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  • Venezuela: resultados das eleições regionais e suas lições

     

    Por Argimiro Goyo, dirigente chavista, de Caracas, Venezuela

    Tradução para o Esquerda Online: Célia Regina Barbosa Ramos

    Em 15 de outubro ocorreu o processo eleitoral para governador em 23 das 24 unidades federativas na Venezuela[1]. O resultado, como veremos, permite extrair vários ensinamentos e esclarece várias incógnitas, construídas principalmente pelos meios de comunicação internacionais sobre o processo venezuelano.

    Embora os processos eleitorais distorçam e não sejam um reflexo fiel da realidade política, as primeiras análises dos resultados, informados apenas após três horas em virtude do moderno sistema eleitoral, levam a pelo menos três conclusões:

    – Embora tenha ocorrido uma alta abstenção – um pouco menos de 39% -, esta foi menor do que nas eleições para governadores em 2004, 2008 e 2012, sendo que esta última foi uma semana depois da última aparição de Hugo Chávez e dois meses depois de sua última vitória eleitoral como presidente.

    – O chavismo obteve um pouco mais de 54% dos votos em nível nacional, o que representa mais de 33% da totalidade dos eleitores aptos a votar[2], ou seja, um de cada três venezuelanos maiores de 18 anos votou nos candidatos apresentados pelo chavismo, seja por meio do PSUV, ou pelo Polo Patriótico, frente de partidos políticos favoráveis ao processo político venezuelano.

    – Uma alta polarização entre a direita e o bolivarianismo. Em 21 dos estados, o Polo Patriótico e a direita representada na Mesa de la Unidad Democrática (MUD), dividiram mais de 97% dos votos emitidos. Somente em dois estados, onde tanto o Polo Patriótico como a MUD não saíram unificados, houve uma votação para alternativas diferentes desses dois polos eleitorais. Em Apure, houve um pouco mais de 8% e, no Amazonas, quase 11% para outros grupos, Estados estes que têm poucos eleitores, localizados no sul do país e na fronteira com a Colômbia, locais onde o chavismo ganhou.

    Polarização e crise do centro eclético dissidente

    No período prévio às eleições, principalmente nos quase quatro meses das “guarimbas[3] e, sobretudo, durante todo o processo de eleição da Assembleia Nacional Constituinte (ANC), houve setores políticos que proclamaram uma “terceira opção”, distinta ao chavismo e à MUD.

    Neste setor, localizaram-se alguns dissidentes do chavismo, encabeçados por alguns ex-ministros, personagens que ocuparam cargos em algum momento do governo de Chávez e correntes que se mantiveram em uma fronteira cômoda com o chavismo, sem identificarem-se plenamente, mas vivendo em sua sombra.

    O descontentamento causado pela difícil situação econômica, as duras críticas ao governo – seja por sua ação ou omissão – perante a grave crise que assola o país e a ofensiva da direita internacional, que se expressa em nível interno na ação incessante e diária das “guarimbas”. Em nível externo, na política de isolamento dirigida pelos Estados Unidos, OEA e União Europeia, na campanha midiática e nas redes sociais que mostram um governo tecnicamente derrotado e um chavismo em crise. Tudo isso, foi visto por esses setores como a oportunidade para pular do barco fora antes dele afundar.

    Durante a crises da “guarimba” e a convocatória da ANC, esses setores mantiveram uma posição de centro: tentavam atacar o governo se diferenciando do discurso fascista da direita, mas mantendo posições ecléticas que, ao final das contas, os levavam a repetir, quase em uníssono, as campanhas da direita contra a convocação da ANC e contra as políticas de segurança urbana desenvolvidas pelo governo contra a “guarimba”. Assim, lamentavelmente, muitas vezes estes terminaram se identificando com a direita fascista.

    Queriam construir um espaço próprio, mas o discurso desse centro era polivalente e eclético. Enquanto os que provinham do chavismo centravam seus ataques ao governo em pontos secundários ou táticos da política nacional, tratando de expressar a existência de um “madurismo” muito diferente do chavismo, os que vinham da direita tentavam se distanciar das ações violentas da “guarimba”, rejeitando-as e justificando-as ao mesmo tempo.

    As tentativas de apresentar opções eleitorais terminaram em fracasso ou em alianças sem princípios entre dissidentes de um ou outro lado, na medida em que não apresentaram uma política e opção real. Uma vez que avançava o processo eleitoral foram desaparecendo os apoios, inclusive os próprios candidatos, que terminaram voltando para suas águas originais.

    Nos últimos dias, um desses grupos, autodenominado dissidência chavista, embora alguns de seus dirigentes nunca tenham sido chavistas, chamaram a “votar por candidatos honestos e não polarizados”, sem mencionar quem seriam estes.

    O fantasma da abstenção

    O processo eleitoral de governadores esteve marcado pelo fantasma da abstenção. Foi a preocupação das direções políticas de ambos setores e, inclusive, nos últimos dias, a MUD e a Igreja Católica acusaram o governo nacional de promover a abstenção para impedir que se expressasse o descontentamento.

    A direita, seguida pelo centro dissidente, fez acusações de manobras eleitorais. Acusam o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) de não permitir a substituição de candidatos para “aperfeiçoar” as alianças. Isso realmente ocorreu, mas porque o prazo para tal se era pequeno e se esgotou rápido, já que a campanha foi muito curta.

    Outra acusação foi de mudar centros de votação de local. De fato, alguns centros de votação que foram atacados pela “guarimba” durante a votação da ANC foram mudados para zonas mais seguras, geralmente para bairros[4] próximos, onde a guarimba não chegava. Mas as outras foram mantidas nos mesmos locais. A mídia, entretanto, refletiu declarações de alguns eleitores de classe média que diziam que não se arriscariam a entrar no “bairro” por medo de “serem assaltados”.

    Mas, ao final, a verdade é que isso não se refletiu na abstenção: os centros de votação que foram transferidos – menos de 5 % do total dos centros – tiveram uma abstenção equivalente aos demais centros de votação.

    A realidade é que a polarização impulsionou a participação das pessoas. Seja por apoio ao governo, seja para derrotar a direita – ou ambas coisas -, o chavismo conseguiu mobilizar os “bairros”. A direita também conseguiu mobilizar sua base social nas “urbanizações”. Para isso utilizou o eixo de que “tinha-se que derrotar o chavismo”. Os meios de comunicação e as redes sociais, com o mesmo fervor e argumentos com que há três meses chamava a não votar pela ANC, nas duas últimas semanas chamou desesperadamente a votar contra o governo. Um caso especial foi a imprensa direitista La Razón, que colocou como chamada de capa, em grandes letras, no próprio dia das eleições: “Hoje deve-se sair para votar contra a ditadura”.

    Um dos elementos utilizados como argumento para caracterizar uma provável abstenção da base social da direita era que os setores mais ultradireitistas, braço físico da “guarimba”, estavam contra participar nas eleições. Alguns setores de Voluntad Popular (VP), de Leopoldo Lopez, e a dirigente fascista María Corina Machado se pronunciaram dizendo que “as eleições de governadores não resolviam nada e que o objetivo era derrubar Maduro”. A pouca influência da “guarimba” ativa na população, inclusive a de direita, ficou refletida na baixa atenção ao seu chamado abstencionista.

    Algumas redes sociais refletem hoje, dia seguinte às eleições, que a vitória do chavismo no estado de Miranda, tradicional e mais forte bastião da direita, governado até agora por Capriles Radonsky, que foi duas vezes candidato a presidente pela direita, deveu-se à abstenção dos “guarimbeiros”. Entretanto, uma rápida análise dos resultados desmente isso.

    É verdade que existe influência da “guarimba” nas “urbanizações” do leste de Caracas, que administrativamente pertence ao Estado de Miranda, e nas zonas urbanas de classe média mais afastadas (Altos Mirandinos e El Hatillo), mas nos centros de votação dessas zonas a abstenção foi equivalente à de eleições passadas e, inclusive, em alguns centros diminuiu. Há que se levar em conta que o e estado de Miranda inclui Petare e Fila de Mariche, – dois dos maiores bairros pobres do país -, as cidades dormitórios de Guarenas, Guatire e os Valles del Tuy, além dos povoados camponeses de Barlovento, lugares onde a abstenção diminuiu e que foram o centro de atenção do chavismo, dando vantagem a estes sobre a votação da classe média de Caracas.

    Também é um fato que das oito unidades federativas onde as “guarimbas” se entrincheiraram com força no primeiro semestre do ano, quatro foram ganhas pela direita, e uma delas, Táchira, estado fronteiriço com a cidade colombiana de Cúcuta – eixo direto com Miami, local da ação do contrabando de extração e da agressão monetária do Dolar Today[5], cuja capital, San Cristóbal, é a cidade que teve a maior ação da “guarimba” em todo o país, a abstenção foi normal e a direita ganhou com 63,29%, a porcentagem mais alta em nível nacional. Então, o efeito do chamado dos dirigentes da “guarimba” à abstenção foi praticamente nulo, demonstrando, uma vez mais, que sua influência é mais midiática do que real, mesmo entre a votação da direita.

    A votação refletiu uma abstenção em seu conjunto de pouco menos de 39%. Em alguns estados chegou a alcançar 42%, mas em outros diminuiu para 30%, cifras muito inferiores à última eleição para governadores na semana depois da última aparição de Chávez. A realidade é que, seja por um apoio consciente seja por rejeição ao outro lado, houve uma importante votação eleitoral, o que não foi previsto por nenhum dos “especialistas” e, tampouco, captado pelas pesquisas eleitorais.

    O chavismo vence a 22ª eleição do processo bolivariano

    Após a vitória eleitoral de Hugo Chávez, em 1998, dentro cronograma eleitoral da anterior constituição, substituída em 1999 para dar lugar à Constituição da República Bolivariana da Venezuela (CRBV), foram convocados, incluída a última eleição, 22 processos eleitorais.

    Cinco referendos (para convocar a ANC de 1999, para aprovar a CRBV, em 1999, o referendo revogatório, em 2004, a emenda constitucional, em 2006 e 2007), duas eleições de ANC (1999 e 2017), quatro eleições presidenciais (2000, 2005, 2010 e 2015) e sete eleições de governadores e/ou prefeitos.

    O chavismo ganhou, contando a do último dia 15 de outubro, 20 dessas 22 eleições. Só foi derrotado no referendo da emenda eleitoral de 2006 que pretendia modificar mais de 40 artigos da CRBV, com o objetivo de mudar o modelo econômico, a estrutura do Estado e estabelecer como socialista o Estado venezuelano. Essa emenda foi derrotada com 50,8% de votos a favor do “Não”. Por isso, a direita ainda hoje insiste em que foi uma derrota do modelo socialista.

    A outra derrota eleitoral do chavismo ocorreu nas eleições legislativas de 2015, sendo a que deu um impulso ao novo ataque da direita contra o governo e uma nova escalada na agressão do império norte-americano contra a Venezuela.

    Entretanto, este atual triunfo tem uma particular importância para o chavismo. Um governo assediado como nunca, em meio à pior crise econômica que já viveu o país, com elementos de desintegração, produto da crise econômica, de deterioração de importantes conquistas sociais da revolução bolivariana, no momento de maior isolamento internacional, com a maior campanha midiática internacional de ataque e, por fim, sob ameaça de agressão militar, inclusive de movimentos evidentes de tropas norte-americanas no Panamá e na Colômbia – mesmo que seja por propaganda -, tudo isso, dá uma particular importância a vitória obtida.

    Há um ano, as pesquisas mais complacentes davam ao governo a possibilidade de ganhar em 5 das 23 unidades federativas, inclusive de importância secundária. A estratégia da direita de pedir a suspensão das eleições para governadores, previstas para dezembro de 2016, para jogar-se no referendo revogatório contra Maduro, terminou permitindo que o governo se recuperasse do nocaute.

    Desde então, em meio a esse período, soma-se o fato de que ainda houve uma “guarimba” de quase 4 meses que resultou em quase duas centenas de mortos – diga-se de passagem, 70% das quais eram pessoas alheias ao conflito e/ou vítimas das ações dos “guarimbeiros” -, além de perdas milionárias em infraestrutura e logística das quais o país ainda se ressente.

    Assim, ninguém esperava um triunfo do chavismo. As pesquisas vinculadas aos meios de comunicação previam uma vitória acachapante para a direita. Inclusive, uma delas chegou a estabelecer que 70% da população estava a favor de derrotar o chavismo e da invasão norte-americana.

    Apesar da mídia internacional e de muitos analistas que continuam desconhecendo a realidade da Venezuela por terem a cabeça metida nos jornais e nos noticiários computadorizados, novamente triunfou o chavismo. Em 74% dos estados -ainda faltam os resultados das zonas indígenas, onde a votação é manual – o PSUV, em conjunto com seus aliados agrupados no Polo Patriótico, ganhou as eleições. Conseguiu retomar três estados que estavam em mãos da direita perdidas nas eleições de 2012: Miranda, Lara e Amazonas.  Em seis unidades da federação a votação do chavismo superou 60%. Mesmo naquelas em que perdeu teve uma votação superior a 46%, menos em Táchira, onde foi de 35%.

    Como um governo encurralado e quase em nocaute técnico, em seu pior momento, consegue essa vitória eleitoral? Seria necessário aventurar-se à resposta com outra pregunta: é verdade que o governo chavista e o chavismo em geral está em queda? Os mesmos “analistas” que ontem não duvidavam da queda do chavismo, aqueles da direita que apregoavam que havia 90% de rejeição ao governo, hoje tentam dar explicações mágicas. As redes sociais da “guarimba” foram mais explícitas: “aqui deve ter havido fraude”. Outras foram ainda mais diretas: “até quando não vamos nos dar conta que este governo não sai com votos, mas com chumbo? ”. Uma guarimbeira chegou a escrever: “isso é o que acontece quando votam os que em vez de ler o jornal o usam para limpar o c …”, mostrando seu desprezo fascista.

    O chavismo dissidente, os ecléticos “nem-nem” e alguns intelectuais da esquerda universitária que não gostam de serem confundidos como chavistas, hoje acertavam em cheio com o realismo mágico ao sensatamente interpretar que as “pessoas não tinham votado pelo chavismo, mas contra a direita”.

    A população vem sofrendo uma das piores condições econômicas jamais vivida. A inflação é desesperadora e induzida com fins políticos. Nas duas semanas anteriores às eleições, um quilo de carne passou de 21 mil bolívares a 49 mil bolívares. O mesmo ocorreu com muitos produtos da cesta básica. Não por acaso, outra vez aparece o fantasma do desabastecimento de produtos vitais, combinado com a sabotagem em serviços públicos. Os programas vistos como grandes conquistas sociais da revolução – salário mínimo com escala móvel, pensões de um salário para toda a população idosa sem exigência de contribuição, educação e saúde gratuitas, etc. – vêm se deteriorando, quando não se pulverizando, produto de uma inflação galopante, da queda na receita petrolífera e da agressão econômica imperialista.

    Enfim, um processo revolucionário que derrotou e jogou por terra os governos neoliberais com a esperança de alcançar um maior nível de vida e uma distribuição mais justa da riqueza petrolífera terminou se traduzindo em pobreza e violência.  Então, por que venceu o chavismo? Por que obtém 54% dos votos? Por que um de cada três venezuelanos continua votando pelo chavismo?

    A explicação de que é um voto contra a direita traz um elemento importante. Apesar dos erros e mesmo dos ataques do próprio chavismo, o povo continua defendendo a revolução bolivariana, enraizada na insurreição contra o neoliberalismo em fevereiro de 1989 (“Caracazo”) e a insurreição contra o golpe fascista de 2002 que libertou Chávez e o levou de volta ao governo. Assim, cada vez que a revolução bolivariana esteve em perigo, quando o chicote da contrarrevolução ameaçou, o povo saiu a defendê-la. E esse povo seguirá defendendo-a com unhas e dentes.

    O chavismo ainda é visto como uma expressão do processo revolucionário que segue vivo depois de 28 anos do “Caracazo” e 15 anos da “revolução de abril” que derrotou o intento golpista de 2002. Não é casual que a ampla maioria da geração de dirigentes físicos e reais de uma e da outra insurreição, ainda continuem representados no chavismo. Para a população chavista, aqueles que se retiraram nos momentos de maiores dificuldades são traidores, não por terem discordado do governo, mas por terminarem sendo aliados, conscientemente ou não, da direita, inimiga histórica da revolução.

    Nem tudo é vermelho

    A embriaguez triunfalista e as caravanas da vitória na noite de domingo podem servir para ocultar que, apesar da vitória, nem tudo é vermelho na realidade venezuelana. Não é desprezível o triunfo eleitoral depois de 19 anos no poder e em meio à situação atual. Mas assim como outros se enganaram vivendo uma realidade apresentada pela mídia, o triunfo eleitoral pode ser outro engano.

    A direita duramente derrotada não desapareceu. Ganhou em cinco estados, dois a mais que nas últimas eleições a governador. De fato, perdeu três e ganhou cinco. É verdade que perderam os estados de Miranda e Lara, que tinham sido convertidas pela direita em bastiões de ataque ao governo, mas a seu favor ganharam Zulia e Táchira, de importância equivalente.

    Mas há um agravante. Zulia e Táchira, estados fronteiriços com a Colômbia, formam, junto com Mérida, limítrofe a esses dois estados, uma faixa de milhares de quilômetros em mãos da oposição, que se interpõe entre o governo chavista e a Colômbia com a ação das bases militares norte-americanas, em uma zona marcada pelo narcotráfico, contrabando e paramilitares – protegido pelo governo colombiano e pelas tropas gringas. A aventura de criar uma zona de ação contrarrevolucionária autônoma como foi Benghazi, na Líbia, é uma possibilidade real.

    Assim, os resultados eleitorais devem ser analisados com maior profundidade. Um elemento importante é que a direita teve avanços em alguns bairros onde, tradicionalmente, não chegavam, impactando setores de classes sociais baixas em estados como Zúlia, Táchira, Anzoátegui e Bolívar.

    Mas, um último elemento – o mais importante de todos – é que o resultado não se trata de um cheque em branco para o chavismo. Uma das expressões que levou muitos a pensarem sobre o fim do chavismo e os centristas dissidentes a pularem apressadamente fora do barco, é a dura crítica das pessoas na rua, do povo comum, contra o que está acontecendo. É uma crítica ao governo chavista, muito dura e implacável, mas que não os faz duvidar, ainda, da revolução.

    Nos próprios grupos que esperavam durante a noite o resultado eleitoral do chavismo era possível escutar, sem nenhuma dissimulação, o profundo descontentamento das pessoas com a situação da economia, com a ineficácia do governo para enfrentá-la, pela corrupção nos vários níveis do governo, e por um burocratismo do Estado que ameaça asfixiar as expressões de organização democrática autônoma do povo.

    Mais que a ameaça da direita e a embriaguez do triunfo eleitoral, a sobrevivência da revolução e que o chavismo continue sendo sua direção passam por atacar esses três problemas. O povo pede, é verdade, um basta à impunidade aos ataques, sabotagem e assassinatos praticados pela direita, mas também pede que se castigue com dureza os responsáveis pela corrupção no governo, que limitam o acesso do povo aos programas sociais, bens e serviços, às vezes com maior eficácia até maior do que a guerra econômica.

    O povo exige medidas dirigidas ao controle dos bancos, do comércio exterior e da distribuição de bens e serviços. Uma planificação coerente da produção e produtividade que garanta soberania alimentar.

    E, por último, as pessoas pedem uma profunda revolução política que revise a institucionalidade do Estado, o “golpe de timón[6] outrora já anunciado pelo próprio’ Chávez, com medidas enérgicas contra a corrupção e o burocratismo que permitam o exercício do poder real pelas organizações comunais e sindicais, por meio de suas expressões legítimas. Um governo realmente do povo, dos trabalhadores, para derrotar definitivamente a direita e a sabotagem econômica.

    O perigo real, se não houver uma revolução política e não ocorrerem as profundas mudanças que o povo espera da ANC na construção real do socialismo, é que esta vitória eleitoral seja apenas mais um entre outros processos que sempre estarão dominados pela capacidade da direita de manipulação, por meio da mídia e das redes sociais.

     

    É importante garantir a paz e estar aberto ao diálogo que impeça as escaladas de violência que periodicamente organiza a direita. Mas neste processo eleitoral ficou demonstrado que o povo não está disposto a se ajoelhar para obter a paz. Os analistas e pesquisadores refletiram o descontentamento da população pela aguda crise econômica em uma votação contra o governo (o que se traduzia, segundo eles, em uma maior votação a favor da direita ou uma alta abstenção). Alguns acreditaram nas cifras dos supostos sete milhões de votantes durante o plebiscito de julho durante a guarimba, esquecendo que não havia documentação que refletisse isso. Nenhum deles contou com as reservas imensas que possui a revolução bolivariana e que, apesar das imensas críticas, seguem considerando o governo chavista como “seu” governo.

    Por isso, é muito importante que exista uma resposta à esperança do povo venezuelano com este triunfo eleitoral. Não se pode continuar falando de “guerra econômica” e que os atores dessa guerra atuem livremente. A revolução necessita que este mesmo povo que garantiu o triunfo eleitoral se converta no exército para a transformação revolucionária das instituições do Estado e do modelo econômico.

    Em escala local (sub-região) e regional devem se constituir as assembleias de organizações de base (conselhos comunais, organizações de trabalhadores, camponesas e estudantis) para estabelecer em cada sub-região devem ser estabelecidos os “planos de produção e de satisfação das necessidades”. Estas devem garantir o controle do processo produtivo e da distribuição, em nível local e regional obedecendo a uma planificação centralizada. Em nível nacional, devem ser desburocratizados e reativados os conselhos presidenciais setoriais, em particular o conselho presidencial comunal e os de trabalhadores (operários, camponeses, pescadores), a partir de delegados dos conselhos locais e regionais. O povo organizado tem que assumir o controle da economia, dos processos produtivos e de distribuição e, acima de tudo, de vigilância do Estado contra a burocratização e a corrupção.

    Foi a mobilização popular a que derrotou a guarimba, nas ruas e nas eleições regionais. Foi a mobilização a que rechaçou a agressão militar imperialista. Somente a mobilização do povo derrotará a guerra econômica construindo um modelo econômico socialista e transformando o estado burocrático e corrupto em um Estado revolucionário.

     

     

     

    Post-scriptum

    1. O governo de Bolívar, cujo resultado ainda não tinha sido anunciado, foi ganho pelo chavismo (com uma diferença inferior a dois mil votos). Foi chave a alta votação nos bairros dos operários siderúrgicos (San Felix) para garantir o triunfo no Estado
    2. Seguindo um roteiro prévio, a direção da MUD declarou que houve fraude nas primeiras horas, o que foi replicado pelo governo dos EUA, pela OEA e pelo que foi denominado de Grupo de Lima, que agrupa os governos do Brasil, Argentina, Chile, Peru, Colômbia, Canadá, Costa Rica, Guatemala, Honduras, México, Panamá e Paraguai. Inclusive o Secretário Geral da OEA declarou que foi um erro da oposição participar nas eleições de governador. No entanto, em nível interno, a frente da direita rompeu. O moderno processo eleitoral venezuelano inclui quatorze auditorias, uma dela compara o resultado eletrônico com o manual (cada eleitor recebe da máquina de votação um comprovante de seu voto que verifica e deposita em uma urna) após sua transmissão e cada organização política presente recebe uma ata com os resultados. Teriam que ser muito estúpidos as doze mil testemunhas e técnicos indicados pela MUD durante as auditorias para não detectar uma “fraude”. Assim que, mais do que certeza ou provas de fraude era um chamado ao reinício das guarimbas, o que foi rechaçado pela população. Nas poucas urbanizações em que houve uma tentativa de instalar guarimbas foram desmontadas pelos próprios moradores. Para finalizar, a AD, o partido de direita mais beneficiado pelos resultados eleitorais (quatro dos cinco governos estaduais opositores) declarou publicamente que não havia fraude, que suas verificações confirmavam os resultados emitidos pela CNE em cada Estado e que não acompanharia nenhuma “aventura extremista” como a que ocorreu no primeiro semestre (referindo-se à guarimba). Além da AD, outros dirigentes de direita desmentiram uma suposta fraude, o que desmantelou a ópera montada a partir da OEA.

     

     

    [1] A Capital, que inclui 60% da cidade de Caracas e que possui o segundo colégio eleitoral do país, não elege governador.

    [2] O voto não é obrigatório.

    [3] Nome dado às ações de protesto organizadas pela oposição exigindo a saída de Maduro através do fechamento de ruas e avenidas, ataques as instalações e veículos públicos e fortes enfrentamentos com a Guarda Nacional Bolivariana.

    [4] A denominação geográfica classista herdada chama de “bairros” as zonas urbanas pobres ou de classe baixa. Já as “urbanizações” são as zonas de classe média e alta.

    [5] Denominação do dólar que dita cotação do paralelo desde Miami, com centro de operações na cidade colombiana de Cúcuta, localizada na fronteira com a Venezuela. O Today tem uma página web que serve de referência na Venezuela para as operações de câmbio no paralelo: https://dolartoday.com/

    [6] Um golpe à esquerda no leme.

  • El chavismo vence en las elecciones regionales de Venezuela. ¿Y ahora?

    1. Artículo publicado originalmente el 17 de octubre de 2017

    Por Paulo Aguena “Catatau”, de São Paulo, SP

    El domingo, 15 de octubre, se realizaron elecciones para gobernadores en los 23 estados venezolanos, menos el Distrito Capital. El chavismo y el Polo Patriótico – un frente que además del PSUV está el PCV, PPT, etc. – vencieron en 18 estados, obteniendo el 54% de los votos. La MUD, (Mesa de Unidad Democrática), un frente opositor de derecha, venció en cinco estados, totalizando el 45% de los votos. La polarización fue inmensa. Todas las demás alternativas, a la izquierda y a la derecha, tuvieron juntas, cuando mucho, el 2% de los votos.

    El chavismo ganó en los tres estados gobernados por la oposición, pero perdió en cinco en los que gobernaba. La derrota que el oficialismo sufrió en Zulia y Táchira, estados fronterizos con Colombia, fue grave. Pero sacaron de las manos de la derecha el estado de Miranda – gobernado por Capriles, líder simbólico de la oposición – y Lara. Además, derrotó a la oposición en su mayor bastión, Carabobo.

    Con 11 millones de votantes, la abstención fue del 39%. Aunque fue alta, fue la menor de las cuatro elecciones para gobernadores que se realizaron bajo el chavismo. Este cuadro configura una derrota de la MUD y de Trump. Se trata también de una importante recuperación del chavismo, cuando hace un año la previsión era que ganaría en apenas 5 de los 23 estados.

    ¿Qué ocurrió?

    El resultado electoral expresó el cambio en la relación de fuerzas tras meses de una brutal ofensiva de la derecha. La situación comenzó a cambiar a partir de las elecciones para la Asamblea Nacional Constituyente (ANC), celebradas el 30 de julio. A pesar del violento boicot de la derecha –paro patronal, paralización de los transportes, cortes de rutas y calles  a través de barricadas (guarimbas), etc.,- el hecho es que 8 millones de venezolanos se movilizaron para llegar a las urnas y elegir a sus representantes. La Constituyente fue instalada y las guarimbas, derrotadas. Dividida, a la MUD solo le quedaba participar en las actuales elecciones regionales.

    Muchos analistas, tanto de izquierda como de derecha, influenciados por fuentes de información de las agencias internacionales como Reuters, EFE, etc., se quedaron desconcertados ante el resultado. A algunos solo les queda hacer eco a la acostumbrada campaña de una parte de la oposición-esta vez, ni siquiera de toda – de que hubo fraude. No por casualidad, Estados Unidos ya declaró, una vez más, que las elecciones no fueron “libres” ni “justas”.

    De hecho, considerando el aumento del cerco imperialista, la brutal crisis económica que asola al país con una hiperinflación que en la semana anterior a las elecciones, golpeó con un 1.500% en el año, una especulación cambiaria que en la misma semana elevó el dólar paralelo sostenido desde Miami (dólar hoy) a 25 mil bolívares. Considerando todo esto, el cambio de la relación de fuerzas y la propia victoria del chavismo parece un milagro.

    De hecho, considerando el aumento del cerco imperialista, la brutal crisis económica que asola al país con una hiperinflación que la semana anterior a las elecciones, golpeó en la casa del 1.500% anualizadas; una especulación cambiaria que en la misma semana elevó el dólar en el paralelo sostenido desde Miami (dólar hoy) a 25 mil bolívares; considerando todo esto, el cambio de la relación de fuerzas y la propia victoria del chavismo parece un milagro.

    En realidad, son análisis superficiales que subestiman la profundidad del proceso revolucionario venezolano. Ella tiene sus raíces más remotas y profundas en la victoriosa guerra de la independencia liderada por Simón Bolívar (1810-1823), en la que, dicho sea de paso, murió la mitad de la población, se desarrollaron a lo largo de la historia de la lucha de clases en el país, cuyo último período estuvo marcado por la rebelión popular de 89 (Caracazo), por la derrota del golpe de la derecha que intentó derrocar a Chávez (2002) y, finalmente, por la derrota del paro patronal encabezado por la antigua dirección de PDVSA (2002-2003). Por eso, a pesar de las inmensas dificultades y sacrificios, las masas obreras y populares, verdaderos protagonistas de este proceso, demostraron una vez más que no están dispuestas a abandonar sus conquistas y depositan sus esperanzas en encontrar una salida socialista a la crisis.

    Encrucijada

    Aunque todavía goza de la confianza de la mayoría de los sectores más organizados y combativos de la población, existe un enorme descontento de las bases con los dirigentes chavistas. No es casualidad.

    El proceso revolucionario permitió a Venezuela convertirse en un país políticamente mucho más independiente del imperialismo. Sin embargo, pasados ​​19 años, el chavismo no fue capaz de romper con el modelo económico dependiente de la renta petrolera. El país siguió importando prácticamente todo, al mismo tiempo que una nueva burocracia estatal (boliburguesía) desviaba una parte de la renta nacional en provecho propio. Este modelo pudo sostenerse mientras el precio del petróleo estaba en alza. La caída trajo su colapso.

    Existe el riesgo de que el triunfo del chavismo del domingo pasado (15) se transforme en borrachera electoral. Al final, es la vigésima elección que el chavismo vence en las 22 ocurridas desde que Chávez llegó al poder hace 19 años. Pero ahora la situación es diferente. Hay un agotamiento del modelo político y económico chavista. El imperialismo lo sabe, por eso su ofensiva, empezando por la guerra económica, tiende a intensificarse. No habrá paz. Así, la verdad desnuda y cruda es que el país se encuentra en una encrucijada: o el proceso revolucionario avanza de forma decidida hacia el socialismo o será derrotado.

    El movimiento obrero y popular, que enfrenta de forma heroica la desesperante guerra económica, tiene esa intuición. Por eso, exige que el gobierno abandone los discursos, castigue a los corruptos y adopte urgentemente medidas radicales contra el capital y la derecha. El gobierno y la Constituyente se encuentran ahora más que nunca bajo esa justa presión.

    Un modelo verdaderamente socialista

    La Constituyente es una oportunidad casi única para tomar esas medidas, sustituyendo el modelo económico capitalista dependiente del ingreso del petróleo y de las importaciones por un modelo verdaderamente socialista. Para ello, en vez de buscar el control del mercado a través de una economía mixta, el Estado debe concentrar en sus manos los principales medios de producción y, bajo la dirección democrática de los trabajadores, pasar a la planificación de toda la economía. Solo así, se podrá construir un parque industrial que impulse la producción nacional y estructurar una producción agropecuaria con el objetivo de alcanzar la soberanía alimentaria.

    Avanzar en la expropiación de las empresas, colocándolas bajo control de los trabajadores; garantizar una PDVSA 100% estatal que ponga fin a las empresas mixtas entre el Estado (51%) y el capital extranjero (49%); suspender el pago de la deuda externa y aplicar el importe como parte de un plan de inversiones masivas para revertir el proceso de desindustrialización; avanzar en el control de los precios a través del control de la distribución por parte del Estado; expropiar a los grandes grupos mayoristas como medida de emergencia para garantizar la oferta de productos; instituir el monopolio estatal del comercio exterior para proteger los intereses del país y atender a las necesidades de los trabajadores; centralizar y estatizar el conjunto del sistema financiero, adoptando una rígida política monetaria y cambiaria; instaurar un Gobierno de los Trabajadores por medio de un organismo que ejerza las funciones legislativas y ejecutivas, a nivel nacional, estatal y local, a partir de representantes electos en los lugares de trabajo y en los barrios.

    Estos son algunos de los principales puntos programáticos colocados en el orden del día para que la izquierda revolucionaria defienda ante la Asamblea Nacional Constituyente y las masas venezolanas.

    La situación exige firmeza. Definitivamente, no se puede dar más vueltas.

    Foto: Guillermo imbassahy – periodistas libres

     

  • Greve geral do funcionalismo público agita a França

     

    Por Renato Fernandes, Campinas/SP

     

    Manifestantes em Paris. Crédito AP.

     

     

    No último dia 10 de outubro, uma greve geral do funcionalismo público agitou a França. De acordo com a principal central sindical do país, a CGT, cerca de 400 mil funcionários se manifestaram em 130 cidades do país contra os ataques que o funcionalismo vem sofrendo. Foram trabalhadores da educação, da saúde, dos trens, dos aeroportos (30% dos voos cancelados), entre outras categorias que agitam a luta dos trabalhadores no país.

     

    Macron e a destruição dos serviços públicos na França

     

    Se há uma coisa que a União Europeia e o presidente Emmanuel Macron concordam é que o funcionalismo público é um gasto muito grande para a França. Atualmente são cerca de 5,4 milhões de funcionários públicos. Isso representa o maior contingente da Europa. Um dos ótimos resultados deste funcionalismo público é que a França tem um dos melhores serviços de saúde do mundo. Porém, em relação ao número de habitantes, atualmente a França tem 1 funcionário público para cada 82 mil habitantes, enquanto a média europeia em 2016 era de 1 funcionário público para cada 61 mil – só para uma comparação, países como a Grécia, que realizou diversos cortes no funcionalismo público, tem 1 funcionário para cada 33 mil, enquanto a Alemanha, o país mais rico do continente e que já executou um corte no funcionalismo na Agenda 2010, tem 1 para cada 59 mil. No Brasil, seguindo a tendência dos países dependentes, temos 1 um funcionário para cada 44 mil habitantes, segundo dados de 2014.

    Como os serviços públicos são considerados gastos e não investimentos, Macron tem um projeto de desmonte do funcionalismo: demissão de 120 mil funcionários em 5 anos, através da não reposição dos aposentados; a continuação do congelamento de salários: o último aumento ocorreu em 2016, após 6 anos de congelamento, porém em relação ao poder de compra, os funcionários públicos tiveram uma queda de 9% desde 2000, enquanto os dos setores privados tiveram uma alta de quase 17%; além de retirada de direitos trabalhistas que estão sendo atacados na reforma trabalhista que está sendo discutida neste momento no Legislativo.

    O objetivo de todas essas medidas é o de economizar para pagar a dívida pública francesa e, dessa forma, retomar os investimentos privados no país, que buscam taxas de lucro mais atrativas. Isso também faz parte de um acordo mais geral com Angela Merkel (primeira-ministra alemã): como apontam diversos analistas, a redução dos gastos do Estado francês e da diminuição do Estado, com a consequente piora dos serviços públicos e retirada dos direitos trabalhistas, é parte da negociação sobre o fortalecimento da União Europeia, principalmente para o debate de um orçamento europeu comum e também sobre a mutualização das dívidas por meio dos Eurobônus.

     

    A classe trabalhadora está mostrando o caminho

     

    Desde setembro, a classe trabalhadora francesa já demonstrou disposição para lutar. Foram duas greves gerais (12 e 21 de setembro). Uma grande manifestação política contra o “golpe de Estado social” (23 de setembro), além de grandes manifestações parciais com bloqueios de estradas, de refinarias, com aposentados, entre outras lutas. Centenas de milhares de trabalhadores se colocaram em movimento e rejeitam abertamente o projeto de sociedade neoliberal que defende Macron.

    Porém, as direções das centrais sindicais estão muito aquém dessa luta. A greve do funcionalismo público foi a primeira, desde 2007, convocada pelas 9 centrais que representam a categoria. Nas greves de setembro, apenas 3 centrais sindicais convocaram-nas. Essa unidade das centrais foi fundamental para o sucesso da mobilização dos funcionários públicos, porém é necessário ir além de um dia de greve. É preciso a unidade das centrais e também uma greve geral com mais impacto que realize a convergência das lutas para derrotar os projetos de Macron: combater os ataques ao funcionalismo, mas também a reforma trabalhista que foi aprovada como uma espécie de Medida Provisória e que deve ser votada em novembro.

    Ir além dos limites impostos pelas direções sindicais é uma das tarefas que a esquerda combativa e os ativistas sindicais devem tomar para si. Um bom exemplo foi a última plenária federativa da Force Ouvrière (FO), realizada no último 30 de setembro. A FO é a terceira maior central sindical do país, representando cerca de 15% dos sindicalizados. Contra a política do secretário geral, Jean-Claude Mailly, que se opôs a convocação da greve geral contra a reforma trabalhista, os dirigentes de base votaram uma resolução para uma “mobilização interprofissional antes da ratificação da reforma (prevista para novembro). Essa rebelião de base demonstra o caminho e a disposição que os diversos sindicalistas e trabalhadores tem para derrotar os projetos neoliberais de Macron.

  • Las tareas políticas del 3º Congreso de la CSP Conlutas

     

    3 de octubre de 2017

    Por Camila Lisboa y Mauro Puerro, de São Paulo, SP

    Casi dos mil delegados se preparan para participar en el 3º Congreso de la CSP Conlutas, que comienza el próximo 12 de octubre. Seguramente, los delegados y las delegadas ahí presentes reflejarán las luchas y los desafíos planteados en el último período. De 2015 para acá, cuando se realizó el último congreso de nuestra Central, la necesidad de potenciar la resistencia contra los planes de ataques a nuestros derechos estuvo más colocada que nunca.

    Crisis económica y golpe parlamentario

    En los últimos dos años, la crisis económica se profundizó en nuestro país. Los gobiernos y los empresarios se armaron para aplicar un plan de ajuste fiscal durísimo contra los trabajadores. El entonces gobierno de Dilma (PT) demostraba toda la disposición para aplicar esos planes e incluso los inició. Sin embargo, el empresariado brasileño y sectores políticos de la derecha tradicional, como el propio vicepresidente Michel Temer (PMDB), aplicaron un golpe parlamentario, para asegurar que esos planes no sólo se apliquen, sino que se profundicen.

    A finales de 2016, se aprobó la PEC 55, que impone un techo de gastos para las áreas sociales durante 20 años. No hay precedente de un ataque de este tipo en las últimas décadas de nuestra historia. Junto a eso, Temer y el Congreso Nacional aprobaron el fin de la CLT con la Reforma Laboral y siguen amenazando los derechos de la seguridad social.

    Los desafíos de la resistencia

    A pesar de importantes manifestaciones contra Temer, como la marcha que reunió a más de 60 mil personas en São Paulo, en septiembre de 2016, y las ocupaciones de las escuelas y universidades contra la PEC 55, fue en 2017 que la fuerza de nuestra clase se demostró forma más categórica.

    Los días 8 y 15 de marzo prepararon la poderosa huelga general del 28 de abril. Impusimos retrocesos al gobierno, que tenía como plan aprobar la reforma de la previsión en el primer semestre. A partir de esa fuerza, era necesario avanzar en otro gran día de huelga general. Desgraciadamente, las mayores centrales de nuestro país retrocedieron en cuanto a la disposición demostrada en abril. En algunos casos, por apoyar directamente al gobierno Temer (Fuerza Sindical y UGT), en otros, por optar por construir una candidatura para 2018 y abstenerse de la resistencia del presente (CUT y CTB).

    El hecho es que, ante ello, el gobierno logró aprobar la reforma laboral, el proyecto de ley que permite tercerizar todo y mantenerse en el poder, incluso después de diversos escándalos de corrupción, como la delación de la JBS.

    Por lo tanto, construir la resistencia en ese segundo semestre y en el próximo período, tiene como desafío central retomar la unidad que permitió la realización de las acciones de marzo, abril y mayo (#ocupa Brasilia) de 2017. Para ello es muy importante medidas como la plenaria unificada de los metalúrgicos con participación de otros sectores que marcó el día nacional de lucha el 10 de noviembre.

    Combatir el avance de la derecha y construir una alternativa de la izquierda clasista

    Los ataques sobre nuestra clase se combinan con un fortalecimiento político e ideológico de sectores de derecha y ultraderecha. Discursos intolerantes que ganan simpatía también entre la clase obrera. La crisis económica y el ambiente de desesperanza que crea, combinado con la desmoralización completa de la clase política, abren espacios para que los sectores reaccionarios levanten la cabeza y se pongan en la disputa sobre el desenlace de esta crisis. Así, el general Antônio Hamilton Mourão “tranquilamente” da una declaración sobre la posibilidad de intervención militar y Bolsonaro viene creciendo en las encuestas electorales y en el gusto popular.

    Esta situación debe alertarnos. Es necesario armar a nuestra clase y nuestros instrumentos de lucha, como la CSP Conlutas, contra el avance de la derecha, porque su avance no solo se expresa en Bolsonaro y simpatizantes de la intervención militar, sino también en las figuras “no políticas”, como João Dória, prefecto de São Paulo por el PSDB, arduo defensor de las privatizaciones.

    Este escenario, sin embargo, no puede hacernos repetir los errores del pasado. Para combatir el avance de la derecha de forma consecuente es necesario construir un campo de independencia de clase. Una articulación política de los movimientos sociales y organizaciones políticas que disputen corazones y mentes del pueblo trabajador con un programa clasista y anticapitalista. Una articulación que se presente como una alternativa de clase no solo a los diversos representantes del capital, sino también a la política de conciliación de clases. Los 13 años de conciliación de clases de los gobiernos petistas y sus alianzas contribuyeron al surgimiento del gobierno Temer y toda su agresividad contra los trabajadores.

    El Congreso de la CSP Conlutas tiene la capacidad de presentarse al conjunto del movimiento social brasileño con esa disposición. Para ello es necesario fortalecer el discurso y la práctica unitaria, tener firmeza en el horizonte de combate y capacidad de diálogo.

    Resistir con la fuerza y ​​con la cara de nuestra clase

    El 3º Congreso también va a reflejar las luchas del movimiento popular y de los movimientos de lucha contra la opresión. De 2015 para acá, asistimos a muchas ocupaciones urbanas, como consecuencia de la crisis, que impacta sobre el derecho a la vivienda. Son diversos movimientos populares que fortalecieron la resistencia en nuestro país y se unificaron con el movimiento sindical para combatir los ataques. Nuestra Central, la única que es sindical y popular, necesita, cada vez más, tener capacidad de diálogo con esta forma de resistencia.

    El avance de la intolerancia contra las mujeres, negros/as y LGBT también se tradujo en resistencias importantes, como la lucha contra el genocidio de la juventud negra, la violencia hacia las mujeres y los ataques a los derechos reproductivos y el reciente combate a la “curación gay”. El carácter democrático de esas luchas exige que nuestra Central sepa intervenir en esos procesos, con disposición de unidad y combate.

    Fortalecer la CSP Conlutas como instrumento de frente único de nuestra clase

    La importancia política de nuestra Central no puede hacernos cerrar los ojos hacia sus límites. Construimos la Central más dinámica y más responsable con la defensa de los derechos de nuestra clase, pero en la realidad, somos una Central minoritaria. Fue esa evaluación que hizo, a menudo, con que los sectores políticos que construyen la CSP Conlutas se comprometieran en la construcción de síntesis de las acúmulos políticos de cada entidad y cada organización que la construye.

    Su actual formato contribuye a ello, pues las reuniones bimensuales de su  Coordinación Nacional, permiten importantes actualizaciones políticas de la coyuntura. Además, es necesario preservar el aspecto democrático de este formato, que permite que su dirección más cotidiana, la Secretaría Ejecutiva Nacional, tenga contacto con los debates y elaboraciones de las entidades y movimientos afiliados.

    Por lo tanto es decisivo profundizar el funcionamiento democrático de la central, fortaleciendo sus instancias, sus entidades y su carácter de organización de frente único, evitando el riesgo y el peligro de transformarse en colateral de alguna organización política, pues eso, desgraciadamente, ocurrió con la amplia mayoría de las centrales. La CSP Conlutas necesita y debe ser la excepción. Este congreso tiene el gran desafío de reafirmar esa concepción democrática.

  • Cataluña: ¿cuál debe ser la posición de la izquierda?

     

    4 de octubre de 2017

    Gabriel Casoni, de la secretaría política del MAIS

    La crisis desencadenada por el referéndum del 1 de octubre se agrava a cada instante. Ante la rebelión del pueblo catalán, que lucha heroicamente por el derecho a la independencia, se yergue la reacción del régimen monárquico. El Estado español y Cataluña están convulsionados.

    El presidente del Gobierno catalán, Carles Puigdemont, afirmó ayer a la BBC británica que la declaración de independencia se hará “en cuestión de días”. La presidenta del Parlamento anunció que la República Catalana será proclamada el próximo lunes 9, a las 10 h.

    El martes (3), Cataluña fue tomada por una poderosa huelga general. Las fábricas y los servicios no funcionaron. Más de 700 mil personas salieron a las calles en Barcelona ​​en una demostración de enorme fuerza y ​​representatividad popular.

    En el otro lado, en Madrid, el gobierno de Mariano Rajoy estudia los próximos pasos de la represión. El objetivo de la clase dominante española es uno solo: aplastar la rebelión catalana.

    Ante este cuadro dramático, los partidos de la izquierda española se pronunciaron. En el marco de una declaración de Pablo Iglesias este miércoles (4), Podemos e Izquierda Unida, defendieron una negociación, sin condiciones previas, entre el gobierno de Cataluña y el Estado español para llegar a un acuerdo de mediación. Aunque condenan la represión, no legitiman el referéndum del domingo; en realidad, lo acusan de romper la “legalidad”.

    Se trata de un gravísimo error, que se posiciona contra el derecho a la autodeterminación del pueblo catalán. Y esto en un momento de grave crisis del régimen monárquico basado en la Constitución de 1978, régimen que prepara la ocupación militar de Cataluña, si se concreta la proclamación de la república.

    La burguesía española se unifica en torno al discurso del Rey Felipe VI, que realizó amenazas expresadas ayer (3) en cadena nacional de televisión. El monarca, de la familia Bourbon, afirmó que “ante esta situación de extrema gravedad, que requiere el firme compromiso de todos con los intereses generales, es responsabilidad de los legítimos poderes del Estado asegurar el orden…”. A buen entendedor, pocas palabras.

    En esa hora crítica, una posición de izquierda que no pase, en primer lugar, por el apoyo al derecho del pueblo catalán a decidir soberanamente sobre su destino, significa, de una u otra forma, ceder al régimen monárquico y opresor del Estado Español.

    La posición correcta viene de la izquierda anticapitalista y socialista de Cataluña y Madrid, que encuentra respaldo en algunos diputados de Podemos.

    ¡Viva la República libre de Cataluña! ¡Abajo la monarquía española!

    ¡Toda solidaridad al pueblo catalán!

  • Rebelión en Cataluña

     

    Editorial del 2 de octubre

    A pesar de la represión brutal, millones acudieron a las urnas en un referéndum sobre la independencia de Cataluña el domingo (1). Desafiando las barreras, las balas de goma y cachiporras policiales, el pueblo catalán luchó valientemente por el derecho a la libertad.

    De los 2.262.424 votos emitidos, 2.020.144 (90,09%) fueron a favor del “sí”, 176.565 (7,87%) del “no”; y blancos y nulos sumaron el 2,92%.

    Con la aplastante victoria del “sí”, el presidente del gobierno catalán, Carles Puigdemont, afirmó que la independencia será proclamada en los próximos días. “Nosotros, los ciudadanos de Cataluña, ganamos el derecho a tener un Estado independiente que se constituya en la forma de una República”, declaró. Puigdemont llevará al parlamento local los resultados de la consulta, para que este actúe “como prevé la ley del referéndum”.

    En Madrid, el conservador Mariano Rajoy, primer ministro del Estado monárquico español, afirmó que el referéndum fue ilegal y que no reconocerá el resultado. El presidente intentó justificar el uso de la violencia policial, que hirió a más de 800 personas. “Hicimos lo que había que hacer”, “no hubo referéndum, asistimos a una mera puesta en escena”, declaró. Rajoy anunció que convocará a todos los partidos con representación parlamentaria para debatir las consecuencias de la rebelión catalana.

    Los medios de comunicación, partidarios de la monarquía española, dispararon ataques furiosos. El diario El País publicó un editorial en el que afirma que hay que detener la “insurrección”. La Razón pidió “firmeza frente al golpe”. Los medios de comunicación expresan de este modo la posición de la burguesía española, que a pesar de hacer algunas críticas a la inhabilidad política de Rajoy, exige “pulso firme” para derrotar al movimiento por la independencia.

    En contrapartida, en defensa del referéndum los sindicatos de trabajadores de Cataluña y entidades civiles prometen una paralización general este martes (3). Los movimientos sociales, estudiantiles y democráticos también irán a las calles. La lucha del pueblo catalán despertó enorme solidaridad internacional.

    La represión es derrotada

    El gobierno español intentó impedir por la fuerza la realización de la consulta democrática. El primer ataque vino del Tribunal Constitucional español, que declaró ilegal el referéndum. Amparándose en esta ofensiva judicial, Rajoy desencadenó una brutal represión policial.

    Días antes de la consulta, varias autoridades catalanas fueron detenidas y las manifestaciones fueron reprimidas en nombre de la “legalidad”. El domingo, la escala represiva subió a niveles chocantes, recordando los tiempos de la dictadura de Franco. La guardia regional catalana -los Mossos d’Esquadra-, se negó a reprimir a las personas que dirigían la votación, el gobierno central envió a la Policía Nacional y a la Guardia Civil.

    Las escenas que se vieron revelaron un régimen dispuesto a pisotear la democracia. Los policías cerraron 319 centros de votación, golpearon a las personas en las filas, incluso ancianos, dispararon balas de goma y lanzaron gases a la población. Un hombre de 70 años infartó durante una acción represiva y fue llevado en estado crítico al hospital. Las imágenes de personas ensangrentadas se extendieron por las redes sociales, causando conmoción e indignación. El velo democrático se deshizo y la cara autoritaria del Estado español asustó al mundo.

    Sin embargo, la brutal represión no logró detener al pueblo catalán y su movilización por la libertad de elección. Miles de manifestantes se enfrentaron a las fuerzas policiales para garantizar el acceso a las urnas. Los bomberos formaron cordones para dar seguridad a los ciudadanos. Fueron incontables los ejemplos de valor y determinación democrática. Al final, la fuerza de un pueblo en lucha derrotó a la sangrienta represión.

    Rodear de solidaridad a Cataluña

    La lucha del pueblo catalán por el derecho a la independencia debe ser apoyada por los trabajadores y los pueblos en todo el mundo. Es hora de la máxima solidaridad. Deben realizarse actos en las embajadas, declaraciones de las organizaciones políticas y sindicales y el apoyo político en las redes sociales. Es necesario abrazar a Cataluña y denunciar la abominable represión del Estado español.

    La victoria de los catalanes será una victoria de todos los que luchan por el derecho democrático de la autodeterminación de los pueblos. El triunfo de Cataluña fortalecerá la lucha de los pueblos oprimidos en todo el mundo.

    Los trabajadores y la juventud de Cataluña deben confiar en sus propias fuerzas. Solo la lucha organizada podrá garantizar que el resultado del referéndum sea respetado.

    Los próximos días serán decisivos. El gobierno de Rajoy, probablemente con el apoyo de las potencias centrales de Europa, aumentará los ataques y la represión. Existe la posibilidad real de intervención militar.

    La lucha por la libertad de los pueblos tiene hoy en Barcelona su principal escenario de batalla. ¡Estemos todos con los catalanes!

     

  • Catalunha: só a mobilização popular garantirá a independência

    Por: Editoria Internacional

    Após o resultado das eleições alemãs que mostraram a erosão do sistema partidário tradicional daquele país, assim como o fortalecimento da extrema-direita que pela primeira vez ingressa no parlamento desde a Segunda Guerra Mundial, toda a atenção se foca no referendo pela independência da Catalunha, que ocorrerá no domingo, dia 1º. A tensão cresce, a polícia catalã que depende do governo catalão mostra sinais de não ter condições de manter a disciplina para aplicar as drásticas medidas previstas pelo governo de Madri. Por precaução, o comando da operação contra o referendo está com um coronel nomeado da Guarda Civil, que é a polícia do governo central do estado espanhol. Um deputado da esquerda no parlamento catalão favorável à independência, Benet Salellas, declarou em entrevista na TV, que os policiais catalães “devem desobedecer. Precisam se colocar ao lado das pessoas. Neste país, 80% da população disse que quer um referendo, que quer votar.” Publicamos um artigo sobre o referendo dos companheiros do MAS de Portugal, publicado em 28/09:

    Quando no passado dia 20 de setembro de 2017, o Estado Espanhol, a mando do governo do PP/Mariano Rajoy, desencadeou uma onde repressiva sobre as liberdades políticas e autonómicas da Generalitat* e do povo catalão, tentando impedi-los de decidir sobre o futuro da sua nação, o mundo abriu a boca de espanto.

    Como era possível que na Europa civilizada, afinal, se usassem métodos repressivos como prisão de elementos de um governo eleito, confiscar cadernos eleitorais e boletins de voto, tentar ocupar as sedes de um partido de esquerda, proibir manifestações de apoio ao direito de decidir, enviar milhares de polícias do Estado para a Catalunha, e um longo étecetera. Afinal a democracia, também na Europa, é só um apêndice, descartável quando seja necessário manter o poder dos mais fortes.Frente a esta escalada repressiva por parte de Mariano Rajoy e o seu corrupto PP, diga-se com o beneplácito do tradicional PSOE e do neopartido espanholista de direita Ciudadanos, os catalães saíram à rua às dezenas de milhares no mesmo instante. Enfrentando a operação policial, obrigando esta a retirar-se da maioria dos locais que ocupou, impedindo os assaltos às sedes da CUP (Candidaturas de Unidad Popular, partido de esquerda independentista catalão) e gerando uma onda de mobilização por toda a Catalunha, restantes cidades do estado espanhol, bem como em várias cidades no mundo, salvaram a possibilidade de que o referendo marcado para o próximo domingo, dia 1 de outubro, se possa realizar.

    Hoje, a incerteza de que o referendo pela independência da Catalunha se realize é uma realidade, no entanto, se se mantém essa possibilidade é porque a mobilização popular saiu à rua e é nesta que se encontra a chave para alcançar o direito a decidir e a independência. Sem mobilização muito provavelmente o governo catalão de Carles Puigdemont, do partido burguês independentista catalão PDCAT, e do seu parceiro da ERC (Esquerda Republicana Catalã), teriam recuado, aliás, nos acontecimentos daquele dia fizeram declarações em que vacilavam, mas foram obrigados a seguir em frente pela força das gentes.

    E será esta, que determinará se os Mossos d’Esquadra (polícia autónoma catalã) farão cumprir ou não a ordem do estado espanhol em não permitir a abertura dos locais de votação. Será esta que alentará o povo a ir votar. Será esta e só esta que após o 1 de Outubro permita que o processo de independência avance.

    Neste momento, a liderança política dos independentistas constituída pelo PDCAT, a ERC e as CUP está divida face ao dia seguinte. Os primeiros acordaram com o partido PODEMOS e os burgueses nacionalista bascos do PNV a possibilidade de um referendo pactado com o estado espanhol para os próximos dois anos, caso o 1 de outubro não se realize. Como será isso possível dentro de uma constituição saída do regime franquista que não permite a autodeterminação? Em 40 anos da constiruição actual espanhola só uma vez ela foi alterada, há cerca de 6 anos atrás, para quê? Para introduzir uma emenda que obriga o estado espanhol a pagar as dívidas aos bancos antes de qualquer outra obrigação. Os segundos (ERC e CUP) mantêm o que foi aprovado pela lei do referendo no Parlamento Catalão, que é que se o “Sim” vencer o referendo em 48 horas deverá haver uma declaração unilateral de independência. Mas um coordenador do PDCAT veio afirmar que em vez disso se abrirá um processo deliberativo de 6 meses.

    Uma das muitas centrais sindicais existentes na Catalunha, a CGT, já entregou pré-avisos de greve de 2 a 13 de outubro, o sindicalismo alternativo constituído por sindicatos sectoriais e regionais, decidiram marcar um dia de greve geral, mas ficaram de fora as principais CCOO (Comisiones Obreras) e a UGT, que na verdade têm uma grande aversão ao processo independentista. O exemplo dos estivadores de Barcelona em não realizarem trabalho de estiva nos barcos enviados pelo governo espanhol com efectivos e material policial terá que se multiplicar.

    Não há caminho alternativo, mobilizar, mobilizar e mobilizar. O regime do estado espanhol saído do mal chamado processo da Transição de 1978 não permite consultas de autodeterminação muito menos a desvinculação pactada. A burguesia espanhola sabe que a independência da Catalunha será o fim desse regime, porque logo atrás virá o País Basco e a Galiza.

    Assim, tão importante como a realização do referendo, garantir o direito a decidir no dia 1 de outubro e ir votar “SIM”, são os dias seguintes. Não afrouxar na luta por uma República Catalã que tenha na habitação, saúde, educação, segurança social e emprego para todas e todos elementos determinantes na sua constituição.

     

    Nota

    * Sistema institucional de administração autonómica da Catalunha constituído pelo Presidente do Governo, Governo e Parlamento

  • Alemanha: SPD – Uma oposição a fingir

    Por Antonio Louçã, Lisboa/Portugal
    
    

    Os dois partidos do Governo federal alemão foram os mais castigados pelo eleitorado. A política neo-liberal, de repetir sempre a mesma cassette, e impor mais do mesmo, alimentou um salto espectacular da extrema-direita.

    Entre os dois, o mais castigado foi o SPD. De nada lhe serviu substituir os seus dirigentes mais queimados no Governo por um Martin Schulz que andara pela Europa e fora poupado ao odioso da governação. Em muito pouco tempo, extinguiram-se os primeiros fogachos de entusiasmo que a substituição desencadeara: na substância, Schulz não tinha para oferecer nada diferente dos seus correligionários. O candidato a chanceler que era suposto ser a “arma secreta” da política eleitoral do SPD tornou-se a face visível da sua maior derrota eleitoral desde 1949.

    Escaldado com a derrota, logo o SPD anunciou pomposamente que recusava uma nova aliança com a CDU, para não deixar a oposição nas mãos da extrema-direita. Poderá ser verdade, mas de anúncios destes está o inferno cheio. Daqui até ao Natal, que é o prognóstico “optimista” de Merkel para concluir as negociações de uma nova coligação, muita água vai correr sob as pontes.

    A chanceler já disse que quer voltar a falar com o SPD. Os outros parceiros potenciais que tem à mesa (liberais, verdes e social-cristãos) odeiam-se cordialmente uns aos outros e puxam cada um para seu lado. Um SPD que começou por recusar negociações de coligação tanto poderá manter-se nessa recusa como colher as vantagens de ter aumentado a sua cotação, por dizer que não estava interessado.

    Se se confirmar que fica de fora, não será por fidelidade a qualquer princípio (onde eles já vão, os princípios todos, para o SPD!) e sim por estratégia de recomposição eleitoral. Na verdade, nenhum abismo o separa da CDU. A política que a “Grande Coligação” esteve a fazer na última legislatura não foi inventada pela CDU e sim pelo próprio SPD, durante o Governo em aliança com os verdes, na primeira década do século – o governo de composição aparentemente mais “à esquerda” que alguma vez existiu na Alemanha do pós-guerra.

    Mas a aparência “esquerdista” desse governo serviu-lhe afinal para ser o verdadeiro iniciador da grande viragem neo-liberal. A legislação anti-laboral conhecida como “Agenda 2010” foi concebida e posta em prática pela dupla Fischer-Schröder. Com a criação do “subsídio de desemprego II”, esse Governo expropriou as poupanças de mais de quatro milhões de trabalhadores e precarizou drasticamente as relações de trabalho. A revolta de massas que na altura se ergueu contra a viragem neo-liberal foi sufocada pelos sindicatos, desesperadamente apostados em salvarem um governo que era da mesma cor.

    A política de Merkel e Schäuble só teve de prolongar, quase em piloto automático, a viragem que o SPD tinha iniciado. O fracasso da campanha eleitoral de Schulz explica-se muito mais pela sua identidade partidária com Schröder do que pela aliança governamental com Merkel. Toda a sua retórica de campanha a reclamar “justiça social” soava a falso. Todo o teatro que venha a fazer, se ficar na oposição, contra a “Agenda 2010”, será desmontável com a simples pergunta sobre a autoria desse pacote legislativo infame.

    Para combater o prosseguimento da política anti-popular, seja por uma nova edição da mesma fórmula, seja pela aliança direita-liberais-verdes, e para combater a ascensão da AfD, será necessária uma alternativa de luta, com presença social militante e com uma intervenção activa em todas as batalhas políticas.

  • Catalunha: Para derrotar a repressão e defender os direitos democráticos: convocar uma Greve Geral já!

  • A esquerda depois de Charlottesville

    Robert Greene II*  – originalmente publicado na Jacobin Mag em 09/09/2017.

    Tradução: Gleice Barros

     

    A esquerda não pode se deixar consumir pelo debate sobre antifascistas. Precisamos de um programa proativo e de uma organização paciente.

     

    Os acontecimentos de Charlottesville permaneceram nas manchetes nas últimas semanas por diversas razões. Surpresa pela audácia da procissão de tochas dos neonazistas, simpatizantes da Ku Klux Klan e ultradireitistas em uma cidade americana, somada ao assassinato da ativista Heather Heyer durante um contraprotesto, incendiaram a cobertura inicial. A resposta abominável do Presidente Trump à tragédia e às lutas locais contra estátuas dos Confederados a manteve efervescente. E os frequentes debates obtusos sobre os méritos dos antifascistas têm jogado ainda mais oxigênio.

     

    Mas seria um erro para a esquerda americana ver isso como um ponto decisivo de mudança histórica ou confundir os portadores de tochas fascistas com uma força de massas. Ao contrário: ser consumida por debates sobre o apoio aos antifascistas em confrontos de rua contra neonazistas faz perder-se no panorama político mais geral.

     

    Os momentos pós-Charlottesville exigem mobilizações antirracistas e é encorajador que as organizações de esquerda tenham entrado em ação e visto seus números crescerem. Enfrentando-se contra a ultradireita – particularmente quando feito de forma eficaz e em massa, como em Boston – pode incentivar as pessoas que estão frustradas e desencantadas devido à administração Trump. Mas é preciso se vincular a uma organização política tangível que vá além da defesa e do simbolismo.

     

    As discussões sobre o antifascismo também são importantes. Entrevistas feitas com contra-protestantes nas ruas de Charlotterville deixaram claro que estes eram mais do que alegres antifascistas que estavam ali para ajudar. Na verdade, Cornel West lhes agradeceu por terem salvo sua vida.

     

    Mas o debate sobre o antifascismo não pode estar no centro da discussão política de esquerda. Estou menos preocupado em ser assassinado por neonazistas do que com a falta de acesso a um sistema de saúde de qualidade. Estou mais preocupado com a restrição dos direitos políticos e o perigo que isso causa à democracia hoje e no futuro do que com a simples dano representado por uma estátua confederada. Isso não é ignorar o esforço em derrubar estátuas confederadas. O que está nos espaços públicos comuns, afinal, precisa representar o tipo de país que queremos que os Estados Unidos sejam. Mas não podemos permitir que este conflito obscureça nossa visão.

     

    Resumindo, as lições pós-Charlottesville são as lições que deveríamos ter aprendido mais cedo neste ano. Não podemos simplesmente reagir a Trump e à alt-right. Ser proativos, avançar em um programa claro que possa mobilizar e galvanizar uma faixa ampla do povo – esta deve ser a característica da esquerda americana. Caso contrário, a raiva genuína contra Trump e o partido republicano será perdida e desperdiçaríamos nossa chance de construir um tipo de esquerda com bases amplas que, ao final, é o melhor bastião contra a ultradireita.

     

    A política que precisamos

     

    A maioria da base da plataforma da esquerda que precisamos já está pronta, esperando para ser usada para estimular debates e ações genuínos na sociedade americana. Dois pontos em particular deveriam encabeçar a agenda da esquerda.

     

    O primeiro é a assistência de saúde universal: Medicare para todos. A oferta arbitrária dos republicanos em eliminar a Affordable Care Act [Lei de Saúde Acessível – em tradução livre] mostrou que mesmo uma versão extremamente defeituosa de cobertura “universal” ainda é popular suficiente para evitar tentativas de revogação. Agora, de acordo com recente pesquisa, o apoio popular ao sistema de cobertura dos gastos de saúde pelo governo, financiado pelos impostos (o chamado sistema single-payer – NT) está crescendo. Mesmo democratas centristas, como Kamala Harris, estão declarando apoio. Depois de décadas de luta, a cobertura universal está, senão na esquina, pelo menos em um horizonte próximo.

     

    Crucialmente, a demanda pelo Medicare para todos também oferece um sentido para construir laços de solidariedade. Como o escritor de Atlantic, Vann R. Newkirk, recentemente apontou, Martin Luther King Jr. e outros ativistas dos direitos civis viram a cobertura de saúde universal como um componente crítico para sua luta por uma sociedade justa e igualitária. O mesmo é verdade hoje. Entre os movimentos – seja pelas vidas negras ou pelo salário mínimo de quinze dólares [por hora] ou pelo direito dos imigrantes – a assistência médica universal é uma demanda que unifica.

     

    Existe outra razão para priorizar o impulsionamento por assistência médica universal. Organizações de ultradireita, como o partido dos trabalhadores tradicionalistas, começaram a fazer propostas a brancos pobres em locais como Appalachia com conversas sobre empregos e acesso à saúde de qualidade. Não podemos permitir que uma tendência a favor da saúde de qualidade ou um argumento a favor de bons empregos, sejam usados como uma porta o fascismo.

     

    Direitos eleitorais universais deveriam ser a segunda demanda para qualquer plataforma imediata de esquerda. Nosso sistema político e econômico não pode ser mudado, radicalmente e no longo-prazo, por meio de eleições. Mas um número incontável de pessoas está sendo atingido pelo sistema que existe hoje e um aumento substancial na participação de eleitores é um pré-requisito para vencer em reformas que irão melhorar a vida dessas pessoas em curto prazo.

     

    Os conservadores entendem a importância de direitos eleitorais. Em anos recentes, diversos estados controlados pelo partido republicano têm aprovado leis que restringem direitos políticos, seja por meio de requisitos de identificação ou prazos mais curtos para registro de eleitores.  Eles sabem que uma menor e desmoralizada base eleitoral torna mais difícil eleger candidatos de esquerda.

     

    No passado, a era Populista dos anos 1890 parou em parte por conta das Leis Jim Crow e as novas constituições estaduais no Sul que limitaram severamente os direitos eleitorais para afro-americanos (e muitos brancos pobres também). Pelo contrário, o surgimento de uma forte base eleitoral no Norte urbanizado, que incluiu sindicalistas e afro-americanos, impulsionada pelo avanço do New Deal,  deu à social democracia na América algumas de suas mais antigas e importantes vitórias – apesar da oposição dos republicanos conservadores e democratas sulistas.

     

    Mais recentemente, resultados em nível local comprovaram o poder duradouro de um eleitorado mobilizado. As vitórias de Chokwe Lumumba em Jackson, no pleito de prefeito do Mississipi e Khalid Kamau em South Fulton, na eleição da Câmara de Vereadores, foram possíveis pela presença de ativistas políticos de esquerda em campo. O fato que estas vitórias ocorreram no interior sulista e com larga participação política de afro-americanos também desmente concepções comuns sobre o que a Esquerda aparenta ser e onde pode competir.

     

    Lumumba e Kamau reuniram pessoas onde estavam, enquanto também esboçaram uma visão reflexiva. O que me traz a outra parte importante das ferramentas da esquerda pós-Charlottesville: educação política.

     

    O debate sobre monumentos e bandeiras confederadas é a oportunidade perfeita para mudar o pensamento americano não apenas sobre o mundo em que vivemos, mas em que tipo de mundo podemos viver se a esquerda tiver a oportunidade de governar. Além de considerar quais estátuas derrubar, poderíamos discutir quais estátuas colocar em seus lugares. Porque não ter mais monumentos, por todo o país, dos batalhões compostos majoritariamente por negros (e também povos indígenas) dos Estados Unidos ou de Harriet Tubman? Mas não devemos apenas falar sobre estátuas e história pública, por mais importantes que sejam para moldar os debates futuros sobre o destino do país.

     

    A educação política deve atingir um número superior de americanos, para expandir sua concepção do que é possível e aprender como enxergar o mundo. Educação de esquerda, acima de tudo, deveria ser uma via de mão dupla. Pode ter várias formas – desde um estande em um evento comunitário ou organizar um seminário em uma sede de um sindicato para simplesmente assegurar que organizações socialistas estão abertas ao público, o quanto for possível.

     

    Exemplos de educação política, como as que descrevi, já existem. Em meu estado adotivo, Carolina do Sul, o SC Progressive Network oferece anualmente a Escola Modjeska Simkins” para ativistas iniciantes. Nomeado em homenagem a um dos maiores defensores dos direitos humanos, o seminário ensina história assim como táticas de protesto e ativismo. Outro esforço educacional como esse pelo país, são os netos espirituais da Escola Highlander Folk nos anos 1930, 40 e 50.

     

    Finalmente, protestos massivos contra a supremacia branca continuarão a ser táticas cruciais para avanço. O ato em Boston no último mês, onde um punhado de neonazistas se depararam com trinta mil contra-protestantes, foi uma enorme vitória para os progressistas e a esquerda e demonstrou o poder da solidariedade profunda e publicamente.

     

    Mas tais ações devem também ser atreladas a tipos de programas e táticas políticas acima – usando-as como oportunidade não somente para reunir todos aqueles que se opõem à supremacia branca, mas para falar com as pessoas sobre as formas que a guerra de classes vinda dos poderosos, a de gênero, a discriminação racial e o revanchismo político, atingem virtualmente todos diariamente.

     

    Não podemos deixar que narrativas sobre “brancos pobres” determinem o discurso sobre o racismo na sociedade americana. Os supremacistas brancos que marcharam em defesa da estátua de Robert E. Lee incluem muitos brancos ricos e com ensino superior que não teriam escrúpulos ao destruir as vidas dos brancos americanos pobres. Eles também destroem as vidas e aspirações de afro-americanos, judeus, latinos, imigrantes e da comunidade LGBT.

     

    Ao desafiar estas narrativas e vinculá-las a demandas concretas para um futuro melhor, podemos alcançar pessoas que se uniram por Charlottesvile mas não sabem o que fazer a seguir.

     

    Freando a supremacia branca

     

    Estas recomendações não são politicamente populares. Não parecem ser o material da revolução. Mas são materiais que, necessariamente, melhoram as condições políticas para um futuro próximo – que devem ser feitas antes de podermos trabalhar para mudanças mais transformadoras. Educação política, por exemplo, será crucial para ressuscitar o movimento trabalhista, para evitar mais derrotas como as sofridas pelas campanhas de sindicalização do sindicatos dos motoristas da planta da Boeing em Charleston, Carolina do Sul ou da planta da Nissan em Canton, Mississipi.

     

    Uma esquerda forte expande a esfera pública, oferece uma concepção mais ampla do que é possível atingir politicamente. Oferece às pessoas uma política não de bode expiatório ou de austeridade, mas uma saúde pública universal e uma atuação democrática. Historicamente, é o antídoto mais poderoso para combater a ultradireita.

     

    Mas também devemos lembrar que a vitória nas batalhas de rua não é igual a uma vitória política duradoura.  Nem, por outro lado, ver um parlamento democrata em 2018 ou um democrata na Casa Branca em 2020 é a medida final da vitória. Os problemas da América de Trump são, sem surpresa alguma, bem parecidos com os problemas da América de Obama. E da América de Bush. E da América de Clinton.

     

    Uma esquerda efetiva pós-Charlottesville terá que se preocupar, como sempre, com um plano a longo prazo e uma organização paciente. Esta é a única forma que finalmente interromperá o retorno de políticas de ideologia branca – a única ideologia política que sempre esteve realmente no poder na América.

     

    * Robert Green II é estudante em PhD na Universidade da Carolina do Sul e editor-revisor para o blog da Sociedade de Historiadores Intelectuais dos Estados Unidos.