Baú de ossos da cultura: Da Idade do Ouro à Idade do Ferro (Parte 2)

Paulo César de Carvalho

Paulo Cesar de Carvalho, o Paulinho, é bacharel em Direito (USP), mestre em Linguística e Semiótica (USP), professor de Língua Portuguesa (lecionou na ECA-USP) e autor de materiais didáticos de Gramática, Redação e Interpretação de Texto. Publicou seis livros de poesia, constando em antologias literárias no Brasil e em Portugal (como em É agora como nunca, da Companhia das Letras, organizada por Adriana Calcanhoto). Compositor, tem canções gravadas por diversos músicos da cena contemporânea. Foi militante da organização trotskista Convergência Socialista.

Não é preciso ser muito esperto para perceber que um coletor de alimentos (…), um pescador ou caçador de aves existiram muito antes da produção de alimentos em forma de horticultura ou criação de gado. Ou que as ferramentas de pedra precederam as de metal; que a palavra precedeu a escrita; que as cavernas existiram antes das aldeias; que a troca de bens precedeu a moeda. Numa escala histórica geral, essas sequências são absolutamente invioláveis. (George Novack, A lei do desenvolvimento desigual e combinado da sociedade, Dag Gráfica e Editorial, 1988, p. 29).

PARTE 2 – Síntese do percurso: considerações sobre o objeto e o método de análise

Quando um texto faz parte de uma série (sobretudo num veículo digital), não pode ignorar que será lido tanto por quem não lembra o que já leu, quanto por quem não poderia lembrar o que nunca foi lido. Assim, para os que se perderam possam se encontrar, e os que acabam de nos encontrar não se percam, é necessário fazer um breve mapa do percurso, mostrando de onde partimos e como chegamos até aqui. As pistas evidentes todos identificam: não é preciso apontar que o eixo temático da coluna é a “cultura” (identificada no alto da página e no título), nem que o Esquerda Online é um órgão marxista. Apesar disso, muitos não sabem, por exemplo, que Marx e Engels não desenvolveram propriamente uma “teoria cultural”, como parte de sua teoria geral do conhecimento. As várias reflexões não sistemáticas da dupla sobre o assunto estão dispersas em sua monumental obra (como A Ideologia Alemã[1] , Miséria da Filosofia e Manuscritos econômico-filosóficos de Paris) e na vasta correspondência que trocaram entre si e com diversos intelectuais e escritores (algumas das quais citadas nesta série).

Diante desse quadro, o propósito da série – que inaugurou a nossa coluna no Esquerda Online – é tentar fazer uma reconstituição sumária do pensamento “cultural” dos teóricos alemães, para propor um esboço preliminar de sistematização do conceito. Como os artigos não se dirigem exclusivamente aos iniciados, mas sobretudo aos que estão começando a estudar o marxismo, não partem do pressuposto de que todos já dominam as ferramentas metodológicas de análise. Por isso, aproveitamos o objeto para esclarecer também o método: nos limites deste espaço, e para não perder de foco na “cultura”, não é possível, obviamente, explicar em detalhes o que é o materialismo histórico e dialético, mostrando em contraste em que medida ele se distingue do idealismo hegeliano. Aliás, para esclarecer um pouco esta perspectiva, vejamos a seguinte observação do filósofo Leandro Konder:

Ele não concebia o conhecimento como o processo real de apropriação do mundo real por parte da consciência de sujeitos reais. O sujeito do conhecimento – na concepção idealista de Hegel – não é o homem concreto, com seu cérebro, com seu corpo, com suas vicissitudes, suas contingências, sua atividade prático-material; é uma consciência abstrata, fetichizada. (Leandro Konder, Os marxistas e a arte, Expressão Popular, São Paulo, 2013, p. 37).

Contrapondo-se a essa maneira “idealista” de ler o mundo (em que é “concebido o homem como o ser que porta em si o porvir do Espírito”), o ponto de partida do materialismo histórico são os homens “como eles são realmente, ou seja, como agem, como produzem (…), como atuam, portanto, em determinados limites, premissas e condições materiais que não dependem de sua vontade”. Nessa linha, o conceito de “cultura” começa a se definir a partir de uma situação concreta. A cultura nasce do enfrentamento objetivo da natureza, quando os homens se distinguem dos animais, passando a produzir os seus próprios meios de subsistência. No trecho a seguir, Marx e Engels demarcam exemplarmente a gênese material e histórica do processo cultural, indicando as coordenadas metodológicas do percurso de análise:

Temos de começar por constatar o primeiro pressuposto de toda a existência humana e, portanto, também de toda a história, a saber, o pressuposto de que os homens têm de estar em condições de viver para poderem ‘fazer história’. Mas da vida fazem parte sobretudo comer e beber, habitação, vestuário e ainda algumas outras coisas. O primeiro ato histórico é, portanto, a produção dos meios para a satisfação dessas necessidades, a produção da própria vida material.[2]

Considerando esse princípio “ontológico do ser social” (nos termos de Lukács), a nossa abordagem do fenômeno da cultura partiu da origem etimológica da palavra, que remete exatamente à base material em que a “ciência da história” se dividiu em “história da natureza” e “história dos homens”. Para salientar o método materialista, sublinhamos que o primeiro sentido do termo “cultura” surge sintomaticamente da “terra”, designando o “ato de plantar”, o “desenvolvimento de atividades agrícolas”, para englobar depois também a “criação de animais”, o “desenvolvimento de atividades pecuárias”. A história cultural do homem, portanto, começa com a produção de meios para obter da natureza condições materiais mais favoráveis de existência. Não é por outra razão que a sabedoria popular reflete esse princípio óbvio na síntese proverbial de que “a necessidade é a mãe da invenção”. 

Abrindo um rápido parêntese, vale notar que, na dialética dos elementos desiguais e combinados da formação da consciência cultural, o registro coletivo e anônimo (do provérbio gestado no ventre do povo) não só esqueceu o nome do renomado pai do aforismo, o filósofo idealista Platão, mas também deu à “ideia anônima” a luz material originária. Aliás, esse breve desvio ajuda a encurtar a distância até a compreensão do objeto e do método, mostrando que a cultura brota da “terra”, floresce no “mundo das coisas”: a cultura não cai do céu, como um milagroso “maná” cultivado no divino útero supremo do “mundo das ideias” para alimentar os famélicos filhos humanos. A necessidade de enfrentar as intempéries climáticas e de se proteger dos predadores é a “mãe” das habitações; a necessidade de matar a fome e não morrer de sede é a “mãe” da agricultura e da pecuária.

Foi da necessidade de se comunicar além dos gestos e desenhos rupestres que se fez o “verbo”; foi quando a fala não podia satisfazer as novas necessidades de comunicação que os homens inventaram a escrita. Não foi uma “Ideia Absoluta”, portanto, que criou o mundo: no princípio não havia um conceito apriorístico inaugural; no início não existia um princípio transcendental fundador (com o perdão das ênfases pleonásticas). Não foi Deus quem disse “faça-se o cobre”, e então o cobre se fez; não foi por um milagre alquímico que do cobre misturado ao zinco e ao estanho fez-se o bronze: o ferro foi gerado no calor da necessidade, metal forjado por mãos humanas em fornos de altas temperaturas que elas mesmas criaram. Não foram mãos divinas que, depois de produzir para satisfazer as necessidades humanas básicas, começaram a trocar os “excedentes” por “bens” que outras mãos produziam: a moeda não caiu do céu para servir como “equivalente geral” desses “produtos” (batizados pela teoria econômica de “mercadorias”); o mercado não foi criado por obra de nenhum Ser Superior.   

Posto isso, escolhemos o trecho do teórico trotskista George Novack exatamente pelo poder de síntese dessas questões centrais problematizadas nos quatro textos anteriores, ilustrando o objeto e do método de análise: para o autor (e para nós), o que interessa “não é a realidade da natureza, e sim a realidade da história e da sociedade humanas”. [3] Como bom marxista, para ele (e para nós) importam os homens de carne e osso, que ocupam simultaneamente os lugares de sujeito e objeto do conhecimento: os homens só podem ser definidos a partir de uma determinada base material de existência, num contexto histórico particular. Retomando Marx e Engels, os homens só podem ser analisados objetivamente a partir do modo “como agem, como produzem (…), como atuam, portanto, em determinados limites, premissas e condições materiais”.

As referências da epígrafe de Novack representam metonimicamente diferentes sujeitos históricos, que se sucedem enfrentando as forças hostis da natureza através de técnicas cada vez mais aprimoradas – a fim de suprir não só as antigas, mas também as (insaciáveis) “novas” necessidades – tornando mais favoráveis as condições materiais de existência. O materialismo está encarnado (o trocadilho enfatiza) nessas figuras concretas que remetem à realidade sensível, ao mundo “natural” em que os homens em carne e osso sempre lutaram objetiva e obstinadamente para sobreviver, seja usando ferramentas de pedra, de cobre, de bronze ou de ferro. A dialética está nas sínteses entre os termos contrários, nos movimentos produzidos pela combinação dos elementos desiguais, pela totalidade resultante da conexão dinâmica entre as partes, na resultante entre as diferentes necessidades dos homens e as suas distintas possibilidades de resolvê-las.

Relembrando mais uma vez a lição dos fundadores do socialismo científico sobre a “natureza” material e dialética da história (o trocadilho é sintomático), “o primeiro ato histórico é, portanto, a produção dos meios para a satisfação dessas necessidades, a produção da própria vida material”. Esse ponto de partida concreto – em que “sobe-se da terra ao céu” [4] – fundamenta o princípio metodológico de que “é a vida que determina a consciência” [5], “de que o espírito tem consigo de antemão a maldição de estar preso à matéria” [6]: “As premissas com que começamos não são arbitrárias, não são dogmas, são premissas reais, e delas só na imaginação se pode abstrair (…). Essas premissas são, portanto, constatáveis de um modo puramente empírico (…). Toda a historiografia tem de partir dessas bases naturais e de sua modificação ao longo da história pela ação dos homens”.[7]

Antes de encerrar, tentemos amarrar ainda um pouco melhor todas essas referências, não só como síntese do percurso, mas também como preparação para o nosso próximo passo. Os exemplos concretos do coletor de alimentos que precede o agricultor, do criador de gado que sucede o caçador, do martelo de pedra que antecipa o de ferro, da casa que substitui a caverna, dos sons guturais que se tornam articulados, das letras que representam os fonemas, da produção para a subsistência que antecede a troca do excedente, da moeda que surge da necessidade de criar um “equivalente geral” dos objetos, enfim, essa ilustração sumária da multifacetada dinâmica de produção e reprodução da vida humana atesta empiricamente que, “numa escala histórica geral, essas sequências são absolutamente invioláveis” (nas últimas palavras de Novack, abstraindo dos variados fenômenos, em distintos níveis de relações, a “lei geral de desenvolvimento” histórico).

Depois dessa retrospectiva, tanto quem chegou agora quanto estava perdido pode acompanhar os percursos temáticos e figurativos desta série que inaugura a nossa coluna de cultura no Esquerda Online, compreendendo a progressão do raciocínio na articulação dos elementos conceituais (de ordem abstrata) e dos elementos materiais (de natureza concreta) recorrentes. Com o perdão dos leitores experientes pelos excessos didáticos (com a atenuante de que eles comprometem menos, em todo o caso, do que as eventuais faltas), antes de concluir, não é demais fazer um breve “resumo da ópera” dos quatro artigos.

No primeiro, a partir da exploração da polissemia da palavra “cultura”, que remete tanto à produção material quanto à espiritual, orientamos a perspectiva de análise da “terra” ao “céu”: com essas emblemáticas figuras usadas na crítica materialista de Marx e Engels à filosofia idealista de Hegel (invertendo o paradigma científico na fundamental obra A ideologia alemã), apresentamos simultaneamente o objeto e o método. Para analisar a cultura na perspectiva metodológica do marxismo, logo, deve-se considerar o pressuposto de que ela, “ao contrário da visão idealista da história, não tem de procurar em todos os períodos uma categoria, pois permanece constantemente no solo histórico; não explica a práxis a partir da ideia, explica a formação das ideias a partir da práxis material”.[8]

No dois textos seguintes, então, sublinhando o princípio de que a matéria (em última instância – sem esquecer a advertência de Engels) é a “mãe” da ideia, recorremos às imagens contrastantes do “macaco” e do “astronauta” do filme 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick: através das figuras do “osso” e da “nave”, correlatas às da “terra” e do “céu”, ilustramos as noções de “cultura material” e “cultura espiritual”, cujo desenvolvimento (“desigual e combinado” – sem esquecer o alerta de Trotski) constitui o acervo dinâmico da “cultura acumulada”. Aliás, sobre este conceito, acrescentemos a seguinte observação da dupla dinâmica do marxismo: “[Na história] em todos os estágios, se encontra um resultado material, uma relação historicamente criada com a natureza e dos indivíduos uns com os outros, que a cada geração é transmitida pela sua predecessora (…), modificada pela nova geração”.[9]

Por fim, no quarto artigo (a cuja primeira parte este quinto texto dá continuidade), utilizamos a conhecida periodização antropológica da “Idade dos Metais”, para traduzir a noção de desenvolvimento das forças produtivas a partir do aprimoramento das técnicas, dos instrumentos de transformação da natureza, que foram ampliando progressivamente as condições materiais de existência. Como nos textos anteriores, a epígrafe cumpriu o papel tático de orientar o percurso analítico: no trecho escolhido para dar sequência ao debate, Marx afirmou ser possível definir a priori o nível de civilização pelo tipo de metal com que determinado povo constrói seus instrumentos. [10] Obviamente, não é preciso dizer que a “pedra polida” implica um avanço técnico em relação à “pedra lascada”, nem explicar que a fabricação de instrumentos de cobre é índice de um grau de desenvolvimento anterior ao do emprego do ferro.

O que importa nessas referências concretas, como ponto de partida, é apreender a “lei geral” de que cada estágio de desenvolvimento das forças produtivas “também prescreve [à geração] as suas próprias condições de vida e lhe dá (…) um caráter especial”: o que significa – num trocadilho típico das sínteses aforismáticas de Marx – que “as circunstâncias fazem os homens tanto quanto os homens fazem as circunstâncias”. [11] Em outras palavras, que os homens, ao produzir, também se produzem; que transformando a realidade, os homens também se transformam. Nessa perspectiva é que se pode dizer, portanto, que o osso na mão do ancestral remoto representa metonimicamente todo um modo de organização da vida, expressando uma determinada visão de mundo bem distante da que o astronauta tem olhando a terra do céu (para não esquecer, nesta “odisseia cultural”, nem a metáfora filosófica de Marx e Engels, nem a alegoria cinematográfica de Stanley Kubrick).

Encaminhando o próximo artigo, pois, as figuras metonímicas do “ferro” e do “ouro” nos propõem investigar como os elementos desiguais se combinam para construir tanto a cultura material quanto a espiritual. Em outros termos, como a análise das relações opostas e complementares entre o “ferro” e o “ouro” – na tensão dialética da produção material e espiritual – permite não apenas localizar os diferentes níveis de produção e reprodução da vida humana, mas sobretudo enxergar a história como “totalidade”: ou seja, como uma complexa síntese, resultante de sutis mediações entre as esferas econômica e social, comportamental e linguística, religiosa e política, filosófica e jurídica, ética e estética, científica e ideológica.

Enfim, para fechar com chave de ouro (valorizando o trocadilho) o “discurso sobre o método” desta segunda parte, deixemos com Marx e Engels as últimas palavras:

Essa concepção da história assenta, portanto, no desenvolvimento do processo real de produção, partindo logo da produção material da vida imediata e na concepção de intercâmbio ligada a esse modo de produção e por ele produzida, ou seja, a sociedade civil nos seus diversos estágios, como base de toda história, e bem assim na sua representação como Estado, explicando a partir dela todos os diferentes produtos teóricos e formas de consciência – a religião, a filosofia, a moral etc. etc. – e estudando a partir destas o seu nascimento; desse modo, naturalmente, a coisa pode ser apresentada na sua totalidade (e por isso também a ação recíproca dessas facetas umas sobre as outras)[12]

*Paulo César de Carvalho (Paulinho) é militante da RESISTÊNCIA-PSOL.

 

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NOTAS

1 – Marx e Engels, A Ideologia Alemã, Expressão Popular, São Paulo, 2009, p. 30

2 – Idem, p. 40-41.

3 – Nos termos de Leandro Konder, comentando as “raízes hegelianas” do método dialético marxista (Os marxistas e  a arte, Expressão Popular, São Paulo, 2013, p. 19).

4 – Marx e Engels, A ideologia alemã, Expressão Popular, São Paulo, 2009, p. 31.

5 – Idem, p. 32.

6 – Idem, p. 43.

7 – Idem, p. 23-24.

8 – Idem, p. 58

9 – Ibidem

10 – Pode-se determinar a priori o nível de civilização de um povo conhecendo-se unicamente a espécie de metal – ouro, prata, cobre ou ferro – com que fabrica suas armas, seus instrumentos ou seus adornos. (Karl Marx e Friedrich Engels, Cultura, arte e literatura: textos escolhidos, Expressão Popular, São Paulo, 2012, p. 101).

11  –  Idem, p. 59.

12 – Idem, p. 58.