Carta da juventude para conselheiros e conselheiras universitárias da UFMG

Da Redação

Nesta terça-feira (5), o Conselho Universitário da UFMG irá decidir sobre o Processo Administrativo Disciplinar, qual responde uma ativista do Afronte, Iza Lourença, por ter sido Coordenadora Geral do Diretório Central dos Estudantes (DCE) quando a entidade realizou uma Pré Virada Cultural.

Centros Acadêmicos (CAs), Diretórios Acadêmicos (DAs), o DCE e diversos estudantes farão um Sarau no saguão da Reitoria para sensibilizar os e as Conselheiras para o direito de a Juventude (RE)existir na universidade. Vejam a carta:

Vejam a carta:

Da juventude para os Conselheiros e as Conselheiras Universitárias

A Juventude vive tempos de desesperança. A crise que o Brasil enfrenta não é apenas política e econômica, mas também existencial. Nós, jovens universitários, que apenas começamos a enfrentar a vida adulta, já nos deparamos com as dificuldades de entrarmos e estarmos em um curso superior. As carências da assistência estudantil, as aulas tradicionais e repetitivas, a pressão pelo desempenho de excelência e como se não bastasse, todo esforço parece ser em vão quando pesquisas recentes apontam que mais de 50% dos jovens formados em um curso superior não conseguem se empregar na área que se esforçaram tanto para especializar. Para agravar esse cenário, poucos são os lugares e espaços de convivência entre, não só os alunos, mas os membros de toda a comunidade acadêmica. Num contexto de crise, a falta de solidariedade, de compreensão, de escuta, convivência e tudo isso que resulta da comunhão, são potencializadores de um adoecimento coletivo.

Não é coincidência que nos últimos dois anos tenhamos assistido o aumento do número de suicídios dentro da UFMG (três deles somente neste semestre), de adoecimento de alunos, trancamento e desistência do sonho da graduação. Felizmente, os alunos não permaneceram inertes a essa triste realidade e se organizaram para pautar e intervir nesse problema tão delicado.

Nesse sentido, a UFMG, diante de sua história e relevância, não pode ser protagonista de uma perseguição política, como no Processo Administrativo Disciplinar 23072.023731/2016-51. Apesar de em tese, a abertura de um processo não ser uma decisão definitiva, os próprios procedimentos e atos jurídicos causam enorme constrangimento, aflição e ansiedade. Não saber o que poderá ser feito com o seu destino, apesar da certeza de correição, é um transtorno objetivo e subjetivo indescritível. Apenas quem já viveu uma injustiça sabe como ela é pungente. Os próprios Reitores desta Universidade, ao serem conduzidos coercitivamente para depoimento, sem necessidade alguma para tal, foram vítimas de um procedimento que embora não fosse definitivo, provocou a indignação ante a injustiça. Infelizmente, o papel do processo de constranger, ameaçar e coagir vem ganhando cada vez mais relevância.

O processo em questão nunca teve base jurídica para prosperar. Responsabilizou-se ao final, apenas dois alunos, de uma organização (DCE) composta de dezenas de alunos. Para tanto, utilizou-se de uma noção de hierarquia pressuposta sem nenhum fundamento de que Izabella Lourença e demais membros da Coordenação Geral seriam responsáveis pelo DCE. Contudo, a então gestão sempre se disse horizontal, e todos os seus membros eram solidariamente responsáveis pela entidade, não havendo registro formalizado em cartório do contrário. Mesmo assim, o processo seguiu contra apenas dois alunos e a prova de sua participação nos fatos geradores do processo sequer foram provados.

Caríssimos membros deste Conselho, sem adentrarmos no méritos deste processo, percebemos que este sofrimento não precisava ter se arrastado por tanto tempo. A questão poderia ter sido sanada com diálogo e negociações entre ambas as Instituições envolvidas: DCE e Reitoria. Condensar a responsabilidade do ocorrido em cima do ombro de dois alunos, é, ainda que culposamente, irresponsável, especialmente num contexto em que a saúde mental ganha tanto destaque dentro e fora da UFMG.

Izabella é uma das jovens negras que apesar de viver num contexto de profunda desesperança, nunca deixou de acreditar que a atuação coletiva dos estudantes pudesse mudar esse horizonte cinzento. Durante toda a sua graduação lutou para que a esperança de um futuro mais justo pudesse se sobrepor ao medo frente às incertezas de nosso tempo. Por isso decidiu construir em conjunto com demais estudantes um Diretório Acadêmico Estudantil que respondesse às demandas de seu tempo, e nenhum estudante deveria se sentir receoso de atuar em tais entidades pela possibilidade de enfrentar processos e conviver com a ameaça do jubilamento.

Por tudo isso, temos absoluta certeza de que este Conselho irá honrar trajetória democrática da UFMG e tomar a decisão justa sobre o processo, e irá dar mais um passo na busca de uma Universidade livre e igual que não pode deixar de estimular a atuação política e zelar pela saúde mental de toda a sua comunidade.

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