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  • O mapa das eleições estaduais

    Com o Brasil mergulhado em uma aguda crise econômica, política e social, a corrida presidencial adquiriu grande centralidade no processo eleitoral. Entretanto, ainda que a presidência seja o posto principal da estrutura política brasileira, as eleições para os executivos estaduais também possuem grande relevância. Os governadores não apenas são responsáveis por questões do cotidiano da população (como segurança pública, saúde e educação, entre outros), como, também, participam da dinâmica política nacional, exercendo pressões sobre o governo federal e articulando iniciativas com as bancadas federais de seus estados.

    A despeito dessa importância, rascunhar um quadro preciso da disputa nos 26 estados e no Distrito Federal é tarefa inglória, principalmente, em função da desigualdade dos dados disponíveis. Diante dessas dificuldades, o objetivo desse texto é apenas tentar delinear algumas tendências que se insinuam nas eleições estaduais, sem, entretanto, tomá-las como verdades absolutas.

    Para isso, tomo como referência as últimas pesquisas publicadas pelo Ibope em cada ente federativo. Essas enquetes foram produzidas em três momentos: entre 16 a 18 de setembro (AM, PA, RR, RO, AP, MA, PB, PE, BA, DF, MG, SP, RJ); em diferentes dias da primeira quinzena de setembro (RS, PR, ES); e em variados períodos da segunda quinzena de agosto (AC, TO, CE, PI, RN, SE, AL, MT, MS, GO e SC). Na observação desses dados, deve-se considerar que as pesquisas realizadas há mais tempo tendem a apresentar cenários mais distantes do existente hoje, em função da evolução posterior das disputas ainda não captada por novas pesquisas.

    O quadro geral: força da velha direita

    Um primeiro dado evidenciado pelas pesquisas mencionadas é o de que há relativa dispersão partidária dos votos para os governos estaduais, na medida em que 11 agremiações diferentes ocupam o primeiro lugar em, pelo menos, um estado.

    Em meio a essa dispersão, é importante salientar que os três partidos que constituem a coluna vertebral da Nova República (PT, PSDB e MDB) permanecem se destacando do conjunto. No caso específico do PSDB, é importante indicar que, além de liderar em quatro estados, o partido possui, ainda, três outros candidatos que estão em segundo lugar, mas tecnicamente empatados com os líderes de seus estados (SP, SC e RS). Fechando o grupo dos partidos que lideram em mais de um estado, aparecem o DEM e o PSB, partidos que tiveram papeis significativos nas coalizões dos governos federais, respectivamente, do PSDB e do PT.

    Essas constatações, entretanto, não deve conduzir à ideia de que haja um equilíbrio de forças entre os espectros amplos da direita e da esquerda. Se tomarmos como referência o impeachment de Dilma Rousseff – fato que marcou a principal encruzilhada política do último período –, os partidos que votaram contra a destituição da presidenta lideram em apenas 8 estados (6 do PT + 1 do PDT + 1 do PCdoB), ao passo que os favoráveis acumulam 20 lideranças.

    Mapa estadps partidos e o voto no impeachmentA depender da evolução do quadro eleitoral, essa correlação de forças pode ficar ainda mais desequilibrada, uma vez que o PT possui duas das lideranças mais frágeis: no Acre, há empate absoluto com o candidato do PP e, em Santa Catarina, empate técnico.

    Outro elemento significativo no cenário atual diz respeito ao grau de renovação nos governos estaduais. Dos 20 governadores que buscam a reeleição, dez ocupam a primeira posição, ao passo que outros cinco têm boas chances de alcançarem o segundo turno. Mesmo entre aqueles que não concorrem à reeleição, há inúmeros casos de políticos tradicionais com longas carreiras públicas que lideram as disputas em seus respectivos estados, como Eduardo Paes (DEM) no Rio de Janeiro, Antonio Anastasia (PSDB) em Minas Gerais e Helder Barbalho (MDB) no Pará. Esses dados sugerem que, a nível estadual, tem havido um relativo bloqueio à expressão mais contundente do sentimento de saturação com os políticos tradicionais que atualmente caracteriza boa parte do eleitorado.

    Dois elementos que podem ser inicialmente mobilizados como hipóteses para uma explicação dessa situação. De um lado, o peso das máquinas administrativas e dos currais eleitorais parece continuar sendo um fator preponderante na definição do voto estadual. De outro lado, é inegável que alguns políticos com longa experiência adotaram medidas de renovação formal de suas imagens, seja se afastando de partidos mais desgastados em determinadas regiões, seja adotando nomes públicos mais simpáticos.

    O reduto petista no Nordeste

    Em termos eleitorais, o principal contraponto a esse fortalecimento da direita tradicional está localizado no Nordeste. Naquela região, PCdoB e PT, lideram, respectivamente, em um e quatro estados. Em três deles, são muito elevadas as probabilidades de vitória ainda no primeiro turno (BA, PI e CE), uma hipótese que também não é inteiramente descartada nos outros dois (MA e RN). Configura-se, dessa forma, um importante reduto do bloco político que aposta na estratégia da conciliação de classes.

    Esse cenário é coerente com o realinhamento eleitoral do petismo e, mais especificamente, do lulismo, a partir do pleito de 2006. Desde então, Lula e Dilma obtiveram sólidas maiorias no Nordeste, que também tem se apresentado como carro-chefe das intenções de voto em Fernando Haddad.

    Como ala esquerda da ordem capitalista, ainda que não tenham rompido os padrões históricos de subordinação regional do Nordeste ao Sul-Sudeste, os governos petistas se caracterizaram por algumas políticas públicas que tiveram profundo impacto na região que concentra os maiores índices de pobreza do país. Dentre elas, é possível citar o avanço na infraestrutura (em especial, no que se refere ao fornecimento de energia elétrica), a abertura de universidades e institutos federais, as políticas sociais e as iniciativas de incentivo ao consumo.

    Apesar da força atualmente demonstrada, o médio prazo já anuncia um desafio importante para o bloco PT/PCdoB. Dos seus cinco candidatos que lideram as pesquisas, quatro são governadores em busca da reeleição, o que faz com que a extensão da força do bloco na região para além de 2022 dependa de uma necessária transição de quadros. Além disso, caso Haddad e Manuela saiam derrotados das eleições presidenciais, o mais provável é que os estados governados por seus partidos sejam colocados no final da lista de prioridades de qualquer presidente oposicionista, aumentando as dificuldades dos governadores.

    O PSOL como alternativa à esquerda

    Dentre as forças políticas que se localizam à esquerda do bloco PT/PCdoB, o PSOL é, inegavelmente, o que atinge os melhores resultados eleitorais. À exceção do Acre e do Amapá, onde não lançou candidaturas, o partido oscila entre 0 e 3% das intenções de voto em 24 estados. Ainda que tímidos, tais percentuais colocam o partido em empate técnico com os candidatos do PT em, pelo menos, cinco desses estados (MS, GO, DF, ES e PR).

    O quadro é completado pelo Rio de Janeiro, onde o Ibope atribui 4% das intenções de voto a Tarcísio Motta, ainda que haja um notório potencial para um desempenho ainda melhor. Em 2014, o mesmo candidato se aproximou dos 9% na apuração final, tendo como concorrente pelo voto de esquerda um quadro petista (Lindbergh Farias) muito mais experiente e conhecido do que Márcia Tiburi.

    Essa limitada influência eleitoral pode ser explicada por uma série de fatores. Em primeiro lugar, a conjuntura adversa, marcada por uma ofensiva burguesa e conservadora não apenas aproxima das posições de direita amplos segmentos da população, como, também, apresenta uma pressão pelo coesionamento da esquerda em torno do PT. Em segundo lugar, a opção política da maioria das coligações do PSOL de não aceitar os partidos da ordem – tanto de direita, quanto de esquerda –, reduz substancialmente o acesso de suas candidaturas ao tempo de televisão. Em terceiro lugar, a disparidade financeira entre o partido e seus concorrentes dificulta a obtenção de uma forte infraestrutura de campanha.

    A importância das candidaturas do PSOL, entretanto, não deve ser medida prioritariamente por fatores quantitativos, mas por sua distinção qualitativa em relação aos principais partidos do país, aí incluídos PT e PCdoB. Nesse terreno, o elemento fundamental é a sua capacidade de servir como ponto de apoio político e programático para os movimentos sociais mais combativos do país, estabelecendo pontes entre eles, rejeitando a conciliação de classes e preservando a estratégia de uma política independente da classe trabalhadora e dos setores oprimidos.

     

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  • Mais um jovem negro assassinado pela PM do Rio de Janeiro; até quando continuaremos morrendo?

    Um morador no Morro Chapéu-Mangueira, no Leme, Zona Sul do Rio, foi morto na noite desta segunda-feira (17), após ser atingindo com dois tiros, um no peito e um na perna. Rodrigo Serrano tinha 26 anos, era casado há sete, tinha dois filhos, e esperava a mulher e a filha no alto da ladeira do Leme. De acordo com familiares, Rodrigo foi assassinado por policias da UPP, que confundiram o guarda chuva que Rodrigo carregava com um fuzil.

    Durante a manhã de hoje, moradores protestaram pela comunidade contra a morte de Rodrigo e contra as violentas ações da Polícia Militar na região, pedindo o fim da UPP na comunidade. Muitos presentes no protesto carregavam guarda-chuva.

    Nas redes sociais, em especial na página “Meu Leme meu Rio de Janeiro”, muitos criticavam o horário que a Polícia Militar realizava as operações na comunidade, afirmando que muitas são realizadas no horário em que crianças largam da creche e de escolas.

    O sentimento de revolta, de indignação e a dor que os moradores do Morro Chapéu-Mangueira sentem é compartilhado por muitos, visto os constantes e sucessivos assassinatos que a PM carioca tem cometido ao longo do ano.

    Sábado passado, dia 15, o Instituto de Segurança Publica, ISP, divulgou que, no mês de agosto, foram 175 pessoas mortas pela Polícia Militar no estado, o maior número desde que se começou a registrar as ocorrências, há 15 anos.

    As vidas tiradas por conta de ações da Polícia Militar carioca não são apenas números e estáticas, mas são pessoas que tiveram suas vidas interrompidas por conta do braço armado do Estado.

    São jovens que não chegam à vida adulta e têm seus sonhos interrompidos. São pais de famílias que deixam filhos e mulher. São as mães que choram ao ver o corpo do filho sangrando no chão. São crianças que crescem sem pai. A violência policial naturalizada segue matando e destruindo vidas e famílias.

    O fato de um jovem negro carregando um guarda-chuva poder ser alvejado com tiros por parte do PM, que confundiram o objeto com um fuzil, mostra o racismo institucional sobre o qual a Polícia Militar atua. Um jovem negro é sempre suspeito. Parado na esquina com um objeto não identificado na mão, só poderia ser criminoso. O negro é sempre suspeito e criminalizado.

    As constantes mortes de inocentes cometidas pela PM e o crescimento no número de assassinatos e de tiroteios nas comunidades cariocas após o início da intervenção militar mostra que a Polícia Militar atua como um tribunal de rua, tendo carta branca do Exército, do governo do estado, e do governo federal, para primeiro atirar e matar, para em seguida checar se o suspeito (porque todos negros pobres são suspeitos) era envolvido ao tráfico.

    Em toda operação policial que termina com morte o roteiro é o mesmo. Caso o corpo negro assassinado não tenha passagem pela polícia, a PM lança uma nota lamentando e dizendo que foi mais um caso isolado. Caso existam antecedentes criminais, ou algum envolvimento com o tráfico de drogas, foi uma morte que merece ser comemorada, pois é um bandido a menos. Em todos os casos o corpo negro é descartável, de acordo com a lógica racista do Estado e da Polícia Militar.

    Assassinar um traficante negro é melhor para o Estado do que manter ele no depósito de gente que são as prisões brasileiras, já que morto o jovem negro traficante não contribui para as superlotações das penitenciarias do país.

    A política de guerra as drogas precisa acabar. Esta forma de lidar com as drogas gera somente mortes, superlotações das penitenciárias, criação e fortalecimento das facções criminosas e mais mortes, em um grande ciclo sem fim. Quem sofre com isso é a população negra e pobre, que mora no local de conflito entre facções e polícia militar, e é sujeito do mesmo confronto. Seja com o fuzil na mão, pelo lado da facção, ou usando a farda, pelo lado da PM.

    É mais do que necessário mudarmos a lógica da segurança pública. A militarização da segurança não é a solução.

    A intervenção militar no Rio de Janeiro também já se mostrou um fiasco, ela não serviu para acabar com o tráfico de drogas, mas pelo contrário, teve um aumento no número de assassinatos, crimes cometidos pela própria PM, e confrontos. Da mesma forma que as UPPs implantadas durante o governo do PT não servem para a resolução do problema de segurança pública.

    Para que a lógica de segurança publica se modifique, uma das pautas é a desmilitarização da PM. A Polícia Militar precisa ter outro modelo de funcionamento, pois o modelo sob o qual a instituição funciona é racista e antidemocrática, não sendo compatível com as necessidades, nem com a democracia brasileira.

    Porém, para que isso tudo ocorra, o modelo de segurança pública precisa deixar de ter os corpos negros como um alvo, de enxergar o negro morador de favelas e periferias como um inimigo em potencial do Estado. O Estado brasileiro tem, em sua formação, o racismo como algo estruturante e profundas modificações estruturais precisam ser feitas para que ocorram verdadeiras mudanças na forma de atuar do Estado e de suas instituições.

    Agora é preciso dar um basta na escalada de violência no Rio de Janeiro, levantando a bandeira do fim da intervenção militar no estado, das UPPs, e da política de guerras. Também é preciso demonstrar toda solidariedade e apoio necessário à família de Rodrigo, para que sua morte não seja tratada apenas como mais uma estatística.

    Vidas negras importam, vidas da favela e da periferia importam. Nossas vidas importam.

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    Por uma segurança pública a favor da vida

  • O baile sem máscaras: O real e o eleitoral no degradado Rio de Janeiro

    “Portanto, não tenhais medo deles! Nada há de encoberto que não venha a ser descoberto, nada de secreto que não venha a ser conhecido” (Mateus 10: 26)

    O quadro eleitoral no Rio de Janeiro aparenta ser a melhor expressão, didática porque hiperbólica, da blindagem que caracteriza a atual democracia liberal brasileira. O fosso entre a rousseauniana “vontade popular”, entre o que as maiorias aspiram, e as esferas do poder político, as instâncias decisórias do regime, para ter atingido uma dimensão sem precedentes, produzindo um verdadeiro hiato entre as praças e o Parlamento, entre as ruas e o governo.

    Concedendo compulsivamente a si mesma obscenas isenções fiscais, e praticando saques pletóricos aos cofres públicos, a lumpemburguesia fluminense, representada pelo PMDB e seus aliados, quebrou o Estado do Rio de Janeiro. Os professores e demais servidores públicos ficaram meses sem receber seus salários, os polos petroquímicos foram arruinados, os estaleiros navais afundaram, a UERJ foi sucateada, a Saúde ficou doente, o desemprego aumentou exponencialmente, a violência cotidiana tornou-se insuportável e a desagregação social tornou-se indisfarçável. Com a ordem, aval ou omissão dos chefes do aparelho estatal, Marielle foi executada e quase ninguém duvida que os mandantes do crime político circulam ou circularam nos palácios. O desastre é de tal monta que todos os véus foram ao chão, todos os disfarces foram rasgados, e nem mesmo a tradicional ideologia midiática pró-establishment conseguiu evitar que enorme parte da população tomasse ciência dos fatos. Eles são nítidos como um girassol de Fernando Pessoa, e nem mesmo os responsáveis pelo caos tentam se eximir de culpa, pois talvez, como totais psicóticos, sequer a nutram. Parafraseando a bíblica sentença de Fiódor Dostoiévsky, pode-se dizer que tudo já é do conhecimento de todos e tudo o que estava encoberto já foi revelado.

    A popularidade do atual governador é praticamente nula, e não há praticamente um só bípede com polegar opositor entre a população fluminense que não saiba de sua associação direta com o ex-governador, assim como deste com o ex-presidente da Assembleia; deste – por óbvio – com seus filhos; destes com os sucessivos líderes do governo na mesma Assembleia; destes, por sua vez, com os parvenus de guardanapos na cabeça, e, claro, da turma toda com o ex-prefeito da capital e seus atuais e ex-menudos da Zona Sul. Pezão amava Cabral, que amava Picciani, que amava os filhos, que amavam Albertassi e Paulo Mello, que amavam Sérgio Côrtes e Wilson Carlos, que amavam Cabral, que amava Paes, que amava Pedro Paulo, que amava os Barata e os Cavendish, que amavam Cabral, que amava, claro, toda a quadrilha, com o perdão do poeta de Itabira.

    No entanto, em função justamente dos diversos mecanismos de blindagem da democracia liberal contemporânea – com destaque para o poder econômico das candidaturas da ordem, as regras eleitorais (sobretudo a impudente desigualdade quanto à partilha do tempo de rádio e TV entre as candidaturas), a desigual cobertura da imprensa sobre os candidatos e a hegemonia neoliberal-conservadora construída antes e durante as campanhas pelos mass media –, a vontade popular, mais uma vez, não se fará vitoriosa quando da apuração do pleito no Rio de Janeiro. Convém adicionar que para este provável malogro do povo contribuirá, em muito, outro mecanismo de blindagem tipicamente fluminense, a saber, o poder político do crime organizado miliciano com seus currais eleitorais garantidos à bala. Assim, ao que tudo indica, não só Eduardo Paes será eleito governador do Estado, como a esmagadora maioria dos deputados estaduais eleitos advirão das fileiras da firma de Cabral e seus sócios. É assustador, trágico, mas é verdade. O baile provavelmente vai continuar, e agora sem as máscaras, já perdidas ou dispensadas pelos seus participantes há algum tempo.

    As muralhas do Palácio Guanabara e da ALERJ se mostrarão, novamente, praticamente impermeáveis aos desejos populares, isto é, às representações políticas que reivindiquem, de verdade, Educação e Saúde públicas e de qualidade, o aumento do emprego e dos investimentos em pesquisa, esporte e cultura, e sobretudo, o fim da barbárie cotidiana perpetrada pela polícia, o tráfico e as milícias. O virtual novo governador pode, em sua propaganda eleitoral, cinicamente prometer fazer algo diferente do que hoje existe, livrar o Estado dos demônios que nos atingem, mas todos, ou quase todos, sabem que “é pelo chefe dos demônios que ele expulsa os demônios”.

    O caso do Rio de Janeiro faz saltar aos olhos a constatação de que não há mais a menor chance – se é que houve algum dia – de que um projeto político baseado em direitos sociais possa ser construído por dentro das instituições vigentes, ou seja, por dentro da democracia blindada. A velha estratégia reformista, requentada pelo eurocomunismo, e temperada pelo chamado programa democrático-popular, de conquista progressiva das instituições por parte das organizações da esquerda socialista é hoje não só infrutífera, mas delirante e deseducadora. É a atual democracia liberal blindada que deve ser solapada para que direitos sejam garantidos e aprofundados. Para tal, o centro das lutas deve estar nas ruas, nas lutas cotidianas da classe trabalhadora e dos oprimidos. Para que tais lutas, por sua vez, possam se desenvolver, se espalhar e adquirir melhor organização, elas necessitarão de confiáveis pontos de apoio, de suportes, de estrutura, de audiência, e de voz. Assim, pequenos e difíceis – porém possíveis – furos na blindagem devem ser feitos, não com a crença de que a atual democracia liberal blindada possa vir a progressivamente se abrir e se metamorfosear em uma verdadeira democracia popular, mas sim com a esperança de que, por meio de tais furos, as lutas por direitos aqui de fora possam, ao mesmo tempo, ser alimentadas pelos defensores de direitos lá de dentro e, principalmente, acelerar a corrosão das estruturas internas de uma democracia que a cada dia revela seu real conteúdo antidemocrático e antipopular.

    No Rio de Janeiro, portanto, a candidatura de Tarcísio Motta para governador é fundamental. É preciso apoiá-la. No atual cenário sombrio, resistir é preciso, para que viver com dignidade, um dia, seja possível. A crescente adesão eleitoral de trabalhadores, intelectuais, artistas e da juventude plebeia a um candidato socialista como Tarcísio Motta e, principalmente, a destacada participação das socialistas feministas do Rio na fenomenal luta nacional das mulheres brasileiras contra o fascismo evidenciam que trincheiras estão sendo construídas para as difíceis batalhas que virão no Estado. “O mundo começa agora. Apenas começamos”.

  • O Brasil vive uma “normalidade democrática”?

    Na edição desta sexta-feira, 14 de setembro, a Folha de S. Paulo publicou uma matéria que merece nossa reflexão. No Uruguai, o presidente da República mandou prender o Chefe do Exército por 30 dias, porque ele criticou publicamente um projeto de lei do governo, que tramita no Congresso Nacional do nosso país vizinho da América do Sul. O projeto discute uma reforma do sistema de pensões militares e uma nova lei orgânica para as Forças Armadas.

    Não apoio politicamente o governo uruguaio, mas esse fato demonstra que o presidente Tabaré Vasquez não está subordinado a alta cúpula dos militares do seu país. Todos sabem que as forças armadas latino-americanas já produziram regimes ditatoriais e sanguinários, na história recente desta região.

    No Brasil, principalmente após o golpe parlamentar de 2016, assistimos impunemente generais da ativa e da reserva, como Vilas Boas (atual comandante do exército) e Mourão (vice de Bolsonaro, que entrou na reserva no final do ano passado) intervirem diretamente na vida política do nosso país. E cresce a presença de militares a frente de postos chaves, como Ministérios, no governo ilegítimo Temer.

    Vilas Boas já levantou a possibilidade do questionamento do resultado das eleições de 2018, fez postagens nas redes sociais na véspera do julgamento de um habeas corpus de Lula no STF defendendo sua rejeição e se arvora no direito de realizar sabatinas com os candidatos a Presidente.

    E, o que é ainda pior, o general da reserva Hamilton Mourão, que atualmente é o presidente do Clube Militar do Rio de Janeiro, se elegeu para presidir esta “sinistra” instituição defensora da ditadura, desferindo discursos de ampliar a intervenção política dos militares. E, por isso, vem coordenando uma iniciativa de mais de 70 candidatos militares nestas eleições, com o objetivo de eleger uma forte bancada no Congresso.

    Mourão, agora como candidato a vice-presidente na chapa de Bolsonaro (PSL-RJ), defende a legitimidade da ditadura militar, a prática da tortura, que o assassino e torturador Coronel Ustra é um herói nacional, o direito de um presidente da República promover um auto-golpe e fechar o Congresso e, mais grave, ano passado ele ganhou publicidade por defender – em um vídeo nas redes sociais – a nefasta ideia de uma nova intervenção militar no Brasil (coisa que agora ele renega, formalmente).

    Todos estes fatos ocorrem impunemente. Num contexto brasileiro onde assistimos uma intervenção militar e federal na área da segurança pública do Estado do Rio de Janeiro, que vem aumentando significativamente as mortes promovidas por agentes de segurança do estado nas favelas cariocas; a condenação sem provas de Lula, sua prisão política e o impedimento absurdo de sua candidatura presidencial, mesmo ele liderando todas as pesquisas de intenção de votos; e a execução sumária da camarada Marielle Franco (PSOL), depois de seis meses continuamos sem uma perspectiva real da conclusão sobre este crime político, sem sabermos quem matou e quem mandou matar a quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro e o seu motorista, Anderson.

    Não vivemos de fato uma real democracia em nosso país, e isso já vem de antes. Esse regime político apodrecido é no máximo um sistema que apenas garante privilégios para os ricos e poderosos. Entretanto, o que acontece no Brasil de hoje rasga até as mínimas regras do chamado Estado Democrático de Direito. E, a depender do resultado das eleições de 2018, este cenário sombrio pode ainda piorar.

    Derrotar Bolsonaro nas ruas e nas urnas
    Uma das grandes tarefas políticas do povo trabalhador, da juventude, dos oprimidos e da esquerda brasileira é derrotar Bolsonaro, candidato a presidente da extrema-direita neofascista. Sua vitória nas eleições vai aprofundar ainda mais esta escalada autoritária sobre as liberdades democráticas da maioria da população e os direitos sociais do povo trabalhador.

    Felizmente, cresce a cada dia o movimento “mulheres unidas contra Bolsonaro”, que impulsiona um grupo no Facebook que já se aproxima de 2 milhões de participantes e prepara protestos em todo o país para o dia 29 de setembro, ainda antes da votação do primeiro turno das eleições.

    Temos que apoiar, participar e defender com todas as nossas forças este legítimo e progressivo movimento das mulheres. Inclusive, neste momento, começam ocorrer várias outras iniciativas: “LGBT´s contra Bolsonaro”, “Negros e Negras contra Bolsonaro”, “Educação contra Bolsonaro”, entre outros. Todos confluindo para os protestos do dia 29 de setembro. Todo apoio!

    Mais uma vez, a campanha presidencial de Guilherme Boulos e Sonia Guajajara darão um exemplo muito importante. Neste sábado, dia 15 de setembro, vamos colocar a militância da Frente Política e Social formada pelo MTST, PSOL, PCB, APIB, Fora do Eixo / Mídia Ninja, entre outros movimentos e organizações de esquerda, para apoiar nas ruas a iniciativa “mulheres unidas contra Bolsonaro” e ampliar a convocação para as manifestações do próximo dia 29.

    Na nossa aliança não existe perdão aos golpistas e nem alianças políticas espúrias com a velha direita. Vamos, sem medo de mudar o Brasil!

  • PT anuncia Haddad e Manuela como substitutos de Lula

    Ex-presidente divulga nova Carta ao Povo Brasileiro

    O PT acaba de anunciar, em Curitiba, a substituição do candidato do partido à Presidência da República, após indeferimento de Lula pelo TSE. Fernando Haddad (PT), ex-prefeito de São Paulo e ex-ministro da Educação, e a deputada estadual Manuela D’ávila (PCdoB-RS), comporão a chapa que terá o desafio de transferir os votos que o ex-presidente, preso há cinco meses na Superintendência da Polícia Federal, na capital paranaense, teria, se fosse candidato. De acordo as pesquisas de intenções de voto, o ex-presidente lideraria, com algo em torno de 35%. O anúncio da decisão foi feito pela presidente do PT, Gleisi Hoffmann, seguido por leitura de nova “Carta ao Povo Brasileiro”, escrita por Lula.

    O indeferimento pelo TSE foi decidido no dia 31 de agosto, primeiro dia da propaganda na TV. O prazo para o anúncio da substituição terminou nesta terça-feira (11). A Justiça definiu, ainda, que o PT retire do ar todas as propagandas de TV e inserções que apresentem o ex-presidente como candidato.

    A substituição por Haddad faz parte da tática do PT para as eleições diante da judicialização do processo. “Não deram o direito a Lula disputar a eleição sub judice, como aconteceu com candidatos anteriores com processos julgados em segunda instância”, questionou a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, nesta terça. “Diante disso, estamos apresentando Fernando Haddad. E reafirmando a nossa aliança histórica com o Partido Comunista do Brasil, com Manuela D’ávila como candidata a vice”, completou, anunciando os nomes escolhidos para a disputa.

    Também estavam presentes o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, a ex-presidente Dilma Rousseff, os líderes do partido na Câmara dos Deputados, Paulo Pimenta, e no Senado, Lindbergh Farias, e a presidente do PCdoB, Luciana Santos.

    Carta de Lula
    Lula iniciou a carta questionando a Justiça. “Os tribunais proibiram minha candidatura à Presidência da República. Na verdade, proibiram o povo brasileiro de votar livremente para mudar a triste realidade do país”, iniciou. Em seguida, ele se defendeu das acusações que levaram à sua prisão. “Não cometi nenhum crime e fui condenado pela imprensa muito antes de ser julgado. Continuo desafiando a apresentarem uma única prova contra mim, pois não se pode condenar ninguém por crime que não praticou”, disse.

    A carta questiona ainda a judicialização e o descumprimento de decisões como as da ONU, que recomendava ao Brasil a garantia de condições para que o ex-presidente pudesse exercer seus direitos políticos.

    Decisão autoritária
    Lula está preso desde abril, condenado em segunda instância pelos crimes de lavagem de dinheiro e corrupção passiva. Desde a sua prisão, uma série de decisões têm sido tomadas com o intuito de retirá-lo das eleições, apesar de as pesquisas o colocarem em primeiro lugar, em qualquer cenário.

    Além da justiça, a mídia impediu a sua participação e de seu partido nos debates da TV e rádio e as últimas pesquisas o retiraram da lista de presidenciáveis.

    Essa escalada autoritária significa a continuidade e o aprofundamento do projeto que culminou no impeachment de Dilma, na posse de Temer e na série de medidas antipopulares que atacam diretamente direitos históricos dos trabalhadores, como a Emenda Constitucional 95 e a reforma trabalhista.

    O Esquerda Online, em seus editoriais, já apontou diversas vezes as críticas que possui aos governos do PT, tanto de Dilma, quando de Lula e ao projeto de conciliação defendido pelo partido como saída para o país, com, por exemplo, o erro de alianças com golpistas nessas eleições. Por isso, ajudamos a construir um outro programa para essas eleições, sem conciliação com os golpistas, que combata as desigualdades, que revogue todas as reformas de Temer e combata os privilégios de banqueiros e empresários. Construímos a candidatura de Guilherme Boulos e Sonia Guajajara, que sela uma aliança entre movimentos sociais como o MTST, a APIB, o PSOL e o PCB.

    No entanto, em primeiro lugar, é preciso ter compromisso com a defesa das liberdades democráticas. O caso Lula é uma aberração jurídica seletiva, desde a prisão até a retirada de seu direito de participar das eleições. Na prática, de forma autoritária, retira o candidato líder das pesquisas e transfere a decisão de todos os eleitores para alguns homens de toga. Esse é um ataque que não se resume a um partido, mas a todos que são comprometidos com as liberdades democráticas. Por isso, exigimos a liberdade de Lula e o direito dele ser candidato.

  • Cinco observações rápidas depois do atentado contra Bolsonaro

    O lobo pode perder os dentes, porém sua natureza jamais.
    Sabedoria popular romena

    Jamais se desespere em meio as sombrias aflições da vida.
    Das nuvens mais negras cai água límpida e fecunda.
    Sabedoria popular chinesa

    Os dois fatos mais importantes e, em grande medida, surpreendentes, da campanha eleitoral, até ontem, eram: (a) a força da autoridade de Lula, mesmo preso há meses; (b) a fragilidade de Alckmin, mesmo com o apoio da imensa maioria da classe dominante. A resiliência da influência de Lula não pode ser desconsiderada, diminuída ou relativizada. Se considerarmos a avalanche de ataques reproduzidos, ininterruptamente, pelas TV’s e rádios, e o tsunami de denúncias nas redes sociais, a recuperação do prestígio de Lula é impressionante. Se pudesse ser candidato Lula venceria, provavelmente, no primeiro turno, e de dentro da prisão. Não há qualquer processo sequer, remotamente, semelhante em país algum. Os números da preferência no Nordeste são avassaladores, mas a liderança de Lula é um fenômeno nacional, e indica de forma irrefutável que o desgaste de Lula foi interrompido e revertido. (1) As dificuldades de Alckmin até o início da campanha no horário eleitoral gratuito eram imensas. Elas indicavam que o desgaste do PSDB, depois do escândalo das gravações de Aécio, foi gigantesco e teve repercussão nacional. (2)

    2. O que mudou? Bolsonaro tende a se fortalecer ao se transformar em vítima de tentativa de homicídio. A mudança foi quantitativa ou qualitativa? Ainda não sabemos. Mas o atentado foi um episódio gravíssimo, e subestimá-lo – como ainda está prevalecendo em alguns círculos de esquerda – é perigoso. Ações têm impactos, imensuravelmente, mais dramáticos do que palavras. Um ataque assassino é uma agressão de ferocidade selvagem, de violência brutal. (3) Há em curso uma disputa de narrativas – foi a iniciativa de um lunático, ou uma conspiração da esquerda? – e serão necessários alguns dias para que a poeira assente. As grandes massas não acompanham, diariamente, a luta política. Mas Bolsonaro deve se reposicionar diante da opinião pública. Sua audiência nas camadas sociais mais populares deve, possivelmente, aumentar. Só resta saber quanto se fortaleceu. Só as pesquisas de opinião nos próximos dez dias poderão oferecer um quadro mais definido. Antes disso, tudo são especulações baseadas em experiências parciais, portanto, insuficientes. É preciso ter paciência e serenidade nesta hora. Evidentemente, as possibilidades de Alckmin se credenciar como a candidatura anti-PT, ou como o candidato do programa liberal que tem o apoio da mídia, e disputar um lugar no segundo turno, no mesmo espaço político de Bolsonaro, diminuíram.

    3. A faca feriu Bolsonaro, mas a estocada mortal pode ter sido na candidatura de Alckmin. Álvaro Dias e Meirelles, João Amoêdo ou Daciolo estarão em situação ainda mais frágil. Bolsonaro era uma candidatura orientada para a derrota no segundo turno, com uma rejeição acima de 40%. Essa realidade deve ter mudado. Bolsonaro pode suavizar a linha da extrema radicalização que usou até agora – porque estava preocupado em blindar seu eleitorado- para aproveitar a provável diminuição da rejeição, e assumir o lugar de candidato anti-PT que estará em melhores condições de vencer. (4)

    4. Deve se antecipar, em alguma medida, o contexto da disputa que iria se desenvolver no segundo turno para o primeiro, porque as duas candidaturas mais fortes deverão ser, mais claramente do que até ontem, a do Bolsonaro contra a do PT. Uma das características atípicas desta eleição era a imensa imprevisibilidade. Até esta semana era muito difícil prever quais seriam os dois candidatos favoritos. Mas as pesquisas passaram a sustentar como mais provável que o espaço de oposição a Temer e às candidaturas herdeiras do golpe seria ocupado por Haddad. A confirmação da capacidade de transferência de votos de Lula, na escala de mais de 50%, tem sido um padrão em processos eleitorais nos últimos trinta anos. A candidatura de Haddad, além de receber a transferência de votos do lulismo nas classes populares, e nos setores mais politizados e, sindicalmente, organizados da classe trabalhadora, poderá se beneficiar com o voto útil de frações da classe média, diante do medo de vitória de Bolsonaro no primeiro turno. (5)

    Outras candidaturas, como a de Ciro Gomes e Marina Silva, terão muita dificuldade de resistir à ofensiva do PT, a partir da oficialização de Haddad, quando começar o bombardeio de que Lula é Haddad. Não têm apoio de nenhuma fração burguesa significativa; não conquistaram aliados nos movimentos sindical ou populares; não têm respaldo social consolidado, a não ser em franjas minoritárias da classe média; não têm nem organização, nem implantação nacional; não têm tempo suficiente para se defenderem no horário gratuito. Quem apostou na subestimação da força do lulismo até hoje errou. A experiência com o lulismo é lenta. e foi, em grande medida, interrompida e até revertida.

    5. Boulos se consolidou como a principal liderança pública de esquerda radical com as ocupações do MTST, desde 2013. Ele é o legítimo herdeiro do que surgiu de mais avançado das jornadas de Junho. Desde o atentado contra Bolsonaro há uma disputa feroz de narrativas nas redes sociais. Nas ruas o ambiente ficou, também, mais pesado. Mas estamos com o pé no chão.

    Nosso desempenho nas pesquisas é pequeno. Com 1% estamos situados na margem de erro. Mas isso não é surpresa. Não deveria ser para ninguém no PSOL. Não seria melhor, tampouco, não importa quem fossem os candidatos. Seria, na verdade, pior, se não tivéssemos construído a Aliança com o MTST e a APIB. Sempre fomos realistas.

    Há quem pense que há atalhos para chegar à influência de massas: um abracadabra, uma palavra de ordem genial, uma tática ilusionista. Não há. Deixam-se enganar pela força do querer, seduzir pela omnipotência da vontade, e consumir pela aflição da ansiedade. O desejo pode muito, mas não é o bastante. Isso é pensamento mágico.
    Se a campanha não tivesse sido solidária a Lula, quando ele foi preso, seria uma vergonha politica irreparável, uma capitulação imperdoável à pressão da LavaJato. Teria sido, também, eleitoralmente, um desastre para as candidaturas proporcionais. Quem pensa que uma campanha orientada para a denúncia da direção do PT ampliaria a audiência da esquerda radical não compreendeu nada do que aconteceu no Brasil nos últimos dois anos. Não somente porque subestima o que foi o golpe de 2016. Não consegue sequer enxergar o perigo representado pela possível presença dos neofascistas em um segundo turno.

    Sabemos que a construção de um instrumento de luta que seja um ponto de apoio para superar as ilusões reformistas depende de um processo de experiência prática, ainda incompleto. A consciência de classe das amplas massas trabalhadores, dos oprimidos e do povo oscila. Em situações de ascenso de lutas avança. Em situações defensivas recua.

    A força da campanha do PSOl com Boulos/Guajajara está nos grupos de ação e nas dezenas de milhares que se reuniram para respaldar um novo projeto para a esquerda radical. Dezenas de milhares é muita gente. Saímos da escala das centenas, e até mesmo dos milhares. Viemos de longe, e sabemos contar. É preciso saber contar.

    NOTAS

    1 – Registrado como candidato do PT na disputa pela Presidência da República, o ex-presidente Lula tem 39% das intenções de voto estimulada e detém a liderança isolada na primeira pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha após o início oficial do período eleitoral. Ele tem larga vantagem sobre Jair Bolsonaro (PSL), que tem 19% e é seu adversário mais próximo neste momento. Os Institutos Datafolha e Ibope puxam nova bateria de pesquisas sobre a corrida presidencial após o atentado a Jair Bolsonaro (PSL) e a proibição da candidatura de Lula (PT) pelo TSE. Disponível em: http://datafolha.folha.uol.com.br/eleicoes/2018/08/1979559-39-votariam-em-lula-sem-
    petista-bolsonaro-lidera-disputa-presidencial.shtml Consulta em 10/09/2018

    2 – A gravação de um telefonema no qual Aécio Neves (PSDB-MG) e o empresário Joesley Batista, dono da JBS, acertam o pagamento de R$ 2 milhões para pagar advogados que defendem o tucano repercutiu como um escândalo que atingiu o PSDB. A gravação foi entregue por Joesley Batista ao Ministério Público Federal no acordo de delação premiada no âmbito da Operação Lava Jato. As delações dele e de Wesley Batista já foram homologadas e o sigilo do conteúdo, retirado. Em razão do que foi apresentado por Joesley, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Edson Fachin, relator da Lava Jato, afastou Aécio Neves do mandato de senador. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/audio-aecio-e-joesley-batista-acertam-pagamento-
    de-r-2-milhoes.ghtml Consulta em 10/09/2018

    3 – Adélio Bispo de Oliveira, desempregado e desequilibrado, com sintomas paranóicos há muitos anos, adepto de teorias conspiratórias, obsessões e fobias, desconexo e incoerente, fascinado pelo messianismo religioso, praticante de tiro, socialmente marginal, politicamente confuso e, psiquicamente doente, em uma ação insana, realizou uma tentativa fracassada de homicídio contra Jair Bolsonaro no dia 06/09/208. Deslocou a campanha eleitoral para um terreno muito perigoso. Disponível em: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2018/09/09/agressor-de-jair-bolsonaro-disse-em-depoimentos-que-achava-que-seria-morto-apos-atentado.ghtml Consulta em 10/09/2018

    4 – A primeira pesquisa realizada inteiramente após o atentado sofrido na última 5ª feira (6.set.2018) pelo candidato do PSL a presidente, Jair Bolsonaro, indica que ele chegou a 30% das intenções de voto. O levantamento foi realizado pela FSB Pesquisa, que foi contratada pelo banco de investimentos BTG Pactual. Em 2º lugar aparece Ciro Gomes (PDT), com 12% —que na realidade está empatado tecnicamente na margem de erro com os 3 candidatos que vêm a seguir, todos com 8%: Marina Silva (Rede), Geraldo Alckmin (PSDB) e Fernando Haddad (PT). https://www.poder360.com.br/pesquisas/apos-facada-jair-bolsonaro-vai-a-30-haddad-
    tem-8-diz-btg-pactual/ Consulta em 10/09/2018

    5 – A pesquisa Datafolha evidencia a consolidação da possibilidade de transferência de votos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o ex-prefeito Fernando Haddad, caso Lula seja impedido e o candidato a vice venha ocupar o seu lugar na chapa do PT, junto com Manuela D’Ávila, do PCdoB. Como candidato a vice, Haddad já aparece na pesquisa com 4% das intenções de voto. Seu potencial de crescimento foi confirmado por 49% dos entrevistados, dos quais 31% afirmaram que votariam em um candidato indicado por Lula enquanto outros 18% admitiram essa possibilidade. Mesmo sem Lula, o Datafolha confirma o PT no segundo turno. Outro dado que está escapando a esses analistas é o índice popularidade/rejeição dos candidatos apurado na pesquisa. De acordo com o Datafolha, a menor relação é a de Lula, conhecido por 99% enquanto é rejeitado por apenas 34%, abaixo ainda das suas intenções de voto. Jair Bolsonaro é conhecido por 79%, mas sua rejeição é de 39%, o dobro das suas intenções de voto.Já Haddad é conhecido por 59% dos eleitores e sua rejeição é baixa, de apenas 21%.
    https://www.diariodocentrodomundo.com.br/datafolha-garante-transferencia-de-votos-de-lula-para-haddad-por-geraldo-seabra/ Consulta em 10/09/2018

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  • Um mês para as eleições

    O momento é de polarização e enfrentamento ao golpe, e não de repetir o erro da conciliação

    O primeiro turno das eleições acontece no dia 7 de outubro. O horário eleitoral no rádio e na TV começou semana passada, ampliando a polarização política e a disputa pelo voto. O cenário eleitoral para Presidente da República segue indefinido, mesmo faltando um mês para a eleição, e cresce a campanha eleitoral nas ruas de todo o país.

    Definitivamente, esta eleição não é qualquer uma. Ela acontece depois do golpe parlamentar do Impeachment de 2016; da condenação sem provas de Lula, sua prisão política e o impedimento absurdo da sua candidatura; e, com Jair Bolsonaro, candidato da extrema-direita neofascista, assumindo a dianteira as pesquisas, no cenário sem o nome de Lula.

    As grandes empresas, a mídia burguesa e os bancos têm seu candidato: apostam suas fichas num possível crescimento do tucano Alckmin. O PSDB tem o maior tempo no horário eleitoral, estrutura de campanha, forjada na aliança com os partidos do chamado “centrão”. Mas, até o momento não decolou.

    Neste cenário, cresce percepção de que Bolsonaro pode realmente ir ao segundo turno. Setores importantes da burguesia brasileira já começam a admitir essa possibilidade, e já acenam com um possível apoio.

    No início da semana que vem, o PT deve substituir a candidatura de Lula por Haddad, cumprindo o prazo definido pela decisão antidemocrática do TSE. A direção do PT aposta “suas fichas” na possibilidade de transferência de votos do ex-presidente para seu representante nestas eleições.

    Ciro e Marina querem se colocar também como potenciais herdeiros de pelo menos parte do eleitorado identificado com Lula. Nas próximas semanas, o cenário ainda indefinido deve começar a ficar mais nítido: quais tendências vão prevalecer? Veremos.

    Enfrentar o golpe e sua agenda
    Nossa primeira tarefa começa por derrotar todas essas candidaturas que representam o golpe e o ajuste. Golpistas não merecem perdão!

    O povo trabalhador, a juventude e os oprimidos devem, em todos os dias que faltam para a votação, combater os candidatos representantes da retirada de direitos e dos ataques às liberdades democráticas. O resultado das eleições, a depender da evolução dos acontecimentos, pode fortalecer ainda mais esta agenda, colocando a iminência de novos ataques num futuro muito próximo, como a retomada da tramitação da reforma da Previdência, proposta pelo governo ilegítimo de Temer.

    Nossa campanha começa por enfrentar “os 50 tons de Temer”: combater Bolsonaro, Alckmin, Meirelles e Alvaro Dias, que apoiaram o impeachment e todos os ataques do governo Temer. E também Marina – que sempre gosta de aparecer como uma defensora de uma nova política – mas apoiou o Impeachment e, mesmo que de forma envergonhada, defende reformas reacionárias muito parecidas com as de Temer.

    Agora todos querem se desvencilhar da imagem do presidente mais impopular de nossa história. O oportunismo de Alckmin foi tanto, que o próprio Temer gravou dois vídeos lembrando ao candidato tucano que tanto o PSDB como todos os partidos da sua coligação são parte, ainda hoje, deste governo.

    Tudo pode ser ainda pior, se Bolsonaro se fortalecer. Pois, ele combina o que tem de pior na política brasileira, defendendo um programa econômico de ainda maior retirada de direitos, privatizações e entrega da nossa soberania, como a defesa da repressão e da criminalização contra os oprimidos, a classe trabalhadora e a esquerda. Portanto, vamos lutar para tirar Bolsonaro do segundo turno.

    PT repete o erro da conciliação
    Nesta semana, assistimos Fernando Haddad, vice de Lula e seu eventual substituto, visitando vários Estados do Nordeste. Nesta peregrinação, chamou a atenção mais uma vez as alianças do PT com partidos da velha direita, muitos inclusive que apoiaram o golpe.

    Como disse Guilherme Boulos: “relação PT e MDB é caso de divã”. Haddad posou para fotos e esteve em vídeos com Eunicio Oliveira (MDB-CE) – presidente do Senado que votou todas as reformas reacionárias de Temer; com Renan Calheiros (MDB-AL), presidente do Senado no Impeachment de Dilma; e com o governador de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB), que apoiou o golpe e a posse de Temer.

    Em 15 estados, o PT mantém a mesma política de alianças com setores da velha direita que apoiaram o golpe, como Minas Gerais, Piauí e Bahia. Também o PCdoB segue a mesma política, repetindo uma aliança muito semelhante no Maranhão, onde governa.

    A aliança do PT com os golpistas demonstra que a direção deste partido não tirou as lições do golpe, e segue defendendo governar junto com os partidos da velha direita, que tramaram o Impeachment e defenderam toda a agenda de ataques ao povo trabalhador que veio depois dele. Por isso, Haddad já defendeu inclusive a realização de uma nova reforma da Previdência, em sabatina no Banco Pactual.

    Ciro Gomes não fica atrás. Ele tentou até o último momento se aliar aos partidos do “centrão”, colocou a ruralista Kátia Abreu como vice e, seu principal assessor econômico, Mauro Benevides, já se comprometeu com a manutenção da política de privatizações e com uma nova reforma da previdência que segue a mesma lógica de privatização da Previdência social.

    Em última instância, o que explica o golpe foram os erros de governar junto com a velha direita. O PT no governo conviveu com “cobras venenosas como se fossem bichos de estimação”. Inclusive, nunca podemos esquecer que temer era o Vice de Dilma.

    Um novo governo que repita esses mesmos erros só vai gerar mais um fracasso político, provocando mais desmoralização aos trabalhadores e a esquerda, fortalecendo ainda mais setores da extrema direita e neofascista, como os representados hoje por Bolsonaro.

    Fortalecer uma nova alternativa de esquerda
    Para enfrentar de verdade o golpe e todos os seus ataques, nas eleições de 7 de outubro, o caminho segue sendo fortalecer uma nova alternativa de esquerda, socialista, do povo trabalhador, da juventude e de todos os explorados e oprimidos.

    Votar 50 pra presidente. Apoiar Guilherme Boulos e Sonia Guajajara, candidaturas lançadas por uma frente política e social inédita em nosso país, formada por partidos de esquerda como o PSOL e o PCB e movimentos sociais combativos como o MTST e a APIB. Esse voto não representa só uma opção correta numa eleição, mas também significa afirmar uma alternativa para o futuro das nossas lutas.

    Na nossa campanha é 100% contra os golpistas, nela não existem alianças com a velha direita. Defendemos um programa que realmente coloque “o dedo na ferida”, enfrentando os privilégios dos ricos e poderosos e propondo um governo que seja de fato dos trabalhadores e do povo.

    É por isso, que por onde passa Boulos e Sônia estamos reunindo milhares de trabalhadores e jovens, construindo uma nova esperança de esquerda em nosso país. Vamos, sem medo de mudar o Brasil!

  • TSE exclui Lula da eleição, em mais um capítulo do golpe

    Nesta sexta-feira, 31, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu, em sessão extraordinária, negar o registro de candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A votação, por 6 X 1, entrou pela madrugada. O que restava de vergonha entre aqueles que deram e compactuaram com o golpe parlamentar, foi novamente por água abaixo. Em mais uma arbitrariedade, ignorou-se até a opinião internacional, do Comitê de Direitos Humanos da ONU, que decidiu pela manutenção dos direitos políticos de Lula. Condenado em Segunda Instância e com recursos a serem julgados, ele poderia ser candidato.

    Novamente tivemos uma decisão tomada às pressas – o tema foi incluído na pauta poucas horas antes, após pedido da Procuradora-geral Eleitoral, Raquel Dodge. Os membros do TSE sequer tiveram tempo ou deram-se ao trabalho de ler o processo. Não há dúvida de que trata-se de um julgamento político, feito a toque de caixa, na véspera do horário eleitoral de TV e rádio para presidente.

    O caráter de classe da Justiça novamente foi revelado. Um dia depois de o STF legalizar a terceirização irrestrita, o TSE agiu para facilitar a vida dos candidatos que defendem as reformas e a agenda econômica do golpe, concluído há exatos dois anos.

    O TSE chegou a ir além. O relator indicava que o programa eleitoral do partido fosse retirado do ar até que Lula fosse oficialmente substituído e defendia o impedimento do uso da imagem de Lula na TV. Uma tentativa de evitar que Fernando Haddad, substituto de Lula, vinculasse a sua imagem a do ex-presidente e fosse ao segundo turno. Mas, após uma sessão fechada, de madrugada, os ministros recuaram, mantiveram o programa e permitiram a veiculação da imagem de Lula como apoiador – com o limite de 25% do tempo.

    Não compartilhamos do mesmo projeto político do PT e do PCdoB para o País. Não nos postulamos a governar para todos, em colaboração com os que sempre mandaram no Brasil. Por isso, construimos uma alternativa de classe, com Guilherme Boulos e Sonia Guajajara, do PSOL.

    Mas essa diferença estratégica não nos impede de ser capaz de sermos solidários com Lula, que permanece preso, em um julgamento marcado por irregularidades, e impedido de se candidatar, novamente em um processo viciado. Estamos diante de um ataque a liberdades democráticas mínimas que atinge, portanto, a toda a esquerda. Estaremos nas ruas e em nossa campanha eleitoral denunciando esse ataque.

    É preciso derrotar o golpe e a agenda econômica imposta por Temer e que nunca chegou a ser aprovada pelas urnas. O resultado dessas medidas tem sido desemprego, crescimento raquítico e uma enorme crise social, enquanto se preservam os lucros de bancos e empresários. Precisamos voltar às ruas, em novas manifestações unitárias, por direitos sociais e pelas liberdades políticas, começando pelos atos do dia 07 de setembro.

  • Bolsonaro, neoliberalismo e ojeriza à política

    Quem passou pelas bancas de jornal na penúltima semana certamente reparou na capa da revista Veja. Com o título “Ele pode ser o presidente do Brasil” e a foto de Paulo Guedes – economista escalado por Jair Bolsonaro para comandar sua equipe econômica – estampando a capa, este conhecido periódico de direita deixava claro para o bom leitor o tipo de aliança que representa essa candidatura.

    Por um lado, um legítimo Chicago Boy, aluno de Milton Friedman, que passou pelos grandes centros de pensamento neoliberal do país e chegou a lecionar na Universidade do Chile no auge da ditadura de Augusto Pinochet; além de, obviamente, ter enriquecido no mercado financeiro, primeiro com a corretora/banco Pactual e depois com o Grupo Abril e a Bozano Investimentos. Em suas aventuras na política, Guedes assessorou a campanha de Guilherme Afif Domingues nas cruciais eleições de 1989 e seria o assessor de Luciano Huck caso este não tivesse desistido de candidatar-se. Um curriculum irretocável para uma direita sem constrangimentos, que afirma que a polícia deveria ter carta branca para matar ou que não há limites para as privatizações. (1)

    De outro lado, Bolsonaro tem como aliado o general Augusto Heleno que, em evento reunindo parte dos 71 candidatos militares que tentarão o pleito este ano, afirmou que Bolsonaro “não é o candidato dos seus sonhos”, mas que “é o único com possibilidade de mudar o que está aí porque todos querem que se faça uma faxina no País”. (2) Segundo Guedes, a candidatura de Bolsonaro seria perfeita porque une a “Ordem e o Progresso”. A Carta ao Leitor da revista Veja é um capítulo à parte: critica Bolsonaro por ser “estatista”, e que por esse motivo não seria o candidato certo para os corretos planos de Guedes. Uma lição de como não combater Bolsonaro.

    Uma candidatura empresarial-militar?
    Podemos afirmar sem dúvidas que até muito pouco tempo atrás o nome que alguns ainda insistem em não dizer o nome (como se isso realmente fosse qualquer coisa de eficaz em combatê-lo) não era o preferido do grande empresariado brasileiro. Mas isso vem mudando. O empresariado é pragmático e quer saber com quem vai lidar a partir de 2019.

    Com Lula impedido de ser candidato, o único que, de acordo com todas as últimas pesquisas, seria capaz de vencer Bolsonaro, estaria fora do páreo. A direita neoliberal tradicional, com uma enorme dificuldade de construir uma candidatura única e um pouco frustrada com a total falta de carisma de nomes como Geraldo Alckmin, Álvaro Dias ou Henrique Meirelles, a falta de confiança em Ciro Gomes e as idas e vindas de Marina Silva, ainda se debate sobre o que fazer, depositando esperanças na máquina eleitoral, no tempo de televisão e nas coalizões.

    Assim, já enquanto segundo nome nacionalmente mais mencionado nas pesquisas, Bolsonaro passou a ser convocado para uma série de reuniões com empresários no Brasil e no exterior para explicar sua plataforma de política econômica. Em alguns eventos foi bastante aplaudido, e o nome de Paulo Guedes foi certamente um dos principais motivos para a súbita euforia que tomou conta desta parcela empresarial. (3) Embora ainda haja setores bastante reticentes, é claro um movimento de aproximação.

    De uma forma ou de outra, Bolsonaro, sem recuar de suas posições fascistas, teve sua candidatura aceita, jurídica e midiaticamente, como legítima dentro da democracia brasileira, o que por si só já é um acontecimento digno de nota. Embora a tragicômica candidatura de cabo Daciolo possa lhe roubar uma parcela de votos entre os fundamentalistas religiosos, outro efeito que ela produziu nos debates televisivos recentes foi uma amenização da figura de Bolsonaro; e ambos fazem figuras grotescas como Dias ou Alckmin parecerem verdadeiros gentlemans.

    Todo o debate eleitoral se deslocou para a direita, fazendo com que a esquerda (invariavelmente identificada com o PT, apesar do crescimento do PSOL) seja colocada, no discurso predominante na mídia, como o outro polo da extrema-direita de traços fascistas. Em tal visão, Lula seria o “populista de esquerda” e Bolsonaro o “populista de direita”: como se houvesse uma eqüidistância entre as posições bastante moderadas de Lula (para dizer o mínimo) e as posições fascistas de Bolsonaro. Ambos seriam, nessa leitura, perigos para a democracia basicamente pelo fato de serem “populistas”, isto é, de se utilizarem de ideários que interpelam as classes populares – trata-se do velho horror à participação política das massas.

    Neoliberalismo e desdemocratização mundial
    A candidatura de Bolsonaro, vitoriosa ou não, coloca o Brasil numa conjuntura internacional que já levou ou ameaça seriamente levar aos mais altos postos de Estado figuras que não deixam nada a dever em termos de xenofobia, homofobia, misoginia, racismo, e um longo etc. Não podemos compreender esse fenômeno mundial sem levar em consideração duas questões relacionadas. A primeira delas diz respeito à relação dessa nova direita com o neoliberalismo e o formato de democracia que se construiu nas últimas décadas; e segunda se relaciona com aquilo que a maioria dos analistas que brotam no período eleitoral trata como mera apatia eleitoral, mas que constitui fenômeno muito mais profundo: uma verdadeira ojeriza à política.

    A democracia de bases schumpeterianas que se firmou na maior parte dos países ocidentais nas últimas décadas, conjuntamente com a ascensão e consolidação do neoliberalismo, levou à identidade, no imaginário popular, entre política e políticos, considerados corruptos por natureza. Política como sinônimo de corrupção: esse é o pensamento largamente majoritário hoje na população brasileira e em grande parte do mundo. (4) “Mais Brasil, menos Brasília”, é um dos slogans preferidos de Paulo Guedes.

    A criação, mais ou menos artificial, de um clima social de terror e insegurança – que nos países europeus ou nos Estados Unidos está essencialmente ligada a atentados terroristas, e que no Brasil está ligada à questão da violência urbana – é outro fator que joga água nos moinhos do conservadorismo. Diante do desespero social, as “soluções” autoritárias ganham cada vez mais terreno, pois se a luta política por uma transformação social que mine o problema da violência pela raiz não está sequer cogitada por nenhuma das grandes forças políticas, resta crer naquilo que parece que vem pra “resolver com pulso firme”, “dar um ponto final nisso tudo” (corrupção/violência urbana). E nada parece melhor que um ex-militar destemido para isso.

    Não por acaso a questão da segurança pública é o principal mote da campanha de Bolsonaro, e a plataforma que este apresenta é um aprofundamento significativo da mesma política que vem dando errado para as populações periféricas, mas que vem dando muito certo para os largos – embora obscuros – setores que lucram com a “guerra às drogas”, que, como sabemos, trata-se de uma guerra aos pobres. Esse modelo, seja por conta do controle populacional, seja por conta do encarceramento em massa, está intimamente ligado à forma de gestão do trabalho no neoliberalismo. (5)

    Aqui é fundamental pontuar que neoliberalismo não constitui apenas um conjunto de políticas econômicas (o chamado tripé macroeconômico). Mais do que isso, o neoliberalismo é uma estratégia de desenvolvimento que surge na nova fase do capitalismo cujo marco cronológico é a crise econômica, social e política mundial do início dos anos 1970 – que ocorreu historicamente através de muitos tipos de modelos, incluindo aí o “social-liberalismo” dos anos Lula, Bachelet e Kirchners. (6)

    É importante notar que o protecionismo, as disputas interimperialistas, as guerras comerciais, nada disso foge do escopo da estratégia de desenvolvimento neoliberal, e em nenhum país que sofreu a última grande crise econômica houve qualquer medida que fugisse ao receituário de enxugamento de gastos, extinção de direitos sociais, competição por investimentos e constitucionalização dos princípios neoliberais. A tragédia grega de 2015-16 é exemplar.

    Tampouco está em questão a organização empresarial transnacional que se dá fundamentalmente dentro de organismos privados como o Fórum de Davos, a Cúpula Empresarial das Américas, entre muitos outros – ao contrário, esses aparelhos vêm organizando cada vez mais frentes móveis de ação que tratam de um amplo conjunto de modalidades de cooptação e coerção. Ao invés de uma oposição entre tendências globalistas neoliberais e um populismo protecionista, podemos estar vendo o nascimento de uma nova fase do imperialismo.(7)

    Foi aliás um desses aparelhos, o “Instituto Resgata Brasil” que fez a ponte entre Paulo Guedes e Jair Bolsonaro. Organizada por dois outros aparelhos privados, o “Centro de Estudos em Seguridade” e a “Fundação Indigo”, programado inicialmente para julho mas adiado para dezembro por causa da legislação eleitoral, a “Cúpula Conservadora das Américas” pretende reunir conhecidos representantes intelectuais, empresariais e militares do Brasil, Venezuela, Colômbia, Paraguai, Estados Unidos, como o candidato análogo a Bolsonaro no Chile, Antônio Kast, que nas últimas eleições chilenas tirou terceiro lugar no páreo. Esse evento é representativo da construção de uma aliança de extrema-direita explícita na América Latina.

    Nossa hipótese é que tal estratégia de desenvolvimento é compatível com diferentes tipos de regimes políticos. Desde seu princípio, aliás, com o laboratório chileno a partir do golpe de 1973, a implantação de tal modelo esteve associada a choques e a endurecimento dos regimes democráticos, mesmo nos países imperialistas, como Estados Unidos e Inglaterra.  O longo processo de desdemocratização que vivemos desde os anos 1970 não apenas operou a despolitização da política, como propiciou o aprofundamento de uma subjetividade individual competitiva e “empreendedora”, (8) a quebra da identidade classista, a crise da esquerda revolucionária e uma derrota histórica da classe trabalhadora.

    Decifra-me ou te devoro
    No atual cenário, o paradoxo que enfrentamos é que para grandes massas na maior parte do mundo a esquerda se vê associada à defesa desses carcomidos regimes, enquanto a direita consegue emplacar uma imagem anti-stablishment. Assim foi com Trump e assim já vemos na campanha de Bolsonaro: a extrema direita conseguindo apropriar-se do signo da rebeldia e das idéias radicais, ganhando largos setores que, justificadamente, não se sentem representados politicamente, e sofrem as penúrias dos ataques aos direitos sociais, aos sistemas de saúde e educação públicos, do desemprego, do subemprego e da precarização.

    Retórica à parte, essa nova direita representa o casamento entre um programa neoliberal e uma plataforma conservadora do ponto de vista dos costumes (racismo, machismo, homofobia), além, como já nos referimos, do aprofundamento da coerção social. Entretanto, como a ideologia da direita vem ganhando o senso comum, essa coerção pode perfeitamente vir acompanhada de um amplo consenso – vide, por exemplo, a majoritária aprovação da população carioca à intervenção militar no estado do Rio, que apenas diminuiu quando do resultado das operações militares nos seus primeiros quatro meses. A intervenção militar no Rio vem de par com uma gradual e passiva reforma do regime político, operada desde seu interior e encabeçada pelo Judiciário.(9) Bolsonaro não é um raio em céu azul.

    Se observarmos outros períodos históricos, veremos como a burguesia, diante de uma crise política, econômica e social como a que vivemos, e ainda mais em países como o Brasil, com uma história marcada pelo signo da contra-revolução preventiva, não hesita em aceitar um candidato como Bolsonaro desde que ele aponte para uma garantia do alcance dos objetivos fundamentais do grande capital. A burguesia brasileira já demonstrou que não aceita mais uma alternativa Lulinha paz e amor; e não teria liderado um golpe e apoiado majoritariamente um governo como o de Temer para aceitar o retorno do lulismo, ainda que a única alternativa a isso seja embarcar em uma aventura, seja ela via uma candidatura de extrema-direita legitimada pelas eleições, seja mesmo uma alternativa diretamente militar. Tudo é uma questão de circunstâncias.

    FOTO: Fernando Frazão/Agência Brasil

    NOTAS

    1 – COSTA, Ana Clara & BUSTAMANTE, Luisa. “A cabeça de Bolsonaro”. Veja, 22 de agosto de 2018, p.32-38. https://veja.abril.com.br/edicoes-veja/2596/.

    2 – ESTADÃO CONTEÚDO. “Inspirados em Bolsonaro, militares vão lançar 71 candidatos”. Estado de Minas, 09 de maio de 2018. Disponível em: https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2018/05/09/interna_politica,957367/inspirados-em-bolsonaro-militares-vao-lancar-71-candidatos.shtml.

    3 – BALTHAZAR, Ricardo. “Bolsonaro ganhou aplauso de empresários até quando errou”. Folha de S. Paulo, 18 de julho de 2018. https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ricardobalthazar/2018/07/bolsonaro-ganhou-aplauso-de-empresarios-ate-quando-errou.shtml; LIMA, Mario Sergio; ADHIRNI, Samy & IGLESISAS, Simone. “Bolsonaro não assusta empresariado, afirma presidente da CNI”. UOL/Bloomberg, 17 de julho de 2018. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/politica/eleicoes/2018/noticias/bloomberg/2018/07/17/bolsonaro-nao-assusta-empresariado-afirma-presidente-da-cni.htm; LIMA, Mauricio. “Bolsonaro recebe apoio surpreendente de empresários”. Veja, 09 de dezembro de 2017. https://veja.abril.com.br/blog/radar/bolsonaro-recebe-apoio-surpreendente-de-empresarios.

    4 – Ver DEMIER, Felipe. “Jacobinismo às avessas: anticorrupção e neoliberalismo na política brasileira atual”. Esquerda Online, 25 de junho de 2018. Disponível em: https://esquerdaonline.com.br/2018/06/25/o-jacobinismo-as-avessas-anticorrupcao-e-neoliberalismo-na-politica-brasileira-atual/.

    5 – BATISTA, Vera Malaguti (org.) Loic Wacquant e a questão penal no capitalismo neoliberal. Rio de Janeiro: Revan, 2012.

    6 – CARCANHOLO, M.D. & BARUCO, G.C.C. A estratégia neoliberal de desenvolvimento capitalista: caráter e contradições. Praia Vermelha.  Vol. 21, nº 1. Rio de Janeiro: UFRJ, 2011; HARVEY, David. O Neoliberalismo: história e implicações. São Paulo: Loyola, 2008; COUTINHO, C.N. “A época neoliberal: revolução passiva ou contra-reforma?” In. Novos Rumos. V.49, n.1, p.117-126, Jan-Jun 2012.

    7 – LEITE, Leonardo. “Trump e a nova fase do imperialismo”. Blog da Boitempo, 24 de fevereiro de 2017. Disponível em: https://blogdaboitempo.com.br/2017/02/24/trump-e-a-nova-fase-do-imperialismo/.

    8 – DARDOT, Pierre & LAVAL, Christian. A nova razão do mundo. Ensaios sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.

    9 – Sobre o papel do Judiciário nos últimos anos no Brasil, ver MIGUEL, Luis Felipe. “Poder Judiciário: a ponta de lança da luta de classes”. Le Monde Diplomatique Brasil, 02 de março de 2018. Disponível em: https://diplomatique.org.br/poder-judiciario-ponta-de-lanca-da-luta-de-classes/.

     

    * Rejane Carolina Hoeveler é historiadora. Mestre e doutoranda em História Social na Universidade Federal Fluminense (UFF). Ativista feminista no Rio de Janeiro. Co-organizadora do livro A onda Conservadora: ensaios sobre os atuais tempos sombrios no Brasil (Rio de Janeiro, Mauad, 2016).

     

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  • Para enfrentar o golpe pra valer, Boulos e Guajajara para a Presidência

    Uma polêmica com a candidatura do PT e do PCdoB

    O MTST é um dos principais movimentos sociais brasileiros e esteve na linha de frente da luta contra o golpe parlamentar do impeachment da ex-presidente Dilma e nas lutas contra o governo ilegítimo de Temer e seus ataques aos direitos.

    O PSOL foi um dos partidos de esquerda que não apoiou as administrações petistas aliadas com partidos da velha direita, por entender que estes governos de conciliação de classes não enfrentaram de verdade os privilégios dos ricos e poderosos. Entretanto, o PSOL não vacilou na luta contra o golpe – seus parlamentares votaram contra a manobra reacionária do impeachment e a maioria de sua militância esteve nas ruas contra ele.

    Tanto o MTST como o PSOL são contra a condenação sem provas do ex-presidente Lula, sua prisão política e o impedimento absurdo de sua candidatura presidencial. Mesmo não apoiando o projeto político da direção do PT, souberam enfrentar a ofensiva da velha direita golpista, contra os direitos sociais e as liberdades democráticas.

    A firme defesa da unidade de ação nas lutas contra o golpe e o governo Temer nunca significou a defesa do mesmo projeto político defendido pela direção do PT.

    Poderia ter sido diferente? A nossa unidade nas lutas poderia se repetir na defesa da mesma candidatura presidencial no primeiro turno das eleições deste ano?

    Sim, poderia. Mas, para que esta possibilidade se tornasse realidade, era necessário que as direções do PT e do PCdoB tirassem as lições mais importantes do golpe parlamentar de 2016 e do desfecho extremamente negativo de seus governos. Não só entendessem os graves erros dos governos de conciliação de classes, mas, principalmente, mudasse sua política para a realidade atual.

    Mas, infelizmente, não é isso que observamos de fato. Seja na política de alianças, seja na no programa apresentado, se repetem os mesmos erros praticados nos 13 anos de seus governos.

    Golpistas não merecem perdão
    Mesmo depois do golpe e de todo o significado reacionário do governo Temer, a direção do PT buscou construir alianças políticas com partidos e políticos da velha direita, que inclusive apoiaram o Impeachment de 2016.

    Foi assim, que buscaram uma aliança nacional com o PR, um dos partidos fisiológicos do chamado “Centrão”, oferecendo a vice-presidência para o mega empresário Josué de Alencar – filho e herdeiro de José Alencar, que foi o Vice de Lula.

    Da mesma forma, tentaram uma aliança nacional com o PSB, partido cuja bancada federal apoiou majoritariamente o Impeachment e que há anos mantém em SP uma aliança estreita com o governo controlado pelo PSDB. Márcio França, do PSB, foi o vice-governador de Alckmin.

    Inclusive, para conseguir a neutralidade do PSB nas eleições presidenciais, a direção nacional do PT sacrificou a candidatura de Marília Arraes ao governo de Pernambuco, passando por cima da vontade de sua militância.

    Se ao nível nacional essas alianças tiveram dificuldade de se concretizar – só vingou o acordo nacional com um partido da velha direita, o PROS – em Estados importantes, principalmente onde o PT detém os governos estaduais, a política de alianças espúrias com a velha direita e os golpistas foi aplicada amplamente.

    Por exemplo, no Ceará se aliaram a Eunício de Oliveira (MDB), atual presidente do Senado, um dos articuladores do golpe, apoiador de Temer e um dos responsáveis diretos pela aprovação dos maiores ataques ao povo trabalhador, como a reforma trabalhista, a ampliação da terceirização da mão-de-obra e o congelamento de investimentos sociais por 20 anos. Para apoiar a reeleição de Eunício para o Senado, o PT abriu mão inclusive de buscar a reeleição de seu atual senador, José Pimentel.

    No Estado de Alagoas, vão apoiar a reeleição de Renan Calheiros, também do MDB e apoiador do impeachment, para o Senado e de seu filho para o governo do estado.

    Alianças como estas se repetem ainda na Bahia, Minas Gerais e Piauí (três Estados onde o PT está no governo do estado), além de outros estados.

    O PCdoB não fica pra trás nessa política. No Maranhão, onde controla o Governo do Estado, formou, mais uma vez, uma aliança com vários partidos da velha direita, entre eles o DEM.

    “A história se repete como farsa”. Não podemos esquecer que Temer era o vice-presidente na chapa de Dilma. A política de alianças atual, de fato, repete os mesmo erros do passado.

    Governar para quem?
    Junto com essa política de alianças com a velha direita golpista, e em muito sentidos por decorrência dela, vem o outro grave problema: o rebaixamento programático. Por de trás da máxima de “governar para todos”, se esconde a defesa de um programa que não tem como objetivo enfrentar de verdade os privilégios dos ricos e poderosos.

    Nos 13 anos em que esteve no governo federal, o PT não aplicou uma reforma tributária que sobretaxasse as grandes fortunas e os lucros exorbitantes das grandes empresas e bancos. Neste período, os bancos lucraram como nunca, enquanto os trabalhadores já começavam a pagar a conta da crise.

    Não mexeram no mecanismo perecerão da dívida pública, que todo ano durante todo o período dos governos petistas, consumiu quase a metade de todo o Orçamento da União, com juros e amortizações.

    Não interromperam o processo de privatização da Petrobrás, realizando vários leilões de reservas de petróleo e do Pré-Sal, já abrindo as nossas riquezas para exploração das gigantes transnacionais petroleiras. Ao invés de retomar o monopólio estatal sobre o petróleo, foi no governo de Dilma que se flexibilizou ainda mais o controle da Petrobrás sobre a exploração desta que é uma das nossas principais riquezas.

    Os exemplos são muitos. Mas, a verdade é que fruto de governos de conciliação de classes, o PT acabou governando no essencial sem mexer nos privilégios da elite econômica, reservando apenas os programas sociais para a maioria do povo apenas, as chamadas políticas sociais, que tiveram sua importância, mas não foram suficientes para garantir uma melhora permanente na vida da maioria da população.

    Muitos ativistas acreditam que num novo governo do PT as coisas seriam diferentes, que eles agora enfrentariam os privilégios do 1% mais ricos, das grandes empresas e bancos, para atender as justas reivindicações da maioria da população por emprego, melhores salários e serviços públicos de qualidade.

    Infelizmente, mais uma vez não será assim. A recente entrevista de Fernando Haddad, coordenador de programa da candidatura do PT, vice de Lula e seu eventual substituto se confirmado seu impedimento, ao Banco Pactual é bastante elucidativa. Haddad chega a se comprometer com uma nova reforma da Previdência e novamente com o respeito aos contratos e interesses dos banqueiros. Por exemplo, a proposta de rever a reforma trabalhista ou sobretaxar as grandes fortunas sequer foi mencionada.

    Sem uma mudança radical nestes rumos, num eventual novo governo petista, vamos ver se repetir os mesmos erros que assistimos nos seus governos, tanto com Lula como com Dilma. As direções do PT e do PCdoB estão dispostas a rever a política de conciliações de classes? Lamentavelmente, os fatos demonstraram que não.

    Lula Livre e Boulos Presidente
    Vamos seguir firmes na denúncia do golpe e todos seus efeitos nocivos aos direitos sociais e democráticos. Seguiremos também denunciando o absurdo impedimento de Lula concorrer nas eleições.

    Mas, com a mesma ênfase que estamos pelo Lula Livre, teremos também na construção e afirmação da candidatura de Boulos e Guajajara para a Presidência, nas próximas eleições de 7 de outubro.

    Mais do que nunca, precisamos ter a ousadia de romper com os erros do passado e construir uma nova esperança de esquerda em nosso país. Como explicou muito bem o próprio Guilherme Boulos, em recente entrevista ao jornal Folha de S. Paulo.

    A candidatura de Boulos e Guajajara é lançada por uma frente política e social inédita em nosso país, formada por partidos de esquerda, como o PSOL e o PCB, e movimentos sociais combativos, como o MTST e a APIB.

    Sua campanha será 100% contra os golpistas, sem nenhuma aliança com a velha direita. Nosso programa é de enfrentamento aos privilégios dos super ricos e poderosos. Defendemos a revisão das reformas de Temer, sobretaxar as grandes fortunas e o lucro exorbitante dos bancos e grandes empresas, acabar com as privatizações, garantindo que todo o petróleo será nosso com uma Petrobrás 100% estatal, entre outras propostas que realmente coloquem o “dedo na ferida” dos graves problemas que passamos em nosso país.

    No dia 7 de outubro, voto útil é apoiar e construir uma nova alternativa de esquerda, que não se alie mais uma vez ao “andar de cima” e tenha compromisso realmente com o povo trabalhador, a juventude e o conjunto dos explorados e oprimidos.

    Vamos, sem medo de mudar o Brasil.