Matheus Gomes

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  • Por Marielle e Anderson, permanecer nas ruas

    Por: Matheus Gomes, colunista do Esquerda Online
    @matheuspggomes

    16 de março. Exatamente um mês do anúncio da Intervenção Federal Militar no Rio de Janeiro e a “jogada de mestre” de Temer está em xeque. A execução política de Marielle fez surgir um movimento de crítica à Intervenção nas ruas. Composto por diversas camadas da sociedade, quero destacar que ontem se expressou um sentimento comprimido pela repressão nas periferias, algo já visto em Junho de 2013 quando ganhou peso a denúncia das UPPs e a campanha “Cadê o Amarildo?”.

    A imprensa e as autoridades governamentais (civis e militares) se esforçam para responsabilizar o crime organizado. A “inteligência” oficial diz que a execução de Marielle foi uma resposta de traficantes desgostosos com a presença do Exército no Rio. Por que executariam uma opositora da Intervenção? Mesmo que ela também fosse contra o tráfico e pela descriminalização das drogas, não parece fazer sentido. Ao mesmo tempo, a Folha de SP diz ser “teoria da conspiração” relacionar a execução com as denúncias da vereadora ao Batalhão de Acari, o mais sanguinário do RJ. Ambos tem um plano: intensificar a violência racista e não recuar nenhum milímetro com o projeto de militarização.

    Pode ser que a execução não tenha sido planejada nos autos escalões do poder, mas o Estado tem as mãos sujas de sangue sim, pois abriram a “caixa de pandora”. Se confirmou a hipótese de uma “Bolsonarização sem Bolsonaro” com o desenrolar da Intervenção – aliás, ele permanece em silêncio -, pois grupos paramilitares filhotes dos “Esquadrões da Morte” e “Comandos-Caça-Comunistas” da época da ditadura empresarial-militar se encorajaram para cometer tal ação, algo que nunca deixou de existir no Brasil, vide os 600 assassinatos de maio de 2006 em SP.

    Marielle era a voz do povo negro e da esquerda socialista contra a Intervenção Militar no RJ. “Cria da Maré”, estudou o fracasso das UPPs e sabia que a militarização não era solução. Esse legado precisa ser estendido, pois é um tema estratégico para o Brasil não virar um Estado estilo México ou Colômbia.

    Estamos numa situação política desfavorável, mas Marielle e Anderson já viraram sementes. Creio que o momento exige uma ampla campanha nacional contra a Intervenção no Rio e pela investigação independente do caso. O Gen. Braga Netto já disse que não quer outra Comissão da Verdade, o que se expressa no intento de manter a investigação nas gavetas corruptas da Polícia Civil carioca.

    Mas a execução é fruto da combinação das diversas crises que envolvem o Brasil e vitimam com centralidade o povo negro. A transformação em curso no regime visa impor um novo padrão de exploração e normatizar regras de exceção. A “Nova República” faliu e estamos em transição para um lugar incerto. Se não entrarmos em campo seremos derrotados. Por isso, precisamos ampliar a defesa das liberdades democráticas, denunciar medidas como a Lei Antimanifestações de Marchezan (Prefeito do PSDB de Porto Alegre), o assassinato crescente de lideranças rurais, indígenas e quilombolas e toda forma de criminalização dos movimentos sociais, a interferência do Judiciário na definição das rumos políticos do país – aliás, que papel patético cumpriram ontem com aquela greve em defesa dos privilégios – e, em primeiro lugar, denunciar o genocídio negro e o racismo estrutural. Todos regimes já implementados no Brasil mantém as raízes do escravismo. Lembremos da Tuiuti, o povo negro é a sentinela da libertação!

    Ao lado disso, um programa social de urgência oposto pelo vértice as contrarreformas de Temer, que enfrente os que lucram com o desemprego e a retirada de direitos sociais, a real necessidade da periferia. Enquanto Temer estiver no poder, gritar Fora é uma obrigação de todos nós.

    21 de março é Dia Internacional de Luta Contra a Discriminação Racial (em memória do massacre de Sharpeville na África do Sul) e o sétimo dia da execução, devemos ir às ruas lembrar nossos mártires negros. 28 de março é a data tradicional do movimento estudantil em memória de Edison Luis. E 1° de abril o golpe de 64 completa 54 anos. Precisamos de uma agenda unificada já! Temos datas, motivos e podemos ter força social nas ruas. O desenlace da crise nacional precisa vir de baixo. A elite quer pactuar por cima e continuar nos sufocando. Nosso oxigênio vem das ruas e da nossa auto organização, façamos isso!

    Foto: Guilherme Santos/Sul21

  • Lei Antivandalismo ou Lei Antimanifestações?

    Por: Matheus Gomes, colunista do Esquerda Online

    A sanção da Lei Complementar 832/2018 é mais uma ação autoritária de Nelson Marchezan, o “prefeito playboy”. Atrás da fachada de combate ao vandalismo e a defesa do patrimônio público está um ataque gravíssimo às liberdades democráticas. Como afirmou o secretário da Segurança, coronel Kleber Senisse, essa lei autoriza o poder público municipal a multar organizadores de manifestações não autorizadas previamente pela Prefeitura em mais de R$ 400 mil, algo inédito desde a redemocratização, além de aumentar os poderes da Guarda Municipal para coibir ações políticas.

    Temas de fachada escondem ataque ao direito de manifestação
    Para evitar o enfrentamento frontal ao direito de manifestação, virou prática dos políticos conservadores restringi-lo no meio de um conjunto de normatizações sobre temas gerais. Em 2016, por exemplo, a Câmara dos Deputados aprovou a Medida Provisória 699/15 que prevê punições para quem bloquear vias públicas com veículos e incidiu sobre o Código de Trânsito Brasileiro. Ora, sabemos que não se trata de uma legislação voltada às melhorias das condições de tráfego nos grandes centros urbanos, pois no meio do texto consta um ponto sobre punição aos pedestres que interrompem o tráfego, ou seja, como apontou a bancada do PSOL na época, as manifestações de rua eram o verdadeiro alvo da lei.

    Marchezan utilizou a mesma lógica e incluiu o ataque à realização de manifestações de rua em meio a normatizações sobre temas como o “despejo de água servida, lixo, resíduos domésticos, comerciais ou industriais”, “transporte de argamassa, areia, aterro, lixo, entulho, cascas de cereais, ossos e outros detritos em veículos inadequados”, “urinar ou defecar na rua”, “construção de muros”, “fixação ou colagem irregular de cartazes e afins”, “pichações” e “dano ao patrimônio público”.

    Obviamente que alguns desses temas precisam de regulamentação. Por exemplo, em 2016, a população portalegrense literalmente “bebeu” as consequências dos erros da empresa CETRALIQ (Central de Tratamento de Efluentes Liquídos) que deteriorou a qualidade da água na capital. Entretanto, Marchezan não parece ter como objetivo conter a poluição oriunda das grandes empresas, já que ao defender a privatização do DMAE responsabiliza o órgão público pela poluição do Guaíba, quando sabemos que os dejetos industriais e a falta de tratamento de esgoto nas margens do Rio Gravataí são o principal problema a ser enfrentado nesse momento. Quem garante que as manifestações contra a privatização do DMAE serão autorizadas?

    A lógica que orienta as ações do prefeito é a da restrição às liberdades democráticas. Marchezan precisa utilizar da coerção sobre o movimento social para aplicar seu programa de governo coberto de medidas antipopulares e rejeitado por um amplo setor da população nesses 18 meses de governo.

    Para Marchezan movimento social é igual a vandalismo
    Já vimos o “prefeito playboy” participar de manifestações. Eram as verde-amarelas do Parcão, onde ele protestou para que Temer assumisse o poder e aplicasse sua “ponte para o futuro”. Ao lado do MBL, de defensores da intervenção militar, monarquistas e apoiadores de Bolsonaro, o tucano trancou vias públicas por horas e horas na capital. Isso sugere que apenas manifestações de seu gosto serão permitidas? As demonstrações de autoritarismo do prefeito no seu primeiro ano de mandato, como a proibição de manifestações em bairros quando ele estivesse presente, nos permitem levar a sério essa hipótese.

    Marchezan é parte daqueles que desde 2013 insistem em considerar todo tipo de manifestante defensor de direitos sociais como um vândalo. A construção dessa narrativa serve para desencorajar as pessoas atingidas pelas contrarreformas a participar de manifestações políticas e se apoia em outras legislações repressivas aprovadas nos últimos anos, como a Lei Antiterrorismo e as modificações da Lei de Garantia da Ordem, ambas efetuadas ainda no governo Dilma.

    É hora de resistir!
    O PSOL deve ingressar nas próximas horas com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade para barrar essa lei autoritária. O Sindicato dos Municipários de Porto Alegre já anunciou que fará o mesmo.

    Para além das ações judiciais, essa lei precisa ser repudiada com força pelo conjunto dos movimentos sociais e dos defensores das liberdades democráticas. O que está em jogo é a possibilidade de construímos a partir das mobilizações populares uma alternativa ao modelo de gestão anti-povo de Marchezan e seus aliados. Precisamos desafiar essa lei e mostrar que as ruas são espaço de ação política e florescimento de projetos de transformação social. A resistência deve ser nossa resposta!

  • Intervenção no Rio: mais uma canetada racista de Temer

    Por: Matheus Gomes, colunista do Esquerda Online

    O decreto que autoriza a intervenção militar no estado do Rio de Janeiro é, antes de qualquer coisa, uma solução racista diante da provável não aprovação da reforma da Previdência no Congresso Nacional.

    Por que afirmo isso? Bom, não é a maioria do Congresso que é contra a reforma da Previdência. Deputados e senadores já destruíram a Constituição quando aprovaram a PEC que fixa o teto nos gastos públicos nos próximos 20 anos, rasgaram a CLT ao instituir a reforma Trabalhista, eles já provaram seu compromisso com o mercado financeiro. Mas a razão para não votar “a cereja do bolo” da ponte para o passado é um simples cálculo: a maioria da população é contra a reforma e, em ano eleitoral, comprar essa briga agora é palatável para um presidente com 3% de aprovação, mas não para quem almeja a reeleição. A Previdência tem importância para quem é preto e pobre, ou seja, para a maioria do Brasil.

    A intervenção na segurança pública vai ampliar a violência no Rio de Janeiro. Na América Latina, México e Colômbia adotaram medidas similares para combater o tráfico de drogas e o resultado foi pífio. As UPPs, implementadas por Sérgio Cabral com o aval do governo federal, também não resolveram o problema. Aliás, uma pesquisa divulgada ano passado pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes, realizada com 2.479 moradores de 37 das 38 comunidades ocupadas, apresentada uma maioria entre 55% e 68% de pessoas que entendem que a UPP não modificou a situação nas comunidades. Quando a pergunta é se o morador se relacionou de alguma forma com a polícia, seja para pedir informação ou ajuda em casos de doenças, a variação negativa fica entre 95,2% e 98,2%. Já o percentual de moradores reivindicando outros serviços públicos nas comunidades é de 82%, ou seja, a intervenção que a periferia quer é social: trabalho decente, educação, saúde, moradia, transporte e por ai vai. A intervenção militar ampliará as mortes nas comunidades e não diminuirá nenhuma mazela social.

    Os militares e a Globo queriam mais
    A postura do alto comando do Exército é ainda mais contundente. “Queremos uma intervenção aos moldes do Haiti”, bradou a caserna. Anos de controle político-militar no país caribenho, quando vai chegar a hora do Brasil? O Ministro-General Etchegoyen afirmou que o “oba-oba” do carnaval foi o estopim. Mas ele se referia a que exatamente? As amplas críticas sociais presentes nas ruas e avenidas que levaram o desfile da Tuiuti a ser o segundo tema mais comentado no Twitter mundial? Ou a violência corriqueira nas ruas do Rio? Qual o fato novo? A diretora do Instituto de Segurança do Rio (ISP), Joana Monteiro, afirmou que nenhuma explosão de violência ocorreu durante o carnaval. A violência foi menor do que a registrada nos dois carnavais anteriores.

    Bolsonaro também desejava ir além. Posicionou-se contrário ao decreto porque não garante plenos poderes aos soldados em ação. Queria licença para matar, como afirmou recentemente.

    A aproximação dos militares com o poder político é preocupante. A medida pode ampliar a popularidade do Exército no setor social que sustentou o golpe entre 2015 e 2016 e hoje pede mais ordem nas grandes cidades, ao passo que vive distante do dia-a-dia das comunidades militarizadas.
    O mesmo General-Ministro afirmou hoje que a segurança vai ser o tema número de quem quer se eleger, enquanto a Globo não ficou para trás, afirmando em seu editorial que o prazo de 31 de dezembro pode ser pouco.

    Nunca houve punição aos crimes cometidos por militares no Brasil. Tivemos uma transição de regime pactuada, na qual a polícia criada por decreto em 1969 não foi dissolvida, nem os presos do regime anterior foram julgados por novas leis. Os caminhos agora estão mais abertos para a aproximação dos militares com o poder.

    Enquanto isso, o mercado financeiro…
    Parece acomodado ao decreto. A Eurásia, grupo que presta consultoria política a investidores do mundo inteiro, já reduziu a 20% as chances de aprovação da reforma em 2018. Não houve grande alteração nas bolsas e seguem as perspectivas de alta para a próxima semana. A nova localização de Temer no debate público, agora dando centralidade ao combate a violência, parece agradar os investidores já que a bandeira de Bolsonaro, candidato mal visto por eles, agora pode ser roubada por um candidato localizado mais ao centro. Enfim, vidas negras nunca foram significativas na balança do mercado.

    “Se eu chorar não leve a mal”
    A situação é triste, como dizia o enredo da Tuiuti, se a gente chorar, não nos levem a mal. Quem é negro ou morador de periferia vive as consequências trágicas da guerra às drogas dia-a-dia. A intervenção militar no Rio aprofundará essa situação com a ação de um exército despreparado para atuação em áreas urbanas onde vivem milhões de pessoas. E o pior, ainda pode servir de exemplo para outros estados. O movimento negro e todo movimento social precisam repudiar essa medida no Brasil inteiro, denunciando seu caráter racista e anti-popular. Gritemos, libertemos o cativeiro social!

  • Nervos de Aço e o direito de Lula ser candidato

    Por Matheus Gomes, Colunista do Esquerda Online

    Tentando refletir sobre o clima de Porto Alegre nessa quarta-feira, lembrei dos versos de Lupicínio Rodrigues em “Nervos de Aço”. Mas qual a relação entre essa canção que narra uma desilusão amorosa e o julgamento de Lula? Bom, se tem um diferencial entre Lula e qualquer outro presidente eleito na última fase “democrática” do Brasil é a sua capacidade em despertar paixões. Diante dele são poucos os que permanecem indiferentes: independente se é “ciúmes, despeito, amizade ou horror”, os sentimentos pululam no dia de hoje. A grande manifestação de ontem comprova isso por um lado, assim como a balsa do “pixuleco”, os manifestantes do Parcão e o ódio destilado pelos comentaristas locais comprovam isso no outro extremo.

    Mas me arrisco a dizer que o sempre anônimo “mercado” é o nervo com menos quantidade aço nessa quarta. Ontem a queda na bolsa foi de 1,22%, a maior desde 30 de novembro de 2017, dia em que Rodrigo Maia admitiu não ter os votos necessários para aprovar a Reforma da Previdência. E hoje, eles terão o placar necessário? Todas as fichas desses apaixonados pelo ajuste estão no 3×0 no julgamento, mas o medo do 2×1 é grande, pois o saldo de gols é qualificado e esticaria a querela por mais alguns meses.

    O discurso de Temer em Davos reafirmando o compromisso com as contrarreformas é o menos importante. Certamente os investidores internacionais escutaram o presidente com um ouvido, enquanto o outro já estava ligado no TRF4. Hoje o essencial é o julgamento de Lula. Temer, no auge de seus 3% de popularidade, é insignificante para eles.

    Mas por que Lula desestabiliza o mercado? Gleisi Hoffmann já prometeu uma nova carta ao mercado financeiro, nos moldes de 2003, isso não basta? Prestei atenção no discurso de Lula ontem e foi a primeira vez nos momentos decisivos vividos nos últimos meses que o famoso “nunca antes na História deste país os empresários ganharam tanto” não foi utilizado. Lula focou nos êxitos do programa aplicado nos 3 governos e meio, apostando no comparativo entre a situação de vida atual e a anterior. De fato, são momentos muito diferentes, a capacidade de geração de expectativa e esperança é o segredo desse discurso. Só que é possível repetir a fórmula? Eu creio que a tensão do mercado se dá por que seus agentes são “mais realistas que o Rei”. Um dos painéis do Fórum Econômico Mundial de Davos chama-se “A nova crise financeira?”, pois muitos economistas lá presentes acreditam que 2018 pode ser o novo 2008. Hoje as coisas são diferentes, somos o elo frágil da cadeia internacional, o inverso do período anterior, e isso, tragicamente, não começou com Temer, nem com Joaquim Levy, liberal ortodoxo e ex-ministro de Dilma.

    Constatado esse quadro, a grande questão é: deixaremos os interesses do mercado definirem os rumos do país ou defenderemos o direito da população escolher o que bem entender, mesmo não concordando com o n° 1 das pesquisas? A democracia brasileira nunca foi plena – o processo que respondemos desde 2013 indica algumas coisas sobre isso -, mas a verdade é que desde 31 de agosto de 2016 seu grau de formalidade deu saltos. Lula condenado representa a segunda eleição onde uma instituição das elites se sobrepõe ao voto popular. Lula tem o direito de ser candidato, assim como eu tenho o direito de não votar nele. O que eu não quero é que três homens brancos e cheios de privilégios definam os rumos do país, ao lado de outros tantos “sem sangue nas veias e sem coração”, apenas interessados em lucro, lucro e mais lucros.

    Foto: Mídia Ninja

  • Bolsonaro em contradição: três patacoadas do “mito” em apenas 10 dias de 2018

    Por Matheus Gomes, Colunista do Esquerda Online

    Patacoada 1: O escandaloso crescimento do patrimônio de Bolsonaro

    Uma matéria divulgada pela Folha de São Paulo no último domingo (7) apresentou números escandalosos sobre o crescimento do patrimônio da família Bolsonaro. Entre 2010 e 2014, a variação de seus bens é maior que a soma de seus salários líquidos no período. Além disso, em meio ao boom imobiliário do Rio de Janeiro, Bolsonaro adquiriu imóveis em negociatas muito abaixo dos valores de mercado e não as declarou na última eleição. Isso sugere que, no mínimo, o deputado ocultou patrimônio, cometendo crime conforme a Lei n° 12.683.

    Em sua página no Facebook, o “mito” não consegue explicar como enriqueceu tanto. Ao lado dos pastores Marco Feliciano e Silas Malafaia, se resumiu a argumentar por dois flancos. O primeiro – e mais ridículo – é a acusar a Folha de São Paulo de ser um jornal à serviço da esquerda e do bolivarianismo, logo o grupo da Família Frias, defensores do golpe empresarial-militar de 1964 e do impeachment de 2016 ao lado da FIESP e do próprio Bolsonaro. Não faz nenhum sentido!

    O segundo é apresentar os números da cota parlamentar não utilizada na legislatura. Ora, Bolsonaro faz um alvoroço por não ter utilizado cerca de 30% da cota, ao passo que nunca abriu mão de um centavo dos R$ 33.763,00 que recebe por mês e sempre utilizou todos os benefícios dos parlamentares. De 2014 pra cá, Bolsonaro custou mais de R$ 1 milhão aos cofres públicos, qual a grande diferença do restante? Não custa lembrar que suas campanhas milionárias também foram financiadas por grandes empresários, inclusive a JBS de Joesley, fora as viagens realizadas com recursos de figuras ligadas ao agronegócio e a indústria armamentista.

    Bolsonaro não admite um simples fato: como a maioria dos políticos ligados aos partidos da ordem, ele construiu sua riqueza à custa do dinheiro público, acumulando bens a partir de sua condição de deputado. Nenhuma pessoa comum evolui seu patrimônio de um FIAT Panorama, uma moto e dois lotes para um patrimônio de R$ 15 milhões em menos de 30 anos, ou seja, para o “mito” é certo manter os privilégios dos políticos.

    Patacoada 2: O incrível apego à legendas de aluguel

    Na última sexta (5), Bolsonaro anunciou sua migração do Partido Social Cristão (PSC) para o Partido Social Liberal (PSL). Depois de meses de negociação com o Partido Ecológico Nacional (PEN) – prestes a mudar o nome para Patriota. Parece que a bolada certeira veio do cartola pernambucano Luciano Bivar, deputado federal e empresário, conhecido por subornar membros da CBF em 2013 para viabilizar a convocação de um volante de seu time, o Sport. Bolsonaro já esteve filiado aos extintos PPR, PPB e PFL, ao PTB, PP, PSC, agora ingressa no seu sétimo partido.

    Até a semana passada, os inquilinos da legenda eram os integrantes do Livres, movimento liderado por Fábio Ostermann, um dos fundadores do MBL. No dia em que Bolsonaro entrou pela porta da frente, eles saíram pela porta de trás. Isso apenas demonstra que o PSL não é um partido de ideias, pelo contrário, quem oferece mais vantagens aos caciques da legenda leva a melhor.

    Como sabemos, um dos males do sistema político brasileiro são as legendas de aluguel. A serventia desses partidos para o povo trabalhador é zero, entretanto, para figuras em busca de trampolins políticos; coligações que pretendem preencher tempo de TV ou ampliar quociente eleitoral; ou coalizações governantes atrás de votos em troca de verba pública, esses partidos são extremamente úteis. O “mito” parece gostar desse arranjo político.

    Patacoada 3: Mais ou menos Estado? Sim ou não às contrarreformas?

    Algumas pessoas poderiam argumentar que Bolsonaro é um homem de ideias fortes, por isso pula de partido em partido para encontrar a legenda ideal. Mas quem analisa a fundo suas ideias encontra um sem número de incongruências. A última é seu namoro com liberais ortodoxos, conforme suas declarações na entrevista coletiva concedida durante o anúncio da sua entrada no PSL.

    Qual o projeto de Bolsonaro no terreno econômico? Como defensor da ditadura empresarial-militar, o “mito” precisa explicar o legado desse regime: nesse período foram criadas dezenas de empresas estatais em diversas áreas; ao mesmo tempo, esse é o marco do desenvolvimento das grandes empreiteiras nacionais da construção pesada através de contratos públicos – aquelas centralmente envolvidas na lava-jato; também é o período chave para entender o acúmulo da dívida externa e a dependência crônica do Brasil com o capital internacional.

    Na realidade, ele apenas agrega mais confusões. Para não se vincular a projetos antipopulares, o “mito” tergiversa falando em “outros tipos de reforma” e etc. Como admite não saber nada de economia, nem dominar os ensinamentos básicos da Escola Superior de Guerra, Bolsonaro prefere se aconselhar com liberais da “moda” para pensar seu projeto econômico. Adolfo Saschida (IPEA) e Paulo Guedes (formado na Escola de Chicago e ligado ao grupo BTG Pactual) são nomes que exercem influência sobre Bolsonaro.

    Bolsonaro promete um novo “milagre econômico”, mas, se seguir a fórmula de seus conselheiros, a única opção que lhe restará é adotar a agenda de contrarreformas proposta pelo mercado financeiro, repetindo a farsa dos ditadores de ontem, que sustentaram um parco crescimento econômico em base a superexploração e autoritarismo, afundando o Brasil na crise da década de 80.

    Quantas patacoadas ainda virão no decorrer de 2018?

    Imagens: Antônio More/Gazeta do Povo/Arquivo

  • Porto Alegre sitiada? É preciso defender o direito de manifestação

    Na manhã de ontem (4), o prefeito Marchezan divulgou oficio solicitando a convocação da Força Nacional de Segurança e do Exército Brasileiro para impedir a realização de manifestações durante o julgamento de Lula no Tribunal Regional Federal da 4° Região (TRF4), dia 24 de janeiro. O pedido se soma a liminar promulgada em 28 de dezembro pelo juiz Osório Ávila Neto, da 2ª Vara Federal de Porto Alegre, que impede a realização de um acampamento do Movimento dos Sem Terra no Parque Harmonia, espaço público que é conhecido mundialmente por ter sediado os gigantescos acampamentos das primeiras edições do Fórum Social Mundial.

    Por Matheus Gomes, Colunista do Esquerda Online

    Polêmica entre os governos municipal, estadual e federal é apenas fachada

    Marchezan segue a risca a linha de seu companheiro de partido Beto Richa, governador do Paraná, que sitiou Curitiba em maio do ano passado durante o encontro entre Lula e Sérgio Moro, que condenou o ex-presidente em primeira instância.

    Mesmo que o ofício tenha ocasionado críticas públicas de Cezar Schirmer, Secretário de Segurança Pública do RS, e Raul Jungmann, Ministro da Defesa, a realidade é que ambos estão atuando em conjunto para criar um clima de guerra na cidade nos próximos dias. Aliás, ao largo desse debate, o gabinete da presidência solicitou que o pedido seja avaliado em reunião conjunta entre Temer e os ministros da Justiça e Defesa.

    A operação será montada pelo Gabinete de Gestão Integrada (GGI) do RS, que articula não menos que, a nível estadual, a Brigada Militar, Polícia Civil, Corpo de Bombeiros, Susepe, Instituto-Geral de Perícias, Departamentos de Inteligência, de Planejamento e de Comando e Controle da Secretaria da Segurança; a nível municipal, a Secretaria da Segurança, Procuradoria-Geral, Guarda Municipal e EPTC; e a nível federal, as Forças Armadas, Agência Brasileira de Inteligência, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e Força Nacional de Segurança. Milhares de reais serão investidos na ação que deverá contar com cães, cavalaria, helicópteros e atiradores de elite no terraço do prédio do TRF4.

    A realidade é que a polêmica das últimas horas é apenas uma disputa mesquinha entre políticos graduados em repressão aos movimentos sociais – vide a convocação do Exército contra a marcha ocorrida em maio passado na capital federal e a violência da Brigada Militar contra os protestos de servidores públicos estaduais em dezembro de 2016.

    Na verdade, Marchezan quis tomar a frente da ação, o que não nos surpreende, pois o prefeito tem feito de tudo para criminalizar os movimentos sociais. Uma das últimas ações da Câmara de Vereadores de Porto Alegre em 2017 foi a aprovação de uma lei proposta pelo prefeito que visa controlar a ocorrência de manifestações em vias públicas, exigindo a autorização prévia dos órgãos municipais e ameaçando com multas de até R$ 400 mil os organizadores que não se enquadrarem nos ditames do paço municipal, ou seja, conhecendo as opiniões do prefeito, apenas o MBL e seus comparsas poderão se manifestar livremente na cidade.

    Em defesa do direito de manifestação

    A espetacularização desse julgamento é mais um capítulo da ofensiva reacionária que envolve a operação Lava Jato, um teatro que quer nos fazer crer que a corrupção iniciou no Brasil com o limiar do século XXI, ignorando a relação espúria entre militares e construtoras, bem como a corrupção que envolveu o restante dos governos do pós-ditadura, centralmente nos mandatos de FHC.

    Seria um erro não compreender que essa operação fornece a base ideológica e é o motor da campanha midiática em prol do programa de contrarreformas neoliberais em curso. Estamos contra a condenação sem provas de Lula e a criminalização do PT. Tais medidas não podem ser vistas pela esquerda como um atalho para a superação do lulismo e do PT – que durante seus três governos e meio sucumbiram as negociatas espúrias do presidencialismo de coalização e ao projeto de conciliação de classes. Na realidade, tais medidas representam a continuidade do golpe de 2016, ou seja, favorecem a direita em suas diferentes matizes e agradam profundamente o mercado financeiro internacional, interessado em abocanhar nosso patrimônio público e riquezas naturais.

    Mesmo não compactuando com o projeto político de Lula e o PT, defendemos que os movimentos sociais tenham o direito de manifestar em apoio ao ex-presidente no dia 24 de janeiro, assim como defendemos a revogação de todas as legislações repressivas existentes no Brasil, como a Lei Antiterrorismo e a Garantia da Lei e da Ordem.

    Imagem: Claiton Dornelles/JC

  • Haiti: 214 anos de uma revolução negra triunfante

    Por Matheus Gomes, Colunista do Esquerda Online

    Foi no dia 1° de janeiro de 1804 que o líder da maioria negra escravizada Jean-Jacques Dessalines proclamou, diante de uma multidão reunida na cidade de Gonaïves, a República do Haiti. Após mais de uma década de revoltas, nascia o segundo país independente das Américas e o primeiro a abolir a escravidão, já que o processo que levou à independência dos Estados Unidos, em 1776, não foi capaz de garantir liberdade ao povo negro da nação recém liberta do domínio inglês. O estabelecimento da Constituição que proibia qualquer estrangeiro de ser proprietário de terras ou imóveis no território haitiano foi fruto de um processo revolucionário singular – a primeira e única revolução protagonizada por escravos que se sagrou vitoriosa -, e desestabilizou potencias como a França e a Inglaterra.

    Colonização espanhola e francesa: a acumulação pela barbárie

    A região das Antilhas, ou América Central insular, foi a primeira a ser invadida pelos colonizadores liderados por Cristovão Colombo. Haiti significa terra montanhosa e era a forma como os Tainos – nativos da região – denominavam a ilha.

    Os primeiros relatos dos espanhóis afirmam que o território era dividido em diversos “cacicados” e classificava os autóctones como “mansos”, “sensíveis” e “tímidos”. O uso de tais adjetivos não impediram, no entanto, o genocídio dos nativos, por meio  de tentativas mal sucedidas de exploração da sua mão-de-obra. De acordo com o historiador Eric Williams, “Nesse local a população em 1492 era estimada entre 200 mil e 300 mil. Em 1508, o número tinha sido reduzido para 60 mil; em 1510, era 46 mil; em 1512, 20 mil; em 1514, 14 mil. Em 1548, Oviedo [historiador espanhol] duvidava se permaneciam 500 índios puros. Em 1570, tinham sobrevivido apenas dois povoados” .

    Foi nesse cenário de devastação e barbárie que os primeiros africanos escravizados desembarcaram na ilha a partir da segunda década do século XVI, dando início a três séculos de produção intensiva destinada a exportação e baseada no tráfico de escravos. Já em fins do século XVII, após a assinatura do acordo que findou a guerra entre a França e a Grande Aliança de Impérios, a parte ocidental da então ilha de “Santo Domingo” foi cedida aos franceses. Essa região teria sido inicialmente povoada por piratas, mas após a chegada dos enviados da coroa tornou-se o território mais valioso do Caribe, chegando a representar 2/3 dos negócios franceses. O desenvolvimento da exploração deu-se através das plantações de açúcar e, posteriormente, com o cultivo do café e, em menor escala, algodão e cacau.

    A divisão demográfica da ilha em meados do século XVIII nos ajuda a entender o alto grau de tensão social: mais de meio milhão de escravizados formavam cerca de 85% da população, o que obrigava os colonizadores a instituir um clima permanente de repressão e terror, sem qualquer direito a apelação.

    Quando “Liberté, Egalité, Fraternité” são levadas às últimas consequências

    Para entendermos a dinâmica da revolução é necessário conhecermos as peculiaridades da sociedade haitiana, que possuía uma estratificação social diferente de outras colônias, a exemplo do Brasil. Para o historiador cubano Sérgio Vilaboy, o elemento que distinguia Santo Domingo era a existência dos “mulatos livres”, agricultores emergentes que, na metade do século XVIII, representavam cerca de 5% da população, mas detinham um quarto da terra cultivável, tornando-se uma ameaça a hegemonia branca e ampliando a complexa relação entre cor e classe na ilha. Já nas últimas décadas do século XVIII, as vésperas da revolução, a composição étnica da população era a seguinte: brancos, 40 mil; mulatos, 96 mil, sendo 56 mil libertos e 40 mil sujeitos a distintas formas de escravidão; e 532 mil negros escravizados.

    Esse conjunto de classes em conflito permanente foi diretamente afetado pela Revolução Francesa de 1789. Para os grandes proprietários brancos, surgiu a oportunidade de dominar diretamente o governo de Santo Domingo estabelecendo o comércio livre e mantendo a escravidão. Em abril de 1790, foi convocada a Assembleia Geral da Parte Francesa de Santo Domingo, uma reunião com acesso limitado a proprietários com mais de 20 escravos, o que excluía os mulatos e brancos com menos posses. Contudo, as pretensões dos convocadores da Assembleia se chocavam com os interesses da metrópole, que viu na nascente Constituição Colonial as bases de uma declaração de independência, o que levou o Governador Conde de Peynier a dissolver em armas a empreitada, com apoio de mulatos e pequenos proprietários. Todavia, essa aliança entre mulatos e brancos não tardou em se desfazer à medida que era negada a igualdade de direitos entre eles, o que ocasionou uma série de levantes armados dos mulatos em 1791, que não incluíam em suas reivindicações a liberdade para os escravos.

    A dianteira dos mulatos no processo revolucionário começa a ser desfeita em agosto de 1791 quando iniciam as revoltas negras no norte. Vale destacar que o histórico de resistência dos escravizados remete a sua chegada à ilha e as constantes fugas e movimentos de guerrilha dos cimarrones – termo equivalente aos quilombolas do Brasil. A religiosidade mística e misteriosa do vodu cumpriu um papel importante na articulação de revoltas, como a liderada pelo escravo Makandal em 1758. Este dizia se inspirar nos deuses africanos e julgava-se forte o bastante para derrotar os senhores. De fato, além de uma rebelião massiva, ele ordenou diversos envenenamentos de brancos durante quatro anos, mas este movimento culminou no seu assassinato numa fogueira. Contudo, a repressão à religião nos anos seguintes não conseguiu impedir que o vodu seguisse aglutinando os escravizados, pelo contrário, o clima de conspiração instaurou-se fortemente e foi a partir do chamado do sacerdote Boukman que iniciou o levante escravo por todas as planícies do norte.

    Ao lado da metrópole, os grandes proprietários fizeram todas as manobras possíveis para conter a rebelião negra que se alastrava, mas a radicalização da Revolução Francesa novamente interferiu no processo. Encarregados de restaurar a ordem, três comissários franceses acompanhados de um forte efetivo militar desembarcaram na ilha em fins de 1792, entretanto, do outro lado do Atlântico aconteceria em janeiro de 1793 à execução de Luís XVI, acontecimento que transformou os grandes proprietários brancos em defensores diretos da causa realista. Enquanto o comissariado francês promulgava leis que concediam igualdade de direitos entre brancos, mulatos e negros livres, os grandes proprietários viam seu poder diminuir e organizavam sublevações contra a metrópole. Nesse interregno, as revoltas de escravos não cessaram, já que suas condições sociais permaneciam intactas e sem perspectiva de alteração, o que fica nítido nas palavras de um representante francês, que era enfático ao dizer que “não buscamos meio milhão de escravos na costa africana para fazer deles cidadãos franceses”, demonstrando que a igualdade, liberdade e fraternidade dos liberais franceses não se estendiam ao mundo colonial.

    Meses depois, no verão de 1793, o anseio pela liberdade e a impotência dos mulatos livres faz os escravizados, liderados por Toussaint Louverture, aliarem-se a Espanha, que invadiu a ilha prometendo liberdade aos negros, aproveitando-se da fragilidade da metrópole francesa ocasionada pela ofensiva internacional contrarrevolucionária. Por outro flanco, os ingleses também retomam a ofensiva militar, respaldados por colonos brancos e os mulatos. A intensificação da crise cria um beco sem saída para a metrópole que se vê obrigada, a partir de seu comissário Sonthonax, a declarar o fim da escravidão em 29 de agosto de 1793, medida respaldada pela Convenção Francesa em 4 de fevereiro de 1794 e garantia aos negros plenos direitos como cidadãos franceses.

    O acontecimento faz Louverture e outras lideranças como Dessalines, Jean Christophe e Charles Belair romperem sua aliança com os espanhóis e expulsarem seu exército da ilha, passando diretamente a vanguarda da resistência à ofensiva inglesa. Com base em pesquisas de historiadores do exército britânico, C.L.R. James afirma que as baixas da Grã Bretanha nas Antilhas chegam a quase 100.000 homens, o que é considerado o principal elemento da fraqueza do reino no final do século XVIII. Após liderar a expulsão dos ingleses em outubro de 1798 e já na condição de governador da colônia, Louverture enfrenta um conflito interno, pois a posição destacada dos ex-escravizados germinou a insatisfação entre os mulatos, que iniciam tentativas de sublevação contra o governo central, mas são derrotados rapidamente pelas tropas oficiais. O governo de Louverture promulga leis importantes como a ratificação da abolição da escravidão, a igualdade jurídica entre o conjunto da população e o reconhecimento do catolicismo como religião oficial.

    Entretanto, a reação de Napoleão Bonaparte e o Consulado na França impulsionaram a tentativa de fazer a ilha regressar a sua condição anterior a partir de 1802, fato que se consumou na Martinica e em Guadalupe. Contando com o apoio de alguns mulatos, que permaneciam como inimigos incontestes de Louverture, os franceses avançaram suas tropas e impuseram um regime de terror generalizado. Mas o ressentimento dos franceses também atingia os mulatos, nas palavras do General Leclerc – comandante da retomada -, “em minha opinião, temos que suprimir todos negros das montanhas (…) e não deixar na colônia nenhum mulato que carregue charretes” . Essa postura acabou forjando um bloco de classes entre escravizados e mulatos, em defesa da independência nacional e contra a escravidão. A revolta generalizada liderada por essa aliança acabou por derrotar o exército francês, que teve seus últimos destacamentos rendidos em 18 de novembro de 1803, na batalha de Vertieres. A partir daí florescia uma nação independente, mas também iniciava uma saga marcada por bloqueios econômicos, invasões estrangeiras e isolamento político.

    O impacto da revolução no Brasil

    Os ecos de liberdade ressoaram em nosso país e em toda a Afroamérica. Segundo o historiador Clóvis Moura, já em 1805, negros empregados nas tropas de artilharia do Rio de Janeiro foram presos por portarem um retrato de Dessalines. Nessa época, a impressão de qualquer gravura no Brasil era quase impossível, o que sugere a circulação da imagem a partir de escravos vindos de outras regiões do continente. Já na Bahia (não consta a data na referência), uma revolta de negros empregados na pescaria foi sufocada pelo governo central e os donos dos estabelecimentos relatavam que os acontecimentos revolucionários eram comentados abertamente entre os escravos. Ou seja, mesmo com todas as limitações de comunicação que a condição de escravizado impunha, o exemplo do Haiti se tornou uma utopia libertária para a parcela de escravizados que teve contato com os acontecimentos revolucionários.

    Esse período coincide com o momento em que os escravizados resistiram de forma mais ampla contra sua condição no Brasil: formação de quilombos, suicídios, crimes individuais contra os senhores, guerrilhas, assaltos nas estradas, uma série de ações contestatórias definiam o clima de corpo a corpo permanente entre escravos e senhores. O Haiti fez com que a metrópole e a burguesia nascente ampliassem as características repressivas do Estado e criou uma paranoia generalizada sobre a possibilidade de um movimento similar em nosso país.

    O cerco imperialista permanente

    A revolução logo colocou a República do Haiti numa encruzilhada. C.L.R. James escreve que Louverture, bem como seu sucessor Jean Christophe, “não conseguia ver outra saída para a economia haitiana senão as plantações de cana de açúcar. (…) Mas com a abolição da escravatura e a conquista da independência, a defesa das plantações, indelevelmente associadas à escravidão, tornou-se insustentável” , fazendo com que em poucos anos a economia da ilha se resumisse as necessidades de subsistência. Essa condição imposta pelo isolamento político e econômico internacional afundou o país na pobreza e criou conflitos políticos diversos. Mesmo assim, manteve-se entre a população um forte sentimento nacional, repleto de contradições cruzadas pelas divisões de classe da própria sociedade haitiana, pois, segundo James, após a revolução a elite haitiana sempre tentou reproduzir na ilha um modelo de civilização europeia que nunca se consolidou.

    O fato é que o Haiti jamais saiu da mira dos colonizadores de ontem e segue como alvo dos imperialistas de hoje. O sociólogo haitiano Franck Seguy, corroborando com o historiador e ex-presidente do Haiti Leslie Manigat, entende que as cinco razões principais da cobiça pelo território haitiano são “(1) a sua posição geoestratégica no caminho ao canal de Panamá (…); (2) a necessidade de transformação econômica do Haiti (sua liberalização) e de cumprir seu papel na divisão internacional do trabalho; (3) o controle do seu comércio exterior; (4) sua dívida externa; (5) a necessidade de comprovar que uma república negra é incapaz de se autogovernar.” .

    O último aspecto salientado tem relevância especial para refletirmos sobre o cruzamento entre os interesses de classe e a questão racial. Como seres considerados sem alma e inteligência poderiam erguer-se ante um Império? A verdade é que em 1804 toda a racionalização construída para legitimar a escravidão caiu de joelho ante a revolução negra, mas eles não tardaram em criar novas pseudo-justificativas para as suas ações ofensivas movidas por um profundo ressentimento racista. Desde a primeira invasão norte-americana em 1915 até a última ocupação liderada pelo governo brasileiro, as intervenções estrangeiras ocorrem em nome da paz, mas, na realidade, tem o intuito de frear a progressão de lutas sociais contra a opressão e a exploração no país. Qual guerra existe no Haiti? Quais são os campos em conflitos?  As ofensivas militares e a ingerência estadunidense na política haitiana em todo o século XX e as primeiras décadas do século XXI são a nova face do impedimento imperialista a autodeterminação haitiana. A repressão às lutas sociais promovida pela Minustah, à serviço da superexploração nas empresas da indústria têxtil, verdadeiros engenhos do século XXI, não foi divulgada pela grande imprensa no Brasil, mas é uma constante desde 2004. Nem o trágico terremoto, em 2010, sucedido por uma epidemia de cólera, foi capaz de suscitar o senso humanitário nas potencias imperialistas, tornando-se um dos fatores da emigração que hoje desagrega a nação.

    Como bem disse o uruguaio Eduardo Galeano, a tremenda sova dada pelos escravizados nos colonizadores jamais foi perdoada pelos europeus e “a história do assédio contra o Haiti (…) é também uma história do racismo na civilização ocidental.” . Mas relembrar a resistência das negras e negros haitianos é reacender a chama da esperança na potência desse povo e apostar que a consciência preservada historicamente ajudará a germinar novas lideranças, novos projetos e impulsionar a rebeldia. Viva a luta pela autodeterminação do Haiti!

    Seguem abaixo as referências utilizadas no texto e um convite para que ampliemos o estudo do tema:

    1 – texto completo da Constituição Haitiana de 1804 pode ser acessado, em espanhol, nesse link: http://www.bdigital.unal.edu.co/6602/33/12_Cap09.pdf.
    2 – WILLIAMS, Eric (1970) apud SHAWKI, Ahmed. Libertação negra e socialismo. São Paulo: Ed. Sundermann, 2017, p. 32.
    3 – VILLABOY, Sergio Guerra. El dilema de la independência. La Habana: Editorial Félix Varela, p 43.
    4 – Ibidem, p. 44.
    5 – MOURA, Clóvis. Dicionário de escravidão negra no Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2004, p. 357.
    6 – VILLABOY, op.cit. p. 45.
    7 – REGNAUL, Elias. Historia de las Antillas. Barcelona: Imprensa del fomente, 1846, p.46. Disponível em: https://issuu.com/scduag/docs/sch13116.
    8 – MOURA, op.cit. p. 358.
    9 – VILLABOY, p. 47.
    10 – Ibidem, p. 49, tradução nossa.
    11 – JAMES, C.R.L. A Revolução e o Negro. New International , Volume V, dezembro de 1939, pp 339-343. Transcrito por Ted Crawford. Disponível em http://pretotrotskismo.blogspot.com.br/2014/01/a-revolucao-e-o-negro-clr-james.html.
    12 – VILLABOY, p. 54, tradução nossa.
    13 – MOURA, op. cit. p. 359-361.
    14 – MOURA, Clóvis. Dialética Radical do Brasil Negro. São Paulo: Anita Garibaldi, 2014, p. 80.
    15 – JAMES, C.R.L. De Toussaint L’Ouverture a Fidel Castro. In: Manuela Ribeiro Sanches (Org) Malhas que os Impérios Tecem. Textos anticoloniais, contextos pós-coloniais. Lisboa: Edições 70, 2011, p. 158.
    16 – SEGUY, Franck. Para compreender a recolonização do Haiti. In: Revista Outubro, n° 22, 2° semestre/2014, p. 91. xvii – Ibidem, p. 96.
    17  -GALEANO, Eduardo. Os pecados do Haiti. Disponível em: http://resistir.info/galeano/haiti_18jan10.h
    Imagem: Batalha em San Domingo, pintado por January Suchodolski
  • MAIS E NOS I Plenária discute estrutura social do Brasil

    Por Matheus Gomes, Colunista do Esquerda Online

    Pensar o processo de formação das classes sociais no Brasil para fortalecer a elaboração de um projeto político capaz de incidir sobre a realidade difícil que enfrentamos. Esse foi o tema da segunda plenária de discussão programática entre o MAIS e a NOS em Porto Alegre, que ocorreu na noite de ontem (6) no auditório do SINDSPREV.

    O debate apoiou-se nas notas programáticas elaboradas por Glória Trogo, Gabriel Casoni e Marcelo Badaró e foi apresentado pelo professor Shin Nishimura (NOS) e o operário e estudante de Direito Lucas Fogaça (MAIS).

    A abertura instigou intervenções sobre temas diversos: os impactos da terceirização e a reestruturação produtiva sobre o dia-a-dia e a organização da classe; a centralidade da questão racial no programa dos marxistas brasileiros; o debate entorno ao papel político das distintas frações da classe trabalhadora; consciência, organização e a questão da saúde mental; os traços gerais da burguesia nacional e seu projeto político; como as reformas atuais impactam na morfologia da classe e etc.

    Para ambas organizações trata-se do início de uma elaboração que parte dos debates travados ao longo das últimas décadas nos círculos acadêmicos e militantes, mas também busca conectar-se as elaborações atuais, afinal, como afirmou Shin, estamos analisando um “fenômeno social dinâmico”.

    Um passo adiante na reorganização

    O debate foi coordenado pelas professoras Martina Gomes (MAIS) e Marina Meneghel (NOS). Elas comentaram o andamento do processo de enlace. Segundo Marina, explorar a possibilidade de unificação significa um esforço para superar a dinâmica de divisão da esquerda socialista, por isso a necessidade dos debates estratégicos para não nos perdermos apenas em discussões táticas, como tem sido a regra entre a esquerda no último período. A importância da intervenção comum entre as duas organizações foi ressaltada por Martina, a luz do que já começa a ocorrer no funcionalismo público municipal e no movimento estudantil. Ativistas independentes também participaram do debate.

    Fortalecendo a solidariedade de classe

    Um momento importante da plenária foi o relato do professor Altemir Cozer, dirigente do MAIS e da CSP Conlutas que passou 30h preso após ação arbitrária da BM durante as mobilizações de 30 de junho.

    A emboscada que prendeu Altemir atingiu quase vinte militantes da NOS, Alicerce e MAIS. Por mais de uma hora a BM disferiu xingamentos, agressões e ameaças a companheirada, que resistiu firme a tentativa de desmoralização.

    Altemir relatou que ao sair do Presídio um policial perguntou, ironicamente, se ele pretendia seguir nos protestos. A resposta foi afirmativa e logo ele foi recebido na rua aos gritos de “protesto não é crime”. Mas a questão suscitou a sua reflexão na plenária: como resistir ao recrudescimento da repressão? Certamente a ação coletiva da juventude e dos trabalhadores é a forma de derrotar a mão pesada do Estado, como demonstraram as mobilizações de Junho de 2013 em seu primeiro momento. Mas estender os laços de solidariedade a todas e todos atingidos pela criminalização, seja nos movimentos sociais ou nas comunidades pobres que sofrem com a violência, também se faz necessário para que sigamos firmes e fortes. Ao final, os participantes tiraram uma foto erguendo os dizeres “Protesto não é crime”, para simbolizar a resistência. Os próximos debates devem ocorrer dentro de um mês.

  • Minhas memórias do dia 20 de junho de 2013

    Por Matheus Gomes, Colunista do Esquerda Online

    Hoje vamos para mais uma audiência do julgamento do Bloco de Lutas. Resolvi refletir sobre o dia que vivemos há quatro anos.

    Aquela quinta-feira foi o ápice de uma semana intensa. De quinta à quinta o Brasil acumulou uma energia política inovadora, as ruas pulsavam. Os protestos organizados por movimentos como o MPL (SP) e o Bloco de Lutas (POA) ganharam a solidariedade e a simpatia de milhões de pessoas. O editorial da Folha de São Paulo exigindo repressão impiedosa aos manifestantes no 13J foi dois dias antes do início da Copa das Confederações, já a manifestação nacional monstra do 20J ocorreu um dia depois da dupla Neymar e Jô guardar dois gols no México. É que ai a ação coletiva nas ruas já era o centro das atenções ao invés dos gramados. O pacto selado entre multinacionais e governantes foi para os ares quando irrompeu o povo jovem e trabalhador, maioria nas ruas durante as jornadas.

    Repressão na Ipiranga

    Repressão na Ipiranga

    Eu acordei cedo. Fui fazer uma panfletagem para divulgar o ato das 17h no Paço Municipal. Chovia num frio de “renguear cusco”. Sai de casa as 7h e fiquei com a mesma roupa até o final do dia. A tensão começou muito antes do ato. No início da tarde recebemos a notícia da invasão na sede da Federação Anarquista Gaúcha. Homens que diziam ser da Polícia Federal entraram e vasculharam o Ateneu Libertário pra levar materiais políticos e livros. A escalada repressiva contra o Bloco de Lutas já tinha começado em abril, mas esse fato mostrou que a perseguição ficaria mais intensa com o crescimento dos atos. Naquela noite cerca de 850 homens da Brigada Militar foram pras ruas reprimir o ato, num mega aparato que se concentrou majoritariamente em três pontos: na frente da Zero Hora, nos arredores da Matriz e, no final do ato, entre o Glênio Peres e as principais paradas de ônibus do Centro.

    Rapidamente convocamos uma coletiva de imprensa no DCE da UFRGS as 16h. Contatamos toda a imprensa local e decidimos um método pra fazer a coletiva que não focasse numa liderança específica nos microfones. Algumas pessoas se revezaram a cada parágrafo atrás de outras pessoas que seguravam faixas e cartazes. Falamos da perseguição política, mas tentamos puxar a atenção pras demandas do movimento, já que a Zero Hora divulgou pautas que não eram as nossas pra começar a operação de sequestro das manifestações, além de dizer que recebíamos treinamento de guerrilha através de movimentos internacionais (!).

    Coletiva de imprensa do bloco de lutas

    Coletiva de imprensa do bloco de lutas

    Quando chegamos no protesto uma multidão já se aglomerava entre a Esquina Democrática e a prefeitura. Chovia bastante, mas descobri a incrível sensação de marchar encharcado ao lado de milhares de pessoas. A manifestação se dividiu em duas. De um lado o Bloco de Lutas querendo ir ao Piratini, do outro pessoas que não temos como saber quem eram coordenando uma manifestação em direção a Zero Hora. Calcular quantos éramos é uma tarefa pendente que em breve vou resolver, mas as duas marchas se encontraram na João Pessoa com a Salgado Filho. A pressão para descermos até a Ipiranga venceu porque vínhamos de uma rua menor, o que nos tirava a condição de influenciar no itinerário, mas também sugere que a manifestação que encontramos era ainda maior que a nossa.
    A Brigada Militar fez subir uma cortina de gás nunca vista em Porto Alegre, foi mais de uma hora de enfrentamento na Ipiranga com a Azenha sobre uma manifestação que até então seguia pacífica e tranquila. Nessa altura do campeonato já não tínhamos domínio de fato algum, ao contrário do que pensa o Delegado. Queríamos apenas nos proteger e cuidar uns dos outros para seguir em luta. Nossos corpos eram as armas que tínhamos para batalhar pelas ideias que acreditávamos naquele Junho.

    Foi um dia emblemático. Depois do 20J, o MPL disse que não chamaria mais protestos em São Paulo e a participação das organizações de esquerda nas manifestações começava a ficar difícil em todo o país. Em POA tivemos outro ato na segunda (24J) e na quinta (27J), numa dinâmica distinta das outras metrópoles, mais articulada em torno das manifestações que organizávamos devido à existência do ciclo anterior de março e abril. Já os Marinhos agiram rapidamente e em poucas horas fizeram um Globo Repórter criando o seu perfil de movimento (branco, de classe média e verde-amarelo), no sábado veio a Veja etc. Enquanto isso, Dilma fazia seu pronunciamento em rede nacional falando de democracia e liberdade de expressão, direitos sociais, amor dos brasileiros pelo futebol e combate a violência nos atos, na impossível tarefa de agradar gregos e troianos. Foi nesse dia que prenderam o Rafael Braga.

    Quatro anos depois retomo essas lembranças tentando seguir o conselho de Walter Benjamim nas suas Teses Sobre História. Mesmo que olhando para o passado com sabor já insípido, prefiro usar da minha memória para tentar despertar “as centelhas da esperança”, por que sim, “nem os mortos estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer”. Seguimos em luta, olhando pra frente!

    Fotos de POA: Ramiro Furquim e Bernardo Jardim; RJ: autor desconhecido.

  • Marchezan quer furar a Greve Geral com Cabify

    Por Matheus Gomes, Colunista do Esquerda Online

    A Prefeitura de Porto Alegre anunciou no início da tarde que a partir das 15 horas os servidores municipais receberão código da Cabify para irem ao trabalho com desconto de R$ 15 amanhã.

    Se Marchezan e sua equipe acham que irão desmobilizar os trabalhadores com essa atitude estão muito enganados. Municipárias e municipários estão em luta contra a Prefeitura desde janeiro e já realizaram mais de um dia de paralisação e diversos atos de rua, especialmente na área da educação. A assembleia que aprovou a participação na greve geral foi massiva e organizou piquetes em diversos pontos da cidade. Quem quiser furar a greve com o Cabify encontrará muitas dificuldades.

    Sabemos que a prefeitura não pode fazer acordo com empresas privadas da noite para o dia. A Cabify é uma multinacional, assim como o Uber utiliizado por Dória com o mesmo intuito em São Paulo, achamos estranho esse anúncio sem qualquer tipo de licitação prévia ou sem apresentar a sociedade os detalhes do processo.
    Marchezan demonstra que é 100% anti-popular, querendo jogar trabalhadores do Cabify contra servidores da prefeitura. Ambos vivem as dificuldades da crise atual e precisam estar lado a lado nessa sexta.

    A realidade é que a prefeitura está com medo, pois sabe que a greve tomará conta da cidade. Amanhã mediremos forças, podemos vencer.

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