Home – 3

Currently browsing: Home – 3
  • Primeiras impressões sobre o 3° Congresso da CSP-Conlutas

    Por: Juliana Donato e Gibran Jordão, membros da direção nacional do MAIS

    De 12 a 15 de outubro, ocorreu, em Sumaré, São Paulo, o 3° Congresso Nacional da CSP-Conlutas. Foram quatro dias de intensa atividade, com grupos de trabalho, painéis, plenárias deliberativas, debates polêmicos e de grande qualidade. Havia também uma disposição comum, a de estimular o avanço das lutas da classe trabalhadora em meio a tantos ataques que temos sofrido.

    Quantitativamente, em comparação aos números do congresso passado, houve um pequeno aumento do número de delegados inscritos, mas uma diminuição no número de entidades sindicais, oposições, minorias de direção, movimentos populares e contra as opressões. O congresso desse ano teve 1.953 delegadas e delegados inscritos, 264 observadores, de 308 filiadas, entre entidades sindicais, oposições, minorias de diretorias, movimentos populares e contra as opressões. No congresso de 2015 houve 1702 delegadas e delegados inscritos, 572 observadores e 373 filiadas entre entidades sindicais, oposições, minorias de direção, movimentos populares e contra a opressão.

    No plenário, lutadoras e lutadores de diversas gerações, alguns deles em greve, como os trabalhadores da Chery, montadora de São José dos Campos, os municipários de Porto Alegre, os professores do estado do Rio Grande do Sul e do Pará. Outros, como os trabalhadores dos Correios, saindo de uma greve com muitas lições e a cabeça erguida. Uma importante presença de lutadores do movimento popular e de movimentos de luta contra a opressão também se expressaram nesse congresso, garantindo o caráter sindical e popular de nossa central.

    Somos Tod@s CSP-Conlutas
    Uma das novidades foi a formação do Bloco ‘Somos Tod@s CSP Conlutas’, formado por companheiras e companheiros de diversas entidades, oposições, minorias e movimentos e representado por mais de um terço das delegadas e delegados do congresso.

    O bloco teve uma atuação destacada, trazendo para o debate importantes polêmicas com a direção majoritária da central. Entre as principais diferenças está a análise da relação de forças entre os trabalhadores e a burguesia em nosso país. Para a direção majoritária da central, os trabalhadores estão num momento de ofensiva. Já o bloco, defendeu que a classe está na defensiva, lutando com muitas dificuldades contra os pesados ataques de Temer e do Congresso Nacional que está saqueando direitos sociais e democráticos, sendo necessário construir as condições para uma contra-ofensiva que enfrente a realidade em que vivemos.

    Os ativistas e militantes do bloco defenderam que, diante dessa conjuntura defensiva, os trabalhadores precisam da mais ampla unidade para lutar, como ocorreu na greve geral do dia 28 de abril. Assim, defenderam que a CSP-Conlutas seja protagonista em construir um encontro nacional de lutadores e lutadoras para armar a nossa classe para a luta. Mas, não só isso, defenderam que precisamos também de uma unidade que se expresse em um polo político alternativo ao PT e à extrema-direita.

    Ato por um Polo Político Alternativo para a Classe Trabalhadora


    No sábado à noite, centenas de participantes do congresso lotaram o centro de convivência para participar de um ato em defesa deste polo político, com as presenças de Plínio de Arruda Sampaio, Luciana Genro (MES/PSOL), Silvia Ferraro (MAIS/PSOL), Luiz Acosta (PCB) e Hamilton Assis (APS/PSOL). Mesmo convidado, o PSTU não compareceu, o que lamentamos, pois, sem estes companheiros e companheiras, uma alternativa política da esquerda socialista terá mais dificuldades de se fortalecer e disputar os trabalhadores. Precisamos entender que na onda da crise do PSDB surfa a ultra-direita, com o MBL, Bolsonaro e o apoio aos militares. Por outro lado, em relação à crise do PT e de seu projeto de conciliação de classes, a esquerda socialista ainda não conseguiu se apresentar como uma alternativa que de fato tenha condições de disputar milhões de trabalhadores.

    É preciso uma central plural e que respeite as diferenças
    Outra diferença importante apontada não só pelo Bloco, mas por outros setores da nossa central, é o método hegemonista da direção majoritária da central, que tenta hostilizar e marginalizar os setores que pensam diferente. Essa postura precisa mudar para que se garanta que a central seja uma entidade de frente única e não uma colateral de um partido. Isso significa que a direção majoritária da central precisa ter a paciência e disposição de, primeiramente, ouvir. As vaias dirigidas àqueles que não concordam com a política majoritária foram um episódio lamentável deste congresso e não podem voltar a acontecer.

    Na CSP-Conlutas, deve haver democracia e espaço para aqueles que pensam diferente poderem se expressar e serem ouvidos. Além disso, a condução da central deve ser feita por todos os setores que batalham para construí-la no dia a dia. Não pode ser que a cada discussão sobre o funcionamento da central tenha que se abrir um debate extremamente desgastante em busca de um espaço democrático mínimo para que a diversidade e as distintas sensibilidades da central possam se expressar.

    Em relação à programação e ao funcionamento do congresso, a direção da central, e nós nos incluímos nesse balanço, armou um congresso que demonstrou alguns problemas: os grupos de trabalho poderiam ter tido mais tempo e tranquilidade para fazer o debate, encaminhar as propostas ao plenário, que deveriam ser debatidas e votadas de maneira satisfatória. Muitas propostas debatidas nos grupos não foram apreciadas pelo plenário e isso gerou muita insatisfação, com razão, principalmente em relação às pautas que envolvem questões como a luta contra as opressões. Mas também houve um vazio em relação aos trabalhadores do campo e movimento estudantil. Tal experiência deve servir para absorvermos as críticas e fazer melhor nos próximos espaços da central. Seria muito importante que a direção majoritária da central pudesse refletir e também fazer o exercício da autocritica, já que tem a maior parte da responsabilidade na condução do congresso e da entidade.

    O 3° Congresso da CSP-Conlutas tomou importantes decisões
    No domingo, na plenária final, o destaque foi a aprovação da garantia de paridade entre homens e mulheres (50%) na Secretaria Executiva Nacional da Central. Com muito orgulho, essa proposta foi apresentada pelo Bloco Somos Tod@s CSP Conlutas e vai ajudar as mulheres a ocuparem mais espaços e a estarem em melhores condições para combater o machismo. Em um momento emocionante, após a aprovação da proposta, o plenário cantava: “Nem recatada, e nem do lar, a mulherada está na rua para lutar”.

    Foi aprovado um plano de lutas, cuja principal data será o 10 de novembro, um dia nacional de lutas, mobilizações e paralisações da classe trabalhadora. E a disposição da CSP-Conlutas de estar à frente do chamado à unidade com as demais centrais sindicais, como a CUT e a Força Sindical, para que possamos avançar em direção à construção de mais uma grande greve geral, tão necessária para que a classe trabalhadora possa resistir e passar à ofensiva. Foi aprovado também que a central e suas entidades participarão de uma reunião convocada pelo ANDES-SN, no dia 11 de novembro, no Rio de Janeiro, com o objetivo de avançar no processo de reorganização da classe trabalhadora. Parabenizamos as companheiras e companheiros do ANDES-SN por essa iniciativa.

    O Bloco Somos Tod@s CSP-Conlutas, formado por várias entidades e agrupamentos, sai fortalecido e consolidado, e a sua atuação deve seguir e se aprofundar. O objetivo é fortalecer a nossa Central como um instrumento de frente única amplo e democrático, que tenha o potencial de atrair muitos lutadores e lutadoras que hoje não a compõem.

  • Cem anos depois: Quem são, hoje, os adversários de 1917?

    Por Felipe Demier, Professor da UERJ e militante da NOS

    Uma anedota sobre a antiga União Soviética dizia que nos livros de história do país o futuro era certo, e o passado, imprevisível. De Stálin a Gorbachev, a cada cúpula burocrática que ascendia ao poder a historiografia oficial via-se impelida a realizar novas alterações nos tempos pretéritos, mudando não só a interpretação de certos fatos, como inserindo novos personagens e apagando outros. A sarcástica anedota encontra um paralelo científico em certa advertência feita por historiadores marxistas contemporâneos que, argutamente, nos lembraram de que a história feita pelos pesquisadores é sempre a história do tempo presente, isto é, que as análises do passado não são desvinculadas dos projetos societários abraçados por aqueles que as fazem. Tanto a anedota soviética quanto a advertência científica parecem perfeitamente apropriadas aos debates ocorridos quando de importantes efemérides, nos quais historiadores, cientistas sociais, jornalistas e intelectuais se enfrentam tanto no passado, quanto no presente. Argumentos são esgrimidos e atraentes polêmicas são travadas. Ao que tudo indica, este é o caso do presente centenário da Revolução Russa de outubro de 1917.

    Quando a Revolução Francesa completou seu bicentenário, em 1989, o historiador britânico Eric Hobsbawn percebeu como as polêmicas que então se davam sobre o tema permitiam dividir seus participantes em dois campos: os defensores e os adversários da Grande Revolução. Naquela ocasião – destacou Hobsbawn –, em função do avanço do neoliberalismo, pareciam predominar no mainstream acadêmico, jornalístico e político os participantes do segundo campo. Atualmente, o mesmo parece já ocorrer com o centenário soviético, quando os adversários hodiernos da Revolução Russa vêm obtendo, claro, mais espaço e público para suas diatribes dirigidas à primeira experiência vitoriosa de uma revolução realizada por trabalhadores e trabalhadoras. Embalados pela Onda Conservadora, os amantes mais ou menos declarados da reacionária ordem atual se esforçam para deslegitimar os feitos de Outubro de 1917, tratando-os, todos, como expressões de um terrorismo despropositado desencadeado por massas manipuladas por dirigentes sanguinários ávidos por edificar e preservar um poder despótico.

    Nesse raciocínio, os adversários contemporâneos de Outubro parecem apenas reeditar o esquema analítico dos adversários neoliberais da revolução francesa quando de seu mencionado bicentenário, substituindo apenas os personagens da trama: se o “ignorante” proletariado de São Petersburgo assume o papel dos “raivosos” sans-culottes parisienses, o “criminoso” partido bolchevique toma o lugar do “terrorista” clube jacobino e, óbvio, os tiranos Lênin, Trotsky, Sverdlov e demais artífices da tomada do Palácio de Inverno substituem os “irascíveis” Robespierre, Danton, Marrat e cia. Segundo seus atuais detratores, a Revolução Russa não teria sido senão a consumação de um projeto totalitário, gestado, pelo menos, desde 1903 pelos bolcheviques, ao passo que Lenin não passaria de um antecessor – e mesmo um preparador político – de Stálin na sucessão de um regime despótico iniciado com a queda do Governo Provisório de Kerensky.

    O que vertebra, portanto, a argumentação dos atuais adversários de Outubro é a tese de que o estalinismo seria uma simples continuidade linear do leninismo, cuja essência seria um projeto político de corte totalitário que acabou por se estabelecer em face de massas populares atrasadas, analfabetas e impotentes. Durante um bom tempo, no espírito da “guerra fria”, a historiografia e ciência política liberais, em especial as de influência norte-americanas, trabalhavam com a noção de um “povo russo” (incluindo aí as outras nacionalidades não russas que integravam a extinta União Soviética) subjugado por uma ditadura totalitária implantada por Lênin e Trotsky, e simplesmente continuada por Stalin e seus sucessores. De uns anos pra cá, antenados com a perspectiva revisionista que impregna boa parte das pesquisas históricas – e que já havia se apresentado com força quando do bicentenário da Revolução Francesa, como notou Hobsbawn –, uma certa corrente historiográfica, também de matiz liberal, passou a afirmar que o próprio “povo russo” nutriria secularmente uma concepção autoritária acerca das relações sociais e políticas (uma “cultura política autoritária”), e, nesse sentido, teria tido na ditadura inaugurada em 1917 uma expressão estatal compatível com sua subjetividade e anseios políticos. Para tal corrente interpretativa de Outubro, não só Stalin teria sido um legítimo sucessor e continuador de Lênin, como este último, por sua vez, teria – após um breve interregno entre fevereiro e outubro de 1917 – sucedido a dinastia dos Romanov enquanto representante político de uma “sociedade autoritária”.

    Destaquemos aqui, brevemente, dois aspectos que estruturam as narrativas produzidas por este grande campo liberal dos intérpretes de Outubro, isto é, destes adversários, no passado e no presente, da Revolução Russa.

    O primeiro deles é que não é difícil notar em suas perspectivas analíticas o culto à democracia liberal como a forma plena e perfeita de organização política da espécie humana, o que leva a uma virulenta condenação dos bolcheviques, e mesmo do “povo russo”, no caso dos revisionistas, por terem dela se afastado. A essa dimensão idealista, soma-se um indisfarçável anacronismo. Não só a democracia representativa – com todos os seus inexpugnáveis ingredientes repressivos contra o movimento operário, não custa lembrar – só existia, quando da Revolução de Outubro, em algumas poucas nações originárias do capitalismo industrial (com destaque para Inglaterra, França e Estados Unidos), como o desenvolvimento desigual e combinado da industrialização na atrasada formação histórico-social russa não permitia que um regime democrático-liberal aparecesse como uma opção exequível no cardápio político do país. Esta impossibilidade democrático-liberal, por assim dizer, ficou evidente em todo o comportamento da burguesia russa ao longo das duas primeiras décadas do século XX. Sem jamais ter desafiado seriamente o absolutismo czarista empunhando um programa democrático, nem mesmo tendo buscado qualquer tipo de aproximação com as ingentes massas camponesas ou mesmo com a numericamente reduzida, porém socialmente concentrada, classe operária do país, a burguesia liberal russa foi conduzida ao poder em fevereiro de 1917 por meio de uma revolução popular na qual ela não tomou parte. De porte do leme do Estado, não ousou, até ser deposta por uma insurreição operária meses depois, tomar nenhuma só medida de cunho democrático. O Governo Provisório não foi capaz de alterar em um milímetro a nobiliárquica estrutura agrária do país, não atendeu às reivindicações por direitos sociais dos trabalhadores fabris, não garantiu nenhum direito às nacionalidades oprimidas pelo império czarista, protelou ao máximo as eleições para uma assembleia constituinte e, por fim, não ousou retirar o país de uma guerra a qual, interessante apenas para as burguesias imperialistas do Ocidente, lhe custava milhões de vidas camponesas no front, acirrava a fome no campo e intensificava a carestia nas cidades. Não satisfeita em nada fazer para edificar um regime democrático-liberal, tal como preconizado pelos mencheviques (e mesmo pelos “velhos bolcheviques” – como Zinoviev, Kamenev e Stalin – até a chegada de Lênin em abril), a burguesia russa conspirou incessantemente para derrubar a possibilidade de sua construção. O apoio da maioria da burguesia russa e seus partidos ao levante de Kornilov deixou evidente que a classe dominante do país buscava não só derrubar o seu próprio Governo Provisório (por demais “democrático” e permeável à presença de lideranças advindas de partidos ligados aos trabalhadores), como desejava substituí-lo por uma ditadura militar restauracionista.

    Desse modo, não seria equivocado dizer que os liberais historiadores de hoje são os únicos que, retrospectivamente, desejam verdadeiramente que houvesse tido uma democracia liberal na Rússia de 1917, ao passo que os liberais de ontem, mais realistas, sabiam muito bem que só uma cruenta ditadura poderia lhes salvar a pele e a propriedade. O desejo dos historiadores liberais de hoje por um regime democrático-liberal na Rússia de cem anos atrás diz mais sobre o seu apego a nossa insípida democracia representativa do século XXI, cada vez mais blindada às aspirações populares, do que propriamente sobre a possibilidade real de sua implantação na sociedade russa do início do século XX. Tomando a revolução como um terrível e lamentável acidente dentro de um inelutável curso “democrático-liberal” dos povos, os analistas liberais do passado não intentam mais do que fechar as portas da história a ela no futuro. Seus verbos estão no pretérito, mas suas armas, no presente.

    O segundo aspecto a ser destacado referente a estas tendências historiográficas hostis a Outubro é sua junção proposital entre dois momentos, duas fases distintas do processo aberto com a tomada do poder pelos bolcheviques, o que se verifica na já mencionada concepção liberal de que o stalinismo não teria sido senão uma evolução natural do leninismo. Muitos argumentos poderiam ser utilizados para refurtar tal assertiva, e desde há muito tempo as pesquisas históricas disponibilizam dados à porfia que evidenciam profundas diferenças, em vários níveis da vida social e política, entre os períodos anterior e posterior a 1928, quando já se pode falar em uma consolidação do estalinismo na União Soviética. O aumento significativo da diferença salarial, a reaparição da prostituição, o desrespeito à autonomia das nacionalidades não russas, o crescimento exponencial de uma casta burocrática privilegiada e a proibição a qualquer tipo de divergência política no interior do partido bolchevique são alguns dos muitos elementos que, já nos anos 1930, expressavam as profundas mudanças ocorridas no tecido social soviético em função das opções políticas e econômicas da camarilha estalinista que se assenhoreou do poder após a morte de Lênin, em 1924. No entanto, para refutar a tese liberal em tela bastaria assinalar o fato de que, sob ordens de Stalin, milhares de revolucionários do período 1917-1924, entre eles praticamente todos os componentes do comitê central presidido por Lênin quando da Revolução de Outubro, foram presos, enviados a campos de trabalho forçado e fuzilados. Na sede da tenebrosa Lubianka, muitos dos íntimos colaboradores de Lênin foram barbaramente torturados para, com suas famílias feitas reféns, confessar crimes inexistentes e depois assassinados impudentemente. Assim, falta aos adeptos da tese da continuidade Lênin-Stalin explicar por que o último, um “mero continuador”, teve que eliminar fisicamente praticamente todos os aliados do primeiro, “seu mestre”.

    Buscando contornar essa incontornável objeção, muitos dos intérpretes liberais de Outubro se refugiam na afirmação de que, sob o comando de Lênin e Trotsky, o aparelho repressivo também vitimou milhares de pessoas. Tratando abstratamente a violência, esses intérpretes perdem de vista o conteúdo histórico social da repressão da qual lançou mão o jovem regime revolucionário, imerso em uma guerra civil resultante da ofensiva militar desencadeada pelos adeptos da velha ordem aliados a exércitos de mais de uma dezena de nações capitalistas que invadiram o país. Salvo condenáveis exceções (como o crasso erro em Kronstad), foi contra estas forças militares contrarrevolucionárias que os bolcheviques de Lenin e Trotsky dirigiram suas armas, e não contra os próprios revolucionários, como faria posteriormente Stalin. Tentar igualar historicamente ambas as repressões por serem ambas repressivas é tão despropositado como querer igualar – para lembrarmos mais uma vez o caso francês – Robespierre tanto aos girondinos do Diretório, quanto a Luís XVI e sua entourage absolutista, pelo simples fato de que todos eles deceparam a cabeça de seus inimigos. Convém lembrar, ainda, que, diferentemente do incorruptível chefe jacobino, Lênin e Trotsky não executaram nenhum só dos seus Dantons.

    Por fim, ao igualar Lênin a Stalin, o que fazem os intérpretes liberais de Outubro é, simplesmente, igualar a revolução à contrarrevolução. Nesse ponto, aliás, convergem inteiramente com os decrépitos estalinistas do presente. Tanto uns quanto outros maculam a revolução em sua história, fazendo-a assumir os crimes dos seus corrosivos inimigos internos do passado. Com isso, sejam eles críticos ou apologetas do Outubro centenário, não passam, no presente, de irreconciliáveis inimigos daqueles que não suportam esperar mais cem anos para outra revolução socialista.

    Imagem: Capa do livro 100 anos depois: A revolução russa de 1917 organizado por Felipe Demier e Márcio Lauria Monteiro. Lançamento dia 25 de outubro, na livraria blooks ( Praia de Botafogo, 316 no Rio de Janeiro) às 19 horas.

  • A Revolução que abalou o mundo (parte 1)

    Por Carlos Zacarias de Sena Júnior, Colunista do Esquerda Online – Publicado no jornal A tarde, em Salvador

    “Não foi coincidência que a greve mais importante da história mundial tenha começado com mulheres do setor têxtil em Petrogrado no Dia Internacional da Mulher de 1917 – 23 de fevereiro no antigo calendário juliano”, escreveu o historiador norte-americano Kevin Murphy, professor da Universidade de Massachusetts. Autor do magistral Revolution and counterrevolution: class struggle in a Moscow metal factory, ainda sem tradução no país, Murphy esteve no Rio em setembro para participar de um evento na universidade e para refletir sobre o centenário da Revolução que mudou o mundo, tema em que é dos principais especialistas na atualidade.

    A chamada Revolução de Fevereiro aconteceu quando da deflagração de greves que logo se generalizaram pelas principais cidades. Segundo Murphy, as mulheres russas trabalhavam 13 horas por dia, enquanto seus maridos e filhos estavam no front combatendo na guerra. Condenadas “a uma vida monótona e imutável, provendo suas famílias e esperando numa fila, durante horas, num frio abaixo de zero graus, na esperança de conseguir um pão”, as mulheres não precisavam de muito convencimento para se lançarem à luta. Desencadeada a partir do setor têxtil de Petrogrado, em poucos dias, a greve iniciada por algumas centenas de mulheres se alastrou e pôs regime tzarista nas cordas.

    A Revolução de Fevereiro foi, para a Rússia, aquilo que a Revolução de 1789 foi para os franceses, uma revolução tipicamente burguesa. A autocracia tzarista, sustentada num regime brutal e senil que perdurava por séculos, muito além do absolutismo no ocidente europeu, não teve como opor resistência. Não obstante, a disposição dos trabalhadores, que há apenas 12 anos tinham oferecido ao mundo um mecanismo de auto-organização e de duplo poder absolutamente eficaz, os sovietes, logo sugeriu que os protagonistas da revolução não pretendiam circunscreve-la ao horizonte burguês.

    Mergulhados numa crise econômica e social profunda, cujo pano de fundo era o abismo que dividia ricos e pobres, o brutal regime tzarista não resistiu. Depois de alguns dias, Nicolau II saiu da história pelas portas dos fundos, dando lugar a um governo constituído, em sua maioria, por Socialistas-Revolucionários e Cadetes e uma minoria de mencheviques.

    Do exílio na Suíça, Vladimir Ilitch Lenin, principal dirigente bolchevique, arrumou as malas para partir para Petrogrado. Antes de tomar o trem blindado com destino à Estação Finlândia, Lenin redigiu suas Cartas de longe, um poderoso manifesto em que colocava as suas impressões sobre os acontecimentos na Rússia e apontava as principais tarefas dos bolcheviques: “A primeira revolução gerada pela guerra mundial imperialista eclodiu. Esta primeira revolução não será, certamente, a última”, escreveu. Premonitório, Lenin partiu para a Rússia destinado a escrever uma das mais importantes páginas da história da humanidade.

  • A extrema-direita abre as asas: a esquerda tem que fechar os punhos

    Editorial 6 de outubro,

    A extrema-direita está elevando o tom. Defendem a judicialização da política. E uma “intervenção” (golpe) militar, caso a crise política e social se agrave mais. No terreno da cultura, avançam na censura das artes, em particular da arte LGBT. Defendem o ensino religioso nas escolas e o retorno da infame “cura gay”.

    O movimento LGBT já se levantou contra os golpistas. Agora, todos os movimentos sociais do povo explorado e oprimido precisam se unir e contra-atacar a direita.

    A judicialização da política resolveria o problema?
    É visível a desmoralização do Congresso Nacional e da Presidência da República perante a opinião pública. As reformas de Temer e os ataques do Congresso aos trabalhadores e às pessoas oprimidas são amplamente rejeitas pela população.

    A corrupção, que sempre foi intensa neste país, deslegitima os políticos tradicionais. Como consequência, o judiciário ganha força política. Grande parte dos empresários e dos poderosos, em particular os da grande mídia e os fundamentalistas, apoiam esta ofensiva judicial. O discurso, hipócrita, é o da necessidade da “renovação”, para “limpar” a política.

    Entretanto, no atual sistema político e econômico, é impossível uma renovação verdadeira. Apesar da proibição formal de que as empresas financiem as candidaturas eleitorais, os grandes empresários continuam despejando dinheiro nos partidos e nos políticos da ordem, por meios lícitos e ilícitos. João Dória, do PSDB, uma das novas apostas da burguesia, é o retrato fiel disso. O Partido Novo, criado e mantido por milionários, também explicita esse quadro.

    Não bastasse isso, a  reacionária reforma político-eleitoral levada a cabo pelo Congresso criou um fundo, que será mantido  pelo Estado, para financiar as campanhas eleitorais de forma desigual, privilegiando os maiores partidos (PMDB, PSDB, PT, etc.). A cifra é escandalosa: 1,7 bilhão do dinheiro público vai parar nas mãos das cúpulas partidárias.

    A judicialização da política tem, também, o objetivo de barrar a candidatura de Lula, para que um candidato da direita tradicional consiga vencer as próximas eleições. Os extremistas de direita também têm o interesse em dar espaço para a candidatura do Bolsonaro, que já foi condenado juridicamente por machismo e por racismo.

    Existe “intervenção militar” sem golpe?
    Os defensores da “intervenção” militar afirmam que a forma de resolver a crise política seria a ação das Forças Armadas na política, destituindo a atual presidência para supostamente restaurar a democracia e afastar os corruptos. Isso é uma armadilha. A História demonstrou que, vez após vez, quando os militares assumem o poder, o país se torna uma ditadura, sem liberdades quaisquer para o povo. Esse discurso de “restaurar a democracia” é bem semelhante ao discurso feito para defender o golpe em 1964, que levou o país a 25 anos de ditadura.

    Durante o século vinte, vários golpes militares foram feitos na América Latina sob a ordem do governo dos Estados Unidos. O objetivo era, num contexto de guerra fria, barrar qualquer possibilidade de avanço da luta dos trabalhadores e do povo pobre. A ditadura militar no Brasil foi um dos regimes mais corruptos da  nossa história.

    Não acreditamos que exista o perigo imediato de um golpe militar. As ameaças, hoje, são mais uma forma de disputa ideológica e política da direita e, por isso, temos que combatê-las vigorosamente, sem hesitação e subestimação.

    Unir os trabalhadores e oprimidos contra o governo e a extrema-direita
    A esquerda precisa imediatamente se confrontar política e ideologicamente com a extrema-direita, em particular contra Jair Bolsonaro,  o MBL, os generais pró-golpe e outros fundamentalistas.

    Temos que compreender que as discussões sobre a nudez, a suposta pedofilia e zoofilia na arte são um discurso hipócrita. A nudez e a seminudez estão presentes há muito tempo nas artes, na mídia, na imprensa e na publicidade, em particular das cervejas. Essa discussão começou justamente num museu de arte LGBT e tem o objetivo de retornar a discussão, tão presente nas ditaduras, da defesa da “moral e dos bons costumes”. Não é sobre pedofilia, é sobre moralismo.

    A pré-candidatura de Bolsonaro, que utiliza dinheiro da Câmara dos Deputados para campanhas político-eleitorais, precisa ser combatida desde já. Para isso, é necessária uma pré-candidatura de esquerda que seja alternativa ao PT e denuncie esse candidato reacionário, racista, machista e LGBTfóbico.

    É preciso, por um lado, convocar os movimentos sociais e os sindicatos a se mobilizarem contra todos os ataques do governo, dos fundamentalistas e da extrema-direita. Por outro, a esquerda precisa entrar com força e com vontade na disputa ideológica em defesa dos explorados e oprimidos. Fechemos os punhos e nos preparemos para a luta.

    Foto: Carol Burgos | Esquerda Online

  • 5 motivos para apoiar a Catalunha 

    Por: Gabriel Casoni, de São Paulo, SP

    Muitas pessoas têm dúvidas sobre o que está acontecendo na Espanha.

    Por isso, apresentamos, resumidamente, cinco motivos para estar ao lado do povo catalão nesta luta.

    1 – autodeterminação dos povos. É preciso defender um princípio democrático elementar: o direito de um povo decidir soberanamente sobre seu próprio destino. Por exemplo, os bolcheviques, depois da revolução socialista de 1917, instituiram esse direito para todas as nacionalidades oprimidas no antigo império russo.

    2 – os catalães têm uma língua, cultura, território e história próprias. Esses são os elementos que fundamentam a existência de uma nacionalidade específica. Nada a ver, portanto, com o esdrúxulo e reacionário movimento pela independência do Sul do Brasil. Diferente da Espanha, não há nacionalidades distintas em nosso país; existem apenas diferenças  regionais.

    3 – o Estado espanhol exerce uma opressão secular sobre diversas nacionalidades em seu território: oprime galegos, bascos, andaluzes e catalães. Durante a ditadura de Franco, por exemplo, a Catalunha perdeu toda sua autonomia e sua língua foi proibida nas escolas.

    4 – o regime espanhol é monárquico. O chefe de estado é um Rei, Felipe VI, da família Bourbon. O regime funciona em base à Constituição de 1978, a qual mesclou aspectos herdados da ditadura de Franco e elementos democráticos. A luta do povo catalão vai diretamente contra a monarquia e o autoritário regime de 78. Sendo assim, trata-se de um processo com um evidente sentido democrático.

    5 – a vitória do povo da Catalunha significaria não só colocar em crise um regime atrasado e antidemocrático, mas abriria também a possibilidade para que os povos, que hoje estão sob o domínio do Estado Espanhol, possam livre e democraticamente discutir formas de convivência, cooperação e união sob outras bases políticas, econômicas e sociais.

    Foto: Reprodução PT Euronews

  • Catalunha republicana desafia monarquia espanhola

    Por Henrique Carneiro, Colunista do Esquerda Online

    A Espanha é um conjunto de povos de diferentes línguas governados por um centralismo castelhano monárquico baseado no ramo dos Bourbon que perderam a sua França originária, mas se mantém como soberanos da maior parte da península ibérica.

    A Espanha só teve cerca de 10 anos de vida republicana em toda a sua história moderna e a monarquia se impôs historicamente por meio da contra-revolução.

    A Espanha conheceu apenas duas repúblicas de breve duração.

    A primeira, durante o “sexênio revolucionário” de 1868 a 1874, começou com um movimento militar que derrotou a rainha Isabel II, mas ao invés da república as cortes (parlamento) foram eleitas por sufrágio universal masculino e votaram uma constituição que não abolia a escravidão e, ao invés da república, aprovava um reinado com um rei estrangeiro, Amadeo, da Savóia!

    Numa votação, os deputados escolheram-no dentre uma lista de reis. Nada mais ridículo do que um rei eleito por deputados!

    Seu reinado durou só dois anos e abdica em 1873. Só então vem a brevíssima 1ª República, que durou menos que os dois anos do rei Amadeo, e é derrubada por um golpe militar que proclama a restauração dos Bourbon.

    A Segunda República começou em 1931 e acabou em 1939 com a vitória de Franco na guerra civil.

    O rei que tinha se exilado, Alfonso XIII e seu filho sucessor, Don Juan, Conde de Barcelona, não aceitavam a República, mas tampouco aceitam que Franco se torne chefe do estado. Este ditador restaura a monarquia, mas assume a chefia do estado com a “Lei de Sucessão da Chefia do Estado”, em 1947, o que o rei não reconhece e continua no exílio.

    A Espanha se torna uma monarquia com um rei exilado.

    Só após a segunda guerra que o filho de Alfonso XIII, morto em 1941, se reaproxima de Franco e lhe envia o seu próprio filho Juan Carlos para ser o pupilo do ditador que o prepara para a transição. Após a morte do ditador, em 1975, se instala no trono Juan Carlos I que é aceito na Constituinte de 1978 como rei.

    Seu filho Felipe VI, vai hoje à TV em cadeia nacional, para fazer o pronunciamento do herdeiro bourbônico no trono sobre a revolta da Catalunha republicana.

    No centenário da revolução russa, um sucessor espanhol da dinastia dos Bourbon, que foram destronados pela revolução francesa em 1789, em pleno século XXI, vai a TV tentar impedir que sua Coroa perca a Catalunha.

    Melhor seria que abdicasse de vez.

  • Da greve da Scania à Ocupação Povo Sem Medo

    Por: Carolina Freitas, de São Paulo, SP

    A Ocupação Povo Sem Medo do MTST, em São Bernardo no Campo, que iniciou há um mês e nesta segunda-feira (02) pode ter seu fim decretado pelo Judiciário paulista, é possivelmente uma das maiores ocupações urbanas atuais do país. Estima-se que dez mil famílias estejam acampadas no terreno próximo à Scania, metalúrgica que foi palco do período mais importante na história do movimento operário brasileiro.

    Em maio de 1978, cerca de três mil trabalhadores desta fábrica cruzaram os braços exigindo aumento salarial. A greve rapidamente se alastrou para outras fábricas da região e de São Paulo, conformando o grande ascenso do que ficou conhecido como o “novo sindicalismo brasileiro”. Enfrentando a lei de greve do regime ditatorial, o movimento de trabalhadores iniciado em São Paulo e no ABC deu lugar a uma nova concepção de organização do operariado, oposta à estrutura sindical inaugurada nos anos 40: classista, autônoma, combativa frente aos patrões e às burocracias pelegas, e construída pela base.

    Ao novo sindicalismo, iniciado entre o fim dos anos 70 e o início dos anos 80, foi fundamental a ideia, naquele momento histórico, de que a classe, para existir e agir enquanto tal, deveria estar organizada em todos os âmbitos e espaços da vida. O movimento operário neste período se enraizou nas bases, com as Comissões de Fábrica, mas também no chão dos bairros populares, onde havia forte concentração de trabalhadores industriais.

    Este encontro espacial de classe, entre a fábrica e o bairro, culmina nas principais mobilizações de trabalhadores de caráter popular, com a eclosão dos movimentos de saúde, por saneamento, transporte, educação, habitação e o sempre lembrado Movimento Custo de Vida. Estes movimentos, inspirados e inspiradores dos métodos operários da luta no período, ajudaram na organização de variados setores do proletariado brasileiro para as estratégias de recusa radical perante os patrões e os dirigentes da ditadura, que naquele momento planejavam uma transição lenta e controlada do regime.

    De lá até os dias de hoje, mudanças drásticas ocorreram nas fábricas e nas cidades. Houve uma transformação significativa na localização urbana das áreas industriais e uma fragmentação brutal dos locais de vida e reprodução do proletariado, dissipado pela região metropolitana.

    No ABC, e principalmente na Via Anchieta, grandes parques industriais foram vendidos por uma exigência de remodelação da produção: os amplos terrenos, desenhados originalmente para comportar a maquinaria pesada e um grande contingente de trabalhadores, passaram a não ser mais necessários ao circuito de produção e circulação do mercado automotivo e de autopeças. O desenho urbano das antigas grandes propriedades fabris serviu ao crescimento do investimento imobiliário, em grande medida destinado à construção de empreendimentos residenciais para a classe média e para trabalhadores com nível salarial superior. Grandes condomínios substituíram grandes indústrias.

    Sob outro aspecto, houve uma perda econômica significativa para o proletariado desde a geração dos peões do ABC dos anos 80. O pós transição democrática, os anos 90 e seus processos de privatização, desregulamentação, terceirização, situou a classe numa condição defensiva, de perda de direitos.

    A fragmentação dos processos de produção industrial, o grande aumento no setor de comércio e serviços, a informalização do trabalho e a rotatividade, que caracterizam um processo geral de precarização, ocorreu de forma relacionada com as transformações do espaço urbano.

    É certo que a classe trabalhadora mora mais precariamente porque passou a trabalhar para um lado e morar para o outro, mas também porque nesse meio tempo os salários foram arrochados, enquanto os alugueis, tarifas de transporte e mercadorias para a reprodução da vida tiveram um encarecimento brutal. Unidos no tempo, mas fragmentando a vida dos trabalhadores no espaço, os níveis de exploração econômica e de espoliação urbana só aumentaram e ganharam novas qualidades.

    Ao mesmo tempo em que os condomínios de médio e alto padrão no ABC foram sendo construídos, especialmente a partir dos anos 2000, o número de sem-tetos da região metropolitana também cresceu. São Bernardo do Campo, cidade onde se localiza a ocupação Povo Sem Medo, é a que concentra o maior número de pessoas vivendo em situações habitacionais muito precárias: são 90 mil famílias que não podem pagar aluguel e, parte significativa delas, compõe os 20% da população da grande São Paulo que está desempregada em meio à crise econômica.

    O cenário ocorre em outras periferias e regiões da metrópole e se amplia justamente porque a classe trabalhadora está sendo dilapidada não apenas no âmbito produtivo, mas no que se refere a todas as suas condições para se reproduzir e viver.

    Apesar da fragmentação da classe operária e do enfraquecimento de sua estrutura sindical, o MTST e o proletariado jovem se levantam contra o novo modelo de vida imposto por essas formas novas de acumulação de capital. Em junho de 2013, passaram a demonstrar com mais força o potencial de enfrentamento ao modelo de cidade-mercadoria que simboliza também essas novas formas de acumulação.

    Se a classe não mora mais nas mesmas habitações, nos mesmos bairros, e não trabalha mais nas mesmas grandes fábricas, por outro lado, se aperta cada vez mais nos mesmos ônibus, vive em comum as mesmas situações de violência e paga, em conjunto, muito mais caro para ter acesso a direitos. As novas condições de socialização das mazelas urbanas dá as lutas sociais novos sentidos, cria novos caminhos para os horizontes estratégicos de superação do regime democrático-capitalista por que lutaram aqueles trabalhadores da Scania e que hoje se encontra apodrecido.

    Os 60 mil metros quadrados do terreno da incorporadora MZM, proprietária que ataca na justiça a ocupação do MTST, está há quarenta anos sem destinação e contrai uma dívida de meio milhão de reais em impostos ao município. A terra urbana ociosa, que aguarda ser incorporada no mercado imobiliário, fere todos os dispositivos legais do Estatuto da Cidade e da Constituição Federal que obrigam a destinação social das propriedades vazias.

    As ocupações de fábricas, espaços públicos, escolas e propriedades privadas são métodos tradicionais da classe trabalhadora. Suas formas foram se moldando às suas novas condições de classe, às novas condições das cidades. Defender com força e centralidade o direito das famílias sem teto a existir com dignidade em São Bernardo do Campo é também retomar o fio da história de um povo que não teve medo de mudar o Brasil naquele mesmo lugar, há quarenta anos.

    Toda solidariedade à Ocupação Povo Sem Medo em São Bernardo do Campo! NÃO AO DESPEJO!

    Foto: Mídia Ninja

  • Catalunha: só a mobilização popular garantirá a independência

    Por: Editoria Internacional

    Após o resultado das eleições alemãs que mostraram a erosão do sistema partidário tradicional daquele país, assim como o fortalecimento da extrema-direita que pela primeira vez ingressa no parlamento desde a Segunda Guerra Mundial, toda a atenção se foca no referendo pela independência da Catalunha, que ocorrerá no domingo, dia 1º. A tensão cresce, a polícia catalã que depende do governo catalão mostra sinais de não ter condições de manter a disciplina para aplicar as drásticas medidas previstas pelo governo de Madri. Por precaução, o comando da operação contra o referendo está com um coronel nomeado da Guarda Civil, que é a polícia do governo central do estado espanhol. Um deputado da esquerda no parlamento catalão favorável à independência, Benet Salellas, declarou em entrevista na TV, que os policiais catalães “devem desobedecer. Precisam se colocar ao lado das pessoas. Neste país, 80% da população disse que quer um referendo, que quer votar.” Publicamos um artigo sobre o referendo dos companheiros do MAS de Portugal, publicado em 28/09:

    Quando no passado dia 20 de setembro de 2017, o Estado Espanhol, a mando do governo do PP/Mariano Rajoy, desencadeou uma onde repressiva sobre as liberdades políticas e autonómicas da Generalitat* e do povo catalão, tentando impedi-los de decidir sobre o futuro da sua nação, o mundo abriu a boca de espanto.

    Como era possível que na Europa civilizada, afinal, se usassem métodos repressivos como prisão de elementos de um governo eleito, confiscar cadernos eleitorais e boletins de voto, tentar ocupar as sedes de um partido de esquerda, proibir manifestações de apoio ao direito de decidir, enviar milhares de polícias do Estado para a Catalunha, e um longo étecetera. Afinal a democracia, também na Europa, é só um apêndice, descartável quando seja necessário manter o poder dos mais fortes.Frente a esta escalada repressiva por parte de Mariano Rajoy e o seu corrupto PP, diga-se com o beneplácito do tradicional PSOE e do neopartido espanholista de direita Ciudadanos, os catalães saíram à rua às dezenas de milhares no mesmo instante. Enfrentando a operação policial, obrigando esta a retirar-se da maioria dos locais que ocupou, impedindo os assaltos às sedes da CUP (Candidaturas de Unidad Popular, partido de esquerda independentista catalão) e gerando uma onda de mobilização por toda a Catalunha, restantes cidades do estado espanhol, bem como em várias cidades no mundo, salvaram a possibilidade de que o referendo marcado para o próximo domingo, dia 1 de outubro, se possa realizar.

    Hoje, a incerteza de que o referendo pela independência da Catalunha se realize é uma realidade, no entanto, se se mantém essa possibilidade é porque a mobilização popular saiu à rua e é nesta que se encontra a chave para alcançar o direito a decidir e a independência. Sem mobilização muito provavelmente o governo catalão de Carles Puigdemont, do partido burguês independentista catalão PDCAT, e do seu parceiro da ERC (Esquerda Republicana Catalã), teriam recuado, aliás, nos acontecimentos daquele dia fizeram declarações em que vacilavam, mas foram obrigados a seguir em frente pela força das gentes.

    E será esta, que determinará se os Mossos d’Esquadra (polícia autónoma catalã) farão cumprir ou não a ordem do estado espanhol em não permitir a abertura dos locais de votação. Será esta que alentará o povo a ir votar. Será esta e só esta que após o 1 de Outubro permita que o processo de independência avance.

    Neste momento, a liderança política dos independentistas constituída pelo PDCAT, a ERC e as CUP está divida face ao dia seguinte. Os primeiros acordaram com o partido PODEMOS e os burgueses nacionalista bascos do PNV a possibilidade de um referendo pactado com o estado espanhol para os próximos dois anos, caso o 1 de outubro não se realize. Como será isso possível dentro de uma constituição saída do regime franquista que não permite a autodeterminação? Em 40 anos da constiruição actual espanhola só uma vez ela foi alterada, há cerca de 6 anos atrás, para quê? Para introduzir uma emenda que obriga o estado espanhol a pagar as dívidas aos bancos antes de qualquer outra obrigação. Os segundos (ERC e CUP) mantêm o que foi aprovado pela lei do referendo no Parlamento Catalão, que é que se o “Sim” vencer o referendo em 48 horas deverá haver uma declaração unilateral de independência. Mas um coordenador do PDCAT veio afirmar que em vez disso se abrirá um processo deliberativo de 6 meses.

    Uma das muitas centrais sindicais existentes na Catalunha, a CGT, já entregou pré-avisos de greve de 2 a 13 de outubro, o sindicalismo alternativo constituído por sindicatos sectoriais e regionais, decidiram marcar um dia de greve geral, mas ficaram de fora as principais CCOO (Comisiones Obreras) e a UGT, que na verdade têm uma grande aversão ao processo independentista. O exemplo dos estivadores de Barcelona em não realizarem trabalho de estiva nos barcos enviados pelo governo espanhol com efectivos e material policial terá que se multiplicar.

    Não há caminho alternativo, mobilizar, mobilizar e mobilizar. O regime do estado espanhol saído do mal chamado processo da Transição de 1978 não permite consultas de autodeterminação muito menos a desvinculação pactada. A burguesia espanhola sabe que a independência da Catalunha será o fim desse regime, porque logo atrás virá o País Basco e a Galiza.

    Assim, tão importante como a realização do referendo, garantir o direito a decidir no dia 1 de outubro e ir votar “SIM”, são os dias seguintes. Não afrouxar na luta por uma República Catalã que tenha na habitação, saúde, educação, segurança social e emprego para todas e todos elementos determinantes na sua constituição.

     

    Nota

    * Sistema institucional de administração autonómica da Catalunha constituído pelo Presidente do Governo, Governo e Parlamento

  • Leilão do Metrô de São Paulo é suspenso e luta contra privatização ganha fôlego

    Por: Eduardo Loeck*, de São Paulo, SP
    *agente de estação da Linha 3 – Vermelha do Metrô

    No dia 25, o Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP) determinou o cancelamento do leilão de entrega da Linha 5 – Lilás e da Linha 17 – Ouro do metrô de São Paulo, previsto para ocorrer no próximo dia 28. Esta definição se deu a partir de uma representação do deputado estadual Alencar Braga, da bancada do PT. Esta representação contestava a disparidade entre a capacidade de arrecadação que as empresas ganhadoras teriam com a gestão das Linhas (algo em torno e de 10 bilhões) e o valor pelo qual poderiam comprar as Linhas (lance mínimo de 189 milhões).

    Além disso, a representação do deputado contesta a possibilidade, prevista no contrato, de reposição de possíveis perdas das empresas, com dinheiro público. Está previsto no plano de entrega a garantia de superávit por 20 anos! Se a venda dos bilhetes não garantirem isso, o Estado garante, com dinheiro público! Um verdadeiro absurdo.

    Além disso, o TCE exigiu alguns documentos do Metrô de São Paulo, para avaliar a necessidade de gastos para gestão do Metrô por parte das empresas que venham a vencer leilão. O Metrô tem prazo de 15 dias para responder a esses questionamentos.

    As empresas responsáveis pelo consórcio da Linha 4 – Amarela, que nasceu sob a forma de parceria publico-privada, são empresas que financiaram 70% da campanha eleitoral de Geraldo Alckmin para o governo do estado, em 2014. Algumas delas estão listadas no leilão das Linhas 5 e 17.

    Parte das empresas que concorrem neste leilão também são empresas investigadas em denúncia de superfaturamento das obras de expansão da linha 5 que deram origem a estações que já estão em funcionamento, como a estação Adolfo Pinheiro.

    Foi muito importante esta representação da bancada petista na Assembleia Legislativa do Estado. Mas é necessário que a resistência contra a privatização aproveite este tempo ganho, para fortalecer a resistência.

    Desde o dia 30 de agosto, o Sindicato dos Metroviários de São Paulo, junto com outros movimentos sociais, vem realizando uma consulta à população usuária do serviço sobre os planos de privatização. A resposta da população tem demonstrado a demanda pela melhora e ampliação do serviço através do aumento do investimento público e não através da entrega do Metrô para a iniciativa privada.

    Este espaço de resistência deve ser potencializado. É possível derrotar a privatização, pois a gana por transformar um serviço tão necessário à população em fonte de lucros para os empresários tem se atrapalhado em suas próprias regras. Já são mais de 3 anos que o Ministério público aceitou denúncia sobre irregularidades na modernização dos trens e obras de expansão. As investigações seguem paralisadas.

    Os movimentos sociais da cidade de São Paulo, os sindicatos e frentes de luta, como a Frente do Povo Sem Medo, precisam se unir em torno da luta contra a privatização do metrô. Para defender o serviço público, as condições de trabalho dos funcionários e a população que utiliza o serviço. Essa luta é de todos nós.

  • Alemães vão às urnas e Merkel tenta reeleição

    Por Victor Wolfgang Kemel Amal, Florianópolis?SC

    No dia 24 de setembro ocorrerão as eleições para o parlamento alemão (Bundestag), que determinarão se a coalizão liderada pela chanceler Angela Merkel permanecerá no governo por mais 4 anos. Ao todo são 630 cadeiras em disputa, em que apenas os partidos que fizerem no mínimo 5% dos votos obtém representação. Os governos nunca são compostos por apenas um partido, mas uma coalizão que obtenha maioria de 50% + 1 das cadeiras.

    Também, esta eleição fecha o ciclo de “eleições perigosas” que ocorreram na Europa no último um ano – Áustria, Holanda e França – em que candidatos da extrema direita anti-União Europeia (UE) corriam lado a lado aos candidatos do “establishment” político europeu. Como a Alemanha é o eixo de sustentação da UE, as eleições terão caráter plebiscitário sobre o futuro do bloco. Este artigo pretende abordar alguns dos temas candentes do atual debate eleitoral e os principais partidos que estão na disputa.

    O lugar da Alemanha na política internacional

    O Comissário de Defesa do Bundestag, Hans-Peter Bartels, escreveu em janeiro deste ano um relatório sobre a precaríssima situação em que se encontra o exército alemão. Comparativamente, o contingente de soldados que o país contava em 1990 era de 500 mil; enquanto em 2017 a cifra chega a apenas 170 mil. Este fato ilustra bem o caráter do imperialismo alemão contemporâneo. Enquanto relega o papel de interventor militar para os Estados Unidos e seus vizinhos, França e Inglaterra, a Alemanha utiliza sua posição na União Europeia (UE) para expandir seus capitais para as frágeis economias dos países menos desenvolvidos do bloco. Evidência disso é a correspondência entre o volume de exportações alemãs em relação ao PIB: 46% de sua riqueza vem das exportações. Esse número é altíssimo mesmo comparado à outras grandes economias exportadoras, como a China (20%) e o Japão (18%).

    Isto não quer dizer, todavia, que a Alemanha não tenha grande influência na política internacional, ainda que seu poder venha de cheques ao invés de armas. Em 2015, com a eleição de Alexis Tsipras (Syriza) como primeiro ministro da Grécia, várias das reformas neoliberais que levaram o país ao fundo do poço estavam sendo postas em cheque, gerando diversos ataques do capital financeiro (fuga de capitais, especulação, etc.). Por sua vez, a Alemanha foi protagonista no suporte político às chantagens que a Troika (Banco Central Europeu, Comissão Europeia e FMI) impôs contra o povo grego como condição de auxílio na crise que ela própria criou.

    Com o estopim da crise dos refugiados, também em 2015, Merkel abriu as portas para 1 milhão de refugiados entrarem na Alemanha, ao mesmo tempo que fez um sangrento acordo com a Turquia para que os 3 milhões de sírios que lá estavam não pudessem chegar à Europa. Desde uma tentativa fracassada em 2016 de golpe militar contra o presidente turco, Erdogan, este fez um plebiscito para concentrar os poderes do país no executivo, tornando-se na prática um ditador. A Alemanha pouco fez contra esta movimentação autoritária devido ao medo do rompimento do acordo e consequente vinda de 3 milhões de refugiados para a Europa.

    Por último, desde a eleição de Trump, Merkel vem se opondo radicalmente à diversas de suas políticas (Acordo de Paris sobre o clima; refugiados; etc.) e instando a Europa a proteger a si própria ao invés de depender de países estrangeiros. Ainda, a nova rodada de sanções econômicas contra a Rússia aprovada pelo Senado norte-americano em agosto foi denunciada pelo ministro de relações exteriores de Merkel, o socialdemocrata Sigmar Gabriel, como pretexto para exportação de gás dos EUA para a Europa às custas da instabilidade no continente. Esta postura lhe rendeu um aumento de popularidade, dado que 87% dos alemães não confiam em Trump e, desde o ano passado, a confiança dos alemães nos EUA caiu de 59% para 22%.

    A desigualdade social na Alemanha
    A despeito de a Alemanha ter o maior PIB per capita e o menor índice de desemprego da UE, ainda existe em seu âmago uma desigualdade social inextricável às sociedades que passaram pelo programa de reformas neoliberais. Após um período de estagnação econômica após a reunificação dos anos 1990, em 2005 a Social Democracia de Gehrard Schröeder aplicou um duro pacote de medidas de austeridade e desregulamentação do trabalho: a Agenda 2010.

    Estas medidas tiveram um efeito parecido com o que ocorreu nos EUA pós crise de 2008: diminuição do desemprego e da inflação às custas da diminuição dos salários e benefícios sociais. Entre 2005 e 2015, o desemprego teve uma queda de 10% para 5%, ao mesmo tempo que o índice relativo de pobreza cresceu de 14% para 16% e os benefícios sociais diminuíram de 10% para 9%.

    Esse descompasso se explica pelo fato de os empregos criados terem sido aqueles de meio-período, baixos salários e pouca regulamentação, chamados “mini-empregos”. Estes pularam de 4,1 milhões em 2002 para 7,5 milhões em 2017, e vem substituindo os postos de trabalho de tempo e direitos integrais. Atualmente, apenas 18% dos jovens entre 25 e 34 anos tem contrato fixo.

    Atualmente, existem bolsões de enorme riqueza dentro do território alemão, como os grandes centros em Berlim ou Hamburgo e as pequenas cidades industriais. Entretanto, existe um considerável número de cidades que permaneceram à margem do ciclo de crescimento da última década, aqueles “deixados para trás na globalização”. A cidade de Gelsenkirchen, por exemplo, que entrou em crise após o declínio da indústria de carvão, apresenta uma taxa de desemprego de 14,5%, quase 3 vezes maior que a média nacional.
    Outro dado importante é a distribuição de bens e propriedades, onde a Alemanha figura como país mais desigual do bloco europeu, com cerca de 45% da população sem casa própria e 40% sem dinheiro emergencial guardado em bancos.

    Os partidos: União Democrática Cristã (CDU)

    A CDU é o partido mais tradicional da Alemanha pós-Segunda Guerra Mundial. Foi fundada em 1950, pelo chanceler Konrad Adenauer, que aglutinou em torno de si a elite política conservadora alemã. Desde então, a CDU governou em 48 dos 68 anos de sua existência e hoje possui 430 mil filiados. Seu partido irmão é a União Social Cristã – CSU – que existe apenas no estado da Bavária (maior do país) e sempre participa da coalizão de governo junto com a CDU. Merkel foi eleita chanceler pela primeira vez em 2005, formando a “grande coalizão” junto da Social Democracia (SPD). Em 2009, com maior popularidade, foi reeleita e conseguiu uma coalizão “pura” de direita, com o partido liberal FDP. Todavia, em 2013, apesar da CDU conseguir fazer 41,5% dos parlamentares, o FDP não ultrapassou a cláusula de 5% para entrar no parlamento e mais uma vez ocorreu a “grande coalizão” CDU-SPD.

    Atualmente existe uma divisão entre a ala liberal e conservadora da CDU. Do lado liberal está Angela Merkel, que em seus 3 mandatos tomou posições (relativas) pró-imigração, casamento homoafetivo, entre outros temas que tradicionalmente não contavam com apoio do partido (o fato de ela aderir pautas progressistas mínimas – como abrir a fronteira para refugiados que estavam sendo metralhados na Hungria – causa horror ao setor mais reacionário do partido). De outro lado está Wolfgang Schäuble, o carrasco da Grécia que impôs as mais duras chantagens econômicas contra o país em 2015, e passou a organizar uma oposição interna à Merkel após sua política de abertura das fronteiras em 2015. Apesar desta divisão, o programa do partido é consensualmente neoliberal, pró-Agenda 2010 e atrelado à outras pautas conservadoras.

    Por ocasião da abertura das fronteiras, a popularidade de Merkel esteve em seu menor patamar histórico. Foi nesse momento que a AfD (Alternativa para Alemanha) aproveitou para aglutinar em torno de si parte da base racista e xenofóbica da CDU que estava descontente com a política de Merkel. Para reverter esta perda de popularidade, a Chanceler capitulou ao programa de Schäuble e deu uma guinada direitista e conservadora. Este foi o sentido de seu sangrento acordo com a Turquia, que trancafiou 3 milhões de sírios no país, e seu recente apoio à proibição da burka (vestimenta religiosa islâmica). Essa “direitização” do centro ocorre nos países europeus na tentativa de resposta aos novos partidos de extrema direita, como foi o caso de Mark Rutte nas eleições holandesas deste ano. Aparentemente, essa estratégia política vem dando resultados, dada sua recuperação nas pesquisas de intenção de voto: final de 2016 tinha apenas 22% das intenções, a menor sua história, e atualmente tem 37%.

    Partido Social Democrata (SPD)

    O SPD é o mais antigo partido da Alemanha, fundado em 1875, na época dos grandes partidos da Segunda Internacional Comunista. Todavia, seu apoio aos créditos de guerra durante a Primeira Guerra Mundial (1914), a traição aos espartaquistas Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht (1918) e a formação do Partido Comunista Alemão (1919) levaram os revolucionários alemães à abandonarem o SPD. Desde o fim da Segunda Guerra, o partido esteve no governo durante 34 anos dos 68 que passaram desde as primeiras eleições em 1949, sendo apenas em 21 destes como cabeça da coalizão. Atualmente, possui 440 mil filiados e em 2013 fez 25,7% dos votos.
    Historicamente, o SPD teve sempre um programa reformista de conciliação de classes. Ou seja, defendia limitadamente direitos trabalhistas, benefícios sociais, entre outras árduas conquistas dos trabalhadores. Todavia, após a reunificação da Alemanha (1989) o partido abandonou progressivamente a defesa dos mais mínimos direitos sociais. A consequência disto é que desde que Gehrard Schröeder aplicou o pacote neoliberal de reformas trabalhistas – Agenda 2010 – o SPD nunca se recuperou plenamente de sua perda de popularidade e base política.

    A novidade é que, este ano, o candidato Martin Schulz é vinculado à ala mais de esquerda do partido e promete rever a Agenda 2010, retornando ao tradicional programa socialdemocrata de conciliação de classes. Esta virada reformista de Schulz é o que explica a sua ascensão meteórica nas pesquisas de opinião após o anúncio da candidatura. Durante todo o mês de abril, Schulz havia subido 7% nas intenções de voto enquanto Merkel havia descido 6%, gerando um empate técnico. Contudo, sua ascensão foi acompanhada por uma queda posterior, cujas razões ainda não estão claras.

    Muitos argumentam que a migração dos votos novamente na direção de Merkel se deu pelo medo da incerteza que muitos eleitores passaram a ter após o Brexit, a eleição de Trump e a ida ao segundo turno de Marine LePen. Outros colocam que se tratou de má campanha no estado bastião do SPD, a Renânia do Norte-Vestfália. Outros dizem que foi apenas uma ascensão instantânea devido à mudança da candidatura do neoliberal Sigmar Gabriel para o reformista Martin Schulz. Atualmente, o SPD possui apenas 22% das intenções de voto, podendo terminar com votação inferior à sua pior eleição, em 2009, quando fez 23%.

    A Esquerda (Die Linke)

    A Esquerda, chamado também de Partido de Esquerda, nasceu em 2007 a partir da fusão do Partido Socialismo Democrático (sucessor jurídico do antigo partido único da Alemanha Oriental) e a Alternativa Eleitoral para o Trabalho e a Justiça Social (racha à esquerda da socialdemocracia após a implementação da Agenda 2010). Atualmente, A Esquerda conta com 60 mil filiados e nas eleições de 2013 chegou a 8,6% dos votos, tendo direito à 64 cadeiras no Bundestag. Dada a “grande coalizão” entre a CDU e o SPD, A Esquerda figurou nos últimos 4 anos como o principal partido de oposição no parlamento. Nas eleições de 2017 o partido tem 10% das intenções de voto, dando continuidade à tendência de crescimento.

    Seu programa tem fortes traços anticapitalistas apesar de, em certa medida, se limitar ao trabalhismo e justiça social radical, ou seja, não defende reformas estruturais da sociedade capitalista. A candidata da Esquerda ao cargo de chanceler, Sahra Wagenknecht, que nasceu na Alemanha Oriental e se orgulha de ter ficado em casa quando “os proto-fascistas derrubaram o muro de Berlim”, defende o aumento do salário mínimo de 8,84 euros para 12 euros por hora (que redundaria em um aumento de cerca de 500 euros por mês); 75% de impostos para fortunas que ultrapassem 1 milhão de euros; investimento de 100 bilhões em infraestrutura; fim imediato da Agenda 2010; dissolução da OTAN – Tratado da Aliança do Atlântico Norte (aliança militar dirigida pelos Estados Unidos na Europa); fim do papel econômico predatório da Alemanha na União Europeia. Ainda, Sahra é grande crítica ao presidente da Turquia, Erdogan A Esquerda tomou posição contrária à campanha turca em favor do plebiscito pró-Erdogan na Alemanha (existem muitos turcos vivendo na Alemanha que tiveram o direito a votar no plebiscito).

    Contudo, o fato de a maioria de seus votos advirem dos antigos estados da Alemanha Oriental, e que estes estados foram atingidos por grave onda xenofóbica após o ápice da crise dos refugiados em 2015, Sahra defende um programa no mínimo reacionário para os imigrantes. Apesar de não colocar em questão o direito ao asilo político, estabelece distinção entre refugiados políticos e econômico, estipulando um número limitado para a vinda dos segundos. Sahra afirma, abertamente, que seu objetivo com estas declarações é ganhar os votos dos trabalhadores descontentes com os refugiados que estão pensando em apoiar a AfD (partido de extrema direita).

    Desde 2016, A Esquerda participa junto ao SPD e os Verdes da coalizão de governo em Berlim. Apesar das grandes diferenças entre eles, a ascensão da AfD, que no ano passado entrou em todos os parlamentos regionais que disputou, fez com que os três partidos decidissem estabelecer uma coalizão progressista em torno de pautas mínimas como direito à cidade, vinda de refugiados, etc. Em 2014, a mesma coalizão já havia sido composta na Turíngia, embora o estado não se compare em importância à Berlim.

     Partido Verde

    Os Verdes, como são popularmente referidos, surgiram nos anos 80 como institucionalização partidária de movimentos sociais pacifistas decorrentes dos levantes de maio de 68 na Europa. Os principais eixos de seu programa são a proteção do meio-ambiente; o fim das armas nucleares; dissolução da OTAN; não-violência e pacifismo, entre outros. Nos anos 1980, um setor mais conservador que também defendia pautas ambientais rompeu e formou o Partido Ecológico Nacional. A existência de conservadores na fundação dos Verdes se deu porque o partido não tem interesse fundamental nas pautas econômicas dos trabalhadores, mas sim no “pacifismo” e meio ambiente.

    Os Verdes chegaram ao governo pela primeira vez durante as coalizões com a Socialdemocracia entre 1998 a 2005, que levou à crise partidária pela participação da Alemanha nos bombardeios da OTAN em Kosovo em 1999 e o apoio à guerra do Afeganistão em 2001. Agora, com um total de 60 mil filiados, os Verdes estão divididos entre uma ala que se considera “realista”, vinculada ao candidato a Chanceler Cem Özdemir; e outra que se considera mais “fundamentalista”, e defende não compor governos que sejam contra os princípios partidários. Özdemir, na campanha deste ano, defende atuação forte da OTAN no leste-Europeu e um aprofundamento das sanções contra a Rússia; ao mesmo tempo que novas medidas, mais duras, sejam tomadas contra o autoritarismo da Turquia de Erdogan. Nas eleições de 2013 fizeram 8,4% dos votos, totalizando 63 cadeiras no Bundestag. Este ano as previsões se mantiveram na faixa dos 8%

    Partido Livre Democrático (FDP)

    O FDP é o partido mais tradicional da burguesia alemã, ao lado da CDU. Por ser um partido declaradamente elitista, nunca tentou ser majoritário no parlamento alemão, mas sim parte da coalizão interessada em defender os interesses da elite econômica do país. Fundado em 1948, participou de coalizões tanto com a CDU quanto o SPD, e apesar de nunca ter atingido maioria para nomear um chanceler, esteve dentro do governo por 41 anos, mais que qualquer outro partido. Nas eleições de 2013, fez apenas 4,8% de votos e pela primeira vez em sua história ficou de fora do Bundestag. Agora, sob a liderança de Christian Lindner, possui cerca de 10% das intenções de voto e a participação no novo governo é muito provável. Tradicionalmente, o FDP ocupa o ministério das relações exteriores nas coalizões de governo. Isso é relevante nesse caso pois Lindner já manifestou que a Alemanha deve reconhecer a Crimeia como parte da Rússia, muito influenciado pela burguesia alemã que possui fortes negócios com os russos e vem sendo prejudicados pelas sanções dos Estados Unidos contra o país após a anexação da Crimeia em 2014.

    Alternativa para a Alemanha (AfD)

    Fundado em 2013, a AfD era originalmente um partido eurocético de acadêmicos contrários à moeda única europeia e a ajuda financeira que os alemães deram aos gregos após a crise da dívida do país em 2010. Naquele ano, fizeram 4,8% dos votos e não entraram no Bundestag. Todavia, a partir da crise migratória decorrente da Primavera Árabe e que chegou em seu ápice em 2015, a AfD deu um giro xenofóbico e islamofóbico anti-imigração que conseguiu aglutinar em torno de si parte da população contrária à política de abertura de fronteiras executada por Merkel. Desde então, a AfD vem obtendo representação em todos os parlamentos regionais e conta com 10% das intenções de voto para as eleições deste ano, conferindo espaço de representação nacional para a extrema direita nacionalista pela primeira vez na Alemanha desde a ascensão do nazismo.

    Além da saída da União Europeia e uma política econômica ainda mais neoliberal, a AfD tem um programa marcadamente islamofóbico dentro do contexto de entrada de refugiados na Europa advindos de países com maioria muçulmana. Mesmo antes disso, a Alemanha possui grande histórico de vinda de imigrantes muçulmanos para o país, como o caso dos turcos após a Segunda Guerra, que literalmente reconstruíram o país. Entre suas pautas políticas, figura o fechamento das mesquitas, proibição do Al Corão (livro sagrado muçulmano), expulsão dos refugiados e imigrantes que chegaram nos últimos anos, fechamento dos centros de assistência aos refugiados, criação de campos de concentração para refugiados que tentarem entrar no país, etc. A AfD foi o único partido a saudar a eleição de Trump e o Brexit, em 2016, e conta com forte apoio das mídias russas (Sputnik e Rússia Today) e de empresários vinculados ao governo russo.

    Possíveis coalizões

    A grande coalizão, CDU-SPD, é uma das alternativas possíveis para estas eleições, tal qual já ocorreu outras vezes na história recente. Porém, o SPD avalia que sua perda de popularidade se deveu em parte às coalizões com a CDU; e caso não faça uma boa votação como as pesquisas vêm apontando (22%), a presença no governo seria menor que anteriormente e cara em termos políticos. Dada a oscilação do SPD, a preferência de Merkel é uma coalizão CDU-FDP, que possuem bastante afinidade programática. Contudo, para isso ocorrer, a CDU deve fazer mais de 40% dos votos ou o FDP fazer mais de 10% para totalizar 50% + 1 das cadeiras parlamentares. Caso isso não ocorra, Merkel também considera estabelecer uma coalizão CDU-FDP-Verdes. Apesar de esta coalizão ser inédita ela não deixa de ser impossível, dado que os Verdes há muito abandonaram seu radicalismo originário, em particular o atual candidato Cem Özdemir.

    Do lado da esquerda, é possível que a coalizão SPD-Esquerda-Verdes, que atualmente governa Berlim, se coloque de forma inédita em nível nacional. Todavia, isto implicaria uma abrupta ascensão desses três partidos na reta final da campanha, o que é improvável dada a atual tendência de estagnação do SPD e limite dos 10% da Esquerda e os Verdes (com as atuais intenções de voto, os três somam apenas 40% do Bundestag). Se após as eleições de 2013 os três somavam 311 das 630 cadeiras, ou seja, quase o suficiente para coalizão, o rechaço mútuo entre A Esquerda e o SPD impossibilitaram qualquer diálogo. Agora, com a entrada do FDP e AfD no parlamento fica mais difícil que em 2013 que os partidos consigam as cadeiras necessárias para repetir a coalizão Vermelha-Vermelha-Verde de Berlim. Ainda, todos os partidos afirmaram que em hipótese alguma estabelecem unidade com a AfD (mesmo a CDU e o FDP), apesar de que sua possível votação de 10% já a inclui no rol dos principais partidos nacionais.