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  • Feliz 2019, o ano da Resistência

    Nesta terça-feira, 01 de janeiro de 2019, toma posse o ex-capitão do Exército Brasileiro, Jair Messias Bolsonaro, feito presidente em um controverso processo eleitoral no qual seu principal adversário, o petista Lula da Silva, esteve e segue preso em um processo judicial sem provas, mas repleto de convicções.
     
    Bolsonaro foi eleito com uma espécie de anticampanha apoiada em uma rede de mentiras e histórias mal contadas num verdadeiro elogio a tudo o que não é democracia. Não foi aos debates mesmo quando os médicos o liberaram nem muito explicou devidamente seu plano de governo. Surfou o sentimento antipetista e o tsunami reacionário que tomou conta do país. E assim, democraticamente, elegeu-se um inimigo declarado da democracia, admirador dos regimes autoritários brasileiros e de seus torturadores e assassinos.
     
    Junto com o ex-capitão assume um verdadeiro antiministério para usar um termo que circulou recentemente nas redes sociais, que nem de longe é a cara do nosso Brasil, nem por sua composição, muito menos por seus valores. No país de maior população afrodescendente do mundo, nenhum negro assume papel no primeiro escalão. Com mais de um quarto da população brasileira e quase 20% do território nacional, a região Nordeste não terá um único nome chefiando ministérios.
     
    Já quanto às mulheres, em um país majoritariamente feminino, serão somente duas entre os vinte e dois nomes: Tereza Cristina do DEM, a “musa do Veneno” e parceira da corrupta JBS na pasta da Agricultura e a pastora antiaborto e antifeminismo Damares Alves no Ministério das Mulheres, Família e Direitos Humanos. É a lógica da “Raposa cuidando do galinheiro” que, aliás, se repete nas mais diversas pastas. Um militante anti-SUS na Saúde, um defensor do desmatamento no meio-ambiente, um inimigo dos professores na Educação, um adepto do estapafúrdio “antiglobalismo” nas Relações Exteriores, um homem do Santander no Banco Central, um corrupto declarado na Casa Civil, um privatista desenfreado na Economia, um justiceiro na Justiça e assim em diante.
     
    Chama atenção no antiministério bolsonarista a presença de militares compondo o governo via Gabinete de Segurança Institucional, Defesa, Secretaria de Governo, Ciência e Tecnologia, Infraestrutura e Minas e Energia, sem falar no próprio vice, Hamilton Mourão, demonstrando um nível de tutela militar de um governo nunca visto desde a redemocratização. Mourão, inclusive, a todo instante vem se mostrando preparado para assumir um papel menos “decorativo” para relembrar a expressão do agora ex-presidente e para sempre golpista Michel Temer. E nesse Brasil pós golpe não é de bom feitio ignorar os vices e muito menos suas sedes por poder.
     
    Não há como imaginar que dessa cumbuca saia algo de bom. Ainda assim, há quem de bom coração, ou não, acredite que é preciso dar tempo ao tempo e esperar pra ver como se sairá Bolsonaro e sua trupe à frente do governo. Nós, por outro lado, estamos entre aqueles que acreditamos que não há um único minuto a esperar na organização da resistência em todo o país.
     
    Não temos razões para menosprezar as ameaças do novo governo. Ainda nos últimos dias de 2018, o presidente eleito mandou pelo menos dois recados pelo twitter: o primeiro no dia 29 afirmando que garantirá por decreto a “posse” de arma de fogo com registro definitivo assinalando sua disposição de fazer um governo fortemente marcado pelo discurso da violência como forma de segurança.
     
    O segundo recado, no último dia do ano, foi direcionado a toda comunidade escolar e universitária do país ao colocar como umas das metas de seu governo “combater o lixo marxista que se instalou nas instituições de ensino” como forma de tirar o país das “piores posições do ranking de educação” em uma clara referência à perseguição ao livre pensar nas escolas e universidades públicas, e na nítida intenção de manter um nível de polarização que deixe seus seguidores em uma “guerra santa” permanente contra a “esquerdalha”.
     
    Não há porque baixar a guarda. Muito pelo contrário. Não temos porque duvidar da intenção deste governo de acabar com os direitos trabalhistas instaurando a carteira “verde amarela” ou fazendo com que o emprego “beire a informalidade”. É preciso construir unidade na luta para erguer as trincheiras e desde o primeiro momento. Dialogar com nosso povo em todos os lugares e preparar as imensas lutas que virão por aí. Desde o Carnaval com toda sua irreverência, até o 8 de março, dia de luta das mulheres trabalhadoras que há de ser o maior de toda nossa história.
     
    Um vigoroso e vibrante abril vermelho em memória de todos os que tombaram na luta pela terra em nosso país. Um primeiro de maio combativo e de imensa unidade em defesa dos direitos dos que vivem do trabalho e do direito à aposentadoria e aos benefícios previdenciários conquistados a duras penas. E em todos os atos, todas as lutas e em todos os cantos que brote povo consciente e organizado. Serão dias intensos os que teremos em 2019. Pois que assim o sejam. Estaremos juntos e seremos Resistência.
     
    Foto: São Paulo SP 29 09 2018 – Manifestação Mulheres contra Bolsonaro no Largo da Batata, região oeste | Rovena Rosa

     

  • Retrospectiva 2018: as maiores fake news do ano

    “Minta, minta que da mentira alguma coisa fica.”
    – Frase atribuída a J. Goebbels (Ministro de Propaganda do governo de Hitler)

    As famosas fake news invadiram com força a vida política do país em 2018. Não que a utilização delas seja alguma novidade como arma de disputa e dominação política. Longe disso. Ao longo da história, a direita e a burguesia muitas vezes se valeram desse artifício para desmoralizar, deslegitimar e destruir organizações e lideranças da classe trabalhadora. Mas é que em especial nesse ano elas pautaram a vida política brasileira como poucas vezes em nossa história.

    As redes sociais como o Facebook, Twitter e Youtube, mas principalmente os grupos de aplicativos de mensagens via celular, como o whatsapp, foram inundados pelas famigeradas fake news. Os bandos organizados da direita brasileira (MBL, Família Bolsonaro, etc), foram, ao fim e ao cabo, os grandes fomentadores e beneficiários dos efeitos da circulação das tais fake news. A tal ponto que no dia 18 de outubro uma reportagem da Folha de São Paulo(1) denunciou que empresas apoiadoras da campanha presidencial de Bolsonaro, dentre elas a Havan de Luciano Hang(2), teriam investido algo em torno de R$ 12 milhões em uma espécie de “indústria da mentira”, de modo que as agências contratadas para esse serviço ficariam responsáveis por realizar disparos em massa dessas notícias falaciosas via whatsapp a fim de atacar a esquerda e fomentar confusão. O #Caixa2DoBolsonaro, como ficou conhecido o episódio em questão, foi o maior escândalo desta campanha eleitoral. Vamos aqui a algumas delas:

    1. Marielle Franco seria ligada à facção criminosa e casada com narcotraficante líder dessa facção;

    Uma das mais sinistras fake news foi lançada contra a memória da ex-vereadora carioca Marielle Franco. A fim de minimizar a gravidade de sua execução e com isso esvaziar qualquer exigência de apuração imediata do crime que a vitimou, a indústria da fake news produziu notícias absurdas como as de que Marielle teria vínculos com uma facção criminosa carioca e, inclusive, teria sido casada com um dos líderes dessa facção. Sem muitos escrúpulos, disseminaram o boato de que sua eleição havia sido bancada por essa facção. Na época, essa mentira chegou a ser endossada inclusive por autoridades do judiciário, como a desembargadora do Rio, Marília Castro Neves que, dias depois, acabou tendo que se retratar em sua conta no facebook(3).

    Para defender a memória de sua militante e parlamentar, o PSOL teve que montar um operativo jurídico para apurar e tirar do ar tais notícias, chegando a disponibilizar um e-mail para receber denúncias de fake news contra Marielle. Em uma semana o PSOL recebeu mais de 15.000 e-mails.

    2. Boulos e o MTST invadem residências particulares e cobram aluguel dos moradores;

    Essa fake news, mesmo tendo sido desmentida por Guilherme Boulos em muitas oportunidades(4), até hoje vem sendo difundida.

    O que houve foi que a indústria da fake news, se valendo das notícias em torno do desabamento ocorrido em maio deste ano de um prédio ocupado em SP, aproveitou o ensejo para atacar Boulos e o MTST. A imprensa divulgou que os ocupantes daquele prédio pagariam aluguel a um determinado movimento. Com isso, a indústria da boataria logo tratou de relacionar aquela ocupação ao MTST, sendo que aquela ocupação não era liderada pelo MTST, como muitas vezes Boulos e a militância do movimento afirmou. A verdade é que nas ocupações lideradas pelo MTST, não é cobrado nenhum real de quem participa. Em duas décadas de atuação, o MTST nunca se valeu de tal expediente. Para todos os efeitos a mentira já estava lançada e o estrago feito. Assim, a indústria da fake news conseguiu emplacar que o modus operandi do MTST consiste em invadir residências particulares, expulsar seus proprietários, se apossar do imóvel e alugá-lo para trabalhadores sem teto ligados ao movimento. Uma mentira sem tamanho já que, na verdade, o MTST atua ocupando terrenos abandonados e sem função social (e não casas particulares) para exercer pressão sobre o poder público e, assim, conseguir celeridade na execução de programas de habitação popular. Nada mais justo em um país com 6 milhões de pessoas sem casa e onde reina solta a especulação imobiliária(5).

    3. Kit gay e mamadeira erótica;

    Tendo ganhado circulação com notável intensidade no período eleitoral para atacar a candidatura do ex-ministro Fernando Haddad, essa fake news já circula a um bom tempo. Segundo a indústria de boatos responsável por mais essa mentira, a mamadeira com bico de pênis seria parte de um projeto maior de “homossexualização” de crianças e incentivo a sexualização precoce, talvez uma das mais bizarras das fake news. O próprio ‘kit gay’, como foi maldosamente batizado pela extrema direita um projeto de combate à homofobia nas escolas, no fim das contas acabou sendo revogado pela então presidenta Dilma, logo nunca chegou a ser executado. Há que se frisar que nem de longe passa pela cabeça dos setores progressistas e interessados na promoção da diversidade sexual, algo como a distribuição de “mamadeiras de piroca” em escolas infantis como medida de combate a homofobia. Aliás, cabe questionar que se tal kit estaria sendo distribuído em escolas, por que Bolsonaro e seus comparsas das bancadas conservadoras não usaram a condição de parlamentares e não entraram formalmente com um pedido de revogação desse projeto junto à câmara? Oras, porque se não revoga aquilo que não existe. Mesmo assim, a campanha de Bolsonaro, como bom politiqueiro que é, preferiu não economizar na utilização dessa farsa para atacar a candidatura de Fernando Haddad e favorecer a si próprio

    4. Fabrício Queiroz, assessor de Flávio Bolsonaro, na verdade seria filiado ao PT;

    Engana-se quem acha que as tais fake news acabaram-se ao fim das eleições. Os setores políticos em torno de Bolsonaro dão evidentes indícios de que seguirão utilizando esse sórdido artifício, ao longo de todo o seu governo sem o menor pudor. A mais recente fake news, utilizada como manobra distrativa, conta que Fabrício Queiroz, amigo íntimo da família Bolsonaro e assessor parlamentar no gabinete do deputado estadual Flávio Bolsonaro, seria filiado ao PT. Isso porque o nome de Fabrício Queiroz consta em um relatório da COAF(5) como sendo parte de um esquemão organizado pela família para embolsar fatias dos salários dos assessores do deputado. Tudo para escamotear o escândalo aos olhos dos desavisados. Acontece, que simplesmente não há registros da filiação de Fabrício Queiroz ao PT, junto ao TSE.

    Como na frase atribuída ao ministro da propaganda no governo nazista, Joseph Goebbels, a circulação de notícias falsas, por mais que sejam desmentidas, sempre acabam deixando resquícios. Será uma tarefa suplementar para a esquerda e para as forças democráticas, no calor da luta contra o fascismo personificado no governo Bolsonaro, desmentir todas elas, mas não só. Por trás de cada fake news há reuniões obscuras acontecendo e dinheiro sujo correndo. Assim, a luta por apurar e denunciar os setores por trás da indústria da boataria se faz urgente. As notícias falsas servem à direita e à elite brasileira para difundir ódio, sobretudo ódio de classe. O que talvez eles não saibam é que a esquerda luta com verdade, por verdade e por justiça social.

    NOTAS:

    1. Empresários bancam campanha contra o PT pelo WhatsApp

    2. Luciano Hang ganhou as redes sociais em vários episódios em que coagiu seus funcionários a votar em Bolsonaro:

    3. Desembargadora que acusou Marielle Franco diz ter se precipitado

    4. “MTST nunca cobrou aluguel, isso é fake news”:

    5. Por que ocupamos:

    6. MPF envia para MP do Rio relatório do Coaf que cita ex-assessor de Flávio Bolsonaro

    *Bruno Rodrigues é graduando em Letras pela UFC e Jéssica Guedes mestranda em História pela UFRN

     

  • Ministro Marco Aurélio, do STF, manda libertar presos condenados em segunda instância

    Decisão pode beneficiar o ex-Presidente Lula

    Na tarde desta quarta, 19 de dezembro, o Ministro Marco Aurélio, do Supremo Tribunal Federal (STF), concedeu uma Liminar favorável a um processo movido pelo PCdoB, que pede a libertação de presos condenados apenas em segunda instância. Ou seja, que ainda têm direito a recursos.

    A decisão do Ministro Marco Aurélio foi tomada no último dia de funcionamento regular do STF. E ela fala nitidamente em cumprimento imediato.

    A decisão é mais ampla, mas acaba por favorecer a possibilidade de libertação do ex-presidente Lula, preso em Curitiba, desde abril deste ano, por uma condenação relativa ao chamado Triplex do Guarujá, no âmbito da Operação Lava Jato.

    Não apoiamos politicamente o projeto de conciliação de classes de Lula e da direção do PT. Entretanto, nossa oposição ao projeto petista, não nos faz deixar de reconhecer que a condenação de Lula foi sem provas, sua prisão é política e o impedimento da sua candidatura presidencial foi parte do golpe parlamentar do impeachment de 2016.

    Os golpistas, especialmente dos partidos que apoiaram o impeachment, do judiciário e da imprensa já estão em campanha contra a decisão do ministro do STF, dize do que ela não é auto-aplicável. Um absurdo.

    Portanto, diante da decisão do Ministro Marco Aurélio exigimos, mais uma vez, a imediata libertação do ex-presidente Lula.

    Lula Livre Já!
    Por uma frente única em defesa dos direitos e das liberdades democráticas.

    FOTO Divulgação / Ricardo Stuckert

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    Ato Internacional Lula Livre marca os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos

    Lula é um preso político. Lula Livre!

     

  • Uma primeira vitória sobre o Escola Sem Partido

    O arquivamento do Projeto de Lei nº 7.180/2014, batizado de Escola Sem Partido por seus criadores, foi uma ótima notícia, em meio a série de retrocessos anunciados diariamente pelo futuro governo. A Comissão Especial encerrou o ano sem conseguir aprovar o relatório favorável ao projeto, após 13 sessões marcadas por debates acalorados, gritos e xingamentos. Foi uma grande vitória de educadores e estudantes que lotaram as sessões da Comissão e de parlamentares do PSOL, PT e PCdoB, que atuaram de forma incansável obstruindo a votação, em combate com pastores, delegados e figuras como Eduardo Bolsonaro, Rogério Marinho e Marco Feliciano.

    Os defensores do projeto tinham a maioria dos votos da Comissão, com folga. Mas não fizeram uso desta vantagem. Além da ausência nas reuniões, lideranças do movimento Escola Sem Partido chegaram a cogitar a retirada de parte do conteúdo e Olavo de Carvalho, guru do novo governo, gravou um vídeo contra o projeto.

    A vitória na Comissão deve ser comemorada por todos os educadores do País, em especial os que já vêm sendo perseguidos, em sua liberdade de cátedra. O projeto é arquivado e volta a fase inicial.

    Mas isso não significa que a luta acabou. Ao contrário. O Congresso eleito terá maioria de deputados ligados a posições conservadores. Além dos 52 deputados do PSL de Bolsonaro e outros partidos, a Câmara contará com o aumento das bancadas “do Boi, da Bala e da Bíblia”, que vão retomar este projeto e os outros cinco textos que tratam do mesmo tema. Certamente esse tema será uma prioridade destes parlamentares no primeiro semestre de 2019. A guerra está apenas começando.

    Uma pauta que alimenta o ódio

    O arquivamento, por outro lado, permite que este tema permaneça por mais tempo em debate sob o novo governo, como parte da “pauta ideológica” que garantiu sua votação. Esse pacote “ideológico” é a forma que o futuro governo encontrou para alimentar uma parte de sua base de apoio que se move pelo discurso de ódio. Esse eleitorado necessita de “inimigos internos”, papel que já é atribuído não só aos professores “doutrinadores”, mas a toda a esquerda, a sem-tetos, indígenas, mulheres, LGBTs, sindicalistas, ativistas de direitos humanos, mídia, etc.

    Manter uma grande visibilidade nesta guerra ideológica e moral será útil para desviar a atenção sobre as denúncias de corrupção, como as que começam a surgir contra a campanha do PSL. A ponto de Bolsonaro, no dia 21 de novembro, afirmar: “muito mais grave que a corrupção é a questão ideológica. Vocês sabem muito bem disso”. E servirá ainda para reduzir o desgaste com em torno de pautas impopulares, como a reforma da Previdência, redução do salário mínimo e ataques aos direitos.

    Lei da mordaça pretende acabar com a resistência

    O PL 7.180 não é uma cortina de fumaça. A campanha pretende instaurar um regime de medo e coerção contra milhões de professores em todo o país, substituindo o livre debate de ideias e o pensamento crítico pelo pensamento único. É uma tentativa de calar universidades e escolas, que são, historicamente, espaços de resistência, como recentemente, nas manifestações antifascistas. Em resumo, pretende enfraquecer a resistência imediata.

    Mas há também objetivos estratégicos, de longo prazo. A extrema direita sabe que impedir o livre pensamento é impossível, ainda mais através de uma lei. Sabe que só terá sucesso se travar e vencer uma luta ideológica para conseguir apoio a suas ideias em todos os espaços. Por isso as críticas de figuras como Olavo de Carvalho e iniciativas como do MBL, que busca formar “uma geração” de jovens de direita, perseguindo os professores em sala de aula.

    Há ainda mudanças mais profundas, como a mudança na base curricular do ensino médio, anunciada na semana passada. O novo formato prevê que apenas Português e Matemática sejam obrigatórias, com 60% das aulas. Os governos escolheriam o conteúdo que preencheria o tempo restante, de acordo com a oferta de professores. Desta forma, um aluno poderia passar os anos do ensino médio sem ter acesso a história, geografia e filosofia, ou de artes e biologia, por exemplo.

    A mudança irá formar gerações de jovens acríticos, sem conhecimento mínimo sobre a história do país, como o período da ditadura ou a escravidão, e sem capacidade de estabelecer um pensamento crítico. Combinada com um silenciamento dos professores, o resultado será uma massa de futuros trabalhadores ainda mais facilmente manipulável, tanto para absorver ideias como a do Criacionismo ou para apoiar propostas absurdas, como a de que as mulheres vítimas de estupro devem ser obrigadas a ter o filho e ainda conviver com o estuprador.

    Fortalecer as frentes contra a mordaça e a Frente Única pelas liberdades e  direitos

    A vitória do arquivamento do processo é um exemplo para todos os que estão temerosos com o que vem pela frente. Mostra que, apesar da grande derrota com a eleição de Bolsonaro, é possível resistir e, mais ainda, é possível vencer. E ainda que, para isso, é necessário atuar em unidade, como fizeram os educadores, construindo frentes de luta contra o projeto, e os parlamentares da oposição.

    O arquivamento foi resultado de uma ampla unidade, formada em uma verdadeira frente única contra o projeto, construída pelos educadores e suas entidades. A presença constante nas sessões da Comissão, definindo as estratégias com os parlamentares, e a campanha contra o projeto. Esse movimento se refletiu ainda em frentes nas universidades, nas escolas, em centenas de atividades e debates e conversas com pais e alunos. E dezenas de cartilhas e iniciativas de acolhimento, orientando como agir em caso de perseguição.

    Ninguém consegue ensinar com medo. A unidade dos educadores mostrou o caminho para afastar o medo. É preciso fortalecer as frentes contra a Lei da Mordaça, em uma frente única dos educadores e estudantes e dos setores oprimidos, como mulheres, LGBTs e negros e negras, alvos do projeto.

    Junto a isso, devemos lutar para que esta unidade sirva de exemplo e seja parte de uma frente única nacional contra o novo governo e seus retrocessos. Uma frente que lute contra os graves ataques e perseguições da “pauta ideológica” e que as combine com a luta econômica contra a reforma da Previdência, liberdades e direitos. Esse é o caminho para que esta vitória seja a primeira de muitas.

    Foto Lula Marques/Fotos Públicas

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  • Governo Bolsonaro: cúpula militar no centro do poder novamente

    Amplia-se os riscos às liberdades democráticas conquistadas a duras penas

    Bolsonaro anunciou sete ministros que são diretamente militares, a saber: O general da reserva Augusto Heleno, indicado para o Gabinete de Segurança Institucional (GSI); outro general da reserva, Fernando de Azevedo e Silva, indicado para o Ministério da Defesa; o general Carlos Alberto Cruz, indicado para a Secretaria de Governo, que pode ser mantida com status de Ministério; o tenente-coronel da reserva da Força Aérea Brasileira (FAB), Marcos Pontes, indicado para ministro de Ciência e Tecnologia; Bento Costa Lima, ministro das Minas e Energia, Almirante de esquadra; Floriano Peixoto Vieira Neto, secretário de Comunicação (Secom), general da reserva; Maynard Marques de Santa Rosa, (SAE), general da reserva.

    Existem também outros que possuem origem nas Forças Armadas. Soma-se ainda o fato de o próprio Bolsonaro, presidente eleito, ter origem no Exército – ele é um capitão reformado – e seu vice-presidente, Hamilton Mourão, ser também um general da reserva e ex-presidente do Clube Militar. Com certeza, muitos outros militares ocuparão cargos importantes, não só no primeiro escalão como também no segundo e terceiro escalões do novo governo.

    A indicação de militares para postos chaves do governo federal, depois do fim da ditadura militar, já tinha se iniciado com o governo ilegítimo de Temer. Por exemplo, com um general da reserva – Joaquim Silva e Luna – ocupando pela primeira vez o Ministério da Defesa. Não foi a toa que justamente no governo Temer se decretou a intervenção militar na segurança pública do Estado do Rio de Janeiro.

    Representantes do governo de transição, da grande imprensa e da própria cúpula militar tentam relativizar esta situação, afirmando que a presença de generais e outros militares assumindo cargos no governo não significa um envolvimento direto das Forças Armadas na administração Bolsonaro. Entretanto, mais de um século de história demonstra de forma inequívoca a vocação golpista da cúpula das Forças Armadas, quando ela se encontra envolvida diretamente no poder.

    Ditadura nunca mais

    Em 1964, finalmente, depois de várias investidas derrotadas, a elite das Forças Armadas consegue êxito na sua sanha golpista, destituindo o presidente João Goulart (PTB), com franco apoio do governo dos EUA.

    Num primeiro momento o golpe militar de 1964 foi executado com a promessa de garantia de novas eleições diretas, em breve período, já no ano de 1965 (calendário eleitoral normal). Uma mentira muito útil aos militares, pois ajudou a angariar apoio popular ao seu projeto autoritário e atrair para o lado do golpe lideranças políticas civis.

    O caráter autoritário e ditatorial do regime militar vai se intensificar quatros anos mais tarde, quando diante de um amplo movimento democrático de questionamento aos governos militares, cujo ponto culminante foi a “passeata dos cem mil”, em 1968, o regime é totalmente fechado com a publicação do Ato Institucional número 5 (AI-5). Medida que fechou o Congresso Nacional, cassou mandatos parlamentares, aprofundou a política de perseguições, torturas e assassinatos, entre outros absurdos. Um momento de triste memória para nosso país, que no próximo mês de dezembro vai completar 50 anos de acontecido.

    Os militares ficaram no poder formalmente até o ano de 1985, mais de duas décadas de uma ditadura entreguista, corrupta, criminosa e assassina.

    O golpe militar de 1964 marca a consolidação definitiva, no interior das Forças Armadas, da chamada ideologia da “segurança nacional”. Trata-se da doutrina utilizada, até nos tempos atuais, para explicar toda a política golpista que a cúpula das Forças Armadas exerceu em nosso país, em períodos distintos da nossa História.

    A importância da unidade de ação democrática

    O fim da ditadura militar, formalmente em 1985, a nova Constituição de 1988 e a primeira eleição presidencial de 1989 acabaram por afastar a cúpula das Forças Armadas de postos chaves de governo.

    Mas, sua influência política nunca deixou de ser presente e sentida, seja para a defesa corporativa de seus interesses seja, principalmente, na sua luta por impedir quaisquer ações que buscassem rever a Lei da Anistia, que isenta de punições todos os criminosos que praticaram terrorismo de Estado, prisões ilegais, torturas e assassinatos durante a ditadura militar.

    Infelizmente, mais de três décadas depois do fim da ditadura militar, novamente, primeiro com Temer e agora mais ainda com Bolsonaro, assistimos a volta de parte da cúpula das Forças Armadas ao poder. Especialmente do Exército, a maior e principal instituição militar do país.

    Portanto, entra em grave risco as liberdades democráticas e o próprio regime democrático, que apesar de seus limites evidentes, foi resultado das lutas pelo fim da ditadura militar, no final dos anos 1970 e no início dos 1980.

    O grande teste será quando um amplo movimento de resistência popular questionar as medidas reacionárias que o governo Bolsonaro quer aplicar – seja os brutais ataques aos direitos seja as investidas contra as liberdades democráticas.

    Mais uma vez, como em outros momentos de nossa história, a tarefa do povo trabalhador, da juventude, do conjunto dos explorados e oprimidos e dos partidos de esquerda é enfrentar com sua organização e mobilizações os ataques deste governo de extrema-direita, com fortes traços neofascistas.

    Só uma frente única dos trabalhadores, movimentos sociais e da esquerda poderá enfrentar de forma contundente os ataques que virão. Este movimento deve, inclusive, propor uma grande unidade de ação democrática, formada por todos os setores que queiram lutar contra os ataques de Bolsonaro e seu governo de extrema-direita a democracia. De fato, vivemos tempos de resistência.

    Foto Marcelo Camargo / Agência Brasil

  • Cúpula dos Povos na Argentina: oportunidade para construção de uma frente contra a extrema direita

    Paralelamente à Cúpula do G-20 que está sendo realizada em Buenos Aires, estão ocorrendo as atividades da “Cúpula dos Povos”, organizada pela “Confluencia No al G20-Fuera el FMI”.

    Nestes dias 28 e 29 de novembro ocorreram mesas de debates. Na quinta (29), as atividades transcorreram em tendas armadas na praça em frente ao Congresso Nacional. Dentre as mesas, uma delas tratou do tema “Como paramos o avanço da direita na região?”

    Nesta sexta (30), ocorre a marcha contra o G-20. Entre as palavras de ordem da marcha, além de“Fora Trump … ”, foi incluída também o “Fora Bolsonaro”. A Cúpula, portanto, incorporou a preocupação com o avanço da extrema direita em nosso continente. Nada mais justo. Essa é uma das grandes tarefas a serem levadas a cabo pela esquerda e forças democráticas, não só a nível internacional, mas também na América Latina.

    O encontro entre Bolsonaro e John Bolton, Conselheiro de Segurança Nacional de Trump, no Brasil, é mais um sinal dos novos tempos.

    Para responder a essa nova realidade, a delegação do PSOL presente na Cúpula está trabalhando para a construir uma frente ou pelo menos uma rede de solidariedade contra o avanço da extrema direita na América Latina. Um manifesto visando sua construção está sendo elaborado.

    Na semana anterior, foi realizado o Foro Mundial do Pensamento Crítico, organizado pela CLACSO, apresentado como a “Contra Cúpula” ao G20. Nele estiveram presentes personalidades como Cristina Kirchner e Dilma Rousseff. Cristina se encarregou pessoalmente de tirar o título “contra” do evento. E também exaltou publicamente a militância a não participar das mobilizações contra o G20. Possivelmente isso se deve ao fato de que o kirchnerismo considere o G20, em particular China e Rússia, como um aliado contra a extrema-direita anti-globalização.

    Ainda que se possa fazer unidade ação com esses setores, está claro que caberá à esquerda, aos movimentos sociais e aos setores democráticos aproveitar a Cúpula dos Povos para dar um passo efetivo na construção de uma iniciativa consequente contra a extrema direita, em defesa dos direitos sociais, políticos e democráticos dos trabalhadores e dos setores e povos oprimidos.

    É hora de passar das palavras à ação. É urgente barrar o avanço da extrema direita, que não está para brincadeira. Também não devemos estar.

    Foto: Marcha unificada em Buenos Aires. Conclusion.com.ar

    Trehco da fala de CAROL COLTRO, do PSOL e da Resistência, na Contra Cúpula

  • Buenos Aires terá marcha hoje contra o G20

    Uma marcha de protesto será realizada na tarde desta sexta-feira, 30, no primeiro dia da Cúpula do G20 em Buenos Aires. O ato está marcado para 15h (16h no Brasil), na esquina da Av. Nove de Julio com Av. San Juan, de onde os manifestantes sairão em direção ao Congresso da Nação.

    A manifestação unitária é convocada pela Confluência Fora G20/FMI, frente que reúne mais de 70 organizações políticas e populares da Argentina e também da América Latina, como o Jubileu Sul, Central dos Trabalhadores Argentinos (CTA) autônoma, a Associação dos Trabalhadores do Estado, a Associação Mães da Praça de Maio – Linha Fundadora, entre outras. A manifestação está sendo convocada por grande parte da esquerda argentina, como PTS, MST, Nuevo MAS, PO, etc. Correntes ligadas a Cristina Kirchner devem deixar de participar ou ter uma participação tímida, depois que a ex-presidente e outros líderes próximos deram declarações moderadas e evitaram críticas diretas ao encontro.

    O protesto contará também com representações de países latino-americanos, inclusive do Brasil, que enviou delegações do PSOL, PSTU, sindicatos e a central sindical CSP-Conlutas. A corrente Resistência, do PSOL, participará também de um evento na concentração do ato, as 14h (15h no Brasil), na arrancada da coluna do Nuevo MAS.

    Além do combate ao G20, o protesto de hoje terá como eixos a denúncia do acordo do presidente Macri com o Fundo Monetário Internacional, “Fora Trump e demais líderes imperialistas”, “Não pagamento da dívida externa” e “Não ao ajuste, a entrega e a repressão”. O cartaz de convocação traz ainda a consigna “Fora Bolsonaro”, contra o crescimento da extrema direita na região.

    A reunião dos líderes ocorre em meio a uma crise recessiva na Argentina e a mais alta inflação nos últimos 27 anos. O próprio jornal El Clarin reconhece que a expectativa para o próximo ano é de mais uma queda na economia. O caminho adotado por Macri tem sido o do acordo com o FMI, que, em contrapartida pelo aporte financeiro, exige um duro ajuste nos gastos públicos e nos direitos dos trabalhadores. “Maior empobrecimento, mais fome, mais desemprego, menos perspectivas de vida para toda a população… Estas são as políticas que o G20 vem a Argentina reforçar”, afirmou Beverly Keene, da rede Diálogo 2000 Argentina e Jubileu Sur, e um dos organizadores do protesto.

    Outros temas também podem contribuir para o ato de hoje. Um deles é a decisão anunciada nesta quinta-feira, 29, da Justiça argentina, sobre o caso de Santiago Maldonado. Depois de mais de 480 dias, a decisão comunicada a família foi de as forças de segurança não têm responsabilidade no desaparecimento e morte do ativista. O caso gerou grande comoção no país.

    Outro tema marcante nos últimos dias no país foi a forma como as autoridades lidaram com a final entre o Boca Juniors e o River Plate, que, após grande repressão, acabou sendo adiada e transferida para a Espanha.

    UMA CIDADE SITIADA

    Policiais já ocupam as principais esquinas de Buenos Aires

    A capital argentina está cercada, por conta do G20. O governo decretou feriado, fechou um aeroporto, interrompeu o transporte de metrô e esvaziou a cidade. Criou ainda duas zonas de exclusão, a primeira em torno a Via Costanera, próximo da Cúpula, e a segunda ao redor do Teatro Colón, a algumas quadras de onde a manifestação irá passar.

    A ministra da Segurança, Patricia Bullrich, chegou a dizer publicamente que a população deveria deixar a cidade e autorizou que a Polícia Federal, a Gendarmeria e outros órgãos de segurança disparem armas de fogo em caso de “perigo iminente de morte ou de lesão grave”. O forte aparato de segurança foi reforçado com doações de equipamentos e blindados de outros países.

    Entidades que organizam a marcha denunciam que, durante a semana, ocorreram intimidações, detenções arbitrárias e até mesmo mortes. Elas mantiveram o protesto e exigem do governo que seja garantido o direito de se mobilizarem.

     

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  • Cúpula do G20 acontece sob forte tensão geopolítica e social

    Nesta sexta-feira, 30 de novembro, os chefes de Estado das economias mais desenvolvidas do mundo se encontrarão em Buenos Aires. Os membros ativos do G20 somam 85% do PIB mundial, 80% dos investimentos globais, 75% do comércio e 66% da população.

    Os países que integram o G20 são: Alemanha, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, China, Coreia dos Sul, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Índia, Indonésia, Itália, Japão, México, Rússia, África do Sul e Turquia, além da União Europeia, como bloco. Espanha é sempre convidada. Além disso, o país anfitrião tem o direito de eleger convidados. Com isso, a Argentina convidou o Chile e a Holanda. Também podem participar entidades regionais como a União Africana, as nações do Sudeste Asiático do ASEAN, ou as caribenhas, como o CARICOM.

    O G-20 nasceu em 1999 para ampliar o G-7. Foi uma forma de reconhecer o peso de outros PIBs dos chamados países emergentes lhes dando o direito de participar de decisões até então tomadas por Washington e algumas capitais europeias. O grupo chegou ao máximo com a entrada da Rússia quando se formou o G-8, em 1998. Depois de presidir o G-8 em 2006, a Rússia foi excluída do grupo devido ao conflito com a Ucrânia e a anexação da Criméia.

    Mas o G-20 não teve grandes expressões até 2008, quando então a crise econômica internacional demonstrou a ineficácia das instituições edificadas no pós-guerra que configuram a atual ordem mundial. Assim, se começou a buscar outros consensos para administrar o mundo. Falou-se até mesmo de uma nova arquitetura econômica e financeira, mas isso pouco avançou. Ao contrário, a ordem mundial passou a ser questionada por setores das classes dominantes e do imperialismo aumentando os conflitos geopolíticos.

    Por outro lado, do ponto de vista dos trabalhadores e dos povos oprimidos a situação desde então só piorou. Dados divulgados mostram que em 2015, 1% da população concentrava 46% dos recursos disponíveis, sendo que 10% chegava a concentrar 86%. Um contraste absoluto, se considerarmos que metade da população não possuía nenhum recurso. Os 40% restante era composto pela classe média que concentrava em torno de 14%, mas que vem perdendo posição. Para evitá-la esse setor se inclina ao racismo, à xenofobia e o desprezo pelos mais pobres. Não por acaso, essa tem sido a principal base do avanço da extrema direita à nível internacional.

    Esse é o mundo que a elite governante do G-20 pretende monitorar.

    G20: A distância entre os eixos e a realidade

    O presidente Maurício Macri com a popularidade em baixa e governante de um país anfitrião que atravessa uma séria crise econômica, propôs três eixos de discussão para esta cúpula do G-20. Como de praxe, estes serão os eixos que deverá tratar durante o próximo ano em que caberá a ele presidir o grupo. São eles: a) trabalho do futuro; b) conectividade global; c) segurança alimentar.

    Assim, as mais de 40 reuniões preparatórias da cúpula que ocorreram na Argentina não só estiveram longe de resolver os problemas que afetam a maioria da população mundial, mas também passaram à margem dos temas que estão envolvidos nos principais conflitos geopolíticos que atormentam o mundo.

    Assim, por um lado, está claro que as prioridades dos presidentes que se reunirão em Buenos Aires, de fato, serão outras. Donald Trump (EUA), Xi Jinping (China), Vladimir Putin (Rússia), Ângela Merkel (Alemanha) ou Shinzo Abe (Japão) vão tratar em paralelo dos temas que realmente estão tensionando a geopolítica mundial. Por outro, os movimentos sociais vão protestar em defesa de suas reivindicações.

    Destaque à parte, será a ausência de Jair Bolsonaro, presidente recém-eleito no Brasil e convidado por atual presidente Michel Temer à cúpula. Ele priorizou encontrar-se no Brasil com John R. Bolton, do Conselho de Segurança Nacional dos EUA.

    Tensão geopolítica

    Nos EUA, tanto a ala globalista, quanto a nacionalista expressa por Trump, fazem gestão para um encontro bilateral com Xi Jinping para tratar da “guerra comercial”. Tentarão de alguma forma chegar a um acordo com a China. Mike Pence no dia 4 de outubro revelou no Hudson Institute qual é preocupação de fundo dos EUA: “Com seu plano ‘Made in China’, o Partido Comunista Chinês se prepara para controlar 90% das indústrias mais avançadas do mundo, incluindo a robótica, biotecnologia e inteligência artificial. Para ganhar os mais altos comandos da economia do século XXI, Beijing colocou seus burocratas e empresários a obter a propriedade intelectual estadunidense, fundamento de nossa liderança, por qualquer meio”.

    Xi Jinping e Donald Trump. Créditos: Andrew Harnik/ AP

    Tal como está exposto na nova estratégia de segurança nacional anunciada por Donald Trump, EUA decidiu conter a qualquer custo o avanço da China rumo à liderança da economia mundial. A China, por um lado, busca habilmente construir alianças com aliados históricos dos EUA como é o caso do próprio Japão. Não foi outro o sentido da visita de Abe em outubro a Xi.  O mesmo ocorre em relação à Grã-Bretanha, primeiro país Europeu a ingressar no Banco Asiático de Investimentos e Infraestruturas impulsionado pela China à serviço do megaprojeto da “Nova Rota da Seda”.

    Por outro lado, a China decidiu aumentar seu orçamento militar. A disputa pelo controle dos mares levou a China a tomar a decisão de ser maior força naval até 2030. A intensificação dessa disputa entre EUA e a China fez soar há algum tempo os tambores de guerra no Mar do Sul da China.

    A Rússia, apesar das resistências de Trump, foi elencada como outro país tido como “inimigo estratégico” pelos documentos de defesa e estratégia dos EUA. Como forma de se defender do avanço da OTAN sobre o Leste, o projeto de Putin é a conquista de um espaço vital com vistas a recuperar um projeto imperialista aos moldes do czar “Pedro, o Grande”.

    Essa política dos EUA de combate simultâneo à Rússia e a China tem empurrado estes países a realizar vários acordos de cooperação que já adentraram até mesmo no terreno militar. No mês de setembro deste ano, ambos países realizaram uma demonstração força militar conjunta em Stravopol, algo inédito no último período histórico.

    Um encontro entre Trump e Putin também estava previsto durante o G20. Mas a situação se complicou ainda mais. O clima para qualquer acordo se tornou totalmente impróprio com o recente episódio da captura dos três navios de guerra ucranianos pela Rússia. O incidente ocorreu no Estreito de Kerch, próximos à Península da Crimeia, território disputado pelos dois países desde 2014.

    Jamal khashoggi, jornalista saudita assassinato – Crédito: AP

    Para complicar ainda mais a situação, o encontro previsto entre Donald Trump e o príncipe saudita Mohaned Bin Salman (MBS) para ver como contornar o monumental desgaste de um aliado chave dos EUA no Oriente Médio, culpado pelo assassinato do jornalista opositor saudita Jamal Khashoggi, está sob nova tensão. A entidade de direitos humanos Human Rights Watch reforça o pedido ao judiciário argentino – país signatário de acordos internacionais contra crimes de lesa humanidade – para deter e questionar MBS assim que pisar em solo do país.  Além da morte do jornalista, a entidade denuncia os abusos cometidos durante a intervenção militar no Iêmen, onde é responsável pela morte de 6.500 civis.

    Marcha e Cúpula dos Povos “Não ao G-20-Fora o FMI”

    Se por um lado, no Civil 20 (C-20, um dos grupos que contribuem com propostas ao G-20 em nome da “sociedade civil”), participaram de reuniões na Argentina a Unicef, a OIT, além de outras locais como a Conicef e CGT; por outro, existe um conjunto de forças que não confia de forma alguma nesta liderança mundial.

    Entre os dias 25 e 1º de dezembro teve início uma semana de ação impulsionada pela “Confluencia Fuera o G-20 e o FMI”. Nos dias 28 e 29 será realizada Cúpula dos Povos e, no dia 30, sexta-feira, haverá uma marcha. Além da denúncia do G20-FMI, o protesto contra a presença de Trump, se somará a denúncia do atual presidente eleito no Brasil Eduardo Bolsonaro.

    Entre as organizações se encontram a CTA, Attac Argentina, Jubileu Sul, Movimento Evita, CTEP, Red Amigos da Terra e outras. As organizações de Mulheres se farão presentes. Também participaram organizações de esquerda como o MST e o PSTU argentino.

    Várias delegações estrangeiras também estarão presentes. Do Brasil, por exemplo, participarão representantes da CSP-Conlutas, de sindicatos como da Apeoesp, Metalúrgicos de São José dos Campos, Petroleiros do RJ, dentre outras. Dos partidos de esquerda, estarão representados partidos como o PSOL e o PSTU. Um dos desafios da participação das delegações brasileiras será construir uma frente contra o avanço da extrema direita na América Latina.

    Veja o link da programação das atividades: https://fuerag20.files.wordpress.com/2018/11/grilla-actividades-para-subir-a-pc3a1gina9.pdf

    Brutal esquema de segurança não intimida movimento

    A tensão geopolítica combinada com a realização da Cúpula dos Povos e da marcha que terá como ponto de apoio um dos movimentos mais combativos da América Latina como é caso do argentino, somado às delegações estrangeiras, elevou a tensão na cidade de Buenos Aires à níveis até então poucas vezes já vistos.

    A suspensão da partida da final da Libertadores entre Boca Juniors e River Plate por conta dos enfrentamentos entre as torcidas e agressões aos jogadores do Boca, contribuiu para elevar ainda mais a temperatura e reforçar o já pesado esquema de segurança.

    Uma grande região da cidade, que inclui áreas inteiras do centro e os bairros de Belgrano, Palermo, Recoleta e Puerto Madero, estará completamente cercada. Nessa área só poderão circular moradores e pessoas com credenciamento. Tampouco haverá serviços de ônibus, metrô e trens nesses dois dias, enquanto o aeroporto Jorge Newbery (Aeroparque) será usado apenas para os voos das comitivas internacionais.

    Segundo a ministra da Segurança, Patricia Bullrich, o esquema armado para receber os líderes dos países é para evitar ataques terroristas e conter manifestações durante o evento. Assim, o esquema de segurança em Buenos Aires incluirá 22 mil oficiais argentinos e mais 2.000 agentes de segurança das autoridades internacionais nas ruas. O governo argentino gastou US$ 4 milhões (cerca de R$ 15,5 milhões) para comprar novos armamentos.

    Também haverá furgões e motocicletas vigiando a cidade. No porto de Buenos Aires, barcos vão monitorar o movimento da região. Os EUA emprestaram aviões, enquanto a Itália e o Canadá cederam helicópteros para a segurança. Já a China doou quatro tanques blindados. O espaço aéreo será fechado durante a chegada de algumas das autoridades e está dada a ordem de derrubar aeronaves que violem as regras.

    Haverá também um maior controle no setor de imigrações das entradas ao país. Os países participantes enviaram listas de pessoas com antecedentes violentos que supostamente poderiam causar distúrbios durante o evento de forma a que a entrada seja vetada.

    Nada disso, porém, está intimidando as organizações que pretendem se manifestar contra o G20. As atividades com mesas de debates e a marcha estão mantidas.

    Assim, nesses dias, com as principais potencias reunidas de um lado, e os movimentos sociais de outro, se concentrarão as principais contradições da atual situação mundial.

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    Foto: Protesto contra Macri antes da cúpula do G20. Créditos: Ivan Alvarado/ Reuters

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  • Sérgio Moro aceita ser ministro da Justiça no governo Bolsonaro

    Na manhã de hoje, 1° de novembro, após visita à casa de Jair Bolsonaro, no Rio de Janeiro, o juiz federal Sérgio Moro divulgou a notícia que aceitou o convite para assumir o Ministério da Justiça e Segurança Pública no novo governo federal. A notícia já foi confirmada por Bolsonaro pelas redes sociais.

    Este fato é muito relevante. Moro foi o principal responsável pela Operação Lava Jato na esfera do Poder Judiciário. A partir dessa posição, agiu continuadamente para interferir no processo político nacional. Em meio à mobilização pelo impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, vazou ilegalmente um áudio em que a então presidenta conversava com Lula. Em julho de 2017, condenou em primeira instância o ex-presidente Lula em um processo marcado por arbitrariedades. Essa condenação pavimentou o caminho para a prisão e depois a impugnação da candidatura de Lula nesse ano. Por fim, em outra manobra ilegal, Moro vazou depoimento sigiloso do ex-ministro Antônio Palocci a seis dias do primeiro turno das eleições.

    Esse conjunto de ações fortaleceu indiretamente a candidatura de Bolsonaro, ao insuflar o antipetismo no qual o candidato do PSL surfou, e diretamente, ao impedir o líder das pesquisas, Lula, de ser candidato. Trata-se de uma intervenção direta do Poder Judiciário nas eleições presidenciais deste ano. O mesmo Judiciário foi inteiramente conivente com todas as irregularidades cometidas por Bolsonaro e permitiu uma série de medidas intimidatórias contra a campanha de Haddad, especialmente no segundo turno.

    Agora, após os grandes serviços prestados ao golpe e sua agenda reacionária, Moro se afasta da Magistratura e recebe sua recompensa: assumirá um super Ministério da Justiça, acumulando poderes também sobre a área de Segurança Pública. Este fato demonstra cabalmente o caráter seletivo e reacionário da Lava Jato, que sempre esteve a serviço do golpe parlamentar e de uma saída ainda mais conservadora para a crise política brasileira.

    Assim vai se conformando o governo Bolsonaro. Uma aliança sinistra com forte presença da elite das forças armadas, do agronegócio, dos elementos mais reacionários do Poder Judiciário e ainda de parte da cúpula de igrejas evangélicas.

    Mais do que nunca, vai ser muito importante fortalecer uma Frente Única que unifique as centrais sindicais, sindicatos, partidos de esquerda identificados com os trabalhadores, movimentos populares, o movimento estudantil, os movimentos de luta contra as opressões, a Frente Brasil Popular e a Frente Povo Sem Medo.

    Uma Frente Única do povo trabalhador que promova uma ampla unidade de ação em resistência aos ataques contra os direitos sociais e as liberdades democráticas que serão realizados pelo governo Bolsonaro e seus aliados.

     

     

    FOTO: Marcelo Camargo / Agência Brasil / Arquivo Fotos Públicas

  • Bolsonaro vence, mas a resistência continua

    Por uma margem menor que a esperada inicialmente, Jair Bolsonaro (PSL) venceu com 55% dos votos válidos. A onda pela democracia e direitos, que contagiou milhões de pessoas Brasil afora, diminuiu a diferença. Fernando Haddad (PT), que havia obtido 29% dos votos válidos no primeiro turno, chegou a 44% no segundo. A resistência aguerrida que brotou espontânea nas ruas de centenas de cidades, envolvendo estudantes, trabalhadores, artistas, intelectuais e feministas, fez história e lançou a esperança para o amanhã, para enfrentar e derrotar o fascismo.

    Não presenciamos uma disputa democrática. O candidato a ditador venceu uma eleição manchada pela impugnação política de Lula (que liderava com folga todas as pesquisas), uso criminoso de caixa 2 empresarial para o financiamento em massa de fake news nas redes sociais, atuação antidemocrática e partidária dos tribunais eleitorais e ação da maior parte da grande mídia, grandes empresários e igrejas evangélicas em favor do candidato do PSL.

    ENGLISH VERSION

    Bolsonaro ganhou uma importante batalha nas urnas, mas a luta não chegou ao fim. A resistência democrática e social seguirá nas ruas, nos locais de trabalho, estudo e moradia. Vamos construir uma muralha contra o fascismo em cada canto do país.

    Que fique avisado: não aceitaremos o fim das garantias democráticas e dos direitos sociais e trabalhistas, a começar pela reforma da Previdência anunciada pelo general Mourão. Não toleraremos qualquer violência e discriminação contra mulheres, negros, LGBTS, indígenas e imigrantes. Nos levantaremos contra o extermínio da população negra e pobre das periferias. Nos insurgiremos contra o estabelecimento de um regime autoritário e repressor. Defenderemos nosso patrimônio natural e cultural, estaremos ao lado dos povos indígenas e quilombolas incondicionalmente. Não será aceita a criminalização dos movimentos sociais: os trabalhadores sem-terra e sem-teto não estão sós. Cerraremos trincheiras contra a perseguição à esquerda e a suas lideranças. Estaremos atentos a qualquer tentativa de censura na imprensa, nas artes, escolas e universidades. Avisem Bolsonaro e sua turma: resistiremos e, cedo ou tarde, os derrotaremos.

    Somos muitos, somos milhões. Ele ganhou no conjunto da população, mas perdeu entre os trabalhadores de menor renda, em todo nordeste, entre as mulheres, os negros, os mais jovens e as LGBTs. Ou seja, nas camadas mais exploradas e oprimidas prevaleceu a esquerda e a democracia.

    Daqui para frente, impõe-se como tarefa central a Frente Única (que deve reunir o conjunto da esquerda – PT, PSOL, PCdoB, PCB, PSTU etc. -, dos movimentos sociais, sindicais e estudantis) pra resistir e derrotar o governo de extrema direita de Jair Bolsonaro, assim como a construção da unidade democrática com todos setores dispostos à luta unitária contra o autoritarismo e o fascismo. A construção da Frente Única deve se referenciar no movimento de mulheres unidas contra Bolsonaro, que levou mais de 1 milhão às ruas no dia 29 de setembro, e no movimento espontâneo de rua protagonizado por dezenas de milhares de ativistas no segundo turno. Esse acúmulo valioso deve ser preservado e potencializado.

    Na resistência democrática, vamos batalhar também pela construção de um novo projeto de esquerda, que busque superar os graves equívocos e limites do PT, junto com o PSOL, PCB, MTST, APIB e todos setores dispostos a construir uma nova perspectiva socialista em nosso país.

    Certamente enfrentaremos dias difíceis com a eleição de Jair Bolsonaro. Mas devemos manter a cabeça erguida e a moral elevada. A verdade está ao nosso lado. A ascensão do neofascismo deve ser respondida com a mais ampla unidade da esquerda e dos setores democráticos, com coragem. Vamos unir todos os “ativismos”, todos movimentos, coletivos e organizações, vamos de mãos dadas junto ao povo trabalhador e oprimido. Unidos estaremos fortes para resistir e vencer!

    Bolsonaro wins, but resistance continues