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  • Em visita ao Pará, Bolsonaro defende a chacina de trabalhadores sem-terra

    O massacre de trabalhadores rurais sem-terra ocorrido em 1996, na curva do S, em Eldorado dos Carajás, marcou a história do Pará, e ficou conhecido como “massacre de Eldorado dos Carajás”. onde numa ação completamente desproporcional e criminosa autorizada pelo então governador do Estado do Pará – Almir Gabriel (PSDB) – assassinou 19 trabalhadores rurais (vários com tiros à queima roupa) e deixou 69 feridos (destes, somente dois policiais). Em 2018 completaram-se 22 anos desse massacre.

    VEJA O VÍDEO DO ESQUERDA ONLINE SOBRE O MASSACRE

    A visita do pré candidato à Presidência da República pelo PSL – Jair Bolsonaro -, acompanhado de diversos ruralistas e grandes empresários do Estado, inclusive o então deputado federal delegado Eder Mauro (PSD-PA), nessa região, no último dia 13, foi um escárnio completo para aqueles que lutam por reforma agrária e contra os desmandos de um punhado de ruralistas e coronéis que ainda ditam as regras no Estado.

    Em Eldorado dos Carajás, exatamente na Curva do S, de forma efusiva, Bolsonaro defendeu os policiais que assassinaram os 19 trabalhadores rurais sem-terra. A fala foi a seguinte: “Quem tinha que estar preso era o pessoal do MST (Movimento dos Sem Terra), gente canalha e vagabunda. Os policiais reagiram para não morrer”. Esta declaração está em diversos meios de comunicação. Bolsonaro veio ao Pará visitando a cidade de Parauapebas e Marabá, em sua agenda de pré-campanha, reafirmar aliança política com os ruralistas.

    Em uma reunião com esse mesmo setor, ele declarou que “se eleito vou tirar o Estado do cangote dos ruralistas, segurar as multas ambientais e aumentar a repressão a movimentos do campo. Não vai ter um canalha de fiscal metendo a caneta em vocês”. E defendeu o armamento para resolver conflitos no campo. Obviamente, que tais compromissos foram aplaudido pelos integrantes da União Democrática Ruralista (UDR), que já deu declaração dizendo que procuram um Presidente que não os atrapalhe.
    O pré-candidato do PSL não é um fake, é bem real e está em segundo lugar nas pesquisas, já deu inúmeras comprovações públicas de que é inimigo frontal da classe trabalhadora, dos setores oprimidos, com diversas entrevistas racistas, misóginas e lgbtfóbicas, é um ativista contra os direitos humanos, está surfando na desconfiança, no descrédito, no desânimo que setores da sociedade manifestam em relação à política e às eleições. O alto índice de violência urbana que assola o Brasil inteiro é um dos elementos impulsionadores de sua política criminosa, que fala de “tratar na bala” os conflitos por terra, que “bandido bom é bandido morto”, inclusive aqui no Pará temos, infelizmente, vários parlamentares seguidores da forma bolsonarista de fazer política.

    Repudiamos com veemência a visita de Bolsonaro ao Pará, e com mais força ainda repudiamos suas declarações de ódio ao povo, aos lutadores, ao movimento sem terra, a tantas famílias que sofrem há 22 anos e jamais esquecerão o massacre de seus filhos, companheiros, netos, e a omissão do Estado. Infelizmente, a (in)justiça do Brasil funciona como um partido de toga, do contrário, não seria possível ter um candidato que de norte a sul, livremente, destila seu preconceito máximo, seu ódio aos indígenas, aos quilombolas, aos negrxs, às mulheres, ao povo pobre, como um convite à violência.

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    22 anos do Massacre de Eldorado dos Carajás

     

  • Não há o que comemorar na venda da Embraer para a Boeing

    Venda da empresa coloca em risco milhares de empregos e a soberania tecnológica no setor aeronáutico e militar

    Comemorada pelo mercado financeiro e anunciada pela grande imprensa como uma “parceria de sucesso”, a venda da Embraer para a gigante norte-americana Boeing representa, na prática, um grave ataque à soberania nacional e uma ameaça aos empregos.

    A Embraer foi criada em 1969 e, desde então, recebe sistematicamente milhões de reais de financiamento do governo federal, mesmo após a privatização da empresa, em 1994. Todo este investimento permitiu que a companhia chegasse ao posto de terceira maior empresa no mercado mundial de aviação e a líder em aviação comercial executiva (jatos de luxo) e de defesa militar.

    Com a transação, a Boeing visa adquirir todo a tecnologia a know-how da Embraer em aeronaves de pequeno porte e, assim, fazer frente à sua principal concorrente, a Airbus. O problema é que isso significa o desmonte da empresa e do todo o setor de defesa militar, estratégico para nosso país. Isso porque, quando se pensa em produção de tecnologia para aeronaves, não é possível dividir a empresa em setores.

    Ao dividir a empresa, a Embraer está ficando somente com o ônus. Enquanto a joint venture a ser criada entre Boeing e Embraer ficará com o setor lucrativo da aviação comercial, a Embraer nacional ficará apenas com as áreas menos lucrativas e, portanto, com menor capacidade de investimento em inovação. Isso terá um impacto negativo direto no desenvolvimento de projetos para a área de defesa militar.

    A área comercial da Embraer foi responsável por mais de 75% do lucro da empresa em 2017, com faturamento de mais de U$ 10 bilhões. Sendo assim, a norte-americana fica com o filé da Embraer por apenas U$ 3,8 bilhões. Trata-se da entrega do patrimônio nacional a preço de banana! Só para ter uma ideia, a empresa começou 2018 com uma carteira de pedidos de 435 aeronaves, que alcançariam U$S 18 bilhões.

    Este processo tem gerado muita preocupação entre os trabalhadores. Não há nenhuma garantia de que os mais de 17 mil empregos diretos hoje serão mantidos. Na prática, o que se vê hoje é que a empresa já está realizando cortes, alguns até mesmo de forma ilegal, com demissão de lesionados que têm estabilidade garantida.

    O Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos (SP) já entrou com vários processos na Justiça, na tentativa de reverter os cortes ilegais, e também protocolou pedidos de reuniões com a empresa para discutir as demissões.

    Charge Bruno Galvão / SindmetalSJC

    Infelizmente, não há o que comemorar na venda da Embraer para a Boeing. A operação coloca em risco milhares de postos de trabalho diretos e indiretos no Brasil, além de nossa soberania tecnológica no setor aeronáutico e militar.

    Em mais uma ação entreguista, o governo Temer, que poderia barrar este processo usando do poder de veto garantido pela chamada “ação de ouro”,  autorizando a negociação.

    Para mudar este quadro é preciso uma política que tenha como foco a geração de emprego a partir do fortalecimento da indústria nacional. É preciso também repensar a Embraer de forma estratégica, como parte de um projeto em defesa da soberania nacional. Para isso, é necessário romper com os interesses dos acionistas, reestatizar a empresa e fazer com que os trabalhadores tenham poder de decisão em questões estratégicas.

  • López Obrador (AMLO) é eleito presidente do México

    O resultado oficial das eleições deve ser anunciado somente na quarta, dia 04, quando deve terminar a apuração. Mas institutos de pesquisas confirmam a vitória de Andrés Manuel López Obrador (AMLO, como é conhecido) nas eleições para presidente do México, neste último domingo, dia primeiro de julho.

    Segundo o Instituto Consulta Mitofsky, AMLO deverá ter entre 43% a 49% dos votos. Mas, em algumas outras previsões, como por exemplo, do Instituto Nacional eleitoral, já apontam que ele poderá obter mais de 50% dos votos válidos.

    Lembrando que nas eleições presidenciais no México não existe segundo turno, simplesmente o mais votado é considerado o vencedor.
    Segundo o mesmo Instituto Nacional Eleitoral, cerca de 63% dos mais de 89 milhões de eleitores mexicanos compareceram às urnas. Numa eleição realmente histórica.

    Embora ainda não existam a confirmação dos dados oficiais, os dois principais candidatos que disputaram o pleito com AMLO já reconheceram sua vitória: Ricardo Anaya (PAN) e José Meade (PRI).


    Vitória também para a Câmara, Senado e governos regionais

    O Partido de AMLO, Movimento Regeneração Nacional (MORENA) saiu vitorioso também nas eleições para a Câmara de Deputados, Senado e nas eleições de governos regionais.

    O MORENA deve ser confirmado como o partido que contará com mais cadeiras de deputados e senadores. Essa liderança ainda deve se ampliar, podendo chegar a maioria, com a eleição de parlamentares dos partidos que compuseram a coligação “Juntos Faremos História”, que apoia AMLO para presidente: o Partido do Trabalho (PT) e o Encontro Social.

    Nas eleições para os governos regionais, MORENA deve eleger cinco governadores em nove. Nos seguintes estados: Cidade do México (Distrito Federal), Veracruz, Morelos, Chiapas e Tabascos.

    Outro grande destaque da vitória do MORENA está na eleição da Cidade do México, onde pela primeira vez na história, uma mulher estará à frente do governo do Distrito Federal: Cláudia Sheinbaum. Ela derrotou a candidata do PRD, que controlava este governo há vários mandatos.

    O significado e os limites da vitória de AMLO
    Esse resultado, de conjunto, representa uma derrota importante para as forças reacionárias mexicanas, especialmente para o PRI.
    Este partido já chegou governar o México por mais de 70 anos consecutivos. O atual presidente era do PRI que foi claramente rechaçado nas urnas, amargando um terceiro lugar, longe de qualquer possibilidade de vitória.

    A imprensa vem apresentado o novo governo do MORENA e seus aliados como uma ameaça de esquerda. Diante da vitória inconteste, AMLO já busca tranquilizar o mercado, dando garantia ao respeito aos contratos e a propriedade privada, uma política econômica de rigor fiscal e independência do Banco Central.

    Independente do programa reformista de AMLO e da MORENA – dentre outras coisas, não se define pelo socialismo -, sua ascensão ao governo, um fato inédito na história do país, vai aumentar as contradições entre México e EUA, especialmente diante da política imperialista e protecionista de Trump, especialmente em temas como imigração e sobre a validade do NAFTA.

    As possibilidades reais de mudança virão da disposição de luta do povo trabalhador e da juventude mexicana. Para essas lutas a vitória de AMLO, junto com a derrota do PRI e do PAN, representa um impulso importante.

    FOTO: Encerramento da campanha de Obrador, em Acapulco. Divulgação Facebook Morena

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  • Trabalhadores argentinos protagonizam terceira greve geral contra Macri em 15 meses

    Convocada pela Central Geral dos Trabalhadores (CGT), sindicatos e outras centrais sindicais, partidos de esquerda e movimentos sociais, os trabalhadores argentinos realizaram uma poderosa paralisação nacional nesta segunda-feira (25/06).

    As ruas das principais cidades do país permaneceram praticamente vazias. Na capital, Buenos Aires, a paralisação dos trabalhadores foi enorme. Com diferentes níveis de adesão de categoria para categoria, de região para região, motoristas de ônibus, caminhoneiros, metroviários, ferroviários, professores, bancários, operários, profissionais da saúde, de portos e aeroportos e até frentistas de postos de gasolina enfrentaram a repressão policial e cruzaram os braços em protesto contra os projetos de Maurício Macri, presidente da Argentina, e vários governadores das províncias (estados).

    As mulheres do tsunami verde na luta pela legalização do direito ao aborto se fizeram presente na luta e foram destaque em Buenos Aires. Com seus lenços verdes protagonizaram piquetes nas ruas e diversos locais de trabalho. Foi uma forma exemplar de unir a luta das mulheres com a dos demais trabalhadores.

    A greve geral foi incendiada pelo reajuste salarial abaixo da inflação oficial em muitas categorias e pelo rechaço ao acordo do governo federal argentino com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Para conceder o empréstimo, o FMI exigiu um plano privatizações, interrupção de obras públicas e ajuste fiscal duríssimo. O plano de Macri e seus aliados significa investir menos em saúde, educação, moradia e infra-estrutura para financiar os especuladores internacionais. Um projeto de país que lembra o de Temer aqui no Brasil.

    Mas a motivação da classe trabalhadora argentina tem como pano de fundo a enorme crise social que atravessa o país. O desemprego chegou a 9,1% no primeiro trimestre deste ano, contra 7,2% no último trimestre de 2017, por exemplo.

    Forte resistência e reorganização
    Apesar de estarem na defensiva, os trabalhadores argentinos não estão derrotados e têm protagonizado fortes lutas de resistência. A potente greve geral mostra a possibilidade de derrotar Macri e os planos de saque do país impostos pelo FMI. Embora a CGT e as grandes centrais tenham planejado uma greve geral passiva, sem protestos de rua, comícios e passeatas, o sindicalismo combativo argentino surpreendeu.

    Através da construção da Plenária Nacional do Sindicalismo Combativo, ocorrido no Estádio Coberto do Lanús no dia 23, dois dias antes da greve geral, organizações políticas da esquerda marxista radical, como o Partido Obrero, Izquierda Socialista, Movimiento Socialista de los Trabajadores e o Nuevo Mas, realizaram uma importante unidade para influenciar os rumos da greve geral e da luta contra as medidas do governo. Foram decisivos em muitos piquetes e cumpriram um importante papel para em alguns lugares transformar a greve geral num dia ativo de luta.

    Próximos passos
    É dever das grandes centrais sindicais como a CGT e a CTA e os movimentos e partidos políticos, sobretudo o peronismo, organizar desde já um plano de lutas para enfrentar Macri e o FMI. A luta deve seguir com uma nova greve geral organizada desde os locais de trabalho e estudo. O Plenário Nacional do Sindicalismo Combativo convoca um novo dia de lutas e paralizações no dia 12 de julho.

    A greve geral mostra a força da classe trabalhadora: quando decide cruzar os braços e ir à luta para a sociedade. Sem professor, a escola não funciona. Sem operário, a fábrica não produz. Sem metroviário o metrô não circula. Se no futebol da Copa do Mundo não há o que seguir, a luta dos argentinos é fonte de inspiração para a esquerda e aos movimentos sociais no Brasil.

     

    Foto: Marcha em Buenos Aires. Reprodução Infobae

  • O jacobinismo às avessas: anticorrupção e neoliberalismo na política brasileira atual

    Por detrás de uma grande fortuna há sempre um crime
    (Honoré de Balzac)

    Pouco antes do Golpe, argutos escribas alertaram sobre as armadilhas, para a esquerda brasileira, contidas na chamada “luta contra a corrupção”, a qual se constitui, nas últimas duas décadas, em uma das principais pautas da agenda política proposta pelos organismos do capital monopolista (1). Não seria exagero dizer que um simples olhar sobre as manifestações verde-amarelas de 2015-2016, sobre as insistentes campanhas midiáticas por um “Brasil sem corrupção”, assim como sobre o amor burlesco nutrido por nossos estratos médios conservadores por procuradores cátaros e juízes justiceiros é suficiente para evidenciar o teor reacionário do discurso “anticorrupção”. Não é escusado ressaltar o fato de que a ascensão político-eleitoral de um neofascismo obscurantista no país tem como uma de suas principais alavancas programáticas o “combate à corrupção”, o qual recruta revoltados e estultos de todo tipo. Sem receios, pode-se dizer que a ideologia anticorrupção é, nos tempos hodiernos, uma ideologia da ordem burguesa, ainda que possa ameaçar provocar buliçosas revoltas para salvaguardar esta mesma ordem.

    Na atual conjuntura brasileira, não é necessário envidarmos muitos esforços para notar a fina sintonia entre o avanço da onda conservadora, a acelerada retirada de direitos e o crescimento de um “clamor popular” – incontinentemente alimentado pelos mass media – pelo “fim da corrupção”. Almejando cada vez mais ampliar o fosso – produto da própria blindagem – entre a praça e o Parlamento, entre o povo e a Presidência, o regime democrático-blindado, contrarreformista por excelência, tem na ideologia anticorrupção um de seus principais mecanismos de reprodução/sustentação. No Brasil e alhures, verifica-se, portanto, uma articulação, funcional ao capital, entre as agendas da anticorrupção e da austeridade.

    Na qualidade de um regime essencialmente tecnocrático, a democracia blindada encontra na “luta contra a corrupção” um elemento de mobilização política cujo resultado concreto é, dialeticamente, a desmobilização política, traço que, entre outros, a caracteriza enquanto a variante atual, ultra neoliberal e ascética, da vetusta democracia liberal-representativa. A massiva e incessante difusão da ideologia anticorrupção proporciona uma crescente revolta política contra a política, um gradativo afastamento político da política, uma atitude “antipolítica” dotada de um conteúdo político, na medida em que a rejeição barulhenta à política não expressa senão uma silenciosa aquiescência política da política vigente, ou seja, da ordem vigente. Assim, o discurso “antipolítico” rebelde mascara uma ação política cativa, posto que a recusa da participação política por parte de amplas camadas populares, a negação formal da política, apresenta como sentido efetivo não a superação crítica da política formal, mas justamente a manutenção acrítica desta. Por meio dos ativos brados “antipolíticos” que condenam tudo que está aí opera-se uma prática política passiva, feuerbachiana, resignada, mas ainda assim política, ordeira, contemplativa de tudo que está aqui.

    Não é preciso gastar muito tempo e tinta para argumentar como este componente “antipolítico” constitutivo da ideologia anticorrupção, essa identificação totalitária entre política e corrupção, é profundamente reacionária. Descrita como o espaço por excelência da obtenção das vantagens individuais, do mau-caratismo, da mentira, das práticas vis e venais, a política é apresentada ao trabalhador como algo a ser rechaçado, ou ao menos como algo com o qual não se deve se deixar envolver. A rejeição e resignação subjetivas em face da política fortalecem a aceitação e manutenção objetivas dessa mesma política. A defesa implícita da não-participação dos de baixo é, na verdade, a defesa da participação exclusiva, e ao seu modo, dos de cima. Dada que toda transformação prática da sociedade só pode ser fruto de uma atuação política dos seus segmentos explorados e subalternos, a negação da política significa, efetivamente, uma política que nega a transformação prática da sociedade. Ardilosamente, a crítica à política revolucionária, socialista, transformadora, se traveste de uma genérica crítica “à política” e aos “políticos”. Não é um acaso, assim, o fato de que os mais extremados e raivosos críticos dos “políticos corruptos”, em particular aqueles críticos organizados em grupos neofascistas, apontem suas armas prioritariamente, e quase exclusivamente, para os militantes e expoentes das organizações socialistas (PSOL, PCB etc.), praticamente as únicas que não aparecem sequer mencionadas nas diárias matérias jornalísticas sobre casos de corrupção política. (2)

    A ideologia anticorrupção, como toda e qualquer ideologia, possui um momento de verdade, cujo procedimento ideológico, mistificador por excelência, transforma na totalidade da verdade. A aparência do processo, que é, por óbvio, parte constitutiva dele, é concebida como a sua essência determinante, e aquilo que é epidérmico da coisa é, por uma ótica de classe particularista, exposto como se fosse profundo e universalmente verdadeiro. Por meio dessa complexa engrenagem ideológica, produzem-se alguns enunciados que, entretecidos, constituem a narrativa dominante sobre a temática da corrupção.

    De imediato, esta narrativa busca dissociar corrupção e capitalismo, concebendo as práticas corruptas como atitudes independentes e desconectadas das relações mercantis vigentes. Dessa maneira, aquilo que na verdade é a expressão ilegal e necessária do modo de ser legal da sociedade burguesa, o exagero dramático de um melodrama exagerado, é apresentado como se fosse um objeto próprio, com raízes e explicações próprias, isolado das relações sociais que o determinam. Nesta lógica, é como se, por ser defeituoso, o produto fosse, então, desprovido de qualquer relação causal com seu produtor, como se Adão e Eva, por terem comido a fruta proibida, “ilegal”, não descendessem mais de Jeová. Expressão febril de uma sociedade acometida pela enfermidade da mercantilização total, a corrupção é tratada não como o sintoma, mas como a própria doença, que, de tipo viral, teria origens externas ao corpo humano. Aquilo que não é mais do que uma exposição sem pudores do ordinário funcionamento da despudorada sociedade burguesa, na qual tudo é comprado e vendido, é apreendido como se fosse algo estranho a ela, patológico, extraordinário.

    Dessa maneira, a problemática mercantilização da vida sob o capitalismo é ofuscada por uma de suas manifestações tópicas, a corrupção, esta sim concebida como o verdadeiro problema. Assim, uma das inexpugnáveis consequências da generalização das relações sociais capitalistas, a generalização da prática da corrupção, é apresentada como um elemento exógeno e extemporâneo, cuja intrusa presença na sociedade capitalista acaba por, lamentavelmente, promover inconvenientes perturbações. Por meio da ideologia anticorrupção, centrada na denúncia de certas compras e vendas antiéticas, a desumanizada sociabilidade burguesa, vertebrada na antiética compra e venda de praticamente tudo que existe sob a face da terra, é obnubilada e, por conseguinte, naturalizada enquanto a única, suprema e eterna forma de convívio humano. Cinicamente, os ideólogos da ordem corrupta do capital gritam aos políticos corruptos: “Nunca vos conheci. Afastai-vos de mim, vós que cometeis a iniquidade!” (3)

    Assumido como um dado, um fato inquestionável sobre o qual é melhor silenciar, o capitalismo é tomado não como o criador da corrupção moderna, mas como uma vítima inerme de uma criatura ímpia que gerou a si própria, e cujo destino quis que vagasse pela eternidade corrompendo as vestais almas burguesas. Esse procedimento ideológico de desconectar a corrupção do capitalismo, cujo resultado é a absolvição do último pelos crimes da primeira, não exprime senão aquilo que Lukács chamou de uma apologia indireta do capital. Aquilo que são problemas da humanidade sob o capitalismo, sob determinada situação histórico-social, aparecem como problemas existenciais da humanidade, traços inextricáveis da condição humana, e as possibilidades de transformação do ser social são negadas pois tomadas como impossibilidades imanentes do próprio ser.(4)

    Outro procedimento da narrativa ideológica anticorrupção, propagada incessantemente pelos mass media brasileiros, é depositar nas práticas corruptas ocorridas no interior do Estado (capitalista) a responsabilidade pela quase totalidade das mazelas sociais do país. A falência das políticas sociais, expressa no sucateamento de serviços sociais públicos (educação, segurança, habitação, transporte, seguridade social etc.) – aos quais recorrem a imensa maioria da população – é atribuída, por meio do discurso ideológico, principalmente, senão exclusivamente, aos desvios de recursos oriundos de atos ilegais, como a corrupção. Destarte, outras causas da degeneração do nosso mero simulacro de cidadania social, extremamente mais significativas do ponto de vista do constrangimento e subtração de recursos, simplesmente desaparecem por meio da ideologia anticorrupção. O conjunto de contrarreformas, que envolve privatizações, ajustes fiscais permanentes, superávits primários obsessivos, parcerias público-privadas, sucessivas desvinculações dos recursos da União (DRU), precarização das relações laborais, pagamento de juros e amortizações da dívida pública, entre outras formas legalizadas de desmonte e saque do chamado fundo público, se evapora como éter nas matérias jornalísticas dedicadas ao caos dos serviços públicos – isto sem contar o fato de que a própria alimentação do fundo público no Brasil tem por base uma das legislações tributárias mais regressivas do mundo, que incide hiperbolicamente sobre o consumo de itens básicos e alivia os impostos sobre renda, patrimônio e especulações financeiras. (5) Na narrativa midiática, a denúncia do atroz roubo do dinheiro da merenda numa prefeitura do interior desempenha, entre outras funções, a de sub-repticiamente enevoar, quando não invisibilizar por completo, todos os mecanismos listados acima – cuja responsabilidade pela anulação prática dos direitos constitucionais (restantes) dos trabalhadores brasileiros é, insistimos, extremamente maior do que a dos deletérios atos de corrupção. Agindo como um Robin Hood ao contrário, como costuma bem lembrar Guilherme Boulos, o Estado brasileiro retira dos pobres para dar aos ricos. Poder-se-ia completar dizendo que, se comparado ao butim resultante da rapinagem burguesa legalizada, o quantum advindo das práticas corruptas não representa mais do que um brinde a ser distribuído aos menos altivos entre os rapaces do bando. A miséria da corrupção não é senão o complemento miseravelmente inevitável da miserável sociedade burguesa.

    Decerto, os elementos narrativos elencados acima só podem operar com êxito pois se baseiam em um pressuposto axial da própria ideologia anticorrupção: a separação entre “público” e “privado” no capitalismo. Conforme observou apropriadamente Armando Boito Jr.(6), a igualdade legal, jurídico-política, entre indivíduos de classes sociais diferentes, característica inexistente nas formações sociais pré-capitalistas, se constitui no fundamento da constituição de um Estado “público”, representativo formalmente de todos os cidadãos, cujas aptidões ou não para ocupar um cargo no aparelho estatal não dependem, segundo as normas legais, de sua origem de classe (assim como de seu credo, cor, religião e orientação sexual), e sim de seu “mérito”. Na perspectiva liberal, essa configuração estatal “pública” – necessária à (e progressivamente compatível com a) vigência das relações econômicas capitalistas, estabelecidas pelo intercâmbio entre livres proprietários privados de mercadorias – é tomada como a expressão do “bem comum” (Hobbes e Locke), da “vontade geral” (Rousseau), do “universal” (Hegel). Aquilo, portanto, que é uma uma forma de dominação jurídico-política correspondente à exploração do capital sobre o trabalho aparece, na ideologia liberal, como uma institucionalidade que corporifica os interesses dos cidadãos (sujeitos abstratos desprovidos de sua determinação econômico-social). O Estado de classe, capitalista, é, assim, descrito como um Estado neutro.

    Destarte, ao condenar o Estado (capitalista) por estar servindo a interesses particulares, o que a atual ideologia anticorrupção faz, na qualidade de versão contemporânea da ideologia liberal, é tomar como concreta, efetiva, a separação formal – que não deixa de ser real enquanto forma – entre “público” e “privado” e, desse modo, negar o caráter de classe, privado, do próprio aparelho estatal burguês. Aqui, a crítica neoliberal da corrupção se assemelha à crítica weberiana do “patrimonialismo”, cuja existência acabaria por “privatizar” o Estado. Tomado como a-classista e imparcial, o agente estatal corrupto é, por meio da ideologia anticorrupção, condenado por um ato que não faz senão revelar a natureza daquele Estado, ainda que tal ato seja apresentado como desvirtuação dessa própria natureza. A aparência da coisa é tomada como a sua essência, e a conspurcação da primeira, que acaba por desvelar momentaneamente a segunda, é ideologicamente vista como se estivesse a subvertendo, isto é, como se estivesse subvertendo a própria essência da coisa. Assim, o pequeno-burguês que, invocando o “interesse público” como o objetivo precípuo do Estado, vitupera contra magistrados e altos burocratas que, enquanto “homens públicos”, servem aos seus próprios interesses privados (individuais) tem tanta razão como um telespectador que, irascível, se queixa de armação ao assistir uma luta de telequete, ou como um sujeito que acusa de fraude uma astróloga que lhe fez um mapa-astral. Dizemo-lo porque, evidentemente, existe uma diferença entre os políticos burgueses corruptos e os não corruptos, mas tal diferença reside em uma dimensão moral, de caráter – valiosa, por suposto –, mas não nas determinações sociais fundamentais de sua atividade política. Tanto uns quanto outros, ao se intitularem representantes do “povo” e defensores da “coisa pública”, não fazem senão servir aos interesses privados (e, no caso dos corruptos, também aos seus próprios interesses pessoais), e, ao fim e ao cabo, não podem ser diametralmente opostos, do mesmo modo que não se pode opor, senão pelo caráter, um médium que mente de um que não mente, quando, na verdade, tanto a mentira de primeiro quanto a verdade do segundo nada possuem de verdadeiro.

    Embora tecidas muitas vezes por discursos a-históricos, que eternizam aquilo que é temporal, as ideologias possuem a sua história. No alvorecer da sociedade burguesa, quando a burguesia se enfrentava com o ancien régime e suas instituições feudais, a defesa liberal de um Estado universalista que exprimisse o “bem comum” desempenhou, não obstante sua dimensão ilusória, um papel progressista. A “falsa consciência” sobre a coisa era, ali, um momento revolucionariamente necessário para a ulterior verdade da coisa. Mesmo que não fosse efetivamente terrena, a Razão que filosoficamente se batia contra o poder de Deus na Terra, contra a teoria do direito divino, contribuiu para a destruição dos privilégios estamentais sobre a propriedade, os homens e a terra. Mistificadora, porquanto ideológica, a crença republicana numa “coisa pública” acima e protegida dos interesses privados adquiriu, nas suas manifestações teórico-políticas mais plebeias, um teor revolucionário. Assim, a afirmação histórica e efetiva de novos interesses privados (burgueses) sobre os antigos (nobiliárquicos) era, ideologicamente, expressa pela necessidade imperiosa de predomínio do “cidadão” sobre o “indivíduo”, pela filosófica afirmação do “geral” sobre o “particular”. Fazia-se necessária a vitória do “público” sobre o “privado”, a subjetiva imposição política do primeiro sobre o segundo, como em Rousseau, ou ainda a superação dialética “objetiva” do segundo no primeiro, como em Hegel. A realização concreta de interesses mercantis particularistas, justamente por demandar uma formatação jurídico-política que abolisse os velhos particularismos medievais, era vocalizada por uma celestial filosofia política moderna que esperava realizar o universal, e que via na república democrática a sua materialização terrena.

    A manifestação histórica mais exemplar, radical e, ao mesmo tempo, mais ideológica dessa ideologia republicana foi o jacobinismo, fenômeno caracterizado pelo fugaz e turbulento controle da pequena-burguesia parisiense sobre a jovem república francesa, quando a luta anti-absolutista atingiu seu clímax. Responsáveis pelas maiores realizações (burguesas) da revolução, as lideranças jacobinas, inebriadas por sua ideia metafísica de Verdade (Vérité), puseram em marcha uma práxis que invertia meios e fins, como assinalou o jovem Marx.(7)  A política, a atuação do poder público, de meio para a afirmação da propriedade privada burguesa, converteu-se em um fim em si mesmo, relegando a simples papel de meio as relações mercantis burguesas, subordinando às razões do novo Estado em construção aquilo que era, na verdade, a sua base econômica fundamental. Segundo a moral jacobina, a “salvação pública” deveria estar acima da ganância privada, e jamais poderia se deixar corromper por esta. A crença, naquele momento histórico, em um público verdadeiramente público, o qual deveria, se necessário, combater a ferro e fogo os vis interesses privados da alta finança, fez do jacobinismo simultaneamente uma força política heroica e, segundo Deutscher, uma “utopia antecipadamente condenada”, já que a história teria que deter-se em seu curso para salvá-lo. (8) Colocando “público” e “privado” de ponta a cabeça, os jacobinos puseram em execução uma política desenfreada de corte de cabeças cuja a dinâmica foi de encontro à classe que estava economicamente na cabeça da sociedade.  Ao tentar ir além de suas possibilidades e funções históricas objetivas, ao transformar o momento de verdade em verdade do momento, a ideologia pequeno-burguesa de santificação racional do “público” foi longe demais, tornando-se insuportavelmente ideológica para os ideólogos do “bem comum”, e transformando o jacobinismo num adversário objetivo da burguesia. Isto, entre outros aspectos, é o que explica tanto as medidas sociais democráticas quanto os métodos ditatoriais do jacobinismo. Tendo este, conforme a expressão de Trotsky, significado o “máximo de radicalismo de que a sociedade burguesa era capaz”(9), acabou sendo célere e violentamente repelido por aquela, não sem antes, também com violência, ter lhe aberto o caminho.

    Sob um capitalismo crepuscular que, totalmente senil, busca alcançar uma austeridade total, a ideologia jacobina de antanho encontra seu oposto na ideologia anticorrupção da atualidade. Não obstante serem ambas, por suposto, mistificadoras, elas proporcionaram/proporcionam ilusões de sentido político contrário. Se, na primeira, vigorava a defesa do “público” contra os interesses privados, do interesse “universal” face aos interesses particulares, na segunda, vigora a defesa dos interesses privados contra o interesse “público”, dos interesses particulares face ao interesse “universal”. A moral da crítica se converte, assim, em uma crítica moral, e a moralidade jacobina dá lugar ao moralismo anticorrupção. Sacralizado e intocável, o mundo dos interesses privados, o reino da propriedade privada, é que tem agora que se proteger da ganância do “poder público”. É este que corrompe aquele, e não mais o contrário. Não só na prática, como também no discurso, é o privado que deve prevalecer sobre o “público”, é aquele que deve impor sua acachapante vitória sobre este. Abertamente declarado como mero meio para a vigência do mercado, o Estado passa a ser descrito como um meio que deve mediar o menos possível para que seu fim, uma vida social totalmente mercantilizada, seja alcançado totalmente. O “público” e, por conseguinte, a política, passam a ser vistos, respectivamente, como o espaço o sujeito por excelência da corrupção. Assim, a ideologia anticorrupção condena os burgueses envolvidos em corrupção não por terem corrompido políticos e agentes estatais, e sim por terem cedido às pressões e tentações corruptivas destes e, por consequência, terem se tornado corruptores. Na moral pequeno-burguesa do século XXI, o mercado é sinônimo de realização, e o Estado, de corrupção.

    Um olhar não muito atento sobre o processo político brasileiro recente já nos permite visualizar a convergência funcional entre a profusão da ideologia anticorrupção e o avanço voraz das contrarreformas, ajustes fiscais e retirada de direitos em geral. O argumento de que “onde há Estado há corrupção” abre caminho para que a corrupção da vida social pelo mercado avance impudentemente. Assim, tudo aquilo que existe, mesmo que precariamente, de realmente público deve passar à alçada direta do setor privado. Tudo aquilo que, mesmo que degradadamente, exista como verdadeiramente universal deve passar ao controle particular do capital. Os serviços sociais públicos, produtos dialéticos tanto das necessidades da dominação/reprodução do capital em determinada etapa histórica, quanto das lutas populares(10), devem ser sumariamente privatizados. Os direitos sociais devem, o quanto antes, se tornar direitos mercantilizados. Para evitar a corrupção intrínseca à “coisa pública”, as empresas estatais também devem adentrar o caminho da privatização, de preferência demitindo seus trabalhadores langorosos e improdutivos. “Para que ninguém roube parte de nossa fortuna, é melhor que entreguemos logo toda ela a outrem, que dela cuidará melhor” – esta parece ser a brilhante lógica dos ideólogos brasileiros da anticorrupção. Enquanto ideologia privatista, o discurso anticorrupção parece ser parte importante daquilo que Ana Elizabeth Mota chamou de uma “cultura de crise”(11), cuja função é inculcar nos indivíduos a ideia de que, como mônadas, são exclusivamente responsáveis por si próprios, e que, se quiserem comer, terão que “empreender”.

    Portanto, mais importante do que saber se há ou não alguma ligação entre alguns magistrados da cruzada nacional anticorrupção e o capital monopolista internacional, entre procuradores ultra-religiosos e políticos da direita tradicional brasileira, é importante assinalar o fato de que todos eles nutrem, no fundamental, a mesma crença no fundamentalismo econômico neoliberal. (12) Isto ajuda a entender, também, a seletividade condenatória nos recentes escândalos de corrupção, já que, em tempos em que o mercado exige uma pletórica contrarreforma sem precedentes, um neoliberalismo integral, por assim dizer, os integrantes do Poder Judiciário a serviço do poder do capital não podem permitir que fiquem no (ou retornem ao) poder políticos adeptos de uma interferência, ainda que mínima, do Estado na economia. Numa conjuntura de ajuste fiscal total e eliminação universal de direitos, nem mesmo reformistas anêmicos adeptos de políticas sociais não-universais parecem ser aceitos pelo capital no comando da democracia liberal blindada brasileira. A fina sintonia capitalista entre privatização e anticorrupção se expressa também no fato de que até mesmo o líder político nacional do neofascismo, que se apresenta como um não-político, portanto não corrupto, é um defensor declarado da ortodoxia do mercado. Assim, se, por um lado, toda a barulhenta revolta de suas hostes militaristas e antidemocráticas coloca em risco a já crítica democracia liberal no país, por outro, seu delírio pelo retorno de um poder ditatorial-militar nada oferece de crítica efetiva ao capital.

    A ideologia da anticorrupção no Brasil do tempo presente é, pode-se dizer, a manifestação às avessas do jacobinismo francês de outrora. O seletivamente indignado pequeno-burguês paulistano do século XXI é o oposto histórico do pequeno-burguês parisiense do final do século XVIII, assim como os “empreendedores” conservadores de hoje, com suas camisas verde-amarelas da CBF, o são dos pretéritos artesãos revolucionários, com suas vestes sans-culottes. A atual “República de Curitiba” contrasta com aquela outrora sediada em Paris. O atual servilismo togado para com as altas elites contrasta com a independência jacobina diante das altas elites de então. A covardia de jovens procuradores que se guiam pelo Sermão da Montanha se opõe, pelo vértice, à audácia que guiava os velhos montanheses. O implacável terrorismo da Justiça contra o povo de hoje se difere daquela remota tentativa febril de fazer a justiça do povo pelo terror. O moralismo neoliberal que preside a Lava-Jato, expressando anseios econômico e politicamente particularistas, aparece como o reverso da moral universalista que presidia o velho Comitê de Salvação Pública. Assim, le mensonge ocupa o lugar de la Vérité e, finalmente, os magistrados da cruzada anticorrupção surgem como antípodas tardios de Marat, Hébert, Danton e Robespierre, o incorruptível.     

    No Brasil atual, portanto, a revolta genérica, ideológica, contra a corrupção é, objetivamente, a defesa da ordem da corrupção generalizada do capital. No cenário político presente do país, nada mais conformista do que a inconformidade abstrata com a corrupção, nada mais corruptor da política do que a ideológica crítica aos “políticos corruptos”, e nada mais mantenedor de uma ordem social corrompida até o âmago pelo capital do que a ideológica luta da “sociedade contra a corrupção”.

    A esquerda socialista brasileira deve, é claro, criticar a corrupção, mas tal crítica só faz sentido se não se deixar enredar nas insidiosas teias da ideologia anticorrupção propagada pelos contrarreformistas neoliberais, se não auxiliar indiretamente estes últimos por meio de uma retórica udenista de esquerda. A crítica socialista à corrupção só adquire potencial emancipatório se fizer parte de uma crítica que procure expor às massas a falsa universalidade, o falso conteúdo “público” do Estado e da democracia capitalistas. A luta contra a corrupção por parte da classe trabalhadora deve exibir a particularidade crítica daquele sujeito social no qual reside a única possibilidade de construção de uma concreta e verdadeira universalidade. De modo algum, a crítica que revela o caráter essencialmente privado do “poder público” pode se deixar confundir com a crítica daqueles que desejam eliminar o pouco que ainda resta de efetivamente público no país. Na conjuntura contrarreformista atual, a luta socialista contra a corrupção só será efetivamente crítica se souber operar nos marcos estratégicos de uma luta pela manutenção e ampliação de direitos, jamais se misturando à estratégia daqueles que criticam a corrupção visando a atacar os mesmos direitos. A luta dos trabalhadores contra a ilegalidade da corrupção deve ser, portanto, a luta por uma sociedade não alicerçada na maior de todas as corrupções legalizadas: a venda do sentido da vida em troca da possibilidade de sobreviver.

     

    1 – HOEVELER, R. e MELO, D. “A agenda anticorrupção e as armadilhas da pequena política” in DEMIER, F. e HOVELER, R. (orgs.). A onda conservadora: ensaios sobre os atuais tempos sombrios no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad X, 2016, p. 57-66. Ver também BRATSIS, P. “A corrupção política na era do capitalismo transnacional” in Crítica marxista, nº 44, 2017, p. 21-42.

    2 – Em outra oportunidade, abordamos o uso da ideologia anticorrupção como instrumento burguês-midiático para promover uma inflexão política nas massivas manifestações populares de junho de 2013 (DEMIER, F. Depois do Golpe: a dialética da democracia blindada no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad X, 2017, p. 69-81.).

    3 – Mateus 7: 23.

    4 – LUKÁCS, G. Die Zerstiirung der Vemunft. Aufhau-Verlag, 1954.

    5 – Quanto à discussão sobre o fundo público e acumulação capitalista em tempos neoliberais, ver BEHRING, Elaine R. “Crise do capital, fundo público e valor” in BOSCHETTI, Ivanete et al. (orgs.) Capitalismo em crise: política social e direitos. São Paulo: Cortez, 2010 e SALVADOR, Evilásio. Fundo público e Seguridade Social no Brasil. São Paulo: Cortez, 2010. Ademais, indicamos também o conjunto da produção realizada pelo Grupo de Estudos e Pesquisas do Orçamento e da Seguridade Social (GOPSS), ligado à Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), e coordenado pela própria Behring.

    6 – BOITO Jr., Armando. “Corrupção como ideologia” in Crítica marxista, nº 44, 2017, p.9-19.

    7 – MARX, K. Sobre a questão judaica. São Paulo: Boitempo, 2010, p. 51.

    8 –  DEUTSCHER, I. Trotski. O profeta armado. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005, p. 123.

    9 – Idem

    10 – BEHRING, Elaine e BOSCHETTI, Ivanete. Política Social: Fundamentos e História. São Paulo: Cortez, 2008.

    11 – MOTA, Ana Elizabete. Cultura da crise e seguridade social. Um estudo sobre as tendências da previdência e da assistência social brasileira nos anos 80 e 90. São Paulo: Cortez, 1995.

    12 – Devo a percepção mais clara dessa ideia a uma conversa com o intelectual e amigo Luís Fernandes, professor da UFF e da PUC-Rio.

     

  • Quatro motivos que demonstram o fracasso da intervenção no Rio de Janeiro

    Intervenção militar na segurança pública do Rio de Janeiro completa quatro meses e os índices de violência pioraram

    Nesta semana, o Estado do Rio de Janeiro completa quatro meses sob intervenção federal e militar na área de segurança pública. A medida foi anunciada por Temer (MDB) no dia 16 de fevereiro; e no dia 20 de fevereiro, de forma apressada, foi referendada no Congresso Nacional. Apesar dos gastos elevados das operações sob a responsabilidade da intervenção, os principais índices da violência e da segurança pública do Estado pioraram. Mesmo com todo o apoio da grande mídia, a cada dia fica mais difícil esconder o fracasso desta medida autoritária.
    Não faltam motivos para demonstrar que a intervenção militar não é a solução para a violência. Veja quatro deles:

    1 – Os índices de criminalidade só pioraram
    Os quatro meses de intervenção militar, longe de trazer uma melhora significativa na segurança pública do Estado, na verdade foi acompanhada de uma piora em vários índices de violência e criminalidade.

    Por exemplo, os roubos registrados chegaram a 60.709, um crescimento de cerca de 5% em relação ao mesmo período no ano anterior.
    Os tiroteios deram um salto. Nos quatro meses de intervenção militar foram registrados 3.210 tiroteios. No ano passado, no mesmo período (fevereiro-junho) foram contabilizados 2.355. Um crescimento de mais de 800 tiroteios.

    Nos últimos quatro meses aconteceram 23 chacinas, com 96 mortes. No total, os homicídios dolosos chegaram a 1.794, no período que vigora a intervenção militar.

    As principais vítimas são o povo pobre e negro das comunidades carentes do Estado. Cresce o verdadeiro extermínio da juventude negra das periferias.

    2 – Disparou o número de mortes pela polícia e em confronto
    No período de fevereiro a junho, 444 pessoas foram mortas pela polícia. Este número absurdo representa um aumento, nada mais nada menos, de 34% das mortes geradas pelos agentes de repressão do Estado, se comparadas ao mesmo período do ano anterior. As mortes atingem também os policiais – 39 morreram no mesmo período.

    No dia 07 de junho, moradores da Cidade de Deus denunciaram que um helicóptero da PM sobrevoou a comunidade atirando para baixo. No dia 11 de junho, o mesmo foi denunciado na comunidade da Maré.

    As operações só vieram aumentar a criminalização da pobreza. Para os governantes e chefes militares, basta morar numa comunidade para ficar exposto a este tratamento criminoso.

    3 – Execução de Marielle Franco continua sem respostas
    Nesta semana, vai completar 100 dias da execução da companheira Marielle Franco, vereadora do PSOL Carioca, e do motorista Anderson Gomes.
    Esse assassinato bárbaro tem um forte componente de um crime político e carrega as marcas do racismo, do machismo e da homofobia. Afinal, se dirigiu contra uma parlamentar, a quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro, uma mulher, negra, lésbica e “cria” do Complexo de favelas da Maré, que fazia da luta contra a opressão e a exploração uma das marcas do seu mandato.

    A execução sumária de Marielle e Anderson aconteceu durante a intervenção militar na segurança do RJ. E, nunca poderemos esquecer, Marielle acabara de ser eleita relatora da Comissão Especial da Câmara Municipal que acompanha os trabalhos desta intervenção.

    4 – Mega-operações milionárias tiveram resultados pífios e nenhuma transparência
    A “vitrine” da intervenção militar na segurança do RJ são as chamadas operações espaciais nas comunidades carentes. Foram realizadas três destas operações em fevereiro; nove em março; 34 em abril e 55 em maio. Numa escalada, que longe de amenizar a violência, só vem gerando mais insegurança para a maioria da população.

    No início de junho, na maior operação realizada até o momento, na região de Jacarepaguá, foram utilizados 5.370 militares e policiais (civis e militares). Esse enorme contingente foi disponibilizado para apreender, ao final da operação, apenas três pistolas e uma granada. Uma pessoa foi morta, um policial foi ferido e 13 suspeitos detidos.

    Os custos de cada operação não são divulgados com precisão. Mas, segundo dados obtidos pelo UOL, entre fevereiro e março, o custo dessas operações variavam entre R$ 472 mil e R$ 1,7 milhão por operação.

    E, ainda por cima, não existe transparência no fornecimento de informações sobre as operações. Dos 77 requerimentos enviados pelo Observatório da Intervenção, 37 foram indeferidos pela chefia das polícias e os demais sequer foram respondidos até o momento. Um verdadeiro absurdo.


    Intervenção militar não é solução

    Para enfrentar de verdade o grave problema da segurança pública, não só no Rio de Janeiro, como em todo o país, a saída está longe de ser uma intervenção militar. A utilização das Forças Armadas já foi tentada anteriormente, especialmente durante a Copa do Mundo e as Olimpíadas, sem significar uma solução significativa. Precisamos de medidas mais estruturais, que encarem realmente os graves problemas sociais que vivemos nas grandes cidades brasileiras.

    Qualquer saída para o problema passa pela ampliação qualitativa dos investimentos públicos nas áreas sociais: como educação, saúde, geração de empregos, saneamento e moradia; pela proposta, ao nível nacional, da desmilitarização da polícia militar, defendendo a criação de uma polícia civil e única, controlada pela sociedade e os movimentos que lutam pelos direitos humanos; e pela abertura imediata da discussão sobre a necessidade da descriminalização das drogas, com o objetivo de acabar com o tráfico e toda a violência gerada por ele.

    *Todos os dados do artigo tiveram como fonte o relatório do Observatório da Intervenção.

    Foto: O interventor federal na segurança pública do Rio de Janeiro, general Walter Braga Netto, concede entrevista coletiva à imprensa e apresenta o chefe do Gabinete de Intervenção Federal, o general Mauro Sinott. Tânia Rêgo/Agência Brasil

     

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    Três meses sem Marielle e Anderson

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  • Ontem eu sonhei que estava em Moscou

    “Ontem eu sonhei que estava em Moscou
    Dançando pagode russo na boate Cossacou”

    Luiz Gonzaga

    Daqui a milhares de anos, ou milhões, quem sabe. Quando o mundo como conhecemos hoje não existir mais. Quando nossa civilização tiver sido extinta. Talvez, algum outro tipo de criatura, vinda de outro mundo, acabe por vir explorar as ruínas da Terra. Em uma dessas expedições sobre nossa cultura, talvez, esses estranhos seres intergalácticos se deparem com uma competição que para eles é muito diferente. Em algum lugar da Terra, a cada quatro voltas ao Sol, equipes dos mais diversos países, das mais diversas línguas, se reúnem para correr durante 90 minutos atrás de um objeto esférico, em templos gigantescos onde o público que assiste gritava, torcia e chorava.

    Imagino que esse nosso querido viajante vindo das estrelas ficará sem entender muita coisa. Afinal, não tem como entender, o jogo apenas se sente.

    Ao redor do mundo todo crianças correm nas ruas com uma bola no pé. Em campos de concentração para refugiados sírios no Líbano, ela dá alegria para as crianças. Nos campos de terra das favelas e periferias do Brasil, ela tem o mesmo efeito. Durante horas, meninos e meninas correm em torno dela e em busca dela, em algum lugar de Camarões, ou da Libéria, ou repetem este mesmo ritual na Bolívia. A bola de futebol, que às vezes é feito de materiais que, se não fossem a imaginação e a paixão pelo jogo, seriam tudo menos uma bola, como uma meia ou papel de jornal, tem um poder mágico, quando se junta aos pés de uma criança. Essa junção, da bola com o pé infantil foi descrita por Galeano como a “definição da alegria”.

    Para a alegria acontecer não precisa de muita coisa. Uma bola, duas pessoas e algum espaço, qualquer espaço serve. O prazer de se jogar, de correr atrás de bola, a facilidade para o jogo, faz do futebol o esporte mais popular do mundo, e, o mais democrático.

    Porém, se o nosso amigo de outro mundo buscar estudar a história do futebol, verá que esse jogo, como tudo na Terra, foi seqüestrado por um pequeno grupo que busca fazer dinheiro e lucrar. Eles tentaram matar a alegria em nome dos bons negócios.

    O esporte em que se chutava a bola com os pés sempre existiu nas mais diversas culturas, na China, Grécia, com os astecas e nas mais diferentes épocas ao logo do globo temos relatos de jogos semelhantes. Porém, foram os ingleses no século XIX que colocaram algumas regras e organizaram aquilo que viria ser o soccer. Os historiadores e os ingleses que me perdoem, mas o futebol, futebol mesmo foi inventado no Brasil. Quando as regras e a rigidez tática foram substituídas pelo drible, pela ousadia, pela irreverência, aí sim, foi criado o futebol. Infelizmente no século XXI se joga muito mais soccer do que o futebol. Os times viraram empresas, e como empresa querem lucrar, o que não da lucro não é útil. Logo, o drible, a alegria, a tentativa de demonstrar talento não é útil, pois não dá resultado. Esta visão foi comprada por técnicos e comentaristas que criticam todo e qualquer jogador que dribla “pra trás”, que “faz jogadas sem efetividade”. Eles querem o jogo mais triste.

    Os estádios, palcos de lágrimas, espetáculos, e de um jogo a parte no duelo entre as torcidas, se tornaram teatros e luxuosas arenas. O grito, as bandeiras, o show, foi tudo substituído por silenciosos aplausos. O futebol para torcer se tornou o espetáculo para olhar. A fantasia de criar jogadas virou a prisão dos esquemas táticos. A ousadia está proibida naquilo que se tornou um dos negócios mais lucrativos do mundo. No soccer da força e velocidade, 1×0 é goleada, 0X0 é insistência e só quem ganha são os que lucram em cima da paixão de milhares.

    Mas o futebol resiste. A brincadeira de criança com a bola no pé, de dançar em cima da bola, como se dança em pista de dança. De correr sem motivo, em todas as direções, sem juiz (aquele ser odiado por todos), sem tempo. Só a criança, a bola e a alegria. O futebol renasce em cada criança que chuta a bola pela primeira vez. Em cada jogo no campo de terra, nas quadras, das periferias e cidades mundo a fora. Em cada “racha” e “pelada” entre amigos nos dias de domingo. O jogo, ainda vive, em cada gol de Mo Salah, nos drible de Neymar e nas lágrimas de Vinicius Jr.

    Em cada quatro voltas ao sol, o planeta bola para para assistir esse jogo. Que apesar de tudo ainda consegue nos emocionar e fazer torcer. A cada quatro voltas ao sol, adultos, que já foram crianças e já sonharam em ser jogadores de futebol, param o que estão fazendo, e tornam-se crianças novamente, e esperam que pelo menos naquela estranha competição chamada Copa do Mundo o futebol volte a ser futebol.

    Foto: Crianças jogam bola na África do Sul. Site Big Picture

    Mais sobre a cobertura da Copa, no Lateral Esquerda:

    Lateral Esquerda

  • A nova crise do governo Temer e a necessidade de uma alternativa da classe trabalhadora

    O pedido de demissão do presidente da Petrobras, Pedro Parente, escancarou a nova crise política atravessada pelo governo Temer (MDB). Diferentemente das crises anteriores, que foram deflagradas por denúncias de corrupção envolvendo o presidente e o núcleo duro do governo, a atual crise resulta diretamente das mobilizações grevistas de caminhoneiros e petroleiros. Em seu conjunto, esses dois movimentos levaram uma significativa parcela da opinião pública a questionar a política de preços da Petrobras, que é um dos pilares do programa econômico de Temer e do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (MDB). Essa política, ao atrelar o preço dos combustíveis no Brasil às oscilações do mercado internacional, penaliza a maioria da população para garantir a remuneração dos acionistas e ampliar o espaço de penetração das companhias petrolíferas estrangeiras no mercado brasileiro.

    Essa condução da Petrobras soma-se a uma longa lista de fracassos da política econômica de Temer e Meirelles (apoiada por diversos partidos, como PSDB e DEM), que não consegue viabilizar um amplo crescimento do PIB do país, nem garantir trabalho aos quase 30 milhões de desempregados e subempregados. Ilegítimo e altamente impopular, esse governo só pôde se manter de pé até agora, em grande parte, por conta de sua disposição para aplicar o programa econômico das principais frações da burguesia no Brasil e no exterior, atacando direitos sociais e trabalhistas e privatizando ativos públicos brasileiros. Já tendo abandonado qualquer tentativa real de aprovar a contrarreforma previdenciária ainda este ano, caso não consiga manter a política da Petrobras e debelar a crise social, o governo poderá se tornar cada vez mais dispensável para amplas parcelas das classes dominantes.

    O perigo das saídas reacionárias para a crise

    Uma vez deflagrada a crise, diversos setores conservadores e reacionários rapidamente começaram a se movimentar para garantir uma saída que atendesse aos seus interesses. Durante a greve dos caminhoneiros, parcela do empresariado do setor de cargas buscou se apresentar como direção do movimento e suspender as mobilizações após o primeiro anúncio da redução dos preços do diesel. Essa iniciativa foi fortemente rechaçada pela categoria dos caminhoneiros, com grande peso dos trabalhadores autônomos, que optou por continuar paralisada.

    Entretanto, ainda mais preocupante foi o momento subsequente, em que ganharam espaço os grupos de extrema-direita que defendem a derrubada do governo Temer por meio de uma intervenção militar. Embora não tenham encontrado eco imediato na cúpula das Forças Armadas, que atuou na repressão ao movimento, tais grupos conseguiram ampla projeção para suas ideias e acumularam forças no cenário de crise. Buscando evitar que essa alternativa ganhe ainda mais força, setores da burguesia e seus representantes políticos já cogitam uma possível resolução para a crise por dentro do regime vigente, que poderia assumir a forma de uma eleição indireta no Congresso para que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), substitua Temer.

    A necessidade de uma alternativa dos trabalhadores organizados

    Evidentemente, nem a intervenção militar, nem a substituição de Temer por Rodrigo Maia ou qualquer outro agente político comprometido com o programa econômico da burguesia interessam à classe trabalhadora. Por isso, defendemos que a sucessão de Temer e a saída para essa crise social e política só podem ser definidas por meio da ampla participação popular em eleições gerais para a Presidência e para todo o Congresso. E, para que tal processo eleitoral seja legítimo, é indispensável que seja assegurado o direito de Lula (PT) concorrer. Sua candidatura não pode ser cassada por um Judiciário seletivo, oportunista e reacionário.

    A defesa dos direitos democráticos de Lula, entretanto, não nos torna defensores de seu projeto político. O projeto de conciliação de classes implementado em seu governo desmobilizou a classe trabalhadora e permitiu que a burguesia e a direita acumulassem forças para o golpe de 2016. Assim, diferentemente de Lula e do PT, nosso projeto se orienta pela completa independência da classe trabalhadora e pela rejeição de um modelo de governo em colaboração com a burguesia.

    Nas urnas, esse projeto se apresenta por meio da candidatura presidencial de Guilherme Boulos e Sonia Guajajara, sustentada por uma aliança entre partidos e movimentos sociais (PSOL/PCB/MTST/APIB). Nas ruas, essa posição se expressa pelo chamado a que todas as centrais sindicais, frentes de luta, partidos e movimentos sociais combativos se integrem às mobilizações do dia 07 de junho, convocadas pelos servidores públicos federais e pelos petroleiros. É preciso transformar esse dia em um forte grito de repúdio à política de preços da Petrobras e a todos os ataques à classe trabalhadora.

    FOTO: Temer e Parente. Acervo Agência Brasil.

  • Hora de sangue frio, e cabeça erguida

    Após dez dias de paralisação nas estradas, a crise política e social está instalada no país. Embora haja sensível redução da greve de caminhoneiros, que caminha para o fim após forte repressão do Exército e da polícia, o cenário é de enorme instabilidade e incertezas. 

    Neste contexto, teve início a greve nacional de petroleiros na quarta (30). Com a liminar do TST que decretou a greve abusiva e a presença de tropas do exército em refinarias e terminais, é possível que o movimento faça um recuo momentâneo. Os trabalhadores exigem a redução do preço do gás de cozinha e combustíveis, a demissão do presidente da companhia, Pedro Parente, e o fim do processo de privatização da estatal. A luta dos petroleiros pode incidir positivamente sobre a conjuntura. Merece, assim, a mais ativa solidariedade para vencer. 

    Um governo nas cordas e o fortalecimento da extrema-direita

    Como resultado da revolta dos caminhoneiros, o governo Temer se encontra ainda mais fragilizado. A crise política é de grandes proporções. Estamos perante uma crise de governo que é a instituição mais importante de um regime presidencialista. A incapacidade gerencial diante de uma ameaça anunciada, o quadro de desabastecimento, a opção por soluções improvisadas, concessões que dividem a classe dominante, entre outros elementos, revelam a confusão e as disputas existentes no andar de cima. 

    Por outro lado, observamos a extrema-direita exercendo intensa pressão sobre a conjuntura e promovendo algumas ações de importância. Houve marchas em Brasília, na avenida Paulista, cidades do interior e até em regiões periféricas na segunda (28). Jair Bolsonaro declarou apoio à paralisação. Mas, pressionado por setores empresariais, terminou pedindo o fim do movimento. Ou seja, a extrema-direita, que começou apoiando a greve, terminou fazendo apelo pelo fim dela. Ademais, as FFAA e a Polícia Federal foram para as estradas para reprimir a greve dos caminhoneiros, sendo fundamentais para desmontar os bloqueios – e agora ameaçam fazer o mesmo com a greve de petroleiros. Quer dizer, a “intervenção” militar ordenada por Temer fez refluir o movimento dos caminhoneiros. 

    Temer preside um governo morto-vivo, tremendamente enfraquecido. Mas  instituições do regime estão fortes e ativas, como podemos ver pelas atuações do Judiciário e das forças repressivas (FFAA e Polícia Federal) nas greves. A crise de governo se dá no marco de uma situação política defensiva para os trabalhadores, na qual prevalecem os elementos reacionários. Há pressões bonapartistas, autoritárias, que se revelam com mais nitidez no crescente discurso favorável à intervenção militar. Por outro lado, existe uma disposição dos trabalhadores e oprimidos em resistir aos ataques desferidos, em lutar em face da piora dramática nas condições de vida e em defesa dos direitos conquistados. A combinação desses dois fatores produz um cenário de muita instabilidade. 

    Não há um golpe militar em marcha, mas o discurso da intervenção é perigoso

    Embora exista uma forte agitação pela intervenção militar, com respaldo em setores de massa, não há perigo de sublevação militar no curto prazo. Nem o imperialismo nem a classe dominante nacional têm essa linha, neste momento. Não se improvisa uma insurreição militar. Seria necessária a reunião de muitos fatores inexistentes: unificação da maioria da classe dominante, que ainda não existe; apoio majoritário na classe média, incapacidade de resistência entre os trabalhadores, uma disposição das FFAA, cenário internacional receptivo, uma agitação prévia com cumplicidade da mídia, um plano de governo, um projeto estratégico. Nenhum desses elementos estão presentes na conjuntura, embora possam se desenvolver mais adiante, caso a crise se agrave, no médio prazo, qualitativamente. 

    É preciso assinalar, ainda, que a greve de caminhoneiros não foi um lockout patronal, apoiado pelos EUA, com o objetivo de impor um golpe militar. Quem fez essa leitura do processo, se equivocou redondamente. 

    Há, sim, uma corrente de opinião ascendente, como peso minoritário de massas, que defende a intervenção militar e teve expressiva influência na greve, e por essa razão deve ser duramente combatida, assim como existe um perigoso processo de fortalecimento das Forças Armadas, que está de volta à cena política, inclusive com a presença de ministros militares no governo Temer. O necessário e enérgico combate à extrema-direita e Jair Bolsonaro não deve ser confundido com o alarmismo de uma iminente quartelada militar.

    Golpe dentro do golpe?

    Mas há ameaça de um “golpe dentro do golpe”, para forçar a formação, com ou sem Temer, de um governo mais autoritário? Tampouco parece ser a hipótese mais provável. Especula-se a respeito de pressões pela convocação do Conselho da República, Estado de emergência ou de sítio. Pressão que viria de uma fração da burguesia, setores como o de transportes e o agronegócio. Na hipótese de um governo de transição, Rodrigo Maia é tido como o substituto de Temer, após pressão pela renúncia ou de votação na Câmara de Deputados para o afastamento do emedebista. Neste momento, parece pouco provável que Temer venha a ser derrubado por um golpe palaciano. Faltando poucos meses para as eleições, a classe dominante prefere esperar o término de um governo moribundo do que correr o risco de uma instabilidade adicional provocada por uma nova troca de presidente. O risco de Temer cair estará colocado caso a crise se agrave e saia do controle. 

    A esquerda e a crise política: é preciso agir

    Os aspectos contraditórios da revolta dos caminhoneiros, que mesclou o protagonismo de trabalhadores autônomos com interesses empresariais, e o peso político da extrema-direita no processo, provocou muita confusão e paralisia na maioria da esquerda e no movimento sindical. Sem reconhecer o caráter progressivo da greve, que levantou uma pauta popular e catalisou o mal estar social, as centrais sindicais e o PT ficaram inertes ao longo da última semana, não sendo capazes de propor uma linha de ação efetiva, e nem mesmo de apoiar ativamente a greve de petroleiros. Assim, facilitaram o avanço da influência da extrema-direita entre os caminhoneiros e o povo.

    Com a luta dos petroleiros, porém, está dada uma nova oportunidade para a esquerda, as centrais e os movimento sociais. É preciso abraça-la, ainda que haja um recuo da greve nesta quinta (31), com a mesma disposição e energia que os seguidores de Jair Bolsonaro intervieram na paralisação nas estradas. Nesse sentido, tem muita importância a convocação unificada, para o quanto antes, de um dia nacional de protestos e greves. Os atos chamados pelas Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo em algumas capitais, nesta quarta (30), foram um primeiro passo positivo, mas ainda insuficiente. A unidade dos trabalhadores e da esquerda pode fazer a diferença. Ainda há tempo para disputar a conjuntura pela esquerda, mas esse tempo é escasso. É preciso coragem.

  • Veja o que já parou na greve nacional petroleira

    Quadro nacional de greve, divulgado pelo coletivo Resistência Petroleira às 09h, mostra que o movimento começou com grande adesão. Categoria não se intimidou com a decisão de ilegalidade da greve e nem com a forte presença de militares e policiais em todas as unidades da empresa. Veja o que já parou:

     

    UNIDADES E REFINARIAS:

    REFAP (Canoas/ RS);
    REPAR (Araucária/ PR);
    Araucária Nitrogenados (Araucária/ PR);
    Usina de Xisto (São Mateus do Sul/ PR);
    RECAP (Mauá/ SP);
    REPLAN (Paulínia/SP);
    REVAP (São José dos Campos/ SP);
    RPBC (Cubatão/ SP);
    REDUC (Duque de Caxias/ RJ);
    CENPES (Rio de Janeiro/RJ);
    REGAP (Betim/ MG);
    RNEST (Ipojuca/ PE);
    LUBNOR (Fortaleza/ CE);

     

    TERMINAIS:

    Terminal Alemoa (Santos/ SP);
    Terminal Pilões (Santos/ SP);
    TEBAR (São Sebastião/ SP)
    UTGCA (Caraguatatuba/ SP)
    TABG (Rio de Janeiro/ RJ);
    TEBIG (Angra dos Reis/RJ);
    TEVOL (Volta Redonda/ RJ);
    Terminal de Paranaguá (Paranaguá/PR);
    Terminal de Suape (Suape/ PE);
    TECARMO (Carmópolis/ SE);
    TEMADRE (BA)
    TEDUT (RS)
    TENIT (RS)
    TERIG (RS)

    EXPLORAÇÃO:

    UPGN Pilar (Pilar/ AL);

    Campo Terrestre de Furado (São Miguel dos Campos/ AL);

    Plataformas do Norte Fluminense: greve iniciou em diversas plataformas. Aguardando atualização;

    Plataformas da Bacia de Santos: greve iniciou. Aguardando atualizações;

    CE: plataformas sem rendição, sem embarques. Pessoal a bordo vai desembarcar e entregar a unidade às gerências;

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