Política

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  • É preciso escolher um lado!

    O antipetismo é uma corrente de opinião de massas que alcançou base social sólida nas classes médias urbanas e na pequena burguesia, movidas pelo rancor social provocado pela proletarização das suas condições de vida. Apareceu, ainda de forma embrionária, nas “jornadas de junho de 2013” e cresceu em 2015 como a resposta da burguesia brasileira ao problema da corrupção. Ficou maior desde a Lava Jato, o golpe parlamentar de 2016 e a prisão de Lula. A “demonização” do PT, fabricada pela grande mídia (na televisão, no rádio e no jornalismo impresso), atende aos interesses do capital nacional e internacional, que precisa intensificar os ataques aos trabalhadores no contexto de aprofundamento da crise econômica.

    Nesse quadro, surgiu um debate na esquerda socialista sobre a natureza desse sentimento (progressista, conservador ou reacionário), para responder se era estratégico apoiá-lo ou combatê-lo, definindo as táticas adequadas para avançar na construção de uma alternativa anticapitalista no país, ganhando a consciência da classe. Na verdade, sabemos que um setor da extrema-esquerda defendeu, equivocadamente, estimular esse sentimento, tanto do ponto de vista político quanto eleitoral. Algumas organizações chegam até a caracterizar como progressista a “Operação Lava Jato” (espécie de “tenentismo” do século XXI), assumindo uma posição neutra em relação à derrubada do governo Dilma durante todo o processo de impeachment.

    A luta política revolucionário implica dizer a verdade para as massas, mesmo quando essas ideias são minoritárias. Por exemplo, foi certo denunciar o caráter reacionário da Lava Jato apesar dessa operação já ter tido 90% de apoio da população ou denunciar a prisão de Lula e seu impedimento de ser candidato como segundo momento do golpe? Foi correto ir a São Bernardo do Campo no dia da prisão de Lula? Muitas vezes, navegamos contra a maré para defender o que é correto perante a classe trabalhadora. O caminho para dialogar com as bases influenciadas pelo antipetismo não é capitular à ofensiva da burguesia, dando um verniz de esquerda ao processo. Não era possível disputar o antipetismo pela esquerda tanto eleitoral como politicamente.

    A questão se agrava quando pensamos na vanguarda concreta das lutas que existem no Brasil, pelo menos desde a luta contra o golpe parlamentar, em 2016: as universidades que fizeram as primeiras ocupações contra Temer, em novembro de 2016; os trabalhadores e estudantes que derrotaram Temer e sua reforma da previdência na grande greve geral de 2017; os estudantes, trabalhadores, setores oprimidos que estão na rua contra Bolsonaro, dispostos a organizar a frente única antifascista para resistir. Fazemos nossa política para as massas, mas levamos sempre em consideração a vanguarda e a disputa pela hegemonia do movimento dos trabalhadores.

    A política de capitular aos setores atrasados das massas para dialogar com o antipetismo (uma máscara de anti-comunismo, anti-esquerda e anti-oprimidos) já seria uma grave capitulação oportunista e eleitoralista. Agora, pensando no melhor da vanguarda e na sua disputa, essa linha é um crime político que pisaria na cabeça do melhor da vanguarda e fortaleceria o PT na disputa desse ativismo, ou seja, um completo desastre político.

    Por dentro da frente única antifascista é que construiremos a nova esquerda para superar o PT como direção dos movimentos sociais no Brasil. Não será por dentro do antipetismo. É preciso saber escolher o lado para travar a luta política. Quem não souber fazê-lo, estará para sempre condenado ao fracasso e à traição. A política conta, é preciso saber escolher o lado.

  • A vitória política da candidatura Guilherme Boulos e Sonia Guajajara

    Os 617.122 votos (0,58% dos votos válidos) que a chapa Boulos e Sonia teve, representando a aliança PSOL-MTST-PCB-APIB e Mídia Ninja, não corresponde ao imenso prestígio que a aliança ganhou entre os trabalhadores, a juventude e os movimentos de luta contra a opressão. O circuito que Guilherme Boulos está fazendo nas principais universidades públicas do país tem reunido alguns milhares de estudantes que sabem que Boulos e a aliança são uma referência para a luta direta contra o fascismo personificado na figura de Bolsonaro.

    O peso de massas da extrema-direita neofascista (Jair Bolsonaro) subverteu essas eleições, precipitando um fenômeno do voto útil na candidatura de Haddad (PT) e na de Ciro Gomes (PDT), o que diminuiu consideravelmente o espaço eleitoral para a candidatura do PSOL. Agora, algumas correntes do PSOL (as mesmas que defenderam na conferência eleitoral uma candidatura doutrinária e antipetista) buscam, focando a luta interna, diminuir a importância da chapa Boulos e Sonia.

    A verdade é que a chapa Boulos e Sonia teve uma audiência política muito superior ao espaço eleitoral que existia. Boulos sai como uma das principais figuras da esquerda brasileira e o polo que construímos, com certeza, vai disputar a direção da frente antifascista que está sendo forjada nestes meses.

    Além disso, o PSOL teve uma vitória política e eleitoral ultrapassando a cláusula de barreira, com 2,8% dos votos (PCdoB, por exemplo, não conseguiu esse feito), e elegendo uma bancada parlamentar que vai ser muito importante nas lutas do próximo período.

    A aliança entre o PSOL, MTST, APIB, PCB e Mídia Ninja se comprovou historicamente necessária porque não cedeu às tentações esquerdistas, ou seja, soube se diferenciar do PT sem ser antipetista e, principalmente, colocou no centro da sua tática a luta política contra Bolsonaro.

    #BolsonaroNão#Haddad13 Foto: Midia Ninja

     

    2 mil estudantes no debate na UNB

    1 mil estudantes na USP

    2 mil estudantes na UFMG

  • Qual é a melhor tática para derrotar Bolsonaro?

    O debate da correlação de forças entre as classes é muito importante para entendermos uma série de questões, identificando qual classe social está na ofensiva e qual está na defensiva, qual o papel da burguesia e o da classe trabalhadora, qual é a localização da pequena-burguesia e dos setores médios em relação às duas classes fundamentais. Compreender com clareza esses elementos é condição para definir as tarefas que nos cabem na luta. É perceptível que existe uma ofensiva reacionária em curso, com o giro à direita dos setores médios urbanos e da pequena-burguesia, o fortalecimento da pauta conservadora e, por fim, a possibilidade do governo do neofascista Jair Bolsonaro.

    Além dessa análise da dinâmica de classes, é necessário compreender, em outro nível de investigação, como se dá a luta política entre as organizações e partidos, que têm, sobre a correlação de forças, uma autonomia relativa. Uma prova disso é que, apesar da ofensiva da burguesia e dos setores médios urbanos, do ponto de vista da representação política, a burguesia vive uma crise, tendo seus partidos tradicionais (PSDB e MDB) sofrido sério abalo. Nessa perspectiva, a saída para essa crise de representação está se dando pelas mãos de um candidato com perfil neofascista que como mínimo surge como um “bonaparte”, que se ergue sobre as classes sociais em luta com a solução de força e ordem: esse não era o projeto político original da classe em ofensiva, que é a burguesia.

    Digo isso porque observei alguns importantes intelectuais e ativistas defendendo a proposta da renúncia do Haddad para que Ciro assumisse a candidatura, e que essa seria uma tática genial para derrubar a ofensiva bolsonarista. Argumento parecido foi defendido pela candidatura de Ciro Gomes no primeiro turno. Acho que essa análise está equivocada e não se sustenta perante a realidade.

    Em primeiro lugar, porque despreza o elemento mais profundo da ofensiva reacionária, que é a correlação de forças desfavorável entre as classes sociais: ou seja, Ciro também seria vinculado ao petismo e à pauta de esquerda. A ascensão de Bolsonaro e a onda conservadora é mais profunda que uma solução tática genial para virar o jogo. Ela está baseada no sentimento de ressentimento social de uma parcela enorme das classes médias urbanas e da pequena burguesia que já tinham sido a base de massas do golpe parlamentar de 2015-2016, conjuntamente com o papel reacionário da Lava Jato, a prisão de Lula e da campanha de desmoralização do PT durante os últimos 3 anos arquitetada pela grande burguesia brasileira e meios de comunicação. Alckmin, FHC, Temer marcharam na Paulista ao lado dos “monstros” que já em 2015 defendiam a intervenção militar, o resultado é que o antipetismo fomentado foi capitalizado pela extrema-direita. Bolsonaro cravou 46% dos votos válidos ou 49 milhões de votos no primeiro turno.  Em segundo, porque despreza que o terreno onde podemos virar o jogo é o da luta de classes, da mobilização, do choque social, apostar nas reservas acumuladas do movimento de mulheres, da juventude, dos lgbts, negros e negras e na classe trabalhadora: portanto devemos, mais do que nunca, exigir e construir mobilizações de rua pelas liberdades democráticas, por direitos e por #EleNão como fizemos no dia 29 de setembro. Nesse sentido, o partido que ainda dirige o movimento social organizado no país é o PT, e é dele que devemos exigir mobilizações antifascistas, democráticas em uma grande frente única em defesa da democracia e de direitos. Apostar nas mobilizações marcadas para o dia 20 e 27 de Outubro, nos milhares de grupos de WhatsApp que surgem por todo o Brasil para defender as liberdades democráticas, os direitos sociais e votar no 13. Por isso, enfim, é preciso manter a cabeça no lugar e organizar nas ruas as mobilizações para virar o jogo no segundo turno. Acreditar nas nossas próprias forças e nas reservas acumuladas na Resistência.

     

  • Pela imediata libertação de Lula

    O desembargador plantonista do TRF-4, Rogério Favreto, ordenou pela terceira vez, às 16h12 deste domingo (08), a soltura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Favreto deu o prazo de 01 (uma) hora para a libertação do petista. A decisão do magistrado ocorre após manifestação contrária do desembargador relator, Gebran Neto, e da tentativa de interferência do juiz Sérgio Moro.

    O conflito judicial escancara, mais uma vez, o caráter político da prisão de Lula. Para impedir a soltura do ex-presidente, Sérgio Moro e Gebran Neto subverteram a ordem judicial, passando por cima, ilegalmente, da decisão do desembargador plantonista. Os agentes da Lava Jato demonstram, assim, disposição de rasgar garantias democráticas fundamentais, como o direito ao Habeas Corpus.

    E pior: Sérgio Moro se comporta como um pequeno ditador. De Portugal, onde passa férias, o juiz de primeira instância, fugindo completamente de suas atribuições legais, publicou despacho, contra a soltura de Lula, que configura crime de desobediência. No momento em que escrevemos essas linhas, os agentes da Polícia Federal mantém o petista encarcerado seguindo orientações de Moro e Gebran Neto.

    A decisão de Rogério Favreto deve ser cumprida imediatamente. Lula tem que ser solto e ter respeitados seus direitos democráticos. Não podemos confiar um segundo sequer nesta Justiça golpista. É preciso ir às ruas e promover uma forte campanha política pela libertação do líder do PT e em defesa das liberdades democráticas. Apenas com mobilização popular é possível deter a escalada autoritária.

    Nosso candidato à Presidência é Guilherme Boulos (PSOL) e nosso programa é anticapitalista, e não o da conciliação de classes. Não temos acordo político com Lula e o PT. Mas não compactuamos com uma prisão política. Lula está preso porque é favorito à eleição, especialmente pela força que tem entre os trabalhadores mais pobres. A classe dominante quer impor um governo inteiramente comprometido com a destruição de direitos, entrega de riquezas e aumento da exploração. Para tanto, é preciso destruir garantias democráticas. Não aceitaremos!

    Pelo imediato cumprimento da ordem de soltura de Lula!

    Nenhuma confiança na Justiça golpista!

    Às ruas em defesa das liberdades democráticas!

  • A esquerda precisa agir, o tempo é escasso

    Aparentemente, ganhou mais força a defesa da intervenção militar no movimento caminhoneiro, apesar das ações das Forças Armadas e da polícia contra a greve, assim como alguns atos, sobretudo em cidades do interior, com o mesmo teor reacionário. Parece que a extrema direita, que já tinha um peso relevante, avançou mais.

    O descontentamento social é generalizado e o país mergulha numa crise política e social aguda. O governo, muito enfraquecido, oscila entre a repressão e o recuo, enquanto alguns governadores atacam duramente Temer e a política de preços da Petrobras. Tropas das Forças Armadas já estão posicionadas em refinarias, portos e em outras posições estratégicas, a mando de Temer. A greve de caminhoneiros perdeu um pouco de intensidade, mas ainda é muito forte. O desabastecimento segue e se agrava. Na noite de hoje (domingo, dia 27), ante a persistência da paralisação, Temer deve anunciar novas concessões ao movimento. Contudo, não é certo que a greve venha a recuar na segunda, 28.

    Nesse momento crítico, é preciso agir com ousadia; caso contrário, o programa de força da extrema direita vai ganhar ainda mais espaço e musculatura. A inação do PT e da CUT, as forças majoritárias na esquerda e no movimento sindical, diante dessa conjuntura, é incompreensível, para não usar palavras mais fortes.

    É hora de convocar os trabalhadores à luta, dialogando com as demandas mais sentidas pelo povo (salário, emprego, direitos, redução do preço dos combustíveis e do gás de cozinha etc.). Jair Bolsonaro tem força, mas não é maioria na sociedade e na classe trabalhadora. Temer é odiado e os tucanos perderam espaço. A esquerda pode e deve jogar um papel ativo nesta crise.

    A efetivação da greve de petroleiros pode ser crucial, assim como o chamado a um dia nacional de paralisação e lutas no Brasil. Se a esquerda e os movimentos sociais, a começar pelo PT, CUT e MST, junto com PSOL, MTST, CSP-Conlutas e outros movimentos, chamarem a luta unificada – levantando uma pauta popular, operária e democrática – temos uma chance de entrar na conjuntura para oferecer uma alternativa progressiva à crise instalada. Não temos muitos dias para isso, o tempo é escasso.

    Foto/crédito: Sindicato dos Petroleiros do Litoral de Paulista

  • IT IS TIME FOR RESISTANCE!

    It is needed to transform life to sing it then
    Foundational Manifesto of Resistência, internal tendency of PSOL (Brazil)

    “Rise, like lions after slumber
in unvanquishable number!
Share your chains to earth like dew
Which in sleep had fallen on you:
You are many – they are few!”

    Percy Shelley (1819)

    We live in times of walls and fears 

    The Mozambican writer Mia Couto reminded us, years ago, that we live in dark times, surrounded by fear and the walls that split national borders and divide social classes. In his words, “under the same grey clouds we all live, from the South and the North, from the West and from the East.” Quoting Eduardo Galeano, he states: “Those who work are afraid of losing their jobs. Those who do not work are afraid of ever finding one. When they are not afraid of hunger, they are afraid of food. Civilians are afraid of the military, the military fear the lack of weapons, the weapons are afraid of the lack of wars”. And he adds:” there are those who fear the end of fear.”

    In its continuous effort to overcome its unbearable contradictions, capitalism strikes in the bloody paths of wars and social devastation. Dropped bombs and civil wars sponsored by the capitalist powers in the South of the Globe killed hundreds of thousands, not only directly by the weapons but also by the violence of hunger, drowned under the seas or killed at borders in desperate attempts to migrate. The violence of capitalism in the rich countries welcomes refugees and migrants with xenophobia and racism. But it also does not spare the nationally born people, as austerity policies remove rights and push into poverty ever growing layers of the working-class, even at the “most developed” nations. But if the situation is disastrous for 99% of the population, for the embodiment of capitalism – the bourgeoisie – it is very profitable: 82% of the world’s wealth produced in 2016-2017 was seized by the richest 1% of the population. “capital is dead labour, which, vampire-like, lives only by sucking living labour, and lives the more, the more labour it sucks,” as Marx explained a century ago.

    Thus, where conventional warfare is not necessary, social war continues draining the blood of the working class. In Brazil’s recent years, unified around the agenda to quickly carry out the deepest attacks over the working class, the bourgeoisie mobilized middle-class sectors under the motto of “fighting against corruption” to support a parliamentary coup, leading to the government Temer and his allies, committed to apply the most devastating austerity agenda. Two years after coming to power, Brazil has over 13 million unemployed, with a quarter of the population living below the poverty line and the average salary of the employed falling significantly – more than half of them earning less than the minimum wage per month.

    Within the framework of that general setback, Temer government has unparalleled low approval ratings, but it sustains itself by attacking the most elementary democratic freedoms and deepening the violence usually assumed by class domination in Brazil. Decades of “war on drugs” have resulted in a historically continued growth of violence, and not on its end. And that especially happens against the most precarious and pauperized fractions of the working class (mostly black) which lives in the favelas and outskirts of the big Brazilian cities. These are the ones who make up most of the tens of thousands murdered every year (many of them by the police) and many of the 700,000+ members of a prison population growing every year. Those daring to raise their voice against this jailing and killing machine created and fed by the state, are also targeted by it. The political assassination of the city councilwoman Marielle Franco was the most shocking example of the rising level of the old practice of murdering indigenous, landless, homeless, urban and rural leaders and activists from the most different social movements.

    In the name of a supposed fight against corruption and urban violence, we are witnessing the most absurd legal manoeuvres that revoke elementary civil rights. We have also observed, since the last decade, the increasing use of the armed forces for public security tasks, culminating in the recent enactment of a federal military intervention in Rio de Janeiro, in a repressive escalation that enhances the shielding of the Brazilian democratic regime against any manifestation of unrest of the exploited and oppressed, once again revealing the autocratic face of bourgeois domination in the country.
    Corruption and violence have been invoked by the far-right, especially one with a clear fascist inspiration, with growing ability to mobilize, becoming more audacious on its violent actions – against the oppressed sectors and the representations of the left and social movements – as well as more ambitious in their political-electoral claims. They are fed by fear.
    We, however, are not afraid of the end of fear.

    We are many, they are few

    We are part of the 99%. We are many, they are few. That is why they use all sorts of coercive measures and every arsenal of persuasion, more and more seeding the fear to harvest submission.

    If we want to defeat them – and we really do! – we need to organize the many, with the working class at the forefront, mobilized around a radical agenda of social transformations, a genuine anti-capitalist program to combat all forms of exploitation and oppression, misogyny, racism, LGBTphobia, xenophobia. A program with no fear to resist in the present pointing to the alternative for the future: Socialism.

    Much of the responsibility for the current situation must be attributed to the working-class parties, movements and leaders who, since the 1990s at least, but more markedly after the arrival of the Workers Party (PT) to the federal government, have renounced to the socialist agenda and any policies representing class autonomy. In the name of class conciliation, they disarmed the contestation of the status-quo. Not surprisingly, even when her deposition by the National Congress was already being announced, Dilma Rousseff insisted on the path of an austerity agenda, trying to convince the bourgeoise of her usefulness, instead of trying to mobilize the many for her defence.

    Even moved away from the government, PT leaders and their representatives in social movements did not break with the class conciliation logic. When the general strike of 28th April 2017 showed that the general outrage with the situation could generate mass mobilizations able to defeat the government, the conciliatory leaders retreated, boycotting the subsequent movements, in the hope of being accepted again in the feast of bourgeois power, fuelling the illusion that everything would be as it was, with Lula in the office again in 2018. They did not understand that when they were “there”, they were servants, not guests.

    The result of that immense conformation to the status-quo is there: Lula, leader in the electoral polls is locked in a solitary cell, because of a fragile judicial process, with very weak evidence, as it was Dilma’s impeachment process. Lula has our solidarity, in the same way we have opposed to the coup, because we know that every attack on democratic rights, every step of institutional regression, affects not only the PT, but also aims to silence any alternative in the left and stifle the anti-systemic potential of the struggles of the working class. That is why we also work to effectively build united fronts of struggles against the withdrawal of rights, attacks on democratic gains, and fascist-like threats on the horizon.

    However, this willingness for unity to fight for the objectives of resistance, crucial on this juncture of setbacks, will not lead us to accept the desperate embrace of those who insist on class conciliation. The Brazilian working class needs a new Left, not afraid of exposing its socialist convictions and its radical agenda of breaking with the bourgeois order.

    Reverse the sign of dispersion

    The reorganization process of the left outside the PT started earlier but took shape after Lula’s first term in the federal government. The PSOL was its most significant expression in the party system. Building PSOL was a significant achievement because it represented a movement that broke both the barriers of the electoral legislation to grassroots political organizations and the intention of the PT and its allies to monopolize the working-class representation. For that reason, we will continue to build the PSOL, understanding its role as an electoral tool indispensable for the current process of socialist left reorganization in Brazil.

    Building the PSOL, by recognizing its importance, does not mean to say that it is enough for us. In the electoral front, we will focus on building broader fronts of socialist parties and militant working-class movements, such as that currently held by PSOL, PCB, MTST, APIB and other social movements around the presidential candidacy of Guilherme Boulos and Sonia Guajajara. A slate that we have supported to launch and for which we will campaign enthusiastically.

    We reckon that the PSOL is not enough for the working-class, also because its horizon is still strictly electoral, and its program continues linked to the democratic-popular strategy, designed by the PT in the 1980s and still not surpassed by the Brazilian left. We aim to deepen the process of the socialist left reorganization, because we reckon that it is necessary to sustain a programmatic debate, able to raise our level of understanding of the Brazilian and international reality and to present alternatives to this difficult situation. Being able to mobilize the working-class not only in the ballot box, but especially in the struggles and in the streets.

    As we have already been stating since our firsts publications – both from the NOS (New Socialist Organization / Nova Organizacao Socialista) and the MAIS (Movimento por uma Alternativa Independente Socialista / Movement for an Independent Socialist Alternative) – we do not claim to be the only or the first ones to raise those issues. But we highlight our satisfaction at reversing the direction taken by most of the radical left’s recent experiences. We are the result of a merger, not a fragmentation process.

    Since 2016, we understood that “the situation requires us to join forces, avoiding self-proclaimed paths, sectarianisms and dogmatisms.” After all, our challenge remains “to overcome the current fragmentation framework, to present the example of a unification with organicity, allowing us to contribute with the overcome of the current limits of the Left”. We absolutely do not intend to start from scratch. “We are a small branch in the big tree of the global revolutionary Marxism”, and so we have a valuable history of working-class struggles and organizational experiences to inspire and guide us. We also do not think that the organization we are now establishing is enough on itself, or that it means the overcoming of the fragmentation of the revolutionary socialists. Actually, it is the opposite; with patience and seriousness, we will continue researching for new syntheses and dialogues. We want the step we take now to be the first of many others in the same direction.

    Considering that references are not dogmas and that we need to act on our current situation, we remain faithful to the goal of “wrest the joy from coming days”. After all, as we learned from a socialist and feminist activist, daughter of political exiles, born in London in the second half of the nineteenth century, who was active in organizing the most precarious sectors of the working class at that time:

    “many people do not understand how much the notion of happiness is important to socialists, as it is at the very heart of Marx’s thinking. It is, after all, the great objective of our struggle, happiness – not as the simple pursuit of individual pleasure – but as the self-realization of the human being. (…) Many people … do not realize that being happy is something to be sought in the present; which should not be a utopia, but something necessary, now, something to be experienced from now on, something that makes us better as people and therefore more capable of facing the long struggle. I do not think I exaggerate when I think that the beauty of life, the joy of living is what should guide us and that is what can give us strength. That revolution means not only the search for life and freedom, but the search for happiness.”
    
Eleanor Marx (1897)
    Merging Conference
São Paulo (SP), 30th of April 2018.

  • De quem é a culpa pela tragédia sem-teto no primeiro de maio, em São Paulo?

    Por: Igor Baima, de São Paulo, SP

    O primeiro de maio é conhecido por ser um dia de luta, de manifestações, de atos e protestos. Para muitos também é um dia de descanso, de ficar com os filhos e as famílias. Mas hoje, para cerca de 280 pessoas, foi o dia de perder tudo. Foi a tristeza, a tragédia.

    Há, na capital paulista, cerca de 70 prédios ocupados por moradores que simplesmente não têm para onde ir, resultado de uma política e de um sistema onde tudo vira mercadoria.

    O prédio de 26 andares, de propriedade da União, situado no Largo do Paissandu, estava cedido à Prefeitura paulista, com a justificativa de que seria transformado para abrigar o funcionamento de órgãos da Prefeitura. Na verdade, um verdadeiro jogo de empurra entre municipío e União para eximir-se da responsabilidade pela tragédia.

    A visita do presidente Michel Temer ao local do desabamento é emblemática. Em menos de três minutos, foi expulso do local pela população aos gritos de golpista. Michel Temer, como os governos estadual e municipal, é totalmente responsável pelo acontecimento.

    A política social dos governos está por trás da crise social de moradia do país. Essa política tem provocado a expulsão das pessoas do Centro, o aumento do custo de vida, gerando um maior número de pessoas sem teto e morando de favor. Esse cenário leva muitas pessoas, inclusive, a utilizarem lenha para cozinhar em função do alto custo do gas doméstico.

    Toda essa crise social cobra seu preço: a vida de milhares de pessoas em péssimas condições de vida.

    Quem passou no local pode conferir que essas pessoas perderam tudo. A revolta, a dor, a tristeza diante de não saberem exatamente o que fazer e onde ir são expressões expostas no rosto de todos. Trabalhadores nordestinos, imigrantes da Bolívia, Angola e Venezuela, homens, mulheres e crianças sem ter onde morar, em subempregos, barracos formados de madeira, lonas e vidros. Esses moradores, a maioria de negros, são as principais vítimas.

    As informações das péssimas condições de conservação do edifício eram de conhecimento geral, porém nada foi feito.

    Esperou-se o pior acontecer. A ida do presidente ao local do evento materializou um verdadeiro escárnio mórbido de quem não tem nenhum interesse em resolver a questão.

    O país perdeu uma grande oportunidade nos últimos anos de realizar uma verdadeira reforma habitacional e urbana, que garantisse moradia para todos que dela nescessitasse.

    Essa crise social não se resume as medidas do atual governo (congelamento dos gastos, reforma trabalhista e terceirização), mas também é resultado de políticas dos governos petistas que privilegiaram medidas insuficientes como o Minha casa, Minha vida que não resolveram a fundo o problema.

    Foto: Pedro Alexandre | Esquerda Online

  • Polêmica com artigo de Plínio de Arruda Sampaio Jr

    Por Bernardo Lima, de Belo Horizonte, MG

    É preciso ter respeito nas polêmicas e disputas. Principalmente quando, por divergências políticas, debatemos com um intelectual como Plínio de Arruda Sampaio Jr (o Plininho), que sempre esteve na luta dos trabalhadores e tem uma envergadura moral e intelectual gigantesca. Com todo o respeito e dentro da minha modesta capacidade, minha intenção aqui é polemizar com um artigo escrito pelo companheiro no sítio do PSTU. A análise de conjuntura que ele faz é em quase todos os aspectos diferentes da nossa, e isso explica as grandes diferenças políticas que têm surgido entre nós nos últimos meses.

    Uma leitura atenta do artigo me fez elencar esses pontos centrais de divergências:

    1) Plínio acredita que a entrada em cena da crise econômica precipita à direita a classe dominante e à esquerda as massas populares. Aos burgueses já não interessaria mais a manutenção do regime democrático atual e a classe trabahadora (orientada para outro extremo) estaria rejeitando de conjunto a democracia burguesia apelando a formas mais radicais de participação popular.

    2) Acompanhando mecanicamente o pensamento acima, Plínio também conclui que o PT e Lula estão extintos politicamente. O parágrafo categórico sobre isso é o que versa sobre o futuro do petismo: “a crise do lulismo, com ou sem Lula, é estrutural. Ela é determinada, de baixo para cima, pelo descolamento da classe trabalhadora da ilusão de que soluções parlamentares, patrocinadas pela esquerda de uma ordem capitalista particularmente antissocial, antinacional e antidemocrática, possam resolver os problemas fundamentais do povo. Sem capacidade de mobilização social, o lulismo não sobrevive como projeto político.”

    3) Em consequência da sua análise extremamente otimista, Plínio enxerga que o Brasil está dividido em três grandes “partidos”: o partido de Jucá (que seria os dos partidos políticos da ordem e da conciliação, incluído provavelmente o PT); o partido do “Fora todos reacionário” representado por Bolsonaro e os generais falastrões que propõem saídas autoritárias; e o “partido das ruas”, que seriam os movimentos sociais e a grande maioria das massas radicalizadas, que deveria defender abertamente o “Fora Todos de baixo para cima” – única saída para a crise política nacional.

    Portanto, na visão do autor, a política capaz de unificar “os de baixo” seria radicalizar a consigna de poder, propugnando imediatamente a derrubada de todo o regime e todos os partidos políticos da ordem, colocando Lula e o PT no mesmo saco que Aécio e Temer; o “Fora Todos”.

    4) No último parágrafo, uma proposição estranha fecha o artigo, ele se coloca contrário à decisão do PSOL (segundo ele) de colocar a “liberdade de Lula” e a “batalha eleitoral” no centro da conjuntura e diz que a esquerda deve levantar a bandeira dos “Direitos já” e “Pelo fim dos privilégios” (não é isso o que fazemos há tantos anos???) e colocando a “Revolução Democrática”  no centro da agitação.

    Como “Revolução Democrática” é uma expressão abstrata (não sei realmente o que seria essa revolução no Brasil do Século XXI) e as duas outras bandeiras já são utilizadas diariamente pelo PSOL, resta como diferença política real a palavra de ordem do “Fora Todos” e a questão da prisão do Lula.

    Como Plínio é um militante muito inteligente e capaz não resta dúvida de que seu artigo possui forte coerência interna. Em uma conjuntura onde toda a superestrutura da democracia burguesa está sendo descartada pelas massas, inclusive os líderes e partidos reformistas, e em que a dificuldade de mobilização reside no fato de que a classe trabalhadora não acredita em conquistar reformas através da conciliação; seria um ato de traição não propor imediatamente a derrubada de toda a ordem burguesa; insistir em consignas defensivas; propor frentes para a ação com partidos reformistas já abandonados pelas massas, etc.

    Porém, é esta mesmo a correlação de forças entre as classes? Acredito que os militantes umbilicalmente ligados à classe trabalhadora tenham dificuldades em concordar. Bastam alguns minutos nos grupos de Whatsapp das famílias e locais de trabalho, uma boa conversa em um churrasco da fábrica ou um bate papo no ponto de ônibus ou no local de trabalho para se chegar a conclusões opostas.

    Parte significativa das massas defende com unhas e dentes o legado do governo Lula. Outra parte, influenciada pela Globo e pela direita, quer vê-lo preso e confia cegamente no judiciário como agente de “limpeza” da política nacional. Uns e outros “são contra tudo o que está aí”, e tem esperanças que surja um “outsider” de mãos limpas. Além disso, multiplicam-se os “bolsominions” dentro de nossa própria classe. Os trabalhadores que fazem barulho dizendo que vão “anular o voto” são em geral os mais atrasados politicamente, menos ativos nas greves, etc. A “confiança nas próprias forças” da classe trabalhadora está profundamente abalada. E os partidos e grupos que são associados a ideia de “Fora Todos” (como o PSTU) não recebem quase nenhum apoio político (filiação, votos, participação em debates e encontros, manifestações favoráveis nas redes sociais, etc) mesmo onde possuem trabalho de base sindical.

    A diferença gritante na análise de conjuntura nos coloca tarefas muito diferentes. O MAIS se preocupa com deter a escalada golpista e os ataques da classe dominante, organizar a defensiva e reorganizar a esquerda socialista que rejeita a conciliação de classes (será um grande passo se esse campo adquirir influência de massas, ainda que minoritária, ampliar sua capacidade de mobilização e ganhar um peso superior na vanguarda dos movimentos sociais).

  • Lula foi o maior líder operário da história do Brasil

    Por Demian Melo, Professor da UFF

    Essa afirmação causa arrepios em certas parcelas da esquerda socialista que, como eu, nunca apoiaram o projeto Lulista e sempre lhe fizeram oposição. Não vejo nada realista em, a essa altura do campeonato, dar um cavalo de pau e apagar todas as críticas que fizemos ao projeto Lulista. Todavia, além de militante socialista eu sou historiador e tenho compromisso com a verdade. E mesmo quem não tem esse “desvio funcional” de compromisso com a Clio(1) deveria ter compromisso com a verdade. E não houve líder operário mais influente na política brasileira na história do país que o Lula. E talvez também não tenha havido líder político mais influente nas últimas décadas que ele (mesmo quando sucessivamente perdeu eleições).

    Mas o compromisso com a verdade é também reconhecer que, quando finalmente chegou no Palácio do Planalto, Lula não era mais um líder operário. Já havia se transformado num líder de massas de um partido reformista que já havia abandonado o projeto socialista há uma década. A imagem do Lula finalmente presidente não era o do líder das greves no ABC no final da década de 1970, mas do “self made man”, daquele que tinha “subido na vida”. 

    Mas da fase de líder operário Lula conservou a prática conciliatória. O Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES) criado pelo primeiro governo Lula é um dos exemplos da política conciliatória. E como se sabe, Lula teve também a sorte de governar o país num período de crescimento da economia global, puxado pelo crescimento chinês e que favoreceu grandes grupos econômicos brasileiros. Isso, naturalmente, favoreceu o sucesso conjuntural da concertação social.

    Conciliador, não fez nenhum enfrentamento ao grande capital, nem mesmo ao nível retórico. No fim das coisas, o Lulismo foi sempre um projeto politicamente de capitulação, uma capitulação que, de certo modo, teve um fio de continuidade da trajetória do PT do radicalismo originário à moderação mais irritante já observada na década de 1990. E o PT foi entregando tudo. Abriu mão do programa originário, abriu mão dos enfrentamentos necessários até para um projeto reformista. E quando já havia sido golpeado, e mesmo golpeado continuou a assumir a defesa do regime político realmente existente (acreditando no Congresso e no Judiciário), quando não tinha mais nada para entregar o Lulismo entregou o Lula. Foi isso que ocorreu nesse dia 7 de abril de 2018, há 40 anos da heroica greve geral no ABC paulista, onde tudo começou. 

    Mas eu discordo de quem viu hoje na estratégia do Lula de se entregar depois de uma missa simplesmente uma capitulação. Há muito simbolismo, que mexe com a cultura popular católica brasileira, que ultrapassa em muito o terreno da esquerda (que foi a única que lhe apoiou até o final, enquanto as classes dominantes que se serviram muito bem do banquete enquanto o projeto Lulista tinha hegemonia, não teve pudores em abandonar a mesa). Não foi simplesmente capitulação, teve emoção, teve choro, teve repercussão internacional, mas foi capitulação. Não foi só, mas foi.

    A grande questão política agora é responder se a “Jararaca ainda está viva” e se Lula continuará a ser o grande eleitor em 2018. Ou será que o Lulismo como fenômeno de massas teve hoje seu ponto final?

    Duvido muito que tenha acabado.

    (1) Na mitologia grega é a deusa da história e da poesia heróica

  • Os sentidos de uma prisão: Lula, democracia e as pessoas na sala de jantar

    Por: Felipe Demier

     “Mas aquele que blasfemar contra o Espírito Santo não terá, para sempre, perdão, visto que é réu de pecado eterno.” (Marcos 3:29)

    Egresso das fileiras e lutas operárias, Lula, quando presidente, em nenhum momento, propôs reformas radicais na profundamente desigual formação social brasileira. Ao seguir pagando religiosamente a dívida externa, reproduzindo a concentração de renda, freando a reforma agrária, militarizando a vida social e esfacelando os serviços públicos (para garantir a taxa de lucro das grandes corporações financeiras, industriais e do agronegócio), seus governos, assim como o primeiro de sua sucessora, Dilma Rousseff, fizeram o que era para ser feito, do ponto de vista dos de cima.

    Concomitantemente, Lula, no poder, reduziu significativamente o desemprego, aumentou o salário e o crédito para o mercado consumidor, ampliou expressivamente as políticas sociais focalizadas/compensatórias, abriu concursos públicos e avançou nas políticas de ação afirmativa. Por meio desta concertação social, dessa engenharia político-social, Lula ergueu uma máquina partidária que se mostrou capaz de gerir o capitalismo brasileiro melhor, e mais seguramente, do que as próprias representações políticas tradicionais da burguesia brasileira, e que, por isso, se tornou quase invencível no jogo eleitoral de nossa democracia liberal blindada. Não havia, àquela altura, naquela conjuntura, melhor forma de gestão da ordem capitalista num país atrasado, periférico e socialmente fraturado como o Brasil.

    Ocorre que, a partir da segunda metade do primeiro mandato de Dilma Rousseff, os índices econômicos começaram a cair abruptamente. Confiante, a oposição de direita pôde reconquistar o amor de parcela significativa da “massa extraparlamentar da burguesia” brasileira, a qual, seduzida por orgias financeiras, havia resignadamente aceitado o PT à frente do seu Estado. Novamente enamorada com a direita neoliberal e flertando inclusive com tendências políticas autocráticas, grande parte da burguesia brasileira pôde, rapidamente, abdicar do sexo sem amor que fazia com o petismo durante aproximadamente dez anos (ainda que os chefes petistas sempre alimentassem o desejo de contrair matrimônio estável), e destilar contra o partido de Lula todo o seu ódio contido, um ódio, na verdade, muito mais explicado em função do que o PT já foi um dia do que propriamente pelo que ele se tornou no poder.

    A derrubada do governo Dilma Rousseff significou, sem dúvida, o êxito da trama golpista arquitetada pelos setores mais reacionários da sociedade brasileira, dirigida pela então oposição de direita e seus aliados midiáticos e forenses. Na construção de uma hegemonia pró-impeachment, as editorias jornalísticas perderam todos os pudores, se é que um dia os tiveram. Azeitado pelo secular ódio de classe, em especial por aquele nutrido pelos setores médios demofóbicos, o golpe de governo teve como objetivo precípuo trocar os atuais mandatários por outros mais reacionários, os quais, não constrangidos por qualquer passado combativo e sindical, podem, agora, realizar o ajuste fiscal, aplicar as contrarreformas e calar o movimento social, tudo isso no grau, no ritmo e na intensidade exigidos pelo capitalismo brasileiro em crise. Assim, diferentemente das burguesias europeias, a classe dominante brasileira mostrou que, em momentos de crise econômica, não pode suportar no poder sequer a “ala esquerda” do partido da ordem, isto é, não pode suportar no poder os moderados do seu próprio partido.

    A ofensiva dos golpistas, isto é, a retirada lancinante de direitos e elevação da austeridade fiscal ao seu grau máximo, tem que continuar. Não pode parar. No entanto, em sua sequiosa marcha contrarreformista, a burguesia brasileira, por questões que não derivam de muito mais do que as páginas de um calendário, se depara, este ano, com um singelo obstáculo constitutivo de sua própria forma de dominação política: as eleições. Como é sabido, mesmo para os democratas liberais minimalistas, a existência de eleições periódicas que possibilitem a escolha dos governantes é um critério inexpugnável de qualquer democracia liberal, incluindo suas versões mais limitadas e esquálidas. Tamanho o habitual controle do poder econômico e midiático sobre os processos eleitorais e tamanha a blindagem antipopular da atual democracia brasileira, o sufrágio universal, longe de ser um problema, sempre foi, nas últimas décadas, a forma de garantir legitimidade política para a dominação de classe no país. Agora, excepcionalmente, as coisas parecem ter mudado, o que parece exigir soluções excepcionais do ponto de vista do capital.

    O programa do golpe precisa seguir sendo aplicado, porém, por meio de um governo respaldado pelas urnas. Aqui está o busílis, o x da questão. A burguesia não só considera Lula incapaz de aplicar tal programa nos moldes exigidos por ela, como não encontra nenhum candidato confiável capaz de seguramente derrotar o petista nas urnas. O básico critério de “uma cabeça, um voto” (seja aquela de um paulista dos Jardins ou de um nordestino do semiárido), aceito pelos nossos homens de cima há quarenta anos, lhes aparece hoje em suas cabeças como um horripilante fantasma. Assim, numa contradição histórica bem peculiar, a simples continuidade do regime democrático-liberal, isto é, as ordinárias eleições, aparece como um problema para a própria continuidade do regime democrático-liberal. A simples normalidade do regime – ou seja, o cumprimento de suas próprias leis, elaboradas para permitir sua continuidade – traduz-se, agora, em uma anormalidade política.

    Paradoxalmente, a obediência às normas constitucionais parece conduzir à eliminação dessas mesmas normas, a observância à risca da Constituição parece levar inexoravelmente ao fim desta mesma Constituição e, finalmente, a realização de um simulacro de eleições (sem Lula) – ou mesmo a suspensão destas – aparece como a única forma de preservar, hoje, um regime político baseado em eleições. Numa era de desagregação social sem precedentes e de contrarreformas pletóricas, a preservação do regime do sufrágio universal parece só ser possível, para a burguesia, se o próprio sufrágio universal for maculado ou cassado, e se a eleição não for apenas uma contrafação. É isto o que explica, fundamentalmente, a condenação de Lula e sua prisão, decretada hoje pelo juiz Sérgio Moro. Apartamentos triplex, sítios e pedalinhos foram tão determinantes para as sentenças judiciais quanto pastas de dentes destampadas e roupas sujas fora do cesto o são para o término de uma relação.

    Vertebrado subjetivamente pelos editoriais jornalísticos, o burguês comum, tomado isoladamente, com sua mentalidade tacanha e mesquinha, nunca se reconheceu na figura de um administrador de esquerda do capitalismo neoliberal, que outrora empunhava bandeiras vermelhas e dirigia greves. Agora ele sequer o tolera. O burguês ordinário porta-se, assim, com Lula tal qual um nobre o faz com um arrivista plebeu que cativou o coração de sua bela filha: não havendo opção, o galante pode até ser aceito na casa, mas não é da família e, na primeira crise conjugal, há que ser posto para fora de onde nunca deveria ter entrado. Por mais que tenha prestado enormes serviços à burguesia brasileira, Lula não é um lídimo filho dela e nunca o será. Do mesmo modo que uma empregada doméstica pode até frequentar, eventualmente, a sala de jantar, mas não deve dar pitacos nas conversas das pessoas ocupadas em nascer e morrer, Lula não deveria ter ousado mostrar aos políticos da nossa oligárquica classe dominante que era possível combinar alta lucratividade com redução da pobreza extrema.  Para nossos “ilustrados” setores médios conservadores, os nossos “homens de bem” e nossas dondocas da corte, o ex-torneiro mecânico jamais deveria ter permitido que seus shoppings virassem áreas de lazer e consumo para negros e negras, que seus aeroportos virassem rodoviárias, e que suas universidades abrissem as portas para a choldra ignara.

    Lula adentrará a cela na condição de um político togado rejeitado pela própria burguesia que cortejara e que, no fundamental, ajudara. Nos tempos sombrios atuais, a burguesia brasileira se revela não só ingrata, como também vingativa e exclusivista. De agora em diante, ela volta a querer que só os seus lhe façam o bem. O Lula que será preso nos próximos instantes não é o Lula que se afastou de um projeto emancipatório da classe trabalhadora, mas sim aquele que se dispõe a tentar de novo oferecer três refeições diárias para ela dentro do capitalismo. O Lula que irá para atrás das grades é menos o adversário de um projeto socialista e mais o defensor de um capitalismo com menos miseráveis. Lula não está sendo castigado pelos trabalhadores em sua luta pela emancipação social, e sim pelos mais cruentos adversários desta. Assim, para a esquerda socialista, o momento é de derrota e, portanto, de preparar a resposta e a resistência. Deixemos que Merval Pereira e consortes procurem os seus para as histéricas libações nos grandes salões. Os anseios por um mundo sem corrupção e esquemas mafiosos não podem ser realizados pelos mesmos juízes que deixam em liberdade Collor, Sarney, Temer, Aécio e congêneres. Os nossos desejos não podem ser confundidos com os de outrem, sob pena de perdermos nossa própria identidade. Não pode haver substitucionismo político-jurídico nesse caso.  Lavar as mãos diante da punição de um adversário pelas mãos de um inimigo, como fazem alguns incautos na esquerda, não é senão alimentar uma reacionária sanha inquisitória que, ao fim e ao cabo, nos tem como alvo principal.