Mulheres do samba: viva Chiquinha Gonzaga, “o abre alas” que as mulheres vão passar!



Por Amanda Menconi, da Mana Dinga*

O primeiro choro de Francisca Edwiges Neves Gonzaga ecoou como uma grande afronta aos padrões dominantes, trazendo em seu sangue a diversidade cultural brasileira. Sua mãe Rosa Maria de Lima, negra alforriada, pobre e filha de escravizados pode ouvir o primeiro som que Chiquinha trouxe ao mundo em 1847 no Rio de Janeiro, que ainda era capital do Império. Seu pai, José Basileu Neves Gonzaga, militar de família tradicional carioca, só assume a paternidade posteriormente e casa-se com Rosa contra a vontade de sua família. A partir de então, Francisca passa a ter uma criação familiar tradicional, tendo aulas de piano (símbolo de status social) durante toda a infância. Aos 11 anos, em 1858, compõe sua primeira música “A canção dos Pastores” e apresenta à família com o incentivo de seu padrinho que era flautista.

Aos 16, Chiquinha foi obrigada a se casar com o empresário Jacinto Ribeiro do Amaral, escolhido por seu pai. O marido considerava a música como sua rival. Tentava tirar o piano de Chiquinha, mas ela pegava o violão, instrumento considerado masculino e relegado as classes baixas. Após 5 anos e 3 filhos Chiquinha afirma “Não consigo conceber a vida sem harmonia” e separa-se de seu marido, algo raro na época. A separação cai em sua vida como um estigma social e ela é declarada morta pela sua família. O preço que pagou pela separação foi passar a vida toda sem poder ver seus filhos, permanecendo apenas com João Gualberto, o mais velho, que a acompanhou por toda a vida.

Chiquinha enfrentou a situação de vulnerabilidade e marginalidade a qual foi submetida fazendo o que sabia fazer: tocando piano. Sofreu enorme preconceito da sociedade por ousar viver do seu próprio trabalho e se destacar no mundo masculino. Não era incomum as mulheres compusessem músicas ao piano, o que era subversivo era expor estas composições no espaço público. Adotada pela boemia carioca, Chiquinha retira a mulher compositora do confinamento do lar, possibilitando a tantas de nós ocuparmos hoje o espaço público.
Torna-se pianista do grupo “Chorões do Calado”, impulsionado por seu grande amigo, o flautista e compositor negro Joaquim Calado. Ambos possuíam uma preocupação em comum: a formação da música genuinamente brasileira. Callado hoje é considerado “o pai do Choro” e, como era grande admirador do trabalho de Chiquinha, dedicou a ela a música “Querida por todos”. Machado de Assis escreveu sobre este sucesso: “quatro compassos e muito saracoteio, cintura presas nos braços, gravata cheirando os seios”.

Seu primeiro sucesso, Atraente, foi difundido pela grande quantidade de partituras vendidas e pelos assovios dos cariocas. A fama trazia também a difamação e Chiquinha respondia com mais e mais composições. Abolicionista fervorosa, utilizava o dinheiro de suas partituras não apenas para sobreviver, mas para angariar fundos para a Confederação Libertadora, comprando a alforria de muitos escravizados, dentre eles a do músico José Flauta. Com uma vida marcada pela luta pelas liberdades e contra a sociedade opressora, escravista e patriarcal, demonstrava na prática a importância dos artistas participarem das lutas políticas de seu tempo.

Subversiva, esta grande compositora, instrumentista e pesquisadora da musicalidade existente no território brasileiro, incorporou ao piano toda a diversidade encontrada. Enfrentou preconceitos e criou sínteses entre a rica musicalidade negra africana, como o lundu tocado nas senzalas e terreiros e ritmos europeus como as polcas, valsas e tangos, uma evidente afronta à sociedade racista do período. Em suas mãos acontecia a mágica metamorfose de ritmos que tornou sua obra fundamental para a formação daquilo que hoje podemos chamar de música brasileira.

Chiquinha recebeu o convide de Artur Azevedo para musicar a peça “Viagem ao Parnaso”, porém, após muito trabalho, suas partituras foram rejeitadas pelo empresário da companhia, que não admita a existência de mulheres compositoras. Quando ele exige que ela coloque um pseudônimo francês masculino, ela pega suas partituras e se retira. Dois anos depois, em janeiro de 1985, musicou a operada “A corte na roça” de Palhares Ribeiro, primeira peça no Brasil musicada por uma mulher. A imprensa não sabia como divulgar seu nome, pois não existia na língua portuguesa uma palavra feminina para maestro. Nem o dicionário ficou imune a Chiquinha, que foi obrigado a inserir a palavra Maestrina. A primeira Maestrina brasileira teve uma carreira de sucesso, musicando dezenas de peças de teatro de gêneros variados.

Em 1914 a Primeira Dama Nair de Tefé, esposa do presidente Hermes da Fonseca, incomodada com o fato de só tocar música estrangeira nos salões, executa ao violão o Tango Brasileiro “Corta Jaca” de Chiquinha Gonzaga, em uma recepção no Palácio do Catete. Foi um escândalo. No dia seguinte, Rui Barbosa escreveu para o jornal: “o Corta Jaca é a mais baixa, mais chula mais grosseira de todas as danças selvagens, irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba”. A ofensa se concretizou em um estímulo à Maestrina que até o final de sua vida seguiu inserindo ritmos de origem africana em suas composições, possibilitando que hoje possamos conhecer e valorizar a importância da cultura africana na música brasileira. O Carnaval nunca foi o mesmo depois de Chiquinha Gonzaga. Em 1899, inspirada pelos negros do cordão Rosas de Ouro que desfilavam nas ruas ela compôs a primeira marchinha carnavalesca, “O abre alas”, hino da maior festa popular de nosso país, inaugurando um novo gênero musical.

Sua vida foi uma vida de paixão pela liberdade. Aos 52 anos, já consagrada, Chiquinha se apaixonou por aquele que iria se tornar seu companheiro até o final da vida, um jovem de 16 anos chamado João Batista. Para abafar o comentário da sociedade carioca, Chiquinha apresentou Joãozinho como seu filho, a quem devemos enormes agradecimentos por ter conservado todo o acervo da compositora. Contra a exploração do trabalho artístico, toma a iniciativa de fundar, em 1917 a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (Sbat), primeira entidade a proteger os direitos autorais.

Em 1933 aos 85 anos Chiquinha compõe sua última peça “Maria”. Em pleno carnaval, em 28 de fevereiro de 1935, Chiquinha suspira pela última vez, aos 87 anos, deixando mais de 2 mil composições musicais. Os suspiros de Chiquinha podem ser sentidos hoje todas as vezes que uma mulher sobe em um palco para se apresentar. Este suspiro diz “O abre alas” e assim hoje podemos passar e seguir lutando para que as mulheres das futuras gerações também possam!

Fontes de Pesquisa:
Chiquinha Gonzaga: uma historia de vida. Edinha Diniz, Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar, 2009.
Chiquinha Gonzaga: grande compositora popular brasileira. Mariza Lira, Rio de Janeiro, RJ: FUNARTE, 1978.
A Maestrina Chiquinha Gonzaga Série 500 anos de História do Brasil, 1999 – Documentário (https://www.youtube.com/watch?v=xovks5pFOvs)
A vida e a obra de Chiquinha Gonzaga – Documentário https://www.youtube.com/watch?v=z8cC70sCoTk

 

* A Mana Dinga é um grupo de cinco mulheres compositoras de Campinas, que leva músicas próprias para prosear com importantes sambistas, compositoras, instrumentistas e interpretes que abriram caminhos para as mulheres na musica brasileira. 
Formado por Amanda Menconi (flauta e percussão), Anisha Vetter (surdo e voz), Carla Vizeu (voz e percussão), Ju Leite (pandeiro e voz) e Milena Machado (violão e voz). Para mais informações acesse facebook.com/manadinga

Imagem: 1877 – Chiquuinha Gonzaga, 29 anos. Fonte: Chiquinha Gonzaga, uma história de vida, por Edinha Diniz, Editora Zahar, 2009

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