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  • Vamos! Sem medo de debater com o PT!

    Por: Henrique Canary, colunista do Esquerda Online

    O Esquerda Online tem defendido incessantemente a necessidade de superar o lulismo pela esquerda e apresentar uma alternativa política socialista para as eleições de 2018. O discurso de que “2018 está longe” só serve ao próprio petismo (que já apresentou uma alternativa – Lula) e à direita, que assim ganha mais tempo para se articular.

    Entre os trabalhadores, há muita gente assustada com Temer e iludida com o lulismo. Este é o principal debate na sociedade: Qual a alternativa? A velha direita ou a volta do PT? Mas nós da esquerda socialista sabemos que este é um falso debate. Por isso, nos integramos à plataforma “Vamos! Sem medo de mudar o Brasil” com um alerta de que seria errado transformar essa importante e correta iniciativa da Frente Povo Sem Medo em uma espécie de movimento de reconciliação com o PT. Lula detém 30% das intenções de voto e continua sendo a maior referência do povo pobre e oprimido. Por isso, chamamos e continuaremos chamando Lula e o PT a colocarem toda a sua influência a serviço da luta contra as reformas do governo Temer. Lutaremos ao lado de qualquer um que queira lutar. Não apresentamos nenhuma pré-condição neste terreno.

    Mas quando se trata de apresentar uma alternativa política para o país, as coisas mudam de figura. Aí não há acordo possível com o PT. Lula já declarou inúmeras vezes que, se for eleito, não só não anulará as contrarreformas implementadas até agora, como fará outras. Porém, mais leves, em doses mais homeopáticas. Lula já criticou “as frescuras do PSOL” em fazer acordos com forças políticas reacionárias e de direita. Ou seja, já está evidente que um terceiro governo Lula será essencialmente igual aos outros dois: acordos com a direita, contrarreformas reacionárias, enriquecer ainda mais os ricos, pequenas concessões sociais e democráticas. Isso não nos basta. Foi essa lógica de ceder sem parar à direita que nos trouxe à tragédia que vivemos hoje. É preciso um governo e um programa de ruptura. Nossa posição sobre a necessidade de superar o petismo, o programa alternativo que apresentamos e os alertas que fazemos sobre as ilusões no lulismo podem ser vistos aqui, aqui e aqui.

    O PT aderiu à plataforma “Vamos!” E agora?
    Agora, no esforço por superar o petismo, nos enfrentamos com um problema: o próprio PT decidiu participar da iniciativa “Vamos! Sem medo de mudar o Brasil”. A presidente do PT Gleisi Hoffmann fez recentemente uma postagem em seu facebook divulgando a plataforma e figuras diretamente ligadas ao PT estão nas mesas de debates em várias cidades. O que fazer nesta situação? Boicotar? Fingir que nada mudou?

    Em primeiro lugar, é preciso entender por que o PT aderiu à inciativa. Querem impedir que a Frente Povo Sem Medo e o PSOL se coloquem como alternativa à esquerda do lulismo. A entrada do PT na jogada é um reconhecimento, por parte deles, da força e da correção da iniciativa. Sendo assim, o que fazer?

    Ora, em nossa opinião, a entrada do PT no movimento “Vamos!” torna ainda mais importante a participação de todas as correntes e ativistas da esquerda socialista nesse ciclo de debates. Se o PT quer debater uma saída para o Brasil, não somos nós que vamos fugir dessa discussão. Ao contrário: faremos um duríssimo balanço sobre os 14 anos de governos petistas, sobre a famosa “Carta ao Povo Brasileiro”, sobre as alianças com o agronegócio e o setor financeiro, sobre a Reforma da Previdência de 2003, sobre o Código Florestal, sobre Junho de 2013, sobre a privatização dos aeroportos, sobre a entrega do pré-sal e o sucateamento da Petrobrás, sobre a corrupção generalizada que realmente atingiu o governo petista, sobre a ocupação do Haiti, sobre não terem movido um dedo para resistir ao golpe do impeachment, enfim, sobre todos os erros que nos trouxeram até aqui e que o PT e Lula querem repetir agora.

    Não devemos ter medo de debater com ninguém, nem com o PT, nem com Gleisi Hoffman, nem com Tarso Genro, nem com Lula. Na verdade, a entrada do PT na iniciativa traz uma grande vantagem: ao invés de debater entre nós, vamos debater com quem tem 30% de intenções de voto. Isso faz muita diferença e pode dar um grande impulso à iniciativa “Vamos!”.

    É preciso romper o isolamento da esquerda socialista
    Ao longo dos 14 anos de governo petista, a esquerda socialista foi colocada na marginalidade, se acostumou a debater entre si, a se satisfazer com uma crítica que somente ela própria entendia e concordava, desaprendeu a debater com quem importa, adquiriu o terrível vício (talvez já viesse de antes) de polemizar somente entre si.

    Pois a iniciativa “Vamos!” será um grande desafio e pode servir para reeducar toda uma geração de militantes. A esquerda socialista pode e deve voltar à verdadeira cena política do país, sair de seus pequenos espaços sectários, derrubar os muros e as paredes que a separam do debate real na sociedade. A iniciativa “Vamos!” nos permite fazer esse debate com um dos atores políticos centrais do país. Tanto melhor! Tanto mais forte deve ser a participação dos ativistas de esquerda nesses debates. É preciso inundar essas plenárias com nossa militância de esquerda, mostrar que o PT é forte, mas que não é mais hegemônico no movimento social, que aprendemos alguma coisa nos últimos 14 anos.

    O PT aderiu à iniciativa. Vamos sair pela outra porta? Vamos dizer “obrigado, não fumo”? Vamos virar as costas aos 30% que têm ilusões em Lula? Não! Vamos com mais força! Somente assim uma alternativa poderá ser forjada. Do contrário, o PT sequestrará a iniciativa e a transformará, sem qualquer resistência nossa, numa plataforma de apoio ao lulismo.

    O resultado do debate está decidido? Não! Nem a nosso favor, mas também nem a favor do petismo. Há riscos? Há! Mas olhemos ao nosso redor! Por acaso temos o direito de ficar em casa? Vamos!

  • I Congresso do #MAIS aprova fusão com a NOS e a construção de uma nova organização

    Por: Alexandre de Oliveira – Xandão (NOS) e André Freire (#MAIS)

    Umas das principais resoluções políticas do I Congresso do Movimento por uma Alternativa Independente e Socialista – #MAIS foi a aprovação da fusão com a Nova Organização Socialista – NOS, que deve criar, no início do ano que vem, uma nova organização política no Brasil.

    A coordenação nacional do #MAIS, eleita neste Congresso, está autorizada a encaminhar a conclusão do processo de fusão, em conjunto com a coordenação nacional da NOS.  Este processo ainda vai passar por dois momentos muito importantes: um seminário teórico conjunto sobre regime e concepção de uma organização revolucionária e o próprio Congresso da NOS, indicado para novembro deste ano.

    Como afirmamos conjuntamente desde o início deste processo, a fusão entre as duas organizações vai depender de um sólido acordo político e de concepção partidária, em torno da defesa de um programa anticapitalista e socialista, que busque acabar com toda a exploração e opressão.

    Até lá, as regionais das duas organizações seguirão debatendo teses de atualização programática, em plenárias que devem reunir centenas de militantes, até o final do ano. Outra tarefa fundamental, para o próximo período, é fortalecer a nossa intervenção comum na luta de classes e no processo de reorganização da esquerda e do movimento sindical e popular. Como, por exemplo, na construção do calendário de lutas contra a reacionária  Reforma da Previdência e na participação conjunta no Congresso da CSP-Conlutas.

    A importância do processo de fusão
    A proposta é a construção de uma nova organização de fato, criada a partir de um fórum nacional conjunto, que defina as diretrizes programáticas e de concepção da nova organização, inclusive com um novo nome.

    Infelizmente, a luta por fusões entre organizações marxistas revolucionárias foi há muito abandonada por setores da esquerda, que passaram a se considerar como os “únicos revolucionários”, apostando apenas na sua autoconstrução.

    Consideramos a fusão entre a NOS e o #MAIS um passo importante na construção de um polo para a construção de uma verdadeira organização marxista revolucionária em nosso país.

    A vitória deste processo vai ajudar a resgatar uma metodologia correta de construção de organizações revolucionárias, buscando sempre a possibilidade de unificação de setores distintos, a partir de sínteses programáticas superiores.

    Mas, sabemos que a unificação das duas organizações não basta, afinal os desafios impostos aos revolucionários pela realidade brasileira e internacional são imensos. Inclusive, esperamos também que a construção desta nova organização já seja efetivada em conjunto com ativistas e grupos regionais que não pertencem hoje nem à NOS e nem ao #MAIS.

  • MAIS anuncia entrada no PSOL

    Da Redação

    O Movimento Por uma Alternativa Independente e Socialista (MAIS) acaba de anunciar, na manhã desta sexta-feira (04), o ingresso no Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). A decisão foi tomada no congresso da organização, que aconteceu dos dias 27 a 30 de julho, em São Paulo.

    1º Congresso do MAIS

    1º Congresso do MAIS

     

    Valerio Arcary, militante do MAIS

    Valerio Arcary, militante do MAIS

    “Estamos dando um passo para construir uma alternativa ao PT pela esquerda. Não podemos ficar reféns dos retrocessos do Temer e nem do lulismo. Para nós, o PSOL é parte desse polo alternativo que irá cumprir esse papel”, opinou Valério Arcary, professor e militante do MAIS que ajudou a fundar o PT e o PSTU.

    Além de Valerio, do MAIS participam ativistas como a professora Amanda Gurgel, a mais votada vereadora da história de Natal (RN); Mauro Puerro, ex-vereador de São Paulo (SP) e dirigente da central sindical CSP-Conlutas; Matheus Gomes, ativista do movimento negro e ativista dos protestos de junho de 2013 em Porto Alegre (RS); Henrique Carneiro, professor da USP e militante antiproibicionista; Zé Gotinha, coordenador geral do sindicato da construção civil de Belém; a professora Silvia Ferraro, ativista do movimento de mulheres e da Frente Povo Sem Medo, e Nestor Bezerra, do sindicato da construção civil de Fortaleza (CE).

    Antes de decidir pelo ingresso no PSOL, O MAIS atuava como movimento independente desde que surgiu, no dia 23 de julho de 2016, fruto de uma ruptura com o PSTU. Apesar de ser composto por diversas gerações, a maioria jovens, parte dos integrantes são ativistas de longa data, com origem na Convergência Socialista, grupo trotskista formado nos anos 1980. Lutaram contra a ditadura; após a redemocratização participaram da fundação do PT; em 1994 fundaram o PSTU e, em 2016, decidiram seguir um novo caminho.

    Luiz Araujo, presidente nacional do PSOL

    Luiz Araujo, presidente nacional do PSOL

    “É com imensa alegria que nós recebemos a informação de que, no congresso do MAIS, esta organização decidiu ingressar nas fileiras do PSOL, se tornando uma corrente interna de nosso partido. Nós estamos vivendo um momento de grandes dificuldades para o povo brasileiro, de retirada de direitos, mas também um momento de reorganização da esquerda e estamos empenhados para que esta reorganização da esquerda seja feita reunindo todos aqueles que lutam por democracia, por liberdade, que lutam pelo socialismo, aqueles que, nas ruas, estão se unindo contra o golpe, se unindo para não perder direitos. São bem vindos às fileiras do PSOL e, certamente, nesse processo congressual, as suas visões, as suas contribuições engrandecerão ainda mais o processo democrático de construção do programa para 2018 e da plataforma para reorganizar a esquerda no Brasil”, afirmou o presidente do PSOL, Luiz Araújo.

    Vídeo


    Áudio


    Veja a íntegra do manifesto

    Congresso do #MAIS aprova entrada no PSOL

    O 1º Congresso Nacional do Movimento por uma Alternativa Independente e Socialista (#MAIS), realizado entre os dias 27 e 30 de julho, aprovou a entrada de nossa nova organização no Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). A decisão foi resultado de um rico e democrático debate interno, que envolveu mais de 800 militantes em todo país.

    Vivemos tempos desafiadores. A ofensiva da classe dominante sobre os trabalhadores e o povo brasileiros coloca, de modo incontornável, a tarefa da resistência unificada dos explorados e oprimidos. Sem a máxima unidade “dos de baixo” será impossível deter os ataques do andar de cima.

    O impeachment orquestrado pela direita foi, antes de tudo, um golpe para destruir direitos históricos da classe trabalhadora. O #MAIS se somará ao PSOL para fortalecer a luta contra o ilegítimo governo Temer e suas contrarreformas, e por eleições diretas e gerais.

    Mas há um sentido mais profundo em nossa decisão. É tempo de construir um novo caminho para a esquerda brasileira.

    Os treze anos de governos de conciliação de classes do PT desaguaram, tragicamente, no golpe parlamentar. É preciso extrair lições dessa experiência. A opção pelo pacto com os grandes empresários e partidos da direita cobrou seu preço. Chegada a crise política e econômica, os velhos aliados da direita, como sempre fazem, traíram.

    Mesmo assim, a direção do PT já deu incontáveis provas de que não aprendeu com os erros do passado. Como afirma Lula em seus discursos, o objetivo é repetir a mesma estratégia nas próximas eleições de 2018. É ilusório acreditar que o lulismo possa abraçar um programa e uma política consequentes de enfrentamento com os ricos e poderosos.

    É tempo de dar passos em frente no processo de reorganização da esquerda brasileira. Nesse sentido, o PSOL apresenta-se como o principal e mais dinâmico partido independente do lulismo.

    A tarefa é difícil e, ao mesmo tempo, desafiadora: reencantar os trabalhadores para enfrentar as amarras estruturais que prendem nosso povo à pobreza e à exploração. Em outras palavras, apresentar um programa que ouse afrontar os privilégios seculares de uma burguesia racista, corrupta e submissa ao imperialismo.

    Assim, o #MAIS se somará ao PSOL para recuperar as ruas e o trabalho de base nas fábricas, periferias e locais de estudo enquanto espaços centrais de atuação política. Entramos no PSOL com nossas próprias ideias. Levaremos aos fóruns do partido nosso programa socialista e nossa estratégia revolucionária. Conformaremos uma Tendência Interna nos marcos dos estatutos do partido.

    Queremos atuar ombro a ombro com todas e todos do PSOL, para que, em cada embate da luta de classes, possamos elaborar conjuntamente a melhor política para a libertação dos trabalhadores e trabalhadoras, negras e negros, LGBTs, juventude, indígenas, sem-terras, sem-tetos e quilombolas.

    Não somos a única organização marxista no Brasil. É momento de estar mais perto do que longe, para que as divergências entre a esquerda socialista não ameacem a necessária unidade. Construir sínteses e convergências, sem prejuízo ao debate das diferenças. Esse é o desafio.

    O processo de entrada do #MAIS no partido obedecerá a certas fases. Será uma construção que levará em conta as definições do PSOL, expressas no convite à nossa entrada, e também a discussão permanente com toda a nossa militância.

    O #MAIS seguirá atuando com todo empenho na luta direta dos trabalhadores, da juventude e dos oprimidos. Nos movimentos sindicais, populares, identitários e estudantis, nossa organização seguirá levantando suas bandeiras e propostas.

    Construindo também o PSOL, acreditamos ser possível dar uma contribuição superior à luta pela transformação socialista do Brasil.

    Viva a luta da classe trabalhadora!

    Viva o socialismo!

    Coordenação Nacional do MAIS

  • Rafael Braga e Breno Borges: Quando 9 gramas de Racismo pesam mais do que 129 quilos de Maconha

    Por Henrique Oliveira é graduado em História e mestrando em História Social pela UFBA e militante do Coletivo Negro Minervino de Oliveira/Bahia.

    No dia 8 de Abril o empresário Breno Fernando Solon Borges, que é dono de uma metalúrgica e serralheria em Campo Grande no Mato Grosso do Sul, foi preso carregando junto com outras pessoas em dois carros, 130 quilos de Maconha, uma pistola nove milímetros e 199 munições de fuzil calibre 7,62, de uso exclusivo das forças armadas.

    As investigações da Polícia Federal sobre as ações de Breno já vinham sendo realizadas desde o mês de Fevereiro, o grupo foi abordado pela Polícia Rodoviária Federal na BR 262, quando transportavam as drogas e as munições para São Paulo.  O que coloca Breno Borges como participante da rede do tráfico de drogas da chamada “rota caipira”, que é abastecida por drogas que ultrapassam a fronteira do Brasil pelo estado do Mato Grosso do Sul chegando até São Paulo e Rio de Janeiro para serem distribuídas.

    Breno Borges é filho da presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Mato Grosso do Sul, a Desembargadora Tânia Garcia Freitas Borges, e uma das autoridades que preferiu anonimato, segundo o Conjur, o empresário deu o nome da sua Mãe para não ser preso. Aquela típica frase: Você sabe com quem você está falando? Uma expressão que remete a identificação social do seu enunciador no topo da hierarquia, demonstrando ter algum tipo de autoridade, que busca através do apadrinhamento político burlar as leis, conseguir proteção e vantagem.

    Breno estava preso desde 8 de Abril, e conseguiu no dia 17 de Julho o direito de aguardar seu julgamento em liberdade, pois a sua defesa conseguiu um laudo médico psiquiátrico no qual Breno é diagnosticado com “Síndrome de Bordilene”, uma doença que consiste no desvio de comportamento do individuo, se manifestando através das alterações de cognição, de afetividade, de funcionamento interpessoal e controle dos impulsos.

    O também Desembargador Ruy Celso Barbosa Florecence concedeu liberdade para que Breno cumpra tratamento psiquiátrico adequado, sob a tutela e responsabilidade da sua Mãe, que se comprometeu a leva – ló em todas as audiências do processo. E essa foi a segunda vez que a defesa de Breno Borges tentou intervir para tira – ló da prisão com argumentos médicos, a própria desembargadora e Mãe se ofereceu para ser tutora do filho, para que o mesmo fosse interna em uma clínica médica, com alegação que ele sofre de problemas psicológicos, mas teve o pedido negado em um juizado de primeira instância.

    O direito de responder em liberdade sob alegação médica, é mais um caso onde presos com dinheiro, e influência política, conseguem produzir laudos médicos para ganhar prisão domiciliar ou internação em clínica, enquanto milhares de presos estão sendo infectados e morrendo nas nossas cadeias por Sífilis, Tuberculose, HIV e convivendo em meio a ratos e baratas. E mostra que membros da classe média/alta, quando são flagrados cometendo crimes, são enquadrados como doentes, desequilibrados, imaturos, sempre existindo um argumento atenuante, que visa afastar o estigma do criminoso para o do que precisa de ajuda.

    Breno Borges não é o primeiro caso esse ano, em que um sujeito tem sua prisão revogada, por causa de alianças político – familiares com membros do poder judiciário. Em Janeiro no estado da Paraíba o também empresário Rodolpho Carlos Silva atropelou e matou o agente do Detran em uma blitz da Lei Seca.

    Rodolpho chegou a ter a sua prisão preventiva decretada, mas doze horas depois o Desembargador Joás de Brito concedeu um habeas corpus. O Desembargador é amigo da família de Rodolpho Carlos, que é filho do dono Grupo São Braz, um dos maiores produtores de café torrado do país, além de ser neto de José Carlos da Silva, ex vice – governador da Paraíba. Além de serem donos da filiada local da Rede Globo.

    Enquanto isso, Rafael Braga, um jovem negro e pobre, catador de material reciclável, e que não é filho de uma desembargadora, foi condenado há 11 anos de prisão, por tráfico e associação tráfico, por portar em um flagrante forjado de 0,6 gramas de Maconha e 9,6 gramas de Cocaína.

    No dia 19 de Julho a defesa de Rafael Braga entrou com um pedido de apelação à sentença condenatória, alegando que não houve fundamentação por parte do juiz sobre a não retirada das algemas de Rafael durante as audiências, e a não autorização da realização de diligências para o esclarecimento do caso, como acesso as imagens da câmera da viatura em que Rafael Braga foi levado para a delegacia no dia 12 de Janeiro de 2016. É mais uma etapa do calvário que Rafael Braga vem passando desde a sua primeira condenação por porte de Pinho Sol e Água Sanitária, no contexto das manifestações de Junho de 2013.

    Esses dois casos envolvendo Rafael Braga e Breno Borges, evidenciam toda a contradição da política criminal de drogas e a seletividade do poder judiciário, apesar de Breno Borges ter direito a responder o processo em liberdade, esse mesmo direito não é garantido a mais de 40% dos presos brasileiros, que são compostos por presos provisórios.

    A política de proibição das drogas quando relacionada com questões sócio – raciais, consegue produzir uma total inversão de proporcionalidade, onde 9 gramas de Racismo, pesam mais do que 129 quilos de Maconha.

     

  • Pela liberdade de Rafael Braga: julgamento do pedido de habeas corpus é hoje

    Por Noel, de Niterói, RJ

    Ato pela liberdade do jovem negro reuniu cerca de 300 ativistas na frente do Fórum Central do Tribunal de Justiça do RJ.

    Um dos casos recentes mais emblemáticos do racismo institucional terá mais um capítulo nesta terça-feira (1º/08). O jovem Rafael Braga Vieira, negro, pobre, morador da Vila Cruzeiro, foi preso em 20 de junho de 2013. Neste dia mais de 1 milhão de pessoas marcharam pelas ruas da capital fluminense em protesto contra o aumento das passagens e os gastos exorbitantes para organização da Copa do Mundo de Futebol. Braga foi preso ao fim da manifestação portando desinfetante e água sanitária.

    Mesmo com laudo da Polícia Civil atestando que o material encontrado com Rafael não tinha potencial explosivo, o jovem foi encarcerado, julgado e enviado a prisão, sendo o único condenado das Jornadas de Junho. Apesar da breve progressão de pena conquistada no início de 2016, arrancada após muita pressão e mobilização dos movimentos sociais, Rafael voltou a prisão após um flagrante forjado por policiais que o abordaram próximo de sua residência, na Vila Cruzeiro, por estar usando tornozeleira eletrônica. Mesmo com tantos questionamentos a sentença, o jovem foi condenado a 11 anos e 3 meses pelo porte de 0,6 gramas de maconha e 9,3 de cocaína, também conhecido como “kit flagrante”.

    O tratamento ao caso contrasta com o dado a filhos da elite brasileira, como o de Breno Borges, filho da presidente do Tribunal Regional Eleitoral do MS. Breno foi preso com outras pessoas, carregando mais de 130 kilos de maconha, uma pistola 9mm (de uso restrito) e 199 munições de fuzil 762, de uso exclusivo das Forças Armadas. Apesar disso, Breno Borges conseguiu no mês passado o direito de aguardar seu julgamento em liberdade, pois apresentou um laudo psiquiátrico diagnosticando-o com “Síndrome de Borderline”, uma doença que causa, entre outras coisas, perda de controle dos impulsos.

    Lembrando do “helicoca”, da liberdade de Zezé Perrella, Aécio Neves e Adriana Ancelmo, a revolta é ainda maior. Rafael foi condenado com base na chamada Súmula 70 do Tribunal de Justiça do RJ, pois a acusação de tráfico que sustentou o inquérito contra o jovem negro foi a palavra dada pelos policiais militares que efetuaram a prisão do Rafael, mesmo a acusação sendo rechaçada pelo jovem e por testemunha ocular.

    Leia aqui a íntegra do Habeas Corpus de Rafael Braga que será julgado no TJ-RJ.

    O julgamento do pedido de habeas corpus vai ocorrer no Beco da Música, 175, sala 101, lâmina IV, no Centro do Rio de Janeiro. A pauta de julgamentos começará às 15h. Ainda segundo o portal Justificando, a sessão pode ser adiada caso o tribunal queira averiguar os documentos, como a carta de emprego de Rafael, que a defesa juntou ao processo.

    Foto: Niara Aureliano, companheira da NOS.

  • 25 de julho: Morte das Dandaras e várias faces da violência contra a mulher negra

    Por: Elita Isabela Morais, de Maceió, AL

    O dia 25 de julho, Dia da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha, foi marcado internacionalmente após o 1º Encontro de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas, que aconteceu em 1922, em Santo Domingo, na República Dominicana. Além de marcar esse dia, foi criada também a Rede de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas. No Brasil, com a sanção da Lei 12.987, esse também é o dia nacional de Tereza de Benguela e da mulher negra.

    Nesse dia, queremos fazer uma reflexão sobre a invisibilidade das mulheres negras que têm suas vidas cotidianamente marcadas não apenas pelo machismo, mas pelo racismo também, e lembrar que é impossível fazer qualquer análise real sobre a violência contra a mulher no Brasil sem levar em consideração os elementos de raça e classe.

    O tema da violência contra a mulher parece, muitas vezes, ser um tema desgastado. Isso acontece não só porque essa temática já vem sendo discutida por muito tempo, mas porque essa realidade, para nós mulheres, é absolutamente devastadora. São as cantadas nas ruas, o assédio sexual nos transportes públicos e nos espaços de trabalho, o medo de andar em ruas escuras durante a noite e ser estuprada, os relacionamentos abusivos que destroem com a sua auto-estima e a sua capacidade de acreditar em si mesma, é a violência física e psicológica constante. Tudo isso e diante dos dados nada animadores, muitas vezes nos faz achar que estamos dando murro em ponta de faca, ou que nossa dor, para os poderes públicos, é irrelevante.

    Imagine, então, quando essa dor vai para além do machismo cotidiano. Quando se é condenado constantemente aos piores indicadores sociais, quando a cor da sua pele te transforma no suspeito padrão da polícia, quando suas capacidades enquanto sujeito são o tempo todo questionadas não só pelo fato de você ser mulher, mas por conta da cor da sua pele.

    As mulheres negras nunca se encaixaram nos padrões de “fragilidade” que a ideologia patriarcal sempre atribuiu às mulheres na história. Consideradas como propriedade dos senhores de escravos, “essas mulheres eram vistas, não menos que os homens, como unidades de trabalho lucrativas, para os proprietários de escravos elas poderiam ser desprovidas de gênero” (DAVIS, 2016). Portanto, a ideologia patriarcal do “sexo frágil” não se encaixa bem com a história das mulheres negras. É imprescindível, para se verificar os impactos da violência sobre o conjunto da população negra no Brasil, compreender o lugar que ocupa o racismo na formação sócio-econômica do capitalismo brasileiro.

    Uma violência machista e racista. Uma violência que mata
    Segundo o mapa da violência sobre homicídios de mulheres (2015), entre 2003 e 2013 as meninas e as mulheres negras estavam entre as principais vítimas da violência de gênero no Brasil. Isso é observado, inclusive, diante de uma redução dessas mesmas taxas de feminicídio entre as mulheres brancas. Diante dos cortes promovidos pelo governo Temer no último período no que se refere às políticas públicas para as mulheres, é pouco provável que esse quadro mude. Pelo contrário, a tendência é que se aprofunde.

    Pesquisas do IPEA sobre mortes de mulheres por agressões (2016) avaliam que quase dois terços desses casos no último período foram de mulheres negras, sendo elas as principais vítimas da violência machista em praticamente todas as regiões do país. No geral, o perfil das vítimas é de mulheres jovens, negras e com baixa escolaridade. Esses dados apresentam poucas perspectivas de mudança no próximo período.

    Informações da secretaria especial de políticas para as mulheres (SPM) demonstram que em 2016 a situação das mulheres negras no campo da violência doméstica manteve a posição nos números de vitimização (Mulheres negras e violência doméstica: decodificando números. GELÉDES, 2017)1.

    A violência contra a mulher negra não se resume apenas ao seu aspecto físico. Está relacionada a uma estrutura sócio-econômica racista e a um sistema de saúde e educação precarizados. Segundo o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (2015), as Mulheres negras apresentam índices de alfabetização invariavelmente inferiores ao de mulheres brancas, e quanto mais elevado é o nível de ensino, maior fica a desigualdade entre as mulheres negras e brancas e entre homens brancos e negros.

    As taxas de mortalidade materna entre mulheres negras demonstram também a precarização da saúde e as dificuldades de acesso a um sistema de saúde de qualidade para essas mulheres. Segundo o RASEM (Relatório Anual socioeconômico da Mulher), em 2012 os óbitos de mulheres negras correspondiam a mais de 60% das mulheres mortas durante a gravidez e o puerpério. Aqui não se pode deixar de mencionar também que a criminalização do aborto afeta especialmente essas mulheres. E como não poderia deixar de ser, no mundo do trabalho essa violência racista não é diferente, elas estão em maior número nos trabalhos precarizados e mal remunerados.

    Esse conjunto de violências físicas e simbólicas se constitui em uma vitimização seletiva, porque embora a violência atinja a todas as mulheres, as mulheres negras e pobres são o alvo preferencial. A violência patriarcal é, portanto, também racista, da mesma forma que é racista e seletivo o sistema penal e penitenciário brasileiro, assim como é racista e genocida a violência policial empreendida pelo Estado contra a juventude pobre das periferias brasileiras.

    Um feminismo negro e transformador: reconstruindo nossa história, recontando nossas dores
    O movimento feminista nem sempre é um espaço convidativo para as mulheres negras. A origem branca e eurocêntrica desse movimento muitas vezes se constituiu em um impeditivo para uma análise mais profunda dos elementos de raça e classe em seu interior. Falar isso não significar negar o papel histórico dos movimentos feministas, significa apenas reconhecer suas limitações para atuar sobre elas e superá-las. É simplesmente afirmar que o racismo, enquanto ideologia, também encontra lugar nesses espaços na medida em que o discurso da democracia racial encontra eco nas suas fileiras. As mulheres negras marcaram sua presença no interior dos movimentos feministas, brigaram pelo seu espaço (e continuam brigando), e junto com elas a elaboração de um feminismo que leve em consideração os elementos de raça e classe em seu interior.

    A presença das mulheres negras, enquanto questionadoras de um movimento feminista majoritariamente branco, tem o papel de recontar a nossa história, de desmascarar a hipocrisia do discurso da democracia racial brasileira que vende a imagem da mulher negra hipersexualizada e “exótica”. Tem o papel de revelar, portanto, que essa tal miscigenação, tão falada para encobrir o racismo brasileiro, nunca foi uma relação harmoniosa, mas fruto de muita violência.

    Mesmo diante de tanto aniquilamento, nós, mulheres negras, continuamos aqui. Estamos vivas, em luta, e não poderia ser diferente. Carregamos a herança de nossas ancestrais conosco. Aqualtune, Dandara, Tereza, Luiza, somos todas elas e tantas outras. Continuamos reconstruindo e recontando nossa história. O racismo nos abala é verdade, “mas não deixam nossos neurônios cativos”.

    1 Importa destacar aqui que, no governo Temer, a SPM, que já sofria com cortes em seu orçamento também nos governos do PT, perdeu seu status de ministério tendo suas atribuições dadas para o Ministério da Justiça e cidadania.

  • Diretas já e eleições gerais ou Constituinte? Cinco respostas sobre a tática

    Por: Valerio Arcary, colunista do Esquerda Online

    A língua resiste porque é mole; os dentes cedem porque são duros.
    Sabedoria popular chinesa

    A LER/MRT evoluiu em 2016, politicamente, de forma positiva, ao compreenderem em geral, corretamente, os dois processos mais complicados e difíceis dos últimos dezoito meses: o impeachment de Dilma e a operação Lava Jato. Amadureceram na percepção da crise da dominação burguesa e, por isso, se posicionaram bem. Lutamos juntos na luta pelo Fora Temer e as reformas no Congresso. Mas temos uma diferença tática sobre a melhor bandeira democrática: se a palavra de ordem de Diretas Já, Eleições Gerais ou Constituinte. Ou seja, somos contra a eleição indireta pelo Congresso de um possível sucessor de Temer. Somos pela antecipação de eleições. A questão é saber quais eleições. Trata-se de um debate legítimo, mas tático.

    Mas para Edison Urbano e a direção do MRT, misteriosamente, não. Não é tático. Transformar discussões táticas em diferenças de estratégia é um método errado. O artigo de Edison é, portanto, uma decepção. Não acharam melhor maneira de se diferenciar do que denunciar um suposto seguidismo do MAIS ao PT. Mas, não satisfeito, Edison Urbano acusou o MAIS de ter perdido paixão revolucionária. Este estilo polêmico áspero e ofensivo é deseducativo. Temos esperança que não seja compartilhado por muitos quadros honestos, dedicados e mais maduros dessa organização. Anotei cinco repostas rápidas ao artigo de Edson Urbano:

    1. Edison Urbano argumenta: “Ou não é errado dizer que nenhuma fração burguesa defende a antecipação das eleições, quando nada menos que a Folha de S.Paulo, partidos como o PSB, e a Rede, entre outros, o defendem abertamente?”Honestidade é importante: não havia fração burguesa apoiando Diretas Já quando o artigo foi escrito e publicado no dia 2 de junho de 2017.
    2. Ainda assim, Urbano argumenta com “Valério não é consequente com o grau de crise burguesa a possibilidade de que, rapidamente, um setor majoritário passe a defender as Diretas como “última saída”.Os setores majoritários não giraram para a defesa das Diretas como Urbano sugeriu. O terreno da tática é aquele em que as previsões são chaves para poder se posicionar de melhor maneira. Os setores da classe dominante que, na sequência, chegaram a defender a convocação de eleições antecipadas não são significativos: não representam nenhuma fração relevante. O PSB é um partido de aluguel que está sendo, neste momento, canibalizado pelo DEM de Maia e próprio PMDB de Temer. As únicas exceções foram o jornal Folha de São Paulo, que engavetou a proposta, e Fernando Henrique Cardoso que, paradoxalmente, nem conseguiu que o PSDB decidisse retirar seus ministros do governo Temer.
    3. Urbano argumenta: “Depois de criar um clima artificial em que a classe dominante estaria totalmente unificada em torno das eleições indiretas”.A verdade é que há uma grande divisão na classe dominante. Mas a divisão principal na burguesia não é entre quem apoia e quem é contra as Diretas. A divisão é entre quem apoia Temer, e quem defende a sua substituição por uma eleição no Congresso Nacional. Esta divisão expressa a divisão em torno da Lava Jato, e a amplitude da reforma institucional do sistema político-partidário-eleitoral que se consolidou desde 1985. Todos estão de acordo com as Reformas econômico-sociais, especialmente, da Previdência Social. Não está unificada por indiretas, porque ainda há os que defendem Temer, embora minoritários. Não há, por enquanto, apesar da gravidade da crise do governo Temer, que não é o mesmo que crise do regime de dominação, razão para prever que uma maioria burguesa possa girar para defesa das Diretas. Edison Urbano tirou conclusões precipitadas. Os ritmos políticos da disputa interburguesa no Brasil são mais lentos que na Argentina. Denunciamos todas as frações burguesas, mas lutamos, prioritariamente, contra Temer e a fração que pretende substitui-lo por uma eleição indireta. Nossos alvos prioritários devem ser Temer e Maia, não Marina Silva ou FHC. Isto é assim porque as lideranças burguesas mais poderosas sabem que, em eleições antecipadas, tanto a candidatura Lula quanto Bolsonaro teriam grandes vantagens comparativas. Por isso mesmo a direção do PT girou para o Fora Temer e Diretas Já. Porque embora improvável, seria a melhor localização para tentar poupar Lula da LavaJato. Não se trata de “inconsequência” com a análise da crise política do governo Temer, mas uma apreciação menos “catastrofista” da sua dinâmica.
    4. Urbano argumenta: “Para ele, o movimento contra as reformas pode até protagonizar novas ações de greve geral ou outras, porém pareceria fadado a não poder dar qualquer saída independente no plano político. O ceticismo de Valério vai tão longe, que ele iguala a possibilidade de que se desenvolva qualquer elemento de auto-organização na luta, com uma “ultrapropaganda”, inofensiva, portanto, sobre a revolução. proposta de comitês de base para que os próprios trabalhadores possam tomar em suas mãos a luta, tarefa cada vez mais urgente diante da disposição traidora das direções oficiais, não somente não é apoiada por Valério, como é por ele desqualificada, e jogada na vala comum dos argumentos ultraesquerdistas”.Urbano propõe como saída política comitês de base sindicais, que não existem e precisam ser impulsionados pela esquerda revolucionária, como saída independente no plano político. Trata-se de uma incompreensão de qual é a relação social e política de forças entre as classes. A dinâmica da crise política fez com que o caminho para derrotar as Reformas tenha passado a ser o caminho para derrubar Temer. Acontece que um dos fatores que explica a dificuldade de derrubar Temer é que a classe está, politicamente, dividida. A maioria dos milhões de trabalhadores que fizeram a greve geral não vê uma saída política para crise. Para aqueles que apoiam Lula, como a maioria na região nordeste, ou em parte das grandes fábricas é mais simples. Mas para aqueles que romperam com Lula, o que não é o mesmo que romper com o reformismo, e apoiam a LavaJato não é tão simples. Por isso o apoio ao Fora Temer e as reformas teve e mantém um apelo maior do que Diretas Já.
    5. Urbano argumenta: “O fato de que uma determinada reivindicação seja democrática, NÃO significa necessariamente que ela seja compatível com o regime atual. E ainda menos se lembrarmos que vivemos num regime cuja “casca” democrática é tão fina quanto a do sistema brasileiro atual, parido por uma transição pactuada com a ditadura militar e que preservou os pilares fundamentais desse país injusto e desigual”.As bandeiras democráticas se dividem em variados tipos: em bandeiras democráticas agrárias, como a reforma agrária; nacionais, como a suspensão do pagamento da dívida externa; antirrepressivas, como a dissolução da Polícia Militar; educacionais, como a defesa do ensino universal e gratuito; ambientais, como a defesa da floresta amazônica; e muitas outras, por exemplo, as republicanas, como a luta contra a corrupção, etc. Mas Eleições antecipadas, seja para a presidência, para o Congresso ou para uma Constituinte, quando já existe um regime democrático-eleitoral presidencial com traços semiparlamentaristas, e não uma ditadura, são bandeiras democráticas formais, portanto, não são antirregime. Isso parece óbvio. Isso não quer dizer que não sejam corretas. Para o PSTU são erradas porque não são antirregime. Para o MRT podem ser justas porque podem ser antirregime. Ambos estão errados, embora com posições simétricas.

     

    Foto: Roberto Parizotti/ CUT

  • Cem anos da Revolução Russa: a entrada de Leon Trotsky no Partido Bolchevique

    Por: André Freire, colunista do Esquerda Online

    Há exatos cem anos, acontecia um processo político que merece destaque na história da Revolução Russa, que foi a entrada no Partido Bolchevique da “Organização Inter-Distrital dos Sociais-Democratas Unidos de Petersburgo (Comissão Inter-Distrital)” – grupo fundado em 1913, onde até então militava o revolucionário russo Leon Trotsky.

    Essa corrente política, que possuía algo entre três a quatro mil militantes, agrupava principalmente os dirigentes do agrupamento que defendia a unidade de todas as correntes do Partido Operário Social Democrata Russo (POSDR) e também antigos Bolcheviques chamados de conciliadores, que tinham se separado do partido.

    Mais do que a importância numérica deste agrupamento, seu ingresso nas fileiras bolcheviques representou um fortalecimento qualitativo da coluna de quadros e da direção do Partido. Não só Trotsky, que logicamente cumpriu papel destacado no Sovietes (Conselhos) na insurreição de Outubro, nos primeiros anos do Governo Soviético e na idealização e direção do Exército Vermelho durante a Guerra Civil, mas também outros quadros importantes, como Uritsky e Yoffe, que estiveram no Comitê Central Bolchevique, eleito no VI Congresso do partido.

    A aproximação política e programática se consolidou logo no retorno de Lenin e Trotsky à Rússia, após a Revolução de Fevereiro de 1917, que derrubou o Czarismo naquele imenso país, instituindo um Governo Provisório que conviveu durante boa parte do ano de 1917 com uma dualidade de poder, ao lado dos Sovietes.

    A oposição de esquerda ao governo provisório de conciliação de classes e o chamado à luta direta pela Revolução Socialista uniram programaticamente Lenin e Trotsky já em maio do ano revolucionário. Porém, em um acordo com Lenin, Trotsky define abrir o debate no seu agrupamento sobre a ida de conjunto ao Partido Bolchevique.

    O debate dura ainda alguns meses, se formam duas alas, uma representada principalmente por Trotsky, que defendeu o ingresso no Partido de Lenin, e outra representada por Iurenev, que coloca ainda dúvidas nesta unificação. Ao fim de um debate, a “Inter-Distrital” define pela adesão aos Bolcheviques.

    Entre os dias 26 de julho e 03 de agosto (pelo calendário Russo) de 1917 se reúne o VI Congresso do Partido Bolchevique, evento histórico, que define pela estratégia da Insurreição. Este Congresso selou a entrada do grupo de Trotsky no partido, dando conformação à organização que dirigiu a tomada do poder em outubro daquele ano.

    Para além da importância histórica deste processo, vale tirar lições sobre qual a metodologia utilizada para discutir a possibilidade desta unificação. Não se exigiu autocrítica sobre debates polêmicos do passado, seja sobre o caráter de classe da Revolução Russa, ou sobre a concepção de partido, tema que tanto dividiu Lenin e Trotsky nos primeiros anos da construção do POSDR.

    O que presidiu os debates de construção da unificação, nos marcos do partido Bolchevique, foi o olhar para o futuro, em torno da visão de mundo e de país e, principalmente, sobre as as tarefas colocadas para os marxistas-revolucionários no período histórico que eles viviam.

    Unir os marxistas-revolucionários em torno do programa socialista
    Guardando as devidas proporções históricas, o exemplo da unificação de Lenin e Trotsky em torno do partido Bolchevique, mesmo depois de muitas polêmicas teóricas, programáticas e de concepção de organização no passado, deve ser valorizado na atualidade, quando a esquerda socialista e revolucionária vive um processo de crise e dispersão, não só no Brasil, como também em boa parte do mundo.

    A construção de uma autêntica organização marxista revolucionária se faz, em primeiro lugar, colada aos principais processos da luta de classes, numa relação estreita com os trabalhadores, a juventude e o conjunto dos explorados e oprimidos.

    Mas, nesse processo de construção, necessariamente árduo e cheio de obstáculos, não se deve perder o objetivo estratégico de unificar todos (as) os (as) revolucionários (as), que sob o princípio da independência de classe, lutam pela bandeira da revolução socialista, proletária e internacionalista.

    É preciso superar o sectarismo, a autoproclamação e uma postura autossuficiente, infelizmente, muito comum em vários agrupamentos da esquerda socialista. Descartar o discurso atrasado de que “somos os únicos revolucionários”, que pode até ser útil para animar uma parte da militância, mas que não ajuda em nada na superação da fragilidade das organizações marxistas revolucionárias na atualidade.

    Fugindo a todo o momento de unificações “aventureiras”, construídas sem o verdadeiro rigor e profundidade, devemos buscar de forma permanente a unificação dos marxistas revolucionários, em torno do mesmo programa e da mesma organização política revolucionária, independente de origens e tradições políticas distintas.

    A construção de processos como estes não são fáceis, e não poderia ser diferente, no quadro atual da correlação de forças e no nível de dispersão dos revolucionários. Mas, as dificuldades inerentes do processo não devem servir de desculpa para o abandono deste objetivo fundamental para a superação de nossas fragilidades, perante aos enormes desafios colocados pela realidade brasileira e mundial.

    Portanto, sem exigir autocríticas sobre erros do passado, sempre a partir de discussões sobre a construção e atualização do programa socialista para o momento que vivemos e da construção de uma organização para o combate na luta de classes, devemos aproveitar o momento de comemoração dos 100 anos da Revolução Russa e da unificação de Lênin e Trostsky no mesmo partido, para nos animar e inspirar para a difícil, mas fundamental tarefa de unir os marxistas revolucionários em torno de um programa socialista e de uma organização revolucionária comum.

  • Os desafios da resistência

    Editorial 7 de julho

    No dia 30 de junho, ocorreram mobilizações em aproximadamente 106 cidades. Em algumas capitais, como Fortaleza e Brasília, a paralisação aproximou-se de uma greve geral local. Entretanto, o fato é que não houve uma greve geral nacional. Tal fato significa uma inflexão negativa na conjuntura, uma vez que desde o dia 8 de março a resistência dos trabalhadores vinha crescendo e se fortalecendo.

    Muitos se perguntam: por que isso ocorreu? Há um aparente paradoxo. Desde o dia 17 de maio, o governo Temer atravessa uma crise brutal. Se o inimigo está mais fraco, por que esta crise não potencializou a unidade entre as centrais sindicais e o ânimo popular para as mobilizações? Por que as bandeiras do Fora Temer e das Diretas Já, apesar de serem apoiadas pela ampla maioria da população, não mobilizaram as amplas massas trabalhadoras?

    Neste texto, buscaremos fazer reflexões sobre estas questões. A análise marxista busca sempre encarar a realidade de frente: não trabalhamos com o desejável, mas com os dados da realidade. Ampliar, ou distorcer as nossas forças só ajuda os nossos inimigos de classe. Explicações unilaterais não servirão para compreender a realidade atual.

    O papel das centrais sindicais
    A direção das centrais sindicais políticas majoritárias entre os trabalhadores foram um fator negativo muito importante. Em primeiro lugar, demoraram em marcar a data da próxima greve geral.

    O tempo na política não é um fator secundário, passaram-se mais de dois meses. O ânimo da classe com o êxito do dia 28 de abril não foi aproveitado. A marcha a Brasília, ainda que tenha sido importante, pela própria natureza do ato, foi uma ação de vanguarda, isto é, não envolveu as grandes massas trabalhadoras, como ocorreu na greve geral de abril.

    Além do atraso, o próprio dia 30 de junho não foi preparado como o 28 de abril. Já nas últimas reuniões de preparação, tanto a Força Sindical, como a UGT se posicionaram contra a greve geral. Exigiram que o mote do dia 30 fosse: “Vamos parar o Brasil”.  Este foi o mesmo mote do dia 28 de abril, mas teve um conteúdo totalmente diferente, desta vez foi uma saída para manter formalmente a unidade, mas na prática não fazer a greve.

    Embora a Força Sindical e a UGT sejam as principais responsáveis pelo recuo da greve, é preciso não esquecer que a CUT e a CTB tiveram, também, uma grande parcela de responsabilidade. A CUT é a maior central sindical do país, pelo seu tamanho e força. Se tivesse tido uma postura firme e decidida desde o início, poderia ter mudado o desfecho deste processo. Além de não ter denunciado as manobras da Força e da UGT, também não mobilizou com força total a sua própria base social. Até mesmo no ABC paulista, coração da CUT e do PT, não houve paralisação nas fábricas e montadoras, houve apenas um ato local. 

    A verdade é que a CSP-Conlutas e a Intersindical foram as únicas vozes dissonantes na reunião das centrais. A classe deu seus primeiros e importantes passos na resistência. Era decisivo, portanto, que as direções dos sindicatos e das centrais tivessem mantido um calendário unificado coerente e firme, que inspirasse a confiança. Isso não ocorreu. Quem ganhou com isso foi o governo e a classe dominante.

    O limites da reorganização, o desemprego e o medo da repressão
    O papel negativo das direções foi importante e decisivo, mas não foi o único fator que contou para desmobilizar. É preciso tentar entender melhor o que se passa nos locais de trabalho, até para explicar porque foi tão fácil desmontar a greve.

    A classe trabalhadora mede a correlação de forças o tempo todo, é assim em cada categoria, em cada campanha salarial, e também numa greve nacional. A vida está mais difícil com a crise, são milhões de desempregados, o medo pesa. Também pesa o assédio e a repressão no local de trabalho, que aumentaram muitíssimo de Norte a Sul do país entre os trabalhadores do setor público e privado.

    No metrô de São Paulo, por exemplo, entre o dia 28 de abril e o dia 30 de junho, houve a negociação de campanha salarial. O mundo sindical mudou, depois de anos negociando pequenos aumentos, ganhos parciais, a proposta da patronal agora era negociar os cortes e as perdas. O governo de São Paulo chegou a propor um corte radical no plano de saúde. O acordo foi fechado no marco defensivo e não da conquista.

    Ainda não surgiu uma vanguarda nos locais de trabalho com força para passar por cima dos aparelhos burocráticos. A velha burocracia não se sente ameaçada de perder o controle do processo, até aqui. Poucos sindicatos mudaram a sua direção ao longo das últimas décadas. O peso do conservadorismo e da burocracia pesam.

    Em realidade, não estamos passando por um momento semelhante à década de 70 e 80 no movimento sindical brasileiro. Exemplos como os dos petroleiros do Rio de Janeiro, em que a oposição venceu as eleições, segue sendo a exceção. Os limites da reorganização, a repressão da patronal, o assédio no local de trabalho e o medo de perder o emprego são fatores que estão presentes e compõem o atual quadro nacional.

    Além disso, o governo Temer fez uma manobra. Diante da brutal impopularidade da Reforma da Previdência, adiou a votação da PEC 287  e antecipou o projeto de Reforma Trabalhista.

    Apesar de ser bastante impopular, esta reforma não tem a mesma rejeição que a Reforma da Previdência. Além disso, por não envolver mudanças constitucionais, a Reforma Trabalhista não precisa de maioria qualificada, o que facilita uma aprovação mais rápida.

    A ausência de uma alternativa política
    A classe ainda não vê uma nova alternativa política à esquerda perante a crise do país. Lula cresceu nas últimas pesquisas eleitorais, mas seu índice de rejeição é de 46%. Especialmente no Sudeste e no Sul houve uma ruptura expressiva com Lula. O quadro é distinto em várias outras regiões, sobretudo no Nordeste.

    Lula e o PT seguem como a direção política da maioria da classe trabalhadora, mas já não tem a mesma força. Ao mesmo tempo, não há uma alternativa com peso de massas pela esquerda.

    Por outro lado, cresce uma direita radical: Bolsonaro tem 16% nas pesquisas para presidente. São dois os efeitos negativos do fortalecimento da extrema direita, um é o reforço do peso de Lula pelo medo da direita. Por outro lado, a revelação de que saídas reacionárias estão crescendo e que as saídas individualistas e autoritárias são obstáculos para a mobilização independente dos trabalhadores.

    Até agora, a Lava Jato e os escândalos de corrupção não potencializaram mobilizações progressivas
    Os escândalos de corrupção são parte importante da crise política nacional. Muitos setores da esquerda apostaram que este pudesse de alguma forma ser útil na luta contra as reformas, o que seria legítimo, afinal é realmente o Congresso corrupto e vendido que está aprovando os ataques aos trabalhadores.

    Mas, deve nos chamar atenção que até agora a única classe social que se mobilizou contra a corrupção foi a classe média em 2015 e o sentido de sua mobilização foi reacionário. Os escândalos do dia 17 de maio envolvendo diretamente o presidente Temer não foram impulsionadores de uma luta de massas pelo Fora Temer e as Diretas.

    Ocorreram importantíssimos atos de vanguarda, mas esta causa, que é totalmente justa, não ganhou as ruas envolvendo milhões de trabalhadores. Alertamos diversas vezes que a confiança e o apoio da maioria da classe à operação Lava Jato não era um fator progressivo, mas ao contrário, é um fator negativo que atravessa a situação política brasileira.

    Além de negativo, é potencialmente perigoso o peso popular que juízes, procuradores e até mesmo a polícia federal estão ganhando. Não serve para objetivos revolucionários que haja uma crise profunda com o presidente e com o Congresso, se no lugar dessas instituições se fortalece o poder judiciário. Este elemento é mais um obstáculo para a mobilização independente dos trabalhadores.

    Os desafios do futuro
    O grande desafio da esquerda é atuar para que a classe trabalhadora seja a protagonista na conjuntura nacional. Só assim vamos ter condições de resistir e vencer. Enquanto os atores principais da crise política forem o Congresso Nacional e Temer por um lado, e por outro o STF, os procuradores e a polícia federal, não teremos saída para o impasse atual.

    Os dois blocos burgueses em disputa têm total acordo com as reformas e o ajuste fiscal, este ponto os unifica. Por isso, a equipe econômica de Temer é defendida pela grande mídia e os capitalistas. Henrique Meireles tem mostrado sua voz de comando, apoiado pelo mercado financeiro. Se Lula e o PT continuarem apostando nas negociações por cima, será um novo e gigantesco erro. É hora de jogar todas as fichas na classe trabalhadora. Ela não está derrotada, mostrou seu potencial nos últimos meses, está amplamente contra as reformas, mas precisa da mais ampla unidade para dar um passo seguro.

    No próximo dia 10 haverá mobilizações contra a Reforma Trabalhista. Mas, para dar um passo firme, será preciso, em primeiro lugar, retomar a Frente Única de todas as organizações e movimentos. Vamos para as ruas. Será preciso recuperar as lutas para construir novamente a confiança e as condições para uma nova greve geral, que segue sendo uma necessidade urgente.

    Com a classe trabalhadora mobilizada muitos desfechos positivos são possíveis. Entretanto, se a classe não for protagonista da situação política nacional, o cenário será sempre difícil e complexo.

    Imagem: Iberê Camargo, 1914 – 1994, Restinga Seca, Rio Grande do Sul

  • Fortaleza: começou a greve dos trabalhadores da construção civil

    Por: Nericilda Rocha, de Fortaleza, CE

    No quinto mês de campanha salarial, entre mobilizações, paralisações de duas horas, estado de greve e tentativas de rodadas de negociação, os operários da construção civil de Fortaleza decidiram entrar em greve. A decisão foi tomada em assembleia massiva realizada dia 30 de junho, diante da intransigência da patronal em atender as reivindicações da categoria.

    Os trabalhadores, que têm um piso salarial de R$ 937,00, o piso do servente, estão reivindicando um reajuste de 6,5% no marco de uma inflação de 4,63%. No entanto, os patrões sequer apresentaram disposição de cobrir a inflação, demonstrando mais uma vez a intenção de submeter os operários à mais brutal exploração. Além desse item, a categoria reivindica como prioridade o vale combustível, visto que grande parte da categoria utiliza moto. Este é praticamente um utensílio de primeira necessidade, considerando o caos e o preço elevadíssimo do transporte coletivo em Fortaleza. Também reivindicam reajuste no valor da cesta básica.

    O sindicato patronal, Sinduscon, que tem como um de seus representantes o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC), quer impor um acordo rebaixado aos trabalhadores, quando as condições de vida só pioram.

    Mas, esta categoria tem tradição de luta e não está disposta a qualquer concessão em seus direitos. Além da campanha salarial, os trabalhadores estão sintonizados com o calendário nacional de lutas pela derrubada do governo Temer e suas contrarreformas. Participaram ativamente do 8M, 15M, da greve geral de 28 de abril, da Marcha a Brasília e paralisaram cerca de cem canteiros de obra no último 30 de junho.

    Na manhã do primeiro dia de greve, a categoria está realizando vários piquetes e passeata em direção à Praça Portugal (palco de inúmeras greves do setor), onde realizarão assembleia do conjunto dos trabalhadores para avaliar o movimento grevista e definir próximas ações.

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