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  • Mulheres do samba: Viva Clara Nunes, sabiá, mineira, guerreira

    Por: Carla Vizeu, da Mana Dinga*

    Clara Francisca Gonçalves, filha de Amélia e neta de Emília, segundo ela, duas mulheres de verdade. Nasceu em 12 de agosto de 1942, em Caetanópolis, Minas Gerais, carregando no sangue o gosto pela música. Seu pai, Mané Serrador, além de carpinteiro, era congadeiro, violeiro e organizava Folia de Reis. Aos seis anos já havia perdido o pai e a mãe: ele morreu de um infarto fulminante e ela foi definhando até morrer quatro anos depois, de mal de amor.

    Os irmãos mais velhos conseguiram manter a família unida com muito esforço. Aos catorze anos, Clara começou a trabalhar na Companhia Fiação e Tecidos Cedro e Cachoeira, onde toda a família trabalhou. Em 1958, já havia se mudado para Belo Horizonte com uma de suas irmãs, passando a trabalhar em outra fábrica de tecidos. Nessa época, cantou Coral Renascença, na igreja do bairro onde morava. Ser cantora era seu grande sonho.

    E ela começou a tecer a teia desse sonho, tornando-se Clara Nunes (sobrenome da mãe), para se inscrever do concurso A Voz de Ouro ABC, disputado por cantores do Brasil inteiro. Ela ganhou a etapa regional, cantando “Serenata do Adeus”, de Vinícius de Moraes. Na final, em São Paulo, ficou em terceiro lugar, com “Só adeus”, de Edvaldo Gouveia e Jair Amorim. A colocação lhe deu o direito de gravar um compacto pela Odeon e abriu as portas pra ela, que passou a ser crooner na noite de Belo Horizonte, convivendo com músicos como Milton Nascimento, Lô Borges e Toninho Horta, entre outros.

    Durante três anos seguidos, foi considerada a melhor cantora de Minas Gerais. Na época, apareceu pela primeira vez na televisão, no programa de Hebe Camargo, em Belo Horizonte. Logo depois, em 1963, iniciou um programa na TV Itacolomi, “Clara Nunes apresenta”, que foi ao ar por um ano e meio, no qual se apresentavam artistas de reconhecimento nacional, como Altemar Dutra e Ângela Maria, entre outros. “Eu contratava quem eu queria, viajava muito. Era uma espécie de ídolo em Minas. Naquela época, a televisão tinha vida local, ajudava a revelar muita gente. Este trabalho me deu muita base para enfrentar o Rio de Janeiro”. Já tinha público cativo no coração dos mineiros.

    Em 1965, mudou-se para a cidade maravilhosa a fim de cumprir o contrato com a Odeon, que ganhou com a Voz de Ouro. Seu primeiro LP, “A voz adorável de Clara Nunes”, apresentava um repertório romântico, com canções melosas, em estratégia de markentig da gravadora para lançá-la como cantora romântica. Não funcionou, o álbum foi um fiasco. A praia de Clara era outra. Nas ondas do seu caminho, houve um namorico com a Jovem Guarda, e ela chegou até a participar de alguns filmes do gênero, mas ainda não era esse seu lugar.

    Disputou e ganhou diversos festivais no fim da décade de 60, sendo que seu primeiro sucesso veio de um deles: “Você passa e eu acho graça”, de Carlos Imperial e Ataulfo Alves.

    Seus dois discos seguintes ainda mostravam um perfil de cantora que tinha muito potencial, mas que ainda não havia moldado seu estilo. Só a partir do começo da década de 70 é que ela começa a trilhar os caminhos que a consagraram, o das sonoridades afro-brasileiras.

    Em 1971, grava “Apesar de você”, de Chico Buarque, e é acusada de ser subversiva. Acuada pelo regime militar, é obrigada a gravar o Hino das Olimpíadas do Exército e a cantá-lo num show em Belo Horizonte durante o evento. O disco nunca foi comercializado. Logo após este episódio, ela gravou o disco da virada de sua carreira.

    Começava aí uma parceria artítsitica muito inspirada entre Clara e Aldezon Alves, homem do rádio, como produtor do seu novo disco, entitulado simplesmente de “Clara Nunes”. O repertório diferia completamente daqueles dos discos anteriores, explorando sonoridades brasileiras de influência africana e ao mesmo tempo encantando com interpretações de claśsicos como “Feitio de oração”, de Vadico e Noel Rosa.

    Daí pra frente ascendeu como foguete, brilhou como estrela incessantemente, conquistando público de todos os tipos. Clara foi a primeira mulher a ter um disco incluído entre os mais vendidos; “Alvorecer” vendeu 300.000 cópias, abrindo as portas para outras artistas que já faziam sucesso. “Claridade”, lançado em 1975, já saiu com 500.000 cópias vendidas. O sucesso já tinha sido conquistado.

    Clara mergulhou profundamente no mundo dessas sonoridades, envolveu-se com o Candomblé, vivendo intensamente a religião por um tempo. Envolveu-se com as escolas de samba, puxando samba na avenida com a Portela, em 1972. Essa paixão pelas raízes brasileiras nos brindou com uma sequência de discos de excelência ímpar, desde o repertório escolhido aos arranjos e músicos com quem trabalhava.

    Em 1975, casou-se com Paulo César Pinheiro, exímio compositor que passou a produzir seus discos. Em 1977, inaugurou o Teatro Clara Nunes com o show “Canto das três raças”. Lançou o disco “As forças da natureza”, no qual ela apareceu pela primeira vez como compositora na faixa “À flor da pele”, feita em parceria com Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro.

    Esta parceria musical frutífera rendeu sucessos como “Canto das três raças”, “As forças da natureza”, “Minha missão” e “Portela na avenida”, mas infelizmente, dela não nasceu o fruto mais esperado por Clara: um filho. Sua vida foi marcada por momentos sempre intensos: a infância difícil, a batalha pela carreira, a frustração por não conseguir ser mãe, e em contraponto as vitórias que alcançou. Partiu cedo, de uma maneira abrupta, estúpida: ao realizar uma cirurgia para varizes, teve um choque anafilático e, após ficar em coma por vinte e oito dias, morreu. Seu corpo foi velado na quadra da Portela por uma multidão de fãs que até hoje sentem falta da mineira, guerreira, filha de Ogum e Iansã. Eparrei, Oyá!

    Clara vive nos ventos das vozes que a cantam até hoje.

    Fontes de Pesquisa:
    http://dicionariompb.com.br/clara-nunes/
    https://pt.wikipedia.org/wiki/Clara_Nunes
    http://www.cantorasdobrasil.com.br/cantoras/clara_nunes.htm
    http://www.portelaweb.org/mem…/celeiro-de-bambas/clara-nunes
    “Clara Nunes, Guerreira da utopia”. Vagner Fernandes. Ediouro Publicações S/A. Rio de Janeiro, 2007.

    *A Mana Dinga é um grupo de cinco mulheres compositoras de Campinas, que leva músicas próprias para prosear com importantes sambistas, compositoras, instrumentistas e intérpretes que abriram caminhos para as mulheres na música brasileira. Formado por Amanda Menconi (flauta e percussão), Anisha7 Vetter (surdo e voz), Carla Vizeu (voz e percussão), Ju Leite (pandeiro e voz) e Milena Machado (violão e voz). Para mais informações, acesse: facebook.com/manadinga
    Foto: Wilton Montenegro/Reprodução
  • Mulheres do samba: Viva Leci Brandão, a cantora das comunidades

    Por: Milena Machado, da Mana Dinga*

    “Durante cinco anos, Leci ficou sem gravar por absoluta questão política. As gravadoras não aceitavam suas canções marcadas pelas letras sociais. Ela cantou a defesa das minorias (todas elas), era convocada para cantar em todos os eventos afinados com sindicalistas, estudantes, índios, prostitutas, gays, partidos de esquerda, movimentos de mulheres e principalmente o Movimento Negro. Nos últimos quinze anos todos os discos de Leci contêm uma faixa falando do assunto de forma direta, transparente e apaixonada. É a cantora das comunidades e sente muito orgulho por isto”. (Trecho extraído da página oficial de Leci Brandão)

    A trajetória dessa linda mulher passeia pela música, pela política e pela luta por respeito e igualdade. Carioca, nascida em Madureira, e criada em Vila Isabel, iniciou a carreira na década de 1970, época em que cantava no Teatro Opinião, na noitada de samba, sob o comando de Jorge Coutinho.

    Primeira mulher a participar da ala de compositores da Mangueira, e mais tarde a segunda deputada negra da história da Assembleia Legislativa de São Paulo, foi a convite de Sergio Cabral que gravou seu primeiro disco. E em 1978, compôs um dos sambas mais bonitos da história, Zé do Caroço.

    Participou do Festival MPB-Shell promovido pela Rede Globo, em 1980, com a música “Essa Tal Criatura”. Em 1985, gravou “Isso É Fundo de Quintal”. Em 1995, foi a intérprete do samba-enredo da Acadêmicos de Santa Cruz durante o carnaval. Como atriz, atuou como a líder quilombola Severina, na telenovela Xica da Silva (de Walcyr Carrasco), exibida pela TV Manchete entre 1996 e 1997.

    Entre 1984 e 1993, Leci foi comentarista dos desfiles das Escolas de Samba do Rio de Janeiro pela TV Globo. Após uma pausa de cinco anos (vide texto inicial), voltou a comentar o Carnaval carioca de 2000 a 2001, e os desfiles das Escolas de Samba de São Paulo de 2002 e 2010.

    É madrinha do Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos do Tatuapé, campeã do carnaval de 2017, agremiação que acompanha desde 2012 quando foi tema do enredo da escola.

    Foi Conselheira da Secretaria Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial e membro do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher a convite do então Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, permanecendo nos Conselhos por dois mandatos (2004 a 2008).

    Em 2010, Leci Brandão filiou-se ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e candidatou-se ao cargo de Deputada Estadual pelo estado de São Paulo, tendo sido eleita com mais de 85 mil votos e reeleita em 2014. Enquanto parlamentar, Leci Brandão se dedica à promoção da igualdade racial, do respeito às religiões de matriz africana e à cultura brasileira, pela inclusão da população negra e indígena, por mais cultura e educação, por saúde de qualidade, pela garantia de direitos dos trabalhadores, da juventude, em especial a pobre e negra, das mulheres e do segmento LGBT.

    Ao longo de sua carreira, gravou 23 álbuns, 2 DVDs, diversas participações, além de constar em muitas coletâneas essenciais da música popular brasileira.

    Fontes de pesquisa:
    http://www.lecibrandao.com.br
    https://www.al.sp.gov.br/alesp/deputado/?matricula=300513
    https://pt.wikipedia.org/wiki/Leci_Brand%C3%A3o

    Assista a esse vídeo de arrepiar:

    *A Mana Dinga é um grupo de cinco mulheres compositoras de Campinas, que leva músicas próprias para prosear com importantes sambistas, compositoras, instrumentistas e interpretes que abriram caminhos para as mulhetes na musica brasileira. Formado por Amanda Menconi (flauta e percussão), Anisha7 Vetter (surdo e voz), Carla Vizeu (voz e percussão), Ju Leite (pandeiro e voz) e Milena Machado (violão e voz). Para mais informações acesse facebook.com/manadinga

    Foto: Bruna Piazzi | Esquerda Online

  • Livro com textos inéditos de Carolina Maria de Jesus será lançado em São Paulo

    Lançamento ocorre no dia 18. Escritora completaria 104 anos neste dia 14 de março

    DA REDAÇÃO

    A imagem da escritora Carolina Maria de Jesus (1914-1977) permanece associada ao livro “Quarto de Despejo: Diário de uma favelada”, publicado em 1960, com textos sobre a sua vida e a de seus três filhos em uma favela em São Paulo e do cotidiano de uma catadora de papel. A escritora tem despertado cada vez mais o interesse do público, em grande parte porque o texto é um sopro de esperança em meio ao cenário atual, de exclusão, preconceito, extermínio da população negra e, agora, ocupação militar nas comunidades do Rio de Janeiro.

    Mas a produção literária de Carolina vai muito além de seu livro-diário. Parte dos contos, poemas e fragmentos estão reunidos no livro “Meu sonho é escrever – Contos inéditos e outros escritos”, incluindo um conto sobre a escravidão, a partir da vida de seu pai.

    A organizadora do livro, a professora Raffaella Fernandez, foi em busca do material no acervo da Biblioteca Nacional e em outros locais, com a ajuda da filha de Carolina. Ao todo, são mais de cinco mil páginas e sete romances ainda inéditos. “Eu espero que a gente consiga cada vez mais publicá-la — se possível, as obras completas”, afirmou, em entrevista ao site da revista Bravo.

    Carolina de Jesus ajeita o lenço da atriz Ruth de Souza. Foto: Divulgação

    Carolina de Jesus ajeita o lenço da atriz Ruth de Souza. Foto: Divulgação

    LANÇAMENTO
    A obra será lançada no dia 18 de março, às 18h, no Centro Cultural Galeria Olido, na Avenida São João, 473, em São Paulo, como parte da Mostra de Literatura Negra Ciclo Contínuo que acontece entre 16 e 18 de março. A atividade conta com a participação de Raffaella Fernandez, organizadora do livro, Fernanda Rodrigues de Miranda, pesquisadora de Carolina Maria de Jesus, além da filha e netos. Depois do lançamento, às 19 horas, Renato Gama & as Pastoras do Rosário vão interpretar músicas que a Carolina Maria de Jesus compôs. A entrada é gratuita.

    O livro “Meu sonho é escrever”, de Carolina Maria de Jesus, pode ser comprado pela internet. A editora Ciclo Contínuo Editorial e o Alma Preta abriram uma pré-venda da obra até o dia 16/03, com outro livro de brinde e frete grátis. O livro pode ser comprado neste link.

    SAIBA MAIS

    Meu sonho é escrever: um brinde à Carolina como escritora – Fernanda Sousa

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  • A primeira semente: Batalha da Central e o solo fértil de Diadema

    Por Elber Almeida e Maria Julia T., do ABC paulista (SP)

    O 13º texto da série vai ao início de tudo. No dia do aniversário da cidade de Diadema, a cidade com maior densidade populacional do estado de São Paulo, a Prefeitura organizou um evento com uma série de shows na Praça Lauro Michels. Neste mesmo local ocorre, já há cinco anos, o que é a Batalha de MC’s ativa mais antiga do ABCDMRR: a Batalha da Central de Diadema.

    Esta é inspiração para o recente movimento de batalhas de MC’s na região. Além de ser a mais antiga, colocou diversos MC’s na cena regional, apoiou batalhas na cidade e tudo isso resistindo à falta de apoio além de repressão policial. Criada com o objetivo de organizar e progredir com algumas manifestações que já aconteciam pela cidade, a Batalha da Central hoje representa uma forma de entretenimento educativo e fomento da cultura Hip Hop para moradores não só desta, mas de toda a região.

    Às 19h já era possível ver alguns Mc’s e até mesmo apreciadores chegando para a batalha. Às 19h30 a grande maioria já estava lá. No horário de início, às 20h, antes de começar a batalha, os organizadores precisaram encontrar um novo lugar para que ela acontecesse, já que naquele dia o evento de aniversário da cidade não considerou essa manifestação que já acontece há tantos anos. Música alta, barracas e viaturas ocupavam praticamente toda a praça.

    Resolvido isso rapidamente, a batalha teve início. Uma coisa relevante que ocorre na Batalha da Central é o prêmio em livro que o campeão ganha. Naquele dia, uma obra de Fernando Pessoa. Como todas as batalhas da região, também há a folinha com Tag’s e desenhos feito por organizadores e/ou apoiadores da batalha.O formato de mata-mata, com um MC’s enfrentando o outro numa melhor de três é muito parecido com o das batalhas que vieram depois.

    Só na cidade de Diadema são ao menos seis batalhas de MC’s ativas, dentre as mais de 30 do Grande ABC. Além disso, com a constante presença de poetisas e poetas, agora está começando a organização de um Sarau e Slam por frequentadoras e apoiadoras da batalha, que ocorrerá todas as últimas sextas-feiras do mês. Afinal, rap é ritmo e poesia.

    São mais de cinco anos de história e resistência. Ao lado de outras grandes batalhas que são referências do Hip Hop no estado de São Paulo, numa cidade que tem forte tradição no rap nacional, este evento proporciona a continuidade e crescimento de uma cultura marginalizada que evidencia os problemas sociais de nosso país. Ainda promete muitas histórias, cultivando a cultura local, através da busca de mudanças, amadurecimento e disciplina, buscando sempre manter-se viva.

    0 #Cultura e resistência no ABC paulista
    1 #Batalha da Pistinha
    2 #Batalha da Praça
    3 #Batalha da Vila Luzita
    4 #Batalha da Galeria
    5 #Batalha da Palavra
    6 #Resiste Batalha do Carrefa!
    7 #A Batalha do Cooperativa
    8 #A Tripla Resistência das Minas: Roda Cultural da Brasil
    9 #Um Bom Lugar na Quebrada: A Batalha do Remp
    10 #Quilombagem urbana que incomoda a burguesia: a Batalha da Matrix
    11 #Nas Pistas: 4 anos de resistência em Mauá
    12 # Nem tudo é doce: Clandestino em Ribeirão Pires

    Mapa das batalhas de MC’s do ABCDMRR:

  • Mulheres do samba: Viva Jovelina, a pérola negra que passou por aqui e ficou na história!

    Carla Vizeu, da Mana Dinga*

    Nasceu Jovelina Faria Belfort, em 21/07/1944, morando desde cedo nos subúrbios do Rio de Janeiro. Foi doméstica, assim como Quelé, além de lavadeira e vendedora de linguiça. Emergiu da concha da hegemonia masculina dos pagodes como nossa preciosa Pérola Negra.

    No início dos anos 1980 começou a fazer apresentações no Vegas Sport Clube, em Coelho Neto. Acabou parando em Madureira onde, na Escola de Samba Império Serrano, desfilou por muitos anos na Ala das Baianas, além de atuar como pastora. Na Estrela de Madureira conheceu Roberto Ribeiro, Jorginho do Império e outros nomes de peso da escola. Frequentadora das rodas de partido alto do Botequim da Escola da Serrinha, ao lado de Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Almir Guineto, Arlindo Cruz, Beto Sem Braço, Ana Clara, Fundo de Quintal, Deni de Lima, entre muitos outros, participou do Pagode da Tamarineira, do Bloco Carnavalesco Cacique de Ramos.

    Compositora e partideira de imenso talento, fez sua estreia no mercado fonográfico em 1985, com uma participação na coletânea “Raça brasileira”, lançada pela RGE. Nela interpretou duas composições que viriam a ser seus primeiros sucessos: “Bagaço da Laranja” (com Arlindo Cruz e Zeca Pagodinho), cantada em dueto com Zeca Pagodinho, e “Feirinha da Pavuna” (Confusão de legumes), composição de sua autoria.

    No mesmo ano, lançou seu primeiro LP solo, do qual se destacaram “Pagode no Serrado” (Marquinhos Pagodeiro e Zeca Sereno); “Boogie-woogie da favela” (Serginho Meriti) e o grande sucesso do disco, a faixa “Menina você bebeu”, de autoria de Arlindo Cruz, Acyr Marques e Beto Sem Braço.

    Daí pra frente, todo ano teve disco recheado de composições imortalizadas pela poderosa voz de Jovê, aquelas que nunca ficam de fora duma roda de samba: “Luz do repente”, “O dia se zangou”, “Banho de felicidade”, “Sorriso aberto”, “Amigos chegados”, “Mesmo manto”, “Catatau”, entre tantas outras.

    Foram onze anos de carreira nos iluminando com a luz do seu repente, com seu estilo marcante de cantar, seus improvisos imbatíveis. Sua luz se apagou em novembro de 1998, mas a Pérola Negra continua brilhando através do tempo no coração dos sambistas, especialmente das mulheres, que lhe devem tanto.

     

    *A Mana Dinga é um grupo de cinco mulheres compositoras de Campinas, que leva músicas próprias para prosear com importantes sambistas, compositoras, instrumentistas e interpretes que abriram caminhos para as mulhetes na musica brasileira. Formado por Amanda Menconi (flauta e percussão), Anisha7 Vetter (surdo e voz), Carla Vizeu (voz e percussão), Ju Leite (pandeiro e voz) e Milena Machado (violão e voz). Para mais informações acesse facebook.com/manadinga

     

    Fontes de pesquisa:
    Wikipedia
    Dicionário MPB
    Sambando.com
    cantoras do brasil
    raiz do samba em foco
    Rádio Agência Nacional

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  • Liga das Escolas de Samba faz virada de mesa no Carnaval do Rio

    Bernardo Pilotto, do Rio de Janeiro (RJ)

    A decisão da LIESA (Liga Independente das Escolas de Samba) e da maioria das escolas filiadas de não haver nenhum rebaixamento em 2018 deve ser repudiada por todos e todas, ainda que não seja surpreendente. Desde que a apuração dos desfiles, na Quarta-Feira de Cinzas, apontou o rebaixamento da poderosa Acadêmicos do Grande Rio, cogitava-se uma virada de mesa.

    E essa não é, infelizmente, a primeira virada de mesa da história. Isso também ocorreu no ano passado e ao longo dos anos 1990 (como em 1993, 1994 e 1995) e nos anos 1980 (como em 1981 e 1988). Muito antes disso, também tivemos outros momentos de crise: entre o final da década de 1940 e início da década de 1950 aconteceram dois desfiles considerados principais, visto que haviam duas ligas/associações organizadoras.

    LIESA: com você não dá mais
    A decisão desta quarta-feira mostrou a completa incapacidade da LIESA em gerir o desfile das escolas de samba. Nas redes sociais, desde os primeiros rumores de que o regulamento não seria cumprido, muitos se posicionaram pedindo que a Prefeitura cortasse por completo o repasse de dinheiro público a essas escolas, visto que elas não estariam cumprindo com o contrato estabelecido. Mas a solução passa por uma proposta totalmente oposta a essa.

    Acredito que o maior desfile de escolas de samba do mundo não pode ser organizado por uma liga que não tem democracia nem qualquer tipo de transparência nas suas ações. Está mais do que na hora do poder público retomar a organização dos desfiles das escolas de samba.

    Ainda que hoje a Prefeitura de Crivella seja inimiga do carnaval, a organização dos desfiles da Sapucaí (e também dos desfiles da Intendente Magalhães e do carnaval de rua) por uma Subsecretaria de Carnaval (conforme consta no relatório da Comissão Especial de Carnaval da Câmara de Vereadores) possibilitaria maior controle público sobre os rumos da festa.

    A LIESA se mostrou, desde a sua fundação, em 1984, uma entidade que visa apenas o atendimento do interesse dos presidentes das escolas, deixando de lado sambistas, foliões e o público. É uma entidade que gere o carnaval a partir de interesses particulares.

    E, incrivelmente, a virada de mesa de 2018 é só um dos problemas dessa entidade. Com a LIESA no comando do carnaval, não temos critérios públicos para a escolha dos jurados, não há licitação para a ocupação dos espaços do Sambódromo (que é um equipamento público) e os ingressos são vendidos de modo a dificultar ao máximo a vida do folião (o que favorece o trabalho de agências de viagem que aplicam uma taxa alta no preço do ingresso).

    A virada de mesa não ajuda na consolidação do público

    E essa visão apenas imediatista e comercial dos desfiles é um tiro no pé. Ao longo dos anos, ela tem servido para afastar o público, especialmente o mais jovem, da Sapucaí. Se, nos anos 1980, era comum que todo carioca tivesse uma escola do coração, hoje isso é cada vez mais raro entre aqueles que tem até 30 anos.

    Os desfiles desse ano mostraram um grande potencial para que essa lógica fosse invertida. As escolas de samba viraram assunto em todo o país, os desfiles foram comentados nas redes sociais por muita gente que nunca havia se interessado pelo tema.

    Certamente a decisão de rasgar o regulamento e não rebaixar nenhuma escola não ajuda para consolidar o público que foi atraído em 2018. Parece que a LIESA trabalha com a lógica do quanto pior melhor.

    Felizmente, sabemos que o complexo cultural que envolve as escolas de samba é muito maior do que uma liga comandada por meia dúzia de dirigentes com ficha policial extensa. Por sua vez, um eventual abandono daqueles que amam verdadeiramente as escolas só iria fortalecer essa camarilha.

    Por isso, nosso desafio segue o sendo o de defender as escolas dos ataques conservadores e de continuar a luta pela democratização da gestão do carnaval.

    Visite o especial Carnaval e(é) Resistência, sobre o carnaval 2018
    Vídeo: Entrevista com Luiz Antonio Simas, sobre carnaval, diáspora e o Rio de Janeiro

  • Pantera Negra e o partido Panteras Negras

    Por: Elber Almeida, do ABC, SP

    [Contém spoiler]

    O movimento The Black Lives Matter, Vidas Negras Importam, trouxe para ordem do dia a questão racial nos EUA. As manifestações contra as mortes de negros em Baltimore, Ferguson e em outras localidades impulsionaram a luta contra o racismo naquele país que é o modelo de encarceramento em massa e repressão policial no mundo, o que preserva o racismo mesmo após um século e meio de abolição.

    Negros passaram a se identificar cada vez mais com a luta racial e isso criou reflexos no mundo todo. Não foi a primeira vez que isso ocorreu. Em 1966, ano após a morte de Malcolm X, dois jovens formados em direito, Bobby Seale e Huey Newton, fundaram em Oakland o Partido Panteras Negras para auto-defesa. Com o uso de programas sociais de café comunitário e auto-defesa armada baseada na legislação da califórnia, a organização cresceu rapidamente e se nacionalizou. Logo foram infiltrados agentes da inteligência estadunidense para gerar intrigas entre os dirigentes, o que criou sucessivas rupturas e a destruição da organização. Até hoje alguns de seus membros estão presos, outros morreram, como Newton.

    Os Panteras Negras tinham um programa baseado na luta por direitos sociais e a luta contra o racismo. O “Programa dos Dez Pontos”, que incluía a expropriação dos meios de produção, ou seja, um programa comunista.

    “Nós acreditamos que se o homem de negócios americano branco não nos dá emprego, então os meios de produção devem ser tomados dos homens de negócios e ser colocados na comunidade de modo que o povo da comunidade possa organizar e empregar todas as pessoas e dar-lhes um padrão elevado de vida.” – Programa dos Dez Pontos.

    O BPP também não era um partido “anti-brancos”. Sua organização não aceitava brancos em suas fileiras devido a uma opção organizativa, porém, traçava ações em conjunto com organizações de esquerda destes, como foi o caso na luta contra a guerra do Vietnã, por exemplo. A direção do BPP polemizava com outros grupos do movimento negro e com setores do próprio partido, como as células de Nova Iorque, quanto ao caráter desta luta. 

    “No que diz respeito ao nosso partido, o Black Panther Party é um partido totalmente negro, porque pensamos, como Malcolm X pensava, que não pode haver unidade entre brancos e negros até que primeiro exista unidade entre os negros. Temos um problema na colônia negra que é particular à colônia, mas estamos dispostos a aceitar ajuda do país desde que os radicais desse país percebam que temos, como Eldrige Cleaver diz em Soul on Ice, uma mente própria. Reconquistamos nossa mente, que foi tirada de nós, e vamos decidir as posições políticas e práticas que vamos tomar. Nós vamos fazer a teoria e executar a prática. É dever do revolucionário branco nos ajudar nisso.” – Huey Newton em célebre entrevista ao “The Moviment”.

    Em resumo, estes foram os Panteras Negras. Agora, existe um filme recém lançado de bilheteria gigante que altera o significado de “Pantera” ao invocar um personagem de quadrinhos criado antes da existência da organização. Este personagem é um rei de uma nação pretensamente futurista e um super-herói.

    Em primeiro lugar, é um filme de entretenimento. Tem cenas de explosão, perseguição, tiroteio, rinoceronte assassino, nave espacial, pancadaria, trajes legais. Mas, como é bem sabido, o entretenimento produzido nos EUA cumpre um papel sociopolítico no mundo todo, ao espalhar ideologias que protegem seus ideais de nação. Nem é necessário citar exemplos, certo?

    Em segundo lugar, é um filme de entretenimento diferente de muitos. O fato é que o elenco é negro, seus protagonistas, direção, também. Usa referências à cultura negra e coloca-a no centro da trama. Esse fato inegável levou muitos ativistas da luta contra o racismo a se empolgarem MUITO com o lançamento.

    Agora, é necessário discutir o porquê disso. Os negros são historicamente colocados como personagens secundários ou antagonistas nestes tipos de filmes, até mesmo quando colocados como pessoas poderosas, por exemplo, no filme “Thor”, referenciado na mitologia nórdica, portanto branca, colocaram um negro para ser um “deus”, que por acaso era o porteiro de Asgard. O que significa essa mudança?

    A indústria cultural cinematográfica lucra bilhões com suas vendas. Ela sabe detectar tendências de mercado muito bem. Negras e negros estão se identificando com sua história, passando a ter orgulho de seus traços físicos, sua cultura e lutando contra o racismo, o que é um movimento muito positivo. Porém, o capitalismo sabe transformar quase tudo em mercadoria e para ele essa é uma oportunidade de negócios e de ganhar mais dinheiro.

    Mas não é só isso.

    No filme existe um protagonista e um antagonista. O mocinho de traje azul e o vilão de traje vermelho. O mocinho é um rei, um moço de família bem comportado, um negro que busca governar sua nação. O vilão é um assassino de guerra, movido pelo sentimento de vingança e, principalmente, a verdadeira referência ao Partido Panteras Negras, embora com distorções.

    Killmonger é seu vulgo. Nasceu em Oakland, o que na vida real é a terra de origem dos Panteras Negras. Seu pai foi morto pelo rei anterior de Wakanda, o reino do mocinho, por tramar usar a riqueza de sua nação, o minério fictício vibranium, para a luta dos negros no mundo todo. Em um sonho Killmonger revê seu pai, arrependido, dizendo para o jovem não ler seus livros. O pai, que num relance do filme mostra ter um poster com a icônica foto de Huey Newton em casa, é a principal referência do filho vingador, que toma o trono de Wakanda numa luta de morte contra o mocinho para espalhar armas de vibranium pelo mundo e iniciar guerras e revoluções contra o racismo.

    Wakanda é um reino romântico, de reis guerreiros, extremamente fechado e pretensamente futurista. Pretensamente, pois, apesar dos arranha-ceús, dos veículos voadores, da ciência, etc., não deixa de ser um reino. A escolha de seus líderes é de acordo com a divisão em tribos e seu rei se mantém no trono após um desafio de morte que pode ser realizado por membros importantes da nação. Sua riqueza provém de um minério, o que lembra bem a economia colonizada dos países da África, e no final divide-se em uma guerra civil ao invés de lançar-se numa empreitada contra o mundo imperialista, o que é a imagem que o imperialismo sempre transmitiu do continente africano: nações que se matam em guerras tribais causadas por elas mesmas em luta por riquezas, ao invés da realidade que é a de países criados por tratados europeus e sua intervenção política que gera conflitos entre povos.

    E a cereja do bolo é o personagem Everet Ross, agente branco da CIA, que além de ter um passado de colaboração com T’Challa foi uma peça fundamental na batalha pelo restabelecimento do reinado deste. A inteligência dos EUA, que derruba governos pelo mundo em defesa dos interesses estadunidenses e que foi fundamental para o desmantelamento do Partido Panteras Negras, aqui é parte da salvação.

    A contradição entre o vilão revolucionário, assassino raivoso de guerra, irracional déspota que planeja uma guerra que irá cobrir o mundo todo, e o mocinho monarca, garoto de família, portador do perdão e da conciliação, é sintetizada no desejo que os dois possuíam, o primeiro numa maior medida que o segundo, que só foi convencido por sua amada, pela defesa dos negros que viviam fora do reino. A solução final é a criação de projetos sociais, que iniciam em Oakland, financiados por Wakanda, no estilo ONG.

    Esta solução final há um problema concreto, apresentada neste filme de entretenimento e fantasia – reforçando que a indústria de entretenimento é sociopolítica – vai na contramão do que eram os Panteras Negras. Sua organização era revolucionária, enxergavam as contradições de classe no mundo, lutavam contra governos e faziam isso paralelamente a projetos sociais, como os cafés da manhã comunitários para crianças negras, provando, na prática, o critério da verdade, que não há contradição entre solidariedade e luta. A real contradição, que o filme busca desmanchar com sua narrativa, é a que existe entre solidariedade e manutenção do poder estabelecido através de classes sociais.

    Por fim, voltamos ao começo. É um filme de entretenimento. É arte. Não é condenável assisti-lo mesmo levando-se em conta a visão acima. Pode gerar efeitos positivos em alguns casos, como de crianças, ou até mesmo adultos, que enxergam o negro como protagonista de uma história, o que é muito raro. Porém, não só não é contestador, como descaracteriza a história dos contestadores. Sua existência é claramente uma resposta da indústria cinematográfica à luta que os negros fizeram e fazem no dia a dia contra o racismo. O surpreendente não é a intenção desta indústria, ela está aí e enquanto existir cumprirá seu papel de manutenção da ordem. O surpreendente, e preocupante, é a reação da maioria do ativismo de celebração eufórica e com muito poucas críticas a tal peça.

    Foto: Divulgação

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  • Opinião: Pantera Negra, Palmares Forever Colonizador

    Altobelly Rosa, de Belém (PA)

    Acabo de assistir ao filme Pantera Negra, gostei de muitas coisas, achei lindo. O protagonismo das mulheres negras, as músicas africanas, a ancestralidade, alguns rituais parecidos com os rituais de candomblé e umbanda e o elenco. Mas algumas inquietações reavivaram em minha mente durante a sessão de cinema. Saí da sala me perguntando de qual Pantera Negra gostei mais? Na verdade sei esta resposta desde muito tempo.

    O filme é PRETO, isso é inquestionável, entretanto, como muitos filmes feitos nos EUA, o embate Malcom X versus Luther King ganha mais um capítulo. Como os pretos devem tratar os racistas, como os negros devem combater o racismo? Armar o oprimido sempre soou como terrorismo. Nos dias atuais, nos quais a reação preta tem acontecido com mais frequência, onde temos mais pretos armados com idéias, somos acusados de “mi mi mi”, falam em vitimismo, etc e tal. Me pergunto se ainda existem tantos outros irmãos de sangue que não comem, ocupando os piores empregos, morando em favelas, sofrendo violência do Estado, seria errado dar-lhes condições de reagir?

    Será que Wakanda existe? Talvez o reino dos HQ’s sirva de metáfora para questões dos dias atuais. Muitas negras e negros hoje parecem viver nesse reino do sucesso. A porta do sucesso para as pretas e os pretos é bastante estreita, os poucos que entram, ao invés de estourarem as paredes, para facilitar a entrada, resolvem se vangloriar pelo seu talento. Agem como um Neymar, que diante da miséria do seu povo dá banho em modelos com champanhe de R$ 5 mil. Reforçam a tese de “basta esforço”, “ só não é um Joaquim Barbosa quem não quer”, reproduzimos a mentira que os brancos sempre nos contaram. A coisa está ficando branca, até no rap, o moleque faz umas músicas de sucesso e no outro dia começa a pagar de mister Money: “eu cheguei aqui com meu talento”.

    O Brasil vem de 13 anos de um governo que, com todas suas contradições, jogou algumas migalhas. Alguns de nós podemos ir a universidade, outros tiveram pais que estudaram, conseguiram um emprego melhor e saíram da senzala, ou da favela. Surgia assim uma geração de Panteras Negras, nascida em cativeiro, quem nasce em Wakanda não pode entender o sentimento de quem nasceu em Oakland. Só nos interessa construir uma fortaleza se for pra lutar por outros pretos, assim como foi Palmares. Não podemos permitir que as ideias dos colonizadores nos dominem. Não podemos falar em conviver como uma nação harmônica, enquanto muitos de nós ainda vivermos no atraso destinado aos pretos, como cortesia dessa sociedade branca. Saio do filme consciente de que sou dos que preferem o oceano a prisão.

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  • Povo negro: 1, 2, 3… ação!

    Morghana Benevenuto, de Porto Alegre (RS)

    Vou me embora pra Wakanda, que lá eu sou Rei
    Sabedoria é um griô, dispenso sensei
    Isso é pretos no topo que tanto sonhei
    Mãe África em foco, pode apertar o play
    NEGRÃO, Bruno.

    Dia 16 de fevereiro estreou nas telas de todo Brasil o filme Pantera Negra (Marvel). A ficção tem em seu elenco somente atores negros, o que não é novidade no cinema americano, mas é inédito pelo tamanho da produção e, obviamente, porque o negro não é o primeiro a morrer como na maioria das vezes. O filme conta com atores premiados da cinematografia Hollywoodiana, como Lupita Nyong’o, ganhadora do Oscar por “12 anos de Escravidão”, e Forest Whitaker, também ganhador do Oscar. Além disso, é dirigido e tem como roteirista dois homens negros: Ryan Coogler e Joe Robert. Para finalizar, a trilha sonora é produzida pelo rapper premiado Kendrick Lamar.

    Ou seja, o filme é o verdadeiro sinônimo de que “Se a coisa tá preta, a coisa tá boa”. Inclusive o filme contou com uma sessão exclusiva para negros em Porto Alegre, no Cine Vitória, com apresentações de figuras do movimento negro local, poetas e jornalistas da grande mídia.

    O Filme (Contém Spoiller)
    Pantera Negra é um filme que traz várias referências da cultura negra. Começando pelo nome que logo nos remete ao Partido Panteras Negras, partido socialista norte-americano que lutou contra a violência policial e a desigualdade racial nos Estados Unidos, além de ter sido cruelmente perseguido pela CIA. Outro aspecto que chama atenção é o protagonismo das mulheres negras. Elas são as guerreiras, elas são o exército, as que lutam pelo reino, aliás, nas culturas de vários países africanos são as mulheres que sempre cumpriram esse papel, além de outros tantos.

    Também é importante falar sobre o reino fictício Wakanda. Wakanda não é uma simples aldeia africana como as retratadas em canais de TV onde as pessoas são sempre desnutridas e sem acesso a tecnologias, ou um reino que conserva tradições milenares sem nenhuma perspectiva de mudança cultural. Não, não é nada disso. Wakanda é simplesmente “O Reino”, com tecnologias mais avançadas que as que conhecemos hoje, ou um futurismo em perfeita harmonia com a natureza; lá reina o respeito às tradições como, por exemplo, a cerimônia de coroação, sendo elas conservadas e, ao mesmo tempo, renovadas. E a melhor parte: ele é habitado por pessoas negras que produzem e usufruem tudo isso. E é de lá que nascem os super-heróis.

    O enredo do filme não se resume simplesmente na luta do herói contra o vilão, nas entrelinhas o enredo trata sobre qual é o melhor projeto para a libertação da população negra e oprimida. O príncipe T’Challa tenta encontrar um consenso entre uma saída radical, na qual o primeiro passo seria socializar e armar os oprimidos com as tecnologias de Wakanda, ou manter-se fechado, conservando as tradições e valores africanos e dentro de uma pequena sociedade africana. Obviamente, a solução encontrada é a mais americana possível, à la Barack Obama, desenvolvendo centros educacionais, culturais, medidas contra a desigualdade com ajuda da CIA e da ONU. É claro que antes o príncipe enfrenta o vilão em batalhas com suas super-tecnologias naquele jeito Marvel de ser. Mas, é interessante pensar que a ideia de armar os oprimidos para lutar contra os opressores ainda é retratada como inimiga da humanidade.

    Representatividade importa!
    Sem sombra de dúvida Pantera Negra é um show de representatividade. No filme nenhum negro é coadjuvante e todos possuem poderes, falas e o mais importante: opinião. Esses elementos são de enorme relevância para qualquer menino ou menina negra reconstruir uma imagem desta população na cinematografia que vá além do bandido, palhaço, barraqueira ou empregada, ou seja, nos permite reconstruir (ou construir) uma imagem positiva sobre nos mesmos, o que por muito tempo nos foi negado no âmbito cultural. A auto-declaração precisa ser através de um reconhecimento não estigmatizado e não racista. Ou seja, é preciso representar com efetividade e Pantera Negra conseguiu cumprir com esse papel muito bem.

    Mas é necessário pensar o quanto o slogan “Representatividade Importa!” ainda é frágil, mesmo com mais de 50% da população sendo negra neste país, quando assistimos os filmes, propagandas, novelas e programas de televisão nem conseguimos cumprir com a cota de um negro entre dez, vinte, cem, brancos. Os poucos negros que estão na grande mídia ainda cumprem um papel de luta contra o racismo muito tímido para o tamanho das demandas da população negra brasileira. Um dia depois da grande estreia de Pantera Negra no Brasil Temer anunciou Intervenção Militar na área da segurança em todo Rio de Janeiro, o que para os pretos significou assinar mais uma política de genocídio e quase nenhum artista, como Thaís Araújo e Camila Pitanga, negras que influenciam muito no movimento negro contemporâneo e feminista, se pronunciaram publicamente. De nada adianta nos vermos como heróis nas telas de cinema, mas voltarmos a ser vistos como suspeitos e marginais quando o filme acaba.

    Para nossa representatividade ser de fato efetiva ainda há muito caminho pela frente, é preciso se posicionar contra projetos políticos que visam a precarização de serviços públicos, é preciso se posicionar contra reformas que restringem direitos dos trabalhadores e estar junto aos movimentos negros, não somente aqueles institucionalizados. Um elenco inteiro negro infelizmente é pouco comparado com a violência que a população negra vive neste país, mas com certeza já é um passo.

     

  • Educadores de SP criam grupo de estudos sobre marxismo e educação pública

    O grupo de estudos inicia nesta quarta, 21/02. Confira o texto de apresentação e a bibliografia

    Ana Maria Mello, de São Paulo (SP)

    Alguns camaradas têm nos perguntado: porque estudar a educação pública com autores marxistas, em uma perspectiva do materialismo histórico-dialético? Ou ainda: mais um grupo de estudos sobre educação pública e emancipatória?

    Nessa oportunidade é útil uma apresentação mais ampla de como nasceu esse grupo. Somos todas ligadas à educação pública, professoras, coordenadoras pedagógicas e diretoras vinculadas à educação básica, inicialmente no município de São Paulo. O leitor pode observar que apresento aqui um grupo feminino. Ele poderá se ampliar e é o que desejamos, mas por hora somos mulheres que ao longo de muitos anos trabalhamos abrindo e fechando unidades educativas, resistindo às reformas rasteiras e de pouca durabilidade por diferentes governos reformistas ou não, enfim vivemos cuidando e educando crianças e jovens em luta continuada.

    Ao escrever esse artigo, represento esse grupo inicial. Talvez tenha sido escolhida para essa tarefa por ser a mais velha desse coletivo, e como tal tenho algumas histórias ainda das décadas de 1970/80.

    Por isso, vamos lá. Em 1974 eu estudava letras na UNESP de Marília onde conheci o grupo de estudos do Professor José Arruda Penteado. Os dias ocorriam na clandestinidade, e muitos de nós, estudantes universitários, nos engajamos em grupos de estudos disfarçados em diferentes abordagens. Nós, por exemplo, estudávamos os trabalhos do educador Célestin Freinet. Os freinetianos, motivados por esse professor animado, destacavam autores como Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre e Michel Foucault, para nos provocar continuadamente.

    O Professor Penteado nos relatava a visita de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre ao Brasil, e a Conferência em Araraquara de 1960, onde os professores Antônio Candido, Bento Prado, Fernando H. Cardoso, Miriam Moreira Leite, Ruth Cardoso, entre outros, mediavam um debate aquecido sobre a tentativa de conciliação entre o existencialismo e o marxismo. Ele lia para nós trechos do livro “Critica da Razão Dialética” e lembrava, com animação, os momentos da visita de Sartre.

    Vivemos também a segunda visita de Michel Foucault à USP, em São Paulo. Foi justamente em 29/10/1975, lembro-me da data, pois ficamos todos abalados com a morte do jornalista Wladimir Herzog, e os estudantes pediram para Foucault ler um texto escrito pelo movimento estudantil sobre essa tragédia.

    Contrariamente a Sartre e a Simone de Beauvoir, Foucault foi filiado ao PC francês, embora dissesse que não gostava de se envolver com partidos políticos. Aluno do marxista Louis Althusser, Foucault rompeu com suas ideias e foi considerado pelas gerações seguintes como um importante representante da corrente pós-estruturalista.

    Tempos agitados aqueles… Assim, de 1974 a 1978, acompanhei com muito entusiasmo esse grupo. José Arruda, marxista convicto, não achava possível o diálogo entre existencialistas e marxistas, cristãos e marxistas, ou posteriormente, estruturalistas e marxistas. Lembro que saíamos aquecidos, comentando as diferenças entre os conceitos marxistas e os colegas mais engajados afirmavam com convicção: “eles podem apoiar a revolução cubana, podem escolher como analise a variável classe social, ou ainda a população mais excluída, mas continuarão existencialistas e/ou cristãos.”

    Eu? Achava os debates importantes para nossa educação, mas não tinha formação suficiente para compreender o que se passava. Nesse período estávamos filiados a movimentos clandestinos (PCB, MR8, Liberdade e Luta etc.). Todos muito disciplinados, líamos com dedicação os textos do Freinet – Ensaio de psicologia sensível aplicada à educação e Educação pelo trabalho. Esse grupo tinha como tarefa principal zelar por dez salas de aulas públicas – Freinet, tanto de pré-escola como dos primeiros anos de ensino primário da época. Eu era uma das professoras-estagiárias dessas salas, queríamos ser ativistas freinetianas, ou seja, aprender, prestar atenção, ouvir a criança e sua família, identificar nas crianças, via tateio experimental, os modos de expressão infantil. Desejávamos, assim, incluir a família na participação diária daquelas salas experimentais e criar caminhos que não fossem “invadidos por palavras inúteis e pelas teorias falaciosas descompromissadas…” (Freinet). Continuei na UNESP, agora em Assis, cursando psicologia.

    Tempos melhores, menos clandestinos, podiam agora nos apresentar como marxistas? Ainda timidamente. Muitos autores marxistas entraram no Brasil na década de 1980. Wallon, Vigostki, Luria, Leontiev e Elkonin, que já apareciam entre os nossos formadores.

    Desde dessa década dirigi e supervisionei creches e pré-escolas públicas, fui a Cuba estagiar em creches, continuei meus estudos, agora na USP de Ribeirão Preto, e finalmente trabalhei como psicóloga na Escola de Aplicação (FEUSP). Em todos esses espaços educacionais, tive muitas oportunidades de debates, mas poucos docentes me ensinaram a pensar dialeticamente. Na realidade, os autores marxistas foram lidos com diferentes olhares, mas em minha opinião, não foram visões e debates marxistas.

    Ao contar essas e outras historias para algumas colegas professoras, marxistas, elas, entusiasmadas me convenceram de reiniciar um grupo, agora novamente em tempos difíceis, desafiantes para todos que desejam uma educação emancipatória.
    Esse será um grupo de estudos marxistas, que se propõe estudar autores de gênese e pensamento dialético construído em torno do reconhecimento do papel essencial das lutas de classes. Conforme comentei, este grupo está sendo organizado por militantes que atuam no chão da escola, professoras, coordenadores e orientadoras pedagógicos, diretores da educação pública.

    Acreditamos que o conhecimento, assim como tudo o que é produzido pela humanidade, se encontra, sob o capitalismo, restrito a uma classe dominante. Para somarmos à luta pela sua democratização, é necessário que a estratégia esteja acompanhada de uma boa teoria. Nosso desejo (anticapitalista) é compreender as reformas (e as reformas sem reformas!) para ultrapassá-las. Saber mais do pensamento histórico-crítico dialético, analisando nossas ações, buscando ampliar o grau de participação de cada criança e sua família, analisando as condições de trabalho dos educadores para identificar onde e como o trabalho do professor se aliena.

    Para tanto começaremos com um texto de Dermeval Saviani de 1983, porque quando esse debate ocorreu naquela década, a sociedade brasileira passava por uma fase de grande mobilização. De lá para cá, muitos de nós confiamos em reformas, ou a expectativa foi favorável para receber muitas delas e muitos autores pós-marxistas.  Autores como: Sartre, Guatari, Foucault, Levi-Strauss, Derrida e Deleuze entre outros, afora as abordagens psicanalistas na educação advinda das ideias de Lacan serviram (e servem) de base à construção de argumentos contra as teorias e os teóricos marxistas, causando, em nossa opinião, impactos recessivos em toda América Latina.

    Alguns autores (brasileiros ou não) resistiram a essas teses tão bem elaboradas e, portanto, tão sedutoras. Com o objetivo de estudar o lugar da educação publica contemporânea em nossa sociedade, propomos pontos para o debate, formulando argumentos para a defesa da construção continuada de uma educação emancipatória.

    Nosso desejo é construir bons debates, boas práticas e registros desse novo grupo de estudos.


    Adesões: O grupo de estudos é gratuito, ele se inicia no dia 21/2, às 17 horas no Centro Cultural Vergueiro (Metro Vergueiro). É preciso ser professor(a) de unidades educativas públicas. Procure a Helena, pelo e-mail lelemms17@hotmail.com

    Abaixo apresentamos a bibliografia para este semestre, e iremos organizar o segundo semestre com a colaboração de todos-as.

    Bibliografia
    • Dermeval Saviani. Pedagogia Histórico-Crítica, primeiras aproximações. Editora Autores Associados, pp. 5 a 14, 1995
    • Perry Anderson. A Crise da crise do Marxismo. Introdução a um debate contemporâneo, pp. 10 a 64, Brasiliense, 1984.
    • Silvana Calvo Tuleski. As interpretações ocidentais da obra de Vigotski, pp. 29-70, Vigotski – a construção de uma psicologia marxista, Ed. UF Maringá, 2008.
    • Suely Mello. Cultura, medicação e atividade”. Marx, Gramsci e Vigotski: aproximações, pp. 375 a 376 – Ed. Cultura Acadêmica & Junqueira, 2009.
    • Alessandra Arce e Rosimeire Simão. A psicogênese da brincadeira de papéis sociais ou o jogo protagonizado – Daniil Borosovich Elkonin, pp.65 – 88, Brincadeiras de papeis sociais na EI – As contribuições de Vigotski, Leontiev e Elkonin, Ed. Xamã, 2006.