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  • Especial Esquerda Online: Carnaval e (é) resistência!

    “Você deve notar que não tem mais tutu
    e dizer que não está preocupado
    Você deve lutar pela xepa da feira
    e dizer que está recompensado

    Você deve estampar sempre um ar de alegria
    e dizer: tudo tem melhorado
    Você deve rezar pelo bem do patrão
    e esquecer que está desempregado

    Você merece, você merece
    Tudo vai bem, tudo legal
    Cerveja, samba, e amanhã, seu Zé
    Se acabarem com o teu Carnaval?”

    (Gonzaguinha)

    Para uma sociedade como a brasileira, na qual o Carnaval marca até o “início real” do ano, trazer discussões políticas para dentro da folia é mais que importante, é algo natural, que faz parte da essência da festa. É impossível esvaziar o Carnaval de um dos seus maiores significados. Carnaval é movimento, é debate, é resistência! Fatos políticos transformam-se em versos, alegorias e adereços. Ao longo dos dias de Momo, a população desfila as contradições da nossa sociedade, ocupa espaços públicos, reinventa e transgride a relação com poderes e instituições satirizando seus algozes.

    Fato que existe oposição à alegria, com representação no Estado. Há quem se enfureça com a felicidade do povo! Muito embora o Carnaval seja uma manifestação popular que não deve ser institucionalizada pelo governo, cabe à administração pública a responsabilidade de garantir o evento na cidade. O Carnaval em si, é do povo e para o povo, e como tal, deve ser preservado, e mais do que nunca é preciso reafirmar seu caráter de resistência.

    Em São Paulo, o prefeito João Doria pretende limitar o público e a duração dos blocos, além de inviabilizar trajetos; em Salvador, houve ameaças de retaliação à banda Baiana System porque, no ano passado, o grupo entoou um coro de “Fora, Temer” e “Machistas, fascistas, não passarão”; entre outros exemplos. Contudo, o prefeito carioca Marcelo Crivella protagoniza os mais contundentes ataques, como a criação do “Blocódromo” que representa um aprofundamento do processo de privatização da cultura, do Carnaval e da cidade, pois caminha no sentido de esvaziar os blocos de rua.

    Do lado de cá, a resposta é carnavalizada. A crítica à reforma trabalhista do governo Michel Temer vai desfilar na Sapucaí através de fantasias como “Guerreiro CLT” que transforma a carteira de trabalho em escudo e a alegoria “Manifestoches” que traz um pato inflável na cintura do folião, referência ao pato amarelo instalado em frente à FIESP (Federação da Indústria do Estado de São Paulo), que virou símbolo das manifestações pró-impeachment.

    Imagem: Escola Paraíso do Tuiuti

    O próprio presidente Michel Temer será representado por um vampiro, enquanto que o prefeito Marcelo Crivella será “homenageado” através de um carro alegórico com um bar representando uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, cuja imagem foi chutada num programa de televisão por um pastor da mesma igreja que Crivella é bispo licenciado. Outros políticos também serão representados contracenando com celas, grades e tornozeleiras eletrônicas.

    Imagem: Detalhe de carro alegórico da Mangueira que, segundo carnavalesco, traz críticas ao prefeito do Rio – Ricardo Borges/Folhapress

    O Carnaval de rua, tão tradicional em Recife e Olinda, ganha cada vez mais forças nas cidades brasileiras, respeitando a diversidade cultural e com o tempero das particularidades de cada região, comprovando que a tão propalada alienação não é exatamente o que parece. Entre confetes, purpurina e paródias, não faltarão denúncias sobre a falta de educação, saúde, segurança, moradia e tantos outros problemas sociais.

    Uma das pautas mais destacadas dos carnavais nos últimos anos é o combate às opressões. Crescem os blocos que apresentam temáticas LGBT, que combatem o machismo e o racismo e expõem as lutas das periferias. Iniciativas como a tatuagem provisória “Não é Não!” denunciam e fortalecem a campanha contra o assédio.

    Imagem: Reprodução/ Instagram

    Existem setores, até dentro dos segmentos progressistas e de esquerda, que apontam o carnaval como uma festa alienada ou como “ópio do povo”, que nada existe que deva ser celebrado diante da crise que atravessamos. Ou ainda, argumentam que o Carnaval tem sofrido um forte processo de mercantilização, que as classes dominantes investem pesado em comprar e incorporar toda e qualquer manifestação da cultura popular.

    Acreditamos, no entanto, que é exatamente pela dureza do cotidiano que o nosso povo encontra força e criatividade. É ainda mais certo que perante as dificuldades, a folia se reinventa e até faz graça das tentativas de transformar a festa em produto para poucos privilegiados. E, nesta direção, que o Esquerda Online lança um Especial, que contará com matérias de opinião, reportagens, fotorreportagens sobre a festa nas diferentes cidades, de norte a sul do Brasil. Façamos Carnaval!

    Ilustração Topo: Obra”Carnaval”/Carybé/1986

  • Crivella: não coloque cordas no nosso cordão!

    Por Bernardo Pilotto* e Rafael Nunes**

    “Não põe corda no meu bloco

    Nem vem com teu carro-chefe

    Não dá ordem ao pessoal

    Não traz lema nem divisa

    Que a gente não precisa

    Que organizem nosso carnaval”

    (João Bosco)

    Após vários adiamentos e especulações, a prefeitura do Rio de Janeiro anunciou, através da Riotur, nesta quarta-feira (10), o que pretende com sua proposta de blocódromo (chamada oficialmente de Arena Carnaval). E, como já se esperava, a proposta é mais um ataque de Crivella ao carnaval.

    Segundo a prefeitura, haverá uma verba de R$3,3 milhões para organizar desfiles no local que sediou o Parque dos Atletas nas Olimpíadas de 2016. E não basta tentar confinar os blocos num local fechado: dentro do blocódromo haverá uma área VIP (e o edital da prefeitura prevê até dinheiro para canapés para este setor).

    A proposta de blocódromo é um aprofundamento do processo de privatização da cultura, do carnaval e da cidade, pois caminha no sentido de esvaziar os blocos de rua. Ao permitir comercialização de áreas VIPs, a prefeitura permite que também no carnaval se reproduza a desigualdade cotidiana de nossa sociedade. É, por exemplo, o processo que aconteceu no carnaval oficial de Salvador.

    Segundo Felipe Ferreira, professor do Instituto de Artes da UERJ, “em lugar de uma rua carnavalescamente ressignificada, propõe um território higienizado, organizado e delimitado como para um evento de rock ou jogo de futebol, transformando o que era folia em um espetáculo espacialmente controlável”.

    Com muita propaganda na rádio e na TV e com a presença de cantores famosos, certamente o blocódromo atrairá muitas pessoas em seus shows. Mas o grosso da população que para lá se deslocar encontrará um espaço segregado, dividido nas classes e na cor.

    Além de ser um ataque aos princípios momescos, a medida de Crivella é também ilegal. Isso porque, em 2013, o então prefeito Eduardo Paes editou decreto proibindo esse tipo de prática. Foram anos e anos de lutas e pressão dos blocos e movimentos culturais para tal medida fosse oficializada.

    Como afirmou o presidente da Riotur, Marcelo Alves, um dos motivos para a criação do espaço é por essa ser a região da cidade “com menor ocupação hoteleira para o carnaval”. Esse é mais um dos legados olímpicos às avessas. Segundo a compositora Manu da Cuíca, esse “é o legado dos grandes eventos em sua essência: a cidade moldada para satisfazer os grandes empresários”.

    Ao invés de uma arena, o que os blocos precisam é de apoio, com mais e melhores banheiros químicos, com a limpeza das ruas, estrutura de som, transporte público 24h (e não só o metro) e divulgação.

    Lutar contra mais esse ataque ao carnaval é também lutar por uma cidade democrática, inclusiva e igualitária.

    *Bernardo Pilotto é sociólogo

    **Rafael Nunes é carioca e folião

    Imagem: O Globo

  • ‘Fumaça dele na Madureira, e chora eu’

    Jongo da Serrinha faz, da memória, matéria viva que reafirma a ancestralidade e alimenta novas gerações, abrindo oportunidades. Casa do Jongo não pode fechar. Nesta terça-feira, dia 9/1, a Cinelândia recebe ato cultural em defesa do espaço e da cultura jongueira, patrimônio cultural do Rio e do país.

    Por Marcelo Moutinho* + Vídeos de Alexandre Gomes
    Originalmente publicado na Revista Caju

    “Vapor berrou na Paraíba, / chora eu, chora eu Vovó / Fumaça dele na Madureira / e chora eu”. Os versos atribuídos a Vovó Teresa sintetizam um segundo passo na caminhada dos afrodescendentes trazidos do Congo-Angola para trabalhar, sob a tira do chicote, na região do Vale do Paraíba, entre os estados de Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. Com a abolição da escravatura, parte daquela população de origem banto migra para a então capital do país, em busca de oportunidades.

    Vovó Teresa se estabeleceu no Morro da Serrinha, em Madureira, onde viria a morrer, com 115 anos de idade. Para lá, levou o costume de dançar o jongo. Sempre contou aos filhos sobre as noites em que, no cativeiro, formavam-se as rodas de umbigada e improviso; sobre os rígidos códigos daquela festa, o mistério que se abriga entre os movimentos profanos e o viés religioso.

    Fundamentalmente ligado ao universo rural, o jongo teria sucumbido não fossem pessoas como Vovó Teresa. Ou Vovó Maria Joana Rezadeira. Ou Mestre Darcy Monteiro. Jongueiros que, cientes da importância da transmissão do saber de seus ancestrais, fizeram da memória matéria viva, evocada em cada passo, a cada pisada firme do pé no chão de terra batida.

    Foi Mestre Darcy, aliás, quem percebeu que essa potente expressão cultural iria sucumbir caso continuasse restrita a seus herdeiros. Pelas peculiares características – certo isolamento das áreas mais urbanas, o clima de roça –, a Serrinha conseguira até a década de 1960 manter o último núcleo jongueiro da cidade. Mas como será depois que “os mais velhos” morrerem, perguntava-se Darcy?

    O grupo Jongo da Serrinha nasce dessa inquietação. Ao lado de Vovó Maria Joana, sua mãe, ele começa a levar as rodas, antes limitadas aos quintais, para os palcos. Permite, também, que crianças e jovens participem – o que era vedado nos primórdios. A criação da ONG Grupo Cultural Jongo da Serrinha se dá na esteira de um movimento que encerra, ao mesmo tempo, a manutenção de ritos e a ampliação de seu alcance.

    Iniciado há mais de 30 anos, o trabalho de Mestre Darcy se traduz hoje nas oficinas de jongo voltadas para a meninada da Serrinha e das comunidades próximas. E em outros projetos que tinham como sede a Casa do Jongo: aulas de capoeira, de violão, percussão, dança contemporânea, artes plásticas, inglês, matemática. Tais atividades possibilitavam o contato direto das novas gerações com a cultura daqueles que as precederam, reforçavam o senso de pertencimento e abriam, em outro flanco, portas para a educação formal e a profissionalização.

    A Casa do Jongo legava à cidade também o evento mensal Samba na Serrinha, amálgama dos ritmos que naquela região de Madureira frutificaram de forma singular – vale lembrar que ambos, jongo e samba, têm na sua gênese a umbigada, e que a arte do improviso salta das rodas jongueiras para o partido alto.

    Mas por que os verbos estão flexionados no passado quando se referem à Casa do Jongo? Porque a Prefeitura do Rio, mesmo ciente das dificuldades de captação da ONG que gere o espaço, não aprovou a proposta de fomento direto. Costuma haver, no âmbito da cultura, uma confusão entre investimento e gasto. No caso das políticas públicas, o aspecto contábil não pode ser o único balizador. E, nesse episódio, razões menos afeitas à questão econômica lamentavelmente se insinuam.

    “Nós não somos donos de nada, o que recebemos temos que passar adiante”, dizia Vovó Maria Joana. Que sua voz seja ouvida, as partes se entendam e o couro do tambor continue a soar na Casa do Jongo, ecoando mirongas remotas e novos encantamentos.

     

    * Marcelo Moutinho é escritor e jornalista. Autor, entre outros, dos livros “Ferrugem” (Record) “Na dobra do dia” (Rocco), “A palavra ausente” (Rocco) e “Somos todos iguais nesta noite” (Rocco).

  • Como ter um computador seguro ou, porque o serviço secreto russo está comprando máquinas de escrever

    Por Rodolfo Castanheira, de São Paulo

    É provável que você tenha visto nos últimos dias notícias sobre Meltdown e Spectre, duas falhas de segurança que afetam quase todos os processadores existentes – de computadores de mesa a celulares.

    O Spectre permite que um atacante leia os dados que quiser de outros processos. Uma página qualquer da internet, em teoria, pode usá-lo para ler todas as senhas armazenadas em seu navegador.

    O Meltdown é ainda pior. É mais sério e mais fácil de usar. Através dele é possível derrubar todas as barreiras de segurança de um computador. Com ele, qualquer programa pode tomar controle completo da máquina em que está rodando. Isso afeta praticamente todos os processadores fabricados pela Intel nos últimos 20 anos.

    Felizmente, já há proteções contra esses ataques. Pra garantir sua segurança basta manter seus computadores e outros equipamentos atualizados. Mas essa proteção terá um custo: a única forma efetiva de impedir o Meltdown é, na prática, desabilitar os caches[1] do processador. Isso deve diminuir sua performance em até 30%, a depender do perfil de uso. Esse deve ser o bug de maior impacto da história da computação. De um dia para outro, nossos computadores vão ficar até 30% mais lentos.

    Tanto o Meltdown quanto o Spectre têm uma causa comum. Pra acelerar o processamento os computadores modernos usam uma técnica chamada execução especulativa[2]. Ela foi criada para mitigar um problema que surgiu há 20 anos: os processadores estavam se tornando, progressivamente, mais rápidos que a memória RAM. Assim, sempre que era necessário buscar alguma informação na memória, o processador ficava esperando, sem nada para fazer.

    Com a execução especulativa o que o processador faz é tentar adivinhar a informação que vai chegar da memória e, com base nesse palpite, continua o processamento. Quando a informação chega, ele compara a que ele usou com a real. Se ele acertou, as coisas continuam normalmente. Se ele errou, todos os cálculos e instruções executados com esse palpite equivocado são desfeitos.

    Contudo, descobriu-se que essas execuções especulativas desfeitas deixam rastros. No caso mais sério, do Meltdown, a Intel decidiu por não fazer importantes checagens de segurança, já que essas instruções seriam desfeitas de toda forma. O resultado é que os rastros dos processadores Intel podem conter informações bastante sigilosas, como senhas, chaves de criptografia etc. O nome Meltdown vem do fato de que esses rastros “derretem” todas as barreiras de segurança, já que com essas informações é muito fácil tomar o controle do computador.

    Mas o mais interessante disso tudo é que essas falhas não surgiram ontem. Estavam aí há 20 anos, mas nós só soubemos delas agora. Durante essas duas décadas é provável que diferentes atores as tenham descoberto e mantido em segredo, pelo incrível poder que elas provém. Poder passar por cima de toda e qualquer barreira de segurança de um computador é o sonho de qualquer agência de segurança.

    * * *

    Então, o que isso nos diz sobre a segurança de nossos computadores? Que outras falhas catastróficas não existem por aí e nem suspeitamos?

    Mesmo baseando-se apenas em informações públicas, é fácil chegar a conclusão de que o Meltdown e o Spectre não são mais do que a ponta de um iceberg. A coisa é muito, mas muito mais feia do que as pessoas imaginam.

    Minha posição é que, por princípio, devemos assumir que todo computador é inseguro. Na prática, no mundo real, não é difícil invadir um computador. Para atores com muitos recursos, como agências estatais, isso é brincadeira de criança.

    Mas será que estou exagerando? Vejamos.

    Vamos pensar em um caso extremo, onde todas as medidas são válidas, independente do custo ou limitações que elas imponham: estamos lidando com informações bastante sensíveis e precisamos de uma segurança realmente confiável. Vidas estão em jogo. Essas informações não podem vazar de jeito nenhum. É possível ter um sistema seguro onde se possa armazenar e usar esses dados?

    Bom, a primeira coisa a fazer seria desconectar esse computador da internet e de qualquer outra rede. Todos os processadores modernos da Intel vêm com um programa secreto chamado Management Engine (ME) embutido no chip. Ele responde a comandos recebidos via placa de rede, não pode ser desabilitado e funciona até mesmo quando seu computador está desligado (parece piada, mas é isso mesmo!).

    De um artigo da ZDNET sobre ele:

    “O [ME] também tem acesso às suas senhas. Ele pode modificar o seu firmware mesmo se o computador estiver desligado. Deixe-me repetir isso. Se seu computador estiver ‘desligado’, mas ligado na tomada, o [ME] pode ainda assim mudar configurações fundamentais de seu computador. (…) Você nao pode vê-lo. Você não pode controlá-lo. Ele está sempre rodando ali em baixo, controlando seu computador.” [3]

    E como qualquer programa complexo, é claro que descobriram uma série de bugs nele. De um artigo do The Register:

    “Intel admitiu hoje que seu Management Engine (ME) […] contém diversas falhas de segurança preocupantes […]. Os bugs permitem […] rodar código abaixo do sistema operacional para espionar ou modificar totalmente o computador, […] infectar remotamente máquinas com spyware e rootkits indetectáveis, […] extrair informação confidencial e protegida da memória, potencialmente fornecendo dados sensíveis a atacantes – como senhas ou chaves de criptografia […]” [4]

    Enfim, se você quer ter certeza de que seus dados não serão roubados, nunca conecte o computador que os armazena a uma rede.

    Mas isso não basta. É possível tomar o controle de um computador apenas conectando um dispositivo a ele. A CIA, por exemplo, invadiu os sistemas de controle das usinas de beneficiamento de urânio do Irã usando apenas dispositivos USB especialmente preparados. Bastava conectá-los a uma entrada USB e pronto! – em segundos aquele computador estava sob controle da CIA, como nos filmes. Ela usou esse controle para destruir boa parte dos equipamentos industriais dessas usinas, atrasando em anos o programa nuclear iraniano.[5]

    As falhas de segurança utilizadas nesse ataque já foram corrigidas. Mas desde então, citando uma matéria da WIRED, pesquisadores descobriram que:

    “Os problemas de segurança de dispositivos USB são mais profundos do que você pensa: […] eles proveem da essência de como eles funcionam. O malware que eles [os pesquidares] criaram, chamado BadUSB, pode ser usado em um dispositivo para tomar total controle de um computador, alterar invisivelmente arquivos de um pen drive, ou até mesmo redirecionar o tráfego de internet do computador. […] E os dois pesquisadores dizem que não há concerto fácil [para essas falhas]: Esse tipo de ataque que eles demonstraram é quase impossível de barrar sem proibir o uso de dispositivos USB ou preencher as portas USB com super-bonder.” [6]

    Portando, se você quer segurança, inutilize todas as entradas desse computador imaginário. E não só USB. Diversas outras portas podem ser usadas para tomar o controle ou vazar informações: Firewire, HDMI, PCI, entrada de microfone ou fone de ouvido, câmera etc. O mais seguro é colocar cola em tudo.

    Mas até em câmeras e microfones? Isso não é um exagero?

    Bom, considerando que Mark Zuckerberg[7] e o ex-diretor do FBI[8] fazem isso, talvez não seja tanto exagero assim.

    Então, as informações desse computador, que está fora de qualquer rede e com todas as portas fisicamente destruídas, estão seguras? Afinal, não é possível que, nessas condições, algum atacante consiga roubar qualquer dado, não é? Por incrível que pareça, sim, é possível. E de várias maneiras.

    Uma delas envolve apenas “ouvir” as microvibrações de ar geradas pelo computador enquanto ele realiza seus cálculos. Elas são inaudíveis para humanos, mas podem ser captadas por microfones de celulares. Citando um artigo de pesquisadores da Universidade de Tel Aviv:

    “Muitos computadores emitem um ruído de alta frequência durante sua operação devido à vibrações em alguns de seus componentes. […] Esse ataque pode extrair chaves completas de criptografia RSA de 4096 bits de laptops (de vários fabricantes) […]. Nós demonstramos experimentalmente que esses ataques podem ser feitos usando tanto um celular qualquer colocado próximo ao computador, quanto um microfone mais sensível a até 4 metros de distância.” [9]

    Nesse caso, é só colocar o computador em uma sala isolada e não deixar ninguém entrar com o celular? Isso ajuda, mas não é suficiente. Do mesmo artigo:

    “Além de acústica, nós demonstramos que um ataque similar, de baixa largura de banda, pode ser feito medindo o potencial elétrico do chassi do computador. Um atacante com o equipamento correto precisaria apenas tocar o computador com sua mão nua.” [9]

    Ou seja, é possível roubar chaves de criptografia apenas encostando em um computador; ou na tela, já que o cabo de vídeo vai acabar transmitindo essas oscilações de potencial elétrico para ela; ou em uma pessoa que está em contato com o computador, já que o corpo humano também transmite esse tipo de oscilação. Em certas condições é possível roubar a chave de criptografia com apenas alguns segundos de contato [10].

    Portando, muito cuidado com qualquer mão em seu ombro enquanto estiver operando esse computador. Ela pode estar roubando suas chaves de criptografia.

    Resumindo, todo e qualquer contato físico ou proximidade com o computador, seus acessórios ou pessoas operando ele, pode ser usado para roubar informações. Não basta isolar a sala e barrar celulares. É preciso fazer uma revista completa das pessoas que entrarem nessa sala e proibir qualquer coisa que possa conter ou parecer um equipamento eletrônico.

    Mas isso não é tudo.

    Não podemos esquecer que esse computador ainda está conectado a uma rede, a rede de energia elétrica. É possível usar as variações de consumo de energia de um equipamento para inferir bastante informação sobre o que ele está processando, incluindo suas chaves de criptografia [11]. Uma pessoa que tenha acesso aos fios de energia que vão até o seu computador, mesmo do outro lado do prédio, pode roubar informações de forma indetectável.

    Enfim, para garantir a segurança de que precisamos nesse caso hipotético, seria necessário colocar esse computador em uma sala isolada, com suprimento de energia desacoplado da rede elétrica, sem acesso a nenhuma rede, com todas as portas inutilizadas, dentro de uma caixa isolante de forma que ninguém possa tocar nele ou em qualquer parte condutiva de seus periféricos e fazer uma minuciosa revista em toda e qualquer pessoa que entrasse na sala.

    Mesmo fazendo tudo isso estaríamos protegidos apenas dos ataques amplamente conhecidos e fáceis de implementar. Proteger-se de ataques hipotéticos ou que por ventura utilizem técnicas desconhecidas é toda uma outra história, bem mais complicada.

    Como eu disse lá em cima, na questão da segurança as coisas estão muito, mas muito mais feias do que as pessoas imaginam.

    Existe uma lenda urbana de que a NASA gastou milhões de dólares para desenvolver a caneta esferográfica, porque canetas normais não funcionam no espaço. Os russos resolveram o problema de forma muito mais simples: compraram alguns lápis [13]. Talvez a melhor solução para o nosso problema hipotético, de garantir a segurança de dados extremamente sensíveis, seja justamente se inspirar nessa fábula, deixar o computador de lado e tirar a poeira da boa e velha máquina de escrever. Coisa que os próprios russos, aliás, já estão fazendo[14].

    [1] https://www.tecmundo.com.br/produto/119312-que-serve-memoria-cache-processador.htm
    [2] https://en.wikipedia.org/wiki/Speculative_execution
    [3] http://www.zdnet.com/article/minix-intels-hidden-in-chip-operating-system/
    [4] https://www.theregister.co.uk/2017/11/20/intel_flags_firmware_flaws/
    [5] https://en.wikipedia.org/wiki/Stuxnet
    [6] https://www.wired.com/2014/07/usb-security/
    [7] http://www.telegraph.co.uk/technology/2016/06/22/why-has-mark-zuckerberg-taped-over-the-webcam-and-microphone-on/
    [8] https://www.npr.org/sections/thetwo-way/2016/04/08/473548674/why-the-fbi-director-puts-tape-over-his-webcam
    [9] http://www.cs.tau.ac.il/~tromer/acoustic/
    [10] http://www.cs.tau.ac.il/~tromer/handsoff/#bit-extract
    [11] https://people.rit.edu/kjm5923/DPA_attacks_on_AES.pdf
    [13] https://pt.wikipedia.org/wiki/Caneta_Espacial#Lenda_urbana
    [14] http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/europe/russia/10173645/Kremlin-returns-to-typewriters-to-avoid-computer-leaks.html

  • A serviço de quem está o obscurantismo e a censura?

    O ano de 2017 foi de grandes polêmicas nacionais. Da conjuntura política – com os ataques e as reformas do desgoverno de Temer -, até o primeiro close em uma bunda com celulite na história do audiovisual brasileiro no clipe da Anitta. Esses, como diversos outros debates, ocorreram nos mais diversos setores da sociedade, e apresentam a internet cada vez mais como espaço de acesso e inclusão nessas polêmicas, ao mesmo tempo em que as redes sociais dão voz para que cada usuário possa elaborar e manifestar suas ideias e opiniões.

    Por Lara Lima e Alexandre Velden, do Rio de Janeiro

    Como todo avanço não tem apenas um lado na moeda, como revela o estudo realizado pela FGV “Robôs, redes sociais e política no Brasil”, robôs e perfis falsos em redes sociais são utilizados para aumentar o alcance e a relevância do conteúdo produzido por grupos políticos, como é o caso do Movimento Brasil Livre (MBL). Estes perfis falsos criam interação e engajamento, fazendo com que conteúdos apareçam com maior relevância nas ferramentas de buscas e nas redes sociais, dando a esses grupos o poder de pautar os debates do momento na sociedade e na imprensa nacionalmente.

    Nesse segundo semestre de 2017 vimos uma enxurrada de notícias sobre ações de boicote e censura a exposições, performances e eventos culturais e acadêmicos que tinham como tema a identidade de gênero e a sexualidade. Ataques como as acusações de pedofilia em torno do artista Wagner Schwartz por sua performance “La Bête” no Museu de Arte Moderna de SP; os ataques físicos a filosofa Judith Butler no aeroporto de Congonhas, após sua vinda para o Brasil; o cancelamento da abertura da exposição Curto Circuito e da peça Bicha Oca, no qual algumas obras sumiram da exposição que ocorre no “Mês da diversidade” no Rio de Janeiro. Talvez o mais emblemático ataque seja o fechamento da exposição “Queermuseu – cartografias da diferença na arte da brasileira” no Santander Cultural, em Porto Alegre. Após ataques liderados por grupos de pessoas ligadas ao MBL, o centro cultural ligado ao Banco Santander, decidiu fechar a exposição lançando uma nota em sua rede social onde pede desculpas às pessoas que se sentiram ofendidas pelas obras de arte expostas. Esses casos ganharam grande repercussão na internet e nos meios de comunicação, levantando a debates, cobrando posições de artistas e instituições de cultura e gerando querelas judiciais sobre restrições etárias e o “poder de censura” a exposições. A ofensiva conservadora ao “Queermuseu” está longe de ser apenas um debate sobre o “conteúdo” de suas obras, como se demonstrou na perseguição a seu curador. Gaudêncio Fidélis foi intimado a prestar esclarecimentos para a “CPI dos Maus Tratos”, que investiga maus tratos a crianças e adolescente, com um mandado de condução coercitiva aprovado pelo Ministro do STF Alexandre de Moraes. Com apoio da classe artística e setores da esquerda, Gaudêncio conseguiu garantir seu direito de não ser escoltado para a reunião, tendo o pedido de condução coercitiva cancelado após apelo de seu advogado.

    O ataque dos arautos dos “bons costumes” reverberou e influenciou instituições privadas a não se “comprometerem” com o debate sobre a identidade de gênero, como o diretor do Instituto Santander Cultural que alegou não ter qualquer gerência ou comprometimento sobre o “Queermuseu” em seu depoimento para a CPI. Gaudêncio, por sua vez, deu uma aula sobre políticas culturais, curadoria museal e bom senso: “Essa é uma exposição que tem um potencial artístico tão extraordinário, que levanta um volume de obras, que é de extrema relevância para o patrimônio e para a arte brasileira, que quando junta em confluência com essas questões, que dizem respeito aos próprios aspectos que a exposição retrata, quando isso tudo é colocado dentro de uma plataforma de diálogo e de debate, que essa exposição essencialmente tinha como objetivo, e quando então finalmente nós temos essa tragédia do fechamento dessa exposição, o que passa a ser fundamental para a sociedade brasileira, é não mais o mérito da exposição sob o ponto de vista artístico, mas essas questões relativas a censura, a liberdade de expressão, e ela se transforma em um debate muito acalorado, mas que já vem também alimentado por um conjunto de iniciativas, na minha perspectiva de teor muito obscurantista, que atacaram a exposição e que alimentaram uma rede muito extensa de difamação sobre as obras dessa exposição e sobre a maneira que a exposição foi organizada.”

    Se houve ataques de um lado, do outro diversos profissionais da cultura responderam organizando manifestos e manifestações a favor da liberdade de expressão, como a Ocupação em frente ao Museu de Arte do Rio, em um dia de manifestações culturais e debates contra a censura encabeçado pelo movimento 342 Artes e pelo coletivo Censura Nunca Mais. Manifestação similar ocorreu em São Paulo no MAM-SP – aos gritos de “Fora Dória” – em resposta aos ataques organizadas por uma página de FB apoiadora de Bolsonaro – que incluíram agressões físicas aos funcionários do museu -, após a performance de Wagner Schwartz.

    Partindo da ideia de que esses ataques conservadores visam o “obscurantismo” – no sentido de alimentar a ignorância tanto sobre temas como a identidade de gênero, como sobre o próprio conteúdo artístico e emancipador das exposições -, é preciso ir para além da “face imediata” do fenômeno e compreender a quem e para que serve interromper – determinadas – exposições e debates. Quando vemos todas as movimentações nos bastidores da política, e confrontamos com esses novos dados sobre o uso das redes sociais para alavancar debates públicos, podemos perceber como esses debates são usados como ferramenta política.

    “As direitas” procuram espaço

    Sem dúvida, muita coisa mudou de 2013 para cá. Não apenas a esquerda e os habituais lutadores foram às ruas, mas uma parte significativa da população lotou centenas de avenidas pelo Brasil. Os meios de comunicação tiveram que lidar com a ebulição social e de repente “ir para a rua” voltou a ser – dependendo do caso, “sem vandalismo” – legitimo. Junto ao grande desgaste do governo petista, a direita se movimentou e criou novos grupos e figuras para disputar as pautas de mobilização. Surgiram grupos como o MBL, Vem pra rua, etc, organizações que mentirosamente apontavam seu compromisso com os “anseios populares”. O grupo “apartidário” MBL, por exemplo, formou suas figuras públicas e não tardou a eleição de 2014 e 2016 para apresentarem candidatos a partir de dezesseis partidos, tanto tradicionais – DEM, PMDB, PSDB, PPS – como fantasiados de NOVO.

    Se já é difícil argumentar a suposta “independência” desses grupos devido a essa ligação partidária, um olhar sobre quem os financia deixa claro que trata-se de uma empreitada envolvendo organizações internacionais de longa data, que buscam crescer seus tentáculos sobre as diversas economias pelo mundo através das chamadas “Think Tank”, instituições que atuam difundindo conhecimento e ideias sobre assuntos estratégicos visando influenciar assuntos políticos e econômicos de diversos países. Como diversos estudos e reportagens vem demonstrando, instituições criadas no Brasil desde a década de 1980 – Instituto Liberal, Instituto Millenium, Instituto Mises Brasil, Estudantes pela Liberdade – possuiriam conecções financeiras e políticas com grandes corporações de fora como Atlas Network, Cato, Heritage Foundation, Students for Liberty. Dessa forma, fica claro o compromisso dessas organizações com as pautas de “privatização” e “desburocratização” dos negócios no Brasil, o que na verdade é transferencia de patrimônio público para a iniciativa privada, assim como manutenção dos lucros dos grandes, tirando direitos trabalhistas e previdenciários da maior parte da população.

    Além disso, de 2013 para cá a “direita tradicional” foi desacreditava ao ter seus principais porta vozes envolvidos em delações e longínquos esquemas de corrupção, como o ex-possível presidenciável Aécio Neves (PSDB) envolvido no escandalo da JBS. Buscando se distanciar da “roubalheira de sempre” da política, setores como o MBL cada vez mais percebem na agenda conservadora uma forma de se afirmarem como bastiões da moral, incorruptíveis nos costumes e no campo econômico. Jair Bolsonaro é uma das figuras que busca espaço ai, se colocando acima dos partidos e dos “interesses econômicos”, apresentando uma agenda política restritamente moralista. Muito brada “contra a esquerda”, “contra a ideologia de gênero”, mas nada diz quando perguntado sobre seu programa para a economia ou saúde, temas sobre os quais demonstrou zero conhecimento ao ser questionado a poucas semanas. Sem dúvida, seu “desconhecimento” não será descompromisso com seus financiadores de campanha.

    Se há diferenças entre esses setores, é certo seus compromissos com seus próprios negócios, assim como com seus financiadores. Esses partidos e organizações estiveram em unidade mobilizando um golpe parlamentar ao longo de 2016, alguns negociando o “bote por cima”, outros dando sustentação na “opinião pública”, fermentando as manifestações “coxinhas”. Se o governo petista escolheu ao longo de seus 14 anos a conciliação com os partidos da “ordem” em nome da governabilidade e não deixou de atacar os direitos e conquistas quando foi necessário, é certo que também nunca foi aceito de bom grado pelas elites. Na primeira oportunidade derrubaram Dilma e avançaram ferozmente sobre os direitos dos trabalhadores, aumentando a precariedade do trabalho e da vida dos trabalhadores em nome da manutenção de seus lucros.

    Com Temer, as diversas reformas como a trabalhista e da previdência, buscam jogar para baixo a conta do andar de cima, sem mexer com os privilégios, os especuladores rentistas, as grandes fortunas, e nos negócios dos diversos financiadores da corrupção.

    Guinada conservadora da sociedade ou oportunismo da direita?

    Sem dúvida, o conservadorismo existe em nossa sociedade de forma “difusa”, assim como o discurso de ódio contra as minorias. Ele também existe de maneira “organizada” em diversos partidos e grupos, e se expressa nesses ideologicamente e programaticamente. No entanto, é preciso atentar para seu uso “organizado” tão oportuno nesse momento de instabilidade, quando busca “obscurecer” o debate programático sobre as saídas políticas para o país, apontado como saída uma cartilha moral dos bons costumes. As características que perpassam nossa constituição histórica como a escravidão e o racismo, o autoritarismo das instituições, o Estado nas mão das elites, a nossa dependência econômica do imperialismo e um longo etc, são jogados para escanteio. Juntando alhos com bugalhos, os conservadores dão resposta “morais” aos problemas históricos, como se esses se resolvessem com a interdição de certos debates que – queiram ou não – avançam na sociedade.

    É preciso lutar contra o “obscurantismo” e as “novas formas” de censura dos setores conservadores travestido em “boicote” e uma suposta ideia de que a maioria da população é conservadora, religiosa e não quer certos “exageros”. Essas ações de censura buscam estardalhaços políticos sobre qualquer atividade que se proponha a avançar nos debates sobre a dignidade, os direitos e a conquista de espaço das minorias. Mas também é preciso esclarecer quem são os agentes dessa cartilha ideológica conservadora e quem financia e se beneficia dessa retórica. O “obscurantismo” das artes é parte de um projeto mais amplo de poder e sociedade que procura “obscurecer” tanto determinados tipos de artes, como “invisibilizar” as minorias. Essa invisibilidade serve para a manutenção de um “status quo” conservador de forma dupla: ao não permitir a tomada de consciência do gênero como construção histórica e o direito ao corpo que cada um possui, também joga contra a identificação das demandas sociais e econômicas coletivas dessas minorias e joga contra o reconhecimento da “marginalidade” histórica a que as minorias foram submetidas. E é por isso que a censura conservadora aparece cada vez mais tanto em exposições de arte, como em debates e espaços que buscam projetos emancipadores, alternativos e desalienantes de sociedade.

    Para não restar dúvidas sobre o que se trata, lembro de uma breve passagem que tivemos o desprazer de assistir pela televisão. Há algumas semanas, em um programa de auditório noturno, a apresentadora Luciana Gimenez perguntou a Alexandre Frota sua opinião sobre a performance de Wagner Schwartz no MAM, contra quem o ator havia aberto uma representação no Ministério Público e feito uma campanha de desmoralização. Após uma enxurrada de bobagens Frota diz: “(…) essa é a arte que é pregado, por essa gente, de esquerda,(…), eu preciso dizer, é uma gente sórdida, uma gente suja, que prega uma arte vagabunda (…).”

    Como a vida já é cheia de desprazeres, nos recusamos a terminar com as palavras desse sórdido personagem. Nos parece anos luz mais interessante os apontamentos feitos por Gaudêncio Fidélis em seu depoimento a CPI dos maus tratos, no qual seu senso histórico aponta a importância da arte e o papel social desalienante que uma exposição pode cumprir, nos ligando ao passado, mas principalmente nos fazendo refletir sobre o presente e que futuro estamos construindo:

    “Em diversas das exposições que eu realizei, houve algum tipo de polêmica. Porque eu acho que exposições não são um lugar de consenso. Elas são um lugar de debate, de dissenso e de construção do diálogo. Sobre a arte e sobre todas aquelas questões que dizem respeito a sociedade em que nós estamos vivendo. Porque uma exposição, mesmo uma exposição histórica, ela se constitui como um evento e um fato contemporâneo. Ela trás pra nós as questões do passado ou apontam para as questões futuro, que de alguma maneira, possam dizer respeito aos anseios da sociedade, às questões, aos problemas, às críticas que tem que ser feitas, e etcetera.”

    Ainda é preciso lutar muito contra o conservadorismo para que a “ideologia de gênero” seja uma “questão do passado”. É preciso lutar contra o conservadorismo para que as “questões do futuro” nos pertençam.

    Imagem: Getty Images

  • Rio de Janeiro: vem aí um carnaval dos carnavais

    “Rei Momo abre as portas do meu Rio

    Que sempre faz um carnaval dos carnavais”

    (Billy Boy, César Reis e Élio Sabino, samba-enredo da Unidos do Porto da Pedra de 1996)

    Por Bernardo Pilotto, do Rio de Janeiro

    Em 1893, o então presidente Marechal Floriano quis transferir o carnaval para junho, argumentando que o carnaval no mês de fevereiro favorecia a transmissão de epidemias. Em 1912, novamente houve uma tentativa de proibição, desta vez por conta do luto pela morte do Barão do Rio Branco, que havia ocorrido dias antes.

    Em ambas as ocasiões, as medidas não funcionaram. O que se viu, pelo contrário, foram carnavais ainda mais fortes, com mais gente brincando na rua. De lá pra cá, os registros de jornal mostram também uma série de blocos que, quanto mais proibidos, mais cheios ficavam. Foi assim com o Chave de Ouro, que desfilou por muitos anos na Quarta-Feira de Cinzas, o que era proibido pela Cúria Metropolitana.

    Por isso que, para 2018, em plena gestão Crivella, podemos ter novamente um “carnaval dos carnavais” no Rio de Janeiro. E já temos alguns indícios para essa afirmação.

    Em relação a 2017, já há mais blocos inscritos para fazer desfiles de rua em 2018. Mesmo com diminuição da verba que a Prefeitura fornecia para o carnaval de rua e com tentativas de enquadrá-lo apenas em determinados espaços da cidade, os blocos têm mostrado sua força, contando com o trabalho voluntário e militante dos seus membros e também com o apoio dos foliões através dos financiamentos coletivos na internet.

    Para o desfile das escolas de samba, que continua atraindo a atenção de milhões de pessoas ao redor do mundo, teremos diversas agremiações com enredos bastante politizados, com destaque para a Estação Primeira de Mangueira, que vai para a avenida trazendo um enredo (“Com Dinheiro Ou Sem Dinheiro Eu Brinco”) que questiona os próprios rumos do desfile e que bate de frente com o Bispo Crivella.

    Um embate entre dois modelos de cidade

    No segundo turno das eleições para as prefeituras brasileiras em 2016, o embate mais antagônico se deu no Rio de Janeiro. Isso porque a disputa se deu entre Marcelo Freixo, do PSOL, e o Bispo Marcelo Crivella, do PRB. Apesar da forte mobilização popular em torno da campanha de Freixo, a candidatura de Crivella foi vencedora, fazendo com que um projeto liberal nas questões econômicas e ultra conservador em relação às liberdades individuais fosse vitorioso.

    Nesse primeiro ano à frente da prefeitura, Crivella tem procurado aplicar seu projeto a todo custo. Assim como faz Michel Temer e o governador Pezão, mantém um forte ajuste fiscal em relação aos gastos com políticas públicas, deixando inclusive trabalhadores da saúde sem salários. Mas, seu projeto conservador não vem só a partir de questões econômicas: a prefeitura de Crivella tem se caracterizado por um enfrentamento, como há muito não se via, com a área cultural, com o carnaval, as escolas de samba, os blocos de rua.

    Ao longo de 2017, por diversas vezes, a prefeitura tentou acabar com eventos de rua, como as rodas de samba que acontecem em diversas praças do centro da cidade. Quando não tentou acabar na forma de repressão direta, buscou causar confusão, como quando autorizou dois eventos absolutamente diferentes (uma feira de livros e uma corrida) no começo de dezembro na Praça Mauá. E isso tudo numa cidade que tem uma tradição muito grande de realizar eventos na rua.

    Além de atacar os eventos de rua cotidianos, a prefeitura partiu para o ataque em cima do carnaval, utilizando-se de um argumento perverso, que opôs carnaval às creches. Sob o argumento de que gastava com “apenas 4 dias do ano”, Crivella anunciou que utilizaria o dinheiro que era destinado às escolas de samba para melhoria das creches. Acontece que, na prática, o dinheiro foi tirado do carnaval e não foi investido em creches, na educação ou na compra dos remédios que faltam nas unidades de saúde.

    A argumentação de Crivella é perversa visto que faz uma tosca separação entre cultura e educação e desconsidera os blocos e escolas de samba como espaços que funcionam o ano inteiro (e que inclusive geram uma grande gama de empregos). Traz, também, uma visão moralista, como se fosse algo errado haver diversão durante os momentos de crise econômica.

    É verdade como muita coisa no carnaval poderia ser mudada. Já passou da hora de democratizarmos diversos aspectos da festa, especialmente nos pontos relativos à gestão dos desfiles de escolas de samba pela LIESA (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro). Apontamos como esse foram feitos pelo relatório da Comissão do Carnaval da Câmara Municipal. Mas as críticas de Crivella nada tem a ver com melhorar a festa. Sua intenção é apenas o aniquilamento do carnaval e ponto final. Continue reading

  • Popularização, luta e ocupação dos estádios

    Por Mário Ítalo, militante da juventude do MAIS Fortaleza

    O futebol sempre foi tratado durante décadas como o principal lazer do povo. Ele tem uma mística de unir todas as classes para apreciar um espetáculo, que traz a emoção, alegria e toda uma vida nas arquibancadas. As gerais, as percussões, bandeiras, faixas, sinalizadores e o grito do povo tornam o futebol majestoso e belo aos olhos do público. Toda a alegria e popularidade presente nos estádios, está cada vez se tornando mais difícil, o processo acelerado de modernização dos estádios brasileiro, impulsionado pela a fatídica Copa do Mundo de 2014, está empurrando para fora das ‘arenas’ a grande massa, presente principalmente nas torcidas organizadas.

    Os estádios nacionais sempre tiveram bons públicos durante anos, isso também deve-se ao fato de que o valor dos ingressos era bastante acessível. Já assisti muitos jogos pagando apenas 5 ou 10 reais, era algo incrível, as arquibancadas logo enchiam, muitos ainda entravam depois (sim, já presenciei milhares de pessoas entrando em jogos faltando um certo período de tempo para os jogos acabarem, o próprio estádio abria as portas para essa massa de apaixonados que não tinham condições de comprar ingressos). Dentro dos estádios as organizadas tomavam a festa e faziam as torcidas entoarem seus gritos de guerra e de incentivo ao time. Hoje isso está cada vez mais difícil. As administrações terceirizadas das Arenas tentam impedir de toda forma a festa nos estádios, querem tornar a festa das bancadas sul-americanas, em espaços teatrais, onde cantar, xingar e festejar são proibidos.

    Os estádios são tomados por gestões desastrosas. Obras superfaturadas, corrupção e expulsão das massas, fazem parte de uma modernização tramada pelo capital, para tornar o futebol um esporte da elite. O desastre cometido pela gestão de Sérgio Cabral (MDB-RJ), destruiu o templo do futebol mundial: o Maracanã. Uma história material foi destruída em nome da modernização negativa do futebol e a corrupção é uma essência desse produto destruidor, que tende cada vez mais de tirar o lazer das massas. Antes da obra ser realizada, o público do Maraca era enorme em quase todos os jogos, mas a perseguição contra as principais torcidas, a dificuldade de acessibilidade e os preços de ingressos, impedem que o espetáculo ocorra nas bancadas.

    No Ceará a perseguição parte para cima das torcidas organizadas, inclusive no âmbito jurídico. O caso mais recente de ataque foi contra as duas principais torcidas organizadas do estado, a justiça determinou a extinção da TOC (Torcida Organizada Cearamor) e da TUF (Torcida Uniformizada do Fortaleza), ambas torcidas tem de entrar com outro material nos estádios, pois a Polícia Militar pode barrar a entrada desses torcedores nas depedências do estádios. Essas atitudes corroboram com a administração da Arena Castelão, que hoje tenta banir a presença de faixas no estádio, para dar espaço a propagandas em placas de publicidade. Felizmente as organizadas agiram em conjunto para barrar esse ato insano de exclusão e perseguição.

    A criação há 3 anos atrás da ANATORG (Associação Nacional das Torcidas Organizadas), surgiu como uma alternativa de organização desses agrupamentos contra as arbitrariedades jurídicas e administrativas, contra as torcidas organizadas. Foi uma excelente iniciativa, com a ideia de planejar ações conjuntas, de combate a opressão contra as organizadas. O problema do futebol brasileiro não está nas organizadas, é algo muito além, as organizadas são somente um bode expiatório da máfia. O problema está na mídia, nos dirigentes e mandatários das entidades futebolísticas. Esse debate tem que ser aprofundado e faz parte da luta contra o futebol moderno, defender as torcidas organizadas.

    Além de tudo, o ataque não vem somente dos governantes e administradores terceirizados. A grande mídia é dona do futebol. Trazendo a frase do gênio Alex, ídolo do futebol brasileiro: “quem cuida do futebol brasileiro é a Globo, a CBF é só a sala de reuniões”. Ele está certo. A Rede Globo e todo o seu monopólio televisivo, suprime o futebol, a mesma já foi citada em delações em acordos espúrios com as principais entidades do mundo futebolístico. A desigualdade de cotas, horário de partidas etc, tudo é manipulado pela Globo, como um método não só de excluir  times de menor expressão comparado aos grandes do futebol, mas também de centralizar o futebol brasileiro no eixo do futebol sulista. Pela primeira vez da era de pontos corridos (que vigora desde de 2006), o futebol brasileiro passa a ter 4 representantes nordestinos na elite do campeonato nacional. Isso parte do fortalecimento do futebol nordestino, em uma liga criada entre os clubes nordestinos, que organiza o principal torneio futebolístico do primeiro semestre, vale ressaltar que os clubes dessa liga, recusaram as migalhas oferecidas pela Globo, que perdeu seu direito de transmissão do regional em 2018. Uma conquista a ser celebrada pelo futebol nordestino.

     

    O mais novo atentado foi contra a Libertadores da América, tradicional competição que une raça, amor e festa. A Conmebol em conluio com a FIFA, decidiu por retirar os dois jogos (ida e volta) da decisão da Libertadores, fazendo com que a decisão tenha jogo único e em campo neutro. Um absurdo. Diante de todos esses atentados, querem retirar a essência do futebol sul-americano, que é conhecido pelo amor incondicional das torcidas pelo futebol e pela bela festa realizada nos estádios. Isso trata-se de um atentado contra os torcedores mais pobres, que inclusive gera revolta e violência nos estádios. Aliás, a questão da violência está relacionada direto a isso, desde a retirada das gerais até os ataques e perseguições contra as torcidas organizadas de massa.

     

    As torcidas antifascistas vêm cumprindo um papel muito importante no combate ao futebol moderno. Com ideologia, essas torcidas vem se organizando e fazendo enfrentamentos ao sistema midiático, governos, administrações e diretoria de clube. Sempre levando faixas em caráter de protesto, percussões e cantos, sempre combatendo o futebol moderno em todas suas esferas, seja através das arquibancadas ou até mesmo na política.

     

    É necessário combatermos essa modernização, que visa, unicamente na exclusão do povo do espetáculo futebolístico. As camadas populares precisam fortalecer as torcidas de massa, para barrar esse processo acelerado de modernização, mais um mecanismo para a destruição de um esporte tão popular. O futebol com o povo é festa, emoção e prazer.

     

    A festa nas bancadas pertencem a massa! Abaixo o futebol moderno!

     

  • OPINIÃO | 40 anos de Punk: Suas contribuições para mudar a sociedade

    Há 40 anos surgia um movimento que iria colocar a terra da rainha às avessas. Jaquetas cheias de broches e arrebites, cabelos arrepiados e um som agressivo para a época: essa foi a marca do punk.

    Por F.S.M. , de São Paulo

    O movimento punk influenciou a sociedade e continua influenciando. Um som que saiu do subúrbio de Nova York, atravessou o Oceano Atlântico, chegou em terras britânicas para daí explodir para o mundo. A começar pelas músicas que não eram politizadas no início, mesmo assim, possuía o som revolucionário para a época. Se contrapondo às bandas predominantes na época, que estavam mais preocupadas em fazer disputas de quem mais fazia solos de guitarras, surge a banda The Ramones com músicas curtas de no máximo 2:50 minutos, músicas diretas e simples, que eram coerentes com o lema “Faça você mesmo”, o slogan que os punks iriam usar daí em diante. E foi essa ideia que caiu como uma luva para os ingleses, uma juventude revoltada e desempregada.

    A juventude desempregada britânica foi alvo fácil para o Punk, de onde surgiu várias bandas como Sex Pistols e The Clash, e também de lá vieram Sham 69, The Buzzcocks, Stiff Little Fingers, 999 e muitas outras. O som trazido pelos Yankess abalariam as estruturas inglesas, que também passava por uma tensão racial. O partido chamado National Front (Frente Nacional), um partido fascista, fazia uma forte propaganda contra os imigrantes, em sua maioria imigrantes jamaicanos.

    Neste contexto, entra em cena a banda The Clash, liderada pelo vocalista Joe Strummer, que trouxe para o som punk, e o rock em geral, as raízes jamaicanas, misturando o reggae e o ska ao punk, como em Guns of Brixton e Police and Thieves. Isso foi crucial para trazer muitos punks para as lutas antirracistas.

    Em 1978, foi organizado o festival R.A.R (Rock Against Racism, Rock Contra o Racismo) com as bandas  The Clash, Buzzcocks, Steel Pulse, X-Ray Spex, The Ruts, Sham 69, Generation X, Tom Robinson Band e Patrik Fitzgerald, levando mais de 80.000 pessoas ao show.

    Punk no Brasil

    Aqui no Brasil há uma “briga antiga” entre o pessoal de Brasilia e de São Paulo: onde o punk chegou primeiro?

    Não entrarei nessa polêmica. Não importa onde o punk tenha chegado, ele veio para causar, e é isso que ele fez em plena ditadura militar. Uma garotada de visual agressivo invadiu os espaços, onde surgiram bandas como Restos de Nada, Cólera, Ratos de Porão e Garotos Podres.

    Muitas bandas, inclusive, tocaram em espaços cedidos pelo PT na década de 80, período em que muitos punks mostravam simpatias pelo
    Partido dos Trabalhadores e muitos integrantes do movimento participaram de greves na região do ABC Paulista.

    O movimento foi essencial aqui no Brasil, para trazer a juventude para a luta contra a ditadura, quebrar os padrões que eram impostos pelo regime, conseguir organizar um festival punk como o “Começo do Fim do Mundo”, dar oportunidade aos jovens da época  montarem suas bandas, dar auto estima e um pouco de esperança aos corações envenenados da época.

    Moicanos e resistência

    Também não podemos deixar de lado o famoso moicano, corte de cabelo inspirado pela tribo com mesmo nome, que lutou contra a imposição do branco europeu. O punk usa o moicano para expressar sua indignação contra o sistema, levanta o moicano apenas em shows e manifestações, para mostrar que quer cuspir na cara da burguesia, como os povos indígenas moicanos, os punks resistem.

    Apesar de moda surgir, moda passar, moda acabar. O punk vem resistindo, enquanto houver alguém fazendo som de garagem, enquanto tiver letras que falam da periferia do povo pobre, odiando a burguesia, odiando a policia vai haver o sentimento punk. Ser punk é recusar tudo que o sistema te impõe, estar nem aí para que falam de você. É ter atitude, protestar, resistir. É lutar por uma sociedade livre da exploração e opressão. Lutar pelo socialismo.

    Viva o movimento punk e seus 40 anos! Êra Punk!

  • Vinte anos do CD ‘Sobrevivendo no Inferno’: Racionais MC’s a fúria negra

    Por: Henrique Oliveira, de Salvador, BA*

    E nesse mês de dezembro completam-se 20 anos de lançamento do histórico álbum Sobrevivendo no Inferno, do grupo de Rap Racionais MC’s, um CD que podemos dizer que foi um marco, um divisor de água não só para o movimento Hip Hop, mas também para a música brasileira. Em 1997, com o seu próprio selo, o Cosa Nostra, o grupo Racionais MC’s lançou o quarto disco de estúdio, produzido numa gravadora independente, chegando a vender 1,5 milhão de cópias, algo até então surpreendente para um grupo de Rap com produção autônoma.

    Para entendermos o que significou o CD, precisamos mergulhar, e situá-lo no momento em que passava o Brasil e especialmente a cidade de São Paulo na década de 90.
    A partir dos anos 90 o Brasil passa por uma forte regressão econômica, sobretudo com a adoção das políticas neoliberais dos governos Fernando Henrique Cardoso, um período marcado pelo baixo dinamismo econômico, retrocesso industrial, uma crise financeira do Estado com redução dos investimentos públicos, que contribuíram ainda mais para o agravamento das desigualdades sociais. E que vinha se desdobrando desde a crise dos anos 80, que ficou conhecida como a ‘década perdida’, se estendendo para os anos 90, resultando em estagnação econômica, inflação e a destruição de vários postos de trabalho.

    O crescimento do desemprego foi impulsionado pela política de racionalização produtiva, que buscava um modelo de gestão eficiente, baseado na redução dos custos e utilizando a modernização tecnológica. E o resultado da adoção desse modelo foi o aumento vertiginoso do desemprego que afetou o conjunto dos trabalhadores com alta e baixa qualificação, criando uma massa de trabalhadores autônomos, com baixos salários em empregos precários e muitos outros na informalidade.

    As transformações sócio-econômicas foram acompanhadas também de uma mudança cultural no campo do consumo e nos padrões do comportamento e esse momento também causou um movimento de pulverização da violência. A inserção da violência na vida cotidiana dos moradores dos grandes centros urbanos ocorre juntamente com o processo de banalização do tema nos meios de comunicação. No livro A construção da violência na televisão da Bahia: Um estudo dos programas Se Liga Bocão e Na Mira, os autores falam sobre o histórico dos programas policialescos no Brasil. O primeiro programa do gênero foi o Aqui e Agora no SBT em 1991, e logo após outros canais também passaram a investir no mesmo tema, como o 190 Urgente (CNT), Cidade Alerta (Rede Record), Rota do Crime (Manchete) e o Brasil Urgente (TV Band).

    Uma grande difusão por meio da mídia de uma imagem dos grandes centros urbanos como ambientes violentos, em que o medo e a insegurança passaram a fazer parte do cotidiano dos moradores. E esse cenário de insegurança social atingiu com mais força a juventude, que de forma contraditória, em meio a um parodoxo, foi a maior vítima da desigualdade social, se tornando também o setor apontado como os agentes causadores da violência na sociedade.

    Dados da Unesco, segundo a monografia ‘Rap e crise Juvenil em São Paulo na década de 90’ da autora Maria Patelli, mostram que no ano de 1980 foram registrados 27 mil homicídios no Brasil, dos quais 7.524 foi de jovens com idade entre 15 e 24 anos. No ano de 2000 foram 46 mil homicídios, com 17 mil vítimas entre a população jovem, a taxa de homicídios entre os jovens passou de 30 para cada 100 mil jovens em 1980, para 51 a cada 100 mil nos anos 2000, um crescimento de 73%.

    E além da violência, o desemprego também era um dos maiores desafios da juventude nesse período – em 1999, na região metropolitana de São Paulo, o número de jovens desocupados, sem emprego, na faixa etária dos 15 a 19 anos chegava a 73% nas famílias mais pobres.

    E sabemos que o Rap guarda uma relação de preservação da cultura africana de se comunicar por meio do canto e da dança, trazidas para o continente americano com a escravidão e a Diáspora a partir do século XVI. E na década de 1960 o movimento negro jamaicano começou a instalar um sistema de som nas favelas da capital Kingston, em um momento de crescente miséria no país, e os bailes comunitários passaram a ser como pano de fundo para discursos ideológicos, que falavam sobre a violência e a situação política do país. No final da década de 1960 os EUA recebe um intenso fluxo migratório de pessoas vindo do Caribe e México, e os jamaicanos levaram para o Bronx em Nova York a cultura Sound System. E foi nesse contexto que jovens negros do Bronx desenvolveram uma manifestação artística de rua como o Break Dance, e a discotecagem de DJ’s como Kool Herc e Áfrika Bambaataa. As demandas e carências sociais da comunidade pobre e negra norte americana encontrou no movimento cultural Hip Hop uma possibilidade de sair do anonimato.

    No Brasil o movimento cultural Hip Hop chegou no final da década de 1980, e entre os pioneiros estavam sujeitos como Thaide e DJ Hum, um movimento que, assim como nos EUA, vai ser protagonizado pela juventude negra, que fez das letras um verdadeiro manifesto contra as dificuldades das comunidades periféricas, a discriminação racial, a violência, e a narrativa da sobrevivência diária travada pela população negra e pobre das grandes cidades brasileiras.

    E é essa sociedade marcada pelas desigualdades e violência, que o CD ‘Sobrevivendo no Inferno’ irá refletir. No dia 30 de janeiro de 1997, o jornal Folha de S. Paulo trouxe uma matéria em que o Capão Redondo, local onde surgiu o Racionais MC’s, tinha sido o bairro paulistano mais violento no ano anterior, com 233 homicídios. E também no ano de 1996, o mesmo jornal divulgou que a região do Capão Redondo estava vivendo o ‘Efeito Bronx’ – bairro de Nova York onde surgiu o Rap nos EUA – que era a desvalorização dos imóveis e a saída de moradores da localidade por causa da violência. E isso não foi uma mera coincidência, pois os mesmos fenômenos sociais tanto nos EUA como no Brasil, são responsáveis pelo surgimento do Rap como música de protesto negro.

    Pois como o próprio grupo fala no seu site, o Racionais MC’s traz em suas letras a narrativa de como é duro ser negro e pobre no Brasil, e que os discursos dos rappers tem a preocupação, e o objetivo de “denunciar o Racismo e o sistema capitalista opressor que patrocina a miséria que está altamente ligada com a violência e o crime”, vejam aqui.
    Mas, 20 anos depois, o que faz com que o álbum do Racionais MC’s seja considerado tão atual? O que não mudou no Brasil relatado no CD? Ainda estamos tentando sobreviver no inferno?

    Na introdução da música ‘Capítulo 4, Versículo 3’, por exemplo, é dito que nas universidades brasileiras apenas 2% dos alunos eram negros. E atualmente, principalmente após a adoção da Lei de Cotas em 2005, o índice que era de 5,9% em 2004, chegou a 9,8% em 2014, sendo ainda insuficiente se compararmos com a quantidade de jovens negros em idade de estarem nas universidades.

    Alguns dados infelizmente pioraram. Nessa mesma música é dito que a cada quatro pessoas mortas pela Polícia, três eram negras. O Anuário do Fórum de Segurança Pública demonstrou que entre 2015 e 2016, as polícias brasileiras mataram o triplo de negros em comparação com as pessoas brancas. E em estados como o Rio de Janeiro, nove em cada dez mortos pela Polícia Militar são negros ou pardos. E o número de homicídios entre a população jovem e negra só vem aumentando, a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil, são 63 por dia.

    E para escrever a música ‘Diário de um detento’, Mano Brown se inspirou no relato do ex-presidiário Josemir Prado, que chegou a lançar um livro com esse mesmo título em 2010. Se na letra da música o Racionais relataram o Massacre do Carandiru em 1992, a situação no sistema prisional só vem se agravando a cada dia, chegamos a marca da terceira população carcerária do mundo com 726 mil presos. E os massacres atualmente acontecem em disputas entre os próprios presos nas cadeias superlotadas, que somente nesse ano de 2017 já foi superior ao do Carandiru, com 133 mortos em 15 dias. Em Manaus, por exemplo, foram 56 mortos. E com o clipe ‘Diário de um detento’, Racionais ganhou em 1998 o prêmio Escolha da Audiência no VMB da MTV.

    Em ‘Estou ouvindo alguém me chamar’, o grupo faz uma verdadeira análise sociológica e crítica de como jovens da periferia entram no mundo da criminalidade muitas vezes influenciados pelas necessidades, como uma forma de afirmação social para conseguir realizar os desejos de consumo de bens materiais: […] ‘Eu só queria ter moral e mais nada, mostrar para meu irmão, para os caras da quebrada, uma caranga e uma mina de esquema, algum dinheiro resolvia o meu problema’[…] Em 2014 a Polícia Civil de Minas Gerais notou que estava crescendo o número de jovens envolvidos em assassinatos para acessar bens como carro, roupa e celular.

    Em setembro o festival Red Bull Music Academy realizou um ‘Encontro com os Racionais MC’s’ para falar sobre os 30 anos do grupo e os 20 anos do álbum ‘Sobrevivendo no Inferno’. E segundo Mano Brown, na época de lançamento do CD o país vivia uma espécie de cegueira, e que eles só estavam falando o óbvio, e não eram gênios ou intelectuais como alguns achavam.

    No ano de 2007 o CD tinha feito 10 anos, e em uma entrevista para o G1 da Globo, o DJ KL Jay disse que o álbum foi feito para todo o Brasil, não apenas para a periferia e que foi um disco que enraizou o grupo. E diferente do CD duplo ‘Nada como um dia após o outro dia’, que segundo ele foi um álbum melhor elaborado, sendo trabalhado em casa para depois ser levado para o estúdio, o CD ‘Sobrevivendo no Inferno’ passou por um processo ao contrário, o disco foi produzido totalmente no estúdio, com inspiração de todos, disse KL Jay.

    As batidas, por exemplo, os chamados Samples, foram todos produzidos no estúdio, em meio a gravação do disco. E ouça algumas músicas que são utilizadas para as batidas do álbum, ‘Estou ouvindo alguém me chamar’, (Tom Browne – Charisma) ouça aqui, ‘A formula Mágica da Paz’, (The Bar kays – Attitude) ouça aqui, ‘Diário de um detento’, (Edwin Starr – Easin’ In) ouça aqui.

    Em 2015, o então prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, entregou ao Papa Francisco o CD ‘Sobrevivendo no Inferno’, quando visitou o Vaticano, a ideia do presente veio de um grupo de jovens da periferia de São Paulo para o coordenador de Políticas para a Juventude, por causa das referências religiosas na capa do álbum e nas músicas.
    E mesmo não se achando uns gênios, o Racionais MC’s não deixaram de ser reconhecidos como intelectuais e produtores de conhecimento, inclusive se tornaram objetos de pesquisa em programas de pós graduação em universidades brasileiras.

    Em 2012, Rogério de Souza Silva defendeu uma tese na Unicamp – Universidade de Campinas – chamada a ‘Periferia pede passagem: trajetória social e intelectual de Mano Brown’, que discute a importância do movimento Hip Hop para a transformação da vida dos jovens da periferia, tendo como base a trajetória social e intelectual do cantor do Racionais, defendendo que o Rap permite que os mc’s possam apresentar a sua visão crítica de mundo, ganhar visibilidade e não entrarem no mundo da criminalidade. Acesse aqui a tese no repositório de trabalhos acadêmicos da Unicamp.

    Na Universidade Federal de São Carlos, no curso de Sociologia foi apresentada uma dissertação de Mestrado por Henrique Yagui com o título de ‘Evangelho segundo Racionais MC’s: ressignificações religiosas, políticas e estético – musicais nas narrativas do rap’, no ano de 2014. A dissertação estuda os significados que a narrativa de Rap feita pelo Racionais MC’s sobre o cotidiano periférico, se baseava em três eixos: o Religioso que utiliza noções de ética e moral cristã, com base em livros como Êxodo, Gênesis e a figura de Jesus Cristo, o Político com característica subversiva e crítica, com influência de lideranças negras como Malcom X, contra o Racismo e as desigualdades sociais, e a Estética – Musical através do instrumental influenciado pela musicalidade negra como Funk, Soul e Samba, em dois álbuns, no ‘Sobrevivendo no Inferno’ e ‘Nada como dia após o outro dia’. E para ler a dissertação clique aqui.

    É inegável que o Racionais MC’s e o álbum ‘Sobrevivendo no Inferno’ – ouça aqui – são grandes influências para a juventude dos anos 90, e até para quem nasceu depois desse período, sem sombra de dúvidas a consciência política de muitos jovens negros da periferia foi formada pelas músicas do grupo, inclusive a minha. E quem é envolvido com o Rap seja como artista ou público tem que prestar reverência a esse disco.

    * Henrique Oliveira é graduado em História, mestrando em História Social pela UFBA, colaborador da Revista Rever e militante do Coletivo Negro Minervino de Oliveira/Bahia.

  • Star Wars VIII: Sempre haverá esperança

    Por Henrique Canary, de São Paulo, SP

    ( NÃO CONTÉM SPOILERS )

    Passada já uma semana da estreia mundial nos cinemas, os fãs de Star Wars continuam debatendo ardentemente sobre o esperado Episódio VIII: Os últimos Jedi. É um fato inegável que a quase unanimidade construída em torno do Episódio VII (O despertar da força) foi desfeita. Alguns se decepcionaram, alegando problemas no roteiro e na construção dos arcos das personagens. Outros, ao contrário, afirmam que o novo filme dirigido por Rian Johnson superou em muito o anterior e já é o melhor da nova leva (que inclui Rogue One, um spin off que se passa entre os episódios III e IV e que estreou em 2016).

    Os últimos Jedi era ansiosamente aguardado por alguns motivos. Em primeiro lugar, porque marcaria o retorno de Luke Skywalker à história (ele aparece apenas nos últimos segundos do Episódio VII). Em segundo, por que seria a última aparição de Leia Organa (princesa nos episódios IV, V e VI e general no Episódio VII). A trágica morte Carrie Fisher, em dezembro de 2016, deu a este episódio um tom mais triste porque sabemos que não a veremos mais, ao mesmo tempo em que obrigou os produtores a fazer algumas adaptações no roteiro, inclusive a recriar o rosto da atriz por computação gráfica em algumas cenas. Em terceiro, porque o Episódio VII levantou muitas questões que se esperava fossem respondidas neste episódio: quem são os pais de Rey? Finn tem alguma relação com a Força? Quem é o Líder Supremo Snoke e qual sua história? Alguém passará de um lado para outro da Força? E tantas outras perguntas…

    Apesar das muitas polêmicas entre os fãs, há quase um consenso de que o retorno de Luke à história foi espetacular. Mark Hamill entrega uma atuação madura, por vezes sombria, como era de se esperar pela sinopse. Mas ao mesmo tempo deixa transparecer em vários momentos o “jovem Skywalker” que aprendemos a amar tanto. Ele está lá, e seus traços podem ser encontrados nas rugas e na voz envelhecida do ator.

    As alterações de roteiro provocadas pela morte de Carrie Fisher foram muito bem feitas e passam, de fato, desapercebidas. Quanto às inúmeras perguntas levantadas pelo episódio anterior, muitas delas permanecem sem resposta, o que não é de todo ruim. Nesse sentido, o filme tem o mérito de fugir um pouco da atual tendência hollywoodiana de entregar tudo pronto e explicado para o espectador. Será preciso especular e imaginar até o último filme (e que bom!).


    A resistência e as novas gerações

    Alguém disse certa vez que uma obra cultural, uma vez terminada e entregue ao público, pertence a este último, que pode ver nela o que bem entender, muitas vezes independentemente da vontade original do autor. Talvez Star Wars seja um pouco isso. Em tempos de Temer, Bolsonaro, reforma trabalhista, confusão e divisão da esquerda, Os últimos Jedi é uma filme extremamente otimista e um chamado à confiança no futuro. Ele nos conta a história de uma Aliança Rebelde que sofre uma derrota atrás da outra. Mas como diz Poe Dameron (personagem de Oscar Isaac) no próprio trailer, “Somos a faísca que acenderá a chama que destruirá a Primeira Ordem”. Apesar das derrotas, os rebeldes têm plena confiança no futuro, pois sabem que seus aliados são os explorados e oprimidos pela Primeira Ordem de todos os cantos da galáxia. Sabem que a frase “Sou membro da Resistência” pode em alguns casos significar a morte, mas em outros lhes garantirá abrigo, cuidado e talvez até uma nave emprestada. Basta saber a quem dizê-la. Aliás, a frase sobre a faísca colocada na boca de Dameron é uma clara referência ao famoso verso do poeta russo Alexander Odoevski, em seu poema de 1828: “Da faísca nascerá a chama”. Este verso foi adotado mais tarde por Lenin como lema do jornal revolucionário Iskra [a faísca]). Também na Rússia do início do século 20, os revolucionários sofreram muitas derrotas, mas souberam perseverar. E por isso venceram. Os últimos Jedi é também um filme sobre pessoas simples e sobre como é impossível vencer sem a coragem delas; sobre como não é preciso ser alguém especial para fazer coisas especiais. A Resistência não é formada apenas por generais, almirantes e exímios pilotos. Ela inclui gente que faz a manutenção das naves e limpa os esgotos das estações espaciais. Não há Resistência sem essas pessoas. O mesmo vale para a Primeira Ordem. E como dizia Bertolt Brecht “O vosso tanque, general, é um carro forte / Derruba uma floresta, esmaga cem homens / Mas tem um defeito / Precisa de um motorista”.

    Os últimos Jedi nos explica que a condição mais importante para a vitória da Resistência é a sua capacidade de ganhar o coração e as mentes das novas gerações; que líderes e comandantes experientes têm um enorme valor e que se pode aprender muito com eles, mas que também eles podem e devem ser substituídos em algum momento. E é sempre melhor se os velhos comandantes saírem de cena de maneira voluntária, prestando seu apoio aos jovens líderes. Os jovens às vezes erram, rompem a disciplina, se precipitam, avaliam mal as condições da luta. Mas eles são o futuro.

    Star Wars VIII – Os últimos Jedi nos ensina que a vida é finita e que só há um lugar em que podemos viver para sempre: na memória dos que virão depois de nós, que contarão sobre nós histórias e que se apoiarão em nossos feitos e em nosso exemplo para seguir a luta. Pois é ela que dá sentido à nossa existência. É ela que destrói e constrói todas as coisas. Que une e separa homens e mulheres, classes sociais, nações. A luta é o fio explicativo de toda a história humana. Ela é a Força da vida real.

    Assista o trailer (legendado) de Star Wars VIII