Matheus Gomes

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  • Marchezan governa Porto Alegre?

    O que mais me chamou atenção ontem, durante as 10 horas de ocupação da Prefeitura, foi que a responsabilidade de “dialogar” com o movimento foi delegada exclusivamente ao comando da Brigada Militar (BM). O prefeito Marchezan preferiu dar poderes políticos à BM do que atender a uma exigência simples: a abertura de uma mesa de negociação. Além de já ter se demonstrado um péssimo articulador, é incapaz de sentar com o movimento para dizer não. A sua linguagem é a da porrada e só.
    Um detalhe tragicômico: o comandante era o mesmo que admitiu que a Tropa de Choque depredou a Câmara dos Vereadores.
    A BM se prestou a entrar no jogo político. Muita gente brincou que estavam à esquerda do prefeito, já que ele queria a desocupação forçada desde o início da tarde, mas não, Schirmer (Secretário de Segurança) e Sartori faziam o cálculo do que poderia significar uma ação que derramaria sangue de trabalhadoras no Paço Municipal, uma semana antes das eleições, e assim preferiram deixar o prefeito sangrar o dia todo, até por que ele é o rosto de Eduardo Leite (candidato do PSDB ao governo estadual) aos milhões de eleitores da Região Metropolitana.
    O apoio da população ao movimento foi grande, pois a vida piora a cada dia em Porto Alegre. Marchezan pode até coesionar a classe média verde-amarela, mas não se governa a cidade a partir do Parcão. Aquela ilha de privilégios é o oposto da vida do povo que batalha. As dissidências constantes no governo provam que Marchezan é um governo frágil e isso tem que nos fazer acreditar mais na nossa mobilização, a lição central de ontem é essa.
    Uma hora é o MBL, outra o Sindilojas, outra a BM, quem dirige o Paço Municipal?
    Foto: Guilherme Santos, SUL21.
  • Haiti: a renúncia do primeiro-ministro e a continuidade da crise

    Jack Guy Lafontant, primeiro-ministro do Haiti, renunciou ao cargo nesse sábado (14), após semana marcada pela forte greve geral, ocorrida entre segunda e terça-feira, e a paralisia do governo de Jovenal Moise (Partido Tèt Kale) ante a pressão do FMI pela continuidade da aplicação do ajuste econômico na ilha.

    A renúncia foi uma ação combinada entre o presidente, o premiê e os líderes da Assembleia Nacional, que visam acalmar os ânimos populares. Entretanto, a situação de Moise complica-se a cada dia. O presidente eleito no pleito manipulado de 2016 já não possui a mínima base social para governar.

    Por um lado, a elite haitiana, completamente desprovida de um projeto de desenvolvimento autônomo do imperialismo, acirra seus conflitos internos. Um dos agentes fundamentais da renúncia de Lafontant foi o Fórum Econômico do Setor Privado, o grupo mais poderoso do país, que exigiu sua saída na última terça-feira. De acordo com o jornalista Alcides Carrazana, setores da burguesia comercial, nutridos pelas exportações com a República Dominicana, visam derrotar o governo como um todo devido o aumento nas taxas aduaneiras promovido por Moise. As antigas lideranças, corresponsáveis pela crise, encontram-se acuadas. Na semana passada, o ex-presidente Michel Martelly foi o primeiro a fugir de helicóptero para a República Dominicana, que, sob as ordens do presidente Danilo Medina, ampliou o controle da fronteira temendo uma nova onda de imigração.

    Ao mesmo tempo, o povo haitiano reinventa seus métodos de resistência. De acordo com Henry Boisrolin, do Comitê Democrático Haitiano, a situação após a insurreição é explosiva e programas de rádio veiculam diariamente mensagens conclamando a manutenção das barricadas, o fechamento do parlamento e a deposição do presidente pela ação popular, após o impacto das mobilizações de rua e da greve geral.

    FMI mantém pressão pelo ajuste
    Na última quinta-feira, Gerry Rice, diretor do Departamento de Comunicação do FMI, emitiu declaração afirmando que o pacote “proposto” pela banca internacional deve ser mantido na pauta do governo. Disfarçado de “ajuda humanitária”, as medidas ampliam a dependência externa da ilha. A dívida externa haitiana é estimada em U$ 890 milhões, sendo 41% relacionados com o Banco Interamericano de Desenvolvimento, maior credo do país, e 21% com o Banco Mundial. O FMI propõe o fim dos subsídios aos produtos derivados do petróleo, a privatização de empresas estratégicas e a continuidade da política econômica desenvolvida por Moise.

    Desde o governo Martelly a economia haitiana foi dolarizada. Hoje, 1 dólar equivale a 60 gourdes e a valorização da moeda estadunidense tem pressionado a elevação de preços dos produtos importados, impactando na inflação que varia entre 11% e 15%. Moise e o Tèt Kale congelaram o salário mínimo em 350 gourdes por dia, ou menos de U$ 6, ao passo que estudos demonstram que as necessidades básicas dos trabalhadores podem ser atendidas com cerca de 1.248 gourdes diários. Desemprego, miséria, violência e completa ausência de direitos sociais representam o plano do imperialismo para o Haiti, enquanto as remessas diárias para fora do país seguem na casa dos U$ 8 milhões.

    Com o povo haitiano, em defesa da sua autodeterminação!
    Para onde vai o Haiti? Essa é a grande questão da política caribenha nesse momento. Estamos falando de um país que possui em seu DNA a experiência da primeira revolução anticolonial vitoriosa em nosso continente. Por isso, jamais deixou de resistir à política de intervenção permanente do imperialismo. A insurreição popular abriu uma nova situação e, diante da insistência do FMI e da burguesia nacional em aplicar os planos de ajuste, é possível apostar em novas irrupções pelas ruas de Porto Príncipe e outras cidades da ilha no próximo período.

    Após a demissão de Lafontant, a linha de Moise – orientada pelo FMI e o Fórum Econômico do Setor Privado – será a constituição de um novo governo de unidade nacional. Entretanto, para além da crise gerada pelo aumento dos combustíveis, a situação haitiana remete aos problemas históricos do desenvolvimento econômico e social, agravados recentemente pela intervenção militar que restringiu ainda mais os direitos democráticos e auxiliou na imposição do projeto econômico imperialista, além dos trágicos terremotos dos últimos oito anos que abalaram as péssimas condições estruturais.

    A radicalidade dos protestos indica bem os alvos da insurreição haitiana: os prédios públicos que simbolizam o poder corrupto e antipopular, os hotéis construídos com dinheiro público que não servem à população, os carros da polícia violenta, a sequência de saques nos centros comerciais da elite haitiana. De forma consciente ou não, esse repertório de ação aponta a desorganização do sistema neocolonial no Haiti e a necessidade do protagonismo popular assumir a vanguarda na luta pela autodeterminação nacional e a reconstrução do país a partir de uma perspectiva democrática, igualitária, antirracista e de integração entre os povos latino-americanos.

     

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    Aumentos nos combustíveis, greve geral e repressão: entenda a crise no Haiti

  • Aumentos nos combustíveis, greve geral e repressão: entenda a crise no Haiti

    Mais uma vez, o Haiti vive dias de fúria popular. As ruas de Porto Príncipe e das principais cidades como Les Cayes, Cabo Haitiano, Jeremias e Grande Enseada, foram tomadas por manifestantes contrários ao aumento de até 51% no preço dos combustíveis, anunciado na última sexta-feira. Para além do setor de transporte, o reajuste draconiano atinge o abastecimento de energia da população, já que grande parte necessita do querosene para ter acesso à iluminação básica e cozinhar. O reajuste equipararia o preço do salário mínimo diário – U$ 5 – com o valor do galão do querosene, o que só agrava a crise social num país onde a super-exploração é regra e 14% da população sequer possui emprego.

    Correspondentes internacionais descrevem a situação do país como “insurrecional”: barricadas nas ruas, repressão policial, saques e destruição de lojas e supermercados, incêndio de carros e uma forte greve geral convocada pelos trabalhadores do transporte compõe o quadro da crise política e social na ilha. A Polícia Nacional do Haiti chegou a aquartelar-se, já que não tinha como controlar as ruas. Mesmo assim, o número de mortos já se aproxima de dez vítimas desde o início das manifestações, reafirmando o caráter violento das forças policiais haitianas treinadas pela Minustah (ONU).

    A medida é parte do plano de ajustes do Fundo Monetário Internacional (FMI) para a América Latina, que também prevê a privatização completa da estatal responsável pela energia elétrica do país, entre outras contrarreformas sociais. Entretanto, o presidente Jovenal Moise e o primeiro-ministro Jack Guy Lafontant, do Partido Tèt Kale, foram obrigados a revogar o aumento no último domingo, o que não foi suficiente para arrefecer as mobilizações, que agora exigem a renuncia de ambos os políticos que também estão envolvidos em diversos casos de corrupção, principalmente entorno do dossiê conhecido como Petrocaribe. É importante lembrar que Moise, empresário e produtor de bananas, assumiu o governo depois de uma crise que durou quase um ano e meio, alimentada por diversos questionamentos ao resultado das urnas, que tiveram participação de menos de 20% da população.

    O início da semana foi marcado por uma forte greve geral convocada pelo setor de transportes. Segundo os correspondentes da Telesur, poucas pessoas caminhavam pelas ruas na segunda-feira, bem como a circulação de ônibus e carros era quase zero. Nessa terça-feira, a greve continuou, porém, com maior presença das forças policiais nas ruas na tentativa de desmontar as barricadas e retomar a “normalidade” esmagando a mobilização. As dificuldades de organização no Haiti são gigantescas devido a situação de extrema exploração e a repressão violenta do governo e das forças internacionais, entretanto, os últimos dias estão demonstrando que o povo haitiano ainda possui uma imensa capacidade de reinventar suas formas de solidariedade e mobilização para resistir a recolonização do país.

    A verdade é que a primeira ilha a se libertar do julgo da escravidão no continente americano vive as agruras da perda de sua soberania e da espoliação de suas riquezas, ações conscientes de um imperialismo movido pelo ressentimento racista, que nunca permitiu que o povo haitiano decidisse os rumos do país de forma autônoma. A ocupação militar dirigida pelo Brasil não alterou em nada as condições do país, pelo contrário, serviu de proteção para a implementação das maquiladoras da indústria têxtil imporem regime semi-escravo aos trabalhadores locais. As forças militares se mostraram incapazes de reconstruir o país depois do terremoto de 2010 e ainda foram as responsáveis por exportar uma trágica crise de cólera no país. Hoje, a economia haitiana é completamente controlada por agentes internacionais de diversos países, que vão do capital brasileiro, canadense e francês, até a ingerência de sul-coreanos e vietnamitas. A situação de migração em massa para países como o Chile e o Brasil reflete o desespero de quem não vê expectativas de construir uma vida digna em seu país. A forma de retomar a dignidade e a soberania é pela organização e mobilização popular, além do necessário desenvolvimento de uma ampla rede de solidariedade internacional que possa auxiliar na reconstrução do Haiti.

  • ‘Temos que fazer um protesto’: o 7 de julho de 1978 e o lançamento do MNU em São Paulo

    Passei algumas horas no Salão de Atos da UFRGS ouvindo relatos e reflexões de várias mulheres e homens que participaram da fundação do Movimento Negro Unificado, em 1978, especialmente na capital gaúcha. As falas emocionadas me fizeram sentir saudade de um tempo que não vivi e, ao mesmo tempo, também ampliaram meu respeito aos que vieram antes da nossa geração. Existem continuidades e rupturas nas ações e na realidade enfrentada, extrair lições e aprender com essa experiência de organização do povo negro é fundamental, por isso, resolvi tentar contribuir com uma humilde reconstituição de um daqueles dias marcantes, a sexta-feira que lançou o MNU às ruas.

    Estamos por nossa própria conta em risco”, esse lema unia negras e negros dispostos a combater o racismo em condições bastante adversas, pelos idos de 1978, em São Paulo. E o risco era real: durante o regime empresarial-militar, a liberdade de ação e organização e o desenvolvimento do pensamento crítico brasileiro foram sufocados pelo conluio entre a tecnocracia militar e a burguesia nacional, ambas subordinadas aos ditames do imperialismo estadunidense e europeu. Num quadro de repressão aos direitos civis elementares, imaginemos a condição da população negra, no centro do processo de expansão urbana que viria a constituir as grandes favelas, menos de um século após a abolição. A cultura autoritária já havia desarticulado a negritude após o golpe de 1937 dissolvendo a Frente Negra Brasileira (FNB), organização com alcance de massas que almejava constituir um projeto para combater a dispersão negra no território nacional, projeto incompatível com as aspirações das classes dominantes sob o comando de Vargas. O novo golpe em 1964, após anos de uma frágil e restrita democracia, sufocou ainda mais a negritude. O Art. 36 da Lei de Segurança Nacional considerava crime incitar o ódio e a discriminação racial, mas as cabeças que ditavam a lei eram formadas nos ditames das experiências de contenção de revoltas negras, não à toa que a PM paulista perseguia jovens negros vestindo um uniforme decorado com o brasão que carrega as estrelas pelos massacres de Porongos (RS), Canudos (BA) e a repressão a Revolta da Chibata (RJ), só para ficarmos em alguns exemplos.

    Mas a repressão causa em quem é oprimido um processo de acumulação de energia similar ao de uma mola. A raiva concentra-se até ser sucedida pelo grito, que se distende como onda ampliando o alcance de sua mensagem. Foi justamente o que ocorreu a partir da humilhação vivida por quatro jovens negros do time de voleibol do Clube de Regatas Tietê. O desejo deles era apenas honrar a camiseta do clube, mas o tratamento diferenciado expressou-se cruelmente nas palavras de um de seus diretores: “Se deixo um negro entrar na piscina, cem brancos saem imediatamente”. O caso somava-se ao assassinato de Robson Silveira da Luta, no 44° Distrito Policial de Guaianazes e serviu de estopim para unificar diversas entidades negras paulistanas – do meio cultural, religioso até as novas organizações de esquerda – que nunca haviam se encontrado para uma ação comum.

    Assim surge o dia 7 de julho de 1978 na História. Naquela sexta-feira a tarefa era ocupar o Centro da cidade de preto. O Viaduto do Chá, idealizado pelos colonizadores e erguido através do trabalho escravo, foi escolhido como ponto de encontro para ouvir gritos de liberdade. A tensão de quem sai de casa para trabalhar e nunca sabe se retorna agora se somava agora a tensão de protestar, ou seja, subverter-se a ordem. A correria do dia tomou conta de quem organizou a manifestação. Uma tiragem de panfletos modesta, cerca de cinco mil, tomou o tempo de parte do dia de vários militantes, enquanto outros confeccionavam faixas e cartazes, tudo para que não fosse um final de tarde normal no coração da maior cidade do país. Talvez a organização do ato não esperasse que um contingente amplo de pessoas tomasse coragem de incorporar tal ideia. Um protesto contra o racismo? Há quantos anos isso não ocorria no Brasil? Mas aconteceu!

    Mais de mil pessoas estavam presentes por volta das 19h00. Nas ruas, corria de mão em mão, cartas abertas à população, chamando todos os negros a se organizarem numa luta comum, nos bairros, nas vilas, nas prisões, nos terreiros de candomblé e de umbanda, nos locais de trabalho, escolas de samba, igrejas, em todo lugar onde haja negros, para dali atacarem todo tipo de discriminação, unindo-se a um movimento unificado, tornando-o forte, ativo e combatente. Dos setores democráticos, a carta dizia esperar o apoio, criando assim condições necessárias para criar uma verdadeira democracia racial.”i

    A solidariedade veio de Belém, Belo Horizonte, Aracajú, Maceió, Recife, Salvador, Rio de Janeiro e inclusive da Prisão Estadual de São Paulo. Em carta, os detentos organizados no Grupo Afro-Brasileiro Netos de Zumbi, diziam que “todos aqui almejam ter um representante no mundo exterior. Aos afro-brasileiros, (70% dos 6.354 homens), é praticamente negada a ajuda estadual em relação às necessidades judiciais.”ii. Três palavras de ordem centrais ecoaram naquela noite: “contra a discriminação racial”, “contra a opressão policial” e “pela ampliação do movimento, por uma autêntica democracia racial”iii.

    As exigências eram incompatíveis com a essência do regime empresarial-militar, mas ali estavam homens e mulheres que se afirmavam como negras e negros em plena ditadura, apresentando uma perspectiva antirracista para os novos movimentos sociais que eclodiam nas lutas que viriam a superar a ditadura. Nas palavras de Neusa Pereira:

    Somos considerados cidadãos de segunda classe, mas no dia 7 de julho, em São Paulo, mostramos publicamente que não mais aceitamos essa classificação. Enquanto algumas pessoas bem vestidas e perfumadas entravam no Teatro Municipal de São Paulo para cumprir seu dever social, um grupo de mais de mil negros abriam seu peito ali em frente, num grito sufocado, denunciando as péssimas condição em que vivemos nesse país. Mais de mil negros, em sua maioria jovens, desmistificavam publicamente o racismo covarde que proíbe de participar do progresso da sociedade, que o atira na sarjeta e o assassina”iv

    Não houve repressão ao protesto, mas, quase quatro décadas depois, a divulgação de um documento do IV Exército de Recife mostrou que a ação era friamente monitorada pela repressãov, afinal, imaginem o peso político e social de um movimento similar ao que ocorria nos EUA ou no continente africano àquela altura em nosso país? A inspiração internacionalista daquele movimento fica nítida se olharmos as páginas do AfroLatino-Americavi, publicado na Revista Versus, produção de jornalistas de uma nova imprensa negra que divulgava os fatos relevantes da luta negra e as contribuições teóricas de movimentos e pensadores oriundos de diversos países.

    A junção de jornalistas, artistas, detentos, estudantes, esportistas, trabalhadores negros em geral inaugurou um novo período para o movimento negro. Daquela sexta-feira desdobrou-se a construção de um movimento que meses depois realizaria congressos e encontros nacionais, nacionalizando-se retomando a discussão de um projeto político para o povo negro brasileiro. Não foi um dia qualquer. Na contagem fria do calendário ele pode estar distante, mas no tempo histórico marcado pela ação de sujeitos coletivos ele permanece como referência próxima, afinal, a situação do negro nos dias de hoje ainda lembra o quadro descrito pelos ativistas negros que vieram longe.

    i – CARDOSO, Hamilton. Revista Versus, São Paulo, Julho/Agosto, 1978. Afro-Latino-América.
    ii – Idem.
    iii – Idem.
    iv – PEREIRA, Neusa Maria. Revista Versus. São Paulo, Julho/Agosto, 1978. Afro-Latino-América.
    vhttps://www.cartacapital.com.br/revista/867/a-paranoia-nao-tem-cor-1121.html
    vi – http://www.youblisher.com/p/1142258-Afro-Latino-America

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  • Grupos de caminhoneiros se manifestam contra proposta de intervenção militar

    Declarações de lideranças do movimento de caminhoneiros e veículos de comunicação da categoria expressaram repúdio à proposta de intervenção militar, mostrando que existe uma diversidade de opiniões no interior do movimento, ao contrário do que pensam alguns veículos da imprensa corporativa e organizações de esquerda que titubeiam em apoiar a mobilização.


    Presidente da ABCAM é contra a intervenção

    Em nota através das redes sociais, José Lopes da Fonseca, presidente da Associação Brasileira dos Caminhoneiros (ABCAM), entidade que representa caminhoneiros autônomos e destacou-se por rechaçar o acordo da última quinta-feira (24), afirmou que os caminhoneiros não deviam pedir a intervenção das Forças Armadas, pois esse não era “o remédio apropriado para a situação”. Segundo Fonseca, que assinou o acordo divulgado pela equipe de Temer na noite de ontem, não existe lógica nessa exigência, pois numa intervenção militar, “os mesmos personagens continuaram no poder”.

    Para demonstrar o conluio entre o exército e a cúpula do governo, Fonseca fez questão de enfatizar que o “General Villas Boas está reunido neste momento na sala do Alto-Comando do exército (27/05), sob a coordenação do Ministro da Defesa e com a presença dos comandantes das Forças e outros militares, para uma vídeo-conferência com os responsáveis por áreas de atuação na solução da ‘greve dos caminhoneiros’”.

    No ínicio da noite, o presidente da entidade disse em entrevista coletiva que o grupo mais resistente que segue bloqueando trechos de rodovias quer derrubar o governo. “Tem um grupo muito forte de intervencionistas que está fazendo greve. Estão prendendo caminhões e estão tentando derrubar o governo”, disse o presidente da entidade, que ainda denunciou  ameaças contra os caminhoneiros para que mantenham o protesto. “Não mostram arma, mas estão levantando a camisa”, disse.

     

    Veículos de comunicação dos caminhoneiros também rechaçam os militares

    Jornais e páginas do Facebook de diferentes orientações políticas também se manifestaram sobre a questão. O Chico de Boleia – jornal destinado a caminhoneiros e trabalhadores do transporte, com circulação principalmente no estado de São Paulo – publicou matéria saudando a greve  e afirmando que “As recentes notícias, portanto, evidenciam que o movimento grevista dos caminhoneiros está em disputa e é preciso que nós, da imprensa, atentemos para o fato de que ele não é homogêneo, e sim composto por uma série de grupos e reivindicações.”. Preocupados com as demonstrações pró-militares, republicaram um texto divulgado na ocasião dos 50 anos do golpe empresarial-militar de 1964, onde explicam as características do regime como autoritárias e pró-imperialistas.

    (Leia o texto, republicado no Esquerda Online)

    Já a página Transporte Forte Digital – organizada a partir de caminhoneiros de Ijuí (RS) e com mais de 100 mil seguidores no Facebook – , divulgou diversas notas defendendo a separação entre o movimento dos caminhoneiros e os defensores da intervenção militar.

    Mesmo que sob uma perspectiva mais próxima de grupos que rejeitam a participação de partidos no movimento social e a defesa de o movimento “não era para derrubar Temer”, o posicionamento da página, que acompanhou de perto as negociações em Brasília e divulgou dia-a-dia informações diretamente dos piquetes, expressa a contrariedade à intervenção, existente em setores da categoria.

    Conversando com motoristas no piquete da REFAP (Canoas/RS) no último sábado (26), a equipe do Esquerda Online ouviu ideias que apresentavam a intervenção como “solução momentânea para ordem no país”, “garantir eleições livres de corruptos” e, até mesmo, recolocar na pauta os direitos sociais.

    Entretanto, na manhã dessa segunda-feira, 28, fomos surpreendidos em frente à refinaria com 10 caminhões do Exército, ao lado de um forte aparato policial, com a missão de garantir a circulação de caminhões-tanque pela Região Metropolitana, ou seja, as próprias Forças Armadas fazem questão de demonstrar seu compromisso com o ajuste econômico e o governo Temer.

    Intervenção não é solução, pelo contrário, apenas ampliará a repressão às reivindicações dos trabalhadores no momento em que os governantes, ao lado de grandes empresários nacionais e estrangeiros, fazem o povo pagar pela crise criada por eles mesmos. Precisamos de mais protagonismo popular, mobilização social e a garantia das mais amplas liberdades democráticas, o que em nada combina com as ideias militaristas.

  • 200 anos de Marx: Reflexões sobre a luta antirracista

    Por Matheus Gomes, Colunista do Esquerda Online

    Hoje é o dia dos 200 anos do nascimento de Karl Marx. É uma data que merece uma reflexão apurada de nós, negras e negros. Então senta que lá vem textão!

    Em nosso movimento negro banalizou-se uma noção de Marx como um teórico racista e eurocêntrico. Não concordo com isso, mas, ao mesmo tempo, outra definição banalizada no último período – a de esquerda branca – me parece útil para construir algumas reflexões. Vou explicar por que.

    A localização desse debate na História é importante. Marx nunca foi unanimidade nos movimentos negros. Pluralizando ao pé da letra o nosso movimento, verificaremos que um leque infinito de vertentes teóricas cruzou nosso caminho nos séculos XIX e XX. O marxismo foi a mais influente? Talvez seja possível afirmar que sim. Pelo peso na luta de libertação colonial no continente africano, a influência nos movimentos dos EUA, a importância na reorganização do movimento negro brasileiro em fins da década de 70, os desdobramentos da revolução no Caribe e outras questões que certamente ignorei. Sempre que a ação revolucionária negra se pôs em marcha, houve relação com o marxismo. Logo, uma primeira questão para refletirmos é que há relação entre a decadência das experiências de transição, as revoluções democráticas estacionadas pelo capital – principalmente em África – e a ascendência do discurso do Marx racista, no bojo das teorias que buscavam novos paradigmas para resolver os problemas da humanidade, especialmente a partir das décadas de 80/90. O que deu errado no século XX? Essa pergunta precisa ser respondida sob uma ótica antirracista.

    Mas eu li e reli “Marxismo e a questão racial” de Carlos Moore e não fui convencido que Marx é racista por natureza. As revoluções do século XX, como a experiência castrista, representam a aplicação total, logo, o fracasso do marxismo? Creio que não, em geral, essas experiências ficaram longe disso, há muita crítica sobre isso, muitos embates registrados. As bases científicas que Marx desenvolveu eram impregnadas de racismo? Se formos sérios, afirmar isso nos obriga a refutar uma série de teóricos negros. Franz Fannon desenvolve Peles Negras e Máscaras Brancas ampliando o conceito de alienação de Marx. Na minha opinião, sua grande contribuição é nos fazer entender que a consciência racial não poderia ser entendida como o simples estágio da consciência classe, antes da nova síntese a primeira ainda teria que se perder numa longa noite. A alienação do homem pelo homem incluía uma especificidade não analisada por Marx, que só poderia ser desenvolvida por um intelectual como Fanon, oriundo da Martinica, que descobre o racismo cruel ao pisar na França pela primeira vez. A discussão teórica aqui servia para as lutas políticas travadas a época, entre guerras e revoluções, era parte de um embate interno-externo, como revela a polêmica frontal, porém amistosa, com Jean-Paul Sartre. Exatamente por isso o livro termina com a célebre frase do 18 Brumário de Luís Bonaparte, defendendo que nas revoluções do século XX o conteúdo deveria ultrapassar a expressão, ou seja, Fanon utilizava conceitos de Marx para erguer uma nova perspectiva, superando as próprias noções da esquerda marxista da época. Alienação também foi importante para Neusa de Souza em “Torna-se negro”, onde o vir a ser negro é localizado como um processo, que envolve experiência, sofrimento, ação, coletividade e embate com a ideologia dominante.

    Angela Davis, Clóvis Moura, C.L.R. James nos oferecem três exemplos de interpretação da transição do regime escravocrata para o capitalismo em base aos conceitos de Marx, um em cada canto da América. E nesse tema eu tenho tido cada vez mais simpatia pela defesa de Fanon em distender o racismo sob a estrutura e a superestrutura das sociedades de origem colonial, pois isso limpa falsa polêmica “classe X opressão”, reconhece as insuficiências da primeira e a centralidade da segunda na organização da exploração em países como o nosso, o que eu vejo também nas obras de Beatriz Nascimento e Lélia Gonzalez, por exemplo.

    Em suma, Marx fez ciência e uma ciência aberta, anti-dogmática. Seus conceitos oferecem bases para elaboração de um sem números de questões. Refutar sua obra por completo não é só combater a esquerda branca, mas também uma parte significativa da experiência de negras e negros nos últimos dois séculos. Óbvio que isso pode ser criticado, sou contra a censura da crítica, mas então, façamos isso criticando as nossas próprias experiências, pode ser que seja útil!

    Mas e a esquerda branca? Hamilton Cardoso, um dos fundadores do MNU e do Núcleo Negro da antiga Convergência Socialista, me fez entender que ser negro e marxista é viver uma eterna dubiedade. Isso por um fato simples, porém difícil de ser assimilado pela maioria dos marxistas, que são brancos: o privilégio branco é uma realidade no interior da classe trabalhadora, se nenhuma classe abre mão de seus privilégios por livre e espontânea vontade, como dizia Marx, isso também não ocorrerá de maneira simples quando o assunto for racismo e classe trabalhadora. O peso das ideias é implacável. A lógica da democracia racial penetrou profundamente em nossa sociedade, da década de 30 até hoje, creio que nenhuma ideia foi tão poderosa em nosso país. A esquerda “oficial” nunca desenvolveu uma teoria sobre o Brasil que localizasse o negro como ator central da História e entendesse qual seu papel no movimento histórico da revolução. Os programas das organizações, em geral, se resumem a aulas de História sobre escravidão e alguns dados perdidos que tratam negras e negros como números, sem dinâmica na luta de classes. Um exemplo que acho simbólico é o esforço de Florestan Fernandes como deputado constituinte do PT, enviando cartas e escrevendo propostas que racializassem a carta magna, obviamente elas foram amplamente ignoradas. Por outro lado, também as organizações negras que refutam as ideias marxistas jamais conseguiram penetrar profundamente no interior da classe, fora a Frente Negra Brasileira, um caso que merece ser profundamente estudado, pois, entre outras coisas, relacionava a questão racial com um nacionalismo reacionário.

    A conciliação de classes das últimas duas décadas foi cruel, ainda precisaremos debater muito isso, pois creio que reforçou a lógica do progresso nos limites da ordem, um novo integracionismo que contribuiu para a desorganização do protesto negro, refutando a afirmação profética de Carolina Maria de Jesus, de que o “Brasil só mudaria quando fosse governado por alguém que também passou fome”. É óbvio que existem contradições, mas olhem o tamanho da crueldade que estamos inseridos: mais jovens nas universidades X ampliação do genocídio e encarceramento dos nossos. Que fazer? A esquerda tem em seu “currículo”, ao mesmo tempo, infindáveis manchas de sangue e milhares de diplomas, a que ponto chegamos?!

    Novamente, reconhecer onde está o racismo nesse processo é duro, mas, ou tocamos na ferida ou herdaremos para as próximas décadas novos recalques e complexos, novas questões não resolvidas que se acumularão sobre nós.

    No Brasil, como dizia o filósofo Daniel Bensaid, precisamos pensar mais em Marx sem “ismos”, ou seja, libertar sua ciência das jaulas que foram criadas por uma esquerda que fracassou por diversas vezes em compreender o lugar do negro no passado, presente e no futuro. Isso exige conectar o marxismo com os debates feitos pela nova geração de intelectuais, especialmente as mulheres negras; vincular nossa ação política aos movimentos da massa negra, romper a divisão entre negritude intelectualizada e massa negra pauperizada; ser intransigente com o racismo no interior da esquerda, quem não ajuda atrapalha, chega de paciência; organizar-nos de forma específica para lutarmos por uma verdadeira democracia social e econômica, que só pode ser plurirracial, ou seja, exigirá o combate implacável de todas as formas de racismo. A caminhada é longa, mas boas reflexões são a melhor forma de honrar o legado de Marx.

    Confira outros textos do Especial Marx 200:

    1) Marx, o incendiário. Por Valério Arcary

    2) A atualidade de Marx em seu aniversário de 200 anos: A classe trabalhadora. Por Marcelo Badaró

    3) Educação e formação humana em Marx e Engels. Por Artemis Martins

    4) Como me tornei um marxista. Por Carlos Zacarias

    5) A exceção contida na regra: Marx e a dialética da democracia liberal. Por Felipe Demier

    6) Karl Marx: seu nome viverá através de séculos. Por Henrique Canary 

    7) Parabéns, Karl. Por Ivan Dias Martins

    8) Estudar Marx fora e dentro das universidades. Por Demian Melo

    9) Marx: 200 anos de crítica ao capitalismo. Por Guilherme Leite

    10) O encontro de Marx com a economia política. Por Macello Musto

    11) Karl Marx e o capital: O detetive que queria desvendar a suprema intriga. Por Francisco Louçã

    12) Marx e o caso Vogt: Apontamentos para uma biografia intelectual (1860-1861). Por Marcello Musto

  • Por Marielle e Anderson, permanecer nas ruas

    Por: Matheus Gomes, colunista do Esquerda Online
    @matheuspggomes

    16 de março. Exatamente um mês do anúncio da Intervenção Federal Militar no Rio de Janeiro e a “jogada de mestre” de Temer está em xeque. A execução política de Marielle fez surgir um movimento de crítica à Intervenção nas ruas. Composto por diversas camadas da sociedade, quero destacar que ontem se expressou um sentimento comprimido pela repressão nas periferias, algo já visto em Junho de 2013 quando ganhou peso a denúncia das UPPs e a campanha “Cadê o Amarildo?”.

    A imprensa e as autoridades governamentais (civis e militares) se esforçam para responsabilizar o crime organizado. A “inteligência” oficial diz que a execução de Marielle foi uma resposta de traficantes desgostosos com a presença do Exército no Rio. Por que executariam uma opositora da Intervenção? Mesmo que ela também fosse contra o tráfico e pela descriminalização das drogas, não parece fazer sentido. Ao mesmo tempo, a Folha de SP diz ser “teoria da conspiração” relacionar a execução com as denúncias da vereadora ao Batalhão de Acari, o mais sanguinário do RJ. Ambos tem um plano: intensificar a violência racista e não recuar nenhum milímetro com o projeto de militarização.

    Pode ser que a execução não tenha sido planejada nos autos escalões do poder, mas o Estado tem as mãos sujas de sangue sim, pois abriram a “caixa de pandora”. Se confirmou a hipótese de uma “Bolsonarização sem Bolsonaro” com o desenrolar da Intervenção – aliás, ele permanece em silêncio -, pois grupos paramilitares filhotes dos “Esquadrões da Morte” e “Comandos-Caça-Comunistas” da época da ditadura empresarial-militar se encorajaram para cometer tal ação, algo que nunca deixou de existir no Brasil, vide os 600 assassinatos de maio de 2006 em SP.

    Marielle era a voz do povo negro e da esquerda socialista contra a Intervenção Militar no RJ. “Cria da Maré”, estudou o fracasso das UPPs e sabia que a militarização não era solução. Esse legado precisa ser estendido, pois é um tema estratégico para o Brasil não virar um Estado estilo México ou Colômbia.

    Estamos numa situação política desfavorável, mas Marielle e Anderson já viraram sementes. Creio que o momento exige uma ampla campanha nacional contra a Intervenção no Rio e pela investigação independente do caso. O Gen. Braga Netto já disse que não quer outra Comissão da Verdade, o que se expressa no intento de manter a investigação nas gavetas corruptas da Polícia Civil carioca.

    Mas a execução é fruto da combinação das diversas crises que envolvem o Brasil e vitimam com centralidade o povo negro. A transformação em curso no regime visa impor um novo padrão de exploração e normatizar regras de exceção. A “Nova República” faliu e estamos em transição para um lugar incerto. Se não entrarmos em campo seremos derrotados. Por isso, precisamos ampliar a defesa das liberdades democráticas, denunciar medidas como a Lei Antimanifestações de Marchezan (Prefeito do PSDB de Porto Alegre), o assassinato crescente de lideranças rurais, indígenas e quilombolas e toda forma de criminalização dos movimentos sociais, a interferência do Judiciário na definição das rumos políticos do país – aliás, que papel patético cumpriram ontem com aquela greve em defesa dos privilégios – e, em primeiro lugar, denunciar o genocídio negro e o racismo estrutural. Todos regimes já implementados no Brasil mantém as raízes do escravismo. Lembremos da Tuiuti, o povo negro é a sentinela da libertação!

    Ao lado disso, um programa social de urgência oposto pelo vértice as contrarreformas de Temer, que enfrente os que lucram com o desemprego e a retirada de direitos sociais, a real necessidade da periferia. Enquanto Temer estiver no poder, gritar Fora é uma obrigação de todos nós.

    21 de março é Dia Internacional de Luta Contra a Discriminação Racial (em memória do massacre de Sharpeville na África do Sul) e o sétimo dia da execução, devemos ir às ruas lembrar nossos mártires negros. 28 de março é a data tradicional do movimento estudantil em memória de Edison Luis. E 1° de abril o golpe de 64 completa 54 anos. Precisamos de uma agenda unificada já! Temos datas, motivos e podemos ter força social nas ruas. O desenlace da crise nacional precisa vir de baixo. A elite quer pactuar por cima e continuar nos sufocando. Nosso oxigênio vem das ruas e da nossa auto organização, façamos isso!

    Foto: Guilherme Santos/Sul21

  • Lei Antivandalismo ou Lei Antimanifestações?

    Por: Matheus Gomes, colunista do Esquerda Online

    A sanção da Lei Complementar 832/2018 é mais uma ação autoritária de Nelson Marchezan, o “prefeito playboy”. Atrás da fachada de combate ao vandalismo e a defesa do patrimônio público está um ataque gravíssimo às liberdades democráticas. Como afirmou o secretário da Segurança, coronel Kleber Senisse, essa lei autoriza o poder público municipal a multar organizadores de manifestações não autorizadas previamente pela Prefeitura em mais de R$ 400 mil, algo inédito desde a redemocratização, além de aumentar os poderes da Guarda Municipal para coibir ações políticas.

    Temas de fachada escondem ataque ao direito de manifestação
    Para evitar o enfrentamento frontal ao direito de manifestação, virou prática dos políticos conservadores restringi-lo no meio de um conjunto de normatizações sobre temas gerais. Em 2016, por exemplo, a Câmara dos Deputados aprovou a Medida Provisória 699/15 que prevê punições para quem bloquear vias públicas com veículos e incidiu sobre o Código de Trânsito Brasileiro. Ora, sabemos que não se trata de uma legislação voltada às melhorias das condições de tráfego nos grandes centros urbanos, pois no meio do texto consta um ponto sobre punição aos pedestres que interrompem o tráfego, ou seja, como apontou a bancada do PSOL na época, as manifestações de rua eram o verdadeiro alvo da lei.

    Marchezan utilizou a mesma lógica e incluiu o ataque à realização de manifestações de rua em meio a normatizações sobre temas como o “despejo de água servida, lixo, resíduos domésticos, comerciais ou industriais”, “transporte de argamassa, areia, aterro, lixo, entulho, cascas de cereais, ossos e outros detritos em veículos inadequados”, “urinar ou defecar na rua”, “construção de muros”, “fixação ou colagem irregular de cartazes e afins”, “pichações” e “dano ao patrimônio público”.

    Obviamente que alguns desses temas precisam de regulamentação. Por exemplo, em 2016, a população portalegrense literalmente “bebeu” as consequências dos erros da empresa CETRALIQ (Central de Tratamento de Efluentes Liquídos) que deteriorou a qualidade da água na capital. Entretanto, Marchezan não parece ter como objetivo conter a poluição oriunda das grandes empresas, já que ao defender a privatização do DMAE responsabiliza o órgão público pela poluição do Guaíba, quando sabemos que os dejetos industriais e a falta de tratamento de esgoto nas margens do Rio Gravataí são o principal problema a ser enfrentado nesse momento. Quem garante que as manifestações contra a privatização do DMAE serão autorizadas?

    A lógica que orienta as ações do prefeito é a da restrição às liberdades democráticas. Marchezan precisa utilizar da coerção sobre o movimento social para aplicar seu programa de governo coberto de medidas antipopulares e rejeitado por um amplo setor da população nesses 18 meses de governo.

    Para Marchezan movimento social é igual a vandalismo
    Já vimos o “prefeito playboy” participar de manifestações. Eram as verde-amarelas do Parcão, onde ele protestou para que Temer assumisse o poder e aplicasse sua “ponte para o futuro”. Ao lado do MBL, de defensores da intervenção militar, monarquistas e apoiadores de Bolsonaro, o tucano trancou vias públicas por horas e horas na capital. Isso sugere que apenas manifestações de seu gosto serão permitidas? As demonstrações de autoritarismo do prefeito no seu primeiro ano de mandato, como a proibição de manifestações em bairros quando ele estivesse presente, nos permitem levar a sério essa hipótese.

    Marchezan é parte daqueles que desde 2013 insistem em considerar todo tipo de manifestante defensor de direitos sociais como um vândalo. A construção dessa narrativa serve para desencorajar as pessoas atingidas pelas contrarreformas a participar de manifestações políticas e se apoia em outras legislações repressivas aprovadas nos últimos anos, como a Lei Antiterrorismo e as modificações da Lei de Garantia da Ordem, ambas efetuadas ainda no governo Dilma.

    É hora de resistir!
    O PSOL deve ingressar nas próximas horas com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade para barrar essa lei autoritária. O Sindicato dos Municipários de Porto Alegre já anunciou que fará o mesmo.

    Para além das ações judiciais, essa lei precisa ser repudiada com força pelo conjunto dos movimentos sociais e dos defensores das liberdades democráticas. O que está em jogo é a possibilidade de construímos a partir das mobilizações populares uma alternativa ao modelo de gestão anti-povo de Marchezan e seus aliados. Precisamos desafiar essa lei e mostrar que as ruas são espaço de ação política e florescimento de projetos de transformação social. A resistência deve ser nossa resposta!

  • Intervenção no Rio: mais uma canetada racista de Temer

    Por: Matheus Gomes, colunista do Esquerda Online

    O decreto que autoriza a intervenção militar no estado do Rio de Janeiro é, antes de qualquer coisa, uma solução racista diante da provável não aprovação da reforma da Previdência no Congresso Nacional.

    Por que afirmo isso? Bom, não é a maioria do Congresso que é contra a reforma da Previdência. Deputados e senadores já destruíram a Constituição quando aprovaram a PEC que fixa o teto nos gastos públicos nos próximos 20 anos, rasgaram a CLT ao instituir a reforma Trabalhista, eles já provaram seu compromisso com o mercado financeiro. Mas a razão para não votar “a cereja do bolo” da ponte para o passado é um simples cálculo: a maioria da população é contra a reforma e, em ano eleitoral, comprar essa briga agora é palatável para um presidente com 3% de aprovação, mas não para quem almeja a reeleição. A Previdência tem importância para quem é preto e pobre, ou seja, para a maioria do Brasil.

    A intervenção na segurança pública vai ampliar a violência no Rio de Janeiro. Na América Latina, México e Colômbia adotaram medidas similares para combater o tráfico de drogas e o resultado foi pífio. As UPPs, implementadas por Sérgio Cabral com o aval do governo federal, também não resolveram o problema. Aliás, uma pesquisa divulgada ano passado pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes, realizada com 2.479 moradores de 37 das 38 comunidades ocupadas, apresentada uma maioria entre 55% e 68% de pessoas que entendem que a UPP não modificou a situação nas comunidades. Quando a pergunta é se o morador se relacionou de alguma forma com a polícia, seja para pedir informação ou ajuda em casos de doenças, a variação negativa fica entre 95,2% e 98,2%. Já o percentual de moradores reivindicando outros serviços públicos nas comunidades é de 82%, ou seja, a intervenção que a periferia quer é social: trabalho decente, educação, saúde, moradia, transporte e por ai vai. A intervenção militar ampliará as mortes nas comunidades e não diminuirá nenhuma mazela social.

    Os militares e a Globo queriam mais
    A postura do alto comando do Exército é ainda mais contundente. “Queremos uma intervenção aos moldes do Haiti”, bradou a caserna. Anos de controle político-militar no país caribenho, quando vai chegar a hora do Brasil? O Ministro-General Etchegoyen afirmou que o “oba-oba” do carnaval foi o estopim. Mas ele se referia a que exatamente? As amplas críticas sociais presentes nas ruas e avenidas que levaram o desfile da Tuiuti a ser o segundo tema mais comentado no Twitter mundial? Ou a violência corriqueira nas ruas do Rio? Qual o fato novo? A diretora do Instituto de Segurança do Rio (ISP), Joana Monteiro, afirmou que nenhuma explosão de violência ocorreu durante o carnaval. A violência foi menor do que a registrada nos dois carnavais anteriores.

    Bolsonaro também desejava ir além. Posicionou-se contrário ao decreto porque não garante plenos poderes aos soldados em ação. Queria licença para matar, como afirmou recentemente.

    A aproximação dos militares com o poder político é preocupante. A medida pode ampliar a popularidade do Exército no setor social que sustentou o golpe entre 2015 e 2016 e hoje pede mais ordem nas grandes cidades, ao passo que vive distante do dia-a-dia das comunidades militarizadas.
    O mesmo General-Ministro afirmou hoje que a segurança vai ser o tema número de quem quer se eleger, enquanto a Globo não ficou para trás, afirmando em seu editorial que o prazo de 31 de dezembro pode ser pouco.

    Nunca houve punição aos crimes cometidos por militares no Brasil. Tivemos uma transição de regime pactuada, na qual a polícia criada por decreto em 1969 não foi dissolvida, nem os presos do regime anterior foram julgados por novas leis. Os caminhos agora estão mais abertos para a aproximação dos militares com o poder.

    Enquanto isso, o mercado financeiro…
    Parece acomodado ao decreto. A Eurásia, grupo que presta consultoria política a investidores do mundo inteiro, já reduziu a 20% as chances de aprovação da reforma em 2018. Não houve grande alteração nas bolsas e seguem as perspectivas de alta para a próxima semana. A nova localização de Temer no debate público, agora dando centralidade ao combate a violência, parece agradar os investidores já que a bandeira de Bolsonaro, candidato mal visto por eles, agora pode ser roubada por um candidato localizado mais ao centro. Enfim, vidas negras nunca foram significativas na balança do mercado.

    “Se eu chorar não leve a mal”
    A situação é triste, como dizia o enredo da Tuiuti, se a gente chorar, não nos levem a mal. Quem é negro ou morador de periferia vive as consequências trágicas da guerra às drogas dia-a-dia. A intervenção militar no Rio aprofundará essa situação com a ação de um exército despreparado para atuação em áreas urbanas onde vivem milhões de pessoas. E o pior, ainda pode servir de exemplo para outros estados. O movimento negro e todo movimento social precisam repudiar essa medida no Brasil inteiro, denunciando seu caráter racista e anti-popular. Gritemos, libertemos o cativeiro social!

  • Nervos de Aço e o direito de Lula ser candidato

    Por Matheus Gomes, Colunista do Esquerda Online

    Tentando refletir sobre o clima de Porto Alegre nessa quarta-feira, lembrei dos versos de Lupicínio Rodrigues em “Nervos de Aço”. Mas qual a relação entre essa canção que narra uma desilusão amorosa e o julgamento de Lula? Bom, se tem um diferencial entre Lula e qualquer outro presidente eleito na última fase “democrática” do Brasil é a sua capacidade em despertar paixões. Diante dele são poucos os que permanecem indiferentes: independente se é “ciúmes, despeito, amizade ou horror”, os sentimentos pululam no dia de hoje. A grande manifestação de ontem comprova isso por um lado, assim como a balsa do “pixuleco”, os manifestantes do Parcão e o ódio destilado pelos comentaristas locais comprovam isso no outro extremo.

    Mas me arrisco a dizer que o sempre anônimo “mercado” é o nervo com menos quantidade aço nessa quarta. Ontem a queda na bolsa foi de 1,22%, a maior desde 30 de novembro de 2017, dia em que Rodrigo Maia admitiu não ter os votos necessários para aprovar a Reforma da Previdência. E hoje, eles terão o placar necessário? Todas as fichas desses apaixonados pelo ajuste estão no 3×0 no julgamento, mas o medo do 2×1 é grande, pois o saldo de gols é qualificado e esticaria a querela por mais alguns meses.

    O discurso de Temer em Davos reafirmando o compromisso com as contrarreformas é o menos importante. Certamente os investidores internacionais escutaram o presidente com um ouvido, enquanto o outro já estava ligado no TRF4. Hoje o essencial é o julgamento de Lula. Temer, no auge de seus 3% de popularidade, é insignificante para eles.

    Mas por que Lula desestabiliza o mercado? Gleisi Hoffmann já prometeu uma nova carta ao mercado financeiro, nos moldes de 2003, isso não basta? Prestei atenção no discurso de Lula ontem e foi a primeira vez nos momentos decisivos vividos nos últimos meses que o famoso “nunca antes na História deste país os empresários ganharam tanto” não foi utilizado. Lula focou nos êxitos do programa aplicado nos 3 governos e meio, apostando no comparativo entre a situação de vida atual e a anterior. De fato, são momentos muito diferentes, a capacidade de geração de expectativa e esperança é o segredo desse discurso. Só que é possível repetir a fórmula? Eu creio que a tensão do mercado se dá por que seus agentes são “mais realistas que o Rei”. Um dos painéis do Fórum Econômico Mundial de Davos chama-se “A nova crise financeira?”, pois muitos economistas lá presentes acreditam que 2018 pode ser o novo 2008. Hoje as coisas são diferentes, somos o elo frágil da cadeia internacional, o inverso do período anterior, e isso, tragicamente, não começou com Temer, nem com Joaquim Levy, liberal ortodoxo e ex-ministro de Dilma.

    Constatado esse quadro, a grande questão é: deixaremos os interesses do mercado definirem os rumos do país ou defenderemos o direito da população escolher o que bem entender, mesmo não concordando com o n° 1 das pesquisas? A democracia brasileira nunca foi plena – o processo que respondemos desde 2013 indica algumas coisas sobre isso -, mas a verdade é que desde 31 de agosto de 2016 seu grau de formalidade deu saltos. Lula condenado representa a segunda eleição onde uma instituição das elites se sobrepõe ao voto popular. Lula tem o direito de ser candidato, assim como eu tenho o direito de não votar nele. O que eu não quero é que três homens brancos e cheios de privilégios definam os rumos do país, ao lado de outros tantos “sem sangue nas veias e sem coração”, apenas interessados em lucro, lucro e mais lucros.

    Foto: Mídia Ninja