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  • Ato marca Dia Nacional da Luta Antimanicomial no Rio de Janeiro

    O dia 18 de maio é marcado pela luta antimanicomial no Brasil. Em meio a retrocessos e opressões, é muito importante dar continuidade à resistência dos que são considerados “marginais” da sociedade, quando na verdade a marginalização de fato está presente no sistema carcerário que só aprisiona negras e negros, LGBTs, pobres e jovens. Hoje, que foi o dia nacional da luta, várias mobilizações foram organizadas e a rua foi ocupada. No Rio de Janeiro, um ato teve início no Largo da Carioca, com diversos movimentos e CAPS reunidos, iniciado pelo Núcleo Estadual do Movimento da Luta Antimanicomial. O lema principal levantado no ato foi ‘Intervenção não é segurança, manicômio não é tratamento: antimanicomiais na luta contra o genocídio negro’.

    Ato percorreu ruas do Centro do Rio de Janeiro | Foto: Gustavo Henrique

    Há 30 anos, o Movimento dos Trabalhadores de Saúde Mental organizou a primeira manifestação pública no Brasil contra os manicômios nas ruas de Bauru, luta que está presente para além da Reforma Psiquiátrica nos anos 70, já que a liberdade sempre foi

    Foto: Gustavo Henrique

    direito de toda a população. O movimento recusa totalmente a violência institucionalizada que desrespeita os direitos humanos, consolidando o início de uma nova forma de acolher a loucura com a criação dos CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), que são unidades especializadas em saúde mental para tratamento e reinserção social de pessoas com transtorno mental grave e persistente.

    É muito importante debater as políticas de saúde, quem tem direito a elas e a que condições. A mercantilização da saúde com o plano do governo de privatização do SUS nada mais é do que precarizar o acesso à saúde para aqueles que já têm pouco acesso, entendendo que essa estrutura se faz no próprio capitalismo. Além disso, a reforma trabalhista contribui para a precarização da vida dos trabalhadores quando as condições de trabalho podem gerar danos à saúde dos mesmos, o que faz ainda mais importante o papel do SUS na contribuição e asseguração desse trabalhador. Lutar pelo movimento antimanicomial é ser contra qualquer tipo de aprisionamento, opressão, exploração e, principalmente, contra o genocídio negro, já que os ataques estão sempre presentes, como o assassinato da vereadora Marielle Franco, mãe, negra, lésbica e militante, que foi uma forma de tentar calar a luta e emancipar a violência.

    Foto: Gustavo Henrique

    Na unificação de toda a classe operária, da juventude, dos LGBTs, negros e índios se faz a força para derrubar o fascismo que somente visa desmembrar o enfretamento à opressão. Nessa unificação, se torna essencial também agregar com aqueles que sofrem exclusão por terem a loucura consigo. Antigamente, as doenças mentais eram pouco discutidas, sofrendo até mesmo o preconceito que “é falta de Deus”. Entretanto, é o momento de debater a fundo sobre saúde mental e acolher a loucura como parte da sociedade. Nise da Silveira já dizia que a loucura é a nossa realidade mais profunda. Essa aproximação faria enxergar o que estava presente no ato hoje: Todos dançando, cantando e lutando pelos seus direitos, independente de laudos psíquicos.

    Manicômio não é tratamento!

    *Gustavo Henrique é militante do movimento Afronte

  • Dia da Luta Antimanicomial: os novos alvos

    Hoje, dia 18 de maio, em vários serviços de saúde, há uma série de atividades para discutir a importância dessa data enquanto um dia por conquistas em relação à luta antimanicomial. Sempre fui uma defensora dessa luta, e sempre quando estudava sobre as bizarrices que aconteciam no passado, me parecia uma coisa muito distante e muito óbvia que aquelas práticas estavam erradas. Mas acho que essa obviedade exige distância histórica para ser enxergada. Digo isso porque a todo momento podemos ver o manicômio ser reinventado. De várias maneiras. O manicômio-aprisionamento está incrustado no sistema capitalista como “solução” de problemas sociais causados pelo próprio sistema econômico. E está incrustado em nossa formação nos cursos de saúde também.

    Por que digo isso? Porque hoje parece óbvio o quanto era absurda a prática manicomial e tudo que estava impregnado nela: encarceramento em massa da população com alguma demanda de saúde mental, lobotomia, choque elétrico para fins de “diminuir agressividade”, choque insulinico, isolamento social dos pacientes e sua estereotipação, entre outras coisas.

    Parece óbvio o absurdo, em especial para quem acompanha a vida e luta dos profissionais que batalharam contra essas práticas. Porque fica parecendo que tudo era como um bem x mau, humano x desumano. E mesmo que no fundo as coisas tenham uma verdade, elas não são mostradas assim naquele momento. As práticas manicomiais eram apresentadas como “salvação” àquela população, como medida “protetiva” a quem não tinha transtornos mentais, como forma de “recuperar” aquelas pessoas. Qualquer semelhança com o discurso das prisões em massa não é mera coincidência) Foi sob muita luta de muitos profissionais que se fez enxergar o óbvio.

    E hoje? Quem são as novas vítimas dessa lógica manicomial? Na minha opinião, e tem ficado mais óbvio para mim durante a curta experiência no Consultório na Rua, são os usuários de drogas, associados a uma clara política de criminalização da pobreza. Quando a política da “abordagem e assistência” no Rio de Janeiro se depara nas ruas com esses dois elementos de maneira conjunta, começa o “vale-tudo”. E não duvido que seja igual nos outros estados.

    Já tinha escutado e me deparado com muitas situações desse tipo, mas hoje no grupo foi onde mais pude ouvir.

    Relatos de espancamento aos pacientes, simplesmente por eles estarem sem documentos na rua, ou estarem fazendo uso de alguma substância. Relatos de perseguição, assédio constante, racismo institucional, do mais institucional possível. Relatos de abrigos tão insalubres e de uma política de abrigamento que faz com que muitos usuários realmente prefiram seu cantinho na rua. Relatos de ações de “limpeza” (esse é o nome oficial dado às ações da Prefeitura), onde são jogados fora os poucos pedaços de papelão que são, tristemente, a casa dessas pessoas. Jogam fora medicações, e o que estiver pela frente. Relatos para mim óbvios de criminalização da pobreza. Essas pessoas são levadas às delegacias por nada, a prisões por nada, a abrigos insalubres todos os dias.

    A situação tem piorado com a crise econômica. Sem dúvida, os abrigos que são bons estão cada vez mais reduzidos. Os Centro de Atenção PsicoSocial (CAPS) cada vez mais escassos e sem recursos, os demais aparelhos de redução de danos, como consultórios na Rua, sendo reduzidos por corte de verbas ou com profissionais desestimulados pela falta de recursos e muitas vezes de pagamento.

    Acrescido a isso as garras do manicômio crescem com as políticas pós-golpe, à medida em que se passa a investir dinheiro público oficialmente em “comunidades terapêuticas” de cunho religioso e privadas e desinvestir em CAPS, à medida que cresce a criminalização da pobreza.

    Na atividade de hoje os pacientes sabiam que era sobre a luta antimanicomial e em menos de dez minutos de início da atividade estavam relacionando essa luta à luta contra o racismo, a intervenção, a “abordagem” truculenta. A última coisa que eles falaram foi sobre os manicômios antigos de fato, pois foi na realidade do dia a dia que eles perceberam que todas essas ações atuais também são para isolá-los da sociedade. E sempre, sempre, sob o pretexto da recuperação.

    No meio da atividade um de nossos pacientes falou “o manicômio é uma máquina de produzir loucos, que nem a prisão é máquina de produzir bandidos, mas a máquina é só para pobre. Eu estive em Benfica com Sérgio Cabral e via que ele não comia o mesmo que a gente, nem andava no mesmo pátio. Ali é só teatro, é feita mesmo pra gente”.

    Dito assim, parece óbvio, mas não é.

    Parabéns a todas e todos os profissionais que fazem da luta antimanicomial seu dia a dia.

    *Mariana é médica do Consultório na Rua

  • Na defesa da Reforma Psiquiátrica

    A lembrança do manicômio traz de volta uma lamentável marca na história da psiquiatria brasileira, que infelizmente sobrevive através de mascaradas práticas e políticas de retrocesso e discursos neofascistas. É neste contexto que o 18 de maio, Dia Nacional da Luta Antimanicomial, é marcado pela luta e resistência daqueles que defendem uma outra prática do cuidado em saúde mental.

    Estamos em um momento em que os governos dos três níveis atacam os direitos sociais do povo trabalhador com a PEC 95, que limita os gastos em serviços públicos. Para além disso, o governo golpista de Temer apresenta sem qualquer discussão prévia com o conjunto de trabalhadores, usuários e familiares que compõem o campo da saúde mental, bem como sem a avaliação e aprovação do Conselho Nacional de Saúde, a Portaria 3.588 de 21 de dezembro de 2017. Ela retrocede a Reforma Psiquiátrica e sua Lei 10.216, que foi promulgada em 2001 e que já vinha sendo construída na sociedade brasileira.

    Essa portaria de Temer vai contra toda a luta dos últimos trinta anos. Ela significa o aumento de verba para os hospitais psiquiátricos, com aumento do número de leitos, e para comunidades terapêuticas. Caso seja efetivada, teremos a volta de uma política de cuidado do encarceramento que é ineficaz e cruel com a população que demanda um cuidado em saúde mental.

    A perversidade dos golpistas não tem limite. No campo da assistência a usuários de álcool e outras drogas, o governo apresenta uma falsa nova, mas velha política de drogas sancionada pela Portaria 679 de 20 de março de 2018, centrada na abstinência absoluta e na internação de médio prazo de usuários nas chamadas comunidades terapêuticas. Permanecendo com a linha anti-democrática, apresenta a referida lei sem qualquer discussão com as instâncias de controle social do SUS, e de entidades científicas, profissionais e gestores de programas do campo.

    É preciso construir resistência para lutar contra o manicômio, como também práticas, políticas e culturas manicomiais e de isolamento social. Não podemos esquecer o modelo higienista responsável pela morte de 60 mil pessoas, e isso apenas na cidade de Barbacena, naquilo que ficou conhecido como o ‘Holocausto brasileiro”.

    Foto: Abrasco

  • Carta do SOS Paissandu para a sociedade civil e gestão da cidade de São Paulo

    Os ex-moradores do prédio Wilton Paes de Almeida, ocupação no Largo do Paissandu, em São Paulo, escreveram uma carta onde relatam vários aspectos da tragédia. Contem o depoimento de três ex-moradores, colhidos no último dia 12 e condensados em um só documento, que representa a dura realidade de pessoas criminalizadas pela grande mídia e invisibilizadas pela especulação imobiliária que ronda cidades como São Paulo. Os relatos foram feitos sob crescentes rumores de que no dia seguinte, domingo de dia das mães, a polícia militar compareceria ao local para despejá-las. Abaixo, divulgamos a íntegra da carta:

    Nós, aqui da Ocupação do Largo do Paissandu, ouvimos que existe uma movimentação de dentro da Prefeitura de São Paulo para tentar pressionar a nossa saída daqui da praça através do uso do Conselho Tutelar, tirando nossos filhos e filhas de nossos braços e do nosso cuidado, impedindo que essas crianças cresçam junto com seus pais e mães, além de não resolver a questão das famílias que ficaram sem moradia após o desabamento do prédio onde estávamos morando.

    Foto: Carol Burgos | Esquerda Online

    O que podemos dizer é o seguinte: isso é uma situação vergonhosa porque ao invés do Estado se unir com outros poderes para se comprometerem com nós, com todas as famílias, para sairmos daqui instalados em algum lugar digno, a prefeitura prefere tirar os nossos filhos da gente. Essa atitude demonstra que esses políticos não estão preparados pra resolver o problema da população e que escolhem para qual população eles realmente querem governar, para quem eles realmente vão olhar e quem vão inviabilizar. Nós fomos invisibilizados.

    Estão fazendo como na ditadura fazia: oprimindo o povo através do medo. Quando você tem alguém que o povo escolhe, ele tem que pensar no bem-estar do povo, não em oprimir o povo.

    Vamos resistir, vamos lutar! Enquanto não sentarmos na mesa com o prefeito e não tivermos uma situação favorável pras famílias, não vamos sair daqui. A não ser que eles joguem bomba em todo mundo aqui, nas crianças, nas mulheres, nos homens, mas não acho que fariam isso porque o mundo todo está acompanhando isso aqui e isso seria vergonhoso aos olhos da mídia internacional e nacional porque estamos em ano eleitoral e o desabamento do prédio tornou-se notícia no mundo todo.

    O dever do conselho tutelar não é tirar os filhos, é ajudar. Sabemos dos nossos direitos e sabemos que a retirada das crianças é a última opção e deve passar por várias outras etapas. Qual é o prazer que têm em tirar nossas crianças? Isso é uma covardia da Prefeitura. Se tirar um dos nossos filhos, não vai ficar barato. Vamos onde eles estiverem para buscar os nossos filhos. Aqui ninguém é usuário de drogas, ninguém é pilantra, ninguém é ladrão, aqui vive um povo necessitado e guerreiro! Queremos que saibam que vamos arrumar guerra se sair uma criança daqui.

    A gente faz um monte de protocolo para colocar criança na escola, para conseguir casa, mas nunca anda. Vamos até o final com as mães e com os advogados, daqui não sai nenhuma criança! Ao invés de facilitar com a burocracia para moradia e para educação, a prefeitura quer tirar os nossos filhos.

    Foto: Pedro Alexandre | Esquerda Online


    Tudo que temos é doação. Pedimos banheiro químico e foi negado. Pedimos sim o conselho tutelar, mas para as crianças irem à escola porque não tinham nenhum material, não para tirá-las daqui. Eles ganharam material escolar da sociedade civil e estão indo estudar apenas com isso. Ninguém está na ocupação por vagabundagem. A maioria deixa os familiares aqui e vai trabalhar, só volta a noite. Vivemos uma vida, como todos vivem, precisamos apenas de uma moradia. Ninguém está aqui porque quer.

    Foto: Pedro Alexandre | Esquerda Online

    Venha conhecer as nossas histórias!

    Não é só nós que estamos sofrendo com isso. Há um dono de um bar na esquina que foi solidário conosco e no dia seguinte, começou uma movimentação muito grande para fechar o bar daquele senhor através da vigilância sanitária. Um bar que estava ali há anos e só agora que ele nos ajudou que foi fechado. Ou seja, a prefeitura prefere tirar emprego das pessoas que trabalhavam no bar ao nos ajudar.

    O prefeito Bruno Covas tem que ter um olhar mais humano e mais digno. Tirar uma criança do cuidado da sua mãe é atitude de quem não tem coração. Queremos que ele venha aqui e veja nossa situação de perto, viva na nossa pele para então podemos conversar e negociar, junto com os nossos advogados, baseado nos direitos que temos perante a lei.

    Moradores da ocupação SOS Paissandú

    São Paulo, 14 de maio de 2018

  • Não choremos: compreendamos e lutemos

    Neste 14 de maio, completam dois meses da execução da vereadora socialista do Psol, a Marielle Franco, bem como trinta e sete dias da prisão, sem provas, de Lula. Nesse período, foram executados três jovens da UJS em Maricá, bandos de ultra—direita e, ou fascistas deram tiros na Caravana de Lula e, depois, no Acampamento pró-Lula, em Curitiba, feriram à bala dois militantes. Anteontem, foi ferida à bala a militante do MTST Nathanelly dos Santos, de Aracaju, por policiais, numa ocupação de terras.

    Creio ser muito importante o texto de Nahuel Moreno de 1974 sobre a escalada das bandas fascistas na Argentina nesses anos. Moreno, junto com Hugo Blanco, foram os maiores e melhores militantes socialistas com quem tive a oportunidade de conhecer e trabalhar junto.

    Diz Moreno, entre outras coisas:

    “Diante desse perigo, diante dessa escalada que vem há muito tempo, hoje estamos aqui gritando pela unidade de ação. Nosso Partido está profundamente preocupado se esta unidade de ação é apenas para acompanhar o funeral até o cemitério ou será a unidade de ação na rua para derrotar e esmagar a fera fascista. Não queremos que a unidade de ação apenas acompanhe nosso cortejo fúnebre. Queremos para esmagar o fascismo”

    “As facções fascistas agiram até agora e continuarão a agir. Elas não fizeram nenhuma distinção entre a JP [Juventude peronista], o PC [Partido Comunista] ou o PST [Partido Socialista dos Trabalhadores]. Seu objetivo é tentar quebrar todas as organizações. Chegou a hora de tirarmos uma conclusão muito importante que nos chega do Chile, que vem da experiência mundial. O fascismo não é derrotado pelo caminho das eleições! O fascismo não é derrotado pelas frentes [eleitorais]!”

    Abaixo, o texto completo da intervenção de Moreno em nome do saudoso Partido Socialista dos Trabalhadores da Argentina:

    “Não queremos que a unidade de ação acompanhe nosso cortejo fúnebre” 
    Queremos que esmague o fascismo!

    Resolvemos publicar no local usualmente ocupado pela Editorial do Avanzada Socialista o discurso feito em nome do Comitê Executivo do Partido Socialista dos Trabalhadores por Nahuel Moreno no ato de sepultamento de nossos três companheiros assassinados. Resume nossa posição diante dos momentos sérios da hora.

    Em nome da liderança do nosso Partido, eu gostaria de dar nossas mais profundas condolências aos parentes dos três companheiros que caíram na luta. Quero dizer também que estes três camaradas continuarão a viver não só na memória do nosso Partido: continuarão a viver na memória da sua classe e de todos os combatentes anticapitalistas, anti-imperialistas e revolucionários do país. Eles permanecerão ao nosso lado apesar de terem desaparecido fisicamente.

    Em segundo lugar, em nome do Partido, quero salientar que esses três camaradas foram grandes, imensos e não o dizemos por causa da biografia pessoal desses três militantes. Não se trata de adotar uma atitude hipócrita, no estilo dos panegíricos que os obituários burgueses escrevem quando um de seus personagens morre. Eles eram jovens: eles não tinham uma extraordinária biografia, nem internacional nem de qualquer tipo. Eles eram três militantes modestos. Mas é por isso que eles eram muito maiores ainda. Eles eram grandes porque a luta deles era grande. Eles foram grandes porque o nosso partido é grande. Eles foram grandes porque é grande a sua ideologia!

    Eles morreram pelo que foram: socialistas, revolucionários, internacionalistas legítimos e por tudo isso queremos reivindicá-los. Nós também queremos reivindicá-los como combatentes de toda a esquerda como um todo, contra um perigo que nos ameaça a todos: o fascismo e o golpe reacionário. Essa parte da personalidade dos companheiros que é uma herança comum, essa parte da biografia de nosso companheiro se relaciona mais do que Trelew , a aqueles fatos tão ou mais graves do que as de Trelew[ na madrugada de 22 de agosto de 1972 foram assassinados 16 militantes de distintas organizações peronistas e de esquerda presos na penitenciária de Rawson].

    Em terceiro lugar, camaradas, quero agradecer fraternalmente a todos os partidos e organizações que contribuíram para a sua solidariedade e, especialmente, a todos os partidos e organizações que aqui estiveram presentes com a sua mobilização. Nesta apreciação nós cuidadosamente sabemos distinguir as tendências socialistas, as dos nossos irmãos no objetivo final e aquelas outras tendências que não coincidem com a nossa meta final, mas que estão ligados a nós contra o monstro e o perigo fascista. Com todo o respeito, dizemos que elas deram um exemplo de unidade de ação, aquelas correntes humanistas, democráticas ou liberais que estiveram aqui presentes para nos saudar e deixaram de lado as profundas diferenças ideológicas que podemos ter com elas. Esses dois fatos devem nos levar à reflexão. Há uma frase antiga de um filósofo que diz: “Nem ria nem chora: compreende”. Hoje os revolucionários têm que dizer: “Não choremos; compreendamos e lutemos!. “

    Este é também o momento de refletir sobre a situação pela qual passa o país e fazer um chamado em nome do Comitê Executivo do nosso Partido. É evidente que há uma escalada fascista no país. Escalada fascista que não é um simples surto histérico, porque não é a escalada fascista de um movimento que está fora do governo, mas é baseado no próprio governo. Um elemento categórico comprova isso, assim que refletirmos um pouco. Até agora não foi descoberto um único ataque contra militantes de esquerda, nem a morte de um trabalhador comunista, nem as torturas, nem a morte de Montoneros nem de militantes da JP[Juventude peronista], nem de nossos mortos! Jamais! É uma ineficiência fantástica a da polícia e de todos os serviços secretos do regime descobrir os assassinos de militantes de esquerda. No entanto, eles têm uma eficiência incrível para descobrir, segundo eles, os ataques que a esquerda faz. Isto tem como significado para nós que o fascismo é fomentado dentro do governo: o próprio governo alimenta os setores fascistas que preparam um golpe branco. Há um silêncio cúmplice do governo em tudo isso.

    Diante desse perigo, diante dessa escalada que vem há muito tempo, hoje estamos aqui gritando pela unidade de ação. Nosso Partido está profundamente preocupado se esta unidade de ação é apenas para acompanhar o funeral até o cemitério ou será a unidade de ação na rua para derrotar e esmagar a fera fascista. Não queremos que a unidade de ação apenas acompanhe nosso cortejo fúnebre. Queremos para esmagar o fascismo e fazer o desfile da vitória! Consideramos que a unidade de ação diante dos inimigos fascistas é indispensável. Mas não queremos isso daqui a dez ou vinte anos. É verdade que o fascismo de Mussolini dominou durante vinte anos e que Hitler durou dez anos; Também é verdade que o exército de um país socialista teve que ir libertá-los. Mas queremos evitar que o fascismo venha e queremos pará-lo agora! Nós não queremos celebrar sua queda depois de vinte anos de erros e retrocessos!

    É assim, camaradas, como se pode aprender da experiência. As facções fascistas agiram até agora e continuarão a agir. Elas não fizeram nenhuma distinção entre a JP [Juventude peronista], o PC [Partido Comunista] ou o PST [Partido Socialista dos Trabalhadores]. Seu objetivo é tentar quebrar todas as organizações. Chegou a hora de tirarmos uma conclusão muito importante que nos chega do Chile, que vem da experiência mundial. O fascismo não é derrotado pelo caminho das eleições! O fascismo não é derrotado pelas frentes [eleitorais]! Aí está a experiência de Allende no Chile; aquela grande frente de tipo eleitoral que caiu como água entre as mãos ao primeiro impacto do fascismo.

    O fascismo também não é para se discutir. Não é uma tendência política ou intelectual. O fascismo, camaradas, é destruído na rua, com os mesmos métodos que eles usam! Se quisermos homenagear os mortos do PC [partido Comunista], se quisermos homenagear os mortos da JP [Juventude Peronista] e nossos mortos, também temos que entender nossa reflexão. Vamos aprender sobre o fascismo no Chile, vamos aprender que antes de nos matar, temos que detê-los! É por isso que a liderança do nosso partido, como resolução de seu Comitê Executivo, convida todas as tendências aqui presentes e os que não estão, para a próxima quarta-feira às 19 em nosso local, e comecemos a formar brigadas ou piquetes antifascistas operários e populares que serão a ferramenta com a qual definitivamente abateremos as bandas fascistas em nosso país.

    Foto: Carol Burgos | Esquerda Online

  • Movimento de Luta dos Trabalhadores anuncia entrada na organização Resistência

    O Esquerda Online realizou a cobertura do ato-festa de lançamento da nova organização Resistência, que surgiu após congresso de unificação da NOS e do #MAIS. Agora, divulgamos declaração do MLT – Movimento de Luta dos Trabalhadores​, composta por jovens trabalhadores, anunciando a dissolução e o ingresso na Resistência. “Temos como tarefa histórica avançar no enfrentamento contra o capital e o sistema capitalista, sem abandonar nossos princípios e compreendendo que é preciso dar um passo à frente e reagir com mais força diante dos ataques cada vez mais profundos à nossa classe”, afirmaram em nota. De acordo com os membros do ex-MLT, a relação iniciou no congresso de fundação do MAIS, em 2016. “Vimos com bons olhos o processo de construção que os levou até ali, sendo que foi deixado bem claro por eles que esse seria somente o começo e que, assim como nós do MLT, o objetivo de erigir um Partido Socialista da classe trabalhadora ainda deveria ser almejado”, completaram.

    Leia a íntegra da nota, abaixo:

    Nota de dissolução do MLT e entrada na Resistência 

    O Movimento de Luta dos Trabalhadores surgiu do agrupamento de jovens da classe trabalhadora que pretendia transformar a sociedade por discordar desse sistema de exploração capitalista, à qual nós – jovens da periferia – somos a parcela mais nova que o sistema esmaga, já que ao longo dessa jornada nossas forças vão sendo neutralizadas para evitar que a nossa classe impulsione a luta contra o capital. Por isso, entendemos que a juventude é um setor estratégico onde a luta tem a capacidade de ser potencializada. Nesse sentido, temos nos aproximado, nos últimos anos, das organizações socialistas de trabalhadores e juventude para unir nossas forças sob o princípio revolucionário.

    O MLT passou por um processo de amadurecimento intelectual e político desde nossa reestruturação como nova organização, e nosso objetivo sempre foi o de superar os limites de uma pequena organização e nos colocar em uma esfera mais ampla da atuação prática de princípio revolucionário. Acompanhamos nesse tempo o desenvolvimento de outras organizações da esquerda socialista e o Movimento por uma Alternativa Independente e Socialista – MAIS se mostrou compatível com nosso intuito de construir um movimento revolucionário nacional e internacional que estivesse inserido no seio da classe trabalhadora.

    Estivemos presente no lançamento do MAIS em 2016 e vimos com bons olhos o processo de construção que os levou até ali, sendo que foi deixado bem claro por eles que esse seria somente o começo e que, assim como nós do MLT, o objetivo de erigir um Partido Socialista da classe trabalhadora ainda deveria ser almejado. Realizamos junto com os companheiros do Afronte da Zona Leste de São Paulo, o projeto do Fluxo Marxista, que passou por São Miguel, Poá e Itaquaquicetuba discutindo os temas clássicos do marxismo com os jovens da periferia que vem dessa onda histórica dos movimentos de ocupações das escolas, e que inclusive foi um fenômeno muito importante que a vanguarda da juventude protagonizou abrindo espaço para uma geração mais politizada que tem vontade de se inserir na vida política.

    Com isso, fizemos uma série de encontros de aproximação e discussão programática com os companheiros do MAIS que possibilitou criar uma base comum e mais sólida sobre a concepção de partido, construção política nacional e internacional, frentes de atuação e programa. Após participar como convidados do Congresso de fusão das organizações MAIS-NOS, que se transformou em uma nova organização – Resistência – acreditamos que tivemos acúmulo de experiências suficientes para finalmente decidirmos sobre a dissolução do MLT e incorporação na Resistência.

    Temos como tarefa histórica avançar no enfrentamento contra o capital e o sistema capitalista, sem abandonar nossos princípios e compreendendo que é preciso dar um passo à frente e reagir com mais força diante dos ataques cada vez mais profundos à nossa classe. Encerramos nossa organização para nos engajarmos em outra nova, unindo forças e por entender que a militância não finda, mas se transforma e se intensifica em consonância com o processo histórico na luta pela emancipação dos trabalhadores do mundo.

    Movimento de Luta dos Trabalhadores, Maio de 2018.
  • Paloma Gomes: ‘Eu sou porque Marielle sempre será’

    *Matéria publicada originalmente no Fala Manguinhos! e RioOnWatch

    Nos 60 dias desde o assassinato de Marielle Franco, centenas de matérias, ações, encontros e homenagens foram feitos à vereadora que surpreendeu o Brasil e o mundo com seu coração e sua luta, luta essa que sempre será um importante objeto de debate em um país tão desigual como o Brasil. Eu, Edilano Cavalcante, coordenador da agência de comunicação comunitária Fala Manguinhos!, conversei com uma moradora de Manguinhos que, desde o dia em que conheceu Marielle Franco, antes mesmo que ela se tornasse uma vereadora ativa na cidade do Rio de Janeiro, já sentia a sua força e a admirava e apoiava. Seu nome é Paloma Gomes.

    Paloma tem 30 anos e desde os 18 anos atua no território onde cresceu como educadora infantil. Sua aproximação à Marielle tem muito a ver com a necessidade que sentia de expandir seu campo de atuação no território ao se juntar a colegas de profissão também engajados na luta pela educação pública de qualidade. Emocionada ao relembrar todos esses momentos com Marielle, Paloma divide conosco sua trajetória de luta ao lado de sua maior inspiração.

    Edilano Cavalcante: Como você conheceu a Marielle?

    Paloma Gomes: Quando eu comecei a me envolver nas lutas pela dignidade educacional, participando de greves e movimentos de rua com outros profissionais, eu conheci o PSOL (Partido Socialismo e Liberdade, do qual Marielle fazia parte) e, como eles estavam juntos a essas lutas, então resolvi me aproximar do Partido no intuito de entender como essa engrenagem funciona e como eu poderia ajudar o território através desse espaço, utilizando a força de mais pessoas com o mesmo propósito.

    Então o primeiro encontro popular que planejei para Manguinhos, numa necessidade de conhecer quem eram os protagonistas sociais locais, surgiu a partir de uma experiência que vi na Maré, de diálogo na rua, com roda de conversas entre os adultos, atividades para as crianças, e outras coisas que me encantaram. Logo depois descobri que quem produzia esses encontros que eu vi na internet era a Mari, então mandei uma mensagem pra ela perguntando se ela poderia me ajudar a fazer um aqui no território.

    A resposta dela foi: “não, você fará o encontro do seu jeito, com as pessoas que você quiser e eu vou chegar junto para fortalecer o que você fizer. Você tem todas as ferramentas para isso”. E eu fui lá e fiz. Ela deu suporte, apoiou e ficou muito feliz quando mandei as fotos pra ela dizendo como eu tinha ficado encantada com as potências do bairro onde sempre morei e que nunca tinha percebido. [Essa troca inicial] foi o suficiente pra saber que aquela mulher seria minha inspiração de luta.

    Eu tenho dois momentos de minha vida: a Paloma que só conhecia a favela onde as pessoas não tinham direitos, morriam e viravam apenas estatísticas, e a nova Paloma, que conheceu os movimentos sociais de Manguinhos.

    EC: Como iniciou essa relação de amizade entre vocês?

    Paloma: Após o evento, eu contei pra ela o impacto que aquilo havia tido em minha vida e como eu gostaria de dar continuidade a esse diálogo com as pessoas do meu bairro. Em seguida, ela me convidou para apoiar a sua campanha e desde então ela se tornou minha força, minha referência como ser político, social e de luta.

    A Mari tinha a incrível capacidade de amar intensamente e ser firme com quem ela dava esse amor. Comigo não foi diferente. Mesmo ela tendo muitos compromissos, ela sempre foi muito presente. Nem sei como ela conseguia fazer isso! Todas as vezes que eu ligava pra ela, ela sempre tinha disponibilidade de me atender ou vir ao meu encontro caso fosse necessário, mesmo com as mil coisas em que estivesse envolvida. E sempre tinha uma força que saia de sua voz, em forma de conselhos, um abraço pra mostrar que eu podia contar com ela ou mesmo um olhar de conforto. Ela nunca me deixava vazia.

    Quando foi eleita, ela me chamou para participar do mandato, mas eu disse pra ela que preferia ficar na educação naquele momento. Mas pedi que ela me desse voz, que eu pudesse estar com ela de outras maneiras, construindo idéias e planos. Ela logo compreendeu e nunca me deixou de fora de nada que estivesse envolvida. Eu sempre estive ciente, opinava, debatia e dava os passos juntos com ela. Então ela foi se tornando uma pessoa muito importante para mim, dentro e fora da vida política. [Pausa por conta das lágrimas] Eu nunca vou me esquecer dela, pois ela mudou minha forma de pensar, lutar. Mudou minha vida.

    EC: Como você vê tudo isso que aconteceu com ela? Alguém do partido, familiares ou amigos tinha noção que ela estava em perigo?

    Paloma: A gente sabe que a gente incomoda, mas não sabíamos que incomodávamos tanto a ponto de alguém sentir esse ódio e silenciar, através de execução, uma pessoa tão importante, tão boa, que desde o primeiro dia deu voz à favela e ao povo oprimido dentro e fora da Câmara de Vereadores. Isso é que incomoda muito, essa verdade materializada na voz e no corpo de Mari. Então nossa vida não tem sentido hoje se não for pela luta por igualdade, pela desconstrução desse império de poder machista, racista, homofóbico e covarde. Tudo que a Mari plantou dará muitos frutos e com muito mais força.

    EC: Você vem acompanhando as investigações? Você acha que é possível encontrar os reais culpados?

    Paloma: Então, dá um certo ódio, pois sabemos que quem mandou matar é muito bem protegido. Talvez seja possível encontrar quem fez os disparos, mas quem mandou eu não sei, não. Dentro do PSOL não se tem muitas informações, até para não expor as vidas das pessoas, mas o Marcelo [Freixo] está acompanhando tudo muito de perto. Qualquer coisa que é encontrada ele tem estado atento, assim como todos os advogados do PSOL. Eu espero muito que não fique impune.

    EC: Como você tem avaliado essa grande comoção e mobilização nacional e internacional em torno da vida e da morte de Marielle? 

    Paloma: Eu acho que devemos começar dizendo que essa comoção não quer dizer que a morte da Mari é mais importante que a de outras pessoas que são assassinadas nas favelas ou ruas do Brasil, assim como a do Anderson [Gomes, motorista de Marielle]. Mas a Mari era a voz que ecoava dentro da Câmara, que cobrava justiça por todos os mortos nas favelas. Era ela quem não deixava ninguém lá esquecer que nós somos seres humanos e que temos o direito à vida. Foi por isso que teve esse impacto tão grande, pois a perda de representatividade foi enorme.

    A outra parte da repercussão se deu por causa das pessoas que não conheciam a Mari e se surpreenderam com tamanha força e tudo que ela representava. A Marielle era a síntese de todas as lutas que a favela enfrenta diariamente para sobreviver em meio a tantos ataques.

    EC: Como os núcleos de favelas vêm planejando dar continuidade as lutas de Marielle Franco?

    Paloma: Estamos todos ainda muito abalados com a dor da perda, mas temos como missão não deixar que nada pelo que a Mari lutou venha a ser esquecido. E isso não é só por ela. É por nós, porque ela fazia tudo isso por nós, então é uma responsabilidade nossa. Estamos tendo um grande número de moradores de favela querendo construir e dar continuidade a tudo que ela representava e nós não vamos deixar ninguém pra trás. Iremos ao encontro de cada pessoa que tem como propósito lutar por seus direitos.

    Estamos em ano eleitoral. Nosso propósito era colocar mais Marielles nessa luta, mas com essa porrada não estamos mais com essa prioridade. Agora o que temos como objetivo é estar ao lado e unir todos que querem estar nesse espaço amplo de luta.

    Matéria escrita por Edilano Cavalcante e produzida por parceria entre RioOnWatch Fala Manguinhos!. Edilano é coordenador da agência de comunicação comunitária Fala Manguinhos! Como prática de comunicação comunitária produzida por e para Manguinhos, o Fala Manguinhos! tem em sua origem a defesa dos direitos humanos e ambientais, promoção de cidadania e saúde com a participação direta dos moradores e moradoras nas decisões que envolvem a Agência de Comunicação Comunitária de Manguinhos, a partir dos encontros do grupo de comunicação do Conselho Comunitário. Siga o Fala Manguinhos pelo Facebook aqui.

  • Avança o projeto ‘Escola Sem Partido’

    Para o capitalismo, homem é homem e mulher é mulher

    O projeto de lei que tenta instituir a chamada “Escola sem Partido” foi debatido na última terça-feira (8), em uma comissão especial da Câmara dos Deputados. No parecer lido pelo deputado Flavinho (PSC-SP), há a proposta de que as escolas não possam ofertar disciplinas com o conteúdo de “gênero” ou “orientação sexual”. Para isso, o parecer diz o seguinte: “a educação não desenvolverá políticas de ensino, nem adotará currículo escolar, disciplinas obrigatórias, nem mesmo de forma complementar ou facultativa, que tendam a aplicar a ideologia de gênero, o termo ‘gênero’ ou ‘orientação sexual'”. Com isso, o projeto avança mais um passo em direção ao plenária e, dessa forma, a uma possível aprovação.

    O texto altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) para evitar que professores manifestem algum posicionamento político, ideológico ou partidário. Também reforça que a educação sexual, moral e religiosa deve ficar a cargo da família, não das instituições de ensino.

    Após a apresentação do relatório, a comissão especial que analisa o tema vai discutir o parecer para, só depois, votá-lo na Câmara dos Deputados.

    Esse projeto é uma das mais importantes campanhas dos setores mais conservadores da sociedade, dirigida pela ultra direita e organizada entre “bíblia e bala”.

    Capitalismo: uma âncora material para as ideologias opressoras
    O modelo de colonização no Brasil utiliza-se desde sua raiz das ideologias racista, patriarcal e heteronormativa.

    Essas ideologias que por isso só, caso pudessem se desenvolver isoladamente, já seriam por demais desumanas; são peças especiais ao modelo de exploração e dominação potencializando os processos desumanos do modelo social capitalista.

    A naturalização das desigualdades caminham juntas. Devem ser vistas como um todo. Para justificar a desigualdade de gênero, tão lucrativa ao capitalismo, deve-se NATURALIZAR o gênero – “somos o que nascemos”. Então defende-se que é natural a desigualdade, pois todos somos diferentes, certo? Logo algo, aí sim natural, que são as diferenças, passam a justificar as desigualdades, antinaturais por excelência.

    E como se naturaliza os gêneros? Como se justifica os papéis sociais de cada gênero? Como justificar a cartilha da feminilidade e da masculinidade imposta desde que nascemos?

    Para isso, não podem reconhecer como legítimos os vários padrões de comportamento afetivo-sexuais e sexuais; assim como os papéis sociais múltiplos assumidos pelos humanos ao longo de toda a história, independentes das diferenças.

    Uma base fundamental das ideologias da desigualdade são as opressões contra a liberdade humana de orientação sexual e identidade de gênero.

    Há alguns anos as pessoas oprimidas têm avançado em suas consciências em relação à opressões que sofrem. E, também favorecido por esse salto de consciência, são vanguarda nas lutas de resistência à medidas das classes dominantes em busca de mais lucros (menores que antes de 2007-8).

    Isso por si só é um inconveniente para as burguesias em sua saga ao lucro cada vez maior.

    Essa consciência progressista sobre nossas identidades, dessa forma consciente também da injustiça nas desigualdades sobre diferenças; aumenta muito as condições para a tomada da consciência de classes.

    A resistência com certeza se fortalecerá exponencialmente se essa possibilidade se confirmar. Daí o grau de importância das medidas de controle sobre os papéis sexuais, sociais e afetivo-sexuais dos corpos.

    Barrar o retrocesso
    Não nos enganemos, a ofensiva desse setor reacionário, já estável e ainda em dinâmica de crescimento na sociedade, tem enorme serventia para a recuperação dos lucros. Direitos civis e “liberdades” pontuais para mulheres, negras e LGBTs são expressão de outra tendência histórica. Para o cenário atual a pressão é negativa nesse terreno.

    Os direitos e “liberdades” pontuais como exercícios de dominação política e como produtos integrados ao mercado, perderam cada vez mais espaço para o uso direto da força.

    Mesmo com muitas novidades, as armas clássicas para isso já são conhecidas. Violência brutal é uma das privilegiadas, que se dá tanto para domesticar, quanto para eliminar.

    A outra é a propaganda ideológica. Na religião essa vertente já é majoritária. Querem agora também ganhar as instituições de educação. Já deram grandes passos. Agora se esforçam para mais um.

    Avançou o projeto Escola Sem Partido, um consórcio de interesses de ordens distintas, mas unificados em torno da mesma estratégia: o aumento da exploração e busca por mais lucros para o capital. Não são todas as batalhas as decisivas. Essa é.

  • Jacó Almeida: ‘Muitas pessoas só vão receber correspondência uma vez por semana’

    Jacó AlmeidaO governo anunciou a intenção de fechar mais de 500 agências e demitir milhares de funcionários em todo o País. Em entrevista para o Esquerda Online, Jacó Almeida, carteiro há 32 anos e diretor suplente da Federação Nacional dos Trabalhadores dos Correios (Fentect), fala da piora no serviço de entregas, medida que visa facilitar a privatização.

    Esquerda Online – Em 2008, a revista Forbes dizia que os Correios era a melhor empresa do ramo no mundo. Hoje ela enfrenta vários problemas. Porque isso aconteceu?

    Jacó Almeida – O governo Temer está acabando com um patrimônio construído com o suor dos trabalhadores concursados. Isso foi feito com outras empresas públicas. Primeiro o próprio governo sucateia a empresa, depois vende ela bem barato para grandes multinacionais.
    Neste mês, a direção dos Correios anunciou o fechamento de mais de 500 agências e a demissão de mais de 5.300 funcionários. Também está nos planos que as entregas deixem de ser diárias e passem a ser feitas em dias alternados. Em algumas cidades, as pessoas só vão receber correspondência uma vez por semana. Além de atrasar as entregas, a medida pode deixar mais de 15 mil carteiros desempregados.

    Além disso, a empresa acabou com o cargo de Operador de Triagem, colocando mais 14 mil trabalhadores em risco de demissão. Nos últimos sete anos quase 20 mil trabalhadores foram mandados embora.

    Já faz tempo que a empresa está sendo preparada para a privatização. A Medida Provisória 532 transformou os Correios em Sociedade Anônima e abriu a possibilidade de criação de subsidiárias e parcerias com outras empresas. E o fundo de pensão e o plano de saúde dos funcionários foram mudados.

    EOL – Quais são os interesses por trás dessas medidas?

    Jacó Almeida – Com certeza não é o interesse do povo. O serviço dos Correios chega até aos municípios mais distantes do país, coisa que não é do interesse de uma empresa que visa só o lucro.
    O chamado monopólio dos Correios é feito apenas em serviços de cartas e telégrafos. Para a maioria das entregas, existe a concorrência com outras empresas. E mesmo assim os serviços dos Correios sempre lideraram o mercado.

    Não podemos entregar um patrimônio público construído por décadas para as empresas privadas. O presidente golpista Michel Temer e seu ministro Gilberto Kassab estão agindo para acabar com milhares de empregos e favorecer os grupos internacionais que querem comprar os Correios.

    Se isso acontecer, o serviço pode ficar mais caro e mais agências podem ser fechadas. Bairros inteiros podem ficar sem receber encomendas. Temos que lutar contra isto. O que prejudica os Correios é a ingerência política do governo. Quem tem que controlar a empresa são os funcionários de carreira e a população. Privatização não!

     

  • Violência aumentou nos dois primeiros meses da intervenção militar no Rio de Janeiro

    No próximo dia 16 de maio, completam-se três meses do dia em que o presidente ilegítimo Michel Temer (MDB) assinou decreto que dava início a intervenção federal e militar na área de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro. No dia 20 de fevereiro, apenas quatro dias depois, tanto a Câmara dos Deputados como o Senado Federal aprovaram o início desta intervenção, inédita em nossa história.

    A execução sumária da companheira Marielle Franco e de Anderson Gomes chocou todo o Brasil e teve forte repercussão internacional. Mas, este assassinato brutal, com conotação política, e ainda sem solução, ocorreu durante a intervenção militar, ação que ela investigava a partir do mandato.

    Passado este curto período, já é possível identificar que esta política de segurança pública, baseada apenas na ampliação do confronto e da repressão, não representou solução real para o grave problema da violência no Rio de Janeiro. E, o que é pior, vem agravando o problema.

    Os números de crimes e homicídios no Estado do Rio de Janeiro são cada vez mais alarmantes, e isso piorou com a intervenção militar. Existe um alvo evidente e prioritário das ações da intervenção militar e das polícias, que são as comunidades carentes, piorando ainda mais a situação de extermínio da juventude pobre e negra das periferias da nossa cidade e do Estado.

    O fracasso em números
    Nas últimas duas décadas, a taxa de homicídio em nosso Estado alcançou a cifra de 40 a cada 100 mil habitantes, pouco acima da média nacional, que é muito alta. No ano passado, a taxa ficou em 40,3 homicídios por 100 mil habitantes. Mas, existem regiões do Estado em que a situação é ainda mais grave. Enquanto a taxa de homicídio na capital fluminense é de 32,6, na Baixada Fluminense chega a cifra absurda de 62,3 assassinatos a cada 100 mil.

    O Observatório da Intervenção, coordenado pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) da Universidade Cândido Mendes, publicou recentemente um relatório referente aos dois primeiros meses da intervenção militar (de 16 de fevereiro a 16 de abril). E os números falam por si.

    Nos meses de fevereiro e março, já com as operações da intervenção militar em curso, aconteceram 940 homicídios em nosso Estado; 209 civis foram mortos por ações policiais; 19 policiais foram assassinados; e, das 70 operações monitoradas por este relatório, em 25 existiram mortes.

    As mortes de civis por policiais é um dos mais graves problemas da atual política de segurança pública. Só em 2017, 1.124 mortes de civis foram geradas por intervenção policial. Mas, se projetarmos as mortes provocadas por policiais nos dois primeiros meses de intervenção militar, esse número poderá ser ainda maior no final de 2018.

    Nos dois meses que antecederam a intervenção, existiram 1.299 tiroteios no RJ; Nos dois primeiros meses de intervenção, o número de tiroteios alcançou 1.502, com 294 mortos e 193 feridos. Só nestes meses iniciais, aconteceram 12 chacinas, com 52 vítimas fatais. No mesmo período, no ano passado, foram 6 chacinas, com 26 vítimas.

    Os números realmente demonstram o fracasso rotundo da intervenção militar. Insistir nessa política só vai trazer mais sofrimento para a maioria da população e não resolverá o problema da violência. Mais do que nunca, é necessário mudar totalmente o conteúdo da política de segurança pública, acabando imediatamente com o discurso ideológico da criminalização da pobreza e com o extermínio da juventude negra das periferias.

    Essa situação é fruto de sucessivos governos estaduais controlados pela velha direita, seja o PSDB, DEM e MDB. Infelizmente, nos últimos governos, controlados pela quadrilha de Cabral e Picciani, estas administrações tiveram apoio de alguns partidos de esquerda, como PT e PCdoB.

    Qual a saída? A esquerda socialista precisa apresentar suas propostas
    Acreditamos que sem medidas mais estruturais, de forte impacto social e de democratização efetiva da sociedade brasileira, não se resolverá o grave problema da violência, seja no Rio de Janeiro, seja em toda grande cidade brasileira.

    O problema da segurança pública é uma das grandes preocupações da maioria da população. Com certeza, será uma das grandes discussões da campanha eleitoral deste ano, seja para as eleições presidenciais e, principalmente, para o Governo do Estado do Rio de Janeiro. E é uma das principais bandeiras da extrema direita, que aproveita-se da violência urbana para alimentar sua pauta de mais repressão e intolerância.

    Portanto, a esquerda socialista não pode se omitir. Deve entrar prioritariamente nessa discussão, sempre apresentando as suas propostas de saída para o grave problema da violência nas grandes cidades. Nossa saída deve estar apresentada em destaque na pré-candidatura de Guilherme Boulos e Sonia Guajajara para a Presidência, pela Frente política e Social, formada a partir do MTST, PSOL, PCB, APIB, entre outros movimentos sociais combativos e organizações de esquerda.

    No próximo sábado, 12 de maio, na UERJ, o movimento “Se o Estado do Rio Fosse Nosso”, que discute de forma ampla e democrática o programa de governo da pré-candidatura de Tarcísio Motta (PSOL-RJ) ao Governo do Estado, promove um seminário, para encarar o desafio de aprofundar a discussão sobre as propostas da esquerda socialista para o grave problema em nosso Estado.

    Apostando sempre na discussão coletiva, apresentamos três propostas como contribuição para esta importante e necessária discussão, além da exigência do fim da intervenção militar:

    1 – Não se combate a violência sem combater a brutal crise social que vivemos. Temos que cobrar as dívidas das grandes empresas, acabar com a farra das isenções fiscais e sobretaxar as grandes fortunas, para garantir um plano de ampliação qualitativa dos investimentos sociais e a geração de emprego no Estado. Um plano que dobre imediatamente o orçamento estadual para as áreas sociais, garantindo uma política ofensiva de investimentos públicos em saúde, educação, moradia, saneamento e transporte públicos e de qualidade para a maioria da população.

    2 – Fim da PM, por uma polícia civil única, com controle social das entidades democráticas e dos movimentos sociais ligados aos direitos humanos. Propor ao Congresso Nacional um plebiscito nacional sobre a desmilitarização da polícia. Apostar na organização de polícias comunitárias, bem próximas e controladas pela população.

    3 – Pelo fim da fracassada “guerra ao tráfico”. Mudar completamente a política de segurança pública, acabando com o extermínio da juventude negra das periferias e com o discurso da criminalização da pobreza. Abrir a discussão de forma imediata, com o conjunto da sociedade, sobre a legalização e descriminalização as drogas. O consumo de drogas, consideradas lícitas ou ilícitas, é um tema de saúde pública e não meramente de repressão policial.

    O momento é de coragem e de ousadia, de apresentar saídas que enfrentem pela raiz os graves problemas de nosso país e, na área de segurança pública, não seria diferente. Vamos, sem medo de mudar o Brasil!

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