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Sobre a militância (15)

Valerio Arcary

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles O Martelo da História.

Já passou da hora da esquerda estabelecer como critério que o escracho pessoal de militantes nas redes sociais tem que parar. O método do escracho tem que ser banido. A regra número um na luta de ideias é o respeito, portanto, a honestidade intelectual. A disputa de ideias deve ser somente uma esgrima de argumentos.

O que é o escracho? Escracho é a desqualificação pessoal de outro militante. Trata-se do ataque ad hominem. A expressão latina quer dizer agressão à pessoa. O objetivo é a destruição da reputação do adversário. Ataca-se a pessoa para diminuir a influência de suas opiniões. O escracho é uma intimidação do outro. Todo escracho é uma perseguição.

Escracho é uma tentativa de desmoralização daqueles com quem não concordamos. É o desrespeito, o insulto, a injúria, a avacalhação, o deboche. Escracho é uma forma de canibalismo político. Escracho é sempre um método errado. Mas, considerando a gravidade da situação brasileira, em que toda a esquerda está ameaçada por um governo liderado por uma ala neofascista, os escrachos são intoleráveis. Por esse caminho, seremos todos inimigos uns dos outros. Os excessos devem ser suprimidos, proibidos, eliminados.

Podemos abraçar o critério de que as pessoas são maiores do que as ideias que defendem. Reconhecer que as pessoas são maiores que as posições das organizações em que participam significa abrir as nossas mentes para a ideia de que militamos todos juntos no movimento socialista, portanto, compartilhamos um campo de classe.

As polêmicas na rede são bem vindas porque o debate de ideias com argumentos é educativo. Um pouco de entusiasmo e ardor revolucionário é sempre bem vindo, porque empolga. Mas excesso de paixão em um debate de ideias é fanatismo. Podemos elevar a crítica ao nível da discussão teórico-programática. Podemos ser rigorosos e cuidadosos com as palavras quando nos referimos aos outros.

A cultura da tolerância e consideração mútua precisa ser impulsionada pelas lideranças de todas as correntes. Não há elaboração coletiva sem luta de ideias. Toda discussão é uma crítica e, portanto, uma polêmica. A liberdade é sempre a liberdade de quem pensa diferente de nós. Não devemos ter medo de ter diferenças. Porque se não há democracia interna em uma organização, não há elaboração coletiva. Se a elaboração não é coletiva, e ouvimos menos, erraremos mais.

Todos mudamos de ideias. Mudar de ideias não diminui ninguém. Somente pessoas com transtorno narcisista tem ambições de omnipotência. Uma discussão marxista séria e adulta deve ser fundamentada em fatos e argumentos. Se hoje estamos contra as posições defendidas por um militante ou uma corrente, amanhã podermos ter acordos.

Escracho é destrutivo, doentio, danoso. Mas funciona. Por isso é tão difícil erradicar esta conduta degenerada.

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Série militância