Especial 8 de março

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  • 8M: Protesto ocupa a Casa da Mulher Brasileira, em Fortaleza

    Da redação,

    O ato na capital do Ceará reuniu mais de mil pessoas na manhã deste 8 de Março. Foi impulsionado por sindicatos, coletivos feministas, organizações e partidos de esquerda, com destaque para uma forte presença das Mulheres Sem Medo de Lutar, de uma ocupação do MTST. Também participaram mães de jovens assassinados na chacina do bairro Cajazeiras, em janeiro deste ano, e que se organizam desde então para exigir a apuração do crime.

    O protesto teve início em uma estação de ônibus, onde foram feitos discursos contra a violência machista e as condições do transporte. Em seguida, as mulheres seguiram em caminhada até a Casa da Mulher Brasileira, onde fizeram uma ocupação, exigindo o funcionamento do prédio.

    O prédio começou a ser construído em 2015 e até agora não foi inaugurado. O governo estadual culpa o governo federal, que teria que repassar cerca de R$ 4 milhões, envio de mobiliário e equipamentos para o início das atividades. A Casa foi criada para reunir em um só lugar todos os atendimentos às vítimas de violência doméstica, com apoio psicossocial, alojamento, delegacia especializada, defensoria pública e Poder Judiciário. Atualmente, há apenas uma delegacia especializada em combater este tipo de crime em Fortaleza e está sem sede própria.

    O atraso contrasta com o crescimento da violência machista e do feminicídio no Ceará. Só neste início de ano, foram mais de 100 mulheres assassinadas no Ceará, um aumento de 296% em relação a 2017. As manifestantes levaram cruzes, com os nomes de mulheres mortas neste ano, e afincaram na frente do prédio.

    Com informações do MAIS Ceará

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  • 8M: Ato em Belém denuncia tragédia ambiental e feminicídio

    Gizelle Freitas, de Belém (PA)

    O ato unificado na manhã deste 08 de Março reuniu cerca de mil mulheres em Belém (PA) e foi muito vitorioso, sob um lindo sol (apesar de estarmos no inverno amazônico). O protesto foi construído pela Frente Feminista de Belém, e por dezenas de mãos de 28 entidades, entre coletivos de mulheres, partidos, entidades estudantis, com destaque para o MST, o Movimento de Atingidos por Barragens (MAB) e o Movimento dos Atingidos por Mineradoras.

    O ponto alto do protesto foi no prédio da Hydro Alunorte, a empresa mineradora que através do vazamento de rejeitos de bauxita contaminou diversas áreas do município de Barcarena, no dia 17 de fevereiro, causando danos ao meio ambiente e à saúde da população. Nas falas, foi exigida a suspensão imediata das atividades da empresa, a cassação da licença, multas e indenização à população, que vive da pesca e da agricultura.

    A marcha finalizou, sob forte chuva, na Prefeitura de Belém pra denunciar o descaso completo da gestão municipal, de Zenaldo Coutinho (PSDB), com o combate à violência contra as mulheres. Durante todo o trajeto, em cartazes, faixas e no microfone, as mulheres exigiam o fim da reforma da Previdência, nenhum direito a menos, fora Temer e basta de feminícidio e denunciaram a alta dos preços das tarifas.

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  • 8M: Greve feminista sacode a Espanha

    Sindicatos afirmam que 5,3 milhões pararam por duas horas durante a manhã de hoje

    Ao contrário de 2017, quando ocorreu uma greve mundial de mulheres, neste ano a Espanha talvez seja o único país a ter uma greve feminista, entre as 170 nações que marcaram protestos neste dia. A greve feminista começou a ser organizada em janeiro, em uma plenária com mais de 400 mulheres, e foi abraçada pelos principais sindicatos e centrais sindicais e contou com apoio de inúmeras associações civis e coletivos, ganhando o apoio popular.

    Durante as primeiras horas da manhã, calcula-se que 5,3 milhões tenham aderido à paralisação de duas horas, segundo a UGT e a CCOO. Outras centrais, como a CGT e a CNT, além da paralisação, convocaram a greve de 24 horas. Paralisaram hospitais, bancos, escolas, universidades e o serviço público. A greve chegou até a algumas redações da imprensa. Em alguns canais, as apresentadoras não foram trabalhar e os programas de TV estão sendo apresentados apenas por homens, evidenciando a greve feminista. Um manifesto foi assinado por 7.400 comunicadoras.

    Ao todo existem 120 manifestações convocadas para hoje no Estado Espanhol. Durante as primeiras horas do dia, piquetes e bloqueios de rua pararam pontos chaves em Barcelona e em outras cidades. Durante a manhã, uma bicicletada percorreu as ruas, divulgando a greve. Manifestantes fizeram protestos dentro de grandes lojas de roupas, exigindo o fechamento. E, às 12h, ocorreram grandes concentrações na Praça, que estão sendo seguidas de piqueniques coletivos. Novas concentrações ocorreram no final do dia, às 19h (hora local), com a principal manifestação na Estação Atocha, em Madrid.

    Das sacadas, aventais mostram a adesão à greve. Fonte: hacialahuelgafeminista.org

    Das sacadas, aventais mostram a adesão à greve. Fonte: hacialahuelgafeminista.org

    Um dos símbolos da greve tem sido o avental. Nas casas, as mulheres têm pendurado aventais nas sacadas e janela das casas, demonstrando que ali uma mulher aderiu ao protesto, e está em “greve de cuidado”. Logo pela manhã, diversas estátuas de homens amanheceram com um avental e utensílios de limpeza.

    Em uma pesquisa feita pelo El Pais, 82% dos entrevistados consideravam que haviam motivos para a greve. Na Espanha, as mulheres ganham 13% a menos do que os homens em tarefas iguais, mas têm mais dificuldade em entrar no mercado

    de trabalho, ocupam 73,9% dos contratos em jornada parcial e são ampla maioria no trabalho precário e informal, em especial no doméstico. “Não vamos parar. Este processo nos faz sentir fortes e reforça a ideia de que o caminho é mobilizar-se”, afirmou María Álvarez, da Comissão 8M, um coletivo formado para organizar os protestos, e que mantêm a plataforma http://hacialahuelgafeminista.org.

    Com informações do El País, El Mundo e hacialahuelgafeminista.org

    Confira a galeria de fotos do jornal El Pais

     

     

    8 de Março: Dia de ir às ruas unidas contra a intervenção militar e a violência à mulher

     

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  • Mulheres do samba: viva Dona Ivone Lara, a fortaleza do samba

    Por Carla Vizeu, da Mana Dinga*

    Carioca de botafogo, filha de pai violonista e mãe pastora de rancho, seu caminho não podia ser outro que não o das canções. Órfã ainda menina, foi interna do Colégio Orsina da Fonseca, no bairro da Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro. Teve aulas de música com Laíla Villa-Lobos, e foi indicada para o Orfeão dos Apinacás, da Rádio Tupi, cujo regente era Heitor Villa-Lobos.

    Saindo da escola, foi morar em Inhaúma na casa do tio Dioníso, que lhe ensinou a tocar cavaquinho. Conviveu nessa época com grandes nomes da música, como Pixinguinha, Donga, Jacob do Bandolim, Candinho do trombone, todos frequentadores do choro do Dionísio.
    Após se tornar enfermeira, em 1945 ela decide fazer o curso para se tornar assistente social. Trabalha durante 30 anos no Instituto de Psiquiatria do Engenho de Dentro, desde recém-formada até se aposentar. Especializa-se em terapia ocupacional e trabalha no Serviço Nacional de Doenças Mentais com a doutora Nise da Silveira (1905-1999), médica que revoluciona o tratamento psiquiátrico no Brasil.
    Tendo começado a compor com doze anos, seu contato com o mundo do samba faz aflorar ainda mais sua veia de compositora. Isso ocorre após seu casamento com Oscar Costa, filho de Seu Alfredo, presidente do Prazer da Serrinha. Embora o marido não gostasse de samba, o apelo que a proximidade física da casa e da sede da escola causava em D. Ivone era irresistível. Devagar foi se envolvendo, desfilando até como porta-bandeira. Mas compor era realmente seu dom, então compunha. Seus sambas muitas vezes eram cantados no terreiro da Serrinha como se fossem de outros compositores – homens, amigos ou parentes.

    Quebrando essa hegemonia masculina na área da composição, em 1965, ganhou o consurso interno de samba-enredo da escola com o antológico Cinco Bailes da História do Rio, em parceria com Silas de Oliveira e Bacalhau. A partir daí, foi construindo uma carreira como compositora e cantora, dedicando-se exclusivamente a ela após aposentar-se na década de 70.

    E ela veio pisando no chão devagarinho, até hoje, nos presenteando com lindas melodias, letras delicadas e fortes, hinos que são cantados nas rodas de samba de todo país.

    Foi a vencedora do Prêmio Shell de MPB em 2002, tendo recebido o prêmio pelo conjunto de sua obra em grande festa do samba, no Canecão, no Rio de Janeiro. Já foi estudada em diversas pesquisas e homenageada em muitos shows.

    E segue firme como baluarte que é, fortaleza do samba. Grata, D. Ivone Lara.

    Fontes de pesquisa:
    http://dicionariompb.com.br/dona-ivone-lara/biografia
    http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pes…/dona-ivone-lara
    https://pt.wikipedia.org/wiki/Dona_Ivone_Lara
    http://www.donaivonelara.com.br/release_donaivonelara.pdf
    “Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba” (Rachel e Suetônio Valença- Livraria José Olympio Editora. Rio de Janeiro, 1981)

    * A Mana Dinga é um grupo de cinco mulheres compositoras de Campinas, que leva músicas próprias para prosear com importantes sambistas, compositoras, instrumentistas e interpretes que abriram caminhos para as mulheres na musica brasileira.
    Formado por Amanda Menconi (flauta e percussão), Anisha Vetter (surdo e voz), Carla Vizeu (voz e percussão), Ju Leite (pandeiro e voz) e Milena Machado (violão e voz). Para mais informações acesse facebook.com/manadinga

    Imagem: Dona Ivone Lara, atração do projeto “Flores em vida”, no CCBB de Brasília em 2015 (Foto: Silvana Marques/Divulgação)

  • Mulheres do samba: viva Chiquinha Gonzaga, “o abre alas” que as mulheres vão passar!

    Por Amanda Menconi, da Mana Dinga*

    O primeiro choro de Francisca Edwiges Neves Gonzaga ecoou como uma grande afronta aos padrões dominantes, trazendo em seu sangue a diversidade cultural brasileira. Sua mãe Rosa Maria de Lima, negra alforriada, pobre e filha de escravizados pode ouvir o primeiro som que Chiquinha trouxe ao mundo em 1847 no Rio de Janeiro, que ainda era capital do Império. Seu pai, José Basileu Neves Gonzaga, militar de família tradicional carioca, só assume a paternidade posteriormente e casa-se com Rosa contra a vontade de sua família. A partir de então, Francisca passa a ter uma criação familiar tradicional, tendo aulas de piano (símbolo de status social) durante toda a infância. Aos 11 anos, em 1858, compõe sua primeira música “A canção dos Pastores” e apresenta à família com o incentivo de seu padrinho que era flautista.

    Aos 16, Chiquinha foi obrigada a se casar com o empresário Jacinto Ribeiro do Amaral, escolhido por seu pai. O marido considerava a música como sua rival. Tentava tirar o piano de Chiquinha, mas ela pegava o violão, instrumento considerado masculino e relegado as classes baixas. Após 5 anos e 3 filhos Chiquinha afirma “Não consigo conceber a vida sem harmonia” e separa-se de seu marido, algo raro na época. A separação cai em sua vida como um estigma social e ela é declarada morta pela sua família. O preço que pagou pela separação foi passar a vida toda sem poder ver seus filhos, permanecendo apenas com João Gualberto, o mais velho, que a acompanhou por toda a vida.

    Chiquinha enfrentou a situação de vulnerabilidade e marginalidade a qual foi submetida fazendo o que sabia fazer: tocando piano. Sofreu enorme preconceito da sociedade por ousar viver do seu próprio trabalho e se destacar no mundo masculino. Não era incomum as mulheres compusessem músicas ao piano, o que era subversivo era expor estas composições no espaço público. Adotada pela boemia carioca, Chiquinha retira a mulher compositora do confinamento do lar, possibilitando a tantas de nós ocuparmos hoje o espaço público.
    Torna-se pianista do grupo “Chorões do Calado”, impulsionado por seu grande amigo, o flautista e compositor negro Joaquim Calado. Ambos possuíam uma preocupação em comum: a formação da música genuinamente brasileira. Callado hoje é considerado “o pai do Choro” e, como era grande admirador do trabalho de Chiquinha, dedicou a ela a música “Querida por todos”. Machado de Assis escreveu sobre este sucesso: “quatro compassos e muito saracoteio, cintura presas nos braços, gravata cheirando os seios”.

    Seu primeiro sucesso, Atraente, foi difundido pela grande quantidade de partituras vendidas e pelos assovios dos cariocas. A fama trazia também a difamação e Chiquinha respondia com mais e mais composições. Abolicionista fervorosa, utilizava o dinheiro de suas partituras não apenas para sobreviver, mas para angariar fundos para a Confederação Libertadora, comprando a alforria de muitos escravizados, dentre eles a do músico José Flauta. Com uma vida marcada pela luta pelas liberdades e contra a sociedade opressora, escravista e patriarcal, demonstrava na prática a importância dos artistas participarem das lutas políticas de seu tempo.

    Subversiva, esta grande compositora, instrumentista e pesquisadora da musicalidade existente no território brasileiro, incorporou ao piano toda a diversidade encontrada. Enfrentou preconceitos e criou sínteses entre a rica musicalidade negra africana, como o lundu tocado nas senzalas e terreiros e ritmos europeus como as polcas, valsas e tangos, uma evidente afronta à sociedade racista do período. Em suas mãos acontecia a mágica metamorfose de ritmos que tornou sua obra fundamental para a formação daquilo que hoje podemos chamar de música brasileira.

    Chiquinha recebeu o convide de Artur Azevedo para musicar a peça “Viagem ao Parnaso”, porém, após muito trabalho, suas partituras foram rejeitadas pelo empresário da companhia, que não admita a existência de mulheres compositoras. Quando ele exige que ela coloque um pseudônimo francês masculino, ela pega suas partituras e se retira. Dois anos depois, em janeiro de 1985, musicou a operada “A corte na roça” de Palhares Ribeiro, primeira peça no Brasil musicada por uma mulher. A imprensa não sabia como divulgar seu nome, pois não existia na língua portuguesa uma palavra feminina para maestro. Nem o dicionário ficou imune a Chiquinha, que foi obrigado a inserir a palavra Maestrina. A primeira Maestrina brasileira teve uma carreira de sucesso, musicando dezenas de peças de teatro de gêneros variados.

    Em 1914 a Primeira Dama Nair de Tefé, esposa do presidente Hermes da Fonseca, incomodada com o fato de só tocar música estrangeira nos salões, executa ao violão o Tango Brasileiro “Corta Jaca” de Chiquinha Gonzaga, em uma recepção no Palácio do Catete. Foi um escândalo. No dia seguinte, Rui Barbosa escreveu para o jornal: “o Corta Jaca é a mais baixa, mais chula mais grosseira de todas as danças selvagens, irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba”. A ofensa se concretizou em um estímulo à Maestrina que até o final de sua vida seguiu inserindo ritmos de origem africana em suas composições, possibilitando que hoje possamos conhecer e valorizar a importância da cultura africana na música brasileira. O Carnaval nunca foi o mesmo depois de Chiquinha Gonzaga. Em 1899, inspirada pelos negros do cordão Rosas de Ouro que desfilavam nas ruas ela compôs a primeira marchinha carnavalesca, “O abre alas”, hino da maior festa popular de nosso país, inaugurando um novo gênero musical.

    Sua vida foi uma vida de paixão pela liberdade. Aos 52 anos, já consagrada, Chiquinha se apaixonou por aquele que iria se tornar seu companheiro até o final da vida, um jovem de 16 anos chamado João Batista. Para abafar o comentário da sociedade carioca, Chiquinha apresentou Joãozinho como seu filho, a quem devemos enormes agradecimentos por ter conservado todo o acervo da compositora. Contra a exploração do trabalho artístico, toma a iniciativa de fundar, em 1917 a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (Sbat), primeira entidade a proteger os direitos autorais.

    Em 1933 aos 85 anos Chiquinha compõe sua última peça “Maria”. Em pleno carnaval, em 28 de fevereiro de 1935, Chiquinha suspira pela última vez, aos 87 anos, deixando mais de 2 mil composições musicais. Os suspiros de Chiquinha podem ser sentidos hoje todas as vezes que uma mulher sobe em um palco para se apresentar. Este suspiro diz “O abre alas” e assim hoje podemos passar e seguir lutando para que as mulheres das futuras gerações também possam!

    Fontes de Pesquisa:
    Chiquinha Gonzaga: uma historia de vida. Edinha Diniz, Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar, 2009.
    Chiquinha Gonzaga: grande compositora popular brasileira. Mariza Lira, Rio de Janeiro, RJ: FUNARTE, 1978.
    A Maestrina Chiquinha Gonzaga Série 500 anos de História do Brasil, 1999 – Documentário (https://www.youtube.com/watch?v=xovks5pFOvs)
    A vida e a obra de Chiquinha Gonzaga – Documentário https://www.youtube.com/watch?v=z8cC70sCoTk

     

    * A Mana Dinga é um grupo de cinco mulheres compositoras de Campinas, que leva músicas próprias para prosear com importantes sambistas, compositoras, instrumentistas e interpretes que abriram caminhos para as mulheres na musica brasileira. 
    Formado por Amanda Menconi (flauta e percussão), Anisha Vetter (surdo e voz), Carla Vizeu (voz e percussão), Ju Leite (pandeiro e voz) e Milena Machado (violão e voz). Para mais informações acesse facebook.com/manadinga

    Imagem: 1877 – Chiquuinha Gonzaga, 29 anos. Fonte: Chiquinha Gonzaga, uma história de vida, por Edinha Diniz, Editora Zahar, 2009

  • Mulheres do samba: viva Tia Ciata, rainha da pequena África

    Por Carla Vizeu, da Mana Dinga*

    Imagine o Rio de Janeiro no no final do século XIX. Uma grande comunidade de negros baianos habitava a região que Heitor dos Prazeres denominava “Pequena África”, localizada entre a zona do cais do porto até a Cidade Nova, em torno da Praça Onze. Ali eles se reuniam para receber aqueles que chegavam, festejar, realizar seus ritos religiosos.

    A força das mulheres aparece nas lideranças dessas comunidades, grandes aglutinadoras da cultura : as “rainhas negras” desta comunidade eram as tias baianas. Quituteiras, a maioria delas devotas do Candomblé (religião perseguida na época), era nas suas casas aconteciam os encontros.

    Tia Ciata foi a mais famosa delas. Chegando ao Rio com apenas 22 anos, trabalhava vendendo suas guloseimas pelas ruas, sempre trajando suas roupas de baiana, exaltando sua religião, na qual ocupava posto de destaque. Astuta, também tirava alguma renda alugando roupas para o carnaval e o teatro. Nas festas em sua casa, participava sempre dançando o miudinho e improvisando nas rodas de partido-alto.
    Sua casa, situada na rua Visconde de Itaúna, perto da praça Onze, era a capital da Pequena África; o grande ponto de encontro de muitos músicos, principalmente. Na sala de visitas acontecia o baile, no qual eram tocados os sambas de partido entre os mais velhos e música instrumental (quando compareciam músicos profissionais negros); no terreiro, o samba raiado e às vezes as rodas de batuque entre os mais novos.

    Foi lá o local de nascimento do samba. Pelo menos do carioca. O famoso “Pelo telefone” foi resultado de muitas rodas de partido, uma criação coletiva no improviso de várias vozes. A grande novidade foi Donga ter resolvido registrá-lo em 1917. Primeiro, o registro saiu só no nome de Donga. Mauro Almeida, jornalista da época e frequentador das reuniões, foi listado logo depois como parceiro na composição. Mas o que não ficou registrado formalmente foi a participação de tia Ciata na mesma – apesar de uma publicação no Jornal do Brasil do mesmo ano ter listado diversos nomes, incluindo o dela, como compositores do samba, destacando a questão da coletividade da mesma.

    Quantas compositorAs mais não ficaram escondidas dentro das composições coletivas dessa época e ao longo dos tempos?…
    Grata, tia Ciata, por abrir sua casa e o caminho de todas nós!!!!

    Fontes de pesquisa:
    http://dicionariompb.com.br/tia-ciata/biografia
    https://pt.wikipedia.org/wiki/Tia_Ciata
    http://antigo.acordacultura.org.br/herois/heroi/tiaciata
    http://www.huffpostbrasil.com/…/samba-e-coisa-de-preta-a-h…/
    http://www.radioarquibancada.com.br/…/casa-da-tia-ciata-es…/

    https://www.youtube.com/watch?v=SdBGczfMuFI (atenção aos 8’20”)

    * A Mana Dinga é um grupo de cinco mulheres compositoras de Campinas, que leva músicas próprias para prosear com importantes sambistas, compositoras, instrumentistas e interpretes que abriram caminhos para as mulheres na musica brasileira.
    Formado por Amanda Menconi (flauta e percussão), Anisha Vetter (surdo e voz), Carla Vizeu (voz e percussão), Ju Leite (pandeiro e voz) e Milena Machado (violão e voz). Para mais informações acesse facebook.com/manadinga

    Imagem: Divulgação do Acervo da Organização Cultural Remanescentes de Tia Ciata – ORCT

  • Clara Zetkin representa todas as mulheres trabalhadoras no 8 de Março e nos 100 anos da Revolução Russa

    Por Zuleide Queiroz, de Juazeiro do Norte, CE

    Em uma agenda do Março Lilás, e a relação da luta das mulheres com os 100 anos da Revolução Russa, não podemos deixar de revisitar o pensamento da camarada Clara Zetkin. Foi assim que realizamos a segunda edição do “Café com Elas”, atividade integrante da agenda da Frente de Mulheres do Cariri, no mês de março de 2017, promovida pelas mulheres do MAIS – Movimento por uma Alternativa Independente e Socialista.

    A convidada para falar sobre esta mulher, camarada, militante, “uma das fundadoras e dirigente do Socorro Vermelho Internacional, do Partido Comunista da Alemanha e da Internacional Socialista”, foi uma importante militante feminista da região Cariri cearense, a professora Claudia Rejane.

    Foi assim, no final da tarde do sábado, do dia 18, que mulheres e homens sentaram em uma pequena Praça na cidade de Juazeiro do Norte, interior do Ceará, embaixo de uma grande árvore e rodeadas por flores, que conhecemos e revisitamos, para quem já conhecia, a vida e o pensamento da camarada Clara Zetkin.

    Nascida em 1857 na Alemanha, podemos dizer que foi uma mulher situada em seu tempo e pensando no futuro das mulheres. Em 1878 integrando o círculo de estudantes revolucionários russos, se formou professora. Em 1889, militando no movimento socialista, criou o Jornal “A Igualdade” em seu retorno para a Alemanha, depois de anos de exílio.

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    Em 1910, juntamente com a camarada Alexandra Kollontai, durante a II Conferência Internacional das Socialistas, em Copenhage, propuseram a criação do Dia Internacional da Mulher “como uma jornada anual de manifestação pelo direito de voto das mulheres, pela igualdade dos sexos e pelo socialismo”.  Sendo o primeiro Dia Internacional da mulher comemorado em 19 de março de 1911, posteriormente transferido para o dia 8 de março.

    Em 1915, organizou a Conferência Internacional Socialista das Mulheres, em Berna, momento em que mulheres dos países envolvidos na primeira guerra mundial declararam “guerra a guerra”. Foi eleita deputada na Alemanha no período de 1919–33, sendo presa no mesmo período em que assistiu a morte de Rosa Luxemburgo, sua companheira de luta e de partido.

    Sua principal tese para compreensão da luta feminista da atualidade foi esclarecer que existia uma “imensa diferença entre os participantes do movimento feminino proletário e as feministas burguesas”. Anunciava que a luta pelo voto das mulheres nos unia, mas a situação de exploração vivida pela classe trabalhadora em uma sociedade capitalista diferenciava o lugar e a pauta de luta das mulheres trabalhadoras, que neste contexto eram exploradas pelas mulheres burguesas, como domésticas, como babás, como trabalharas das fábricas dos seus maridos.

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    Fundou, neste contexto, o que podemos chamar de “Feminismo Operário”, convocando as mulheres trabalhadoras a construirem o socialismo internacional e, principalmente a lutar, dentro do movimento dos trabalhadores para que a mulher tivesse seu espaço na política, na luta e na construção da sociedade livre para homens e mulheres. E anunciava que: “Apenas junto com as mulheres proletárias o socialismo será vitorioso”. Afirmou que só teremos igualdade quando um trabalhador disser: “Minha esposa!”, significando: “camarada de meus ideais, companheira em minhas batalhas e mãe dos meus filhos, para as futuras batalhas”.

    Esta mulher recebeu, em 1927, a honraria “Ordem do Estandarte Vermelho” e em 1932, a “Ordem de Lenin”, por seu destaque na educação das crianças e jovens. Sempre estudou a vida das mulheres na vida privada e pública. Discutia com as mulheres sobre sua situação de vida, de trabalho, sua sexualidade, sua relação com a família e seus companheiros. Muitas vezes debateu com Lenin e outros camaradas em defesa do direito da mulher e seu lugar no Partido. Esta mulher morreu aos 75 anos, sem nunca arredar o pé da luta em defesa das mulheres e sua inserção na construção de uma sociedade socialista.

    Sua fala, para nós, mulheres trabalhadoras, ainda é atual. Poderia sentar-se conosco hoje, falando para as mulheres do século XXI que lutam para ter o direito a vida, ao trabalho, a política e a ser livre!

    Se hoje conquistamos espaço na sociedade atual e podemos nos reunir em praças, nas escolas, em se reconhecer mulher, negra, indígena, lésbica e trabalhadora, reconhecemos que Clara Zetkin, Alexandra Kollontai, Rosa Luxemburgo e muitas, ao longo da história, ainda vivem no nosso pensamento, na nossa fala e na nossa luta!

    Fotos: Edson Xavier.

     

  • O efeito da Reforma da Previdência nas mulheres

    Por Karen Capelesso e Eric Gil, de Curitiba, PR

    Os efeitos negativos da Reforma da Previdência (PEC 287) atingirão a todos os trabalhadores. Piorarão as vidas de homens e mulheres, operários e agricultores, jovens e idosos. No entanto, as mulheres estarão entre os setores mais prejudicados com essa reforma. Não é a toa que os atos do 08 de março, dia internacional da mulher, teve com uma das pautas centrais nas manifestações de norte a sul do país a defesa do direito a aposentadoria.

    Primeiramente temos que, segundo o Anuário Estatístico da Previdência Social de 2015 (a edição mais recente, disponível no site da Previdência), os benefícios pagos para homens representaram 50,8% da quantidade e 57,7% do valor total, o que fez com que o valor médio masculinos fosse 32% maior do que o feminino, respectivamente R$ 1.260,41 e R$ 954,78.

    Além disto, segundo o IBGE, no 4º trimestre de 2016, a taxa de desemprego foi de 10,7% para os homens e 13,8% para as mulheres, sendo a taxa total para este período de 12%. Ou seja, as mulheres sofrem mais com o desemprego do que os homens e isso tem uma relação direta com a questão da previdência, pois quanto maior o tempo de desemprego, mais tempo elas ficam sem contribuir o que leva elas demorem mais para conseguir o tempo de serviço necessário para aposentadoria.

    Em terceiro lugar, temos que a mulher trabalha muito mais do que o homem. Pesquisa do Ipea – a partir de dados da Pnad, do IBGE – demonstrou que as mulheres, por conta da dupla jornada, trabalhavam 7,5h a mais do que os homens por semana. Bem, vamos fazer alguns cálculos simples. Considerando 7,5h a mais por semana, teríamos que em 11 meses (considerando um mês de férias, que nem sempre é verdade), então um ano de trabalho, as mulheres trabalhariam 359,5h a mais do que os homens. Considerando isto, em 49 anos de contribuição previdenciária (que será o mínimo para ganhar a integralidade), a mulher teria trabalhado 17,6 mil horas a mais do que os homens. Isto equivale a 2.202 dias a mais de jornada de trabalho (de 8h diárias e de 5 dias por semana), o que quer dizer que a mulher teve 3,06 anos a mais de trabalho do que o homem. Além disto, temos que considerar que o trabalho é mais intenso, pois é feito em um espaço de tempo menor, o que deteriora ainda mais o corpo e a mente de qualquer ser humano.

    A combinação da opressão machista e da exploração capitalista torna a vida da mulher trabalhadora ainda mais dura. Portanto, ataques como a reforma da previdência, que praticamente acaba com o direito da aposentadoria para todos trabalhadores, para as mulheres é muito mais grave. Se no 08 de março milhares de mulheres foram as ruas, no dia 15 retornarão com o recado em alto e bom som: Aposentadoria fica, Temer sai!

    Saiba mais sobre a Reforma da Previdência:

    O que é a Reforma da Previdência (PEC 287) ?

    5 Motivos para ser contra a Reforma da Previdência

    Como a Reforma da Previdência afeta as mulheres?

    É possível derrotar a Reforma da Previdência

    Reforma da Previdência tira dos mais pobres para dar aos mais ricos

    Uma nota sobre a Reforma da Previdência

    Preparar a Greve Geral pela base

    28 de Abril: Quatro propostas para construir a Greve Geral

    28 de Abril ” Vamos Parar o Brasil ” definem as Centrais Sindicais

     

  • Cinco anos sem Domitila Chungara: líder do movimento de mulheres que impulsionou queda da ditadura boliviana

    Por: Tais Zapalla, de São Paulo, SP

    Há cinco anos, morria Domitila Chungara, a líder de um dos movimentos de mulheres mais importantes e inspiradores do século XX. Domitila organizou centenas de donas de casa mineiras na Bolívia, durante a ditadura militar, após ser torturada grávida até perder seu filho pela mão dos militares.

    Em 1977, quatro donas de casas bolivianas começaram uma greve de fome para exigir eleições gerais e anistia política aos exilados. Milhares de bolivianos se somaram ao movimento liderado por Chungara, até derrubarem o governo ditatorial de Hugo Bánzer. Historiadores afirmam que este movimento foi o principal pressionador para que a ditadura fosse derrotada anos depois.

    A líder feminina de um dos principais movimentos contra ditadura da segunda metade do século XX tinha muita convicção do papel das mulheres dona-de-casa e esposas dos mineiros. Ela sabia que o trabalho doméstico que realizavam era uma extensão do trabalho que seus maridos faziam nas minas, e que igualmente estavam sendo exploradas ao, através daquele trabalho não pago, criar as condições para que seu companheiros e filhos voltassem às minas no dia seguinte. Também por isso, afirmava que os homens não eram seus inimigos, mas sim os governos e aqueles que exploram.

    Domitila foi mais uma mulher, ainda que não por sua vontade, mas porque a vida lhe obrigou, que precisou da força.
    A força que ela usou não foi a violência criminosa que muitas mulheres, nos governos ou a serviço dos grandes grupos financeiros, utilizam. A força de Domitila nasceu para que pudesse suportar as privações que uma Bolívia mineira lhe impôs.

    Sua força veio da crença que as mulheres, donas de casa bolivianas, tinham tanto ou mais a reivindicar que seus maridos, os mineiros. Que era preciso unir homens e mulheres trabalhadoras, camponeses, operários, que era preciso se organizar. A força de Domitila era sua marca. O movimento que organizou, a imensa luta contra a ditadura e a exploração não morreram consigo, permanecem acesos nos corações e mentes daqueles que acreditam que é possível ter um sonho e que, sobretudo, podemos realizá-lo.

    Domitila explica, no silêncio de sua morte, por que mulheres são fortes.
    Domitila, presente!

    Foto: Source: http://www.comibol.gob.bo/noticia/201-A_la_memoria_revolucionaria_de_Domitila_Chungara

  • Sobre o 8M em Natal, RN

    Por: Luana Soares e Rielda Alves, de Natal, RN

    As imagens dos atos do 8 de março do mundo inteiro estão colorindo as redes sociais e enchendo nossos olhos de esperança. Diante da crise econômica mundial, de grandes ataques aos trabalhadores e, em especial, aos setores oprimidos, as mulheres tomam em suas próprias mãos a tarefa da luta contra os planos econômicos de austeridade dos governos, acompanhados do aumento de posições e alternativas conservadoras e reacionárias. Milhares foram às ruas nos Estados Unidos, na Argentina, no Uruguai e na Europa, em uma histórica ação coordenada de mulheres.

    No Brasil, as imagens também nos enchem os olhos. Enquanto no Palácio do Planalto o presidente ilegítimo deixava escapar todo o seu machismo em frases que remetem ao papel da mulher no trabalho doméstico, as mulheres na rua mostraram que toparam a parada e nem uma está sozinha. Em São Paulo, em Brasília, no Rio de Janeiro, Salvador e Fortaleza foram alguns dos maiores atos, com lindas imagens. Provamos novamente que é possível resistir ao pacote de maldades do governo e dos deputados corruptos.

    Na maioria dos locais, só foi possível termos imagens assim porque os movimentos, coletivos de mulheres e partidos e organizações da nossa classe construíram atos unitários, tendo como pautas centrais o combate à violência e à Reforma da Previdência de Temer. 

    O 8M em Natal
    Em Natal a organização do 8 de março começou com antecedência, com diversas organizações e movimentos que, apesar das divergências, buscavam construir a luta nas ruas contra a Reforma da Previdência, em defesa dos direitos das mulheres. Apesar disso, infelizmente, não foi possível construir um único ato em Natal. Acabaram sendo convocados dois atos com o mesmo tema e com horários diferentes, contrariando a dinâmica de unidade que deu o tom em outros atos pelo país a fora.

    Consideramos um equívoco que o movimento de mulheres tenha se dividido, justamente num período duro de contrarreformas trabalhistas, previdenciária e políticas, que representa um retrocesso de muitos direitos conquistados pelas trabalhadoras e trabalhadores. O momento exigia a mais ampla unidade contra tudo isso. Essa é a maior tarefa para a esquerda. O ato convocado para a manhã foi plural, construído por diferentes entidades sindicais, movimentos sociais, coletivos autonomistas, movimento pela humanização do parto, partidos políticos e mandatos. O ato da tarde tinha o mesmo caráter e mesma pauta, mas, de forma precipitada e equivocada, foi marcado e anunciado como um evento apenas da Frente Brasil Popular.

    Diante do caminho da divisão, nós, mulheres do MAIS, juntamente com companheiras da LSR, tivemos a iniciativa de escrevermos uma carta para a Frente Brasil Popular, em nome destas organizações, propondo que o ato passasse a ter uma convocação mais ampla, para além das organizações que compõem a FBP, e que fossem incorporadas as organizações que se dispusessem a fazê-la, que fosse aberta para que qualquer organização pudesse intervir, fazerem falas, levarem seus materiais de agitação, mesmo que isso implicasse na exposição das divergências políticas.

    Foi um chamado sincero, de quem acreditava de que era possível ainda resgatar a unidade e, assim como dezenas de ativistas da cidade, se recusava a aceitar uma divisão em um momento como esse. A FBP respondeu positivamente a nossa proposta, chegando, inclusive, a modificar a convocação e organização do ato, que passaram a ser feitos pelos “Movimentos de mulheres do campo e da cidade”. Um passo importante das companheiras e que possibilitaria a participação e a convocação por parte de outros setores, inclusive do conjunto da CSP-Conlutas.

    Nós participamos e convocamos os dois atos, sendo consequentes na busca da unidade para lutar. Não encontramos motivos para não participarmos e estivemos presentes nas ruas de Natal o dia inteiro fortalecendo a luta contra a Reforma, Michel Temer e em defesa das mulheres, da mesma forma que muitas companheiras.

    O 8 de março em Natal deve servir como um exemplo a não se repetir no dia 15. Se depender do MAIS, organização da qual as duas autoras do texto fazem parte, estaremos todos juntos ocupando as ruas de Natal, num grande ato com os movimentos sociais, centrais sindicais, partidos de esquerda, construindo a paralisação nacional contra as reformas do governo.