Carlos Zacarias

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  • Aonde Vamos?

    Por Carlos Zacarias de Sena Júnior*, Colunista do Esquerda Online

    Os acontecimentos produzidos nas duas últimas semanas, que perpetuam uma crise que se arrasta há mais de um ano, produziram, na quarta, 24, seus resultados mais significativos. A convocação das Forças Armadas para “garantir a lei e a ordem” de um governo ilegítimo e caótico, acuado por movimentos sociais e de trabalhadores, são sintomas de que o buraco que nos metemos é ainda mais fundo. Não bastasse a atual crise política, a maior parte dos membros do governo segue alheia ao que acontece no mundo real, com os olhos postados unicamente nos movimentos e expectativas do mercado.

    O problema da maioria dos brasileiros com Temer não se deve unicamente ao fato de que ele aceitou propina, fez tráfico de influência ou ofereceu informação privilegiada ao dono do maior frigorífico do mundo. A corrupção é um dado estrutural do capitalismo e num país como o Brasil, cujas eleições são financiadas a peso de ouro por grandes empresas, só sendo muito inocente para acreditar que quem recebeu fortunas de empresários não o fez com a promessa da contrapartida. Essa questão, por si só, coloca todos os governos e quase todos os parlamentares sob suspeita. Mas não é contra a corrupção que se levanta a maioria dos brasileiros no momento. Do alto da sua impopularidade, Temer só se sustenta se puder garantir que seu programa de contrarreformas seja aprovado para diminuir o custo do trabalho no país no interesse do grande capital. Como muitos já entenderam, este governo foi criado a bem dos que mandam. Estes foram beneficiados pela impaciência e exasperação dos setores médios surgidas no lastro do fracasso das políticas de conciliação praticadas pela esquerda que governou. Em função da sua ilegitimidade, o atual governo é uma aposta alta das nossas classes dominantes e o seu fracasso porá em risco a existência de um projeto secular.

    Além de ilegítimo e impopular, o governo de Michel Temer padece dos males da corrupção que foi usada com motivo para dar sustentação ao afastamento de Dilma. Todavia, caso Temer fosse o mais honesto dos políticos brasileiros, ainda assim os trabalhadores estariam lutando contra a sua agenda de destruição da Constituição. O fato de ter tido conversas reveladas que demonstram que é tão ou mais corrupto do que aquele que acusou, não apenas facilita o trabalho dos que pedem o Fora Temer, mas reduz a uma disjuntiva as possibilidades de uma saída da crise: diante do caos que os golpistas mergulharam o Brasil, a alternativa de governar pela força com a instauração de um Estado de exceção na base da repressão pura e simples começa a encantar quem sempre esteve alheio aos problemas da maioria do povo. Do lado oposto, a renúncia de Temer e do Congresso igualmente corrupto, seguido da imediata convocações de eleições gerais e diretas, pode representar a única alternativa para que o país não seja novamente banhado em sangue.

    *Publicado originalmente no Jornal A Tarde, em 26/05/2017.

  • Se uma janela de oportunidade se abriu na conjuntura, devemos mergulhar a fundo

    Por: Carlos Zacarias, colunista do Esquerda Online

    O cataclismo que atingiu o cenário político do Brasil no dia de ontem não devia causar tanta surpresa. Mergulhado em uma combinação explosiva de crises que vão da crise econômica à crise política, passando pela crise social de grandes proporções, o país que há um ano assistiu o impeachment não devia ficar tão estupefato ante as denúncias que agora ameaçam por abaixo o governo mais impopular da história, o governo do golpista Michel Temer. Todavia, uma coisa chamou a atenção de muita gente e provocou a desconfiança generalizada em relação aos interesses que moveram os denunciantes e a emissora que primeiro noticiou o escândalo: qual seria o interesse da Globo em embaralhar o jogo e ameaçar a estabilidade alcançada por Temer nos altos escalões? Seria um movimento planejado, uma espécie de segundo round do golpe? Estaria a Globo interessada em derrubar Temer para emplacar alguma alternativa?

    As perguntas devem ser feitas e toda desconfiança é válida diante do furo de reportagem trazido por uma emissora que apoiou o golpe há um ano e seguiu trabalhando em benefício das políticas desenvolvidas por Temer até o momento. Não obstante, parece ingênuo imaginar que há sempre um plano muito bem concebido e o total controle dos destinos e das ações dos indivíduos da parte das classes dominantes e suas frações que atuam nos grandes meios de comunicação. É verdade que a Globo é movida por interesses materiais e pode estar calculando muito bem os passos que vai dar, as notícias e denúncias que serão trazidas a público e os alvos preferenciais que serão postos na beira do precipício. Talvez não tenhamos clareza suficiente para inferir sobre muitas das questões que serão reveladas no futuro. De momento, contudo, apenas podemos especular sobre o tema, mas tomando cuidados para não transformar a saudável desconfiança em teoria da conspiração, que só faz dificultar o acesso à verdade.

    Parece improvável que a Globo tenha tido algum interesse muito forte na desestabilização de Temer. Há um ano do impeachment, mesmo com toda a impopularidade e a pressão crescente das ruas e dos trabalhadores que fizeram uma enorme greve geral, a probabilidade de o governo aprovar as reformas Trabalhista e Previdenciária ainda eram bastante grandes. Então, por que isso veio à tona? Analisando o período que culminou no golpe do 18 de Brumário de Luís Bonaparte em dezembro de 1851, Marx dissertou magistralmente sobre como as classes dominantes e suas frações se moviam no conturbado cenário pós-revolução de 1848. Dizendo tratar-se de um período que abrangia “as mais heterogêneas misturas de contradições clamorosas”, Marx discutiu como a inusitada e inesperada ascensão de Bonaparte foi possível graças ao impulso de força da massa camponesa, até então excluída dos principais acontecimentos do país desde as Guerras Napoleônicas. O que Marx demonstra na sua apreciação é que, mesmo se movimentando em condições que não são controladas pelos sujeitos da história (a agência), no curso de um período tão conturbado, as saídas para uma crise são definidas pela forma como as classes e suas organizações atuam na luta e decidem o caminho.

    A propósito de sua concepção de história, que em nada se assemelhava à concepção hegeliana, Marx aludia ao elemento contingente, como criador de oportunidades nas quais o elemento decisivo era o subjetivo e não o objetivo. Escrevendo a Kugelman no curso que deram ensejo à Comuna de Paris, Marx afirmou: “A história mundial seria na verdade muito fácil de fazer-se se a luta fosse empreendida apenas nas condições nas quais as possibilidades fossem infalivelmente favoráveis. Seria por outro lado, coisa muito mística se os acidentes não desempenhassem papel algum”.

    Ou seja, se é verdade que a burguesia e suas frações controlam quase tudo nos países capitalistas, em circunstância nenhuma ela detém as condições de decidir unilateralmente os caminhos que a história vai tomar. Numa palavra, a burguesia controla tudo, menos a história. O futuro advirá da luta, do confronto, da forma como as classes vão atuar nos marcos da necessidade. Nesse sentido, a pergunta a se fazer ante ao “acidente” das revelações que abalaram Brasília ontem são as seguintes: a delação premiada de Joesley Batista, dono da JBS, que acusa Michel Temer de ter concordado com o pagamento de uma mesada milionária para que Cunha ficasse em silêncio é favorável aos trabalhadores? É possível que essa nova crise cause instabilidade suficiente para paralisar as reformas? Seria razoável se supor que os trabalhadores vão desencadear uma ofensiva contra o governo de Temer criando condições para a sua derrubada? Se as respostas a essas questões forem todas positivas, não há  o porquê de transformar as desconfianças em relação à Globo em paralisia.

    Mesmo sendo evidente que as soluções não sejam dadas de antemão e que há o risco de os trabalhadores sofrerem derrotas ainda maiores, não há outra forma de tomar a sério o grito de “Fora Temer” sem entender que, ao tentar fazer a história, os trabalhadores arriscam o seu pescoço, tanto quando a burguesia arrisca o dela ao tentar conter a marcha do progresso. Se uma janela de oportunidade se abriu na conjuntura, os trabalhadores devem mergulhar de cabeça para tentar impor uma outra perspectiva de futuro.

    Como parteiras da história, revoluções ou catarses carregam em si o seu oposto e inelutavelmente contraditório. Quem luta por transformações profundas deve saber que a história não se decide antecipadamente. É preciso que o jogo seja jogado para que se proclamem os vencedores e os derrotados. O que é certo, entretanto, é que na guerra entre as classes o único resultado que não é possível é o empate.

    Foto: 17 05 2017 São Paulo SP Brasil Manifestantes fecham via da avenida Paulista pedindo eleições já depois das divulgações de corrupção envolvendo o presidente Michel Temer Foto Paulo Pinto AGPT

  • A hora de a onça beber água

    Por: Carlos Zacarias de Sena Júnior, colunista do Esquerda Online*

    Foi citando o ditado popular que dá título a este artigo que Lula foi investigado por uma auditoria militar no Acre, em 1981. O assunto, que foi tema da matéria publicada no portal UOL da última quarta-feira, recuperou o inquérito aberto a partir das acusações feitas pelo presidente da Federação da Agricultura do Acre, Francisco de Araújo, que apontou o então sindicalista como promotor de “incitamento à luta armada”, “apologia à vingança” e à violência entre as classes sociais. A situação foi registrada na cidade de Basileia, para onde Lula havia ido após o assassinato do presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais da cidade, também presidente municipal do PT, Wilson Pinheiro. O adágio citado por Lula na assembleia de trabalhadores rurais teria soado como uma ameaça e uma incitação à violência, haja vista que no dia seguinte, como ato de vingança, os trabalhadores executaram o suposto assassino, o capataz Nilo de Oliveira.

    A lembrança do ocorrido há 36 anos é oportuna tendo em vista o circo armado em Curitiba para o depoimento de Lula ao juiz Sérgio Moro. Mesmo sem haver uma relação direta entre um fato e outro, não há dúvidas de que o temor e o ódio que Lula e o PT despertam vêm de longe e permanecem inscritos em nosso imaginário político. Vêm do tempo em que o sapo barbudo liderava greves que movimentavam milhares de trabalhadores e ameaçavam os pilares da ditadura.

    Entretanto, tanto ali, como aqui, há uma evidente desproporção entre a realidade e a fantasia, algo causado por uma espécie de medo inscrito no íntimo de uma mentalidade primitiva que desconhece a realidade. O recrudescimento do ódio ao PT nos últimos tempos ganha dimensões de irracionalidade só possível em períodos e em sociedades em que variadas espécies de macarthismo vicejaram.

    Em verdade, longe de ser incendiário, Lula foi sempre um obsessivo conciliador dos inevitáveis atritos que a luta de classes promove e que, ocasionalmente, ganha dimensões explosivas num país com brutais níveis de desigualdades como o Brasil. Portanto parece óbvio que o ódio ao PT não pode ser explicado apenas pela corrupção.

    Antes de condenarem Lula pelos eventuais mal-feitos que tenha cometido, a imprensa, os juízes e toda a “gente de bem” que insiste em vestir a camisa da CBF/Nike para protestar contra o PT, antecipadamente já o condenaram por ser o Lula que fala para o povo, mobiliza os sem-terra, os sem-teto e uma parte importante da classe trabalhadora.

    Não estou entre aqueles que acreditam que Lula é uma ameaça ao status quo como pensam seus aparvalhados acusadores, nem acredito que Lula venha a cumprir qualquer papel de protagonismo nas transformações estruturais que o país precisa. Todavia, não é possível descrer da força das ideias na história, até porque, como diria Marx, a humanidade só se coloca problemas que é capaz de resolver.

    * Publicado no Jornal A Tarde, (12/05/2017)

    Foto: Rio de Janeiro – Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva participa do lançamento da campanha Se é público é para todos, organizada pelo Comitê Nacional em Defesa das Empresas Públicas  (Fernando Frazão/Agência Brasil)

  • Escola sem Mordaça

    Por: Carlos Zacarias de Sena Júnior*, colunista do Esquerda Online

    Lançada na última segunda-feira (10), a Frente Baiana Escola sem Mordaça pretende ser um espaço de articulação das entidades dos movimentos sociais e populares contra as investidas do movimento Escola sem Partido. Em auditório repleto de docentes e estudantes de diversas cidades da Bahia, mais de uma dezena de oradores se inscreveram para manifestar a firme disposição de impedir as tentativas de estabelecer a censura e o constrangimento dos educadores no ambiente escolar.

    O lançamento da Frente acontece num período em que tristes episódios de assédio a professores vem sendo registrados no país. A Associação Nacional de História (ANPUH), prestigiada entidade que congrega profissionais de História de todo o Brasil denunciou casos ocorridos em diversas partes do país onde professores vem sendo perseguidos ou processados por suposta doutrinação política ou apologia do feminismo.

    Veio de São Paulo, contudo, o maior dos absurdos. O vereador do DEM, Fernando Holiday, ligado ao MBL, sob o pretexto de “fiscalizar queixas de doutrinação nas escolas” invadiu de surpresa uma escola municipal na zona sul da cidade, para intimidar professores. Felizmente a atitude desastrada do vereador redundou em constrangimento com o secretário de Educação do município, Alexandre Schneider. O responsável pela pasta na gestão do PSDB, da qual o vereador é aliado, afirmou: “Evidentemente o vereador exacerbou suas funções e não pode usar de seu mandato para intimidar professores”.

    Melhor fez a vereadora Sâmia Bonfim (PSOL), que do plenário da Câmara discursou contra a patrulha exercida pelo colega do DEM: “A censura acabou há anos neste país e não vamos permitir que o senhor tenha esse tipo de prática totalitária e intimidatória com os professores do município”. No ensejo da intempestiva “visita” protagonizada pelo militante do MBL, Sâmia apresentou o PL Escola Livre, que entre outras coisas assegura: “a liberdade de aprender, ensinar, pesquisar, ler, publicar e divulgar por todos os meios a cultura, o conhecimento, o pensamento, as artes e o saber, sem qualquer tipo de censura ou repressão.”

    Por efeito de suas posições, Sâmia e sua colega Isa Penna, também do PSOL, tiveram os números de seus celulares expostos em redes sociais, o que ocasionou o recebimento de milhares de mensagens ofensivas e de defesa do projeto Escola sem Partido.

    Como disse um dos oradores presentes ao lançamento da Frente Escola sem Mordaça, a configuração que a luta de classes vem assumindo no Brasil é de uma verdadeira guerra. Nessa altura, não se pode dizer que a busca cega por atingir o objetivo da parte dos grupos de extrema direita no país não venha a determinar a necessária autodefesa da parte dos trabalhadores. E os educadores, por sua vez, podem não estar dispostos a aguardar passivamente a próxima visita de um parlamentar para lhes constranger.

    * Doutor em História. Professor da UFBA.

  • Não somos o 1%

    Por Carlos Zacarias de Sena Júnior, Doutor em História, Professor da UFBA e colunista do Esquerda Online

    Resultaram em retumbantes fracassos as manifestações convocadas pelas organizações Movimento Brasil Livre (MBL) e Vem pra Rua no último domingo. Sob o pretexto de apoiarem a Lava Jato e lutarem contra a corrupção, mas endossando as medidas adotadas por um Congresso e um Governo cujos membros estão denunciados por corrupção, os grupos das novas direitas promoveram atos programados desde meados de fevereiro e amplamente propagandeados por semanas, mas tudo que conseguiram colher das ruas foi fracasso e vergonha.

    Após o fiasco, líderes das duas organizações, e de outras menores, minimizaram a baixíssima adesão aos atos, alegando a complexidade dos temas. Falando ao site do El País (Brasil), Kim Kataguiri afirmou: “Evidentemente não vamos reunir milhões de pessoas como na época do impeachment porque era uma bandeira histórica, muito mais engajante do que essa. Mas também nenhuma democracia saudável mobiliza dois milhões de pessoas com frequência.” A questão é que nove dias antes, perto de um milhão de pessoas saíram às ruas de todo país contra as mesmas reformas que o MBL e o Vem pra Rua convocaram atos para defender.

    Ao que parece, tanto as organizações das novas direitas estão perdendo credibilidade, quanto as pessoas se deram conta do retrocesso social a que o Brasil está sendo conduzido. A propósito, em sua coluna na Folha de São Paulo, Mônica Bergamo registrou que 74,8% dos manifestantes que estiveram na Av. Paulista eram contra a reforma da previdência proposta pelo governo e 46,48% disseram que desejam ver Temer fora da presidência. Ou seja, dois terços dos manifestantes eram contrários às duas principais bandeiras do ato.

    É possível que uns tantos desavisados tenham errado de manifestação, mas não parece improvável que quanto ao governo alguns queiram um presidente ainda mais à direita do que este que aí está. Para os primeiros é ainda possível acertarem o passo com a história, mas para os segundos o melhor a fazer é se recolherem às suas casas para não serem varridos para a lata de lixo da história junto com aquele 1% que a direita representa.

    Já nesta sexta-feira, 31, dia em que recordamos os tristes acontecimentos que sucederam no Brasil há pouco mais de 50 anos, novos protestos estão marcados, desta vez feitos pelas organizações populares que são contra as reformas previdenciária e trabalhista do governo e também contra a Lei das terceirizações recentemente aprovada pela Câmara. Os atos são preparatórios para uma Greve Geral marcada para o dia 28 de abril.

    Na semana em que muitos lembrarão com tristeza o fosso em que o país se meteu ao longo de 21 anos de ditadura, nada melhor do que recuperar o protagonismo político e o controle das ações nas ruas, contribuindo para que o Brasil retome, definitivamente, o caminho do progresso e de uma efetiva da justiça social.

    Publicado originalmente no Jornal À Tarde – Salvador.

  • Sejamos anticapitalistas e radicais, antes que as direitas o sejam

    Por: Carlos Zacarias, colunista do Esquerda Online

    As últimas pesquisas realizadas no Brasil para as eleições presidenciais de 2018, não deixam dúvidas: a candidatura do deputado do PSC-RJ, Jair Bolsonaro, começa a aparecer como alternativa viável. Entretanto, nem era preciso verificar os números através da pesquisa. Para um observador atento, parece se tornar cada vez mais evidente que o nome do deputado, que no ano passado prestou homenagens à memória do torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra na fatídica sessão que votou o impeachment de Dilma Rousseff, cresce entre os setores menos organizados da sociedade. Mas por que o parlamentar conhecido por seu histrionismo e suas diatribes machistas, homofóbicas e racistas tem despontado como alternativa mesmo entre as camadas mais populares? A pergunta deve ser respondida, entre outras coisas, levando-se em consideração o lugar ocupado pela política na vida das pessoas.

    Em tempos em que a corrupção associada ao parlamento e ao Executivo se tornaram manchetes diárias nos noticiários dos jornais, a confusão entre aquilo que é epifenomenal e o que é central na atualidade não chega a ser uma surpresa, pois faz parte do pacote ideológico disseminado pela classe dominante. Os brasileiros se acostumaram a odiar os políticos em tempos normais e, paradoxalmente, a idolatrá-los em períodos eleitorais quando são contagiados pela propaganda espetacular transmitida em horário nobre. Nos últimos anos uma avalanche de denúncias e algumas punições de políticos conhecidos, transformaram a frustração e a impotência diante dos políticos, em regozijo e contentamento catártico. O efeito, contudo, pode tornar ainda mais difícil o caminho das esquerdas, haja vista que o ódio aos políticos indistintamente percebidos como iguais e corruptos, converte-se, facilmente, em ódio pela política.

    As últimas eleições norte-americanas, vencidas pelo bilionário xenófobo e ultradireitista, Donald Trump, surpreenderam o establishment. Deixando-se de lado o fato de que Trump perdeu no voto popular por uma margem superior a 700 mil votos, surrpreendeu que o eleitorado da potência do norte tenha escolhido um megaempresário histriônico e também machista, racista e homofóbico, como Bolsonaro, para dirigir os rumos da maior economia do planeta. Trump venceu Hilary Clinton obtendo a maioria (270) dos 538 votos no colégio eleitoral, tendo grande quantidade de votos, inclusive, no eleitorado negro, latino, entre as mulheres e a comunidade LGBT. A penetração de Trump nesses setores só foi possível em função do discurso da antipolítica, que penetra bem entre indivíduos atomizados e afastados de qualquer tipo de organização. Anestesiados com a mesmice da política muitos não veem solução para os seus problemas e terminam optando por candidatos que entabulam o discurso mais radical se eles parecem representar alguma perspectiva de ruptura, mesmo que esse discurso parta da direita.

    O recente fenômeno da eleição estadunidense já ofereceu lições ao Brasil em passado não muito distante. Em 1989, Fernando Collor surgiu como candidato da antipolítica desbancando Lula que, na época, era a verdadeira novidade. O “Caçador de Marajás” das Alagoas, despontou para o estrelato nas eleições presidenciais após cinco desastrosos anos de governo de José Sarney e saturação da política e dos políticos. Articulando o discurso da anticorrupção e se apresentando não como político, mas como empresário bem sucedido, Collor conseguiu ser bastante mais radical do que Lula, aparecendo para os eleitores como uma efetiva alternativa ao governo Sarney. Por conta disso, o eleitorado identificou no jovem candidato aquele que seria capaz de superar a continuidade e oferecer soluções para os seus problemas.

    A lista de exemplos poderia crescer, ainda mais se buscássemos experiências pelo mundo. Todavia os exemplos de Trump nos Estados Unidos em 2016 e de Collor no Brasil em 1989 são suficientes para dizer que quando a esquerda não oferece alternativas de ruptura e de justa radicalidade contra o establishment e o mais do mesmo da política eleitoral, as direitas tendem a fazê-lo e os riscos da antipolítica são o prenúncio do desastre. Em vista disso, o entusiasmo presente em setores da esquerda que viram na ida de Lula e Dilma à Paraíba para inaugurarem uma parte da obra de transposição do São Francisco, constitui-se numa armadilha para quem está enfrentando nas ruas o governo de Michel Temer e que sofre na pele as consequências de mais de uma década de governo de conciliação de classes.

    Caso as esquerdas não sejam capazes de apresentar alternativas radicalmente anticapitalistas e continuem insistindo nos velhos e desgastados esquemas de alianças, o abismo pode ser ainda mais fundo do que o experimentado até aqui. Os recentes governos de conciliação de classes foram desastrosos para os trabalhadores e para reverter o retrocesso parece ser necessário recuperar a radicalidade desde já.

    Por paradoxal que seja, o discurso anticapitalista no Brasil de 1989 ou nos Estados Unidos de 2016, esteve nas mãos de empresários que expressavam posições liberais e de direita. Nesse sentido, se se pretende recuperar a política como espaço de intervenção consciente e organizada dos setores explorados e oprimidos que constituem a maioria da população, não se pode deixar que candidatos que expressam posições da antipolítica usurpem o lugar que pertence por direito à classe trabalhadora e suas organizações. Se assim for, haverá a possibilidade de os trabalhadores recuperarem a crença em suas próprias forças, dando um passo decisivo para impor derrotas ao governo ilegítimo de Michel Temer ainda 2017, preparando as bases para a formação de uma Frente de Esquerda para as eleições do ano que vem.

  • Uma virada em favor da história

    Por Carlos Zacarias de Sena Júnior, Colunista do Esquerda Online

    Artigo publicado originalmente no Jornal A Tarde, em Salvador, no dia 17/03/2017

    Há dois anos, milhões de pessoas saíram às ruas do Brasil gritando contra a corrupção e pedindo o impeachment de Dilma Rousseff. Era a primeira vez desde as Marchas da Família com Deus pela Liberdade, ocorridas em 1964, que as direitas davam o ar da graça no asfalto quente. Em manifestações chamadas pelos movimentos das novas direitas, como o Movimento Brasil Livre, o Revoltados Online, o Vem pra Rua e o S.O.S Forças Armadas, o que se viu foram cenas inimagináveis para o país que entrava no século XXI com déficits de democracia do XIX: alguns pediam o retorno dos militares, outros dirigiam impropérios e frases misóginas contra Dilma, uns faziam self com PMs e outros aplaudiam conhecidos torturadores. O festival de horrores transmitido ao vivo em rede nacional por veículos de televisão que apoiaram a ditadura, abriu uma ofensiva das forças conservadoras e reacionárias que culminou no golpe parlamentar-jurídico-midiático de 2016.

    Menos de um ano depois da posse provisória do governo golpista, os trabalhadores começaram a perceber que o golpe desferido não foi tanto dirigido ao PT, mas foi, sobretudo, contra eles próprios. A proposta de Reforma da Previdência (PEC 287) que tramita no Congresso e as incursões sobre a legislação trabalhista, começaram a ser, enfim, entendidas naquilo que elas efetivamente são: um duro ataque aos direitos dos trabalhadores como nunca se tinha visto até o momento no país.

    Em vista a disso, nem chega a ser curioso que a maré comece a virar justo dois anos depois da data em que as direitas saíram às ruas e iniciaram o retrocesso e também na semana em que a lista de envolvidos na delação premiada da Odebrecht atinja o coração do governo e do seu principal aliado, o PSDB. Ou seja, por se tratar de um mal endêmico que atinge a todos os partidos, o combate a corrupção como principal bandeira das direitas tradicionalmente corruptas (vide as acusações que pesam sobre o líder do MBL que responde a 60 processos na Justiça), não pode servir de pretexto para que um único brasileiro saia às ruas.

    Por conta disso, milhares de pessoas foram às ruas de todo o país na última quinta-feira, dia nacional de greves e paralisações convocadas pelas centrais sindicais e movimentos sociais contra as reformas da previdência e trabalhista. Diferente da manifestação de 2015, ocorrida num domingo, os trabalhadores mostraram que sua força principal consiste em parar a produção, o transporte, o comércio, as escolas e universidades, e ainda caminharem ocupando o espaço que lhes pertence. O sinal de ontem foi positivo para as forças progressistas do ponto de vista quantitativo. Todavia, foi sob o aspecto qualitativo a principal mudança, pois há tempos que não se via tanta gente nova ocupando as ruas ombreando com as forças sociais e políticas que caminham a favor da história.

     

  • Diga-me com quem andas…: a propósito de dois episódios da última semana

    Por: Carlos Zacarias, de Salvador, BA

    Dois episódios na última semana me fizeram lembrar uma passagem descrita por Trotsky enquanto ele negociava a paz de Brest-Litovsky, nos estertores da Primeira Guerra Mundial. O dirigente bolchevique anotou em sua obra Minha vida as impressões sobre o clima de amizade reinante entre as delegações russa e alemã que se encontraram na fronteira dos dois países com a finalidade de negociarem uma saída para a guerra. Diante da situação, Trotsky, então chefe da delegação russa e principal encarregado da tarefa, passou um tremendo pito na sua delegação, terminando por exigir, inclusive, que as refeições fossem feitas em separado. Sabedor dos objetivos expansionistas dos alemães, Trotsky não se fez de rogado ante o aparente clima de amizade optando por oferecer um exemplo sobre ética, moral e oportunidade.

    A reminiscência de Trotsky me veio à lembrança em função do episódio de ampla repercussão em que o deputado Chico Alencar, do PSOL do Rio de Janeiro, teria “beijado a mão” de Aécio Neves num jantar de comemoração aos 50 anos de carreira do jornalista Ricardo Noblat, colunista de O Globo. Segundo matéria da Folha de São Paulo (08/03/2017), ao encontrar Aécio, o senador do PSOL teria lhe dirigido seguinte elogio: “Você tudo bem, mas Renan [Calheiros (PMDB-AL)] e [Romero] Jucá (PMDB-RR), não”.

    Como não poderia deixar de ser, o episódio virou nitroglicerina pura na mão de adversários petistas e pecedobistas, que das redes sociais acusaram a “traição” do PSOL que não teria nenhuma moral para acusar o PT de alianças espúrias que fez no passado.

    O outro acontecimento foi produzido a partir de uma postagem do historiador Leandro Karnal, que colocou no Facebook uma foto sua em jantar com o juiz Sérgio Moro, com a seguinte legenda: “Dia intenso em Curitiba. Encerro com um jantar com dois bons amigos: juiz Furlan e juiz Sérgio Moro. Talvez não faça sentido para alguns. O mundo não é linear. A noite e o vinho foram ótimos. Amo ouvir gente inteligente. Discutimos possibilidades de projetos em comum”.

    Tal qual o episódio de Chico Alencar, a postagem de Karnal mereceu imenso repúdio nas redes sociais e comentários de inúmeros seguidores do historiador decepcionados com o fato, que lhes pareceu, também, uma traição de um intelectual público com ampla respeitabilidade entre os setores progressistas.

    Antes de mais nada, é preciso distinguir as duas situações. Em primeiro lugar, Chico Alencar é uma figura pública no exercício de um mandato que tem por obrigação dar bons exemplos aos seus eleitores. Mais do que isso, deve assumir uma postura que corresponda aos princípios programáticos e determinações do PSOL, o único partido com uma coerente postura de esquerda no parlamento brasileiro. Em tempos tão difíceis como o que vivemos, de ofensiva conservadora, confraternizar com inimigos de classe (inimigo de classe e não adversário político, bem entendido!) em rega-bofes oferecidos por jornalistas não é uma postura adequada e deve ser reprovada, como de fato, o foi. Quanto ao historiador Leandro Karnal, ainda que não deva satisfação a ninguém, como amealhou ampla simpatia do público de esquerda, deve saber receber as críticas por ter confraternizado em encontro íntimo com alguém que é, reconhecidamente, inimigo da esquerda.

    Após os acontecimentos e suas repercussões, as posturas de Alencar e Karnal foram, até o momento, também distintas. O primeiro veio a público se desculpar através de um vídeo em que assume o erro de ter ido ao encontro e ainda por cima ter desferido elogios a Aécio Neves. Quanto ao historiador, até o momento, a única coisa que fez foi apagar suas postagem no Facebook, cuja legenda, não soava apenas como uma provocação, mas como um profundo desrespeito à inteligência dos seus seguidores.

    Dos episódios acima não se pode dizer que não se colham lições. A primeira é a de que devemos saber bem quem são os nossos inimigos e, por extensão, devemos compreender quem são os nossos aliados. Entre os primeiros, devemos aprender a separar aqueles que apenas circunstancialmente se colocam num campo diferente do nosso e que, portanto, devemos lutar para convencer do contrário e para ganhar para o nosso campo. De outro lado estão aqueles que estruturalmente se perfilam do lado oposto, sobre os quais não há nada a fazer, senão trabalhar para derrotar.

    Entre os militantes da esquerda têm sido cada vez mais recorrente a perda da capacidade de diferenciar uns dos outros, e isso parece um problema grave. Ou seja, se não pudermos trazer de volta os setores médios que se deslocaram para o terreno da burguesia através dos grupos das novas direitas, estamos fadados ao fracasso. Por outro lado, temos que ser capazes de entender que banqueiros, grandes empresários e latifundiários são nossos inimigos de classe e com estes e seus representantes não podemos sentar e confraternizar. Da mesma forma, precisamos saber caracterizar corretamente as correntes e os indivíduos fascistas, pois sobre estes não há diálogo possível.

    Quanto aos aliados, igualmente a esquerda tem perdido a capacidade de dialogar, situação que praticamente inviabiliza a construção de campos de intervenção unitária. Em vista disso, petistas e pecedobistas partiram para acusar o PSOL de traição, como se o fato de Alencar ter cometido o erro de confraternizar com o inimigo, igualasse o seu partido aos que se juntaram com a burguesia não apenas em momentos festivos, mas que governaram junto e se aliaram para atacar os interesses dos trabalhadores.

    No final das contas, Chico Alencar se engrandeceu ao tirar lições do triste episódio e vir a público se desculpar. Quanto a Karnal, não está claro de que tenha sido capaz de calcular bem a consequência dos seus atos. Do contrário, não apagaria seu post e manteria silêncio. Se pretendia, como petistas e pecedobistas de outrora, apenas manter o verniz de arrogante de republicanismo diante da platitude de plateias de “pensamento linear” que enxergam o mundo por suas contradições de classe, o tiro parece ter saído pela culatra. Quanto a isso, nada como boas lições do passado, como a de Trotsky descrita acima, para sermos capazes de seguir adiante, aprendendo e superando os nossos erros.

  • O Carnaval do Fora Temer

    Por Carlos Zacarias, Colunista do Esquerda Online

    *Texto publicado originalmente no jornal A Tarde em Salvador no dia 3/03/2017

    Passado os dias da folia momesca é hora de se fazer o balanço. Nem bem as cinzas se assentaram, e enquanto os últimos foliões ainda aguardavam um raro buzu para retornar para casa, a prefeitura foi a primeira a assim proceder. Diante de jornalistas, o prefeito e sua equipe, ainda devidamente paramentados como se tivessem saído da avenida, apresentaram os números: 300 trios elétricos sem corda, 791 atrações, 19 mil artistas, 750 mil turistas, 7 milhões de pessoas transportadas em 2,6 mil ônibus de 400 linhas etc etc etc. Números, nada além de números para encher as estatísticas e alimentar bancos de dados. O essencial do Carnaval deste ano, entretanto, não está nos números.

    Com a aproximação do Carnaval muito se falou do esgotamento do modelo engendrado pelos blocos de trios que nas últimas décadas monopolizaram a festa. Os blocos perderam espaço, mas a privatização do espaço público, contudo, permaneceu e continua se estendendo com os camarotes que são as formas ainda mais sofisticadas de segregar. Mas não foi o esgotamento do modelo e a celebração do folião pipoca o que mais chamou a atenção neste Carnaval. O fato inusitado, muito distante da apatia despolitizada de saudações a autoridades diante das TVs que transmitem ao vivo a folia, foi o grito de Russo Passapusso. Não bastasse a sonoridade inovadora da Baiana System, seu vocalista mandou um sonoro “fascistas, golpistas, não passarão! Fascistas, machistas, não passarão!” acompanhado entusiasticamente pela massa que seguia o trio “Navio Pirata”. Foi bonito ver um artista abdicar do adesismo para politizar o Carnaval pela esquerda, na medida exata do sentimento de insatisfação que rege milhões de brasileiros. Melhor ainda foi ver Passapusso puxar o coro do “Fora Temer!”, que logo foi gritado a plenos pulmões pela massa.

    O fato repercutiu nacionalmente, o que levou a principal emissora de TV do país a noticiar os protestos contra o governo Temer em várias cidades brasileiras. Há quem veja na atitude do vocalista da Baiana System oportunismo e contradição, pois ao surfar na onda de descontentamento generalizado com o governo e silenciar diante da acusação de assédio sexual que foi dirigida a um antigo parceiro musical, Passapusso estaria fazendo média com a massa de gente progressista que lhe segue.

    Oportunismo ou contradição à parte, que não podem ser ignorados, não há como diminuir a importância da atitude corajosa de Passapusso e da banda Baiana System. Longe do protesto irreverente, mas bem comportado, da Mudança do Garcia, o grito de Fora Temer diante das câmeras de TV foi a marca do Carnaval de 2017. Mas a festa acabou, e o desafio dos que gritaram Fora Temer é se levantar das cinzas para os atos marcados para os dias 8 e 15 próximos. Estes sim serão os verdadeiros testes de resistência.

  • Já é carnaval, cidade! Comentário a partir do filme Axé: o canto do povo de um lugar

     

    Por: Carlos Zacarias, colunista do Esquerda Online.

    É impossível assistir Axé: o canto do povo de um lugar e não se balançar na cadeira do cinema. O filme de Chico Kértesz, filho do comunicador e ex-prefeito de Salvador Mário Kértesz, que estreou nos cinemas do país na última semana, é um convite à folia que começou pra valer na última quarta ou quinta feira, a depender da cidade. Obviamente que é, principalmente, um convite à folia baiana, que nem de longe resume a diversidade do Carnaval do restante do Brasil. Todavia, considerando a forma como a música produzida na terra de Caymmi, João Gilberto e dos Doces Bárbaros penetrou do Oiapoque ao Chuí, não seria exagero dizer que o documentário é um chamado às ruas, para que se vá ao encontro do povão e se perca do mundo em meio à música em muitos decibéis, suor escorrendo em corpos sedentos de alegria e rios de cerveja.

    A Axé Music, como foi denominado de forma pejorativa o movimento que se iniciou nos carnavais de Salvador em meados dos anos 1980, sobreviveu ao tempo e depois de três décadas de existência, tornou a indústria fonográfica brasileira uma das maiores do planeta. Entretanto o movimento que venceu a crítica e enriqueceu empresários e muitos artistas, nasceu nas ruas a partir da mistura de ritmos africanos e da baianidade afrodescendente contida na catarse popular chamada carnaval.

    Axé, o filme, é embalado a altas doses de emoção, alegria e também alguma crítica. Com depoimentos de Caetano Veloso, Gilberto Gil, de diversos empresários da indústria fonográfica e do ramo de carnaval, além, é claro, de importantes falas de inúmeros e consagrados artistas da música baiana, e de outros que foram esquecidos depois de terem se transformado em celebridades instantâneas. Axé conta a história do movimento (trata-se de um movimento e não de um ritmo) que ganhou o Brasil nas décadas seguintes.

    Surgido quase que espontaneamente nas ruas de Salvador na esteira do sucesso alcançado pelo do trio elétrico na década de 1970, além, é claro, da entrada em cena da cultura afro-baiana através dos blocos e entidades carnavalesca que exaltavam a beleza e o poder do negro, como o Ilê Aiyê, o movimento da Axé Music virou um fenômeno nacional e mesmo mundial, que fez com que Paul Simon e Michael Jackson viessem à Salvador a procura do ritmo produzido no Pelourinho, a partir do samba-reggae do maestro Neguinho do Samba e dos tambores do Olodum, o bloco afro mais prestigiado do país. Nessa altura, entretanto, a Bahia já era sucesso nacional e a sua musicalidade despertava a curiosidade de celebridades pelo mundo. O percurso, entretanto, não foi trilhado sem reveses ou percalços, e o racismo permaneceu uma marca não superada.

    A bem da verdade, antes de se tornar moda nas ruas durante o carnaval, a cultura negra exaltada por blocos afros como o Ilê Aiyê foi profundamente segregada e reprimida ao longo das décadas. Para se ter uma ideia, quando foi fundado em 1974, o Ilê Aiyê, que pretendia adotar o nome de “Poder Negro”, foi impedido de se autonomear dessa forma em função do desafio que lançavam à polícia e ao poder branco instituído por séculos e protegido sob a ditadura instalada em 1964. A adoção do nome Iorubá, que significa algo como “mundo” ou “terra”, foi uma forma de driblar a censura e permitir que os negros descessem às ruas sem serem hostilizados, e, o melhor de tudo, expressando o orgulho da sua negritude.

    Diante da impossibilidade de impedir os negros de saírem às ruas durante o carnaval, as classes médias e abastadas, quase toda branca, buscavam os carnavais nos clubes que proliferaram nas décadas de 1950 e 1960. O fuzuê das ruas, contudo, era contagiante, e na medida em que o trio elétrico ia se amplificando e se popularizando, as ruas foram sendo ocupadas pela mistura de cores e gentes que eram arrastadas pelo caminhão de som e a guitarra baiana. O movimento da Axé Music, por sua vez, se confunde com o processo de abertura política no país e com o relativo empoderamento do movimento negro que em fins dos anos 1970 criaram entidades como o Movimento Negro Unificado (MNU), fundado em 1978.

    Mas a segregação permaneceu, e como forma de evitar o “poder negro” de desfilar sua beleza por entre a branquitude disposta a se assenhorar das ruas e muito pouco acostumada à presença “incômoda” dos negros, os poderes públicos determinaram que os blocos afros desfilassem apenas à noite. O resultado foi que, com o passar dos anos, o carnaval, que era uma festa diurna, foi sendo deslocado para a noite, em função da imensa atração representada pelos blocos afros, como o próprio Ilê Aiyê e o Olodum, mas também o Muzenza o Badauê e muitos outros. O carnaval de Salvador se enegreceu, e a “gente sem graça” dos salões desceu para as ruas e não satisfeita com a presença negra, reinventou a segregação através dos blocos de trio elétrico que selecionavam seus associados através de fotos, o que determinava que os negros e negras permaneciam excluídos do carnaval de “gente bonita”, como se dizia desses blocos formados por brancos.

    Depois dos blocos-empresas e suas mortalhas, que viraram macacões e depois abadás, vieram os camarotes, que espremeram ainda mais o folião “pipoca” (chama-se assim ao folião que não está em bloco) nas ruas estreitas dos circuitos Osmar (do Campo Grande à Praça Castro Alves) e Dodô (Barra-Ondina). O carnaval de Salvador, contudo, resistiu a privatização e nunca foi impossível a nenhum baiano dançar atrás de trios-elétricos ou seguir seu bloco afro preferido sem adquirir as fantasias dos blocos. Da mesma forma a diversidade, apesar do crescimento do Axé Music e depois do pagode, sempre foi uma marca do carnaval de Salvador, então nunca faltaram oportunidades de descer às ruas e até mesmo protestar, como se faz há várias décadas na famosa Mudança do Garcia, que desfila seu protesto, na segunda-feira, de forma bem humorada e arrastando milhares de pessoas no recém criado circuito Riachão.

    Uma parte dessa história é retratada no filme Axé: o canto do povo de um lugar, mas o conteúdo crítico que, inclusive cita o jabá e a dimensão de rapinagem praticada por empresários que exploram a cultura negra sem oferecer retorno, é sobrepujado pela mensagem que exalta o movimento e a baianidade afrodescendente com pouca problematização sobre as formas de racismo ainda existentes. Como se viu nas discussões sobre apropriação cultural, o fato de a cultura ter virado moda, não significou que o povo negro tenha sido aceito. Entretanto, foi da fusão de ritmos como o samba, o reggae e o frevo e algumas doses de ritmos caribenhos, que nasceu o Axé, que teve em Luís Caldas seu primeiro grande fenômeno.

    Axé, o filme, não é uma obra de crítica social, mas uma ode ao canto do povo de um lugar, como consta no título, então não dá para cobrar muito com a falta de crítica, pois o objetivo do filme é mesmo celebrar a Axé Music e o movimento que ela ensejou. E o resultado é satisfatório, porque o expectador se emociona, principalmente o baiano apreciador de carnaval, que ainda sai da sala do cinema se balançando e desejando ainda mais o carnaval.

    Seja com Luiz Caldas ou Psirico, seja com Harmonia do Samba ou com Armandinho Dodô e Osmar, seja com o Olodum, o Ilê Iaiyê ou as muitas celebridades da Axé Music que desfilarão nos circuitos da folia soteropolitana, como as festejadas Daniela Mercury, Ivete Sangalo e a injustiçada Margareth Menezes, e mesmo com aqueles novos astros e estrelas que serão entronizados no carnaval para logo em seguida desaparecerem, o importante é elaborar as dores do cotidiano e pelo menos durante o reinado de Momo ser feliz e fazer valer a canção de Moraes Moreira que diz do sonho de unir, numa só canção, massa, multidão, todo mundo igual.

    Foto: Valter Pontes/Dida