Eleição de Bolsonaro foi mais que uma derrota eleitoral, mas ainda é cedo para concluir que sofremos uma derrota histórica  

Valerio Arcary, colunista do Esquerda Online

                                                                                                                     Sem o fogo do entusiasmo, não há o calor da vitória.
Sabedoria popular chinesa

Nos debates sobre a nova situação aberta pela vitória de Bolsonaro, o debate mais estratégico na esquerda deve girar em torno das lições que devem ser retiradas da derrota. Quais foram os erros que explicam uma evolução tão desfavorável entre 2013/18?

Embora essencial esse debate não anula outra discussão. Porque uma das perguntas mais comuns tem sido sobre a dimensão e o sentido da derrota que sofremos. Foi somente uma derrota eleitoral? Foi uma derrota política estratégica? Ou teria sido, muito mais grave ainda, uma derrota histórica?

Trata-se, com certeza, de um problema teórico instigante. Uma análise séria deve ter método. Existem muitos tipos diferentes de derrotas, e é crucial sabermos distinguir umas das outras. Ter método significa reconhecer que, embora um saudável empirismo seja sempre necessário, porque a história de cada processo é irredutível, não podemos desconhecer a rica experiência histórica acumulada pelos que vieram antes de nós. Essa experiência está condensada na teoria. Um dos papéis da teoria é identificar os elementos comuns que estão presentes em processsos diferentes. Senão estamos sempre à deriva diante do que parece ser o “novo”, e sem bússola.

Provavelmente, só teremos uma percepção clara do sentido da acumulação de derrotas que vêem se acumulando desde 2015/16, dentro de alguns meses. É difícil calibrar com maior segurança a mudança na correlação de forças social e política no calor dos acontecimentos.

Derrotas históricas têm um peso de máxima gravidade. São aquelas encruzilhadas da luta de classes que estabelecem um quadro mais geral por muitos anos. Quando estamos diante de uma derrota histórica, como foi a vitória do golpe em 1964, uma geração se desmoraliza, perde a confiança em suas próprias forças, e a resistência passa a ser atomizada. Um intervalo é necessário para que uma nova geração se coloque em movimento.

No Brasil dos anos sessenta, a juventude ainda tentou medir forças com a ditadura em 1968, mas a massa dos trabalhadores já estava esgotada, e precipitou-se um golpe dentro do golpe com a proclamação do AI-5. As lutas de massas só passaram a ser possíveis quinze anos depois de 1964, em 1979, e as Diretas vinte anos depois, em 1984.

Parece, no mínimo, precipitada a avaliação da derrota eleitoral de 2018 como uma derrota histórica. Foi, certamente, mais grave que uma derrota eleitoral, como a de 1994, diante de Fernando Henrique. Em primeiro lugar porque venceu uma candidatura de extrema-direita, com um discurso neofascista.

Nesse sentido, devemos considerar, por exemplo, a dialética entre derrotas e vitórias. Há derrotas que abrem o caminho para mais derrotas, mas há aquelas que, inversamente, são transitórias, e preparam vitórias. E há vitórias que abrem o caminho para derrotas.

Porque podem acontecer derrotas sindicais que são, paradoxalmente, vitórias políticas. Isso acontece quando um setor da classe trabalhadora se coloca em movimento, através da greve ou outra forma de luta, por reivindicações mínimas, como o aumento dos salários, ou contra demissões, ou outras e, por variadas razões, não consegue arrancá-las. Mas quando o custo da repercussão da repressão policial é muito alto, e a luta conquista imensa solidariedade popular, estabelece um exemplo de luta que empolga milhões, desmoraliza os patrões, ou desgasta o governo, a greve foi, sindicalmente, derrotada, porém, politicamente, vitoriosa. O custo da imposição de derrota sindical foi, desproporcionalmente, alto demais. A derrota foi tática. Ter feito a greve abriu o caminho para uma vitória estratégica. A vitória dos patrões foi uma vitória de Pirro, uma vitória efêmera, transitória, foi a antessala de uma derrota.

As greves do ABC em 1979/80 tiveram esta dinâmica, e foram chaves para a fundação do PT, e para impulsionar a reorganização sindical que culminou com a fundação da CUT em 1983. Se considerarmos a cadeia de causalidades em um plano de abstração mais alto, encontraremos uma determinação entre as greves do ABC que começaram no terreno sindical e as Diretas em 1984. E as Diretas contra o governo Figueiredo foram a maior mobilização política contra a ditadura militar.

Existem derrotas eleitorais que são vitórias políticas, como na campanha do PT por Lula em 1989. Eleitoralmente, Collor foi vitorioso. Mas, politicamente, o PT teve a maior vitória de sua história, até então, porque colocou em movimento dezenas de milhares de militantes em torno de um programa, e transformou Lula na principal referência da oposição. A derrota eleitoral foi tática, a vitória política foi estratégica.

E existem vitórias eleitorais, como a de Dilma Rousseff em 2014, que se transformam em derrotas políticas. Ao capitular diante da pressão social da burguesia, e oferecer a Joaquim Levy a condução do choque fiscal, o governo liderado pelo PT perdeu a confiança na classe trabalhadora. Mas não conseguiu reverter o deslocamento da classe média à direita.

A vitória eleitoral foi tática, a derrota política estratégica. Abriu o caminho para as reacionárias mobilizações de rua de milhões de amarelinhos que culminaram no impeachment, na posse de Michel Temer, e na ofensiva que levou à prisão de Lula, e o impedimento de sua candidatura.

Na dinâmica da evolução dos últimos cinco anos, Bolsonaro foi, evidentemente, subestimado.

Foto: Tânia Rego | Agência Brasil

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