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Meu nome é Jéssica

Jéssica Milaré

Jéssica Milaré, travesti, bissexual, doutoranda em Matemática pela Unicamp, militante LGBT, transfeminista e do PSOL, membro da Associação da Parada do Orgulho LGBT de Campinas.

A vida é uma mudança constante. Ao contrário do que dizia o doutor House, as pessoas mudam e isso faz parte de quem elas são. Um ser humano não é um retrato momentâneo dele mesmo neste instante, não, ele é sua própria história: é a relação entre o presente, o passado e as infinitas possibilidades do futuro.

Quem conhece a Jéssica de hoje, mas não me conheceu há dez anos, não me reconheceria. Não só pela aparência “masculina”, as calças ou bermudas largas, camiseta, óculos numa armação fina e discreta, cabelo em pé (mesmo quando estava crescido), cavanhaque, ou a barba (arg!) malfeita na maioria do tempo. Mas também pela personalidade. O medo do preconceito que nasceu nos tempos de escola me fez construir uma fantasia, um boneco de mim mesma. A pessoa que eu era, na verdade, eu nunca fui.

Não cuidava da minha aparência justamente porque não gostava dela de nenhum jeito, cuidada ou malcuidada. Tinha uma tonelada de insegurança sempre presa em minhas costas, que me dificultava, impedia de me socializar. Tornei-me uma pessoa tímida, reclusa, focada sempre em meus próprios pensamentos – e nos problemas de matemática e lógica.

Em 2011, oito anos atrás, eu já era estudante de Doutorado em Matemática na Unicamp, adorava problemas matemáticos, desafios, revistinhas de sudoku ou de problemas de lógica de vez em quando, programação sem compromisso, viciada em jogos de computador. Entrar no curso de Matemática foi uma forma que eu encontrei de deixar para trás todas as perseguições que sofri durante a infância e a adolescência, todo o bullying, os traumas, a violência, os conflitos psicológicos. Aquela que eu realmente era, aquela menina que quando criança fantasiei estava dentro de mim, trancada numa jaula, sem ar para respirar, asas atrofiadas, olhos sem cor, triste.

Nessa época, comecei a me encontrar com alguns amigos gays na saída do bandejão – eram amigos de um amigo meu, um colega de turma nos primeiros anos da graduação. Eu sentia, lógico, um estranhamento de estar naquele meio, especialmente quando eles começavam a falar de homens. Não, eu definitivamente não era gay, mas tinha algo em comum com eles: o preconceito, a opressão que eu sofria.

No ano seguinte, conheci outra estudante, mulher trans. Suas discussões nas redes sociais me deixaram com uma pulga atrás da orelha. Nunca tinha me permitido perguntar se eu me sentia garoto. Quer dizer, eu havia enterrado meus próprios pensamentos por culpa – eu era uma pessoa bem religiosa e dogmática. Mas naquele momento eu os desenterrei.

Deixei de lado a culpa e finalmente aquela pergunta chegou à minha cabeça: será mesmo que eu sou um homem? Eu me sinto assim? Levantei-me da minha cama, fui até o espelho no banheiro daquela quitinete em que morava, olhei no fundo dos meus olhos e perguntei: você se vê como homem?

A resposta entrou na minha cabeça e nunca mais saiu. Não, óbvio que não, eu nunca me vi assim, nunca quis me ver assim. Ora, na verdade, eu nunca tinha tido coragem de dizer para mim mesma o contrário disso, nunca disse sobre mim mesma que eu era um homem. Um grande fluxo de pensamentos tomou conta de minha mente e eu, como faço quando estou pensativa, andava de um lado para o outro, abismada com o quanto isso fazia sentido com toda a minha vida. Certamente, quem me olhava de fora não pensaria assim, mas eu tinha a privilegiada visão de dentro.

Cada vez que eu rejeitava algo visto como feminino era porque tinha medo de como as outras pessoas me veriam, era medo de admitir que aquilo me atraía. Quando repreendi várias vezes meu colega de escola por assistir Chiquititas, pois ele era menino, na verdade era inveja, eu tinha muita vontade de assistir, mas tinha medo. Aquela camiseta rosa que ganhei, a sunga azul e rosa, a blusa verde-claro, eram lindas, mas não queria usar, tinha medo.

Foi assim que comecei a descobrir essa nova pessoa, a menina/mulher que eu sempre fui, mas que nunca tive coragem de deixar sair. “Não posso mais viver aqui dentro”, dizia ela, “minhas pernas estão formigando, preciso respirar!” Aos poucos, essa mulher foi tomando conta de mim, suas asas ganharam força e brilho. Ela levou vários tombos, mas aprendeu a voar.

Aprendi a voar e nunca mais quis pousar. Prazer, meu nome é Jéssica.

 

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