As revoluções tardias são as mais radicais

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles O Martelo da História.

Aqueles que fazem revoluções pela metade, não fazem senão cavar uma sepultura onde serão enterrados.
Antoine de Saint-Just, Relatório à Convenção, 3 de março de 1794

Nenhuma liberdade para os inimigos da liberdade.
Antoine de Saint-Just – 1767-1794

Uma esquerda para o futuro precisa de uma nova estratégia. Derrotas táticas exigem balanços da tática. O que vivemos em 2018 não foi uma derrota eleitoral tática. Derrotas estratégicas impõem balanços da estratégia. Trata-se do mínimo de honestidade intelectual e coerência política. Há conclusões terríveis, porém, inescapáveis, diante de nós. A principal é a compreensão da necessidade da revolução brasileira.

Quem pensa que a derrota eleitoral foi tática se agarra na ilusão de que, por exemplo, se Ciro Gomes tivesse sido o candidato, teria sido possível derrotar Bolsonaro no segundo turno. Este contrafactual é um cálculo sem consistência. Confirmou-se, infelizmente, que a rejeição ao neofascista era menor que a rejeição ao PT, depois de treze anos e meio no governo. Esta foi a contradição incontornável da luta eleitoral.

Na perspectiva da história, a principal lição dos últimos três anos é que não será possível transformar a sociedade brasileira através de negociações de um projeto de reformas com a classe dominante. Essa estratégia não passou pelo laboratório da história. Foi, irremediavelmente, enterrada. É cruel, mas é assim.

Insistir na mesma estratégia, e esperar resultados distintos, seria teimosia obtusa. Pensamento mágico é acreditar que a força do desejo é o bastante para mudar a realidade. A burguesia brasileira não está disposta a acordo algum. Tolerou o PT no contexto da conjuntura, muito excepcional e inédita, de um mini-boom de crescimento econômico, turbinado pela demanda de commodities, potencializado pela ascensão chinesa. Mas o alinhamento com uma fração do imperialismo liderada pelos EUA não é efêmero.

Quando um não quer, dois não se entendem. O custo de um acordo seria a capitulação. Foi assim quando o PT estava no governo e será, também, assim com toda a esquerda na oposição, e ameaçada de ser, judicialmente, perseguida, senão, politicamente, desarticulada. Correndo o risco de que algumas lideranças sejam assassinadas, e nossas organizações destruídas. Será, também, pura ilusão imaginar que as instituições do regime – Ministério Público, Justiça, Congresso – serão suficientes para conter os “excessos” autoritários dos que vão assumir o poder em janeiro de 2019. Dependerá da capacidade de mobilização social da esquerda e dos movimentos sociais a defesa das liberdades democráticas.

Quem não sabe contra quem luta não pode vencer. A estratégia da burguesia brasileira para retirar o capitalismo semiperiférico da estagnação prolongada é atrair investimentos externos e impor padrões de superexploração “asiáticos”. Portanto, não está disposta à concessão de reformas “europeizantes”. Trata-se de reversão de direitos e não extensão de reformas. Não é um plano para um governo Bolsonaro de quatro anos. Estamos diante de um projeto de reposicionamento global do Brasil no mercado mundial e no sistema de Estados. E demonstram disposição de impor mudanças no regime político, avançando até o bonapartismo, e criminalizando a oposição de esquerda.

Duas lições programáticas, portanto, se impõem, depois da derrota estratégica. A primeira é que não haverá transformação social no Brasil sem rupturas. A segunda é que o futuro da esquerda depende da sua capacidade de implantação entre os trabalhadores e oprimidos, a imensa maioria da sociedade brasileira que, mais cedo do que tarde, se colocará em movimento.

Os fatores objetivos determinantes da derrota eleitoral parecem ter sido cinco: (a) a estagnação com viés de queda da renda, com o impacto da inflação dos serviços, e o aumento dos impostos, que empurraram a classe média para a direita; (b) a perplexidade entre amplas franjas dos trabalhadores de que a vida piorava com o desemprego agravada pela desmoralização de que os governos do PT seriam corruptos; (c) o aumento da violência urbana, das taxas de homicídio, e o fortalecimento do crime organizado que deslocaram grandes massas populares para a extrema-direita; (d) a reação de um setor mais retrógrado da sociedade, mais racista, misógino e homofóbico, ao impacto da transição urbana, geracional e cultural da sociedade; (e) por último, mas não menos importante, o giro da burguesia para o choque fiscal selvagem e, finalmente, para o apoio a Bolsonaro, diante da estagnação crônica, mesmo depois de dois anos de governo “gradualista” de Temer.

A classe dominante se apoiou na classe média para impor a situação reacionária que culminou com a eleição de Bolsonaro. A extrema direita com retórica neofascista será o instrumento para tentar impor uma derrota histórica à classe trabalhadora. A espada na mão do capitão que tem “a mão que não treme”. Acontece que é pura ilusão imaginar que se pode impor “a frio” uma derrota histórica semelhante à de 1964. A vitória nas urnas terá que medir força com a luta nas ruas. A subestimação do que é a nova classe trabalhadora, um gigante social em uma sociedade, plenamente, urbanizada, mais concentrada, mais instruída, porém, grotescamente, desigual e injusta, poderá ser fatal. Não estamos nos anos sessenta. Haverá resistência. Uma esquerda para o futuro deve confiar na classe trabalhadora. Não merece a confiança da classe quem não confia nela.

Os governos do PT desconsideraram o mal estar da classe média com a inflação nos serviços, o aumento dos impostos, a queda do salário médio da alta escolaridade e pagou um preço descomunal: o impeachment de Dilma que abriu o caminho para Temer e para a prisão de Lula. Bolsonaro cometerá um erro simétrico, se desconsiderar o peso social da classe trabalhadora brasileira. Não se pode impor uma regressão social brutal sem incendiar uma resistência avassaladora.

A conclusão estratégica incontornável é que a revolução brasileira será uma revolução, historicamente, atrasada, portanto, um processo, dramaticamente, conflituoso. O paradoxo da situação brasileira é que a burguesia brasileira rompeu com o governo de colaboração de classes do PT, e não o contrário.

Quando o PT, sob a orientação de Lula, depois de doze anos de concertações, venceu, pela quarta vez, as eleições presidenciais em 2014, e Dilma Rousseff nomeou Joaquim Levy para ser o Ministro da Fazenda, estava sinalizando a disposição de fazer o ajuste fiscal que era exigido pelos pesos pesados da classe dominante. Um ano depois, em dezembro de 2015, Levy se demitiu e a “Avenida Paulista” girou para o apoio ao impeachment.

Essa decisão colocou em movimento forças sociais reacionárias que se radicalizaram à direita em forma irrefreável. Acontece que esta estratégia reacionária não pode se impor sem uma radicalização ainda maior, contrarrevolucionária. Será necessário inflingir uma derrota social aos trabalhadores, e uma destruição política às organizações da esquerda.

Esta tragédia não aconteceu porque o PT é corrupto, embora a direção do PT não seja inocente. Porque se deixou financiar durante vinte anos pelo caixa 2. Mas essa é a narrativa conspiratória da Lava Jato para, se possível, avançar até a ilegalização do PT. Em toda organização e luta política, das mais simples às mais complexas, estão presentes demagogos empenhados em se aproveitar das circunstâncias. O PT não esteve imune à presença de aventureiros e canalhas. São conhecidos. Afinal, foram os primeiros a fazer acordos de delação premiada.

O argumento democrático-radical parece poderoso – o PT decidiu o seu destino quando tolerou o enriquecimento de alguns de seus líderes – mas não é. É ingênuo, politicamente, infantil. Oportunistas e arrivistas não são senão a poeira da história.

Dilma Rousseff não foi derrubada, somente, porque a classe média se enfureceu com a corrupção. Foi derrubada porque os trabalhadores não estavam dispostos a defender o seu governo. Se estivessem, a dinâmica iniciada em junho de 2013 teria sido a antessala de uma situação pré-revolucionária. O Brasil teria se “venezualizado”.

Revoluções não acontecem, evidentemente, porque há revolucionários que as desejam. Foi sempre a impossibilidade de mudanças negociadas que abriu o caminho para irrupção de massas que denominamos de revolução. Um processo revolucionário só se abre quando a gravidade da crise social é tão grande que muitos milhões de pessoas, até então indiferentes aos destinos coletivos, despertam com invencível disposição de luta para a luta política. Uma revolução é um processo, não somente uma insurreição.

O terreno das transformações históricas é sempre um campo de disputas que estão, por um longo período, mais ou menos dissimuladas, até que explodem de maneira vulcânica. As placas tectônicas da vida econômica e social estão ocultas embaixo do edifício de uma ordem política que parece estável. Não obstante, movem-se.

Na história das sociedades, como na vida das pessoas, não há mudança que não desperte oposição, não há luta que não encontre reação. Revolução e contrarrevolução são inseparáveis na história contemporânea. Revoluções são uma das formas de transformação das sociedades contemporâneas. Precipitam-se quando fracassam as mudanças pela via das negociações. Estes deslocamentos ora permitem o sucesso de reformas, pela via de conquistas/concessões, ora impõem o recurso à mobilização revolucionária. Enganam-se aqueles que denunciam as revoluções como responsáveis pela contrarrevolução, quando o que a história ensina é, exatamente, o contrário.

A história nos deixou uma lição cruel. O PT foi derrubado porque a classe dominante não estava mais disposta a tolerar um governo de colaboração de classes, depois da demissão de Levy. Se o PT tivesse radicalizado à esquerda, a burguesia teria girado para a oposição mais cedo. Os métodos não teriam sido somente reacionários, teriam sido contrarrevolucionários.

Claro que os governos do PT deveriam ter avançado com medidas mais duras contra o capital. Se o tivesse feito, no calor das mobilizações de junho de 2013, teria preservado e ampliado o apoio na classe trabalhadora e entre os oprimidos. A luta teria sido feroz. Mas as condições de vitória teriam sido muito melhores.