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  • Por que é necessário fazermos divulgação científica?

    Por Lucas Sena, Biólogo, Mestrando em Genética e Biologia Molecular pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Publicado originalmente no site Universo Racionalista.

    O conhecimento científico, de certa forma, está intrinsecamente relacionado com os avanços tecnológicos que podem se materializar em profundas melhorias na qualidade de vida da população. Por exemplo, a expectativa de vida no Brasil em 1900, era de 33,7 anos, dando um salto significativo em pouco mais de 11 décadas, atingindo 75,4 anos em 2014.(1) Esse salto se deve a uma série de revoluções científicas que ocorreram no último século. Obviamente, nem sempre a tecnologia está ligada diretamente ao progresso, pois, em geral, ela pode não estar democratizada ou ser utilizada para outros fins.

    No entanto, a apropriação dos resultados produzidos pela ciência e o conhecimento científico apresentam uma relativa separação. As pessoas andam de carro, usam internet, necessitam de medicamentos, mas nem sempre entendem como funcionam coisas que elas usam no dia a dia.

    Assim, o fato do conhecimento científico estar concentrado em poucas pessoas cria uma lógica de que caberia aos cientistas “fazer ciência” e a população a de usufrui-la. Essa engrenagem entre concentração absoluta de conhecimento em um punhado de indivíduos carrega em si uma profunda contradição que coloca em xeque, inclusive, o avanço da ciência.

    No entanto, não poderiam os cientistas seguir fazendo ciência e a população usufruindo de seus resultados? Não, por que essa estrutura cedo ou tarde colocará o avanço científico em xeque.

    Mas por que o analfabetismo científico da população colocaria em xeque o avanço da ciência? Em regra, uma população ignorante cientificamente apresenta a tendência de ser tornar hostil a pesquisa científica por não entendê-la. Por esse aspecto a alfabetização científica é, sem dúvida, uma das tarefas fundamentais, principalmente pela polarização social que vivemos.

    O primeiro passo da alfabetização científica se passa ainda na escola. Crianças são curiosas e o ensino de Ciências, antes de mais nada, deve ser o mecanismo de incentivar essa curiosidade e não “matá-la”, pelo contrário, transformá-las em pessoas mais curiosas e críticas, impedindo assim que aceitem verdades absolutas. A curiosidade e o ceticismo são os elementos norteadores que movem todo cientista. Assim, quanto mais forte esse sentimento estiver impregnado na sociedade mais pessoas estarão dispostas a fazer ciência.

    Esse processo se passa pela universalização do ensino público de qualidade e o investimento na formação de professores. Além disso, há uma necessidade de disponibilizar para as escolas laboratórios, telescópios e recursos para saída de campos. Afinal a realidade é extremamente fascinante e ela não cabe em um quadro de uma sala de aula.  Isso criará as condições para que jovens de origens mais modestas possam sonhar em ser astrônomos, geneticistas, zoólogos, químicos, etc.

    Mas queremos uma sociedade onde todos sejam cientistas? Óbvio que não. Precisamos de operários, artistas, filósofos, admiradores, etc. Porém, a alfabetização científica deve se estender a todos. Isso porque uma população que compreende a ciência apresenta a tendência de buscar saída aos problemas de forma racional ao invés a saídas mágicas.

    Um indivíduo com noções de anatomia e fisiologia em medicina moderna, em regra, optará por buscar ajuda médica para curar uma doença, ao invés de um pastor/curandeiro. E por confiar na medicina moderna irá apoiar de forma sistemática cada medida que o governo tomar que possibilite avanços na pesquisa médica.

    No entanto, hoje milhares de pessoas em todo mundo apostam todas suas fichas na busca da cura em templos religiosos. O recente caso do apresentador Marcelo Rezende que abandonou o tratamento contra o câncer, pois segundo ele buscaria a cura por uma via divina e que veio a óbito meses depois é uma expressão categórica desse fenômeno. Essas pessoas não veem o avanço da ciência como uma necessidade, pois a saída se dará por uma via espiritual e não material.

    Além disso, pessoas alfabetizadas cientificamente saberão que a eficiência de medicamentos se dá a partir de evidências realizadas em pesquisas no qual obtém seus resultados publicados em revistas científicas importantes.

    Por exemplo, no ano passado foi aprovado pelos deputados brasileiros a liberação do uso da Fosfoetanolamina, divulgado por seus criadores como um medicamento capaz de curar o câncer. No entanto, essa substância não passou por nenhum teste que comprovasse sua eficácia. Mas como a distribuição de uma substância sem comprovação de eficácia teve seu uso autorizado?

    Essa aprovação foi resultado de uma campanha sistemática encabeçada por figuras como Bolsonaro(2) e o “Ratinho”(3) que só teve eco devido a ignorância científica da população. Ao invés de pressionarmos o governo para aumentar os investimentos na pesquisa contra o câncer, lutamos ferozmente para distribuir substâncias no qual não tinham nenhuma utilidade para combater a doença.

    As pesquisas científicas vão além de buscar uma aplicação prática imediata. Uma grande parte das pesquisas realizadas hoje buscam, em primeiro lugar, responder uma série de perguntas de como as coisas funcionam. Esse tipo de pesquisa é conhecido como ciência de base. Quando mandamos um telescópio para o espaço, construímos um colisor de partículas ou um detector de ondas gravitacionais não esperamos alguma aplicação imediata. Um biólogo que vai a campo observar o comportamento das formigas, não espera que aquela observação produzirá um benefício imediato para a humanidade.

    Bem, mas por que financiar projetos como esses que tem como único objetivo “saciar” a curiosidade de algumas mentes? Uma resposta curta seria que aprender nos torna vivos. No entanto, tenho clareza de que essa resposta convenceria poucas pessoas, principalmente as que não se interessam por ciências.

    A grande questão é: Responder perguntas mesmo que não tenham como objetivo principal buscar uma aplicação prática é a tentativa permanente de entender o universo do micro ao macro.  Essa é a principal mola propulsora da Ciência aplicada. Nesse sentido, Carl Sagan no livro “O Mundo Assombrado por Demônios” escreve uma série de situações no qual esse processo ocorreu:

    “Maxwell não estava pensando no rádio, no radar e na televisão quando rabiscou as equações fundamentais do eletromagnetismo.  Newton nem sonhava com voos espaciais ou satélites de comunicações quando compreendeu pela primeira vez o movimento da Lua; Roentgen não cogitava em diagnóstico médico quando investigou uma radiação penetrante tão misteriosa que ele a chamou de raio X; Curie não pensava na terapia do câncer quando extraiu a duras penas quantidades diminutas de rádio do meio de toneladas de uranita; Fleming não planejava salvar as vidas de milhares de pessoas com antibióticos quando observou um círculo sem bactérias ao redor de uma formação de mofo; Watson e Crick não imaginavam a cura de doenças genéticas quando tentavam decifrar a difratometria dos raios X do DNA; Rowland e Molina não planejavam implicar os CFCs na diminuição da camada de ozônio quando começaram a estudar o papel dos halogêneos na fotoquímica estratosférica”.

    A ciência de base é fundamental, no entanto, a ignorância científica cria um ambiente hostil à ela. Isso se deve porque, em geral, esse tipo de pesquisa pouco compreendida pela população passa a receber essencialmente orçamento público. Se a população não entender qual a utilidade dessa pesquisa ela não irá, de forma alguma, se contrapor aos cortes em investimentos destinados a ciência, pois afinal ela não serve “para nada”.

    Um exemplo claro são os sucessivos cortes nos investimentos destinados as pesquisas científicas no Brasil aplicados pelo governo Temer.   Após a extinção do Ministério da Ciência tivemos um corte de 44% do orçamento destinado a Ciência em 2017 e a perspectiva para 2018 é um corte de 15%(4). Nesse cenário de profundo retrocesso na ciência brasileira a única resposta que temos é uma completa apatia da população.

    No entanto, é preciso ressaltar que quando discutimos que temos uma população ignorante cientificamente em nenhum momento podemos culpá-la dessa situação.  Diferentemente do fundamentalismo religioso que disputa a consciência da sociedade para ganhá-la para sua visão de mundo, uma grande parte da comunidade científica tem uma postura principal de completo ostracismo, ou seja, isolada em seus laboratórios e alheias aos debates políticos e sociais.

    Essa visão, aos poucos, vem sendo mudada, mas ainda é insuficiente. Isso porque a popularização da ciência deve ser uma tarefa do conjunto da comunidade científica, seja ministrando cursos para leigos ou escrevendo para veículos de comunicação de massa, vídeos para o YouTube, etc. Não queremos que toda população se torne cientista, mas queremos alfabetizar cientificamente o conjunto da população. Nesse sentido é preciso divulgar Ciência.

    Obviamente falar para nós mesmos é muito mais fácil do que explicar Ciência para o grande público. É extremamente confortável falar de grandes temas científicos no qual apenas punhado de pessoas entendem do tema do que explicar com paciência e didática sobre esses assuntos, no qual somos apaixonados em discutir, mas que o ouvinte não está familiarizado.

    Por mais que a divulgação científica pareça desconfortável para alguns (e alguns cientistas tenham mais dificuldade) ela não só é o mecanismo capaz de fazer a Ciência avançar, mas também não ser destruída pela ignorância impulsionada por setores conservadores da sociedade.

    É preciso que um operário (a), motorista ou camponês (as) saibam temas gerais sobre assuntos científicos. Entendam sobre evolução, aquecimento global, como as vacinas funcionam e porque o universo está em expansão. É necessário tirar a roupagem extravagante da Ciência e torná-la mais acessível.  Assim, da mesma forma que temos pessoas que nunca jogaram futebol, mas discutem sobre o tema com a mais profunda paixão, por que não podemos ter pessoas que não são cientistas, mas que debatem sobre o tema com grande entusiasmo?

    Dessa forma, a democratização do conhecimento científico é um antídoto contra o charlatanismo religioso e um combustível para o progresso da humanidade.

    Referências:

    1. http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2016-08/ibge-expectativa-de-vida-dos-brasileiros-aumentou-mais-de-75-anos-em-11
    2. https://www.youtube.com/watch?v=KirwHIGzeOk
    3. https://www.youtube.com/watch?v=IzAawiZ6_tA
    4. https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/ganhadores-do-nobel-enviam-carta-a-michel-temer-com-preocupacoes-com-cortes-na-ciencia.ghtml
  • Nem tudo é doce: clandestinos em Ribeirão Pires

    Na Décima segunda matéria da série sobre as batalhas de MC’s no Grande ABC Paulista, o Esquerda Online vai para uma das batalhas pioneiras da região

    Por: Elber Almeida, do Grande ABC Paulista

    Ribeirão Pires é uma das menores cidades da região do grande ABC Paulista. Isso não quer dizer que é uma cidade pequena, são mais de cem mil habitantes. O turismo possui importância para a cidade, pois trata-se de um município bem menos industrializado que os outros da região. A Prefeitura recebe incentivos financeiros do Estado de São Paulo para a promoção do turismo na cidade e suas atrações. Alguns dos eventos são relativamente famosos na região, como o festival de chocolate.

    Voltada para este tipo de atividade, a Vila do Doce, fundada em 2008, recebe visitantes de toda a região. Em um ambiente cercado, a Prefeitura visa atrair turistas. Logo ao lado, numa praça, ocorre uma roda da rimas aberta a todos há quase quatro anos. É a Batalha Clandestina de Ribeirão Pires.

    Como a maioria das rodas de rimas do movimento Hip Hop no grande ABC, o formato consiste em dois MCs, enfrentando-se em eliminatórias, até uma final. Há uma diferença com relação às outras batalhas da região: geralmente esta batalha ocorre no formato “a capela”, ou seja, sem som ao fundo. Uma exceção foi esta última edição, por ser especial do dia das crianças. A organização afirma que o formato é assim por ter referência na Batalha da Santa Cruz, a mais antiga batalha de MCs ativa em São Paulo.

    Batalha Clandestina – Ribeirão Pires -SP

    Reportagem sobre Batalha Clandestina, batalha de MC's na região do Grande ABC paulista, da série de reportagens feita pelo Esquerda Online.

    Publicado por Esquerda Online em Domingo, 15 de outubro de 2017

    Como a grande maioria dos eventos deste tipo, a Batalha Clandestina também sofreu repressão policial diversas vezes. Não é novidade para quem participa do movimento Hip Hop a constante ação da polícia contra suas ações. No caso da batalha, a polícia já tentou impedir a realização desta, porém os organizadores conseguiram terminá-la fora da praça da Vila do Doce, próximos à estação de trem da cidade.

    Na última edição, a organização da batalha arrecadou brinquedos para crianças que precisam, neste Dia das Crianças que infelizmente não é para todas. Famílias levaram suas crianças para a roda e tudo ocorreu num clima de paz e confraternização.

    Já são quase quatro anos de resistência. Toda quinta-feira, às 20h, na praça da Vila do Doce, próxima à estação de trem em Ribeirão Pires. O Hip Hop resiste nos quatro cantos deste planalto industrial.

    0 #Cultura e resistência no ABC paulista: https://esquerdaonline.com.br/2016/10/20/cultura-e-resistencia-no-abc-paulista-sobre-batalhas-de-rap-na-regiao/

    1 #Batalha da Pistinha: https://esquerdaonline.com.br/2016/11/01/cultura-na-periferia-do-abc-paulista-a-batalha-da-pistinha/

    2 #Batalha da Praça: https://esquerdaonline.com.br/2016/11/07/entre-a-industria-e-a-quebrada-a-batalha-da-praca-no-silvina/

    3 #Batalha da Vila Luzita: https://esquerdaonline.com.br/2016/11/17/a-batalha-da-vila-luzita-a-igreja-e-o-terminal/

    4 #Batalha da Galeria: https://esquerdaonline.com.br/2016/11/20/o-contraste-na-cidade-a-batalha-da-galeria/

    5 #Batalha da Palavra: https://esquerdaonline.com.br/2016/12/08/a-palavra-rimada-no-centro-de-santo-andre/

    6 #Resiste Batalha do Carrefa!: https://esquerdaonline.com.br/2017/01/02/resiste-batalha-do-carrefa/

    7 #A Batalha do Cooperativa: https://esquerdaonline.com.br/2017/01/27/a-batalha-do-cooperativa/

    8 #A Tripla Resistência das Minas: Roda Cultural da Brasil: https://esquerdaonline.com.br/2017/02/09/apenas-em-sua-segunda-edicao-a-roda-cultural-da-brasil-batalha-das-minas-em-sao-bernardo-do-campo-mostra-a-que-veio-resistir/

    9 #Um Bom Lugar na Quebrada: A Batalha do Remp: https://esquerdaonline.com.br/2017/03/06/um-bom-lugar-na-quebrada-a-batalha-do-remp/

    10 #Quilombagem urbana que incomoda a burguesia: a Batalha da Matrix:
    https://esquerdaonline.com.br/2017/05/05/quilombagem-urbana-que-incomoda-a-burguesia-batalha-matrix/

    11 #Nas Pistas: 4 anos de resistência em Mauá:
    https://esquerdaonline.com.br/2017/08/23/nas-pistas-4-anos-de-resistencia-em-maua/

    Mapa das Batalhas de Rap do ABCDMRR:

  • OPINIÃO | O Cunho épico de O Jovem Karl Marx

    Por: Gabriel Vinicius, do Forum Popular de Cultura e CIA Boemia Literária (FPC), de Contagem, MG

    O Jovem Karl Marx. Filme magnifico, o Raoul Peck não deixou a desejar. Como eu já esperava. A pesquisa histórica, a construção do personagem, e a forma como as ideias de Marx são retratadas de maneira fidedignas e diretas da fonte, sem dedo das correntes e interpretações posteriores que chegam a vulgarizar a ideologia original, são elementos que sustentam o filme o tempo todo. Ainda que a passagem por algumas publicações seja um pouco rápida, e de um certo cunho romântico em alguns momentos, o que pode ser explicado pela humanização do personagem, as abordagens, mesmo que em síntese, não deixam a desejar.

    O filme desconstrói a ideia pós-moderna que diz que existem Marxs antagônicos, antes e depois do Manifesto, e mostra a evolução do pensamento desta figura histórica, passando pelo jovem Hegeliano do início àquele que convive com o Phroudon e as divergências que levam aos rompimentos futuros, justamente pela construção de uma filosofia que buscava se embasar em uma contradição materialista.

    O personagem de Karl Marx aparece durante todo o filme com um ar crítico que em algumas vezes esbanjava sarcasmos e sorrisos irônicos, sempre com arquétipos de gênio. A evolução do personagem é gradativa, e acompanha, corretamente, a evolução do pensamento e das publicações. Há pouco o que dizer nesse sentido, pois esse texto tem objetivo de analisar outro parâmetro, como por exemplo, qual será o super-objetivo de Raoul, ao criar a obra?

    O filme usa elementos de cunho épico, no sentido de debater, obviamente, temas que vão além da vida privada, entretanto não usa muitos artifícios do teatro épico, ou seja, não leiam isso e esperem ir assistir a Glauber Rocha, pelo contrário. Se eu fosse comparar, usaria como objeto o filme “Eles não usam black tie”, no sentido que tange ao ato de tentar buscar na vida privada a discussão épica. Ainda assim, nem mesmo eu confio tanto nessa análise, pois a discussão do filme é voltada nas ideias de Marx, deixando a classe operária e outros temas épicos como subtexto.

    Então, sim, o filme se volta para romances e nuances da vida privada da dupla mais badalada de todos os tempos, mas isto é feito com dois objetivos, um de humanizar os personagens com o intuito de desmistificá-los, e o outro é poder trazer uma sustentação de respiro e pausa, frente ao conteúdo fortemente historicizante e filosófico do filme.

    Não há outra resposta, o resto do filme tem por objetivo discutir a obra de Marx e provocar através dela. Abrem-se diversos conflitos que não são fechados, como as dificuldades de Marx, a relação entre Engels e seu pai, e por aí vai. Diante de um crítico vulgar, o filme pode ser colocado como ruim por não encerrar esses conflitos de vida privada, ou oferecer uma resposta fácil como o fato de “Ser apenas um retrato pré-internacional”, mas isso seria uma leitura estúpida, pois esses elementos existem só para sustentar o objetivo épico do filme que é discutir, desmistificar e apresentar Karl Marx.

    Ou seja, uma analogia interessante é a práxis, o filme quer apresentar um sujeito e um objeto, ou seja, Marx e sua obra. Qual é então a liga do filme, para discutir ambos os temas? Isso mesmo, meu amigo marxista, o TRABALHO, o foco no trabalho intelectual e incessante de Marx e Engels é que vai dar a liga para construção dos temas e evolução dos personagens, cumprindo muito bem esse Super Objetivo de apresentar uma obra e humanizar o sujeito criador dela.

    Essa tarefa que ele cumpre muito bem, e é por isso que não foi comprado por nenhuma distribuidora no Brasil, porque cumpre seu papel político, desvia do objetivo do cinema burguês, de discutir apenas sujeitos, e mais do que tudo, esclarece as coisas. Não há nada que a indústria cultural tema mais do que uma obra que esclarece o pensamento.

  • Blade Runner 2049: o que a obra-prima de Denis Villeneuve tem a dizer sobre a humanidade

    Por Carlos Zacarias, Colunista do Esquerda Online. (Alerta pode conter Spoiler)

    Inspirado na obra do escritor Philip K. Dick (1928-1982), Androides sonham com ovelhas elétricas?, Blade Runner: o caçador de androides estreou nas telas de cinema do planeta em 1982. Dirigido pelo cineasta britânico Ridley Scott, que já havia oferecido ao mundo o sombrio e assustador Alien, o oitavo passageiro (1979), Blade Runner não chegou nem perto de fazer sucesso nos cinemas como o filme anterior de Scott. A história distópica da caçada a um grupo de replicantes (androides) revoltosos, passada numa Los Angeles claustrofóbica e futurista situada em 2019, não chegou nem perto de empolgar as plateias dos cinemas que começavam a frequentar os Shoppings Centers e consagravam os filmes de grande apelo comercial como blockbusters.

    Depois de lançado nos cinemas, Blade Runner ganhou uma versão em VHS e foi neste formato que passou a encantar milhões de fãs que o consagraram como um dos filmes mais importantes da ficção científica de todos os tempos e um verdadeiro cult, celebrado por todos os amantes da sétima arte. Em fins da década de 1990, Blade Runner foi relançado em uma “versão do diretor” e teve o merecido sucesso que todos esperavam, apesar de não chegar a ser um blockbuster. Na película que foi aos cinemas em 1982, Ridley Scott tinha sido obrigado pelos produtores a adicionar elementos que, de alguma forma, traduzissem uma história demasiadamente complexa para o grande público. Por conta disso, foi colocada uma narrativa em off feita pelo policial Rick Deckard (Harrison Ford), personagem central do filme, além de ter sido oferecida uma versão mais palatável com um final otimista e em plano aberto, onde se utilizaram imagens descartadas do filme O iluminado, de Stanley Kubrick, como forma de aliviar a história por demais pesada. Na “versão do diretor”, além de serem suprimidas a narrativa em off e a cena final quando Deckard e Rachael (Sean Young) seguem em um carro voador por sobre montanhas geladas em sua fuga, são adicionados cenas de diálogos intensos e uma perspectiva que não havia no filme de 1982: seria Deckard um replicante?

    A história de Blade Runner gira em torno de uma revolta de replicantes que, proibidos na Terra, são usados para trabalhos perigosos de exploração e colonização de outros planetas. Num dado momento, um grupo de replicantes se rebela, toma uma nave de assalto e ruma para a Terra. Liderados por Roy Batty (Rugter Hauer, numa magistral interpretação), o grupo de quatro replicantes do modelo Nexus 6, o mais avançado até então construído, é apontado como altamente perigoso, porque deixa em sua trajetória um rastro de destruição e morte. Obstinados, os replicantes liderados por Roy tem como objetivo a encontrar o seu criador, o dono da megacorporação Tyrell, responsável pela criação dos replicantes,. O policial Deckard (Harrison Ford), do departamento encarregado de controle e supressão dos replicantes é incumbido da missão de localizar e “remover” (aposentar, matar, eliminar) esses seres. Deckard, que é um policial taciturno e solitário, envereda na atmosfera sombria de uma Los Angeles que fala diversas línguas, chove todo o tempo e exibe permanentemente peças de propaganda projetadas em imagens nos enormes edifícios através de recursos quase que completamente desconhecidos nos anos 1980.

    A principal intenção de Roy e seus companheiros em vir à Terra para encontrar o seu criador é tentar de alguma forma impedir que o tempo de vida dos replicantes seja curto, algo estabelecido em mais ou menos sete anos. A obsolescência programada pelas empresas Tyrell para os modelos de replicantes altamente avançados era uma garantia para que estes seres, em tudo semelhante aos humanos, estivessem impedidos de desenvolver as características que distinguem a espécie humana das outras. Era por uma imposição das leis do período que ficava estabelecido que um replicante não podia viver muitos anos, sob o risco de vir a desenvolver sentimentos humanos como amor, ódio, compaixão, inveja etc. Eram essas as perguntas que colocavam o grupo de Roy em movimento em busca do seu criador: por que não podemos seguir vivendo? por que não podemos nos tornar humanos?

    35 anos depois do lançamento do filme original, chega às telas dos cinemas Blade Runner 2049, do diretor franco-canadense Denis Villeneuve (diretor de O homem duplicado). Os ingredientes do primeiro filme estão todos lá: a Los Angeles futurista, um policial (blade runner) caçador de replicantes, uma megacorporação que adquiriu o espólio da falida Tyrell e conseguiu licença para produzir modelos ainda mais avançados de replicantes, além de todas as questões filosóficas que nortearam a primeira versão cinematográfica: a morte, o tempo, a memória e o que nos torna humanos. Na nova versão, que se passa apenas 30 anos depois da primeira, ambientada em 2019, o policial K atua como caçador de replicantes insubmissos e dos modelos mais antigos, da geração do Nexus 6, alguns dos quais continuam a existir ilegalmente como remanescentes dos que haviam sido proibidos e eliminados. K (Ryan Golsling numa interpretação sóbria e bastante digna) é, ele próprio, um replicante plenamente consciente de sua condição e do fato de que suas memórias foram implantadas para lhe conferir algum efeito de humanidade, algo indispensável ao seu serviço e à sua existência. K é, como Deckard, um sujeito solitário, mas sua vida é preenchida pela presença de sua companheira virtual Joi (Ana de Armas), que se ressente de não ter existência física para poder tocar o seu parceiro.

    A história se desenvolve a partir do encontro entre K e o replicante Sapper Morton (Dave Bautista). Encontrado numa fazenda nas imediações de Los Angeles, Sapper Morton é um modelo Nexus 6 que cultiva proteínas. Desse encontro violento e arrebatador entre dois replicantes que assumem diante do mundo funções completamente distintas, um lutando para sobreviver e outro encarregado de eliminar os seus semelhantes, a possibilidade de que os replicantes possam se reproduzir de maneira sexuada é colocada quando Sapper diz que K jamais entenderia, porque um “milagre” tinha contecido. K segue atrás das pistas e ao retornar ao Departamento de Polícia é encarregado pela sua superiora, Lietenant Joshi (Robin Wright), para que saia em busca desse suposto “milagre”, esse replicante que teria nascido de uma mãe Nexus 6. K segue em sua missão cada vez mais envolvido com Joi, com suas memórias e bastante desconfiado de que ele pode ser esse replicante que nasceu, diferente de todos os demais que foram feitos.

    O Blade Runner original de 1982 foi lançado numa década em que a dupla Thatcher e Reagan davam as cartas no planeta. Num mundo dominado pelo ultraliberalismo, a questão colocada no filme de Ridley Scott, de que a revolta e a rebelião tornam humanos até mesmo os seres feitos para serem explorados, dava o sentido definitivo sobre o que era ser um “ser humano”. Ou seja, o ato de se rebelar é um ato humano. Passados 35 anos, a questão é ainda mais atual num mundo em que as grandes corporações avançam e o mercado parece ser o único horizonte possível para a humanidade. Talvez por isso, a questão relacionada ao tema aparece ainda com mais força, pois uma rebelião está sendo preparada pelos replicantes que pretendem se tornar humanos, com direitos plenos, inclusive à reprodução sexuada. É essa a questão colocada como leitmotiv de toda a ação, especialmente numa cena que parece sugerir que uma continuação do filme pode estar por vir. Na cena, um grupo de replicantes insubmissos, que vive escondido no submundo e é liderado pela personagem de Hiam Abbas, ao resgatar K da morte, coloca para o policial alguma coisa como: “A capacidade de se rebelar é que torna os humanos, humanos”.

    Mas se o tema da rebelião permeia o primeiro e o segundo Blade Runner, é quando envereda pelas questões filosóficas mais propriamente ditas que o filme ganha força e complexidade, pois não se trata de um filme de ação. Por conta disso, ficamos compadecidos frente ao amor improvável entre o replicante K e sua companheira virtual Joi e nos compadecemos da impossibilidade desta se tornar um ser corpóreo e dormir com K. Em uma das cenas mais bonitas do filme, Joi procura uma prostituta (uma replicante feita para “dar prazer”) e acerta com ela estabelecer uma sincronia entre os seus programas para permitir a Joi fazer amor com K. A beleza dessa cena se compara ao do primeiro filme, quando a personagem Rachael, da lindíssima Sean Young, assistente de Tyrell que não sabe que é uma replicante, vai procurar Deckard angustiada após descobrir sua condição. Enquanto observa as fotografias no apartamento do policial com um olhar melancólico de quem acessa memórias que, agora sabe, não são suas, Rachael se dirige ao piano de onde extrai algumas notas tristes. Ao som de fundo do lindo Love Theme de Vangelis, que fez a magistral trilha sonora do Blade Ruenner de 1982, sentada ao piano Rachael desfaz lentamente os cachos dos seus cabelos, que lhe caem sobre os ombros, como quem se desnuda diante do amante. Ao desenrolar os cachos, Sean Young celebrizou uma das cenas mais sensuais que o cinema já produziu. A propósito da trilha sonora de Blade Runner 2049, de Hans Zimmer, que havia feito a trilha de A origem, há frequentes referências a Vangelis, algo que termina por reforçar bastante a narrativa e fortalecer a ligação dos dois filmes.

    Para completar, a presença de Harrison Ford em Blade Runner 2049 confere dignidade ao envelhecimento e a aproximação da morte, algo que já tinha aparecido em Logan (2016). Lá, como aqui, a morte que se aproxima é confirmada como uma vitória da espécie sobre o indivíduo, como bem nos lembrou Henrique Canary no seu belo artigo sobre Logan. Lá, como aqui, o que nos torna humanos não é o fato de não sermos mutantes ou de termos simplesmente nascido; não somos humanos porque nascemos, vivemos, trabalhamos, nos reproduzimos e caminhamos para a morte. O que nos torna humanos, como nos sugerem esses extraordinários filmes, é a nossa capacidade de rebelião, é a incontornável necessidade que temos de colocar permanentemente questões sobre a nossa existência; é a possibilidade de transformar o passado em referência para o futuro, para que as nossas memórias não se percam “como lágrimas na chuva”, como disse o personagem Roy quando ao encarar sua própria morte no filme de 1982 salvou Deckard de ter o mesmo destino, demonstrado que amava mais do que tudo a vida.

    Para concluir, assistir o filme de Villeneuve em 3D é uma experiência ainda mais arrebatadora, porque o filme tem uma beleza plástica impressionante. As cores fortes em tons de vermelho, alternam-se com azuis intensos e tornam a experiência de ir ao cinema indescritível. Por tudo isso, Blade Runner 2049 é uma experiência que vale à pena, especialmente porque se trata de uma obra-prima, algo raro nesses tempos sombrios.

     

  • Apologia da expressão e da Arte

    Por: William Abreu

    Durante a semana, vieram muitos pontos para abordar em relação à exposição do museu Queer, promovido pelo Santander Cultural, e a sua repercussão na mídia. Já aviso que o texto não é justificativa para a validação de determinada obra de arte com possível teor ofensivo a determinados grupos, o objetivo não é esse.

    No início 2017, ano que iniciei minha experiência dentro da comunicação social, na publicidade, tive a oportunidade de estudar Arte ou a Arte. E percebi uma dificuldade, que não estava só em mim, a problemática da sociedade em sua maioria não ter a capacidade cognitiva de enxergar símbolos para além das imagens, tornando qualquer tipo de linguagem subjetiva de existência do sujeito, ligada diretamente a formas e textos e muitas vezes na Arte isso não necessariamente ocorre.

    Bernini, um dos maiores escultores do séc. XVII, retratou em muitas de suas obras temas como sexualidade “voraz” masculina em relação à propriedade ao corpo da mulher, o êxtase feminino, dentre outros, dentro do Vaticano. As obras  Êxtase de Santa Teresa (1647–1652), O Rapto de Proserpina (1621-1622) e Apolo e Dafne (1622-1625), durante séculos nos causa certo estranhamento, mamilos femininos, a figura do pênis, rostos de orgasmos, posse e outros sentimento eram trabalhados com uma dramatização, técnica e expressividade que a sexualidade dos trabalhos não assustava em nenhum momento a cristandade.

    Séculos mais tarde, chegamos ao caso onde uma exposição com obras que pautam a sexualidade, gênero, cristandade, é fechada pelo Movimento Brasil Livre (MBL) e uma série de fanáticos religiosos, apontam apologia à prostituição infantil e zoofilia nos trabalhos. E essa para mim foi a declaração de que a sociedade brasileira não “lê para além das letras”.

    Com o passar dos semestres, nós publicitários em formação, começamos a entender quais as linguagens e técnicas que usaremos no futuro para influenciar e  manipular o subconsciente da população, afinal a promoção é o nosso ganha pão. Mas onde isso se relaciona com o texto?

    Relaciona-se pelo fato que a Arte não tem como objetivo, principal pelo menos, a promoção de determinado comportamento, prática ou consumo, isso quem faz é publicidade. A Arte como forma de quebra de conceitos, paradigmas, sempre causa estranhamento, choque, dentre outras reações onde pessoas comuns não estão preparadas para recebê-las e mais ainda percebê-las. E em um discurso para além da Esquerda e Direita, e das teorias.

    Falamos sobre a subjetividade da existência de crianças transgêneras. No vídeo produzido pelo MBL, os integrantes do movimento estereotipam o corpo dessas crianças, que são marginalizadas desde muito cedo, fazendo um linque onde a existência delas se liga diretamente à prostituição infantil, como se o Estado que elas compõem não tivesse nenhuma culpa ao não dar devida assistência a esses menores. Quem pensou que Arte as sexualizavam está, ainda, muito enganado, pois a ela retrata apenas o imaginário e a realidade.

    Respondam-me. Por que “Criança viada travesti da lambada” é sinônimo de prostituição infantil? Seria porque ela desde cedo não segue os padrões binários impostos a nós desde a colonização? São homens como eles, que reproduzem o imaginário que faz com que corpos trangêneros tenham expectativa de vida de 35 anos.  E me respondam mais uma questão. Até quando nós da comunicação iremos nos calar em temas que põem em risco o nosso “ganha pão”? Até quando a bancada cristã e a política da elite irá decidir o que é liberdade de expressão sem nos levar em conta, sendo que a comunicação é a nossa área?

    Fica, aí, o questionamento.

    Imagem: Uma das obras no centro da polêmica, assinada por Bia Leite em 2013 DR

  • O Queermuseu e o Fascismo em Porto Alegre

    Por: Raquel Barros da Fonseca, de Porto Alegre, RS

    O museu Santander iniciou em 15 de agosto uma exposição chamada “Queermuseu – Cartografias da diferença na Arte Brasileira”, com a curadoria de Gaudêncio Fidelis. A exposição ficaria em cartaz até 8 de outubro. No entanto, o museu emitiu uma nota neste domingo (10) sobre o fechamento da exposição, afirmando: “Desta vez, no entanto, ouvimos as manifestações e entendemos que algumas das obras da exposição Queermuseu desrespeitavam símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo”.

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    Breve retrospectiva
    A exposição foi uma seleção de 270 obras de arte que tratavam da perspectiva de gênero ou diferença de diversas formas e narrativas. Essa seleção é assinada por 85 artistas diferentes, dentre eles Cândido Portinari, por exemplo. As artes variavam entre leituras leves sobre o tema e outras mais explícitas e chocantes para quem não está habituado com exposições artísticas. Junto à exposição, ocorria uma amostra de cinema espanhol no museu com filmes de Pedro Almodóvar, cineasta reconhecido mundialmente por obras primas como “Tudo sobre minha mãe”, “Fale com ela”, “Má educação”, entre outras, que aborda questões de gênero e sexualidade. Essa amostra de cinema também foi cancelada por estar associada com a exposição.

    Percorrendo pelas redes sociais é possível rapidamente perceber que um dos vídeos de “denúncia” sobre a exposição foi realizado por um grupo chamado “Terça Livre”, que em sua descrição no canal youtube afirma que “promove a boa cultura por meio de vídeos educacionais, políticos e sobre temas relevantes que a mídia esconde, ou, é por ela transmitida por interesses partidários”. Esse vídeo foi usado como exemplo de denúncia pela Folha de SP. Não precisamos ir muito longe, podemos afirmar que se trata de mais um grupo fascista na capital gaúcha.

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    Existem várias denúncias no facebook referentes aos ataques que o MBL promoveu dentro dessa exposição. Existem relatos de pessoas sendo atacadas por pessoas com câmeras na mão ao saírem ou entrarem na exposição, sendo chamadas de pedófilos, zoofilitas, entre outros. É o modus operandi do MBL gaúcho: desde as ocupações universitárias do ano passado eles têm atacado a militância de esquerda geralmente dessa forma. Sempre com câmeras em punho, os agressores esperam serem contra-atacados por alguém para depois alegarem legítima defesa. Uma das exceções do grupo, que permanece sendo seu líder, é Felipe Diehl, que ano passado foi de arma em punho (mas sem câmera na mão) para o Campus do Vale na Universidade Federal do Rio Grande do Sul para ameaçar os estudantes e exigir o fim da greve e ocupação, e foi expulso pelos gritos da juventude universitária presente.

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    É espúria a atuação do grupo na capital gaúcha. E hoje o grupo tem pleno apoio do prefeito da cidade, Nelson Marchezan (PSDB), que fez um post celebrando o fim da exposição, porém já o deletou de suas redes sociais.

    No entanto, como é de se esperar da capital gaúcha, existe um número significativo de pessoas de esquerda que se colocam a favor do fim da exposição. Os argumentos da intelligentsia porto alegrense variam do “eu não apoio banco privado” para a denúncia de uma obra específica da exposição que envolve zoofilia e o suposto estupro de um homem negro (coloco “suposto” porque não entrei em contato com o artista da obra, nem vi a arte de perto para saber sua descrição, portanto não posso afirmar com certeza se trata de um retrato de estupro ou não).

    Estamos em setembro de 2017, perdemos todas as batalhas com relação à salvaguarda da democracia e dos direitos de minorias de 2013 até aqui. Estamos assistindo ao governo golpista vender a Amazônia sem sequer prévio conhecimento do povo. Assistimos ao prefeito da nossa cidade em reunião exclusiva e fechada com o MBL (apartidário, claro). E ainda como se não bastasse os Quatro Cavaleiros do Apocalipse da Direita Fascista trotando em cima da gente, precisamos lutar contra o fascismo que nasce entre nossos companheiros ou aliados.

    É impressionante ter que fazer um texto sobre isso, mas me sinto obrigada: muito cuidado ao explanar opiniões e argumentos que facilitam a atuação de fascistas. É completamente plausível argumentar contra qualquer obra de arte. Mas há uma diferença entre ser contra, e argumentar abertamente sobre isso, e fechar uma exposição inteira. No caso da pintura que mais gerou controvérsia na esquerda, a da zoofilia e estupro do homem negro, que fizessem inúmeros posts diferentes expondo o racismo da obra. Nossa cidade foi privada de toda uma exposição, de mais de 270 obras de 87 artistas diferentes, mais uma coleção de filmes do Almodóvar, que é talvez um dos únicos cineastas do mundo que tem a coragem de realizar filmes com temáticas de gênero e sexualidade com narrativas impactantes.

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    A esquerda não pode sob hipótese alguma ter qualquer postura que dê biscoito para fascista. Fascismo é fascismo, não existe meio termo nisso, nem que esse meio termo seja “não gosto de banco privado”. Ninguém aqui gosta de banco, mas no momento que existe uma exposição desse tamanho e é fechada porque o MBL assediou todo mundo, nós enquanto esquerda não podemos ter uma postura de “nossa, tinha que fechar mesmo”. A questão não é salvar o banco privado, é parar de dar forças para os grupos fascistas que não param de crescer na nossa cidade.

    Não caio no discurso unitário da esquerda, porque sei que ele não existe. Somos diversos, e acredito que apesar das mazelas nossa força reside justamente no fato de sermos diferentes. Mas que a nossa diferença não se traduza em alavanca para o fascismo.

  • Peça Dez dias que abalaram o Mundo e um coletivo em risco

    Por: Miguel Frunzen, do Rio de Janeiro, RJ

    10 dias 3Neste sábado (9), no Armazém da Utopia, no Rio de janeiro, foi realizado um ensaio aberto da peça “Dez dias que abalaram o mundo”. Com o trabalho ainda sendo instalado, os espectadores fizeram uma breve viagem a cem anos, nas ruas do bairro de Viborg, na Petrogrado russa.

    A fome, a angústia da operária russa grávida que deve amarrar a barriga para não perder o emprego, o soldado que deve atirar sem olhar nos olhos de seu morto. Em um simples ensaio, numa pequena amostra, sob as “Vivas” de soldados e operários, a histórica companhia de teatro carioca Ensaio Aberto envolveu o público, que participava em pé, surpreendida pelos tiros e pelo fluxo do elenco que colocava cara a cara com a revolução ou, quem sabe, 10 dias 2com um Lenin ou Trotsky muito bem caracterizados.

    Colocava ao público a decisão, em meio à penumbra do inverno russo, desviar para a esquerda, para a direita, ou ser atropelado pela História da peça.

    Mas, a trupe de revolucionários da companhia Ensaio Aberto enfrenta o desafio de encenar a revolução de 100 anos em tempos de golpe e crise no Brasil. A fabulosa peça está ameaçada de parar por falta de investimentos. A companhia, ao fim do ensaio, convocou o público para o real objetivo da pequena amostra, buscar a ajuda da esquerda para esse impasse.

    Os espectadores eram vários e várias militantes de esquerda, partidos como PSOL, PT, PCdoB, parlamentares e sindicatos. Imbuído pelo ar revolucionário do ato, o diretor Luiz Fernando Lobo destacava que “a esquerda deve ma10 dias 1nter a esquerda” e que “não vamos ficar reféns de uma lei Rouanet que capita recursos de acordo com o interesse das empresas”.

    Qualquer um pode contribuir para que o espetáculo aconteça. O Esquerda Online se soma à campanha. Entre em contato, fale com sua organização e veja como pode ajudar, ou convidar a companhia para a sua cidade, ou local de trabalho.

    Basta entrar em contato pelo e-mail: Lobo@ensaioaberto.com

    Imagens: Trechos do ensaio aberto da peça Dez Dias que Abalaram o Mundo. Por: Esquerda Online

  • Bye bye Alemanha

    Por Raquel Varela, historiadora e colunista do Esquerda Online

    Este ano vi um dos grandes filmes da minha vida, mas curiosamente não vejo grandes referências a ele. Chama-se Adeus Alemanha, Bye Bye Alemanha, consoante as traduções. É um filme que me marcou profundamente e, apesar de ter visto há duas semanas, ainda sobre ele reflicto agora. Pensando estes dias creio que está fora das recomendações porque é um filme incomodo para muitos sectores. Realmente incomodo.

    Ele é um filme sobre o Holocausto e a esquerda em geral está assustada com a evolução para a extrema direita do Estado de Israel – escusado será dizer que os crimes de Israel não apagam os crimes do nazismo. Da mesma forma que os crimes do nazismo não aliviam os de Israel. E o filme é sobre o nazismo e o Holocausto. A partir de uma ideia divertida: um grupo ecléctico de judeus quer ganhar dinheiro para sair de um campo de refugiados na Alemanha pós 45, rumo aos EUA. Resolve vender lençóis e roupa de cama charmosa.

    A segunda razão porque, creio, o filme não ganhou o carinho de massas dos media é porque retrata os judeus sem idealismos, com muitos clichés bem humorados, entre eles a ganância, o espírito comercial, clichés em parte ancorados no facto, verdadeiro, de um sector dos judeus ser historicamente ligados às cidades e ao comércio. A mensagem é duríssima – por mais gananciosos que sejam estes judeus – os do filme são todos – a distância entre mentir no comércio e ser sujeito a trabalhos forçados e morto numa câmara de gás é a distância entre os defeitos dos seres humanos, historicamente conjunturais e condenáveis, e a barbárie. Ter poucos escrúpulos e gerir um campo de concentração são dois factos incomparáveis.

    A consequência é que o filme legitima a violência da resistência – um pouco como a Batalha de Argel. É um apelo a que os nazis sejam queimados vivos quando o que têm a oferecer é uma câmara de gás. Portanto, distingue a violência do carrasco da resistência violenta da vitima. O ataque da defesa. Que não espera, no filme, por uma lenta justiça, sem meios para condenar tantos criminosos (como a narrativa demonstra) levada a cabo pelas tropas americanas. É assim um filme sobre moral. Sobre limites, é um filme para adultos, sem maniqueísmos.

    Ainda um final magnífico, avesso ao romantismo – a vida não é bela depois de um campo de concentração, todos saíram feridos da II Guerra, mesmo os que a ela sobreviveram. Mas os que a ela sobreviveram têm que aprender a viver porque, cito de memória «Hitler está morto, nós estamos vivos».

    Em tempos de domínio da ideia de que enfrentar um conflito é fugir dele; “todos os lados têm culpa”, ” dar a outra face”, no fundo a ideia de que se enfrentamos um problema ele torna-se maior, o que tem levado ao cacatonismo dos mais frágeis socialmente – isto é visível nos locais de trabalho mas também na geopolítica mundial -, em tempos , em resumo, de perigoso relativismo moral este é um filme enorme. Sobre como realmente somos. Magnífico. É – e isso é tão importante quando o que escrevi antes, aliás decorre do que escrevi – um filme sobre relações humanas, amor, ódio, raiva, paixão, dedicação. Da selecção especial do festival de cinema de Berlim, realizado por Sam Garbarski. Imperdível.

  • Nas Pistas: 4 anos de resistência em Mauá

    Por: Elber Almeida, de São Bernardo do Campo, SP

    Esta é a 11ª matéria sobre as batalhas de rimas no ABCMDRR!

    Em Mauá, faz quase quatro anos que ocorre um importante evento cultural independente. Não é organizado pela Prefeitura ou por grupos empresariais, mas sim por um coletivo de jovens que constroem o Hip Hop. Hoje esse grupo é o coletivo “Máfia das Pistas”.

    Esta cidade tem uma grande falta de serviços públicos, inclusive de atividades culturais, e uma das populações mais pobres das sete cidades do ABCDMRR. Sua enorme periferia abriga uma grande população de operários, trabalhadores em firmas terceirizadas e desempregados. São muitos que trabalham em outros municípios da região, ou na capital.

    Mauá é um terreno fértil para a contestação e para o Hip Hop. Não é por acaso que abriga uma das batalhas de rimas mais tradicionais e maiores da região, a Batalha das Pistas, que hoje ocorre no Parque da Juventude, localizado no Centro da cidade. Todas as quartas-feiras se reúnem centenas de pessoas entre público, organizadores e MC’s, para o evento.

    Sua organização, o coletivo Máfia das Pistas, tem dentre seus integrantes Maísa e Victória, que hoje estão à frente da apresentação e organização do evento juntamente com outros. Veja a entrevista que fizemos com elas:

    Não é apenas uma rinha de MC’s. Começaram a ocorrer edições especiais, como a “edição do conhecimento” e a edição das minas. Na primeira, temas importantes são elencados e os MC’s precisam rimar sobre estes. Na segunda, as vagas ficam reservadas especialmente para as minas, dando espaço num tipo de evento ainda hegemonizado por homens.

    Outra ação interessante foi a promoção de uma edição da batalha na Fundação Casa de Mauá. Com isso, a batalha promove um caminho de reinserção daqueles jovens na sociedade, através do Hip Hop e seus elementos.

    Mesmo com todas estas ações a batalha sofreu com dificuldades por parte da prefeitura que administra o parque em que está sediada. Não diferente do que ocorre em outras batalhas, tentou-se responsabilizar o evento pelo uso de entorpecentes no local. Este problema foi parcialmente superado graças à organização e resistência da Máfia das Pistas, que fez ações para conscientizar o público.

    Não é por acaso que a batalha surgiu no momento das manifestações que explodiram na metade de 2013, como afirma uma de suas organizadoras, Maísa.. É um evento de ocupação do espaço público e de contestação da ordem, assim como é o Hip Hop em geral e como foram as manifestações daquele ano. Sua raiz é uma juventude que não vê perspectivas no futuro oferecido pelos governos atuais, e por isso visa transformá-lo.

    A Batalha das Pistas de Mauá segue firme como uma das mais tradicionais batalhas de MC’s da região. Todas as quartas-feiras, às 19h, no Parque da Juventude de Mauá. Vale a pena conferir!

    0 #Cultura e resistência no ABC paulista

    1 #Batalha da Pistinha

    2 #Batalha da Praça

    3 #Batalha da Vila Luzita

    4 #Batalha da Galeria

    5 #Batalha da Palavra

    6 #Resiste Batalha do Carrefa!

    7 #A Batalha do Cooperativa

    8 #A Tripla Resistência das Minas: Roda Cultural da Brasil

    9 #Um Bom Lugar na Quebrada: A Batalha do Remp

    10 #Quilombagem urbana que incomoda a burguesia: a Batalha da Matrix

    Mapa das Batalhas de rap no ABC paulista

  • Mulher maravilha: ficção, ou realidade?

    Por: Alinne Brito, de Macapá, AP

    O filme produzido na telona nos revela uma verdade maximizada da rotina de milhares de mulheres. De repente, pode-se pensar que existe um certo exagero nas cenas bem elaboradas e dirigidas pela Patty Jenkins, roteirista e diretora de cinema. De fato, mas ao serem traduzidas para um contexto real em nossa difícil vida, pareceu-me super natural. Quantas vezes fomos treinadas para responder às necessidades da sociedade e não às que de fato desejamos?

    Por inúmeras vezes educadas a acreditar em títulos que não temos e que nem precisamos ter. A princesinha do papai, da mamãe, a garota mais bonita da escola, a mulher é inteligente, mas é feia. São muitos os rótulos e máscaras que vestem o corpo feminino. Arquitetado sobre os critérios impostos pelo capital e pelo patriarcado, que induzem a fantasiar sobre o mundo à sua volta e por que não sobre as relações, tal qual o homem idealizado nos contos de fadas em partes alimentadas por outras mulheres que sabem que esses homens aí não existem. Mas, acabam absorvendo esse contexto de opressão.

    No filme, as mulheres amazonas foram criadas pelo Deus do monte Olimpo para cumprir uma missão, proteger a humanidade contra a corrupção de Ares, o deus da guerra e que, por fim, mata a todos do Olimpo.

    Criamos paraísos que não existem. Diana tinha um título de princesa, cresceu em uma ilha chamada themyscira, lar das amazonas, aprendeu a lutar com as armas que tinha. Somos assim, lutamos com aquilo que nos dão, certo momento questionam o fato de algumas mulheres não conseguirem se libertar de um ciclo de violência por exemplo, mas não se questionam sobre que armas a sociedade deu para que essas mulheres lutem, ou sequer pensam as condições de luta. São iguais? São justas? Ou é mais fácil se isolar em ilhas criadas em um universo paralelo à realidade?

    A personagem Diana foi treinada desde cedo para ser uma guerreira imbatível e, mesmo assim, em muitos trechos é interpelada com desconfiança, afinal não “cabe” a uma mulher deixar seu lar e parar o conflito,”lutando para acabar com todas as lutas”. Ao ‘invadir’ o parlamento, onde a figura feminina era proibida, ou quando em batalha, se de fato dará conta do recado enquanto que um atirador tem total crença dos demais à sua volta. Aqui na vida real sofremos com essa conduta machista também. Seja qual for o posto de trabalho que ocupamos, a pergunta sempre permanece: Será que ela consegue? Será que o ‘Carlos’, ‘João’, … não fazem melhor? Lidamos com expressões, ações que desqualificam a mulher.

    A mulher luta todos os dias com situações parecidas como as do filme, com violência, opressão, descredito, sexualização da imagem e muitas são obrigadas a lutar. Diante dos fatos sociais, acabam meio sem escolha e precisam aprender a usar a auto defesa, por pura questão de sobrevivência, pois enfrentar o capitalismo e suas manifestações de opressão não tem nada de ficção, é a dura realidade das mulheres.

    O protagonismo feminino tem sido comentado conforme o número de ataques que se tem sofrido por conta do tsunami conservador. Quanto mais ataques, há mais mulheres nas lutas. O 8M foi um prelúdio do que viria, a marcha a Brasília, naquele cenário de “guerra”, identificar no front camaradas com disposição, força, coragem, ousadia, insurgência não é ficção mesmo. A(s) mulher(es) maravilha(s) existe(m) de verdade!!!