Home – Editorial

Currently browsing: Home – Editorial
  • A força e a crise do lulismo 

    Editorial de 20 de outubro,

    Resiliência, em sentido figurado, é a capacidade de superar, de recuperar de adversidades. Em termos físicos, é a propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica.

    Observando por esse prisma, a capacidade de recuperação de Lula é notável. Apesar da abertura de inúmeros processos criminais e da condenação em primeira instância por Moro, mesmo com os violentos ataques da grande mídia e a campanha de difamação permanente da direita, o ex-metalúrgico se mantém como a principal liderança popular do país.

    A um ano da eleição de 2018, o ex-presidente está à frente na corrida presidencial, com expressiva vantagem sobre os principais adversários. O petista tem pelo menos 35% das intenções de voto nos cenários testados, de acordo com a última pesquisa Datafolha. Venceria, inclusive, no segundo turno.

    O índice de rejeição do ex-presidente é bastante alto (42%), mas vem numa trajetória de queda – em março de 2016, a taxa de desaprovação do petista era de 57%. Em realidade, há um quadro de polarização em torno de sua figura. Enquanto cerca de metade da população prefere que o petista retorne à presidência, a outra metade deseja vê-lo atrás das grades.

    Assim, o destino político de Lula revela-se com um fator determinante no cenário político nacional.

    O que explica a recuperação de Lula? 

    A vida do povo trabalhador piorou muito no último período. Os salários caíram, o desemprego disparou e o consumo da famílias desabou. O acesso e a qualidade dos serviços públicos – saúde, educação, transporte público etc. –  deterioraram sensivelmente. A violência urbana alcançou patamares inacreditáveis, vitimando particularmente a população pobre e negra. Com tudo isso, a desigualdade social e a pobreza aumentaram dramaticamente.

    Ao quadro de aguda crise social e econômica se somaram a retirada de direitos sociais e os cortes brutais das verbas destinadas às áreas sociais.

    Diante desse furação reacionário e da ausência de uma nova alternativa pela esquerda, os olhos se voltaram ao passado. Os trabalhadores começaram a comparar a situação atual com os tempos dos governos Lula,  momento em que a vida havia melhorado. A conclusão, para muita gente do povo, é a seguinte: “ainda que Lula seja corrupto, melhor com ele porque se preocupa com os mais pobres”.

    Por outro lado, há um aumento na percepção de que existe uma perseguição em curso. Enquanto Aécio Neves é protegido pelo sistema, Temer se mantém no governo e Alckmin segue blindado, Lula recebe uma implacável ofensiva judicial. Frente a isso, muitos se perguntam: “se todos roubam, por que querem pegar só o Lula?”.

    Excluir Lula das próximas eleições faz parte do golpe

    A imposição de um governo ilegítimo, com condições de realizar a pilhagem de direitos sociais sem depender de respaldo popular, foi o objetivo principal do golpe parlamentar que levou Michel Temer (PMDB) à presidência.

    A continuidade do golpe requer, por consequência, a eleição de um novo governo submetido a esse programa de espoliação. Nesse sentido, a eleição de Lula não é conveniente à burguesia neste momento, uma vez que o petista subiria a rampa do Planalto em base à expectativa popular de reversão do panorama atual.

    A classe dominante sabe que Lula não contrariaria seus interesses fundamentais se fosse eleito novamente, afinal, os governos petistas garantiram um patamar de enriquecimento aos grandes empresários e banqueiros como nunca antes na história do país. Mas o pacto conciliatório inscrito no lulismo, as pequenas concessões sociais combinadas com a preservação da estrutura de dominação burguesa, não é desejável à classe dominante agora, que prefere um governo “puro sangue” para dar prosseguimento ao extermínio de direitos. No atual contexto econômico, não é mais possível a política do “ganha-ganha”, os capitalistas querem o bolo inteiro.

    Lula e a resistência dos trabalhadores

    A direção do PT atua quase que exclusivamente para garantir a candidatura de Lula em 2018, que se encontra ameaçada pela provável condenação em segunda instância do ex-presidente.

    Ao invés de jogar esforços na mobilização social para derrotar Temer e as reformas, a cúpula petista se concentra nos mesquinhos cálculos eleitorais. As negociatas em que está engajada incluem, por exemplo, a costura de acordos com antigos aliados da direta, como Renan Calheiros, José Sarney, Kátia Abreu, entre outros.

    O objetivo, portanto, não é impedir as reformas com a luta dos trabalhadores, mas sim deixar Temer se desgastar mais e mais para, assim, impulsionar a candidatura de Lula junto ao povo.

    A luta pela preservação dos direitos sociais não pode esperar as próximas eleições. Até lá, boa parte das conquistas históricas dos trabalhadores terá desaparecido. São as condições de vida do povo trabalhador que estão em jogo. Nesse sentido, é necessário que o conjunto dos movimentos sociais e da esquerda cobrem de Lula e do PT o compromisso com a luta efetiva hoje, para que coloquem seu peso político e social a serviço da resistência. Nas ruas, podemos vencer o golpe!

    A importância de uma nova alternativa de esquerda 

    O lulismo é incapaz de oferecer sentido de futuro. Não há qualquer perspectiva transformadora em seu programa. Lula recobra força perante a devastação do presente. Sobrevive pelo medo, não mais pela esperança que evocou um dia. O pacto conciliatório com a burguesia foi soterrado pelo golpe, mas o PT insiste em tentar ressuscitar a aliança que nos levou à tragédia Temer.

    É tempo de apresentar uma nova alternativa de esquerda, ainda que esta seja muito minoritária por ora. É hora de apostar no futuro, de relançar o sentido de transformação perdido. Uma candidatura radical, nascida das lutas do povo, sem medo de confrontar os poderosos, abrirá uma ponte para o amanhã. Reconstruir os laços com a classe trabalhadora e os mais oprimidos, encantar novamente a juventude com o sonho da mudança socialista. A aposta da esquerda radical nas próximas eleições deve ser, em nossa opinião, norteada por esta estratégia.

    Nesse sentido, consideramos fundamental o lançamento de uma candidatura pelo PSOL. Uma candidatura que seja abraçada e conduzida por uma frente formada pelos movimentos sociais (MTST, Povo Sem Medo), outros partidos e organizações de esquerda (PCB, PSTU), os sindicatos combativos (CSP-Conlutas, Intersindicais), os artistas, os milhares de ativistas de esquerda independentes etc. Vamos por uma nova esquerda, de luta e socialista!

  • Temer será afastado pela Câmara?

    Editorial de 18 de outubro,

    O cinismo de Michel Temer parece não conhecer limites. Às vésperas da votação da segunda denúncia de Janot na Câmara, o presidente enviou aos deputados uma carta em que afirma existir uma “conspiração” para tirá-lo do cargo. Logo ele, o responsável por tramar com Eduardo Cunha o golpe parlamentar que derrubou Dilma Rousseff.

    Com medo de um revés, Michel Temer foi às compras para se livrar do perigo de afastamento. Nesta segunda (16), numa barganha junto à bancada ruralista, o governo editou uma portaria que facilita o trabalho escravo no Brasil. Os empresários flagrados neste crime não aparecerão mais na “lista suja”, a menos que o ministro do trabalho permita. O texto também modifica o modelo de fiscalização e punição. Numa frase: Temer decretou uma “licença” para o trabalho escravo no país.

    Mas não é só. Com o intuito de preservar o suporte da bancada patronal, o governou aproveitou a ocasião para tentar ressuscitar a reforma da previdência. Os ministros Eliseu Padilha (Casa Civil) e Henrique Meirelles (Fazenda) apresentaram a proposta de uma reforma “desidratada” baseada em três pilares: idade mínima (65 anos para homens e 62 para mulheres), o tempo de contribuição de pelo menos 25 anos e uma regra de transição.

    Embora encontre um cenário político mais adverso nesta segunda denúncia, Michel Temer provavelmente conseguirá os votos necessários para se manter no cargo. O apoio dos grandes empresários ao governo, em razão do ávido interesse que estes têm na retirada de direitos sociais, e o suporte de políticos e partidos comprometidos com esquemas de corrupção seguram Temer no poder, apesar da quase unânime rejeição popular e das provas irrefutáveis de crimes praticados pelo peemedebista.

    A delação de Funaro e o fator Maia

    Para esquentar o clima da denúncia, a delação de Lúcio Funaro, ex-operador do PMDB na Câmara, vazou para a imprensa. O doleiro afirmou  que Michel Temer ficava com um percentual das propinas repassadas a Eduardo Cunha. “Tenho certeza que parte do dinheiro que era repassado, capitaneado em todos esses esquemas que ele tinha, dava um percentual também para o Michel Temer. Eu nunca cheguei a entregar, mas o Altair deve ter entregado algumas vezes”, disse.

    Os vídeos da delação foram divulgados no site oficial da Câmara na sexta (13), fato que detonou uma crise na relação entre o governo e Rodrigo Maia (DEM), presidente da Câmara. O deputado carioca, de olho nas eleições de 2018, busca-se se afastar da imagem “tóxica” de Temer. As rusgas entre eles, contudo, dificilmente evoluirão a ponto de ameaçar a vitória governista na votação da denúncia.

    A bem da verdade, prevalece no Congresso ações descaradas de acobertamento de corruptos, particularmente quando se trata de membros da coalização governista do PMDB, PSDB e DEM. A decisão do Senado que, por 44 votos a 26, revogou as medidas cautelares impostas pelo STF (Supremo Tribunal Federal) a Aécio Neves (PSDB), mesmo este tendo sido flagrado pedindo  R$ 2 milhões a Joesley Batista, é mais uma prova da desfaçatez que reina no parlamento brasileiro.

    Sem o povo nas ruas, o golpe continuará de pé

    A burguesia quer manter o governo para dar andamento às contra-reformas sociais e à política econômica entreguista, e também para evitar maior instabilidade política até as eleições. Temer não precisa de legitimidade popular para seguir na presidência, afinal alcançou esta posição por meio de um golpe parlamentar que foi patrocinado pelo grande empresariado e a maioria do Congresso.

    A única possibilidade de derrotar Temer é por meio da retomada da luta unificada. Sem a força das ruas e das greves, os golpistas seguirão no controle da situação.

    Por isso, é necessário apostar na resistência social. Cada greve de trabalhadores deve ser abraçada por todo movimento sindical. Cada ocupação de terra precisa receber a solidariedade ativa do conjunto dos movimento sociais. A unificação das lutas e a retomada das manifestações de rua unitárias são fundamentais neste momento. Como corretamente definiu o Congresso da CSP-Conlutas, o dia nacional de greve e manifestações, marcado pelos metalúrgicos para 10 de novembro, pode ser o primeiro passo nesse sentido.

    Esperar as eleições de 2018 é um grave erro. Até lá, nossos direitos sociais e trabalhistas estarão acabados. Lula, o PT e a CUT, que ainda tem muita influência entre os trabalhadores e o povo pobre, deveriam chamar a mobilização social, para repetirmos a greve geral de 28 de abril. Se fizessem isso, a resistência social ganharia enorme força. Porém, a direção petista parece mais interessada em costurar alianças eleitorais com os velhos aliados da direita.

  • Rio de Janeiro: a crise é a nova normalidade

    Editorial de 13 de outubro,

    O Rio de Janeiro é a imagem concentrada do cenário nacional. É talvez a mais aguda combinação da crise econômica, política e social. A decadência que se vê por todos os lados é o verdadeiro “legado olímpico”. O esgotamento do modelo baseado na indústria do petróleo e nos estímulos fiscais quase ilimitados é patente.

    Do ponto de vista político, a situação do governo Pezão (PMDB), apadrinhado de Sergio Cabral, é análoga, em muitos sentidos, a de Temer. O governo estadual tem índices de rejeição abaixo do volume morto, está inteiramente comprometido pelos escândalos de corrupção e há meses não demonstra a mínima capacidade de iniciativa. Ainda assim, não parece lhe incomodar a missão de seguir semi-vivo até as eleições de 2018. A crise no Rio é assumida pela casta política como a nova normalidade.

    É nesse contexto que os atrasos nos vencimentos do funcionalismo, por exemplo, deixaram de ser uma condição de exceção para se tornarem o novo padrão. A asfixia da UERJ, principal universidade do estado, igualmente deixa de ser efeito indesejado do caos econômico e administrativo e ganha contornos de projeto. Até mesmo deixar de oferecer ensino de graduação é posto em pauta como “saída”.

    Por sua vez, os efeitos sociais da crise são devastadores. O desemprego atingiu 15,7% da população economicamente ativa em setembro, segundo o Ipea, e vem em viés de alta constante há vários trimestres. Em seu conjunto, os serviços públicos fluminenses operam em um novo patamar de degradação, quer na saúde, na educação ou nos transportes. A percepção de que a vida está mais difícil beira a unanimidade.

    Com todas as contradições sociais piorando, a violência urbana não poderia deixar de se agravar. A recente ocupação militar da Rocinha demonstrou, uma vez mais, o ciclo vicioso da chamada “guerra às drogas”. Há um processo de reorganização de grupos do crime organizado, ao passo que a desastrosa intervenção do estado, agora com o padrão de ocupação de comunidades pelas Forças Armadas, atinge ainda mais a população trabalhadora e negra das favelas.

    Enquanto concorriam na Rocinha a tirania do crime organizado e o terror de estado via polícia ou Exército, chamou atenção a paralisia da prefeitura. Marcelo Crivella permaneceu ausente durante todo o dia de horror na maior favela carioca, só vindo a se pronunciar, da forma mais genérica possível, durante a noite. Seu sumiço desgastou sua imagem, que começa a se desbotar ainda em seu primeiro ano de mandato.

    O prefeito-bispo vem buscando reorientar sua localização em direção a uma posição mais abertamente alinhada com a nova direita. Seja provocando dificuldades à preparação do Carnaval ou aos eventos culturais de rua, Crivella toma parte na ofensiva conservadora nos costumes e não perdeu a oportunidade colocar obstáculos à mostra Queermuseu no Museo de Arte do Rio, que foi censurada em Porto Alegre.

    Não há perspectiva de melhora na situação de crise do Rio que não passe pelas lutas de resistência na capital e no estado. São muitas as mobilizações, embora ocorram atomizadas. Processos como a luta em defesa da Uerj, as greves e lutas dos trabalhadores da saúde pública e as lutas do setor de cultura precisam ser coordenadas e ganhar a forma de um enfrentamento unificado contra Pezão e Crivella. A resistência existe e é heróica, mas é ainda insuficiente diante da tragédia que se tornou o Rio. A jornada em defesa da educação pública, que está convocando manifestação unificada na Uerj, para o dia 19 de outubro, pode ser uma iniciativa de importância no sentido de retomar as ruas.

  • A extrema-direita quer chegar ao poder

    Editorial 10 de outubro,

    Jair Bolsonaro desembarcou nos Estados Unidos no domingo (07). No mesmo dia, João Dória apareceu sorridente na festa popular de Círio de Nazaré, em Belém (PA). A um ano das eleições, a corrida presidencial ganha intensidade e a disputa entre nomes da direita mostra-se acirrada.

    Enquanto Bolsonaro rasgava a máscara do nacionalismo em solo ianque, ao defender um programa de entrega do patrimônio brasileiro às multinacionais norte-americanas, a revista Veja disparava contra o militar. A capa do semanário estampou em foto aterrorizante “A ameaça Bolsonaro”.

    Melhor sorte não teve o prefeito fantasma de São Paulo, que recebeu um duro golpe de Alberto Goldman, vice-presidente do PSDB, que num vídeo publicado nas redes sociais acusou Dória de não ser um “prefeito” e sim um “candidato a presidente”. O prefeito turista, visivelmente alterado, respondeu com grosserias e insultos.

    O episódio revela que subiu muito a temperatura no ninho tucano, com Geraldo Alckmin passando à ofensiva na disputa com seu ex-pupilo. E para selar o mal momento do prefeito-empresário, a pesquisa Datafolha mostrou que a rejeição a Dória cresceu consideravelmente na capital paulista.

    A crise da direita tradicional e o espaço da extrema-direita

    A evolução regressiva do cenário político brasileiro abriu um espaço inédito à extrema-direita. Cresceu numa parcela significativa da população, sobretudo nas camadas médias e mais ricas, o apelo a uma saída autoritária e conservadora, abertamente reacionária.

    O raivoso anti-lulismo não se plasmou nos partidos e figuras tradicionais da direita. Ao contrário, o PSDB, PMDB e seus caciques foram fortemente atingidos pela crise, tanto que ostentam níveis de rejeição popular altíssimos, superiores ao do PT e de Lula.

    A principal figura que capitaliza o espaço político da extrema-direita é Jair Bolsonaro, que aparece em segundo lugar nas pesquisas presidenciais. O líder neo-fascista tem milhões de seguidores, mobiliza multidões nas cidades por onde passa e segue em dinâmica ascendente.

    Bolsonaro, entretanto, não tem a confiança da classe dominante e tampouco é tido como opção pelos principais partidos da ordem. Por isso, a direita tradicional, preocupada com seu desempenho eleitoral, começa a atacá-lo com mais virulência, como fez a última edição da Veja.

    João Dória, por sua vez, ocupa um espaço político situado entre Alckmin e Bolsonaro. Isto é, aparece mais à direita que seu padrinho, mas faz questão de não se mostrar tão extremista quanto o defensor da Ditadura. Nisso reside sua força, mas também parte de seus problemas. Pois não é tão radical como o líder fascista, o que não satisfaz os mais extremistas; e também não se mostra um conservador “moderado”, de centro-direita, como figura o governador de São Paulo aos olhos de parte do eleitorado.

    A burguesia está preocupada. E não apenas em razão da dificuldade em encontrar um nome viável e confiável para as eleições de 2018. A resiliência político-eleitoral do lulismo a assusta também. Contrariando todas as expectativas, a rejeição de Lula vem diminuindo e sua popularidade aumentando. Se a eleição fosse hoje, o petista venceria no primeiro e no segundo turno. Mesmo a provável condenação de Lula em segunda instância, que o tornaria inelegível, não é mais motivo de segurança para a direita. Teme-se, agora, que Lula, mesmo condenado, possa alavancar a candidatura de outro candidato petista.

    O desafio da esquerda socialista

    A evolução da conjuntura política não vem favorecendo a esquerda socialista, é verdade. O avanço da extrema-direita, o refluxo das ruas e a relativa recomposição do petismo no espectro à esquerda da sociedade são obstáculos reais.

    Mas o atraso no lançamento de uma candidatura alternativa, com um programa à esquerda do petismo, para enfrentar a ofensiva reacionária e defender os interesses dos trabalhadores e oprimidos, vem contribuindo para o atual quadro de dificuldades.

    Ainda há tempo. É fundamental que o PSOL lance, o quanto antes, uma candidatura presidencial, articulando uma frente de esquerda com movimentos sociais (Povo Sem Medo, MTST, entre outros.) sindicais (CSP-Conlutas, Intersindical), culturais e outras organizações políticas combativas (PSTU, PCB). Seria muito importante, também, que Guilherme Boulos e o MTST assumissem, junto com o PSOL e demais organizações, a construção dessa candidatura da esquerda socialista. O ciclo de debates da plataforma Vamos! pode apontar nesse caminho.

    Fortalecer e ampliar as lutas de resistência, combater a reação em todos os âmbitos e apresentar uma nova alternativa de esquerda, essas são as tarefas que consideramos imprescindíveis na atual conjuntura.

  • A extrema-direita abre as asas: a esquerda tem que fechar os punhos

    Editorial 6 de outubro,

    A extrema-direita está elevando o tom. Defendem a judicialização da política. E uma “intervenção” (golpe) militar, caso a crise política e social se agrave mais. No terreno da cultura, avançam na censura das artes, em particular da arte LGBT. Defendem o ensino religioso nas escolas e o retorno da infame “cura gay”.

    O movimento LGBT já se levantou contra os golpistas. Agora, todos os movimentos sociais do povo explorado e oprimido precisam se unir e contra-atacar a direita.

    A judicialização da política resolveria o problema?
    É visível a desmoralização do Congresso Nacional e da Presidência da República perante a opinião pública. As reformas de Temer e os ataques do Congresso aos trabalhadores e às pessoas oprimidas são amplamente rejeitas pela população.

    A corrupção, que sempre foi intensa neste país, deslegitima os políticos tradicionais. Como consequência, o judiciário ganha força política. Grande parte dos empresários e dos poderosos, em particular os da grande mídia e os fundamentalistas, apoiam esta ofensiva judicial. O discurso, hipócrita, é o da necessidade da “renovação”, para “limpar” a política.

    Entretanto, no atual sistema político e econômico, é impossível uma renovação verdadeira. Apesar da proibição formal de que as empresas financiem as candidaturas eleitorais, os grandes empresários continuam despejando dinheiro nos partidos e nos políticos da ordem, por meios lícitos e ilícitos. João Dória, do PSDB, uma das novas apostas da burguesia, é o retrato fiel disso. O Partido Novo, criado e mantido por milionários, também explicita esse quadro.

    Não bastasse isso, a  reacionária reforma político-eleitoral levada a cabo pelo Congresso criou um fundo, que será mantido  pelo Estado, para financiar as campanhas eleitorais de forma desigual, privilegiando os maiores partidos (PMDB, PSDB, PT, etc.). A cifra é escandalosa: 1,7 bilhão do dinheiro público vai parar nas mãos das cúpulas partidárias.

    A judicialização da política tem, também, o objetivo de barrar a candidatura de Lula, para que um candidato da direita tradicional consiga vencer as próximas eleições. Os extremistas de direita também têm o interesse em dar espaço para a candidatura do Bolsonaro, que já foi condenado juridicamente por machismo e por racismo.

    Existe “intervenção militar” sem golpe?
    Os defensores da “intervenção” militar afirmam que a forma de resolver a crise política seria a ação das Forças Armadas na política, destituindo a atual presidência para supostamente restaurar a democracia e afastar os corruptos. Isso é uma armadilha. A História demonstrou que, vez após vez, quando os militares assumem o poder, o país se torna uma ditadura, sem liberdades quaisquer para o povo. Esse discurso de “restaurar a democracia” é bem semelhante ao discurso feito para defender o golpe em 1964, que levou o país a 25 anos de ditadura.

    Durante o século vinte, vários golpes militares foram feitos na América Latina sob a ordem do governo dos Estados Unidos. O objetivo era, num contexto de guerra fria, barrar qualquer possibilidade de avanço da luta dos trabalhadores e do povo pobre. A ditadura militar no Brasil foi um dos regimes mais corruptos da  nossa história.

    Não acreditamos que exista o perigo imediato de um golpe militar. As ameaças, hoje, são mais uma forma de disputa ideológica e política da direita e, por isso, temos que combatê-las vigorosamente, sem hesitação e subestimação.

    Unir os trabalhadores e oprimidos contra o governo e a extrema-direita
    A esquerda precisa imediatamente se confrontar política e ideologicamente com a extrema-direita, em particular contra Jair Bolsonaro,  o MBL, os generais pró-golpe e outros fundamentalistas.

    Temos que compreender que as discussões sobre a nudez, a suposta pedofilia e zoofilia na arte são um discurso hipócrita. A nudez e a seminudez estão presentes há muito tempo nas artes, na mídia, na imprensa e na publicidade, em particular das cervejas. Essa discussão começou justamente num museu de arte LGBT e tem o objetivo de retornar a discussão, tão presente nas ditaduras, da defesa da “moral e dos bons costumes”. Não é sobre pedofilia, é sobre moralismo.

    A pré-candidatura de Bolsonaro, que utiliza dinheiro da Câmara dos Deputados para campanhas político-eleitorais, precisa ser combatida desde já. Para isso, é necessária uma pré-candidatura de esquerda que seja alternativa ao PT e denuncie esse candidato reacionário, racista, machista e LGBTfóbico.

    É preciso, por um lado, convocar os movimentos sociais e os sindicatos a se mobilizarem contra todos os ataques do governo, dos fundamentalistas e da extrema-direita. Por outro, a esquerda precisa entrar com força e com vontade na disputa ideológica em defesa dos explorados e oprimidos. Fechemos os punhos e nos preparemos para a luta.

    Foto: Carol Burgos | Esquerda Online

  • Ampliar a resistência contra Temer e as Reformas

    Editorial de 05 de outubro,

    O governo Temer é marcado pela corrupção e pelos ataques aos direitos dos trabalhadores. Trata-se do presidente mais impopular desde o fim da Ditadura, segundo as pesquisas de opinião.

    É preciso reconhecer que a situação política é desfavorável ao povo trabalhador. Depois da aprovação da PEC do congelamento dos gastos sociais, da reforma trabalhista, da ampliação da terceirização e da recente reforma reacionária do sistema eleitoral, confirma-se, infelizmente, a caracterização de que vivemos uma conjuntura de ofensiva dos ricos e poderosos contra o povo e seus direitos.

    Não entender a gravidade do momento é um grande erro. Afinal, isso desarma a luta dos trabalhadores, da juventude e do conjunto dos oprimidos.

    A exata noção do momento difícil em que vivemos é que nos faz valorizar a política de frente única para lutar. Ou seja, a busca da unidade na ação com todos os setores, movimentos e entidades que querem derrotar Temer, as reformas e os ataques da patronal.

    Assim como desconhecer a realidade adversa, também é um erro não ver as possibilidades de resistência dos trabalhadores. Na atual conjuntura, é possível apostar na ampliação da resistência.

    Assistimos, por exemplo, a esses processos de resistência na heróica greve nacional dos trabalhadores dos Correios; na emocionante Ocupação Povo Sem Medo do MTST, em São Bernardo do Campo (SP); na greve dos metalúrgicos da montadora chinesa Chery, em Jacareí (SP); na luta dos operários químicos da Unilever, em Vinhedo (SP); na greve dos professores e funcionários da UERJ contra o desmonte da Universidade; na mobilização indígena em defesa de suas terras, entre outras tantas lutas em curso.

    10 de novembro: uma nova oportunidade
    Na última sexta-feira (29), uma representativa plenária, convocada por sindicatos de metalúrgicos ligados a várias centrais sindicais, marcou um dia nacional de lutas para 10 de novembro. A principal bandeira é impedir a retirada de direitos.

    A definição desta nova data nacional se revela como uma excelente oportunidade para ampliarmos e unificarmos as lutas de resistência.

    As centrais sindicais não podem repetir o mesmo erro da última greve geral, que foi abandonada poucos dias antes de sua realização. Deve-se aproveitar esta data para realizar um grande esforço de transformar o dia 10 de novembro num importante dia de greves, paralisações e manifestações de rua.

    É hora de apostar na mobilização, para impedir os ataques, fortalecer as campanhas salariais em curso e tentar impedir a aprovação da famigerada reforma da previdência, que segue tramitando no Congresso Nacional.

    Os funcionários públicos devem ser parte fundamental desta luta. Afinal, entre outros ataques, a bancada governista já ameaça com uma iniciativa de acabar com a estabilidade no emprego destes trabalhadores.

    A construção do dia 10 de novembro deve ser a prioridade de todos os movimentos que lutam contra os ataques de Temer e dos patrões. Nosso objetivo deve ser confluir para esta data todas as mobilizações em curso, realizando uma preparação democrática e pela base.

    Um debate com Lula, o PT e a CUT
    Para derrotar estes ataques brutais, precisamos de uma ampla unidade de toda esquerda.

    Infelizmente, a direção do PT joga todas as suas fichas na disputa eleitoral em 2018, ao invés de priorizar a luta direta dos trabalhadores. Esperar as eleições é um grande erro, pois a luta por manter os direitos e derrotar os ataques é agora.

    Por isso, é fundamental que a CUT e seus sindicatos, o PT e o próprio Lula se comprometam, desde já, com a convocação e a construção do dia 10 de novembro.

    Seria positivo que a direção petista estivesse realmente disposta a rever os erros de seus governos e de suas alianças com a direita, mas a sua política atual é a manutenção dos mesmos acordos de antes, com as grandes empresas e os políticos reacionários e corruptos, como Renan Calheiros do PMDB.

    Por isso, não apoiamos o projeto da direção do PT, que quer reeditar, em torno da candidatura de Lula, uma nova aliança com as grandes empresas, bancos e setores da velha direita golpista. Estamos por uma nova alternativa política, que passa pela construção da Frente de Esquerda Socialista. Por isso, estamos construindo o PSOL e participando do debate programático em torno da plataforma Vamos, impulsionado pela Frente Povo Sem Medo.

    Apesar dessas importantes diferenças com o PT, defendemos que a unidade para lutar não deve estar ameaçada pelas diferenças políticas e programáticas.

    Erra o PT que quer transformar as mobilizações dos trabalhadores em palanque eleitoral de Lula. Se equivocam também os setores que rompem as manifestações pela presença das lideranças petistas.

    O momento é de unidade para lutar, de apostarmos na ampliação da resistência, debatendo nas ruas uma nova alternativa política de esquerda e socialista para o país.

  • Rebelião na Catalunha

    Editorial de 02 de outubro,

    Apesar da brutal repressão, milhões foram às urnas no referendo sobre a independência da Catalunha neste domingo (1). Desafiando as barreiras, as balas de borracha e os porretes policiais, o povo catalão lutou bravamente pelo direito à liberdade.

    Dos 2.262.424 votos emitidos, 2,020,144 (90,09%) foram a favor do “sim”, 176.565 (7,87%) do “não”; e brancos e nulos somaram 2,92%.

    Com a esmagadora vitória do “sim”, o presidente do governo catalão, Carles Puigdemont, afirmou que a independência será proclamada nos próximos dias. “Nós, os cidadãos da Catalunha, ganhamos o direito a ter um Estado independente que se constitua na forma de uma República”, declarou. Puigdemont levará ao parlamento local os resultados da consulta, para que este atue “como prevê a lei do referendo”.

    Em Madrid, o conservador Mariano Rajoy, premiê do Estado monárquico Espanhol, afirmou que o referendo foi ilegal e que não reconhecerá o resultado. O presidente tentou justificar o uso da violência policial, que feriu mais de 800 pessoas. “Fizemos o que havia que ser feito”, “não houve referendo, assistimos a uma mera encenação”, declarou. Rajoy anunciou que convocará todos os partidos com representação parlamentar para debater as consequências da rebelião catalã.

    A grande imprensa, partidária da monarquia espanhola, disparou ataques furiosos. O jornal El País publicou um editorial em que afirma que é preciso deter a “insurreição”. O La Razón pediu “firmeza frente ao golpe”. A mídia expressa, desse modo, a posição da burguesia espanhola, que apesar de tecer algumas críticas à inabilidade política de Rajoy, exige “pulso firme” para derrotar o movimento pela independência.

    Do outro lado, em defesa do referendo, os sindicatos de trabalhadores da Catalunha e entidades civis prometem uma paralisação geral nesta terça (3). Movimentos sociais, estudantis e democráticos também irão às ruas. A luta do povo catalão despertou enorme solidariedade internacional.

    Repressão é derrotada

    O governo espanhol tentou impedir pela força a realização da consulta democrática. O primeiro ataque veio do Tribunal Constitucional espanhol, que declarou o referendo ilegal. Amparando-se nesta ofensiva judicial, Rajoy desencadeou uma brutal repressão policial.

    Dias antes da consulta, diversas autoridades catalãs foram detidas e manifestações foram reprimidas em nome da “legalidade”. Neste domingo, a escala repressiva subiu a níveis chocantes, relembrando os tempos da ditadura de Franco. Como a guarda regional catalã, Los Mossos, se recusou a reprimir as pessoas que dirigiam à votação, o governo central enviou a Polícia Nacional e a Guarda Civil.

    As cenas vistas revelaram um regime disposto a pisotear a democracia. Policiais fecharam 319 centros de votação, espancaram pessoas nas filas, inclusive idosos, disparam balas de borracha e lançaram gás na população. Um homem de 70 anos infartou durante uma ação repressiva e foi levado em estado crítico ao hospital. Imagens de pessoas ensangüentadas se espalharam pelas redes sociais, causando comoção e indignação. O véu democrático se desfez e a face autoritária do Estado Espanhol assustou o mundo.

    Porém, a brutal repressão não conseguiu deter o povo catalão e sua mobilização pela liberdade de escolha. Manifestantes, aos milhares, enfrentaram as forças policiais para garantir o acesso às urnas. Bombeiros formaram cordões para dar segurança aos cidadãos. Foram incontáveis os exemplos de coragem e determinação democrática. Ao final, a força de um povo em luta derrotou a sangrenta repressão.

    Cercar a Catalunha de solidariedade 

    A luta do povo catalão pelo direito à independência deve ser apoiada pelos trabalhadores e os povos em todo mundo. É hora de máxima solidariedade. Atos nas embaixadas, apoio político nas redes sociais e declaração das organizações políticas e sindicais devem ser feitos. É preciso abraçar a Catalunha e denunciar a abominável repressão do Estado espanhol.

    A vitória dos catalães será uma vitória de todos que lutam pelo direito democrático de autodeterminação dos povos. O triunfo da Catalunha fortalecerá a luta dos povos oprimidos em todo mundo.

    Os trabalhadores e a juventude da Catalunha devem confiar em suas próprias forças. Apenas a luta organizada poderá garantir que o resultado do referendo seja respeitado.

    Os próximos dias serão decisivos. O governo de Rajoy, provavelmente com apoio das potências centrais da Europa, aumentará os ataques e a repressão. Existe a real possibilidade de intervenção militar.

    A luta pela liberdade dos povos tem hoje em Barcelona o seu principal palco de batalha. Estejamos todos com os catalães!

  • Contra Lava Jato, PT e PSDB se unem

    Editorial de 28 de setembro,

    O Supremo Tribunal Federal impôs a Aécio Neves (PSDB), nesta terça-feira (26), o afastamento do mandato de senador e recolhimento noturno. A polêmica decisão do STF abre uma nova crise entre o Judiciário e o Legislativo. Trata-se de mais um capítulo da batalha entre a Lava Jato e o sistema político-partidário.

    Diante da definição da primeira turma do Tribunal, o Senado se prepara para rejeitar a decisão. Alegando que a medida do STF não respeita a Constituição, a maioria dos políticos e partidos se unifica em torno da defesa do sistema. A expectativa é que o presidente do Senado, Eunício Oliveira (PMDB), leve o tema para votação na próxima semana.

    A aliança dos principais partidos contra a Lava Jato gerou o inusitado – e escandaloso –  apoio do PT a Aécio Neves. Em nota, o partido considerou a “condenação esdrúxula, sem previsão constitucional, que não pode ser aceita por um poder soberano como é o Senado Federal”.

    É importante relembrar que o senador tucano foi flagrado pedindo R$ 2 milhões a Joesley Batista. Uma mala de dinheiro foi entregue a seu primo e, depois de algumas transações, chegou ao caixa de uma empresa da família. Nos áudios gravados pelo dono da JBS, Aécio chegou a ameaçar de morte o parente que foi orientado a receber a mala de propina.

    Medição de forças
    O artigo 53 do texto constitucional prevê a prisão de parlamentares apenas em caso de “flagrante delito de crime inafiançável”. E não consta na Constituição a possibilidade de suspensão do mandato parlamentar.

    Tendo em conta essas regras jurídicas, torna-se evidente que o STF tomou medidas excepcionais, tanto no mandado de prisão do ex-senador Delcídio Amaral, como na ordem de afastamento das funções parlamentares de Eduardo Cunha e Aécio Neves.

    É inegável que o Judiciário, diante da desmoralização da política, vem se atribuindo novas responsabilidades, entrando, assim, em seguidas colisões com o Legislativo.

    O confronto político-institucional se expressa também no interior do STF. O ministro Gilmar Mendes atua nitidamente como advogado do sistema político-partidário, especialmente nas matérias de interesse do PMDB e do PSDB. Do outro lado, os ministros Fachin e Barroso lideram a ala pró Lava Jato no Tribunal.

    Nesta luta, nem um lado é a favor dos trabalhadores

    Os partidos da ordem, corruptos e lideranças políticas se unem contra as ações da Lava Jato. O PT dá as mãos ao PSDB, PMDB, DEM e a outras siglas de direita nesse embate. Todos eles querem a manutenção dos privilégios dos políticos e a sustentação dos alicerces do sistema.

    Em contrapartida, parte do Judiciário, procuradores e a Polícia Federal, reunidos em torno da Operação, lançam mão de medidas autoritárias em nome do combate à corrupção.

    A bem da verdade, nenhum dos dois lados representam os interesses da maioria da população. Em primeiro lugar, porque ambos estão juntos na aplicação dos ataques aos trabalhadores e ao povo pobre. Os dois lados defendem a retirada de direitos trabalhistas, a reforma da previdência e a política econômica que beneficia somente os banqueiros e grandes capitalistas.

    A maioria dos políticos, enlameados em escândalos, saem hipocritamente em defesa da “democracia” quando se veem ameaçados de prisão. Os agentes da Lava Jato, por sua vez, se vestem de paladinos da ética, mas escondem seus privilégios, relações promíscuas com empresários e interesses do capital internacional. É esse Judiciário que, ontem, aprovou o ensino religioso nas escolas, colocando uma pá de cal no caráter laico do ensino público.

    A esquerda e os trabalhadores não devem apoiar nenhum desses dois lados. É preciso construir um caminho próprio, independente das frações dominantes em confronto. É na luta e na organização dos trabalhadores e dos oprimidos que devemos nos engajar.

    Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

  • A ameaça do golpismo militar

    Editorial de 26 de setembro,

    Trinta e dois anos depois, os militares estão voltando à cena política brasileira. As declarações do general Antonio Hamilton Mourão sobre uma possível intervenção militar no país retomam, perigosamente, a tradição do golpismo de fardas.

    Mourão deu voz pública às conspirações discutidas nas casernas. Todas as evidências dão conta que a fala do general foi planejada e consentida por muitos de seus pares. Em entrevista ao apresentador Pedro Bial, o comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas, não somente afirmou que Mourão não será punido como elogiou o general: “O Mourão é um grande soldado, uma figura fantástica, um gauchão”. E foi além. Declarou que “as Forças Armadas têm mandato para fazer [uma intervenção militar] na iminência de um caos”.

    A solidariedade também veio de outros chefes militares. O general da reserva, Augusto Heleno, o primeiro comandante das tropas brasileiras no Haiti, declarou “apoio irrestrito ao respeitado chefe militar (Mourão)”. Já o coronel Muniz Costa distribuiu carta ao colegas manifestando apoio às declarações. E o general de Brigada, Paulo Chagas, afirmou nas redes sociais que os militares, num cenário de caos, não poderiam ficar “inertes aguardando ordens”.

    Como era de se esperar, Jair Bolsonaro não perdeu tempo e também manifestou apoio. “Não se faz democracia comprando votos e aceitando a corrupção por governabilidade. Reagir a isso é obrigação de qualquer civil ou militar”, afirmou no Twitter. O mesmo fez o deputado federal Cabo Daciolo (PTdoB) que, num vídeo publicado no Facebook, defendeu o fechamento do Congresso e a intervenção militar.

    Segundo a reportagem da revista Isto É, os chefes militares discutiram na 314°reunião do Alto Comando do Exército, realizada no dia 11 de janeiro em Brasília, o cenário de crise política e a possibilidade da intervenção militar. Ou seja, a fala de Mourão não foi um ato isolado de um general marginalizado na cúpula das Forças Armadas. Há muitos outros militares de alta patente com ele.

    O que está por detrás da ameaça de Golpe?
    A grande novidade revelada por essas declarações é o retorno dos militares à arena política. Esse fato é gravíssimo. Desde a queda da Ditadura Militar, os comandantes do Exército não ousavam uma posição política pública de tamanha importância. Mourão apresentou planos golpistas à luz do dia, sem sofrer quaisquer constrangimentos, ou punições.

    Quais são os objetivos dos militares com tal ação? Em nossa opinião, não há o perigo de um golpe militar no curto prazo. Os generais sabem que, nas atuais circunstâncias políticas, um golpe militar é inviável e indesejável. As intenções, por ora, são outras.

    Em primeiro lugar, o objetivo mais estratégico é posicionar as Forças Armadas no cenário de crise política e instabilidade institucional. Ciente do apoio que conta em parte da população, o Exército quer voltar a ter relevância política, retomando o espaço que já teve em diversos outros momentos da história brasileira. Nos últimos anos, as Forças Armadas, sob o pretexto do controle da violência, já vem ocupando um espaço crescente com as ocupações de bairros e favelas, como ocorre agora na Rocinha (RJ). Esse novo protagonismo militar busca também alimentar as forças políticas e sociais de ultradireita, que vêm ganhando força no último período.

    Mas existe um objetivo mais imediato. A cúpula do Exército está exercendo pressão sobre o Judiciário e o Congresso. Quando o general Mourão afirma que “ou as instituições solucionam o problema político, pela ação do Judiciário, retirando da vida pública esses elementos envolvidos com todos os ilícitos, ou então nós teremos que impor isso”, fica a pergunta: quem seriam “esses elementos” que devem ser retirados da vida pública?

    É impossível não vincular esta ameaça à iminência do julgamento de Lula na segunda instância, o qual pode barrar a candidatura do ex-presidente, que aparece na dianteira em todas as pesquisas, e colocá-lo atrás das grades. E talvez, também, à segunda denúncia de Janot contra Temer, que será votada na Câmara. Alguns jornalistas especializados afirmam que há muito descontentamento nas tropas com Temer e os cortes orçamentários no setor militar. A cúpula do Exército estaria, segundo eles, a favor do afastamento do presidente.

    Enfrentar o golpismo militar
    A maioria do povo está contra Temer, as reformas e a política econômica de Meirelles. Há um enorme rechaço aos políticos, partidos e quase todas as instituições. As pesquisas de opinião comprovam isso.

    Porém, esse descontentamento ocorre num quadro de forte ofensiva da direita na economia, na política e também na disputa ideológica. A classe dominante tem a iniciativa. Os trabalhadores e os oprimidos resistem.

    Há valiosas lutas, como ocupações urbanas, a luta indígena, as manifestações contra a LGBTfobia e algumas greves.

    Mas a maioria dos trabalhadores está silenciosa, sem confiança. Falta-lhe perspectivas, esperança. É precisamente neste cenário de desalento que se fortalece o discurso favorável à “intervenção militar”; que é vista por uma parte  minoritária mas expressiva da população como uma medida para “por ordem na casa e acabar com os corruptos”.

    É necessário enfrentar a reação. Isso começa por exigir punição imediata aos militares que estão propagando o discurso golpista, numa escandalosa ameaça às garantias democráticas previstas na Constituição.

    Mas isso só não basta. A esquerda tem que dar um combate imediato também no terreno político e ideológico, antes que seja tarde. Nenhuma tolerância com o golpismo e o neofascismo. Ao mesmo tempo, é preciso retomar a luta unificada contra as reformas de Temer, fortalecer cada greve de trabalhadores, cada mobilização das LGBTs, das mulheres, dos negros e negras e da juventude. Colocando os trabalhadores e os oprimidos no centro da conjuntura, novas perspectivas se abrirão.

  • As LGBTs precisam contra-atacar os fundamentalistas

    Editorial 20 de setembro,

    Atos contra a LGTBfobia estão se espalhando por todo o país. O descontentamento, em particular das LGBTs, não poderia ser mais óbvio: estão cansadas de tantos ataques. É hora do contra-ataque.

    Isso tudo não é à toa. As últimas semanas têm sido difíceis para as LGBTs. Os protestos contra o Queermuseu, patrocinado pelo Santander, levaram ao cancelamento da exposição por supostamente conter pedofilia e zoofilia.

    Mas o fato é que não existia pedofilia, apenas imagens de meninos usando roupas femininas sendo descritos como “criança viada travesti da lambada” e “criança viada deusa das águas”. Nada mais inocente, apenas um retrato da diversidade das roupas e do comportamento das crianças. Também não havia incentivo à zoofilia, apenas um quadro denunciando as maldades que eram feitas no Brasil antigamente.

    Uma peça teatral de temática religiosa, onde Jesus era encenado por uma mulher trans, foi cancelada por decisão judicial no Sesc Jundiaí. Essa decisão é um atentado ao direito das pessoas trans à religiosidade e à cultura. Não há nada de ofensivo no fato de uma pessoa trans encenar Jesus. É incomum, mas não há insulto algum.

    Na mesma cidade, uma peça teatral infantil encenando um romance entre duas mulheres foi alvo de um abaixo-assinado pedindo seu cancelamento. Uma peça feita para crianças, tão inocente quanto qualquer história infantil de amor – e há muitas! Se as crianças assistem a histórias de amor envolvendo casais heterossexuais, por que não poderiam ver um casal de mulheres?

    Mas a gota d’água foi a decisão do juiz federal Waldemar Cláudio de Carvalho, que possibilita a tentativa de “reversão sexual” (sic) por psicólogos. Não é possível que homossexualidade, que não é doença, seja tratada como se fosse. Qualquer médico é proibido de oferecer um remédio para uma doença que não existe. Já foi provado em centenas de estudos que a homossexualidade é apenas uma característica humana que não causa dano algum. Já o preconceito, pelo contrário, causa muitos danos.

    O crescimento da extrema-direita
    Todos esses ataques expressam uma ofensiva dos fundamentalistas e da extrema-direita contra as LGBTs.

    As pesquisas estimam que, apesar dos seus discursos de ódio, Bolsonaro tem cerca de 20% das intenções de voto para presidente para as eleições de 2018. Vários vídeos mostram a LGBTfobia de Bolsonaro, incentivando a agressão familiar: “O filho começa a ficar assim, meio gayzinho, leva um couro e muda o comportamento dele”. Também mostra preconceito por pessoas adotadas: “90% dos adotados vão ser homossexuais e vão ser garotos de programa deste casal”, referindo-se aos filhos adotados de casais homossexuais.

    É preciso combater este deputado e mostrar para as pessoas que uma figura que carrega tanto ódio pelas LGBTs, mulheres, pessoas negras e indígenas não pode ser membro do Congresso Nacional, quanto mais ser presidente.

    Ataques aos direitos trabalhistas e direitos sociais
    Não bastassem os fundamentalistas, existem ainda diversas ofensivas de Temer e do Congresso Nacional: as reformas Trabalhista e da Previdência, a redução da maioridade penal e as privatizações do governo Temer.

    Os ataques feitos pelos conservadores às pessoas LGBTs, assim como às mulheres, pessoas negras e indígenas têm dois objetivos.

    Primeiro, criar um bode expiatório para os problemas sociais. Uma boa forma de ganhar a amizade de alguém é construir um “inimigo” em comum. As LGBTs não são inimigas das demais pessoas. Entretanto, através do preconceito e da propaganda, é possível fazer muitas pessoas acreditarem que as pessoas LGBTs são, sim, inimigas que precisam ser combatidas. Por isso, foi criada a associação entre homossexualidade, pedofilia e zoofilia, por exemplo. Uma coisa não tem nada a ver com a outra, isso é só uma forma de incentivar o preconceito.

    Segundo, quanto mais um determinado setor da sociedade for oprimido, menores serão os salários que esse setor vai receber. É por isso que há muitas LGBTs, mulheres e pessoas negras nos postos de trabalho terceirizados, com baixos salários e sem direitos garantidos.

    As LGBTs do Brasil têm muita força
    O movimento LGBT organizado, em aliança com trabalhadores e trabalhadoras, já arrancou muitas conquistas pelo mundo. A homossexualidade na Europa e na América deixou de ser considerada um crime a partir da década de 1970, uma conquista de grandes Paradas do Orgulho LGBT realizadas em diversos países. A mesma luta também fez com que, mais tarde, em 1990, a homossexualidade deixasse de ser considerada uma doença pela OMS.

    Assim, se as LGBTs se levantarem pelo Brasil afora, serão capazes de barrar essa onda de ataques. É preciso lutar e é possível vencer!

    Foto: Paulo Pinto / Fotos Públicas