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Sobre a militância (8)

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles O Martelo da História.

Precisamos refletir sobre a relação entre a militância socialista, e outras dimensões da vida, em especial, a religiosidade. A maioria da militância de esquerda é muito apaixonada pela identidade socialista, e isso é bom. Abraçamos a causa mais elevada do tempo que nos coube viver. Somos muito comprometidos com nossa aposta estratégica. Temos obstinação revolucionária. Esse é um ponto forte da esquerda.

Mas é, paradoxalmente, nosso ponto fraco. Porque somos, também, em maior ou menor medida, sectários. Somos tão sectários que, frequentemente, não sabemos que somos sectários. Ser sectário é ser estreito, inflexível, rígido, intransigente, ou até mesmo áspero e intratável. Muitos ativistas honestos ficam desgostosos em discutir ideias se percebem uma atitude arrogante. Ninguém gosta de desaforo.

A luta política se desenvolve na arena da vida pública. A luta política atravessa nossas vidas nos locais de trabalho, de moradia, de estudo, e outros. Ela não se resume à luta pelo poder. Estamos engajados em movimentos sociais, sejam sindicais, estudantis, populares, agrários, de educação, de saúde pública, de mulheres, ambientais, territoriais, LGBT’s, culturais, e outros.

Mas todos aqueles que militamos estamos inseridos, também, em variados espaços que definem nossas vidas privadas, e até a dimensão pessoal da existência. Os mais importantes são as famílias e os círculos de amizade. Mas há, também, os espaços que remetem às nossas preferências e escolhas.

Tem gente que adora demonstrar as virtudes de acordar cedo, dormir tarde, ou de fazer a sesta. Tem muita gente convencida que as dietas são um tema político. Na luta socialista podemos conviver, harmoniosamente, entre não fumantes e fumantes; veganos, vegetarianos e carnívoros; alopatia ou homeopatia; sertanejos, roqueiros e sambistas; cinéfilos ou literatos, românticos ou surrealistas, corintianos, santistas e palmeirenses; sedentários e atléticos, pedestres, ciclistas e motociclistas; etc.

Entre todas estas dimensões da vida privada, a mais importante é a da religiosidade ou espiritualidade. Ela ocupa um espaço importante no sistema de valores, apegos, crenças, e esperanças da imensa maioria do povo.

No último Censo demográfico, em 2010, aqueles que se autodefiniram sem religião, ou seja, ateus e agnósticos somavam quinze milhões. Mais de 123 milhões se declararam católicos, mais de 42 milhões como evangélicos, e quase quatro milhões como espíritas. Os dados disponíveis confirmam que estamos entre as populações mais religiosas do mundo. É improvável que as informações do próximo Censo, em 2020, sejam muito diferentes.

Ser socialista não é a adesão a uma associação de descrentes e incrédulos. Não somos uma carbonária de ateus e agnósticos. Ser socialista é fazer a defesa de um programa político. Um programa político é um projeto de luta pelo poder do Estado. Defendemos que o Estado esteja separado das Igrejas. Nesse sentido, o programa socialista é republicano, o que quer dizer que a esfera da vida privada deve permanecer protegida da ingerência do Estado. A vida privada, para não falar da vida pessoal, deve ter plena autonomia.

Não é razoável esperar que todos aqueles que querem se organizar para lutar contra o capitalismo tenham que renunciar à sua fé. Evidentemente, não há nada de errado, tampouco, se um militante se empenhar em defender o ateísmo. Trata-se de luta ideológica. Mas não somos uma sociedade científica. Respeitamos as sociedades científicas. É muito razoável que haja socialistas entusiasmados pela ciência. O que vale para a espiritualidade deve valer, também, para outras crenças. Não são tão poucos os militantes que encontram conforto na astrologia, na leitura de cartas de tarôt, na numerologia.

A luta pelo ateísmo não deve estar nem no programa, nem nos estatutos de uma organização socialista. Portanto, dentro de organizações socialistas deve ser possível a convivência entre militantes ateus, agnósticos e religiosos.

Isso é assim, por variadas razões. A primeira e mais importante é que devemos ter respeito e tolerância uns com os outros, porque temos inimigos muito poderosos e queremos vencer. Todos os lutadores anticapitalistas devem ser bem-vindos. A fé religiosa é uma experiência individual.

Isso não significa, evidentemente, que a esquerda não deva fazer luta política contra líderes ou instituições religiosas que defendem o capitalismo. Mas luta política e luta ideológica são diferentes, e obedecem a diferentes regras. A luta política contra Igrejas reacionárias é necessária e legítima.

Em segundo lugar, é bom lembrar que o marxismo não é uma teoria sobre tudo. Não é uma doutrina. Marx, ainda muito jovem, portanto, em processo de amadurecimento, quando estava em ruptura com o hegelianismo de esquerda, escreveu uns parágrafos pouco compreendidos sobre o lugar da religião:

A miséria religiosa é, de um lado, a expressão da miséria real e, de outro, o protesto contra ela. A religião é o soluço da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, o espírito de uma situação carente de espirito. É o ópio do povo.

O mais importante desta citação é que foi escrita por um ateu que reconhece a humanização ou consolação que a experiência da fé pode significar. Não é só alienação diante da mortalidade da nossa condição. Devemos aprender a respeitar a subjetividade de todos os lutadores da causa socialista. Não faz sentido torturar militantes com fé religiosa com discussões sobre se Deus existe ou não.

 

[1] https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/9662-censo-demografico-2010.html?edicao=9749&t=destaques Consulta em 24/09/2019