Qual é a melhor tática para derrotar Bolsonaro?

Por Rodrigo Claudio (Bocão), da Executiva Nacional do PSOL

O debate da correlação de forças entre as classes é muito importante para entendermos uma série de questões, identificando qual classe social está na ofensiva e qual está na defensiva, qual o papel da burguesia e o da classe trabalhadora, qual é a localização da pequena-burguesia e dos setores médios em relação às duas classes fundamentais. Compreender com clareza esses elementos é condição para definir as tarefas que nos cabem na luta. É perceptível que existe uma ofensiva reacionária em curso, com o giro à direita dos setores médios urbanos e da pequena-burguesia, o fortalecimento da pauta conservadora e, por fim, a possibilidade do governo do neofascista Jair Bolsonaro.

Além dessa análise da dinâmica de classes, é necessário compreender, em outro nível de investigação, como se dá a luta política entre as organizações e partidos, que têm, sobre a correlação de forças, uma autonomia relativa. Uma prova disso é que, apesar da ofensiva da burguesia e dos setores médios urbanos, do ponto de vista da representação política, a burguesia vive uma crise, tendo seus partidos tradicionais (PSDB e MDB) sofrido sério abalo. Nessa perspectiva, a saída para essa crise de representação está se dando pelas mãos de um candidato com perfil neofascista que como mínimo surge como um “bonaparte”, que se ergue sobre as classes sociais em luta com a solução de força e ordem: esse não era o projeto político original da classe em ofensiva, que é a burguesia.

Digo isso porque observei alguns importantes intelectuais e ativistas defendendo a proposta da renúncia do Haddad para que Ciro assumisse a candidatura, e que essa seria uma tática genial para derrubar a ofensiva bolsonarista. Argumento parecido foi defendido pela candidatura de Ciro Gomes no primeiro turno. Acho que essa análise está equivocada e não se sustenta perante a realidade.

Em primeiro lugar, porque despreza o elemento mais profundo da ofensiva reacionária, que é a correlação de forças desfavorável entre as classes sociais: ou seja, Ciro também seria vinculado ao petismo e à pauta de esquerda. A ascensão de Bolsonaro e a onda conservadora é mais profunda que uma solução tática genial para virar o jogo. Ela está baseada no sentimento de ressentimento social de uma parcela enorme das classes médias urbanas e da pequena burguesia que já tinham sido a base de massas do golpe parlamentar de 2015-2016, conjuntamente com o papel reacionário da Lava Jato, a prisão de Lula e da campanha de desmoralização do PT durante os últimos 3 anos arquitetada pela grande burguesia brasileira e meios de comunicação. Alckmin, FHC, Temer marcharam na Paulista ao lado dos “monstros” que já em 2015 defendiam a intervenção militar, o resultado é que o antipetismo fomentado foi capitalizado pela extrema-direita. Bolsonaro cravou 46% dos votos válidos ou 49 milhões de votos no primeiro turno.  Em segundo, porque despreza que o terreno onde podemos virar o jogo é o da luta de classes, da mobilização, do choque social, apostar nas reservas acumuladas do movimento de mulheres, da juventude, dos lgbts, negros e negras e na classe trabalhadora: portanto devemos, mais do que nunca, exigir e construir mobilizações de rua pelas liberdades democráticas, por direitos e por #EleNão como fizemos no dia 29 de setembro. Nesse sentido, o partido que ainda dirige o movimento social organizado no país é o PT, e é dele que devemos exigir mobilizações antifascistas, democráticas em uma grande frente única em defesa da democracia e de direitos. Apostar nas mobilizações marcadas para o dia 20 e 27 de Outubro, nos milhares de grupos de WhatsApp que surgem por todo o Brasil para defender as liberdades democráticas, os direitos sociais e votar no 13. Por isso, enfim, é preciso manter a cabeça no lugar e organizar nas ruas as mobilizações para virar o jogo no segundo turno. Acreditar nas nossas próprias forças e nas reservas acumuladas na Resistência.

 

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