de Trump em 2016 por ele defender a normalização das relações Estados Unidos-Rússia, que na época incluía a manutenção de Bashar al-Assad na Síria e o reconhecer a Crimeia como território russo.

    Relações com a Rússia: zig-zags e nova crise
    Depois de chegar na presidência, Trump terminou abandonando a efetivação da política de aproximação da Rússia defendida por ele na campanha eleitoral. Sofreu forte pressão, tanto internamente, dentro do Partido Republicano, quanto do judiciário, que investiga uma possível coordenação entre seu comitê de campanha e os hackers russos. Isso lhe custou a renúncia de secretários como, por exemplo, o ex-Conselheiro de Segurança Nacional Michael Flynn e o ex-Estrategista-chefe da Casa Branca, Steve Bannon.

    Apesar disso, em relação às investigações, Trump afirmou acreditar no presidente russo, pois, apesar de ter “muita confiança em seu departamento de inteligência”, “Putin foi extremamente forte e poderoso hoje em sua negação”. Desacreditar os próprios serviços de inteligência norte-americanos – CIA e FBI – em prol da palavra de um chefe de estado estrangeiro, gerou graves repercussões negativas para Trump nos EUA.

    Em menos de hora após sua coletiva de imprensa, Trump foi altamente criticado por membros do Partido Republicano, como os senadores John McCain, Richard Burr, Marco Rubio e Lindsey Graham, assim como o presidente da Câmara dos Deputados Paul Rayan. Todos afirmaram que a interferência russa nas eleições de 2016 é um fato, e que Trump foi infeliz ao apresentar Putin como um “amigo”.

    John Brennan, ex-diretor da CIA, afirmou que a entrevista de Trump configura como “traição”, uma vez que atesta contra o que diz ambos os serviços de inteligência do país baseado na palavra de um presidente estrangeiro. William Burns, ex-embaixador norte-americano em Moscou, declarou que Trump protagonizou o episódio mais vergonhoso dos EUA na política internacional.

    Os democratas, de olho nas eleições legislativas de novembro, sedentos por ver o atual presidente republicano sangrando politicamente, voltaram a circular rumores de impeachment. O líder democrata no Senado, Chuck Schumer, afirmou que nunca um presidente norte-americano se curvou à um inimigo nacional como Trump fez com Putin.

    Um alinhamento improvável
    O fato é que Trump tem uma política para a Rússia diametralmente oposta daquela do establishment do partido Republicano e Democrata. Para ele, é necessário estabelecer uma parceria estratégica com os russos para o combate ao verdadeiro inimigo dos EUA no século XXI: a China.

    Essa tese é defendida pelos setores “realistas” da política externa norte-americana, como o teórico John Mearsheimer e o ex-ministro de relações exteriores Henry Kissinger, que atua esporadicamente como conselheiro de Trump em assuntos externos. A condicionante para esta parceria seria o reconhecimento norte-americano da Crimeia como território legalmente russo. Muitos políticos dos EUA temiam que Trump pudesse fazer uma concessão à Putin nestes termos durante o encontro de segunda.

    Contudo, este setor pró-Rússia é minoritário na política norte-americana e também no gabinete de Trump, fazendo com que o atual presidente não consiga colocar esta política em prática. Não por acaso o substituto do pró-russo Michael Flynn foi o general H R. McMaster, marcadamente defensor de políticas agressivas à Rússia.
    Após a controvérsia gerada pelo seu encontro com Putin nesta segunda, Trump deve manter as diretrizes do establishment republicano e os EUA devem permanecer com sua política agressiva em relação à Rússia. A promessa de um “novo futuro” na relação entre os dois países muito provavelmente irá continuar no campo da retórica e das intenções.

  • Reino Unido: centenas de milhares tomam as ruas contra Trump em meio à crise do governo e indefinição do Brexit

    O presidente dos EUA, Donald Trump, realizou sua primeira visita ao Reino Unido entre os dias 12 e 15 de julho. Como era esperado, mesmo com uma agenda enxuta e programada para evitar grandes cidades e multidões, a visita gerou manifestações de centenas de milhares em Londres e outras cidades do país. Além disso, ocorreu em um momento extremamente delicado da política britânica, com o governo da Primeira Ministra Theresa May (Partido Conservador) enfrentando sua maior crise política com as indefinições sobre os rumos do Brexit tomando conta de todos os noticiários.

    Governo em crise

    Com a vitória de Trump nas eleições dos EUA e o crescimento das forças de extrema-direita na Europa, May operou um deslocamento político de seu governo na mesma direção Porém, os ventos logo começaram a tomar outro sentido. Em maio de 2017, o candidato neoliberal Macron derrotou a Frente Nacional de Le Pen na França, fortalecendo as frações imperialistas pró-UE e freando o crescimento dos setores ultranacionalistas e populistas de direita. Em junho de 2017, Theresa May convocou eleições gerais antecipadas, apostando em uma esmagadora vitória contra o Partido Trabalhista que pudesse conferir maioria absoluta dos Conservadores no Parlamento Britânico – outro erro fatal, já que ao invés de ampliar o peso dos Conservadores diminuíram. Os Trabalhistas, com a candidatura de Corbyn à frente, surpreenderam.   

    Desde então, sob a pressão crescente da UE e de setores da burguesia britânica, particularmente neste ano, o governo May vem fazendo uma reorientação de volta ao “centro”, ou seja, em direção à agenda mais tradicional do imperialismo global na abordagem do Brexit. Diferente dos discursos de um ano atrás, o Brexit que está sendo encaminhado pelo governo britânico altera muito pouco as relações existentes entre a Grã-Bretanha e a EU, apontando uma saída mais simbólica que efetiva do Reino Unido do bloco.

    Os últimos dias foram bastante movimentados confirmando, não sem crises, essa reorientação. No dia 08 de julho, um domingo, o secretário (ministro) responsável pelas negociações do Brexit com a UE, David Davis, renunciou atacando a política do chamado soft-Brexit. No dia seguinte ocorreu a renúncia do ministro das Relações Exteriores, Boris Johnson, um dos principais ministérios, sendo ele próprio uma das principais lideranças do Partido Conservador. Ainda naquela semana, vários Parlamentares do próprio Partido Conservador criticaram abertamente o governo. A BBC, por sua vez, chegou a noticiar que alguns deles articulavam uma Moção de Desconfiança, o que derrubaria o governo.

    O ultra-conservador Jacob Ress-Morg, liderança da ala “Tea Party” dos Conservadores, também se lançou em ataques públicos e diretos à Theresa May. O “problema” é que, dessa vez, não existem condições para um novo acordo que venha a indicar um primeiro-ministro (PM) sem eleições gerais. Tudo isso sob o espectro de “Jeremy Corbyn” rondando o Palácio de Westminster, as rodas conservadoras de todos os cantos do país e, até mesmo, a Europa.

    Trump: um visitante inoportuno

    Nesse clima, a visita de Trump ao Reino Unido não poderia deixar de ser um evento muito esperado. O governo temia que sua presença impulsionasse grandes protestos que terminassem voltando contra a própria Theresa May. Bem, foi exatamente o que ocorreu.

    Sabendo do potencial mobilizador da repulsa ao presidente americano, Trump chegou em um aeroporto afastado da região de Londres, só indo de helicóptero à capital para pernoitar na residência da embaixada, que foi totalmente isolada. O cerimonial montou uma agenda oficial enxuta, concentrada em apenas um dia, e afastada dos centros urbanos. Foram encontros com a PM Theresa May durante o dia e um chá com a Rainha ao final da tarde. Após o chá, Trump embarcou para a Escócia, onde passou o final de semana em uma estância de golfe de sua propriedade no interior do país.

    Porém, mesmo nesse curto espaço de tempo em que este no país, o estrago foi grande. Trump deu uma entrevista a um tabloide local onde disse literalmente que “o Brexit que está sendo aplicado não é o que foi votado pelos britânicos”, que “este modelo de Brexit inviabiliza acordos bilateriais entre EUA e GB” e que “Boris Johnson daria um excelente Primeiro Ministro”. Isso jogou muita lenha na fogueira da crise de Theresa May, dentro e fora do Partido Conservador. Trump também falou, durante a declaração conjunta entre os dois mandatários, que “a imigração estaria desfigurando a cultura europeia, o que é muito ruim”.

    Depois, Trump recuou parcialmente sobre algumas de suas declarações, negando que houvesse feito aquelas afirmações e chamando a imprensa local de fake news (o que só serviu para irritar os jornalistas, pois tudo havia sido gravado). Segundo relatos de jornalistas presentes ao encontro, o ambiente era de bastante constrangimento. Theresa May se diferenciou de Trump sobre imigração – quando ela respondeu que “os imigrantes contribuem com a cultura britânica e europeia”, e se esquivou de comentar as declarações de seu colega americano. No domingo, em uma entrevista à BBC (TV), May disse entre risos, em tom meio debochado, que Trump havia dito para ela “não negociar, mas processar” a União Europeia.

    Assim, mesmo se não houvesse nenhum protesto tivesse ocorrido, a visita de Trump já teria sido um desastre para o governo britânico. Mas a mobilização anti-Trump aconteceu: não foi nem um pouco pequena, nem irrelevante.

    Mais de 150 mil foram às ruas em grande estilo

    Na sexta-feira 13, dia dos compromissos oficiais de Trump com May e a Rainha, manifestações gigantes tomaram Londres e outras cidades da Inglaterra, Escócia e País de Gales. A marcha em Londres foi gigantesca, apesar de ser em uma sexta – as grandes manifestações são geralmente marcadas para sábados, para permitir maior participação. Uma caricatura de Trump como um bebê, feita em um balão, voou por toda a capital. Essa passeata foi maior que a de janeiro de 2017 e com uma composição social mais variada.

    A marcha do dia 13 teve vários protagonistas. As mulheres, que foram vanguarda na marcha contra sua posse, estiveram presentes em grande número denunciando o machismo e a opressão. Os principais sindicatos estavam com suas colunas, ligando a luta contra Trump ao embate contra as políticas de austeridade do governo e denunciando as privatizações e entrega de patrimônio envolvidas nos “acordos bilaterais” que Trump quer estabelecer com May. O youthquake da juventude lutando por perspectivas também se fez bastante presente. Muitos imigrantes, refugiados e organizações que os apoiam, como a Anistia Internacional – na Escócia, um paraquedista com uma bandeira do GreenPeace furou o isolamento da polícia e chegou a alguns metros de Trump. Até mesmo profissionais liberais da City deram uma escapada e se juntaram a manifestação. Um deles, carregava um cartaz dizendo “Não costumo ir a manifestações, mas Trump não me dá outra escolha”.

    A marcha foi encerrada com um ato na Trafalgar Square, que contou com um discurso de Corbyn atacando a agenda de ódio, racismo e xenofobia e combatendo a austeridade. Trump foi, sem dúvida, recebido em grande estilo pelos trabalhadores, mulheres, jovens e imigrantes britânicos.

    Brexit: Novo Referendo?

    Um dia antes dos atos contra Trump, o governo britânico publicou o White Paper com sua política para o Brexit. Como esperado, aponta uma saída muito leve, quase simbólica, do Reino Unido em relação à UE. Os críticos, inclusive de dentro do círculo governista, apontam que o país seguirá atado às normas europeias, mas sem o poder de intervir como um estado-membro sobre elas.

    Com isso, cresce muito a campanha por um novo Referendo. Nesta segunda-feira, dia 16, uma importante ex-ministra e aliada de May, Justine Greening, veio à público chamar um novo pleito, o que foi prontamente negado uma vez mais pelo governo. Com um setor do Partido Conservador se descolando de May e exigindo um Brexit mais duro – um “hard Brexit” -, outros começam a se se posicionar por um novo referendo com o objetivo de anular o Brexit. O fato é que o governo está cada vez mais isolado dentro de seu próprio partido.

    Por outro lado, a direita do Partido Trabalhista vem chamando um Novo Referendo desde o início do ano. Chuka Umunna, principal liderança Blairista no Parlamento, vem desafiando Corbyn nesse sentido há tempos. No final de semana de Trump, Tom Watson, vice-líder do Labour e principal organizador das últimas tentativas de remover Corbyn, disse à BBC que “embora a política do Labour não seja essa, não podemos descartar completamente a realização de um segundo referendo”. Mas não é só na direita do Partido que esse movimento vem tomando forma. Várias correntes e setores de esquerda vem chamando um novo referendo para bloquear o processo de saída, seja adotando um discurso muitas vezes pró-UE, ou mesmo contrário a ela.

    A esquerda não pode cair em armadilhas e se dividir. O governo May está pendurado por um fio. A possibilidade de um governo Jeremy Corbyn e o Manifesto “For the Many not the Few” se fazem mais presente do que nunca. Nem o Brexit racista e xenófobo defendido pela direita, que visa apenas aumentar a exploração e opressão de todos os trabalhadores, especialmente os imigrantes; nem a União Européia, clube imperialista que explora os trabalhadores dentro e fora de suas fronteiras.

    A extrema direita perde peso

    Após as últimas eleições locais terminaram o processo que já estava claro: o sepultamento do UKIP. O UKIP (Partido pela Independência do Reino Unido) chegou a ser o terceiro principal partido em importância política do país em 2015. Na época era definido como um dos partidos “mais dinâmicos da Europa”. O UKIP cumpriu um papel de liderança na campanha pelo Brexit, com um discurso xenófobo e populista de direita. Seu então líder, Nigel Farage, chegou a ser amigo pessoal de Trump e foi o primeiro personagem político europeu a encontrá-lo depois que venceu as eleições. Nas eleições locais desse ano, das 126 cadeiras que o UKIP ainda ocupava, sobraram apenas seis.

    Isso não quer dizer que a extrema-direita esteja morta na Grâ-Bretanha. Ela se enfraqueceu, sem dúvida. O fenômeno Corbynista conseguiu, com uma agenda anti-austeridade e, em certos pontos, anticapitalista, ocupar pela esquerda o descontentamento de amplos setores da classe trabalhadora.

    O espaço da extrema-direita agora é disputado por setores do Partido Conservador, que tendem a se radicalizar e aparecer mais nessa disputa contra o modelo proposto de Brexit. Também aparece em organizações como a FLA (Associação de Torcedores de Futebol, tipo uma associação de Hooligans) e correntes ultraminoritárias neofascistas como Britain First e EDL. Estes agora organizam uma campanha pela libertação de Tommy Robinson, ex-dirigente do nazista BNP. Robinson está preso desde o ano passado por obstrução à justiça.

    A FLA chegou a organizar uma manifestação esse ano que contou com cerca de 15 mil presentes, pela “liberdade de expressão”. No final de semana da visita de Trump, chamaram outra manifestação no sábado, em apoio a Trump e pela libertação de Robbinson. O ato foi bem menor que o anterior, menor inclusive que o contra-ato chamado por grupos de esquerda e antirracistas. Porém, depois dos atos, um grupo de militantes da FLA atacou com cadeiras e cacos de vidro um dirigente do RMT (sindicato de transportes) em um Pub no centro de Londres. É preciso estar atento, repudiar e combater o ressurgimento da extrema-direita racista e xenófoba, seja sob qual forma ela se apresentar.

    De toda forma, não podemos deixar de observar que, sem dúvida, diferente da maioria dos países da Europa continental, no último período a situação da Inglaterra vem girando cada vez mais à esquerda. A esquerda socialista tem que saber aproveitar esse novo momento adotando uma política à altura da situação.

  • Haiti: a renúncia do primeiro-ministro e a continuidade da crise

    Jack Guy Lafontant, primeiro-ministro do Haiti, renunciou ao cargo nesse sábado (14), após semana marcada pela forte greve geral, ocorrida entre segunda e terça-feira, e a paralisia do governo de Jovenal Moise (Partido Tèt Kale) ante a pressão do FMI pela continuidade da aplicação do ajuste econômico na ilha.

    A renúncia foi uma ação combinada entre o presidente, o premiê e os líderes da Assembleia Nacional, que visam acalmar os ânimos populares. Entretanto, a situação de Moise complica-se a cada dia. O presidente eleito no pleito manipulado de 2016 já não possui a mínima base social para governar.

    Por um lado, a elite haitiana, completamente desprovida de um projeto de desenvolvimento autônomo do imperialismo, acirra seus conflitos internos. Um dos agentes fundamentais da renúncia de Lafontant foi o Fórum Econômico do Setor Privado, o grupo mais poderoso do país, que exigiu sua saída na última terça-feira. De acordo com o jornalista Alcides Carrazana, setores da burguesia comercial, nutridos pelas exportações com a República Dominicana, visam derrotar o governo como um todo devido o aumento nas taxas aduaneiras promovido por Moise. As antigas lideranças, corresponsáveis pela crise, encontram-se acuadas. Na semana passada, o ex-presidente Michel Martelly foi o primeiro a fugir de helicóptero para a República Dominicana, que, sob as ordens do presidente Danilo Medina, ampliou o controle da fronteira temendo uma nova onda de imigração.

    Ao mesmo tempo, o povo haitiano reinventa seus métodos de resistência. De acordo com Henry Boisrolin, do Comitê Democrático Haitiano, a situação após a insurreição é explosiva e programas de rádio veiculam diariamente mensagens conclamando a manutenção das barricadas, o fechamento do parlamento e a deposição do presidente pela ação popular, após o impacto das mobilizações de rua e da greve geral.

    FMI mantém pressão pelo ajuste
    Na última quinta-feira, Gerry Rice, diretor do Departamento de Comunicação do FMI, emitiu declaração afirmando que o pacote “proposto” pela banca internacional deve ser mantido na pauta do governo. Disfarçado de “ajuda humanitária”, as medidas ampliam a dependência externa da ilha. A dívida externa haitiana é estimada em U$ 890 milhões, sendo 41% relacionados com o Banco Interamericano de Desenvolvimento, maior credo do país, e 21% com o Banco Mundial. O FMI propõe o fim dos subsídios aos produtos derivados do petróleo, a privatização de empresas estratégicas e a continuidade da política econômica desenvolvida por Moise.

    Desde o governo Martelly a economia haitiana foi dolarizada. Hoje, 1 dólar equivale a 60 gourdes e a valorização da moeda estadunidense tem pressionado a elevação de preços dos produtos importados, impactando na inflação que varia entre 11% e 15%. Moise e o Tèt Kale congelaram o salário mínimo em 350 gourdes por dia, ou menos de U$ 6, ao passo que estudos demonstram que as necessidades básicas dos trabalhadores podem ser atendidas com cerca de 1.248 gourdes diários. Desemprego, miséria, violência e completa ausência de direitos sociais representam o plano do imperialismo para o Haiti, enquanto as remessas diárias para fora do país seguem na casa dos U$ 8 milhões.

    Com o povo haitiano, em defesa da sua autodeterminação!
    Para onde vai o Haiti? Essa é a grande questão da política caribenha nesse momento. Estamos falando de um país que possui em seu DNA a experiência da primeira revolução anticolonial vitoriosa em nosso continente. Por isso, jamais deixou de resistir à política de intervenção permanente do imperialismo. A insurreição popular abriu uma nova situação e, diante da insistência do FMI e da burguesia nacional em aplicar os planos de ajuste, é possível apostar em novas irrupções pelas ruas de Porto Príncipe e outras cidades da ilha no próximo período.

    Após a demissão de Lafontant, a linha de Moise – orientada pelo FMI e o Fórum Econômico do Setor Privado – será a constituição de um novo governo de unidade nacional. Entretanto, para além da crise gerada pelo aumento dos combustíveis, a situação haitiana remete aos problemas históricos do desenvolvimento econômico e social, agravados recentemente pela intervenção militar que restringiu ainda mais os direitos democráticos e auxiliou na imposição do projeto econômico imperialista, além dos trágicos terremotos dos últimos oito anos que abalaram as péssimas condições estruturais.

    A radicalidade dos protestos indica bem os alvos da insurreição haitiana: os prédios públicos que simbolizam o poder corrupto e antipopular, os hotéis construídos com dinheiro público que não servem à população, os carros da polícia violenta, a sequência de saques nos centros comerciais da elite haitiana. De forma consciente ou não, esse repertório de ação aponta a desorganização do sistema neocolonial no Haiti e a necessidade do protagonismo popular assumir a vanguarda na luta pela autodeterminação nacional e a reconstrução do país a partir de uma perspectiva democrática, igualitária, antirracista e de integração entre os povos latino-americanos.

     

    LEIA MAIS

    Aumentos nos combustíveis, greve geral e repressão: entenda a crise no Haiti

  • Tribunal alemão extradita ex-presidente catalão Puigdemont: oportunidade para retomar luta pela independência

    Nesta quinta-feira (12), a justiça alemã determinou a extradição para o Estado Espanhol do ex-presidente catalão Carles Puigdemont. Ele é acusado de promover desordem e rebelião, por conta do plebiscito separatista da Catalunha, em outubro passado. O Estado Espanhol considerou ilegal o plebiscito. O Tribunal Superior de Scheleswig-Holstei, que julgou Puigdemont, concluiu que ele era inocente da acusação de rebelião, porém, o condenou pelo crime de apropriação indevida de fundos, uma penalidade muito menos grave.

    Pelo entendimento do Tribunal da região em que o presidente catalão se encontra detido, a convocatória do plebiscito não seria considerada algo fora da lei e não se enquadra na acusação de alta traição feita pelo Estado Espanhol. O Tribunal afirmou que Puigdemont não é o responsável pela violência que tomou as ruas de Barcelona e de outras cidades catalães, e que ele não estava sendo extraditado por conta do crime de desordem pública.

    De acordo com as regras de extradição da União Europeia, euroorden, o governo do Estado Espanhol agora pode julgar Puigdemont apenas pelo motivo que ele foi condenado na Alemanha, ou seja, por ter desviado cerca de 7 milhões de reais dos cofres públicos.

    Este fato deixou um gosto amargo de derrota para o Estado Espanhol. Em seu twitter, Puigdemont comemorou a decisão: “Derrotamos a principal mentira sustentada pelo Estado. A Justiça alemã negou que o referendo do 1º de Outubro foi uma rebelião”. Os advogados do ex-presidente catalão afirmaram que vão recorer a condeção de apropriação indevida.

    Também pelo twitter, Maria Senserrich, o porta voz do PdeCat, partido de Puigdemont, afirmou: “O presidente Puigdemont e os conselheiros, assim como os Jordis, são pessoas honestas e pacíficas que não cometeram nenhum crime, nenhum é nenhum”.

    Já o coordenador geral do Izquerda Unida, Alberto Garzón, colocou que: “não se trata do independentismo, mas sim de direitos civis e de liberdades, a quem os pirómanos1 do Ciudadanos e Partido Popular chamam de “golpismo”, não é sequer crime nos países democráticos da Europa”.

    É importante lembrar que o Estado Espanhol mantém em cárcere seis políticos catalães, em um grave ataque a democracia. Puigdemont e os demais membros do governo e Parlamento Catalão foram presos e denunciados por conta do plebiscito realizado em primeiro de outubro passado.

    A luta pela independência: um novo momento?
    O referendo sobre a independência da Catalunha do Estado Espanhol realizado em 1º de Outubro do ano passado terminou com uma vitória de 93% dos votos pela independência. O ex-primeiro ministro, Mariano Rajoy do PP mandou reprimir fortemente as manifestações pela independência, criando diversos confrontos, feridos e de forma autoritária fechando locais de votação e sedes de partidos que defendem a independência. Rajoy considerou o referendo ilegal e não reconheceu a legitimidade do mesmo. O PSOE (Partido Socialista), que a partir de 1º de junho deste ano tem Pedro Sánchez no cargo de primeiro-ministro após deposição de Rajoy, cumpriu um papel nefasto no processo da luta catalã, ao se colocar contra o plebiscito e ao lado do PP, do Ciudadanos e da Monarquia.

    Os maiores partidos de esquerda do Estado espanhol como o Podemos e a Izquerda Unida, apesar de apoiarem o plebiscito e serem contra a repressão de Rajoy, também se opuseram na época à Declaração Unilateral de Independência, criada em 10 de outubro e referendada no dia 27 pelo parlamento catalão, buscando um acordo para um referendo com Madrid.

    A própria direção catalã de Puigdemont e do PDeCAT tampouco defendeu até as últimas consequências a independência catalã, mostrando seus limites e contradições no confronto com a burguesia espanhola e europeia. Logo após a declaração de independência, em 27 de outubro, Puigdemont foi destituído. Sob ordem de prisão abandonou o país, refugiou-se em Bruxelas junto com outros dirigentes independentistas, recuou da independência e aceitou a realização de novas eleições em 21 de dezembro.

    Apesar do partido anti-separatista (Ciudadanos) ter conseguido obter a maior quantidade de cadeiras de deputados, os três partidos que formam o bloco independentista – Juntos pela Catalunha, de Puigdemont, a Esquerda Republicana da Catalunha (ERC) e as Candidaturas de Unidade Popular (CUP) – conseguiu a maioria das vagas e teve a quantidade de votos necessária para indicar o próximo presidente catalão. O governo espanhol, entretanto, exigiu que o novo governo não tivesse nenhum membro condenado pelos tribunais espanhóis. Depois de sete meses de crise política aceitou-se a condição e Quim Torra, presidente do Òmnium Cultural, assumiu a presidência em 2 de junho deste ano.

    No momento, a luta pela independência catalã deu alguns passos para trás em comparação com outubro passado ou até mesmo os primeiros meses desse ano. Porém, com este novo fato político com a extradição de Puigdemont, pode-se retomar a luta pela independência catalã e exigir a libertação de todos os presos políticos. Novas manifestações massivas podem ser organizadas, agora sob o novo governo do PSOE. Há que acompanhar atentamente essa nova situação.

    1 Pirómeno é um transtorno mental que leva uma pessoa a ficar obcecada com o fogo. O sujeito se sente atraído a provocar e propagar o fogo. Isto faz que se dedique a provocar incêndios de forma intencional, gozando do processo e das consequências.

  • Trump ataca Alemanha e países europeus no encontro da OTAN e aumenta crise na parceria transatlântica

    Entre os dias 11 e 12 de julho, ocorreu o encontro da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), aliança militar ocidental entre Estados Unidos, Canadá e Europa. Mais uma vez, o presidente norte-americano Donald Trump criticou os países europeus por não atingirem a meta estabelecida pela OTAN em 2006 de investir no mínimo 2% do PIB para própria defesa nacional, aumentando os rumores sobre a profundidade da crise na aliança. Além disso, atacou a Alemanha pelas suas relações energéticas com a Rússia e a construção do gasoduto Nord-Stream 2.

    Desde que Trump assumiu a presidência dos Estados Unidos, em 2017, a relação dos norte-americanos com a Europa vem enfrentando uma de suas piores crises desde o pós-Guerra. Além de Trump apoiar o Brexit e criticar publicamente a União Europeia (UE) sobre sua política de entrada de refugiados, agora ocorre uma guerra comercial entre os Estados Unidos e os países da UE que atingiu seu clímax após a reunião do G7 este ano.

    Devido a este clima de tensão, Jens Stoltenberg, presidente da OTAN, mudou o caráter do encontro para emergencial, fazendo com que só participassem dela os líderes e altos oficiais dos países membros. Outros observadores e países convidados, como Geórgia e Ucrânia, foram convidados a retirarem-se.

    Desde o encontro da aliança no ano passado, Trump vem pressionando os países europeus a aumentarem imediatamente o seu orçamento interno para a defesa e gastos militares da OTAN. Desde 2014, após a Rússia ter anexado a península da Crimeia, antes pertencente à Ucrânia, os países europeus começaram este processo. De lá para cá, o orçamento da OTAN aumentou em $86 bilhões de dólares devido à esta iniciativa.

    Contudo, para Trump, isto não é suficiente. Atualmente, além dos EUA, apenas Grécia, Reino Unido, Letônia e Estônia cumprem a meta de 2% do PIB para a própria defesa nacional. No encontro da OTAN de 2017, foi estabelecido um acordo para que, até 2024, esta meta fosse cumprida por todos os membros. Agora, 17 dos 24 países “inadimplentes” já estão nesse rumo.

    Destes 2%, uma pequena porcentagem é enviada para o orçamento comum da OTAN. Atualmente, os Estados Unidos são responsáveis por 22% deste orçamento, seguido pela Alemanha com 14% e França e Inglaterra com 10%.

    Este ano, porém, Trump decidiu voltar a pressionar seus parceiros europeus, argumentando que 2% do PIB para a defesa não deve ser um objetivo para 2024, mas sim de imediato. Durante o encontro desta semana, defendeu que todos os países membros devem atingir a meta ainda este ano, e em uma década dobrá-la para 4% do PIB.

    O centro da polêmica, novamente, é com a Alemanha
    Tal como no encontro de junho do G7, o centro da crítica de Trump no encontro da OTAN foi a Alemanha. Primeiro, o presidente norte-americano criticou severamente o país mais rico da UE por investir apenas 1,2% do PIB em defesa. Segundo, Trump criticou as relações energéticas entre Alemanha e Rússia, em particular sobre a construção do gasoduto Nord-Stream 2.

    Este gasouto, que será construído até 2020, irá dobrar a exportação de gás russo para a Alemanha através do mar Báltico, conectando diretamente o transporte do produto entre os países. Os alemães vêm sofrendo duras críticas em relação a este projeto, em particular da Polônia e Ucrânia, pois ele irá diminuir a relevância dos gasodutos que hoje passam pela Europa Oriental.

    Isto significa que, caso a Rússia ataque os países do leste-Europeu ao cortar seu fornecimento de gás, isto não afetará a Alemanha e os países da Europa Ocidental. Quando a Rússia cortou o suprimento de gás para a Ucrânia, em 2006, ela foi alvo de pressão por parte dos alemães, pois o país foi indiretamente afetado por esta política. Com o Nord-Stream 2, isto não mais ocorrerá.

    A Alemanha encara a construção deste novo gasoduto como estratégico, pois as reservas energéticas extraídas do Mar do Norte estão cada vez mais diminuindo. Quando os EUA impuseram sanções econômicas à Rússia, em 2017, em relação à construção do Nord-Stream 2, tanto alemães quanto austríacos criticaram os EUA por fazerem uma ameaça ilegal à segurança energética europeia.

    Ainda, os alemães afirmam que a construção deste gasoduto não tem nenhuma relação com o governo do país, cujo orçamento de 9,5 bilhões de euros é inteiramente privado. Contudo, a presença do ex-chanceler alemão, Gerhard Schröder, na diretoria da Nord-Stream 2, fez com que os demais países compreendessem a construção do gasoduto como uma política de estado alemã.

    Apesar da Gazprom, empresa energética estatal russa, ser proprietária integral do gasoduto, metade do financiamento do projeto vêm de 5 empresas europeias: Uniper e Wintershall (Alemanha), OMV (Áustria), Engie (França) e Royal Dutch Shell (Holanda).

    A questão é que a cooperação entre Alemanha e Rússia é bem conhecida há décadas. Desde 1990, os alemães se envolveram em diversos projeto de cooperação econômica com os russos, por quem entendiam estar em dívida pelo processo pacífico de reunificação. Atualmente, cerca de 40% da energia alemã vêm da Rússia, com estimativa de aumentar para 50% até 2025, após a construção da Nord-Stream 2.

    Por isso, Trump chegou a afirmar neste encontro da OTAN que a Alemanha é uma “refém” da Rússia, reivindicando que o país pare de importar gás deste país, à exemplo da Polônia. Segundo ele, os alemães reivindicam contraditoriamente que os Estados Unidos os protejam da Rússia, enquanto eles próprios enviam bilhões de dólares ao país. Além dos EUA, outros países europeus como Reino Unido e Polônia são muito críticos à construção do gasoduto.

    A chanceler alemã Ângela Merkel decidiu colocar “panos quentes” nessa história, apenas afirmando que, diferente da época Guerra Fria, quando a Alemanha estava dividida e sua porção oriental era aliada da União Soviética, agora o país já é independente da Rússia e pode decidir sua política externa de forma autônoma. Afirmou ainda que até 2024 seu orçamento militar irá aumentar em 80% em relação à última década.

    Finalmente, após o encontro, Trump divergiu publicamente com o presidente francês, Emmanuel Macron, e o primeiro ministro italiano, Giuseppe Conti, sobre o acordo firmado entre os países. Trump afirmou que foi decidido o aumento do orçamento militar no longo prazo para 4%, enquanto os europeus negaram, apontando que a resolução apenas reitera o compromisso de 2% para 2024.

    Este encontro da OTAN foi o primeiro ponto de um giro internacional de Trump, que irá à Inglaterra discutir o Brexit e depois à Rússia, para o tão esperando encontro com Vladimir Putin. Novos fatos que estão por vir, cujos desdobramentos poderão abalar ainda mais a atual ordem mundial.

  • Para onde vai a Grécia? Conclusões da aplicação do 3º Memorandum

    Com a chegada ao poder do Governo Syriza/Anel e a sua traição no referendo de Junho de 2015, a situação política na Grécia tem sido marcada por uma diminuição das lutas e uma desmoralização da classe trabalhadora de conjunto.

    Daqui não decorre que os trabalhadores e trabalhadoras deixaram de lutar ou de sair à rua. Continuam a existir greves e lutas, como, por exemplo, contra os despejos e leilões de casas, por parte dos bancos, mas estas são agora com menor impacto do que na situação anterior.

    A situação politica grega, marcada pelas grandes e múltiplas greves gerais, entre o ano de 2010 e 2013, alterou-se. As lutas e greves contra o 3º memorando, aprovado e aplicado pelo Governo Syriza/Anel, existiram, mas foram lutas mais fracas, que têm vindo a perder espaço para outros protagonistas1.

    Ainda assim, os motivos para que as greves e as lutas tivessem maior participação mantiveram-se, pois, o Governo continuou a seguir a linha da austeridade. Foram feitos cortes nas pensões, foi vendido tudo o que restava de empresas públicas e soberania do país,2através da privatização dos Portos, da Refinaria de Elefsina, da Empresa da Água (EYDAL), das companhias de eletricidade (DEI), entre outras. O Governo Syriza/Anel chegou mesmo a aprovar um conjunto de medidas de alteração da lei que regula o direito à greve, no sentido de o limitar e, em última instância, de impedir o seu exercício. Esta política do Governo Syriza/Anel tem provocado descontentamento no povo grego, empurrando-o para a procura de alternativas políticas na oposição, onde se encontram a direita e extrema-direita.

    Crescimento da extrema-direita
    Os últimos meses têm sido marcados por novos ataques da extrema-direita a casas ocupadas e imigrantes. No passado dia 20 de maio, Yannis Boutaris, Presidente da Câmara de Salonica3, numa cerimónia evocativa dos soldados gregos, mortos na I Guerra Mundial, acabou agredido e hospitalizado, depois de ter sido atacado por elementos de extrema-direita.

    Este ressurgimento da extrema-direita, após o seu recuo em 2013, com a prisão de vários membros da sua direção4, enquadra-se nas tendências que se têm verificado um pouco por todo o mundo: vitória de Trump; crescimento eleitoral de Marine Le Pen, em França; Governo de Viktor Orbán, na Hungria; Governo Italiano do M5S e da Liga, etc.

    O papel criminoso do Governo Syriza/Anel, bem como o da Nova Democracia (ND) e o da UE têm contribuído para este contexto mundial. O acordo de expulsão de refugiados dos territórios europeus, assinado entre a UE e Turquia, aceite pelo Governo grego5, apenas vem reforçar, a par com a humilhação austeritária que continua em desenvolvimento, as concepções ultranacionalistas na região.

    Uma manobra democrática para esconder as mãos sujas de austeridade
    Aquele conjunto de factores precisa ser amenizado e o Governo grego tentou contrabalançar as duras doses de austeridade com uma manobra política de concessão às reivindicações democráticas do Estado balcânico independente, desde 1991, da Macedónia.

    No dia 17 de Junho, os Ministros dos Negócios Estrangeiros, grego e macedónico, assinaram um acordo que acede a que aquele Estado se possa designar por República da Macedónia do Norte, colocando fim a uma disputa com quase três décadas e abrindo caminho à possibilidade de aquele Estado pertencer agora à UE e à NATO6.

    Com este episódio, a ND e a Aurora Dourada (AD), aproveitando o descontentamento com a austeridade, vão cavalgando a discussão em torno da ex-república jugoslava da Macedónia7,tendo levado, em Fevereiro, milhares de gregos às ruas, contra a possibilidade de aquele Estado passar a ser internacionalmente reconhecido com o nome de Macedónia. A posição da direita e dos ultranacionalistas gregos é justificada pela não aceitação de que aquele Estado vizinho possa ter o nome de “Macedónia”, uma vez que consideram que a região grega do Norte, com mesmo nome, deve manter-se única com tal designação. Alegam, inclusive, que o seu vizinho tem um projeto para anexar o Norte da Grécia. A ND chegou mesmo a apresentar uma moção de censura ao Governo Syriza/Anel, devido ao acordo estabelecido com Governo da agora designada República da Macedónia do Norte. A moção de censura não passou.8

    Em resumo, o fortalecimento e mobilização de rua pela direita e extrema-direita é um elemento novo, na realidade grega, que tem vindo a acentuar-se nos últimos 6 meses. A extrema-direita e a direita mais reacionária voltam a ganhar espaço, seja na rua com ataques a imigrantes e militantes de esquerda,seja a nível institucional, com impacto na situação politica9.

    Este crescimento não é, pois, alheio ao processo de desilusão dos trabalhadores gregos com o Governo do Syriza/Anel. Esse desânimo com o Governo empurra sectores da população na procura por uma alternativa política que prometa uma política diferente daquela que tem sido seguida.

    Conclusão do 3º Memorando: a austeridade é para continuar
    A reunião do Eurogrupo, que se realizou no dia 21 de Junho, decidiu “concluir” o 3º Memorando em Agosto de 201810. Contudo, é importante ressalvar que, na verdade, o fim do terceiro programa de austeridade não termina exactamente este ano.

    Em 2017, aquando das negociações entre o Governo Syriza/Anel, a UE e o FMI, para a libertação de mais uma tranche dos empréstimos externos, o Governo de Tsipras assinou um acordo que previa medidas de austeridade para os anos de 2018 a 202011.

    Mário Centeno, Presidente do Eurogrupo, já disse que a “saída do programa é um processo gradual e não automático”, utilizando Portugal como exemplo, pois, contrariamente ao discurso que utiliza no contexto interno nacional, refere que o país continuou a implementar “reformas relevantes depois da saída da Troika”.

    O plano da UE e de Mário Centeno, acordado na referida reunião do Eurogrupo, é o de, a partir do final do programa grego, manter aquele país sob “vigilância reforçada”12, ou seja, sob as revisões trimestrais de monitorização. Desta forma, FMI, UE e BCE continuam a dominar a política grega e a aplicar as doses de austeridade que acharem necessárias, sob o eufemismo de “reformas estruturais”, enquanto vão prometendo um “alívio” da dívida pública do país13.

    A verdade é que aquele “alívio” sobre a dívida pública grega é prometido em troca de mais austeridade pela UE, praticamente desde 2015. No fundo, o que se tem verificado até hoje, é a inexistência de uma verdadeira reestruturação da dívida pública. Tsipras e o seu Governo têm cedido constantemente em nome dessa eventual redução ou renegociação da dívida. No entanto, tal não passa de um perpetuar do seu pagamento, através do alargamento dos prazos14.

    Se dúvidas houver, fiquemos apenas com o facto de que as decisões tomadas pela UE e BCE têm por base um cenário em que a Grécia terá de atingir um excedente primário orçamental de 3,5% do PIB, até 2022 e de prosseguir, depois, até 2060, dependente de um ritmo de crescimento de 2,2% do PIB. Parece evidente, para qualquer um, que a única promessa é a de continuidade da linha austeritária sobre a Grécia ad eternum. No fundo, a “saída” grega do 3º memorando é apenas uma forma de ir gerindo uma crise europeia em lume brando.

    A Grécia já perdeu praticamente todas as suas empresas públicas estratégicas, devido às privatizações dos sucessivos governos. Tem a sua soberania entregue em mãos estrangeiras, pelo que as decisões económicas e políticas vão manter-se sob a tutela da Troika. A Grécia encontra-se com cerca de 21% de desemprego15, segundo os dados oficiais, e um desemprego jovem completamente absurdo de 42,3%. Registra uma das dívidas públicas mais altas do mundo, 180% do PIB. Como é fácil de ver a Grécia “sai” deste 3º memorando extremamente dependente, empobrecida e humilhada.

    Por uma esquerda independente e anti-capitalista
    As consequências das políticas da UE, do FMI, do BCE e dos sucessivos governos gregos não são animadoras para o povo e para a esquerda grega. As sondagens apontam que o falhanço do Governo Syriza/Anel está a ser capitalizado pela direita (ND) e extrema-direita (AD), sendo que a ND poderá mesmo vir a ser vencedora nas próximas eleições de 2019. A AD que estava debilitada, no último ano, começou novamente a erguer-se e veremos o resultado que terá.

    Mas certo é que a actual governação grega, assente na conciliação de classes, está a ter como consequência o reforço da direita mais reaccionária, nacionalista e xenófoba. Urge a construção de um terceiro campo dos trabalhadores, independente do Governo Syriza/Anel e da direita reacionária/extrema-direita.

    A Unidade Popular, o KKE e a Antarsya têm a tarefa de reforçar um polo socialista e independente da burguesia. Com um programa de ruptura com a UE e o Euro como forma de restabelecer a soberania nacional, que proponha nacionalizar a banca e todos os setores e empresas estratégicas. Uma força política que tenha um perfil claro em defesa dos direitos das mulheres, dos imigrantes, dos refugiados e das LGBTQI+. É urgente unir as forças de esquerda para se apresentar como alternativa tanto ao governo do Syriza, quanto da extrema direita.

    4https://www.rtp.pt/noticias/mundo/lideranca-do-aurora-dourada-isolada-em-prisao-de-alta-seguranca_n685258

    5https://esquerdaonline.com.br/2017/06/08/grecia-governo-syriza-submisso-com-os-credores-e-duro-com-os-refugiados/

    6https://www.publico.pt/2018/06/17/mundo/noticia/ja-ha-acordo-assinado-sobre-o-nome-da-macedonia-1834648

    7http://expresso.sapo.pt/internacional/2018-02-05-Macedonia-so-na-Grecia-dizem-gregos-em-manifestacoes#gs.AgqDSss

    8http://rr.sapo.pt/noticia/116103/grecia-tsipras-ultrapassou-mocao-de-censura

    9http://antarsya.gr/node/4868

    10https://observador.pt/2018/05/24/eurogrupo-toma-em-junho-decisoes-para-conclusao-do-resgate-a-grecia/

    11http://www.mas.org.pt/index.php/internacional/europa/1354-grecia-continua-sob-o-fogo-da-austeridade.html

    12http://expresso.sapo.pt/economia/2018-06-21-Uma-reuniao-para-recordar.-Europa-empenhada-em-saida-limpa-da-Grecia#gs.L7ml=ZE

    13https://www.jornaldenegocios.pt/economia/europa/uniao-europeia/detalhe/centeno-ve-enorme-potencial-da-grecia-e-da-portugal-como-exemplo

    14http://expresso.sapo.pt/economia/2018-06-21-Uma-reuniao-para-recordar.-Europa-empenhada-em-saida-limpa-da-Grecia#gs.L7ml=ZE

    15https://observador.pt/2018/04/12/desemprego-na-grecia-cai-para-206-em-janeiro/

  • EUA na contramão do mundo: direitos reprodutivos e a Suprema Corte americana

    Nesta segunda-feira (9), Donald Trump nomeou seu segundo juiz para a Suprema Corte americana em menos de dois anos. De forma semelhante ao nosso Supremo Tribunal Federal, a Suprema Corte americana funciona como principal autoridade jurídica dos Estados Unidos. Primeiro juiz indicado pelo presidente americano Donald Trump, Neil Gorsuch foi nomeado para preencher a vaga de Antonin Scalia, um dos juízes indicados pelo ex-presidente Ronald Reagan. Enquanto a nomeação de Trump foi confirmada pelo Senado, a primeira indicação para o preenchimento deste cargo foi destinada a Merrick Garland, por Barack Obama. A confirmação desta nomeação, porém, acabou sendo adiada por 10 meses até, por fim, expirar.

    A Suprema Corte americana se encontra dividida entre quatro conservadores indicados por presidentes republicanos, incluindo-se aí o presidente da Corte e quatro democratas. A vaga a ser preenchida era antes ocupada pelo juiz Anthony Kennedy, indicado por Ronald Reagan, e juiz que por diversas vezes – por conta de suas instâncias quanto ao casamento entre pessoas do mesmo gênero e questões de direitos reprodutivos, como o aborto – serviu para desempatar votos em direções por vezes progressistas.

    A escolha de Trump para a nomeação, Brett Kavanaugh, representa a solidificação dos medos compartilhados por muitas das mulheres e pessoas LGBTs, ao ver o candidato republicano à Presidência ser eleito. Com 53 anos, se confirmado, Kavanaugh se tornará o juiz mais jovem em uma Corte em que dois dos mais velhos são democratas. Este fato não só consolida uma maioria mais conservadora na Suprema Corte, mas assegura que esta seja muito provavelmente duradoura.

    Apesar de tudo, é o histórico de Kavanaugh com casos que lidam com o aborto que mais parece trazer preocupações. Enquanto vemos movimentos pró-aborto ganharem espaço e obterem vitórias importantes no mundo inteiro, como demonstram as recentes votações na Argentina e Irlanda, a nomeação pode levar os Estados Unidos na direção contrária.

    Anthony Kennedy, o juiz a ser substituído, foi um dos que votaram, ainda no início dos anos 1990, para manter a decisão histórica de Roe vs Wade; decisão esta que reconhece o direito ao aborto. Enquanto Kavanaugh não declarou sua posição frente a Roe vs. Wade, ao ser confirmado ao Tribunal de Apelação do Circuito do Distrito de Columbia, em 2006, o juiz ressalta que pretende cumprir a determinação feita pela Suprema Corte, e se recusa a dar sua opinião pessoal sobre o caso. Nos perguntamos, então, o que fará o juiz estando em posição, como membro da Suprema Corte americana, para reverter a decisão.

    Além disso, Kavanaugh ficou conhecido, no ano passado, por negar a uma imigrante adolescente, sendo detida por imigração ilegal, o direito a abortar. Este caso levou muitas organizações ligadas aos direitos reprodutivos a repudiarem sua nomeação à Suprema Corte, que representa, segundo estas, uma real chance de ver o direito ao aborto ser mais uma das perdas impostas pelo governo Trump.

  • As birras de Trump e a economia mundial

    A reunião do G7, no Quebec, Canadá, foi um marco em muitos aspectos. Primeiro, houve uma clara ruptura com a habitual e insípida unidade de políticas e objectivos das reuniões do G7 pelos líderes dos sete principais países capitalistas do mundo.

    Pouco antes da reunião do G7, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tinha anunciado uma série de medidas tarifárias protecionistas contra o resto do G7, incluindo o seu vizinho mais próximo, o Canadá, sob a justificação de estar a proteger a sua “segurança nacional” – aparentemente, o Canadá é um risco de segurança para os EUA. Ao fazê-lo, Trump cumpriu com as suas promessas eleitorais.

    No encontro, Trump chocou com os restantes líderes, alegando que seus governos estavam a impor regras comerciais “injustas” aos produtos norte-americanos e que precisavam reduzir os seus excedentes comerciais com os EUA. Os outros líderes já haviam respondido às medidas tarifárias dos EUA com tarifas recíprocas, planeadas sobre as principais exportações dos EUA, e agora respondiam aos ataques de Trump com argumentos e provas de que, pelo contrário, foram os EUA que restringiram as importações de bens e serviços estrangeiros.

    E assim a guerra comercial começou – uma guerra a que as grandes economias capitalistas não recorriam desde a depressão dos anos 1930 e que deveria ser resolvida no âmbito dos acordos internacionais como o Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT, em inglês), a Organização Mundial do Comércio (WTO, em inglês) e o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA, em inglês), no período pós-guerra. Trump apelidou a WTO de o pior acordo comercial possível e o NAFTA de o segundo pior (para os EUA). Os Estados Unidos protegeram os estados capitalistas europeus e japoneses, com seus exércitos e armas nucleares, contra a suposta ameaça russa, e agora está na hora de aqueles estados pagarem tanto em gastos com defesa quanto em acordos comerciais “mais justos”. A verdadeira ironia neste argumento de Trump está no seu pedido para que a Rússia, o suposto inimigo, volte a ocupar um lugar à mesa das negociações.

    O que todos estes malabarismos de Trump revelam é que o período da “Grande Moderação” e da globalização, decorrido entre os anos 1980 e 2007, quando todos os principais Estados capitalistas trabalharam em conjunto para beneficiar o capital em todos os países (em graus variados), acabou. A Grande Recessão, de 2007-8, e a, consequente, Longa Depressão, desde 2009, mudaram o quadro económico. Numa economia capitalista mundial estagnada, onde o crescimento da produtividade é baixo, o crescimento do comércio mundial diminuiu e a rentabilidade do capital não recuperou, a cooperação foi substituída pela perversa competição.

    Trump é o líder “populista” e nacionalista da maior potência capitalista; Itália (a potência mais fraca do G7) tornou-se “populista” e nacionalista também. E a Grã-Bretanha está trancada no poço do “Brexit”, um desastre para o capital britânico que ele mesmo criou. O ataque de Trump fez com que o encontro do G7, marcado para discutir a crescente desigualdade social, a automação e as alterações climáticas – os principais desafios, de longo prazo, para a sobrevivência do capitalismo – tivesse ficado paralisado.

    Por enquanto, isso pouco importa. A economia mundial está realmente a atravessar o seu melhor momento desde o final da Grande Recessão. O Banco Mundial estima que o crescimento do PIB real, em termos mundiais, seja de 3,1% este ano, o mesmo que em 2017. Isso pode não parecer grande coisa mas é uma recuperação, após o período de quase recessão de 2015-6, quando o crescimento global caiu para 2,4% e as economias do G7 não foram além dos 1,5%. Agora as economias do G7 estão a expandir-se em torno de uma taxa de 2,5%. O desemprego nos EUA, no Reino Unido e no Japão alcançaram os valores mais baixos de todos os tempos. E mesmo na Europa, a taxa de desemprego caiu para 8%, ainda acima dos níveis pré-crise, mas a marcar uma tendência de regresso a tais níveis.

    No entanto, os economistas do Banco Mundial, nas suas Perspectivas Económicas Globais mais recentes, não estão convencidos de que esta leve recuperação (ainda cerca de 30% abaixo da taxa de crescimento mundial pré-crise) seja sustentada. “Espera-se que caia nos próximos dois anos, à medida que a folga global se vá dissipando, o comércio e o investimento vão arrefecendo e as condições de financiamento se estreitem. O crescimento nas economias avançadas deve desacelerar, conforme a política monetária se normalize e os efeitos do estímulo fiscal norte-americano diminuam”. Para além disso, “os riscos para o futuro permanecem inclinados para baixo. Incluem movimentos desordenados do mercado financeiro, aumento do proteccionismo comercial, aumento da incerteza política e aumento das tensões geopolíticas, que continuam a obscurecer as perspectivas”.

    Sugeri, no final do ano passado, que o ciclo comercial, de curto prazo, de 2015-16 iria atingir o seu pico em 2018 e depois voltaria a afundar em 2019-20. “O que parece ter acontecido é que houve uma recuperação cíclica, de curto prazo, a partir de meados de 2016, após uma quase recessão global desde o final de 2014 até meados de 2016. Se o nível mais baixo desse ciclo de Kitchin foi em meados de 2016, o seu pico deveria ser em 2018, com um novo afundamento depois daí”. Em Abril do presente ano, voltei a afirmar esta previsão.

    Os economistas do Banco Mundial parecem concordar. Eles esperam que o crescimento económico mundial diminua para 2,9% até 2020. “A expansão económica global continua robusta, mas suavizou-se. A atividade global ainda está aquém das expansões anteriores, e o crescimento deverá desacelerar em 2019-20, já que o comércio e o investimento estão moderados. O progresso na renda per capita será desigual e insuficiente para combater a pobreza extrema na África Subsaariana”. E “não obstante a expansão global em curso, apenas 45% dos países deverão experimentar uma nova aceleração do crescimento neste ano, abaixo dos 56%, em 2017. Além disso, a atividade global ainda está aquém das expansões anteriores, apesar da década de recuperação desde a crise financeira global. Desta forma, o Banco Mundial calcula que a Longa Depressão irá continuar.

    E tudo isto assumindo que não haverá uma nova recessão mundial nos próximos dois anos. Embora não haja sinais imediatos de uma nova recessão global (de fato, aparenta o oposto), há muitos fatores que sugerem que ela não estará assim tão distante. O primeiro é o facto óbvio de que a atual muito fraca recuperação da Grande Recessão é a segunda expansão mais longa no período pós-1945, atingindo dez anos no próximo verão de 2019 – se durar tanto tempo.

    E depois há a rentabilidade. No primeiro trimestre de 2018, as 500 principais empresas dos EUA obtiveram um aumento de 26% no lucro, por ação. Mas isso foi principalmente devido a uma enorme redução de impostos, criada pela Administração Trump. Quando se olha para os lucros de todo o setor corporativo, antes das reduções de impostos, houve uma queda, no primeiro trimestre de 2018 (-0,6%), que se seguiu a uma queda no quarto trimestre de 2017 (-0,1%). Com os benefícios fiscais, os lucros aumentaram 6%. A grande bonança de Trump será apenas pontual. E a rentabilidade média, nas economias do G7, permanece abaixo dos níveis pré-crise, mesmo após dez anos de recuperação.


    E o grande risco que temos pela frente é a combinação da queda da rentabilidade com a alta e crescente dívida, nos setores empresariais do G7. Se os lucros começarem a cair, enquanto o custo do serviço das dívidas aumenta, à medida que as taxas de juros sobem, estará composta a receita para novas falências empresariais e uma nova crise da dívida. A dívida global, nomeadamente a dívida empresarial, está nos níveis mais elevados de todos os tempos.


    Em 2017, a dívida subiu 10,2%, face a 2016. Desagregando por setor, a dívida empresarial, não financeira, cresceu 11,1%, a dívida pública cresceu 6,7%, a dívida das famílias cresceu 12,5% e a dívida do setor financeiro cresceu 11,3%.


    O nível de dívida dos mercados emergentes será insustentável porque, entre outras razões, a dívida amadurece e deve ser paga ou refinanciada. Aqui está a dívida do mercado emergente por maturidades:


    Muitos dos negócios e empresas financeiras dos mercados emergentes contraíram empréstimos em dólares, já que o dólar estava relativamente fraco e as taxas de juros dos EUA ridiculamente baixas. Grande parte destes fluxos de capital para as economias emergentes não se destinou a investimento produtivo, mas sim à atividade especulativa. Os fluxos de capital, de longo prazo, para os setores produtivos das economias emergentes (FDI, em inglês) estão em declínio desde a Grande Recessão.
    A bonança do crédito acabou. Cerca de 4,8 biliões de dólares em dívidas dos mercados emergentes irão vencer, a partir deste ano até 2020, muitos destes precisarão de ser empurrados para o futuro a taxas geralmente mais altas e, se a valorização do dólar continuar, está criado um ambiente cambial desvantajoso.

    Os sinais de quebra já estão a aparecer em algumas das maiores economias emergentes. A Argentina rebentou e foi forçada a ser intervencionada pelo FMI, no valor de 50 mil milhões de dólares, já que não pode contrair mais empréstimos nos mercados de títulos internacionais, a custos acessíveis. A economia mergulhou, a inflação subiu e a moeda caiu. O Brasil não está muito diferente. A economia brasileira está a lutar para crescer e, ainda assim, tem os maiores custos do mundo com os juros das dívidas. No primeiro trimestre de 2018, a economia da África do Sul registou a maior contração dos últimos nove anos, com os investimentos das empresas a cair drasticamente. E a moeda da Turquia, a lira, atingiu os mínimos de todos os tempos, à medida que a inflação anual alcançou mais de 12%; os investidores estrangeiros têm retirado o seu dinheiro da Turquia e o banco central elevou a sua taxa de juros para quase 18%.

    Mas o fundamental será provavelmente a dívida das empresas nas economias do G7. A dívida das empresas não financeiras dos EUA atingiu uma alta pós-crise, de 72% do PIB. Em torno de 14,5 biliões de dólares, em 2017, um aumento de 810 mil milhões de dólares face ao ano anterior, com 60% do aumento decorrente da concessão de novos empréstimos bancários. Atualmente, o financiamento de títulos corresponde a 43% da dívida, com prazo médio de vencimento, de 15 anos, contra o prazo médio de 2,1 anos para os empréstimos comerciais dos Estados Unidos. Isso implica cerca de 3,8 biliões de dólares em amortizações de empréstimos, por ano. “Neste contexto, o aumento das taxas de juros aumentará a pressão sobre as empresas com grandes necessidades de refinanciamento”. (IIF)

    Além das taxas de juros mais altas, as empresas que precisam de crédito (em oposição às de alta classificação que recorrem a empréstimos somente porque podem fazê-lo mais barato) tendem a ser mais arriscadas. Um relatório recente da Moody’s revelava que 37% da dívida das empresas não financeiras dos EUA está abaixo do nível de investimento, cerca de 2,4 biliões de dólares.


    Além disso, todas as empresas, tanto da categoria de investimento real quanto as especulativas, aumentaram significativamente o seu endividamento desde a Grande Recessão. Algumas empresas contraem empréstimos para financiar recompras de ações, mesmo tendo um vasto fluxo de caixa e reservas. Estas podem facilmente pagar os seus empréstimos, se necessário. Mas as empresas menores e mais arriscadas não têm essa escolha. O negócio não financeiro médio está cerca de 20% mais endividado do que no momento da crise financeira global, em 2007-8. Grande parte dessa dívida é avaliada em BBB, o menor grau de investimento. Isto significa que eles estão apenas um nível acima da notação de “lixo”. O número de empresas com rating BBB cresceu 50%, desde 2009.


    A recessão global não está presente em 2018 – pelo contrário, a economia global está a crescer mais rapidamente do que em qualquer outra altura, desde 2009. Mas esse crescimento pode ter atingido o pico e, nos próximos 18 meses, a economia mundial poderá cair para uma possível recessão. Como podemos saber? Bem, como argumentei antes, a rentabilidade do capital deve começar a cair novamente e, eventualmente, os lucros totais das empresas das principais economias devem parar de subir. Se o custo do serviço da dívida também aumentar, então estão criadas as condições para a falência de empresas.

    Um sinal viável que, no passado, o comprovou, foi a inversão das taxas juros. Normalmente, a taxa de juro para os empréstimos, por um ano, é muito mais baixa do que a taxa de juro dos empréstimos, por dez anos, por razões óbvias (o credor é reembolsado mais rapidamente). Portanto, a diferença entre a taxa de dez anos e a de um ano é normalmente positiva (digamos, 4% em comparação com 1%, respectivamente).

    A ideia geral é a de que quando as taxas de longo-prazo estão a subir mais rapidamente que as taxas de curto-prazo, tal indica que o crédito é de fácil acesso e que os lucros são altos devido ao crescimento económico também em aceleração. Mas quando as taxas de curto-prazo se elevam acima das taxas de longo-prazo, tal indica que as condições de crédito se tornaram mais restritivas, em comparação com os lucros, e que há uma probabilidade muito alta de que uma recessão chegue dentro de um ano.

    O estratega de investimentos do RBC, Jim Allworth, avalia que: “não houve recessão em mais de 60 anos que não tenha sido precedida por uma inversão da curva das taxas de juros. Em média, a curva das taxas de juros inverteu 14 meses antes do início de uma recessão (mediana de 11 meses). O menor “aviso antecipado” foi de oito meses. Ainda não estamos lá, nos EUA, e certamente nem perto na Europa. Mas a curva dos EUA está indo nessa direção”.


    As birras comerciais de Trump e o risco crescente de uma guerra comercial que poderia sufocar a atual “recuperação” só aumentam os riscos subjacentes a uma nova crise global no futuro.

  • Vitória de Democratas Socialistas da América (DSA) causa terremoto político no Partido Democrata e nas Eleições Legislativas dos EUA

    Os Estados Unidos vão passar por suas eleições legislativas (as midterms) no mês de novembro. Elas são realizadas justamente no período em que o presidente chega na metade de seu mandato. Por isso servem para avaliar o governo, agora com Trump à frente. O número de parlamentares eleitos pelo governo e oposição define a relação de forças entre os Democratas e os Republicanos na Câmara dos Representantes e no Senado.

    Tradicionalmente, a oposição tende a ganhar essas eleições. Os analistas já apontam que os Democratas vão se tornar maioria na Câmara dos Representantes, mas dificilmente conseguem superar o número de Republicanos no Senado, visto que a maioria das cadeiras que serão trocadas são de Democratas. De toda forma, a vitória dos democratas na Câmara dos Representantes praticamente já inviabiliza a aprovação de qualquer coisa por parte de Trump.

    Mas o que tem chamado a atenção é o fato de que nas internas que escolhem os candidatos do Partido Democrata, uma nova geração de candidatos que se apresenta como socialistas, muitos deles gente comum, está sendo escolhida pelos eleitores do partido. Dentre esses estão os candidatos dos Democratas Socialistas da América (DSA, Democratic Socialist of America).

    Vitória de socialista gera crise no partido Democrata
    O resultado da plenária (prévias) do Partido Democrata no distrito catorze de Nova York surpreendeu todo o país. No distrito de Queens e Bronx, bairros com um importante peso operário, a candidata Alexandria Ocasio-Cortez, uma garçonete de 28 anos, socialista, feminista, latina e membro do DSA, venceu o atual congressista Joseph Crowley, um candidato experiente, com uma política centrista, representante clássico da máquina eleitoral Democrata, de Wall Street e do establishment.

    A vitória de Ocasio-Cortez gerou um verdadeiro terremoto político. Mesmo não sendo favorita, alcançou 58% de votos. Todos os mais importantes jornais, até aqueles com pequena circulação, estavam comentando e divulgando a vitória da jovem socialista. Ela se tornou uma espécie de nova celebridade da política norte-americana, colocando a discussão sobre o socialismo e as injustiças do capitalismo nas casas de milhares de pessoas.

    Inclusive por meio de mídias nada tradicionais, como a revista Vogue, na qual a filha de porto-riquenhos deu uma entrevista e falou sobre socialismo: “Quando falamos sobre a palavra socialismo, eu penso que isso realmente significa a participação democrática onde o povo decide, e uma dignidade econômica, social e racial (…) em uma sociedade moderna, moral e rica, nenhuma pessoa na América deve ser pobre demais para viver”.

    Seu adversário nas plenárias democratas, Joseph Crowley, 56 anos, atua no Congresso desde 1999 e era apontado por muitos como o futuro presidente da Câmara. Ele usou 3 milhões de dólares em sua campanha, tendo apoio de todo o partido em Nova York.

    O jornal New York Times afirmou que o resultado nas primárias com a vitória de Ocasio-Cortez foi “a parte mais significativa para um candidato democrata em mais de uma década, e que terá reflexo para o partido e para o país”.

    Ocasio-Cortez foi a primeira em 14 anos a disputar o domínio de Crowley no distrito NY-14. Foi uma vitória imensa. Com uma campanha que tinha slogans como “Nós temos as pessoas. Eles têm dinheiro” e “Esse é o momento de um dos nossos”, Ocasio-Cortez agora é vista como favorita para derrotar o representante do Partido Republicano, Anthony Pappas. O distrito em disputa é historicamente dos Democratas, assim ela tem tudo para se tornar a mulher mais jovem a chegar ao parlamento dos Estados Unidos.

    A campanha da membro do DSA arrecadou 313 mil dólares, não recebendo dinheiro de nenhuma empresa ou corporação. Da quantia final, 210 mil vieram das chamadas pequenas doações, onde apoiadores doam um valor na quantia de até 200 dólares.

    Sua campanha focou em questões essenciais e controversas na política norte-americana. Ocasio-Cortes buscou dar voz aos setores oprimidos, como LGBTs, mulheres, negros e imigrantes. Um dos focos foi a defesa de um sistema de saúde público, o Medicarer for All, luta da qual os membros do DSA são linha de frente. Outro foco foi pelo fim do Serviço de Imigração e Controle, sendo a primeira candidata a levantar esta pauta após os escândalos de separação de crianças imigrantes e seus pais, que chocaram todo o mundo.

    Muitos comentaristas e antigas lideranças do partido Democrata atacaram Ocasio-Cortez, afirmando que ela não irá conseguir manter suas promessas de campanha. Um dos ataques mais frequentes era colocá-la, por conta de seu discurso radical, no mesmo patamar de Trump, afirmando que nem um tipo de “radicalismo” seria saudável. Outros, como a colunista do Business Insider, Daniella Ngreenbaum, criticou o Partido Democrata por aceitar que Ocasio-Cortez e outros membros do DSA concorram pelo partido.

    Um fenômeno que é continuidade do que expressou Bernie Sanders
    A vitória de Ocasio-Cortez, apesar de ter abalado fortemente o partido Democrata, o establishment e ter chocado a mídia, não foi um raio em céu azul. Em primeiro lugar mostra o desgaste dos já conhecidos figurões da política norte-americana e da própria máquina do partido democrata. É um rechaço ao establishment, assim como também é uma mostra de que as pautas voltadas a questões sociais e a classe trabalhadora tem peso efetivo nos Estados Unidos. Programas como o Medicare for All são defendidos pela maioria da população, e movimentos grevistas da classe trabalhadora, progressistas e manifestações massivas estão crescendo como uma resposta a Trump e o fortalecimento de ideias nacionalistas e de extrema-direita.

    Em segundo lugar, por isso mesmo, embora Ocasio-Cortez seja a maior expressão no terreno eleitoral do crescimento de pautas progressivas, mas não foram as únicas. Em maio desse ano, nas prévias do partido Democrata para a Assembleia Legislativa do estado da Pensilvânia, o DSA conseguiu três vitórias contra membros da máquina eleitoral do partido. Summer Lee, 30 anos, e Sara Innamorato, 32, derrotaram membros de uma importante família local, que já eram membros da Assembleia. Nas eleições locais para Câmaras locais e algumas estaduais, o DSA impulsionou em todo o país – em alguns locais com membros e em outros apoiando independentes – 15 candidaturas eleitas, um número expressivo e nunca alcançado antes.

    Num sentido, esse fenômeno político à esquerda é continuidade do que ocorreu com a candidatura de Bernie Sanders nas primárias para a presidência dos Democratas em 2016, quando então enfrentou Hilary Clinton. Seu programa defendia os serviços públicos, como saúde e educação, o salário mínimo e o emprego universal, sendo contrário as grandes doações para a campanha e a interferência do mercado financeiro na política. Embora reformista, Sanders se autodenominou socialista, coisa que até então era praticamente impossível de se ver nos Estados Unidos. Sanders perdeu para Hillary Clinton nas primárias, mas o efeito que sua candidatura foi enorme: ainda hoje é o político preferido por 53% dos americanos.

    O despertar dos Millennials e sua aproximação dos socialistas
    Uma pesquisa feita no ano passado demonstra o que está por trás desses fenômenos: 51% dos jovens americanos entre 18 e 29 anos preferem o socialismo ao capitalismo. Ainda de acordo com o jornal The Nation, mesmo entre os adultos, a preferência pelo socialismo é de 37% da população. Ainda que a definição de socialismo seja difusa, confundindo-se na maioria das vezes com a defesa dos serviços públicos e do estado de bem estar social, significa um enorme e importantíssimo avanço, particularmente para um país como os EUA.

    A crise econômica, a falta de emprego e de perspectiva, a falta de saúde, educação e previdência pública, assim como os efeitos negativos que o governo Trump vem causando, fazem com que surjam novos movimentos sociais, como o Black Lives Matter e o Occupy Wall Street, assim como o fenômeno Bernie Sanders e, agora, os candidatos socialistas, no aspecto eleitoral. Os jovens americanos nunca viveram o socialismo e não têm uma grande referência sobre o que ocorreu na União Soviética. Porém, eles vivem sob o capitalismo, desumano, e percebem que a única alternativa é mudar esse sistema.

    O fato de Sanders dizer que adota como política o “socialismo-democrático” terminou ajudando, ainda que de forma inconsciente, a que milhares de pessoas, sendo a ampla maioria os jovens, passasse a procurar organizações socialistas. A literatura socialista e mesmo a marxista também vem chamando atenção dessa nova geração, os Millennials (a geração da internet), como vem chamando a sociologia.

    A revista Jacobin, que é considerada a publicação de esquerda radical de maior sucesso nesse século, tem uma audiência de mais de 18 mil exemplares vendidos por tiragem, e um acesso de 700 mil visitas por mês em seu website.

    Organizações como o DSA, de Ocasio-Cortez, teve um crescimento exponencial após a campanha de Bernie Sanders, saltando de sete mil membros filiados para 37 mil e, em julho, alcançaram 44 mil membros. O grupo que não faz parte do partido Democrata, mas apresenta a maioria de seus candidatos nas internas, é hoje a maior organização socialista dos Estados Unidos.

    Além do DSA, organizações marxistas e revolucionárias também tiveram um expressivo crescimento como é a Organização Socialista Internacional (ISO, International Socialist Organization) e a Alternativa Socialista (Socialist Alternativ). Este último conseguiu eleger uma vereadora na cidade de Seattle. Sem dúvida, os socialistas norte-americanos estão ante um novo momento histórico.

     

    SAIBA MAIS

    Entenda como funcionam as eleições legislativas de novembro nos EUA

     

    Esquerda Online participa da Conferência Socialism 2018, em Chicago (EUA)

    O voto contra Trump e seu significado

     

    Entenda como funcionam as eleições legislativas de novembro nos EUA

  • A outra face de Stálin

    O afastamento da realidade, o distanciamento que se acentuava continuamente, dominando cada vez mais um número maior de pessoas, não era uma característica especial do regime nacional-socialista. Ora, enquanto em circunstâncias normais dar as costas à realidade é uma atitude corrigível pelas opiniões das pessoas que nos rodeiam, pela zombaria, pela crítica, pela perda de confiança, no Terceiro Reich não havia tal corretivo.
    (Albert Speer, Por dentro do III Reich: in A significação na fotografia, Antonio Vicente Seraphim Pietroforte, Annablume, 2016, p.19).

    Os espelhos refletiam sempre a imagem do meu rosto, a única imagem que eu podia ver refletida neles. Nenhuma visão estranha perturbava a uniformidade daqueles cem rostos, sempre os mesmos, a uniformidade do meu eu multiplicado
    (idem, p.20).

    Reprodução

    Depois da derrota da Alemanha para o México na Copa da Rússia, começou a circular na rede um meme com a foto de Stálin e a seguinte frase: “Eu avisei: aqui a Alemanha não vence”. O “recado” faz alusão à vitória do Exército Vermelho contra os nazistas, na Segunda Guerra: os alemães capitularam na Batalha de Stalingrado, em 1943, sendo definitivamente derrotados em 1945, quando os russos invadiram Berlim e tomaram o Reichstag (o parlamento alemão). Por isso, Stálin está rindo com sarcasmo, em trajes militares e pose triunfal, como se fosse o grande estrategista da queda do Terceiro Reich.

    Mas ele está com o rosto virado: não aparece na foto a outra face. Como está olhando “oblíquo e dissimulado” para a câmera, não dá para ver também as suas costas: a foto não mostra o que está “por trás” dessa história. Por exemplo, a assinatura do “Pacto Molotov-Ribbentrop” (em 1939, em Moscou), firmando o compromisso de não-agressão entre os dois países na guerra de rapina imperialista. Não aparecem na foto os vinte milhões de civis e militares russos que tombaram na resistência à ofensiva alemã: nem, obviamente, os dois milhões de corpos não localizados. O sorriso irônico do georgiano para a lente disfarça que ele foi surpreendido por Hitler, traído pela confiança no cumprimento do “pacto de não-agressão” pelos nazistas.

    A foto também não mostra o germe dessa espúria relação, já que a foto é sempre um recorte do presente. O passado não posa para a câmera, não aparece no retrato: quem olha para o “velho Stálin” não consegue ver a sombra do “jovem Josef” na Alemanha de 1923. De volta ao passado, nesse mesmo ano em que os franceses ocuparam a região do Ruhr, um bolchevique próximo do futuro ditador, Radek, havia se tornado o principal dirigente do KPD (Partido Comunista Alemão), após a reunião do Comitê Executivo da Internacional, realizada em Moscou.

    No encontro – atenção! – ele defendeu que os comunistas deveriam se aliar à extrema-direita, para derrotar os invasores. Essa proposta, sintomaticamente, daria origem à chamada “linha Schlageter”, em homenagem ao nazista fuzilado na ocupação francesa, transformado em “herói nacional” com a vitória do nazismo. O trecho a seguir, do livro A Revolução Alemã (1918-1923), de Isabel Loureiro, explica melhor a tática do dirigente:

    Com isso, Radek retomava a ideia anterior de dois militantes comunistas, conhecida como ‘nacional-bolchevismo’ (…). Radek supunha, além disso, que essa aliança ajudaria a Rússia soviética, adversária das potências ocidentais no terreno da política externa – daí a proposta de união entre a Rússia e a Alemanha derrotada contra o Ocidente, já descartada por Lênin em janeiro de 1920 como ‘um enorme disparate (…).
    (Editora Unesp, São Paulo, 2005, p.147).

    Charge de 1939, sobre o pacto de não-agressão. Hitler pergunta a Stálin – Até quando essa lua de mel irá durar?

    Refrescada a memória, enfim, eis a questão: o “pacto de não-agressão”, assinado em 1939 por Molotov e Ribbentrop, não parece ter reeditado como “farsa” (guardadas as diferenças) a “tragédia” da contrarrevolucionária aliança “nacional-bolchevique” de 1923? Lênin não sobreviveu para testemunhar as consequências desastrosas do erro tático que denunciara: a linha equivocada dos comunistas alemães fortaleceria de fato a extrema-direita, colaborando para a derrota da esquerda e o triunfo do nazismo.

    Na época, quem estava no poder era a socialdemocracia, representada pelo SPD: os comunistas do KPD preferiram se aliar aos nazistas a compor uma frente única com os socialdemocratas. Em 1939, a esquerda já havia sido destruída: o poder já estava nas mãos do “nacional-socialismo”. A aliança, disfarçada sob a designação eufemística de “pacto de não-agressão”, não parece uma espécie de “versão 3.9” daquela “proposta de união entre a Rússia e a Alemanha contra o Ocidente”?

    Quem postou a foto do “velho Josef” no face, desconhecendo a história, não poderia mesmo ouvir a reprovação indignada de Lênin no “negativo”: “um enorme disparate”. Que “grande comandante”, afinal, daria de vantagem ao inimigo a vida de vinte milhões de soldados, para ganhar tempo e se armar, defendendo-se e partindo para a ofensiva, como prova de “superioridade” nos jogos de guerra? A pose do georgiano sorrindo sarcástico no meme esconde o jogo: no campo de batalha, os russos venceram os alemães apesar do “técnico”. Quem compartilhou a imagem ignorando os fatos não notou que todos os “louros da vitória” foram oportunisticamente colhidos pelo “técnico”: os “jogadores”, os verdadeiros responsáveis pela “virada”, não aparecem na foto da vitória.

    Aliás, já que a Alemanha, a Rússia e Stálin estão na mira, vem bem a calhar a metáfora de Marx em A Ideologia Alemã: a “câmara escura” da ideologia contrarrevolucionária soviética não revelou a imagem dos milhões de soldados que a miopia do “coveiro” pôs na mira dos canhões arianos. Parafraseando outro alemão, sob a lente crítica de Nietzsche, dá para entender porque a foto não poderia mostrar que “os deuses têm pés de barro”: sem as distorções de ótica da “falsa consciência”, o oportunista jamais seria digno do epíteto de “Grande Líder”, sustentando-se no alto pedestal de “Super-Homem”. Não fosse a “fábrica de falsificações” da “revolução desfigurada”, Josef nunca seria visto como o “Guia Genial dos Povos”: subvertendo o ditado, só em terra de cegos quem tem um olho pode virar ditador. Em outros termos, era preciso que houvesse órfãos, sentindo-se pequenos e indefesos, para que o amassem e temessem, chamando-o de “Pai dos Povos”.

    A máquina de propaganda do Estado burocrático trabalhou ininterruptamente para ampliar a sua imagem, multiplicando-a em fotos, quadros, cartazes, bandeiras, broches, estátuas… Stálin foi forjado pela “agência oficial de mentiras” como um ser onipresente, onipotente, onividente, pairando como uma gigantesca divindade ciclópica, num reino de anões crédulos de olhos vazados. Tornou-se tão grandioso que, solenemente, virou até nome de cidade: no XIV Congresso do PCUS (em 1925), Tsaritsyn (fundada em 1589) passou a se chamar Stalingrado (rebatizada Volgogrado, em 1961).

    O meme que viralizou no face associa a eliminação da Alemanha na Copa à derrota do exército nazista na Segunda Guerra: a frase “eu avisei, aqui a Alemanha não vence” faz alusão à Batalha de Stalingrado, que marca o início da vitória dos russos. Na foto de Stálin, de cujo sorriso sai o recado sarcástico, não está escrito que o “Pacto Molotov-Ribbentrop”, sob o álibi de ganhar tempo para organizar o Exército Vermelho, sacrificou vinte milhões de vidas: ironicamente, a partir da batalha na cidade que carregava seu nome.

    Aliás, esse “batismo” foi também uma farsa tramada pela “agência de falsificações” históricas: o XIV Congresso do PCUS transformou o carrasco georgiano em grande líder da resistência contra os invasores do Exército Branco na batalha de Tsaritsyn, em 1920. Esse episódio da Guerra Civil marcou as divergências militares entre Stálin e Trótski. Para contextualizar, lembremos que, em 1918, começou a se formar no Exército Vermelho uma oposição contra Leon: Josef se opunha à presença dos oficiais do antigo regime, convocados por Trótski para integrar o quadro de estrategistas das divisões bolcheviques.

    Stálin desprezava o argumento do dirigente, segundo o qual era imprescindível contar com os grandes conhecimentos e a larga experiência dos especialistas para derrotar os inimigos: a força e a coragem dos operários e camponeses não seriam suficientes para a vitória dos Vermelhos – faltava-lhes a técnica da guerra, que os adversários dominavam. A “oposição militar”, alimentada pelo arrivismo de Josef, era contrária não só à presença dos oficiais de carreira, mas também à centralização do comando, defendendo a autonomia local das tropas.

    Stálin enviou um memorando ao Comitê Central, criticando a direção de Leon e solicitando a destituição de todos os oficiais, bem como o direito de formar “exércitos independentes”. Indignado, Trótski pediu demissão: Lênin não só recusou o pedido, como também deu total apoio ao organizador do Exército Vermelho. Os historiadores stalinistas omitem que, numa reunião do birô político, o líder bolchevique estendeu uma folha de papel a Trótski, dando-lhe uma inequívoca prova de confiança:

    Conhecendo o caráter rigoroso das ordens do camarada Trótski, estou convencido, tão absolutamente convencido da oportunidade e da necessidade, para o sucesso da nossa causa, do rigor do camarada Trótski, que assino embaixo sem reservas. V. Ulianov-Lenin
    (Victor Serge, Vida e morte de Trotsky, Editora Ensaio, São Paulo, 1991, p.108-109).

    Na foto de Stálin compartilhada no face, evidentemente, não aparece a assinatura de Lênin desautorizando as pretensões do futuro ditador. Aliás, a foto não poderia mesmo revelar os fatos que desmentem a versão forjada pelos falsificadores, como mostra este retrato feito pelo revolucionário Victor Serge:

    Stálin foi objeto de sanções muito moderadas por parte do bureau político e do governo. Geralmente se esquece que, nesse meio tempo, se perdeu a importante posição de Tsaritsyn, que, pela via fluvial, ligava a Rússia ao Cáucaso e à Ásia: os Brancos se apossaram dela, no final de junho de 1919, e a ocuparam por muitos meses.
    (idem, p.108).

    Levando tudo isso em conta, não é muito sintomático que, no ano seguinte à morte de Vladimir, o XIV Congresso do PCUS tenha substituído o nome de Tsaritsyn por Stalingrado? Será que os internautas que postaram o meme com a frase “Eu avisei: aqui a Alemanha não vence” conheciam essa história? Será que os torcedores digitais têm consciência das implicações deste post? Enfim, entre os que compartilharam o sorriso sarcástico do “coveiro da revolução”, há “inocentes de boa-fé” e “equivocados de má-fé”: estes devem ser combatidos; aqueles, esclarecidos. Ainda que ambos tenham feito “gol contra”, perdendo a revanche sem precisar jogar… Aliás, onde é mesmo que a Alemanha entrou nessa história?

    Para encerrar a partida, imagine um meme com este recado: “Eu avisei: aqui stalinista não vence”. Agora a coisa ficou russa: cartão vermelho para quem veste a camisa de Josef!

    * Paulo César de Carvalho, o “Paulinho”,  joga no time da RESISTÊNCIA-PSOL.

    Save

    Save

    Save