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Sobre a militância (13)

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles O Martelo da História.

Precisamos refletir sobre os problemas de segurança na esquerda. Temos muito a aprender sobre o que aconteceu a partir de 2013, sobretudo depois do assassinato de Marielle Franco, que permanece impune. Não se trata de paranoia ou mania de perseguição. Um mínimo de juízo e lucidez deve nos alertar para uma realidade grave: estamos muito atrasados e despreparados.

Porque o que é certo, indiscutível, incontornável é que estamos em uma situação política reacionária que não permite paralelo com nenhuma conjuntura, desde o fim da ditadura militar. Está no poder em Brasília o governo de uma coalizão de extrema-direita, que tem como eixo uma corrente neofascista liderada por Bolsonaro. Toda a esquerda está, potencialmente, em perigo.

A ameaça não vem somente da política do Estado e seus serviços de inteligência e repressão. Vem, também, de forças neofascistas e provocadores lumpens que atuam, às vezes, individualmente, outras, em pequenos grupos, que ninguém controla.

O contexto mais geral desta vulnerabilidade é que, pela primeira vez na história no Brasil, um regime democrático-liberal completou trinta e cinco anos. Seria ingênuo ignorar que uma geração chegou à vida adulta sob a vigência deste regime semipresidencialista, com um calendário eleitoral consolidado. O bastante para que se tenha forjado uma mentalidade. A cabeça acompanha o chão que os pés pisam. Ou seja, a tendência à adaptação não deve ser subestimada. As pressões eleitoralistas são avassaladoras. Mas não são as únicas. Inseparáveis, estão as pressões ideológicas que idealizam a solidez das liberdades democráticas e civis.

Não sabemos ainda se estas décadas foram apenas um intervalo histórico. Talvez sim, talvez, não. Mas devemos manter a mente aberta para diferentes possibilidades. E uma delas é que a repressão contra a esquerda pode aumentar.

Sejamos honestos. Não temos estrutura de defesa alguma. Nenhuma. A segurança de nossos comícios, marchas e passeatas é de uma precariedade assustadora. Não só não organizamos qualquer autodefesa na preparação de nossas atividades, como perdemos os reflexos mais elementares de uma cultura de segurança. Nossa orientação deve ser, portanto, rigorosamente, defensiva. Precisamos evitar situações que coloquem os militantes em situações de risco desnecessárias. Isso exige, em primeiro lugar, um mínimo de autodisciplina, mutuamente, acordada.

A disciplina política tem uma má reputação hoje em dia. Há muitas razões que explicam a sua impopularidade. A mais importante é a burocratização das organizações sindicais e populares e, sobretudo, a deformação dos principais partidos de esquerda.   Mas organizações políticas sérias são disciplinadas. A disciplina é indispensável para garantir eficácia na intervenção política. Sem disciplina, não há cultura de autodefesa e segurança.

Os procedimentos de segurança mudam, evidentemente, com o tempo. Mas o maior perigo de segurança permanece sendo a provocação. A forma mais sinistra de ação provocadora é a infiltração, porque é a mais eficaz.

Temos uma montanha de informação disponível sobre a presença de agentes no interior das organizações de esquerda, na etapa da ditadura militar, ainda ativos ao final dos anos oitenta e início dos anos noventa. Sua ação foi decisiva para a repressão. O antigo SNI tinha a maior folha de pagamentos do Brasil. Seria uma inocência infantil imaginar que os atuais serviços de inteligência seriam menos preparados e ativos.

Vimos, a partir de 2013, como operações policiais de infiltração foram eficientes. Os absurdos do episódio dos presos do Centro Cultural São Paulo/Vergueiro não devem ser avaliados como um caso isolado. A ação de um capitão, vinculado ao serviços de inteligência do Exército, nunca foi explicada. Foi somente a ponta de um iceberg. Podemos, portanto, considerar, seriamente, que os movimentos, sindicatos, partidos, correntes estão todos sob vigilância continua. Devemos concluir que estão, também, em algum grau, infiltrados por provocadores.

Há muitas e variadas medidas que fazem parte do nosso repertório de experiência, que podem ser encaminhadas. A esquerda precisa de um sistema mínimo de defesa unificado. Precisamos para ontem, tanto na escala nacional, quanto regional, começar a lutar juntos, como deve ser uma frente única de esquerda antifascista.

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Série militância