A batalha do “Tigre”, em memória de Nahuel Moreno

Por: Gabriel Santos, de Maceió, AL

“O indispensável é lutar, lutar com força para triunfar. Porque podemos triunfar. Não existe nenhum deus que tenha fixado que não podemos fazê-lo.”
Nahuel Moreno

Alguns dias atrás, em 25 de janeiro, recordamos a data da morte do argentino Hugo Miguel Bressano Capacete, um dos mais importantes dirigentes trotskistas do pós-guerra. Hugo dedicou mais de 40 anos de sua vida na militância junto da classe operária e na construção de diversos partidos trotskistas, deixando um importante legado teórico, político e organizativo aos militantes trotskistas do mundo todo, mas em especial aos latino-americanos.

Nahuel Moreno foi o nome usado durante toda a vida política de Hugo Bressano, que há trinta e dois anos atrás (1987), faleceu em sua casa em Morón, região metropolitana de Buenos Aires, quando com 62 anos seu coração parou de funcionar por insuficiência cardíaca.

Foi Liboro Justo, que usava o pseudônimo de Quebracho que batizou Hugo Bressano em Nahuel Moreno, quando este adentrou no seu primeiro grupo trotskista. Nahuel significa “tigre”, no dialeto indígena de araucano. O “sobrenome” Moreno veio de dois lugares. Foi escolhido pela cor de seu cabelo que sempre parecia impecavelmente penteado, mas também por conta de Mariano Moreno, um dos líderes da luta pela independência Argentina, e responsável por fuzilar com seu grupo o vice-rei espanhol.

Moreno foi um polemista, seus textos e artigos, em grande maioria eram feitos em formatos de polêmica, onde confrontava o posicionamento de seus adversários. Este nosso pequeno texto não tem o objetivo de analisar as polêmicas nas quais Moreno se envolveu e desenvolveu ao longo das quatro décadas dedicadas ao movimento trotskista, nem fazer uma avaliação dos erros e acertos do mesmo. Porém, é importante ressaltar que por meio destas polêmicas, na maioria das vezes duras, mas nunca desleais, e carregadas de uma intensidade e dramatismo típico da cultura argentina, o trotskismo argentino e latino-americano conseguiu se desenvolver. Todas ações de Moreno, todas polêmicas e todas táticas eram voltadas ao mais nobre dos objetivos: superar a marginalidade e se ligar a classe operária. Esta foi a verdadeira obsessão de Moreno.

Muitos elementos podem ser destacados para confirmar a importância de Moreno no movimento trotskista internacional. Desde sua contribuição teórica original sobre a história da Argentina. Ou sobre o caráter socialista da revolução no subcontinente latino, em “Cuatro tesis sobre la colonizacion espanola”, que tem haver com a colonização de nossos países já inserida no marco de um sistema capitalista global. Indo assim ao oposto defendido pela sociologia e história tradicional, assim como pelos Partidos Comunistas, que diziam que a colonização foi um processo misto do feudalismo com o escravismo, e por conta disto, era necessário se aliar com a burguesia nacional para fazer uma revolução democrática e desenvolver o capitalismo.

Moreno também fez uma das contribuições mais interessantes ao movimento trotskista em sua “Teses para a Atualização do Programa de Transição”, no qual aponta algumas limitações que a Teoria da Revolução Permanente de Trotsky apresenta, incorporando a esta os experimentos das revoluções do pós-guerra, nas quais os sujeitos sociais na imensa maioria dos casos não foi a classe trabalhadora,e o partido não era um partido revolucionário democraticamente centralizado. A resposta que o trotskismo daria a estes novos processos no quais a burguesia foi expropriada, tanto no Leste Europeu, quanto na Ásia e em Cuba, marcou toda uma geração de ativistas. O marxismo para Nahuel Moreno sempre foi uma “ciência aberta”.

A orientação política do grego Michael Pablo, principal dirigente da IV Internacional após o assassinato de Trotsky, levava as organizações trotskistas a uma capitulação diante destes novos fenômenos e estas novas direções. A divergência de Moreno com a política “plabista” e em seguida com o belga Ernest Mandel, marcou toda a vida de Moreno, que dentro da IV Internacional disputava a mudança da política da mesma. A própria história da IV Internacional, e suas rupturas, se confunde com as batalhas políticas travadas entre Moreno.

A importância da tradição

Como foi dito este texto não busca apresentar uma biografia de Nahuel Moreno, nem fazer um balanço de suas quatro décadas de militância pela causa da revolução internacional. Mas sim buscamos reafirmar a importância de seu legado e de sua obra para as novas gerações e novos ativistas que adentram nas fileiras da luta anticapitalista.

Resgatar o legado de Moreno, e relembrar sua vida militante, não pode ser visto, nem se tornar, como uma tentativa de culto do dirigente. Estes atos servem para o estímulo para uma nova geração de militantes, que tem diante de si, problemas próprios de seu tempo para serem resolvidos. Resgatar o legado de Moreno, sua vida, suas obras, recordar as polêmicas com o SU de Mandel e com a OCI de Lambert, assim como resgatar a história dos partidos construídos por orientação de Moreno, é de certa forma um resgate da tradição do trotskismo na América Latina.

Os diversos galhos da árvore do trotskismo, se multiplicam e tomam características a depender da língua e da região. É impossível ser trotskista na Europa e ignorar a trajetória de Ernest Mandel no pós-guerra e de Krivine e Bensaid no Maio francês. Da mesma forma, reivindicar o trotskismo na Inglaterra é retornar o legado de Ted Grant, Alan Woods, e Tony Cliff. Para nós, é impossível ser trotskista na América Latina e não ver o papel de Moreno na história do PST contra a ditadura argentina (o partido teve mais de 100 militantes assassinados), da Convergência Socialista e seu papel na fundação do PT e da CUT, assim como o PST no Peru e o movimento camponês dirigido por Hugo Blanco. Falar sobre o trotskismo na América Latina é falar também sobre o “Tigre”.

Foi a partir de Moreno que o trotskismo em nosso subcontinente protagonizou grandes lutas. É, dentre todos os galhos da árvore do trotskismo, a maior delas, sendo a corrente que apresenta a maior presença por essas terras latinas, com partidos e organizações em diversos países, algumas com milhares, outras com dezenas de militantes. Muitos dos revolucionários se consideram seus seguidores ou o enxergam e conhecem como grande dirigente. E apesar disso, e das diferenças políticas e da militância em partidos e organizações diferentes, todos estes reivindicam sua trajetória. Este passado em comum que liga tantas organizações diferentes na América Latina e em especial no Brasil não pode ser apagado. Ninguém e nenhuma corrente pode negar a outro grupo o direito de reivindicar a si próprio de reconhecer e se inspirar em Moreno. Existem coisas que são maiores que as divergências, e esta tradição comum de diferentes organizações é uma delas.

A tradição em uma organização revolucionária é indispensável. Nenhum agrupamento nasce do nada. Todos, ao olharmos pelo retrovisor veremos que temos um passado, pois afinal, como diz Valério Arcary, “nós viemos de longe”. Desta forma a tradição é fundamental, pois reconhece a teoria e a ação que ao longo do tempo foi sendo acumulada pela práxis da organização, ou seja, por seus quadros, seus dirigentes e seus militantes. Essa tradição é o ponto de partida no qual muitos outros pontos vão se ligando e se renovando no dia a dia e ficando nas vivências e memórias dos militantes.

Ao entrar em uma organização se vai herdando a tradição desta, seja na forma de militar, na forma de elaborar política, no jeito de se organizar reuniões. Todos se tornam parte de um coletivo em comum, de um passado que é herdado por todos os ativistas de determinado grupo. A tradição do trotskismo latino americano ganha uma relevância com a pessoa de Nahuel Moreno, não por ele ser o primeiro, mas sim, por ser o mais importante.

Apesar da inegável importância de Moreno, tentar transformar o mesmo em um dirigente perfeito é um erro. E dos grandes. Moreno errou, e errou bastante. Alguns erros ele corrigiu durante sua vida, outros não observou ou não teve tempo. Nós aos olhos da história, enxergando 30 anos depois de sua partida, fica mais fácil ver onde e como ele se equivocou.

Uma das piores formas de jogar fora a tradição de uma organização é buscar apagar seus erros e transformar seus dirigentes em seres intangíveis. Tratar Moreno como alguém que não errava e sua obra como perfeita é ir contra o legado do próprio Moreno, que ensinou a sempre duvidar e questionar, e em especial fazer isto com a direção. Pois, um dos espíritos essenciais do marxismo revolucionário e do próprio Moreno é espírito crítico e questionador.

O combate ao sectarismo

O próprio Moreno, ao contar a história do partido argentino nas décadas de 1960 e 1970, dizia que ela precisava ser contada a partir de seus erros e não de seus acertos, pois só assim eles iriam superá-lo.

Moreno conseguiu identificar alguns destes erros como o desvio sectário ao se tratar com o peronismo, que por mais que fosse um movimento de direção burguesa, tinha um grande apoio dos trabalhadores e enfrentava o imperialismo norte-americano. Após o apontamento da forma sectária com que tratava o movimento de Perón, era preciso corrigi-lo, e Moreno aplicou uma das táticas mais arriscadas da história do trotskismo, entrando dentro das organizações operárias peronistas que eram linha de frente no combate à ditadura.

Após o golpe militar de 1955 na Argentina, a nossa organização passou a se reivindicar parte do peronismo publicamente, enquanto nos debates internos não mantinhamos nenhuma expectativa em Perón e sabíamos seu papel na luta de classes. Assim passamos a militar dentro do peronismo, e debater com os milhares de operários que tinham confiança em Perón. Para se ter uma idéia, o Palabra Obrera, jornal de nossa organização, trazia o lema “Sob a disciplina do General Perón e o Comando Superior Peronista”. Moreno combateu o sectarismo com uma tática de entrismo para poder participar da resistência contra a ditadura e se aproximar da classe trabalhadora. Por meio dessa tática o Palabra Obrera se converteu no principal porta voz dos grupos de resistência peronistas, com uma política própria, e tiragens que chegavam aos cem mil exemplares.

Desta forma podemos ver na prática mais um dos conselhos que Moreno deixou: “se for fazer algo, é preciso buscar fazer da melhor forma possível”. Moreno era realmente ousado nas táticas.

Podemos citar também outro exemplo de tática nada convencional de Moreno, quando poucos anos depois do golpe de 1955, no início da década de 1960, ele orientou que o partido atuasse na universidade, sobre o movimento estudantil católico. Esta atuação levou a uma captação de um importante setor desta juventude que viria a se tornar dirigentes estudantis de bastante qualidade. Vale aqui ressaltar, que apenas seis anos antes, a Igreja Católica havia sido um dos principais agentes do golpe militar de 1955, e apesar disso, Moreno soube prever as contradições que surgiriam no setor organizado dessa juventude.

Um exemplo de autocrítica de Moreno no qual ele combate o sectarismo pode ser visto quando ele analisa o desvio obreirista que o GOM (Grupo Operário Marxista, primeiro grupo dirigido por Moreno) efetuava até 1947, ignorado a juventude e os estudantes, afirmando que não era preciso fazer nem um tipo de trabalho sobre essa parcela da população. Este equívoco foi corrigido e o grupo adentrou nas universidades captando um grande número de jovens que passaram a atuar nas fábricas e bairros operários, e se tornando grandes nomes do trotskismo latino, como Ernesto Gonzalez, Horacio Lagar, e o próprio Hugo Blanco.

O combate ao sectarismo foi uma das marcas de Moreno, em Problemas de Organização ele dedica uma significativa parte de seu escrito sobre a discussão de como combater este mal, que para ele poderia destruir um partido revolucionário.

Firmeza nos princípios, flexibilidade tática

Um dos outros ensinamentos de Moreno que nos parece muito útil nos dias atuais é a capacidade de modificar as táticas de acordo com o melhor momento da luta de classes. Moreno foi um mestre em saber utilizar as oportunidades políticas para assim impulsionar a construção do partido.

Moreno nunca se deixava pautar pelo sentimento de outros grupos da esquerda revolucionária, ou pelo que discutia a vanguarda. Ele compreendia que o centro da elaboração política não é feito para os outros grupos, ou para a vanguarda que surge, mas sim, para as massas.

Dessa forma, Moreno, buscava ver as contradições interburguesas, o conflito entre os diferentes setores da burguesia, as brechas que se abriam na luta de classes, e por onde os conflitos iriam passar.

Moreno nunca foi um guerrilheiro, inclusive polemizou diretamente com Che Guevara sobre a tática foquista em “Dois métodos diantes da revolução Latino Americana”. Apesar disso Moreno compreendeu que era preciso incorporar a guerrilha como uma tática (não estratégia) de luta revolucionária que não havia sido prevista por Trotsky no Programa de Transição.

Faz parte de nossa tradição uma das lutas de guerrilha mais importantes e impactantes de nosso continente, que foi a experiência da luta camponesa e ocupações de terra dirigido por Hugo Blanco no Peru. Unindo a tática de guerrilha com o movimento de massas camponesas a luta pela reforma agrária no país andino se configura nas páginas da luta revolucionária da América Latina.

Durante a revolução na Nicarágua, Moreno orientou a formação da brigada Simón Bolívar, que recrutou mais de mil combatentes de diferentes países para combater a ditadura de Somoza. E após a derrubada da ditadura, a brigada Simón Bolívar passou a ajudar na fundação de diversos sindicatos para organização da classe trabalhadora nicaraguense, tendo formado mais de 60 sindicatos combativos.

Da mesma forma, o senso de oportunidade de Moreno se fez presente no entrismo ao peronismo, como já citamos acima, mesmo sem ser peronista, Moreno soube atuar por dentro desse movimento.

Toda ação de Moreno é visando a estratégia de construir partidos revolucionários com influência de massas. Isso significava superar a marginalidade política que o movimento trotskista se encontra no pós-segunda guerra, com o assassinato de seus quadros pelo nazismo e pelo aparato stalinista, assim como pelo crescimento deste último após a guerra, e também pelo surgimento de novas direções, como a cubana e a chinesa.

Dessa forma Moreno ousou, buscava a todo momento a melhor tática para impulsionar o crescimento dos partidos e sua influência sobre a classe trabalhadora. Em todo instante ele buscava o caminho das massas.

A luta contra a marginalidade. É preciso ir ao encontro da classe operária

Talvez o principal legado de Nahuel Moreno foi sua verdadeira obsessão pela construção de partidos enraizados na classe trabalhadora. Achamos importante aqui citar o exemplo do GOM e dos primeiros anos de militância de Moreno.

Na Argentina, os primeiros trotskistas apareceram ainda em 1928, em consonância com os debates internacionais e as teses da Oposição de Esquerda da Internacional Comunista. Houve tentativas de diversos grupos para publicações de jornais e efetuar uma militância orgânica. Todas falhas. Desta forma o trotskismo argentino limitou sua atividade a realizar discussões internas em um confortável ambiente boêmio, cujo local principal era o Café Tortoni, no centro de Buenos Aires.

Hugo Bressano, um jovem de classe média, com 19 anos, fascinado por Hegel e assíduo leitor de Kant, se aproxima do trotskismo e se une a LOR (Liga Operária Revolucionária) em junho de 1943 . Após a leitura de “O que fazer?” de Lênin, Hugo, que já havia recebido o pseudônimo de Nahuel Moreno, escreve O Partido, polemizando com Quebracho, dirigente do pequeno grupo. Moreno critica o afastamento do grupo da classe trabalhadora e anos mais tarde ao relembrar dessa época do trotskismo como sendo a dos “trotskismos de café”, uma “verdadeira festa”.

Ano seguinte, em 1944, Moreno, com outros três jovens, funda o GOM, Grupo Operário Marxista, e busca se inserir na vida da classe trabalhadora de Buenos Aires. O GOM atuava em Avallaneda, zona industrial do bairro operário de Villa Pobladora, percorrendo fábricas, visitando as casas dos trabalhadores, colando cartazes, editando e distribuindo jornais. O GOM aos poucos se tornou parte do cotidiano da vida do bairro e o trotskismo argentino pela primeira vez chegava na classe operária.

Em abril de 1945 explode uma greve no frigorífico Anglo-Ciabasa. A greve teve a participação de mais de 12 mil operários, e o pequeno GOM teve um papel fundamental, ganhando quase totalidade do Comitê de Fábrica, passou a ter atuação no sindicato dos frigoríficos, e passou também a ter metade do comitê de fábrica da SIAM, que na época era a maior metalúrgica do país. A greve do Anglo-Ciabasa acabou derrotada, mas o resultado final dela foi espetacular. O GOM também orientou a fundação de vários sindicatos como a Federação da Carne e a Associação Operária Têxtil, e passou a dirigir diversas fábricas de couro e cimento.

O objetivo de criar laços com a classe operária se mostrou correto. O GOM passou a ter mais de uma centena de militantes no Villa Pobladora. Desde sempre a história de Moreno é a história para se aproximar da nossa classe e construir o partido.

Em situações onde a classe estava na ofensiva, em situações pré-revolucionárias, mas também em situações defensivas, não revolucionárias, em ditaduras, e até mesmo com grupos fascistas perseguindo e assassinando militantes, como foi o Triple A na caça a militantes de PST. Moreno sempre se orientava a partir do nível de consciência das massas, e da disposição desta para a ação. Não procurava atalhos. Ensinou que era preciso esperar e ter paciência, algum momento a classe vai se colocar em movimento.

Algumas observações sobre o morenismo

Ao longo da história sempre é mais fácil entender os processos históricos depois que eles acontecem. Quando olhamos para trás e a partir do presente conseguimos interpretá-los. Explicar hoje os processos de queda das ditaduras latino-americanas é algo mais fácil para nós três décadas depois. Da mesma forma que hoje, explicar o processo de restauração do capitalismo na URSS e nos demais estados do leste, é muito mais fácil do que para aqueles que estavam vivendo estes intensos processos.

Moreno sempre buscou estudar a realidade concreta para apresentar uma resposta que melhor se aproximasse dela. Era um marxista aberto, que entendia o marxismo como uma ciência que sempre se atualiza, visto que a realidade é sempre dinâmica.

No anseio para responder novos fenômeno de sua época, Moreno cometeu erros, como todo grande dirigente trotskista do pós-guerra. Hoje, observando quase trinta anos depois, fica mais fácil identificá-los, pois observamos como parte de um passado e não como um movimento do presente ou um apontamento para o futuro.

Em nossa opinião, um dos erros de Moreno, e que se manteve pela equipe de direção que o sucedeu, foi a previsão sobre o processo de restauração na ex-URSS e no Leste.

Na época se sustentava que a revolução política tal como defendida por Trotsky, que derrubaria a burocracia mas manteria os meios de produção na posse do Estado Operário, teria duas fases. De acordo com Moreno, a primeira fase seria democrática, onde as massas se levantariam de forma espontânea contra a burocracia, e em seguida viria uma fase socialista, na qual o setor avançado da classe operária tomaria a frente do processo, e construiria um partido revolucionário com influência de massas.

Hoje podemos enxergar que a realidade não ocorreu desta forma.

Moreno, em nossa opinião, generalizou traços comuns de diversos processos revolucionários, na tentativa de explicá-los e de fazer aproximações entre eles por meio de analogias.

A relação entre revoluções democráticas e o processo da revolução socialista é um exemplo disto. Moreno apontou corretamente que existem revoluções que começam como revoluções democráticas, com uma direção pequeno-burguesa, com um programa democrático-popular, mas que por contradições e desenvolvimento do processo revolucionário as revoluções acabam por se tornarem revoluções socialistas (apesar do caráter de sua direção se manter) no qual acaba por se expropriar a burguesia.

Porém, não se pode afirmar que toda revolução democrática acabará por se transformar em uma revolução socialista. Para isto é necessário a atuação do Partido revolucionário sobre as massas, ou outros fatores. Nenhuma revolução se transforma por si só, de forma inconsciente. As revoluções do pós-guerra ocorreram em situações de confronto ao imperialismo, e para manter as posições alcançadas, as direções pequeno-burguesas tiveram que radicalizar o programa democrático. Não podemos tomar exceções como regras. Como se todo processo democrático indubitavelmente fosse levar a revoluções mais profundas.

Podemos apontar que um elemento importante da crise que os partidos e organizações construídas por Moreno, e apesar de reivindicarem o morenismo acabaram se dispersando, após a explosão do MAS argentino, foi a demora em ver os erros de Moreno na caracterização da situação mundial como revolucionária.

A derrubada do aparato stalinista não favoreceu o surgimento de novos grupos, não se abriu uma “avenida” para o trotskismo chegar às massas, como sustentavam as teses de 90. Ocorreu o inverso. Um retrocesso de consciência só comparado ao período antes da primeira guerra mundial. O neoliberalismo reina quase que absoluto e a tese do fim da história impactou a classe trabalhadora e diversas organizações de esquerda.

A história mostrou que nem sempre quando um aparato burocrático é derrubado as massas vão à esquerda e constroem uma novo ferramenta.

O erro de Moreno e posteriormente de seus seguidores, pode ser apontado como fruto do isolamento da corrente morenista na América Latina, e sua pouca ou nula influência na Europa, Moreno acabou por fazer uma caracterização errada de que havia um processo revolucionário mundial ocorrendo, quando a realidade era o inverso. Apesar da derrubada das ditaduras no cone sul, paradoxalmente no mundo o neoliberalismo tomava as regras do jogo, os diversos Estados de Bem Estar Social começavam a ser desmontados, a classe trabalhadora entrava na defensiva e os processos de restauração do capitalismo ocorria com as massas na rua.

A morte de Moreno impediu que ele acompanhasse o processo de restauração do capitalismo, e quem sabe, pudesse fazer um rearmamento teórico. Após sua partida os erros de caracterização apontados por eles passaram a ser reproduzidos e até mesmo intensificados por grupos e por aqueles que se denominam morenistas. Alguns conseguiram fazer a autocrítica, e iniciar um processo de rearmamento teórico. Não existe erro em assumir que se errou e buscar acertar.

Ser mais classista, mais marxista, e mais internacionalista

Moreno se foi há 32 anos, e com passar do tempo, a apreciação sobre sua obra e sobre sua vida se tornam mais objetivas, se torna mais fácil entender onde errou e acertou. O passar do tempo, também toma o sentido inverso. Faz com que sua obra e sua vida, sua militância, se torne cada vez mais distante e assim as novas e futuras gerações acabam por esquecer seu legado. Não somente seu, mas de toda uma geração que teve que reconstruir a IV Internacional após a Segunda Guerra.

De seu exemplo como militante revolucionário, que não sucumbiu as dificuldades de sua época, e apesar dos erros que cometeu ou pode ter cometido, não se rendeu às pressões do conformismo ou da democracia burguesa.

Nahuel Moreno foi um dos grandes. Enfrentou ditaduras. Prisões. Foi marcado a ferro e fogo com as derrotas e soube fazer autocrítica para aprender com seus erros. Seu marxismo foi rebelde e questionador. Ousado e disciplinado. Buscou realizar a maior das tarefas, construir o partido internacional da revolução. Um partido feito por seres humanos imperfeitos. Mas unidos pela vontade insuperável de transformar o mundo.

Moreno deixou muitos conselhos e muitos ensinamentos que ainda nos são úteis. Talvez o maior deles é que devemos desejar sempre e cada vez mais operários marxistas e internacionalistas.

Nos dias atuais, onde vemos o crescimento de ideologias de extrema direita é preciso estar ligado a classe operária. Sem atuar junto dos trabalhadores é impossível a vitória. É preciso mergulhar na teoria. Entender e estudar as revoluções do passado e o legado de nossos mestres no marxismo, assim como entender como funciona a sociedade atual e como este marxismo pode ser útil para transforma-la. É preciso ser internacionalista, pois cada vez mais os processos internacionais se interligam, temos ao mesmo tempo uma globalização da crise e uma crise da globalização.

Aqueles que reivindicam a superação do capitalismo precisam seguir estes três conselhos do velho tigre.

O exemplo que foi a vida de Moreno demonstra que ser revolucionário não pode ser uma mera declaração, como faziam os trotskistas da década de 1930 nos bares e cafés de Buenos Aires. Ser revolucionário é determinar sua vida pela vontade de mudar o mundo, de fazer a revolução. Moreno foi um homem de ação, um revolucionário de sua época, um dos maiores dentre eles.

Sua história precisa e merece ser conhecida pelas novas e futuras gerações, que diariamente se levantam e erguem a mesma bandeira que este argentino. A bandeira da luta antiimperialista e internacionalista. A da luta em defesa da classe trabalhadora.

Moreno foi um dos grandes. Cabe aqueles que reivindicam seu legado honrar e até mesmo superar e apontar seus erros. Infelizmente a maioria dentre aqueles que reivindicam Moreno não tem sido nem da metade do tamanho de seu mestre e acabam por cometer erro atrás de erro.

Como falamos acima sobre a importância da tradição para a construção dos grupos e dos próprios revolucionários. A mesma não carrega apenas a experiência e o aprendizado do passado. Mas ela traz consigo aquilo que nos motiva e inspira. Ela traz aquela esperança que ainda é possível e preciso mudar. Ela mostra que não somos os primeiros, que muitos vieram antes e dedicaram suas vidas para esse projeto. A tradição nos ensina que temos um projeto comum, e a mais bela das causas, a da construção de uma nova sociedade.

Por estas e outras devemos lembrar o legado e o exemplo de Hugo Bressano, ou simplesmente Nahuel Moreno, El Tigre.

Companheiro Nahuel Moreno, presente, Hasta el Socialismo, Siempre!
Viva a América Latina!
Viva a classe trabalhadora!
Viva a Quarta Internacional!

 

FOTO: Nahuelmoreno.org

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