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Sobre a militância (5)

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles O Martelo da História.

Não são poucos os militantes socialistas que associam a luta contra o capitalismo a uma luta do bem contra o mal. Esta compreensão pode ser conceituada como maniqueísta, derivada de Manes ou Maniqueu, um filósofo cristão da Antiguidade, que interpretava o sentido da vida e da história como uma luta infinita entre Deus e o Diabo, entre a matéria e o espírito, entre o bem e o mal.

Existe, evidentemente, uma dimensão moral na luta contra a exploração e a opressão. Mas isso não permite concluir que defender ideias socialistas equivale a ser do “bem”. Porque não são, somente e nem sequer, principalmente, as ideias que definem quem somos. Infelizmente, nas fileiras da esquerda encontraremos pessoas de mau caráter. Pessoas egoístas, desonestas, indignas, falsas, traiçoeiras, e conflitivas. Encontraremos oportunistas que se aproximam de organizações socialistas para obterem vantagens pessoais.

Essa frustração alimenta, compreensivelmente, desalento, sobretudo, entre os mais jovens. Muitos abandonam a militância porque concluem que o socialismo não é possível, já que até entre socialistas, há pessoas que não merecem confiança. Terminam desesperançados abraçando a ideia de que seria necessário uma outra humanidade, moralmente, reinventada, para poder lutar contra o capitalismo. Essa percepção é incorreta.

Na verdade, nada disso deveria nos surpreender. Numa sociedade em que prevalecem relações sociais que incentivam a cobiça por dinheiro e prestígio é previsível que esse comportamento seja comum, mesmo entre os explorados. A causa dos trabalhadores e dos oprimidos é, politicamente, justa, mesmo que as pessoas não sejam perfeitas. Toda e qualquer idealização do proletariado é ingênua. A causa do socialismo é a mais elevada do tempo que nos coube viver, porque o capitalismo é uma ameaça à sobrevivência da humanidade.

Claro que a luta para transformar o mundo é indissociável da luta por nos transformarmos a nós mesmos. Essa luta é uma permanente reeducação. Uma organização socialista com um regime interno saudável precisa saber se proteger dos oportunistas. Por isso, ela deve ter fronteiras.

O marxismo nunca defendeu a visão ingênua de uma humanidade, naturalmente, bondosa, gentil, altruísta e solidária. Nem fundamentou a necessidade da igualdade social em uma suposta igualdade natural. O que o marxismo afirmou é que a natureza humana tem dimensão histórica e, portanto, se transforma. O que o marxismo preservou foi a ideia de que a diversidade de capacidades não permite explicar a desigualdade social que nos divide. É a exploração de uns pelos outros a causa da desigualdade, e não o contrário.

Marx acreditava que o homem, como ser social, tinha transformado a natureza à sua volta e, portanto, a si próprio, ou seja, sua própria morfologia. Dominou com as mãos a pedra, a madeira, o fogo, as peles e as fibras. Aprendeu a caçar em colaboração, e diversificou sua dieta. Aumentou seu cérebro, sua estatura, sua expectativa média de vida. A história das civilizações continuava e, inclusive, acelerava essa transformação da natureza e da humanidade.

Marx rejeitava, vigorosamente, uma interpretação da história baseada em padrões de comportamento social humano rígido. Não somos, naturalmente, nem bons, nem malvados. Nem egoístas, nem altruístas. Argumentou que a humanidade reinventou permanentemente a si própria por meio do trabalho e da cultura. A natureza humana seria um processo ininterrupto de transformações adaptativas. Marx apresentou nos Manuscritos econômico-filosóficos a idéia de que uma essência humana imanente – um potencial de transformação – se expressou na ampliação das forças produtivas, ou seja, na invenção de novas necessidades.

A ampliação desta riqueza da natureza humana foi a substância do progresso. Fizemo-nos mais rápidos que o guepardo e mais fortes que o elefante. Voamos mais alto que o condor e descemos a profundidades maiores que os peixes. Marx admitiu, no entanto, que existiam limites. Reconheceu que a humanidade transformava a natureza e todas as suas relações sociais – a língua, as ferramentas do trabalho, suas relações uns com os outros, etc. – em condições naturais e sociais que não podia escolher, que eram alheias à sua vontade; mas não aceitava a premissa que condicionava a mudança da sociedade à mudança prévia do homem. Lutando pela transformação e pelo domínio consciente de suas relações sociais, a humanidade estaria transformando-se a si mesma.

Mas é verdade que o liberalismo defendeu a visão de uma humanidade, irremediavelmente, fraturada. Remetendo as formas econômicas da organização social contemporânea às características de uma natureza humana invariável – o homem como lobo do homem – o liberalismo fundamentava a justificação do capitalismo na desigualdade natural.

A rivalidade entre as pessoas, e a disputa pela riqueza seriam um destino incontornável. Um impulso egoísta ou uma atitude comodista, uma ambição insaciável ou uma avareza incorrigível definiriam a nossa condição. Eis o fatalismo: o individualismo seria, finalmente, a essência da natureza humana. E a organização política e social deveria se adequar à imperfeição humana. E resignar-se.

Resumindo e sendo brutal: o direito ao enriquecimento seria a recompensa dos mais empreendedores, ou mais corajosos, ou mais capazes e seus herdeiros. A propriedade privada não seria a causa da desigualdade, mas uma conseqüência da desigualdade natural. É porque são muito variadas as habilidades e disposições que distinguem os homens que, segundo os defensores de uma natureza humana rígida e inflexível, existe a propriedade privada, e não o inverso. A diversidade entre os indivíduos, inata ou adquirida, seria o fundamento da desigualdade social. Em consequência, o capitalismo seria o horizonte histórico possível e o limite do desejável. Porque com o capitalismo, em princípio, qualquer um poderia disputar o direito ao enriquecimento.

As premissas anti-históricas criacionistas de uma natureza humana invariável, e ainda por cima cruel, sinistra e malvada, embora ainda exerçam alguma influência sobre o senso comum, são inaceitáveis.

A humanidade compartilhou a capacidade de amar e odiar, confiar e temer, identificar e repudiar, desejar e rejeitar, admirar e querer, sorrir e desprezar, invejar e imitar, ou seja, todo um repertório de ações e reações dos homens uns com os outros – colaboração e conflito – impulsionadas pela necessidade de sobrevivência na natureza, que resultaram em experiências históricas, e se concretizaram em relações sociais. Transformamos valores e costumes, através da história, da mesma maneira que melhoramos nossas ferramentas, e podemos sonhar nas mudanças que ainda estão por vir.

A história foi um processo cultural de readaptação da humanidade. Essa capacidade de autotransformação foi uma das constantes que oferecem coerência interna à própria história, e permitem que ela seja compreendida. Por isso, a esperança pode triunfar.