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Sobre a militância (14)

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles O Martelo da História.

Existe uma doença política, ainda pouco considerada pela esquerda, que pode ser descrita como fracionalismo. O tema é delicado, portanto, muito difícil. Remete às relações desleais de alguns com o coletivo em que decidiram, voluntariamente, participar.

O que é o fracionalismo? Fracionalismo é a formação de uma camarilha. A aparência é uma fração indissolúvel. Mas essa é somente a forma do fenômeno.  Uma camarilha é um núcleo de militantes que, em função de laços de confiança pessoal e interesses próprios, atuam e votam, invariavelmente, unidos, na luta pela direção da organização, mesmo quando os membros têm ideias diferentes. O fracionalismo pode ser da minoria contra a maioria, ou o contrário. Sim, a maioria de uma direção pode se deformar em camarilha.

A questão não deve ser simplificada a apetite pelo “poder”. A volúpia de prestigismo é, evidentemente, nociva. Mas não há nenhum problema em ter ambições políticas. Anseios, aspirações e desejos são legítimos. A vontade é uma força poderosa. Tampouco é razoável desconhecer as rivalidades em organizações políticas de esquerda. Mas entusiasmo, vigor e potência individual devem ser moderados ao serviço do coletivo. Quando se luta pela conquista da direção para promover alguém, a qualquer preço, sem ter acordo em torno de uma plataforma, estamos diante de uma conspiração, um comportamento fracional.

Camarilha é o nome de um grupo em que as ideias são desconsideradas e desvalorizadas, em função do seguidismo de uma liderança. Líderes fracionais atraem bajuladores. O pior fracionalismo é o fracionalismo secreto.

Descrever um fenômeno não é suficiente para explicá-lo. A forma de um comportamento revela, mas, também, oculta a sua natureza. Os atos das pessoas são uma aparência de suas motivações. O perigo da politização excessiva é reduzir o fracionalismo a uma explicação sociológica. Evidentemente, as pressões sociais hostis são muito poderosas. As pessoas podem sucumbir a pressões materiais e ideológicas estranhas à luta socialista. Mas não se deve diminuir a dimensão subjetiva dos conflitos da experiência da militância como uma vivência entre pessoas. Organizações são coletivos imperfeitos construídos por pessoas complexas. Portanto, complicadas.

O fracionalismo tende a aumentar depois de grandes derrotas, em situações desfavoráveis na luta de classes, quando aumenta a desmoralização. O perigo é ainda maior porque, em conjunturas adversas, tende a crescer, também, simetricamente, a desconfiança e, no limite, reflexos defensivos, até paranoias. O fracionalismo e as desconfianças excessivas são fatores que ajudam a compreender a extrema fragmentação em que estamos.

Relações desleais não são o mesmo que relações conflitivas. A luta política é a essência da vida política. A militância é uma contínua luta de ideias e propostas. Tem dimensão externa, mas, também, interna. Entrar em uma organização política significa um compromisso consciente em torno de um acordo de defesa de ideias e projeto. O impacto de um programa aumenta quando há pessoas disciplinadas que o defendem. Mas a liberdade individual de fazer o que cada um quer, evidentemente, diminui.

Não é possível construir coletivos em que não há conflitos. Os conflitos são inexoráveis. Por isso, toda organização séria e saudável estabelece as regras para solucionar os conflitos. O nome dessas regras é o estatuto.

As regras devem ser claras. O estatuto deve ser bem conhecido por todos. Conflitos de opinião e de comportamento são normais. Organizações monolíticas são organizações inflexíveis e rígidas. Na esquerda viram, com o tempo, partidos-museu. A deformação do partido-fração é expressão de marginalidade social e mentalidade sectária.

Em organizações dinâmicas, as disputas, as discordâncias, as lutas devem ser encaradas como uma normalidade, portanto, com calma, paciência, tranquilidade. A pluralidade de experiências se expressa em pluralidades táticas. Devem ser bem-vindas como refrações de pressões que precisam ter o seu lugar, e se dar dentro das regras acordadas. As regras podem e devem reconhecer o direito de formação de tendências, e até, extraordinariamente, de frações, quando as diferenças justificam. O coletivo se mantém protegido pelo reconhecimento mútuo dos membros dos seus direitos e, também, dos deveres. Não pode haver direitos sem deveres, nem deveres sem direitos. Deve-se considerar, também, os limites das relações de respeito. A polidez é um valor.

Organizações coletivas não se destroem de baixo para cima. A divisão começa de cima para baixo. Nem todas as rupturas se explicam, evidentemente, por comportamento fracional. Muitas divisões acontecem porque, diante de mudanças na realidade, amadureceram diferenças que passaram a ser irreconciliáveis.

A confiança pessoal é muito importante na esquerda. Porque uma militância socialista deve se sustentar na força das ideias, não em recompensas materiais. Ela deve ser uma doação desinteressada, despojada, altruísta. Essa aposta tem grande intensidade emocional. Entrar em uma organização socialista é iniciar uma experiência em uma fraternidade engajada. Esse compromisso gera expectativas muito elevadas. É compreensível que alimente idealizações ingênuas. É muito triste quando discussões políticas degeneram em duelos fracionais. O desgaste humano é desolador, e pode até ser irreparável.

É, especialmente, triste, porque na esquerda tende a prevalecer a presença de gente bacana e decente. Em grande medida, é inexorável um processo de seleção em que os mais abnegados permanecem. Afinal, algum sacrifício é necessário. Mas em todas as correntes políticas há todo tipo de pessoas. Há militantes que adoecem. Manter a saúde emocional não é simples no mundo em que vivemos, cercados de sofrimento psíquico. Mas há, também, ainda que excepcionalmente, gente mau caráter, desonesta.

Existem, portanto, militantes que são, cronicamente, fracionais. São incorrigíveis. Não conseguem se integrar em equipes em que há outros militantes que são tão ou mais capazes do que eles. Precisam, necessitam, e buscam se impor como a grande personalidade dentro do grupo, o chefe. Fracionalistas depositam lealdade às pessoas, portanto, uns aos outros, acima de tudo.

O fracionalismo é destrutivo. É uma doença política perigosa.

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