Política

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  • Contribuição ao debate da questão policial

    Por: Leandro Senhorinho, de Niterói

    No dia 18/11/2016, Henrique Canary, em sua coluna do Esquerda Online, publicou uma importante reflexão sobre o tema, de alguma maneira ratificada pela posição editorial do Esquerda Online no dia 13/02/2017. Em detrimento do acordo com tais posições, que já adiantam muitos dos elementos que serão abordados no texto que seguirá, continuamos analisando o tema, que provavelmente ainda será muito debatido em 2017. O objetivo principal deste texto é aumentar os dados de exame e assim demonstrar para militância que assume a tarefa do Socialismo Científico Revolucionário a necessidade histórica duma posição favorável à greve não declarada dos dispositivos policiais.

    É compreensível o asco que parte da militância política de esquerda sinta dos aparatos policiais. Não são poucos os exemplos históricos, no Brasil ou no mundo em que movimentos de trabalhadores e dos setores mais precarizados da classe, organizados ou não, sofrem com a coerção. Sem contar os locais onde o Estado de Exceção (não entrarei no debate sobre o conceito). é permanente, como nas favelas. Indignação legítima, mas não suficiente para compreender o movimento do real. Na dinâmica da luta de classes, devemos sempre observar os distintos pontos da composição dialética. Essa polêmica nos engendra algumas perguntas fundamentais: 1) se a função da PM é coercitiva, como ela pode ser uma aliada tática dos trabalhadores?; 2) existe potencial progressivo em seus atos não declaradamente “grevistas”?; 3) qual o papel dos revolucionários perante isso?

    Algumas respostas preliminares:

    1) É importante ter em mente que eventualmente os Policiais Militares voltarão realizar sua função típica, ou seja, reprimir os trabalhadores – não podemos ser ingênuos nisso. No entanto, o caráter educativo duma aproximação poderá retirá-los (ou pelo menos parte destes) da esfera conservadora que hoje mais influência exerce sobre este: o “movimento bolsonarista” (Parte dos seguidores de Jair Bolsonaro se auto-intitulam nesses termos). Uma cartilha programática de esquerda atuante junto aos soldados pode, eventualmente, permitir uma lenta erosão da ideologia ali presente (uma vez que mesmo os dispositivos coercitivos guardam seu lugar no imaginário).

    2) O potencial progressivo destas lutas pode, em dada medida, ser resultado da atuação dos próprios revolucionários. De modo que a intervenção no processo auxilie na tomada e consequente “salto de consciência” dos PM’s. Suas reivindicações que hoje são econômicas podem ‘vir a ser’ políticas – ou simplesmente adotarem posições substancialmente condescendentes em atos de trabalhadores.

    3) Para tratar da posição dos revolucionários apontarei um exemplo de nossa própria história:

    A famosa revolta da Chibata de 1910 foi, antes de tudo, uma manifestação de militares (da marinha), ainda que de baixa patente – e sob condições muito mais precárias de atuação que tal momento histórico impunha. Sua atuação, que causou caos, sobretudo, na cidade do Rio de Janeiro, não foi uma ação espontânea. Entre 1900 e 1909 organizações Mutualistas de cunho anarquista e ligadas ao Partido Socialista Brasileiro ou ao movimento operário (como a “Associação de Marinheiros & Remadores e Sociedade União dos Foguistas”) atuaram em constantes e crescentes protestos, primeiro contra as reformas do porto de Lauro Muller e depois contra os próprios maus tratos e reivindicações sobre a eleição de Hermes da Fonseca, que gerou ampla mobilização. Mais que os castigos, estavam em jogo reformas na estrutura da hierarquia militar e consequente manifestação política dos revoltosos. Para a construção da atuação destes, foi fundamental e imprescindível a colaboração dos revolucionários e a experiência por suas organizações trazidas através de jornais, como “A Gazeta Marítima” e “Echo do Mar”. Estes permitiam não apenas a divulgação de ocorridos contenciosos como inclusive propiciou a livre divulgação de relatos pelos próprios marinheiros – uma alternativa extra-oficial para sua organização.

    Construção da Dualidade de Poderes:

    Importante lembrar aos revolucionários que os Sovietes Russos pré-revolucionários eram compostos por operários, camponeses e soldados. Ou seja, agentes da repressão, responsáveis por amplos massacres aos trabalhadores em 1905, 1907 e 1911 estavam juntos aos trabalhadores. Cabe aos revolucionários, antes que essa tarefa seja assumida pelos Bolsonaristas, propiciar uma construção de poder extra-oficial dos PM’s de baixa patente – os soldados. A tarefa deve ser educativa, mais ao mesmo tempo lúcida. Oferecer meios de expressão e comunicação aos PM’s, como nossos companheiros do passado fizeram, pode ser mais um caminho na ruptura destes com o sistema e uma eventual, ainda que lenta, aproximação – não apenas tática, mas, principalmente, ideológica.

  • Não se ganha a humanidade pela desumanização

    Por: Arthur Valente , de São Paulo

    Para complementar o debate sobre como auxiliar a reorganização da esquerda revolucionária pela qual se pauta desde o princípio a corrente do MAIS e outras correntes que também enxergam tal necessidade, façamos uma reflexão sobre como se dão as relações humanas por dentro e fora da disputa política atual de modo a perceber os fatores que nos impedem de avançar na qualidade de nossas políticas tiradas e, por consequência, na quantidade de pessoas que delas se apropriam como se sendo também suas. Falo livremente no intuito de desenvolver um debate honesto sobre comportamento, ainda que aqui sem referências teóricas explícitas, porque com este, assim como com todos os debates, me proponho antes a aprender, uma vez que foi sempre através de alguém – vivo ou já morto; falando por livros ou pela boca – que todo o tipo de conhecimento me chegara aos sentidos, à mente e, se permitem analogia com o sagrado, à alma.

    Aos que, como eu, iniciaram a vida política há pouquíssimo tempo e atuam principalmente nos espaços de juventude – principalmente os restritamente políticos – é perceptível que alguns elementos de influência em nossas fileiras têm sido essenciais para dificultar a expansão de políticas que dialoguem com os mais diversos setores da classe que trabalha, tanto quanto aparentam crescer gradativamente com força – pela falta de diálogos sobre, talvez, e também pela incoerência nas práticas mesmo quando esses diálogos existem – no setor que carrega consigo o mérito e a responsabilidade de ter sido parte contundente na linha de frente das movimentações por pautas sociais e democráticas desde as jornadas de Junho de 2013. Este fator é o da dificuldade de enxergar no outro que pensa diferente um ser complexo, com história e que apesar de todas as contradições ideológicas se coloca à disposição – através de seu próprio tempo, condições materiais e subjetivas – para participar da construção de movimentos que possam nos tirar da zona de conforto desconfortável que é o da conformação com o regime vigente de exploração opressora, tal como é o regime do capital.

    É bom desde o princípio ressaltar que a ideia de “humanização do outro” ou solidariedade aqui proposta nada tem a ver com a blindagem da crítica por parte dos mais diversos setores que hoje compõem a esquerda, seja consigo próprios ou de um para com o outro; pelo contrário, este texto vem como um esforço para defender a ideia de que só será possível construirmos a união entre os mais diversos setores que agora tanto precisamos e ainda assim mantermos nossa autonomia de decisão sobre nossas próprias organizações, coletivos, grupos, etc., se aprendermos a nos olharmos com respeito e admiração, a começar pelo fato de termos saído do conforto (ás vezes desconfortável) de nossas casas, locais de estudo e de trabalho, para nos dedicarmos a debater e construir o que quer que seja. Em linhas gerais, neste texto defendo que uma crítica construtiva à ascensão da esquerda revolucionária como alternativa só será possível quando a autoanálise de nosso comportamento político para com nossos ditos diferentes vir a ser a da solidariedade real impregnada em todos os nossos sentidos – do ouvido e olhos atentos ao abraço sincero de quem se felicita ao perceber que com todas as discordâncias possíveis no que diz respeito à tática, não está sozinho na preocupação com a construção de um mundo baseado na igualdade e na justiça.

    Como temos agido no que diz respeito ao trato uns com os outros, dentro e fora de nossas organizações? Agimos muitas vezes como nos fora ensinado a agir na vida capitalista, em todas as instituições pelas quais passamos, sejam as escolas, igrejas, locais de trabalho e até mesmo locais de lazer, a ver, de forma indiferente para com aqueles que dividem o espaço conosco tendo muitas vezes os mesmos interesses que nós. De um ponto de vista objetivo, ao não nos relacionarmos com os outros que nos cercam, ou então nos relacionarmos de forma superficial – quase sempre como reflexo de nossa desconfiança de partida ou simplesmente por nossa preguiça das relações humanas, imposta violentamente pela sociedade do individualismo competitivo e amargurado – perdemos a chance de, ao mesmo tempo, humanizarmos a nós mesmos através da empatia que se ganha, ou que se pode ganhar, quando tentamos compreender a história contida naquele outro corpo que vemos, e de resolver contradições internas com nossas políticas por não nos darmos a chance de comprovarmos nossas certezas pelo debate aberto e sincero – ao invés do debate agressivo e mesmo antidemocrático, como de costume se vê por aí – ou de mudarmos de opinião, que sempre se mostrou ponto essencial para o nosso próprio avanço pessoal enquanto sujeitos políticos e indivíduos morais. Empobrecemos, portanto, nossa identidade cultural-política e nosso espírito revolucionário ao abdicarmos da base de tudo que levou os grandes autores e autoras, assim como os(as) revolucionários(as), a serem grandes como são e foram: o diálogo, que pode ser questionador sendo só prosa e as vezes prosa que vira debate.

    Não percebemos que ao atuarmos desta forma, não importa o que seja imputado em nosso discurso, nossos atos acabam quase sempre sendo o reflexo daquilo que política e moralmente repudiamos: a elitização e sectarização de nossas frentes, o pensamento enquadrado em concepções por vezes distantes do real e, claro, o punitivismo como centro de nossa política “didática”, seja este pela via psicológica ou mesmo física. Daí, afastamos pessoas que têm disposição enorme para se desenvolverem como sujeitos revolucionários e que muitas vezes se encontram na direita, por esta parecer – e parecer e não ser geralmente é muito mais atrativos do que querer ser, mas não parecer – ter uma abertura para o diálogo. E mesmo quando se repara que esta não é, o que provavelmente não demora tanto, para que retornar à esquerda se o modus operandi nessas questões de relações diretas muito se assemelha com a direita, que carrega a vantagem desta de ser o status quo, ou seja, que não requer tantos sacrifícios quanto uma política que se diga e que se tente fazer revolucionária?

    A esquerda ganhou – por anos de burocracia tão estruturada que passou a ser naturalizada, de certa forma – traços daquilo que grita repudiar. Nosso caráter não pode ser autoritário, nem arrogante, nem prepotente, nem rancoroso; se assim for, não há coerência e sem coerência não se convence pela realidade tal qual ela se apresenta. Terminamos, portanto, chamando trabalhadores de “burros” quando muitas vezes fica claro que somos nós os que empacamos aparentemente sem motivo, mas que, passando por uma análise um pouco mais atenta, vê-se claramente que assim agimos por medo de perdemos o status fixo, mas nada produtivo, de faróis da revolução.

    Que consigamos discernimento para atuarmos nos movimentos que atuamos como pontífices. Que construamos, então, pontes em que o caminho se dê pelas pedras da crítica, mas que os pilares sejam reconhecer que ali naquele outro corpo ou outros corpos, ou outros grupos, há, pelo menos, uma vontade de sincera de mudar o mundo e que isso nos basta para que consideremos suas falas e feitos como elementos a serem sempre considerados não só pela perspectiva que nós que vemos e ouvimos, mas também dele ou dela que se põe a fazer. E se não crermos que pelo debate sincero é que se cresce, tampouco que “tem gente que não muda”, melhor não perder tempo com militância, porque esquerda – ainda mais revolucionária – tem mesmo é a ver com a crença nada abstrata de que a gente é um universo de capacidade de mudar para melhor e, em conjunto, de mudar o mundo.

  • Conjuntura Nacional: elementos e dinâmica

    Gabriel Casoni, da secretaria política do MAIS

    Imaginemos um cidadão desatento que, depois de uma viagem de cinco anos ao exterior, sem ter recebido notícia alguma da terra natal, voltasse ao Brasil no início de 2017. Nosso amigo imaginário, ao deparar-se com atual cenário nacional, certamente chegaria à conclusão de se tratar de um quadro surreal.

    Muita coisa mudou, e em pouco tempo.

    A economia, depois dos anos ilusórios do ‘Brasil-potência’, naufragou numa das piores recessões registradas na história do país, e já ostenta 21 milhões de desempregados ou sub-ocupados. Um governo ilegítimo da direita tradicional comanda a carnificina dos direitos sociais, após o PT ter iniciado os trabalhos com Joaquim Levy.

    A bem da verdade, o processo político-social que culminou no golpe parlamentar foi a antítese de Junho de 2013: as camadas médias da sociedade giraram à direita e a classe trabalhadora, perplexa com a crise e sem alternativa à esquerda, ficou paralisada no momento decisivo. Abriu-se, assim, pelo menos desde março de 2015, uma correlação de forças desfavorável.

    No presente momento, como sintoma da situação adversa, temos um monstro da extrema-direita, Jair Bolsonaro, que aparece na segunda posição, em citações espontâneas, nas pesquisas de opinião para a Presidência da República.

    Há resistência, porém. E devemos valoriza-la. Os estudantes das escolas e universidades demonstraram capacidade de combate na onda de ocupações em 2016. Os trabalhadores, em inúmeras greves dispersas pelo país, protagonizam batalhas pelo emprego e salário. As mulheres, os negros e as LGBT´s deram também diversos exemplos de mobilização contra a opressão e a violência.

    Mas as lutas não tiveram força, até aqui, para inverter a inflexão negativa do quadro político-social. Em realidade, o governo Temer adquiriu relativa estabilidade nos últimos meses, ao compor uma ampla maioria no Congresso e receber firme apoio da burguesia para a aplicação das contrarreformas.

    A instabilidade, entretanto, ainda marca a situação política nacional. A começar pelo cenário econômico de dois anos de contínua e profunda recessão. No âmbito político, a falta de legitimidade popular de Temer e as ações da Lava Jato são fatores de inquietação para o governo. E do ponto de vista social, a bronca popular contra os “políticos” e o mal estar crescente da população com os efeitos da crise econômica aquecem a temperatura.

    A principal vantagem da classe dominante, na presente conjuntura, reside na debilidade ‘dos debaixo’ em responder com coesão e unidade à ofensiva do capital. Essa fragilidade, por sua vez, explica-se, fundamentalmente, pelo trágico papel desempenhado pelo PT. Desiludido com sua antiga direção, o proletariado, inclusive seus setores mais avançados, encontra-se, de modo geral, desorganizado em termos de ação política.

    Num quadro sintético: a burguesia está unificada em torno do programa econômico de Temer, embora haja diversas escaramuças políticas entre suas frações; as camadas médias seguem situadas, majoritariamente, à direita no espectro político; e a classe trabalhadora, embora descontente com Temer, não encontra forças e perspectivas, até o momento, para a mobilização política de massas.

    Dinâmica e tarefas

    A classe dominante aposta no fim de recessão econômica em 2017 e quer garantir Temer até 2018. As turbulências suscitadas por Trump, os sinais não muito animadores da demanda externa e a espiral recessiva da dinâmica interna, porém, produzem muitas incertezas.

    Mesmo que o cenário econômico mais favorável venha a se confirmar, é provável que o desemprego e as condições dos serviços públicos continuem a piorar no decorrer do ano. O mal estar social tende, portanto, a subir.

    O centro da agenda política de Temer, para o primeiro semestre, é a aprovação da Reforma da Previdência, seguida da Trabalhista. A batalha estratégica do governo e do grande empresariado responde pelo nome de ajuste neoliberal, que atende à necessidade de impor um novo patamar de exploração da força de trabalho. A burguesia aposta suas fichas aí.

    A Lava Jato, por seu turno, segue sendo funcional para o regime de dominação, ainda que venha a causar esse ou aquele estremecimento político indesejável ao governo. A emergência dessa operação institucional, baseada no Judiciário e na Polícia Federal, que aparece perante a população como a salvação dos males da corrupção, confere credibilidade ao Estado num momento de desprestígio do Executivo e do Legislativo.

    Nesse contexto geral de ofensiva do capital, a classe trabalhadora, a juventude e as camadas populares inevitavelmente se verão impelidas a defenderem-se dos duríssimos ataques em curso. As lutas de resistência não se deterão e podem, em determinadas circunstâncias, se radicalizar.

    O desafio e a maior dificuldade, porém, é o de construir o processo de unificação, coesão e organização da resistência popular.

    Nesse sentido, é necessário – e urgente – que o conjunto da esquerda, dos movimentos sociais e sindicais, a despeito de todas as diferenças políticas existentes, estabeleçam uma Frente Única para derrotar Temer e suas reformas neoliberais. Mais do que nunca, é hora de unidade para lutar. O primeiro passo é organizar a luta contra a Reforma da Previdência.

    Por outro lado, o combate político e ideológico à extrema direita é indispensável. Com a crise econômica e a descrença na política tradicional, e também com a desmoralização do que era considerado o maior partido de esquerda do país, o PT, sem que uma nova nova alternativa de esquerda tenha ocupado o espaço em aberto; ideias e lideranças de extrema direita ganharam terreno fértil.

    Por fim, e não menos importante, trata-se da tarefa de construir uma alternativa política ao PT. O programa de conciliação de classes para a gestão do capitalismo brasileiro, que resultou no Ajuste Fiscal e depois no Impeachment de Dilma, pretende voltar repaginado, via a proposta da Frente Ampla, com a possível candidatura Lula em 2018.

    O PSOL, MTST, PCB, PSTU, sindicatos e movimentos sociais combativos, intelectuais marxistas etc., podem e devem juntar forças na construção de um Bloco da Esquerda Socialista que ofereça um programa de ação alternativo ao PT. O MAIS (Movimento por uma Alternativa Independente e Socialista) aposta nessa perspectiva e coloca suas modestas forças a serviço dessa tarefa.

  • Militância de internet é coisa do passado

    Por: Ademar Lourenço, de Brasília

    Mais antiga que disco de vinil. Querer mudar o mundo com o poder das redes sociais é uma moda do longínquo ano de 2013. Não é mais possível fazer o mesmo que foi feito nas “Jornadas de Junho” do Brasil ou na chamada “Primavera Árabe”.

    Naquela época, os usuários tinham mais controle sobre as redes sociais. Elas davam às pessoas comuns a oportunidade de pautar o debate público. Mas como diz o ditado, esmola demais o santo desconfia.

    Antes de 2014, o que você postava em uma página do Facebook aparecia automaticamente para mais de 12% de seus curtidores. A partir de 2014, esse número passou para cerca de 6%. Em 2016, o número de pessoas para quem a postagem é entregue foi reduzido ainda mais. E essa é a tendência das outras redes sociais.

    Quer que mais gente tenha acesso a seu conteúdo no Facebook? Pague. Hoje quem não paga pelo conteúdo está fadado a ter uma visibilidade quase nula. Vai abrir um canal no Youtube? Hoje em dia, as chances de se tornar relevante sem se enquadrar nas regras da rede são mínimas. Você até posta o que quiser, mas seu conteúdo não vai passar na “cláusula de barreira”. As empresas, ou quem as paga, decidem o que vemos. Estamos quase na posição de meros expectadores, como na TV e no rádio.

    Assim é o capitalismo

    Facebook e Google são empresas. Todo novo ramo capitalista começa com empreendedores cheios de novidades para agradar a clientela. Depois, como é da natureza do capitalismo atual, os monopólios se estabelecem e a coisa muda. Com a internet não seria diferente.

    A internet já foi mais livre. A primeira rede social do mundo, o Centro de Mídia Independente, foi criada em 1999 por militantes de inclinação anarquista. Com o lema “odeie e a mídia, seja a mídia”, a rede social permitia que os usuários postassem suas próprias notícias. Eram os tempos em que baixar músicas e filmes livremente era fácil. Hoje a internet foi colonizada pelos grandes monopólios. Você vê o que o Google quer que você veja. Restou a Deep Web, que poucos acessam, como território de liberdade.

    As ruas não têm algoritmo

     As grandes questões políticas continuam sendo decididas como há centenas de anos: nas ruas. Ali não temos os filtros das redes sociais, os chamados algoritmos, que empurram o que dizemos apenas para quem já concorda conosco. Lá encontramos o trabalhador que vota no Bolsonaro por protesto, a senhora que acha que Temer é um governo razoável, as pessoas que estão indecisas sobre o ajuste fiscal. Lá encontramos quem realmente precisamos convencer.

    O contato real continua insubstituível. É fácil dizer no Twitter que um estudante tem que apanhar. Dizer isso para um estudante de carne e osso olhando no olho é mais difícil. Os contatos reais tendem a gerar mais empatia. Quando você se dá conta de que está lidando com outro ser humano, a disposição para ouvir é outra.

    A internet é uma entre várias ferramentas

     Até a internet comercial já viu que o mundo real é a grande rede. Jogos lançados recentemente, como o Pokemon Go, fazem a pessoa a ir para espaços públicos procurar monstros virtuais.  Internet não é mais para ficar em casa. Ela é parte do “mundo lá fora”. E assim é com a política.

    As ocupações de escolas e universidade em 2016 foram uma boa experiência. O movimento real de estudantes acampados se somou às postagens, memes e transmissões ao vivo pelo Facebook.  Na rede havia uma disputa acirrada entre o movimento estudantil e os que pregavam a desocupação à força. Na vida real, mais de mil ocupas ficaram de pé por vários dias, o que representou uma vitória.

    A militância virtual é importante.  Temos que nos aprimorar nela. Mas ela só faz sentido se for um suporte da militância real.

     

  • Pinheirinho: 5 anos da desocupação e um mês da conquista das casas

    Por, Cláudio Rennó.

    Há exatos cinco anos, em 22 de janeiro de 2012, o Brasil e o mundo assistiam estarrecidos o despejo violento da ocupação urbana do Pinheirinho, em São José dos Campos, interior de São Paulo, a expulsão de 1500 famílias, cerca de 6 mil pessoas, pela Polícia Militar, pelo Poder Judiciário e pelo governo do Estado de São Paulo.

    Dia 23 de dezembro de 2016 as chaves das 1461 casas do “Residencial Pinheirinho dos Palmares II” foram entregues às famílias remanescentes da ocupação original. Em outra região da cidade, bem mais distante do centro, sem a mesma infraestrutura urbana, outro projeto, mas ainda assim uma enorme vitória da luta, da mobilização permanente e da organização consciente.

    Nestes quase cinco anos entre o despejo e a entrega das casas as famílias se dispersaram um pouco por vários bairros da cidade, algumas receberam o benefício do “aluguel social” outras não tiveram a mesma “sorte”. Mas mesmo assim mantiveram alguma organização e unidade durante este tempo longe uns dos outros.

    Relembrar é lutar

    Em janeiro de 2012 a justiça de São Paulo determinou a retirada de 6.000 pessoas que já moravam na ocupação do Pinheirinho já há 8 anos, para devolver as terras da empresa falida do burguês Naji Nahas, terra da qual ele não pagava impostos há mais de 20 anos. A Justiça cometia, assim, um crime. O governo, o Estado burguês, representando a sua classe, perdoou as faltas do especulador Nahas levando 6.000 proletários à rua.

    O primeiro Pinheirinho situava-se na zona sul de São José dos Campos, próximo ao bairro Campos dos Alemães. Os “alemães” eram um casal que foi assassinado na década de 60, sem deixar herdeiros. A área toda deveria ter se tornado herança vacante, tomada pelo Estado e transferida para a universidade estadual de unidade mais próxima. Mas a terra foi grilada pelo Comendador Bentinho.

    Em 1981, o terreno foi vendido ao empresário Naji Nahas. A empresa de Naji Nahas, Selecta, faliu em 1990, e o terreno, localizado em zoneamento industrial, permaneceu abandonado. A Selecta é uma off shore com sede num endereço inexistente na cidade do Panamá.

    Breve Histórico

    Com a vitória de Eduardo Cury, o segundo prefeito do PSDB, em 2004, após 8 anos do primeiro alcaide tucano (Emanuel Fernandes) continou-se um processo de ”higienização social” do centro da cidade, com ”desfavelização” e remoção das  famíĺias para áreas distantes do centro, como o bairro Campos dos Alemães.

    Em dezembro de 2003 a CDHU e a prefeitura de SJ Campos iriam entregar casas neste bairro para as famíĺias removidas do centro. Mas a população local se auto-organizou e ocupou as ”casinhas” do Campo dos Alemães antes da Prefeitura entregá-las às famíĺias removidas do centro, por estarem na frente “na fila” da moradia.

    Entre o natal e o ano novo de 2003 a instância local do Estado, a Prefeitura a através da Guarda Municipal tentou proceder uma desocupação das ”casinhas” sem ordem  da instância judicial do Estado. Por orientação dos advogados dos sindicatos que os apoiavam e por disposição de luta, os moradores decidiram resistir à ação para-estatal da guarda municipal e houve um enfrentamento físico entre os sem teto e a Guarda Municipal onde os sem-teto levaram larga vantagem, ou seja, os desamparados pelo Estado ”deram uma surra” na guarda do Estado.

    Uma tropa da PM que estava próxima do conflito com cerca de 50 homens não se mexeu, porque não havia ordem judicial para tal. Esta vitória física, violenta, deu muita moral e autoridade para os sem-teto e, por outro lado, gerou muito ódio de classe na Prefeitura tucana contra os sem-teto.

    A Prefeitura em represália excluiu os moradores do Pinheirinho de todos os programas sociais: moradia, sextas-básicas, vale-gás, leve-leite, proibiu as escolas e postos de saúde de matricular e atender os moradores etc. Abusos estes que foram sendo derrubados um a um com muitas mobilizações e denúncias, mas demoraram até um ano ou mais para voltarem a ser atendidos plena e regularmente.

    Uma frase de uma moradora do Pinheirinho, Valdirene Ribeiro chamou a atenção: “O direito existe, mas para ser efetivado a gente precisa saber, precisa conhecer e precisa de muita luta, organização, divulgação, para contrapor o poder do dinheiro e fazer valer [efetivar] esse direito e conquistar mais“.

    Todavia nem o Estado nem sua Justiça são nossos…

    Uma decisão da Justiça Federal (Tribunal Regional Federal de São Paulo) do dia 20 de janeiro de 2012, mandou suspender a reintegração de posse, mas a Justiça Estadual ignorou tal decisão mantendo a liminar que levou à retirada dos moradores.

    O presidente do Tribunal do Estado de SP deu despacho no dia 21 mandando fazer a desocupação e, se aparecessem forças federais, deveriam ser repelidas. O presidente da corte paulista, Ivan Sartori, ordenou ao comando da Polícia Militar para o imediato cumprimento do mandado da 6a. Vara Cível de São José dos Campos, “repelindo-se qualquer óbice que venha a surgir no curso da execução, inclusive a oposição de corporação policial federal”. Foi uma ameaça de guerra civil.

    A coordenação do movimento, os advogados, os apoiadores “acreditaram” na força da decisão da Justiça Federal; fizeram uma festa no Pinheirinho na noite do dia 21 de janeiro. Mas no dia seguinte, todos dormindo, de ressaca ou ainda embriagados pelo álcool e pela ilusão na Justiça do Estado-burguês, às 6 horas da manhã do dia 22 de janeiro de 2012, a Polícia Militar de São Paulo recebeu ordem do governador para iniciar as operações de cumprimento da reintegração de posse do Pinheirinho.

    Karl Marx já a 1852, em “O 18 Brumário” apanhava as dimensões políticas e econômicas do Estado ao compreender o Estado burguês como uma expressão essencial das relações de produção específicas do capitalismo e mostrava como o Estado é, em última instância, um órgão da classe dominante.

    A luta deve continuar

    Um mês da entrega das chaves e das casas não pôs fim à história das lutas dos trabalhadores do Pinheirinho. Desde a entrada nas novas moradias, vários problemas já apareceram, de encanamentos entupidos com cimento, erros de projeto, só um ponto de luz para dois cômodos, obras inacabadas etc. Mas o mais emergencial é que como o novo terreno é em declive, faz-se necessário a construção de vários muros de arrimo, sob pena de deslizamento, ainda mais com essa chuva que não passa.

    Várias quadras têm no fundo das casas um desnível de mais de 2,5 metros, o solo da área é todo argilo-arenoso, quase sem calcário ou granito. Se não forem construídos urgentemente escoras provisórias e os muros de arrimo em definitivo, muito provavelmente algumas casas novinhas, recém entregues, vão desabar, com grave risco à vida dos moradores, a maioria crianças.

    Outras demandas também já são levantadas pelos moradores, como creches, escolas, postos de saúde, áreas de lazer e cultura mais próximas do Novo Pinheirinho. Assim como ainda resiste a consciência de que muitas famílias-irmãs ainda pagam aluguéis caros, vivem em favelas e cortiços ou mesmo nas ruas da cidade, do estado, do país e do mundo.

    Com a crise do capitalismo se agravando no mundo todo e com os ataques aos direitos sociais dos trabalhadores se aprofundando no Brasil, a tendência é que aumente cada vez mais o número de famílias sem-teto, sem-terra, sem-trabalho, sem-escolas, sem-saúde etc.

    A vitória do Pinheirinho deixa como legado e lição a todos os trabalhadores que é necessário lutar e que é possível vencer. Para além da sua lição já histórica e para além das suas demandas específicas e legítimas urgentes e imediatas, os ativistas, líderes e dirigentes do Pinheirinho podem ajudar e mostrar o caminho para os demais trabalhadores para 1, 2, 3 Pinheirinhos mais surjam em São José dos Campos, no Estado de São Paulo e em todo Brasil.

    Parabéns pela vitória!

    Até a vitória final!

    Até o Socialismo, no Brasil e no Mundo!

     

  • Milhões de mulheres pelo mundo enfrentam Trump

    Por Taiz Zapalla e Sílvia Ferraro, de São Paulo.

    Milhares de mulheres foram às ruas nos EUA e no mundo todo neste sábado (21), em um protesto contra o recém empossado presidente Donald Trump. Em Washington estima-se em torno de 500 mil pessoas, a maioria absoluta mulheres, em Chicago foram mais de 150 mil. Segundo a organização da Marcha (Women’s March) nas cidades pelo mundo quase três milhões de pessoas se manifestaram hoje.

    O mar de mulheres vestindo gorros rosa com duas pontas, uma humorada forma de protesto contra uma das frases misóginas de Trump, seguravam cartazes com dizeres que faziam apelos por direitos democráticos, como respeito aos seus direitos reprodutivos, direito ao aborto, igualdade, dignidade para as mulheres e justiça social. Entre as bandeiras também estavam a igualdade salarial entres homens e mulheres e a oposição à retirada dos direitos sociais, tais como a privatização das escolas públicas e a piora no sistema de saúde (Obamacare).

    Em Washington, dois discursos deixaram evidentes o protagonismo dos setores oprimidos: o primeiro deles da principal representante do feminismo negro, a ex-pantera negra e membro do Partido Comunista americano, Ângela Davis. Ela fez menção a dois movimentos importantes: reforçou que as vidas negras importam (black lives matter), referindo-se ao movimento contra a violência policial. E também à luta contra a xenofobia, que ganhou voz na frase:  “nenhum ser humano é ilegal” – lembrando que a história dos Estados Unidos é uma história de imigração e escravidão e criticando a proposta vergonhosa de Trump de construir um muro que separe a fronteira do país com o México.

    O outro foi da feminista de longa trajetória Gloria Steinem, que levantou algumas das principais bandeiras do movimento feminista na década de 60 do qual foi uma das líderes. Em seu discurso fez muitos elogios aos democratas, ao casal Obama e em especial à Hillary, derrotada por Trump nas eleições.  No entanto, a ilusão nos democratas é uma armadilha. O governo Obama e seu antecessor democrata Bill Clinton não implementaram políticas que priorizassem manter o nível de vida da classe trabalhadora americana, pelo contrário: Clinton, quando presidente, fomentou a indústria do sistema prisional, encarcerando ainda mais os pobres e negros. Obama, por sua vez, deu amplos incentivos à bancos e montadoras enquanto a classe trabalhadora perdia suas casas na bolha imobiliária de 2008.  Hillary e seu partido fizeram parte destas políticas e, por isso, não representaram uma alternativa real nas últimas eleições.

    Trump assume com umas das menores popularidades que um presidente americano já teve, apenas 44% de aprovação. Uma parte importante de sua base eleitoral foi o apoio dos trabalhadores brancos empobrecidos, que desde a crise de 2008 amargam uma piora em sua qualidade de vida e que enxergam em seu discurso protecionista a oportunidade da volta dos empregos. Assentado neste sentimento, Trump promete o ataque aos imigrantes, a privatização dos serviços públicos, a diminuição dos gastos governamentais e dos impostos como uma possibilidade de melhora na economia do país.

    As mulheres, as negras e negros, os mulçumanos e os imigrantes, que compõe a parcela oprimida dos trabalhadores americanos, não têm as mesmas esperanças e os mesmos sonhos que os bilionários gananciosos que integram o governo Trump, nem se quer com os democratas que antes representavam os interesses desses. A parcela oprimida dos trabalhadores divide as mesmas esperanças e sonhos com o setor da classe trabalhadora branca, que quer uma saída para a penúria de suas vidas e que foi iludida com a falsa alternativa Trump. Os milhares de ativistas que saíram às ruas para derrubar os ataques de Trump pela força de seu movimento, também terão que convencer os demais trabalhadores estadunidenses de que o ataque a uma é o ataque a todos.

  • Chacina, falta d’água e aumento da passagem: o retrato do fim de semana em Belém

    Por: Will Mota, Belém, PA

    O fim de semana de 20 a 22 de janeiro na região metropolitana de Belém foi mais difícil do que de costume para o povo trabalhador. Começou a vigorar a nova tarifa de ônibus homologada pelo Prefeito tucano Zenaldo Coutinho, que subiu de R$ 2,70 para R$ 3,10, sem nenhuma discussão com os usuários e sem nenhum compromisso firmado com os empresários de melhoria na qualidade do transporte.  

    Também foi interrompido o abastecimento de água pela COSANPA (Companhia de Saneamento do Pará) entre sexta e domingo para mais de 850 mil pessoas em 21 bairros de Belém e Ananindeua.

    O motivo do desligamento para reparos em uma adutora da empresa que foi completamente sucateada pelo governo do Estado de Simão Jatene (PSDB) nos últimos anos e já está na mira das privatizações a serem efetivadas ainda este ano no âmbito do PPI (Programa de Parcerias em Investimentos), o programa de concessões em saneamento do governo ilegítimo de Michel Temer.

    E para completar o fim de semana macabro, 30 execuções praticadas por milicianos e grupos de extermínio foram registradas entre a manhã de sexta e de sábado, após a morte de um policial da ROTAM (Ronda Tática Metropolitana) da Polícia Militar, nos bairros periféricos da capital.

    O perfil das vítimas, como de costume é de jovens pretos, pobres e moradores da periferia. Tudo isso ocorreu, a exemplo da chacina praticada em novembro de 2014 que dizimou a vida de 11 pessoas, sob a disseminação de muito terror, pânico e toque de recolher. Toda essa carnificina ocorre com a conivência do alto comando da PM, da Secretaria de Segurança Pública e do governador.

    O penúltimo fim de semana de janeiro de 2017 é o retrato fiel dos governos do PSDB no Pará: insegurança e medo para o povo, impunidade para os milicianos; desabastecimento para o povo, privatização da água para os grandes empresários; transporte coletivo caro e de péssima qualidade para o povo, aumento abusivo da tarifa para os mafiosos das empresas de ônibus.  

    É preciso dar um basta a essa situação. Um primeiro passo urgente para começar a mudar esta realidade é a união dos trabalhadores, estudantes e movimentos sociais para construir um plano de luta para enfrentar os ataques de Temer, Jatene e Zenaldo!

    Chega de chacinas e do extermínio do povo pobre e preto! Não à privatização da COSANPA! Redução e congelamento imediato da tarifa de ônibus!

  • Discutindo a Fundação Ford (Parte 4 de 4)

    Marcus Correia, de São Paulo, SP

    Leia aqui a Parte 1

    Leia aqui a Parte 2 

    Leia aqui a Parte 3

    É espantoso como entidades, ONGs, ativistas e pesquisadores no Brasil, identificados com a esquerda em sentido amplo, ainda hoje permanecem recebendo recursos da Fundação Ford, mesmo diante de tantas informações e pesquisas disponíveis a propósito da estreita relação existente entre essa entidade, a política externa dos Estados Unidos e seus órgãos de inteligência.

    Pressupondo que a razão para esse aparente paradoxo político decorra apenas de um profundo desconhecimento de fatos básicos da história dessa instituição, este artigo procura reunir alguns desses fatos, a maior parte deles recolhidos de importantes trabalhos já publicados.

    O artigo apresenta-se dividido em quatro partes: a primeira aborda os primeiros anos da Fundação, do período que vai da sua criação no ano de 1936 até o término da Segunda Guerra Mundial em 1945; a segunda parte se debruça sobre o período entre o início da chamada Guerra Fria até os anos de 1960; a terceira traz fatos a respeito da atuação da Fundação Ford no Brasil, sobretudo, durante a ditadura militar; a quarta parte aborda as atividades da Fundação Ford dos anos 1970 até os dias atuais.

    Cabe observar que nesse delicado momento atual do país é cada vez mais relevante que se avolumem discussões sobre o imperialismo, uma vez que, ao que consta, o Brasil não é o centro do capitalismo global e está mais sujeito às suas intempéries do que parece a muitos analistas da esquerda autóctone.

    E aqueles que não concordarem com essa breve história da Fundação Ford, que contem outra mais idílica.

    Dos anos 1970 aos dias atuais

    Conforme a proposta das partes anteriores do artigo, o objetivo aqui não é o de elencar financiamentos da Fundação Ford pelo mundo, mas apontar as relações existentes entre os principais membros da entidade, os órgãos do governo dos Estados Unidos (incluindo a CIA, o Pentágono e o Departamento de Estado) e as transnacionais do país.

    Nas últimas décadas, em razão de os recursos da Fundação Ford direcionarem-se ao financiamento dos chamados direitos humanos, a entidade passou a aparecer aos olhos dos mais crédulos como tendo cortado os vínculos que manteve com o establishment estadunidense durante a Guerra Fria. Tal percepção, ora ingênua ora oportunista, mostra-se completamente equivocada, pois é possível identificar a permanência desses vínculos até os dias atuais.

    De acordo com o que foi exposto nas partes 2 e 3 do artigo, entre 1966 e 1979, o presidente da Fundação Ford foi McGeorge Bundy, que, entre outros cargos que ocupou, foi Assessor de Segurança Nacional dos presidentes John F. Kennedy e Lindon Johnson e cujas relações com a CIA consistiram em monitorar e formular algumas de suas ações no exterior. Seu irmão William Bundy também era funcionário da agência [1].

    Quando, em 1979, Bundy deixou a presidência da Fundação, o cargo foi ocupado por Franklin Augustine Thomas.

    Durante dez anos (1967-77), Franklin A. Thomas dirigiu a Bedford Stuyvesant Restoration Corporation, em Nova York, uma organização “beneficente”, fundada por ninguém menos que Robert F. Kennedy, irmão de John F. Kennedy, e pelo então prefeito da cidade, John Lindsay [2].

    Em 1967, Franklin  A. Thomas foi convidado por Robert F. Kennedy para presidir a Bedford Stuyvesant Restoration Corporation, que contava com aportes financeiros da Fundação Ford, à época presidida por McGeorge Bundy [3].

    As relações entre Robert F. Kennedy, a CIA e a máfia também são bastante conhecidas, a exemplo de várias operações coordenadas por ele para o assassinato de Fidel Castro [4]. Em 1968, Robert F. Kennedy foi assassinado, assim como o irmão John F. Kennedy havia sido cinco anos antes.

    Franklin A. Thomas serviu na Força Aérea dos Estados Unidos entre 1956 e 1960, chegando à patente de capitão. Ele também foi diretor do setor jurídico do Departamento de Polícia de Nova York, entre 1965 e 1967, no conturbado contexto de luta por direitos civis nos EUA. Enquanto ocupava a presidência da Fundação Ford, Franklin A. Thomas foi do conselho de diretores do Citibank e de várias outras grandes empresas estadunidenses [5].

    Franklin A. Thomas ficou na presidência da Fundação Ford até o ano de 1996, quando passou o cargo para Susan Berresford, uma alta funcionária da entidade desde a gestão de McGeorge Bundy. Ela ficará na presidência da Fundação até 2007. Susan Berresford, entre outros cargos que ocupou, foi do conselho do Chase Manhattan Bank, hoje controlado pelo JP Morgan.

    Como Susan Berresford foi funcionária da Fundação Ford por mais de trinta anos, seu vínculo mais conhecido com empresas privadas dos EUA foi com o referido banco. Como presidente da Fundação Ford, abriu o primeiro escritório da entidade na Rússia em 1996. Em 2005, Berresford entrou na lista da revista Forbes como uma das cem mulheres mais poderosas do mundo. [6]

    Em 2008, foi a vez de Luis Ubiñas presidir a Fundação Ford. Ubiñas trabalhou durante dezoito anos como diretor da McKinsey & Company, a maior empresa de consultoria de negócios do mundo. Sua área de especialidade na companhia era mídia e telecomunicações [7].

    Não é, portanto, coincidência que um dos principais pilares de financiamento da Fundação Ford pelo globo atualmente seja a mídia dita alternativa e movimentos de ampliação do espectro de mídia nos países periféricos.

    Em 2013, Luis Ubiñas passou a presidência da entidade para Darren Walker, que ocupa o cargo até hoje.

    No mesmo ano em que Walker assumiu a presidência, um dos representantes da entidade no Brasil, quando foi questionado sobre as relações entre a Fundação e a política externa estadunidense durante a Guerra Fria, admitiu que “certamente ocorreram erros na história  [da entidade]” ! [8] E afirmou que atualmente a Fundação opera apenas com recursos próprios da família Ford e não recebe aportes de nenhuma outra instituição ou governo.[9]  

    O que ele não mencionou é que em alguma cristaleira da família Ford está guardada a Grã-Cruz da Ordem da Águia Alemã nazista que o patrono Henry Ford ganhou de Adolf Hitler (Cf. Parte 1).

    Porém, mesmo pressupondo que a Fundação não receba recursos de outros organismos públicos e privados e opere apenas com dotação orçamentária própria, isso não significa que na atualidade suas ações não sejam coordenadas com os órgãos de inteligência dos Estados Unidos, com o Pentágono, com o Departamento de Estado e com as megatransnacionais do país.

    Prova disso é a atividade do atual presidente da Fundação, Darren Walker, como membro do Council on Foreign Relations, o principal órgão privado de formulação de política externa para os Estados Unidos [10].

    É possível afirmar que este think tank é o principal formulador da parceria entre as transnacionais do país, as fundações privadas ditas filantrópicas e o aparato militar-diplomático estadunidense na aplicação de uma política global que beneficie o centro do império capitalista.

    Entre os membros atuais do conselho encontram-se quer republicanos quer democratas, bem como acadêmicos, militares, ex-altos funcionários do governo (Pentágono e Departamento de Defesa), presidente de grandes órgãos de comunicação (CNN, Fox News, Times Warner), jornalistas, empresários, ex-ministros, ex-presidentes dos Estados Unidos etc. O conselho reúne, de fato, os principais articuladores geopolíticos da burguesia internacional na atualidade.

    Para se ter uma idéia, entre os muitos indivíduos do setor de inteligência dos Estados Unidos no Council on Foreign Relations, do qual o atual presidente da Fundação Ford faz parte, estão: os dois ex-diretores da CIA na administração Jimmy Carter: Frank Carlucci e Stansfield Turner; Robert M. Gates, ex-diretor da CIA na administração George H. W. Bush (pai) e ex-ministro da Defesa de George W. Bush e Barak Obama; Michael Hayden, ex-diretor da NSA na administração Bill Clinton e ex-diretor da CIA na administração George W. Bush; James Woolsey, ex-diretor da CIA na administração Bill Clinton; John Negroponte, ex-diretor de inteligência nacional da administração George W. Bush; Porter Gross, ex-diretor da CIA na administração George W. Bush; David Patreaus, ex-diretor da CIA na administração Obama.[11]

    General Motors, Chevron, ExxonMobil, Ford Motor, Texaco, Citibank, IBM, Coca-Cola, Soros Fund Management, JP Morgan, Goldman Sachs são apenas alguns exemplos das megatransnacionais que subsidiam o conselho do qual participa Darren Walker, que antes de ocupar o cargo de presidente da Fundação Ford foi ainda alto executivo do Union Bank of Switzerland. [12]

    O importante a ser observado aqui é que, desde o final da Segunda Guerra Mundial, existe um vínculo ininterrupto entre o alto escalão da Fundação Ford, os órgãos de inteligência dos Estados Unidos, o Pentágono e o Departamento de Estado, o complexo industrial-militar e grandes transnacionais. Ao contrário do que comumente se imagina, a política externa conjunta entre fundações privadas e o governo estadunidense ampliou-se a partir da década de 1970.

    Um dos objetivos da utilização de ONGs e fundações privadas para a política externa dos EUA é desburocratizar e encobrir atividades de inteligência no exterior, como o financiamento de grupos locais cujas causas coincidam com os interesses estratégicos do império, seja na aquisição de novos mercados seja na desestabilização de governos ou regimes considerados “não-alinhados” seja para uma política soft de contrainsurgência.

    Este último caso consiste em influenciar pessoas, por meio de ONGs e entidades filantrópicas, a se engajarem em “causas” liberais, supostamente progressistas, embora não anticapitalistas tampouco comunistas e, assim, promover protagonistas políticos de orientação política não-classista, eclipsando e dificultando a militância das organizações comunistas-marxistas.

    Vale, por fim, reeditar aqui a pergunta feita no artigo Open Society: sociedade aberta para quem [13]: Deve a esquerda brasileira receber recursos financeiros oriundos de fundações, ONGs, empresários e financistas das principais potências estrangeiras para lutas políticas no Brasil, considerando ainda o histórico desses ignóbeis filantropos?


    NOTAS:

    1. Sobre os irmãos Bundy, Cf.: MARCHETTI, Victor & MARKS, John D. The CIA and the cult of intelligence. [S.n.]: Langley, Virginia, 1974; E, BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Formação do Império Americano: da guerra contra a Espanha à guerra do Iraque. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.; 
    2. Bedford Stuyvesant Restoration- History: https://www.restorationplaza.org/about/history  ; Franklin Augustine Thomas – Biography: http://biography.jrank.org/pages/2487/Thomas-Franklin.html  
    3. Idem.
    4. BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. Idem, 2005.; 
    5. Franklin Augustine Thomas – Biography: http://biography.jrank.org/pages/2487/Thomas-Franklin.html  
    6. Revista Forbeshttp://www.forbes.com/lists/2005/11/YELG.html
    7. http://www.huffingtonpost.com/author/luis-ubi
    8. Nelson de Sá. Quem paga a conta? Observatório da Imprensa. http://observatoriodaimprensa.com.br/jornal-de-debates/_ed762_quem_paga_a_conta/
    9. Idem.

    10.Lista de membros do Council on Foreign Relations http://www.cfr.org/about/membership/roster.html

    1. Lista de membros do Council on Foreign Relations http://www.cfr.org/about/membership/roster.html
    2. Lista de membros comporativos do Council on Foreign Relations http://www.cfr.org/about/corporate/roster.html
    3. “Open Society”: sociedade aberta para quem? http://blog.esquerdaonline.com/?p=7704

     

  • TEORI DA CONSPIRAÇÃO

    Por Gibran Jordão, Rio de Janeiro, RJ

    Após a morte do Ministro do STF Teori Zavaski em queda de avião no mar do litoral paulista, uma polêmica se abriu em todos os espaços que se discute política no país: o questionamento no qual uns opinam que a queda do bimotor foi um acidente, e outros apontam que se trata de uma sabotagem encomendada.

    O ex-presidente do STF Joaquim Barbosa e o próprio filho de Teori manifestaram publicamente insinuações de que não se pode descartar que tenha sido um crime. Seja como for, cautela e prudência em afirmar qualquer hipótese com convicção nesse momento nos parece ser o caminho mais correto a seguir.

    Mas isso não significa que não devemos discutir a possibilidade de uma possível conspiração para assassinar o Ministro do STF.

    Pela situação de crise política que se encontra o país hoje, pelo acúmulo de poder nas mãos de Teori que poderia destruir figuras, esquemas e reputações de vários partidos da base aliada de Temer (e também da oposição). Pelas circunstancias as quais se deu a queda do avião, não podemos ignorar e muito menos podemos desqualificar tal hipótese.

    Não é menos importante saber se foi ou não um acidente, pois caso se confirme sabotagem para assassinar um ministro do STF, relator dos processos e das delações da operação Lava Jato, fica absolutamente evidente que o país está sendo comandado por criminosos que são capazes das atitudes mais macabras para defender seus interesses.

    Essa é a disputa entre as distintas frações da burguesia que lutam para ver quem controla as estruturas do regime e do estado brasileiro nos marcos de uma grave crise econômica.

    Se na moral burguesa assassinar um ministro de umas das estruturas de poder constituintes da republica é o modus operantis, imagine o que não serão capazes de fazer com o povo trabalhador brasileiro.

    Vale também destacar que comprovando ou não a hipótese de crime/sabotagem, não podemos santificar o ministro Teori Zavaski, como tem sido a tendência das rodas de conversa e das especulações que surgem na grande mídia.

    Em vários temas polêmicos que exigiram o posicionamento do STF, o ministro Teori votou manifestando uma postura reacionária, conservadora e autoritária, senão, vejamos: 1. Teori Zavaski votou a favor da prisão pós condenação em segunda instância a favor da possibilidade de órgãos públicos cortarem o salário de servidores em greve desde o início da paralisação;

    1. Foi contra o recálculo do valor da aposentadoria por meio da chamada desaposentação;
    2. Participou do acordão que manteve Renan Calheiros no cargo;
    3. Votou a favor do reconhecimento e contratação das organizações sociais
    4. Votou contra o reconhecimento da inconstitucionalidade da lei cearense que regulamenta a vaquejada como manifestação cultural.

    Ainda que haja um grande acordo entre os três poderes como também com as distintas frações da burguesia em torno da aplicação do ajuste fiscal envolvendo a PEC 55, e agora a aprovação da reformada previdência/trabalhista é inegável que existe uma luta política no qual setores da burguesia operam entre os três poderes.

    A disputa pela grande mídia e também através da agitação e mobilização da classe média para disputar o poder, esquemas, defender reputações ameaçadas e recursos do tesouro que estão mais escassos por conta da recessão e crise econômica que vive o país.

    Quanto maior for a queda do PIB maior será a luta entre as frações da burguesia… Como localizou bem Guilherme Boulos em seu artigo intitulado “As Guerras Paralelas” na Folha de São Paulo desse sábado:

    “De um lado, a chamada República dos procuradores, com ramificações no STF (Supremo Tribunal Federal), que pretende levar adiante a Lava Jato valendo-se dos recursos que forem necessários, incluindo medidas de exceção. De outro, Temer e a maior parte dos partidos políticos, unidos na proposta de “estancar a sangria”.

    O primeiro grupo conta até aqui com o apoio da maior parte da mídia e com o clamor público de combate à corrupção. O outro passou a ser respaldado pelo ministro Gilmar Mendes, líder do PSDB no Judiciário, que após a consumação do golpe contra Dilma Rousseff, passou a denunciar excessos na Lava Jato. Excessos que, pouco antes, contaram com os aplausos entusiasmados do mesmo Gilmar.

    Não há heróis nesta história. São dois grupos disputando seus projetos de poder, um deles bastante conhecido, o outro nem tanto.

    Na mesma semana em que caiu o avião de Teori, o Procurador Geral da República estava sendo aplaudido em Davos pelas grandes corporações internacionais que demonstravam total apoio e curiosidade em relação a operação Lava Jato.

    Janot é membro da direção da Associação Internacional de Procuradores que seguem as regras da convenção de Mérida (Convenção Internacional de combate a corrupção), cujo o objetivo é padronizar a ação dos procuradores em todo mundo, ou pelo menos, nos países onde o imperialismo tem grandes investimentos.

    Assim vai se convencionando num formato “legal” e “virtuoso” um padrão das ações dos ministérios públicos e das procuradorias no sentido de garantir um fluxo de investimentos mais seguros para o imperialismo sem que grupos e máfias locais desviem para projetos particulares, eleitorais e de enriquecimento particular.

    Ao mesmo tempo permite que de forma direta ou indireta as grandes corporações e setores do imperialismo principalmente o norte americano possa intervir e operar a seu favor por dentro dos regimes de países semicoloniais.

    Não é à toa os inúmeros prêmios e homenagens que Moro, Dallagnol e o próprio Janot têm recebido de várias revistas e eventos internacionais bancados pelas grandes corporações.

    O governo de Temer e toda sua base aliada formada por máfias partidárias antes aliados de Dilma, operaram uma manobra no parlamento golpeando o PT para se localizarem em melhores condições para se defender da operação Lava Jato (ou para estancar a sangria como diria Jucá) que é influenciada direta ou indiretamente por interesses da burguesia internacional.

    Seria um absurdo imaginar que os grupos e frações mafiosas da burguesia e do próprio parlamento burguês (como o próprio ministro Joaquim Barbosa alerta, estão governando o país) tenham operado uma sabotagem no avião de Teori para gerar confusão, atrasar e atacar o desenvolvimento da operação Lava Jato as vésperas da homologação de centenas de delações premiadas da Odebrecth?

    A lógica dos fatos como também outros exemplos da história não nos permitem descartar a hipótese de sabotagem.

    Independente de todas as especulações do momento, é preciso acompanhar quem Temer vai indicar para a vaga que se abriu no STF.

    É preciso observar a postura da ministra presidente do STF Carmem Lúcia e é absolutamente necessário não bater palmas nem para Teori e a Lava Jato, menos ainda para o governo Temer e suas medidas contra o povo trabalhador brasileiro.

    Desvendar se foi crime ou não a morte de Teori só nos serve para caracterizar do que é capaz nossos inimigos e nos dar ainda mais certeza de que mais do que nunca precisamos ampliar a unidade contra o recrudescimento da democracia aos movimentos sociais, contra o ajuste fiscal e as reformas que visam destruir as pequenas conquistas que ainda existem na constituição de 88.

    Constituição essa que está sendo nesse momento reescrita para atender aos interesses do capital em crise.

    Foto: EBC Brasil

  • A ERA OBAMA E OS LIMITES DA REPRESENTATIVIDADE

    Por: Gleide Davis, colunista do Esquerda Online

    O governo de Barack e Michelle Obama chegaram ao fim neste 20 de janeiro de 2017.

    Entretanto, ao fazermos um balanço no que diz respeito ao debate de opressões nos EUA, o governo Obama deixou uma herança póstuma de um número gigantesco de assassinados no país, numero que supera o governo Bush. O programa de drones americanos matou milhares de inocentes, crianças não foram poupadas, a população síria também não escapou dos desmandos do ex-presidente.

    Os Estados Unidos é a maior potência capitalista da atualidade, com enormes massacres à países mais pobres e com uma gigantesca violência policial, o governo Obama representou exatamente o que concerne os limites do imperialismo norte-americano, não deixando dúvidas de que para se estar a frente de um país referência da economia mundial, os interesses a serem colocados, serão sempre os da burguesia.

    Mesmo com tantas contradições, a era Obama deixa uma movimentação de tristeza por parte de alguns movimentos sociais que aclamam a pauta da representatividade política. A autoestima da população negra dos Estados Unidos foi colocada em cheque, como se cada morte realizada pela polícia, cada assassinato e deportação de estrangeiros não tivessem o mesmo peso político.

    É importante avaliar os nossos reais interesses políticos, pensarmos no que queremos para a nossa sociedade a curto, médio e longo prazo. O quanto custa as nossas vidas, a manutenção dos interesses do capital para a população mais pobre, negra, feminina e LGBT. A guerra contra as drogas que tem matado milhares de jovens negros todos os anos na periferia que rema junto a permanência da policia militar; a não legalização do aborto que tem matado milhares de mulheres; a não criminalização da homofobia; o pouco ou nenhum espaço para a população T no mercado de trabalho.

    Todas as nossas reivindicações politicas tem andado em círculos nas ultimas décadas, e internacionalmente falando, a situação tem ficado cada dia pior, com um cerco de conservadorismo e uma crescente de discursos fascistas.

    O governo Trump nem de longe é um afago para as minorias estadunidenses, ao contrário, veio para aumentar o discurso nacionalista, branco, heterossexual e cristão, diminuir as chances da população estrangeira, restringir a liberdade civil da população negra, aumentando o ascenso do conservadorismo e discurso de ódio contra as minorias.

    É tempo de avaliarmos a representação política, escolher um candidato que jogue ao lado e atenda aos interesses da classe trabalhadora.

    A nossa representatividade deve ir além dos limites de gênero e raça, a nossa representatividade deve ser de um governo que preze pelo bem coletivo, que governe para os mais pobres, para as pessoas negras, para mulheres e LGBT.

    “Eu preferiria um candidato branco, que criticasse o capitalismo, o inter-racismo e as prisões do que um candidato negro que é do status quo” Angela Davis.