Lateral Esquerda

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  • A polêmica do vestiário croata: Nacionalismo ou apologia ao passado fascista?

    A seleção da Croácia venceu a Inglaterra por 2 a 1 e garantiu pela primeira vez um lugar na final de uma Copa do Mundo. Com uma campanha surpreendente, os croatas chegaram a final após passar por três prorrogações. Nesse caminho até a final, a seleção croata também gerou diversas polêmicas, por conta de manifestações de alguns de seus jogadores em referência a movimentos de extrema-direita, ultranacionalistas e até fascistas.

    Ainda na fase de grupos da Copa, após vencerem a Argentina de Messi por 3 a 0, o zagueiro Dejan Lovren, do Liverpool, gravou um vídeo no vestiário onde ele e outros jogadores cantam a música “Bojna Cavloglave”.

    A música em questão foi composta pela banda Thompson e é conhecida como um hino dos movimentos ultranacionalistas croatas. A grande questão é que a música traz versos que eram usados pela Ustasha, uma organização paramilitar que colaborou com a invasão nazista ao país durante a segunda guerra.

    Adolf Hitler e o líder fascista croata Ante Pavelic

    Adolf Hitler e Hermann Goering com o líder fascista croata Ante Pavelic

    A Ustasha governou a Croácia quando Hitler proclamou um Estado Croata Independente, um Estado fantoche que servia os interesses da Alemanha fascista, com um governo extremista e com um nacionalismo religioso que foi responsável por um extermínio de 700 mil judeus, sérvios e ciganos.

    Na Croácia atual, diversos símbolos do antigo Estado Croata Independente foram restaurados como forma de nacionalismo durante a guerra de independência do país, no início dos anos noventa. A Ustasha, por exemplo, tinha como brasão a shahovnica, um escudo xadrez vermelho e branco, símbolo que hoje está na bandeira do país.

    A música “Bojna Cavloglave” composta por Marko Percovic, da banda Thompson, foi feita durante um período onde os croatas entravam em guerra pela independência, quando muitos aspectos nacionalistas ressurgiram das sombras. Percovic não somente usou saudações da Ustasha na letra, como conhecido admirador do antigo grupo fascista. Ele já foi proibido de entrar em países como a Holanda, sob acusações de apologia ao nazismo, e em seus shows, os fãs da banda usam camisas em referência a Ustasha.

    Nas quartas de finais, quando os croatas venceram a Rússia na disputa por pênaltis, um outro vídeo gerou polêmica, o zagueiro Vida e o assistente técnico Pgnjen Vulkojevic, gravaram a comemoração com dizendo “Slava Ukaini” (Glória à Ucrânia).

    Para alguns, a frase pareceu somente uma saudação ao país no qual Vida e Vulkojevic viveram enquanto jogavam pelo Dinamo de Kiev. Porém, a saudação é usada desde a década de 30 por movimentos nacionalistas ucranianos. O UPA (Exército Insurgente Ucraniano) e a OUN (Organização Ucraniana Nacionalista), grupos que eram aliados dos nazistas, cometeram assassinatos de minorias polonesas e judias, foram os responsáveis por criar a saudação que é a marca do fascismo local.

    A frase ganhou novas forças em 2014, com as manifestações contra o presidente Yanukovich. Nos protestos era visível a presença de diversos movimentos neonazistas e fascistas, que entoavam a plenos pulmões a saudação. Esses grupos fascistas hoje compõem o governo do país.

    A seleção croata tem um histórico de polêmica relação com o fascismo. Em 2015, em um jogo contra a Itália em eliminatória para a EuroCopa, o gramado do estádio de Split apareceu com uma enorme suástica desenhada. Na época a federação croata foi multada em 100 mil euros, perdeu um ponto e teve que fazer duas partidas em portões fechados.

    Dois anos antes, no jogo que garantiu a Croácia na Copa de 2014 no Brasil, o zagueiro e capitão Simunic comemorou com a torcida cantando versos da Ustasha. O zagueiro foi suspenso por 10 jogos e não jogou a Copa do Mundo no ano seguinte.

    A cena de Simunic com a torcida croata virou estampas para os movimentos fascistas do país e para os saudosos da Ustasha.

    O fascismo de Simunic não foi motivo de repúdio por parte da federação croata de futebol. Na época a federação cogitou levá-lo como observador técnico para a Copa, porém a ação foi vetada pela Fifa.

    Qualquer atitude que exalte o nazifascismo merece ser repudiada. Não importa em qual ambiente seja. É importante não confundirmos atitudes de alguns jogadores da seleção croata com a de todo o elenco de 23 jogadores, nem com o de todo país. Apesar disso vale a denúncia de que a federação croata não combate de forma necessária saudações que remetam ao fascismo na equipe.

    O governo do país, por sua vez, é um governo conservador, que promove memórias que remetem ao passado do antigo Estado croata da segunda guerra como uma espécie de nacionalismo, e combate o passado do país enquanto parte da Iugoslávia, e sua economia de tipo socialista.

    Um passado que remeta a um genocídio de mais de 700 mil membros de minorias sociais não merece ser comemorado como forma de nacionalismo, um passado fascista não merece ser comemorado, mas sim combatido, ainda mais em tempos de crescimento da xenofobia e da extrema-direita por todo a Europa, em especial no Leste Europeu.

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    O fascismo dentro das quatro linhas: jogadores croatas comemoram com saudações nazistas

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  • O fascismo dentro das quatro linhas: jogadores croatas comemoram com saudações nazistas

    Croácia e Inglaterra jogarão hoje, 11/07, às 15h, pelas semifinais da Copa do Mundo na Rússia. Antes mesmo da bola rolar, a equipe croata se envolveu em uma grande crise. O zagueiro Domagaj Vida, autor de gol na classificação contra a Rússia pelas quartas, postou um vídeo ao lado do observador técnico Ognjen Vukojevic. No vídeo ambos fazem uma saudação utilizada por milícias neofascistas na Ucrânia. O defensor falou “Glória para a Ucrânia”, enquanto o membro da comissão técnica completou, “esta vitória é para o Dínamo e para a Ucrânia”. Tanto Vukojevic, quanto Vida jogaram pelo Dínamo de Kiev, um dos principais times ucranianos.

    O vídeo repercutiu de forma imediata na Rússia, onde os telejornais criticaram a atitude do defensor. A Comissão Disciplinar da Fifa multou em 12 mil euros o zagueiro croata. Vale apontar que a FIFA não atuou no caso por ser uma declaração fascista, mas sim, pelo fato da FIFA proibir qualquer manifestação de caráter político.

    A Federação Croata de Futebol (HNS) demitiu o observador técnico e emitiu uma nota pedindo desculpas pelo vídeo, porém, afirmando que não havia interesses políticos por trás do mesmo.

    A crise entre Rússia e Ucrânia e a comemoração croata

    Rússia e Ucrânia têm divergências históricas, porém, desde 2014 a relação entre os dois países, que fizeram parte até 1991 da União Soviética, é uma relação em clima de guerra. No ano de 2014, o então presidente ucraniano Victor Yanukovich se recusa a assinar um tratado de aproximação com a União Européia, e se aproxima política, econômica e militarmente da Rússia. Diversos protestos contrários a esta decisão aconteceram no país.  Estes protestos, conhecidos como Euromaidan, foram liderados por organizações de direita e de extrema-direita, que reproduziam atitudes nazifascistas. Durante os protestos era possível ver diversas bandeiras com a cruz de ferro (um tradicional símbolo nazista), assim como outros emblemas mais tradicionais do nazismo ucraniano. Ativistas de esquerda, LGBT´s, membros do partido comunista, foram espancados durante os protestos que acabou se alastrando e se tornando um conflito armado.

    As manifestações acabaram com o presidente Yanukovich deposto, um novo governo com uma coalizão entre as forças de oposição, onde se assinou o tratado com a União Européia e foram feitas diversas leis criminalizando a língua russa, os partidos de esquerda, e o passado soviético do país. A reação da Rússia e de Putin foi anexar a península da Criméia (fato que gerou a expulsão do país do G8), um território cedido a Ucrânia em 1954, e que era de imensa maioria de forças e militantes pró-rússia.

    Com as medidas do novo governo começaram a surgir no leste do país manifestações pró-rússia, que terminaram por criar Repúblicas autônomas. A situação se agravou para uma guerra civil, onde milícias de extrema-direita enfrentam os separatistas, com o saldo de mais de 10 mil mortos.

    A comemoração do jogador croata, portanto, fazia analogia a este fato. Foi uma provocação aos russos e uma exaltação das milícias fascistas que estão no poder na Ucrânia.

    Infelizmente, esta não é a única polêmica envolvendo a seleção croata e uma atitude nazista.

    O histórico de relações entre os jogadores croatas e o nazismo

    Em outro vídeo publicado anteriormente pelo defensor Dejan Lovren, vários jogadores da equipe cantavam a música Bojna Cavoglave, uma canção nacionalista e xenófoba, que faz apologia a ajuda da Croacia aos nazifascistas na segunda guerra. A música é da banda Thompson, que tem diversas letras entoadas nos estádios croatas durantes os jogos da seleção.

    Durante a segunda guerra, quando as tropas de Hitler atacaram a Iugoslávia em abril de 1941, as forças armadas alemãs (Wehrmacht) tiveram apoio de grupos iugoslavos. O Partido Ustasha, de extrema-direita, nacionalista e fascista, apoiou com suas milícias o avanço das tropas nazistas, pois queriam a independência da Croácia frente a Iugoslávia. Quatro dias depois do início dos ataques, Hitler declarou que havia sido criado o Estado Independente da Croácia. As tropas nazistas eram recebidas com festa na capital Zagreb.

    A católica Croácia conseguia realizar o sonho de se separar da ortodoxa Sérvia. Durante os quatros anos como um Estado independente (1941-1945), com um governo fascista e com grande base religiosa, buscou fazer uma purificação racial e executou, com sua milícia, mais de 750 mil pessoas, entre sérvios, judeus, ciganos e antifascistas.

    As músicas da banda Thompson cantada a plenos pulmões pelos jogadores croatas falam sobre o genocídio dos servos, e exaltam os anos sombrios do antigo Estado croata. Não é possível que os jogadores da seleção não conheçam a origem destas músicas e das saudações que cantam e fazem.

    Em 2013, o então capitão da seleção Simunic, após a partida que classificou a seleção para a Copa do Mundo do Brasil, cantou junto com torcedores diversos cânticos nazistas e de exaltação a Ustasha, além de fazer saudações fascistas e em homenagem a Hitler. Simunic, que é considerado um ídolo em seu país, recebeu uma sanção de 10 jogos, ficando proibido de jogar a Copa de 2014.

    O fascismo entre os jogadores da seleção não é algo que é repudiado pela mídia, governo ou por entidades. No país, com um governo conservador, o passado nazifascista do país é visto como parte da formação do atual Estado Croata, não existindo um sentimento público de repulsa.

    Desde a guerra pela independência do país (1991-1995) um crescente nacionalismo e aceitação de ideias de extrema direita podem ser vistos. Ano passado o governo croata retirou estátuas do líder comunista iugoslavo Tito de diversas cidades, mudando nomes de ruas e praças que o homenageavam. O governo permitiu também que os veteranos da unidade paramilitar, HOS, que combateu na guerra de independência, colocassem em homenagem aos soldados mortos uma placa com um lema fascista a algumas centenas de metros de um antigo campo de concentração, onde foram assassinados sérvios e judeus na Segunda Guerra.

    A frase em questão “Za dom spremni” (assuntos para a Pátria), era a saudação oficial das tropas de Ustasha e do antigo Estado croata pró-fascista na Segunda Guerra. É importante colocar que as tropas da unidade HOS utilizam a frase fascista em seus símbolos. Desde que se separou da Iugoslávia em 1991, foram destruídos cerca de 3.000 monumentos que homenageavam os movimentos anti-fascistas.

    Nessa semi-final entre Croácia e Inglaterra, nem tudo está perdido. Jogadores da seleção inglesa, como Lingard e Dele Ali, comemoram seus gols com a coreografia do clipe “This is America”, música que denuncia o racismo e a violência policial nos Estados Unidos.

    A conivência da federação croata com o fascismo de seus atletas merece ser repudiado. Isso só mostra que em tempos de crescente xenofobia, ideias nacionalistas e de extrema-direita, é mais do que preciso e importante discutirmos o passado, para melhor combater essas ideias no presente.

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  • França faz jogo impecável e está na Final da Copa

    Sensação da Copa, “ótima geração belga” tropeça diante da seleção mais consistente do torneio

    França x Bélgica era um jogo muito esperado pela grande quantidade de talentos em campo. Após eliminar o Brasil, a Geração Belga se mostrava capaz de ser um time muito forte e chegar longe. Após eliminar Argentina e Uruguai, a França apresentava a maturidade de um elenco jovem que soube fazer valer seu talento.

    O técnico Roberto Martinez armou o time de forma diferente do que esteve em campo contra o Brasil, colocou Mousa Dembele para ter mais marcação no meio de campo, que iria enfrentar jogadores mais fortes fisicamente. Essa mudança tática fez com que o início do jogo fosse estudado e as ações do jogo partissem dos belgas.

    Em bolas paradas as chances foram boas e o goleiro Lloris teve que fazer um milagre no chute de Alderweireld que garantiu o placar inalterado dos franceses. Atuação também muito segura de Courtois que fez duas boas defesas no primeiro tempo.

    No início do segundo tempo, em mais um gol de bola parada nessa copa, Samuel Umtiti (zagueiro camaronês, naturalizado Francês) cabeceou para o fundo do gol abrindo o placar e colocando a França numa situação mais confortável para se defender e sair no contra-ataque.

    Essa foi a tônica do jogo, a Bélgica controlava a bola tentando empatar a partida e a França se defendendo muito bem com Kanté e Pogba, volantes que fizeram outra excelente partida protegendo a cabeça da área. Umtiti e Varane garantiam a segurança nas bolas aéreas, impedindo que Lukaku conseguisse ter grandes chances na partida.

    A primeira semifinal foi um jogo muito movimentado, com a vitória da seleção que teve até aqui a atuação mais sólida da copa. Os comandados de Deschamps rumam para a grande Final contra um time que sem dúvida será inferior, pois nem Croácia nem Inglaterra tem nomes ou tem jogado um futebol a altura dos Franceses.

     

     

     

     

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  • OPINIÃO | Nunca foi só futebol: é Copa do Mundo

    Como tudo o que envolve o Brasil nos últimos anos, tivemos um clima de Copa bem diferente. Nada mais parece sagrado em solo brasileiro, o que não poupou nem a Copa, nem a amarelinha, nem os craques da Seleção.

    Eu, como militante socialista e torcedor de futebol, as duas coisas ao mesmo tempo, fiz campanha contra a ideia, pra mim equivocada, de que os lutadores e ativistas, que dedicam as suas vidas à militância e à luta social devem escolher entre uma coisa ou outra. A Copa também é reunião da família, reunião entre amigos, churrasco, cerveja e bolão, e não há mal nenhum em viver isso intensamente. Festejar em tempos difíceis também é uma forma de resistência.

    No entanto, o desenrolar dos jogos, em especial após os dois gols nos acréscimos contra a Costa Rica, fez de novo o país respirar a expectativa do Hexa, apesar de não esquecer por nenhum momento a gravidade do momento em que vivemos. Não vi nada de alienado na torcida pela Seleção. Desde 2014, fico tranquilo em dizer que a ideia da Copa como ópio do povo não condiz com o nível de politização da torcida brasileira, à direita, mas também à esquerda.

    Há 4 anos vivíamos o nosso pior pesadelo futebolístico. Em uma Copa realizada no Brasil após 64 anos, que tinha tudo para tornar-se motivo de orgulho, nos restaram estádios bilionários e vazios, cidades cada vez mais caras expulsando a população mais pobre e negra para bairros cada vez mais distantes, ou na melhor das hipóteses, para as ocupações urbanas, e um 7 a 1 desmoralizante.

    Uma geração de jogadores ficou marcada, e diversas gerações de torcedores se viram diante do inexplicável.

    A resposta da CBF foi condizente com o que dela se espera, criminosa: a recontratação de Dunga, Gilmar Rinaldi encarnando a raposa tomando conta do galinheiro, e a manutenção da seleção como algo completamente desconectado da vida do país. Amistosos contra seleções sem prestígio, em estádios sem torcedores brasileiros, fora do país.

    Tite chegou já depois do fiasco da Copa América pra salvar a lavoura, e em dois anos foi capaz de reerguer a Seleção a um patamar de disputa do título da Copa do Mundo. E isso sem contar com um grande planejamento, ou mesmo um ciclo completo entre Copas.

    Cai o mito da geração fraca do futebol brasileiro. Neymar, Coutinho, Gabriel Jesus, William, Douglas Costa, Firmino, Renato Augusto. Todos craques de seus times, com participação importante na Copa de 2018 onde Messi, CR7, Kroos, Iniesta, James Rodríguez não conseguiram ser protagonistas e nem passar das Oitavas com seus respectivos países.

    O Brasil perdeu da Bélgica, time com o melhor ataque da competição, e que demonstrou num jogo decisivo que era mais do que uma aposta. A virada contra o Japão mais que expor a fragilidade de sua defesa, já evidenciava a força mental e a capacidade técnica dos belgas. Mesmo um segundo tempo inteiro martelando, com atuações, senão brilhantes, acima da média de Douglas Costa e Neymar, não foi suficiente.

    Do lado belga, Hazard jogou muita bola, e Lukaku pode reivindicar a co-autoria do golaço de De Bruyne. Chadli e Meunier muito bem. E Courtois foi brilhante. O seu destaque só evidencia aquilo que todos puderam ver: o ataque brasileiro funcionou. Diferentemente do 7 a 1, o time cresceu quando em desvantagem. Soube manter a cabeça no lugar e não seria nada injusto arrancar o empate nas bolas de Renato Augusto, Coutinho, ou no chutaço derradeiro de Neymar, pra defesa espetacular de Courtois.

    Aqui é preciso uma pausa pra estender toda a solidariedade a Fernandinho, vítima de ataques racistas nas redes sociais. Que os autores sejam identificados e punidos, e Fernandinho possa seguir a sua brilhante trajetória no City. Como Lukaku disse recentemente, quando ele ganha, é belga. Quando perde, é congolês. O racismo é Internacional, e somente com uma luta em igual escala vamos derrotá-lo.

    Não há terra arrasada. Só uma seleção pode ser campeã, e já o fomos 5 vezes: às vezes é necessário lembrar o óbvio.

    França, Bélgica, Inglaterra ou Croácia. Considero França e Bélgica equivalentes, enquanto a Inglaterra mostrou uma campanha superior à da Croácia. Por isso, considero bastante provável que os ingleses farão uma final após 52 anos.

    Para os racistas, França, Inglaterra e Bélgica tem entre seus protagonistas jogadores negros, filhos ou netos de imigrantes. Mbappé e Pogba, Sterling e Lingard, Lukaku e Kompany. Pra quem não reparou, Lingard e Dele Alli, jogadores da Inglaterra, comemoraram seus gols com a coreografia de Childish Gambino em This Is America. Porque nunca foi só futebol.

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  • Quartas de final: palpites do Lateral Esquerda

    Chegamos naquele momento crucial da Copa do Mundo: os jogos se tornam mais raros, como os últimos dois dias sem a bolar rolar (#sddsCopa); mas ao mesmo tempo, os jogos se tornam melhores, mais decisivos e principalmente emocionantes! Após a fase das oitavas, com apenas uma surpresa, chegamos ao TOP 8 da Copa do Mundo: França, Uruguai, Bélgica, Brasil, Rússia, Croácia, Suécia e Inglaterra. Vamos saber, então, o que vai acontecer nas quartas de final dessa Copa!

    O primeiro jogo – e mais incerto – acontece sexta-feira, às 11h, quando o esquadrão francês liderado por Griezmann e Mbappé enfrenta a Celeste de Suárez e Cavani. Les bleus passaram por cima de Messi&Cia no melhor jogo da Copa até agora e estão empolgados para enfrentar mais um sul-americano. Do lado da seleção de Mujica, temos o clássico time uruguaio: uma boa defesa, mate, raça fora de serie e Luisito Suárez; infelizmente – para aqueles que gostam do bom futebol – Edinson Cavani deve ficar fora da partida, ao menos no seu início, por uma lesão na panturrilha. Este é o principal ponto fraco da Celeste, seu principal artilheiro não está 100%, e o que faz pender as apostas para os franceses. Mas de fato, é um jogo em aberto e tudo pode acontecer, a França não enfrentou nessa copa um selecionado com tão boa defesa!

    Logo depois, às 15h temos o Brasil enfrentando a badalada seleção belga. Contra o México, o time de Tite parece ter deslanchado, o ataque cumpriu o que vinha prometendo. Neymar em dia inspirado, fez com que todos jogassem em altíssimo nível. Já a Bélgica que vinha apresentando o melhor futebol até então, sofreu para passar do fraco Japão e conseguiu uma virada histórica no final do jogo. Se as duas seleções repetirem o futebol que apresentaram nas 8ª, Neymarshow&Cia passa com tranquilidade. A questão que fica é como Roberto Martínez armará o time belga, vai manter o que tem apresentado com um futebol ofensivo deixando Hazard e Lukak livres para atacar? Ou vai colocar o grosso Fellaini para deixar o time mais defensivo e menos suscetível as investidas brasileiras? Tite deve escalar o mesmo time, contando com a volta de Marcelo e a garantia que Danilo não jogará, uma vez que sofreu nova lesão e está fora da Copa.

    No sábado pela manhã temos Suécia e Inglaterra. Os suecos surpreendem mais por ter passado em primeiro em um grupo com Alemanha e México, do que por ter eliminado a Suíça. Já a seleção da Rainha – após escolher ficar em 2º lugar para pegar uma chave mais fácil – foi até os pênaltis para eliminar a Colômbia sem James Rodriguez. Poucos apostam na seleção sueca, apesar do time bem organizado e postado na defesa, não há força e talento suficiente para superar Kane&Cia liderados pelo técnico gourmet, Gareth Southgte.

    Para fechas as quartas temos os donos da casa e principal zebra da Copa contra a Croácia. Estados-nações “recentes” no mapa geopolítico do futebol, ambas as seleções almejam fazer história. Na verdade, os russos já fazem, desde a dissolução da URSS, não chegavam tão longe e agora todos especulam quando ela cairá. Se não dá para dizer que eliminaram a Fúria na sorte, poucos apostavam que Piquet, Sergio Ramos e Iniesta não conseguiriam bater a retranca russa. Já a Croácia participa de Copas desde o fim da Iugoslávia e teve sua melhor participação na estreia em 98 ao cair nas semi para a França de Zidane. Os croatas consideram essa a sua melhor seleção e contam com Modric e Rakitit para vingar o stalinismo soviético atropelar os russos.

    Se as complicadíssimas contas dos matemáticos do Lateral Esquerda estiverem certas, teremos na semifinal: França x Brasil e Croácia x Inglaterra. Sendo assim, de um lado da chave temos duas seleções tradicionais do futebol mundial – ainda que a França tenha só uma Copa, é frequente em finais e semis – e do outro lado, a maior seleção croata de todos os tempos, contra a Inglaterra que roubou ganhou a Copa de 66 em casa e de lá pra cá pouco fez.

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  • Respeite meu amor pelo futebol!

    O futebol é do povo. Ele tomou para si, a ele pertence por ter sido expropriado das elites, e se você a ama o povo, certo seria amar futebol.

    Existe uma discussão – datada, tola, é verdade – que sempre retorna à baila do debate coletivo em época de Copa do Mundo (eu vou escrever assim mesmo, com maiúscula, Copa do Mundo. E não vou usar Copa do Mundo FIFA, porque a Fifa é empresa, um dia acaba e a Copa fica, quem viver verá); essa discussão diz respeito à ideia falsa, até meio acanalhada, que afirma o esporte como sendo uma forma de alienação, uma ferramenta do Estado burguês que impediria o avanço da consciência revolucionária. Apesar não ser mais necessário provar o contrário, há sempre algum incauto que insiste no tema, até pinçando exemplos históricos, como o uso que o ditador espanhol Franco fez do Real Madri, injetando dinheiro no clube para popularizar seu regime, ou o apego da ditadura militar brasileira à seleção de 1970, ironicamente levada à copa por um comunista, João Saldanha, cuja demissão do cargo às vésperas do evento é erroneamente associada ao regime, quando na verdade passa mais por seu destempero e atuação circense  na mídia da época ( veja “no time do Saldanha não joga cabeludo!”, um clááásico:  https://www.youtube.com/watch?v=78Z0mVrxmqI ).

    Porém- há sempre diversos poréns na história – para cada exemplo de apropriação conservadora, há exemplos ainda maiores, eu arriscaria numa escala de 1 para 5, de como o futebol só se transformou no que é pelas mãos dos trabalhadores do mundo inteiro. Façamos assim: escalemos aqui as razões pelas quais o futebol é do povo e nós, como militantes da lateral esquerda do espectro das ideologias, precisamos respeitar a paixão que ele desperta. Vamos lá:

    1. APROPRIAÇÃO, é disso que esse jogo é feito. O Futebol, se você não é de marte deve saber, é um esporte originalmente inglês, restrito a clubes de burgueses brancos, filhos da elite. Um esporte de lordes, para lordes e seus filhos. O povo tomou para si, apropriou-se. Ainda bem

     

    1. DIVERSIDADE, AUTONOMIA, ESPONTANEIDADE. Ao tomar para si o esporte, o povo forçou sua prática a partir da diversidade. Vale lembrar: entre os esportes, o ludopédio é dos que menos faz exigências para ser jogado. Qualquer lugar é campo, qualquer número de jogadores, qualquer condição física, altos baixos, mais ou menos gordos; o futebol não exige fenótipo. Em qualquer tempo, com ou sem regras definidas, para haver futebol é preciso apenas de, leia em voz alta, GENTE, POVO. E uma bola, mesmo que em forma de tampa de garrafa, de papel, de pano, de lata; qualquer coisa que possa ser chutada, é bola.

     

    1. Ao sair dos espaços das elites, o futebol foi para o pátio das fábricas, fez parte da organização da resistência nos portos, entrou pelas vielas, cortiços e favelas, expandiu-se. Não faltam exemplos da ligação entre futebol e operariado e a Copa da Rússia é uma boa oportunidade para lembrar isso: O Spartak Moscow, amado clube local, nasceu em Krasnaya, rua de Presnya, violento bairro operário, viveu na clandestinidade muitos anos, pois na Antiga União Soviética, como em muitos países, o jogo era restrito a certos grupos. O time carrega consigo um histórico de luta pela popularização do esporte, sendo, inclusive, instituição portadora da ordem de Lênin, das mais altas condecorações do antigo regime soviético. Cada clube russo tem ligação com uma instituição, do exército (CSKA), ao sindicato do trabalhadores ferroviários(obviamente, o Lokomotiv, criado numa época, anos 20, em que o futebol era restrito ao exército. O clube pertencente à companhia Ferrovias Russas, monopólio ferroviário local, com mais de um milhão de funcionários)

     

    1. Cada povo e cultura contribuiu de alguma forma para que o jogo fosse o que é hoje, da sistematização dada pelos alemães à epifania técnica holandesa, da verve dramática portenha ao ímpeto uruguaio. Mas nenhum povo contribuiu mais do que o brasileiro. Aqui o esporte deixou de ser europeu. Aqui ele alcançou, com a contribuição negra, seu auge (como prova Mario Filho em “O Negro no Futebol Brasileiro”) Nenhum país fez de um esporte sua identidade cultural como o Brasil fez do futebol. Nós não somos donos do jogo, nem somos os melhores o tempo todo (certamente de todos os tempos, é diferente), porém tornamos o jogo o que ele é a partir da soma de suas características à diversidade que só existe aqui. Nós demos ao futebol o status de ópera dos povos, único local onde os pequenos se agigantam e os gigantes se apequenam. Nós temos Pelé, isso basta.

     

    1. MUNDIAL/GLOBAL. Em “Como o futebol explica o mundo”, o jornalista Franklin Foer se propõe a explicar a estreita ligação entre a popularização do jogo e o processo de globalização. O livro é dos mais originais já escritos em torno do assunto, pois cria uma espécie de prisma futebolístico a partir do qual se pode observar como, a partir dos anos 70, a popularização do jogo ajudou a moldar o que viria a ser a geoeconomia dos anos 90/2000.

     

    Por fim, em tempos de debates à base de ódio e meme, lembro aqui um deles. Em um jogo do Coritiba, um torcedor, no meio da arquibancada, preso a uma cama de hospital, segura uma placa: “futebol nunca será apenas um jogo”. O meme tem razão.

  • Piada racista faz youtuber perder patrocínios: negros perdem a vida

    No sábado pela manhã, horário do Brasil, ocorreu o jogo das oitavas de finais da Copa do Mundo entre Argentina x França, uma partida com muitos gols, que teve a França abrindo o placar, depois tomando uma virada de 2×1 do time argentino, para depois conseguir ficar novamente à frente com um 4×3, o que classificou a seleção francesa para as quartas de finais onde vai enfrentar o Uruguai. O destaque do jogo foi o jovem jogador francês Kylian Mbappé, responsável por arrancadas velozes que atordoaram a defesa da seleção argentina.

    Só que Mbappé não se tornou apenas destaque aqui no Brasil pelas suas jogadas, num pós jogo que deveria render muita discussão sobre a qualidade do atleta, na rede social brasileira que deveria ser dominada pelos chamados memes e provocações por causa da rivalidade continental entre Brasil x Argentina, o que chamou a atenção foi um comentário racista do youtuber Júlio Cocielo. Em seu perfil pessoal o youtuber Júlio Cocielo disse que “mbappé conseguiria fazer uns arrastão top na praia hein.”

    E logo foi perceptível que a “piada” de Júlio Cocielo se tratava do clássico e dissimulado racismo brasileiro, associando um homem negro e sua velocidade com a prática de assaltos coletivos, realizados por pessoas a pé, que roubam e saem correndo, principalmente em imagens registradas no Rio de Janeiro. Não precisou em nenhum momento que Cociele dissesse que Mbappé era um homem negro, bastou apenas uma leitura de como age o racismo brasileiro, que construiu sobre pessoas negras os estereótipos negativos, entre eles o da criminalidade.

    Os estereótipos raciais na sociedade brasileira atuam como mecanismos de dominação e controle, baseados em falsas generalizações sobre os grupos humanos, com a finalidade de garantir as práticas discriminatórias. E segundo os professores Adilson Moreira e Silvio de Almeida num artigo para o Justificando, os estereótipos agem como esquemas mentais que determinam a nossa percepção sobre o outro, com uma dupla característica, a descritiva que expressa supostos perfis de determinados grupos sociais, e a prescritiva que indica quais os lugares eles podem ou devem ocupar na sociedade.

    As noções negativas sobre os membros de grupos étnicos nunca são resultados de uma criação individual ou externa a sociedade em que se vive, elas são criadas a partir dos processos estruturais ligados a inferioridade política, econômica e cultural que tais grupos estão submetidos por outros. O que Júlio Cocielo reproduziu em sua “piada” não foi nada menos do que o racismo brasileiro, que durante esses séculos vinculou as pessoas negras por causa da sua origem africana, os atributos da violência e dos atos antisociais, em que os negros seriam mais propensos à criminalidade, ancorados, inclusive, nas teorias ditas científicas do século XIX, como a Antropologia Criminal do italiano Césare Lombroso, que por aqui ganhou uma tradução e adaptação do médico legista baiano Nina Rodrigues. Nessa abordagem, as pessoas negras cometeriam crimes pelo seu suposto atraso biológico na escala da evolução humana, portanto, eram sujeitos primitivos e selvagens, incapazes de viverem em sociedade de forma pacífica.


    E quem nunca ouviu aquele comentário racista que diz assim: “branco correndo é atleta e preto correndo é ladrão”? A noção de periculosidade sobre as pessoas negras é um instrumento de controle penal, que baseia as ações das instituições policiais e judiciária brasileiras. Em 2015 no Rio de Janeiro, um jovem negro gravou a sua própria morte no celular, ao perceber uma ação policial enquanto brincava com os amigos. Os policiais militares alegaram que o jovem tinha morrido numa troca de tiro, mas as imagens registradas desmentem a versão policial, permitindo a gente ouvir a voz de um dos PM’s perguntando aos garotos por que eles correram. Recentemente o ator baiano Leno Sacramento, do bando de Teatro do Olodum, foi baleado na perna por policiais civis após ser “confundido” com suspeitos de um assalto, na região central de Salvador. O valor expresso sobre um homem negro no comentário de Júlio Cocielo em seu Twitter carrega o mesmo valor que um policial utiliza para decidir quem vai continuar vivendo e quem irá morrer nos tribunais de rua.

    Logo após a denúncia de racismo se multiplicar na internet, Júlio Cocielo apagou nada além de 50 mil mensagens no Twiiter, só para termos uma idéia do nível de mensagens ofensivas que ele compartilhou ao longo desse tempo. O youtuber se defendeu dizendo que o tweet foi interpretado de diversas formas, repetindo aquela mesma lógica de quem é “flagrado” sendo racista, o racismo é sempre um problema de interpretação dos outros e não uma ação intencional de quem emite determinados comentários. Se Cocielo quisesse realmente fazer algum tipo de piada com a velocidade de Mbappé, poderia ter feito o comparando com Usain Bolt, recordista mundial de corrida e que também é um homem negro, ou de diversas formas, mas sem associa lo com a criminalidade.

    A onda de denúncias dos comentários racistas de Júlio Cocielo chegou aos seus patrocinadores, pois o mesmo já foi garoto propaganda Coca – Cola, Submarino, Itaú, Mc Donald’s, Adidas, Gillete, resultando na perda de contratos. Em uma nota publicada no domingo o site Submarino disse que “repudia veementemente qualquer manifestação racista e que tomará as providências necessárias”. A Coca – Cola que tinha contratado Cocielo para as olimpíadas de 2016 afirmou que “não tem mais vínculo com o youtuber e nem tem planos para o futuro”. O banco Itaú substituiu um vídeo para a Copa do Mundo em que Cocielo aparecia, externando que “repudia toda e qualquer forma de discriminação e preconceito”. “Esperamos que o respeito à diversidade sempre prevaleça.”


    A postura das empresas que patrocinavam Júlio Cocielo é de quem foi pego de surpresa com um erro de uma pessoa qualquer, mas a questão é que Cocielo é digital influencer com 16 milhões de pessoas inscritas no seu canal no Youtube e com 7 milhões de seguidores no Twitter, a maioria formada por crianças e adolescentes, o que é mais perigoso ainda. Que tipo de geração vem sendo (de)formada por esses youtubers? Da mesma forma que as pessoas conseguiram resgatar várias mensagens com conteúdos racista, machista e homofóbico de Cocielo, as empresas poderiam fazer o mesmo, se elas realmente estivessem interessadas em respeitar a diversidade e se posicionassem contra as variadas formas de discriminação. O que as empresas estavam almejando era o alcance de publicidade que Júlio Cocielo tem no mundo virtual e o retorno financeiro que ele poderia trazer. Porque no capitalismo o objetivo final de toda empresa é lucrar, não importa como.

    Há alguns anos já vem sendo promovido um debate público acerca dos comediantes e suas “piadas” que visam gerar o riso através da humilhação de mulheres, negros e lgbt’s. E o que foi feito por parte desses artistas? Optaram por resistir, estigmatizando quem os criticavam de “politicamente correto” e até mesmo disseram que estavam sendo “vítimas de censura”, em nome de um humor antiquado, ofensivo e que reproduz as desigualdades existentes, tentando esconder atrás de uma falsa neutralidade em nome da liberdade expressão e profissão.

    Mbappé é um jovem negro de 19 anos de idade, segundo o jornal francês L’Équipe, o jogador está doando os 90 mil reais que ganha por jogo na Copa do Mundo para instituições de caridade. Enquanto aqui no Brasil, jovens negros da idade Mbappé estão sendo exterminados, figurando entre as principais vítimas de homicídio, assassinatos em massa que não sensibilizam a sociedade, porque justamente os jovens negros são tratados como bandidos e causadores de arrastões.

    Henrique Oliveira é mestrando em História Social na UFBA e colaborador da Revista Rever/Salvador

    Publicado originalmente no blog Diários Incendiários

  • Brasil 2×0 México: Tem que respeitar, aqui é Brasil!

    Quando o juiz apitou para o meio de campo encerrando a partida, um sorriso mais do que merecido se estendeu nos rostos dos jogadores brasileiros e de todos que acompanharam nossa Seleção. Vencemos, jogamos bem, nosso principal jogador foi o destaque do jogo, mais um 2×0 (o terceiro nessa copa), e mais uma vez vamos para as quartas de final (a sétima Copa seguida que avançamos para essa fase).

    O primeiro tempo foi difícil, suado. Diante de um forte calor na cidade de Samara, a equipe mexicana foi quem conseguiu emplacar o ritmo do jogo, porém, sem causar grandes sustos ao goleiro Alisson. Depois da metade da etapa inicial, nossa Seleção já se sentia mais livre em campo. Nossos jogadores botaram a bola no chão, respirou e tentou fazer nosso jogo. Neymar começou a aparecer, para azar dos mexicanos e dos que criticam nosso craque. Driblava, chutou perigosamente e incentivou a equipe. Era um anúncio do que estava por vir.

    Assim que a bola rolou na volta do intervalo, o que se viu foi um Brasil avassalador. Logo aos seis minutos, Neymar puxou três zagueiros rivais na entrada da área, tocou de calcanhar para Willian e como num piscar de olhos, o meia brasileiro invadiu a defesa mexicana e bateu cruzado, Neymar mergulhou de carrinho e com as travas da chuteira empurrou a bola pra dentro. Um a zero. Gol pra sujar a camisa, no talento e na raça.

    Na comemoração Neymar é erguido nos ombros por Paulinho, e faz sinal de silêncio para a torcida mexicana, ou seria para os críticos? Não importa, mas daquele momento em diante, era o momento de muitos sentarem e assistirem o futebol pentacampeão do mundo dominar o adversário.

    Com uma defesa firme, não deixávamos passar nada. A dupla de zaga, Thiago Silva e Miranda estavam em uma noite inspirada. Fagner conseguiu se recuperar de um mal primeiro tempo e na volta do intervalo fechou o lado direito, os mexicanos ficaram sem opção.  Casemiro, o nosso melhor jogador no torneio, foi gigante, ganhou todas, parecia um adulto pegando a chupeta de um recém-nascido.

    Willian, que até então não fazia uma boa Copa ofensivamente, flutuava com imensa facilidade sobre os marcadores adversários. Com uma arrancada atrás de outra, nosso “foguetinho” só era parado por faltas.

    É na fase de mata-mata onde os grandes craques mostram por que são diferenciados, e foi o que o nosso camisa 10 fez. O atacante chamou para si a responsabilidade e mostrou porque é um dos melhores do mundo e fez sua melhor partida até agora na Rússia. Com toda a habilidade que tem, partia pra cima dos adversários, buscava resolver o jogo, mostrava um repertório de dribles e arrancadas. Mais uma vez o México só tinha as faltas como método, e utilizou inclusive de forma desleal, quando Layún pisou no tornozelo direito de Neymar, quando o mesmo estava caído fora de campo.

    Apesar das faltas, a única coisa que conseguia ser efetiva para parar o time brasileiro era o goleiro Ochoa, que em mais uma noite inspirada conseguia barrar nossos chutes.

    Quando o jogo se aproximava do fim, Tite colocou Roberto Firmino, o menino sorriso. O atacante do Liverpool fez uma temporada sensacional na Inglaterra e com apenas alguns minutos em campo fez aquilo que toda Alagoas já sabia que ele iria fazer, botou mais uma bola nas redes mexicanas. Neymar recebe belo passe de Fernandinho, que deve começar jogando próxima partida por conta da suspensão de Casemiro, e diante do cansaço dos zagueiros mexicanos que já haviam se entregado esperando por mais um gol, invade a área cara a cara com o Ochoa e bate cruzado, Firmino, o único nordestino da atual Seleção, mostra toda sua estrela, estando no lugar certo na hora certa, e com um toque ele entra junto com a bola no gol adversário.  2 a 0 Brasil. O abraço coletivo dos jogadores após o segundo gol mostra o espírito de união da equipe.

    No dia seguinte a partida jornais de todo mundo colocam na primeira página nossa vitória. Da Argentina, a França, passando por Itália a Bangladesh, todos sabem quem é o favorito para ganhar a Copa e qual é a Seleção, a única com “s” maiúsculo, que tem o melhor futebol do mundo.

    Quando o juiz encerrou a partida, as ruas foram tomadas por crianças que estouravam bombas em comemoração, gritos eufóricos das mães, pais, tios, tias, irmãos dessas mesmas crianças. Foi dia de churrasco e cerveja em plena segunda. A esperança e alegria estavam estampadas junto do sorriso nos rostos de milhares de pessoas. Estamos mais perto de nossa sexta estrela.

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  • Rússia faz história e chega às quartas de final

    Hoje a vodka está liberada, pode dançar pagode russo e gravar vídeo na comemoração pós jogo como fez o Galvão Bueno, porque a seleção anfitriã, contrariando todas as apostas e a lógica, que já deixou de ser critério nessa copa faz tempo, eliminou a favoritíssima Espanha e está nas quartas de finais da Copa do Mundo.

    A seleção espanhola abriu o placar logo no início da partida numa falta cobrada para dentro da área depois do empurra-empurra entre o zagueiro espanhol Sérgio Ramos e Sergey Ignashevich, a bola acaba resvalando no jogador russo e entrando. O gol parecia o início de um baile espanhol, mas a história não foi bem assim. Após o gol a seleção espanhola resolveu trocar passes e mais passes. Foram mais de 1200 em toda a partida. Mostrando um futebol pouco veloz e com jogadores estáticos deu campo para os russos que, junto com as arquibancadas, foram para cima acreditando que era possível.

    Aos 41 minutos da primeira etapa depois de tanto pressionar o time da casa chegou ao empate. Depois de um escanteio, o zagueiro Piqué corta o cabeceio russo, numa jogada digna de vôlei (Giba, neles!), o juiz marca pênalti que foi convertido pelo experiente centroavante Dzyumba.

    O segundo tempo teve uma tendência de domínio espanhol, trocando passes e colocando a seleção russa na roda, com contra-ataques esporádicos, mas perigosos, da seleção Russa. O jogo teve 79% de posse de bola para seleção espanhola, que ainda chutou 24 vezes contra 7 dos russos. Era um massacre de volume de jogo. Em campo e no banco os russos pediam o incentivo da torcida e sabiam que a força das arquibancadas era a única chance de vencer mais essa batalha e avançar as quartas de finais, o que não acontecia desde a copa de 90 (quando ainda existia a URSS).

    Na metade do segundo tempo mais um momento histórico. Pela última vez em copas, Iniesta entrava em campo. Ele ainda não sabia disso e com certeza não passava na cabeça dele e de todos espanhóis que sua despedida seria tão prematura, mas que em alguns minutos o cara que fez o gol do único título mundial de seu país e foi símbolo de uma geração que assombrou o mundo com o belo futebol ofensivo e efetivo se despediria com a camisa roja.

    O jogo foi para prorrogação e a dinâmica se manteve. A Espanha martelava, sufocava, imprimia um volume de jogo e troca de passes. A Rússia se defendia e contra-atacava no momento certo. Como a tradição estrategista de sua cultura política, militar e esportista. Eles arrastavam o jogo para os pênaltis, era a única chance, nela apostaram tudo e conseguiram!

    Nos pênaltis brilhou a estrela do goleiro Akinfeev, escolhido o craque da partida, que pegou dois chutes e trouxe a glória para os donos da casa. Seus batedores inspirados na tradição do perfeccionismo russo não erraram uma cobrança. Era só tiro certo, lembrou o exército vermelho. Nem precisou bater todos os pênaltis para fechar o placar das penalidades máximas em 3 x 2.

    Hoje a seleção russa confirmou que a alegria está dentro e fora de campo por aqueles lados. Hoje eles se enchem de orgulho e por essa altura do campeonato pouco importa qual adversário virá nas quartas de finais, pois fizeram história e sabem que o que estava na faixa que carregavam ao final do jogo aconteceu: “Jogamos por voces!”. Hoje o mundo dorme surpreso e a Rússia não dormirá pois estará em festa.

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  • Agora ficou sério: quem é quem nas oitavas de final

    Dezesseis jogos, é só o que falta para sabermos quem será o novo campeão mundial. Quem será o artilheiro? O protagonista? O autor do gol salvador? Ou da defesa de um pênalti que irá consagrar um novo herói? Teremos uma (ou mais) zebras?

    Não, estas perguntas não precisam de uma resposta imediata. Mas elas são, certamente, o combustível que anima todos aqueles e aquelas que apreciam o bom futebol e esperam que os duelos decisivos estejam à altura de uma Copa do Mundo. Até aqui, na primeira fase, tivemos partidas muito interessantes do ponto de vista tático, com seleções sem tanta tradição conseguindo impor um plano de jogo que dificultou a vida das ditas “grandes seleções”. A Alemanha, atual campeã, acabou ficando de fora, com a Argentina quase seguindo o mesmo caminho e se salvando de modo dramático.

    Nesta segunda fase da competição, que começa neste sábado, dia 30/06, apenas 16 seleções estão no páreo. São dez times europeus, cinco latino-americanos e apenas um asiático (o Japão). Do seleto grupo das oito seleções campeãs da Copa, Alemanha e Itália (que sequer passou pelas eliminatórias) são as únicas que estão fora da disputa.

    Pelo chaveamento das oitavas de final é possível afirmar que o Brasil caiu do lado, em tese, mais difícil, com seleções tradicionais e que já foram campeãs. França, Argentina, Uruguai ou Portugal podem cruzar o caminho da seleção canarinho numa eventual semifinal, já a Bélgica é nossa potencial adversária de uma disputa de quartas de final. Do outro lado da chave, a Espanha desponta entre outros times europeus que mostraram força, mas que possuem a camisa “menos pesada”. Além da seleção colombiana, que se desejar chegar até a final, terá que disputar uma espécie de “mini Eurocopa”.

    Para dar uma força para aqueles que ainda estão um pouco perdidos com os horários, ou que ainda não sabem em quem apostar no bolão, o Lateral Esquerda preparou um resumo com todos os confrontos das oitavas e os palpites dos nossos comentaristas sobre quem leva a melhor em cada confronto. Não concordou com os nossos palpiteiros? Deixe a sua opinião nos comentários!

    França x Argentina (sábado, 30/06, 11:00)

    Pelo peso das camisas, este certamente será o maior confronto das oitavas. Com times respeitáveis, mas que ainda não corresponderam às expectativas, este duelo aconteceu poucas vezes na história das copas, em 1930 e 1978, ano em que a Argentina conquistaria sua primeira copa. Em 2018, a seleção francesa apresentou um futebol pragmático, jogando apenas o suficiente para vencer Austrália e Peru e empatar com a Dinamarca.

    Já a seleção argentina fez uma campanha digna de um tango, depois de empatar com a Islândia e ser goleada pela Croácia, a Argentina juntou os cacos e jogou com o coração para superar a Nigéria na última rodada. O grupo treinado por Sampaoli não transmite confiança, mas é difícil cravar que um time que conta com Messi não possa surpreender e crescer na competição.

    Palpite Lateral Esquerda: Argentina

    Uruguai x Portugal (sábado, 30/06, 15:00)

    Um dos duelos mais equilibrados das oitavas, Uruguai chega às oitavas com 100% de aproveitamento e nenhum gol sofrido em três jogos. É verdade que, em comparação com Portugal, os adversários dos uruguaios eram times mais frágeis, mas uma defesa sólida será um bom desafio para Cristiano Ronaldo, que já marcou 4 gols nesta edição da copa. A seleção portuguesa fez jogos difíceis na primeira fase, onde a figura de CR7 de fato apareceu para dar conta do recado, mas a seleção portuguesa não está nas oitavas à toa. Jogo duro para a dupla Suárez e Cavani.

    Palpite L E: Uruguai

    Espanha x Rússia (domingo, 01/07, 11:00)

    A seleção espanhola viveu um princípio de crise nas vésperas da copa, por conta da demissão do técnico Julen Lopetégui, mas os efeitos práticos desta bomba foram bem menores do que o esperado. É verdade que La Fúria ficou no empate com Portugal e Marrocos (venceu apenas o Irã), mas estes jogos foram particularmente difíceis, com adversários que surpreenderam. Além disso, as atuações do selecionado espanhol foram convincentes.

    Mas o caminho espanhol não será fácil: inferior tecnicamente, a Rússia conta com a empolgação gerada pelas boas atuações na primeira fase para sonhar com uma possível vitória que daria muita moral para o restante da competição. O ataque russo soube mostrar poder de decisão e pode surpreender com uma tática que aposte nos contra-ataques.

    Palpite L E: Espanha

    Croácia x Dinamarca (domingo, 01/07, 15:00)

    A seleção croata, sob a batuta de Luke Modric, surpreendeu e fez belas apresentações na primeira fase. Foram três vitórias, com direito a goleada contra a Argentina, todas elas muito seguras, que demonstraram um time habilidoso e que pode ir longe na competição. A Dinamarca, por sua vez, estreou muito bem contra o Peru e depois pôde se dar ao luxo de administrar dois empates contra Austrália e França (este último, o pior jogo desta copa). Os croatas chegam como favoritos (é pleno que fala né?).

    Palpite L E: Croácia

    Brasil x México (Segunda-feira, 02/07, 11:00)

    Segurando o lado torcedor, neste confronto é possível afirmar que o Brasil é favorito, não apenas pelo peso da camisa, mas porque apresentou um futebol mais organizado nos três primeiros jogos da Copa. Embora o cartão de visitas do México seja uma surpreendente vitória sobre a Alemanha, depois disso o time oscilou e chegou a ter a classificação em risco. Do ponto de vista do elenco também há uma boa vantagem brasileira, mas nem tudo são flores. Em termos de confrontos diretos, o México já surpreendeu o Brasil algumas vezes, como nas Olimpíadas de 2012, quando os mexicanos foram campeões, e na Copa de 2014, quando seguraram um empate em O x 0 na primeira fase. Podemos nos dar ao luxo de sermos otimistas, mas é bom manter os olhos bem abertos!

    Palpite L E: Brasil

    Bélgica x Japão (Segunda-feira, 02/07, 15:00)

    A fantástica geração belga fez uma primeira fase de respeito, com 100% de aproveitamento e uma chuva de gols. A seleção mais bajulada elogiada pela crítica esportiva terá pela frente o adversário considerado mais fraco das oitavas. O Japão se classificou graças ao “fair play”, pois o critério de desempate utilizado foi o de n° de cartões amarelos. Mas vale lembrar que esta é a “copa das zebras”…

    Palpite L E: Bélgica

    Suécia x Suíça (terça-feira, 03/07, 11:00)

    Convenhamos, é difícil olhar para este confronto e imaginar que daí sairá o campeão, mas é bom ficar de olho no que Suécia e Suíça reservam para as oitavas. A seleção suíça fez uma ótima primeira fase, com vitórias contundentes contra Sérvia e Costa Rica, e um empate que azedou a estreia brasileira. Já a Suécia tem demonstrado muita força contra grandes adversários, como a Holanda e a Itália, nas eliminatórias, além de ter feito ótimas partidas na primeira fase, em especial contra o México, mas até mesmo na derrota para a Alemanha. Dois times muito fortes defensivamente, mas que sabem atacar.

    Palpite L E: Suécia

    Colômbia x Inglaterra (terça-feira, 03/07, 15:00)

    Talvez um dos jogos mais imprevisíveis das oitavas, uma vez que reunirá duas boas seleções, mas que oscilaram demais em suas campanhas até aqui. A Inglaterra surpreendeu com o artilheiro Harry Kane, mas tem um elenco que não empolga. Do lado colombiano, o time possui jogadores renomados como o zagueiro Mina, o meia James Rodriguez e o atacante Falcão Garcia, mas ainda falta uma boa dose de confiança para os sul-americanos embalarem.

    Palpite L E: Colômbia

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