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  • As consequências da mudança da embaixada brasileira para Jerusalém

    Desde o período eleitoral o presidente eleito, Jair Bolsonaro, acena com a possibilidade de mudar a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. Essa mudança tem um viés estritamente ideológico, pois não visa avanços práticos no comércio ou nas relações exteriores e se baseia na aliança com um setor evangélico que foi parcela importante na eleição do presidente, assim como pelo alinhamento que se procura ter com o presidente dos Estados Unidos Donald Trump.

    Primeiramente vale ressaltar que a cidade de Jerusalém é sagrada para as três maiores religiões monoteístas do mundo (Cristianismo, Judaísmo e Islamismo) sendo também um espaço de disputa entre israelenses e palestinos, desde a criação do Estado de Israel em 1948 que a cidade passa por uma disputa. A Assembleia da ONU de 1947 definiu que Jerusalém permaneceria como cidade de status internacional e que não pertenceria a nenhum dos dois países, no entanto hoje toda a cidade está sob o domínio israelense. Essa disputa permanece e a maioria dos países da comunidade internacional busca manter a neutralidade, optando por manter suas embaixadas em Tel Aviv, e com o reconhecimento da Palestina como um estado livre e soberano. O Brasil também reconhece a Palestina.

    Além do significado político, de se aliar ao estado de Israel, que massacra o povo palestino, mudar a embaixada para Jerusalém significa uma provável ruptura das relações com os países da Liga Árabe, organização composta por 22 países e que tem uma relação de comércio relevante para a economia nacional. A Liga é a segunda maior compradora de proteína animal do Brasil com exportações que geraram em 2017 13,5 bilhões de dólares para o Brasil e um superávit nesse mesmo ano de 7 bilhões de dólares. Como medida de comparação as exportações para Israel foram 400 milhões de dólares.

    Perder esse mercado é fechar uma porta do agronegócio brasileiro, essencialmente para a carne halal que é produzida especificamente para os países árabes e passam por um rigoroso processo perante as autoridades islâmicas para cumprir os requisitos religiosos. Hoje o Brasil é o maior produtor de carne halal do mundo, que conta com um mercado consumidor de 1,8 bilhão de pessoas.

    Apenas Estados Unidos e Guatemala tem suas embaixadas em Jerusalém. No caso norte-americano, a decisão de Donald Trump de transferir a embaixada visa atender os desejos de uma parcela do seu eleitorado que vê em Jerusalém o fim dos tempos. O dispensacionalismo é uma interpretação teológica que coloca a cidade de Jerusalém na posse dos Israelitas como sendo uma condição para a segunda vinda do Messias. Essa ala do protestantismo nos EUA tem uma enorme força entre os republicanos e os grandes empresários que garantiram a eleição do atual presidente. Já a Guatemala seguiu os passos dos EUA com quem tem a maioria do seu comércio e não possui uma relevância no comércio internacional.

    Essa decisão ainda não está efetivada assim como não foi anunciado o nome do ministro de Relações Exteriores. Uma medida dessa magnitude já tem reflexos, o mais recente foi o cancelamento da visita do Chanceler brasileiro ao Egito, que aconteceria no dia 08/11 e já mostra que os países enxergam com maus olhos a decisão.

    A política internacional do próximo governo é ainda nebulosa, mas pelas declarações do futuro ministro da Economia que falou que “O MERCOSUL não é uma prioridade” fica nítido uma tentativa de realinhar o Brasil com os EUA, no entanto desde os anos 90 o comércio internacional passou por profundas modificações e hoje a China é o maior parceiro do Brasil e aumenta sua influência significativamente na América do Sul.

    O último ano foi marcado por uma guerra comercial forte entre EUA e China que nesse contexto o Brasil goza de uma posição confortável por conta da sua neutralidade que permite a manutenção das relações com os dois lados e o recebimento de investimento das duas potências. Abrir mão dessa posição vantajosa num momento de crise econômica pode custar muito caro para o próximo governo.

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  • Eleição americana: vitória democrata na Câmara aprofunda divisão política nos EUA

     

    No dia 6, os americanos foram às urnas para eleger 435 deputados (as), 35 senadores (as) e novos governadores (as) em 36 estados. Enquanto escrevíamos esta matéria, a apuração ainda estava em andamento, mas os principais resultados já estão consolidados: os democratas retomaram a maioria na Câmara, depois de oito anos como minoria, e os republicanos mantiveram a sua maioria no Senado.

    O Partido Democrata garantiu até agora, 222 vagas na Câmara (aumentou 27 cadeiras), enquanto o Partido Republicano elegeu 196 deputados (as). Ainda há 17 cadeiras indefinidas, em estados onde a apuração não terminou. No Senado, os republicanos mantiveram 51 senadores (as), e os democratas 46. Três vagas ainda estão sendo apuradas. Para os governos estaduais, os republicanos terão 25 governadores e os democratas 23. Três estados ainda não divulgaram os resultados.

    Logo após conhecer os resultados, Trump twitou: “Foi um tremendo sucesso esta noite. Obrigado a todos!

    Mas qual foi o tamanho deste sucesso? Na verdade, tanto democratas como republicanos tiveram vitórias relativas nestas eleições. Os democratas, ao conseguirem maioria na Câmara, podem trazer grandes problemas ao governo Trump, como barrar a liberação de fundos para a construção do muro na fronteira com o México, rejeitar os cortes fiscais e impedir a aplicação de mudanças nas políticas comerciais, como desejava Trump. A maioria democrata pode investigar as declarações fiscais de Trump (que ele se recusa a apresentar), possíveis conflitos de interesse empresariais e alegações envolvendo a campanha do presidente em 2016 e a Rússia. Além disso, o Partido Democrata venceu em sete estados onde Trump ganhou em 2016, e que eram governados pelos republicanos: Novo México, Illinois, Kansas, Nevada, Maine, Michigan e Wisconsin. O Partido Republicano, por sua vez, não venceu em nenhum estado governado por um democrata.

    O controle do Senado garante a Trump a possibilidade de continuar confirmando juízes e outros nomeados. O Senado pode garantir ao governo Trump, o bloqueio de qualquer lei que os democratas possam propor e aprovar na Câmara, e que não agrade a Presidência, evitando que Trump tenha que impor seu poder de veto. Mas, a principal vantagem da maioria dos republicanos no Senado é política. Em sua campanha pela reeleição em 2020, que certamente se dará e que já começou, Trump terá o trunfo político de culpar os democratas pelos problemas que venha a ter no governo, acusando-os de que não pode fazer mais por conta da maioria democrata na Câmara, que não lhe permitiu governar.

    A “onda rosa” se confirmou: um voto contra a misoginia e o racismo de Trump

    A mídia americana vem chamando o avanço da representação feminina nestas eleições de “onda rosa”. No entanto, este aumento da participação das mulheres vem crescendo há pelo menos seis anos. Em 2012, havia 298 mulheres candidatas a Câmara e ao Senado. Em 2016, foram 312 candidatas. Este ano, chegou ao recorde de 529 candidatas. Isto representa um aumento de 77% no número de candidatas em relação a 2012. Depois das primárias, as convenções partidárias que indicam os candidatos (as) de cada Partido, 271 mulheres se tornaram candidatas: 24 como senadoras e 247 como deputadas, segundo dados do Centro Americano para Mulheres e Política da Universidade Rutgers.

    Além do Legislativo, 61 mulheres se candidataram nas primárias ao cargo de governador. Destas, 18 foram indicadas por seus partidos: 13 democratas e 5 republicanas.

    A maior parte das mulheres que se candidatou é democrata: 210 daquelas que seguem na corrida para serem eleitas: 194 para a Câmara e 16 para o Senado. O Partido Republicano tem apenas 61 do total de 271 candidatas concorrendo: 53 para a Câmara e 8 para o Senado.

    Para alguns analistas, o aumento da participação feminina nestas eleições está relacionada com uma reação ao presidente Donald Trump. Não esqueçamos que foram as mulheres que protagonizaram a primeira e a maior manifestação contra Trump, no dia seguinte a sua posse. Desde então a insatisfação das mulheres contra Trump só aumentou. No entanto, outros fatores também influenciaram o aumento das mulheres na política. O movimento #MeToo é um destes fatores, ao denunciar a violência sexual cotidiana que as mulheres americanas sofrem no trabalho, na escola ou em casa. Na verdade, as mulheres americanas, como em todo mundo, estão se organizando e lutando contra as condições de trabalho e salários inferiores aos dos homens, a violência e o assédio sexual, entre tantas outras formas de opressão que sofremos cotidianamente.

    É provável que mais de 100 mulheres sejam eleitas. Elas irão representar a diversidade e a luta contra o racismo, o machismo e a lgbtfobia. Há 84 mulheres negras concorrendo ao Congresso este ano – um aumento de 42% em relação a dois anos atrás. Uma pesquisa do Times revelou que 58% dos candidatos ao Congresso eram homens brancos, a porcentagem mais baixa das últimas quatro eleições.

    A maioria das eleitas pertence ao Partido Democrata. Em Massachusetts, Ayanna Pressley se tornou a primeira mulher negra eleita para o Congresso, de seu estado. Rashida Tlaib em Michigan e Ilhan Omar em Minnesota serão as primeiras mulheres muçulmanas no Congresso. Sharice Davids no Kansas e Deb Haaland no Novo México são as primeiras mulheres indígenas eleitas para o Congresso. No Tennessee, Marsha Blackburn, uma republicana, tornou-se a primeira mulher do estado eleita para o Senado. A democrata e socialista Alexandria Ocasio-Cortez, de Nova York, se tornou a mulher mais jovem a ser eleita para a Câmara, aos 29 anos. Além das mulheres, Jared Polis, do Partido Democrata, se tornou o primeiro governador abertamente gay dos EUA a vencer a disputa no Colorado.

    Mas, se houve avanços importantes nestas eleições, muito ainda precisa ser feito. Hoje, as mulheres representam 20% do Congresso: há 23 mulheres no Senado (23%) e 84 na Câmara (19,3%). De um total de 535 membros, apenas 107 são mulheres (78 democratas e 29 republicanas).

    Segundo a UIP, a União Interparlamentar, os EUA, que se autoproclamam a maior democracia do mundo, estão em 102º lugar entre 193 países, no que diz respeito à representação das mulheres na política nacional. A sub-representação das mulheres não está só no Legislativo. Cinco dos 50 estados americanos não têm qualquer representante feminina em suas assembleias. Há ainda muito que fazer. Mas, cada avanço no terreno da luta contra as opressões é importante e tem que se garantido nas urnas e nas lutas para que não retrocedam.

    O interesse pelo socialismo e o crescimento do DSA

    Tratados como fenômeno político nos EUA, desde que Trump chegou ao governo, o Democrat Socialist of America – DSA – entre 2015 e 2018 passou de 5 mil membros para 52 mil! E isto foi conseguido se apresentando como socialistas, talvez a ideia mais temida pelo cidadão médio americano, depois do diabo.

    O DSA foi criado na década de 1980 a partir da fusão de dois grupos de esquerda: o Comitê Organizador do Socialismo Democrático (que era o herdeiro do extinto Partido Socialista dos Estados Unidos) e o Novo Movimento Americano (uma aliança de intelectuais progressistas com ligações com os partidos de esquerda). Em seu interior convivem aqueles que defendem um estado liberal de bem estar social e os que querem grandes transformações na sociedade americana e o fim do capitalismo.

    Mesmo se reivindicando como socialistas democráticos, a maioria do DSA não defende um Estado socialista ou o fim da propriedade privada. Eles representam a ala mais a esquerda do Partido Democrata e propõem medidas que regulem a economia americana de maneira democrática (um capitalismo com rosto humano), onde as grandes empresas deveriam defender os interesses da população. Lutam pelo aumento real do salário mínimo e pela melhoria da igualdade social, onde a saúde e a educação seriam públicas e gratuitas. Estas inclusive foram as principais bandeiras defendidas pelos candidatos (as) do DSA nas eleições americanas deste ano.

    Nas eleições do dia 6, o DSA concorreu usando a legenda do Partido Democrata com 64 candidatos (as): 5 tentaram uma vaga no Congresso Nacional, 1 disputou uma vaga de governador e 25 concorreram a vagas nas assembleias estaduais. Ainda não temos um balanço dos números de votos conseguidos pelos candidatos do DSA ou quantos foram eleitos, mas Alexandria Ocasio-Cortez, foi eleita para a Câmara, por Nova York, depois de derrotar Joe Crowly, nas primárias democratas, que era parlamentar desde 1999. Alexandria não aceitou contribuições de empresas, e sua campanha foi feita a partir de sua militância social junto aos imigrantes.

    O crescimento do DSA se explica pela mudança que vem ocorrendo na opinião pública americana a respeito do socialismo, e que teve como expressão máxima a candidatura de Bernie Sanders, que sempre se apresentou como um socialista democrático, nas primárias do Partido Democrata, concorrendo com Hilary Clinton à indicação dos democratas para a presidência. Aliás, Sanders se reelegeu para seu terceiro mandato como senador com folga.

    Segundo uma pesquisa do Instituto Gallup, 37% dos americanos têm uma imagem positiva do socialismo, enquanto 56% preferem o capitalismo. Quando se avalia a opinião sobre o socialismo e o capitalismo nas diversas faixas etárias, as opiniões mudam. 51% dos mais jovens tem uma visão favorável ao socialismo, enquanto entre os que têm mais de 65 anos, apenas 28% reivindicam o socialismo.

    A pesquisa não qualifica o que os entrevistados entendem por socialismo, isto é, se fazem de fato uma distinção entre reforma e revolução. Mas, é muito progressivo que uma parcela da população americana, e particularmente sua juventude, veja no socialismo uma saída para a crise causada pelo capitalismo.

    Imagem positiva das ideologias nos Estados Unidos (em porcentagem de acordo com grupos etários)
    Visão positiva do capitalismoVisão positiva do socialismo
    Dos 18 aos 29 anos45%51%
    Dos 30 aos 49 anos58%41%
    Dos 50 aos 64 anos60%30%
    Mais de 65 anos60%28%
    Dados de 2018 (Fonte: Gallup/BBC)

    Em entrevista a BBC, Daniel Schlozman, professor de ciência política da Universidade John Hopkins, afirmou que: “Esta geração [os jovens] teve que passar por uma recessão muito severa causada por especulação, empréstimos bancários arriscados e falta de regulamentação, o que causou um enorme crescimento das dívidas com educação universitária; e que a fez ver que seu padrão de vida não será automaticamente melhor do que o de seus pais; Portanto, havia uma abertura para algo que não é o capitalismo, já que este, em muitos casos, não os ajudou.

    Podemos dizer que há um desencanto com o capitalismo e tudo que “que está aí”, em grande parte da juventude americana. Este sentimento fez com que fenômenos como Sanders e o DSA capitalizassem esta insatisfação, levando mais jovens e mulheres a participarem da política e do processo eleitoral (houve um aumento de 36% no número de votantes nestas eleições).

    O resultado eleitoral não chegou ser um “referendo” contra o governo Trump, como desejava a oposição democrata. Mas, a divisão do Congresso entre democratas e republicanos com certeza trará muito mais dificuldades para os projetos de Trump e sua jornada até as eleições presidenciais de 2020.

  • Trump anuncia nova medida contra os direitos dos imigrantes

    O presidente norte-americano Donald Trump, em entrevista ao site Axios, fez declarações prometendo novas medidas em sua luta contra os imigrantes. “Somos o único país do mundo onde uma pessoa vem e tem um bebê, e esse bebê é essencialmente um cidadão dos Estados Unidos durante 85 anos, com todos os benefícios. É ridículo. É ridículo. E tem que acabar”, disse o presidente.

    Vale ressaltar que a afirmação de que os Estados Unidos são o único país a conceder este direito aos imigrantes é mais uma declaração falsa do governante norte-americano. Ao longo do globo mais de 30 países reconhecem cidadania para filhos de imigrantes, entre eles o Brasil.

    Trump pretende eliminar por meio de ordem executiva o direito das crianças nascidas nos Estados Unidos e filhas de pais estrangeiros adquirirem a cidadania norte-americana. A Constituição dos Estados Unidos reconhece há 150 anos o direito de cidadania que Trump quer suprimir por meio de uma canetada.

    O anúncio de Trump gerou um grande debate constitucional acerca da legitimidade do ato. Muitos especialistas opinam que a ordem executiva que Trump quer utilizar para acabar com o direito dos imigrantes é inconstitucional. Para ter legitimidade a proposta de Trump teria que ser aprovada no Congresso, um caminho mais duro e difícil que possivelmente levaria a derrota da medida.

    Militares para reprimir imigrantes: a Operação Patriota Fiel

    A entrevista de Trump acontece um dia depois de o presidente informar que enviará mais de 5.000 soldados para a fronteira com o México para impedir a entrada da caravana de migrantes centro-americanos que atravessa o país vizinho em direção a fronteira para pedir asilo. O Pentágono anunciou na segunda-feira (29) que 5.200 soldados se somarão aos 2.092 membros da Guarda Nacional que já estavam mobilizados desde abril.

    A caravana que começou em Honduras conta com cerca de 7.000 migrantes de países da América Central e tem a meta de chegar nos Estados Unidos. Milhares de pessoas, mulheres, crianças e idosos caminham em velocidade assombrosa durante dias inteiros sob o calor do sol mexicano, às vezes durante a noite, para alcançar a fronteira. A fome, o medo e a repressão fazem parte do dia-a-dia destes imigrantes, que carregam seus poucos pertences, muitas vezes somente a roupa do corpo, e contam com o apoio da população solidária. Agora estes também têm que lidar com as ameaças do presidente norte-americano.

    Trump ameaçou cortar a ajuda externa aos países da América Central por não impedirem por meio da força a jornada dos imigrantes. O presidente afirmou que os migrantes eram invasores, fazendo ameaças bélicas para estes: “Há muitos membros de gangues e pessoas muito más misturadas na caravana que se dirige à nossa fronteira sul. Por favor, voltem, não serão admitidos nos Estados Unidos, a menos que sigam o processo legal”, escreveu ele no Twitter, que ainda completou: “Esta é uma invasão de nosso país e nosso Exército está esperando vocês!”.

    A atividade militar, batizada como Operação Patriota Fiel, tem como nítido propósito intimidar os imigrantes, que ainda estão longe das fronteiras, fazendo com que estes optem por se estabelecer no México. O governo deste país diz ter recebido cerca de 2.700 pedidos de refúgio.

    Os presidentes antecessores de Trump, o democrata Barack Obama e o republicano George W. Bush, chegaram a autorizar o deslocamento da Guarda Nacional para a fronteira. Em 2006, Bush, mandou cerca de 6.000 soldados após um pico de imigração. Obama, por sua vez, em 2010 enviou 1.200 para conter imigrantes que entravam ilegalmente.

    Porém, a ação de Trump surpreende pelo fato de que soldados convencionais do exército sejam colocados para supervisionar as fronteiras. O número indicado por Trump é tão alto que é o dobro dos dois mil militares norte-americanos que atuam na Síria no combate ao Estado Islâmico, e se assemelha ao contingente de militares que ainda atuam no Iraque.

    Nenhum ser humano é ilegal, migrar é um direito!

    Em todo mundo existem cerca de 60 milhões de pessoas obrigadas a imigrar para fugir de guerras, das fomes, catástrofes ambientais e perseguição política. O drama da crise de imigração global é um dos temas mais importantes do século XXI.

    Estes que nada tem precisam ser cobertos de solidariedade e apoio. É preciso demonstrar solidariedade internacional aos imigrantes. Toda e qualquer saída repressiva deve ser repudiada, assim como discursos xenófobos ou de ódio baseados em retórica eleitoral.

    Leia mais:
    https://esquerdaonline.com.br/2018/10/28/trump-declara-emergencia-nacional-e-prepara-exercito-contra-a-caravana-centro-americana-de-migrantes/

  • A extrema direita mundial parabeniza Jair Bolsonaro

    A vitória de Jair Bolsonaro foi celebrada com festa por políticos e líderes de partidos de extrema direita em todo o mundo. Pelo que há de pior na política mundial.

    Logo após as eleições, o ex-capitão do Exército recebeu um telefonema do presidente norte-americano Donald Trump. Em seguida, no Twitter, Trump anunciou que na conversa, os dois se comprometeram a trabalhar próximos em todos os setores, destacando o comércio e a área militar.

    Na Alemanha, também pelo twitter, a bancada do partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD), reproduziu a mensagem de seu deputado Petr Bystron, na qual felicitava Bolsonaro pela vitória: “Como ocorre com a AfD, ele foi atacado de todos os lados, por ser um outsider que desafiou o sistema.” O deputado da AfD disse ainda que “A revolução conservadora chegou à América do Sul”.

    A AfD é o principal partido de oposição ao governo Merkel na Alemanha. O partido ficou conhecido por seu discurso xenófobo, anti-imigrantes e por destilar ódio contra a população muçulmana que vive no país. O deputado Bystron se envolveu em recentes confusões na Alemanha pela acusação de empregar em seu gabinete pessoas ligadas a movimentos neonazistas.

    Na França, Marine Le Pen, líder da Rassemblement National (Agrupamento ou Comício Nacional, a antiga Frente Nacional), disse em sua conta no twitter logo após o resultado: “os brasileiros acabaram de punir a corrupção generalizada e a criminalidade aterrorizante que prosperaram sob os governos de extrema esquerda”. Outro membro do partido, o tesoureiro Wallerand de Saint-Just criticou a cobertura da imprensa francesa as eleições brasileiras, afirmando que Bolsonaro é “atacado e tachado com adjetivos injustos”.

    Na Itália, o líder do Liga, partido de extrema direita, e também vice-premiê e ministro do Interior, Matteo Salvini, disse em sua conta no twitter que:  “os cidadãos mandaram para casa a esquerda”. “Bom trabalho ao presidente #Bolsonaro, a amizade entre nossos povos e nossos governos será ainda mais forte.” O deputado estadual por São Paulo, Eduardo Bolsonaro, filho do capitão, agradeceu o apoio de Salvini e também disse que “o presente está chegando”, em referência a extradição de Césare Battisti, ex-guerrilheiro condenado político na Itália que atuava durante o período conhecido no país como Anos de Chumbo.

    Bolsonaro já havia recebido apoio de membros da extrema direita mundial, como o de Steve Bannon, ex assessor de Donald Trump, líder e guru do movimento de extrema direita mundial, e conhecido por criação de imensas fake news. Bannon inclusive o convidou para participar de um encontro do seu Movimento, em janeiro, na Europa, com as demais lideranças da extrema direita.


    Declarações parecidas foram feitas pelo ex-líder da Ku Klux Klan, David Duke, em um programa de rádio. O rosto mais conhecido do grupo racista disse ao se referir a Bolsonaro: “Ele soa como nós. É um nacionalista”.

    A Klu Klux Klan (KKK) é um grupo terrorista de supremacistas brancos que atua nos Estados Unidos desde 1895, durante a Guerra Civil do país. O Klan que chegou a ter 4 milhões de membros da década de 1920, ficou conhecido por torturar, assassinar, enforcar e queimar ativistas do movimento negro e pessoas negras, assim como suas casas.

    O fato de Bolsonaro ter recebido apoios de figuras tão nefastas da extrema direita mundial deve ser visto com atenção. A vitória eleitoral do candidato do PSL não é um fato isolado. Em todo o mundo, candidatos de extrema-direita estão alcançando vitórias eleitorais ou resultados históricos. É preciso ver com atenção a atuação destes governos para assim nos prepararmos melhor para combater o novo governo. Na América Latina, a maioria dos chamados governos progressistas que se iniciaram no início do século XXI chegou ao fim.

    Se Bolsonaro anda ao lado de racistas declarados, neonazistas, racistas, terroristas de extrema-direita e de neofascistas, nós andaremos ao lado dos sem-teto, sem-terra, dos trabalhadores em luta por seus direitos. Estaremos, sem dúvida, em melhor companhia.

  • Trump declara emergência nacional e prepara exército contra a caravana Centro-Americana de migrantes

    A ONU estima que sete mil pessoas viajem na caravana rumo aos EUA. Os organizadores calculam que são dez mil pessoas. São milhares de mulheres, homens e crianças fugindo da fome, do desemprego e da violência da “maras”, das gangues que assombram a população na América Central.

    A marcha saiu de Honduras, no dia 13 de outubro, formada inicialmente por cerca de mil hondurenhos e terá que percorrer mais de 3 mil quilômetros até alcançar a fronteira do México com os EUA. Serão mais de 45 dias de caminhada.

    A violência é a regra geral da região que tem uma das maiores taxas de homicídio do mundo, segundo dados da ONU. Honduras lidera o ranking global, com 55,5 mortes para cada 100 mil habitantes em 2016 – o Brasil ocupa a sétima posição, com 31,3 para cada 100 mil.

    Cerca de 10% da população da Guatemala, El Salvador e Honduras já deixou seus países para fugir da criminalidade, o recrutamento forçado por gangues e as poucas oportunidades de trabalho.

    Embora as caravanas de imigrantes sejam um fenômeno recente, esta não foi à primeira marcha a sair de Honduras. Em abril deste ano, cerca de 200 pessoas conseguiram chegar na fronteira americana. Esta caravana foi organizada pelo grupo chamado Pueblo Sin Fronteiras (Povo Sem Fronteiras).

    Para os imigrantes – especialmente os idosos e mulheres com crianças pequenas – a caravana oferece mais segurança do que a migração solitária. Isto porque os migrantes são frequentemente sequestrados por traficantes de pessoas e drogas que os obrigam a trabalhar para eles. Atacar um grupo grande é mais difícil, e, portanto, a caravana oferece mais proteção.

    Trump ameaça com corte da ajuda econômica e uso das Forças Armadas

    As eleições de meio de mandato nos EUA serão em 6 de novembro e os republicanos correm o risco de perder sua maioria no Congresso. As ameaças de Trump contra os imigrantes centro-americanos é um recado a sua base de apoio a seu projeto anti-imigração: 15% dos americanos consideram a imigração o problema mais importante que o país precisa enfrentar. Até agora, as medidas de Trump nesta área ainda não tiveram os resultados que ele deseja, vide a desastrosa política de separar famílias na fronteira.

    Trump classificou a caravana de “emergência nacional” e sua primeira iniciativa foi ameaçar cortar a ajuda que os EUA dão aos governos de Honduras, El Salvador e Guatemala, caso não impeçam a passagem dos imigrantes por seus territórios. Estes três países são os mais pobres da América Central. Os EUA enviaram em 2017, mais de US$ 248 milhões para a Guatemala, US$ 175 milhões para Honduras e El Salvador, recebeu US$ 115 milhões, segundo a Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional. Um corte na ajuda que os EUA dão a esses países vai significar um aumento brutal da miséria e o agravamento das condições de vida das populações.

    Os governos dos três países não conseguem impedir suas populações de imigrar, mesmo usando a polícia ou guardas das fronteiras para tentar impedir a passagem da caravana. Mesmo porque, a alternativa de ficar nos seus países de origem, significa enfrentar os problemas diários de fome, desemprego e violência que essas pessoas querem abandonar, mesmo que tenham que se arriscar numa travessia incerta de milhares de quilômetros para “viver o sonho americano”.

    Na medida em que as ameaças de corte da ajuda econômica não estão impedindo a marcha dos imigrantes, Trump já afirmou que usará as Forças Armadas para impedir a entrada das pessoas quando chegarem a fronteira do México com os EUA. Hoje, a fronteira já é protegida por 2.100 membros da Guarda Nacional e segundo o Pentágono o contingente de militares que podem ser enviados à fronteira com o México pode ser de 800 a mil soldados.

    Rota da caravana rumo aos EUA. Fonte GettyImage

    Imigrar não é crime

    Em todo o mundo há cerca de 60 milhões de pessoas vivendo fora de seus países de origem, obrigados a imigrar para fugir das guerras, da fome, das catástrofes naturais ou de perseguições políticas.

    Na caravana de imigrantes centro-americanos, muitos já estão bastante cansados, e já retornaram aos seus países de origem. Outros pediram asilo ao México. O governo mexicano diz ter recebido cerca de 2.700 pedidos de refúgio. Mas, a grande maioria está enfrentando o cansaço, o calor, a fome e o medo para chegar a fronteira dos EUA.

    Pelo caminho de 800 quilômetros já percorridos desde Honduras, os caravaneiros encontram a solidariedade da população que oferece água, comida, remédios, carona. Mas a maioria segue a pé com os poucos pertences trazidos de seus países de origem. Em geral a roupa do corpo e o sonho de encontrar melhores condições de vida. Nas palavras de José Aníbal Mejía, de 27 anos e que viaja com a filha: “A nossa missão é chegar bem. Todos nós hondurenhos viemos para cá para viver o sonho americano.” (O Globo, 26/10/18).

     

  • Execução do jornalista Jamal Khashoggi revela as relações hipócritas e inescrupulosas no mundo capitalista

    O jornalista do The Washington Post Jamal Khashoggi encontrava-se desaparecido desde o dia 2 de outubro. Nessa data ele entrou no Consulado da Arábia Saudita em Istambul, Turquia, para solicitar um certificado de estado civil, necessário para seu casamento com uma cidadã turca, Hatice Cengiz. Após sete horas e meia sem notícias de seu noivo, Cengiz informou à polícia turca, que iniciou a investigação sobre o desaparecimento. Natural da Arábia Saudita, o jornalista era neto de turcos.

    Na terça-feira, 16 de outubro, uma autoridade turca afirmou que investigadores encontraram evidências de que o jornalista havia sido assassinado no próprio consulado, em uma ação envolvendo um grupo de agentes sauditas que chegaram à Turquia no mesmo dia do seu desaparecimento. Fontes citadas pela rede de televisão CNN informaram que este grupo foi coordenado por um oficial da Agência de Inteligência Presidencial muito próximo do círculo do príncipe herdeiro Mohammed Bin Salman (MBS). A Agência é o principal serviço de Inteligência da Arábia Saudita.

    Jamal fugiu da Arábia em julho devido à perseguição que sofreu do regime por suas reportagens críticas ao governo saudita, com destaque às matérias sobre a participação do país na Guerra do Iêmen. Ele mudou-se para os EUA e tornou-se colunista do The Washington Post.

    No dia 17 de outubro, o jornal turco Yeni Safak revelou gravações da passagem do jornalista pelo consulado saudita. Segundo essas gravações, Khashoggi foi ameaçado e interrogado, torturado e depois decapitado.

    Repercussões internacionais

    Tentando controlar uma crise diplomática potencial, Trump enviou seu secretário de Estado, Mike Pompeo, a Riad, no dia 17 de outubro. Em um primeiro momento, Trump afirmou que o rei Salman negou “firmemente” saber o que aconteceu com o jornalista, assim como seu paradeiro. Trump declarou que “Ele (o rei) não sabia realmente. Talvez, não quero entrar na sua cabeça, mas para mim soou que talvez possam ter sido assassinos sem escrúpulos. Quero dizer, sabe-se lá”.

    Trump vem resistindo às pressões do Congresso para impor sanções ao reino saudita, alegando que restringir-lhes a venda de armas seria contraproducente. Qualificou as relações com o reino saudita como “excelentes”. Recordemos que Riad foi primeira capital que ele visitou como presidente.

    Mas no último final de semana, Trump ameaçou pela primeira vez impor um “castigo severo” ao país se ele for responsável pela morte do jornalista. Riad simplesmente respondeu que contra-atacaria com uma “maior ação”, chamando a atenção dos EUA sobre sua importância geopolítica e energética. A Arábia Saudita tem sido um contrapeso ao Irã e o principal aliado dos EUA no mundo árabe.

    Antes da ameaça, Trump explicava a importância das relações comerciais entre os países ao declarar que “[Os sauditas] gastam 110 bilhões de dólares [416 bilhões de reais] comprando nosso equipamento militar e outras coisas. Se nós não o vendermos a eles, dirão ‘muito obrigado, vamos comprar da Rússia ou da China’. Isso não nos ajudaria quanto aos postos de trabalho e às encomendas que nossas empresas perderiam”.

    No dia 18 de outubro, o jornalWashington Postpublicou seu último artigo, onde ele defende a liberdade de imprensa.  Seu título é “O que o mundo árabe mais necessita: Liberdade de Expressão[1]

    A verdade revelada

    No dia 20 de outubro, as autoridades árabes reconheceram que a morte do jornalista ocorreu dentro do seu consulado, mas alegaram que esta resultou de uma discussão no interior do local, entre o jornalista e indivíduos não identificados pelas autoridades, e não uma execução planejada.

    Contrariando essa versão, a emissora britânica de TV Sky News revelou no dia 23 de outubro que partes do corpo “esquartejado” do jornalista saudita foram encontradas na casa do cônsul árabe, onde ele teria sido enterrado. O presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, discursou no parlamento qualificando o ocorrido como um “assassinato selvagem e planejado”.

    Suas fontes seriam policiais turcos, que disseram à agência Reuters que 15 agentes sauditas, entre eles um perito forense, chegaram a Istambul em dois aviões no dia em que Khashoggi foi ao consulado e partiram do país à noite. A já citada gravação de áudio revelaria que ele foi torturado e assassinado. Segundo o jornal turco Yeni Safak, Khashoggi “teve os dedos da mão cortados” enquanto ainda estava vivo e, finalmente, foi “degolado”.

    Essa operação teria sido dirigida por Salah Mohamed al Tubaigy, um especialista forense da Direção Geral de Segurança saudita. Na gravação, ainda segundo o jornal turco, ouve-se o cônsul saudita, Mohamed al Otaibi, queixar-se do que estava acontecendo: “Façam isto em outro lugar. Vocês vão me arrumar problemas”. O legista Salah Mohamed al Tubaigy então responde: “Se quiser continuar vivo quando voltar para a Arábia Saudita, fique quieto”.

    Khashoggi teria suportado com vida sete minutos de tortura. Depois, o legista começou a despedaçar o corpo enquanto escutava música com fones de ouvido. “Quando faço este trabalho, escuto música. Vocês deveriam fazer o mesmo”, diz Tubaigy aos colegas na gravação, segundo o Middle East Eye (MEE), um veículo próximo ao Governo do Qatar.

    O motivo da Turquia não divulgar a gravação, que seria uma prova irrefutável da execução, deve-se a que a mesma teria sido obtida de forma ilegal, provavelmente através de microfones escondidos ou utilizando algum funcionário saudita como agente duplo dos serviços secretos turcos, o que viola a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas. Esta estabelece a inviolabilidade de consulados e embaixadas e proíbe a polícia turca de realizar buscas no consulado sem autorização do governo saudita. Este as liberou somente duas semanas depois do desaparecimento de Khashoggi, e depois de numerosas negociações entre Ancara e Riad.

    União Europeia e ONU exigem medidas

    A chanceler alemã, Angela Merkel, e o ministro do Exterior do país, Heiko Maas, condenaram veementemente a morte de Khashoggi através de uma declaração conjunta em que afirmavam que “Esperamos transparência da Arábia Saudita quanto às circunstâncias da morte” (…) “Os responsáveis devem ser responsabilizados. As informações dadas sobre o ocorrido no consulado em Istambul não são suficientes.”

    Maas ainda colocou em questão a venda de armas para a Arábia Saudita. “Enquanto as investigações estiverem em curso, enquanto não soubermos o que aconteceu, não há base para alcançar decisões positivas sobre a exportação de armas para a Arábia Saudita”, disse à emissora ARD. Angela Merkel ratificou a declaração em entrevista coletiva. Segundo a Reuters, afirmou que “Com relação às exportações de armas para a Arábia Saudita, elas não podem ocorrer nas atuais circunstâncias”.

    Riad é o segundo maior cliente da indústria de defesa alemã, depois da Argélia. Até 30 de setembro de 2018, as exportações atingiram o valor de 416,4 milhões de euros.

    A chefe da diplomacia da União Europeia (UE), Frederica Herminismo, declarou que “Reforçamos nosso compromisso com a liberdade de imprensa e a proteção de jornalistas no mundo todo” e cobrou “explicações razoáveis” sobre as circunstâncias da morte, fruto de uma “violação chocante” da convenção de Viena de 1963 sobre relações consulares. Se a convenção proíbe investigações nos consulados, também estabelece como quebra de protocolo que se realizem execuções extrajudiciais nos mesmos.

    O secretário-geral da ONU, António Guterres, pediu uma investigação adequada e que os culpados sejam responsabilizados.

    Vários meios de comunicação norte-americanos publicaram nesta semana que a Arábia Saudita poderia reconhecer o crime, mas atribuindo-o a elementos “incontrolados” dentro dos serviços secretos, que teriam agido sem o conhecimento da cúpula saudita. A diplomacia norte-americana também parece trabalhar neste sentido. Por mais improvável e inverossímil que seja a versão, ela oficialmente poupa o príncipe saudita de responder pela bárbara execução. Os sauditas devem fazer um relatório sobre a morte de Jamal Khashoggi, cuja conclusão seria que ela foi resultado de um interrogatório que teria “dado errado” em uma operação realizada “sem autorização e transparência”, e garantindo que os envolvidos “serão acusados”.

    Nesse sentido, o rei Salman determinou ao Ministério Público saudita que abra uma “investigação interna” sobre o desaparecimento de Khashoggi, com base na informação a ser obtida pela equipe árabe enviada a Istambul, disse uma fonte do governo saudita à agência Reuters.

    Negócios prejudicados

    As relações políticas entre a Turquia e Arábia Saudita vem se deteriorando nos últimos anos, mas os laços econômicos permanecem fortes. A Arábia Saudita é um importante mercado para as exportações turcas e numerosas empreiteiras da Turquia atuam no reino. Além disso, muitos empresários sauditas investiram na Turquia em empresas e imóveis e cerca demeio milhão de turistas sauditas visitam anualmente o país euroasiático, principalmente a região do mar Negro.

    Mas a repercussão do caso fez com que várias empresas privadas adotassem medidas de represália. Representantes de Viacom, The New York Times, The Economist, CNBC, Financial Times e Bloomberg anunciaram que sua retirada da conferência de investidores Future Investment Initiative, também chamada de “Davos do deserto”. Somaram-se ainda Uber, Viacom, Ford, JP Morgan, BlackRock e Blackstone e Virgin. Esta última anunciou a suspensão das negociações sobre o investimento de 1 bilhão de dólares (3,8 bilhões de reais) na Arábia Saudita. Um comunicado do seu proprietário Richard Branson afirmava que a comprovação da execução mudaria completamente a capacidade de qualquer ocidental de realizar negócios na Arábia Saudita.

    O caso também levou a empresa de consultoria norte-americana The Harbour Group a anunciar o fim de seu trabalho de assessoria para Riad. Esse é o golpe mais duro no reino árabe, que tenta ao mesmo tempo controlar o estado com mão de ferro e apresentar-se a investidores do ocidente como um paraíso para investimentos lucrativos.

    Relações hipócritas e inescrupulosas

    O que essa tragédia revela ao mundo não era novidade. Todo mundo que mantinha relações políticas ou negócios com a Arábia Saudita sabia (e sabe) o papel criminoso e reacionário que a sua monarquia cumpre no Oriente Médio. Mas todo mundo sempre fez vistas grossas. Este fato torna as inúmeras declarações de autoridades ou empresas um possível jogo de cena para parecer que pressionam Riad rumo a uma solução da crise, ainda que todas as evidências apontem ao príncipe herdeiro do trono, que está preventivamente poupado das declarações oficiais sobre as investigações.

    Há décadas a Arábia Saudita é a maior produtora de petróleo do mundo e possui uma das mais importantes reservas do planeta. Por isso é, também, o país mais poderoso entre os países árabes, sendo seu centro financeiro, apesar de sua força militar não acompanhar esse poderio na mesma proporção.

    Não por acaso, após tomar posse, o primeiro giro internacional de Trump incluiu a visita à Arábia Saudita visando reforçar suas relações e acordos com o reino. Pouco depois, a Arábia Saudita decretou um boicote aos Emirados do Qatar por suas relações com o Irã. Em seguida, tentando superar as dificuldades econômicas provocadas pela queda do preço do petróleo, o novo e ambicioso príncipe herdeiro, Mohamed bin Salman (MBS) lançou um pacote econômico e uma ofensiva política interna disfarçada de luta contra a corrupção para concentrar ainda mais poderes em suas mãos. Mais de 200 pessoas foram presas, incluindo ministros e/ou bilionários, dentre eles 11 príncipes da família real e o homem mais rico do mundo árabe, Bin Talal Bin Abdulaziz Al Saud, além do irmão de Bin Laden, dono de uma das maiores empresas de construção civil do país.

    Ato seguido, forçou a renúncia do primeiro-ministro do Líbano, o milionário Hariri, quando de uma viagem de emergência a Riad, a convite do rei Salman. Seu crime teria sido o de liderar uma coalizão de governo da qual faz parte importante o Hezbolah, aliado do Irã, o que é intolerável para os sauditas neste momento. A seguir, o chefe do governo libanês permaneceu em Riad, sem se que saiba ao certo sua condição (prisioneiro ou “convidado” do regime) e o governo saudita ordenou que seus cidadãos no Líbano abandonassem imediatamente aquele país.

    Sob a liderança de MBS, a Arábia Saudita intervém desde 2015 na guerra civil no Iêmen, o país mais populoso e miserável da Península Arábica, contra uma facção apoiada pelos iranianos. Dois anos depois já tinha resultado em mais de dez mil mortos, dezenas de milhares de feridos, milhões de refugiados e deslocados, toda essa barbárie patrocinada por Riad ao custo de quase 200 bilhões de dólares.

    Apesar disso tudo, as relações das grandes empresas e dos países imperialistas com a Arábia Saudita eram “normais”. É verdade que o assassinato de Jamal Koshoggi gerou toda ordem de protestos e abriu uma séria crise diplomática. Mas revelou principalmente a hipocrisia do discurso das potências imperialistas sobre a “democracia”, a “paz”, e a liberdade de expressão e imprensa. Ela mostrou que o que vale mesmo são os interesses econômicos que ditam toda ordem de relações inescrupulosas. Assim é o mundo capitalista.

    [1] https://www.washingtonpost.com/opinions/global-opinions/jamal-khashoggi-what-the-arab-world-needs-most-is-free-expression/2018/10/17/adfc8c44-d21d-11e8-8c22-fa2ef74bd6d6_story.html?fbclid=IwAR3V83Rp6S6fzb_LGHZEbmZ3oV6qDAUf65wnVwjVAl-GXhJ8OnhDHfLxQOY&noredirect=on&utm_term=.af72e3f3ad7a

  • Trump ameaça romper acordo nuclear com a Rússia. É urgente colocar um freio à nova corrida armamentista nuclear!

    No último sábado (20) o presidente norte-americano Donald Trump anunciou que irá retirar o país do Tratado de Forças Nucleares de Médio Alcance (INF), firmado entre os Estados Unidos (EUA) e a União Soviética (URSS) nos anos 1980. Este tratado é um dos pilares do sistema de controle internacional de proliferação de armas nucleares, e a ameaça de seu fim gerou uma nova onda de tensões geopolíticas na Europa e no mundo.

    A ruptura do acordo alavancará uma nova corrida armamentista que colocará em risco o futuro da humanidade. É urgente um movimento mundial contra as armas nucleares.

     O que é o INF?

    O Tratado de Forças Nucleares de Médio Alcance (INF), firmado pelos EUA e URSS em 1987, foi uma solução para as tensões geopolíticas entre a URSS e os EUA que surgiram no começo dos anos 1980.

    Na época, os Estados Unidos, sob a liderança de Ronald Reagan, instalaram os mísseis Pershing II na Alemanha Ocidental, colocando em ameaça a principais cidades soviéticas. Em resposta, a União Soviética colocou os mísseis SS-20s direcionadas às capitais europeias[1].

    A deposição dos mísseis norte-americanos e a resposta da URSS foram percebidos na época como o possível início de uma guerra nuclear na Europa. Por conta disso, milhões se manifestaram na Alemanha e em todo o continente contra a deposição dos mísseis norte-americano.

    Após este momento de tensão, as negociações entre EUA e URSS avançam e o INF é acordado em 1987. Sua cláusula fundamental impede que ambos os países utilizem mísseis com alcance de 500 e 5 mil km, eliminando os armamentos que poderia iniciar essa destruição mútua.

    O tratado é considerado uma das maiores conquistas históricas da diplomacia norte-americana ao eliminar 1.752 mísseis soviéticos, incluindo os SS-20s, e os 859 mísseis norte-americanos, incluindo os Pershing II[2].

    Por que Trump quer tirar os EUA do INF?

    Entretanto, após o cumprimento do acordo nos anos 1980 e a destruição de ambos os sistemas de mísseis, surgiram questionamentos nos anos seguintes sobre o cumprimento das demais cláusulas do acordo.

    Desde os anos 2000 a Rússia reclama do aumento do potencial militar norte-americano através da utilização em larga escala de drones, algo que não estava na pauta em 1987. Além disso, os russos afirmam que a instalação de sistema de mísseis de defesa norte-americanos na Romênia e a construção de um semelhante na Polônia são violações do INF.

    Os Estados Unidos, por sua vez, acusam a Rússia de praticar exercícios militares com armamento nuclear no mar Báltico, próximo à fronteira da Suécia, e instalar sistema de mísseis anti-balísticos em Kaliningrado, território russo que fica na fronteira com a Polônia.

    Contudo, a gota d’água para os americanos foi o lançamento do sistema de mísseis 9M729. Segundo declaração do Pentágono, mais precisamente da inteligência norte-americana, o 9M729 supera o alcance de 500 km e, portanto, configura violação do INF[3].

    Os russos, por outro lado, negam que os mísseis excedam o alcance previsto no acordo. Afirmam também que, caso confirmada a saída dos Estados Unidos do INF, haverá uma corrida armamentista nuclear na Europa e a Rússia trabalhará imediatamente para se equiparar ao arsenal dos Estados Unidos.

    Este movimento político de Trump, não obstante, tem também causas domésticas. A aparência de que o presidente está sendo duro com a Rússia ajuda a minar a percepção de que ele foi ajudado por membros do governo russo para ganhar as eleições de 2016.

    Em novembro haverá as eleições para o congresso norte-americano, em que o partido Republicano, de Trump, precisa assegurar maioria para poder governar e, inclusive, impedir a tramitação de um possível processo de impeachment.

    Por último, a provável retirada dos EUA do INF tem também relação com o fato da China não ter participado da sua assinatura. Atualmente, Estados Unidos e China embarcaram em um conflito geopolítico cujo efeito foi o aumento considerável do arsenal militar e nuclear chinês[4]. A saída norte-americana do INF contribui para diminuir as restrições nucleares dos Estados Unidos nesta contenda.

    A questão nuclear volta cada vez mais ao primeiro plano

    Pelo histórico da presidência de Donald Trump é provável que sua ameaça de retirada do INF seja cumprida. Muitos duvidavam que o presidente se retiraria do acordo nuclear do Irã[5] e o acordo climático de Paris[6]. Esta esperança, todavia, foi rapidamente dissipada pela agressividade internacional de Trump.

    Outro indicativo é que o assessor de segurança nacional dos EUA que está encabeçando a saída do INF, John Bolton, é o mesmo que em 2002 retirou o país do Tratado de Mísseis Anti-balísticos. Firmado em 1972, junto do INF, era um dos principais acordos de controle da expansão de armamentos militares e nucleares no mundo[7].

    Como efeito da saída do tratado, por um lado, os Estados Unidos se beneficiam do acordo no longo prazo, na medida em que a Rússia não tem o poder financeiro de se equiparar aos norte-americanos em uma corrida armamentista nuclear.

    Por outro lado, no curto prazo, o maior beneficiário desta política de Trump é a própria Rússia. Enquanto os Estados Unidos estão mais interessados em expandir seu poder naval, particularmente no mar do sul da China, os russos querem ter mais liberdade na deposição de armamentos terrestres na Europa, ganhando liberdade para isso como fim do INF.

    Esta situação é particularmente ameaçadora para os países da União Europeia, devido ao conflito aberto com a Rússia desde a crise ucraniana de 2014. Nesta segunda feira (22), os países do bloco reivindicaram que os Estados Unidos reconsiderem a posição de saída unilateral do acordo. Tanto o presidente francês, Emmanuel Macron, quanto o ministro de relações exteriores alemão, Heiko Maas, fizeram declarações públicas nesse sentido[8].

    Atualmente, existe uma crise na OTAN, aliança militar entre Estados Unidos, Europa e demais parceiros ocidentais. Caso Trump, futuramente, peça aos membros europeus da OTAN para que instalem armamento nuclear próximo à fronteira da Rússia é possível que eles neguem e a aliança se desgaste ainda mais. Estes países tem um posicionamento muito menos agressivo em relação aos russos que os EUA.

     Em defesa da humanidade e do planeta: desarmamento nuclear já!

    Ocorra o que ocorrer, o fato é que a ameaça dos EUA de se retirar do acordo da INF aumentou ainda mais as tensões geopolíticas mundiais. Somada à ruptura do acordo nuclear dos EUA com o Irã e o jogo de forças em torno à desnuclearização da península coreana[9], este novo fato faz com que a questão nuclear passe cada vez mais ao primeiro plano das disputas inter-imperialistas que marcam a atual crise da ordem mundial.

    A dificuldades para encontrar uma saída sustentada à crise econômica internacional de 2007-2008 que teve pela primeira vez desde a crise de 1929 teve como epicentro a economia dos EUA, a maior e mais importante do mundo, está levando os capitalistas e seus governos a uma rota de   colisão cada vez maior.

    À beira de uma escalada da corrida armamentista nuclear é urgente que os movimentos sociais, a esquerda socialista e as organizações democráticas, ecológicas e humanitárias se unam e coloquem urgentemente em marcha um movimento mundial pelo desarmamento nuclear multilateral, total e incondicional. Não confiemos nem um minuto na racionalidade irracional dos capitalistas. O futuro está em nossas mãos. Lutemos por ele.

    Leia mais:

    [1] https://www.bloomberg.com/opinion/articles/2018-10-22/trump-s-withdrawal-from-inf-treaty-revives-old-headaches

    [2] https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2018/10/russia-ameaca-retaliacoes-apos-trump-dizer-que-deixara-tratado-nuclear.shtml

    [3] https://www.bloomberg.com/opinion/articles/2018-10-22/trump-s-withdrawal-from-inf-treaty-revives-old-headaches

    [4] https://esquerdaonline.com.br/2018/07/03/o-novo-plano-naval-chines-dominar-o-mar-do-sul-da-china-e-conquistar-o-pacifico-ate-2030/

    [5] https://esquerdaonline.com.br/2018/05/08/ira-trump-cancela-o-acordo-nuclear-com-o-pais/

    [6] https://esquerdaonline.com.br/2017/06/07/trump-anuncia-a-retirada-dos-eua-do-acordo-de-paris-sobre-o-clima/

    [7] https://www.theguardian.com/world/2001/aug/24/usa

    [8] https://www.theguardian.com/world/2018/oct/22/eu-us-nuclear-arms-race-inf-treaty-bolton-moscow

    [9] https://esquerdaonline.com.br/2018/10/02/na-onu-coreia-do-norte-diz-que-nao-havera-desnuclearizacao-se-eua-manterem-as-sancoes/

  • Na ONU, Coreia do Norte diz que não haverá desnuclearização se EUA mantiverem as sanções

    Neste sábado (29), foi a vez do chanceler da Coreia do Norte, Ri Yong-ho, discursar na 73ª Assembleia Geral da ONU, quando deixou nítido o impasse que vive o processo de desnuclearização do país.

    Sobre a persistência do embargo econômico imposto pelos Estados Unidos à Coreia do Norte, Yong-ho afirmou [1] que “Sem nenhuma confiança nos EUA, não haverá confiança em nossa segurança nacional e sob essas circunstâncias não há como nos desarmarmos unilateralmente primeiro”. E complementou: “A percepção de que sanções podem nos colocar de joelhos é um sonho de pessoas que são ignorantes sobre nós. Mas o problema é que a continuidade das sanções está aumentando nossa desconfiança”.

    O chanceler também ressaltou que a Coreia do Norte tomou “medidas significativas e de boa-fé, como interromper testes nucleares e de mísseis balísticos, desmantelar a instalação de testes nucleares de maneira transparente e se comprometer a não transferir armas nucleares e tecnologia nuclear sob quaisquer circunstâncias”. E concluiu: “No entanto, não vimos nenhuma medida correspondente por parte dos EUA.”

    O impasse
    A cúpula de Singapura entre Donald Trump, presidente norte-americano, e Kim Jong-un, líder da Coreia do Norte, realizada em 12 de junho desse ano, tentou passar ao mundo a impressão que havia se chegado a um acordo entre os países que finalmente levaria paz à península coreana.

    Esta impressão foi reforçada pelo fato de partes do acordo estarem sendo cumpridas, em certa medida, por ambos os países. Por um lado, os testes nucleares e de lançamento de mísseis norte-coreanos foram suspensos. Por outro, os exercícios militares conjuntos entre EUA e Coreia do Sul foram interrompidos. Ainda, restos mortais de soldados norte-americanos mortos na guerra da Coreia começaram a ser devolvidos aos EUA.

    No entanto, para além destes efeitos imediatos, o acordo não passou de uma declaração de intenções. Após um intenso calendário de reuniões ter sido realizado após a Cúpula de Singapura entre representantes dos dois países, o processo de negociação foi travado devido à um impasse entre as partes sobre o processo de retirada do armamento nuclear da Coreia e o fim do regime de embargo econômico contra o país.

    Em agosto, uma viagem do secretário de Estado Mike Pompeo foi suspensa na última hora. Trump afirmou que o encontro já não tinha sentido, uma vez que não havia tido progresso na desnuclearização do país. Na ocasião, alegou que parte do problema era que a China, influenciada pela disputa comercial com os EUA, não estava ajudando.

    O anúncio da suspensão da reunião ocorreu depois que a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) divulgou relatório afirmando ter graves preocupações sobre o programa nuclear norte-coreano. Isso se chocava com a informação divulgada pouco antes pelo think tank americano “38 North” com imagens de satélite indicando que Pyongyang tinha começado a desmontar locais importantes na fabricação de mísseis balísticos. À despeito desta informação, já no final de julho, Mike Pompeo, em resposta a uma pergunta do Comitê de Relações Exteriores no Senado dos EUA, havia sido categórico. Baseado em informações de fontes de inteligência[1], respondeu: “Sim, seguem produzindo material físsel”.

    Apesar disso, durante os trabalhos da comissão do Conselho de Segurança da ONU na 73ª Assembleia, China e Rússia disseram que se devia recompensar Pyongyang pelos passos já dados, apontando a possibilidade de suspender o embargo econômico ao país. Em contraponto, na quinta-feira (25), Mike Pompeo foi categórico: “A aplicação das sanções do Conselho de Segurança devem continuar com vigor e sem falhar até que realizemos a total, final e verificada desnuclearização”.

    O discurso do chanceler norte-coreano Ri Yong-ho na ONU esclareceu por que as negociações continuam travadas: sem o fim do embargo econômico, a Coreia do Norte não avança na desnuclearização; ao mesmo tempo que, sem a desnuclearização, os EUA não suspendem o embargo. Esse é o impasse.

    A recente cúpula de Pyongyang estreita relações entre as duas Coreias
    Enquanto as relações entre EUA e Coreia do Norte chegam a um impasse, a terceira cúpula intercoreana, realizada entre 15 e 19 de setembro[1], em Pyonyang, dá mais um passo para consolidar a relação entre as duas Coreias. Moon Jae-in, presidente da Coreia do Sul, foi o primeiro líder a visitar a capital do Norte desde o final da guerra na península (1950-1953).

    Com isso, a Coreia do Sul busca se distanciar relativamente dos Estados Unidos, atuando com mais independência na região. Toda movimentação entre as Coreias de fato significou uma pressão sobre os EUA.

    Na cúpula, os dois países assinaram um acordo comprometendo-se a eliminar “toda ameaça” de guerra entre seus respectivos países e a obter uma península sem perigos nem armas nucleares. “O Norte e o Sul concordaram em fazer da península coreana uma base para a paz, onde não haja ameaças nem armas nucleares, e buscarão progressos substanciais para obter este fim rapidamente”, diz o documento.

    Moon ressaltou que foi a primeira vez que as duas Coreias concordam em dar passos específicos para a desnuclearização. Segundo ele, Kim se comprometeu em fechar de forma permanente seu centro de testes de mísseis em Tongchang-Ri, constando no comunicado que isso será feito “sob a supervisão de especialistas dos países implicados”.

    O compromisso é que novos passos ainda poderão ser dados, tal como o desmantelamento total de sua central nuclear de Yongbyon, onde em 2008 foi derrubada uma torre de resfriamento como gesto de boa vontade. Mas todas essas medidas estariam condicionadas a “ações recíprocas por parte dos Estados Unidos”, leia-se, fim do embargo. Isso ficou totalmente evidente na 73ª Assembleia da ONU.

    Mas a cúpula não se resumiu a tratar da desnuclearização. Antes do final do ano, os dois países farão uma cerimônia para conectar seus sistemas ferroviários nas costas leste e oeste. Também, assim que “houver condições”, retomarão a cooperação no polígono industrial fronteiriço de Kaesong, fechado em 2016 depois do quarto teste nuclear norte-coreano, e as visitas turísticas sul-coreanas ao monte Kumgang, no lado norte da fronteira. Também apresentarão uma candidatura conjunta para organizar os Jogos Olímpicos de verão de 2032.

    “O Norte e o Sul impulsionarão seus intercâmbios e cooperação sobre uma base de reciprocidade, interesses compartilhados e prosperidade, e proporão medidas substanciais para desenvolver a economia nacional”, informa o comunicado.

    Por fim, durante o encontro, as duas Coreias também assinaram um acordo militar para aumentar sua comunicação e evitar situações que possam levar ao início acidental de um conflito. Entre outras coisas, concordaram em cancelar todas as manobras de artilharia na zona fronteiriça.

    Nesta segunda-feira, 1º de outubro, como parte do acordo de Pyonyang, soldados da Coreia do Sul e da Coreia do Norte começaram a remover minas terrestres ao longo da fronteira altamente fortificada entre os dois países.

    [1] https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2018/09/coreia-do-norte-diz-que-com-sancoes-nao-havera-desarmamento-nuclear.shtml

    [1] https://brasil.elpais.com/brasil/2018/07/31/internacional/1532994701_980945.html

    [1] https://g1.globo.com/mundo/noticia/2018/09/19/coreia-do-norte-promete-fechar-local-de-testes-de-misseis.ghtml

  • China e Rússia se contrapõem à Trump e defendem “multilateralismo” em discurso na ONU

    Durante a 73ª Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), na semana passada, em que mais uma vez o presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, defendeu a “América Primeiro” (America First) e criticou a globalização, os representantes da China e da Rússia fizeram apelos contra o isolacionismo e unilateralismo norte-americano.

    Na última sexta-feira (28), o ministro de Relações Exteriores chinês, Wang Yi, apresentou a China como o grande país defensor do multilateralismo na política internacional. Segundo ele, é necessário insistir na utilização da diplomacia e negociação em organizações internacionais para a resolução de conflitos, referindo-se à atual guerra comercial entre EUA e China.

    Após a eleição de Donald Trump em 2016, os EUA passaram a se engajar em uma guerra comercial com a China que vem ganhando contornos cada vez mais radicais. Em setembro, Trump anunciou o aumento de 10% sobre a tarifa de importação de U$ 200 bilhões em produtos chineses.

    O ministro Wang, contrapondo-se ao discurso de Trump, afirmou que os conflitos comerciais devem ser resolvidos na Organização Mundial do Comércio (OMC), através de negociações julgadas por juízes imparciais, e não por medidas unilaterais aplicadas pelos países dominantes.

    Já o ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, criticou os dispositivos de sanções econômicas aplicados pelos EUA e União Europeia contra seu país após a crise ucraniana de 2014, quando os russos anexaram a península da Crimeia. Segundo ele, tratam-se de instrumentos de “chantagem política, pressão econômica e força bruta”.

    Ainda, Lavrov afirmou que a Rússia é o principal país comprometido a negociar um caminho para a paz na Síria e o acordo de desnuclearização do Irã. De acordo com o ministro, a saída unilateral dos EUA do acordo de interrupção do programa nuclear iraniano é uma violação das resoluções da ONU, que aprovaram o acordo.

    De fato, os dois países, China e Rússia, atuaram em unidade contra os EUA.  

    A parceria sino-russa
    Por último, os representantes chinês e russo alertaram contra o retorno da “política de grandes potências” do século XIX, em que potências mais fracas se aliavam para destronar uma potência mais forte. Apesar de todo o discurso em defesa do multilateralismo pregado pelos dois países, esta manifestação soou como um alerta para os EUA.

    A realidade é que China e Rússia vêm desenvolvendo desde os anos 1990 uma parceria estratégica que, nesta década, tomou proporções significativamente maiores. Além da aproximação econômica entre os países, a coordenação militar e estratégica sino-russa (China e Rússia) também vem aumentando.

    Em setembro deste ano, a Rússia organizou o anual teste e apresentação de manobras e tecnologia militares chamado Vostok 2018. Este ano, entretanto, o evento ganhou ampla repercussão por dois motivos: 1) foi o maior em mais de três décadas, desde o fim da União Soviética; 2) contou com a participação da China.

    Este foi o maior exercício militar ocorrido em território russo desde 1981. Participaram 300 mil soldados; mil aviões de guerra; 36 mil peças de equipamento, incluindo 1.100 tanques de guerra; e mais de 50 navios de combate. Os chineses, convidados para o exercício, participaram com 3.200 soldados, 900 peças de equipamento e 30 aviões de guerra.

    De acordo com o ministro de Defesa chinês, o objetivo dos exercícios era fortalecer a parceria entre os países e testar táticas de combate conjunta e coordenada. Além disso, foi um alerta para a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), liderada pelos Estados Unidos, de que outros países também estão investindo em defesa e, em caso de guerra, estão preparados para isso.

    Uma realidade desafiadora que revela a instabilidade cada vez maior da atual situação mundial.

     

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  • 73ª Assembleia Geral da ONU: Trump desafia a ordem mundial e crise fica exposta

    No dia 25 de setembro tiveram início os debates na 73ª Assembleia Geral da ONU. Trump arrancou risadas irônicas quando iniciou o discurso anunciando que seu governo fez mais pelos EUA em dois anos do que todos os governos anteriores juntos.

    Entretanto, depois de brincar dizendo que não esperava tal reação, logo recompôs o silencio do plenário, passando a ressaltar os aspectos positivos de seu governo como a recuperação econômica, o baixo desemprego e os altos índices da Bolsa.

    Em seguida, passou a expor sua visão de mundo e as iniciativas correspondentes que estão sendo adotadas pelos EUA em praticamente todos os terrenos.

    Num tom sóbrio e até mesmo sombrio, repetiu o discurso (atualizado) proferido em dezembro de 2017, quando anunciou a nova Estratégia de Segurança Nacional (NSS) dos EUA. A nova doutrina foi reafirmada em fevereiro de 2017, quando J. Mattis, secretário de defesa, apresentou a nova Estratégia de Defesa Nacional (NDS).

    Há, contudo, uma ressalva: dessa vez, perante o público da ONU, Trump omitiu-se sobre a Rússia, quando em dezembro a mesma era apontada, ao lado da China, como um dos Estados a ser combatidos pelos EUA. Isso demonstra que neste ponto ainda persiste uma diferença entre o governo Trump e o Pentágono. Não por acaso, a relação de Trump com a Rússia tornou-se um de seus flancos mais expostos aos ataques da oposição e, inclusive, do próprio staff republicano.

    Uma vez mais, “America First”
    Em seu discurso na ONU, Trump reafirmou sua doutrina da “America First”. Defendeu o patriotismo e declarou-se inimigo da globalização. Admitindo o declínio relativo dos EUA como potência mundial, reafirmou que os EUA não podem seguir perdendo às custas do resto do mundo.

    Afirmou que sob a ordem neoliberal proliferaram enganadores que se beneficiaram de um imperialismo tímido e globalista, mais preocupado em liderar o mundo do que defender os interesses norte-americanos. Advertiu: “Isso chegou ao fim”.

    Justificou as guerras comerciais afirmando que os EUA não podem seguir sendo vítima da cobiça de seus rivais e mesmo de seus próprios sócios. Alegou que estes têm se aproveitado das instâncias e instituições multilaterais como a OMC para entrar no mercado norte-americano, enquanto ao mesmo tempo tratam de proteger seus próprios mercados.

    Criticou a transferência forçada de tecnologia e os subsídios estatais violando o livre mercado. Apesar de considerar Xi Jinping um amigo, ressaltou que a China adota uma política comercial e monetária desonesta, insinuando que por detrás dela também estariam alguns dos sócios tradicionais dos EUA como a Alemanha, a União Europeia e Canadá.

    Sem apontar diretamente a OTAN e a Alemanha, também se referiu aqueles países que não querem gastar com sua própria segurança, deixando que os EUA arquem com os custos de ser a polícia do mundo. Afirmou que partir de agora a ajuda financeira e política será destinada somente aos amigos.

    Neste diapasão, exaltou o recente acordo militar dos EUA com a Polônia, advertiu a Alemanha sobre sua dependência do gás russo – uma referência à construção do gasoduto ligando os dois países -, bem como apontou como um exemplo o recente acordo de livre-comércio com a Coreia do Sul.

    Além disso, Trump reivindicou também o papel que Israel cumpre no Oriente Médio e defendeu a transferência da embaixada dos EUA e da capital de Israel para Jerusalém. Reivindicou também a monarquia da Arábia Saudita – ainda que, contraditoriamente, tenha criticado a OPEP como responsável pelo aumento do preço do petróleo – e sua atuação contra o terrorismo na guerra civil no Iêmen.

    Uma afronta, já que a situação do Iêmen é considerada pela própria ONU como a maior crise humanitária do mundo atual, produto da sistemática violação de direitos humanos, tal como o caso do bombardeio de um ônibus escolar matando 40 crianças.

    Por outro lado, Trump denunciou duramente o Irã e a Venezuela. Sustentou a justeza da ruptura dos EUA com o acordo nuclear que Obama assinou com o Irã (Plano de Ação Conjunto Global, JCPOA, na sigla em inglês) em 2015, considerado por ele como o “pior acordo do mundo”.

    Embora não tenha defendido explicitamente a “opção militar” ou a “intervenção” externa na Venezuela -tal como vem fazendo explícita e sistematicamente no último período – reivindicou as novas medidas econômicas contra o país, o qual chamou de “socialista”, cuja situação seria uma “tragédia humana”. Chamou o apoio às suas medidas contra a Venezuela e os esforços pela “restauração da democracia” no país.

    Sobre a Coreia do Norte, saudou como atitude “corajosa” os passos dados por Kim Jong-un desde a cúpula de Singapura, realizada entre ambos países em junho deste ano, à qual tratou da desnuclearização da península. Como exemplo, citou a suspensão dos testes nucleares, o início do desmonte do aparato nuclear e a liberação dos restos mortais dos soldados norte-americanos que combateram na Guerra da Coréia. Reafirmou, no entanto, que o fim do embargo econômico à Coreia do Norte só viria depois da completa desnuclearização do país.

    Embates de projetos e crise da ordem mundial
    O discurso de Trump contrastou com o do secretário geral da ONU, António Guterres. Membro do Partido Socialista português, seu discurso[1] colocou em confronto duas visões extremas que deixam nítida a atual polarização na instituição, refletindo a crise da ordem mundial.

    Enquanto Trump, desde a ótica de seu nacional-imperialismo – “America First” – visando “Fazer a América Grande novamente” (“Make America Great Again”) afirmou que a própria ONU precisaria ser “ajustada”- uma forma diplomática de dizer que ela não serve aos seus propósitos -, Guterres reafirmou que a ONU é necessária e que o “multilateralismo é mais importante do que nunca” quando há conflito de interesses e conflitos abertos.

    Em seu discurso, o secretário geral afirmou que “A confiança [no mundo] está em um ponto de ruptura” e que “As divisões no nosso Conselho de Segurança são rígidas”. Para ele “A confiança na governança global também é frágil”.

    Diagnostica que “Hoje, a ordem mundial é cada vez mais caótica. Relações de poder são menos claras. Valores universais estão sendo erodidos. Os princípios democráticos estão sob cerco e o estado de direito está sendo minado. A impunidade está em ascensão, à medida que líderes e estados ultrapassam as fronteiras, tanto em casa como na arena internacional.” E assevera: “O multilateralismo está sob fogo precisamente quando mais precisamos dele.”

    Mais a frente, agrega: “Sem estruturas multilaterais fortes para a cooperação e resolução de problemas à escala europeia, o resultado foi uma grave guerra mundial.” Ele alerta que “Hoje, com mudanças no equilíbrio de poder, o risco de confronto pode aumentar.” À título de ilustração recorre a um exemplo histórico: “Ao avaliar a Guerra do Peloponeso na Grécia Antiga, Tucídides disse, e cito: ‘Foi a ascensão de Atenas e o medo que isso incutiu em Esparta que tornou a guerra inevitável’”.

    Mais à frente conclui: “Líderes individuais têm o dever de promover o bem-estar de seu povo. Mas é mais profundo. Juntos, como guardiões do bem comum, temos também o dever de promover e apoiar um sistema multilateral reformado, revigorado e fortalecido.”

    Nos debates ocorridos no decorrer da Assembleia, afirmou que as relações em torno às armas nucleares estão em seu mais alto nível de ansiedade desde o fim da chama da Guerra Fria, devido aos testes nucleares e de mísseis da Coreia do Norte, mas aponta que “A solução precisa ser política. É hora de estadismo. Não devemos caminhar para a guerra”. Alertou que “conversas enérgicas podem levar a desentendimentos fatais”.

    Sobre terrorismo, enfatizou a necessidade de enfrentar as causas da radicalização: “Não é suficiente combater terroristas no campo de batalha”. Resgatou a necessidade de um “crescimento da diplomacia” e “um salto na prevenção de conflitos para o amanhã”. Disse que é possível se mover “da guerra para a paz, da ditadura para a democracia”.

    Ressaltou que apenas soluções políticas podem levar paz para conflitos não resolvidos em Síria, Iêmen, Sudão do Sul, Sahel, Afeganistão e em outros lugares. Para isso anunciou a criação de um conselho consultivo de alto nível para a mediação de conflitos.Sobre o conflito entre Israel e Palestina, Guterres afirmou que a solução de dois Estados permanece como o único caminho adiante.

    Durante a Assembleia, Guterres disse também que a migração segura não pode ser limitada a uma elite global, e enfatizou a necessidade de se fazer mais para enfrentar seus desafios. Refugiados, pessoas deslocadas internamente e migrantes não são o problema, e sim os conflitos, as perseguições e a pobreza. Seu discurso foi no mesmo sentido.

    Ao tratar das mudanças climáticas, enquanto Trump, defensor do “negacionismo”, retirou a assinatura dos EUA do Acordo de Paris, Guterres alertou para a gravidade da situação climática e pediu aos governos a implementação do que ele chamou de um acordo “histórico” para o clima.

    Para enfrentar essa nova situação mundial e seus desafios, a ONU lançou iniciativas de reforma da própria Organização[2].

    Crise doméstica, uma ameaça
    Apesar que Trump tenha dito em seu discurso que sob seu governo os EUA estariam “mais fortes”, “mais ricos” e “mais poderosos” que há dois anos atrás, isso contrasta com a profunda crise política que sua administração atravessa. Desde que tomou posse a Casa Branca vem sendo sacudida por escândalos e divisões dentro do seu próprio stablishment.

    Há meses Trump está metido no imbróglio do inquérito liderado pelo promotor especial Robert Mueller sobre a interferência da Rússia nas eleições de 2016. Mueller indiciou 12 russos por suspeita de hackear computadores do Partido Democrata, da oposição.

    Após encontro com Putin em julho, Trump disse não acreditar na interferência da Rússia. Depois teve que voltar atrás e concordar com a continuidade das investigações que a todo momento ele tenta interromper.

    No início do mês o New York Times, principal jornal corporativo opositor a Trump, publicou um artigo anônimo de um funcionário da alta administração. Em tom conspirativo se definiu como parte de uma “resistência silenciosa” a um “governo caótico” e tranquilizou a opinião pública dizendo que também “tem gente adulta na sala”, numa referência ao Salão Oval, gabinete e local de trabalho do presidente.

    O vice-presidente Mike Pence, o secretário de Estado Mike Pompeo e a secretária de segurança doméstica Kirstjen Nielsen, chegaram a ser cogitados como supostos autores do artigo.

    Nas últimas semanas, o juiz conservador Brett M. Kavanaugh proposto por Trump para ocupar uma vaga na Suprema Corte enfrenta acusações de abusos sexuais que vem dificultando sua confirmação. A comissão do senado aprovou seu nome por 11 votos a 10, e ainda falta a votação no plenário onde os republicanos têm 51 votos contra 49 dos democratas e há 3 republicanos indecisos. Uma batalha que às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato, a “midterm”, fez pairar sobre a Casa Branca o fantasma do escândalo de Watergate que pôs fim ao governo Nixon.

    Toda essa situação questiona a fortaleza demonstrada por Trump ao discursar na 73ª Assembleia Geral da ONU. É bom lembrar que nenhum imperialismo, nem império, incluindo os pré-capitalistas, puderam se sustentar sem um grau suficiente de consenso, legitimidade e apoio político e social no seu interior. Muitas vezes a ‘frente interna’ resulta ser, em última instância, a principal frente para se exercer o domínio imperialista.

    NOTAS

    [1] https://www.un.org/sg/en/content/sg/speeches/2018-09-25/address-73rd-general-assembly

    [2]http://undocs.org/es/A/73/1

     

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