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  • O maior ataque à fiscalização de combate ao trabalho escravo no Brasil

    Por: Lucas Reis da Silva, historiador e bacharel em Direito, Auditor-Fiscal do Trabalho
    Durante dois anos e meio fiz parte do Grupo Móvel de Combate ao Trabalho Escravo do Ministério do Trabalho. As cenas que caracterizam o trabalho escravo no campo brasileiro são muito parecidas. Mas essa que vou narrar aqui se trata de uma operação realizada em 2014 no sudoeste do Estado do Maranhão, da qual participei.

    Eram 11 mulheres e homens, trabalhadores rurais, que em sua maioria chegavam a trabalhar 14, 16 e alguns deles até 18 horas por dia. Isso mesmo. Dezoito horas por dia. Não tinham descanso semanal remunerado, nem os intervalos legalmente previstos para repouso e alimentação ou o intervalo obrigatório entre duas jornadas de trabalho (chamado de intervalo interjornada). Não recebiam salário. Trabalhavam pela parca comida que lhes era entregue para cozinharem em um fogareiro improvisado ao chão de terra, movido à lenha recolhida por eles ali mesmo no pasto onde foram colocados para morar. Antes de cozida, a carne ficava exposta ao sol rodeada de moscas e o restante do alimento ao chão do barraco de lona que mal os abrigava ao dormir. Deixava-os expostos às intempéries, a animais peçonhentos e expunha completamente sua individualidade. Dormiam todos juntos, mulheres e homens, famílias, casados e solteiros. Ao lado desse barracão onde dormiam, um córrego, utilizado para retirar água para beber e cozinhar e, nesse mesmo mesmo córrego, satisfaziam suas necessidades pessoais. Vacas e cavalos da Fazenda também bebiam dessa mesma água barrenta.Como Auditores-Fiscais do Trabalho, constatamos situação de trabalho escravo contemporâneo com previsão no artigo 149 do Código Penal Brasileiro, por dois motivos: jornada exaustiva e condições degradantes de trabalho. Isso porque o fato se deu antes da Portaria 1129/2017, publicada essa semana pelo Ministro do Trabalho. Pasmem! Se o Estado Brasileiro se deparasse com essa mesma situação narrada depois da publicação dessa Portaria, não se trataria mais de situação “análoga à de escravo”. O Governo Temer excluiu, com a referida portaria, duas hipóteses de caracterização de escravo no Brasil, justamente aquelas que foram utilizadas para caracterizá-lo na situação narrada acima. Agora, portanto, com a portaria, só será considerado “trabalho escravo contemporâneo” as situações em que houver trabalho forçado ou restrição à liberdade de locomoção. Para que um trabalhador seja considerado escravo, a partir da Portaria, ele deve ser forçado a trabalhar ou ter seu direito de locomoção restringidos.

    O atual estágio do capitalismo periférico brasileiro dá aos patrões o luxo de escravizar sem precisar amarrar os trabalhadores. Com um desemprego que bate as cifras dos 14 milhões, o empregador se dá ao luxo de escolher entre uma massa de miseráveis que esperam à sua porteira para trabalhar para ele e enriquecê-lo em troca de favores e de suas migalhas. Mas não é porque o atual estágio do sistema capitalista empresta ao empregador mais esse privilégio (o de escravizar sem chicotear) que o trabalho em condições degradantes ou em jornada exaustiva deva deixar de ser considerado trabalho escravo. Não! Muito pelo contrário. É nesse momento que as leis e as normas devem servir para proteger ainda mais os trabalhadores que perdem empregos, salário e condições dignas de trabalho e de vida. O que essa portaria faz é estimular a utilização de trabalho degradante no Brasil ao retirar a “degradância” e a “jornada exaustiva” dos elementos caracterizadores do “trabalho escravo contemporâneo”.

    E o governo o faz de forma autoritária, como lhe é de praxe. Por portaria, altera previsão expressa na letra da lei, no artigo 149 do Código Penal. Em 20 anos, mais de 55 mil trabalhadores foram resgatados de condições de trabalho escravo contemporâneo no campo e nas cidades brasileiras com fundamento no artigo a cima.

    Mas ela não para por aí. A portaria também introduz outros requisitos para a caracterização do trabalho escravo que funcionam no sentido de dificultá-la. Por exemplo, exige a lavratura de Boletim de Ocorrência por autoria da policial que tenha participado da fiscalização. Acontece que, na maioria das vezes, a caracterização do trabalho escravo se dá em inspeções de rotina dos auditores fiscais em que não há acompanhamento policial. Nesse caso, a exigência de lavratura de Boletim de Ocorrência introduz mais um requisito que a dificultar o processo de caracterização do trabalho escravo já que ela só poderá se dar na minoria delas, ou seja, naquelas fiscalizações em que há acompanhamento policial.

    Além disso, há alteração no Processo de divulgação da “Lista Suja” do Trabalho Escravo. Trata-se de um cadastro de empregadores flagrados utilizando mao-de-obra escrava. Atualmente, a lista suja é minuciosamente elaborada por uma equipe técnica de auditores-fiscais do trabalho. A Portaria altera a competência de divulgação da Lista Suja e passa a atribuir à pessoa do Ministro do Trabalho a competência para divulga-la e para incluir empregadores na lista. Isso é um absurdo pois submete um importante instrumento do combate ao trabalho escravo à pessoa às inclinações políticas do Ministro do Trabalho.

    Estímulo à utilização de mão-de-obra escrava ao eliminar a “jornada exaustiva” e a “degradância” do rol dos elementos caracterizados do trabalho escravo contemporâneo, o Ministro do Trabalho, através dessa Portaria, realiza o maior ataque à fiscalização do Trabalho Escravo que o Brasil já experimentou. É o governo temer mostrando a que veio!

    Foto: EBC
  • OPINIÃO | A luta Ecossocialista, o agronegócio e os desafios da esquerda

    *Por João Amaral

    O conhecimento e informação hoje são fundamentais mas de nada servem socialmente para evolução e bem estar social se não tivermos a noção de como funciona a sociedade. Principalmente se desejamos transforma-la.

    Posso saber o que são os Neonecotinóides, veneno usado na agricultura, que tem sido responsável pelas extinção das abelhas. Que o Glifosato é um dos maiores causadores de câncer .Mas preciso entender por que estas substâncias são amplamente usadas nas lavouras e não são proibidas.E a partir daí organizar ações para mudar esta situação.

    O Brasil sustenta duas posições de destaque no campo do agronegócio: é o maior consumidor de agrotóxicos e um dos maiores exportadores de commodities do mundo. Essas duas colocações são a expressão de um modelo de economia para o campo e para o país.

    As recentes transformações do campo brasileiro deram surgimento à agricultura altamente mecanizada, com elevados investimentos em agroquímicos para a produção de mercadorias, consequentemente, fortalecendo a agricultura de negócio.

    Este modelo agrícola, denominado agronegócio é a expressão da expansão capitalista no campo. Dados CPT (Comissão Pastoral da Terra) afirmam que com o avanço do agronegócio quatro milhões de camponeses foram expulsos do campo nos últimos anos.

    Este contingente foi habitar os corredores de miséria, pobreza, violência, degradação ambiental no entorno das grandes propriedades margeando as estradas nas cidades do interior. Ou se deslocaram para as grandes cidades onde o cenário é o mesmo de violência, pobreza e degradação ambiental.

    Com o advento do agronegócio o trabalho humano foi substituído por máquinas e pelo veneno. O uso do veneno, por esse modelo, não é uma necessidade agronômica. Para se produzir não precisa veneno, que é usado como uma forma de substituir a mão de obra que antes fazia as práticas agrícolas com tempo de trabalho, por exemplo a capina, um plantio mais cuidadoso.

    É preciso entender que o modelo do agronegócio é apenas um modelo de se ganhar dinheiro. Seu o único objetivo é ter lucro, não importa se vão destruir a natureza, se vão usar venenos, se desempregam pessoas.

    Agronegócio é máquina e veneno. Primeiro, para substituir a mão de obra. Segundo, como são monoculturas em larga extensão – ou só soja, ou só laranja, ou só arroz, ou só pasto – têm de matar, na lógica do agronegócio, todas as outras formas de vida vegetal ou animal. Não praticam uma agricultura. Querem produzir uma commodity. O veneno é a forma de matarem tudo que não é soja, que não é laranja, tudo que não é arroz.

    Há uma aliança permanente entre interesses – o grande proprietário, as empresas que compram a produção dele, que controlam o mercado das commodities e que ao mesmo tempo são as fabricantes de veneno.

    A Monsanto, por exemplo, fornece os fertilizantes, o veneno, e depois compra a soja. A mesma coisa faz a Cutrale com a laranja. Oferece o veneno, os adubos e, depois, compra a laranja.

    A mesma empresa ganha dinheiro com veneno e controlando o mercado, que têm origem nas fórmulas desenvolvidos pela Bayer, pela Basf, pela Du Pont, para os negócios das guerras. Na Primeira e na Segunda Guerra Mundial foram usadas como armas. Depois, os Estados Unidos, utilizou na Guerra do Vietnã.

    Quando terminaram as guerras, essas empresas adequaram aquelas fábricas de veneno pra matar gente e floresta em larga escala para a agricultura.

    São as mesmas empresas. E os efeitos são de extrema gravidade. Um punhado de terra , tem mais de mil formas de vida. São aqueles bichinhos invisíveis, bactérias, que formam os nutrientes, senão a terra não produz nada. O veneno mata essas formas de vida.

    Este modelo para agricultura baseado nos agro-venenos trazem graves consequências para a população: os cientistas e médicos que trabalham no Instituto Nacional do Câncer (Inca) têm feito várias pesquisas e alertado que o veneno, quando se acumula no organismo, começa a atacar as células mais frágeis. É por isso que tem aumentado a incidência de alguns tipos câncer, que não têm mais relação com a idade das pessoas. Você pode ter câncer de próstata com 40 anos. Tem mulheres com 20, 30 anos, com câncer de mama. Por quê? Veneno.

    O professor Wanderlei Pignati, da Universidade Federal do Mato Grosso, pesquisou durante dez anos mulheres de uma região do estado e encontrou resíduos de glifosato no leite materno.

    As mães que achavam que estavam dando o melhor alimento do mundo a seus bebês não sabiam que através do que comiam concentravam também o veneno absorvido no leite; e as crianças, ainda bebês, estavam recebendo suas primeiras doses.

    Esse mesmo professor fez outra pesquisa também muito interessante. Há um secante que é passado na soja, para uniformizar seu amadurecimento, porque na natureza não amadurece tudo ao mesmo tempo. Como querem usar a máquina, então têm de entrar quando todas estiverem maduras.

    Passam então um veneno, a base de glifosato, o chamado secante, que na verdade “mata” toda a soja. Aí vem a máquina e toda a soja está seca. Ao matar a soja, aquele veneno não é mais absorvido pelo grão. Vai para a natureza. Sobe como pó e, conforme o vento, vai para qualquer parte. Açude, horta, qualquer lugar.

    Há pesquisas científicas na Europa comprovando que pessoas que comem alimentos com índices exagerados de glifosato, que é o veneno mais disseminado, já apresentam baixa fertilidade.

    Também foram feitas pesquisas nos Estados Unidos em regiões onde o mal de Parkinson era mais incidente, e a relação que foi encontrada foi justamente essa. As pessoas tinham se contaminado, com os alimentos ou expostas ao veneno usado na agricultura, e desenvolveram maior propensão ao Parkinson.

    Essa questão nos coloca um grande desafio, para nós militantes e para as organizações de esquerda. Como militantes ecossocialistas é nossa tarefa realizar trabalho de conscientização junto a população: é um verdadeiro crime o que está acontecendo por conta do agronegócio. Eles estão tendo lucro enquanto vidas humanas são perdidas.

    O Instituto Nacional de Câncer (INCA) advertiu que, a cada ano, surgem 500 mil novos casos de câncer, no Brasil. Grande parte deles vem do uso de venenos agrícolas. Mas isso não passa na TV. Não faz parte dos noticiários. Pois o agronegócio é um dos grandes patrocinadores dos tele jornais.

    A Agroecologia como alternativa Ecossocialista

    Já a agroecologia pode ser definida como o estudo da agricultura a partir de uma perspectiva ecológica. Trata-se de um tipo de prática agrícola que prioriza a utilização dos recursos naturais com mais consciência, respeitando e mantendo o que a natureza oferece ao longo de todo o processo produtivo — desde o cultivo até a circulação comercial dos produtos.

    Alimentos saudáveis para quem ?

    O chamado mercado dos produtos saudáveis, orgânicos ou agroecológicos cresce em torno de 10%, ao ano. Por outro lado, a população se dá conta de que não é mais caro de se produzir no modelo da agroecologia.

    Como é que ela está se dando conta? Porque estão surgindo mais feiras, então o preço é melhor, e isso está quebrando o monopólio dos supermercados.

    O que as redes de supermercados fazem?

    Compram o produto orgânico dos pequenos agricultores, inclusive organizando centrais, onde o pequeno agricultor entrega e eles só lavam e colocam naquelas caixinhas padronizadas; porém, como sabem que o produto orgânico atrai comercialmente  pessoas que tem mais consciência, na classe média, eles aumentam o preço, para ter lucro máximo, em cima da disposição da classe média de pagar um pouco mais por um produto que tem o selo de garantia.

    A Nestlé e outras empresas já estudam duas formas base alimentação para o futuro: uma a base de soja ( veneno e transgênica) para os pobres e outra com produtos orgânicos para as classes abastadas.

    Mas essa máscara está caindo, porque mais produtos orgânicos estão chegando ao mercado, às feiras, e as pessoas começam a comparar: por que um quilo de tomate orgânico no Zaffari custa R$ 4,00 e nas feiras custa o mesmo quilo orgânico R$ 2,00.

    É perceptível em todas as regiões que aumentou a consciência da população, tanto pelos casos de saúde na família quanto pelo aumento da informação. Há muita informação que agora circula pela internet e que há dez anos não se tinha. Porém ainda esta consciência ainda se limita a setores da classe média e da classe trabalhadora mais politizada.

    A agroecologia, reforma agrária e o ecossocialismo como programa de transição ao socialismo: eis os desafios do PSOL

    Então concluindo, nós precisamos sim criar um diálogo com a sociedade sobre o veneno da agricultura de guerra = agronegócio e a alternativa da agroecologia e da agricultura camponesa.

    Neste sentido é imprescindível discutir a Reforma Agrária , Agroecologia como parte integrante de um projeto de sociedade Ecossocialista.

    Este debate tem que fazer parte de nossas elaborações programáticas e compor nossas propostas eleitorais.

    Estamos ás vésperas de nossos congressos estaduais e nacional e esta discussão tem que se fazer presente, eis a tarefa de todos nós ecossocialistas do PSOL  e das organizações comprometidas com a necessidade de construção de um projeto revolucionário para o Brasil.

    Temas como a soberania alimentar, saúde, produção agroecológica, reforma agrária e uma crítica mais contundente ao agronegócio e seus malefícios devem ser pauta de nossos congressos.

    Como afirmou o italiano Antônio Gramsci precisamos viver entre o pessimismo da razão e o otimismo da vontade.

    João Amaral – Jornalista e Ecossocialista PSOL

    Fotos : Charge Latuff e imagens ilustrativas da Comunicação MST

  • Congresso da CSP-Conlutas: cresce a unidade na construção de um terceiro campo

    Por Luciana Genro, dirigente do PSOL e do MES. Candidata a presidente da república em 2014 pelo PSOL.

    Ontem estive no Congresso da CSP-Conlutas, que reuniu mais de duas mil pessoas em Sumaré. A Conlutas é uma central sindical fundamental no enfrentamento aos ataques do governo Temer e sua atuação contribui para manter a classe trabalhadora na vanguarda da resistência.

    Participei de um painel promovido pelo bloco Somos Todos CSP-Conlutas, junto com o Plininho, com o Hamilton Asssis – que foi vice do Plínio pai em 2010, um belo encontro -, com a Sílvia, do MAIS (uma liderança de alta qualidade) e com o Luiz Acosta, do PCB. A Sônia Meire, do Andes, e a Gesa Corrêa, do Sepe, coordenaram a mesa.

    A maioria das falas convergiu em diversos aspectos. A necessidade de construirmos um terceiro campo, uma alternativa política ao lulopetismo e à direita, está clara para todos. Eu também enfatizei a necessidade de termos um programa e uma candidatura para fazer a disputa pelo povo, além de conectar o movimento sindical com as lutas populares, o que é um grande desafio.

    Há muito por fazer, mas o espaço está colocado. Se não ocuparmos, ele não ficará vazio. A “nova” direita já vem disputando, e levando muita gente.

  • Reforma do Ensino Médio: projeto piloto no Centro Paula Souza quer antecipar ataque para 2017

    Por: Sirlene Maciel, professora da Etec Prof. Aprígio Gonzaga e membro da Executiva Estadual da CSP-Conlutas- SP

    Na última semana, várias escolas técnicas estaduais, no Estado de São Paulo, foram surpreendidas com a proposta de projeto piloto da Reforma do Ensino Médio. Sem nenhuma publicação oficial e discussão entre a comunidade escolar, os diretores apresentaram a proposta para os docentes darem ciência da implantação antes mesmo do próprio calendário do MEC.

    Com o discurso de querer sair na frente, a proposta apresentada significa o atestado de morte do ensino e a demissão e redução salarial de vários professores em 2021. Chamada de Ensino Técnico Médio Profissional, reduz a carga horária das disciplinas técnicas e também da base comum, sendo que o aluno cursará apenas um período durante a manhã ou tarde, tendo seis aulas por dia, totalizando as 30 horas.

    Nessa relação, a Base Comum será minimizada e o aluno não terá no 3° ano disciplinas como Química, Física, Biologia, Educação Física, História e Geografia; e as atuais disciplinas de Filosofia e de Sociologia estariam contempladas apenas em uma série e com apenas uma aula. As disciplinas obrigatórias, como Língua Portuguesa e Matemática também serão reduzidas, passando das atuais quatro aulas para três aulas.

    Estamos vivenciando a precarização do ensino técnico há alguns anos, já que o Governo, para implementar o ETIM – Ensino Técnico Integrado (cerca de 40h), praticamente acabou com o Ensino Médio (30 horas) e com os cursos modulares manhã e tarde (cerca de 25 horas). Perdemos, nessa mudança, cerca de 15h horas e agora, com o projeto piloto, o que se propõe é perder mais 10 horas, inclusive da parte técnica.

    Tudo isso está sendo proposto pelo Centro Paula Souza para o ano que vem, sendo que o próprio MEC propõe que as primeiras turmas da Teforma do Ensino Médio sejam apenas entre 2020 e 2021. O cronograma oficial prevê a publicação das Bases Nacionais Comum Curriculares em 2017, aprovação nos Conselhos Estaduais de Educação em 2018 e apresentação das diretrizes em 2019.

    Sabemos que a Reforma do Ensino Médio que foi apresentada por decreto do Temer não contou com o apoio da população, não existiu discussão. É, portanto, uma imposição do Governo Federal, que visa o sucateamento da educação pública, reduzir gastos diminuindo os currículos, extinguindo disciplina e demitindo professores. Não há interesse dos governos em melhorar o quadro da educação.

    O governo Alckmin, neste sentido, quer ser mais realista do que o rei e, antes mesmo do calendário previsto, fazer experiência nas Escolas Técnicas Estaduais de São Paulo.

    Os motivos são bem nítidos: reduzir gastos e cortar verbas. Com esse ensino que não é técnico e nem médio, os estudantes não precisariam receber a merenda, pois não ficarão na escola em período integral. A longo prazo, o governo poderia demitir milhares de professores, estabelecendo um enxugamento na rede técnica. O discurso de que ele poderá abrir dois turnos do mesmo curso não combina com o fechamento de cursos de acordo com a demanda que vem ocorrendo na rede já há alguns anos.

    Essenão é só um problema das Etecs, mas sim de todas as redes públicas federais e estaduais, por isso é preciso a máxima atenção para essa tentativa de laboratório da Reforma do Ensino Médio.

    A juventude será prejudicada, pois encontrará uma escola que não tem como foco o conhecimento, mas sim ofertar o mínimo possível para o acesso rápido ao mercado de trabalho, no entanto, sabemos que o mercado de trabalho que os jovens encontrarão é o da pós-reforma trabalhista e da ampliação da terceirização, em que os direitos estão sendo extintos.

    Para piorar, em 4 de outubro o governo Alckmin protocolou na ALESP o projeto de lei 920/2017, queue propõe como garantia para renegociar a dívida do estado o congelamento dos salários e evoluções dos servidores estaduais.

    Estamos diante de um grande ataque à educação pública e aos servidores públicos no estado de São Paulo. É preciso unir os estudantes, professores e funcionários administrativos do Centro Paula Souza junto com os demais servidores públicos estaduais e com a população de modo geral, para barrar esses ataques

    Dia 27  de outubro vamos à luta. Todos ao ato dos servidores públicos estaduais, às 16h, na Avenida Paulista, 2163, em frente ao escritório da Presidência da República. Vamos lutar contra a privatização dos serviços públicos e contra o congelamento dos salários.

  • Estudantes da UFF unem-se à luta pelo direito à cidade

    Por: Alexandre Aguena e Breno Nascimento, de Niterói, RJ

    No dia 2 de outubro, trabalhadores e estudantes de Niterói lotaram a Câmara de Vereadores da cidade. Eram mais de 400 pessoas. Tratava-se da última audiência pública para debater a revisão do plano diretor de Niterói. A Câmara tornou-se uma arena de disputa.

    De um lado, engenheiros, advogados e representantes do setor imobiliário e construtoras que se auto-proclamavam como “classe regulada e geradora de empregos”. Orgulhavam-se, pois sabiam que a “lei” advogava ao seu favor. Contavam com vereadores para mudá-las, quando necessário, para atender aos seus interesses. Batalhavam por cada pedaço da cidade, Lagoa de Itaipu, Sapê, Morro do Gragoatá, entre outros. Cada canto poderia ser um novo empreendimento para seus lucros. De outro, a população dos diferentes bairros de Niterói, exigindo um desenvolvimento urbano que não tivesse a serviço de um pequeno grupo, que não se subjugasse ao capital imobiliário, mas que atendesse à necessidade das pessoas, que preservasse o patrimônio natural e humano da cidade.

    A UFF estava presente através dos estudantes, trabalhadores e do DCE-Fernando Santa Cruz. O terreno do Morro do Gragoatá, uma área de preservação ambiental onde alguns cursos da universidade têm um projeto de extensão, ludibriou os olhos da construtora Planurbs S.A. para a construção de um lucrativo empreendimento imobiliário. A posse do terreno foi desapropriada há mais de 40 anos em favor da UFF, mas segue em litígio judicial. Foi recentemente que a universidade foi intimada a chegar a um acordo com a construtora, devolvendo o morro para a iniciativa privada em troca de uma área de 10 mil de um total de 60 mil metros quadrados. A reitoria da instituição, de forma unilateral, assinou o acordo sem que se discutisse com a comunidade acadêmica. Este fato resultou numa mobilização para o conselho universitário de 27 de setembro.

    Acontece que o terreno é, segundo o Ministério Público Federal, uma área de preservação permanente. O morro é um patrimônio natural, tem uma das vistas mais belas da Baía de Guanabara e é local de pesquisa de pelo menos cinco cursos da UFF. Por isso, deveria ser vedada qualquer tentativa de se levantar edifícios. Mas, para a especulação imobiliária, não existe lei que não possa ser mudada. A única lei de ferro é o lucro. Pouco importam as riquezas naturais e o desenvolvimento dos projetos de pesquisa que poderiam futuramente prestar grandes serviços à população.

    Em 2003, sob o governo de Godofredo, a Câmara de Vereadores aprovou a lei municipal 2099/2003 que, sob a aparência de manter o terreno como área de preservação, abria brechas para a edificação no platô do morro. Acontece que, em tese, uma lei municipal não pode contradizer uma determinação federal. Além disso, os laudos do IBAMA e do CREA de inícios dos anos 2000 estabelecem que o Morro do Gragoatá é uma Área de Preservação Permanente (APP). O laudo do CREA aponta até mesmo o risco de voçorocas aparecerem no terreno em caso de construções serem edificadas no platô.

    Mas, o caso ainda não está encerrado. Os movimentos sociais de Niterói têm uma agenda de resistência para outubro. Na UFF, os estudantes estão chamando uma assembleia para o dia 18 de deste mês para preparar a mobilização em conjunto com os professores, técnicos e a população de Niterói.

    O dia 16 de outubro contará com uma audiência pública na UFF, às 18h, sendo que no mesmo dia, às 9h, haverá uma visitação ao morro do Gragoatá, que visa demonstrar a necessidade de manutenção do local como APP. O Morro do Gragoatá não deve ser mais um espaço de valorização do capital, mas, parafraseando a professora Louise Bittencourt da Escola de Arquitetura e Urbanismo da UFF, a área deve ser “um parque ambiental urbano público com atividades de pesquisa e extensão da UFF”.

  • Dória: persona non grata em Osasco

    Da Redação, de Osasco, SP

    No dia 18 de setembro, a Câmara Municipal de Osasco aprovou, por unanimidade, o projeto de Lei Legislativo que profere a João Dória o título de cidadão osasquense. O título será concedido nesta segunda-feira, 9 de outubro, às 19h.

    Segundo Lindoso, autor do projeto e também tucano, Dória “se destaca pela competência e versatilidade, utilizada sempre em prol do povo”, acrescendo que “Indubitavelmente, suas ações como prefeito de São Paulo influenciam diretamente no desenvolvimento de todos os municípios vizinhos, notadamente nossa cidade de Osasco, do Estado de São Paulo e da Nação”. E foi além: “por sua atuação visando o bem-estar da coletividade brasileira e o desenvolvimento econômico e social do país, sendo importante peça da história nacional de reputação indiscutivelmente ilibada, João Doria reúne todos os requisitos para ser agraciado com o Título de Cidadão Honorário de Osasco”, completa.

    O verador Lindoso e os outros vereadores de Osasco pensam que não sabemos quem é João Dória. Dória é aquele que pinta de cinza as manifestações artísticas feitas nos muros, sufocando a arte das ruas. É aquele também que reprime brutalmente os moradores da chamada “cracolândia”, ao invés de criar um programa de amparo a essas pessoas, que não devem ser reprimidas pela polícia e sim acolhidas e tratadas na saúde pública. É “João trabalhador” que se vestia em trajes de verdadeiros trabalhadores, mas que em seus projetos de lei ‘vira as costas’, e pior, ataca trabalhadoras e trabalhadores e o povo pobre.

    É o mesmo que acabou com os professores módulos da educação na cidade de São Paulo, que regula merenda às crianças, que fecha brinquedotecas e espaços de lazer das creches, que quer privatizar parques e vender a cidade de São Paulo. Além de todas essas atitudes nefastas, sabemos bem que Dória faz parte do retrocesso que veio com o golpe parlamentar, que colocou o ilegítimo Temer no governo. Aliás, vale ressaltar: o prefeito de São Paulo apoia o ilegítimo do Planalto Central.

    Para piorar a situação, a Câmara osasquense, pactuando com Dória, deixa nítido o apoio também a seu projeto elitista e privatizante, portanto, não dialogando em nada com as necessidades do povo, das trabalhadoras e trabalhadores. O prefeito Rogério Lins, do Podemos, também tem práticas que dialogam com o mandato de Dória, por exemplo, há uma forte investida da Prefeitura em expulsar com o uso da força policial moradores em situação de rua para fora do centro da cidade.

    Por isso, a exemplo da tradição de luta contra os retrocessos que temos historicamente na cidade de Osasco e também a exemplo do povo soteropolitano. Rechacemos essa homenagem a um dos expoentes da nova direita, indo até à Câmara Municipal de Osasco protestar contra o prefeito Rogério Lins, os vereadores e Dória, que para nós, trabalhadoras e trabalhadores osasquenses, não merece ser homenageado. Fora, Dória!

    Foto: Fernando Pereira / SECOM-PMSP (08/02/2017)

  • A memória e a tradição dos oprimidos

    Che Guevara não foi apenas um guerrilheiro heróico, um combatente que deu a vida pela libertação dos povos da América Latina, um dirigente revolucionário que – feito sem precedentes na história – deixou todos os seus cargos para voltar a pegar na espingarda contra o imperialismo. Foi também um pensador, um homem de reflexão, que nunca deixou de ler e de escrever, aproveitando qualquer pausa entre duas batalhas para pegar na caneta e no papel. O seu pensamento torna-o um dos mais importantes renovadores do marxismo na América Latina, talvez o mais importante depois de José Carlos Mariátegui.

    Por Michael Löwy, prólogo ao livro de Ernesto Che Guevara: El sujeto y el poder de Néstor Kohan. Publicado originalmente no Dossiê 55 sobre Che Guevara do site www.esquerda.net

    Curiosamente, a maioria das biografias do Che recentemente publicadas não dão conta deste aspecto essencial da sua personalidade. Até os autores que manifestam simpatia pela sua figura não entendem ou menosprezam a sua obra marxista. Por exemplo, no belo livro de Paço Ignacio Taibo II, os escritos do Che por ocasião da discussão sobre a lei do valor são postos de lado como “um labirinto de citações” inspirado por um “marxismo bíblico”. Quanto ao jornalista francês Pierre Kalfon, considera o apaixonante ensaio “O Socialismo e o Homem em Cuba” como “um monte de fórmulas”, inspiradas por “um dogmatismo de outras épocas”, quer dizer, pela “logomaquia marxista tradicional”!

    Ora se se ignora ou se despreza o pensamento de Che, as suas ideias, os seus valores, a sua teoria revolucionária, o seu marxismo crítico, como se pode entender a coerência da sua vida, os motivos essenciais da sua acção, a inspiração político-moral da sua prática, o fogo sagrado que o movia?

    Guevara não chegou ao marxismo pela experiência da própria revolução; pelo contrário, tentou muito cedo decifrar essa revolução recorrendo a referências marxistas, e assim foi o primeiro a captar plenamente o significado histórico-social da revolução cubana, proclamando, em Julho de 1960, que esta “descobriu também, pelos seus próprios métodos, os caminhos que assinalou Marx”. 1 Mas muito antes, em Abril de 1959, ele já previa o rumo que ia tomar o processo cubano, depois da queda da ditadura de Batista: trata-se, dizia o Che numa entrevista com um jornalista chinês, de “um desenvolvimento ininterrupto da revolução”, até abolir “o sistema social existente” e os seus “fundamentos económicos”. 2

    De 1959, até à sua morte, o marxismo do Che evoluiu. Ele afasta-se cada vez mais das ilusões iniciais acerca do método soviético de socialismo e do estilo soviético – quer dizer, estalinista – do marxismo. Nos seus escritos percebe-se de maneira cada vez mais explícita, sobretudo a partir de 1963, a busca de um modelo alternativo, a tentativa de formular outra via para o socialismo, diferente dos paradigmas oficiais do “socialismo realmente existente”. O seu assassinato pelos agentes da CIA e os seus sócios bolivianos em Outubro de 1967 vai interromper um processo de maturação política e de desenvolvimento intelectual autónomo. A sua obra não é um sistema fechado, um discurso acabado que tem resposta para tudo. Sobre muitas questões – a democracia na planificação, a luta contra a burocracia – a sua reflexão é incompleta.

    O marxismo de Che distingue-se das variantes dominantes na sua época. É um marxismo antidogmático, ético, pluralista, humanista, revolucionário. Alguns exemplos permitem ilustrar estas características.

    Antidogmático: Marx, para o Che, não era um Papa favorecido com o dom da infalibilidade. Nas suas “Notas para o estudo da ideologia da Revolução cubana” (1960), ele sublinha: mesmo sendo um gigante do pensamento, o autor de O Capital tinha cometido erros que se podem e devem criticar. Por exemplo, em relação à América Latina, a sua interpretação de Bolívar, ou a análise do México que ele faz com Engels “dando por estabelecidas inclusive certas teorias das raças ou das nacionalidades inadmissíveis hoje”. 3

    Mais grave que os erros de Marx são os fenómenos de dogmatização burocrática do marxismo no século XX: em várias ocasiões Guevara queixa-se da “escolástica que travou o desenvolvimento da filosofia marxista” – uma evidente referência ao estalinismo – e que inclusive impediu sistematicamente o estudo do período de construção do socialismo. 4

    Ético: A acção revolucionária é inseparável de certos valores éticos. Um dos exemplos é o tratamento aos prisioneiros de uma guerrilha: “Uma clemência o mais absoluta possível com os soldados que vão combater cumprindo, o pensando cumprir, o seu dever militar. (…) Os sobreviventes devem ser deixados em liberdade. Os feridos devem ser cuidados com todos os recursos possíveis”5. Um incidente da batalha de Santa Clara ilustra ocomportamento do Che: a um companheiro que propõe que se execute um tenente do exército feito prisioneiro, o ocmandante Guevara responde: “Pensas que somos como eles?”6

    A construção do socialismo é inseparável de certos valores éticos, contrariamente ao que defendem as concepções economicistas – de Estaline a Charles Bettelheim – que só consideram “o desenvolvimento das forças produtivas”. Na famosa entrevista com o jornalista Jean Daniel (Julho de 1963) o Che dizia, no que já era uma crítica implícita ao “socialismo real”: “O socialismo económico sem a moral comunista não me interessa. Lutamos contra a miséria, mas ao mesmo tempo contra a alienação. (…) Se o comunismo passa por alto os factos da consciência, poderá ser um método de repartição, mas já não é uma moral revolucionária”.7

    Pluralista: Mesmo que o Che nunca tenha chegado a formular uma concepção acabada da democracia socialista, defendia a liberdade de discussão no campo revolucionário e o respeito à pluralidade de opiniões. O exemplo mais taxativo é a sua resposta – num relatório de 1964 aos seus companheiros do Ministério da Indústria – à crítica de “trotskismo” que lhe lançaram os soviéticos: “A este respeito, creio que ou temos a capacidade de destruir com argumentos a opinião contrária, ou devemos deixá-la expressar-se… Não é possível destruir uma opinião com a força, porque isso bloqueia todo o desenvolvimento livre da inteligência. Também do pensamento de Trotsky podemos tomar uma série de coisas, mesmo se, como penso, se tenha enganado nos seus conceitos fundamentais, e se a sua acção ulterior tenha sido errada…”8

    Revolucionário: Durante anos e décadas, o marxismo serviu na América Latina de justificação a uma política reformista de subordinação do movimento operário a uma aliança com a suposta “burguesia nacional”, com vista a uma suposta “revolução democrática”, nacional e antifeudal”. Na sua “Mensagem à Tricontinental” (1966) Guevara cortou o nó górdio que atava os explorados de mãos e pés: “Não há mais mudanças a fazer: ou revolução socialista ou caricatura de revolução”.9

    Humanista: A leitura de Max por Che é totalmente diferente da vulgata estruturalista, “anti-humanista teórica”, althusseriana, que tanto se difundiu na América Latina nos anos 60 e 70. A crítica do capitalismo – sociedade na qual “o homem é o lobo do homem” – a reflexão sobre a transição para o socialismo, a utopia comunista de um homem novo: todos os temas centrais da obra marxista do Che têm o seu fundamento no humanismo revolucionário. Na sua conversa com os jovens comunistas em 1962, Guevara insistiu que o revolucionário deve “colocar sempre os grandes problemas da humanidade como problemas próprios”, quer dizer, “sentir-se angustiado quando se assassina um homem em qualquer canto do mundo e para sentir-se entusiasmado quando nalgum canto doo mundo se levanta uma nova bandeira de liberdade”. Mais além dos erros tácticos ou mesmo estratégicos, o compromisso pessoal do Che com a revolução no Congo e na Bolívia, com o risco da sua vida, é a tradução nos factos destas palavras.

    O mundo – e a América Latina – mudaram muitíssimo nestes últimos 30 anos. Não se trata de voltar atrás e procurar nos escritos de Che a resposta a todos os nossos problemas actuais. Mas a verdade é que os povos continuam, hoje como ontem, sob o domínio do imperialismo; que o capitalismo, na sua forma neoliberal, continua a produzir os mesmos efeitos: injustiça social, opressão, desemprego, pobreza, mercantilização dos espíritos. Pior: nunca no passado o grande capital financeiro multinacional exerceu um poder tão esmagador sobre o conjunto do planeta. Nunca, como agora, conseguiu o capitalismo afogar todos os sentimentos humanos nas “águas glaciais do cálculo egoísta”. Por isso precisamos, hoje mais do que nunca, do marxismo do Che, de um marxismo antidogmático, ético, pluralista, revolucionário, humanista.

    No século XXI, quando já estiverem esquecidos os ideólogos neoliberais que hoje ocupam a cena política e cultural, as novas gerações lembrar-se-ão ainda do Che, do seu combate e das suas ideias.

    II

    Segundo Walter Benjamin, na sua tese Sobre o Conceito de História (1940), as forças da rebelião dos oprimidos têm as suas raízes na memória dos vencidos, dos ancestrais caídos na luta. A América Latina é um exemplo impressionante desta regra: as revoltas e as insurreições populares durante o século XX e até hoje inspiraram-se nas figuras de José Marti, Emiliano Zapata, Augusto Sandino, Ernesto Che Guevara. Lutadores vencidos, que caíram com as armas nas mãos e se transformaram, para sempre, em grãos de futuro semeados na terra latino-americana, estrelas no céu da esperança popular.

    Este livro de Nestor Kohan é muito mais que uma homenagem a Ernesto Guevara: é uma importante contribuição ao debate marxista na América Latina, a partir de uma leitura humanista e revolucionária dos escritos do médico-guerrilheiro argentino. Não se trata de uma obra sistemática, mas sim de uma colecção de ensaios, conferências, entrevistas, que abordam múltiplaos aspectos do pensamento do Che e da sua herança no movimento revolucionário latino-americano (Robi Santucho, Miguel Enríquez). Esta diversidade, esta pluralidade de posições e de temas, é precisamente o que faz o interesse do livro, a sua riqueza, a sua vitalidade.

    Ao mesmo tempo, é evidente a unidade, a coerência deste conjunto de trabalhos: todos têm por fio condutor a filosofia da praxis, o marxismo humanista, a perspectiva revolucionário-socialista de Guevara. E em vários discute-se o que é, creio, uma das suas contribuições mais importantes: a formulação de uma via nova para o socialismo, que não seja “decalque e cópia” (para retomar a fórmula de Mariátegui) da experiência soviética. A sua concepção – combatida como “utópica e perigosa” pelo partidário Estaline (e de Althusser) Charles Bettelheim, mas sustentada por Ernest Mandel, o principal teórico e dirigente da Quarta Internacional – acerca da contradição entre o plano e o mercado é inseparável, como muito bem defende Néstor, do seu humanismo teórico, do seu desejo de libertar os indivíduos da alienação e da “jaula invisível” das leis económicas mercantis.

    Analisando vários escritos económicos do Che recentemente publicados, e dialogando com Orlando Borrego, Néstor permite-nos conhecer melhor a evolução do seu pensamento nos últimos anos (1964-67), o seu interesse pelas posições da Oposição de Esquerda (Preobrajensky, Trotsky), a sua rejeição dos “Manuais” soviéticos, a sua busca de novas soluções, a sua intuição segundo a qual a URSS ia acabar por restaurar o capitalismo.

    No título do seu livro 10, e num dos ensaios, Néstor defende a actualidade das ideias – e do combate – internacionalista radical do Che para o “movimento dos movimentos” nascido em Seattle em 1999: mais além do capitalismo e do brutal domínio imperialista, “um outro mundo é possível”, baseado nos valores da solidariedade, da igualdade e da liberdade que constituem o socialismo.

    O que dá todo o valor singular a este livro é a sua maneira de associar o compromisso militante com a herança revolucionária e marxista do Che, e uma reflexão teórica profunda sobre questões como a filosofia da práxis, o conceito de alienação, o estruturalismo, o determinismo, o pós-modernismo.

    Podemos criticar uma ou outra formulação de Néstor, ou estar em desacordo com uma ou outra posição – por exemplo, sobre a relação entre democracia e socialismo em Cuba – mas são livros como este que nos ajudam a implementar a tarefa que Walter Benjamin destinava ao pensamento revolucionário: salvar a tradição dos oprimidos do conformismo que tenta apoderar-se dela.

    Paris, 6 de Abril de 2005

    1“Ao Primeiro Congresso Latino-americano de Juventudes”, discurso de 28 de Julho de 1960, em Ernesto Che Guevara, Obras 1957-1967, La Habana, Casa de las Américas, 1970, vol. 2, p. 392. Citaremos adiante esta edição como Casa.

    2 E.Guevara, Selected Works, Cambridge, MIT Press, 1970, p. 372.

    3 Casa, vol. 2, p.416.

    4Casa, vol. 2, pp. 416, 190. Num discurso de Abril de 1962 sobre Escalante e a sua tentativa de estalinização do partido revolucionário cubano, Guevara sublinha a relação íntima entre afastamento das massas, burocratismo, sectarismo e dogmatismo. Em Ernesto Guevara, Obra revolucionaria, México, Era, 1967, p.333.

    5 Che Guevara, “La guerra de guerrillas”, Casa, vol. 1, p. 46.

    6 Citado em Paco Ignacio Taibo II, Ernesto Guevara, connu aussi comme le Che, Paris, Payot, 1997, p.299.

    7 Em L’Express, 25 de Julho de 1963, p.9.

    8 Che Guevara, “Il piano i gli uomini”, Il Manifesto n° 7, deciembre del 1969, p.37.

    9 Casa vol. 2, p. 589. É impressionante o paralelo com a tese de José Carlos Maraitegui em 1929: “À América do Norte, plutocrática, imperialista, só é possível opor eficazmente uma América Latina o Ibérica, socialista. (…) O destino destes países, dentro da ordem capitalista, é o de simples colónias”. (J.C.Mariategui, El proletariado y su organización, México, Grijalbo, 1970, pp. 119-121)

    10 Na sua primeira edição impressa, este livro apareceu com o título com o título Ernesto Che Guevara: Otro mundo es posible. A esse título faz referência no seu prólogo Michael Löwy. [Nota de N.K.]

  • Incêndio atinge 90 casas do MLB em Natal

    Por Rielda Alves, Natal, RN

    No último dia 4 de outubro, um incêndio atingiu cerca de 90 casas na comunidade de Leningrado, na zona oeste de Natal. Segundo informações do corpo de bombeiros, as chamas se espalharam após uma explosão. Como as casas eram construídas de madeirite, lona e papel, o fogo se alastrou rapidamente, deixando muitas famílias sem abrigo. Apesar disso, ninguém saiu ferido.

    A ocupação “8 de março”, é formada por centenas de famílias que há 5 anos lutam por moradia digna junto ao Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB). Localizada nas proximidades dos conjuntos Leningrado e Santa Clara, a ocupação se deu em torno a um terreno cedido pela prefeitura ao governo estadual para construção de moradias, no entanto, o projeto não foi executado, por que o governo perdeu a verba, quando extrapolou o prazo para a execução do mesmo.

    Num cenário de duros ataques à classe trabalhadora, com a retirada de direitos históricos , a precarização do trabalho, o aumento no número de desempregados, Natal por exemplo, é a terceira capital com a maior taxa de desempregados, segundo o IBGE, a situação dessas famílias é de extrema vulnerabilidade.

    É preciso cercar essas famílias de solidariedade, expressar nosso apoio e levar tudo que pudermos arrecadar de donativos. Nesse sentido, achamos fundamental somar forças no chamado ao ato convocado pelo MLB, para o próximo domingo (10), na Ocupação “8 de março”.

    “Quando morar é um privilegio, ocupar é um direito!”
    Todo apoio e solidariedade à ocupação “8 de Março”

  • Cesare Battisti fica!

    Por Carolina Freitas, de São Paulo, SP

    A Polícia Federal organizou um flagrante próximo à fronteira com a Bolívia, no Mato Grosso do Sul, para prender o escritor e ativista italiano Cesare Battisti nesta última quarta-feira (dia 04). A acusação feita é absurda: evasão de divisas. De todas as pessoas presentes na abordagem da PF, ele foi o único preso. A situação de Battisti no Brasil vinha se agravando no último período. Seu advogado já tinha entrado com pedido no Supremo Tribunal Federal para que ele não fosse extraditado à Itália, considerando o vazamento da notícia de que o governo brasileiro, por meio de Michel Temer e Aloísio Nunes, ministro das Relações Exteriores, vinha negociando com o governo italiano a revisão do asilo político concedido a ele em 2010.

    Battisti foi condenado em seu país com pena de prisão perpétua pelo crime de terrorismo (crime, aliás, excepcional, porque não previsto na legislação nacional), por sua atuação política no PAC – Proletários Armados pelo Comunismo, na década de 70, momento acirrado do brigadismo e dos grupos da esquerda armada antifascista, que se forjaram depois de uma tentativa frustrada de golpe de Estado pela extrema-direita italiana, enquanto a democracia-cristã governava o país.

    Fugiu da Itália para a França, vivendo durante anos no país vizinho até o governo Chirac autorizar sua extradição. Depois veio ao Brasil, sendo descoberto e preso no Rio de Janeiro numa operação ligada a Interpol em 2007. Em 2010, Lula concedeu sua condição de asilado político. E, em 2011, o STF, decidiu, por maioria, libertar Battisti.

    É preciso lembrar que o Brasil só pode extraditar condenados em outro país se a pena da condenação estiver de acordo com a legislação penal brasileira. Como não há previsão de prisão perpétua no Código Penal, Battisti não poderia ser enviado a Itália sem a resposta do governo italiano sobre esta condicionante. Temer não poderia cancelar abruptamente uma decisão presidencial anterior.

    Battisti foi condenado na Itália com base em falhas técnicas no processo e, principalmente, graças às aqui conhecidas “delações premiadas”. Ex-ativistas italianos presos emitiram depoimentos incriminando Battisti por homicídio de quatro pessoas depois de terem sido torturados, o que foi denunciado por comitês de defesa do militante em vários órgãos internacionais. Havia um grande apelo à época para diferenciar crimes políticos, “subversivos”, de crimes comuns.

    A soberania nacional como base para concessão de asilo político, bem como a vedação à prisão perpétua e à pena de morte, são conquistas das lutas do povo brasileiro no período da redemocratização. O governo Temer não pode retroceder nessas liberdades democráticas, extraditando Battisti por meio de um acordo sigiloso com o governo da Itália. Battisti já foi ameaçado de morte centenas de vezes no país natal. Além de violar direitos básicos constitucionais, Temer será, caso assim aja, responsável por assinar a provável morte de Cesare Battisti.

     

  • OPINIÃO | Uma das maiores tragédias da história da UFSC

    Por: Marco Meira, de Florianópolis, SC
    *Publicado originalmente em UàE

    A universidade foi abalada. A morte do Reitor Cancellier mudou dramaticamente os rumos dos acontecimentos em nossa universidade e abre o caminho para um profundo debate sobre o poder policial no Brasil e os rumos de nossa universidade.

    A universidade brasileira e a polícia não combinam. Não há possibilidade de pensamento quando a instituição é tomada de assalto por brutamontes, independentemente da cor de suas fardas. Nenhuma polícia sabe entrar na universidade e todas as experiências recentes têm sido trágicas. Devemos nos lembrar do episódio do Levante do Bosque, em 2014, cujas cicatrizes seguem abertas. Estudantes, professores e TAEs foram incriminados arbitrariamente e segundo critérios até hoje desconhecidos. Agora, novo episódio, que começou com a prisão desnecessária e violenta do reitor e de outros professores, no início de uma investigação conduzida ao gosto da grande imprensa. O resultado não poderia ter sido pior.

    Todos os encontros do poder policial com nossa instituição universitária têm resultado em consecutivas tragédias.

    Daqui por diante esta lembrança deve permanecer viva, a universidade não pode mais dar de ombros. Os procedimentos frios, calculados, criados para ferir os corpos e as almas, aplicados todos os dias às grandes massas brasileiras gritou aos ouvidos da comunidade universitária. Que tempos são esses em que mesmo o óbvio soa como uma novidade inaceitável? É inadmissível que crimes não violentos, que não atentam contra a vida ou a segurança de si ou de outros sejam utilizados como a régua e o compasso do encarceramento em massa que alimenta o monstro terrível das facções criminosas.
    Quantos não fizeram coro, alimentados pelo discurso e pelo ódio sobre o emblema esotérico da corrupção em seu sentido mais estreito e conservador? Espalhando boatos, babando veneno e rosnando contra tudo e contra todos?

    Evidente que todo e qualquer crime deve ser apurado, investigado e resolvido. Evidente que os responsáveis devem ser obrigados à reparação e à justiça, mas a reparação e a justiça não significam sempre e todas as vezes o encarceramento do outro ou a sua destruição psíquica e moral. Evidente, ainda que infelizmente novidade para muitos, que essa polícia que está aí não é, e não será, o instrumento da verdadeira justiça.

    Há aqueles que acreditam ou fingem acreditar que o escárnio público da classe política é capaz de passar a limpo a sociedade brasileira. Nada mais perigoso. Sob a sombra de um bastião de falsa moralidade na política, estamos eliminando a política e dando lugar à uma barbárie sórdida, bem lavada e bem togada. O escarcéu dessa gente cínica nasceu para instrumentalizar os ódios e as raivas do povo brasileiro contra tudo aquilo que essa direita covarde identifica como esquerda, socialismo ou comunismo. Em nome do poder a qualquer custo, fizeram até parecer que o PT era de esquerda e de lá para cá temos sofrido golpes antes de golpes.

    Nós não podemos suportar mais essa direita raivosa e sedenta por carnificina. Essa direita que rasga o couro da sociedade brasileira desde os tempos da casa grande e da senzala. Essa direita cujas ideologias fazem mais e mais vítimas sem medir causas ou consequências. Esta direita que está aí, nas entranhas da universidade, consumindo até mesmo a juventude universitária. Essa direita está matando gente. Não podemos mais tolerá-los. Ou os combatemos ou tombamos.

    *O texto é reflete a opinião do autor e, não necessariamente, a linha editorial do Esquerda Online