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  • Ciro não é uma alternativa de esquerda

    Com a aproximação das eleições, o tabuleiro político começa a se mover com mais velocidade. Os candidatos buscam consolidar posições num cenário marcado pela instabilidade e muitas incertezas. O deslocamento de nomes, a negociação de alianças e a formação de perfis programáticos adquirem ritmo e intensidade.

    Enquanto o fascista Bolsonaro se consolida pela extrema-direita, Alckmin trabalha para unificar a candidatura da direita tradicional (PSDB, MDB e DEM) e o centro perde força com desistência de Joaquim Barbosa (PSB), a definição do espaço à esquerda encontra-se ainda em aberto. Com Lula posto autoritariamente para fora da corrida, cerca de um terço do eleitorado, que pretendia votar no petista, encontra-se órfão. É aproveitando-se deste vácuo aberto que Ciro Gomes (PDT) busca se projetar como alternativa à esquerda.

    Nas últimas semanas, sinais emitidos pelo PT e PCdoB evidenciam a possibilidade de uma aliança destes partidos com Ciro. Apesar de haver intensas polêmicas dentro PT sobre a linha para as eleições, Jaques Wagner e Haddad, figuras de proa do partido, acenaram publicamente no sentido de buscar uma composição com Ciro. O mesmo fizeram Flávio Dino e Manuela d’Ávila, ambos do PCdoB. O PSB, agora sem a opção de Joaquim Barbosa, também pode vir a compor com o PDT. Caso esse arco de alianças se efetive, a candidatura do pedetista ganharia bastante força. Mas a pergunta que fica é a seguinte: seria Ciro uma alternativa realmente de esquerda?

    O discurso de oposição a Temer, a posição contrária ao impeachment de Dilma, assim como a defesa de um modelo econômico pintado com cores nacionalistas e desenvolvimentistas, vem atraindo parte dos que querem votar na esquerda. Porém, estes enfeites vermelhos com que se cobre Ciro, para de modo oportunista se alavancar eleitoralmente, especialmente entre o eleitorado lulista, não conseguem esconder o real conteúdo de seu programa contrário aos interesses dos trabalhadores e dos oprimidos.

    Fazendo jus a uma trajetória caracterizada pela incoerência política e ideológica – Ciro passou por sete partidos, tendo nesse caminho de ziguezagues defendido e aplicado o projeto neoliberal quando ministro de Itamar -, o candidato pedetista teve seu projeto econômico, cujo sentido real é o inverso do discurso pretensamente de esquerda, revelado pelo seu principal assessor econômico, Mauro Benevides, em entrevista ao jornal Estado de S. Paulo. Segundo Benevides, o ajuste fiscal é um pilar do projeto econômico de Ciro, que além disso contém a defesa de privatizações e de uma reforma da previdência. A aposta do plano reside na tentativa de recuperar a capacidade de investimento do Estado, sem mexer, porém, nos fatores que estruturam as desigualdades, a exploração e a pobreza historicamente avassaladoras no Brasil.

    É necessário mais do que boa vontade para acreditar que Ciro Gomes, que avalia a possibilidade de ter Benjamin Steinbruch  (PP), presidente da CSN, como vice na chapa, representa um projeto de esquerda. Trata-se, na verdade, de um engano consciente propagado para tentar capturar o eleitor que rejeita a direita e seus representantes políticos. Nesse sentido, cumpre um desserviço à esquerda a movimentação do PCdoB e de setores do PT que negociam o apoio à candidatura de Ciro. Não que este fato constitua uma surpresa, afinal são os mesmos PT e PCdoB que articulam alianças com partidos da direita (MDB, DEM, PSD etc.) em diversos estados do país, incluindo lideranças que deram suporte ao golpe parlamentar e votaram em projetos que retiram direitos, como a reforma trabalhista.

    Esta triste e repetitiva realidade – a esquerda que quer andar de mãos dadas com a direita para chegar ao governo – demonstra que a construção de uma verdadeira alternativa de esquerda passa por outro caminho. Esse que Guilherme Boulos (PSOL e MTST) apresentou no programa Roda Vida da TV Cultura, na última segunda-feira (7). Os setores descontentes da militância petista deveriam refletir sobre essa opção. Boulos e Sônia Guajajara vêm demonstrando que é possível dialogar com as maiorias – o povo trabalhador, a juventude e os oprimidos – sem ceder à direita, tendo coragem de levantar um programa anticapitalista e democrático conectado com as principais demandas sociais e populares. Num momento em que o PT e o PCdoB conchavam com o outro lado, a candidatura de Boulos e Guajajara vai se afirmando como a única com capacidade de recolocar um projeto ousado de esquerda, sem alianças com o andar de cima, de novo no cenário nacional. É hora de recuperar a esperança de transformação social e política do Brasil, sem ilusões na conciliação de classes.

    Foto: EBC

  • Em defesa das liberdades democráticas: pela libertação imediata de Lula

    Editorial 07 de maio

    Há um mês, Lula saía do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC para se entregar à Polícia Federal em São Paulo. Encarcerado na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, em condições de severo e desumano isolamento, o que contraria direitos humanos básicos de todo preso, o ex-presidente tem reduzidas possibilidades, no curto prazo, de recorrer em liberdade da condenação em segunda instância.

    Acreditamos que a condenação sem provas e a prisão arbitrária do petista são parte da ofensiva reacionária em curso no País. A classe dominante não deu um golpe parlamentar em 2016, ao derrubar um governo eleito, para Lula voltar à Presidência dois anos depois.

    O fato de termos sido oposição de esquerda aos governos petistas e seguirmos não apoiando o projeto político da direção do PT de governar em aliança com setores da direita, não nos impede de ter uma posição contrária a essa prisão política e autoritária, que faz avançar os ataques às liberdades democráticas.

    A prisão de Lula vem na esteira das reformas contra os direitos dos trabalhadores, do ajuste econômico contra o povo, das mudanças autoritárias no regime político, do fortalecimento dos setores mais reacionários do Judiciário e da volta à cena política dos militares, em especial com a intervenção militar na segurança pública do Rio de Janeiro.

    Nesta situação política marcada pela intensificação dos elementos reacionários, assistimos à bárbara execução política de Marielle e Anderson, o assassinato dos cinco jovens do Hip Hop de Maricá (RJ), os tiros contra a Caravana de Lula e contra o acampamento que pede “Lula Livre”, e a consolidação da força política de Jair Bolsonaro.

    Infelizmente, ainda existem setores da esquerda que veem uma normalidade institucional na prisão de Lula, e acreditam – até de forma ingênua – que sua prisão seria um passo rumo à prisão de todos os corruptos e corruptores. Não percebem que a ação em curso visa, entre outras coisas, dar viabilidade eleitoral a um candidato associado ao golpe e ao programa burguês de aceleração e aprofundamento das contrarreformas.

    O momento exige firmeza política e unidade para a mobilização. Não podemos esperar que a mera pressão parlamentar ou a troca de Presidência no STF possam frear os ataques aos direitos sociais e às liberdades democráticas, além de pôr fim à prisão de Lula. É necessário apostar nas ruas e não em negociatas com o andar de cima.

    Precisamos de um poderoso processo de lutas, como aquele que culminou na Greve Geral de 28 de abril de 2017. Nesse sentido, renovamos o chamado às centrais sindicais, aos movimentos sociais e ao próprio PT para que organizem um calendário de mobilização nacional contra os ataques às liberdades democráticas e aos direitos do povo trabalhador.

     

    As eleições se aproximam

    Defendemos o direito democrático de Lula concorrer nas próximas eleições. Porém, fica evidente que essa possibilidade a cada dia que passa se torna mais remota. A direção do PT afirma publicamente que segue com a candidatura do ex-presidente, mas, nos bastidores, já iniciou um processo de discussão de outros nomes.

    Sem aprender com erros do passado, o PT repete o mesmo caminho de alianças políticas com setores da classe dominante, inclusive com apoiadores do golpe. Há diversas alianças sendo costuradas com a direita nos estados, como os acordos com o MDB de Temer e Renan Calheiros no Ceará, Alagoas e em Minas. Para a chapa presidencial, já há uma negociação aberta com Ciro Gomes (PDT), uma candidatura que está longe de ser uma alternativa de esquerda. Ciro, por exemplo, vem defendendo a necessidade de uma reforma da Previdência, que retira direitos.

    Não temos acordo com o programa e o projeto da direção do PT. Estamos por uma nova alternativa política de esquerda, que seja independente dos poderosos e verdadeiramente ligada aos interesses do povo trabalhador, se propondo a reverter todas as medidas do governo Temer. A construção dessa alternativa, cuja prioridade deve ser a luta direta, tem que estar expressa nas próximas eleições. Por isso, estamos empenhados na construção da pré-candidatura presidencial de Guilherme Boulos e Sonia Guajajara, pela frente política e social formada pelo MTST, PSOL, PCB e vários outros movimentos sociais combativos e de esquerda. Convidamos os trabalhadores e trabalhadoras, a juventude, os oprimidos, os ativistas e a esquerda socialista a virem junto conosco construírem essa alternativa. Vamos, sem medo de mudar o Brasil!

    Foto: Ato do Primeiro de Maio em Curitiba (PR) – Ricardo Stuckert

  • Nascido há 200 anos, Marx goza de boa saúde

    Editorial especial do Esquerda Online – 05 de maio de 2018

    Há exatos 200 anos, em uma família judia de classe média da Renânia, a sudoeste de uma Alemanha dividida, atrasada e despótica, nascia Karl Heinrich Marx. Poeta apaixonado quando jovem, filósofo por formação, revolucionário profissional, político e organizador, matemático amador, fumante compulsivo, suas ideias definiram em grandes linhas a história da humanidade ao longo do século 20 e até hoje.

    Marx não inventou nem descobriu a luta de classe, mas a explicou de uma maneira que ninguém jamais havia feito antes. Por detrás dos conflitos aparentemente acidentais entre patrões e empregados, escravos e senhores, servos e nobres, Marx viu profundas bases materiais, poderosas forças econômicas e sociais: a luta pelo controle sobre as riquezas extraídas da natureza e transformadas pelo trabalho humano. E o mais importante: deu a esses conflitos um sentido, um objetivo, formulou um programa, uma saída, um meio de superá-los.

    Marx também não inventou o socialismo, que já existia como corrente filosófica e movimento político muito antes dele. O que Marx fez foi dar ao socialismo bases científicas. Transformou um sonho romântico em um objetivo alcançável. Em meio aos diferentes conflitos das diferentes classes sociais, Marx identificou que a classe dos trabalhadores assalariados, por não possuir nenhuma propriedade e por ser encarregada de mover, com seu trabalho, a gigantesca roda do capital, concentrava em si todas as explorações e todas as opressões de todas as outras classes exploradas e oprimidas. E que por isso a sua libertação do jugo do capital acarretaria a libertação de toda a humanidade.

    Ao contrário do que se diz, Marx não era economista, mas sim um crítico da economia. Sentou-se durante 20 anos em um gabinete úmido e mal iluminado para provar ao mundo que a assim chamada “ciência econômica” não passava de ideologia. Que por detrás das fórmulas impessoais dos economistas, o que havia era trabalho humano, suor e sangue. Nessa busca, Marx desvendou o verdadeiro mecanismo da exploração capitalista: ao oferecer uma certa quantidade de dinheiro ao trabalhador em troca de uma certa quantidade de horas de trabalho, os capitalistas arrancavam dos trabalhadores uma quantidade de riquezas muito maior do que aquela que pagavam na forma de salário. Era um “valor a mais”, que Marx chamou de mais-valia ou mais-valor. Não havia nenhuma liberdade na relação capital-trabalho. A igualdade jurídica entre patrões e empregados escondia a desigualdade real entre despossuídos e possuidores, mascarava a obrigatoriedade dos trabalhadores se submeterem à exploração para não morrerem de fome.

    Marx não se contentou em explicar o mundo. Ele queria transformá-lo. Construiu partidos, uma associação internacional, organizou, ensinou, escreveu, agitou, conclamou. Atacou governos, políticos, papas e generais. Abriu mão de uma confortável cátedra em sua universidade natal. Pagou o preço. Foi exilado e perseguido. Morreu pobre, mas com sua honra intacta. Seus últimos dias foram particularmente difíceis. A morte da esposa amada com um câncer doloroso. Marx morreu deixando para trás uma obra impossível de ser medida, um conjunto grandioso de ideias tão poderosas quanto eternas.

    Marx morreu no dia 14 de março de 1883, mas – coisa estranha – sua morte foi anunciada milhões de vezes desde então! Sempre é a “morte definitiva”. E a cada vez os inimigos da liberdade e do progresso humano comemoram mais e soltam mais fogos. Há algo que não se entende sobre Marx: que suas ideias adquiriram vida própria, que o que ele revelou não pode mais ser escondido porque toda a humanidade caminha exatamente no sentido que ele disse caminhar: para disjuntiva entre a barbárie e o socialismo. O mundo mudou muito desde Marx. Mas não os pressupostos de sua teoria: a exploração do capital sobre o trabalho segue sendo a pedra fundamental sobre a qual se erguem todas as maravilhas e todas as desgraças da espécie humana. O socialismo segue vivo nas ideias de Marx e na luta da classe trabalhadora do século 21.

    Diz um ditado espanhol “los muertos que vos matáis gozan de buena salud”. Assim é Marx. Anunciem a sua morte! Toquem as trombetas! Não importa. Nascido há 200 anos, ele segue vivo, e goza de perfeita saúde.

    Confira outros textos do Especial Marx 200:

    1) Marx, o incendiário. Por Valério Arcary

    2) A atualidade de Marx em seu aniversário de 200 anos: A classe trabalhadora. Por Marcelo Badaró

    3) Educação e formação humana em Marx e Engels. Por Artemis Martins

    4) Como me tornei um marxista. Por Carlos Zacarias

    5) 200 anos de Marx: Reflexões sobre a luta antirracista Por Matheus Gomes

    6) A exceção contida na regra: Marx e a dialética da democracia liberal. Por Felipe Demier

    7) Karl Marx: seu nome viverá através de séculos. Por Henrique Canary 

    8) Parabéns, Karl. Por Ivan Dias Martins

    9) Estudar Marx fora e dentro das universidades. Por Demian Melo

    10) Marx: 200 anos de crítica ao capitalismo. Por Guilherme Leite

    11) O encontro de Marx com a economia política. Por Macello Musto

    12) Karl Marx e o capital: O detetive que queria desvendar a suprema intriga. Por Francisco Louçã

    13) Marx e o caso Vogt: Apontamentos para uma biografia intelectual (1860-1861). Por Marcello Musto

  • O fogo e o ódio

    Editorial 03 de maio

    O incêndio e o desabamento do prédio Wilton Paes de Almeida, no Centro de São Paulo, onde cerca de 400 trabalhadores viviam, é possivelmente a mais dramática alegoria dos nossos dias. São mais de 40 pessoas ainda não encontradas, que podem estar sob os escombros. Aqueles que não morreram, perderam tudo. Ajudantes, serventes, faxineiras, motoboys, garis, manicures. Brasileiros, angolanos, bolivianos. Negros, quase todos.

    Contra eles, os mais explorados e pauperizados no País, se volta o projeto de supressão das poucas garantias do pacto constitucional de 1988. São famílias que dependem, para sobreviver precariamente, dos Benefícios de Prestação Continuada (BPC), dos salários-mínimos de aposentadoria, das pensões por morte, do bolsa-família. São  famílias submetidas ao regime de terceirização e informalização do trabalho, ainda mais instituído em tempos de contrarreformas. São famílias que enfrentam filas em creches, escolas e hospitais, ainda mais extensas em tempos de corte de investimentos sociais.

    E são aqueles que veem ruir sua dignidade humana também pelo processo nefasto de criminalização da pobreza. O dia 1o de maio de 2018, o Dia do Trabalhador, tornou-se um verdadeiro festival de disseminação de ódio contra os trabalhadores. Ódio que não se ateve às tentativas de viralizar notícias falsas pela extrema-direita, como o MBL e Bolsonaro, que caluniaram o quanto puderam o MTST, alegando que a ocupação era parte da “máfia” de Guilherme Boulos para se aproveitar das famílias, mas percorreu  os discursos dos políticos responsáveis pela cidade e pelo estado.

    João Dória (PSDB) praguejou a situação dramática dos sem-teto dizendo que eram membros de uma “facção criminosa”. A única morte lamentada por Bruno Covas (PSDB), atual prefeito de São Paulo, foi a do prédio, ao qual a prefeitura daria um “uso devido” caso tivesse havido reintegração de posse antes. E Márcio França (PSB), governador substituto de Alckmin, insinuou que os ocupantes “pediram” pelo trágico acontecido. Enquanto isso, as principais emissoras de televisão, em especial a Rede Globo, lançaram incessantemente reportagens com tons de nítida acusação indistinta aos movimentos de moradia.

    Entre o discurso neofascista de ódio aos pobres, aos trabalhadores, às mulheres, aos negros, aos nordestinos, à esquerda, e as declarações das principais instituições do poder do Estado, não houve diferenças significativas. Um toma progressivamente o papel de introdutor do outro, mesmo quando anuncia combater excessos e radicalismos. Também foi assim quando a notícia da execução política e racista de Marielle Franco veio à tona em todo o mundo.

    A grande questão é que, para levar adiante esse projeto anti-povo, o grande capital e seus governantes precisam de prevenções políticas. E a mais violenta das prevenções é criminalizar o alvo dos seus ataques, provocar ódio, desprezo ou, no mínimo, indiferença da sociedade. Cozinhar imobilismo, aquecer intolerância, queimar possíveis revoltas.

    Deste modo, os números da cidade de São Paulo vão sendo esterilizados: um milhão e 200 mil pessoas vivendo em moradias precárias. Dois milhões de metros quadrados sem uso algum. Apenas 1% da população controlando 45% do valor imobiliário. Menos R$ 250 milhões para as políticas habitacionais. E mais de R$ 100 bilhões de dívida ativa de grandes empresas com o município.

    A avalanche de manifestações de ódio e a propagação de notícias falsas a partir do drama da ocupação do Largo do Paissandú não vieram por acaso. Neste período histórico em que o capital financeiro precisa ampliar os seus meios de reprodução, a vida nos grandes centros urbanos vem se tornando insuportável aos trabalhadores. O nível de espoliação urbana afeta qualquer espaço e tempo de vida. Não se trata mais de ela ter qualidade ou não, diz respeito às chances de existir, onde toda e qualquer parte tem como vocação ser mercadoria.

    A reação necessária a esse processo de varrição permanente dos trabalhadores mais pobres das grandes cidades vem ocorrendo, espontaneamente ou de maneira organizada. O Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), desde junho de 2013, tem sido uma referência importante no enfrentamento à mercantilização das cidades e à situação econômica do povo pobre herdada pela crise. O que era um projeto de organização popular para a criação de alternativas ao contingente crescente de sem-tetos tornou-se um dos polos mais dinâmicos no combate ao golpe parlamentar de 2016 e a todos os ataques aos direitos da classe trabalhadora. Não é mero acaso o lugar onde a corda estica nesse momento político.

    É por imposição da realidade de ataques sociais e econômicos – mas também antidemocráticos e ideológicos – que a candidatura pelo PSOL de uma liderança sem-teto, Guilherme Boulos, junto a uma liderança indígena, Sônia Guajajara, acontece agora, apresentando um programa radical em defesa da vida em detrimento do lucro.

    A reorganização dos trabalhadores e da esquerda para a luta nas ruas não pode mais ser meramente anunciada. Não escolhemos este momento. Mas só sobreviveremos se transformarmos a indignação que sentimos em ação organizada. É hora de máxima solidariedade com as famílias que perderam seus entes queridos e com aquelas que perderam junto com seus lares o pouco que tinham. É momento de apoio às ocupações ameaçadas de despejo pela prefeitura e o estado. Mas é hora também de redobrar a aposta na resistência, como fazem dezenas de milhares de famílias sem-teto em luta em todo o País.

    Quem ocupa não tem culpa!

  • Lula é um preso político do golpe

    Editorial 10 de abril

    A prisão do ex-presidente dividiu o país. Uma parcela significativa da população, especialmente entre os trabalhadores e os mais pobres, considera a prisão uma injustiça. É crescente a opinião de que Lula foi preso sem provas, em um processo marcado por irregularidades. Mesmo entre os que não se opõem à prisão, aumenta a percepção de que há “dois pesos e duas medidas” quando se trata das ações da Lava Jato. Enquanto o petista é condenado e preso rapidamente, Alckmin, Aécio, Temer, Serra, entre outras figuras da direita envolvidas em denúncias de corrupção, seguem livres e exercendo seus cargos políticos.

    Em realidade, a prisão de Lula não teve nada a ver com o combate à corrupção. O objetivo, em primeiro lugar, foi o de excluir o petista das eleições presidenciais, já que eram razoáveis as chances de Lula ser eleito novamente. O ex-presidente seria eleito sob a expectativa de revogação das reformas de Temer e de mudança da política econômica. A classe dominante não quer, nesse momento, conciliação de classes e exige que o próximo governo mantenha e aprofunde a agenda de privatizações, redução do salário mínimo e a retirada de mais direitos. O segundo o objetivo da prisão é o de aprofundar os ataques às liberdades democráticas, como vimos com a restrição do princípio da presunção da inocência a partir da execução da pena em segunda instância.

    O objetivo de retirar Lula da disputa eleitoral parece ter sido atingido. Mas a resistência do povo impediu que ele fosse levado como criminoso. Lula não foi algemado, humilhado e acorrentado. A fotografia que entrará para a História será a do ex-presidente carregado por uma multidão de manifestantes no sindicato dos metalúrgicos do ABC.

    Novo momento do golpe
    Vivemos um momento marcado por uma escalada autoritária e por mudanças reacionárias no regime político. Direitos democráticos mínimos são ignorados, ao mesmo tempo em que cresce a ação de grupos neofascistas, a influência de Bolsonaro, as ameaças de militares e ataques à esquerda; e aprofunda-se o genocídio contra o povo negro. A execução de Marielle e Anderson simbolizam este momento que vivemos.

    O principal líder político do Brasil tornou-se um preso político em seu próprio país. Lula preso é uma denúncia viva para o mundo dos ataques aos direitos democráticos.

    Os manifestantes que cercaram o sindicato mostraram que é possível resistir. Que não se deve desistir. Em determinado momento, chegaram a barrar com um cordão humano a passagem de Lula, tentando impedir que se entregasse. Lula e a direção do PT negociaram e cederam. Apesar do recuo da direção petista, os atos em todo o País e a vigília em Curitiba mostram que devemos continuar lutando pela liberdade de Lula e em defesa dos direitos democráticos.

    Essa não é uma luta que pode ser travada apenas por um ou outro partido, ou movimento. Deve ser uma bandeira defendida por cada lutador social, independentemente de sua filiação partidária. Precisamos estarmos unidos, em uma Frente Única, com todas as organizações políticas, partidos e movimentos sociais dos trabalhadores, para dirigir essa luta pela liberdade de Lula, pela apuração da morte de Marielle, pelo fim da intervenção militar no Rio e pelo combate à ameaça neofascista. E combinar essa luta com a resistência à retirada de direitos, ao desemprego e às privatizações.

    Lutar e aprender com a luta
    É preciso aprender com as últimas semanas. Mesmo com a resistência em São Bernardo, que adiou a prisão, a realidade mostrou como o PT domesticou-se, adaptando-se ao regime e ao sistema político burguês. Em muitos momentos, mesmo com a bravura da militância e de milhares em todo o país, o PT não esteve à altura, ou preparado para os desafios que se colocaram.

    O PT parece aprisionado à estratégia de conciliação de classes. Sua direção não rompeu com a proposta de um governo comum com os empresários e o latifúndio, ainda que estes, o Judiciário e as Forças Armadas, tenham dado todos os sinais de que não mais toleram este partido. Por isso, a direção petista deposita tanta esperança em seus antigos aliados. Por isso, acreditou tanto na Justiça, até o último minuto, o último voto no STF. Por isso, ainda aposta em recursos e negociações. A burguesia rompeu com o PT, mas o PT não rompeu com a burguesia. A direção do partido de Lula foi incapaz de tirar lições dos erros estratégicos que possibilitaram o golpe parlamentar e a prisão do ex-presidente.

    É hora de construir uma nova estratégia, com um novo programa. Um programa de confronto com os ricos e poderosos e não de conciliação com “os de cima”. Essa diferença com o PT não é um obstáculo para a luta unitária em defesa da liberdade de Lula e pelas liberdades democráticas. Mas é preciso aprender com as lições de São Bernardo do Campo. É assim, apoiando-se na mobilização dos trabalhadores e da juventude, que iremos construir uma alternativa da esquerda socialista, em torno da pré-candidatura de Guilherme Boulos e Sonia Guajajara, na aliança entre o PSOL, o PCB,  MTST e diversos movimentos sociais. É assim, sem medo de mudar o Brasil, que será possível apresentar um programa de luta, “sem arrego” com os golpistas e a elite.

    Foto: Ricardo Stuckert

  • Direita e burguesia querem Lula na cadeia

    Editorial 03 de abril

    Nesta quarta-feira (4), o Supremo Tribunal Federal (STF) julgará o pedido de Habeas Corpus solicitado pela defesa de Lula. Caso seja negado o requerimento, o ex-presidente deverá ser preso nos próximos dias.

    Há nesse momento uma intensa pressão sobre o STF para que o petista não possa recorrer em liberdade da condenação em segunda instância. Os grandes meios de comunicação, juízes, promotores, generais e grandes empresários, em uníssono, saem a público pela prisão de Lula. Na esteira dessa inflamada campanha burguesa, grupos de extrema-direita promoverão atos em dezenas de cidades nesta terça-feira (3). A tentativa é colocar nas ruas a classe média que se mobilizou pelo impeachment de Dilma.

    A pressão é enorme. O procurador federal Deltan Dallagnol afirmou nas redes sociais estar “em jejum, oração e torcendo pelo país”. Por sua vez, o general de exército da reserva Luiz Gonzaga Schoroeder Lessa declarou ao jornal Estado de S. Paulo que “se acontecer tanta rasteira e mudança de lei, aí eu não tenho dúvidas de que só resta o recurso à reação armada”. Raquel Dodge, rocuradora-geral da República, afirmou que “Justiça que tarda é Justiça que falha”. Na regência da orquestra está a Globo, que faz da cobertura jornalística uma descarada campanha contra Lula.

    Em face a esse esbravejar das forças reacionárias, uma vez mais reafirmamos nossa posição categoricamente contrária à condenação e prisão de Lula. Trata-se de um processo político que tem como objetivos tirar o ex-presidente das eleições e estreitar garantias democráticas. A prisão após condenação em segunda instância, por exemplo, consiste num mecanismo que restringe o princípio constitucional da presunção de inocência, afetando sobretudo a população negra e pobre, vítima principal do encarceramento em massa no país.

    Estamos contra a prisão política de Lula, mesmo não sendo petistas. Sabemos, como sempre gosta de repetir o ex-presidente, que nunca antes na história desse país banqueiros e grandes empresários ganharam tanto dinheiro como nos governos do PT. Lula não compreende porque a elite não o tolera mais. A resposta é simples: para a burguesia, acabou o tempo da conciliação de classes.

    Caso o STF não conceda o Habeas Corpus, será preciso a mais ampla unidade de ação contra a prisão de Lula. Não se trata apenas da defesa de Lula ante uma condenação sem provas, mas também da defesa das liberdades democráticas ameaçadas. Caberá principalmente à direção do PT convocar atos de rua e ações de força contra a prisão. Toda a esquerda precisa se somar a essa luta, mesmo aquela que guarda profundas diferenças políticas e programáticas com o PT, como é o caso do PSOL.

    Nesse sentido, é necessário unificar a esquerda, os movimentos sociais, sindicatos e os setores democráticos numa frente de combate ao fascismo e nos atos contra a prisão de Lula. Esta ampla unidade deve levantar também a bandeira em defesa dos direitos dos trabalhadores, contra as reformas e o governo Temer.

    Terminamos este editorial com as palavras de Valério Arcary no encerramento de seu discurso no ato unitário contra o fascismo, que ocorreu nesta segunda-feira (2), no Rio de Janeiro: “É possível que daqui a uma semana haja uma ordem de prisão contra Lula. Assim como lutaremos contra o neofascismo, lutaremos ao lado do PT contra a condenação e a prisão do Lula. As diferenças estratégicas que temos não nos impedem de dizer: não haverá um só ato neste país contra a prisão do Lula onde a bandeira do PSOL não será levantada e com orgulho”.

    Foto: Conteúdo MS

  • O Brasil da vida e morte de Marielle

    Editorial de 17 de março,

    Se esperavam silenciar Marielle com balas, se deram mal. Marielle morreu, mas sua voz ecoou no coração e na mente de milhões, no Brasil e mundo afora. Com a dor que embarga a voz, com a tristeza que cala no fundo do peito, mas também com a indignação que mantém o sangue vivo, muitos milhares tomaram as ruas em todo país. Mais de 150 mil, de Norte a Sul. Se pensaram em plantar o medo, semearam a revolta. Marielle foi executada, mas seus sonhos não, viraram semente.

    Por que Marielle?
    A escolha do alvo revela muito sobre a natureza política e racista do crime. Marielle foi assassinada por ser negra, mulher, trabalhadora, moradora de favela, bissexual, e também por ser lutadora, de esquerda, de um partido socialista que enfrenta o sistema. A cria da Maré reunia em sua figura todos os símbolos de resistência perseguidos historicamente pelos poderosos em nosso país. Nas palavras dela: “Uma coisa é você morar, nascer, viver na favela. Outra coisa é você reivindicar e usar desse lugar de favelada pra fazer política de outra maneira”.

    Como sabemos, o Rio de Janeiro é um estado marcado por números alarmantes de assassinatos de negros e negras. A política de “guerra às drogas” coloca negros e pobres como as principais vítimas da política de segurança pública nacional.

    No último mês, Marielle travava uma batalha particularmente incômoda ao sistema. A vereadora do PSOL era voz firme contra a intervenção militar no Rio. Denunciava que a medida não resolveria o problema da violência, ao contrário, serviria para impor mais repressão às favelas, facilitando as ações policiais de extermínio do povo negro e pobre.

    A manobra de Temer e da Globo
    Com a comoção que extrapolou as fronteiras do país, a grande mídia e o governo se apressaram em responder ao crime bárbaro. Construíram uma “narrativa” que tem como objetivo capturar o significado da morte de Marielle e Anderson, para desse modo limitar e controlar o potencial de revolta que se espalhou entre a população.

    Temer afirmou que a culpa é dos “bandidos” e que a intervenção militar veio para resolver o problema. A Globo, por sua vez, tratou o assassinato da vereadora como parte do avanço da criminalidade e da violência na cidade. A linha da classe dominante é preservar a intervenção militar e, por outro lado, evitar a radicalização do movimento de resistência.

    Quem matou Marielle? A responsabilidade do Estado
    No mês de fevereiro, Marielle foi nomeada relatora da comissão de acompanhamento da intervenção militar da Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro. Nos últimos dias, vinha denunciando ações de extermínio da Polícia Militar em comunidades do Rio, como as ocorridas recentemente em Acari.

    A execução de Marielle ocorreu numa cidade sob intervenção militar federal. Estamos perante o assassinato político de uma parlamentar que denunciava ações de agentes e instituições diretamente envolvidas com a medida. Responsabilizamos o Estado pela morte de Marielle. Michel Temer, Rodrigo Maia, Fernando Pezão e o General Braga Neto não são inocentes.

    Ainda que os mentores do crime não sejam ligados ao comando das Forças Armadas e do governo, mesmo que os mandantes sejam policiais milicianos, não se pode compreender a execução desconectada da intervenção militar. Ao contrário do que afirma Temer e a Globo, estamos perante o primeiro assassinato político da intervenção. Intervenção militar de um Estado em que o racismo é institucional.

    A execução em tempos de retrocesso
    O programa do golpe pode ser resumido em poucas palavras: menos direitos, mais repressão. O retrocesso nas conquistas sociais é acompanhado da supressão de liberdades democráticas. Perante a crise social, a burguesia responde com o endurecimento do regime político. O alvo, como sempre, é o povo trabalhador, os negros e negras, os mais pobres. E especialmente, dentre esses, aquelas e aqueles que ousam organizar os trabalhadores e oprimidos e enfrentar o sistema.

    O assassinato racista e político de Marielle demonstra toda a gravidade do momento político em que vivemos. Executaram uma liderança que era expressão da resistência a esse processo reacionário, liderança de um partido da esquerda socialista – o PSOL. Há uma perigosa escalada repressiva dentro do golpe, inclusive com a participação de setores fascistas (ligados ao aparelho de estado), que hoje sentem empoderados.  A esquerda anticapitalista como alvo, mais um sinal alarmante.

    Num cenário de liquidação dos direitos trabalhistas, de destruição da saúde e educação públicas, do aprofundamento do genocídio do povo negro nas periferias, em que um presidente sem voto aplica um programa de reformas odiado pelo povo, o primeiro colocado nas pesquisas pode ser preso como forma de excluí-lo das eleições e a extrema-direita se sente à vontade para exaltar a ditadura, a execução de Marielle foi uma tentativa de estrangular o grito de resistência dos de baixo. Mas o resultado foi o inverso. O grito de luta de Marielle ganhou o coração de milhões, e pode virar maré montante.

    Permanecer nas ruas por Marielle e derrotar a intervenção militar
    Transformar o luto em luta. A dor em revolta. A indignação em ação. Permanecer nas ruas, encorajar os desanimados, abrir os olhos de quem não quer enxergar e sacudir quem está parado. Essa é a tarefa.

    Chegamos num ponto limite. Vamos às ruas para fazer justiça por Marielle, e para manter viva sua pauta: defendendo a vida do povo negro e pobre das periferias do país, e lutando por uma vida digna para nosso povo. Para defender nossas liberdades, a pouca democracia que ainda temos. Pelos nossos direitos!

    O testamento político de Marielle é também a luta que ela travou nos últimos meses contra Intervenção Militar no Rio e suas consequências, por isso essa batalha é central neste momento.

    É preciso a mais ampla unidade na luta. O nosso inimigo está determinado a nos esmagar. Para resistir e vencer, é preciso unir trabalhadores, negras e negros, sem-terras e sem-tetos, mulheres, LGBTs, indígenas e estudantes. A unidade na diversidade faz a nossa força. Paz entre nós, guerra aos senhores!

    Nesse sentido, tem enorme importância a unidade dos partidos de esquerda (PSOL, PT, PCB, PCdoB ,PSTU), do MTST, Povo Sem Medo, dos sindicatos, centrais, movimentos sociais, coletivos de luta, artistas e intelectuais em torno de uma campanha nacional unificada em defesa dos direitos democráticos e sociais, cuja bandeira comum pode ser escrita com as seguintes palavras: Marielle Vive!

    • Marielle Vive! Apuração com uma comissão independente! Punição aos executores e mandantes!
      Fim da intervenção militar! Fora Temer e Pezão! Desmilitarização já da Polícia!
      Vidas negras importam! Fim do genocídio do povo negro e pobre!
      Às ruas! Unir as lutas para derrotar o golpe!
  • É preciso lutar contra a prisão de Lula e construir uma alternativa política

     

    Editorial do dia 07 de março

    Os cinco juízes do Superior Tribunal de Justiça (STJ) foram unânimes em recusar o pedido de habeas corpus pedido pelos advogados de Lula na tarde desta terça-feira (06). A defesa aguardava um 4×1, com um voto de honra, que não veio. Mas a decisão já era esperada e vista pela defesa do petista como uma etapa a ser cumprida antes do recurso no Supremo Tribunal Federal (STF).

    Mas o fato é que Lula está cada vez mais perto de ser preso. O Ministério Público Federal (MPF) anunciou que pretende prender o petista assim que encerrar completamente a tramitação na segunda instância, ou seja, no TRF-4. Falta apenas o julgamento de um “embargo de declaração”, um recurso que não tem poderes para anular ou alterar a pena. Cumprido isso, tudo indica que o juiz Sérgio Moro peça imediatamente a prisão de Lula.

    Os esforços dos advogados do PT, neste momento, é para ganhar tempo. Tentam que o STF impeça prisões após julgamento de segunda instância, o que daria a Lula um período de… seis meses de liberdade.

    Prisão mostra a nova face do golpe
    O impeachment, em 2016, foi o mecanismo encontrado pelas grandes empresas para alterar a economia brasileira, aumentando o desemprego e o saque do trabalho e das riquezas do País, preservando a taxa de lucros de empresas e dos bancos em meio a crise mundial. Essa foi a explicação para o festival de maldades que temos visto no governo Temer, que despertou a resistência dos trabalhadores, em especial contra a reforma da Previdência.

    Os ataques econômicos vieram acompanhados de mudanças no regime político: a judicialização da política, a reforma política que ataca os partidos de esquerda, a criminalização das lutas e protestos e o aumento da repressão nas periferias. Não basta apenas retirar direitos, é preciso controlar, mudando regras e leis se preciso, para que nada escape do roteiro definido pelo golpe.

    Agora, o governo ilegítimo, que conta com 4,5% de aprovação, avança em um novo capítulo do golpe, com a ocupação militar no Rio de Janeiro. A população do Rio é hoje governada por militares e por um presidente golpista.

    A condenação de Lula em janeiro e a sua prisão iminente fazem parte deste momento atual do golpe e não estão dissociadas de outros ataques às liberdades democráticas. Devemos lutar contra a sua prisão e pelo direito dele ser candidato, com todas as nossas forças, combinando essa luta com a contra as reformas e a intervenção militar no Rio de Janeiro.

    A prisão de Lula, o principal líder dos trabalhadores nos últimos 40 ou 50 anos pelo menos, seria um fato de grandes dimensões e um feito para a burguesia, a mesma que tanto lucrou em seus governos. Com certeza inauguraria um novo momento de perseguições e prisões kafkanianas que atingiriam não apenas aqueles que estiveram 13 anos no poder, mas toda a esquerda socialista, a resistência de sindicalistas, do movimento popular e por moradia, das mulheres que lutam e todos e todas que ousem se levantar em qualquer greve, protesto ou ocupação neste País.

    Sua prisão seria, nitidamente, um exemplo de perseguição política. Começando por todo o processo montado pelo juiz Sergio Moro e amplificado pela cobertura da mídia. Seguindo com o julgamento em tempo recorde em janeiro e a condenação, estranhamente unânime, tanto na decisão quanto na pena, como uma orquestra de uma só melodia. Todo o processo parece montado com o objetivo de evitar que Lula seja candidato, ou seja, para garantir que o próximo governo mantenha e preserve as políticas econômicas adotadas, com o mesmo afinco que o atual, sem escutar a pressão dos movimentos sociais.

    Ao mesmo tempo em que Lula é condenado e pode passar anos preso, Temer foi blindado pelo Congresso, e segue, com seus ministros, incólume. Sua luta é para garantir que, após deixar o governo, não tenha que responder pelas denúncias de corrupção.

    Como lutar contra a prisão?
    O mercado reagiu à decisão do julgamento de terça-feira, assim como havia ocorrido em janeiro. A queda do dólar em um dia foi tamanha – foi à R$ 3,20 – que alterou a previsão para a moeda até o final do ano. O mercado reagiu dizendo aplaudindo a decisão. Não quer Lula candidato e, se pra isso, for preciso que o prendam, que o façam.

    Esse é mais um exemplo de que burguesia rompeu com o PT. Não é mais necessário um governo em comum. Mas o PT não fez o mesmo e segue agindo como um partido da ordem. Segue apostando no caminho da conciliação de classes, apostando que é possível governar para todos, e buscando, dia após dia, alianças com setores de partidos que inclusive deram o golpe, para tentar retornar ao poder.

    Infelizmente, essa estratégia leva a inúmeras ilusões que, no caso do julgamento, estão cobrando o seu preço. O PT, Lula e seus dirigentes apostam no caminho da institucionalidade e também no terreno da Justiça, mesmo após tantas demonstrações de Moro e cia. Desde os atos de janeiro, o PT fez toda a militância e os que estão ao seu lado acreditar que a troca de advogados seria a solução para evitar a prisão. E que o STF anularia os desmandos de Curitiba e Porto Alegre.

    Em todo este período, o silêncio foi a arma adotada, buscando acordos nos andares de cima. Esse caminho vai levar a prisão de Lula. Silêncio só rompido por parte dos dirigentes petistas, que em coletiva, esbravejaram, desafiando a burguesia a atrever-se a prender Lula. “Nós não queremos uma revolução. Queremos um acordo nacional. Mas se prenderem o Lula, a democracia no Brasil, para nós, acabou”, dizia o presidente do PT-RJ, Whashington Qua-Quá. Mesmo subindo o tom, estão presos a uma estratégia, a de buscar acordos e negociar salvo-condutos com os golpistas.

    Esse caminho prepara a derrota. De nada adianta lutar contra a prisão somente após ela ter ocorrido. É preciso unir todos aqueles que estão em defesa das liberdades democráticas, em uma grande unidade de ação, para impedir a prisão de lula e avançar na luta contra Temer e a ocupação. Essa resistência virá das ruas, como mostrou o MTST em Janeiro, na passeata até a Paulista, e não em acordos com quem arranca nosso futuro. É preciso abandonar estas ilusões e que o PT e Lula usem o respeito e a confiança que têm de grande parte dos trabalhadores para convocar uma grande campanha, em defesa das liberdades democráticas e contra as reformas e a intervenção.

    Defender Lula e avançar na alternativa política, com o PSOL e o MTST
    Lutar nas ruas, com todas as forças, pelo direito de Lula ser candidato e por sua liberdade, não tem nada a ver com a defesa do lulismo, com a defesa do seu programa e estratégia e dos seus governos. Defendemos Lula e o PT, mas mantemos nossa independência política, pois temos outra estratégia para o País. Sabemos que o caminho da aliança e da conciliação de classes vai levar a novas derrotas, e não vai mudar de fato a vida dos trabalhadores.

    Precisamos de uma alternativa política com um programa que enfrente o capital e a desigualdade, sem medo de romper com a dívida pública, de revogar as reformas de Temer e enfrentar bancos e grandes empresas. Somente uma alternativa assim pode contagiar e entusiasmar os lutadores e lutadoras do País, e ainda dialogar com a enorme massa de trabalhadores que está sendo disputada e ganha para saídas radicais de direita, diante da crise social e da desilusão com o PT e com a política.

    Achamos que a aliança que está se gestando entre o PSOL, o MTST e outros movimentos sociais, através da pré-candidatura de Boulos e Guajajara, pode representar essa alternativa, que represente nas eleições e nas lutas, o caminho das ruas, e que nos permita resistir e sonhar, superando a armadilha da conciliação de classes.

  • Uma noite que pode entrar na história

    Editorial de 04 de março,

    Enquanto as forças da reação levantam suas asas sob o país e a velha esquerda rendida suspira a conciliação com os poderosos, uma centelha de esperança brilhou na noite deste sábado, três de março, na Casa das Caldeiras, em São Paulo.

    Há tempos não se via a valentia e a diversidade do povo numa manifestação de tamanho vigor e alegria. Sem-tetos das ocupações de mãos dadas com os povos das florestas. Operários ao lado de artistas e estudantes anticapitalistas. Mulheres lutadoras, negros combatentes e LGBTs ativistas juntos de velhos guerreiros do enfrentamento com a ditadura militar.

    Naquele salão apinhado de gente, não estavam apenas reunidos um passado e um presente carregados de resistência, mas sobretudo um futuro, uma nova perspectiva de lutas e sonhos. Explorados e oprimidos se juntaram, ali, não para proclamar demandas separadas por muros, e sim para afirmar que a unidade na diversidade é a maior força do povo trabalhador e oprimido.

    O lançamento da pré-candidatura de Guilherme Boulos e Sônia Guajajara à presidência é, ao mesmo tempo, símbolo e aposta da retomada de um projeto de esquerda que fale a língua da luta de classes, a língua dos debaixo, e não a da submissão, conciliação e acomodação com o andar de cima.

    A aliança selada entre o PSOL, MTST e diversos outros movimentos impulsiona uma iniciativa política que transcende a disputa meramente eleitoral, pois abre caminho para a reorganização da esquerda sob novas bases políticas e programáticas, num contexto que a direita avança e o petismo sucumbe à reação. Por outro lado, esta aliança amplia e fortalece o PSOL, conferindo-lhe um papel superior, e não ao contrário, como acredita alguns setores do partido.

    Abrir espaço para o novo sem repetir os erros do passado

    Diante do surgimento de uma nova alternativa, a velha esquerda se movimenta para acabar com seu potencial e radicalidade. O vídeo de Lula passado na Conferência Cidadã é uma evidência disso. Habilmente, a direção do PT não se contrapõe abertamente à iniciativa, mas trabalha para enquadra-la dentro dos parâmetros políticos e programáticos aceitáveis para o lulismo.

    Para superar o petismo e sua estratégia permanente de conciliação com os poderosos, é pouco inteligente ser sectário. Neste momento, em que o PT não é mais governo, é decisiva a luta unificada contra a condenação e prisão de Lula, contra o governo Temer e as reformas, e contra a intervenção militar no Rio. A unidade da esquerda na luta é uma bandeira central para os dias de hoje.

    Porém, ao mesmo tempo, é necessário reconhecer que, sem romper política e programaticamente com o lulismo, a nova esquerda terá vôo curto. A conciliação de classes não é apenas indesejável agora: ela foi a responsável por abrir as portas para o golpe parlamentar e a onda reacionária que se abate sobre o nosso povo. Como disse ontem Marcelo Freixo, não queremos governar “para todos”, como se fosse possível agradar a ricos e pobres, todos os “cidadãos”. Nosso projeto tem lado, tem classe.

    Três estratégias para não repetir o velho

    Neste editorial, queremos apresentar três nortes estratégicos para pisarmos em chão firme e traçarmos um horizonte possível de vitória.

    O primeiro deles é a garantia da mais absoluta independência diante da classe dominante. Recuperar o princípio da independência dos debaixo significa repelir as alianças com os partidos e lideranças da direita, com todas as frações da burguesia. Não há nenhum setor da classe dominante progressivo, o conjunto da burguesia brasileira é reacionário, atrelado e submetido aos interesses imperialistas. Por isso, é incapaz de qualquer projeto nacional soberano e progressista. A burguesia brasileira se alimenta da miséria, da desigualdade e da violência. Sua bandeira é a da contrarrevolução permanente.

    O segundo norte estratégico deve ser a defesa de um programa anticapitalista, isto quer dizer que as mudanças fundamentais que o país precisa – saúde, educação, emprego, moradia, cultura etc. – são impossíveis de serem efetivas sem a ruptura com os grandes bancos, empresários, multinacionais e latifundiários. Se quisermos ir à raiz dos problemas, atacar os privilégios das elites pressupõe um programa de expropriação da grande propriedade capitalista, em benefício da maioria. É ilusório acreditar que se pode transformar verdadeiramente o país sem romper com a burguesia e o imperialismo. Todas as tentativas que venderam essa falsa promessa fracassaram, cedo ou tarde.

    Por fim, é preciso colocar em primeiro plano a estratégia da revolução brasileira, o que significa reconhecer que as instituições do estado capitalista (executivo, legislativo, judiciário, forças armadas) são agentes da manutenção do sistema de exploração e opressão. Por consequência, a transformação nacional só poderá ser protagonizada pelo povo trabalhador e oprimido organizado e em luta, para além das eleições. Assim, a tarefa fundamental é construir as condições para a revolução brasileira, isto é, para a insurgência dos explorados e oprimidos contra o sistema. A nova alternativa de esquerda, se quiser fazer a grande política, deve estar a serviço dessa estratégia revolucionária.

    Foto: Midia Ninja

  • 24 de enero: un capítulo más del golpe parlamentario

    Editorial de 25 de Enero de 2018.
    Traduccion de Perspectiva Marxista Internacional, de Argentina
    La condena sin pruebas de Lula por la 8a sala del Tribunal Regional de la 4a Región (TRF-4) representa un capítulo lamentable más del golpe parlamentario iniciado con el impeachment de Dilma Rousseff sin delito de responsabilidad comprobado.
    Además de negar el recurso de defensa al expresidente y todos sus pedidos, el resultado unánime de los tres jueces y la ampliación de la pena a 12 años y un mes demuestran una terrible unidad en el Poder Judicial en torno de la Operación Lava Jato, sus métodos y objetivos reaccionarios.
    La sustentación del voto de los tres jueces de segunda instancia es una confirmación concreta de como sectores del Poder Judicial se colocan por encima de la sociedad, practican un discurso abierto en defensa de una meritocracia reaccionaria, por encima de las reglas de la democracia y alimentan un gran desprecio por la voluntad popular. En fin, una demostración más de que la Justicia está al servicio de los ricos y poderosos.
    La euforia del mercado, con alza récord de la bolsa, y la caída del valor del dólar, es también una demostración de quién se sintió victorioso con la confirmación de la condena del expresidente por el TRF-4.
    Y no solo el mercado se sintió más fuerte. Al final de la tarde, poco después del cierre del juicio, el Palacio de Planalto inició una ofensiva de agitación en Facebook y otras redes sociales con una etapa más de la campaña en defensa de la Reforma Previsional. El espíritu del gobierno ahora es “ir para arriba” para conseguir los 308 votos necesarios en la sesión del día 19 de febrero.
    Todo esto ocurre en un país donde políticos influyentes de la vieja derecha, que están probadamente involucrados en esquemas de corrupción, como Aécio Neves, Geraldo Alckmin y el propio presidente ilegítimo Michel Temer, no solo siguen en el poder sino que tampoco son seriamente investigados y procesados.
    El verdadero espectáculo en torno al juicio fue transmitido en vivo por los grandes canales de televisión, especialmente TV Globo. Lo que vimos este miércoles fue nada más que la continuación de este mismo golpe, esta vez contra la candidatura de Lula, pero con los mismos actores y con los mismos agentes involucrados.
    No apoyamos el proyecto político de Lula y de la dirección del PT. Sería muy positivo si la dirección del PT estuviese realmente dispuesta a rever su política de conciliación con los intereses de los ricos y poderosos. Pero eso no está ocurriendo, ni va a ocurrir. Los líderes del PT, y Lula en primer lugar, siguen defendiendo una política de alianza con sectores de la vieja derecha y de los grandes empresarios, incluso con sectores que apoyaron el impeachment. Desafortunadamente, no aprendieron de sus propios errores; a final de cuentas, para dar solo un ejemplo, quien puso a Temer como vice de Dilma fue la propia dirección petista.
    Pero a pesar de las duras críticas que tenemos a la política del PT, no podemos quedar callados en este momento de ofensiva del proyecto conservador. No estamos de acuerdo con los sectores de la izquierda que apoyan la condena sin pruebas de Lula o que afirman que la clase trabajadora no debe preocuparse con este proceso.
    Se equivoca también la dirección del PT cuando busca mezclar la campaña contra los ataques a las libertades democráticas y por el derecho de Lula de participar en las elecciones con el apoyo político a una eventual candidatura del expresidente en las elecciones de 2018.
    Es hora de una campaña contra los ataques a los derechos sociales y las libertades democráticas. Sería muy positivo si Lula, la dirección del PT, la de la CUT y el Frente Popular hicieran una campaña de hecho unitaria “en defensa de la democracia, contra los ataques al pueblo trabajador y por el derecho de Lula a ser candidato”.
    Intensificar la lucha contra la eliminación de derechos y los ataques a las libertades democráticas
    No es hora de bajar la cabeza y mucho menos la guardia. Evidentemente, es preciso reconocer que el día de ayer representó un paso adelante en la profundización del golpe parlamentario, pero el momento decisivo de esta guerra será en las calles y no dentro de los tribunales de esa justicia reaccionaria.
    La fecha de la próxima batalla ya está marcada. El gobierno ilegítimo de Temer y su bancada en el Congreso Nacional quieren iniciar en febrero la votación de la infame Reforma Previsional. Quieren seguir con la aplicación de su plan de eliminar derechos históricos de los trabajadores y de la mayoría del pueblo. Fue exactamente para eso que dieron el golpe.
    Las centrales sindicales, los movimientos sociales combativos y los partidos que defienden los intereses del pueblo trabajador deben preparar la resistencia a los ataques, que vendrán con mucha más fuerza. Se puede comenzar con un día nacional de paralizaciones y movilizaciones, con el objetivo de construir una verdadera huelga general en el país. La lucha directa de los trabajadores es el único idioma que los enemigos del pueblo entienden. Tenemos que repetir y ampliar lo que hicimos el día 28 de abril del año pasado. Si Lula está realmente preocupado con lo que está aconteciendo con el pueblo brasileño, como afirmó en la manifestación en Porto Alegre el día 23 de enero, debería entones usar toda su popularidad para colocarse al frente de esta convocatoria.
    Pero ni Lula ni el PT parecen haber aprendido la lección: no vamos a derrotar el golpe parlamentario apostando a acuerdos con los golpistas en el Congreso Nacional, insistiendo en una política de alianzas con la vieja derecha y con los grandes empresarios, ni tampoco con recursos judiciales en los tribunales de la Lava Jato.
    La principal lección que podemos sacar de lo ocurrido ayer es que la lucha contra el golpe parlamentario y sus capítulos, la defensa de nuestros derechos y de las libertades democráticas tendrán que ser prioritariamente, y cada vez más, en las calles, organizando movilizaciones, paralizaciones y huelgas, para derrotar todos los ataques que están siendo aplicados por el gobierno ilegítimo de Temer y sus aliados.
    Es la hora de afianzar una nueva alternativa política
    Defendemos la máxima unidad de acción en las luchas en defensa de los derechos de los trabajadores y de las libertades democráticas. Proponemos la construcción de un amplio frente único que confronte el golpe parlamentario y todos sus objetivos reaccionarios. El próximo paso de esta unidad debe ser intensificar nuestra movilización para derrotar la Reforma Previsional.
    Para construir y fortalecer este amplio movimiento unitario, de la clase trabajadora, la juventud y del conjunto de los explotados y oprimidos, debemos estar dispuestos a luchar al lado de aquello con los que no tenemos acuerdos políticos estratégicos. Los intereses de la clase trabajadora y de la mayoría del pueblo deben estar en primer lugar.
    Pero esa sincera disposición a estar juntos en la luchas no debe confundirse con hacer a un lado nuestras diferencias políticas. Por lo tanto, la defensa del derechos de Lula a participar en las elecciones no significa que estamos dispuestos a apoyar su proyecto político, principalmente de conciliación con los intereses de las grandes empresas y los bancos. Para nosotros, ¡los golpistas no merecen perdón!
    Por eso, es necesario que el PSOL defina su candidato(a) a presidente de la República en su Conferencia Electoral marcada para el día 10 de marzo. Por haberse consolidado como el mayor partido de oposición de izquierda a los gobiernos petistas, el PSOL tiene la responsabilidad de llamar a la construcción de un frente de izquierda socialista, una nueva alternativa de independencia de clase. Vemos también como algo muy positivo la posibilidad de afiliación de Guilherme Boulos al PSOL y la propuesta de que él pueda ser uno de los nombres para encabezar esta alternativa.
    La izquierda socialista necesita encarar estos dos desafíos políticos: estar en la línea del frente de las luchas unitarias en defensa de los derechos de la clase trabajadora y de la mayoría del pueblo, y ser firme en la presentación de una nueva alternativa política de izquierda radical, socialista, que supere el proyecto de conciliación de clases de la dirección del PT.