Jéssica Milaré

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  • O Dia da Visibilidade Trans no governo Bolsonaro

    Em 2018, foram documentados 163 assassinatos de pessoas trans simplesmente por serem trans. [1] Isso inclui apenas os assassinatos que foram noticiados e que nitidamente têm motivação transfóbica. O número real de assassinatos por transfobia é, sem dúvida, bem maior. Mais uma vez, o Brasil é o país com maior número de assassinatos com motivação transfóbica.

    Infelizmente, devido à negligência do governo atual e dos anteriores, não existe censo nem estimativa sobre o tamanho da população trans no Brasil. Entretanto, se a proporção de pessoas trans for a mesma da Índia (uma pessoa trans a cada 2.482 habitantes, de acordo com o censo de 2011), então existem cerca de 84 mil pessoas trans no Brasil. Com essa população, a taxa de assassinato de pessoas trans por serem trans seria, no mínimo, de 19 a cada 10 mil habitantes trans, enquanto na população em geral ocorrem três homicídios a cada 10 mil habitantes.

    O governo Bolsonaro é contra as pessoas trans

    As propostas do atual governo tendem a piorar essa situação. Infelizmente, a família, a escola e o emprego são os locais onde as pessoas trans sofrem mais preconceito. As diversas declarações e projetos defendidos por Bolsonaro vão no sentido contrário de combater esse preconceito.

    A família é “santificada” e tratada como a única que pode discutir sobre a sexualidade e o gênero das crianças. Ou seja, os pais vão continuar tendo todo o direito de reprimir as crianças de acordo com seus preconceitos e estereótipos sobre o que é ser menina e o que é ser menino. Entretanto, a maioria das agressões e dos estupros de crianças e adolescentes trans acontece dentro da própria família e o governo diz explicitamente que não deve haver nenhum ponto de apoio na escola.

    O projeto Escola Sem Partido, defendido por Bolsonaro e sua turma, vai no mesmo sentido. Com esse projeto, o bullying de crianças e adolescentes trans, que frequentemente inclui agressões psicológicas, físicas e sexuais, não vai poder ser combatido por professores nem os demais profissionais ligados à educação. Afinal, a ministra Damares Regina Alvez já reafirmou de forma categórica os padrões de gênero ao dizer que “menino veste azul e menina veste rosa”. Reforçar essa ideologia é reforçar a transfobia.

    Está bem nítido desde antes das eleições que Bolsonaro é contrário aos direitos LGBTI. É verdade que Bolsonaro disse várias vezes que não é homofóbico. Entretanto, ele passou todos esses anos no Congresso lutando contra os direitos das pessoas LGBTI, perseguindo e ridicularizando o parlamentar Jean Wyllys por ser ativista gay. O atual presidente é um político profissional e sabe mentir para ganhar votos.

    A população trans também precisa de direitos trabalhistas

    Até mesmo conseguir um emprego formal é um desafio para as pessoas trans. Novamente, não foi feita nenhuma estimativa estatística sobre os empregos ocupados por pessoas trans, mas uma estimativa na Argentina feita pela Fundación Huésped mostrou que 60% das travestis e das mulheres trans argentinas trabalham na prostituição. [2] Entretanto, os direitos LGBTIs na Argentina foram garantidos há mais tempo do que no Brasil, como o direito a mudança de nome no registro civil e ao acesso gratuito ao processo de transição pelo sistema público de saúde. Isso significa que, muito provavelmente, a situação das pessoas trans no Brasil é ainda pior.

    Diversas notícias sobre travestis e pessoas transexuais mostram que o Brasil também enfrenta os mesmos problemas relatados na pesquisa argentina: opressão na família, na escola e no trabalho, o que leva muitas mulheres trans à prostituição, onde elas também sofrem diversas formas de violência.

    Por tudo isso, o movimento trans também precisa se posicionar contra os ataques que o governo Bolsonaro pretende fazer contra a população trabalhadora. Precisamos lutar contra a reforma da Previdência, que retira os direitos da população mais pobre, mas mantém os privilégios dos mais ricos, dos políticos, dos oficiais militares e dos burocratas do Estado. Também é necessário lutar contra a retirada de direitos trabalhistas com a criação da nova carteira de trabalho verde e amarela, que está no programa de governo do Bolsonaro.

    Precisamos transformar o Dia da Visibilidade Trans, 29 de janeiro, num dia de conscientização de toda a população sobre as diversas formas de violência sofridas pelas pessoas trans, mas também num dia de luta contra essa violência e pela garantia dos direitos mais básicos desse setor da população. As pessoas trans também têm que ter direito à vida, à moradia, à alimentação, à saúde, ao trabalho e à dignidade humana.

    NOTAS

    [1] https://universa.uol.com.br/noticias/redacao/2019/01/29/163-pessoas-trans-foram-mortas-em-2018-no-brasil-83-dos-crimes-sao-crueis.htm

    [2] https://www.huesped.org.ar/noticias/informe-situacion-trans/

  • The Good Place: uma série sobre o certo e o errado com uma dose de humor

    Nos últimos dias, assisti às três temporadas da série The Good Place. Ao concluir o segundo episódio, pensei que seria uma série boba, cheia de ideias do senso comum e estereótipos sobre o certo e o errado. Ao contrário do que eu pensava, entretanto, a série é genial e muito criativa. Decidi escrever esse texto sobre o que me surpreendeu e as reflexões em mim provocadas.

    Sem spoilers: não vou revelar os eventos da série, mas, para compreender a discussão, é preciso ao menos assistir ao trailer.

    Apresento aqui a minha interpretação e opinião pessoais, sem pretender ser “a interpretação correta” nem refletir as intenções do autor.

    Ruptura e continuidade: a constante transformação da série

    Logo no início, algumas ideias do senso comum são questionadas, mas outras permanecem firmes, como a noção de que existe um Lugar Bom (Céu) e um Lugar Ruim (Inferno).

    Entretanto, com as reviravoltas (plot twists) as ideias vão sendo construídas e desconstruídas e a história se reinventa. O próprio “universo” da série é desmoronado para dar lugar a outro que eventualmente também desmorona. As personagens também se transformam, mas com um fio de continuidade. Suas características se mantém e mudam ao mesmo tempo, uma ideia que certamente desagradaria House e sua famosa frase “As pessoas não mudam”.

    Neste sentido, é diferente do filme Matrix, em que o “universo” do filme desmorona duas vezes, mas são desmoronamentos semelhantes.

    Personagens fortes e multidimensionais

    Kristen Bell, a atriz que interpreta a Eleanor, mostra que tem muita qualidade. É impressionante a quantidade de caras e bocas que Kristen consegue fazer. Apesar de ser, a princípio, o estereótipo de pessoa egoísta, mesquinha e manipuladora, ela é muito simpática e conquista quem está assistindo.

    Quero dar ênfase à Janet. Eu nunca vi, em outra série ou filme, um autômato que fosse convincente e com personalidade própria sem ser unidimensional. Janet não é um ser humano fantasiado de androide, como o C3PO, dos filmes Star Wars, ou como Sonny, do Eu, Robô. Pelo contrário, ela evolui com o tempo, revelando várias facetas, embora continua nitidamente sendo um autômato. Aliás, a atriz D’Arcy Carden merece um prêmio pela atuação na série: ela interpreta a Janet Boa, a Janet Má, a Janet Neutra e, em um episódio, a Eleanor, o Chidi, a Jahani e o Jason. Ela rouba a cena.

    Chidi Anagonye (William Harper) é um professor de ética entediante, mas que também conquista corações – especialmente quando tira a camisa. Sua existência é o próprio questionamento à ideia de que é possível sempre fazer o que é certo: quando precisa tomar uma decisão, ele paralisa, pois fica pensando em todas as possíveis consequências. Entretanto, ele também se transforma.

    Michael e Jahani também são personagens interessantes. A minha única decepção foi Jason, que é unidimensional e sem graça (minha opinião).

    O que é o certo e o errado?

    A discussão sobre o que é certo e o que é errado permeia toda a série. De fato, são apresentados vários dilemas questionando valores de várias filosofias éticas, sem entretanto esvaziar o sentido e a importância de que as pessoas busquem fazer o que é certo.

    Em uma de suas aulas, Chidi explica que há três grandes vertentes na Ética.

    A ética deontológica qualifica as ações em si como boas ou más, desejáveis ou indesejáveis. Um exemplo é dizer que devemos agir de acordo com a Regra de Ouro, ou seja, fazendo ao outro o que gostaríamos que fizessem com a gente. Algumas regras podem ser consideradas como princípios, como “matar é errado”, “não devemos nunca mentir”, enquanto outras são estabelecidas por contrato (como as leis ou um acordo mútuo entre duas ou mais pessoas). É a vertente defendida por Immanuel Kant.

    A ética da virtude avalia o certo e o errado pelas qualidades que elas promovem nos seres humanos. Por exemplo, afirmar que uma pessoa deve ser justa, confiável e honesta. Assim, o certo e errado não é determinado pelo que alguém faz, mas pelo que alguém é. Essa vertente pode ser encontrada em Sócrates e Aristóteles.

    A ética consequencialista dá valor às ações de acordo com suas consequências. Por exemplo, quando se diz que devemos agir pelo bem da humanidade, para criar igualdade social ou acabar com a miséria e o sofrimento humano. Essa vertente foi definida por Jeremy Bentham, mas suas ideias podem ser encontradas na filosofia chinesa.

    A história mostra exemplos defendendo, questionando e contradizendo cada uma das três vertentes.

    Logo na primeira temporada, Eleanor faz uma ação muito ruim contra uma pessoa (e que, “sem querer”, faz mal a toda a vila) para salvar a pele de outra (consequencialismo). Mais à frente, Eleanor percebe que suas boas ações de nada adiantam porque ela busca o próprio bem (deontologia). Em outro momento, ela diz que busca fazer o bem porque, sempre que quer fazer algo errado, uma voz diz que ela não deve (virtude).

    Ir ao Lugar Ruim no lugar de outra pessoa é uma boa ação? Uma pessoa pode tornar-se boa após a morte? Ela deve ser “salva”? É certo enganar pessoas que pretendem fazer mal a outras pessoas? E se alguém faz tanto o bem às outras pessoas que se torna infeliz? E se o “bem” que alguém faz a outrem torna esta uma pessoa ruim, egoísta, mesquinha? É correto quebrar as regras do sistema – até mesmo do sistema que julga as pessoas após a morte? E se esse sistema for errado?

    Existem vários questionamentos, implícitos e explícitos, alguns até escondidos nas piadas ou nas personagens.

    Apesar de tudo isso, percebi duas ideias constantes na série. A primeira é que as pessoas são capazes de ajudar umas às outras a serem pessoas melhores. É possível mudar para melhor, mas muitas vezes isso só é possível com ajuda ou em um determinado contexto.

    A segunda é que o que determina o que é certo ou errado é a relação entre as pessoas. A série remete implicitamente à empatia, ou seja, em sentir satisfação com a realização das outras pessoas.

    Um exemplo lindo disso foi quando Eleanor encontra uma carteira e a devolve ao dono. Este fica emocionado com a atitude, pois havia algo muito importante para ele na carteira – e não era o dinheiro. Meus olhos se enchem de lágrimas só de lembrar.

    “Os fins justificam os meios”

    Deixo aqui uma pequena ressalva à série. Muitas vezes, a ideia de que “os fins justificam os meios” é associada ao consequencialismo, mas de uma forma equivocada. Sem dúvida, o questionamento a essa frase é válido, especialmente quando os fins são particularistas, o que transforma a ética num “vale-tudo”, o seu exato oposto.

    Por exemplo, o uso da tortura pode ajudar um policial a desvendar um crime, mas permitir o uso da tortura pela polícia causa muitos danos à sociedade em geral – por exemplo, gera o medo de abusos e de que pessoas inocentes sejam torturadas para confessarem crimes que não cometeram.

    Em geral, entende-se que a criação de certas regras ou princípios são importantes para guiar as pessoas no “caminho certo”, ou seja, para evitar que se justifique más ações sendo que, na verdade, os objetivos são individualistas.

    É com esse raciocínio, por exemplo, que Leon Trotsky e Rosa Luxemburgo, que são guiadas pelo objetivo de emancipar a humanidade, defendem alguns princípios como a defesa da democracia do proletariado e da luta contra toda forma de opressão e exploração.

    Trotsky, em “A moral deles e a nossa”, explica:

    “Um meio somente pode ser justificado por seu fim. Mas o fim, por sua vez, precisa ser justificado. […]”

    “Devemos entender, então, que para alcançar esse fim tudo é permitido?”, pergunta sarcasticamente o filisteu, demonstrando que não entendeu nada. É permitido, respondemos, aquilo que leva realmente à emancipação da humanidade. […]”

    “[…] Permitidos e obrigatórios são aqueles e apenas aqueles meios que unem o proletariado revolucionário, enchem seus corações de um ódio implacável à opressão, ensinam-nos a desprezar a moral oficial e seus arautos democráticos, imbuem-nos da consciência de sua missão histórica [a revolução socialista], aumentam-lhes a coragem e o espírito de autossacrifício na luta. Justamente por isso é que nem todos os meios são permitidos.”

  • Ares, Soren e o suicídio de pessoas trans e LGBTIs

    No último sábado, 19 de janeiro, Ares Saturno e Soren Neres Denardi, um casal de pessoas trans de gênero não-binário, ou seja, que não se identificam com o gênero feminino nem o masculino, cometeram suicídio. Oportunistas de todo o tipo, da esquerda à direita, estão utilizando este infortúnio para justificar seus preconceitos contra pessoas trans, particularmente as não-binárias. Com distintos argumentos, reforçam a ideologia de que o suicídio é causado pela própria transgeneridade, e que esta, portanto, seria uma doença. Vamos aos fatos: qual é a real causa do suicídio de pessoas trans?

    O suicídio de LGBTIs e o discurso médico

    Ao final do século XIX, médicos começaram a categorizar e estudar os homossexuais e logo perceberam que eles tinham muitos problemas sociais e psicológicos. A maioria deles concluiu que a homossexualidade supostamente seria uma doença que causa depressão (e consequentemente suicídio) e também promiscuidade (por isso tantos homossexuais recorrerem à prostituição).

    Após a Revolta de Stonewall em 1969, as lutas do movimento LGBTI forçaram diversos países a revogarem as leis que criminalizavam a homossexualidade e fizeram com que a medicina reconhecesse que a homossexualidade não é uma doença.

    Infelizmente, o mesmo não se deu imediatamente com a travestilidade e a transgeneridade, que só agora estão sendo despatologizadas. A justificativa, por incrível que pareça, é a mesma: dificuldade de se ajustar socialmente, depressão, suicídio e prostituição. As causas desses problemas nas pessoas trans são exatamente as mesmas causas destes problemas em gays, lésbicas e bissexuais, embora em intensidades muito diferentes. Apesar disso, apenas agora, meio século depois, a medicina reconhece oficialmente esse fato – embora alguns médicos, como Magnus Hirschfeld, já diziam isso desde o século XIX.

    Mais uma vez é preciso dizer: o suicídio é causado pela opressão, não pela transgeneridade

    Segundo algumas pessoas, a transgeneridade, por si mesma, ou então o uso de hormônios, seria a causa dos diversos problemas sociais e psicológicos, entre eles a depressão e o suicídio. Outras, o cúmulo da estupidez, associam isso à identidade de gênero não-binária. Ignoram os fatos: pessoas trans sofrem diversos tipos de violência psicológica, física e sexual na família, na escola, no trabalho e até mesmo em lugares públicos, o que obviamente prejudica a saúde mental de qualquer ser humano.

    Os dados das pesquisas estatísticas, como os da pesquisa da Fundación Huésped, são assustadores: [1] cerca de 40% das pessoas trans foram isoladas de suas famílias pelo preconceito, cerca de 50% dessas pessoas já abandonaram a escola antes de completar 18 anos, cerca de 50% já tiveram um emprego negado por serem trans, 80% das mulheres trans entrevistadas já foram detidas e, destas, 43% foram sexualmente abusadas por agentes de segurança.

    Por acaso essas pessoas negam que sofrer violência na família, na escola, a falta de emprego e a violência sexual também são fortes causas de depressão e suicídio? É mais fácil enxergar esse fato simples e óbvio do que enxergar um elefante a um palmo de distância do próprio nariz.

    E sobre Ares e Soren, por acaso essas duas pessoas não passaram por várias dessas violências que afetam a maioria das pessoas trans?

    Antropólogas de vários países já estudaram diversas sociedades nativas ao redor do mundo nas quais pessoas transgêneras são socialmente reconhecidas e aceitas. Em nenhuma delas é possível associar qualquer doença psicológica à transgeneridade.

    É mais do que evidente que o suicídio de Ares e Soren, assim como as tentativas de suicídio que afetam cerca de 40% das pessoas trans, não são causados pela transgeneridade em si, mas sim pela violência transfóbica a que elas são submetidas todos os dias. Qualquer pessoa que não esteja totalmente cegada pelo ódio será capaz de tirar essa conclusão.

    [1] https://www.huesped.org.ar/informe-situacion-trans/

  • R$ 998 de salário para todos os políticos

    No primeiro dia do ano, Bolsonaro assinou o decreto que fixou o salário-mínimo em R$ 998 em 2019, ou seja, R$ 8 abaixo do valor formulado no orçamento pelo governo Temer. Assim, ao contrário dos ministros do STF, que receberam aumento de 16,38%, o reajuste do salário-mínimo ficou em apenas 5,27%. Alguns deputados federais afirmam que “colegas passam necessidade” com o salário de R$ 33,7 mil reais – ou seja, quase 34 salários-mínimos.

    A ganância e a hipocrisia dos políticos precisa acabar. Os políticos recebem mais de trinta vezes o que mais de 40 milhões de brasileiros ganham e ainda reclamam. Se eles pensam que um trabalhador pode receber menos de mil reais por mês e ainda tem que se contentar com isso, então eles também devem receber menos de mil reais por mês. Se eles pensam que esse é um salário aceitável, então que recebam esse salário!

    A situação do povo brasileiro

    Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio do IBGE em 2016, 44,5 milhões de trabalhadores brasileiros receberam, em média, R$ 747 por mês, valor 15% abaixo do salário-mínimo em 2016, que era de R$ 880. Já os 1% mais ricos receberam, em média, R$ 27 mil por mês, ou seja, 36 vezes o que a metade mais pobre dos trabalhadores receberam.

    Isso não é tudo: 1,8 milhão de crianças entre 5 e 17 anos trabalham, quase um milhão de forma irregular. 800 mil adolescentes trabalharam sem registro em carteira, o que é proibido.

    De acordo com o Relatório de Desenvolvimento Humano elaborado pelas Nações Unidas, o Brasil é o décimo país mais desigual do mundo, usando como referência o índice de Gini.

    Não tem dinheiro?

    Para justificar o baixo salário-mínimo, Bolsonaro afirmou que cada real de aumento do salário-mínimo custaria R$ 300 milhões por ano aos cofres públicos. Com isso, dá a entender que o Estado não tem dinheiro o suficiente para arcar com um bom salário.

    Mas isso é simplesmente falso. Só em 2017, o Brasil deixou de arrecadar R$ 354,7 bilhões com isenções de impostos para grandes empresas. São medidas como essa, em favor dos mais ricos, que fazem com que o Brasil seja um dos mais desiguais do mundo. Com R$ 354,7 bilhões em um ano, seria possível dobrar o valor do salário-mínimo.

    Outro problema que consome cerca 40% do orçamento federal é o pagamento da chamada dívida pública, grande parte dela contraída de forma ilegal. Enquanto o governo se nega a convocar uma auditoria cidadã da dívida pública, para que a origem e a legalidade dessa dívida sejam investigadas, é o povo brasileiro quem paga a conta.

    Deixem o povo decidir

    Um deputado federal custa, por ano, R$ 2 milhões aos cofres públicos, incluindo diversos privilégios abusivos como R$ 4 mil de auxílio-moradia e ainda o cartão corporativo, com o qual os deputados gastam entre R$ 30 e R$ 45 mil por mês com despesas pessoais. Somando o valor para os 513 deputados, o valor anual chega a R$1,1 bilhão.

    Com esse valor, seria possível aumentar em apenas R$ 3 o valor do salário-mínimo. Mas o que o povo prefere, aumentar em três reais o salário mínimo, ou permitir que os deputados tenham esse salário abusivo e todos esses privilégios? Será que os políticos têm coragem de convocar um plebiscito e deixar que o povo decida isso?

    Ora, se os deputados, senadores, o presidente, o vice e os ministros acreditam que receber apenas R$ 998 por mês é muito pouco, então também é pouco para o povo brasileiro. Pois então que recebam esse valor, ou aumentem o salário-mínimo para um valor justo, para que todo o povo também tenha direito a um salário justo.

    Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

  • ‘Meninos vestem azul e meninas, rosa’ é ideologia

    Em seu discurso de posse, Bolsonaro afirmou que vai “combater a ideologia de gênero” e fazer com que o Brasil fique livre de “amarras ideológicas”. Contraditoriamente, a equipe de Bolsonaro atua em sentido absolutamente contrário, impondo suas ideologias sobre todo o povo, como fez a ministra Damares ao afirmar que “meninos vestem azul e meninas vestem rosa”. Dizem combater ideologias para poderem criar suas próprias amarras ideológicas, que são apresentadas como fatos incontestáveis.

    Existem várias formas de definir o conceito de ideologia. Os fundamentalistas, por exemplo, consideram “ideologia” como um conjunto de ideias que são contrárias aos “fatos”, à ordem “natural” das coisas. A conclusão “lógica” é que existiriam leis naturais que fazem com que meninos usem azul e meninas usem rosa.

    Mas que lei natural é esta? Por acaso a pele dos meninos queimam quando vestem rosa? É óbvio que não, não existe nenhuma lei biológica, química ou física que determina os comportamentos dos sexos. A obrigação a que meninos usem roupas e brinquedos de determinadas cores e formas, enquanto as meninas usem roupas e brinquedos de outras cores e formas, é apenas uma ideologia. Ou seja, é uma ideia que faz com que os seres humanos se comportem de determinada forma, sem haver nenhuma justificativa racional para isso.

    Historicamente, a ideologia de que azul é cor masculina e rosa é cor feminina foi criada no século XX e só se consolidou por volta de 1980. Em 1927, por exemplo, um artigo da revista Time mostrou que três lojas de departamento vendiam produtos rosa para meninos e azul para meninas, enquanto outras três vendiam azul para meninos e rosa para meninas e uma vendia rosa para ambos os sexos.

    Afinal, o que é natural?

    Natural é, por exemplo, que crianças gostem de doces. Ninguém precisa obrigar as crianças a gostarem de doces, nem proibir que elas gostem de jiló ou de brócolis para que elas gostem de doces. Da mesma forma, se fosse natural que meninos gostem de azul e as meninas, de rosa, não haveria nenhuma razão em obrigar as crianças a vestir-se “conforme” seu gênero, muito menos em constranger, humilhar, ou castigar crianças que usem roupas da cor “errada”.

    O natural não é a padronização, mas sim a diversidade. Os seres humanos têm diversas preferências por cor, sabor, cheiro, forma, atividades, música, etc, e nada disso tem a ver com a biologia ou a genitália. Tudo isso é absolutamente natural. Apenas uma ideologia é capaz de criar e separar as pessoas em dois grupos – o dos homens e o das mulheres – e determinar tudo o que cada um desses grupos pode ou não fazer, gostar, sentir, cheirar, amar. E não há nenhuma justificativa racional para isso.

    O fato da ministra ter se preocupado em proferir uma frase estúpida como essa demonstra justamente que essa ideologia não é nada natural. Se fosse, os conservadores não estariam preocupados em preservá-la, pois ela se preservaria naturalmente.

    Também não há nenhuma lei natural que diga, por exemplo, que meninos e homens não possam lavar louça, lavar e passar roupa ou varrer o chão. Ora, qualquer pessoa que tenha dois braços, duas pernas e alguma inteligência é capaz de desempenhar qualquer dessas tarefas. Alguém é capaz de contestar que os homens, em geral, também têm dois braços, duas pernas e um pouco que inteligência? Tudo isso independe das características sexuais, afinal, não se usa a genitália em nenhuma dessas tarefas. Apenas uma pessoa com deficiência física, mental, intelectual ou alguma restrição motora tem direito de dizer que não é capaz de passar roupa, lavar louça e roupa ou varrer o chão.

    O que realmente querem os fundamentalistas?

    Os fundamentalistas religiosos, como a ministra Damares e o presidente Bolsonaro, afirmam estarem preocupados em preservar o que é “normal” ou “natural”, mas na verdade querem preservar justamente o que não é natural. Afinal de contas, essa ideologia permite que eles ganhem dinheiro, poder e votos.

    Fonte da imagem: Blog Prof. Sepulveda
  • O povo bêbado e a esperança equilibrista

    “Não concordo com o que dizes, mas defendo até a morte o direito de o dizeres.”
    Voltaire

    Após Roger Waters declarar-se contra Bolsonaro, muitos disseram: artistas não podem ter posição política. Ações truculentas da polícia em universidades repetiram: estudantes não podem se posicionar. O projeto Escola Sem Partido quer fazer o mesmo com professores. É conveniente resgatar a história dos artistas que se opuseram à ditadura, em especial da música “O bêbado e a equilibrista”, cantada por Elis Regina, muito significativa e que poucos compreendem.

    Entendendo a música aos poucos
    A letra é de Aldir Blanc e música é de João Bosco. Como regra das músicas escritas contra a Ditadura Militar, esta é bastante obscura e cheia de metáforas. Começamos então pela quarta estrofe, que é mais fácil de compreender:

    Meu Brasil que sonha com a volta do irmão do Henfil
    Com tanta gente que partiu num rabo de foguete
    Chora a nossa pátria mãe gentil
    Choram Marias e Clarisses no solo do Brasil

    Henfil, apelido do cartunista e jornalista Henrique Filho, foi exilado pela Ditadura, assim como seu irmão, Betinho, sociólogo e ativista de direitos humanos. Clarice era esposa do jornalista Vladimir Herzog, cujo homicídio foi muito mal forjado como suicídio por enforcamento numa cela do DOI-CODI, onde eram realizadas torturas no período ditatorial. Maria era esposa do metalúrgico Manoel Fiel Filho, também torturado até a morte, por supostamente fazer parte do Partido Comunista Brasileiro.

    Marias e Clarisses está no plural, evidenciando que foram muitos os torturados, exilados e assassinados pela Ditadura.

    A identidade da equilibrista fica evidente neste trecho da estrofe seguinte:

    A esperança
    Dança na corda bamba de sombrinha
    E em cada passo dessa linha
    Pode se machucar

    É a esperança, que estava literalmente na corda bamba, de que a ditadura terminasse.

    Mas e o bêbado? Quem é? É alguém que está, ao mesmo tempo, bêbado e de luto e que faz “irreverências mil” à “Noite do Brasil”. A noite do Brasil, naturalmente, simboliza o período sombrio pelo qual o país passava, ou seja, a Ditadura. Alguns textos que encontrei pela Internet consideram que o bêbado seja “a classe artística”, mas acredito que a melhor interpretação é que o bêbado seja o povo brasileiro, que, ludibriado, não sabia o que estava acontecendo de fato.

    Agora, do começo:

    Caía a tarde feito um viaduto
    E um bêbado trajando luto
    Me lembrou Carlitos

    O primeiro verso é irônico e remete a um viaduto que desabou em 1971, matando e ferindo várias pessoas, sem que nenhuma delas fosse indenizada, o Viaduto Paulo de Frontin, no Rio de Janeiro, ainda em construção. A maior parte do povo seguia bêbada com o “milagre econômico” pelo qual o Brasil passava. Ao mesmo tempo, outra parte do povo estava de luto. Daí a contradição do bêbado trajando luto.

    A Lua
    Tal qual a dona do bordel
    Pedia a cada estrela fria
    Um brilho de aluguel

    A Lua, sem brilho próprio, representa o governo, que não tinha popularidade e precisou da ajuda de vários políticos e outros aliados, que se venderam para apoiar a Ditadura.

    E nuvens
    Lá no mata-borrão do céu
    Chupavam manchas torturadas
    Que sufoco!
    Louco!
    O bêbado com chapéu-coco
    Fazia irreverências mil
    Pra noite do Brasil.

    Mata-borrão era usado para absorver o excesso de tinta das canetas-tinteiro, evitando que esse excesso borrasse o papel. O papel das nuvens, portanto, era absorver as “manchas” das torturas, escondendo o que realmente acontecia nos porões do DOI-CODI. E o povo, mesmo bêbado, fazia várias demonstrações de irreverência.

    Depois da quarta estrofe (Meu Brasil que sonha…), vêm os seguintes versos:

    Mas sei, que uma dor
    Assim pungente
    Não há de ser inutilmente
    A esperança (…)

    A dor pungente sofrida não é inútil. Ainda existe esperaça, mesmo que ela esteja na corda bamba.

    A equipe de campanha do Bolsonaro, que acredita que a “solução” do Brasil é proibir todo ponto de vista, toda opinião à qual eles se opões. Como se discutir opiniões divergentes fosse ruim. Como se proibir que nós, da esquerda, defendamos nossa opinião sobre a política resolvesse os diversos problemas pelo qual o Brasil passa.

    A solução do Brasil não passa por proibir discussões nem por reprimir os “vermelhos”, ou seja, todo mundo que se opõe àquele que se apresenta como “salvação” do país. Pelo contrário.

    Azar!
    A esperança equilibrista
    Sabe que o show de todo artista
    Tem que continuar.

    FOTO: Henfil e Betinho. EBC / Caminhos da Reportagem

     

  • O PT quer transformar o Brasil numa Venezuela?

    Muitas notícias têm sido disseminadas, principalmente por Whatsapp. Como se sabe, muitas delas são notícias falsas, fake news. Vamos discutir aquelas que associam a política do PT ao governo venezuelano. Sem preconceito, vamos encarar esse assunto usando fatos e notícias reais.

    Quem defende a ditadura?

    Hoje, a Venezuela tem um governo populista, autoritário e que aprova várias medidas antidemocráticas. Apenas para dar um exemplo, o país possui 59 partidos, mas obrigou todos os partidos com menos de 1% dos votos e os que não participaram das duas eleições anteriores a se recadastrarem. Como resultado, 37 dos 59 partidos foram jogados na ilegalidade.

    O Brasil aprovou recentemente uma medida que também coloca, na prática, partidos pequenos quase fora da disputa. A EC 97/2017 proíbe acesso ao fundo partidário e ao tempo de TV dos partidos que não atingiram 1,5% dos votos para a Câmara dos Deputados em 2018. Este ano, 14 partidos não atingiram a cláusula de barreira. Nos anos seguintes, esse número deverá ser maior, já que o percentual aumentará 0,5% a cada quatro anos até 2030, quando chegará a 3% dos votos.

    Esta é apenas uma das várias medidas antidemocráticas das reformas eleitorais de 2015 e 2017. São medidas que fortalecem ainda mais os grandes partidos e aumentam a desigualdade de condições para os partidos médios e pequenos. Elas foram aprovadas por quase todo o Congresso, com votos do PSDB, PMDB, PT e vários outros partidos, inclusive o PSL, atual partido do Bolsonaro, que votou a favor da Reforma Eleitoral de 2015 proposta por Eduardo Cunha. O PSOL foi o único partido a coerentemente votar contra todas essas medidas antidemocráticas.

    Estão associando o PT ao regime venezuelano por causa da proposta de constituinte de Haddad. Infelizmente, o petista retirou a proposta, que é um processo muito democrático, onde o povo discute e elege representantes para elaborar uma nova constituição para o país. Um processo onde todo o povo é chamado a colaborar, o que nunca aconteceu no Brasil, mas é a forma que os países mais democráticos do mundo elaboraram suas constituições. É um equívoco acreditar que uma constituinte no Brasil seria como na Venezuela, onde foram só eleitas pessoas que apoiam o regime chavista. Ora, no Brasil, o PT não tem qualquer controle sobre as eleições, que são reguladas pelo TSE. O TSE já deu várias provas de que não é petista.

    A verdade é que PT, durante seus 14 anos de governo, cometeu muitos erros, fez muitas medidas ruins e até antidemocráticas, mas atuou sempre dentro das regras democráticas. Mesmo com seu principal líder tendo sido preso sem provas e impedido de participar das eleições em um processo jurídico nitidamente político, o PT continuou atuando dentro das regras: Lula se entregou e não chamou nenhuma revolta para forçar sua saída da prisão.

    Haddad, durante a campanha, não fez nenhuma ameaça de burlar as regras do jogo, ao contrário de seu adversário neste segundo turno. Bolsonaro já declarou que é incapaz de aceitar uma derrota no jogo eleitoral. O candidato também disse que vai “botar um ponto final em todo ativismo no Brasil” (sic). Ele está nitidamente declarando que não vai aceitar nenhum tipo de mobilização contra seu governo. Será proibido fazer reuniões, entregar panfletos para dialogar com a população, fazer manifestações, greves, piquetes, etc.

    A aversão do candidato da extrema-direita ao debate vem de muito tempo. Por exemplo, apenas dois anos atrás, Bolsonaro mandou, aos berros, um menino calar a boca porque se sentiu incomodado com a pergunta que ele fez. Se ele é incapaz de aceitar críticas agora, mesmo de uma criança, como vai reagir às críticas se for eleito e tiver, à sua disposição, todo o Estado brasileiro para ameaçar, intimidar, processar e reprimir qualquer grupo que se mobilize contra ele?

    O desastre econômico venezuelano

    O motivo mais óbvio para que muitos temam que o Brasil se torne uma Venezuela é o recente desastre econômico neste país, que está fazendo boa parte da população passar fome e querer fugir do país.

    Mas o que levou a essa crise? Infelizmente, há várias décadas, o governo venezuelano adotou a política de criar uma matriz econômica nacional que depende quase exclusivamente do petróleo. Recentemente, uma queda brusca no petróleo levou à crise que vemos hoje.

    É preciso levar em conta também o bloqueio econômico criminoso que os Estados Unidos impuseram àquele país. Um país em crise deve ser ajudado com solidariedade, não com boicote, locaute e outras políticas que agravam a situação econômica do país. Não é à toa que a população continua confiando no governo e se opondo aos EUA.

    Para impedir que ocorram crises como essa no Brasil, é preciso investir numa matriz econômica diversificada e nacional, que não dependa de investimentos estrangeiros. É preciso industrializar o país e reativar as refinarias de petróleo da Petrobrás.

    Para que isso aconteça, o mercado nacional precisa ser protegido do mercado estrangeiro. As importações devem ser taxadas, para que a indústria nacional tenha espaço para crescer. Caso contrário, as mercadorias baratas do estrangeiro vão acabar com todo o espaço para a concorrência da indústria nacional.

    Ora, Fernando Haddad propõe continuar com a política de cobrar impostos sobre as importações, o que é fundamental para garantir a proteção do mercado nacional. Jair Bolsonaro e seu economista Paulo Guedes, pelo contrário, querem escancarar as portas do mercado, o que vai levar a uma desindustrialização do país.

    Cuidado com o Whatsapp

    Infelizmente, as pessoas estão recebendo todo tipo de fake news pelo Whatsapp de forma acrítica. Notícias absurdas são disseminadas como verdade, tudo com um único objetivo: difamar o PT. Tudo que é contra o PT se torna verdade. Tudo que é contra o Bolsonaro se torna mentira. Ora, podemos fazer oposição às medidas do PT sem cair nessas armadilhas.

    Eu não sou petista. Não concordo com a política do PT, mas votaria em qualquer outro candidato que estivesse contra o Bolsonaro neste turno. É preciso barrar esse projeto autoritário e neoliberal radical de país. Voto 13 para ter direito de me opor ao governo nos próximos quatro anos, para continuar tendo o direito de me manifestar nas ruas contra ele, direito que sempre foi preservado nos 14 anos de governo do PT. Voto 13 para ter direito de votar em outros partidos nas próximas eleições.

  • Pesquisas eleitorais: Como são feitas? São confiáveis?

    As pesquisas eleitorais estão sendo feitas a todo vapor. Neste ano, causaram muita polêmica, particularmente nas redes sociais. Infelizmente, muitas pessoas têm dificuldade de entendê-las e desconhecem qual é o nível de confiabilidade delas. Vamos estudar como as pesquisas eleitorais funcionam?

    Como é feita uma estimativa estatística? O que garante seu resultado?

    Matemática é abstração. Imaginemos, então, uma moeda. Queremos fazer uma pesquisa estatística para verificar se a moeda é viciada, ou seja, se ela foi feita para dar mais cara do que coroa, ou o inverso. Se ela não for viciada, sabemos que, ao jogarmos ela para cima, temos 50% de probabilidade de dar cara, 50% de probabilidade de dar coroa.

    O que acontece se nós jogarmos essa moeda 2500 vezes? Neste caso, é quase impossível obtermos um resultado exato, isto é, 1250 vezes cara. Mas é muito mais improvável obter nenhuma cara, por exemplo. Nós sabemos que o mais provável é que a quantidade de caras fique em torno de 1250, podendo ser um pouco mais ou um pouco menos.

    Calculando matematicamente, temos que, se a moeda não for viciada, nossa pesquisa tem 95% de chance de dar entre 1200 e 1300 vezes cara. Invertendo o raciocínio, se a pesquisa obtiver um valor fora da margem de erro (menor que 1200 ou maior que 1300 vezes cara), então temos 5% de chance de ser “azar” da pesquisa e 95% de chance de a moeda realmente ser viciada. Neste caso, dizemos que o nível de confiança da pesquisa é 95% e que sua margem de erro é de 2% (que corresponde a 50 jogadas).

    Agora, voltemos à questão eleitoral e suponha que exatamente 50% da população pretende votar no João da Silva. Se nós tomarmos aleatoriamente uma pessoa e perguntarmos em quem ela vai votar, então temos 50% de chance de ela responder que vai votar no João da Silva, correto? O problema, estatisticamente, é o mesmo. Assim, tomando 2500 pessoas aleatoriamente na população, temos 95% de chance de que as intenções de voto de João da Silva fiquem entre 48% e 52% na nossa pesquisa eleitoral. Novamente, a pesquisa tem nível de confiança de 95% e margem de erro de 2%.

    Para obter o nível de confiança de 95%, a margem de erro é dada pela equação

    onde ‘n’ é o número de pessoas que participaram da pesquisa. Esta é a fórmula usada nas principais pesquisas.

    Pesquisas teóricas versus pesquisas reais

    Tudo o que discutimos até agora valeria para uma pesquisa em abstrato, onde conseguimos escolher 2500 pessoas aleatoriamente da população. Todas as pessoas da população devem ter a mesma chance de serem escolhidas. Nós chamamos isso de amostra aleatória. Isso significaria, por exemplo, escrever o nome e o endereço de cada eleitor em um papelzinho, dobrar todos os papéis e sortear 2500 papeizinhos.

    “Mas não seria possível,” perguntaria alguém, “ir a uma praça e perguntar para quaisquer 2500 pessoas?” Seria possível, mas o resultado não seria tão confiável. Afinal, significa que as pessoas que normalmente frequentam aquela praça (por exemplo, quem mora mais perto) têm mais chances de serem escolhidas do que as que frequentam menos vezes aquela praça (por exemplo, quem mora mais longe).

    Métodos desse tipo tendem a super-representar um determinado setor da população e sub-representar outro setor. Por exemplo, uma pesquisa no centro da cidade sub-representa quem mora na periferia, uma pesquisa num Shopping sub-representa pessoas com rendas mais baixas. Uma pesquisa por telefone (como a pesquisa realizada pela Datapoder360) sub-representa setores da população que não têm condições ou tempo de ficar meia hora ao telefone para responder uma pesquisa com uma voz eletrônica – quem trabalha o dia inteiro, por exemplo.

    Mas e quanto aos eleitores sorteados que não respondem à pesquisa? Esta é mais uma fonte de erros. Infelizmente, as pessoas que não respondem à pesquisa representam um setor da população: o setor da população que não quer ou não tem condições de responder a pesquisas eleitorais. Este setor pode ter opiniões políticas diferentes do resto da população.

    Uma amostra aleatória é impossível na prática. Por isso, institutos de pesquisa criaram métodos “mais ou menos” aleatórios, buscando sempre representar pessoas de diversas faixas de renda, idade, sexo, raça, etc, na mesma proporção que eles existem na sociedade em geral. Para isso, sorteiam-se cidades, bairros, pontos de fluxo, etc, e as pessoas ali são entrevistadas, seguindo-se um determinado questionário que vai determinar se a pessoa tem o perfil esperado para responder à pesquisa.

    O problema é que uma amostra “mais ou menos” aleatória não é igual a uma amostra aleatória. Por isso, na prática, a margem de erro das pesquisas reais é maior do que a margem de erro divulgada pelos institutos, pois esta corresponde a uma amostra aleatória.

    Uma estimativa: quanto as pesquisas erram?


    Fizemos uma estimativa usando dados das eleições anteriores para presidente dos anos 2002 a 2014. Utilizamos os dados a última pesquisa dos institutos Ibope e Datafolha feitas antes do dia da eleição, obtidas na base de dados do Poder 360. (https://www.poder360.com.br/arquivo/) Depois os comparamos aos resultados das eleições, obtidos do site do TSE. (http://www.tse.jus.br/eleicoes/eleicoes-anteriores/eleicoes-anteriores) Consideramos apenas os candidatos que obtiveram mais de 5% dos votos válidos nas eleições, o que totalizou 21 estimativas de candidatos. Ambos institutos relataram nível de confiança de 95% e margem de erro 2%.

    Tomando o valor absoluto (isto é, desconsiderando o sinal) da diferença entre a pesquisa de intenções de voto com os votos de cada candidato nas eleições, produzimos o gráfico a seguir.

     

    Os mesmos valores mostram que, em média, o Ibope errou 2,2% (desvio padrão 2,3%) nas estimativas e a Datafolha, 2,1% (desvio padrão 1,6%). Considerando apenas as pesquisas de boca de urna realizadas pelo Ibope nos anos 2006 (1º e 2º turno) e 2010 (apenas 1º turno), o erro em média foi de 2,3% (desvio padrão 1,1%).

    Apesar de termos poucos dados, os erros das pesquisas estão bem acima da margem de erro de 2% para o nível de confiança de 95%, que é o que os institutos alegam. Se a margem de erro fosse de 2%, então por volta de 95% dos valores acima estariam abaixo de 2%. Porém, das 21 estimativas do Ibope representadas no gráfico, apenas 14 (ou seja, 67% dos valores) estão abaixo de 2%, e das estimativas da Datafolha, apenas 11 (ou seja, 52% dos valores) estão abaixo de 2%.

    Se a margem de erro considerada fosse de 4%, teríamos que 17 estimativas de intenção de voto do Ibope foram acertadas (81%) e 19 estimativas de intenção de voto da Datafolha também foram acertadas (90%).

    Assim, podemos dizer que as pesquisas eleitorais têm margem de erro maior do que relatam, mas ainda assim são um retrato momentâneo próximo à realidade.

  • LGBTIs no mundo: A Índia e a descriminalização da homossexualidade

    Na quinta-feira, dia 06, a Suprema Corte deliberou anulando o artigo 377 do Código Penal indiano, uma lei colonial instituída pelo Império Britânico que criminalizava relações entre pessoas do mesmo sexo. A lei, criada em 1861, foi a primeira instaurada em todo o território da atual Índia. Vamos estudar um pouco a questão LGBTI associada à história da Índia.

    Um pouco de história
    Se viajarmos a um dos templos de Khajuraho, construídos entre os anos 950 e 1050, do lado exterior encontraremos várias esculturas de pessoas comuns representando a vida social: mulheres a colocar maquilhagem, músicos, oleiros, camponeses e também relações sexuais. Sexo entre duas ou mais pessoas, em variadas posições e formas, com nudez explícita, visível para o público. Algumas delas são entre pessoas do mesmo sexo.

    No templo Rajarani, localizado em Bhubaneswar, há outra escultura de duas mulheres fazendo sexo oral. O deus Shiva unido à sua consorte Parvati tornam-se uma divindade andrógina, Ardhanarisvara.

    Escultura de Ardhanarisvara, fusão entre Shiva e sua consorte Parvati, localizada nas Grutas de Elefanta, próximo a Mumbai.

    Estes são apenas alguns exemplos de diversidade sexual e de gênero associadas à religião Hindu, que é a crença predominante na Índia há milênios. Em particular, há uma relação muito forte de tradições hindus com pessoas do terceiro gênero, hoje majoritariamente representadas pelas hijras.

    Não é verdade que todas as tradições hindus aceitam ou sempre aceitaram relações sexuais entre homens ou entre mulheres. Entretanto, é verdade que nenhuma delas punia pessoas que se engajassem nesse tipo de relação senão com uma pequena multa ou com alguns rituais religiosos envolvendo comer produtos derivados da vaca e jejum.

    Essa situação tornou-se bem distinta quando Portugal colonizou a região de Goa, que atualmente é um estado indiano, entre 1510 e 1961. O reino português inaugurou a Inquisição de Goa em 1536, com o objetivo de perseguir “hereges” islâmicos e hindus. O suposto “crime” de “sodomia” (como era chamada a relação sexual entre dois homens) era punida com a morte.

    Em 1526, um descendente de Gengis Khan, Babur, conquistou o subcontinente indiano e fundou o Império Mogol (não confundir com Mongol), que abrangia grande parte do território da atual Índia, além dos territórios dos atuais Bangladesh, Paquistão e Afeganistão. A cultura persa e islâmica da dinastia não considerava relações sexuais entre homens de forma negativa. Pelo contrário: a essas relações eram uma prática bastante comum no islamismo do Sul da Ásia. Aliás, o próprio Babur sentia atração sexual apenas por homens, para tristeza de sua esposa.

    Em 1857, o Reino Unido invadiu e conquistou o Império Mogol, e quatro anos depois a lei criminalizando a homossexualidade foi criada, com pena de 10 anos de prisão, que poderia ser agravada à pena de prisão perpétua.

    Índia na atualidade
    Na atualidade, a Índia é um poço de contradições. Por um lado, a própria existência das hijras, que são parecidas com as travestis na América Latina, é considerada sagrada por algumas correntes hindus até hoje. Em 2014, a Suprema Corte na Índia determinou que, no censo, o campo “gênero” deveria conter a opção “transgênero”. Muitas autoridades levaram um “susto”: 488 mil pessoas se declararam transgêneras. A maior parte das pessoas que escolheram esta opção são hijras.

    No censo, outra questão surpreendente foi a quantidade de crianças de 5 anos que foram declaradas como hijras pelos pais. Ao contrário de ser uma vergonha, para essas mães e pais, ter uma filha hijra é uma honra.

    Apesar de serem consideradas sagradas, no geral, elas têm condições de vida bem precárias. Muitas delas vivem na prostituição ou na mendigagem, sendo que ambas as atividades econômicas são proibidas na Índia. Aliás, qualquer relação sexual com uma hijra se enquadrava no artigo 377 do Código Penal indiano. Ou seja, pela lei, as hijras devem viver como celibatas.

    Isso não impede, entretanto, que muitos policiais agridam, estuprem essas hijras, às vezes em troca de não as levar presas. Há, inclusive, vários relatos de estupros coletivos de hijras por policiais dentro de um trem.

    O movimento LGBTI
    O movimento LGBTI, entretanto, não se deixou abater. Principalmente desde 2008, Paradas LGBTs aconteceram em várias grandes cidades da Índia. A Parada de Mumbai, a cidade mais populosa, acontece desde 2008 com o nome Marcha Queer Azaadi de Mumbai. Em 2008, foram apenas 500 participantes, mas em 2017 esse número cresceu para 14 mil.

    A inclusão das hijras no censo indiano de 2014 e a descriminalização da homossexualidade na última quinta-feira mostram que a luta LGBTI vale a pena e consegue obter conquistas concretas. Viva as LGBTIs da Índia!

    LEIA TAMBÉM
    Artigo sobre a situação LGBTI na África, de Jéssica Milaré.

     

  • 42% das candidaturas trans destas eleições são do PSOL/PCB

     

    Segundo informações da ANTRA, serão 53 candidaturas trans este ano. Destas, 20 estão pelo PSOL e 2 pelo PCB. PSOL também é o partido com mais candidaturas LGBT, abrigando mais de 20% do total de 160, segundo a Aliança Nacional LGBTI.

    Em números de candidatas trans, a chapa vence, com larga vantagem, de todas as outras chapas. A chapa PT/PCdoB/PROS fica em segundo, com menos da metade: 10 candidatas.

    O número de candidaturas trans de 2018 é dez vezes o de 2014, quando concorreram apenas 5 candidatas trans.

    A única candidata trans ao Senado é Duda Salabert, pelo PSOL em MG. As demais 52 candidaturas trans são: 02 candidatas a Dep. Distrital pelo DF, 17 a Dep. Federal, e 32 Dep. Estadual. Destas, 6 candidatas a Deputada Federal são do PSOL e uma do PCB, 13 candidatas a Deputada Estadual do PSOL e uma do PCB.

    Os dados referem-se às candidaturas registradas. É possível que algumas dessas candidaturas tenham desistido de fazer campanha.

    Mudanças que ajudaram nesses números

    Algumas vitórias do movimento trans possibilitaram o aumento da quantidade de candidatas e candidatos trans neste ano.

    Uma delas é que, por determinação do TSE, as candidatas mulheres transexuais passam a concorrer dentro da cota destinada ao gênero feminino nas legendas com o mesmo direito ao fundo partidário que as demais mulheres. Isso nos coloca em pé de igualdade com as mulheres cis para participarmos das eleições.

    Outra mudança fundamental é que, este ano, foi possível, pela primeira vez, o registro das candidaturas pelo nome social. Isso faz com que os nomes de batismo das pessoas trans não fiquem expostos ao público. Agora também temos direito ao nome social no título eleitoral.

    Contra a transfobia, em defesa do socialismo!

    Nós sabemos que só a luta muda a vida. As pessoas trans sabem disso, afinal, ganhamos muitas conquistas com nossas lutas. Sendo assim, não é de se estranhar que uma chapa formada por uma aliança entre dois partidos, PSOL e PCB, junto com os movimentos sociais MTST, APIB e Mídia Ninja. A nossa chapa é uma chapa de luta, em defesa do socialismo, das mulheres, pessoas negras e LGBTs. É a chapa que vai defender os direitos das pessoas trans nessas eleições e também depois delas.

    Veja, abaixo, a lista das candidaturas desta chapa

    Ceará:

    Helena Vieira – Dep. Federal – PSOL

    Goiás:

    Geovanna – Dep. Estadual – PSOL

    Minas Gerais:

    Duda Salabert – Senadora – PSOL

    Leandrinha Du Art – Dep. Federal – PSOL

    Camila Oliveira – Dep. Estadual – PCB

    Juhlia Santos – Dep. Estadual – PSOL

    Mato Grosso:

    Adriana Liário – Dep. Federal – PSOL

    Pará:

    Adriana Lopes – Dep. Estadual – PSOL

    Pernambuco:

    Amanda Palha – Dep. Federal – PCB

    Robeyoncé Lima – Dep. Estadual – PSOL

    Rio de Janeiro:

    Barbara Aires – Dep. Estadual – PSOL

    Danielle Nunes Mulher – Dep. Estadual – PSOL

    Rio Grande do Norte:

    Lara Bianck – Dep. Estadual – PSOL

    Rio Grande do Sul:

    Luíza Eduarda – Dep. Federal – PSOL

    Santa Catarina:

    Luíza Bittencourt – Dep. Federal – PSOL

    Sergipe:

    Linda Brasil – Dep. Estadual – PSOL

    São Paulo:

    Renata Peron – Dep. Federal – PSOL

    Erika Hilton – Dep. Estadual (Bancada Ativista) – PSOL

    Profa. Luiza Coppieters – Dep. Estadual – PSOL (obs: desistiu de concorrer)

    Erika Malunginho – Dep. Estadual – PSOL

    Alexya Salvador – Dep. Estadual – PSOL

    Hailey Kaas – Dep. Estadual – PSOL

    Imagem: Transfeminsmo