Especial 100 anos da Revolução Russa

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  • O que foi a Revolução de Outubro

    Por Leon Trotski, Conferência pronunciada: a 27 de Novembro de 1932, no estádio de Copenhague, Dinamarca.

    Queridos ouvintes:

    Permita-me, em primeiro lugar, expressar-vos meu sincero pesar por não poder falar em língua dinamarquesa, ante um auditório de Copenhague. Não sabemos se os ouvintes perderão algo por isto. No que concerne ao conferencista, a ignorância do idioma dinamarquês impede-o de estar em contato direto com a vida e a literatura escandinavas. O que supõe um grande inconveniente! O idioma alemão, ao qual recorro para tais misteres, é poderoso e rico; mas, a “minha língua alemã” é bastante limitada. Ademais, quando se trata de questões complicadas, não é possível explicar com a mesma liberdade que se tem quando se fala a própria língua. Portanto, peço, antecipadamente, desculpas ao auditório.

    Estive pela primeira vez em Copenhague para participar do Congresso Socialista Internacional e guardei sempre grata recordação de vossa cidade. Mas, já vai um quarto de século. No Ore-Sund e no fiords,  a água renovou-se muitas vezes. E não somente a água. A Guerra rompeu a coluna vertebral do velho continente europeu. Os rios e os mares da Europa arrastaram muito sangue. A humanidade, tornou-se em particular a sua parte européia, atravessou duas provas. Tornou-se mais sombria. Mais brutal. Todas as formas de luta tomaram aspectos ainda mais duros. O mundo entrou numa época de grandes mudanças. Suas exteriorizações extremas são a guerra e a revolução.

    Antes de abordar o tema de minha conferência – a Revolução – julgo um dever expressar meus agradecimentos aos organizadores deste ato, à Associação de Copenhague de Estudantes Social-Democratas.  Faço-o na qualidade de adversário político. É verdade que a minha conferência trata de questões histórico-científicas. É, porém, impossível falar de uma revolução, como a que criou a República dos Sovietes, sem tomar uma posição política. Na qualidade de conferencista minha bandeira continua a mesma: a mesma bandeira sob a qual participei da Revolução de Outubro.

    Até a guerra, o Partido Bolchevique pertenceu à socialdemocracia internacional. A 4 de agosto de 1914, o voto da Social-Democracia alemã em favor dos créditos de guerra, acabou de uma vez para sempre com esta unidade e abriu a era da luta incessante e intransigente do bolchevismo contra a Segunda Internacional. Significa isto, portanto, que os organizadores desta reunião cometeram um erro ao convidar-me como conferencista? Em todo o caso, o auditório somente poderá julgar depois de pronunciada a palestra. Justificando a aceitação de tão amável convite para fazer uma conferência sobre a revolução russa, permitir-me-ei recordar que, durante os 35 anos de minha vida política, o tema da revolução russa sempre foi o eixo prático e teórico de minhas preocupações e de meus atos. Creio, portanto, que isto me dá algum direito de esperar poder ajudar não somente a meus companheiros de idéias, como também a meus adversários – pelo menos de partido – a compreender muitos aspectos da revolução que até hoje escapam aos seus olhos. Numa palavra: o objetivo de minha conferência é ajudar a compreender. E não me proponho a propagar nem a clamar pela revolução. Só quero explicá-la.

    Não sei se no Olimpo escandinavo havia também uma deusa da rebelião. Duvido. De qualquer modo, não solicitaremos hoje os seus favores. Poremos nossa conferência sob o signo de Snotra a velha deusa do conhecimento. Não obstante o seu caráter dramático, como acontecimento vital, trataremos de estudar a revolução com a impassibilidade do anatomista. Se o conferencista, por causa disto, se tornar mais seco, os ouvintes, espero, saberão justificá-lo.

    Para começar, fixemos alguns princípios sociológicos elementares que são sem dúvida familiares a todos vocês e que devemos, porém, recorda-los ao tomar contato com um fenômeno tão complexo como a revolução.

    A sociedade humana é o resultado histórico da luta pela existência e da segurança na preservação das gerações. O caráter da economia determina o caráter da sociedade. Os meios de produção determinam o caráter da economia.

    A cada grande época, no desenvolvimento das forças de produção, corresponde um regime social definido. Até agora, cada regime social assegurou enormes vantagens à classe dominante.

    É evidente que os regimes sociais não são eternos. Nascem e, historicamente, transformam-se em obstáculos ao progresso ulterior. “Tudo que nasce é digno de perecer”.

    Nunca, porém, uma classe dominante abdicou, voluntária e pacificamente, ao poder. Nas questões de vida e morte os argumentos fundados na razão nunca substituíram os argumentos da força. É triste dizê-lo. Mas é assim. Não fomos nos que fizemos este mundo. Só podemos tomá-lo tal como é.

    A revolução significa mudança do regime social. Ela transmite o poder das mão de uma classe, que se esgotou, as mão de outra classe em ascensão. A insurreição constitui o momento mais crítico e mais agudo na luta de duas classes pelo poder. A sublevação não pode conduzir a vitória real da revolução e a implantação de novo regime senão quando se apoia sobre uma classe progressista, capaz de agrupar em torno de si a imensa maioria do povo.  Diferentemente dos processos da natureza, a revolução realiza-se por intermédio dos homens. Mas, na revolução também os homens atuam sob a influência de condições sociais que eles próprios não elegem livremente, senão que herdam do passado e lhes assinala imperiosamente o caminho. Precisamente por tal motivo, e só por isto, a revolução tem as suas próprias leis. A consciência humana, contudo, não se limita  a refletir passivamente as condições objetivas. Sobre estas ela pode reagir ativamente. E, em certos momentos, a reação adquire um caráter de massa, tenso, apaixonado. Derrubam-se então barreiras do direito e do poder. A intervenção ativa das massas nos acontecimentos constitui o elemento indispensável da revolução. E, sem dúvida, a demonstração, de uma rebelião, sem elevar-se a altura de uma revolução. A sublevação das massas deve conduzir a derrubada do poder  de uma classe e ao estabelecimento da dominação de outra. Somente assim teremos uma revolução consumada. A sublevação das massas não é um empreendimento isolado que se pode provocar por capricho. Representa um elemento objetivamente condicionado ao desenvolvimento da revolução, que por sua vez é um processo condicionado ao desenvolvimento da sociedade. Isto não quer dizer, entretanto, que, uma vez existentes as condições objetivas da sublevação, se deva esperar passivamente, com boca aberta. Nos acontecimentos humanos também há como disse Shakespeare, fluxos e refluxos, que, tomados na crescente, conduzem ao êxito: “There is a tid in the affairs of men which taken at the flood, leads on to fortune”. Para varrer o regime que sobrevive, a classe avançada deve compreender que soou a hora e propor-se à tarefa da conquista do poder. Aqui se abre o campo da ação revolucionária consciente, onde a previsão e o cálculo se unem à vontade e à bravura. Dito de outra forma: aqui se abre o campo a ação do partido.

    O partido revolucionário condensa o mais seleto da classe avançada. Sem um partido capaz de orientar-se nas circunstâncias, de apreciar a marcha e o ritmo dos acontecimentos e de conquistar a tempo a  confiança das massas, a vitória da revolução proletária é impossível. Tal é a relação dos fatores objetivos e dos fatores subjetivos da revolução e da insurreição. Como bem sabeis, nas discussões, os adversários – em particular na teologia – têm o costume de desacreditar freqüentemente a verdade científica elevando-a ao absurdo. Isto se chama, ainda em lógica, reductio ad absurdum. Nós vamos tratar a seguir da via oposta, isto é, tomaremos como ponto de partida um absurdo a fim de nos aproximar-nos com maior segurança da verdade. Realmente não temos direito de lamentar-mos por falta de absurdos. Tomemos um dos mais recentes e mais grossos. O escritor italiano Malaparte, algo assim como um teórico fascista – também existe este produto – publicou há pouco tempo um livro sobre a técnica do golpe de estado. O autor consagra um número não desprezível de páginas de sua “investigação” à insurreição de outubro. Ao contrário da “estratégia” de Lênin, que permanece unida às relações sociais e políticas da Rússia de 1917, “a tática de Trotski não está – segundo os termos de Malaparte – ligada por nada às condições gerais do País”. Tal é a idéia principal da obra. Malaparte obriga a Lênin e a Trotski, nas páginas de seu livro, a entabular diálogos, nos quais os interlocutores dão prova de tão pouca profundidade de espírito como a natureza pôs à disposição de Malaparte. Às objeções de Lênin sobre as premissas sociais e políticas da insurreição, Malaparte atribui a Trotski, literalmente, a seguinte resposta: “Vossa estratégia exige demasiadas condições favoráveis e a insurreição não tem necessidade de nada. Basta-se por si mesma”. Basta-se por si  mesma”. Entendeis bem? “A insurreição não tem necessidade de nada”. Tal é, precisamente, queridos ouvintes o absurdo que deve servir para aproximar-nos da verdade. O autor repete com muita persistência que, em outubro, não foi a estratégia de Lênin e sim a tática de Trotski o que triunfou. Esta tática, conforme suas palavras, ameaça, ainda agora, a tranqüilidade dos Estados europeus. “A estratégia de Lênin – cito textualmente – não constitui nenhum perigo imediato para os governos da Europa. A tática de Trotski constitui um perigo atual e, portanto, permanente”. Mais concretamente: “Colocai Poincaré no lugar de Kerenski e o golpe de Estado Bolchevique, de 1917, triunfaria da mesma forma”. É difícil crer que semelhante livro seja traduzido a diversos idiomas e acolhido seriamente. Em vão tentaríamos saber porque a estratégia de Lênin, dependendo das condições históricas, é necessária, se a “tática de Trotski permite resolver o mesmo problema em todas as situações. E porque as revoluções são tão raras, se para seu sucesso basta um par de receitas técnicas?

    O diálogo entre Lênin e Trotski apresentado pelo escritor fascista é, no espirito como na forma, uma invenção inepta do princípio ao fim. Muitas invenções desse quilate circulam pelo mundo. Por exemplo, acaba de aparecer em Madrid, com meu nome, um livro: Vida de Lênin, pelo qual sou tão responsável como pelas receitas técnicas de Malaparte. O semanário Estampa publicou deste pretenso livro de Trotski sobre Lênin capítulos inteiros, que contêm ultrajes abomináveis à memória do homem que eu estimava e que estimo incomparavelmente mais que qualquer outro, entre os meus contemporâneos. Abandonemos, entretanto, os falsários à sua sorte. O velho Wilhelm Liebknecht, o pai do combatente e herói imortal, Karl Liebknecht, costumava dizer: “O revolucionário deve prevenir-se com uma pele grossa. O doutor Stockmann, mais expressivo ainda, recomendava a todos os que se dispõem a enfrentar a opinião pública a não vestir calças novas. Sigamos estes bons conselhos e passemos à ordem do dia.

    Quais as perguntas  que a Revolução de Outubro sugere a todo o homem? Primeira: por que obteve êxito esta revolução? Ou, mais concretamente, por que a revolução proletária triunfou num dos países mais atrasados da Europa? Segunda questão: que trouxe a Revolução de Outubro? E por último: concretizou-se o que dela se esperava?

    Pode-se responder à primeira pergunta – sobre as causas – de modo mais ou menos completo. Tentei faze-lo o mais explicitamente possível na minha História da Revolução Russa. Aqui, não posso fazer outra coisa senão formular as conclusões mais importantes. O fato de Ter o proletariado chegado ao poder, pela primeira vez, num país tão atrasado, como a Rússia, só à primeira vista pode parecer misterioso. Na realidade, resulta de uma lógica rigorosa. Podia-se prever. E previu-se. Mais ainda: diante dessa perspectiva, os revolucionários marxistas elaboraram a sua estratégia muito antes dos acontecimentos decisivos. A primeira explicação e a mais geral: a Rússia é um país atrasado. Mas, também, a Rússia não é mais que uma parte da economia mundial, um elemento do sistema capitalista mundial. E Lênin resolveu o enigma da revolução russa com a seguinte fórmula lapidar: a cadeia rompeu-se pelo elo mais fraco. Uma situação clara: a grande guerra, produto das contradições do imperialismo mundial, arrastou em seu torvelinho países que se achavam em diferentes etapas de desenvolvimento e impôs a todos as mesmas exigências.; Resulta, pois, que os encargos da guerra se tornariam mais insuportáveis, particularmente, para os países mais atrasados. A Rússia foi o primeiro que se viu obrigado a ceder terreno. Mas, para sair da guerra, o povo precisava abater as classes dominantes. Assim foi como a cadeia se quebrou. A guerra não é uma catástrofe, determinada por fatores alheios, como um terremoto. Para com o velho Clausevitz, é a continuação da política por outros meios. Durante a guerra, as tendências principais do sistema imperialista de tempos de “paz” apenas se exteriorizaram de modo mais agudo. Quanto mais elevadas sejam as forças gerais de produção; quanto mais tensa seja a concorrência mundial; quanto mais acirrem os antagonismos; quanto mais desenfreada seja a corrida armamentista, tanto mais penosa se torna a situação para os participantes mais fracos. Precisamente esta é a  causa pela qual os países mais atrasados ocupam o primeiro lugar na série dos desmoronamentos. A cadeia do capitalismo tende sempre a partir-se pelos elos mais fracos. Se por causa de certas circustâncias extraordinárias ou extraordinariamente desfavoráveis – por exemplo, uma intervenção militar vitoriosa do exterior, devido a falta irreparáveis do próprio governo soviético -, se restabelecesse o capitalismo sobre o imenso território soviético, sua insuficiência histórica aprontaria, rapidamente, sua nova queda, vítima das mesmas contradições que provocaram, em 1917, a explosão. Nenhuma receita tática poderia dar vida a Revolução de Outubro se a Rússia não a levasse nas suas próprias entranhas. O partido revolucionário não pode desempenhar outro papel senão o de parteiro que se vê obrigado a recorrer à operação cesariana. Poderiam objetar-me: suas considerações gerais podem explicar, suficientemente, por que razão a velha Rússia (este país onde o capitalismo atrasado, junto a uma classe camponesa miserável, estava coroado por uma nobreza parasitária e arrematando, por uma monarquia putrefata) teria que naufragar. Mas, na imagem da cadeia e do elo mais fraco falta ainda a chave do enigma: como, num país atrasado podia triunfar a revolução socialista? Porque a história conhece muitos exemplos de decadência de países e de culturas, que, após a derrocada simultânea das velhas classes, não puderam achar nenhuma forma progressista para ressurgir. A derrocada da velha Rússia deveria, ao que tudo indica, transformar o país numa colônia capitalista e não numa República socialista. Esta objeção é viciosa. Eu diria: desprovida de proporção interna. De um lado, decorre de uma concepção exagerada quanto ao atraso da Rússia. De outro, de uma falsa concepção teórica no que diz respeito ao fenômeno do atraso geral.

    Os seres vivos – naturalmente, entre eles, o homem – atravessam, com relação à idade, estágios de desenvolvimento semelhantes. Numa criança normal de cinco anos, encontra-se certa correspondência entre peso, o tamanho e os órgãos internos. Mas, isto não sucede com a consciência humana. Em oposição à anatomia e à fisiologia, a psicologia, tanto a do indivíduo como a da coletividade, distingue-se por uma extraordinária capacidade de assimilação, flexibilidade e elasticidade: nisto mesmo reside também a vantagem aristocrática do homem sobre seu parente zoológico mais próximo da espécie dos monos. A consciência, susceptível de assimilar, confere – como condição necessária ao progresso histórico – aos “organismos chamados sociais, ao contrário dos organismos reais, isto é, biológicos, uma extraordinária variabilidade de estrutura interna. No desenvolvimento das nações e dos Estados, dos capitalistas em particular, não existe nem similitude nem uniformidade. Diferentes graus de cultura, até os pólos opostos, aproximam-se e combinam-se, com muita freqüência, na vida de um país. Não esqueçamos, queridos ouvintes, que o atraso histórico é uma noção relativa. Se existem países atrasados e avançados, há também uma ação recíproca entre eles. Há a opressão dos países avançados sobre os retardatários, bem como a necessidade para os países atrasados de alcançar aqueles mais adiantados, adquirir-lhes a técnica, a ciência, etc. Assim surgiu um tipo combinado de desenvolvimento: os caracteres mais atrasados absorvem a última palavra da técnica e do pensamento mundiais. Enfim, os países historicamente atrasados são por vezes obrigados a ultrapassar os demais. A consciência coletiva vê a possibilidade de lograr, em certas condições, sobre a arena social, o resultado que, em psicologia individual, se chama “a compensação”. Pode-se afirmar, neste sentido, que a Revolução de Outubro foi para os povos da Rússia um meio heróico de superar sua própria inferioridade econômica e cultural.

    Passemos sobre estas generalizações histórico-políticas, que, talvez, sejam um tanto abstratas, para focalizar a mesma questão de modo concreto, isto é, através de fatos econômicos vivos. O atraso da Rússia do século XX expressa-se, mais claramente, da seguinte maneira: a indústria ocupa, num país, um lugar mínimo, em comparação com o campo. Isto significa, no conjunto, uma baixa produtividade do trabalho nacional. Basta dizer que, às vésperas da guerra, quando a Rússia tzarista alcançara o cume de sua prosperidade, a renda nacional era de oito a dez vezes inferior à dos Estados Unidos. Isto expressa, numericamente, a “amplitude” do atraso, se é que podemos servir-nos da palavra amplitude no que se refere a atraso. Ao mesmo tempo, a lei do desenvolvimento combinado manifesta-se a cada passo, no domínio econômico, tanto nos fenômenos simples como nos complexos. Quase sem rotas nacionais, a Rússia viu-se obrigada a construir vias férreas. Sem haver passado pelo artesanato e pela manufatura européias, a Rússia saltou diretamente para a produção mecanizada. Saltar as etapas intermediárias, tal é o caminho dos países atrasados. Enquanto a economia camponesa permanecia, freqüentemente, ao nível do século XVII, a indústria da Rússia, se não em capacidade, pelo menos no seu tipo, achava-se no mesmo nível dos países avançados e; por vezes, sobrepunha-o em muitos aspectos.

    Assinale-se que as empresas gigantes, com mais de mil operários, ocupavam, nos Estados Unidos, menos de 18% da totalidade dos operários industriais, enquanto na Rússia a proporção era de 41%. Este fato não confirma a concepção trivial do atraso econômico da Rússia. Mas, por outro lado também não nega o atraso geral. As duas concepções completam-se dialeticamente. A estrutura de classe do país também apresentava o esmo caráter contraditório. O capital financeiro da Europa industrializava a economia russa num ritmo acelerado. A burguesia industrial logo adquiria o caráter do grande capitalismo, inimigo do povo. Além do mais, os acionistas estrangeiros viviam fora do país, enquanto, por outro lado, os operários eram autenticamente russos. Uma burguesia russa numericamente débil, que não possuía nenhuma raiz nacional, defrontava-se desta forma com um proletariado relativamente forte e com rijas e profundas raízes no povo. Para o caráter revolucionário do proletariado contribuiu o fato de que a Rússia, precisamente como país atrasado e forçado a abrigar os adversários, não chegou a elaborar um conservadorismo social e político próprio. Como a nação mais conservadora da Europa e ainda do mundo inteiro, o mais velho país capitalista, a Inglaterra, dá-me razão. Poderia considerar-se a Rússia como um país desprovido de conservadorismo. O proletariado russo, jovem, resoluto, não constituía, contudo, mais que uma pequena minoria da nação. As reservas de sua potência revolucionária encontrava-se fora de seu próprio seio: no campesinato, que vivia numa semi-servidão, e nas nacionalidades oprimidas.

    A questão agrária formava a base da revolução. A antiga servidão, que mantinha a autocracia, resultava duplamente insuportável nas condições da nova exploração capitalista. A comunidade agrária compunha-se de 140 milhões de deciatinas. Para 30 mil grandes proprietários latifundiários, possuidores cada um de mais ou menos em média de 2.000 deciatinas, corresponderia um total de 70 milhões de deciatinas, isto é, cerca de 10 milhões de famílias camponesas, ou seja, 50 milhões de seres.  Esta estatística da terra constituía um programa acabado da insurreição camponesa. Um nobre, Borbokin, escrevia em 1917 a Rodzianko, Presidente da Última Duma do Estado: “Eu sou um proprietário, latifundiário e não me ocorre pensar nem por um momento que tenha de perder minha terra, muito menos para um fim inacreditável: para fazer uma experiência socialista”. Mas as revoluções sempre têm como objetivo a mesma tarefa: realizar o que não entra na cabeça das classes dominantes.

    No outono de 1917, quase todo o país era um vasto campo de levantes camponeses. De 621 distritos da velha Rússia, 482, isto é, 77% estavam conflagrados pelo movimento. A luz do incêndio iluminava a sublevação nas cidades. Porém – podereis objetar – a guerra camponesa contra os latifundiários é um dos elementos clássicos da revolução burguesa e não da revolução proletária. Eu respondo: completamente justo. Assim aconteceu no passado. Mas, agora, a impotência do capitalismo para viver num país atrasado revela-se no fato de que a sublevação camponesa não empurrou para a frente a burguesia, na Rússia, senão, pelo contrário, colocou-a no campo da reação. Ao Campesinato, para não fracassar, não lhe restava outro caminho senão a aliança com o proletariado industrial. Esta ligação revolucionária com as classes oprimidas Lênin previu, genialmente, e preparou, há muito tempo, Se a burguesia pudesse resolver, francamente, a questão agrária, com toda a segurança, o proletariado não poderia conquistar o poder em 1917. Chegando demasiadamente tarde, mergulhada precocemente na decrepitude, a burguesia russa, egoísta e covarde, não teve a ousadia de levantar a mão contra a propriedade feudal. E assim deixou o poder ao proletariado e, ao mesmo tempo, o direito de dispor da sorte da sociedade burguesa. Para que o  Estado Soviético fosse realidade, era sobretudo necessária a ação combinada destes fatores de natureza histórica distinta: a guerra camponesa, isto é, um movimento que é característico da aurora do movimento burguês, e a sublevação proletária, que anuncia o crepúsculo do capitalismo. Aí reside o caráter combinado da revolução russa. Bastava que o urso camponês se levantasse sobre as patas traseiras para mostrar o terrível de sua fúria. Mas urso camponês carecia de capacidade para dar à sua revolta uma expressão consciente: tem sempre a necessidade de um guia. Pela primeira vez na história do movimento social o campesinato sublevado encontrou um dirigente leal; o proletariado. Quatro milhões de operários da indústria e dos transportes lideraram cem milhões de camponeses. Tal foi a relação natural e inevitável entre o proletariado e a classe camponesa na revolução.

    A segunda reserva revolucionária do proletariado era constituída pelas nacionalidades oprimidas, integradas , ainda assim, por camponeses na sua maioria. O caráter extensivo do desenvolvimento do Estado que se esparramava do centro de Moscou até a periferia, vai intimamente lidado ao atraso histórico do país. Ao Leste, submetia as populações mais atrasadas ainda, para melhor afogar, com seu apoio, as nacionalidades mais desenvolvidas do Oeste. Aos setenta milhões de grão-russos, que formam a massa principal da população, somam-se, assim, noventa milhões de “alógenos”. Formou-se assim o Império, em cuja composição a nação dominante possuía cerca de 43% da população, integrando-se os restantes 57% de uma mescla de nacionalidade, de culturas e de regimes distintos. A opressão nacional era, na Rússia, incomparavelmente mais brutal que nos Estados vizinhos, sobrepujando, para dizer a verdade, não os que estavam do outro lado da fronteira ocidental, como, também, da oriental. Tal estado de coisas emprestava ao problema nacional enorme força explosiva. A burguesia liberal russa não queria, nem na questão nacional, nem na questão agrária, ir além de certas reformas para atenuar o regime de opressão e violência. Os governos “democratas” de Miliukov e Kerenski, que exprimiam os interesses da burguesia e da burocracia grã-russa, dedicaram-se, no curso dos oito meses de sua existência, a ensinar-lhes a seguinte lição: não obtereis o que procurais até que não o arranqueis pela força. Há muito tempo, Lênin já considerava a inevitabilidade do movimento nacional centrífugo. O Partido Bolchevique lutou, durante anos, pelo direito de autodeterminação das nacionalidades, isto é, pelo direito a completa separação estatal. Foi precisamente por causa desta exata posição na questão nacional que o proletariado russo pode ganhar, pouco a pouco, a confiança das populações oprimidas. O movimento de libertação nacional e o movimento camponês voltaram-se, forçosamente, contra a democracia oficial, fortaleceram o proletariado e lançaram-se na correnteza da insurreição de outubro.

    Levanta-se assim, gradativamente, o véu do inigma da insurreição proletária num país historicamente atrasado. Muito tempo antes dos acontecimentos, os revolucionários marxistas previram a marcha da revolução e a função histórica do jovem proletariado russo. Permitam-me aqui reproduzir um extrato de minha própria obra sobre a revolução de 1905:

    “Num país economicamente atrasado, o proletariado pode chegar ao poder antes que um país adiantado… A revolução russa cria (…) condições, mediante as quais o poder pode passar (com a vitória da revolução deve passar) ao proletariado antes que a política do liberalismo burguês tenha possibilidade de soltar seu gênio estadista… O destino dos interesses revolucionários mais elementares dos camponeses (…) está fortemente ligado ao destino de toda a revolução, ao destino do proletariado. Uma vez chegado ao poder, o proletariado aparecerá aos camponeses como libertador de sua classe. O proletariado entra no governo como representante revolucionário da nação, como condutor reconhecido do povo na luta contra o absolutismo e a barbárie da servidão… O regime proletário deverá desde o princípio pronunciar-se sobre a questão agrária, que está ligada `sorte do avanço popular da Rússia”.

    Deixai-me evocar esta citação como testemunha de que a teoria da Revolução de Outubro, apresentada hoje por mim, não é uma improvisação rápida, contraída a posteriori, sob a pressão dos acontecimento. Não. Pelo contrário. Foi formulada sob a forma de prognóstico político muito antes da Revolução de Outubro. Convireis que a teoria em geral não tem mais valor senão na medida em que ajuda a prever o curso do desenvolvimento e influencia os seus objetivos. Nisto mesmo consiste, falando em termos gerais, a importância inestimável do marxismo como arma de orientação social e histórica. Lamento que os estreitos limites desta exposição me impeçam de estender o texto citado de maneira mais ampla e, por isso, terei que me conformar com um curto resumo de tudo o que escrevi em 1905.

    Em relação com as suas tarefas imediatas, a revolução é uma revolução burguesa. Sem embargo, a burguesia russa é anti-revolucionária. Por conseguinte a vitoria da revolução só é possível como vitória do proletariado. O proletariado vitorioso não se deterá no programa da democracia burguesa e passará imediatamente ao programa do socialismo. A revolução russa será a primeira etapa da revolução socialista mundial.

    Tal era a teoria da revolução permanente,  elaborada por mim em 1905 e, mais tarde, exposta a crítica mais acerba sob o apelido de “trotkismo”. Isto não é mais que uma parte desta teoria. A outra parte, agora particularmente atual, expressa:

    As atuais forças de produção há muito extravasaram as barreiras nacionais. A sociedade socialista é irrealizável nos limites nacionais. Por mais importantes que sejam os êxitos econômicos de um Estado operário isolado, o programa do “socialismo num só país”, é um utopia pequena-burguesa. Só uma federação européia e, e depois, mundial de republicas socialistas pode abrir o caminho a uma sociedade socialista harmônica.

    Hoje, depois da prova dos acontecimentos, tenho menos razão do que nunca para ratificar esta teoria.

    Depois de tudo que disse, merece que se leve em conta os escritor fascista Malaparte? Este que me atribui uma tática independente da estratégia e resultante de certas técnicas, aplicáveis em todo momento? Tais receitas fornecidas pelo infeliz teórico do golpe de Estado permite distingui-lo facilmente do prático vitorioso do golpe de Estado. E ninguém correrá o risco de confundir Malaparte com Bonaparte.

    Sem a insurreição armada de 25 de outubro de 1917 (7 de novembro, segundo o calendário atual), o Estado Soviético não existiria. Mas a insurreição não nasceu do céu. Para triunfo da revolução de outubro era necessária uma série de premissas históricas:

    1. A podridão das velhas classes dominantes, da nobreza, da monarquia, da burocracia.

    2. A debilidade política da burguesia, que não tinha nenhuma raiz nas massas populares.

    3. O caráter revolucionário da questão agrária.

    4. O caráter revolucionário do problema das nacionalidades oprimidas.

    5. O peso social do proletariado.

    A estas premissas orgânicas é preciso juntar condições de conjunturas de excepcional importância:

    6. A revolução de 1905 foi uma grande lição ou, segundo Lênin, “um ensaio geral” da revolução de 1917. Os sovietes, como forma de organização insubstituível de frente única proletária, na revolução, apareceram pela primeira vez, 1905.

    7. A guerra imperialista aguçou todas as contradições, arrancou as massas atrasadas do seu estado de imobilidade, preparando-as para o caráter grandioso da catástrofe.

    Mas todas estas condições, suficientes para irrompesse a revolução eram, porém, insuficientes para assegurar vitória do proletariado.

    Faltava uma oitava condição: o Partido Bolchevique.

    Se enumero esta condição em último lugar da série é só porque assim corresponde à seqüência lógica e não porque atribua ao partido o lugar de menor importância. Não. Muito longe tal pensamento. A burguesia liberal pode tomar o poder, e fê-lo muitas vezes, como resultado de lutas nas quais não havia participado: para isto possui instrumentos magnificamente desenvolvidos. As massas trabalhadoras encontram-se numa outra situação. Acostumaram-se a dar e não tomar. Trabalham pacientemente, esperam, perdem a paciência, sublevam-se, combatem, morrem, dão a vitória a outros, são traídas, caem no desalento, submetem-se, voltam a trabalhar. Assim é a história das massas populares sob todos os regimes. Para tomar com segurança e firmeza o poder o proletariado tem necessidade de um partido superior a todos os demais na clareza do pensamento e na decisão revolucionária. O partido dos bolcheviques assim designado com freqüência, e com razão, como partido mais revolucionário da história da humanidade, era condensação viva da nova história da Rússia, de tudo o que nela havia de dinâmico. Havia muito tempo que se considerava o desaparecimento da monarquia como a condição indispensável para o desenvolvimento da economia e da cultura. Faltavam as forças para levar adiante esta tarefa. À burguesia horrorizava a idéia da revolução. Os intelectuais tentaram conduzir o campesinato sobre os ombros. Incapaz de generalizar suas próprias penas e objetivos, o mujik não deu uma resposta ao apelo dos intelectuais. A intelligentsia  armou-se de dinamite. Toda uma geração se consumiu nesta luta. A 1º de março de 1887, Alexandre Ulianov levou a cabo o último dos grandes atentados terroristas. A tentativa contra Alexandre III fracassou. Ulianov e os demais participantes foram enforcados. O intento de substituir a classe revolucionária por uma preparação química naufragou. A inteligência mais heróica não é nada sem as massas. Sob a impressão imediata destes fatos e de suas conclusões, cresceu e formou-se o mais jovem dos irmão Ulianov, Vladimir, o futuro Lênin. A figura mais grandiosa da história russa. Desde o princípio, em sua juventude, colocou-se sob o terreno do marxismo e voltou seu olhar para o proletariado. Sem perder um instante de vista a aldeia, orientou-se para o campesinato, através dos operários. Herdando de seus precursores revolucionários a resolução, a capacidade de sacrifício, a disposição de chegar até o fim, Lênin converteu-se, nos anos da juventude, no educador da nova geração dos intelectuais e dos operários avançados. Nas greves e nas lutas de rua, nas prisões e no exílio, os operários adquiririam a tempera necessária. A lanterna do marxismo ser-lhe-á necessária para iluminar na escuridão da autocracia seu caminho histórico.

    II

    Em 1883, nasceu na emigração o primeiro grupo marxista. Em 1898, numa Assembléia clandestina, proclamou-se  a criação do Partido Operário Social-Democrata Russo. Naquela época, todos nos chamávamos social-democratas. Em 1903, teve lugar a cisão entre bolcheviques mencheviques. Em 1912, a fração bolchevique transformou-se, definitivamente em partido autônomo. Este partido ensinou a reconhecer a mecânica das classes sociais nas lutas, nos acontecimentos, grandiosos, durante 12 anos ( de 1905 a 1917 ). Educou quadros, militantes aptos, tanto para a iniciativa como para a obediência. A disciplina da ação revolucionaria  apoiava-se sobre a unidade da doutrina, as tradições de lutas comuns e a confiança numa direção provada. Tal era o partido em 1917. Enquanto que “a opinião publica” oficial e as toneladas de papel de imprensa não lhe concediam importância, o partido bolchevique orientava-se segundo o curso do movimento de massas. A formidável alavanca, que esse partido manejava, firmemente, introduzia-se  nas fábricas e nos regimentos e as massas camponesas dirigiam cada vez mais e com mais insistência suas atenções para ele. Se  entende por nação  não as camadas privilegiadas e sim a maioria do povo, isto é, os operarias e os camponeses, há de se reconhecer que  o bolchevismo se transformou, no decorrer de 19l7, no único partido verdadeiramente nacional.]

    Em setembro de 1917, Lenin obrigado a viver na clandestinidade deu o sinal: “A crise esta madura, aproxima-se a hora da insurreição”. Estava certo. As classes dominantes caíram impotentes diante dos problemas da guerra, do campo e da libertação nacional. A burguesia perdeu definitivamente a cabeça. Os partidos democratas, os mencheviques e os socialistas-revolucionários dissiparam o ultimo resto da confiança das massas, sustentando a guerra imperialista por sua política de compromissos e de concessões aos proprietários burgueses e feudais. O exército, abalado na sua consciência, negava-se a lutar pelos objetivos do imperialismo, que lhe eram estranhos. Sem atender as exortações “democráticas”, os camponeses expulsaram os latifundiários de seus Domínios. A periferia nacional do império, oprimida, lançou-se contra a burocracia de Petrogrado. Nos  mais importantes  conselhos de operários e soldados os bolcheviques dominavam. Operários e soldados exigiam fatos. O abscesso estava madura. Só faltava um corte de bisturi.

    A insurreição só se tornou possível nessas  condições sociais e políticas. E assim aconteceu inelutavelmente. Não se pode brincar com a insurreição. Desgraçado do cirurgião que utiliza o bisturi com negligência. A insurreição é uma arte: tem as suas leis e as suas próprias regras.

    O partido realizou a insurreição de outubro com um cálculo frio  e uma resolução ardente. Graças a isto pode triunfar quase sem vítimas. Por meio dos sovietes vitoriosos, os  bolcheviques puseram-se “a testa do pais, que abarca uma Sexta parte da superfície da terra. Suponho que a maioria dos meus ouvintes de hoje ainda não se ocupavam com a política em 1917. Tanto melhor. A jovem geração tem diante de si muitas coisas interessantes, mas não fáceis. Por outro lado, os representantes da velha geração, nesta sala, recordarão muito bem como se recebeu a tomada do poder pelos bolcheviques: como um equívoco, uma curiosidade, um escândalo, ou mais, uma pesadelo, que se desvaneceria “a primeira claridade da alvorada. Os  bolcheviques mantiveram-se vinte e quatro horas, uma semana, um mês, um ano. Era preciso ampliar cada vez mais o prazo. Os amos do mundo armavam-se contra o primeiro Estado proletário: desencadeamento da guerra civil, novas e novas intervenções, bloqueio. Assim passou um ano. Passou outro. E a história já tem que contar quinze anos de existência do poder soviético. Sim, diria algum adversário: a aventura de outubro mostrou-se muito mais sólido do que nos pensávamos. Quiça não fosse de todo uma “aventura”. E, não obstante, a questão conserva toda a sua força: que se ganhou a este preço tão elevado? Pode-se dizer que se realizaram as belezas anunciadas pelos bolcheviques antes da insurreição? Antes de responder ao suposto adversário, observemos que esta pergunta não é nova. Ao contrário, remonta aos primeiros passos da Revolução de Outubro, depois do nascimento da Republica dos Sovietes.

    O jornalista francês Claude Anet, que estava em Petrogrado, durante a revolução, escrevia, a 27 de outubro de 1917: “Os maximalistas – assim então os franceses chamavam os bolcheviques – tomaram o poder e amanheceu o grande dia. Enfim, digo-me, vou ver como se realiza o “Éden Socialista, que nos prometem há tantos anos… Admirável aventura! Posição privilegiada!” etc. Que autêntico ódio se ocultava por traz dessas saudações irônicas! No dia seguinte a ocupação do Palácio do Inverno, o jornalista francês julgava-se com  o direito de exigir um cartão de entrada no Paraíso. Quinze anos transcorreram desde a insurreição. Com uma falta de cerimônia ainda maior, os adversários manifestavam sua alegria maligna ao comprovar que, ainda hoje, o pais dos sovietes, se assemelha muito pouco ao reino do bem-estar geral. Por que, pois, a revolução? Por que as vítimas?

    Queridos ouvintes: creio que conheço tanto as contradições, as dificuldade, as faltas e as insuficiências do regime soviético, como o que melhor as conhece. Pessoalmente, jamais tratei de dissimulá-las, nem por palavras nem por escrito. Sempre acreditei – e sigo acreditando –  que a política revolucionária – ao contrário da política conservador – não pode basear-se no engodo. “Exprimir o que é  – tal  deve ser o princípio essencial do Estado operário. Não obstante, é necessário Ter perspectiva, tanto na crítica como  na atividade criadora. O subjetivismo é um péssimo conselheiro, sobretudo quando se trata de grandes questões. Os prazos devem estar em consonância com a magnanimidade das tarefas e não com os caprichos individuais. Quinze anos! Que significam para uma vida? Durante esses tempo, morreram muitos e de nossa geração e outros viram encanear seus cabelos, e os mesmos quinze anos não representam mais que um período insignificante na vida de um povo. Um segundo no relógio da História!

    O capitalismo precisou de séculos para afirmar-se na luta contra a Idade Media, para elevar a ciência e a técnica, para construir vias férreas, para estender fios elétricos. E depois? Depois lançou a humanidade no inferno das guerras e das crises. E ao socialismo, seus adversários, isto é, os partidários do capitalismo, não lhe concedem mais que quinze anos para instaurar sobre a terra  o paraíso com todo o conforto moderno. Não. Nós não assumimos tal obrigação. Não estabelecemos tais prazos. Deve-se medir os processos das grandes transformações com uma escala adequada. E não sei se a sociedade  socialista se assemelharia ao paraíso bíblico. Duvido muito. Mas, na União Soviética, ainda não existe o socialismo. Um estado de transição, coalhado de contradições, carregando pesada herança do passado, sofrendo a pressão inimiga dos Estados capitalistas – isto é o que ali predomina. A Revolução de Outubro proclamou o princípio da nova sociedade. A República dos Sovietes apenas mostrou a primeira etapa de sua realização. A primeira lâmpada de Edson foi muito imperfeita. Por traz das faltas e dos erros da primeira edificação socialista que se deve vislumbrar o futuro.

    E as calamidades que se abatem sobre os seres vivos? Os resultados da revolução justificam as vítimas que ela causou? Pergunta estéril e profundamente retórica! Como se o processo da história resultasse de um balanço contábil. Com tanto mais razão, ante as dificuldades e as penas da existência humana, poder-se-ia perguntar: para isto é que vale a pena viver? Heine escreveu a este propósito? “e o tonto espera contestação…” As meditações melancólicas não impediram  o homem de fecundar e nascer. Ainda nesta época, de um crise mundial sem precedentes, os suicídios constituem, felizmente, uma porcentagem muito baixa. Pois, os povos não tem o costume de buscar no suicídio um refúgio. Aliviam-se das cargas insuportáveis pela revolução. Por outro lado quem se indigna por causa das vitimas da revolução socialista? Quase sempre serão os mesmos que prepararam e glorificam as vítimas da guerra imperialista ou, pelo menos, os que se acomodaram facilmente ao conflito. Também nos poderíamos perguntar: Justifica-se a guerra? Que nos deu? Que nos ensinou?

    Em seus onze volumes de difamação contra a grande revolução francesa, o historiador Hipolito Taine descreve, não sem sórdida alegria, os sofrimentos do povo francês, nos anos da ditadura jacobina e nos que a ela  se seguiram. Foram, sobretudo, penosos para as camada inferiores das cidades, os plebeus que, como sans-culottes deram a revolução o melhor de sua alma. Eles ou suas mulheres passavam noites frias nas filas para voltar no dia seguinte com as mãos vazias ao lar gelado. No décimo ano da revolução Paris era mais pobre que antes da insurreição. Dados cuidadosamente escolhidos e artificiosamente completados e servem a Taine para fundamentar seu veredictum destruidor contra revolução. “Olhai os plebeus, Queriam ser ditadores e caíram na miséria!” É difícil imaginar a um moralista mais hipócrita. Em primeiro lugar, se a revolução  lançou o pais na miséria, a culpa recairia antes de tudo sobre as classes dirigentes, que empurravam o povo a revolução. Em segundo lugar, a grande revolução francesa não se esgotou nas filas da fome, diante das padarias. Toda a França moderna e, sob certo aspectos, toda a civilização moderna emergiram do banho da revolução francesa.

    No curso da guerra civil dos Estados Unidos, morreram 500 mil homens. Justificaram-se essas vitimas? Do ponto de vista do dono de escravos americano e das classes dominantes da Gra-Bretanha, não. Do ponto de vista do negro e do operário  britânico, completamente. E do ponto de vista do desenvolvimento da humanidade, no seu conjunto, não nos oferece a menor dúvida. Da guerra civil do ano 60 saíram os Estados Unidos atuais, com a sua iniciativa pratica e veloz a técnica racionalizada, o auge econômico. Sobre esses conquistas do americanismo, a humanidade edificara a nova sociedade.

    A revolução de Outubro penetrou mais profundamente que todas as precedentes no âmago da sociedade, nas relações de propriedade. Assim é que precisara prazos tanto mais amplos para que se manifestem as forças criadoras em todos os domínios da vida. Mas, a orientação geral é clara desde já: a República do Sovietes não tem por que abaixar a cabeça nem empregar a linguagem da desculpa diante dos seus acusadores capitalistas. Para apreciar o novo regime do ponto de vista do desenvolvimento humano, há que se focalizar, acima de tudo, esta questão: de que maneira se exterioriza o progresso social e como se pode medi-lo? O critério mais objetivo, mais profundo e mais indiscutível é: o progresso pode medir-se pelo crescimento da produtividade do trabalho social. A estimativa da Revolução de Outubro, sob este ângulo, experiência já deu. Pela primeira vez na história o princípio de organização socialista demonstrou sua capacidade, fornecendo resultados de produção jamais obtidos num curto período. Em cifras globais, a curva do desenvolvimento industrial da Rússia expressa-se desta forma: ponhamos para o ano de 1913, o último ano da anteguerra, o número 100. O ano 1920, fim da guerra civil, é o ponto mais baixo da indústria: 25 somente, isto é, um quarto da produção de antes da guerra. 1929, aproximadamente 200. 1932, 300, ou seja o triplo do que havia nas vésperas da guerra. O quadro aparecerá ainda mais claro à luz do índices internacionais. De 1925 a 1932, a produção industrial da Alemanha diminuiu aproximadamente vez e meia. Na América, aproximadamente, alcançou o dobro. Na União Soviética, subiu a mais do quádruplo. As cifras não podem ser mais eloqüentes.

    De maneira nenhuma penso negar ou dissimular os dados sombrios da economia soviética. Os resultados dos índices industriais estão extraordinariamente influenciados pelo desenvolvimento desfavorável da economia agrária, quer dizer, do domínio onde ainda não entraram os métodos socialistas, mas foi arrastado ao mesmo tempo a via da coletivização, sem preparação suficiente, mais burocrática do que técnica e econômica. Esta é uma grande questão que não obstante, ultrapassa os limites da minha conferência.

    As cifras apresentadas requerem ainda uma reserva essencial: os êxitos indiscutíveis e brilhantes da industrialização soviética exigem uma verificação econômica ulterior do ponto de vista da harmonia recíproca dos diferentes elementos da economia, de seu equilíbrio dinâmico e, por conseguinte, de sua capacidade de rendimento. Aqui são inevitáveis grandes dificuldades e também retrocessos. O socialismo não surge em sua forma acabada do Plano Qüinqüenal como Minerva da cabeça de Júpiter ou Vênus da espuma do mar. Estamos diante de décadas de trabalho obstinado, de faltas, de correções e de reconstrução. Por outro lado não esqueçamos que a edificação socialista não pode alcançar o seu coroamento senão sobre o plano internacional. O balanço econômico mais desfavorável dos resultados obtidos até o presente não poderia revelar outra coisa que a inexatidão dos cálculos preliminares, as faltas do plano e os erros da direção. Mas, em nenhum caso, contradizer o fato estabelecido empiricamente, a possibilidade de elevar o trabalho coletivo a uma altura jamais conhecida, com a ajuda dos métodos socialistas. Esta conquista de uma importância histórica mundial ninguém nos poderá arrebatar.

    Depois do que disse, quase não vale a pena perder tempo para contestar as lamentações, segundo as quais a Revolução de Outubro conduziu a Rússia ao ocaso da cultura. Tal é a voz das classes dominantes e dos salões inquietos. A “Cultura” aristocrático-burguesa, derrubada pela revolução proletária, não era mais que um complemento da barbárie. Tanto que foi inacessível ao povo russo que pouco aportou ao tesouro da humanidade. Mas, também, no que concerne a esta cultura tão chorada pela emigração branca, é precisar a questão: em que sentido foi destruída? Num só sentido: o monopólio de uma pequena minoria sobre os bens da cultura desapareceu. No que era realmente cultural permanece intacto. Os “hunos” bolcheviques não pisotearam nem as conquistas do pensamento nem as obras de arte. Pelo contrário, restauraram, cuidadosamente, os monumentos da criação humana e deram-lhes ordem exemplar. A cultura da monarquia,  da nobreza e da burguesia, converteu-se presentemente, na cultura dos museus históricos. O povo visita com fervor esses museus, mas neles não vive. Aprende, constrói. O fato de que a Revolução de Outubro ensinou ao povo russo, aos numerosos povos da Rússia tzarista, a ler e a escrever tem incomparavelmente mais importância do que toda a cultura em conserva da Rússia de outrora. A revolução russa criou a base de uma nova cultura, destinada não aos eleitos mas a todos. As massas do mundo inteiro sentem-no: daí a sua simpatia pela União Soviética tão ardente como era antes o seu ódio contra a Rússia tzarista.

    Queridos ouvintes: vós sabeis que a linguagem humana representa um instrumento insubstituível, não somente porque designa as coisas e os fatos mas também porque os estima. Descartando o acidental, o episódico, o artificial, absorve o real, o característico, Notai com que sensibilidade as línguas das nações civilizadas distinguiram duas épocas no desenvolvimento da Rússia. A cultura aristocrática trouxe ao mundo barbarismos tais como tzar, cossaco, progrom, nagaia. Conheceis estas palavras e sabeis seu significado. Outubro aportou a todas as línguas do mundo palavras tais como bolchevique, sovietes, colcós, gosplan, piatlitka. Aqui a lingüística prática emite seu julgamento histórico.

    A sua significação mais profunda – e que mais dificilmente se submeteu a uma nova prova imediata – revolução consiste em que toda revolução forma a têmpera o caráter do povo. A imagem do povo russo como um povo lento, passivo, melancólico, místico, está há muito difundida, e isto não se deve a casualidade. Tem suas raízes no passado. Mas ainda não se levaram suficientemente, em consideração, no Ocidente, as modificações profundas que a Revolução de Outubro introduziu no caráter do povo russo. E podia esperar-se outra coisa? Todo homem que tem uma experiência da vida pode despertar em sua memória a imagem de um adolescente qualquer, dele conhecido, que – impressionável, lírico, sentimental, enfim – se transforma, mais tarde, de um só golpe, sob a ação de forte choque moral, num homem forte, bem temperado até o ponto de ficar completamente desconhecido. No desenvolvimento de toda uma nação, a revolução realiza transformações análogas. A insurreição de fevereiro contra a autocracia, a luta contra a nobreza, contra a guerra imperialista pela paz, pela terra, pela igualdade nacional, a insurreição de outubro, a derrubada da burguesia e dos partidos com tendências a sustentá-la, três anos de guerra civil sobre uma frente de 8.000 quilômetros, os anos de bloqueio, de miséria, de fome, de epidemias, os anos de tensa edificação econômica, as novas dificuldades e privações, tudo isto integra uma rude escola, porém boa. Um pesado martelo fará do vidro pó. Mas, em troca forja o aço. O martelo da revolução forja o aço do caráter do povo.

    “Quem haveria de crer?” Já se devia crer. Pouco depois da insurreição, um dos generais tzaristas, Zaleski, se escandaliza de que “um porteiro ou um guarda se convertesse de pronto num presidente de tribunal; um enfermeiro, em diretor de hospital; um barbeiro, em personalidade importante; um sargento, em comandante supremo; um diarista em prefeito; um carpinteiro, em diretor de empresa”.

    “Quem haveria de crer?” Já se devia crer. Embora não se acreditasse, os sargentos já derrotavam os generais; o prefeito, antes diarista, rompia a resistência da velha burocracia; o carpinteiro, agora diretor, reconstruía a indústria. “Quem haveria de crer?” Que tratem agora de crer…

    Para explicar a paciência que as massas populares da União Soviética demonstraram nos anos da revolução muitos observadores estrangeiros recorrem, já por hábito, a passividade do caráter russo. Grosseiro anacronismo! As massas revolucionárias suportam as privações pacientemente mas não passivamente. Elas constróem com suas próprias mãos um futuro melhor. E querem criá-lo a qualquer preço. Que o inimigo de classe trate somente de impor a essas massas pacientes sua vontade, de fora. Não, mas vale que não tente!

    Para terminar, tratemos de fixar o lugar da Revolução de Outubro não somente na história da Rússia como também na história do mundo. Durante o ano de 1917, no intervalo de oito meses, duas curvas históricas convergem. A revolução de fevereiro –  este eco tardio das grandes lutas que se travaram nos séculos passados sobre o território dos Países Baixos, Inglaterra, França, quase toda a Europa continental – une-se a série de revoluções burguesas. A Revolução de Outubro proclama e abre a era da dominação do proletariado. É o capitalismo mundial que sofre sobre o território da Rússia a primeira grande derrota. A cadeia partiu-se pelo elo mais fraco. Mas foi a cadeia e não somente o elo que se quebrou.

    O capitalismo como sistema mundial apenas sobrevive, historicamente, Terminou de cumprir sua missão: a elevação do nível de poder e da riqueza humana. A humanidade não pode estancar no degrau alcançado. Só um poderoso impulso das forças de produção e uma organização justa, planificada, em outras palavras, socialista de produção e de distribuição, pode assegurar aos homens – a todos os homens – o nível de vida digno de conferir-lhes, ao mesmo tempo, o sentimento inefável de liberdade em frente da sua própria economia. De liberdade em duas ordens de relações: primeiramente o homem não se verá obrigado a consagrar sua vida inteira ao trabalho físico; em segundo lugar, já não dependerá das leis do mercado, isto é, da forças cegas e obscuras que operam fora de sua vontade. O homem edificará, livremente, sua economia, quer dizer, ajustada a um plano, o compasso na mão. Trata-se agora de radiografar a anatomia da sociedade, de descobrir todos os seus segredos e submeter todas as suas funções a razão e a vontade do homem coletivo. Neste sentido, o socialismo gera uma nova etapa no crescimento histórico da humanidade. A nosso antepassado, armado pela primeira vez com um machado de pedra, toda a natureza se lhe apresenta como a conjuração de um poder misterioso e hostil. Mais tarde, as ciências naturais, em estreita colaboração com a tecnologia prática, iluminaram a natureza, até suas mais profundas entranhas. Por meio da energia elétrica, o físico elabora seu juízo sobre núcleo atômico. Não está longe a hora em que – como no jogo – a ciência resolverá a quimera da alquimia, transformando o esterco em ouro e o ouro em esterco. Lá, onde os demônios e as fúrias da natureza se desatavam, reina agora cada vez com mais a energia e a vontade do homem.

    Mas, enquanto lutava furiosamente com a natureza, o homem criou as cegas relações com os demais, assim como as abelhas e as formigas. Com atraso e por demais indeciso, deparou com os problemas da sociedade humana. Começou pela religião para depois passar a política. A Reforma trouxe o primeiro êxito do individualismo e do nacionalismo burguês, no domínio onde imperava uma tradição morta. O pensamento crítico passou da igreja ao Estado. Nascida na luta contra o absolutismo e as condições medievais, a doutrina da soberania popular e dos direitos do homem e do cidadão ampliou-se e fortaleceu-se. Assim se formou o sistema do parlamentarismo. O pensamento crítico penetrou no domínio da administração do Estado. O racionalismo político da democracia significou a mais alta conquista da burguesia revolucionária.

    Entre a natureza e Estado interpôs-se a economia. A técnica libertou o homem da tirania dos velhos elementos: a terra, a água, o fogo, o ar, para submetê-los em seguida a sua própria tirania. A atual crise mundial comprova de maneira particularmente trágica como este dominador altivo e audaz da natureza permanece escravo dos poderes cegos de sua própria economia. A tarefa histórica de nossa época consiste em substituir  o jogo anárquico do mercado por um plano nacional, e disciplinar as forças de produção, em obrigá-las a operar em harmonia, servindo docilmente as necessidades do homem. Somente sobre esta base social, o homem poderá repousar suas costas fatigadas. Não os eleitos, mas todos e todas, tornando-se cidadãos com plenos poderes do domínio do pensamento. Sem embargo, ainda não é esta a meta do caminho. Não. Isto não é mais que o princípio. O homem considera-se o coroamento da criação. Tem para isto, sim, certos direitos. Mas quem se atreve a afirmar que o homem atual seja o último representante, mais elevado da espécie homo sapiens ? Ninguém. Fisicamente como espiritualmente, está muito longe da perfeição este aborto biológico, do pensamento enfermo e que não criou nenhum novo equilíbrio orgânico.

    A verdade é que a humanidade produziu mais uma vez gigantes do pensamento e da ação que superam os seus contemporâneos como picos numa cadeia de montanhas. O gênero humano tem perfeito direito de orgulhar-se dos seus AristótelesShakespeareDarwin, Beethoven, GoetheMarx, Edison, Lênin. Mas estes homens são tão raros? Antes de tudo porque saíram, quase sem exceção, das classes médias e elevadas. Salvo raras exceções, os gênios perdem-se afogados nas entranhas oprimidas do povo, antes de Ter possibilidade de brotar. Mas, também, porque o processo de geração de desenvolvimento e de educação do homem permanece, em sua essência, como obra da sorte, não elaborado pela teoria, nem pela prática, não submetido a consciência e a vontade.

    A antropologia, a biologia, a fisiologia, a psicologia reuniram verdadeiras montanhas de materiais para erigir ante o homem, em toda sua amplitude, as tarefas de seu próprio aperfeiçoamento corporal e espiritual e de seu desenvolvimento ulterior. Pela mão genial de Sigmund Freud, a psicanálise levantou a tampa do poço que, poeticamente, se chama a “alma” do homem. E que revelou? Nosso pensamento consciente não constitui mais que uma pequena parte do trabalho das obscuras forças psíquicas. Sábios descem aos fundos dos oceanos e fotografam a fauna misteriosa das águas. Para que o pensamento humano desça as profundezas de seu próprio oceano psíquico, deve iluminar as forças motrizes, misteriosas, da alma e submetê-las a razão e a vontade. Quando acabar as forças anárquicas de sua própria sociedade, o homem integrar-se-á nos laboratórios, nas retortas do químico. Pela primeira vez, a humanidade considerar-se-á a si mesma como matéria-prima e, no melhor dos caso, como semi-fabricação física e psíquica. O socialismo significará um salto do reino da necessidade ao reino da liberdade, no sentido de que o  homem de hoje, esmagado sob o peso de contradições e sem harmonia, abrirá o caminho a uma nova espécie mais feliz.

  • Em defesa da história

    Por: Gabriel Santos, de Maceió, AL

    Estamos a comemorar aqueles dez dias que abalaram um século inteiro. Lá se foram 100 anos. No mundo todo, se comemora o centenário da Revolução Russa, os bolcheviques se atreveram. O povo pobre, trabalhador e camponês da atrasada Rússia tomava o poder. Eventos, palestras, seminários, exibições de filmes, novos livros e artigos, tudo para recordar Outubro de 1917.

    Foi na terra dos czares, um país agrícola, com maioria camponesa e analfabeta, mas ao mesmo tempo com uma das maiores concentrações industriais do mundo, que em baixo de finas camadas de neve que cobriam as ruas da antiga Petrogrado, mulheres e homens que não tinham nada a perder fizeram uma revolução contra o capital.

    Aqueles que reivindicam a tradição e o legado político-teórico daqueles homens que, liderados por Lênin e Trotsky, tomaram o Palácio de Inverno e derrubaram o Governo Provisório, hoje festejam. Festejam porque, ao longo da história, nossa classe está mais acostumada ao revés, às derrotas. Quando vencemos é algo magnífico. Por isso, nossos adversários querem apagar nossa história, modificá-la, reduzí-la, fazer com que a esqueçamos.

    No geral, as praças, as avenidas, ruas, e um longo etc, têm os nomes dos nossos algozes. Dos bandeirantes, donos de escravos, antigos barões, generais do exército, e por aí vai. Marx apontou que a ideologia de uma época é a ideologia da classe dominante. A história oficial de uma época será contada assim pela classe dominante, fazendo de tudo para modificar os fatos históricos, para apagar a verdade. Assim o fazem com a Revolução Russa. Só vermos a reportagem do Fantástico e outros jornais da grande burguesia. Assim como basta dá uma olhada nos especiais da Folha de São Paulo e Estadão. Transformam uma Revolução Popular em um golpe de estado feito por um partido que buscava apenas o poder. Transformam a liderança de Lênin numa ditadura como a dos czares, e fazem de Stalin uma continuidade de Lênin. Retiram as massas de operários e de camponeses do processo revolucionário, os transformam em meros espectadores que são manobrados por líderes bolcheviques.

    No momento em que novos estudiosos liberais, ou a mídia utilizam termos como “os bolcheviques deram um golpe de Estado”, é no sentido de depreciar o que foi a Revolução. Afinal, o conceito de Golpe de Estado é um conceito negativo, antidemocrático, que normalmente não sentimos admiração. A burguesia está fazendo uma disputa das narrativas dos fatos e do próprio fato, uma disputa de linguagem dos termos, e uma disputa histórica.

    Querem modificar a história, falsificá-la e apagá-la porque os ricos e poderosos temem que o povo pobre e trabalhador conheçam que é possível sim se organizar e construir um mundo novo. Os barulhos dos canhões do cruzador Aurora, dos membros do comitê militar revolucionário correndo pelos corredores do palácio de inverno, tudo isso assombra os sonhos da burguesia mundial.

    Nos dias atuais, os ricos e poderosos continuam a tentar falsificar as lutas da classe trabalhadora. Exemplos atuais são muitos. Nos Estados Unidos, o governo Trump, a grande mídia e diversos intelectuais liberais igualam os atos de neonazistas aos de movimentos mais radicais, como o Vidas Negras Importam, com os dizeres de que existem extremismo de ambas as partes e nenhum deles é bom. Na Alemanha, após as manifestações gigantescas contra o G20 em Hamburgo, o governo tenta censurar os grupos de esquerda mais radicais, dizendo que são antidemocráticos e que pregam o ódio. No Brasil a cruzada da vez é contra a Federação Anarquista Gaúcha. A organização vem sendo criminalizada e acusada de ações terroristas pela Polícia Civil.

    Com a crise econômica e política se aprofundando, a burguesia teme a possibilidade das ideias se radicalizarem, teme a possibilidade dela começar a ser questionada e confrontada diretamente, teme a possibilidade das massas perderem o medo.

    Por fim, defender a Revolução Russa não é só defender o legado teórico-político dos bolcheviques, é preciso defender também o que foi Outubro, quem foram os bolcheviques e os fatos históricos daquele processo. Defender a história é manter vivo o nosso legado enquanto seres universais e buscar aprender os erros e acertos dos nos que antecederam.

    Nós não começamos a partir do zero. Os trabalhadores aprendem com os processos de luta que passam, com os processos que herdam da história da luta de classes. Assim, aprendemos com os erros dos bolcheviques, aprendemos as particularidades e universalidade de Outubro, para assim construímos hoje no nosso país o caminho para uma nova revolução.

  • Por que recordamos 1917?

    Editorial de 7 de Fevereiro do Socialist Worker. Imprensa da Internacional Socialist Organization(ISO)

    Tradução: Caio Dias Garrido

    A promessa da Revolução Russa – o exemplo de uma democracia de massas em funcionamento, alcançando cada canto da sociedade – mostra, 100 anos depois, a sua relevância.

    Cem anos atrás o mundo virou de cabeça pra baixo quando um governo de trabalhadores chegou ao poder na Rússia.

    Oito meses antes o Czar, então governante do país, fora derrubado em uma erupção de greves e protestos de rua, que precisaram de apenas cinco dias para por abaixo uma tirania cruel e aparentemente todo poderosa. Só este fato já teria inserido a Rússia de 1917 nos livros de história.

    Mas as mobilizações de massa que encerraram o reinado Czarista não pararam aí. O governo provisório que tomou posse logo em seguida fracassou em satisfazer as demandas urgentes dos trabalhadores, camponeses, soldados e marinheiros que o pressionavam, revoltosos, para, acima de tudo, por um fim à carnificina da Primeira Guerra Mundial.

    No dia 07 de novembro – 25 de outubro segundo o antigo calendário Juliano, que era usado na Rússia  – aquelas massas fizeram algo que nunca havia acontecido antes, ainda mais de uma forma que se sustentasse: elas derrubaram o governo encarregado de defender o sistema de propriedade privada e manter a guerra, substituindo-o por um Estado revolucionário, de tipo “Comuna”, como Lenin o denominou, e que se ergueu em favor da paz para os soldados e marinheiros, de terra para o campesinato e pão para a classe trabalhadora.

    Mesmo 100 anos depois o exemplo permanece grandioso. A revolução russa sofreu, desde o início, uma inacabável campanha difamatória com o intuito de desacreditá-la – isso sem contar a campanha física, de guerra civil e invasões, que em ultima instância, se não imediatamente, sufocou o Estado operário.

    Por tudo isso é impossível esquecer 1917. Muitas milhões de pessoas se inspiraram por sua característica essencial – ter sido um exercício incrível de democracia de massas. Todas as testemunhas honestas da revolução, mesmo as críticas, reconhecem este fato de 1917.

    A democracia fora tomada em uma forma nova e única, que permitiu eleger representantes de forma livre nas fábricas, trincheiras e fazendas ao redor de todo o país, tomando assim as decisões coletivamente. Os representantes ou delegados se reuniam no local de trabalho ou algum outro lugar, depois regionalmente, e então em conselhos nacionais, ou “sovietes”, palavra para “conselho” em russo.

    Os sovietes não vieram à tona através do chamado de um partido, mas como o produto das lutas que se deram na revolução derrotada de doze anos antes. Eles reapareceram imediatamente após a queda do Czar, similarmente a outros organismos políticos que nasceram de outras revoluções em outros países e circunstâncias.

    A derrocada do governo provisório e o estabelecimento dos sovietes como poder governamental russo entrou para a história como “Revolução de Outubro”, devido à sua data no calendário Juliano, ou como “Revolução Bolchevique”, dado o papel dirigente do partido de revolucionários socialistas que levava este nome.

    Ainda que estes nomes sejam parte da história, é mais necessário lembrar o “07 de novembro” como a “Revolução dos Sovietes” – o triunfo da maior expressão já vista de uma revolução profundamente democrática em sua base.

    Uma das formas pela qual as revoluções são erroneamente lembradas é ter sua história associada apenas ao ato final. A Revolução de Fevereiro é resumida às batalhas nas ruas durante aqueles cinco dias que convergiram na queda do Czar, e a “Revolução de Outubro” é limitada à insurreição que subjugou as forças da velha ordem e estabeleceu os sovietes como poder incontestável na Rússia.

    Mas estes são os momentos de clímax das revoluções – o ponto culminante de um longo período de lutas, no qual os governantes tiveram de encarar uma crise crescente ao mesmo tempo em que as massas de trabalhadores ganhavam confiança em si mesmas.

    No início do processo os objetivos podiam ser modestos, limitados a poucas reformas no funcionamento do sistema – e o progresso parecia se dar em pequenos passos, isso quando parecia ocorrer.

    Mas abaixo da superfície, pessoas que não tiveram seus nomes lembrados nos livros de história foram se tornando mais e mais envolvidas, radicalizaram-se – e o continuo dos eventos foi lhes dando um senso, cada vez mais apurado, daquilo pelo que lutavam. O ato de por abaixo um tirano e tomar para si o poder político foi o passo final de uma revolução que se vivia nos locais de trabalho, nas comunidades, cidades e vilarejos, por toda a sociedade.

    Ainda que parecessem revoltas espontâneas, como o levante de fevereiro, elas foram preparadas durante meses, anos, pelas incontáveis injustiças e conflitos vividos e que se tornavam motivo pelo qual lutar, e, crucialmente, entre os enfrentamentos, quando algumas pessoas tomavam para si a tarefa de entender as lutas do passado, analisar o presente e se preparar para o futuro.

    A Revolução Russa não teria sido possível sem as centenas de milhares de revolucionários concentrados no Partido Bolchevique e nas alas à esquerda do Partido Menchevique, do Socialista Revolucionário e nos partidos anarquistas.  

    Os Bolcheviques não convocaram os levantes que puseram abaixo o Czar em fevereiro, mas quando estes ocorreram, provocados pela greve de mulheres da indústria têxtil no Dia Internacional das Mulheres, eles estavam preparados, dados os anos de estudos e lutas para conduzir as táticas, estratégias e análises políticas que visavam o poder das massas de trabalhadores e à democracia.

    Os Bolcheviques conduziram o chamado pela insurreição de outubro, para que esta pusesse fim ao governo provisório, mas não antes deste partido, e seus aliados, esgrimirem inúmeros argumentos contrários e convencerem as massas de trabalhadores do ponto de vista revolucionário. Lenin e os Bolcheviques jugaram ter conquistado concretamente a liderança do processo no momento em que seu partido deixou de ser a pequena minoria nos sovietes do inicio do ano e tornaram-se maioria inquestionável em outubro.

    O jornalista americano Alberti Rhys Williams, que testemunhou a revolução, apreendeu perfeitamente a dada relação: “Os revolucionários não fizeram a revolução. Eles fizeram da revolução um sucesso”.

    Nesta observação se encontra uma profunda lição sobre os limites do que é possível ser feito por organizadores radicais enquanto estes e suas ideias são ainda minoritárias. É também a confirmação de quanto é importante que indivíduos dediquem suas vidas na construção da revolução social antes que os seus objetivos pareçam possíveis para a maioria das pessoas.

    Se ainda é preciso apresentar alguma evidência mais profunda da importância da Revolução Russa, consideremos suas conquistas. Não no que tocam os poucos anos que ela viveu antes de sucumbir à contrarrevolução conduzida por Joseph Stalin, mas apenas nos primeiros dias que seguiram a tomada do poder.

    O congresso nacional dos sovietes, atuando como o mais alto poder governamental da Rússia, despachou delegados para que negociasses os termos da saída russa da Primeira Guerra Mundial. Ele repudiou as alianças do regime czarista com os poderes imperialistas assim os poderes sobre as nações oprimidas.

    O Estado operário adotou um impressionante programa de reforma agrária, nacionalizou os bancos e votou pelo controle operário da produção através da eleição de comitês de fábricas. As velhas forças policiais foram abolidas, permitindo o florescimento da democracia popular.

    Anos e décadas antes que fosse possível no ocidente, mulheres tiveram seu direito ao voto, obtiveram a legalização do aborto, e o direito de se divorciarem de seus maridos, tendo também acesso à assistência no cuidado às crianças. Leis que faziam a homossexualidade ilegal foram derrubadas.

    Não apenas isso, mas também o Estado operário sustentou iniciativas que foram desde organizar cozinhas coletivas à educação sistemática em uma sociedade majoritariamente analfabeta. Isto tudo foi necessário para tornar realidade na vida das pessoas os avanços decretados.

    Isto é o que se torna possível quando a classe trabalhadora tem o poder – não apenas o poder de protestar e resistir, mas o poder de reconstruir o mundo enquanto governam coletivamente a sociedade.

    Nós realmente precisamos deste poder hoje se quisermos salvar o planeta; para usarmos os vastos recursos da economia moderna para que se garanta educação, sistema de saúde e mais, para acabar com o racismo, machismo e todas as formas de opressão, para reparar as centenas de anos de guerras imperialistas e ocupações.

    A história nos ensina que os trabalhadores e povos oprimidos podem conquistar reformas que tornam as condições circunstanciais melhores no “aqui e agora”. Estas lutas são indispensáveis para a atuação diária dos socialistas, já que defendemos cada expansão da democracia e as vitórias por justiça, mas também porque estas batalhas preparam os trabalhadores para que lutem por mais.

    Mas a história também nos ensina que as reformas são insuficientes. Não importa o quão imensa seja a luta, se o poder das classes dirigentes permanecer intacto então ele não mudará de mãos e elas manterão o poder para acumular e controlar mais riquezas, inclusive tomando de volta aquilo que conquistamos com as reformas. Sem esse poder não será possível reconstruir o mundo.

    Este é outro motivo para rememorar 1917, ter a melhor visão de como um tipo diferente de sociedade deve ser organizado.

    Mas a revolução não seria um sonho infantil? Uma curiosidade histórica inimaginável no mundo moderno? Certamente isso nos é dito recorrentemente, e não apenas pelas classes governantes e suas instituições.

    Certamente não vivemos em tempos de revolução – não vemos na história recente ocorrerem lutas que ponham na agenda a revolução. As condições que impulsionaram a Revolução Russa – os assassinatos em massa da Grande Guerra e penúria econômica – não são as condições que encaramos hoje.

    Ainda assim, com as tensões imperialistas aumentando, particularmente na Ásia, estamos mais próximos de uma guerra mundial do que a mídia nos faz crer. A arrogância e ganância da classe dominante se mantêm intacta – na medida em que os desmesurados twittes do “homem mais poderoso do mundo” compartilham o mesmo espírito despreocupado e inumano que tinham as notas do diário do Czar que ficaram famosas aos terem sido citadas na História da Revolução Russa de Leon Trotsky.

    A classe dominante de 2017 é extremamente capaz de cometer atrocidades hoje – e com a “vantagem” de um século de desenvolvimento tecnológico e intelectual estes crimes são ainda mais mortais e perigosos, a ponto de o futuro do planeta estar agora em jogo.

    Diante deste mundo, os trabalhadores e movimentos sociais não têm mostrado possuir a confiança necessária para ir além de greves e protestos, muito menos tomar as fábricas e escritórios em mãos e se erguer contra a burguesia.

    Mas não nos esqueçamos, a confiança apreendida nas lutas, nasce de enfrentamentos modestos, que aparentemente não mudam o mundo, mas que ao fim contribuem para uma transformação superior. E quando o processo de aprendizado se desenvolve ele toma velocidade.

    Esta é uma das mais duradouras lições de 1917 – como o ano revolucionário tocou e mudou um povo que nunca houvera se imaginado capaz de tais façanhas.

    Na História da Revolução, Trotsky cita um antigo general czarista de quem as palavras iluminam o persistente ódio deste aspecto da revolução:

    Quem iria acreditar que o zelador ou o vigia do prédio da corte se tornaria repentinamente o Chefe de Justiça do Tribunal de Apelação? Ou que o funcionário do hospital se tornaria seu gerente; o barbeiro um alto funcionário; o cabo um comandante em chefe; o lacaio ou o trabalhador comum de outrora se tornariam prefeitos; o mecânico de trem seria chefe de repartição ou superintendente de uma estação; que o chaveiro seria diretor de fábrica?

    Realmente, quem imaginaria? Esta é a promessa da Revolução Russa e a tragédia de isso tudo não ter sobrevivido para ser um exemplo real nos dias de hoje.

    Então sua promessa ainda está para ser realizada – e um pequeno passo nessa direção é uma nova geração de socialistas poder descobrir e compreender a história da Revolução Russa, de forma que suas lições possam ser utilizadas na conquista de uma sociedade socialista.

     

  • As questões de Outubro

    Por Daniel Bensaid, Publicado nos Cadernos Em Tempo nº 298, novembro 1997. Traduzido por Maria Regina Pilla e Luis Pilla Vares. Publicado originalmente na revista Imprecor n. 418 (edição francesa), de novembro de 1997.

    Antes mesmo de entrar na massa dos novos documentos acessíveis pela abertura dos arquivos soviéticos (que permitirão, indubitavelmente, novas luzes e uma renovação das controvérsias), as discussão vem tropeçar no pensamento pronto da ideologia dominante, bem ilustrada pela recente homenagem necrológica consensual à François Furet. Nesses tempos de contra-reforma e de reação, não surpreende que os nomes de Lenin e Trotsky se tornem tão impronunciáveis quanto foram aqueles de Robespierre e Saint Just sob a Restauração.

    Para começar a limpar o terreno é conveniente retomar três idéias bastante aceitas hoje em dia:

    1. Em vez de revolução, Outubro seria mais o nome emblemático de um complô ou de um golpe de Estado minoritário impondo no conjunto, de cima para baixo, sua concepção autoritária da organização social em benefício de uma nova elite.

    2. Todo o desenvolvimento da Revolução Russa e suas desventuras totalitárias estaria inscrita em germe, por uma espécie de pecado original, na idéia (ou “paixão” segundo Furet) revolucionária: a história se reduziria então à genealogia e à execução dessa idéia perversa, em detrimento de grandes convulsões reais, de acontecimentos colossais e da saída incerta de toda luta.

    3. Enfim, a Revolução Russa teria sido condenada à monstruosidade por ter nascido de um parto “prematuro” da história, de uma tentativa de forçar o curso e o ritmo, quando “as condições objetivas” de uma superação do capitalismo não estavam dadas: em lugar de ter tido a sabedoria “de auto-limitar” seu projeto, os dirigentes bolcheviques teriam sido os agentes  ativos desse contratempo.

    Revolução ou golpe de Estado?

    A revolução Russa não é resultado de uma conspiração mas a explosão, no contexto da guerra, das contradições acumuladas pelos conservadorismo autocrático do regime tzarista. A Rússia, no começo do século, é uma sociedade bloqueada, um caso exemplar de “desenvolvimento desigual e combinado”, um país ao mesmo tempo dominante e dependente, aliando os traços feudais de um campo onde a servidão é oficialmente abolida há menos de meio século e os traços do capitalismo industrial urbano mais concentrados. Grande potência, ela é subordinada tecnologicamente e financeiramente (empréstimos). O caderno de condolências apresentado para Gapon por ocasião da revolução de 1905 é um verdadeiro registro da miséria que reina no país das tzares. As tentativas de reformas são rapidamente bloqueadas pelo conservadorismo da oligarquia, a teimosia do déspota e a inconsistência de uma burguesia que já está perseguida pelo movimento operário nascente. As tarefas da revolução democrática recaem, assim, numa espécie de terceiro-estado, no qual, à diferença da Revolução Francesa, o proletariado moderno, ainda que minoritário, já se constitui na ala dinâmica em marcha.

    É isso que a “Santa Rússia” pode representar: “o elo fraco da cadeia imperialista”. A prova da guerra põe fogo neste barril de pólvora.

    O desenvolvimento do processo revolucionário entre fevereiro e outubro de 1917, ilustra bem que não se trata de uma conspiração minoritária de agitadores profissionais, mas da assimilação acelerada de uma experiência política em escala de massa, de uma metamorfose das consciências, de um deslocamento constante das relações de forças. Na sua magistral História da Revolução RussaTrotski analisa minuciosamente esta radicalização, de eleição sindical em eleição sindical, de eleição municipal em eleição municipal, junto aos operários, soldados e camponeses. Enquanto os bolcheviques representavam apenas 13% dos delegados ao congresso dos Soviets de junho, as coisas mudam rapidamente depois das “Jornadas de Julho” e a tentativa de putsch de Kornilov: eles representam entre 45% e 60% em outubro. Longe de representar uma manipulação conseguida pela surpresa, a insurreição representa o resultado e a conclusão provisória de uma prova de força que amadureceu ao longo do ano, no curso do qual o estado de espírito das massas plebéias esteve sempre à esquerda dos partidos e de seus estados-maiores, não somente dos socialistas revolucionários, mas mesmo daqueles do Partido Bolchevique ou de uma parte de sua direção (até inclusive sobre a decisão da insurreição).

    Isso é o que explica que a insurreição de Outubro, comparativamente às violências que conhecemos desde então, tenha sido muito pouco violenta e pouco onerosa em vidas humanas, por mais que seja vão distinguir entre as vítimas de Outubro propriamente ditas (de ambas as partes) e aquelas da guerra civil a partir de 1918, sustentada pelas potências estrangeiras, com  a França e a Grã-Bretanha na primeira fila.

    Se entendermos revolução por um elã vindo de baixo para cima, aspirações profundas de um povo, e não a execução de algum plano mirabolante imaginado por uma elite esclarecida, não há nenhuma dúvida que a Revolução Russa foi uma, no sentido pleno da palavra. Basta notar as medidas legislativas tomadas nos primeiros meses e no primeiro ano pelo novo regime para compreender que elas significam uma transformação radical das relações de propriedades e de poder, às vezes mais rápida que previsto e desejado, às vezes mesmo além do desejável, sob a pressão das circunstâncias. Numerosos livros testemunham esta ruptura na ordem do mundo (como Os dez dias que abalaram o Mundo, de John Reed, reedição do Seuil, 1996) e de sua repercussão internacional imediata (como La révolution d’Octobre et le mouvement ouvrier europeén, obra coletiva, EDI, 1967).

    Marc Ferro sublinha (notadamente em La révolution de 1917, Albin Michel, 1997 e Naissance et Effondrement du régime communist em Russie, Livre de Poche, 1997) que não houve à época muita gente para apiedar-se do regime do tsar e para chorar o último déspota. Ele insiste, ao contrário, sobre a virada do mundo tão característica de uma autêntica revolução, que afeta até os detalhes da vida quotidiana: em Odessa, os estudantes ditam aos professores um novo programa de história; em Petrogrado, os trabalhadores obrigam seus patrões a aprender o “novo direito operário”; no exército, os soldados convidam o capelão a sua reunião “para dar um novo sentido a sua vida; em certas escolas, as crianças reivindicam o aprendizado do boxe para se fazer escutar e respeitar pelos adultos…

    Este elã revolucionário inicial se faz ainda sentir ao longo dos anos vinte, apesar das penúrias e do atraso cultural, nas tentativas pioneiras no front da transformação do modo de vida: reformas escolares e pedagógicas, legislação familiar, utopias urbanas, invenção gráfica e cinematográfica. É ele ainda que permite explicar as contradições e as ambigüidades da grande transformação operada com dor entre as duas guerras, onde ainda se misturam o terror e a repressão burocrática e a energia da esperança revolucionária. Nunca nenhum país do mundo conheceu uma metamorfose tão brutal, sob o chicote de uma burocracia faraônica: entre 1926 e 1939 as cidades aumentarão de 30 milhões de habitantes e sua parte na população global passará de 18% a 33%; durante o único primeiro plano quinquenal sua taxa de crescimento é de 44%, ou seja praticamente tanto quanto entre 1897 e 1926; a força de trabalho assalariada mais que dobra (passa de 10 a 22 milhões); o que significa a “ruralização” massiva das cidades, um esforço enorme de alfabetização e de educação, a imposição à marcha forçada de uma disciplina do trabalho. Esta grande transformação é acompanhada de um renascimento do nacionalismo, de um desenvolvimento do carreirismo, do surgimento de uma novo conformismo burocrático. Nesta grande confusão, ironiza Moshe Lewin, a sociedade estava, num certo sentido, “sem classes”, porque todas as classes estavam uniformes, em fusão (Moshe Lewin, La formation de l’Union Soviétique, Gallimard, 1985).

    Vontade de poder ou contra-revolução burocrática

    O destino da primeira revolução socialista, o triunfo do estalinismo, os crimes da burocracia totalitária constituem sem nenhuma dúvida um dos fatos maiores do século. As chaves de sua interpretação têm a maior importância. Para alguns, o princípio do mal residiria num fundo ruim da natureza humana, uma irrepreensível vontade de potência que pode manifestar-se sob diferentes máscaras, inclusive aquela da pretensão de fazer a felicidade dos povos, apesar deles, de impor-lhes esquemas pré-concebidos de uma “cidade ideal”. Importa-nos, ao contrário, encontrar na organização social, nas forças que a constituem e se opõem, as raízes e as molas profundas daquilo que às vezes chamamos “o fenômeno estalinista”.

    O estalinismo, nestas circunstâncias históricas concretas, remete a uma tendência mais geral à burocratização em marcha em todas as sociedades modernas. Ela é alimentada fundamentalmente pelo desenvolvimento da divisão social do trabalho (entre trabalho manual e intelectual notadamente) e pelos “perigos profissionais do poder” que lhes são inerentes. Na União Soviética, esta dinâmica foi tanto mais forte e rápida quanto a burocracia se produziu sobre um fundo de destruição, de penúria, de arcaísmo cultural, na ausência de tradições democráticas. Desde a origem, a base social da revolução era ao mesmo tempo ampla e estreita, ampla na medida em que ela repousava sobre a aliança entre operários e camponeses que constituíam a esmagadora maioria social. Estreita na medida em que o componente operário minoritário, foi rapidamente eliminado pelos desgastes da guerra e as perdas da guerra civil. Os soldados para os quais os Sovietes tiveram em 1917 um papel central, eram  no essencial camponeses mobilizados pela idéia da paz de retorno ao lar.

    Nessas condições, o fenômeno da pirâmide invertida ficou em seguida evidente. Não era mais a base que levava e empurrava o topo, mas a vontade do topo que esforçava-se de carregar a base. Daí a mecânica da substituição: o partido substitui ao povo, a burocracia ao partido, o homem providencial ao conjunto. Mas esta construção só se impõe pela formação de uma nova burocracia, fruto da herança do antigo regime e da promoção social acelerada de novos dirigentes. Simbolicamente, nos efetivos do partido após o recrutamento massivo da “promoção Lenin”, alguns milhares de militantes da revolução de Outubro não pesam mais a relação às centenas de milhares de novos bolcheviques, entre os quais os carreiristas vindos em socorro da vitória e os elementos reciclados da velha administração.

    testamento de Lenin (ver Moshe Lewin. Le dernier combat de Lenine, Minuit, 1979), é testemunha, em sua agonia, desta consciência patética do problema. Enquanto a revolução é assunto de povos e de multidões, Lenin moribundo está imaginando o futuro, avaliando os vícios e as virtudes de um punhado de dirigentes de quem tudo parece agora depender.

    Se os fatores sociais e as circunstâncias históricas jogam um papel determinante no ascenso poderoso da burocracia estalinista, isto não significa que as idéias e as teorias não tenham nenhuma responsabilidade na sua existência. Particularmente, não há nenhuma dúvida que a confusão sustentada, desde a tomada do poder, entre o Estado, o partido e a classe operária em nome do definhamento rápido do Estado e do desaparecimento das contradições no seio do povo, favorece consideravelmente a estatização da sociedade e não a socialização das funções estatais. O aprendizado da democracia é uma questão longa, difícil, que não caminha no mesmo ritmo que os decretos de reforma econômica. Ela toma tempo, energia. A solução fácil consiste, então, em subordinar os órgãos de poder popular, conselhos e sovietes a um tutor esclarecido, o partido. Na prática, ela consiste também em substituir o princípio da eleição e do controle dos responsáveis pela sua nomeação, por iniciativa do partido, desde 1918, em alguns casos. Esta lógica desemboca, então, na supressão do pluralismo político e das liberdades de opinião necessárias à vida democrática, assim como a subordinação sistemática do direito à força.

    A engrenagem é tanto mais implacável quanto a burocracia não procede somente ou principalmente de uma manipulação das altas esferas. Ela responde também, às vezes, a uma espécie de demanda das bases, a uma necessidade de ordem e de tranqüilidade dos cansaços da guerra e da guerra civil, das privações e do desgaste que as controvérsias democráticas, a agitação política, a demanda constante de responsabilidade provocam. Marc Ferro assinalou, em seus livros, de forma pertinente, esta terrível dialética.

    Ele lembra, assim, que existiam “duas vertentes – democrática-autoritária na base, centralista e autoritária na cúpula”, no começo da revolução, “enquanto que em 1939 há apenas uma”. Mas, para ele, a questão é praticamente resolvida ao cabo de alguns meses, a partir de 1918 ou 1919, com o definhamento ou o enquadramento dos comitês de bairro e de fábrica (ver Marc Ferro, Les Soviets en Russie, coleção Archives). Seguindo uma aproximação análoga, o filósofo Phillipe Lacoue-Labarthe é ainda mais explícito declarando o bolchevismo “contra-revolucionário a partir de 1920-1921”, isto é, antes de Kronstadt (ver Revue Lignes n° 31maio 1997).

    O assunto é de maior importância. Não é questão de opor, ponto por ponto, de maneira maniqueísta uma lenda do “Leninismo sob Lenin” ao Leninismo sob Stalin, os anos 20 luminosos aos sombrios anos 30, como se nada houvesse ainda começado a apodrecer no país dos Soviets. É claro, a burocratização está quase imediatamente em andamento; é claro, a atividade policial da Tcheka tem sua lógica própria; é claro, o desterro político das ilhas Solovski está aberto depois da guerra civil e antes da morte de Lenin; é claro, a pluralidade dos partidos é suprimida de fato, a liberdade de expressão limitada, os direitos democráticos no próprio partido são restringidos a partir do 10° Congresso de 1921. O processo daquilo que chamamos contra-revolução burocrática não é um acontecimento simples, datável, simétrico da insurreição de Outubro. Ele não é feito num dia. Ele passou por escolhas, enfrentamentos, acontecimentos. Os próprios atores não pararam de debater sobre a periodização, não pelo gosto da precisão histórica, mas para tentar deduzir as tarefas políticas. Testemunhas como Rosmer, EastmanSouvarine, Istrati, Benjamin, Zamiatini e Bulgakov (nas suas cartas à Stalin), a poesia de Maiakovski, os tormentos de Mandelstam ou de Tsvetaieva, os cadernos de Babel etc., podem contribuir a esclarecer as múltiplas facetas do fenômeno, seu desenvolvimento, sua progressão.

    Mas isso não reduz o contraste, a descontinuidade irredutível, na política interna como na política internacional, entre o começo dos anos 20 e os terríveis anos 30. Nós não contestamos que as tendências autoritárias tenham começado a impor-se bem antes, que obcecados pelo “inimigo principal” (bem real na verdade) da agressão imperialista e a restauração capitalista, os dirigentes bolcheviques tenham começado a ignorar ou subestimar “o inimigo secundário”, a burocracia que os minava internamente e que acaba por devorá-los. Este roteiro era inédito na época, difícil de imaginar, foi preciso tempo para compreendê-lo e interpretá-lo, para tirar as conseqüências. Assim, se Lenin sem dúvida melhor compreendeu o sinal de alarme que significou a crise do Kronstadt, a ponto de impulsionar uma profunda reorientação política, é apenas bem mais tarde, na Revolução Traída, que Trotski chegará a fundar um principio de pluralismo político sobre a heterogeneidade do próprio proletariado, inclusive após a tomada do poder.

    A maioria dos grandes testemunhos e dos estudos sobre a União Soviética ou sobre o próprio Partido bolchevique (ver Moscou sous Lenine de Rosmer, O Leninismo sob Lenin de Marcel Liebrnan, L’historie du Parti bolchevik de Pierre BrouéStaline de Souvarine e o do Trotski, os trabalhos de L. H. Carr, de Tony Cliff, de Moshe Lewin, de David Rousset) não permitem ignorar, na estreita dialética da ruptura e da continuidade, a grande virada dos anos 30. A ruptura ganha de longe, atestada pelos milhões e milhões de mortos de fome, os deportados, as vítimas dos processos e dos expurgos. Foi preciso desencadear tal violência para chegar ao “congressos  dos vencedores” de 1934 e a consolidação do poder burocrático porque a herança revolucionária deveria ser tenaz e não foi facilmente superada

    Isto é o que chamamos uma contra-revolução, tão massiva, tão visível, tão esmagadora como as medidas autoritárias, por inquietantes que fossem, tomadas no calor da guerra civil. Esta contra-revolução faz igualmente sentir seus efeitos em todos os domínios, naquele da economia política (coletivização forçada e desenvolvimento em grande escala do Gulag), da política internacional (na China, na Alemanha, na Espanha), da própria política cultural ou da vida quotidiana, com aquilo que Trotski chamou thermidor no lar”.

    Revolução “prematura”

    Após a queda da União Soviética uma tese readquiriu vigor entre os defensores do marxismo, especialmente nos países anglo-saxônicos (ver as teses de Gerry Cohen): aquela segundo a qual a revolução teria sido desde o começo uma aventura condenada porque prematura. Na realidade, esta tese tem sua origem muito cedo no discurso dos próprios mencheviques russos e nas analises de Kautsky, desde 1921: muito sangue, lágrimas e ruínas, escreveu ele, então, teriam sido poupados “se os bolcheviques tivessem tido o senso menchevique da auto-limitação àquilo que é acessível, onde se revela o mestre” (Vonder Demokratie zur statssklaverei, 1921, citado por Radek em Les voies de la Révolution russe, EDI, p. 41).

    A fórmula é impressionantemente reveladora. Eis alguém que polemiza contra a idéia de um partido de vanguarda mas imagina em troca um partido-mestre, educador e pedagogo, capaz de regular à sua vontade a marcha e ritmo da história. Como se as lutas e as revoluções não tivessem também sua lógica própria. Ao querer auto-limitá-las tenta-se passar para o lado da ordem estabelecida. Não se trata mais então “de auto-limitar” os objetivos do partido, mas simplesmente de limitar as aspirações das massas. Nesse sentido, os Ebert e os Noske, assassinando Rosa Luxemburg e esmagando os sovietes da Baviera se tornaram ilustres como virtuoses da “auto-limitação”.

    Na verdade, o raciocínio conduz de maneira inelutável à idéia uma história bem ordenada, regrada, como um relógio, onde tudo tem a sua hora, no tempo exato. Ele recai nas planícies de um estrito determinismo histórico tão seguidamente censurado nos marxistas onde a situação da infra-estrutura determina de maneira estreita a superestrutura correspondente. Ele elimina simplesmente o fato de que a história não tem a força de um destino, é cheia de acontecimentos que abrem uma série de possibilidades, nem todas garantidas. Trata-se mais de um horizonte determinado de possibilidades. Seus próprios atores pensaram a Revolução Russa não como uma aventura solitária, mas como primeiro elemento de uma revolução européia e mundial. Os Fracassos da Revolução Alemã ou da Guerra Civil Espanhola, os desdobramentos da Revolução Chinesa, a vitória do fascismo na Itália e na Alemanha não estavam escritos de antemão.

    Falar nesse caso de revolução prematura significa um retorno a enunciar um julgamento de tribunal histórico, em vez de se colocar do ponto de vista da lógica interna do conflito e das políticas que se defrontam. Deste ponto de vista, as derrotas não são provas de erro ou de falhas, da mesma forma que as vitórias não são prova da verdade. Porque não há julgamento final. O que importa é o que foi traçado passo a passo na ocasião de cada grande escolha de cada grande bifurcação (a NEP, a coletivização forçada, o pacto germano-soviético, a guerra civil espanhola, a vitória do nazismo), a pista de uma outra história possível. É o que preserva a inteligibilidade do passado e permite tirar lições para o futuro.

    Haveria, certamente, outros aspectos para discutir por ocasião deste aniversário. Nós estamos satisfeitos com “três questões de Outubro” hoje cruciais no debate. Mas o capitulo das “lições de Outubro” de um ponto de vista estratégico (crise revolucionária; dualidade de poder; relações entre partidos, massas e instituições; questões da economia de transição), de sua atualidade e de seus limites, é evidentemente tarefa decisiva. Isto conduz, também, contra “diabolizar” quem pretende responsabilizar a revolução por todas as misérias do século, a precisar que a União Soviética é certamente o país que, em três décadas viu o maior número de mortes violentas concentradas num território limitado, mas que não se pode sem mais nem menos, imputar à revolução as dezenas de milhões de mortes (os historiadores discutem a cifra hoje em dia), aqueles da Primeira Guerra Mundial, da intervenção estrangeira, da guerra civil ou da Segunda Guerra Mundial. Assim como, no bicentenário da Revolução Francesa era impossível imputar à Revolução os sofrimentos causados pela intervenção das monarquias ou das guerras napoleônicas.

    Talvez nestes tempos de restauração seja proveitoso, para terminar,  lembrar estas soberbas linhas célebres de Kant, escritas em 1795, em plena reação termidoriana:

    “Um tal fenômeno na história da humanidade não se esquece mais porque ele revelou na natureza humana uma disposição, uma faculdade de progresso tal que não seria possível com uma política de sutileza, separando-a do curso anterior dos acontecimentos somente na natureza da liberdade reunidas na espécie humana segundo os princípios internos do direito na medida da aparência, ainda que quanto ao tempo de uma maneira indeterminada e como acontecimento contigente. Mas mesmo se o objetivo visado por este acontecimento não foi ainda hoje atingido, mesmo quando a revolução ou a reforma da constituição do povo fosse finalmente fracassada, ou tivesse se passado um lapso de tempo, tudo recaísse no estado de coisas anterior (como a manutenção de certas políticas), esta profecia filosófica não perde nem um pouco de sua força. Porque este acontecimento é muito importante, muito ligado aos interesses da humanidade e de uma influência imensa sobre todas as partes do mundo para não se tornar mera memória nos papéis na ocasião de circunstâncias favoráveis e relembrar quando da retomada de novas tentativas deste gênero”.

    Ninguém poderá conseguir que os dez dias que abalaram o mundo sejam apagados.

    Saiba mais sobre a Revolução Russa:

    14 mentiras e bobagens sem sentido ditas na matéria do Fantástico sobre a Revolução Russa

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    Reflexões às vésperas de um centenário 

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  • Revolução Russa: 100 anos esta noite

    EDITORIAL ESPECIAL 7 DE NOVEMBRO

    Em sua autobiografia, Leon Trotski escreveu um capítulo intitulado “A noite que decide”. Nele, o criador do Exército Vermelho descreve os eventos que ocorreram em Petrogrado na madrugada do dia 24 para 25 de outubro de 1917, ou 6 para 7 de novembro, segundo o calendário ocidental moderno, e que levaram à tomada do poder na Rússia pelos sovietes: a calmaria das ruas, a chuva fina e gélida, os soldados se aquecendo junto às fogueiras, a silenciosa, porém massiva e firme, movimentação das tropas, a conversa que o próprio Trotski e Lenin tiveram enquanto descansavam no chão de uma sala empoeirada do Instituto Smolni, sede do Soviete de Petrogrado e muitas outras cenas.

    Ao conversarem sobre o futuro, Lenin e Trotski conversavam sobre todos nós e sobre nossas vidas. O século 20 é fruto da Revolução Russa. A eliminação da propriedade privada e do mercado capitalista permitiu à Rússia se transformar completa e absolutamente. Em menos de 20 anos, um país agrário e iletrado se tornou uma das maiores potências do mundo. A Rússia revolucionária conheceu um florescimento científico, cultural e político que poucos países já conheceram. A União Soviética foi o primeiro país do mundo a colocar um objeto sintético em órbita, o satélite sputnik, em 1957; o primeiro país a colocar um ser vivo complexo no espaço, a cadelinha Laika, também em 1957; o primeiro país a colocar um homem no espaço, Iuri Gagarin, em 1961; o primeiro país a colocar uma mulher no espaço, Valentina Terechkova, em 1963; o primeiro país a enviar com sucesso uma sonda para a Lua, a sonda Luna, em 1966; o primeiro país a enviar com sucesso um objeto para outro planeta, a sonda Venera, que pousou e enviou fotografias de Vênus em 1967. Foram tantos “o primeiro país do mundo…” que nenhum editorial é capaz de expressar.

    A URSS resolveu problemas sociais extremamente complexos, acabou com a analfabetismo, com o desemprego, garantiu moradia, educação, saúde e aposentadoria digna para 100% da população. Maiakovski, Pasternak, Bubka, Barichnikov, Tsvetaieva, Terechkova, todos eles são filhos e filhas da revolução, mesmo que não sejam seus contemporâneos e mesmo que fossem, em seu tempo, críticos a ela. Simplesmente, porque são filhos e filhas do século 20.

    A Revolução Russa foi também uma revolução nos costumes, direito ao divórcio, ao voto feminino, descriminalização do aborto e da homossexualidade, igualdade no mercado de trabalho e nos salários para homens e mulheres, fim do poder patriarcal nas famílias.

    O exemplo da União Soviética amedrontou os poderosos no mundo inteiro e provocou uma onda de entusiasmo entre os explorados, que se propagou pelo mundo inteiro por quase setenta anos. A resposta alemã à “ameaça soviética” foi o nazismo, derrotado heroicamente pela própria União Soviética, e não pelos Estados Unidos, como nossa educação semi-colonial tenta fazer crer. Mas, a luta contra o nazismo teve um custo, 27 milhões de vidas soviéticas. Se não somos uma colônia nazista de escravos hoje, agradeça à União Soviética e ao seu povo. Depois da Segunda Guerra Mundial, o imperialismo mudou de tática, entregou os anéis para não perder os dedos. Em vários países, foram aprovadas legislações democráticas, trabalhistas e de direitos sociais que visavam evitar a radicalização da vida política e afastar, com isso, o perigo de uma revolução socialista. As férias, o 13º salário, a Previdência Social e a educação pública gratuita no Brasil não são “o lado humano do capitalismo”. São frutos indiretos da Revolução Russa.

    Como aconteceu em muitas revoluções, surgiram os oportunistas e os traidores. Jurando lealdade aos ideais revolucionários, Stalin fuzilou os homens e mulheres que fizeram a revolução. Stalin feriu a Revolução Russa, mas não conseguiu matá-la. O regime político altamente democrático dos primeiros anos degenerou em uma ditadura sangrenta, mas as conquistas sociais dos sovietes permaneceram vivas ainda por algum tempo. Passaram-se 70 anos até que a burocracia soviética se sentir forte o suficiente para passar, da condição de “administradora”, para a de proprietária das riquezas produzidas pelo povo. Vieram Gorbatchov, Ieltsin, a máfia, a tragédia econômico-social dos anos 90 e, finalmente, Putin.

    Todo o século 20, tudo o que conquistamos, tudo que somos hoje foi decidido naquela noite, pelos soldados à beira das fogueiras, pelos operários que ocupavam as estações de trem e pontes de Petrogrado, pelas operárias que passavam de quartel em quartel convencendo os últimos indecisos, pelos marinheiros do cruzador Aurora, pelo gênio estratégico de Lenin e pela agudez tática de Trotski, conversando no chão de uma sala empoeirada do Instituo Smolni. Naquela noite, há cem anos.

    Viva a Revolução Russa!
    Viva o socialismo!

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  • O espectro de Outubro: A russificação do mundo, um século depois

    Por Felipe Demier, Historiador e Professor da UERJ

    No antigo calendário bizantino (juliano), que vigorava na antiga Rússia até a vitória dos soviets, a tomada do Palácio de Inverno ocorreu em 25 de outubro de 1917. Uma vez suprimido tal calendário pela Revolução, a qual, como lembrou Trotsky, teve antes que “abolir as instituições que se empenhavam em conservá-lo”, a contagem dos dias no país passou a ser feita a partir do calendário europeu (gregoriano), segundo o qual a tomada do Palácio de Inverno teria ocorrido a 7 de novembro de 1917. Nesta terça, portanto, a Revolução completa exatamente 100 anos. Banido e esconjurado muitas vezes, seu espectro insiste em rondar entre nós. Como dizem os cautelosos torcedores de futebol, só acaba quando termina. Ainda não terminou.

    No pós-Segunda Guerra Mundial, alguns, dentro do campo marxista, cogitaram que as condições históricas determinantes dos eventos russos de 1917 já não serviriam de base para pensar o contexto europeu, no qual o proletariado, gozando de serviços sociais e adormentado pela “racionalidade tecnológica”, estaria incorporado à sociedade industrial burguesa e, portanto, incapaz de se lançar em uma luta disruptiva contra ela. Não só na Europa, como também em outras partes do mundo capitalista, novos sujeitos revolucionários eram buscados entre estudantes, intelectuais e camponeses.

    Para os apologetas socialdemocratas do capitalismo welfareano, por sua vez, as reformas sociais, mesmo que tendo como uma de suas causas a própria existência da União Soviética, teriam dispensado e mesmo inviabilizado a ocorrência de uma revolução. Aberto às pressões das massas populares, capazes de se expressarem por meio do sufrágio universal, o Estado já não seria mais o tal comitê dos negócios comuns da burguesia e um aparelho repressivo de dominação de classe, tal qual Marx e Engels sugeriram, e como se apresentou na Rússia diante de Lênin e seus seguidores. Tomado como algo intrinsecamente neutro, desprovido de um conteúdo de classe, ele deveria ser progressivamente ocupado pela esquerda com vistas a direcioná-lo para políticas sociais favoráveis aos setores populares. O horizonte, portanto, não ia além de um capitalismo com direitos.

    Com o fim da União Soviética, discursos “inovadores” gestados anteriormente foram desenvolvidos e amplificados. Não foram poucos os que, na esquerda, açodadamente seduziram-se com a retórica prestidigitadora que afirmava a existência de uma sociedade “pós-industrial”, “da informação”, na qual o trabalho teria perdido a sua centralidade e onde a própria classe trabalhadora teria deixado de existir. A “velha” questão social já não teria mais lugar no mundo hodierno. O fim da oposição capital x trabalho e o triunfo do mercado sobre a planificação econômica encontraram correspondência na historiografia por meio da proliferação de teorias que negavam a validade de toda e qualquer teoria, assim como de teses que apontavam o colapso epistemológico da razão, da ciência, das “grandes narrativas”, das análises “totalizantes/totalitárias”, em suma, da luta de classes como uma ferramenta interpretativa da realidade histórico-social. Nas pesquisas sobre o mundo contemporâneo, o capitalismo, obnubilado por “imaginários”, “discursos”, “práticas culturais” e “atores da sociedade civil”, já não era mais um problema, uma questão.

    Enorme parte da esquerda, eufórica ou resignadamente, assumiu o papel de ala esquerda do partido da ordem burguesa, nutrindo expectativas de que as contrarreformas poderiam ser ao menos combinadas com a diminuição da pobreza extrema por meio da expansão de políticas sociais compensatórias e focalizadas. De maneiras diferentes, os arautos políticos do neoliberalismo contrarreformista, a esquerda transformista e os atraentes acadêmicos do “marxismo não dá conta” vocalizavam/vocalizam o mesmo desejo não recôndito do capital: uma nova revolução é impossível, e o capitalismo é um dado natural, eterno.

    No entanto, passados cem anos dos dez dias que abalaram o mundo, se é verdade que os artífices intelectuais, os dirigentes políticos e as formas de organização popular responsáveis por Outubro de 1917 – assim como a nação por ele criada, a União Soviética – já não se fazem mais presentes, o mesmo não pode ser dito das determinações mais gerais do processo que conduziu à primeira revolução vitoriosa dos trabalhadores na história, as quais explicam a permanência, no século XXI, do espectro de Outubro.

    Contrariando “constatações” e vaticínios mencionados aqui, o capitalismo, a despeito de todas as suas revoluções tecnológicas e informacionais, segue sua marcha de expropriações e, com isso, aumenta exponencialmente a quantidade de despossuídos cuja única mercadoria a ser vendida numa sociedade produtora de mercadorias é a sua própria força de trabalho. A promessa de novos “empreendedores” não é senão a ideologia de um processo que tem gerado mais e mais trabalhadores. Para desgosto de uma esquerda cool, dedicada a performances digitais e lutas comportamentais, o crescimento acelerado da classe trabalhadora à escala mundial e seu protagonismo nos embates sociais contemporâneos são fatos incontornáveis. Cada vez mais heterogêneo, feminino, negro, asiático e, sobretudo, precarizado, o proletariado se expande numericamente. Em quase todos os países, os trabalhadores, como classe social, são, hoje, em termos absolutos e proporcionais, muito maiores do que o eram na Rússia de 1917. Sua crescente densidade social oferece uma incrível força política potencial, anunciando um novo tempo de lutas.

    A inexistência ou fracasso de alternativas ordeiras que pudessem oferecer alguma melhoria para a vida dos trabalhadores foi, como alguns estudiosos corretamente apontam, um elemento decisivo para se explicar o porquê daqueles homens e mulheres sem nada a perder terem aceito o convite bolchevique à insurreição. Como indicamos, para alguns teóricos do pós-Segunda Guerra, as reformas e direitos presentes na Europa do “bem-estar social” teriam dispensado a necessidade de revoluções anticapitalistas no continente. Ora, se, na periferia do capitalismo, as possibilidades de reformas sociais e ampliação de direitos sempre foram e continuam sendo bloqueadas pelas classes dominantes nativas atreladas ao imperialismo, a própria Europa welfareana, por sua vez, em função das contrarreformas e sucessivos planos de “austeridade”, já não existe mais. Em todas as partes do sistema, portanto, a era dos direitos sociais parece encerrada, mesmo que em algumas delas esta mal tenha existido de fato. O centro do sistema se periferiza, e a periferia se torna um verdadeiro inferno terrestre.

    Sem a possibilidade de ampliar ou mesmo garantir direitos sob o capitalismo, as classes trabalhadoras ao redor do mundo parecem ter um cardápio político não muito diferente daquele que teve o operariado fabril russo em outubro de 1917. Lançando mão de uma analogia histórica mais livre, pode-se dizer que o capitalismo mundial, em seu afã contrarreformador, se russifica, na medida em que, tal como na velha Rússia de 1917, dá fortes indícios de não dispor mais de condições que possam oferecer alternativas ordeiras aos que vivem ou tentam viver do seu próprio trabalho. Se antes não se podia ainda gozar de direitos sociais, hoje não se pode mais. Diante dessa situação, o proletariado parece só poder se portar tal qual o Mefistófeles de Goethe, cuja tarefa é constantemente negar, pois tudo o que existe merece perecer. A revolução socialista coloca-se, cem anos depois, como uma necessidade.

    Nesse cenário, o interesse de investigação sobre a centenária Revolução Russa mostra-se prenhe de sentido. Os temas da organização sindical e política, da consciência e cultura de classe, das formas de luta, da direção partidária, da tomada do poder, da vanguarda, da burocratização etc., todos presentes quando nos debruçamos sobre a calorosa Rússia de 1917, adquirem total importância nos tempos de hoje. Aqueles que se mantém revolucionários neste 7 de novembro de 2017 devem lançar seus olhos para o passado, manter suas mentes no presente e depositar suas esperanças no futuro. Há exatos cem anos, os famélicos da terra mostraram que era possível.

    Foto: Comitê Militar Revolucionário

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  • 14 mentiras e bobagens sem sentido ditas na matéria do Fantástico sobre a Revolução Russa

    Por: Henrique Canary, colunista do Esquerda Online

    No último domingo, dia 29 de outubro, foi ao ar no Fantástico uma matéria supostamente histórica e supostamente informativa sobre o centenário da Revolução Russa. A reportagem, assinada por Pedro Vedova, é um amontoado de bobagens sem sentido, distorções históricas, mentiras, anacronismos, apelos sensacionalistas e tudo mais que existe de pior no jornalismo da Globo.

    É incrível como é fácil hoje em dia fazer reportagens banais sobre a Revolução Russa! Basta uma rápida pesquisa nos arquivos de imagens da internet, algumas cenas de algum filme de Serguei Eisenstein, algumas tomadas aéreas de drones em Moscou ou São Perterburgo e… voi lá! Eis uma reportagem! Despreza-se a verdade histórica em nome de um sensacionalismo barato que só tem como objetivo destruir a imagem da Revolução Russa e do socialismo no imaginário popular.

    Para não nos alongarmos, trataremos, uma por uma, as 14 bobagens sem sentido, mentiras e distorções presentes na péssima matéria que foi ao ar.

    1) Diz a reportagem, referindo-se à dimensão territorial da Rússia: Para controlar esse gigante, os russos recorreram a autocratas, soberanos que exercem um poder absoluto”.

    Bobagem sem sentido. Essa tese não é nova, e não se confirma pela pesquisa histórica séria. Não há uma relação direta entre extensão territorial e regime político. Se fosse assim, o povo russo estaria condenado a viver eternamente sob uma ditadura. Aliás, o objetivo dessa frase senso-comum é justamente esse: insinuar a ideia de que a Rússia sempre foi e sempre será uma ditadura, não importa o que aconteça.

    2) Diz a reportagem, referindo-se à diversidade nacional russa: “São mais de 100 etnias dentro da Rússia

    Impreciso. Dados do último censo completo (2010) mostram que a Federação Russa é habitada por cerca de 460 povos. Isso inclui povos numerosos, como os russos (111.016.896 de pessoas) e os tártaros (5.310.649 de pessoas). Mas existem também 84 povos que têm apenas um representante, como o iuguen, o eves, o yakholchu e muitos outros. Evidentemente, são povos em via de extinção, mas reconhecidos hoje como existentes.

    O mesmo ocorre com as línguas. No território da Federação Russa são falados cerca de 170 idiomas. Alguns amplamente, como o russo (137.494.893 falantes), ou o tchetcheno (1.354.705 falantes), até idiomas falados por uma única pessoa, como o iugski, o khiri-moto, o bakve e tantos mais. Também são línguas em extinção, mas existem.

    3) Diz a reportagem, referindo aos sovietes: “O povo ganhou voz nos sovietes, palavra russa para ‘conselho’. Lenin liderava a ala mais radical, os bolcheviques, ‘maioria’ em russo

    Confusão e desinformação. É verdade que o povo ganhou voz nos sovietes. Mas a frase seguinte fala dos bolcheviques, passando a ideia errada de que os bolcheviques eram a ala mais radical dos sovietes. Isso é uma besteira. Os bolcheviques eram a ala mais radical do Partido Operário Social-Democrata Russo, fundado em 1898.

    4) Diz a reportagem, referindo-se ao reinado de Nikolai II: “Um ano depois da coroação do novo czar, Nikolai II (1895), Lenin foi exilado

    Impreciso. Primeiro: a data está errada. Nikolai II foi coroado em 1896, e não 1895. Mas tudo bem. O fato em si é verdadeiro, mas a frase é dita depois do trecho sobre os sovietes e os bolcheviques, passando uma visão cronológica completamente errada sobre o processo. Primeiro veio a coroação do novo czar (1896) e o exílio de Lenin (1897), depois vieram os bolcheviques (1903) e os sovietes (1905), e não o contrário, como sugere a reportagem.

    Aproveito para dizer que na cerimônia de coroação de Nikolai II houve um tumulto generalizado onde morreram pisoteadas 1.429 pessoas e cerca de 9.000 ficaram feridas. Na noite do mesmo dia, Nikolai II compareceu a um banquete oferecido pela Embaixada da França, como se nada tivesse acontecido. Eis o “inocente” e “humano” Nikolai II. Mas voltaremos a ele mais tarde.

    5) Diz a reportagem, referindo-se às consequências da Guerra Russo-Japonesa: “O protesto mais famoso ficou conhecido como Domingo Sangrento

    Desinformação. Por que foi sangrento? Quem derramou o sangue de quem? Da forma como foi dito, parece que a violência foi exercida pelos manifestantes (vândalos mascarados? black blocs?). Pois vamos aos fatos: o Domingo Sangrento foi um protesto absolutamente pacífico que se dirigiu ao palácio do governo na manhã do dia 9 de janeiro de 1905 para informar o czar (os manifestantes eram tão ingênuos que pensavam que o czar estava mal informado sobre a situação no país) sobre os horrores da guerra e pedir a ele medidas. Com medo e ódio do povo, o czar mandou abrir fogo contra a multidão. O governo do czar admite 930 mortes e 333 feridos. Mas fontes independentes falam de pelo menos 1.500 mortos e cerca de 4.000 feridos.

    Aproveito para lembrar mais mortes: as causadas pela própria Guerra Russo-Japonesa, ou seja, mortes a mando do czar Nikolai II. Foram 71.453 mortos e 146.032 feridos segundo fontes oficiais. Anotaram? Não? Pois anotem, porque haverá mais mortes a mando dele ainda neste artigo.

    6) Diz a reportagem, referindo-se à Revolução de Fevereiro: “As pessoas foram para as ruas e aconteceu uma revolução apartidária

    Isso é uma bobagem tão grande, que é difícil classificar. Em história, chama-se “anacronismo” (do grego ἀνά “contra” e χρόνος “tempo”, ou seja, algo como “fora do tempo” em tradução livre). Significa atribuir a uma época passada valores e conceitos que não existiam, ou julgar essa época passada segundo os valores que temos hoje em dia.

    Então, primeiro que o conceito de “apartidário” não existia. Segundo, mesmo que existisse, não seria o caso da Revolução de Fevereiro. A Revolução de Fevereiro foi uma revolução espontânea (não preparada). Isso é verdade. Mas dizer “apartidária” passa a falsa impressão de que os partidos políticos não tiveram participação no processo.

    A matéria deveria ter dito que o governo que assumiu era bem “partidário”! Seus membros eram, quase todos, do partido dos constitucionalistas-democratas, um partido liberal de oposição ao czar.

    A bobagem sobre o “apartidarismo” da Revolução de Fevereiro tem um objetivo claro: insinuar que a Revolução de Fevereiro foi uma revolução verdadeira e genuína, enquanto a Revolução de Outubro (consciente, preparada) teria sido um simples “golpe” dos bolcheviques. Quem diz essa estupidez precisa explicar como um simples “golpe” conseguiu mudar a história da humanidade! E se foi um mero “golpe” sem legitimidade, por que os bolcheviques não foram derrubados logo em seguida? Como conseguiram mobilizar um exército voluntário de 5 milhões de pessoas para defender esse “golpe”? Será que 5 milhões de pessoas armadas e prontas para entregar a própria vida não é uma prova de que estamos diante de uma… revolução?

    7) Diz a reportagem sobre o retorno de Lenin à Rússia, depois da Revolução de Fevereiro: “Ele (Lenin) trazia as Teses de Abril, resumidas no lema “Paz, Pão e Terra”.

    Impreciso. Primeiro que Lenin não “trazia” as Teses de Abril, porque Lenin não era Moisés e as Teses de Abril não eram os 10 Mandamentos que Moisés trouxe da Monte Sinai. Na verdade, as Teses de Abril foram escritas por Lenin na própria Rússia (embora as ideias fundamentais já tivessem sido expressas por ele em cartas enviadas da Suíça à Rússia). Mas o mais importante não é isso. O mais importante é que é imprecisa a identificação das Teses de Abril unicamente com o lema “Pão, Paz e Terra”. Havia outras organizações que defendiam esse mesmo lema. O centro das Teses de Abril era a ideia de que o Governo Provisório não daria “pão, paz e terra” e que, justamente por isso, era preciso continuar a revolução e instaurar um governo dos sovietes, que desse pão, paz, terra e também uma nova constituinte. Portanto, o centro das Teses de Abril era “Todo o poder aos sovietes!”. Era isso que distinguia os bolcheviques dos outros partidos, não “Pão, Paz e Terra”.

    8) Diz a reportagem, referindo-se à Revolução de Outubro: “Os bolcheviques começaram outra revolução”.

    Bobagem. Os bolcheviques não “começaram outra revolução”. Na verdade, o processo revolucionário continuou se desenvolvendo desde fevereiro, e culminou com uma insurreição armada dirigida pelo Soviete de Petrogrado na noite de 24 para 25 de outubro (6 para 7 de novembro, segundo o calendário gregoriano).

    Mas, o mais importante é: Por que o processo continuou? Por que as pessoas continuaram mobilizadas até outubro? Por que não se “contentaram” com a queda do czar? Exatamente porque o Governo Provisório (capitalista) não cumpriu nenhuma de suas promessas. A Revolução de Fevereiro foi vitoriosa no sentido de derrubar o czar, mas foi fracassada em seus propósitos mais profundas: a Rússia se manteve na Primeira Guerra Mundial, não foi feita a reforma agrária, as cidades continuaram passando fome, a república não foi decretada. Justamente por isso, os operários, camponeses e soldados (e não os malvados bolcheviques) fizeram outra revolução. Os bolcheviques organizaram e dirigiram a revolução. Quem a “fez” foi o povo.

    E já que falamos em guerra, chegou agora a hora de lembrar mais mortes provocadas pelos desmandos de Nikolai II: na Primeira Guerra Mundial morreram 2 milhões de soldados russos e 5 milhões ficaram feridos, tudo isso porque Nikolai II queria agradar a França e a Inglaterra e estava interessado em alguns territórios do Império Austro-Húngaro e do Império Alemão. Eis a grande vítima da “crueldade bolchevique”.

    9) Diz a reportagem sobre a derrubada do Governo Provisório: “O Governo Provisório se escondeu no Palácio de Inverno, mas se rendeu sob a mira do navio Aurora”.

    Impreciso. Teria que dizer que Kerenski, chefe do Governo Provisório, fugiu antes, com medo, e deixou seus ministros sozinhos no Palácio de Inverno para “defenderem o governo”. Também não é certo que os ministros se renderam “sob a mira do navio Aurora”. Na verdade, o cruzador Aurora tinha ordens para atirar apenas com tiros de festim. A rendição dos ministros foi algo muito mais patético do que trágico. Foi assim:

    Na noite do dia 25 para o dia 26, alguns ministros de Kerenski continuavam reunidos no interior do Palácio de Inverno, que neste momento era defendido apenas por alguns estudantes do Colégio Militar e por um batalhão feminino fiel ao Governo Provisório (todas as outras unidades do exército já haviam passado para o lado dos rebeldes). O Comitê Militar Revolucionário (órgão subordinado ao Soviete de Petrogrado) designou o bolchevique e oficial de carreira do exército Vladimir Antonov-Ovseenko para dirigir o assalto ao palácio. Antonov-Ovseenko determinou que o cruzador de guerra Aurora, ancorado no rio Neva, se deslocasse para a frente do Palácio de Inverno, localizado junto ao rio, e apontasse seus canhões contra o prédio.

    Por terra, do lado oposto, as tropas revolucionárias se posicionaram na entrada do palácio. Às 21:40 o Aurora disparou seu canhão de proa com um tiro de festim, dando o sinal para a invasão do prédio. Em 15 minutos de tiroteio, metade do contingente que defendia o palácio já havia abandonado suas posições. À 00:40 do dia 26, os rebeldes conseguiram finalmente entrar no prédio. No interior do edifício, os dois lados queriam evitar ao máximo um banho de sangue. Assim, quase uma hora se passou em negociações nos corredores escuros do palácio até que um pequeno grupo de soldados rebeldes, liderados pessoalmente por Antonov-Ovseenko, conseguiu chegar à sala luxuosa de paredes brancas onde os últimos membros do Governo Provisório estavam reunidos ao redor de uma enorme mesa de mármore. O diálogo que se seguiu foi o seguinte:

    Vocês são o Governo Provisório? – perguntou Antonov-Ovseenko, em tom seco.

    Somos. O que o senhor deseja? – respondeu A. I. Konovalov, vice primeiro-ministro do governo.

    Em nome do Comitê Militar Revolucionário, informo-lhes que os senhores estão todos presos!

    E todos foram presos. Assim acabou o Governo Provisório. De forma patética, não heroica.

    10) Diz a reportagem, referindo-se à Assembleia Constituinte: “Os bolcheviques não eram unanimidade, tanto que perderam a primeira eleição, mas assumiram o governo na marra”.

    Mentira e bobagem. A reportagem confunde fatos distintos. Os bolcheviques formaram um governo de coalizão com os socialistas-revolucionários de esquerda em 26 de outubro. Esse governo foi legitimado pelo II Congresso dos Sovietes, que detinha todo o poder no país. Ou seja, os bolcheviques não assumiram nada “na marra”. Foram eleitos em um congresso que representava todo povo trabalhador da Rússia. Em novembro de 1917 houve eleições para a Assembleia Constituinte. O governo bolchevique garantiu a realização das eleições e apresentou seus candidatos, obtendo o segundo lugar na votação, mas vencendo entre os soldados e nos centros urbanos mais concentrados. É bom lembrar também que menos da metade dos eleitores aptos a votar participaram das eleições.

    Quando a Assembleia Constituinte se reuniu, em 18 de janeiro de 1918, os bolcheviques fizeram uma proposta simples: propuseram que o órgão reconhecesse os três principais decretos aprovados pelo II Congresso dos Sovietes: 1) O Decreto sobre a Paz (que preparava a saída da Rússia da Guerra), 2) o Decreto sobre a Terra (que distribuía as terras aos camponeses) e 3) o Decreto sobre o Controle Operário (que entregava as fábricas do país nas mãos dos trabalhadores). Além disso, propuseram que a Assembleia Constituinte reconhecesse a legitimidade do poder dos sovietes. A maioria dos deputados constituintes se negou a reconhecer os decretos do governo dos sovietes. Então, os bolcheviques e os socialistas-revolucionários de esquerda abandonaram a sessão.

    No dia seguinte, o Comitê Executivo dos Sovietes (e não os bolcheviques, como sugere a reportagem) aprovou um decreto dissolvendo a Assembleia Constituinte por sua negativa em reconhecer o poder soviético.

    11) Diz a reportagem sobre o regime político sob o governo bolchevique: “O poder passou dos sovietes para Lenin

    Mentira e bobagem sem sentido. Lenin foi, desde o início, o maior defensor do poder dos sovietes. Lenin era chefe de governo, ou seja, chefe do poder executivo. E como tal, possuía um grande poder, mas ele era eleito pelo Comitê Executivo dos Sovietes, que correspondia ao poder legislativo. O regime político sob Lenin, dentro das limitações impostas pela Guerra Civil que durou três anos, foi dos mais democráticos que a humanidade jamais conheceu. Prova disso é o florescimento das artes, da literatura, das ciências, das associações, clubes culturais, movimentos artísticos etc. Lenin fez seguidos e variados esforços para manter vivos os sovietes, que foram se tornando cada vez menos ativos à medida que a revolução socialista não avançava na Europa e a Revolução Russa se via cada vez mais isolada. Lenin percebeu o incipiente processo de burocratização e lutou contra ele com todas as suas últimas e parcas forças. Todos os seus escritos de 1922-1923 são parte da luta contra a burocratização do jovem Estado soviético. Estes artigos estão na internet, acessíveis a qualquer pessoa alfabetizada. E poderiam ter sido lidos por Pedro Vedova antes dele dizer as bobagens que disse.

    12) Diz a reportagem, referindo-se à Guerra Civil: “Os bolcheviques começaram o terror vermelho”.

    Mentira. O terror vermelho foi uma resposta ao terror branco, promovido pelos restos do Exército Czarista e pelos exércitos das grandes potências estrangeiras (14 no total), que invadiram a Rússia, na tentativa de afogar a revolução em sangue. Em junho de 1918 Lenin sofreu um atentado. Isso também é omitido por Pedro Vedova, que fala na deterioração de sua saúde sem mencionar o fato de que essa deterioração foi sequela do atentado sofrido. A revolução se defendeu. Montou um exército de 5 milhões de homens e mulheres e recuperou todo o terreno perdido. O terror vermelho foi aplicado contra o inimigo armado, não contra a população. O Exército Branco, ao contrário, por onde passava, enforcava a população civil que apoiava os bolcheviques.

    13) Diz a reportagem, referindo-se à economia soviética: “Para reerguer a economia, Lenin fez um alistamento obrigatório para o trabalho

    Estupidez e confusão. De onde Pedro Vedova tirou isso? Só posso imaginar. É verdade que este debate ocorreu entre os bolcheviques, mas essa proposta foi rejeitada! Nunca foi implementada. O caráter ideológico desta afirmação é evidente: a Globo quer explicar os incríveis sucessos econômicos da União Soviética pela lenda da “escravização completa de toda a população pelo Estado”, quando na verdade, todo o sucesso econômico da URSS deve-se à extinção da propriedade privada, ou seja, exatamente a extinção da escravidão capitalista. É tudo exatamente o oposto do que Pedro Vedova afirma.

    14) Diz a reportagem, referindo-se à ascensão de Stalin ao poder: “Na disputa pelo poder, Stalin derrotou Trotski

    Confusão. Trata o conflito Trotski-Stalin como um conflito “pelo poder”. Não foi. Era um conflito entre dois programas distintos, duas propostas absolutamente antagônicas: uma que mantinha viva a chama de Outubro, e outra que queria reduzir a revolução às fronteiras da URSS. Aqui também o caráter ideológico da afirmação é claro: querem passar a ideia de que “eram todos iguais”. Não eram. Stalin lutava pelo poder pessoal. Trotski lutava por um programa. Se Trotski lutasse por poder pessoal, teria se acomodado e aceitado os rumos que a revolução tomou. Mas não aceitou. Lutou contra degeneração stalinista e se manteve firme até ser assassinado por Stalin, em 1940, quando estava exilado no México.

    Uma coisa ficou evidente depois da matéria do Fantástico: os grandes meios de comunicação tentaram, mas não puderam ignorar o centenário da Revolução Russa. Os exploradores e opressores do mundo inteiro tremem com a ideia de que um dia a experiência de Outubro possa se repetir. O canhão do Aurora ainda os faz saltar da cama. Os gritos dos soldados revoltosos nos corredores escuros do Palácio de Inverno ainda assombram as suas noites. O eco daquelas grandiosas batalhas ainda pode ser ouvido na imensidão da história, ainda faz trepidar o enorme edifício da mentira e da exploração capitalista. A Revolução Russa é o mais terrível pesadelo das classes dominantes. Para os explorados e oprimidos, porém, é uma fonte inesgotável de orgulho, inspiração e coragem.

    Foto: Reprodução TV Globo

  • Cem anos depois: Quem são, hoje, os adversários de 1917?

    Por Felipe Demier, Professor da UERJ e militante da NOS

    Uma anedota sobre a antiga União Soviética dizia que nos livros de história do país o futuro era certo, e o passado, imprevisível. De Stálin a Gorbachev, a cada cúpula burocrática que ascendia ao poder a historiografia oficial via-se impelida a realizar novas alterações nos tempos pretéritos, mudando não só a interpretação de certos fatos, como inserindo novos personagens e apagando outros. A sarcástica anedota encontra um paralelo científico em certa advertência feita por historiadores marxistas contemporâneos que, argutamente, nos lembraram de que a história feita pelos pesquisadores é sempre a história do tempo presente, isto é, que as análises do passado não são desvinculadas dos projetos societários abraçados por aqueles que as fazem. Tanto a anedota soviética quanto a advertência científica parecem perfeitamente apropriadas aos debates ocorridos quando de importantes efemérides, nos quais historiadores, cientistas sociais, jornalistas e intelectuais se enfrentam tanto no passado, quanto no presente. Argumentos são esgrimidos e atraentes polêmicas são travadas. Ao que tudo indica, este é o caso do presente centenário da Revolução Russa de outubro de 1917.

    Quando a Revolução Francesa completou seu bicentenário, em 1989, o historiador britânico Eric Hobsbawn percebeu como as polêmicas que então se davam sobre o tema permitiam dividir seus participantes em dois campos: os defensores e os adversários da Grande Revolução. Naquela ocasião – destacou Hobsbawn –, em função do avanço do neoliberalismo, pareciam predominar no mainstream acadêmico, jornalístico e político os participantes do segundo campo. Atualmente, o mesmo parece já ocorrer com o centenário soviético, quando os adversários hodiernos da Revolução Russa vêm obtendo, claro, mais espaço e público para suas diatribes dirigidas à primeira experiência vitoriosa de uma revolução realizada por trabalhadores e trabalhadoras. Embalados pela Onda Conservadora, os amantes mais ou menos declarados da reacionária ordem atual se esforçam para deslegitimar os feitos de Outubro de 1917, tratando-os, todos, como expressões de um terrorismo despropositado desencadeado por massas manipuladas por dirigentes sanguinários ávidos por edificar e preservar um poder despótico.

    Nesse raciocínio, os adversários contemporâneos de Outubro parecem apenas reeditar o esquema analítico dos adversários neoliberais da revolução francesa quando de seu mencionado bicentenário, substituindo apenas os personagens da trama: se o “ignorante” proletariado de São Petersburgo assume o papel dos “raivosos” sans-culottes parisienses, o “criminoso” partido bolchevique toma o lugar do “terrorista” clube jacobino e, óbvio, os tiranos Lênin, Trotsky, Sverdlov e demais artífices da tomada do Palácio de Inverno substituem os “irascíveis” Robespierre, Danton, Marrat e cia. Segundo seus atuais detratores, a Revolução Russa não teria sido senão a consumação de um projeto totalitário, gestado, pelo menos, desde 1903 pelos bolcheviques, ao passo que Lenin não passaria de um antecessor – e mesmo um preparador político – de Stálin na sucessão de um regime despótico iniciado com a queda do Governo Provisório de Kerensky.

    O que vertebra, portanto, a argumentação dos atuais adversários de Outubro é a tese de que o estalinismo seria uma simples continuidade linear do leninismo, cuja essência seria um projeto político de corte totalitário que acabou por se estabelecer em face de massas populares atrasadas, analfabetas e impotentes. Durante um bom tempo, no espírito da “guerra fria”, a historiografia e ciência política liberais, em especial as de influência norte-americanas, trabalhavam com a noção de um “povo russo” (incluindo aí as outras nacionalidades não russas que integravam a extinta União Soviética) subjugado por uma ditadura totalitária implantada por Lênin e Trotsky, e simplesmente continuada por Stalin e seus sucessores. De uns anos pra cá, antenados com a perspectiva revisionista que impregna boa parte das pesquisas históricas – e que já havia se apresentado com força quando do bicentenário da Revolução Francesa, como notou Hobsbawn –, uma certa corrente historiográfica, também de matiz liberal, passou a afirmar que o próprio “povo russo” nutriria secularmente uma concepção autoritária acerca das relações sociais e políticas (uma “cultura política autoritária”), e, nesse sentido, teria tido na ditadura inaugurada em 1917 uma expressão estatal compatível com sua subjetividade e anseios políticos. Para tal corrente interpretativa de Outubro, não só Stalin teria sido um legítimo sucessor e continuador de Lênin, como este último, por sua vez, teria – após um breve interregno entre fevereiro e outubro de 1917 – sucedido a dinastia dos Romanov enquanto representante político de uma “sociedade autoritária”.

    Destaquemos aqui, brevemente, dois aspectos que estruturam as narrativas produzidas por este grande campo liberal dos intérpretes de Outubro, isto é, destes adversários, no passado e no presente, da Revolução Russa.

    O primeiro deles é que não é difícil notar em suas perspectivas analíticas o culto à democracia liberal como a forma plena e perfeita de organização política da espécie humana, o que leva a uma virulenta condenação dos bolcheviques, e mesmo do “povo russo”, no caso dos revisionistas, por terem dela se afastado. A essa dimensão idealista, soma-se um indisfarçável anacronismo. Não só a democracia representativa – com todos os seus inexpugnáveis ingredientes repressivos contra o movimento operário, não custa lembrar – só existia, quando da Revolução de Outubro, em algumas poucas nações originárias do capitalismo industrial (com destaque para Inglaterra, França e Estados Unidos), como o desenvolvimento desigual e combinado da industrialização na atrasada formação histórico-social russa não permitia que um regime democrático-liberal aparecesse como uma opção exequível no cardápio político do país. Esta impossibilidade democrático-liberal, por assim dizer, ficou evidente em todo o comportamento da burguesia russa ao longo das duas primeiras décadas do século XX. Sem jamais ter desafiado seriamente o absolutismo czarista empunhando um programa democrático, nem mesmo tendo buscado qualquer tipo de aproximação com as ingentes massas camponesas ou mesmo com a numericamente reduzida, porém socialmente concentrada, classe operária do país, a burguesia liberal russa foi conduzida ao poder em fevereiro de 1917 por meio de uma revolução popular na qual ela não tomou parte. De porte do leme do Estado, não ousou, até ser deposta por uma insurreição operária meses depois, tomar nenhuma só medida de cunho democrático. O Governo Provisório não foi capaz de alterar em um milímetro a nobiliárquica estrutura agrária do país, não atendeu às reivindicações por direitos sociais dos trabalhadores fabris, não garantiu nenhum direito às nacionalidades oprimidas pelo império czarista, protelou ao máximo as eleições para uma assembleia constituinte e, por fim, não ousou retirar o país de uma guerra a qual, interessante apenas para as burguesias imperialistas do Ocidente, lhe custava milhões de vidas camponesas no front, acirrava a fome no campo e intensificava a carestia nas cidades. Não satisfeita em nada fazer para edificar um regime democrático-liberal, tal como preconizado pelos mencheviques (e mesmo pelos “velhos bolcheviques” – como Zinoviev, Kamenev e Stalin – até a chegada de Lênin em abril), a burguesia russa conspirou incessantemente para derrubar a possibilidade de sua construção. O apoio da maioria da burguesia russa e seus partidos ao levante de Kornilov deixou evidente que a classe dominante do país buscava não só derrubar o seu próprio Governo Provisório (por demais “democrático” e permeável à presença de lideranças advindas de partidos ligados aos trabalhadores), como desejava substituí-lo por uma ditadura militar restauracionista.

    Desse modo, não seria equivocado dizer que os liberais historiadores de hoje são os únicos que, retrospectivamente, desejam verdadeiramente que houvesse tido uma democracia liberal na Rússia de 1917, ao passo que os liberais de ontem, mais realistas, sabiam muito bem que só uma cruenta ditadura poderia lhes salvar a pele e a propriedade. O desejo dos historiadores liberais de hoje por um regime democrático-liberal na Rússia de cem anos atrás diz mais sobre o seu apego a nossa insípida democracia representativa do século XXI, cada vez mais blindada às aspirações populares, do que propriamente sobre a possibilidade real de sua implantação na sociedade russa do início do século XX. Tomando a revolução como um terrível e lamentável acidente dentro de um inelutável curso “democrático-liberal” dos povos, os analistas liberais do passado não intentam mais do que fechar as portas da história a ela no futuro. Seus verbos estão no pretérito, mas suas armas, no presente.

    O segundo aspecto a ser destacado referente a estas tendências historiográficas hostis a Outubro é sua junção proposital entre dois momentos, duas fases distintas do processo aberto com a tomada do poder pelos bolcheviques, o que se verifica na já mencionada concepção liberal de que o stalinismo não teria sido senão uma evolução natural do leninismo. Muitos argumentos poderiam ser utilizados para refurtar tal assertiva, e desde há muito tempo as pesquisas históricas disponibilizam dados à porfia que evidenciam profundas diferenças, em vários níveis da vida social e política, entre os períodos anterior e posterior a 1928, quando já se pode falar em uma consolidação do estalinismo na União Soviética. O aumento significativo da diferença salarial, a reaparição da prostituição, o desrespeito à autonomia das nacionalidades não russas, o crescimento exponencial de uma casta burocrática privilegiada e a proibição a qualquer tipo de divergência política no interior do partido bolchevique são alguns dos muitos elementos que, já nos anos 1930, expressavam as profundas mudanças ocorridas no tecido social soviético em função das opções políticas e econômicas da camarilha estalinista que se assenhoreou do poder após a morte de Lênin, em 1924. No entanto, para refutar a tese liberal em tela bastaria assinalar o fato de que, sob ordens de Stalin, milhares de revolucionários do período 1917-1924, entre eles praticamente todos os componentes do comitê central presidido por Lênin quando da Revolução de Outubro, foram presos, enviados a campos de trabalho forçado e fuzilados. Na sede da tenebrosa Lubianka, muitos dos íntimos colaboradores de Lênin foram barbaramente torturados para, com suas famílias feitas reféns, confessar crimes inexistentes e depois assassinados impudentemente. Assim, falta aos adeptos da tese da continuidade Lênin-Stalin explicar por que o último, um “mero continuador”, teve que eliminar fisicamente praticamente todos os aliados do primeiro, “seu mestre”.

    Buscando contornar essa incontornável objeção, muitos dos intérpretes liberais de Outubro se refugiam na afirmação de que, sob o comando de Lênin e Trotsky, o aparelho repressivo também vitimou milhares de pessoas. Tratando abstratamente a violência, esses intérpretes perdem de vista o conteúdo histórico social da repressão da qual lançou mão o jovem regime revolucionário, imerso em uma guerra civil resultante da ofensiva militar desencadeada pelos adeptos da velha ordem aliados a exércitos de mais de uma dezena de nações capitalistas que invadiram o país. Salvo condenáveis exceções (como o crasso erro em Kronstad), foi contra estas forças militares contrarrevolucionárias que os bolcheviques de Lenin e Trotsky dirigiram suas armas, e não contra os próprios revolucionários, como faria posteriormente Stalin. Tentar igualar historicamente ambas as repressões por serem ambas repressivas é tão despropositado como querer igualar – para lembrarmos mais uma vez o caso francês – Robespierre tanto aos girondinos do Diretório, quanto a Luís XVI e sua entourage absolutista, pelo simples fato de que todos eles deceparam a cabeça de seus inimigos. Convém lembrar, ainda, que, diferentemente do incorruptível chefe jacobino, Lênin e Trotsky não executaram nenhum só dos seus Dantons.

    Por fim, ao igualar Lênin a Stalin, o que fazem os intérpretes liberais de Outubro é, simplesmente, igualar a revolução à contrarrevolução. Nesse ponto, aliás, convergem inteiramente com os decrépitos estalinistas do presente. Tanto uns quanto outros maculam a revolução em sua história, fazendo-a assumir os crimes dos seus corrosivos inimigos internos do passado. Com isso, sejam eles críticos ou apologetas do Outubro centenário, não passam, no presente, de irreconciliáveis inimigos daqueles que não suportam esperar mais cem anos para outra revolução socialista.

    Imagem: Capa do livro 100 anos depois: A revolução russa de 1917 organizado por Felipe Demier e Márcio Lauria Monteiro. Lançamento dia 25 de outubro, na livraria blooks ( Praia de Botafogo, 316 no Rio de Janeiro) às 19 horas.

  • As jornadas de julho

    Os bolcheviques queriam evitar o destino da Comuna de Paris. Foi por essa razão que eles não tomaram o poder em julho de 1917

    Manifestação política em 18 de junho de 1917, em Petrogrado. No banner à esquerda lê-se: "Paz para todos - Todo o Poder ao Povo - Toda Terra para o Povo" e no banner à direita lê-se: "Fora os ministros-capitalistas"; estas eram palavras de ordem Bolcheviques.

    Manifestação política em 18 de junho de 1917, em Petrogrado. No banner à esquerda lê-se: “Paz para todos – Todo o Poder ao Povo – Toda Terra para o Povo” e no banner à direita lê-se: “Fora os ministros-capitalistas”; estas eram palavras de ordem Bolcheviques.

    Por: Daniel Gaido, pesquisador do Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Técnica (Conicet), Argentina.

    Publicado originalmente na Jacobin

    Tradução: Wilma Olmo Corrêa

    Em 1917, a Rússia tinha mais de 165 milhões de cidadãos, dos quais apenas 2,7 milhões moravam em Petrogrado. A capital tinha 390 mil trabalhadores de fábrica – um terço eram mulheres – 215.000 a 300.000 soldados como tropas aquarteladas, e cerca de 30 mil marinheiros e soldados estacionados na base naval de Kronstadt.

    Após a Revolução de fevereiro e a abdicação do Czar Nicolau II, os sovietes, liderados pelos mencheviques e os socialistas revolucionários, cederam o poder a um governo provisório não eleito que se inclinava a continuar com o envolvimento da Rússia na Primeira Guerra Mundial e a atrasar a reforma agrária até as eleições da Assembleia Constituinte, cuja data foi logo em seguida adiada indefinidamente.

    Esses mesmos sovietes também haviam exigido a criação de Comitês de Soldados e os instruíram a desobedecer quaisquer ordens oficiais contrárias às ordens e decretos dos Representantes do Soviete dos Trabalhadores e dos Soldados.

    Essas decisões contraditórias produziram uma estrutura de poder dual e instável marcada por crises regulares do governo.

    A primeira dessas crises estourou em abril de 1917 durante a guerra e terminou depois que os principais líderes políticos burgueses – Pavel Milyukov do Partido cadete (Partido Democrático Constitucional) e Alexander Guchkov do Partido Outubrista – foram expulsos. Além disso, revelou a impotência do governo na guarnição de Petrogrado: as tropas respondiam ao Comitê Executivo do Soviete de Petrogrado e não ao então comandante, o General Lavr Kornilov.

    Ordem número 1 do Soviete de Petrogrado, emitida em 14 de março de 1917. Este documento exorta às unidades a elegerem comitês de soldados, a enviarem representantes para o Soviete e a obedecerem seus oficiais e o Governo Provisório somente se suas ordens não contradissessem as ordens e decretos do Soviete de Petrogrado. Todas as armas deveriam ser entregues a esses comitês "e, de forma alguma serem entregues aos oficiais, mesmo sob pedido".

    Ordem número 1 do Soviete de Petrogrado, emitida em 14 de março de 1917. Este documento exorta às unidades a elegerem comitês de soldados, a enviarem representantes para o Soviete e a obedecerem seus oficiais e o Governo Provisório somente se suas ordens não contradissessem as ordens e decretos do Soviete de Petrogrado. Todas as armas deveriam ser entregues a esses comitês “e, de forma alguma serem entregues aos oficiais, mesmo sob pedido”.

    O governo de coalizão que emergiu desta crise incluiu nove ministros dos partidos burgueses e seis dos chamados partidos socialistas. O príncipe Georgy Lvov permaneceu Primeiro Ministro e Ministro do Interior, mas o Ministro da Guerra e da Marinha Alexander Kerensky, membro do Partido Socialista Revolucionário, logo se tornou uma estrela em ascensão no governo. O gabinete também incluiu o menchevique Irakli Tsereteli como ministro dos Correios e Telégrafos e Matvey Skobelev como ministro do Trabalho. Os revolucionários socialistas Viktor Chernov e Pavel Pereverzev também se juntaram à coalizão como Ministro da Agricultura e ministro da Justiça, respectivamente.

    O Partido Bolchevique no Verão de 1917
    Os Bolcheviques lutaram durante a primeira metade de 1917. Eles inicialmente se opuseram à manifestação do Dia Internacional da Mulher, que levou à Revolução de Fevereiro. O Partido Bolchevique experimentou, em seguida, uma forte guinada à direta em meados de março, quando Lev Kamenev, Josef Stalin e M. K. Muranov retornaram da Sibéria e assumiram o órgão de comunicação do partido, o Pravda. Sob o controle deles, o jornal defendia o apoio crítico ao Governo Provisório, rejeitava o slogan “Abaixo a guerra” e pedia o fim das atividades desorganizadoras no front.

    Essas posições contrastavam fortemente com as visões que Lenin expressava em suas “Cartas de Longe”, por isso não é surpresa que o Pravda publicasse apenas a primeira dessas Cartas, com  inúmeras exclusões. De acordo com o testemunho de Alexander Shlyapnikov:

    O dia da publicação do primeiro número do “Novo Pravda”, 15 de março, foi um dia de triunfo para os “defensistas”. Todo o Palácio Tauride, desde os membros do Comitê da Duma até o Comitê Executivo, o coração da democracia revolucionária, estava repleto com uma notícia – a vitória dos bolcheviques moderados e razoáveis sobre os extremistas. No próprio Comitê Executivo, fomos recebidos com sorrisos venenosos.

    Esses pontos de vista prevaleceram entre os líderes bolcheviques em Petrogrado quando, em 3 de abril, Lenin chegou à Estação Finlândia. No dia seguinte, ele apresentou as suas famosas “Teses de Abril” aos delegados bolcheviques na Conferência dos Sovietes de Toda a Rússia. Em contraste com Kamenev e Stalin, Lenin reafirmou seu repúdio total ao “defensismo revolucionário” e defendeu a fraternidade no front. Ele também adotou a perspectiva de Leon Trotsky, caracterizando o “momento atual” como uma transição entre o primeiro estágio “burguês-liberal” da revolução e o segundo estágio “socialista”, durante o qual o poder seria transferido para as mãos do proletariado.

    Lenin se opôs ao “apoio crítico” de Stalin e Kamenev ao Governo Provisório, e solicitou a rejeição total a tal Governo bem como a dissipação da noção de que os bolcheviques e os mencheviques menos radicais poderiam se reunificar. Daí em diante, os bolcheviques chamaram à transferência de todo o poder aos Sovietes, que passariam então a armar o povo, abolir a polícia, o exército e a burocracia estatal, bem como confiscar todos os latifundiários e transferir o controle de produção e distribuição aos trabalhadores.

    Na Sétima (abril) Conferência do Partido Bolchevique de toda a Rússia, realizada em Petrogrado de 24 a 29 de abril, as posições de Lênin sobre a guerra e o Governo Provisório ganharam o apoio da maioria.

    A primeira página das "Teses de Abril" de Lenin, como originalmente publicada no Pravda.

    A primeira página das “Teses de Abril” de Lenin, como originalmente publicada no Pravda.

    O partido bolchevique permaneceu pequeno no início de 1917, com apenas cerca de dois mil membros em Petrogrado, constituindo apenas 0,5% da classe trabalhadora industrial da cidade. Na abertura da Conferência de Abril, no entanto, o número de membros do partido havia aumentado para dezesseis mil na capital. No final de junho, ele tinha dobrado. Dois mil soldados aquartelados se juntaram à Organização Militar Bolchevique e mais quatro mil se associaram ao Clube Pravda, uma organização não partidária para o pessoal militar, operada pela Organização Militar Bolchevique.

    Esse crescimento maciço no número de membros transformou a organização. Suas fileiras cresceram com recrutas impetuosos que pouco sabiam sobre o marxismo, mas que estavam ansiosos por uma ação revolucionária.

    Enquanto isso, os bolcheviques começaram a incorporar as organizações existentes. Em 4 de maio, no dia anterior à formação do governo da coalizão, Trotsky voltou do exílio. Agora que ele e Lênin tinham encontrado um terreno em comum, Trotsky começou a conectar sua organização, a Organização Mezhraiontsy ou Organização Interdistrital de Petrogrado, ao partido de Lênin.

    Apesar desse crescimento exponencial, os bolcheviques ainda estavam em minoria. Eles representaram menos de 10% dos delegados presentes no Primeiro Congresso dos Representantes dos Sovietes dos Trabalhadores e dos Soldados de Toda a Rússia, que começou em 3 de junho. Este encontro nacional incluiu 1.090 delegados – dos quais 822 podiam votar – que representavam mais de trezentos sovietes de trabalhadores, de soldados e de camponeses, e cinquenta e três sovietes regionais, provinciais e distritais. Os bolcheviques tiveram a terceira maior representação com 105 delegados, atrás dos Revolucionários Socialistas (285 delegados) e dos mencheviques (248 delegados).

    Neste momento, Petrogrado tinha três organizações distintas do partido bolchevique: o Comitê Central de nove homens, a Organização Militar de Todos os Russos e o Comitê de Petersburgo. Cada um tinha suas próprias responsabilidades, submetendo-as a pressões diferentes e às vezes conflitantes. O Comitê Central, que teve que considerar a situação de todo o país, frequentemente se via restringindo os grupos mais radicais.

    A Organização Militar Bolchevique.

    A Organização Militar Bolchevique.

    Preparando o cenário
    A Organização Militar Bolchevique planejou uma manifestação armada para 10 de junho a fim de expressar uma oposição de massas aos preparativos do Governo Provisório para uma ofensiva militar, uma oposição às tentativas de Kerensky de reinstituir a disciplina no quartel e uma oposição à crescente ameaça de transferência para o front de guerra. A Organização Militar Bolchevique cancelou a ação no último minuto, curvando-se à oposição do Congresso Soviético.

    Alguns elementos no Partido Bolchevique, particularmente no Comitê de Petersburgo e na Organização Militar, viram a manifestação abortada como uma potencial revolta. De fato, o próprio Lenin teve que comparecer em uma reunião de emergência para defender a decisão do Comitê Central de cancelar a mobilização planejada. Ele explicou que o Comitê Central tinha que seguir a ordem formal do Congresso Soviético e que a contrarrevolução pretendia usar a manifestação para seus próprios propósitos. Lenin acrescentou:

    Mesmo em uma guerra simples, pode acontecer que as ofensivas programadas devam ser canceladas por razões estratégicas e isso é mais provável que ocorra na guerra de classes. É necessário determinar a situação e ser ousado nas decisões.

    O Congresso dos Sovietes votou a organização de sua própria marcha uma semana depois, em 18 de junho, e ordenou a participação de todas as unidades militares aquarteladas, desarmadas. Os bolcheviques transformaram esta em uma manifestação maciça contra o governo, com mais de quatrocentos mil manifestantes.

    Em seu relato de testemunha ocular da Revolução Russa, Nikolai Sukhanov lembra:

    Todos os trabalhadores e soldados de Petersburgo tomaram parte nela. Mas qual foi o caráter político da manifestação? “Os bolcheviques de novo”, observei, olhando os slogans, “e lá atrás deles está outra coluna bolchevique”. . . “Todo o poder aos Sovietes!” “Abaixo os Dez Ministros Capitalistas!” “Paz para os casebres, guerra aos palácios!” Com esta maneira robusta e pesada, o trabalhador-camponês de Petersburgo, a vanguarda da revolução russa e mundial, manifestou a sua vontade.

    Os bolcheviques haviam planejado a manifestação original com a Federação de Petrogrado dos Anarquistas-Comunistas, um dos dois principais grupos anarquistas que operavam naquele momento. O Comitê Revolucionário Provisório Anarquista decidiu superar seu aliado e rompeu com F. P. Khaustov, editor do jornal linha de frente da Organização Militar Bolchevique, fora da prisão de Vyborg.

    Em resposta, o governo invadiu a sede dos Anarquistas, matando um de seus líderes. Combinado com a Ofensiva de Julho de Kerensky e novas ordens para armas e homens, o assassinato de Asnin intensificou a agitação militar, particularmente no Primeiro Regimento de Metralhadora. Esses soldados começaram a planejar um levante imediato – com o encorajamento dos Anarquistas-Comunistas – já em 1 de julho.

    Na Conferência das Organizações Militares Bolcheviques de Toda a Rússia, os delegados foram alertados a não darem nenhuma vantagem ao governo, ao organizarem um levante desorganizado e prematuro. O discurso de Lenin em 20 de junho soou um aviso premonitório:

    Devemos ser especialmente atentos e cuidadosos, de modo a não sermos arrastados por uma provocação. (…) Um movimento errado da nossa parte pode destruir tudo. (…) Se fôssemos agora capazes de tomar o poder, é ingênuo pensar que, tendo-o tomado nós seríamos capazes de mantê-lo em nossas mãos.

    Já dissemos mais de uma vez que a única forma possível de governo revolucionário seria através dos Representantes dos Sovietes dos Trabalhadores, dos Soldados e dos Camponeses.

    Qual é o peso exato da nossa fração no Soviete? Mesmo nos Sovietes das duas capitais, para não falar agora dos outros, somos uma minoria insignificante. E o que esse fato mostra? Não pode ser descartado. Isso mostra que a maioria das massas estão oscilando, mas ainda acreditam nos Socialistas Revolucionários e nos mencheviques.

    Lenin voltou a essa ideia em um editorial do Pravda (editorial):

    O exército marchou até a morte porque acreditava que estava fazendo sacrifícios pela liberdade, pela revolução e pelo alcance da paz o mais rápido possível.

    Mas o exército o fez porque é apenas uma parte do povo, que nesta fase da revolução estão seguindo os partidos Socialistas-Revolucionárias e Mencheviques. Este fato geral e básico, a confiança da maioria na política pequeno-burguesa dos Mencheviques e dos Socialistas-Revolucionários, que depende dos capitalistas, determina a posição e a conduta de nosso Partido.

    Mas, nas palavras de Trotsky, os trabalhadores e os soldados:

    [L]embraram ou que em fevereiro, seus líderes estavam prontos para bater em retirada, exatamente na véspera da vitória; que em março a jornada de oito horas por dia foi conquistada pelas ações dos escalões mais baixos; que em abril Miliukov havia sido expulso por regimentos que foram para a rua por sua própria iniciativa. A lembrança desses fatos aumentou o clima tenso e impaciente das massas.

    Líderes de nível da Unidade da Organização Militar de Petrogrado apoiaram a ação imediata e direta contra o Governo Provisório e muitos membros da base do partido bolchevique já consideravam inevitável e até desejável um levante sem mais demoras.

    Mesmo quando a ofensiva estava prestes a entrar em colapso, no entanto, o governo entrou em espiral em outra crise: quatro ministros do partido cadete deixaram a coalizão, protestando contra o compromisso de Kerensky com a Rada Central da Ucrânia. Essa deserção abrupta deixou o governo, agora composto por seis ministros socialistas e apenas cinco capitalistas, desorganizado e vulnerável. À medida que as jornadas de julho começaram, os bolcheviques conquistaram a maioria na seção do Soviete de Petrogrado dos trabalhadores, atestando a sua crescente influência entre as massas.

    A Manifestação Armada
    A série de eventos conhecidos como as jornadas de julho começou no dia 3 de julho, quando o Primeiro Regimento de Metralhadora lançou uma rebelião com o apoio de várias outras unidades militares. A eclosão da revolta coincidiu com a segunda Conferência dos Bolcheviques na cidade de Petrogrado, que se iniciou em 1 de julho.

    Foi somente quando ficou claro que vários regimentos, apoiados pelas massas de trabalhadores, já haviam tomado as ruas e que os militantes bolcheviques da base estavam participando, que o Comitê Central se juntou ao movimento e recomendou que as manifestações continuassem no dia seguinte sob os auspícios dos Bolcheviques. Embora o Comitê Central entendesse que os manifestantes levariam armas, a recomendação não dizia nada sobre uma revolta armada ou a tomada de instituições governamentais. Em vez disso, a resolução oficial reiterou o apelo bolchevique para “a transferência de poder para os Representantes do Soviete dos Trabalhadores, dos Soldados e dos Camponeses”.

    Assim, a Organização Militar Bolchevique assumiu a liderança de um movimento de rua que havia, originalmente, se desenvolvido fora de seu controle. A erupção inesperada jogou o partido em desordem. Aqueles que obedeciam ao Comitê Central e argumentavam a favor do adiamento da revolução encontraram-se em conflito com outros, particularmente os membros da Organização Militar e o Comitê de Petersburgo, que eram a favor de uma ação imediata.

    Claro, um partido revolucionário experimenta um crescimento exponencial durante uma revolução: já vimos que o partido bolchevique em Petrogrado cresceu 1.600 por cento em menos de cinco meses. Isso sujeita o partido a uma pressão sem precedentes, que se manifesta em vários graus de intensidade em diferentes órgãos do partido e ameaça separar a organização.

    Nenhum arranjo organizacional pode impedir isso; todo um conjunto de circunstâncias – entre elas a confiança que a liderança do partido tenha conquistado – impacta em como os eventos revolucionários se desdobrarão. É por isso que a construção de um partido não pode ser feita no calor do momento, como a Revolução Alemã iria demonstrar.

    Em 3 de julho, os manifestantes armados tentaram, sem sucesso, prender Kerensky antes de irem para o Palácio Tauride, sede do Comitê Executivo Central Soviético. Eles pretendiam forçar este grupo a tomar o poder do Governo Provisório.

    A multidão – estimada em sessenta a setenta mil pessoas – superou as defesas do palácio e apresentou sua demanda. O comitê executivo recusou. Trotsky capturou a ironia do momento quando ele observou que, enquanto centenas de milhares de manifestantes exigiam que os líderes soviéticos assumissem o poder, a liderança em si estava procurando as forças armadas para usar contra os manifestantes.

    No rescaldo da revolução de fevereiro, os trabalhadores e os soldados haviam dado o poder aos Mencheviques e aos Socialistas Revolucionários, mas esses partidos tentaram entregá-lo à burguesia imperialista, preferindo uma guerra contra o povo ao invés de uma transferência de poder sem sangue para suas próprias mãos. Quando os manifestantes de Julho perceberam que a liderança soviética não iria dispensar seus aliados capitalistas – a maioria dos quais deixara o governo por conta própria – a situação atingiu um impasse.

    “Tome o Poder, Seu Bastardo Maldito,Quando Ele é Dado a Você!”
    No dia seguinte, Lenin, que estava ausente, na Finlândia, foi direto para a sede do Partido Bolchevique, a mansão de Kshesinskaia. Em breve, marinheiros da base naval de Kronstadt chegaram lá também. O último discurso público de Lenin até depois da Revolução de Outubro não era o que os marinheiros esperavam: ele enfatizou a necessidade de uma manifestação pacífica e expressou sua certeza de que o slogan “Todo Poder aos Sovietes” venceria. Ele concluiu apelando aos marinheiros para que tivessem auto restrição, determinação e vigilância.

    As Jornadas de Julho lançaram o Comitê Central Bolchevique, e particularmente Lenin, em uma luz mais que incomum: eles haviam impedido um levante prematuro na capital que, se tivesse acontecido, poderia ter isolado os bolcheviques e esmagado a revolução, como aconteceu com a Comuna de Paris em 1871 e à Revolta Espartaquista em Berlim, em 1919.

    Uma forte procissão estimada em sessenta mil participantes dirigiu-se ao Palácio Tauride, apenas para encontrar os franco-atiradores na esquina das Ruas Nevsky e Liteiny e novamente na esquina das Ruas Liteiny e Panteleymonov. A maioria das vítimas, no entanto, veio de confrontos com dois esquadrões Cossacos, que empregaram até artilharia contra os manifestantes. Após essas batalhas campais, os marinheiros de Kronstadt, liderados por Fyodor Raskolnikov, chegaram ao Palácio Tauride, onde se juntaram ao Primeiro Regimento de Metralhadora.

    Petrogrado, 4 de julho de 1917. Manifestantes em Nevsky Prospect buscam refúgio logo após as tropas abrirem fogo.

    Petrogrado, 4 de julho de 1917. Manifestantes em Nevsky Prospect buscam refúgio logo após as tropas abrirem fogo.

    Então, aconteceu um dos eventos mais dramáticos e tragicômicos do dia: Victor Chenov, o chamado teórico dos Socialistas Rveolucionários, foi enviado para acalmar os manifestantes. A multidão o agarrou, e um trabalhador com o punho em riste disse: “Tome o poder, seu bastardo maldito, quando ele é dado a você!”

    Eles declararam Chernov sob prisão e o levaram para um carro nas proximidades. A intervenção oportuna de Trotsky salvou o ministro. Sukhanov descreveu a cena bizarra:

    A multidão estava em tumulto, tanto quanto os olhos podiam alcançar. (…) Todo o Kronstadt conhecia Trotsky e, alguém teria pensado, a multidão confiava nele. Mas ele começou a falar e a multidão não atenuava os ânimos. Se um tiro tivesse sido disparado nas proximidades naquele momento para fins de provocação, uma enorme matança poderia ter ocorrido e todos nós, incluindo talvez Trotsky, poderíamos ter sido destruídos. Trotsky, excitado e não encontrando palavras nesta atmosfera selvagem, mal conseguia que as fileiras mais próximas o escutassem. (…)

    Quando ele tentou conduzir o próprio Chernov, as fileiras ao redor do carro se enfureceram. “Vocês vieram declarar a vossa sua vontade e mostrar ao Soviete que a classe trabalhadora não quer mais ver a burguesia no poder [declarou Trotsky]. Mas por que prejudicar a sua própria causa por pequenos atos de violência contra indivíduos casuais? Cada um de vocês tem demonstrado sua devoção à revolução. Cada um de vocês está pronto a dar sua vida por ela. Eu sei disso. Me dê sua mão, camarada! Sua mão, irmão! Trotsky estendeu a mão para um marinheiro que protestava com especial violência. Mas este recusou-se firmemente a responder. (…) Pareceu-me que o marinheiro, que deve ter ouvido Trotsky em Kronstadt mais de uma vez, teve agora uma sensação real de que ele era um traidor: ele se lembrou de seus discursos anteriores e ficou confuso. (…) Não sabendo o que fazer, os homens do Kronstadt liberaram Chernov.

    Chernov retornou ao Palácio Tauride e escreveu oito editoriais condenando os bolcheviques. A revista Socialista Revolucionária Delo nadora finalmente publicou quatro deles.

    No entanto, o Governo Provisório, como um todo, se vingou de uma maneira muito mais pérfida: no dia seguinte, começou uma campanha caluniosa que descrevia Lenin – que havia chegado à Rússia viajando pela Alemanha em um trem selado – como um agente a serviço do imperialismo alemão.

    Triunfo Temporário Da Reação
    Em 5 de julho, o Comitê Executivo Central Soviético e o Distrito Militar de Petrogrado lançaram uma operação militar para reassegurar o controle da capital. As tropas leais ao governo ocuparam a mansão de Kshesinskaia e destruíram a planta de publicação doPravda. Lenin escapou por pouco.

    É inútil especular que, se ele tivesse sido apanhado, teria encontrado o mesmo destino que Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht no rescaldo da Revolta Espartaquista, mas podemos encontrar uma pista em uma caricatura publicada no jornal de direita Petrogradskaia gazeta dois dias depois:

    Lenin quer um alto posto? Bem? ... A posição está pronta para ele.

    As tropas leais também ocuparam as Fortalezas de Pedro e Paulo, que o Primeiro Regimento de Metralhadora havia rendido a mando da Organização Militar Bolchevique. O Comitê Central do Partido instruiu seus seguidores a encerrar as manifestações de rua, convidando os trabalhadores a voltarem ao trabalho e os soldados a retornarem aos seus quartéis.

    Enquanto isso, o governo ordenou a prisão dos principais Bolcheviques, incluindo Lenin, Kamenev e Grigory Zinoviev, bem como Trotsky e Anatoly Lunacharsky, os chefes da Organização Interdistrital. Embora alguns desses prisioneiros políticos, incluindo Trotsky, tenham deixado a prisão durante o golpe de Kornilov para organizar a resistência dos trabalhadores, outros permaneceriam na prisão até a Revolução de Outubro.

    Assim terminaram as Jornadas de Julho, que foram, nas palavras de Lênin, “algo consideravelmente mais do que uma manifestação e menos do que uma revolução”.

    Alguns dos principais líderes do Partido Bolchevique tiveram que passar à clandestinidade, e seus jornais foram fechados, mas o revés foi de curta duração. A ofensiva fracassada do 11º exército na frente sudoeste contra um enorme contra-ataque austro-alemão, acompanhada da deterioração da situação econômica, renovou a validade dos slogans bolcheviques.

    Na verdade, os jornais Bolcheviques logo reapareceram com nomes ligeiramente alterados, e os comitês do partido encontraram novas bases muito rapidamente. Desarmar as unidades militares rebeldes, como o governo havia ordenado, era mais fácil dizer do que fazer. Em breve, a derrota do golpe de Kornilov em agosto de 1917 inverteu a situação, criando finalmente as condições para a tentativa bem-sucedidada tomada do poder pelos Bolcheviques.

    Sobre o autor
    Daniel Gaido é pesquisador do Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Técnica (Conicet), Argentina.

  • Cem anos da Revolução Russa: a entrada de Leon Trotsky no Partido Bolchevique

    Por: André Freire, colunista do Esquerda Online

    Há exatos cem anos, acontecia um processo político que merece destaque na história da Revolução Russa, que foi a entrada no Partido Bolchevique da “Organização Inter-Distrital dos Sociais-Democratas Unidos de Petersburgo (Comissão Inter-Distrital)” – grupo fundado em 1913, onde até então militava o revolucionário russo Leon Trotsky.

    Essa corrente política, que possuía algo entre três a quatro mil militantes, agrupava principalmente os dirigentes do agrupamento que defendia a unidade de todas as correntes do Partido Operário Social Democrata Russo (POSDR) e também antigos Bolcheviques chamados de conciliadores, que tinham se separado do partido.

    Mais do que a importância numérica deste agrupamento, seu ingresso nas fileiras bolcheviques representou um fortalecimento qualitativo da coluna de quadros e da direção do Partido. Não só Trotsky, que logicamente cumpriu papel destacado no Sovietes (Conselhos) na insurreição de Outubro, nos primeiros anos do Governo Soviético e na idealização e direção do Exército Vermelho durante a Guerra Civil, mas também outros quadros importantes, como Uritsky e Yoffe, que estiveram no Comitê Central Bolchevique, eleito no VI Congresso do partido.

    A aproximação política e programática se consolidou logo no retorno de Lenin e Trotsky à Rússia, após a Revolução de Fevereiro de 1917, que derrubou o Czarismo naquele imenso país, instituindo um Governo Provisório que conviveu durante boa parte do ano de 1917 com uma dualidade de poder, ao lado dos Sovietes.

    A oposição de esquerda ao governo provisório de conciliação de classes e o chamado à luta direta pela Revolução Socialista uniram programaticamente Lenin e Trotsky já em maio do ano revolucionário. Porém, em um acordo com Lenin, Trotsky define abrir o debate no seu agrupamento sobre a ida de conjunto ao Partido Bolchevique.

    O debate dura ainda alguns meses, se formam duas alas, uma representada principalmente por Trotsky, que defendeu o ingresso no Partido de Lenin, e outra representada por Iurenev, que coloca ainda dúvidas nesta unificação. Ao fim de um debate, a “Inter-Distrital” define pela adesão aos Bolcheviques.

    Entre os dias 26 de julho e 03 de agosto (pelo calendário Russo) de 1917 se reúne o VI Congresso do Partido Bolchevique, evento histórico, que define pela estratégia da Insurreição. Este Congresso selou a entrada do grupo de Trotsky no partido, dando conformação à organização que dirigiu a tomada do poder em outubro daquele ano.

    Para além da importância histórica deste processo, vale tirar lições sobre qual a metodologia utilizada para discutir a possibilidade desta unificação. Não se exigiu autocrítica sobre debates polêmicos do passado, seja sobre o caráter de classe da Revolução Russa, ou sobre a concepção de partido, tema que tanto dividiu Lenin e Trotsky nos primeiros anos da construção do POSDR.

    O que presidiu os debates de construção da unificação, nos marcos do partido Bolchevique, foi o olhar para o futuro, em torno da visão de mundo e de país e, principalmente, sobre as as tarefas colocadas para os marxistas-revolucionários no período histórico que eles viviam.

    Unir os marxistas-revolucionários em torno do programa socialista
    Guardando as devidas proporções históricas, o exemplo da unificação de Lenin e Trotsky em torno do partido Bolchevique, mesmo depois de muitas polêmicas teóricas, programáticas e de concepção de organização no passado, deve ser valorizado na atualidade, quando a esquerda socialista e revolucionária vive um processo de crise e dispersão, não só no Brasil, como também em boa parte do mundo.

    A construção de uma autêntica organização marxista revolucionária se faz, em primeiro lugar, colada aos principais processos da luta de classes, numa relação estreita com os trabalhadores, a juventude e o conjunto dos explorados e oprimidos.

    Mas, nesse processo de construção, necessariamente árduo e cheio de obstáculos, não se deve perder o objetivo estratégico de unificar todos (as) os (as) revolucionários (as), que sob o princípio da independência de classe, lutam pela bandeira da revolução socialista, proletária e internacionalista.

    É preciso superar o sectarismo, a autoproclamação e uma postura autossuficiente, infelizmente, muito comum em vários agrupamentos da esquerda socialista. Descartar o discurso atrasado de que “somos os únicos revolucionários”, que pode até ser útil para animar uma parte da militância, mas que não ajuda em nada na superação da fragilidade das organizações marxistas revolucionárias na atualidade.

    Fugindo a todo o momento de unificações “aventureiras”, construídas sem o verdadeiro rigor e profundidade, devemos buscar de forma permanente a unificação dos marxistas revolucionários, em torno do mesmo programa e da mesma organização política revolucionária, independente de origens e tradições políticas distintas.

    A construção de processos como estes não são fáceis, e não poderia ser diferente, no quadro atual da correlação de forças e no nível de dispersão dos revolucionários. Mas, as dificuldades inerentes do processo não devem servir de desculpa para o abandono deste objetivo fundamental para a superação de nossas fragilidades, perante aos enormes desafios colocados pela realidade brasileira e mundial.

    Portanto, sem exigir autocríticas sobre erros do passado, sempre a partir de discussões sobre a construção e atualização do programa socialista para o momento que vivemos e da construção de uma organização para o combate na luta de classes, devemos aproveitar o momento de comemoração dos 100 anos da Revolução Russa e da unificação de Lênin e Trostsky no mesmo partido, para nos animar e inspirar para a difícil, mas fundamental tarefa de unir os marxistas revolucionários em torno de um programa socialista e de uma organização revolucionária comum.