Do osso à nave: Eram os astronautas macacos

Por: Paulo César de Carvalho, colunista do Esquerda Online

Existem numerosas definições de cultura (…). Toda a cultura determinada historicamente gera um modelo cultural próprio (…). Por outro lado, dentro da multiplicidade de definições, é possível determinar algo em comum (…). O “trabalho” fundamental da cultura, como tentaremos demonstrar, consiste em organizar estruturalmente o mundo que rodeia o homem. A cultura é um gerador de estruturalidade: cria à volta do homem uma sociosfera que, da mesma maneira que a biosfera, torna possível a vida, não orgânica, é óbvio, mas de relação (Iuri Lotman, “Sobre o Mecanismo Semiótico da Cultura”, In Ensaios de Semiótica Soviética, Livros Horizonte, Lisboa, 1981, p.37-39)

Como vimos nos dois artigos que abriram esta série, o conceito de “cultura” começa a se formar sobre o pano de fundo da “natureza”. A passagem do “reino animal” ao “reino humano” se deu no instante em que os nossos antepassados enfrentaram e subjugaram as forças naturais pela primeira vez. A noção de cultura, portanto, se identifica originariamente com a luta do homem pela sobrevivência, com a busca de melhores condições de vida. Isso só se tornaria possível através do desenvolvimento de determinadas técnicas, materializadas sob a forma de instrumentos. Por esse motivo é que Trotski emprega o termo “cultura material” para se referir especificamente às “formas materiais” produzidas no longo processo de domínio da natureza.

Aliás, como ele comenta, ao falarmos em “cultura acumulada”, estamos pensando “fundamentalmente nas primeiras realizações materiais sob a forma de instrumentos, máquinas, monumentos, e assim por diante” (Leon Trotski, “Cultura e Socialismo”, In Escritos Filosóficos, Editora Iskra, São Paulo, 2015, p.220). Colocando-se no lugar do interlocutor que não compreende a formulação, é o próprio Leon quem faz a pergunta e esclarece o conceito: “É isto a cultura? Sem dúvida, trata-se das formas materiais nas quais a cultura foi sendo depositada – cultura material”: nesse contexto, a palavra “cultura” designa o conjunto de conhecimentos e habilidades, de técnicas e instrumentos que constituem as bases concretas do “nosso modo de viver cotidiano (idem, p.220).

Como se infere do trecho, enfim, se é verdade que, “a rigor, tudo é cultural”, uma vez que não há esfera da existência humana em que a “cultura” não intervenha (como apontamos no artigo de estreia, citando o linguista Sírio Possenti), o termo subsume também a “cultura espiritual”. Isso significa que, para compreender a categoria “cultura” como uma totalidade, é necessário não apenas considerar os sentidos particulares que a palavra adquire em cada contexto, mas também (sobretudo) como todos eles se articulam dialeticamente para estruturar, no espaço e no tempo, os mais variados “modos de vida”. A “cultura material”, pois, não é sinônimo de “cultura” (do contrário, o adjetivo seria redundante), mas tão somente a parte “terra” do conceito: a parte “céu” é a consciência coletiva das práticas e valores culturais que organizam os modos de existência.

Esta cultura cria, com bases na natureza, o pano de fundo da nossa vida (…). Mas a parte mais preciosa da cultura é aquela que se deposita na consciência do próprio homem: o método, os costumes, a capacidade (…) que adquirimos e que se desenvolveu partindo de toda a cultura material pré-existente e que, ao mesmo tempo em que é seu resultado, o enriquece (idem, p.220).

Abrindo um parêntese, esse trecho do ensaio “Cultura e Socialismo” – em que Leon aborda a noção de “cultura acumulada” – evoca precisamente a seguinte formulação de Marx (nas notas críticas à Filosofia da Miséria de Proudhon).

É supérfluo acrescentar que os homens não são livres para escolher as suas forças produtivas – base de toda a sua história –, pois toda força produtiva é uma força adquirida, produto de uma atividade anterior. Portanto, as forças produtivas são o resultado da energia prática dos homens, mas esta mesma energia é circunscrita pelas condições em que os homens se acham colocados, pelas forças produtivas já adquiridas, pela forma social anterior, que não foi criada por eles e é produto da geração precedente. O simples fato de cada geração posterior se deparar com forças produtivas adquiridas precedentes, que lhe servem de matéria-prima para novas produções, cria na história dos homens uma conexão, cria uma história da humanidade. (Karl Marx, Miséria da Filosofia, Expressão Popular, São Paulo, 2009, p.245).

Na rigorosa perspectiva marxista de Trotski, portanto, a “cultura material” é a base em que se organiza a “cultura espiritual” – entendida como o conjunto de valores ideológicos (padrões morais, dogmas religiosos, regras sexuais, normas jurídicas, orientações estéticas, manifestações artísticas) que regulam os comportamentos dos indivíduos, disciplinam as relações sociais, institucionalizam uma identidade coletiva. Para analisar qualquer “modo de vida”, então, não se pode desconsiderar jamais, como princípio metodológico, a base concreta em que ele se organiza. Não esqueçamos a esclarecedora progressão de raciocínio de Marx:

O que é a sociedade, qualquer que seja a sua forma? O produto da ação recíproca dos homens (…). A um determinado estágio de desenvolvimento das faculdades produtivas dos homens correspondem determinadas formas de comércio e de consumo. A determinadas formas de produção (…) correspondem determinadas formas de constituição social, determinada organização da família, das ordens ou das classes: numa palavra, uma sociedade civil. A uma determinada sociedade civil corresponde um determinado estado político, que não é mais que a expressão oficial da sociedade civil (idem, p. 244-245).

Posto isso, recordando a alegoria de Kubrick, não há nenhuma dúvida de que o mundo do macaco que usava o osso como instrumento existiu milhares de anos-luz atrás do universo do astronauta que pilotaria a nave: o primeiro hominídeo explorando a terra sob condições materiais ainda muito precárias, portanto, jamais reuniria os elementos concretos necessários para poder apreender a “realidade” da mesma maneira que o último homem explorando o espaço (como diria a protodialética de Heráclito, os homens não são os mesmos, as realidades são outras). Passando novamente a palavra ao velho Karl, a única semelhança entre o hominídeo e o astronauta é o princípio de que “as suas relações materiais formam a base de todas as suas relações”, que “nada mais são do que as formas necessárias nas quais se realiza a sua atividade material e individual” (idem, p.245).

Em síntese, a transformação do “osso” em “nave” é resultado de um longo processo histórico de desenvolvimento das forças produtivas, somente possível graças ao gigantesco acervo de “conhecimentos e habilidades de todo tipo para enfrentar e subjugar a natureza”. Sob as diferentes condições materiais, assim, as formas de percepção dos limites do mundo e de ação sobre ele são muito distintas: o primeiro homem evidentemente não só desconhecia a existência do espaço sideral, mas também da família, da propriedade, da igreja, da escola, da justiça, dos partidos políticos… Ou seja, as condições espirituais em que se manifestam os diversos níveis de consciência da realidade e se dimensionam os variados graus de relação entre os homens são determinadas historicamente.

Enfim, parafraseando o cineasta americano, pode-se constatar que o salto histórico do “estado selvagem” da humanidade ao estágio da “civilização” se deu concretamente, entre muitos exemplos, na transição do corpo em pelo ao uniforme espacial, do rudimento de linguagem ao discurso científico, da pedra lascada ao computador de bordo, da lança de madeira à arma a laser, da carne de bisão ao alimento sintético, da crença na divindade do fogo à fé na onipotência da máquina. Do homem primitivo ao astronauta, pois, a “cultura acumulada” – em sentido lato – deve ser compreendida como a síntese histórica da “cultura material” e da “cultura espiritual”, instâncias desiguais que se combinam dialeticamente na estruturação das distintas “sociosferas”, isto é, na organização dos diferentes “modos de vida”.

Para concluir, se estamos de acordo quanto a caracterização de que “o ‘trabalho’ fundamental da cultura (…) consiste em organizar estruturalmente o mundo que rodeia o homem” (nos termos do linguista Yuri Lotman, na epígrafe), não dá para investigar o conceito de “cultura” em sua complexa totalidade de sentido, sob a lente metodológica do materialismo histórico e dialético, sem problematizar a implicação recíproca entre o “cultivo da terra” e o “cultivo das ideias”. Quer dizer, sem analisar como, a partir do “osso” ou ao redor da “nave”, estruturam-se a produção material e a reprodução espiritual constitutivas de cada forma de existência humana. É importante fazer uma ressalva, para que a crítica míope não enxergue “reflexos mecânicos” neste método: as relações entre a infraestrutura e a superestrutura não são unívocas, unidirecionais.

Por isso, antes de encerrar, conscientes de que devemos nos prevenir das corriqueiras distorções produzidas pelas rasas análises deterministas, recomendamos aos leitores que usem as lentes fornecidas por Engels, para tentarem enxergar em profundidade as sutis articulações entre a “cultura material” e a “cultura espiritual” na teoria do conhecimento do marxismo:

O desenvolvimento político, jurídico, filosófico, religioso, literário, artístico, etc, se funda no desenvolvimento econômico. Mas estes elementos interagem entre si e reatuam sobre a base econômica. Não é que a situação econômica seja a causa e a única atuante, enquanto todo o resto seja efeito passivo. Ao contrário, há todo um jogo de ações e reações à base da necessidade econômica, que, “em última instância”, sempre se impõe.” (Carta de Engels a H. Starkenburg, 25 de janeiro de 1894. In Cultura, arte e literatura: textos escolhidos, Karl Marx e Friedrich Engels, Expressão Popular, São Paulo, 2012, p.104).

 

*Paulo César de Carvalho (Paulinho) é militante da RESISTÊNCIA-PSOL em São Paulo, SP.
Imagem: Cena do filme 2001: Uma odisseia no Espaço

 

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