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  • Conservadores e Social Democratas prestes a formar novo governo na Alemanha

    Por Victor Wolfgang Kegel Amal, de Berlin/Alemanha


    Após quase 6 meses de impasse político na Alemanha, os dois principais partidos do país, a Democracia Cristã (CDU) e a Social Democracia (SPD), lançaram no dia 6 de fevereiro um acordo para formar nova “grande coalizão” (Groko). Porém, o acordo ainda precisa ser ratificado em votação pelos 460 mil membros do SPD, que está divido sobre a repetição de uma coalizão com os conservadores.

    Eleições 2017    e o fracasso da coalizão Jamaica      
    Desde as eleições parlamentares de setembro de 2017 a Alemanha encontra-se sem governo. Já são quase 6 meses de impasse, o mais longo desde o fim da Segunda Guerra Mundial (1945).

    No ano passado, a CDU e a sua seção bávara, a CSU, obtiveram seu pior resultado na história do pós-Guerra: 33% dos votos, 8,5% à menos que em 2013. Isto ocorreu também com o SPD, em escala ainda pior, chegando a meros 20,5%, uma queda de 5,2% em relação à eleição passada, demonstrando mais uma vez a crise dos partidos tradicionais do país.

    Boa parte dos votos perdidos pelos partidos do establishment alemão foram para a Alternativa para a Alemanha (AfD), novo partido de extrema-direita que estreia neste ano no Bundestag (parlamento) com 12,6% dos votos, tornando-se a terceira força política nacional e assim o principal partido de oposição.

    Nesse contexto de derrota avassaladora da Social Democracia, seu presidente, Martin Schulz, anunciou logo após as eleições que não negociaria uma nova grande coalizão com Merkel. A CDU e o SPD formaram as chamadas “grandes coalizões” entre 2005 e 2009 e 2013 e 2017, fato considerado chave para a derrota do partido nas eleições passadas.

    Isto fez com que Merkel fosse obrigada a negociar uma coalizão inédita com o Partido Liberal Democrata (FDP) e o Partido Verde, que obtiveram respectivamente 10,7% e 8,9% dos votos. A Die Linke, partido de esquerda radical, obteve 9,2% e tanto eles próprios quanto a CDU sequer cogitaram abrir negociações.

    Contudo, em dezembro do ano passado, a chamada coalizão Jamaica (pelas cores preta da CDU, amarela da FDP e verde dos Verdes) fracassou devido à saída unilateral do FDP das negociações. Os liberais participaram entre 2009 e 2013 de uma coalizão com Merkel e, nas eleições de 2013, não chegaram a 5% dos votos e ficaram de fora do parlamento (5% é a cláusula de barreira para um partido obter representação parlamentar na Alemanha). Para o FDP, isso se deveu à capitulação do partido em vários pontos de seu programa para os conservadores, fato que os fez serem mais duros nas negociações deste ano e aproveitar confortavelmente seu lugar na oposição durante os próximos 4 anos.

    Negociações para a Groko e a crise no SPD        

    Após o colapso da coalizão Jamaica, em dezembro, Merkel tinha três opções: 1) um governo de minoria da CDU, que significaria na prática o não governo (hipótese majoritariamente descartada); 2) novas eleições; 3) nova Groko com o SPD. Neste ponto, as pesquisas de intenção de voto apontavam que, caso ocorressem novas eleições, a CDU cairia para 30% dos votos e o SPD para 17%, enquanto a AfD chegaria aos 15%. Portanto, este segundo cenário também não era o desejável para ambos os partidos.

    Dada a paralisia política que envolveu o país em dezembro, houve grande pressão do empresariado alemão e da União Europeia para que Martin Schulz revisse sua posição contrária à negociação de uma nova grande coalizão. Dito e feito, as negociações iniciaram-se no início de janeiro e, ao final do mês, a CDU e a CSU comunicaram um pré-acordo com o SPD. Posteriormente, o pré-acordo foi levado à votação em congresso extraordinário da Social Democracia e, em um placar muito apertado, o voto favorável à grande coalizão venceu por 362 delegados a 280, muito menos do que esperava a direção majoritária do partido.

    Isto se deveu, principalmente, à oposição ferrenha dos Jusos (Jovens Socialistas). Segundo eles, uma nova grande coalizão faria com que a extrema direita (AfD) ocupasse o posto de principal partido da oposição, gerando assim, seu crescimento inevitável nas eleições seguintes. Afinal, foi a coalizão com os conservadores que fez o partido afundar em sua pior votação desde a Segunda Guerra.

    Outro ponto levantado pelos Jusos, e que obteve repercussão em setores tradicionais do partido, é que o acordo não contemplava as principais pautas do SPD para as eleições: 1) integração da UE via Orçamento Comum Europeu, rumo aos Estados Unidos da Europa em 2025; 2) investimento em pensões, plano de saúde, educação e infraestrutura; 3) revisão parcial da reforma trabalhista neoliberal (Agenda 2010) feita pelo próprio SPD nos anos 2000 durante o governo Schroeder; 4) aumento da cota de recebimento de refugiados e direito dos residentes trazer suas famílias para a Alemanha. No pré-acordo, Schulz capitulou gravemente nos 4 pontos, e a pequena margem de vitória no congresso refletiu isso.

    Contudo, nas negociações seguintes, Schulz utilizou o argumento de que se os conservadores não recuassem em diversos pontos do pré-acordo, ele próprio não conseguiria convencer seu partido a votar pela Groko, pois o acordo final ainda deverá ser ratificado pelo partido. Contudo, a votação não será feita através de representação por delegados, como a anterior, mas diretamente pelos 460 mil membros, fato que torna a situação ainda mais sensível.

    O acordo final   

     

    Temendo a humilhação política de fracassar na segunda tentativa de montar uma coalizão, Merkel decidiu capitular em diversos pontos chave de seu programa para a Social Democracia, gerando grande surpresa no mundo político alemão ao lançar a plataforma de governo no dia 6 de fevereiro.
    A capitulação de Merkel se manifestou, em primeiro lugar, na composição dos ministérios. Enquanto a CDU permanece com a chancelaria e 5 ministérios, a Social Democracia obterá as pastas de 6 ministérios, incluindo 3 dos mais estratégicos: Finanças, Relações Exteriores e Trabalho. O principal ministério da CSU será o de Interior, o que lhe permitirá uma fiscalização mais rígida dos refugiados, sua principal pauta nas negociações.

    Sobre a pauta social democrata do combate à desigualdade, foi acordado que o superávit de 46 bilhões de euros do país será diretamente investido em programas sociais, assim como 2 bilhões serão utilizados para a construção de 1,5 milhão de novas moradias populares. As aposentadorias irão subir para 48% da contribuição, além de aumento para as mulheres e a regularização para pessoas com contratos terceirizados ou de meio período. Além disso, o imposto da solidariedade, criado após a reunificação em 1991 para reconstruir a Alemanha Oriental, será abolido apenas para pessoas de baixa renda.

    Em relação à União Europeia, foi decidido que o governo será favorável à transformação do Mecanismo de Estabilidade Europeu, orçamento para auxiliar o pagamento de países endividados, em Orçamento Comum Europeu. Ou seja, o ônus e o bônus do planejamento fiscal dos países integrantes do orçamento será compartilhado, incluindo a nomeação de um Ministro da Fazenda Europeu. Esta foi uma das grandes surpresas da negociação, pois a maior parte dos conservadores é radicalmente contrária à integração fiscal, por julgar que terão de “pagar a conta” de países atingidos pela crise da dívida, como a Grécia. Outros países da EU como Áustria e Holanda, governados por partidos de direita conservadora, já se manifestaram também contrários à inciativa social democrata.

    O ponto em que a CDU e a CSU se mostraram mais relutantes em recuar foi em relação ao endurecimento da política para os refugiados. Isto se deveu ao fato de que o partido irmão bávaro da Democracia Cristã, a CSU, tinha basicamente como pauta única a restrição da vinda de refugiados ao país para o máximo de 180 a 220 mil por ano; limite de repatriação de familiares para 1000 por mês; e reconhecimento do Marrocos, da Argélia e da Tunísia como destinos “seguros” para deportação de refugiados ilegais (dando continuidade ao projeto de disseminar verdadeiros campos de concentração para refugiados no Magreb). O SPD, depois de tantas vitórias, pouco se importou com a questão dos refugiados e consentiu calado.

    Crise nos partidos tradicionais  

     

    Apesar de as negociações terem se encaminhado e, inclusive, de forma favorável à Social Democracia, não é evidente e nem seguro que seus 460 mil membros irão votar favoráveis à nova grande coalizão no final deste mês. De um lado, Sigmar Gabriel, um dos principais chefes do partido, declarou publicamente descontentamento com Martin Schulz por ter anunciado que ele próprio irá liderar o Ministério de Relações Exteriores ao invés de conceder novo mandato a Gabriel (que esteve à frente da pasta entre 2013-2017). Este fato gerou enorme crise no SPD por Schulz ter anunciado que não formaria parte do governo, fato que o levou a abandonar a decisão de liderar o ministério depois da chuva de críticas.

    Por outro lado, os Jusos estão em plena campanha na base social democrata para que seus membros votem contra a nova grande coalizão. Inclusive, adotaram uma estratégia parecida com a esquerda inglesa que chamou a população a se filiar ao Partido Trabalhista para votar em Jeremy Corbyn e derrotar o setor direitista na disputa pela presidência do partido. Agora, os Jusos estão chamando a população em geral, insatisfeita com a perspectiva de uma nova grande coalizão, para que se filiem ao SPD e votem contra o acordo. Estima-se que entre 20 e 30 mil pessoas já se filiaram desde o começo da campanha dos Jusos. O resultado final da votação, que ocorrerá nas próximas semanas, será divulgado no dia 4 de março.

    E a crise não se restringiu ao SPD. Merkel, que é alvo de contestações pelo setor conservador do partido desde a sua política de abertura das fronteiras para os refugiados em 2015, encontra-se agora ainda mais isolada. De acordo com seus críticos, o jovem Jens Spahn e o “carrasco da Grécia” Wolfgang Schaueble, a CDU tomou um caminho liberal e próximo à social democracia durante os governos Merkel, cuja consequência disso foi o fortalecimento da AfD.

    Portanto, dada a crise de ambos os partidos, é crível que em breve haja uma radicalização tanto da CDU, via seus representantes conservadores, quanto do SPD, via Jusos. Este fato é central para a política europeia pois a Alemanha portava a figura de imune a “extremismos” e bastião da ordem liberal europeia. Contudo, é certo que, caso a nova Groko seja confirmada, a tendência é de acirramento e polarização ainda maior na sociedade alemã.

  • With Boulos, MTST and PSOL – no fear of change in Brazil

    This editorial was published in the 6 of February

     

    The right-wing huge demonstrations of 2015 and 2016 had a brutal impact on the Brazilian national context. It is impossible to forget those thousands on the streets, raging against anything related to the left or social policies, in a process that culminated with the impeachment of Dilma Rousseff.

    The pro-impeachment demonstrations with their green and yellow tones marked the turn of the situation open from June of 2013. The coup, with no tanks in the streets delivered, in a year and few months, important setbacks to the Brazilian working class. A law limiting even more the public spending budget has been approved, directly impacting areas such as health, education and social investments.  A labour reform attacked rights achieved over the last century, increasing the precarization of the working conditions. Privatisation of strategic assets, as the pre-salt oil reserves. The agony of unemployment is the symbol of today’s Brazil, an increasingly unequal country.

    In the face of the political crisis, reactionary characters appear as an alternative for the middle class and, unfortunately, part of the working class and youth: Bolsonaro, Sergio Moro, Doria and MBL, and now Luciano Huck, are some expressions of retrogression. Of course, one of our most important tasks is to defeat those players.

    Unfortunately, Lula and the PT do not go beyond the narrow limits of the establishment. Even worse, they are still trying to reach out their hands to the “market”. In the second phase of the coup, before the conviction without any evidence of Lula (even with him leading the polls), they say: “Calm down! Let’s win at the ballots.” The bourgeoisie broke up with PT, but definitely PT hadn’t broken up with the bourgeoisie.

    It is very clear that the “fat cats” are not joking. It is also clear that, with PT, it is not possible to resist properly, until the end. For that reason, on the day of Lula’s illegitimate conviction, the FPSM (People’s Front with No Fear, in a free translation) took the most radical stance against the coup.

    Within the framework of such offensive, we tirelessly defend the unity of all left and working-class forces to face the coup. There is, however, another urgent necessity: the building of a political alternative that begins the process of overcoming PT, without refusing to dialogue with those who still hold hopes in Lula and his party. A political alternative that does not repeat the mistake of governing with businessmen and bankers. An anti-capitalist alternative, supported by the struggles and resistance of Brazilian people.

    Important struggles took place to face the Coup. During those struggles, we could see this political alternative springing up. The working class has made a historic general strike which, despite the subsequent vacillation of their leaderships, showing strength and being able to delay the neoliberal pensions reform.

    It was facing the coup that PSOL became the party with the biggest growth in the recent years, even facing the discredit of politics and the huge attack from the mainstream media against the left. It was facing the coup that we could see the growth of a social housing move that has become an example of resistance, the MTST. It was from the heart of that struggle that has been built a political platform with the suggestive name of “Vamos! (Let’s Go!) Without the fear to change Brazil! “. Vamos! is not a finished program for the Brazilian revolution, but presents an important anti-capitalist answer for the crisis.

     

    That is the reason why we defend an alliance of MTST with PSOL also for the 2018 presidential elections. This political alliance must be the unification of what is most advanced in the social struggle with the most dynamic pole of the political reorganization on the left. All organizations and parties of the socialist left should join this process on a political front.

    Guilherme Boulos, leader of MTST, is in the best position to express a radical alternative to those who, with their own hands, seek to secure their achievements with social struggle. An alternative able to dialogue and reach the people of the poorest peripherical areas of the country, with the oppressed, with several layers of the people and the working-class.

    We are convinced that the PSOL and MTST supporters, along with the thousands of activists who will take this campaign to the streets, will have the courage and firmness to defend an anti-capitalist program. Certainly, we will go to the point, in defence of a radical alternative for the social and political crisis. We will defend the immediate repeal of the Temer reforms, the urgency of urban and agrarian reform, debt auditing, taxation of big fortunes, and the nationalization of privatized companies. This unity points to overcoming the mistaken idea that we can only govern in alliance with the bourgeois parties, the businessmen and landowners.

    Boulos is not “politics as usual”, because he is the leader of a movement that has resorted to the mobilization of thousands to conquer its positions. The MTST occupies lands destined to the real estate speculation in big cities. He is often criminalized for his actions, such as locking up motorways, and occupying lands and empty building, besides street acts.

    There is more “socialism” in the actions of thousands struggling for housing than in ultra-radical statements unable to move the workers. Mass mobilizations are an example of which nothing replaces the social struggle of millions to challenge the establishment. Ideas have transformative power only when they inspire a willingness to struggle to change the world.

    Given the need to face the right-wing and the historical incapacity of PT to fulfil that role, the socialist left needs to speak beyond its current limits. Without giving up the program, we must build the landscape for it to be heard. We must try to move the wheel, make history spins in a progressive direction. The candidacy of Guilherme Boulos points to a significant reorganization in the left. It can improve the presence of PSOL with broader audiences, with the most exploited and oppressed sectors of our class. It can expand PSOL beyond its own walls.

    We respect the deciding structures of MTST and PSOL, and will wait for their definitions. Now, however, we affirm that, with great effort, energy and, despite the difficulties that we face in the current situation, with great joy, we will chant: “People without Fear, with Guilherme Boulos President.” We want to build this new political alternative, which does not allow reconciling the interests of the homeless with those of Odebrecht, the landless with Katia Abreu (landowner representative), the oppressed with Eduardo Cunha (corrupt conservative politician), the workers with the bankers. We will go on, “Vamos!”, with no fear!

     

  • A estratégia do Syriza na Grécia

    Por Tiago Castelhano, `Portugal

    Artigo publicado originalmente no site do MAS de Portugal

    No passado dia 15 de janeiro, o Governo Syriza/Anel aprovou mais um conjunto de medidas de austeridade que lhe foram solicitadas pelas instituições europeias (UE/BCE) e o FMI. O Governo do Syriza/Anel como bom aluno que se tornou acedeu ao pedido.

    Uma das medidas aprovadas é a alteração à lei da greve que visa dificultar a convocação de greves. Isto porque as greves convocadas a nível local passam a requerer um quórum de 50% +1, em vez de um terço dos trabalhadores sindicalizados. Na verdade, trata-se de uma lei anti greve.Saliento esta medida de forma simbólica pelo passado do Syriza. Este é um partido com tradição no movimento de trabalhadores e que era constituído essencialmente por sindicalistas, trabalhadores(as) e jovens. Esta medida demonstra simbolicamente como o Syriza há muito passou para o outro lado da trincheira na luta de classes.

    É aqui que se coloca as questões: A estratégia que o Syriza adotou era a única possível? A estratégia da esquerda de aliar-se a partidos da classe dominante e às suas instituições é correta?

    Não nos parece. A história provou que não existe futuro para organizações de esquerda que não tem claro qual é a sua estratégia. O caminho do mal menor e da conciliação das classes é uma estratégia que tem condenado ao fracasso a construção de uma verdadeira alternativa à esquerda.

    O Syriza começou mal o caminho quando se coligou com um partido burguês (Anel). Além disto, toda a sua estratégia foi concebida com o intuito de manter a Grécia dentro da zona euro “custasse o que custasse” e em parceria com as instituições europeias e o FMI. Tirando os primeiros 6 meses em que o Governo Syriza/Anel tentou negociar – embora dentro dos marcos da zona euro – não assinando de cruz logo o que lhe iam propondo. A partir do referendo que se realizou no Verão de 2015 e em que o povo grego disse não ao acordo – já de si muito mau para a Grécia – o Syryza fez o contrário do votado. Contudo, esta decisão foi consequente com a sua estratégia de conciliação de classes e respeito pelos seus credores. Esta estratégia não poderia dar em outra coisa do que na total capitulação às instituições europeias e ao FMI e na consequente quebra das promessas que tinha apresentado ao povo grego.

    O recuo do Governo é tão gritante e humilhante que Alexis Tsipras, recentemente, em entrevista ao Diário de Noticias, chega ao ponto de salientar como grande diferença, entre os Governos anteriores (Nova Democracia e do PASOK) e o seu Governo, o timing quando é assinado o acordo: “Tivemos pela primeira vez umas eleições depois de um difícil acordo. Os anteriores governos decidiram sempre fazer os acordos só depois das eleições. Nós fizemos o oposto.”

    A estratégia de conciliar os interesses antagónicos da classe dominante e dos trabalhadores(as) gregos(as) teve como consequência a aplicação de duros programas de austeridade – com cortes nas pensões, flexibilização do mercado de trabalho, privatizações etc. – que em nada diferem dos aplicados pelos Governos anteriores da Nova Democracia e PASOK.

    A estratégia seguida pelo Syriza está bastante clara no recente livro intitulado “Comportem-se como adultos” de Varoufakis. Este saiu do Governo em julho de 2015 e demonstra claramente que a estratégia era chegar a acordo com os credores para manter a Grécia dentro da zona euro. Apesar deste se tentar demarcar de Tsipras afirmando que entre a capitulação ao memorando e a saída da zona euro preferia a última. O problema é que a lógica de raciocínio que Varoufakis e o Governo levaram a Bruxelas era equivocada, porque partia da premissa de fazer “tudo por tudo” para entrar em acordo com os credores, ou seja, com a burguesia. A perspetiva nunca foi apoiar-se no lado de cá da barricada, ou seja, na força e luta dos trabalhadores gregos e europeus. A perspetiva sempre foi que as instituições da classe dominante (UE, BCE e FMI) cedessem em algum ponto e que se continuasse a pagar uma dividia impagável aos credores. Ao invés a estratégia da burguesia foi clara desde o início, esmagar o povo grego. Não fazer qualquer concessão, ou seja, não negociar. Os credores sabiam bem qual a sua estratégia e apoiaram-se no seu campo, ou seja, nas diferentes burguesias para destruir a ousadia do povo grego. Ao Syriza faltou adotar a estratégia de confiar apenas e só na força e luta dos trabalhadores e apontar uma saída a favor dos interesses dos trabalhadores que passaria pela saída da zona euro e pela suspensão do pagamento da dívida. Não é possível adotar uma política que defenda os interesses de classes diferentes (trabalhadores e burguesia). O Syriza aptou pelos interesses da burguesia.

    E é assim que chegamos ao ponto de um partido de tradição operaria e trabalhadora aprovar uma medida anti greve. A aparente contradição é na verdade a consequência das iniciais opções contranaturas do Syriza de se aliar a um partido de direita (Anel) e à UE e FMI na aplicação do programa destes, abandonado o seu.

    O resultado é a adaptação do Syriza a mero gestor do capitalismo, não existindo atualmente grande diferença entre o Syriza e por exemplo o PASOK. Assim fica colocada a possibilidade de a direita (Nova Democracia) voltar ao poder nas eleições 2019, pelo menos é o que indicam as sondagens. Em resumo, a estratégia de conciliação de classes adotada pelo Syriza nada mais fez do que desmoralizar a esquerda em todo o mundo e sobretudo na Europa e fortalecer a direita.

  • Palestina/Israel: E se Ahed Tamimi fosse sua filha?

    Por Editoria Internacional: A prisão da jovem palestina de 16 anos, Ahed Tamimi, continua despertando indignação pelo mundo afora. Porque ocorreu em frente às câmeras, por um ato de resistência elementar contra soldados de ocupação que novamente violavam seu lar e prendiam seus parentes. O artigo, publicado no jornal Haaretz, foi escrito por Gydeon Levy, que é uma das poucas vozes entre os judeus israelenses que se levantam contra as barbáries realizadas contra os palestinos. É preciso ressaltar que o jornalista teve uma evolução política muito particular e rara, tendo transitado do sionismo mais tradicional a posições de denúncia da opressão dos palestinos e de apoio ao BDS contra Israel. O próprio artigo é uma condenação entristecida do grau de degeneração racista de sua sociedade. Nestes dias, mais um fato relevante: depois de vários anos, ocorreu a maior deserção coletiva de jovens israelenses que se negam publicamente a servir no exército de ocupação de Israel, com todas as consequências práticas, laborais e de ostracismo social que significa em uma sociedade baseada na opressão sistemática de outro povo.

    Foto: Ahed Tamimi, sendo escoltado pela polícia israelense no presídio de Ofir, na Palestina ocupada. Créditos: Ammar Awad/Reuters

    Como é que os israelenses estão totalmente indiferentes ao sofrimento da garota loira atrás das grades que poderia ser facilmente sua filha?

    Nas últimas duas semanas, ela apareceu nas salas de estar dos israelenses todos os dias por meio de informes superficiais sobre a extensão de sua detenção. Novamente, vemos seus cachos dourados; outra vez vemos a figura [ao estilo de pinturas] de Botticelli vestida com o uniforme marrom do serviço de segurança (o Shin Bet) e as algemas, parecendo mais uma garota de Ramat Hasharon do que uma de Nabi Saleh.

    Mas nem mesmo a aparência “não árabe” de Ahed Tamimi conseguiu tocar os corações por aqui. O muro de desumanização e demonização que foi construído por meio de campanhas de incitamento, propaganda e lavagem cerebral contra os palestinos triunfou inclusive contra a loira de Nabi Saleh.

    Ela poderia ser sua filha, ou a filha de um vizinho, mas o abuso que ela sofre não desperta sentimentos de solidariedade, compaixão ou humanidade básicos. Após a explosão de ódio pelo fato de ela ter tido a audácia de fazer o que fez sobreveio a impenetrabilidade. “Ela é uma terrorista”. Ela não poderia ser sua filha; ela é uma palestina.

     

    Ninguém se perguntou o que teria ocorrido se Tamimi fosse sua filha. Vocês não estariam orgulhosos dela, como seu pai, que, em um artigo de opinião que merece respeito, verbalizou esse orgulho? Vocês não teriam desejado uma filha como essa, que trocou sua juventude inexistente por uma corajosa luta pela liberdade? Ou vocês teriam preferido que sua filha fosse uma colaboradora? Ou que fosse uma cabeça oca?

     

    E o que vocês teriam sentido se os soldados de um país estrangeiro tivessem invadido sua casa de noite, sequestrado sua filha de sua cama perante seus próprios olhos, a tivesse algemado e detido por um período prolongado, simplesmente porque deu um tapa no soldado que invadiu sua casa, e deu um tapa na ocupação, que merece bem mais do que tapas?

    Essas perguntas não incomodam a ninguém. Tamimi é uma palestina, ou seja, uma terrorista, e, portanto, não merece nenhum sentimento de empatia. Nada irá romper o escudo defensivo que protege os israelenses dos sentimentos de culpa, ou pelo menos de desconforto, a respeito de sua prisão absurda, sobre a discriminação feita pelo sistema judicial, que nunca teria prestado nenhuma atenção a ela se ela fosse uma colona judia.

    Mesmo a mão independente do juiz, o Major Haim Balilti, não tremeu quando determinou que o “perigo” colocado por Tamimi, uma moça desarmada de 16 anos, justifica sua detenção prorrogada. O juiz, também, é somente uma peça na máquina, alguém que realiza seu trabalho e retorna para suas filhas e filhos à noite, orgulhoso de seu dia de trabalho desprezível.

    Israel se esconde atrás de uma cortina de ferro que não é mais possível furar. Nada do que Israel faça aos palestinos é mais capaz de produzir qualquer compaixão. Nem mesmo a garota-propaganda, Tamimi. Mesmo se ela fosse sentenciada à prisão perpetua por um tapa, mesmo se fosse condenada à morte, sua punição seria recebida com clara alegria ou com indiferença. Não há lugar para qualquer outra emoção humana com relação a qualquer palestino.

     

    As organizações que representam os deficientes físicos, que travaram uma impressionante batalha por seus próprios direitos, não emitiram um pio quando um atirador de elite do Exército de Israel matou um homem com deficiência física, com as duas pernas amputadas, na Faixa de Gaza, com um tiro na cabeça. As organizações de mulheres, que lutaram energicamente contra qualquer assédio sexual ainda precisam se levantar com indignação contra o encerramento de um caso de uma presa palestina que alegou ter sido estuprada por um Policial de Fronteiras. E os membros do Parlamento não protestaram contra a vergonhosa prisão de sua colega, Khalida Jarrar, cuja detenção sem julgamento foi novamente prorrogada na semana passada por outros seis meses.

    Se até Tamimi não conseguiu despertar sentimentos de solidariedade, choque ou culpa por aqui, então o processo de negação, encobrimento e repressão – a iniciativa mais importante da ocupação depois dos assentamentos – finalmente foi completado. Nunca houve tal horripilante indiferença por aqui, nunca o autoengano e as mentiras prevaleceram de forma tão completa em Israel e nunca houve tão poucos escrúpulos morais frente à injustiça. Nunca o incitamento tinha vencido de forma tão completa.

    Os israelenses não são mais capazes de se identificar com uma brava moça, mesmo quando ela se parece com sua filha, unicamente porque ela é palestina. Não há mais palestinos que possam tocar os corações dos israelenses. Não há injustiça que possa ainda elevar nossa consciência, que se extinguiu completamente

    Não nos incomodem; nossos corações e mentes estão impermeabilizados de uma forma aterrorizante.

  • Palestina: Carta do pai de Ahed Tamimi – Minha filha, estas são lágrimas de luta

    Por Editoria Internacional: Carta de Bassem Tamimi, ativista palestino, pai de Ahed Tamimi, a jovem de palestina de 16 anos, presa por enfrentar corajosamente os soldados israelenses que mais uma vez invadiam sua casa. Ela representa, como diz seu pai, uma nova geração, forjada na luta cotidiana contra a ocupação, que não se atemoriza nem se rende ao colonialismo e opressão israelenses, apoiados cada vez mais pelo governo da maior potência da Terra, os EUA. É uma das últimas imagens de um ano e representa dignamente as mulheres que tiveram um enorme protagonismo nas lutas em todo o mundo. A carta foi publicada no jornal israelense Haaretz em 29/12/2017.

    “Estou orgulhoso de minha filha. Ela é uma lutadora pela liberdade que, nos próximos anos, irá liderar a resistência à dominação israelense.”

    Foto: AHMAD GHARABLI/AFP

    Esta noite, como todas as noites desde que dezenas de soldados invadiram nossa casa no meio da noite, minha esposa Nariman, minha filha de 16 anos,  Ahed e seu primo, Nur, passarão atrás das grades. Ainda que seja a primeira prisão de Ahed, ela não é uma estranha às suas prisões. Minha filha passou toda sua vida sob a pesada sombra da prisão israelense – dos meus longos encarceramentos durante sua infância, às repetidas detenções de sua mãe, irmão e amigos, até a aberta-encoberta presença de seus soldados em nossas vidas. Portanto, sua própria prisão só era uma questão de tempo. Uma inevitável tragédia esperando para acontecer.

     

    Vários meses atrás, em uma viagem à África do Sul, projetamos para uma plateia um vídeo documentando a luta de nosso vilarejo, Nabi Saleh, contra a dominação imposta por Israel. Quando as luzes se acenderam, Ahed levantou-se para agradecer às pessoas pelo seu apoio. Quando ela percebeu que alguns membros do público tinham lágrimas em seus olhos, ela lhes disse: “Podemos ser vítimas do regime israelense, mas estamos muito orgulhosos de nossa escolha de lutar por nossa causa, apesar do sabido custo. Sabíamos onde esse caminho nos levaria, mas nossa identidade como um povo e como indivíduos está implantada na luta e extrai sua inspiração dela. Além da opressão e da opressão diárias dos prisioneiros, dos feridos e dos mortos, também conhecemos o tremendo poder que advém de pertencer a um movimento de resistência; a dedicação, o amor, os pequenos momentos sublimes que provêm da escolha de destruir os muros invisíveis da passividade.

     

    “Não quero ser percebida como uma vítima, e não concederei aos atos deles o poder de definir quem eu sou e o que serei. Eu escolho decidir por conta própria como vocês me verão. Não queremos que vocês nos apoiem por causa de algumas lágrimas fotogênicas, mas porque escolhemos a luta e nossa luta é justa. Esta é a única forma para podermos parar de chorar um dia.”

    Meses depois daquele evento na África do Sul, quando ela desafiou os soldados, que estavam armados até os dentes, não foi uma fúria repentina pelos graves ferimentos sofridos pouco antes por seu primo de 15 anos, Mohammed Tamimi, o que a motivou. Nem foi a provocação daqueles soldados entrando em nossa casa. Não. Aqueles soldados, ou outros que são idênticos em suas ações e em seu papel, eram hóspedes indesejados e não convidados em nossa casa desde que Ahed nasceu. Não. Ela os confrontou porque esta é a nossa forma, porque a liberdade não é dada como caridade, e porque apesar do pesado preço, estamos dispostos a pagar por ele.

    Minha filha só tem 16 anos de idade. Em outro mundo, no mundo de vocês, sua vida seria completamente diferente. Em nosso mundo, Ahed é uma representante de uma geração de pessoas, de jovens lutadores pela liberdade. Essa geração precisa lutar em duas frentes. Por um lado, ela tem o dever, é claro, de continuar desafiando e lutando contra o colonialismo israelense em que nasceu, até o dia em que ele acabe. Por outro, precisa enfrentar corajosamente a estagnação política e a degeneração que se espalhou entre nós. Essa geração precisa se tornar o sangue novo que irá reviver nossa revolução e resgatá-la da morte vinculada a uma cultura de passividade que emergiu depois de décadas de inatividade política.

    Ahed é uma de muitas jovens que nos próximos anos irá liderar a resistência à dominação israelense. Ela não está interessada no destaque que está recebendo agora por causa de sua prisão, mas em mudança genuína. Ela não é o produto de um dos velhos partidos ou movimentos, e em suas ações ela está enviando uma mensagem: para sobreviver, precisamos encarar sinceramente nossas franquezas e vencer nossos medos.

    Nessa situação, meu maior dever – e da minha geração – é o de apoiá-la e lhe dar passagem; contermo-nos e não tentar corromper e aprisionar essa jovem geração na velha cultura e ideologias sob as quais crescemos.

    Ahed, nenhum pai ou mãe deseja que sua filha passe seus dias em uma cela de prisão. No entanto, Ahed, ninguém tem mais orgulho de você do que eu. Você e sua geração são suficientemente corajosas, enfim, para vencer. Suas ações e coragem me enchem de admiração e trazem lágrimas aos meus olhos. Mas, de acordo com o seu pedido, estas não são lágrimas de tristeza ou remorso, mas antes de mais nada lágrimas de luta.

     

     

     

    Bassem Tamimi

  • Jerusalém: Uma limpeza étnica para dispersar os palestinos da cidade

    Artigo traduzido de Alencontre.org por Caio Dias Garrido

    Por Jonathan Cook, Nazaré/Israel-Palestina

    Israel vem organizando as últimas peças da construção de uma Grande Jerusalém judaica, o que exige que seja feita uma “limpeza étnica” contra dezenas de milhares de palestinos, que deverão deixar uma cidade na qual suas famílias viveram e trabalharam por diversas gerações – segundo os alertas de organizações que defendem os direitos humanos.

    O ritmo das transformações físicas e demográficas operadas na cidade está consideravelmente acelerado desde que Israel começou, já há dez anos, a construir um muro de aço e concreto através dos bairros palestinos da cidade, como indicam grupos de defesa dos direitos humanos e pesquisadores palestinos.

    Israel se prepara para consolidar as mudanças que tem feito na constituição. Dois projetos parlamentares de lei amplamente defendidos por ministros do governo permitem que se anteveja os contornos futuros de Jerusalém.

    Um desses projetos visa incorporar a Jerusalém por volta de 150.000 judeus que vivem em colônias ilegais na Cisjordânia, ao redor da cidade. Além de aumentar a população jovem da cidade, esta medida concederá a estes colonos o direito ao voto nas eleições municipais de Jerusalém, o que dará ainda mais poder à direita no tabuleiro político.

    Um outro projeto de lei privará de direitos mais de 100.000 palestinos que vivem do “lado ruim” do muro. Eles serão designados a um conselho local, separado, reservado unicamente aos palestinos, o que observadores consideram, assustados, como o prelúdio da derrocada de seus direitos de residência e uma interdição ao acesso a Jerusalém.

    Ao mesmo tempo, a pressão sobre os palestinos do interior da cidade se intensifica – por meio de um emaranhado de cruéis políticas israelenses, especialmente as detenções noturnas, privações de terras, demolições de residências, ou ainda a recusa ao acesso a serviços básicos, como uma pressão para que partam dali.

    Essas medidas visam se anteciparem a futuros esforços de paz, acabando de fato com as ambições palestinas de fazer da Jerusalém Oriental a capital de seu futuro Estado, como declarou Aviv Tartasky, pesquisador da Ir Amim, uma organização israelense que reivindica um tratamento justo aos palestinos em Jerusalém.

    “O que está ocorrendo é uma limpeza étnica, sem armas” nos disse Tartasky”. “Israel deseja se livrar de um terço da população palestina de Jerusalém por meio de medidas legislativas”

    Temores demográficos

    As preocupações demográficas de Israel em relação a Jerusalém remontam a 1967, data em que o Estado ocupou e anexou Jerusalém Oriental, juntando a população palestina e judaica de Jerusalém Ocidental. Israel também aumentou os limites municipais da cidade de forma a anexar sub-repticiamente terras da Cisjordânia.

    No início Israel fixou um limite máximo à proporção de palestinos e judeus na que foi designada como sua nova “capital una e eterna” – a saber, com 30% de palestinos contra 70% de judeus – mas a luta pela manutenção desta proporção foi perdida. Em razão de uma taxa de natalidade palestina mais elevada, mais de 315.00 palestinos vivem atualmente na Jerusalém Oriental, o que representa algo próximo de 40% da população total da cidade. Segundo projeções, os palestinos podem tornar-se maioria dentro de dez anos.

     

    Mapa: Projeto de lei sobre a Grande Jerusalém

    Embora poucos Palestinos tenham adquirido a cidadania israelense e ainda que quase nenhum entre estes votam nas eleições municipais, Israel teme que este peso numérico crescente torne o seu domínio na cidade cada vez mais insustentável.

    “O que temos em Jerusalém é um sistema de apartheid em construção”, declarou Mahdi Abd al-Hadi, universitário palestino em Jerusalém.

    “As políticas de Israel são ditadas segundo considerações demográficas e isto deu origem a um enorme fosso entre duas sociedades. Os palestinos estão sufocados”.

    “Salve a Jerusalém judaica”

    O medo da perda demográfica de Jerusalém levou dirigentes políticos e os responsáveis pelos serviços de segurança israelenses a lançar uma grande campanha midiática no ano passado, batizada de “salve a Jerusalém judaica”. Animada pelo medo de que os palestinos se tornem maioria e passem a votar nas eleições municipais, a campanha advertia os habitantes judeus que eles poderiam “acordar tendo um palestino como prefeito de Jerusalém”.

    No decorrer do ano, os ministros, dentre os quais o da educação, Nafftali Bennett, sustentaram agressivamente a anexação de Maale Adumim, uma grande colônia situada no exterior de Jerusalém, na Cisjordânia. Pouco a pouco esses ministros parecem ganhar o debate.

    No mês passado, uma comissão de ministros foi designada para aprovar um projeto de lei sobre a Grande Jerusalém, visando aumentar as fronteiras municipais e incluir Maale Adumim e outras grandes colônias da Cisjordânia. O projeto de lei obteve o apoio de Netanyahou.

    As colônias seriam anexadas sem que perdessem seu nome, e os 150.000 habitantes teriam então o direito de votar nas eleições municipais.

    Uma anexação de fato.

    Yisrael Katz, o ministro dos transportes e da informação, que contribuiu na formulação do projeto de lei, declarou que seu objetivo é “preservar a maioria de judeus” na cidade. Segundo uma pesquisa recente, 58% dos judeus israelenses apoiam o plano.

    Sob pressão do mandato do presidente Donald Trump, Netanyahu deixou o projeto temporariamente em segundo plano. Washington teria receio que a legislação atrapalhe uma iniciativa de paz que estaria preste a ser apresentada. [A recente declaração de Trump foi, portanto, muito bem recebida por Natanyahou]

    Ir Amim tem medo que a legislação seja relançada assim que a pressão se dissipe. O grupo advertiu semana passada, em um comunicado, que a legislação era a “primeira medida prática tomada desde a anexação de Jerusalém Oriental, em 1967, no sentido de executar a anexação de fato de zonas da Cisjordânia a Israel.”

    Após décadas de implantação das colônias de judeus no coração de bairros palestinos, para impedir o desenvolvimento e crescimento dos mesmos, Israel iniciou o difícil processo que consiste em separar as duas populações, declarou Tartasky.

    Os avisos de expulsão.

    Os efeitos são fortemente sentidos na região. Na última sexta-feira as forças israelenses tomaram de assalto o vilarejo beduíno de Jabal al-Baba e distribuiu avisos de “expulsão” aos seus 300 habitantes. Em agosto, o exército israelense demoliu a creche da vila. Jabal al-Baba fica entre Jerusalém Oriental e Maale Adumim.

    “Essas comunidades palestinas fora de Jerusalém são como uma espinha na garganta de Israel”, declarou Tartasky. “Israel tenta tornar suas vidas tão difíceis quanto seja possível, para forçá-los a partir e criar assim uma continuidade territorial entre Jerusalém e as colônias”.

    O último ataque contra Jabal al-Baba aconteceu logo após Israel informar as centenas de habitantes de al-Walaja que um posto de controle militar seria deslocado para as proximidades da entrada do vilarejo. Isso os privaria de terras agrícolas ancestrais de Jerusalém as quais suas famílias vêm cultivando há gerações.

    Ainda que muitos habitantes de al-Walaja disponham de documentos de identidade de residente em Jerusalém entregues por Israel, esta nova manobra os privará de fato da cidade e de suas terras. As terras, assim como uma nascente próxima, onde os moradores locais levam o gado para beber, se tornarão “atrações” de um parque metropolitano da cidade expandida.

    Reforçando o cerco

    Enquanto isso, Israel aumenta as apropriações sobre os palestinos nas áreas urbanizadas de Jerusalém Oriental.

    Aqueles que se encontram do outro lado do muro de concreto estão abandonados à própria sorte pela prefeitura de Jerusalém e vivem dificuldades cada vez maiores de chegar ao outro lado da cidade, como indica Daoud Alg’ol, pesquisador palestino especializado em Jerusalém.

    Um projeto de lei emitido por Ze’ev Elkin, ministro dos negócios de Jerusalém, visa desconectar a prefeitura da cidade dos bairros palestinos como al-Walaja, Kafr Aqab, o campo de refugiados de Chouafat e Anatam que se encontram para além do muro divisor.

    Eles seriam reagrupados em um conselho local separado, destinado aos palestinos, o que reduziria em um terço a população palestina da cidade.

    “Uma vez que os palestinos estejam neste conselho separado, Israel dirá que o centro de suas vidas não é mais Jerusalém e seus documentos de residentes na cidade serão revogados” continuou Alg’ol. “Isso já acontece, mas ocorrerá em uma escala muito maior”.

    Desde 1967, Israel revogou o visto de residência de mais de 14.000 palestinos, forçando-os a deixar Jerusalém.

    As negligenciadas “zonas de sombra”

    Mesmo se seus habitantes pagam os impostos à prefeitura de Jerusalém, os bairros palestinos situados do outro lado do muro são já “zonas de sombra”, negligenciados e largados na anarquia.

    Em Kafr Aqab, por exemplo, um bairro isolado do resto da Jerusalém Oriental pelo muro e por um posto de controle militar, os habitantes têm acesso a poucos serviços. Israel, além disso, bloqueou o acesso da Autoridade palestina ao bairro. “Eles vivem em uma terra de ninguém”, afirmou Al’ol.

    Esses bairros tornaram-se destino de criminosos e de famílias palestinas presas na armadilha da complexa rede de regulamentações rígidas, no que toca à residência, imposta por Israel. Aos palestinos da Cisjordânia é negado o acesso ao interior dos muros de Jerusalém; ao mesmo tempo em que os palestinos de Jerusalém arriscam perder seus documentos de residência se deixam a cidade.

    Os casais que se casaram para além da divisória encontro refúgio em Kafr Aqab, enquanto Israel desconecta aos poucos o bairro da Jerusalém Oriental. Os habitantes afirmam que a população passou de alguns milhares a mais de dezenas de milhares de habitantes no decorrer dos últimos anos.

    Por consequência, houve um aumento das construções no além muro, onde os palestinos se aproveitam da falta de regulamentações sobre construção impostas por Israel. Mas isso também gera vantagens demográficas a Israel, precisou Alg’ol.

    Uma crise habitacional.

    “As restrições para o desenvolvimento urbano e as penúrias nas terras dentro da cidade ocasionaram a uma crise habitacional para os palestinos, que tocam suas vidas nesses lugares que se tornam muito caros” explicou. “Eles são forçados a se mudar para os bairros além do muro, para assim encontrarem habitações mais acessíveis. A pressão econômica cria uma transferência silenciosa.”

    Os palestinos que vivem em bairros situados no interior acabam sendo atormentados de outras formas, observou Tartasky. Israel utiliza há muito tempo uma gama de políticas que visam privar os palestinos de terras, impedir o desenvolvimento deles em Jerusalém e justificar as demolições de casas. Dentre elas se destacam atribuir a bairros palestinos o status de “parques nacionais” tornando assim ilegais as residências locais; confiscar os últimos espaços verdes para construir colônias judaicas; ou ainda permitir aos colonos se apropriarem de propriedades palestinas na cidade e nos bairros ao redor; enquanto isso Israel busca reforçar seu domínio sobre os locais sagrados da cidade, em particular a mesquita Al-Aqsa. Por volta de 200.000 colonos judeus vivem atualmente em Jerusalém Oriental.

     

    “Os palestinos nunca fazem parte do planejamento urbano de Jerusalém, e seus interesses nunca são levados em conta – eles continuam a ser um obstáculo a ser eliminado” declarou Alg’ol. “Israel quer a terra, mas não os palestinos que vivem nela.”

    Operações militares noturnas.

    A pressão sobre os palestinos que vivem em Jerusalém se intensifica à medida em que o acesso à escola e a serviços municipais básicos são recusados às suas comunidades, considerou Tartasky. Mais de 80% das crianças palestinas vivem abaixo da linha da pobreza.

    A prefeitura de Jerusalém e a polícia também começaram a intensificar as operações de “manutenção da ordem” contra os palestinos – o que eles consideram como uma “punição coletiva”. Enquanto afirmam “restabelecer a ordem” as autoridades as autoridades têm recentemente organizado uma onda de operações militares noturnas nos bairros como at-Tur e al-Issawiya. Essas operações geram um grande número de detenções de palestinos, ordens de demolição de imóveis e fechamento de empresas.

    “Israel emprega os mesmos métodos militares utilizados na Cisjordânia”, declarou Tartasky. “A hipótese é que esse tipo de pressão os encoraja (os palestinos) a se deslocarem para os bairros situados para além do muro, onde perderão, cedo ou tarde, os direitos de residência. Israel vê nisso uma oportunidade a ser explorada”.

    O escritório do prefeito de Jerusalém, Nir Barkat, nos enviou um comunicado desmentindo a deterioração da situação dos palestinos em Jerusalém Oriental. O comunicado aponta melhoras espetaculares nos bairros palestinos no que toca a disponibilização de escolas, centros comunitários, espaços esportivos, novas estradas e serviços de correio e de assistência social.

    O comunicado também destacou que Barkat “elaborou um plano orçamentário sem precedentes visando reduzir as insuficiências de Jerusalém Oriental, a fim de se contrapor aos 50 anos de negligência que herdou de seus predecessores que dirigiram a cidade e dos sucessivos governos israelenses.”

    Segundo Alg’ol, as declarações das autoridades municipais negam a realidade. Ele sustenta que “Israel quer criar um simulacro de cidade para os palestinos. Onde é possível se procede uma limpeza étnica para expulsar os palestinos da cidade. E onde não é possível fazê-lo simplesmente se dissimula”. (MEE, 24 de novembro de 2017)

     

  • Argentina: Reforma da Previdência é aprovada após mobilização histórica

    Por: Renato Fernandes, de Campinas, SP

    Uma jornada de mobilização histórica aconteceu neste dia 18 de dezembro na Argentina. Em determinado sentido, relembrou os inícios do Cordobazo de 1969 ou o início das grandes mobilizações de 19 e 20 de dezembro de 2001 que derrubaram cinco presidentes e foram fundamentais para modificar o panorama político do país. As mobilizações desse 18 ficarão para história dos movimentos sociais do país.

    Desde cedo, colunas de trabalhadores foram ocupando a Praça do Congresso, no Centro da capital Buenos Aires, para impedir que os deputados votassem a Reforma da Previdência. Na vanguarda desta manifestação estava uma parte importante da esquerda radical argentina: segundo o jornal La Nación, a esquerda trotskista “ocupou a linha de frente no combate contra as forças de segurança”.

    Para combater a manifestação, a Polícia Federal armou um verdadeiro esquema de guerra, repetindo muito da operação da última quinta-feira, 14 de dezembro. A repressão iniciou logo cedo e os milhares de trabalhadores, jovens e aposentados que estavam ali, resistiram como puderam. O objetivo do governo era dispersar as manifestações para conseguir uma sessão tranquila para a retirada de direitos dos trabalhadores. Não foi isso que conseguiu. A resistência foi muito grande, tal como a manifestação. Apesar disso, uma centena de pessoas foram detidas e mais de 160 pessoas ficaram feridas com a brutal repressão que chegou a jogar bombas de gás numa estação de metrô, a disparar no rosto dos manifestantes  e a atropelar a população que protestava.

    A burocracia sindical atrasa a mobilização
    A principal central sindical, a CGT, se reuniu somente às 10h da manhã para decidir sobre a greve geral. Foi muito tarde. Em algumas fábricas e locais de trabalho, as assembleias já haviam decidido pela paralisação. A greve foi iniciada a partir das 12h, com duração de 24 horas. Mesmo que não tenha havido uma organização pela base da greve geral, a medida afetou diversos setores, entre eles os aeroportos que tiveram até o momento mais de 300 voos cancelados devido à greve e a paralisação dos serviços de transporte a partir das 21h, no caso do metrô de Buenos Aires, e da 0h, no caso dos trens da região metropolitana.

    No meio de toda a repressão, a CGT ainda prestou um serviço para as forças de repressão do governo Macri. Às 16h37, a Central soltou um comunicado dizendo que “um grupo de provocadores pretende desvirtuar a manifestação”, com a clara intenção de se desvincular-se da resistência ativa que milhares de trabalhadores realizavam no Congresso. A CGT perdeu uma oportunidade de denunciar a face repressiva do governo. Uma vergonha para uma organização que diz representar os trabalhadores.

    Da resistência aos cacerolazos
    A resistência continuou bravamente durante toda a tarde e, já no período da noite, diversos manifestantes começaram a sair nas ruas de Buenos Aires para fazer cacerolazos (panelaços) contra a repressão e contra a Reforma da Previdência. Foram milhares de diversos bairros da cidade como San Telmo, Chacarita, entre outros bairros, com a presença de crianças e famílias inteiras. Esses cacerolazos aconteceram em diversas regiões do país, como Rosário, La Plata e Córdoba, assim como tinha ocorrido com a resistência durante todo o dia contra a Reforma da Previdência e em repúdio à repressão. Essas manifestações, que demonstram o rechaço massivo da população ao ataque do governo, continuaram durante toda a noite e a madrugada deste 19 de dezembro.

    Já no interior do Congresso, os debates começaram às 14h sobre a reforma. Na tarde do dia de ontem, a deputada Romina Del Plá, do Partido Obrero, propôs um referendo popular sobre a reforma: o governo ganhou a votação contra o referendo por 136 a 108 votos. Outros deputados pediram para que o projeto fosse retirado e debatido novamente, na comissão. A maioria governista ganhou a votação, durante a madrugada, por 127 votos contra 107.

    Somente nesta manhã, às 7h05 (8h05 no Brasil), o governo conseguiu aprovar a Reforma da Previdência: com 128 votos favoráveis, 116 contra e 2 abstenções. Sem dúvida alguma, a resistência de ontem deve continuar hoje nas ruas e nas próximas horas os manifestantes devem ocupar as praças novamente. Será uma demonstração de forças entre um Congresso capacho dos planos neoliberais e cada vez mais desacreditado e manifestações cada vez maiores. É necessário continuar a luta contra a implementação dessa reforma.

    É necessário que os trabalhadores brasileiros vejam o que está passando na Argentina, pois é um exemplo da resistência que devemos preparar aqui para barrar a “nossa” Reforma da Previdência. Precisamos ter uma solidariedade ativa, nas ruas e redes sociais, com os trabalhadores argentinos e contra a retirada de direitos do governo Macri. A continuidade da luta lá, mesmo após essa provocação, fortalecerá a nossa luta contra a reforma.

    Viva a luta dos trabalhadores argentinos contra a Reforma da Previdência! Abaixo a repressão do governo Macri!

     Foto: Manifestantes na Praça do Congresso

     

  • Honduras: contra o novo golpe de estado

    Por: Editoria Internacional

    Publicamos, abaixo, duas notas urgentes de Tomas Andino Mencia, companheiro socialista de Honduras, sobre a grave situação política pela qual passa o país. Desde a fraude escandalosa realizada na apuração das eleições presidenciais de 26 de novembro passado, há um levante popular para impedir a continuidade do governo de Juan Orlando Hernández (ou JOH, como é mais conhecido popularmente). A  brutal repressão já matou 18 pessoas e causou centenas de feridos. O TSE confirmou ontem a fraude e a Aliança Opositora, encabeçada pelo seu candidato Salvador Nassrala, que desconheceu este resultado. Hoje, 18 de dezembro, houve novas mobilizações nacionais contra essa decisão. A própria OEA foi obrigada a  “recomendar” a realização de novas eleições, ante “a impossibilidade de determinar um ganhador”.

    O repúdio impressionante à fraude tem origem na política neoliberal dos sucessivos governos, que levou a que o país tenha o maior nível de pobreza e desigualdade na América Latina. A imensa rebelião começada contra a fraude eleitoral pode abrir a possibilidade de rechaçar esse modelo. Não é um caso isolado na América Latina. Para seguir o ataque contra o nível de vida das massas populares, o grande capital apela a todo tipo de recursos, fraudes e manobras jurídicas combinadas com a repressão. É o que assistimos neste dia (18) também nas imagens que nos vêm de Buenos Aires, para aprovar a contrarreforma do sistema previdenciário. A solidariedade em momentos como este não é uma opção, não é um detalhe, é um dever  elementar. Fora JOH!

    “ESTAMOS PERANTE UM NOVO GOLPE DE ESTADO
    PARALISAÇÃO NACIONAL INDEFINIDA COM AUTODEFESA FRENTE À REPRESSÃO, ATÉ QUE CAIA JOH

    A declaração oficial de JOH como “ganhador”, por parte do TSE, é um NOVO GOLPE DE ESTADO contra o Povo. Estão nos impondo um governante que nem sequer deveria ter participado nas eleições de novembro passado, por inabilitação constitucional. Seu plano maquiavélico foi o de esperar a época natalina para consumar sua ignominia, presumindo que nesse então o Povo estaria “frio”.

    A Missão de Observadores da UE, colabora com esta campanha, certificando a “validade” da declaração com uma amostra de 300 atas [eleitorais]; e a conduta da OEA é suspeita, recebendo hoje Nasralla em Washington provavelmente para que não possa voltar. Deles não se pode esperar nada de bom. Como disse o Che, “no imperialismo não se pode confiar nem um pouquinho assim”.

    Esta imposição é uma DECLARAÇÃO DE GUERRA contra o Povo. Frente a esta realidade, nossa resposta só pode ser incrementar o nível da mobilização, aprofundando a Paralisação Nacional, dando-lhe um caráter indefinido de tal forma que sejam paralisadas as principais atividades econômicas. Temos direito de fazê-lo, como o prescreve o Artigo 3 da Constituição. Tudo aquilo que foi feito até agora foi um ensaio. A hora da verdade começa agora.

    Mas, estejamos alertas. Se se atreveram a fazê-lo é porque estão dispostos a impô-lo pela força das armas, dada a falta de força da razão e da moral de sua parte. Colocaram o pior deles para fora, para descarregar seu veneno assassino contra o Povo que ouse se manifestar.

    Portanto, não podemos ir à luta como fizemos até agora, com as mãos vazias, sem nos preparar para nos defender, sem planificar bem nosso movimentos,  expondo nossa vida de forma desnecessária, pois salta à vista a disposição dos covardes comparsas do regime de disparar contra o povo desarmado.

    Sair às ruas para parar o país, mas, junto com isso, organizar a segurança e a autodefesa frente à repressão. Chamar os policiais e soldados a desobedecer ao governo usurpador.

    CHEGOU A HORA QUE TODOS HONREMOS A MEMÓRIA QUE TEMOS DE MORAZAN[1]!

    Tegucigalpa, 18 de dezembro de 2017

    [1] Referência ao general Francisco Morazan (1792-1842), que foi um dirigente nacionalista de toda a região centro-americana. Foi presidente da República Federal da América Central de 1827 a 1838. Mais informações em https://es.wikipedia.org/wiki/Francisco_Moraz%C3%A1n#Muerte”.

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    “ESTAMOS FRENTE A UM DILEMA HISTÓRICO: REVOLUÇÃO OU BARBÁRIE

    Tomas Andino Mencia
    16 de dezembro de 2017

    Houve enormes manifestações e três paralisações nacionais, com a ocupação de estradas, bairros e municípios; e milhares de expressões de luta popular em todos os lados. A pergunta obrigatória é: existem condições para conseguir o objetivo de derrubar o governo atual?

    Existem aqueles que respondem a essa pergunta de forma negativa. Dizem que não conseguimos avançar nem cumprir o objetivo de derrubar JOH (Juan Orlando Hernández) e que, ao contrário, tivemos baixas. Creio que esses companheiros se deixam impressionar pela brutal repressão feita pelos corpos armados do tirano, e acreditam que isso é um sinal de força de sua parte. Por isso são pessimistas.

    Ao contrário deles, sou otimista. Ainda que o atual movimento tenha algumas debilidades, sobre as que retornarei em outro artigo, minha tese é que poucas vezes na história recente o povo hondurenho esteve mais perto, como na atualidade, não somente de  derrubar este governo espúrio, mas também de protagonizar uma verdadeira revolução popular democrática. Exatamente como escrevi.

    Para colocar em sua justa dimensão os progressos da luta atual, deve-se ter em conta vários parâmetros que sirvam de comparação, para verificar essa tese. E para isso vou recorrer à história.

    Seis evidências da grandeza do movimento atual
    Em primeiro lugar, deve-se considerar que houve um número maior de protestos simultâneos nos últimos 18 dias do que em todas paralisações organizadas pela Coordenadora Nacional de Resistência Popular (CNRP) em 2007 e 2008, até agora considerado como o maior movimento social das últimas décadas. Para dar um exemplo, na melhor paralisação realizada pela CNRP há dez anos conseguiu-se contabilizar um máximo de 76 pontos de ocupações em nível nacional; mas somente na paralisação de 15 de dezembro próximo passado, este movimento realizou 160 pontos de ocupações em nível nacional (fonte: UNETV). Somente esse dado reflete que houve um enorme salto quantitativo na fortaleza do movimento popular na atualidade.

    Em segundo lugar, esta luta deve ser julgada, não somente pelo ponto em que chegou, mas também pelo ponto em que começou. De fato, começou com quase nenhuma participação das organizações populares, que no passado eram convocadoras e executoras tradicionais, como os sindicatos, associações do magistério, centrais camponesas, muitas dessas destruídas, intimidadas, ou compradas pelo regime que se instalou com o Golpe de Estado de 2009.

    Ao contrário, as paralisações e mobilizações da atualidade são protagonizadas por pessoas em sua maioria desorganizadas, simpatizantes dos partidos de oposição, cidadãos com pouca experiência na luta de rua e jovens, ou simplesmente membros de organizações profissionais, mas que que participam não em seu tradicional marco organizativo, mas de forma espontânea. Ou seja, começou quase do zero, por exclusiva iniciativa da própria base nos bairros, aldeias, centros de estudo e de trabalho.

    Certamente, foram aparecendo estruturas convocadoras depois das heroicas jornadas de 28 a 30 de novembro. Por exemplo, a Paralisação de 11 de dezembro foi convocada pelo MEU, pelas Juventudes Antifraude e pela FNRP; da mesmo forma, a paralisação deste 15 de dezembro foi convocada pelo Partido LIBRE, Convergência contra o Continuísmo e a FNRP. Mas essas estruturas tiveram que se colocar à cabeça do que o Povo já havia começado na prática, e não ao contrário, como tem sido a tradição. E não somente isso, nenhum dirigente da cúpula se atreveria a propor um retrocesso no nível de mobilização que as bases impuseram como norma: a Paralisação Nacional com ocupação de bairros e estradas. A causa deste radicalismo? O profundo ódio que conquistou o regime neoliberal de JOH nos últimos 8 anos.

    Em terceiro lugar, o progresso do movimento deve ser medido pelo contexto político no qual lhe tocou atuar. O atual movimento é realizado sob as condições de um regime ditatorial imposto após um golpe de Estado, que desmobilizou profundamente as organizações da classe trabalhadora, seja porque foram  intimidadas, corrompidas, cooptadas ou simplesmente destruídas  durante os governos pós-golpistas; e não surge no marco de um regime democrático burguês, como o que existia  na época da CNRP (2003 – 2009), em que havia certa margem de respeito às organizações profissionais por parte do Governo de Manuel Zelaya. Portanto, é por si mesma uma proeza histórica que o povo tenha podido remover a pressão ditatorial que sofria e o fato de protagonizar a heroica rebelião que vemos perante nossos olhos.

    Em quarto lugar, este movimento, como poucas vezes na história, conseguiu unificar as classes sociais exploradas e oprimidas em um só eixo político de lucha: a saída do governante atual, superando as agendas reivindicativas particulares de cada classe e setor social. Ou seja, radicalizou-se tanto que, pela primeira vez desde as mobilizações de 2009, o eixo central de sua luta é uma proposta política revolucionária, de caráter democrático. Hoje em dia, todo o país, incluídas as bases religiosas, agitam-se em uníssono com o mesmo grito de guerra: “Fora JOH”.

    Na história, isto não ocorreu nem mesmo durante a grande greve de 1954, que se limitou à conquista de reivindicações econômicas e socais (o que foi um fato revolucionário, considerando as condições da época); e quando se aproximou disso, como na tentativa de insurreição urbana contra Julio Lozano Díaz (1957), ou a agitação popular contra a ditadura militar em 1968-69, não chegaram a ter um nível de massas e de difusão como o movimento atual.

    Em quinto lugar, do ponto de vista militar, a ditadura começa a utilizar métodos de guerra civil contra a população, o que não se via desde os golpes de Estado militar de 1963 e 2009. Mas essa repressão, ao contrário daquela, não encontra como contrapartida um povo impotente, mas um povo mobilizado e empoderado a partir de suas trincheiras de luta, a partir de onde conseguir fazer retroceder os uniformizados em verde-oliva em muitas ocasiões. Se a repressão continua com os níveis de crueldade atuais ou piora, com a entrada em cena dos grupos paramilitares assassinos, a enorme tensão que se acumula nas barricadas pode detonar o início de uma insurreição popular de caráter armado, em um país em que existem milhões de armas entre a população civil.

    Em sexto lugar, o impacto do resultado do atual conflito terá repercussões não de curto, mas de longo prazo sobre a vida dos 8,7 milhões de hondurenhos, durante várias décadas. A sua derrota significaria o começo de uma época ditatorial, que paulatinamente foi sendo construída desde o golpe de Estado de 2009, mas que alcançaria a sua culminação com o continuísmo de JOH, como ocorreu com a ditadura cariista por 16 anos[1]. Mas, pelo lado positivo, seu triunfo abriria no país uma época de abertura democrática, que reverteria o efeito do Golpe de 2009, e abriria as comportas para que o Povo exija o pagamento da tão postergada dívida social pelos governos burgueses.

    Ainda que possam ser encontrados mais elementos de comparação, bastam estes afirmar a ideia de que estamos frente a algo realmente grande; frente a um ponto de virada da história, ou em direção ao afundamento do país pelo caminho de um neoliberalismo extrativista selvagem, sob as botas de uma ditadura policial-militar (a barbárie); ou em direção ao começo de uma revolução democrática que destrua a forma de dominação autoritária que foi imposta pela oligarquia a partir do golpe de 2009.

    Nossos melhores sonhos agora estão ao alcance de nossas mãos, desde que vençamos os pesadelos que nos ameaçam.

    Tegucigalpa, 16 de dezembro de 2017

     

    [1] Referência à ditadura de Tibúrcio Carias, que governou de 1933 a 1949″.

     

  • O exército de Israel primeiro tirou suas pernas e depois, sua vida

    Por: Editoria Internacional

    Publicamos o artigo de Gydeon Levy sobre o assassinato a sangue frio de um palestino em uma cadeira de rodas, Ibrahim Abu Thuraya, quando se manifestava na sexta-feira, próximo à cerca que isola a Faixa de Gaza do mundo. Mais um assassinato, depois da onda de manifestações contra a declaração de Trump reconhecendo Jerusalém como capital israelense no dia 6. Gydeon é um dos mais corajosos jornalistas de Israel, que mudou suas posições e há algum tempo apoia o BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) contra Israel. A referência que faz ao final sobre as manifestações de judeus israelenses contra a corrupção de Netanyahu é uma ironia pelo fato de elas ignorarem a situação dos palestinos.

    Texto publicado originalmente no jornal Haaretz:

    Na sexta-feira, um atirador de elite alvejou e matou Ibrahim Abu Thuraya, um habitante de Gaza que tinha ambas as pernas amputadas, quando protestava de sua cadeira de rodas perto da fronteira israelense.

    O atirador de elite do exército de Israel não poderia mirar na parte inferior do corpo de sua vítima — Ibrahim Abu Thuraya não a tinha. Ele tinha 29 anos, trabalhava lavando carros e vivia no campo de refugiados Shati na cidade de Gaza, perdeu suas duas pernas a partir do quadril para baixo em um ataque aéreo durante a Operação Chumbo Fundido em 2008. Ele utilizava uma cadeira de rodas para se locomover. Na sexta-feira, o exército terminou o trabalho: um atirador de elite apontou para sua cabeça e o matou.

    As imagens são horríveis: Abu Thuraya em sua cadeira de rodas, empurrada por seus amigos, convocando protestos contra a declaração dos EUA reconhecendo Jerusalém como a capital de Israel; Abu Thuraya no chão, rastejando até a cerca atrás da qual a Faixa de Gaza está aprisionada; Abu Thuraya empunhando uma bandeira palestina; Abu Thuraya erguendo ambos os braços fazendo o sinal da vitória; Abu Thuraya carregado por seus amigos, sangrando até a morte; o cadáver de Abu Thuraya em uma maca: The End.

    O atirador de elite não poderia mirar na parte inferior do corpo de sua vítima na sexta-feira, então ele atirou na cabeça e o matou.

    Pode-se presumir que o solado percebeu que estava atirando em uma pessoa em uma cadeira de rodas, a não ser que estivesse atirando de forma indiscriminada na multidão de manifestantes.

    Abu Thuraya não representava nenhum perigo para ninguém: que perigo poderia constituir um homem amputado de suas duas pernas em uma cadeira de rodas, preso atrás de uma cerca? Quanta maldade e insensibilidade é preciso para ordenar atirar em uma pessoa com deficiência em uma cadeira de rodas? Abu Thuraya não foi o primeiro, nem será o último, palestino com alguma deficiência a ser assassinado por soldados do Exército de Defesa de Israel — os mais humanos soldados do mundo, só que não.

    O assassinato de um jovem com deficiência passou quase sem ser mencionado em Israel. Ele foi um dos três manifestantes mortos na sexta-feira, apenas mais um monótono dia. Pode-se facilmente imaginar o que ocorreria se um palestino tivesse matado um israelense que utilizasse uma cadeira de rodas. Que furor teria despertado, com tinta sem fim derramada contra a crueldade e barbárie dos perpetradores. Quantas prisões teriam ocorrido em consequência disso, quanto sangue teria corrido em retaliação. Mas quando os soldados se comportam de forma bárbara, Israel silencia e não demonstra nenhum interesse. Não há choque, não há vergonha, não há piedade. Desculpas ou uma expressão de remorso é somente fantasia. A ideia de responsabilizar os que realizaram esse ato criminoso é também delirante. Abu Thuraya eram um homem morto quando ele se atreveu em participar no protesto de seu povo e seu assassinato não interessa a ninguém, já que ele era um palestino.

    A Faixa de Gaza está fechada para jornalistas israelenses há  11 anos, assim que só podemos imaginar a vida que este lavador de carros de Shati tinha antes de sua morte – como se recuperou de seus ferimentos na ausência de serviços decentes de reabilitação na cercada Faixa, sem chances de obter pernas prostéticas; como ele se locomovia lentamente em uma velha cadeira de rodas, não uma elétrica, nas ruelas de areia de seu campo de refugiados; como ele continuava a lavar carros apesar de sua deficiência, já que não há outras oportunidades em Shati, incluindo para pessoas com deficiência; e como ele continuava lutando com seus amigos, apesar de sua deficiência.

     

    Nenhum israelense pode imaginar a vida naquela jaula, a maior do mundo, aquela que se denomina Faixa de Gaza. É parte de um interminável experimento  com seres humanos.

    É preciso ver os desesperados jovens que se aproximavam da cerca na manifestação de sexta-feira, armados com pedras que não poderiam chegar a nenhum lugar, atirando-as através das brechas nas grades atrás das quais eles estão encurralados.

    Esses jovens não têm esperança em suas vidas, mesmo quando possuem duas pernas para caminhar. Abu Thuraya tinha ainda menos esperança.

    Há algo patético, mas digno, na foto dele erguendo a bandeira palestina, dado ao seu duplo confinamento – em sua cadeira de rodas e em seu país sitiado.

    A história de Abu Thuraya é um reflexo preciso das circunstâncias de seu povo. Pouco depois de ser fotografado, sua vida atormentada teve um fim. Quando as pessoas gritavam todas as semanas: “Netanyahu na prisão de Maasiyahu, alguém deveria finalmente começar a falar sobre [a Corte de] Haia.

    O vídeo de Gydeon Levy pode ser visto aqui.

  • Império e o Oriente Médio na era de Trump

    Por: Editoria Internacional

    A situação no Oriente Médio é extremamente complexa há décadas e está especialmente volátil neste momento. À crise latente não resolvida após a derrota dos levantes conhecidos como Primavera Árabe se acrescentaram o golpe palaciano na Arábia Saudita e as ondas de choque que está enviando por toda a região pelo peso da monarquia wahabista. A isso se  combina a declaração de Trump contra os direitos dos palestinos sobre Jerusalém e a reação que está gerando na Palestina e no mundo árabe e muçulmano. A região se dilacera entre forças reacionárias, e mesmo contrarrevolucionárias, e torna ainda mais urgente a construção de alternativas de esquerda e socialistas. Neste final de ano, a compreensão do que ocorre em uma região tão importante é fundamental. Para isso, publicamos entrevista com Gilbert Achcar, um dos especialistas marxistas arabofônicos  mais conceituados. A publicação original foi feita no site Socialist Worker em 11 de dezembro.

    O anúncio feito por Donald Trump de que os EUA iriam reconhecer Jerusalém como a capital de Israel e mover a embaixada americana para lá causou uma erupção de protestos ao longo do Oriente Médio e mais além. Mas a influência e o poder de Washington na região têm estado em declínio por algum tempo, devido a uma série de reveses.

    Gilbert Achcar é um socialista que se criou no Líbano e que é autor de numerosos livros, incluindo Morbid Symptoms: Relapse in the Arab Uprising e Clash of Barbarisms: September 11 and the Making of the New World Disorder. Ele concedeu esta entrevista para Alan Maass sobre os recentes acontecimentos no Oriente Médio e as consequências após um ano de Trump.

    Em sentido horário, a partir do topo à esquerda: Destruição do Iêmen; Donald Trump; protesto na Palestina

    Os EUA têm se focado principalmente em derrotar o Estado Islâmico no Iraque e na Síria (EI), o que parece ter sido amplamente alcançado com as ofensivas para expulsar o EI de seus principais bastiões em ambos os países. Primeira pergunta: o que ocorrerá com o EI agora?

    O EI obviamente sofreu uma séria derrota. Eles pensavam que tinham construído um estado, um califado, que duraria por um longo tempo em uma grande extensão de território na Síria e nos Iraque, e eles basicamente perderam tudo isso. Durou cerca de três anos antes de se desfazer.

    Pode-se dizer que já foi uma façanha para o EI o fato de controlar um território tão grande por um tempo tão longo contra quase todos. Pois é o único grupo contra o qual houve algum grau de unanimidade entre todas as forças envolvidas na região.

    O EI sofreu uma derrota pesada, mas isso não significa que irá desaparecer. Muitos dos seus combatentes conseguiram ir para a clandestinidade no Iraque e na Síria, e possuem ramificações em vários outros países. E, como vimos no caso da al-Qaeda, o terrorismo pode prosseguir no longo prazo por meio de redes clandestinas.

    Tenho certeza que presenciaremos muito desse tipo de terrorismo no próximo período, porque não há uma forma real de se livrar de tamanho tormento sem mudar as condições de produzi-lo.

    Hoje, essas condições são bem complicadas. Elas incluem, antes de mais nada, o terrorismo de estado, começando pelo de Israel e o perpetrado pela dominação imperialista ocidental na região. Muito do que ocorreu ao redor do mundo desde 1990 tem suas raízes nas guerras travadas pelos EUA contra o Iraque em 1991 e em 2003 e a subsequente ocupação do Iraque.

    Mas há também muitos regimes despóticos na região que praticam o terrorismo de estado e que alimentam um ódio similar, criando dessa forma um caldo de cultivo para grupos como o EI.

    Globalmente, estamos testemunhando o que denominei, em um livro que escrevi após o 11 de setembro, o “choque de barbáries”. A barbárie dos poderosos cria as condições da barbárie contraria dos de baixo.

    É o que estamos vendo – e vamos ver mais disso, receio dizê-lo—seja a barbárie dos poderosos dos EUA, a mais letal de todas, ou da Rússia, ou de regimes despóticos locais tais como a tirania de Assad na Síria, o mais bárbaro dos governos regionais, ou da ditadura de Sisi no Egito, para nomear somente dois.

    O outro lado da questão decorrente da conquista dos bastiões do EI no Iraque e na Síria é como isso posiciona o imperialismo americano. Qual é a posição relativa dos EUA em relação aos poderes regionais do Oriente Médio e aos seus rivais imperialistas internacionais?

    Não há dúvida que os Estados Unidos estão no ponto mais baixo de sua influência na região desde 1990. Foi quando os EUA intervieram, mobilizando massivas forças na região, no preâmbulo da primeira guerra contra o Iraque. Os EUA atingiram um pico na história de sua hegemonia regional depois disso.

    Isso ocorreu no momento em que a União Soviética estava em seus estertores, assim que Washington assumiu o controle completo da situação no Oriente Médio. Quando se avalia a situação atual em comparação com aquele pico se pode ver o quanto os EUA decaíram.

    A mais clara ilustração foram as revoltas de 2011. E foi o ano em que os EUA tiveram que se retirar do Iraque sem alcançar nenhum dos objetivos da ocupação, deixando um país que caiu sob o controle do arqui-inimigo regional de Washington, o Irã. Teerã possui muito mais influência sobre o governo iraquiano do que Washington.

    2011 foi também o ano em que aliados-chave de Washington enfrentaram revoltas de massas. Foi o caso de Hosni Mubarak no Egito, após o ditador tunisiano Zine El Abidine Ben Ali.  Muammar el-Qaddafi, da Líbia, que tinha se passado para o lado de Washington em 2003, foi o seguinte, e explodiu uma rebelião no Bahrain, assustando todas as monarquias petrolíferas do Golfo.

    A intervenção militar na Líbia em apoio à revolta contra Qaddafi foi a ocasião para a famosa fórmula “liderando por detrás”, refletindo o fato que os EUA tinham uma presença mais discreta naquela intervenção do que seus aliados europeus da OTAN, que assumiram a liderança.

    Mas essa intervenção se transformou em um fiasco. A tentativa de controlar a insurreição líbia e direcioná-la para uma conclusão que preservasse o estado na Líbia fracassou totalmente, e o estado líbio entrou totalmente em colapso.

    A Líbia se tornou, então, o único país árabe em que a revolução teve êxito em derrubar totalmente o regime – exceto pelo fato que não havia nenhuma alterativa disponível e menos ainda alguma que fosse progressista. O caos estava naturalmente assegurado.

    A “solução iemenita”—um compromisso entre o grupo dominante do país e a oposição, preparado pelas monarquias petrolíferas do Golfo com o apoio dos EUA, e tão elogiado por Obama que ele o apontou como o modelo a ser aplicado na Síria – entrou tragicamente em colapso após menos de três anos.

    Então, os EUA acumularam toda uma serie de reveses na região desde a invasão do Iraque. A guerra do Iraque será recordada na história do império americano como um grande erro- uma ocupação contraproducente realizada pela administração Bush contra a opinião de até amigos próximos da família Bush, que sabiam com que tipo de problemas os EUA iriam se defrontar.

    Como resultado, Washington está em um ponto muito baixo em comparação com algumas décadas atrás. Os EUA aproveitaram a oportunidade da expansão do EI no Iraque em 2014 para orquestrar uma retorno limitado. Organizaram uma coalisão para lançar uma campanha de bombardeios contra o EI, estabeleceram alguma presença novamente no Iraque e fizeram o mesmo na Síria.

    A principal intervenção de Washington no terreno na Síria foi do lado das forças curdas. Isso em si mesmo é um paradoxo, pois essas forças se originam de uma tradição da esquerda radical – ainda que tenham sido os principais aliados dos EUA na luta contra o EI na Síria. Donald Trump a qualificou como “ridículo”, declarando que iria terminar com isso.

    Novamente, isso demonstra a fragilidade geral de Washington – ao passo que o Irã está expandindo seu poder, influência e intervenção direta na região. E a Rússia, claro, aparece como a grande ganhadora em toda a situação, da Síria à Líbia.

    Moscou começou a intervir diretamente na Síria com sua força aérea em 2015. Naquele momento, a administração Obama deu as boas-vindas à intervenção russa sob o pretexto de que a Rússia estaria participando na guerra contra o EI. Mas todos sabiam que o alvo principal de Moscou seria a oposição síria ao regime de Assad regime, não o EI.

    Essencialmente, Washington deu à Rússia uma via livre para ajudar o regime sírio a esmagar a oposição a ele. Depois da eleição de Trump, mas antes que ele se tornasse presidente, a Rússia começou a se preparar para o papel de provedor da solução para o conflito na Síria, atuando inesperadamente como árbitro entre o regime e a oposição, com o Irã como a Turquia incluídos no processo.

    Há mais um problema aqui. No outono de 2016, a Turquia, furiosa com o apoio de Washington às forças curdas na Síria, voltou-se para uma aliança com a Rússia, desta forma dando outro golpe pesado à influência dos EUA na região.

    Hoje, a Rússia parece ser o país que está ganhando espaço em toda a região, ao passo que os EUA estão perdendo espaço. Moscou aparece hoje como o mais eficaz pilar da ordem repressiva regional. Depois do papel muito brutal que desempenhou na Síria, recebeu a concessão de instalações para base aéreas no Egito de Sisi para apoiar a intervenção deste último na Líbia, junto com os Emirados Árabes Unidos, em apoio ao homem forte local, Khaliha Haftar. Todas as monarquias petrolíferas, incluindo os sauditas, estão cortejando Moscou e comprando armas russas.

    Donald Trump certamente não irá reverter a maré de declínio regional americano. Ao contrário, ele é a razão para uma ainda mais rápida deterioração da influência dos EUA no Oriente Médio.

    E agora, Trump anunciou que os EUA irão reconhecer Jerusalém como capital de Israel. Que impacto isso terá?

    Esta é uma provocação completamente gratuita que somente um homem irracional como Trump poderia fazer – irracional, ou seja, pelos padrões dos interesses do imperialismo americano.

    Definitivamente não serve aos interesses americanos fazer tal jogada. Trump está fazendo isso sem razões aparentes, mas para satisfazer a ala mais reacionária de seus apoiadores e impulsionar seu narcisismo mórbido de ter “cumprido suas promessas” de campanha quando seus predecessores não o fizeram.

    Ele o fez sem oferecer nada para apaziguar os palestinos. Ele não assegurou nada em troca por parte do governo Netanyahu em Israel para fazer tal movimento. Simplesmente não faz sentido do ponto de vista da política americana nos EUA.

    Isso irá custar muito para Washington, em um momento em que sua imagem, por causa dele [Trump], já é terrivelmente negativa no mundo árabe, no mundo muçulmano e no Sul Global. Qualquer que tenha sido a melhora na imagem alcançada durante o governo Obama, foi completamente destruída e substituída pela imagem mais repulsiva que os EUA alguma vez tiveram no mundo.

    O resultado só pode ser mais ódio contra os EUA, gerando mais terrorismo—a arma dos fracos. E uma vez mais, a população americana pagará o preço do caráter de espoliação de sua classe dominante, assim como sofreu com o 11 de setembro, que foi um resultado direto da política dos EUA no Oriente Médio.

    Deixe-me perguntar sobre a outra parte do quadro: Pode falar sobre os acontecimentos na Arábia Saudita com as manobras do Príncipe Herdeiro, Mohammed bin Salman?

    O que está ocorrendo no reino saudita é, antes de mais nada, um tema doméstico—é uma luta pelo poder. O que está acontecendo é uma espécie de “revolução palaciana”, mas em relativa câmera lenta, no sentido que ela estava sendo feita por etapas, até a recente prisão dramática de vários magnatas entre os emires e outros membros da aristocracia do país.

    Estamos presenciando uma tentativa por parte de Mohammad bin Salman [geralmente referido pelas suas iniciais, MBS] para tornar o reino mais de acordo com os padrões tradicionais das monarquias, em que existe uma família mais reduzida que governa. No reino saudita, em contraste, há uma família governante estendida, composta pelos filhos de Abdulaziz (Ibn Saud), um rei que teve um grande número deles -45 filhos homens de 100 no total – por causa do número de esposas que teve: mais de 20!

    MBS está tentando terminar com essa tradição da dominação da família saudita estendida e concentrar o poder em suas mãos, inaugurando uma nova linhagem dinástica. Ele está fazendo isso a partir da posição de príncipe herdeiro, mas seu pai está apoiando tudo o que ele está fazendo, assim que possui carta branca nesse aspecto.

    Ele é um jovem homem ambiciosos que foi nomeado como Ministro da Defesa em janeiro de 2015, depois que seu pai Salman se tornasse rei, quando ele ainda não tinha 30 anos.

    A primeira coisa que fez como Ministro da Defesa foi lançar a guerra no Iêmen- uma campanha de bombardeios devastadora, assassina pelos sauditas e seus aliados. Ela fracassou no sentido de que as expectativas de que a coalisão iria resolver os problemas rapidamente se demonstraram completamente equivocadas.

    Como se pode ver a partir dos eventos recentes – especialmente o assassinato do ex-presidente Ali Abdallah Saleh após mudar de lado novamente e ter anunciado uma aliança renovada com os sauditas—eles estão muito longe de alcançar a vitória. Só tiveram êxito em causar o que já é a pior tragédia humanitária de nossos tempos, com cerca de 7 milhões de pessoas com risco de morrer de fome e cerca de 1 milhão em risco de morte de cólera.

    MBS mudou então sua atenção para assuntos mais internos e foi então que o antigo príncipe herdeiro, que tinha sido designado de acordo com a velha tradição, foi simplesmente removido desse cargo e MBS assumiu seu lugar. Isso foi um momento chave na “revolução palaciana” – a primeira grande ruptura com a tradição.

    Desde então, MBS tem consolidado seu próprio poder pela eliminação dos rivais potenciais. Qualquer um que esteja em seu caminho está sendo reprimido, preso e perseguido sob vários pretextos, um deles sendo a corrupção.

    Certamente, MBS recorreu a esse pretexto porque é popular, e é inegável que há algo de podre no estado saudita. Mas é também óbvio que isso é somente um pretexto.

    MBS é ele próprio muito corrupto mesmo – é um jovem que pode utilizar qualquer quantidade de dinheiro da forma que quiser, ao mesmo tempo que impõe austeridade sobre os súditos de seu reino. Ele provou isso no último ano quando cobiçou um iate que pertencia a um magnata russo e o comprou por meio bilhão de euros – cerca de U$550 milhões! Isso dá uma ideia de com quem estamos lidando.

    Quais são as reverberações dessa luta pelo poder para a região? Por exemplo, o regime saudita parece ter tentado intervir no Líbano obrigando seu principal aliado local, o Primeiro-Ministro Saad Hariri, a renunciar. Todas essas mudanças têm a ver com a longa rivalidade com o Irã, correto?

    O reino saudita está cada vez mais preocupado pelo expansionismo iraniano – primeiro no Iraque, depois na Síria, e a seguir no Líbano. Existe hoje um corredor de dominação iraniana de Teerã a Beirute, o que inclui tanto a presença direta como indireta do Irã.

    Os sauditas estão extremamente preocupados com isso porque eles veem o Irã como seu arqui-inimigo. Desde a revolução islâmica no Irã, que derrubou a monarquia lá em 1979, os sauditas têm tido um cenário de pesadelo, que tiveram que se confrontar no mesmo ano com um levante ultra-fundamentalista em casa, em Meca.

    Quando Salman se tornou rei em 2015, ele inicialmente modificou a política do reino saudita para a unificação das forças sunitas na região. Ele seguiu essa política por alguns anos, incluindo refazer as pontes, em um certo grau, com a Irmandade Muçulmana.

    Isso continuou até que Donald Trump se tornou presidente. Trump, aconselhado pelo sinistro Stephen Bannon, pressionou para uma reversão dessa política para uma escalada tanto contra o Irã como a Irmandade Muçulmana.

    Isso levou a que, antes disso, neste ano, a Arábia Saudita rompesse com o Qatar, que é o principal patrocinador da Irmandade Muçulmana. Até esse ponto, o Qatar estava envolvido na coalisão que bombardeava no Iêmen, mas foi expulso dessa coalisão por causa desse assunto. Isso foi uma manobra bem ruim, e o tiro saiu pela culatra.

    A escalada contra o Irã é o que levou ao recente episódio com o Líbano. Hariri é inteiramente dependente dos sauditas. A família Hariri fez sua fortuna no reino saudita, por meio de sua conexão com membros da família governante, que é um pré-requisito de todos os que fazem fortuna no reino.

    A mensagem que foi enviada pelos sauditas é que não queremos que nossos aliados – ou seja, Hariri—participem em um governo no Líbano que seja dominado por gente ligada aos iranianos, o Hezbolah.

    Essa foi a mensagem. Mas mesmo isso não deu certo devido à intervenção dos governos ocidentais, incluídos os EUA e a França. O presidente francês, Macron, teve um papel ativo em conseguir que Hariri saísse do reinado de volta ao Líbano, onde ele agora está engajado de novo em alguma forma de compromisso, que é o que os sauditas queriam que terminasse. A situação lá é muito instável, no entanto.

    Pode-se tirar conclusões gerais sobre o balanço da revolução e da contrarrevolução neste momento, quase sete anos depois da Primavera Árabe? Você escreveu antes sobre entender isso como um processo em curso – não fragmentado em episódios separados, mas contínuo. Pode ampliar sobre isso?

    O ponto de partida é compreender que o que foi denominado como Primavera Árabe não se limitou aos assuntos da democracia e da liberdade, como foi descrito na imprensa. Foi uma explosão social e econômica muito mais profunda, devido à acumulação de problemas de caráter social. Índices recordes de desemprego, especialmente para a juventude; baixos níveis de vida; pobreza – tudo chegou a um ponto culminante em 2011.

    Essa é a razão pela qual eu enfatizei naquele momento que havia começado o que denominei de “processo revolucionário de longo prazo”, que se prolongaria por muitos e muitos anos de instabilidade – hoje podemos dizer com segurança: décadas.

    Realmente, não haverá nova estabilização nesta parte do mundo por um longo período de tempo, pois a condição para a estabilização é uma mudança social e política radical, que coloque toda a região no caminho co2rreto de desenvolvimento econômico e social. Sem essa mudança radical, a instabilidade do Oriente Médio não será resolvida.

    O problema imediato do momento é que as forças progressistas que emergiram na Primavera Árabe retrocederam para a marginalidade em quase todos os lados, alguns anos depois de 2011. Desde então, a região tem sido dilacerada entre duas forças reacionárias.

    Por um lado, existem os regimes – ou seus resquícios, em países em que foram derrubados ou significativamente abalados. E, por outro lado, existem as forças fundamentalistas islâmicas – em especial, a Irmandade Muçulmana patrocinada pelo Qatar e os salafistas inspirados pelos sauditas – que emergiram desde os anos 1970 e 1980 a partir do cadáver de uma onda de atividade de esquerda precedente, em que os partidos nacionalistas e comunistas desempenharam um papel chave.

    A realidade é que o conjunto da região mudou desde 2013 de uma fase revolucionaria precedente, denominada como Primavera árabe, para uma fase contrarrevolucionária. Esta última se caracteriza pelo choque entre dois polos contrarrevolucionários – o dos regimes e de seus rivais fundamentalistas islâmicos.

    Isso é o que tem ocorrido nas guerras que irromperam na Líbia, Síria e no Iêmen – esses mesmos ingredientes se encontram basicamente em todos os lados. Eles existem na situação que se intensifica no Egito: a forma que eles adotaram foi o retorno do velho regime com uma vingança, esmagando a Irmandade Muçulmana.

    Estamos no meio dessa fase contrarrevolucionária. Mas, ao mesmo tempo, pode-se verificar a partir de numerosas indicações que os problemas sociais estão em ebulição. Não somente persistem todos os fatores sociais e econômicos que levaram à explosão de 2011, mas eles pioraram bastante.

    O que levaria a novas explosões e mais instabilidades: isso é seguro. Podemos pelo menos esperar que o potencial progressista que emergiu de forma poderosa em 2011 será capaz de se reconstituir e organizar para lutar pelo poder. Isso é o que estava faltando na Primavera Árabe – organizações que encarnem esse potencial, com uma clara estratégia de construir uma alternativa aos velhos regimes e seus contendores fundamentalistas.