Silvia Ferraro

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  • O vento feminista que vem da Argentina

    Nesta quarta, 13, o parlamento argentino irá decidir sobre a mudança na legislação que pode legalizar o aborto até a 14°semana de gestação. Os deputados, contudo, estão divididos e tudo dependerá se a força das mobilizações consegue virar o voto dos indecisos num Congresso bastante reacionário e que inclusive o Senado é o maior obstáculo.

    Se a legalização do aborto for aprovada na Argentina, será um fato de proporções históricas. Esta pauta só foi possível ser colocada com esta força porque o movimento feminista na Argentina, desde o início do movimento Ni Una a Menos, há três anos, se massificou.

    Agora, milhares de mulheres, na sua maioria, jovens, portando lencinhos verdes amarrados no pescoço, mas que contam com o apoio da maioria da sociedade, estão nas ruas numa forte mobilização popular.

    Para pressionar por uma votação favorável, dezenas de escolas secundárias na cidade de Buenos Aires foram ocupadas na noite anterior.

    Olhando para o que está acontecendo na Argentina, é impossível que nós, mulheres feministas, não nos perguntemos porque não conseguimos fazer isso no Brasil. Seria o Brasil um país muito mais conservador? Porque até agora só conseguimos mobilizar as mulheres no Brasil para nos defender de ataques aos poucos direitos reprodutivos?

    A primavera feminista foi contra o PL do Cunha que queria restringir a pílula do dia seguinte e em 2017 conseguimos paralisar a discussão do PL 181 que queria restringir os casos de aborto legal.

    Uma pauta ofensiva contudo, pela legalização do aborto, ainda não ocupou as ruas no Brasil. Em 2016, uma turma do STF julgou pela descriminalização até a 12° semana, e desde então, há inúmeras tentativas no Congresso Nacional de aprovar projetos que ataquem ainda mais os direitos reprodutivos das mulheres.

    Mas também há iniciativas ousadas, como a ADPF que o PSOL entrou pedindo ao STF que julgue a legalização do aborto até a 12°semana, baseado no argumento de ferir os direitos constitucionais das mulheres.

    Mas a questão principal é que ainda não conseguimos mobilizar amplamente. Não conseguimos fazer o contraponto ao discurso conservador.

    Com certeza devemos ficar atentas à este processo impressionante que está ocorrendo na Argentina e aprender com ele. Que os ventos feministas da Argentina possam conquistar a legalização e chegar ao Brasil e demais países da América Latina!

     

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  • Quem ocupa não tem culpa!

    Silvia Ferraro*, colunista do Esquerda Online

    Um prédio ocioso desde 2009. Pertencia à União, ou seja, patrimônio público. Em todos estes anos não houve nenhuma iniciativa governamental para transformar um imóvel ocioso em espaço destinado à moradia popular.

    A cidade de São Paulo têm um tremendo déficit habitacional. Cerca de 369 mil famílias não têm casa pra morar. É responsabilidade do Estado e dos governantes eleitos cumprirem o artigo da Constituição, que garante que morar é um direito.

    Famílias desempregadas ou subempregadas, ou mesmo que recebem salário mínimo, não têm nenhuma condição de pagar aluguel numa das cidades com os imóveis mais caros do mundo. Na mesma rua onde o prédio ocupado desabou, não se aluga um kitnet por menos de mil reais.

    No centro de São Paulo a especulação imobiliária domina todos os espaços. A região da Luz e Santa Efigênia é muito cobiçada e tem sido palco da higienização e gentrificação. A intenção é expulsar a “população indesejada” e dar espaço aos “studios”, kitnets para a classe média.

    Muitos imigrantes que chegaram na cidade de São Paulo na última década, bolivianos, paraguaios, nigerianos, senegaleses, haitianos, entre outras nacionalidades (292.288 estrangeiros vieram para São Paulo entre 2001 e 2017) são empregados como mão de obra barata e precarizada, ganham muito pouco, e acabam tendo como única alternativa morar nas ocupações do centro da cidade.

    Esta população é “acolhida” para ser superexplorada, mas não é acolhida para ter direitos trabalhistas e de moradia. A mulher senegalesa desta foto, a Mama, demonstrou sua solidariedade às vítimas do incêndio, levando seu colchão e seus panos africanos para as crianças desabrigadas terem onde deitar. Cerca de 25% dos moradores do prédio incendiado eram estrangeiros.

    Diante deste quadro, ficamos estarrecidos e indignados com as declarações tanto de João Dória, ex-prefeito e candidato à governador, que disse que o prédio era ocupado por uma facção criminosa, quanto a declaração do governador Márcio França (PSB), que disse que o problema do incêndio é culpa dos ocupantes.

    Os culpados pelo incêndio, os culpados por ter 150 famílias vivendo num prédio em condições precárias, os culpados por estas mesmas famílias agora não terem pra onde ir, são exatamente estes senhores que à frente da prefeitura e do estado, não cumpriram com a obrigação de garantir moradia digna para esta população.

    Temer, o responsável por existir 18 mil imóveis ociosos da União no país e 13 milhões de desempregados, resolveu ir “prestar solidariedade” às vítimas. Seu cinismo foi logo percebido e a população o expulsou do espaço aos gritos de Fora Temer. Eles sabem que a verdadeira solidariedade vêm de mulheres como a senegalesa Mama (foto), ou dos populares que estão doando o que podem para aliviar a dor destas quase 300 pessoas.

    A prefeitura novamente vai desrespeitá-los, levando-os para abrigos. Eles não querem ir para os abrigos, pois sabem que o destino final será a rua novamente. Eles querem morar! E quando morar é um privilégio, ocupar é um direito!

     

    *Silvia Ferraro é professora da rede municipal de São Paulo e da Direção Nacional do PSOL

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  • Três conquistas políticas da greve dos servidores públicos municipais de São Paulo

    Por: Silvia Ferraro, colunista do Esquerda Online, professora de História da rede municipal de educação e integrante do Diretório Nacional do PSOL

    É inegável a imensa vitória conquistada na última terça-feira, dia 27 de abril. A greve dos servidores públicos municipais de São Paulo obrigou o prefeito Doria e a Câmara Municipal a suspenderem a tramitação do Sampaprev, projeto de privatização da previdência pública municipal e de confisco dos salários da categoria. Depois de 20 dias de greve, muitas assembleias e manifestações de rua, nós vencemos.

    O governo municipal não conseguiu os 28 votos na Câmara dos Vereadores que eram necessários para a aprovação do projeto, o qual saiu de pauta pelo menos por 120 dias. Com a candidatura de Doria ao Governo do Estado de São Paulo pelo PSDB, quem assumirá a Prefeitura nas próximas semanas é o atual vice-prefeito Bruno Covas, do mesmo partido.

    Não sabemos se o novo prefeito vai ter a coragem de recolocar o Sampaprev em pauta daqui a quatro meses, mas, se fizer isso, vai enfrentar, com certeza, uma categoria muito mais organizada e confiante em suas próprias forças. Isso porque a suspensão do Sampaprev foi só uma das vitórias dessa grande greve, pois também tivemos outras conquistas políticas muito importantes.

    1. Doria, a nova direita e seu projeto de poder se enfraqueceram

    Doria tentou garantir a qualquer custo a aprovação do Sampaprev, pois ele seria um dos motes de sua campanha para governador do estado. No entanto, o projeto é apenas uma das medidas de Doria que atacam os direitos dos trabalhadores.

    Em apenas 15 meses, o “prefake” já cortou o leite distribuído nas escolas, aumentou a tarifa do transporte coletivo e, agora, vai retirar centenas de linhas de ônibus, o que afetará principalmente a população que mora na periferia.

    Além disso, há também o plano de reestruturação da rede municipal de saúde, que está dispensando médicos especialistas das UBSs e fechando mais de 127 unidades de AMAs, o que deixará milhares de pessoas sem atendimento médico.

    O que Doria não esperava é que encontraria a mobilização de milhares de trabalhadores municipais, que cruzaram os braços e disseram não aos ataques. A resistência dos servidores municipais enfraqueceu João Doria, que é a alternativa da burguesia do estado para substituir o atual governador Geraldo Alckmin e seguir aplicando os projetos que estão a serviço dos lucros dos grandes empresários, como as privatizações.

    Doria, o “gestor”, sai da prefeitura de São Paulo em abril com uma grande derrota nas costas e com a certeza de que encontrará nossa resistência sempre que tentar retirar nossos direitos.

    2. A luta contra a Reforma da Previdência proposta por Temer se fortaleceu

    A mobilização dos trabalhadores do funcionalismo municipal de São Paulo foi um exemplo na luta em defesa dos direitos sociais e trabalhistas no Brasil, principalmente contra a PEC da reforma da previdência, que foi retirada da pauta porque a base aliada do governo Temer não alcançou os votos necessários, apesar de todos os esforços.

    Um dos motivos da dificuldade é a impopularidade da PEC que não foi revertida, nem mesmo com os milhões dos cofres públicos gastos em propaganda. No entanto, a previsão é que a PEC volte à pauta logo após as eleições presidenciais de outubro. A aprovação de um projeto similar em umas das principais cidades do país era imprescíndivel para legitimar nacionalmente a Reforma da Previdência. Isto fortaleceria Temer, o Congresso Nacional corrupto e seus aliados.

    Além disso, em um cenário de instabilidade eleitoral, a aprovação do Sampaprev também daria força à candidatura para presidente de Geraldo Alckmin, atual governador de São Paulo, que é uma das alternativas da direita para substituir Michel Temer e seguir com a aplicação do ajuste fiscal e da retirada de direitos dos trabalhadores. Por outro lado, uma derrota de nosso movimento poderia desmoralizar a luta dos trabalhadores do país, que também estão resistindo contra a PEC da Previdência.

    A nossa greve deu esperança e mostrou que só a luta dos trabalhadores é capaz de derrotar os projetos de retirada de direitos. Por isso, é preciso seguir o exemplo dos servidores públicos da cidade de São Paulo: é a mobilização dos trabalhadores que vai impedir que o Congresso Nacional acabe com o nosso direito à aposentadoria.

    3. As mulheres foram as protagonistas da greve

    Na categoria dos servidores públicos municipais, principalmente na educação, nós mulheres somos a imensa maioria. Somos dezenas de milhares que, mesmo sofrendo com o machismo cotidiano – que nos atinge na escola, em casa e no transporte lotado –, dedicamos muitos anos de estudo e de profissão para crescer em nossas carreiras. Muitas de nós somos mães e, além de trabalhar, temos que cuidar dos filhos e da casa.

    Nesta greve, entretanto, fomos a maioria também nas assembleias, nas passeatas, nos comandos de greve. E devemos ter muito orgulho disso! Contra tudo e contra todos, estivemos firmes na luta, enfrentando inúmeros obstáculos. Muitas vezes, não podíamos nem contar com alguém para cuidar de nossos filhos enquanto participávamos das mobilizações.

    Com a mesma garra que sobrevivemos, entramos nessa luta, dando uma aula de resistência às nossas famílias, às comunidades e a toda população. Nem a repressão da Guarda Civil Metropolitana e da polícia calou nossa voz e diminuiu nossa disposição de luta. Nós ficamos juntas até a vitória e essa união deve continuar.

    Página da Silvia Ferraro no Facebook

  • É necessário impedir a aprovação do Sampaprev

    Silvia Ferraro*, colunista do Esquerda Online

    Recentemente, na Folha de S. Paulo, Caio Miranda Carneiro, vereador da cidade de São Paulo pelo PSB, publicou um artigo de opinião defendendo o projeto de reforma da Previdência do funcionalismo público municipal, o Projeto de Lei nº 621/2016 (conhecido como Sampaprev), do qual é relator.

    De acordo com o pessebista, a proposta seria, além de necessária, inadiável frente à “sangria” que acomete a Previdência pública municipal. Entretanto, há outros fatos e informações que precisam ser levados em consideração antes de se posicionar a favor ou contra o projeto da gestão Doria.

    Em primeiro lugar, é fundamental compreender seus impactos na renda dos servidores públicos municipais. A nova Previdência prevê aumentar a contribuição ao Instituto de Previdência Municipal de São Paulo (Iprem) de 11% para 14% do salário, um percentual que será acrescido de uma contribuição suplementar de 1% a 5% conforme a faixa salarial. Parte significativa dos trabalhadores da ativa, aposentados e pensionistas, portanto, vai desembolsar 19% do salário. Essa contribuição somada ao desconto do imposto de renda é um verdadeiro confisco salarial.

    Em segundo lugar, o “rombo da Previdência” alardeado pelo governo municipal é, no mínimo, questionável, pois o orçamento da área não vem somente da contribuição dos servidores públicos da ativa, mas também do conjunto dos impostos arrecadados pela prefeitura, e o orçamento da cidade de São Paulo cresceu 6% no ano passado (segundo a consultoria oficial da Câmara Municipal).

    Dessa forma, a participação da prefeitura no fundo da Previdência pode ser muito maior que os 28% propostos pelo PL 621. Na capital paulista, o governo gasta apenas 35% de seu orçamento com o pagamento de pessoal, valor bem abaixo do estabelecido pela Lei de Responsabilidade Fiscal, que permite até 54%.

    Além disso, existem formas de expandir a arrecadação da prefeitura. Uma delas é cobrar as grandes empresas privadas que devem impostos ao município. De acordo com dados da Secretaria Municipal da Fazenda, cedidos à CPI da Dívida Ativa do Município, o total que poderia ser cobrado ultrapassa 100 bilhões de reais, quase o dobro do orçamento municipal de 2017.

    Outra forma é interromper a política de terceirização da educação pública da cidade, que acontece por meio da contratação temporária e das Organizações Sociais. Se o prefeito Doria convocasse os aprovados no concurso público, além de melhorar a qualidade do ensino e as condições de trabalho dos educadores, ampliaria a contribuição dos servidores ao fundo da Previdência municipal sem retirar dos salários.

    Nesse sentido, defendemos igualmente que a Prefeitura garanta a estabilidade aos educadores contratados remanescentes e aos que foram desligados recentemente.

    Por fim, há mais um aspecto condenável do projeto: a segmentação dos servidores com a criação de um novo fundo, o FUNPREV, ao qual vão aderir obrigatoriamente todos os trabalhadores que ingressarem no serviço público municipal depois da aprovação do Sampaprev.

    Assim, o fundo atual, o FINAN, terá cada vez menos arrecadação, na medida em que os servidores ativos começarão a se aposentar. Nesse novo modelo, a prefeitura terá de tirar cada vez mais dinheiro do contribuinte para cobrir os custos de transição do fundo deficitário. O FUNPREV, por sua vez, tenderá a crescer. No entanto, ele funcionará como um fundo de investimento, no qual o dinheiro público ficará suscetível às oscilações e aos ditames do mercado financeiro.

    Diante do exposto acima, os servidores públicos municipais de São Paulo e o conjunto da população da cidade não têm motivos para apoiar o Sampaprev. É necessário barrá-lo! Por isso, a bancada do PSOL na Câmara dos Vereadores já entrou com um mandado de segurança para impedir a sua votação e, no dia 08 de março, começou a greve da educação municipal contra esse projeto.

    * Silvia Ferraro é membro do Diretório Nacional do PSOL e professora de História da rede pública de educação municipal.

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    FOTO: Protesto dos professores municipais de São Paulo, no dia 08 de Março, em greve contra a reforma.

  • Reforma da Previdência: Minha avó e o Silvio Santos

    Por: Silvia Ferraro, colunista do Esquerda Online

    Esta, da foto ao lado, é minha avó. Ela morreu com 97 anos há três anos. Filha de italianos que vieram para o Brasil trabalhar na lavoura de café substituindo a mão de obra escrava. Desde pequena, trabalhava na roça. Nunca pôde estudar. Era analfabeta. Conseguiu fazer o antigo mobral para aprender a assinar o nome. Foi esta mulher que me criou. Quando meus pais se separaram, eu tinha dois anos e ela passou a ser responsável legal por mim. Trabalhou como cozinheira a maior parte da sua vida, mas também foi empregada doméstica e babá. Sempre ganhou um salário mínimo e era com este dinheiro que ela me sustentava.

    Minha avó separava, do pouco dinheiro que ela ganhava, um tanto para pagar o carnê da Previdência, naquela época chamava INPS. O outro carnê que ela pagava todo mês era o do Silvio Santos, o carnê do Baú da Felicidade.
    Minha avó, como a maioria das mulheres trabalhadoras e pobres deste país, eram fã do Silvio Santos. Confesso que quando eu era pequena eu também era e não perdia o programa ‘Boa noite Cinderela’. Meu sonho era ganhar aqueles presentes que eu nunca poderia comprar.

    De tempos em tempos eu ia com a minha avó trocar os carnês do Baú por brindes nas lojas do Silvio Santos. Eram produtos baratos, com bem menos valor do que o tanto que a minha avó pagava naqueles carnês.

    Minha avó conseguiu se aposentar com um salário mínimo. Depois que meu avô morreu, ela passou a receber a aposentadoria dele também. Se não fosse isso, não teria sobrevivido, pois chega uma hora que já não se consegue mais trabalhar.

    Eu queria muito que a minha avó estivesse viva para eu dizer a ela que o Silvio Santos agora está a favor de uma Reforma da Previdência que vai acabar com a possibilidade das mulheres, como ela, se aposentarem com 60 anos e acumularem a aposentadoria dos seus cônjuges. Eu queria que a minha avó ficasse com raiva do Silvio Santos e se arrependesse de todo dinheiro que ela deu para encher o Baú dele de dinheiro. Ela e mais tantas mulheres que recebem salário mínimo neste país!

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  • Ração: produto abençoado?

    Por: Sílvia Ferraro, colunista do Esquerda Online

    Um vidro transparente cheio de bolinhas com cara de amendoim japonês e com um selinho inocente de Nossa Senhora Aparecida. O arcebispo de São Paulo, ao lado do prefeito da maior cidade do Brasil, ambos em uma coletiva midiática, fazendo propaganda da promessa de que os granulados seriam um produto abençoado para acabar com a fome de São Paulo e, quem sabe, do Brasil.

    Uma obra de ilusionismo para tentar convencer a população dos propósitos “caridosos” das tais bolinhas milagrosas e ainda utilizando símbolos religiosos para isso. Mas, essa imagem de preocupação humana não condiz nem com o principal articulador da causa, e nem com o produto suspeito.

    Dória, o mesmo que retira cobertores e pertences de pessoas em situação de rua, o mesmo que sempre esbanjou sua riqueza milionária, que joga flores nos ciclistas para serem esmagadas no chão, que disse que pobres não possuem sequer hábitos alimentares. Este mesmo sujeito estaria preocupado com resolver o problema da fome dos pobres? Ou estaria atrás de criar um novo factoide para se auto-promover a candidato à presidência da República? A imagem construída pelo próprio Dória, nem Nossa Senhora apaga.

    Mas poderia ser somente mais uma pirotecnia de marketing, se não houvesse por trás do granulado interesses comerciais de grandes empresários do ramo da alimentação. Existe uma necessidade de grandes supermercados e restaurantes descartarem produtos vencidos, assim como, transformar prejuízo com produtos vencidos em fonte de lucro. Surgiu uma empresa especializada “Plataforma Sinergia”, uma Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), para transformar os produtos vencidos em “farinata”, o pó resultante do processamento dos produtos descartados. A mentora da Sinergia, Renata Perroti, já teria trabalhado para a Monsanto, segundo a denúncia da vereadora Sâmia Bonfim.

    Faz muito tempo que a indústria alimentícia e o agronegócio procuram introduzir nos países pobres suas fórmulas químicas e transgênicas com o falso argumento de baratear os custos dos alimentos e acabar com a fome. Esta panaceia só tem enriquecido o agronegócio, concentrado as terras brasileiras nas mãos de grupos multinacionais, impedido a reforma agrária e promovido o massacre no campo, de sem-terras, indígenas e quilombolas.

    Temos abundância de terras, de recursos naturais e de gente para cultivar. Mas o capital e seus garotos propaganda insistem em querer lucrar e tirar proveito político da fome.

  • Por que não fui ao ato de ontem na Avenida Paulista

    Por: Silvia Ferraro, colunista do Esquerda Online

    Todo mundo que me conhece sabe que eu não perco um ato de protesto contra as reformas, pelo Fora Temer e também pelas Diretas, já.

    Este ano eu já fui em inúmeros atos que defenderam exatamente esta pauta, porque há uma urgência de derrotarmos as contrarreformas, de derrubar o governo golpista de Temer e também de arrancarmos eleições diretas para presidente e para o Congresso, para que, assim, o povo trabalhador possa decidir o que quer para o Brasil, que obviamente não é a agenda neoliberal.

    Mas, neste ato de ontem, eu não fui. Recebi um panfleto no metrô de São Paulo e ele ilustra bem o motivo pelo qual não fiquei nem um pouco animada para comparecer à manifestação que ocorreu na Av. Paulista.

    Panfleto distribuído em convocação ao ato de Lula

    Panfleto distribuído em convocação ao ato em defesa de Lula

    Tenho um posicionamento categórico, desde o início, contra a operação Lava a Jato, não dou nenhum crédito a Sérgio Moro e às instituições que ele representa. Acho que a condenação de Lula é sem provas e é fruto do objetivo do imperialismo de tirar Lula da disputa presidencial. Os mesmos que um dia aceitaram Lula, agora não aceitam mais, porque não existe mais espaço para um governo de conciliação de classes.

    Nesse sentido, defendo o direito de Lula ser candidato a presidente. Mas, não votarei nele e não vou fazer campanha para ele e o PT, justamente porque tenho severas críticas aos 13 anos de governo de conciliação com o grande capital e à zero autocrítica por parte de Lula e do partido dos trabalhadores. É por isso que não fui ao ato de ontem. Porque se repararem na convocação deste panfleto, ele defende os governos do PT e já faz campanha para Lula 2018.

    Eu acredito muito que não enfrentaremos de forma consequente a direita, os golpistas e o plano de desmonte do Brasil, repetindo o projeto Lulopetista de governar para todos e ficar bem com os “amigos” do Lula.

    Eu acredito na possibilidade da esquerda socialista e radical fazer diferente e construir um programa com medidas anticapitalistas, que seja capaz de apaixonar os explorados e oprimidos que se encontram bem desesperançados.

    Só a ousadia pode combater a apatia. Só a radicalidade da esquerda, que não abandonou o projeto socialista, pode despertar a paixão popular.

    Foto: Roberto Parizotti

  • O Frio, a morte e a cidade mais rica do país

    Por: Silvia Ferraro, colunista do Esquerda Online

    São Paulo tem, segundo os dados da própria Prefeitura e que podem estar subestimados, cerca de 25 mil pessoas vivendo em situação de rua. Estas pessoas já têm a saúde vulnerável devido a toda a miséria e sofrimento que passam durante toda a vida. Quando chega o frio congelante desses dias, muitas pessoas não resistem e morrem nas calçadas.

    A Prefeitura só conta com 11.800 vagas em abrigos, ou seja, não existe vaga para todas as pessoas que precisam. Até agora, o único plano apresentado pela gestão do Dória foi distribuir mil cobertores na noite mais fria do ano. Mil cobertores, daquelas cobertas que nem sequer esquentam direito.

    Ontem, um morador de rua foi a óbito no bairro de Pinheiros, um dos bairros mais ricos da cidade. A desigualdade social é gritante na cidade mais rica do país, em que seres humanos morrem nas ruas por falta de abrigo contra o frio. Não é o frio que mata. É a miséria, a desigualdade e a negligência do Estado.

    O mínimo que a Prefeitura deveria garantir seriam vagas emergenciais em locais requisitados de forma imediata. E que as pessoas tivessem garantidos lugares decentes, com roupas e alimentação, além de poderem levar seus pertences. Muitas pessoas não querem ir para os abrigos devido ao desrespeito com suas coisas. Além disso, as pessoas que vão para os abrigos são obrigadas a levantarem às 6h e desocuparem o local.

    Já existe um histórico de desrespeito da gestão Doria com a população em situação de rua, quando o prefeito autorizou através de decreto municipal, que a GCM retirasse os pertences dos moradores, até mesmo cobertores. Agora, vemos que a Prefeitura foi negligente ao saber do inverno rigoroso e não ter providenciado mais abrigos para as pessoas. Outro fato grave é que moradores da Praça da Sé foram acordados num frio de 7° com os jatos d’água da limpeza pública!!

    Mais seres humanos irão morrer no dia de hoje se não forem tomadas providências imediatas. A responsabilidade é da Prefeitura de São Paulo. CIDADE TRISTE!

    Foto: Reprodução/Record TV

  • Escutei atentamente o discurso do Lula

    Por: Silvia Ferraro, colunista do Esquerda Online

    Lula usou dois argumentos fortes para se defender. O primeiro é de que não existem provas que fundamentem a condenação feita por Sergio Moro, fruto da operação Lava Jato. O outro argumento é de que essa condenação existe para sepultar a possibilidade de que Lula possa concorrer às próximas eleições presidenciais.

    Estes dois argumentos são reais. A Lava Jato tem sido utilizada como instrumento para que se vinguem os interesses econômicos e políticos de uma fração burguesa dominante no país. Mas exatamente por isso, Lula comete um erro muito grande ao dizer que continua confiando na Polícia Federal, na Justiça e nas instituições.

    A Justiça tem lado e se move de acordo com os interesses de classe. A Lava Jato e nenhuma instituição merecem qualquer tipo de confiança. Lula já deveria ter aprendido sobre isso, mas parece que nem sob a mira da condenação, rompe com seu espírito conciliador.

    É impressionante como Lula não utiliza em nenhum momento em seu discurso o apelo à mobilização popular para derrotar o projeto golpista que acabou de aprovar uma Reforma Trabalhista que varreu com os interesses históricos dos trabalhadores.

    Mobilização que faltou às ruas na greve do dia 30 de junho e que se tivesse existido poderia ter dado outra correlação de forças para derrotar Temer e as Reformas.

    É lamentável que Lula diga que não quer dar um “golpe” no Temer. Não é possível dar golpe em quem está no poder fruto do golpe. Temer tem que cair pela força da mobilização popular. Lula parece não querer este caminho, prefere lançar sua candidatura no dia de hoje e ficar esperando 2018.

    Também é lamentável que o grande projeto de Lula seja colocar o pobre no orçamento e retomar o crédito. Este projeto de conciliação fracassou e as forças eleitas em 2014, entrelaçadas com o PT, são exatamente aquelas que hoje estão massacrando os trabalhadores.

    Repudiamos a direita asquerosa com seu preconceito de classe que ontem comemorou a condenação de Lula trajando uma camiseta assinada pelo MBL, estampando os dedos da mão de Lula. Assim como repudiamos a operação Lava Jato que está a serviço do projeto político do poder econômico.

    Mas, também não temos nenhum acordo com o projeto político defendido por Lula neste seu discurso hoje. Não queremos simplesmente inserir o pobre no orçamento através das políticas de bolsas e de subemprego. É preciso ousadia pra derrotar o projeto golpista que está sendo aplicado por Temer e Meirelles. É preciso ir a fundo numa mudança radical pela esquerda, sem confiança nas instituições e sem acordos com os poderosos. Lula e o PT não são portavozes dessa coragem. É preciso vir o novo que não tenha medo de lutar!

    Assista à integra do discurso

    Foto: Ricardo Stuckert

  • 15 de março: Pela vida das mulheres e para derrotar as Reformas de Temer!

    Por Silvia Ferraro, Colunista do Esquerda Online

    Rosângela, 35 anos. Trabalha na colheita da laranja desde os 14 no interior do estado de São Paulo, mas só passou a contribuir com a previdência a partir dos 20. Tem 3 filhos pequenos, o mais novo tem 2 anos. Rosângela é casada com Pedro, também trabalhador rural. Provavelmente Pedro irá falecer antes de Rosângela. A expectativa de vida dos trabalhadores rurais é mais baixa do que dos trabalhadores urbanos, pelas mais penosas rotinas de trabalho e condições de vida. Pelas novas regras do projeto da Reforma da Previdência, Rosângela se aposentará aos 65 anos e quando isso acontecer, irá perder o benefício que recebia pelo falecimento do seu marido. Rosângela morrerá aos 70, terá trabalhado 51 anos e terá direito a apenas 5 anos de aposentadoria e ainda não será com o salário integral, pois não completou 49 anos de contribuição.

    Patrícia é uma jovem professora em Belo Horizonte. Começou a lecionar aos 23 anos. E agora está com 30 e já teve sua primeira filha. Patrícia leciona em dois empregos para sustentar a família, pois seu companheiro metalúrgico, faz parte dos 12 milhões de pessoas desempregadas no Brasil. Patrícia, que iria se aposentar aos 55 anos, agora só conseguirá se aposentar aos 65. Irá trabalhar 10 anos a mais e mesmo assim não conseguirá que seja com o salário integral, pois ao todo terá contribuído por 42 anos e não 49. Patrícia, apesar de ter trabalhado toda a sua vida em dois cargos como professora e contribuído pelos dois, só irá conseguir se aposentar em um único cargo.

    Júlia, 18 anos. Trabalha como vendedora no Rio de Janeiro. Conseguiu uma bolsa para cursar faculdade à noite pois seu sonho é ser professora de crianças. Mas Júlia engravidou e com a filha pequena, teve que deixar a faculdade. Júlia vai trabalhar a vida toda como vendedora, e ficará desempregada em vários momentos, pois é um emprego com muita rotatividade. Júlia só vai conseguir se aposentar aos 65 anos, mas vai receber apenas 70% do seu salário pois só contribuiu por 40 anos ao todo.

    Dolores, 44 anos. Mora na Cidade Tiradentes, zona leste de SP. Ela é diarista, não consegue emprego formal. A expectativa de vida para as pessoas que moram na cidade Tiradentes é de 54 anos. Dolores começou a pagar o INSS como autônoma para ter direito a aposentadoria por idade quando completar 60 anos. Com as novas regras da Reforma, Dolores só conseguirá se aposentar aos 70, mas o seu benefício não chegará a um salário mínimo, pois o BCP (Benefício de Proteção Continuada) será desvinculado do valor do salário mínimo. Dolores se aposentará aos 70, recebendo 500,00, mas morrerá aos 71. Sua neta, de 10 anos que morava com ela, terá que ir morar com uma tia no Maranhão, terra natal de Dolores.

    Michel Temer, 76 anos, filho de cafeicultor, se aposentou aos 55 anos pelos cargos políticos que ocupou, recebendo o “benefício” de 30 mil reais. Sua proposta de Reforma da Previdência vai retirar de 5 a 15 anos de aposentadoria das mulheres trabalhadoras rurais e empregadas domésticas, em sua imensa maioria mulheres negras, que trabalham desde muito pequenas. As mulheres trabalhadoras, que já recebem em média 30% a menos do que os homens, e trabalham 8 horas a mais por semana, estão recebendo o maior ataque a um direito histórico de gênero. Além disso, Temer, no 08 de março, disse que o lugar das mulheres é fazendo compra nos supermercados e cuidando do lar.

    Por todas as Dolores, marcharemos dia 15, para derrotar as Reformas de Temer!