Carlos Zacarias

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  • Precisamos falar sobre o novo golpismo

    Por Carlos Zacarias, Colunista do Esquerda Online. Publicado no Jornal A Tarde no dia 29/09/2017.

    Na última semana, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, deu uma longa entrevista ao programa de Pedro Bial. No estilo talk show, o general falou descontraidamente de diversos assuntos. Mas o objetivo principal da entrevista, como logo se viu, foi repercutir a declaração do general Antonio Hamilton Mourão, que em palestra à Loja Maçônica de Brasília no dia 15, afirmou que uma intervenção militar no Brasil não estava descartada e que o comando do Exército estava atento à crise promovendo “aproximações sucessivas”, pois ou as instituições solucionam o problema político, ou “então nós teremos que impor isso”.

    A polêmica fala de Mourão mereceu do comandante do Exército uma bem cuidada escolha de palavras. Villas Bôas evitou condenar o subordinado, a quem chamou de “bom soldado”, e embora tergiversasse sobre a possibilidade de uma “intervenção”, ou seja, de um novo golpe, reivindicou o artigo 142 da Constituição que, segundo seu raciocínio, estabelece a salvaguarda para uma intervenção das Forças Armadas caso as instituições estejam ameaçadas.

    De fato, consta no artigo citado que as Forças Armadas “destinam-se à defesa da Pátria” e “à garantia dos poderes constitucionais”, entretanto se submetem à “autoridade suprema do Presidente da República” e dos poderes constituídos. Ou seja, embora o caput do artigo abrigue um dispositivo controverso que admite a atuação das Forças Armadas, estas não podem intervir ao arrepio dos poderes civis.

    A entrevista do comandante do Exército dada a um apresentador e jornalista popular não deixou de passar a mensagem de que uma provável/possível/eventual intervenção militar “constitucional” não necessariamente levará o país a uma ditadura. Todavia, há apenas 50 anos do fatídico ano de 1964, não há quem possa alegar inocência diante dos riscos de um novo golpe que certamente nos conduzirá de uma vez por todas ao caos.

    Ao final da entrevista com Bial, provocado pelo jornalista sobre os piores temores e as melhores esperanças para 2018, o general concordou que “o populismo” nos assombra, acrescentando que “o populismo tem sido a desgraça, principalmente na América do Sul”. De acordo com o general, não surgiu nenhuma alternativa que rompa com os “modelos e esquemas ultrapassados”, como “esquerda e direita”, “proletário e burguesia”.

    Ninguém há de negar que vivemos uma crise de grandes proporções. Diante desse quadro que se arrasta por quase dois anos, soluções desesperadas são cogitadas por quem apoiou a aventura golpista e precisa sustentar o governo mais impopular da história. Nessa altura, é possível que os militares já não estejam mais tão isolados no seu afã de guardiões da lei e da ordem. Mas sendo impossível se prever o futuro, na medida em que a política orbita entre vários possíveis, só se pode prever a luta.

  • Zezé, ame-o ou deixe-o!

    Por Carlos Zacarias de Sena Júnior*, Colunista do Esquerda Online. Publicado originalmente no jornal A Tarde no dia 15/09/2017.

    Acostumados aos holofotes, mas ultimamente esquecido da mídia, o cantor Zezé Di Camargo, que forma dupla com o irmão Luciano, ensaia enveredar por outra profissão, a de historiador. Isso é o que se depreende da entrevista que deu a Leda Nagle, no canal da jornalista no YouTube. Falando sobre sua vida, sua trajetória e a sua “boa forma”, Zezé pretendeu passar uma mensagem de que não é apenas um “rostinho bonito” da música, mas que é alguém politizado, um sujeito “imperativo” e que impressiona até mesmo os políticos por seus conhecimentos no assunto.

    Zezé causou alvoroço e virou notícia quando elaborou o, digamos, inusitado conceito de “militarismo vigiado” que, segundo disse, era o que existia no Brasil, muito embora todo mundo fale que nós “vivíamos numa ditadura”. Para um dos filhos de Francisco, “muita gente confunde militarismo com ditadura”, mas “ditadura é a Venezuela, Cuba com Fidel Castro, Hungria, Coreia do Norte, China”, ensinou. Depois acrescentou: “O Brasil nunca chegou a ser uma ditadura daquelas que você ou está a favor ou está morto”.

    Na semana em que o ocupante do Executivo está prestes a enfrentar uma nova denúncia por corrupção e o PMDB é chamado de “quadrilhão” pela Polícia Federal; na semana em que o Movimento Brasil Livre (MBL) atacou uma exposição de arte promovida por um banco e que continuamos pensando nos 51 milhões de reais apreendidos num apartamento emprestado a Geddel Vieira Lima, ver a entrevista de Zezé nos convence de que o poço não tem fundo.

    Zezé Di Camargo, que tem todo direito de ter sua opinião sobre o que seja, dificilmente falaria com tanta propriedade sobre a história e a política do país, se não tivesse sido antecedido por gente como Alexandre Frota, Suzana Vieira e Luciano Huck. Vivemos um profundo retrocesso e não há aula, livro ou professor de História que possa tirar o Brasil dessa situação. Zezé, como as celebridades citadas, devem ter “aprendido história” nos “guias politicamente incorretos” da vida. É pena que não tenham estudado com Marc Bloch, E. P. Thompson ou João José Reis. Posicionamento político, como se sabe, independe de conhecimento histórico, mas a falta que faz um pouco de ilustração nos nossos artistas, como de resto, nos nossos médicos, juízes, jornalistas e outros profissionais, pode determinar o rumo que vamos tomar.

    O problema de Zezé Di Camargo não é, apenas, a visão distorcida do passado recente, mas a impressão que tem de que a ditadura não foi tão dura quanto se diz. Por conta disso, acredita que o país precisa passar por uma “depuração” e que a solução poderia ser um “militarismo para reorganizar a coisa e entregar de novo”. Zezé talvez nem saiba quanto durou a ditadura e nem deve ter ideia do que significa o lema “ame-o ou deixe-o”. Seu momentâneo excesso de opinião, como acontece com tanta gente, pode não ser despretensioso, mas sintoma de nossa estupidez e caminho para a barbárie.

  • Palocci, a trajetória de um traidor contumaz

    Por Carlos Zacarias de Sena Júnior, Colunista do Esquerda Online

    Antonio Palocci não é uma figura qualquer na história do PT. Ex-membro da Organização Socialista Internacionalista (OSI), Palocci esteve entre aqueles que, no início dos anos 1980, aproximaram-se do grupo Articulação dos 113 para tentar ganhar o então sindicalista Lula para a revolução. No final das contas, foi Luís Inácio quem ganhou Palocci e os outros ex-trotskistas para a conciliação de classes e o reformismo das décadas seguintes.

    Nos anos de 1980 e 1990, Palocci foi vereador, deputado estadual e prefeito de Ribeirão Preto pelo PT. Em seu primeiro mandato como chefe do Executivo da cidade paulista, Palocci deu início à privatização da Ceterp (Centrais Telefônicas de Ribeirão Preto), algo que foi concretizado em 1998, quando o prefeito era Luiz Roberto Jábali, do PSDB. Os peessedebistas nunca esqueceram que muito antes de FHC privatizar a telefonia no país, o petista Palocci tinha iniciado o processo em sua cidade.

    Mas Palocci nunca caiu em descrédito no PT por conta da sua disposição privatista, muito ao contrário. Depois de se dedicar de corpo-e-alma à campanha de Lula em 2002, quando foi coordenador em substituição ao ex-prefeito de Santo André Celso Daniel, que morreu assassinado, Palocci foi escolhido para coordenar a equipe de transição junto ao PSDB. Quando Lula assumiu o mandato, Palocci estava ao seu lado, empossado como ministro da Fazenda e homem forte da economia.

    Como ministro da Fazenda, o ex-militante da OSI foi celebrado nos círculos da burguesia e passou a ser o queridinho da Globo com suas políticas austeras e pró-cíclicas no primeiro mandato de Lula. Logo foi apontado como provável nome a substituir Lula na presidência. Então veio a crise provocada pelas denúncias produzidas pelo deputado Roberto Jeferson, do PTB. Envolvido no escândalo conhecido como mensalão, Palocci foi absolvido, mas em seguida foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por supostamente ter quebrado o sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa, que cuidava de uma mansão em Brasília que era frequentada por empresários, lobistas e políticos, como Antonio Palocci. Na ocasião, petistas ligados ao ex-ministro da Fazenda queriam provar que Costa havia recebido dinheiro do PSDB para fazer a denúncia, mas o tiro saiu pela culatra e Palocci mais uma vez teve que sair de cena.

    Inocentado do caso da quebra do sigilo do caseiro em 2009, Palocci reapareceu em 2010, para coordenar a campanha de Dilma à presidência. Vitoriosa, Dilma escolheu Palocci para chefiar a Casa-Civil, caminho que a própria Dilma havia trilhado até a presidência da República, mas novas denúncias que apontavam o aumento do patrimônio do ministro em 20 vezes, entre 2006 e 2010, determinaram um novo afastamento de Palocci do governo.

    Mais uma vez afastado do governo petista, Palocci atuou com discrição no início da segunda década do novo século. Quando do estouro da operação Lava-Jato a partir de 2015, o ex-chefe da Casa-Civil foi acusado de praticar o caixa 2 e de estar envolvido num esquema de recebimento de 45 milhões de reais, denúncias que se agravaram a partir das prisões de João Santana e Mônica Moura, marqueteiros das campanhas de Dilma.

    Palocci foi um dos principais quadros do PT nas últimas três décadas, mas diferente de outras figuras importantes e centrais no partido, como José Dirceu, José Genoíno e João Vaccari Neto, apenas para citar três dirigentes que foram presos, Palocci é o primeiro a fazer acusações à cúpula petista antes mesmo de fechar um acordo de delação premiada.

    Mas traição não é novidade na história de Palocci. Tendo em vista que o ex-militante trotskista começou traindo os seus camaradas da OSI e depois traiu os trabalhadores que lhe confiaram mandatos, não deveria surpreender a ninguém que agora se prepare para trair Lula e o alto escalão do PT.

    No atual estágio da vida política do país, até mesmo quem não acredita que Lula seja uma alternativa fica estupefato diante da desfaçatez dos delatores que ainda não apresentaram nenhuma prova contra o dirigente petista.

    Num momento em que 51 milhões de reais são apreendidos num apartamento emprestado a Geddel Vieira Lima, e que novas gravações de Joesley Batista e Ricardo Saud revelam ainda mais elementos e personagens numa sinistra trama de corrupção envolvendo governantes e políticos com a maior empresa de proteína e derivados de carne do mundo, o tema que mais chamou a atenção foi o depoimento de Palocci ao juiz Sérgio Moro, que precede o fechamento do acordo de delação premiada.

    Os próximos dias serão decisivos na definição dos rumos do governo e da atuação da Justiça. Apostando que vão conseguir cancelar as denúncias de Joesley em função dos vícios produzidos por uma parte da gravação que havia sido omitido, Temer e aliados pretendem desviar o foco dos escândalos para os ex-presidentes Lula e Dilma, enquanto avançam nas reformas política e previdenciária. Para que isso seja possível, Temer contará com a prestimosa ajuda da Justiça, da imprensa e,  principalmente, de Antonio Palocci.

  • O país de Fufuca

    Por: Carlos Zacarias de Sena Júnior*, colunista do Esquerda Online

    André Fufuca não esperava por essa. Deputado do Partido Progressista (PP) em primeiro mandato e filho do prefeito da cidade maranhense de Alto Alegre do Pindaré, Fufuquinha, como é conhecido, certamente não sonhava que aos 28 anos de idade pudesse vir a dirigir a Câmara dos Deputados, tornando-se o terceiro na linha de sucessão do, digamos, “presidente” Temer. O acontecimento, que deverá entrar para a história da cidade de 32 mil habitantes situada no oeste maranhense, não deixará de constar também nos futuros livros de história que abordarão esse infausto momento do país, cujo comando é exercido por um presidente golpista que, rejeitado por 95% dos brasileiros, seguiu para a China para, literalmente, vender o país.

    Em suas primeiras declarações como presidente da Câmara, Fufuquinha mandou um recado para os seus colegas anunciando que pretende dar andamento à reforma política, tema que se arrasta há algumas semanas sem resolução. A propósito do imbróglio, talvez Fufuquinha possa contribuir com sua experiência de filho de prefeito para destravar a pauta em torno da proposta que prevê, entre outras coisas, o distritão, um modelo de eleição que só existe no Afeganistão, na Jordânia, em Vanuatu e nas Ilhas Pitcairn. Mas Fufuquinha sabe que se a proposta afiançada pelo peemedebista Lúcio Vieira Lima, presidente da Comissão da Reforma Política, é demasiadamente polêmica, então já disse que estará satisfeito se conseguir aprovar a cláusula de barreira e a proibição de coligações já para 2018.

    Se o leitor que acompanhou este texto até aqui ainda não entendeu a gravidade do problema, convém reforçar a mensagem, pois mesmo a simples, remota e implausível hipótese de um parlamentar que nascido em 1989 possa conduzir a votação de tema de tamanha importância para o país, deveria causar arrepios. Acrescente-se a esta temível possibilidade, o fato de que o jovem deputado, médico de formação, já passou por dois partidos (PSDB e PEN) antes de ingressar no PP, além de ser aliado de Eduardo Cunha, a quem chamava de “papi”. Se isso não é motivo de preocupação, não há nada mais que possa ser.

    Na verdade, Fufuca é o retrato fiel da nossa atual miséria política. Numa legislatura que é, certamente, a pior da história do país, cujos parlamentares fizeram questão de demonstrar seu total desprezo pelos eleitores, o que vier daqui para frente não deverá surpreender a ninguém. O Brasil se tornou o país de Fufuca simplesmente porque o desespero de nossas classes dominantes, aliado à incompetência de uma esquerda que foi aliada de boa parte do que está aí, nos conduziu a esta situação que põe no chinelo qualquer narrativa de realismo fantástico. E ainda que talvez sejamos capazes de rir das piadas em torno das bochechas vermelhas do deputado Fufuca, está cada vez mais difícil ter o mesmo bom humor diante do nosso próprio destino.

    *Texto publicado no jornal A Tarde, 01/09/2017

    Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

  • Algumas lições dos primeiros dias da visita de Lula ao Nordeste

    Por: Carlos Zacarias de Sena Júnior, colunista do Esquerda Online

    Primeira lição: Lula continua sendo uma grande liderança popular
    Começou no último dia 17, em Salvador, a caravana de Lula pelo Nordeste do Brasil. Prevista para ser encerrada no início de setembro, a caravana, que percorrerá os nove estados da região e mais de duas dezenas de municípios, pretende ser um teste de popularidade da principal liderança petista do país numa região que, proporcionalmente, mais ofereceu votos ao PT em todas as eleições.

    O início da caravana foi marcado por tumultos em função de uma liminar expedida pelo juiz Evandro dos Reis, que acatou recurso do vereador soteropolitano Alexandre Aleluia (DEM) solicitando que fosse suspensa a concessão do título de doutor Honoris Causa a Lula pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). O resultado dessa contenda que revelou, mais uma vez, a miséria da nossa Justiça e a incompetência do vereador que apresentou projetos de lei em torno do projeto Escola sem Partido, foi que a liminar repercutiu em diversos setores, especialmente nas universidades, que condenaram veementemente a decisão da Justiça, que feria o artigo 207 da Constituição, que versa sobre a autonomia universitária.

    Diante de toda a repercussão negativa, e também pelo fato de que o petista e seus aliados souberam tirar proveito da situação, uma cerimônia que devia ser algo relativamente simples, na medida em que alguma coisa que envolva Lula pode ser considerado simples, se transformou num enorme ato político de desagravo ao líder petista, de defesa da autonomia universitária e de repúdio à decisão da Justiça e à atitude mesquinha e burra do vereador do DEM. Por conta disso, milhares de pessoas partiram para a pequena cidade de Cruz das Almas, no Recôncavo baiano, onde fica a reitoria da UFRB, uma universidade criada por Lula, para assistir o dirigente petista discursar e para lhe prestar apoio.

    O fato de que milhares de pessoas se reuniram para ver e ouvir Lula é demonstração inconteste de que o ex-presidente continua sendo uma grande liderança popular e qualquer um que não reconheça isso em seus cálculos políticos está condenado a fracassar em suas análises. Da mesma forma, deve-se reconhecer que parte considerável dos apoiadores de Lula acreditam que todos os problemas serão resolvidos com o retorno deste à presidência, o que significa que as tarefas da esquerda socialista serão bastante difíceis e deve ser enfrentada com toda paciência.

    Segunda lição: Lula e o PT não aprenderam quase nada com a derrota de 2016
    Saindo de Salvador, Lula passou por Feira de Santana, a segunda cidade mais importante da Bahia, seguindo depois para Aracaju. Na capital sergipana, no dia 21, Lula recebeu seu 29º título de doutor Honoris Causa concedido pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Em sua agenda no Nordeste, pelo menos outros três títulos da mesma natureza estão previstos.

    Quando do recebimento do título na UFS, Lula fez o que mais sabe: acusou as “elites” do país de serem contra a expansão do ensino público. Obviamente que todos que acompanham a política educacional do governo Temer devem reconhecer que o projeto de destruição da universidade pública foi retomado com todo vigor com o golpista, que conta com o apoio maciço do Congresso, composto por dezenas de deputados envolvidos com o ensino privado. O problema, contudo, é que o discurso de Lula, embora consiga registrar o papel cumprido por setores da burguesia que conspiram há décadas contra a educação pública, esconde que nos governos petistas, se a educação pública se expandiu, isto se deu com insuficiente aporte de verbas para fazer frente a expansão, o que resultou em precarização e dificuldades para docentes, discentes e servidores técnico-administrativos. Da mesma forma, o ensino privado também cresceu e alcançou fatias cada vez maiores do público habilitado ao ensino superior, não sem ajuda e incentivos dos governos petistas.

    Foi, contudo, no dia seguinte, enquanto discursava para militantes e simpatizantes ao lado do governador Jackson Barreto, do PMDB, que Lula colheu os primeiros dissabores, quando um setor da CUT se afastou do ato e lançou nota criticando a presença do governador peemedebista nos palanques do PT. Para a CUT, “não cabem os traidores ou os que lavaram as mãos ante ao processo mais desastroso da recente história brasileira, que foi o impeachment da presidente Dilma [Rousseff]”. Ainda segundo a central sindical, “A presença de Jackson Barreto no palanque de Lula tem o único objetivo do governo estadual de acumular força para continuar massacrando os trabalhadores”.

    O que parecia ser apenas um mal entendido registrado em Sergipe, que ocasionou, inclusive, mal-estar com correntes petistas no estado, em Alagoas ganhou ares de farsa, já que os anfitriões de Lula foram Renan Calheiros, então presidente do senado quando do golpe do impeachment em 2016, e seu filho, atual governador do estado. Em seus discursos na cidade de Penedo, onde Lula foi recebido por Renan pai e filho, houve troca de elogios e uma clara sinalização de que um setor do PMDB pretende se reaproximar do PT. Este partido, por sua vez, parece estar disposto a esquecer o passado e receber de braços abertos figuras que há pouco mais de um ano conspiraram para a deposição da presidente Dilma e até algumas semanas atrás estavam no governo de Michel Temer.

    Em que pesem as manifestações de descontentamento de muitos petistas, especialmente daqueles que vivem sob governos do PMDB e que não esquecem que Michel Temer é deste partido, seria impossível dizer hoje que o destino desses setores seja romper com o partido e com o lulismo.

    Terceira lição: não há vazio na política
    Para qualquer bom entendedor, parece óbvio que o recuo nas manifestações contra as reformas e, de conjunto, na resistência ao golpe, atendeu muito bem às expectativas dos setores petistas mais alinhados ao ex-presidente que optaram por seguir em caravana pelo país, repetindo o movimento de inícios da década de 1990, com a Caravana da Cidadania. Para refrescar a memória, naquela altura, após ser derrotado nas eleições presidenciais de 1989, o PT e Lula apostaram todas as fichas no projeto eleitoral de 1994. Nem mesmo o impeachment de Collor impediu de seguirem essa miragem, pois foi o setor hegemônico do PT que garantiu a posse de Itamar e, depois, a governabilidade até as eleições, que terminaram com a derrota do petistas para FHC ainda no primeiro turno.

    Para os setores dos movimentos sociais e qualquer trabalhador ou trabalhadora que tenha saído às ruas para lutar contra as reformas e pelo Fora Temer nos últimos meses, seria difícil imaginar a realização da caravana de Lula caso houvesse o empenho das centrais em construir as lutas, especialmente as greves. Em vista disso, parece ser ainda mais necessário se cobrar da CUT as responsabilidades na retomada da agenda de lutas, que não pode ser inviabilizada em função dos interesses eleitorais remetidos para 2018.

    Na semana em que a plataforma “Vamos” será lançada, por iniciativa da Frente do Povo sem Medo, que envolve o PSOL, o MTST e várias organizações de esquerda e movimentos sociais do país, além de intento anunciado de ser um polo alternativo à política de conciliação de classes do lulismo, a plataforma deve ser, também, um espaço de construção de lutas contra o ilegítimo governo Temer e suas reformas.

    Parece ser necessário para a esquerda socialista começar a ocupar os espaços junto aos setores combativos dos movimentos populares, da cidade e do campo. Combatendo os mitos, porque estes nunca ajudaram a construir alterativas, os trabalhadores e as trabalhadoras não podem esquecer que a obra de construção da emancipação deverá ser feita pelos próprios subalternos. Do contrário estaremos condenados a ainda mais retrocessos, de onde não se descarta que uma eventual candidatura de Lula, caso se concretize, terá muitas dificuldades de emplacar num cenário de campanha eleitoral, onde as acusações vão descer aos níveis mais baixos da política.

    Por tudo isso, e muito mais pela necessidade de enfrentarmos as ilusões de que o único caminho para tirar o país do atoleiro é reeditar os governos Lula nas mesmas condições em que eles existiram, a esquerda socialista deve tomar a si o desafio de debater a sério, e com toda paciência, a necessidade de uma saída radicalmente anticapitalista para o país.

    Foto: Lula na Travessia do Rio São Francisco entre Sergipe e Alagoas. | Ricardo Stuckert

  • 19 de agosto, dia do Historiador

    Por Carlos Zacarias de Sena Júnior, colunista do Esquerda Online

    19 de agosto é o dia do historiador. Historiadores são os profissionais que, no presente, escrevem e dão aulas sobre o passado. 19 agosto de 1849 foi a data em que o historiador abolicionista Joaquim Nabuco nasceu. O Abolicionismo foi um movimento que lutou pelo fim da escravidão no Brasil. A escravidão moderna foi um sistema brutal implantado pelos colonizadores que precisavam de braços para a lavoura. Os braços que vieram trabalhar na lavoura eram de negros escravizados. Os negros foram trazidos da África para a América, onde fica o Brasil. Brasil é o país que importou 6 milhões de negros e o último que aboliu a escravidão.

    América é o nome que se dá ao continente “descoberto” pelos europeus em 1492. Também é o nome usado para se referir aos Estados Unidos, país conhecido como “terra da liberdade”. Nos Estados Unidos, que apoiaram muitas ditaduras, grupos neonazistas saíram às ruas esta semana para exercerem sua “liberdade” de odiar negros, judeus e latinos. Neonazistas são pessoas que apoiam o Nazismo. Nazismo foi um regime de extrema-direta implantado por Hitler, na Alemanha, em 1933. Hitler foi um ditador genocida que exterminou 6 milhões de judeus em campos de concentração e levou o mundo a Segunda Guerra.

    Nos Estados Unidos da América, país do Novo Mundo, defender o nazismo é um direito. Novo Mundo era a forma como os europeus se referiam ao continente americano. É, também, uma novela da Globo. A TV Globo pertence as Organizações Globo. As organizações Globo são empresas da família Marinho, que começou com o jornal O Globo. Roberto Marinho fundou a Rede Globo em 1965, um ano depois de implantada a ditadura no país. O jornal O Globo apoiou o golpe empresarial-militar de 31 de março de 1964, ao qual se seguiu uma ditadura de 21 anos. A família Marinho é a mais rica do Brasil.

    Ditaduras são o oposto de democracias. O nazismo foi a pior ditadura da história. Ditaduras são regimes que se utilizam da força, da censura e da perseguição a opositores que são presos, torturados, banidos ou mortos. A Ditadura brasileira prendeu, torturou, baniu e assassinou opositores. Entre os instrumentos de tortura utilizados pela Ditadura estava o pau-de-arara. Paus-de-arara foram inventados para castigar escravos até a Abolição.

    13 de maio de 1888 é a data da Abolição. A Abolição foi fruto das lutas dos abolicionistas e das lutas dos negros que se revoltavam contra a escravidão. Revolta é o nome que se dá a manifestação de insubmissão coletiva contra as autoridades. Autoridade é o nome de quem exerce o poder. A maior autoridade do Brasil é Michel Temer, que é presidente, mas não foi eleito. Temer é um político. A maioria dos políticos não gosta de historiadores. Historiadores são profissionais que no presente e no futuro vão dar aulas, escrever e incomodar quem não quer falar sobre a escravidão, o nazismo, o golpe e as lutas dos trabalhadores do mundo.

  • Como num conto de fadas

    Por: Carlos Zacarias de Sena Júnior, colunista do Esquerda Online*

    Era para ser um conto de fadas: reunião de “gente de bem”, em trajes de gala, muito finos, como convém à ocasião. Tinha deputado, ministro e secretário de estado. A vice-governadora, mãe da noiva, e o ministro da Saúde, pai. Havia um bolo de seis andares e uma parede de rosas vermelhas que junto com os 12 lustres de cristal da entrada, davam um ar solene e festivo à ocasião. Era para ser um conto de fadas, então havia um Palácio, o Garibaldi. De fachada neoclássica, construído em 1904, com capacidade para 500 pessoas, embora houvesse 1,2 mil convidados da fina-flor da sociedade curitibana.

    À boca-miúda se dizia que na loja onde a lista de presentes havia sido disponibilizada constava uma garrafa térmica de prata de R$ 2,3 mil e uma batedeira de R$ 2,8 mil. Os mais animados podiam se dispor a pagar R$ 3,6 mil um jogo de seis pratos ou, quem sabe, desembolsar R$ 10 mil por um conjunto de taças de cristal.

    Filha do ministro da Saúde, Ricardo Barros, e da vice-governadora do Paraná, Cida Borghetti, a noiva, Maria Victória, a princesa da nossa história, é menina pródiga. Na sua biografia consta que estudou na Suíça, estagiou na China e integrou “uma missão humanitária” na África “com objetivo de educar, entreter e ajudar as crianças” de alguns países do continente.

    Maria Victória não nega a linhagem. Seu avô paterno havia sido prefeito de Maringá, depois seu pai e seu tio. Sua mãe, antes de ser vice-governadora, havia sido deputada estadual e federal. Eleita deputada estadual aos 22 anos de idade em 2014, Maria Victória seguia os passos da família. Em 2016 disputou a prefeitura de Curitiba pelo PP, ficando em quarto lugar.

    O casamento da filha pródiga de uma tradicional família do Paraná e de um advogado que desembolsou 60 mil reais para ajudar na eleição da amada, tinha que ser um acontecimento. Mas esqueceram de combinar com o povo os termos do “casamento ostentação”. Então mais de duas centenas de pessoas, que não haviam sido convidadas, se dirigiram ao casório com ovos, palavras de ordem e muita disposição. Na memória dos populares a lembrança da cena da deputada que em 2015 foi escoltada por um carro da Polícia para votar projetos que retiravam direitos dos servidores e recursos da previdência. Também as imagens da barbárie promovida pela PM do governo de Beto Richa/Cida Borghetti, que realizou um massacre contra milhares de trabalhadores que protestavam naquele 29 de abril.

    Maria Victória nunca se fez de rogada quanto ao seu lugar no mundo. Sobre o Bolsa-Família, há alguns anos, escreveu: “É triste ver o governo federal dando o peixe, ao invés de ensinar a pescar”. A princesa da nossa história gosta de ditados, então deve lembrar da famosa frase de uma outra Maria, a Antonieta, que disse ao povo que não tinha pão, que comesse brioches. A rainha da França, como se sabe, morreu na guilhotina, mas como nas histórias de princesas, era para ser um conto de fadas.

    *Publicado no Jornal A Tarde

  • Se nada der certo, nos fiamos no povo brasileiro

    Por: Carlos Zacarias de Sena Júnior*, colunista do Esquerda Online
    Publicado originalmente no jornal A Tarde

    As cenas se repetem numa velocidade vertiginosa e causam um profundo desconforto: no Rio Grande do Sul, alunos de duas escolas particulares organizam uma festa chamada “se nada der certo” em que debocham de trabalhadores de profissões ocupadas, sobretudo, por negros; em São Paulo um tatuador é filmado tatuando a frase “eu sou ladrão e vacilão” na testa de um adolescente que teria tentado roubar uma bicicleta; no Rio de Janeiro uma criança morre após ter recusado o atendimento por uma médica que alegava que seu expediente havia chegado ao fim; em Salvador uma grande escola particular organiza um “Dia do Mico” e dois adolescentes se fantasiam de membros do grupo racista norte-americano Ku Klux Klan e ainda posam para foto ao lado de um jovem que simula a saudação nazista.

    Não bastassem as notícias que nos últimos anos nos assombraram, como o espancamento seguido de morte de uma mulher deficiente mental confundida com uma sequestradora de crianças para rituais satânicos; ou o adolescente negro que após um roubo foi preso a um poste por rapazes brancos e de classe média alta que lhe ataram ao pescoço um dispositivo de prender bicicletas, os significados de todas essas cenas de barbárie dão a sensação que o Brasil não deu certo. Acrescente-se a isso as muitas mortes de jovens negros da periferia, recentemente reveladas no Atlas da Violência e que passam por ser apenas estatísticas que quase não chocam a ninguém, e a sensação se converte em quase certeza.

    Nossa autoestima tem declinado a olhos vistos. Em torno de escândalos de corrupção e em meio ao espetáculo público que o desgoverno de Temer e o Congresso nos têm proporcionado ao longo do último ano, com denúncias robustas e sobejas demonstrações de que a corrupção é gigantesca, além do fato de que os governantes querem nos impor reformas rejeitadas pela maioria dos brasileiros, não há sentimento maior do que a indignação e o escárnio. Falta vergonha na cara dos governantes, mas falta também empatia da parte daqueles que permanecem distantes da realidade de um país cuja desigualdade gritante é a principal responsável pela maioria de nossos males.

    Na semana em que o tema principal do noticiário político do país foi o julgamento da chapa Dilma-Temer pelo TSE, as imagens e os fatos do cotidiano são chocantes, mas apenas confirmam os caminhos tomados por uma parte do país que se espelha no andar de cima. Nesta senda infausta, que reforça o nosso complexo de vira-latas, as perspectivas de que possamos sair do atoleiro que nos enfiamos parecem cada vez mais distantes. Como lampejos de esperança apenas a certeza de que somos um povo que, mesmo vivendo na dificuldade, cultivamos a alegria, a solidariedade e a resiliência, embora nunca a resignação. Contra um país de desesperança resta-nos a expectativa de que, como brasileiros, somos mais do que nos fazem acreditar as nossas classes dominantes.

    * Doutor em História. Professor da UFBA.

    Foto: Diretas Já

  • Aonde Vamos?

    Por Carlos Zacarias de Sena Júnior*, Colunista do Esquerda Online

    Os acontecimentos produzidos nas duas últimas semanas, que perpetuam uma crise que se arrasta há mais de um ano, produziram, na quarta, 24, seus resultados mais significativos. A convocação das Forças Armadas para “garantir a lei e a ordem” de um governo ilegítimo e caótico, acuado por movimentos sociais e de trabalhadores, são sintomas de que o buraco que nos metemos é ainda mais fundo. Não bastasse a atual crise política, a maior parte dos membros do governo segue alheia ao que acontece no mundo real, com os olhos postados unicamente nos movimentos e expectativas do mercado.

    O problema da maioria dos brasileiros com Temer não se deve unicamente ao fato de que ele aceitou propina, fez tráfico de influência ou ofereceu informação privilegiada ao dono do maior frigorífico do mundo. A corrupção é um dado estrutural do capitalismo e num país como o Brasil, cujas eleições são financiadas a peso de ouro por grandes empresas, só sendo muito inocente para acreditar que quem recebeu fortunas de empresários não o fez com a promessa da contrapartida. Essa questão, por si só, coloca todos os governos e quase todos os parlamentares sob suspeita. Mas não é contra a corrupção que se levanta a maioria dos brasileiros no momento. Do alto da sua impopularidade, Temer só se sustenta se puder garantir que seu programa de contrarreformas seja aprovado para diminuir o custo do trabalho no país no interesse do grande capital. Como muitos já entenderam, este governo foi criado a bem dos que mandam. Estes foram beneficiados pela impaciência e exasperação dos setores médios surgidas no lastro do fracasso das políticas de conciliação praticadas pela esquerda que governou. Em função da sua ilegitimidade, o atual governo é uma aposta alta das nossas classes dominantes e o seu fracasso porá em risco a existência de um projeto secular.

    Além de ilegítimo e impopular, o governo de Michel Temer padece dos males da corrupção que foi usada com motivo para dar sustentação ao afastamento de Dilma. Todavia, caso Temer fosse o mais honesto dos políticos brasileiros, ainda assim os trabalhadores estariam lutando contra a sua agenda de destruição da Constituição. O fato de ter tido conversas reveladas que demonstram que é tão ou mais corrupto do que aquele que acusou, não apenas facilita o trabalho dos que pedem o Fora Temer, mas reduz a uma disjuntiva as possibilidades de uma saída da crise: diante do caos que os golpistas mergulharam o Brasil, a alternativa de governar pela força com a instauração de um Estado de exceção na base da repressão pura e simples começa a encantar quem sempre esteve alheio aos problemas da maioria do povo. Do lado oposto, a renúncia de Temer e do Congresso igualmente corrupto, seguido da imediata convocações de eleições gerais e diretas, pode representar a única alternativa para que o país não seja novamente banhado em sangue.

    *Publicado originalmente no Jornal A Tarde, em 26/05/2017.

  • Se uma janela de oportunidade se abriu na conjuntura, devemos mergulhar a fundo

    Por: Carlos Zacarias, colunista do Esquerda Online

    O cataclismo que atingiu o cenário político do Brasil no dia de ontem não devia causar tanta surpresa. Mergulhado em uma combinação explosiva de crises que vão da crise econômica à crise política, passando pela crise social de grandes proporções, o país que há um ano assistiu o impeachment não devia ficar tão estupefato ante as denúncias que agora ameaçam por abaixo o governo mais impopular da história, o governo do golpista Michel Temer. Todavia, uma coisa chamou a atenção de muita gente e provocou a desconfiança generalizada em relação aos interesses que moveram os denunciantes e a emissora que primeiro noticiou o escândalo: qual seria o interesse da Globo em embaralhar o jogo e ameaçar a estabilidade alcançada por Temer nos altos escalões? Seria um movimento planejado, uma espécie de segundo round do golpe? Estaria a Globo interessada em derrubar Temer para emplacar alguma alternativa?

    As perguntas devem ser feitas e toda desconfiança é válida diante do furo de reportagem trazido por uma emissora que apoiou o golpe há um ano e seguiu trabalhando em benefício das políticas desenvolvidas por Temer até o momento. Não obstante, parece ingênuo imaginar que há sempre um plano muito bem concebido e o total controle dos destinos e das ações dos indivíduos da parte das classes dominantes e suas frações que atuam nos grandes meios de comunicação. É verdade que a Globo é movida por interesses materiais e pode estar calculando muito bem os passos que vai dar, as notícias e denúncias que serão trazidas a público e os alvos preferenciais que serão postos na beira do precipício. Talvez não tenhamos clareza suficiente para inferir sobre muitas das questões que serão reveladas no futuro. De momento, contudo, apenas podemos especular sobre o tema, mas tomando cuidados para não transformar a saudável desconfiança em teoria da conspiração, que só faz dificultar o acesso à verdade.

    Parece improvável que a Globo tenha tido algum interesse muito forte na desestabilização de Temer. Há um ano do impeachment, mesmo com toda a impopularidade e a pressão crescente das ruas e dos trabalhadores que fizeram uma enorme greve geral, a probabilidade de o governo aprovar as reformas Trabalhista e Previdenciária ainda eram bastante grandes. Então, por que isso veio à tona? Analisando o período que culminou no golpe do 18 de Brumário de Luís Bonaparte em dezembro de 1851, Marx dissertou magistralmente sobre como as classes dominantes e suas frações se moviam no conturbado cenário pós-revolução de 1848. Dizendo tratar-se de um período que abrangia “as mais heterogêneas misturas de contradições clamorosas”, Marx discutiu como a inusitada e inesperada ascensão de Bonaparte foi possível graças ao impulso de força da massa camponesa, até então excluída dos principais acontecimentos do país desde as Guerras Napoleônicas. O que Marx demonstra na sua apreciação é que, mesmo se movimentando em condições que não são controladas pelos sujeitos da história (a agência), no curso de um período tão conturbado, as saídas para uma crise são definidas pela forma como as classes e suas organizações atuam na luta e decidem o caminho.

    A propósito de sua concepção de história, que em nada se assemelhava à concepção hegeliana, Marx aludia ao elemento contingente, como criador de oportunidades nas quais o elemento decisivo era o subjetivo e não o objetivo. Escrevendo a Kugelman no curso que deram ensejo à Comuna de Paris, Marx afirmou: “A história mundial seria na verdade muito fácil de fazer-se se a luta fosse empreendida apenas nas condições nas quais as possibilidades fossem infalivelmente favoráveis. Seria por outro lado, coisa muito mística se os acidentes não desempenhassem papel algum”.

    Ou seja, se é verdade que a burguesia e suas frações controlam quase tudo nos países capitalistas, em circunstância nenhuma ela detém as condições de decidir unilateralmente os caminhos que a história vai tomar. Numa palavra, a burguesia controla tudo, menos a história. O futuro advirá da luta, do confronto, da forma como as classes vão atuar nos marcos da necessidade. Nesse sentido, a pergunta a se fazer ante ao “acidente” das revelações que abalaram Brasília ontem são as seguintes: a delação premiada de Joesley Batista, dono da JBS, que acusa Michel Temer de ter concordado com o pagamento de uma mesada milionária para que Cunha ficasse em silêncio é favorável aos trabalhadores? É possível que essa nova crise cause instabilidade suficiente para paralisar as reformas? Seria razoável se supor que os trabalhadores vão desencadear uma ofensiva contra o governo de Temer criando condições para a sua derrubada? Se as respostas a essas questões forem todas positivas, não há  o porquê de transformar as desconfianças em relação à Globo em paralisia.

    Mesmo sendo evidente que as soluções não sejam dadas de antemão e que há o risco de os trabalhadores sofrerem derrotas ainda maiores, não há outra forma de tomar a sério o grito de “Fora Temer” sem entender que, ao tentar fazer a história, os trabalhadores arriscam o seu pescoço, tanto quando a burguesia arrisca o dela ao tentar conter a marcha do progresso. Se uma janela de oportunidade se abriu na conjuntura, os trabalhadores devem mergulhar de cabeça para tentar impor uma outra perspectiva de futuro.

    Como parteiras da história, revoluções ou catarses carregam em si o seu oposto e inelutavelmente contraditório. Quem luta por transformações profundas deve saber que a história não se decide antecipadamente. É preciso que o jogo seja jogado para que se proclamem os vencedores e os derrotados. O que é certo, entretanto, é que na guerra entre as classes o único resultado que não é possível é o empate.

    Foto: 17 05 2017 São Paulo SP Brasil Manifestantes fecham via da avenida Paulista pedindo eleições já depois das divulgações de corrupção envolvendo o presidente Michel Temer Foto Paulo Pinto AGPT