Rádio Peão

q1111233
  • Assista ao vídeo: Jornada de Trabalho e seus Impactos no Sono

    Este vídeo foi publicado originalmente sob o título: “Conversando sobre Jornadas de Trabalho e Impactos no Sono, Sonolência, Metabolismo, etc.” A gravação foi realizada com o apoio do Sistema de Produção da USP.
    Participam:
    • John Axelsson e  Arne Lowden (Research Stress Institute, Universidade de Estocolmo)
    • Debra Skene (Universidade de Surrey, Guildford, Reino Unido)
    • Claudia Roberta de Castro Moreno e Frida Marina Fischer (Departamento de Saúde Ambiental, Faculdade de Saúde Pública da USP (FSP-USP)
    Transcrição e tradução da entrevista: Dra. Silvia Waisse.
    Apoio FAPESP, UNESP e Fórum de Acidentes do Trabalho (Profs. Rodolfo Vilela e Ildeberto Muniz de Almeida).
    Legendas: Cristino Oliveira (Faculdade de Medicina de Botucatu)
  • 28 de abril: dia mundial de memória das vitimas de acidentes de trabalho em tempos de precarização da relação de trabalho

    Por Marilinda Marques Fernandes, Advogada Especializada em Direito da Seguridade Social

    Em 28 de abril de 1969 após uma explosão em uma mina na cidade de Farminghton nos Estados Unidos , 78 trabalhadores morreram. A Organização Mundial do Trabalho (OIT) , desde 2003 , consagra este dia à reflexão sobre a segurança e saúde no trabalho. No Brasil a data foi reconhecida oficialmente em 2005.

    Segundo dados da OIT , divulgados em 2013 , 2 milhões de pessoas morrem por ano por conta de doenças ocupacionais no mundo . Por outro lado o número de acidentes de trabalho fatais ao ano chegam a 321 mil . Assim sendo , a cada 15 segundos , um trabalhador morre por causa de uma doença relacionada ao trabalho.

    O Brasil aparece neste contexto como o quarto colocado no ranking mundial de acidentes fatais de trabalho. Chegando a quase 4 mil mortes anualmente por conta de acidentes do trabalho.
    Em 2015 último dado disponível , o país registrou 612.632 acidentes , segundo dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) , com 2.502 mortes.

    Não podemos aceitar como natural o acidente do trabalho como se o mesmo fizesse parte normal da produção. Pois não resta dúvida de quem controla o meio ambiente do trabalho é o patrão e quem se acidente são os trabalhadores. O acidente é fruto das condições em que se desenvolve a produção, sempre objetivando a maximização do tempo , impondo ritmos de trabalho , reduzindo salários e negligenciando as condições em que o trabalho é realizado . Sempre sob a ótica de obter mais lucro, mais tempo e mais produtividade.

    A maioria dos acidentes ocorre por culpa patronal , ou seja pelo descaso de muitos empregadores com a saúde e segurança dos seus trabalhadores.

    É manifesto o aumento das doenças relacionadas ao trabalho , muito em função da reestruturação produtiva e da revolução da produtividade que estão tornando o trabalho cada vez mais tenso e intenso, gerando por consequência estatísticas crescentes de afastamento por doenças ocupacionais.

    No Brasil, o campo da Saúde do Trabalhador se desenvolveu no mesmo contexto histórico do ressurgimento do movimento sindical. Em ambos, as reivindicações e a participação dos trabalhadores foram essenciais, refletindo a força das reivindicações sociais que eclodiram no período final da ditadura militar. Nesse período, o movimento sindical, combativo e classista, obteve maior relevância, e a luta pela saúde do trabalhador foi uma das pautas que culminaram em diversas conquistas.

    Atualmente, com as contradições do trabalho contemporâneo e sua precarização, tanto as ações reivindicativas do movimento sindical quanto a luta pela saúde dos trabalhadores acabaram por se enfraquecer. De modo geral, podemos dizer que o individualismo e a alta competitividade dentro do âmbito do trabalho, seguindo os valores propagados pelo capitalismo contemporâneo, colaboraram para o enfraquecimento da luta pelo coletivo, que caracterizou a história de muitos sindicatos no Brasil.

    Agravado este quadro agora pela aprovação da lei da terceirização – Lei 13.429 sancionada no ultimo dia 31 de março por Michel Temer ,na medida em que os trabalhadores terceirizados estão sujeitos a condições de trabalho piores e mais inseguras do que aqueles contratados diretamente pelas empresas .Os dados oficiais também demonstram maior incidência de acidentes de trabalho e doenças ocupacionais nesta classe de trabalhadores . Todos os estudos realizados em matéria de saúde e segurança no trabalho apontam ainda a desregulamentação como fator de piora das condições de trabalho.

    A atual reforma trabalhista em discussão no Congresso que tem como única finalidade atender aos reclamos do empresariado de reduzir custos e aumentar a flexibilidade das relações de trabalho deixará o trabalhador em condições mais vulneráveis, inseguras e o que trará inevitavelmente efeitos negativos sobre as condições de saúde .

    Neste 28 de abril de 2017 , dia de greve geral em que o Brasil parará na defesa dos direitos trabalhistas e previdenciários , não esqueceremos as vitimas de acidentes e doenças do trabalho , pararemos por elas e contra a uberização do mercado de trabalho.

    Porto Alegre , 25 de abril de 2017.

  • 5 fatos mostram que Bolsonaro é contra os trabalhadores e aliado de Temer

    Muitos colegas e amigos das fábricas e do SENAI acreditam que o deputado Jair Bolsonaro (PSL) é um bom político. Vários dizem até que vão votar nele pra presidente. Esses mesmos colegas e amigos são contra a Lei da Terceirização, a Reforma Trabalhista e Previdenciária. Contra os cortes nos investimentos em saúde e educação feitos pelo governo Temer (PMDB) e contra a corrupção e os privilégios dos políticos. Por isso, quero explicar a esses colegas porque se querem mudanças no governo e o fim dos ataques aos trabalhadores não devem apoiar o deputado Jair Bolsonaro (PSL), nem seu vice Hamilton Mourão (PRTB).

    1 – Família Bolsonaro lutou para aprovar a reforma Trabalhista

    A Reforma Trabalhista prevê entre outras medidas o aumento da jornada de trabalho de 44h para 48h semanais, o aumento do trabalho temporário de 90 para 120 dias, e a prevalência do negociado sobre o legislado. Isso significa que a CLT (legislado) não vale mais. O que vale é o que for negociado entre patrão e sindicato e até o que for negociado individualmente entre o trabalhador e o patrão. É evidente com a reforma trabalhista o trabalho que já tava difícil vai ficar ainda pior.

    Mesmo assim Jair e Eduardo Bolsonaro (seu filho e também deputado) votaram pela aprovação da reforma trabalhista. E Bolsonaro ainda votou contra a PEC das Domésticas, lei que inseria alguns direitos trabalhistas para as empregadas domésticas. Ele disse que “ou o povo tem emprego ou o povo tem direitos”.

    Saiba mais sobre a reforma trabalhista:

    https://esquerdaonline.com.br/2017/04/25/cinco-grandes-ataques-aos-direitos-dos-trabalhadores-pela-reforma-trabalhista/

    https://esquerdaonline.com.br/2016/12/22/entenda-reforma-trabalhista-de-temer/

    2 – Família Bolsonaro e seu partido são grandes aliados de Michel Temer

    Bolsonaro é do Partido Social Liberal (PSL). O PSL apoia integralmente o governo Temer. No ano de 2018, até as eleições, foi inclusive mais fiel ao governo do que o próprio partido do Temer, o MDB. Analisadas 107 votações a taxa de fidelidade do partido do Bolsonaro ao governo foi de 67,73%, enquanto o MDB foi de 64,34% e do PSDB de Geraldo Alckmin 63,05%.

    3 – Eduardo Bolsonaro votou a favor e seu pai Jair Bolsonaro se absteve na votação da Lei da Terceirização para atividade-fim

    O projeto de lei (PL 4302/98) aprovado permite a terceirização até da atividade-fim de uma empresa. Ou seja, uma escola poderá terceirizar não apenas o serviço de limpeza, mas até contratação de seus professores, por exemplo. Os operários e principalmente as operárias terceirizadas sabem como é terrível ser terceirizado: salários menores, piores condições de trabalho, menos direitos e benefícios, muitas vezes sem sindicato e um longo etc. Os terceirizados são trabalhadores precarizados, tratados como de 2ª divisão.

    Apesar disso Jair Bolsonaro se absteve da votação. Abstenção é não votar a favor nem contra. Por que Jair Bolsonaro ficou em cima do muro numa lei que prejudica tanto o povo trabalhador? Acho que ele não quer perder a popularidade com a maioria dos trabalhadores que apoiam ele e nem com os empresários que financiam suas campanhas. Seu filho Eduardo Bolsonaro não hesitou: votou a favor da Lei.

    Saiba mais sobre o impacto da terceirização:
    https://esquerdaonline.com.br/2016/11/18/o-mito-da-terceirizacao-enquanto-modernizacao-empresarial/

    https://esquerdaonline.com.br/2017/03/27/fora-terceirizacao/

    4 – Família Bolsonaro falou contra a PEC 241 e votou a favor

    A PEC 241 – conhecida como #PECdoFimdoMundo – foi aprovada em 2016. Essa emenda na constituição prevê o congelamento de investimentos do governo em saúde, educação, moradia, entre outras por 20 anos. Jair e Eduardo Bolsonaro chegaram a se manifestar contra a Lei mas no dia da votação mudaram de ideia e votaram a favor do governo , o que revoltou seus seguidores.

    Saiba mais sobre a PEC 241:

    https://esquerdaonline.com.br/2016/11/24/o-que-e-a-pec-55-antiga-pec-241-e-o-que-ela-muda-na-vida-dos-trabalhadores/

    https://esquerdaonline.com.br/2016/10/17/a-luta-em-defesa-do-sus-e-a-luta-contra-a-pec-241/

    https://esquerdaonline.com.br/2016/10/14/pec241vaiinviabilizarplanonacionaldeeducacao/

    5 – Jair Bolsonaro usa dinheiro público de forma indevida e está envolvido em esquemas

    Bolsonaro recebe auxílio moradia mesmo tendo apartamento próprio em Brasília. E em entrevista ao Jornal Nacional, afirmou que não há nenhum problema nisso. Além disso, Bolsonaro está sofrendo ainda uma investigação do Ministério Público Federal pela acusação de funcionário fantasma: a Wal é sua assessora e deveria trabalhar no gabinete em Brasília (DF), mas possui uma loja de açaí em Angra dos Reis (RJ) próximo da casa do parlamentar. Não o bastante, em delação entregue ao STF pelo presidente-todo-poderoso da gigante JBS, restou comprovado que o parlamentar recebeu R$ 200 mil da empresa para a sua campanha a deputado federal pelo RJ em 2014, quando ainda era do PP. E mais, tentou valer-se de uma manobra contábil para esconder os valores.

    Os 5 fatos acima mostram claramente que a família Bolsonaro é contra os trabalhadores. Eles defendem o odiado governo Temer e as leis que favorecem os grandes empresários do nosso país. São muito mansos com banqueiros e grandes empresários e muito raivosos contra os trabalhadores. Não merecem seu voto e muito menos o seu apoio.

    #EleNão

    Foto: reprodução das redes sociais.

    Leia outros artigos:

    Cinco observações rápidas sobre o atentado contra Jair Bolsonaro, por Valério Arcary

    Entrevista no JN: Bolsonaro sendo Bolsonaro, por André Freire

    Bolsonaro, neoliberalismo e Ojeriza à política, por Rejane Hoeveler

    A família Bolsonaro, a nova direita brasileira e seu discurso LGBTfóbico, por Gabriel Santos 

    Quatro motivos para não votar em Bolsonaro: Suas propostas para a classe trabalhadora, Por Carlos Henrique de Oliveira

    Cinco argumentos para desmascarar Bolsonaro, Por Juliana Bimbi

    Bolsonaro admite Petrobrás totalmente privatizada caso seja eleito, Por Pedro Augusto

    Conheça quem está por trás das ideias de Bolsonaro, Por Gibran Jordão

    Bolsonaro: Nem honesto, nem aliado dos trabalhadores, Por Edgar Fogaça

    Bolsonaro não é um espantalho, por Valério Arcary

    Em visita ao Pará, Bolsonaro defende a chachina de trabalhadores sem-terra, Por Gizelle Freitas

    Não se deve tercerizar para Ciro Gomes a luta contra Bolsonaro, por Valério Arcary 

    Bolsonaro em contradição: três patacoadas do “mito”em apenas dez dias de 2018, por Matheus Gomes

    Bolsonaro ataca negros, pessoas gordas, quilombolas, indígenas e refugiados no clube Hebraica por Jéssica Milare 

     

  • Ganância dos empresários mata dois operários soterrados no Rio Grande do Sul

    Especial Saúde e Segurança do Trabalhador

    Por: Lucas Fogaça*, de Sapucaia do Sul, RS

    Uma tragédia tomou conta da pequena cidade de São Luiz Gonzaga no Noroeste do estado do Rio Grande do Sul. Neste domingo (23), dois operários morreram soterrados por 40 toneladas de soja em um poço da empresa C.Vale.  João de Oliveira Rosa (38 anos) e Edgar Jardel Fragoso Fernandes (30 anos) foram encontrados sob dez metros de grãos de soja. Os bombeiros usaram três equipamentos sugadores e, mesmo assim, demoraram mais de seis horas para encontrar os corpos.

    O site de notícias G1 noticiou que, de acordo com os bombeiros, o acidente aconteceu quando um dos funcionários usou uma taquara para desentupir o canal que liga os dois silos e o restante da carga, que seria descarregada no poço onde eles estavam. “No momento em que eles abriram o bolsão para liberar, teve uma avalanche, e eles acabaram soterrados”, contou o sargento dos bombeiros Carlos Roberto do Canto, que foi ao local.

    Todo Acidente pode ser evitado
    A empresa e a grande mídia falam do desastre de São Luiz Gonzaga querendo, nas entrelinhas, dizer que foi uma fatalidade, um caso fortuito, algo que não poderia ser diferente. Que devemos, portanto, naturalizá-lo. Não. Todo acidente pode ser evitado.

    Os trabalhadores estavam sem os equipamentos básicos de segurança, como capacete, cabo guia e cinto, num local de difícil acesso. Tinham a Permissão de Trabalho (PT) que deve ser concedida pela gestão da empresa para acessar o local de difícil acesso? Não era possível investir em um sistema automatizado para desentupir os canais dos silos? Numa porta que bloqueasse a entrada no poço, salvo expressa e em rara circunstância? Receberam treinamento adequado para entrar no poço? Quantas vezes os trabalhadores da empresa foram submetidos a essa situação de risco grave e eminente nos últimos anos? Essas e dezenas de outras perguntas ficarão na cabeça dos familiares e colegas das vítimas por anos. Suas dores serão marcadas pela raiva da empresa e pela dúvida de como poderia ter sido “se” a empresa tivesse investido mais, “se” os órgãos de fiscalização fossem menos ausentes, “se”, “se” e “se”. Havia inúmeras formas de prevenção e, em último caso, de controle e redução de danos caso ocorresse um acidente. Mas, como sempre, para os capitalistas o lucro está acima da vida.

    Foto: Amanda Lima, da Rádio Missioneira

     

    #ACulpaNãoÉdaVítima

    A delegada de Polícia responsável Elaine Schons e o Grupo RBS (afiliado local da Rede Globo) se adiantam em insinuar que a culpa pela morte são dos próprios trabalhadores. A delegada não hesitou em afirmar que a conduta dos trabalhadores foi imprudente. O que a delegada não se perguntou é por que um trabalhador com plena saúde mental se coloca em tamanha situação de risco. Com mais de 12 milhões de desempregados no país, os baixos salários e os altos preços, os trabalhadores se submetem às piores e mais inseguras condições. Sabe que caso se negue poderá ser demitido afinal “lá fora tá pior” como diz o jargão das fábricas hoje em dia.

    A culpe dessa tragédia é dos capitalistas e dos administradores da empresa que sugam a riqueza produzida pelos trabalhadores. Mirando só o lucro gastam com muita propaganda, às vezes com financiamento de políticos, e sempre no que for preciso para produzir mais com menos. A saúde e segurança do trabalhador é sempre o último item da lista de investimentos das empresas. A C.VALE não é uma empresa de fundo de quintal, mas uma importante cooperativa transnacional, uma das maiores empresas do ramo no país. Em seu site (http://www.cvale.com.br/nossa_empresa.html) afirmam terem mais de 8.000 funcionários em plantas no RS, SC, PR, MT, MS e no Paraguai, sendo que em 2016 obtiveram faturamento de R$ 6,82 bilhões. Esse episódio cruel mostra o que é muito evidente para os operários e operárias: somos números e para os empresários só o que importa é quanto custamos e quanto produzimos. Para eles nossa vida e saúde não vale nada.

    28 de abril: parar o Brasil em defesa da saúde e segurança do trabalhador

    Nos solidarizamos com os familiares, colegas e amigos das vítimas. Essa tragédia marca a história de acidentes de trabalho no Rio Grande do Sul. E nós não esqueceremos de João Rosa e Edgar Fernandes que morreram vítimas da ganância capitalista e do descaso fiscalizatório das “autoridades”.

    Toda vez que uma máquina para porque estragou, faltou matéria prima ou se está desenvolvendo um processo os capitalistas se fazem de tudo o possível para a máquina parar o menor tempo possível. Máquina parada não dá lucro. Quando é pra produção o patrão é rapidinho. Agora quando é pro trabalhador o patrão é sempre muito demorado. Nesse dia 28 de Abril paremos as máquinas, paremos a produção do Brasil. É a melhor forma de dizer aos capitalistas que basta! Nenhuma reforma de Temer, nenhum ataques aos nossos direitos! E pela vida dos trabalhadores! João Rosa e Edgar, nesta sexta de Greve Geral iremos  em especial por vocês!

    Foto: Amanda Lima/Radio Missioneira
    http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/corpos-de-trabalhadores-soterrados-por-graos-de-soja-sao-resgatados-em-sao-luiz-gonzaga.ghtml

  • Em todo o mundo, 28 de abril é dia de luta em memória às vítimas de acidentes e doenças do trabalho

    No Brasil, também é dia de defender nossos direitos, nossa aposentadoria e dizer não à terceirização

    Por: Joaquim Aristeu (BOCA), de São José dos Campos, SP

    Em todo dia 28 de abril e a semana que antecede a mesma, a militância do Brasil e do mundo, que atua nas áreas relacionadas à saúde da classe trabalhadora nos locais de trabalho, realiza manifestações denunciando os números alarmantes de trabalhadores e trabalhadoras que se acidentam, morrem, ou ficam lesionados devido aos acidentes e às doenças do trabalho dentro das empresas.

    Estes números alarmantes chegam a ser maiores até do que as grandes guerras e catástrofes ocorridas nos últimos anos. Segundo dados de 2014, acontecem mais do que 770 mil acidentes e outros milhares de lesionados por doenças adquiridas no trabalho em nosso país .

    Este genocídio contra a nossa classe ocorre, na maioria das vezes, por culpa dos patrões, por cada vez mais lucro e também por culpa dos governantes que, mesmo cientes desta situação, fazem vista grossa, se omitindo das suas responsabilidades, quando não contribui diretamente reduzindo as leis como as NRs, ou criando subterfúgios como agora, através do pente fino que esta cortando milhares de trabalhadores do INSS. Também, criando as altas programadas e portarias administrativas, ou sucateando os departamentos de fiscalizações do Ministério do Trabalho.

    Por dentro das empresas e do setor público, o assédio moral tem causado uma doença silenciosa, as mentais, que além de lesionar mentalmente, tem matado dezenas de trabalhadores através dos suicídios e da depressão.

    As doenças por esforços repetitivos, como a LER\DORT, na contramão do desemprego, continua fazendo milhares de trabalhadores ficarem quase que aleijados. Com a desculpa da crise, os patrões enxugam seus efetivos, só que na maioria das vezes mantêm a produção e isto vem acarretado em aumento do ritmo de produção, pressão da chefia, polivalência, com execução de mais de uma função dentro das empresas. Em nome dos cortes nos custos, diminuem a manutenção nas máquinas, compram peças de reposição de péssima qualidade e terceirizam a mão de obra. Tudo isto leva a que mais acidentes e doenças do trabalho ocorram dentro das empresas.

    Por outro lado, se o cuidado com aqueles trabalhadores que são próprios já são deficitários, quando se terceirizam tratam estes trabalhadores como seres de segunda categoria dentro das empresas, não dando o mesmo tratamento em relação à segurança e à saúde destes trabalhadores e trabalhadoras. Faltam técnicos de segurança, negativa de uso até das enfermarias e ambulâncias e as Comissões Internas de Prevenção de Acidentes (Cipas) não funcionam.

    Tentam inibir a organização da própria Cipa constituída na empresa contratante, perseguindo cipeiros e colocando dificuldades para o desenvolvimento de seus trabalhos de inspeção no dia a dia do trabalho.

    E o governo, que deveria zelar pelas fiscalizações nos locais de trabalho, sucateia os órgão fiscalizadores do Ministério do Trabalho, diminuindo cada vez mais o número de fiscais auditores e não dando quase que nenhuma estrutura de trabalho a estes profissionais.

    Junto a isso, muda as legislações, como exemplo as Normas Regulamentadoras (NRs), que vêm sofrendo sérios cortes por parte do governo. Para cumprir seus compromissos com a FIESP e CNI, como as mudanças nas NR 1, 5 e 12, é que os mesmos vêm reivindicando mudanças severas que vão deixar os mesmos com as mãos livres para que continuem ocorrendo mais acidentes, doenças e mortes dos trabalhadores e trabalhadoras.

    Por último, liberam a terceirização, o que vai fazer com que este exército de oito em cada dez mortes que ocorrem por acidentes do trabalho por terceirizados, aumente ainda mais.

    Fora tudo isso, há ainda as reformas da Previdência e Trabalhista. Com a primeira, ninguém vai mais se aposentar pela especial, que só será concedida aos 55 anos de idade e pelo menos com 25 de contribuição. Ainda, a insalubridade precisaria ter causado algum tipo de prejuízo ao trabalhador. Por exemplo, em relação ao ruído, se ele não tiver surdo não é contado o tempo para aposentadoria especial. Já a Reforma Trabalhista, além de liberar para ser modificada a legislação sobre a estabilidade dos cipeiros e a política de segurança, dentro da proposta do governo são diminuídas, ainda, as horas de descanso das refeições e liberado o aumento de jornada. Isto só vai fazer agravar ainda mais as condições de saúde e segurança dos trabalhadores e trabalhadoras.

    Neste sentido, este dia mundial de lutas em memória das vítimas em acidentes e doenças do trabalho não pode ser esquecido. Precisamos incorporar como uma das nossas bandeiras do dia 28 de abril, na construção de uma greve geral contra as reformas, contra a terceirização e também por um basta às mortes, acidentes de doenças do trabalho e m nosso país.

    *Um dos Coordenadores do Setorial Nacional de Saúde das trabalhadoras e trabalhadores nos Locais de Trabalho da CSP-CONLUTAS

    Foto: Ivan Bueno / APPA

     

  • Reformas de Temer vão agravar risco de doença e morte por exposição ao Benzeno na Petrobras

    Especial Saúde e Segurança do Trabalhador

    Por: Fabíola Calefi, de Santos, SP

    Apesar de ser um dia em memória das vítimas, dia 28 de abril, dia internacional em memória das vítimas de acidentes de trabalho, também é um marco histórico sobre as lutas e conquistas em segurança e medicina do trabalho de toda a classe trabalhadora. Especialmente nesse momento, o governo ilegítimo de Michel Temer (PMDB) e todos os políticos corruptos promovem os maiores retrocessos ao operariado brasileiro, com aprovação da terceirização irrestrita e da Reforma da Previdência. Por isso, temos que resgatar a história desse dia e transformá-lo num dia de luta em defesa dos direitos dos trabalhadores.

    A política de governo de Michel Temer afeta diretamente as condições de segurança para os trabalhadores da maior empresa de energia do país, a Petrobrás. Ele elegeu para presidência da empresa Sr. Pedro Parente, que está aprofundando a privatização, iniciada pelo governo do PT, através do plano de desinvestimento, precarizando cada vez mais as relações de trabalho e aumentando o risco de acidentes em todo o sistema Petrobrás. O plano de desinvestimento, além de terceirizar, privatizar, vender unidades sem licitação, reduzir custos com manutenção/operação e sucatear as unidades, já promoveu a demissão de milhares de trabalhadores terceirizados e está demitindo 12.000 empregados próprios através do PIDV (Plano Individual de Demissão Voluntária).

    No setor químico e petroquímico, em geral, em industrias como siderúrgicas e refinarias, a situação dos trabalhadores é muito ruim. Além dos acidentes de trabalho, também estão expostos a milhares de tipos diferentes de substâncias químicas que podem causar desde intoxicações até a morte.

    Apesar dos avanços na Legislação Brasileira, como o caso mais recente onde obriga os postos de combustíveis a usarem as travas de segurança (EPC) para evitar emanações para a atmosfera diminuindo a exposição dos frentistas e clientes, do apoio da FUNDACENTRO e da luta dos trabalhadores nos sindicatos, nas CIPAS, Comissões e Grupos de Trabalho sobre o tema, as empresas negligenciam medidas de proteção, exames preventivos e detecção ambiental de diversas substâncias perigosas, incluindo o Benzeno.

    O Benzeno é apenas um exemplo. Constituinte do petróleo, utilizado como matéria-prima nas indústrias químicas é encontrado na gasolina, cigarro, plásticos, lubrificantes, borrachas, tintas, detergentes, medicamentos e agrotóxicos. A exposição ao Benzeno é considerada perigosa, pois está relacionado ao desenvolvimento de doenças como o câncer e a leucopenia. No Brasil, a legislação ainda considera quantitativamente aceitável a presença do Benzeno em 1 ppm (partes por milhão). Nas Refinarias de Petróleo da Petrobrás, por exemplo, dependendo do setor, do tipo de trabalho ou do acidente, em uma única medição podem ser detectados mais de 1000 ppm de Benzeno.

    O registro de casos de intoxicação por Benzeno no Brasil é deficiente. Sabemos que nos anos 80 ocorreram situações epidêmicas: 3.000 casos na siderurgia; 351 casos no Pólo de Camaçari. Já no período de 1989 a 1992 em Minas Gerais, 97 casos foram registrados e 26 casos e 1 morte por Leucemia Mielóide Aguda nas Indústrias Químicas Matarazzo.

    Na Petrobrás, em 5 de outubro de 2004, o Técnico de Operação Krappa, da Refinaria Presidente Bernardes de Cubatão (RPBC), morreu vítima de Leucemia Mielóide Aguda, do diagnóstico ao óbito decorreram apenas 15 dias. O dia 5 de outubro ficou reconhecido como o Dia Nacional de Luta contra o Benzeno, em sua homenagem. Em 2009, Valdemir Santos foi exposto ao percentual médio de 4% de benzeno na U-30 da Refinaria Landulpho Alves (RLAM) da Bahia, desenvolveu tumor no cérebro e veio a óbito.

    Em 2012, um empregado também da RLAM, depois de quase 1 ano internado e de ter feito transplante de medula e outro Técnico de operação da UO-BA que atuava no Campo de Miranga, também vítima de leucemia adquirida por exposição crônica ao benzeno, morreram.

    Ainda em 2012, após trabalharem com uma amostra de gasóleo leve vindo da SIX (Industrialização do Xisto, situada em São Mateus do Sul, no Paraná), duas técnicas químicas de petróleo tiveram detectada a presença do ácido trans, trans-mucônico no exame de urina, caracterizando exposição ao Benzeno. O ácido é o indicador biológico que detecta que o Benzeno passou pelo organismo.

    Centenas de trabalhadores tem detectado a presença de ácido trans, trans-mucônico todos os anos na Petrobras. Em 2013 a Petrobrás foi condenada a pagar R$ 500 mil de indenização de indenização por danos morais a um petroleiro aposentado por invalidez após ter câncer na medula óssea devido ao contato com benzeno e outros produtos químicos. A empresa nunca reconheceu nenhum caso de doença ou morte ocasionado pela exposição ao Benzeno, a não ser que tenha sido obrigada pela Justiça.

    A ausência de manutenção preventiva, de vontade política dos gestores de criar mecanismos de fato rigorosos na luta contra o benzeno e de sua nova política de SMS da empresa, que pune os acidentados, estão criando uma bola de neve, cujo resultado é o risco iminente à saúde e segurança dos trabalhadores. É um absurdo que ocorrências como essas aconteçam com tamanha frequência na maior empresa do país, na empresa que se orgulha de ser referência em responsabilidade social.

    Em 2014, o famigerado Programa de Otimização de Custos Operacionais (Procop) da Petrobras, colocou ainda mais em risco a saúde dos petroleiros, economizando nos exames médicos. Os trabalhadores do chão de fábrica, que estão diretamente expostos aos agentes químicos, tiveram retirados de seus hemogramas exames específicos, que os coloca em risco iminente à exposição ao benzeno.

    Por isso, sabemos que muitos outros casos de empregados Petrobrás que forem contaminados por acidentes (exposição aguda), que desenvolverem alguma doença (exposição crônica) ou mesmo morreram em decorrência da exposição ao Benzeno e outras substâncias jamais serão oficializados. Com os terceirizados a situação é ainda pior, pois as empresas terceirizadas sequer realização exames para controle de exposição ocupacional.

    Os trabalhadores terceirizados são as maiores vítimas de acidentes no Sistema Petrobrás, são 70% da mão de obra na companhia. Como consequência da prática privatista adotada na empresa, os critérios para fechar contratos são duvidosos, haja vista as ilegalidades mostradas pela Lava-Jato.

    O que vemos são empresas contratadas abrindo falência, deixando milhares de famílias sem sustento, largados a própria sorte e a ações judiciais. A rotatividade das empresas que assumem contratos, os baixos salários e a falta de treinamento pontuam os problemas vividos pelo setor terceirizado, que se expõe diretamente aos riscos de acidentes.

    Se hoje a Petrobrás, que tem empregados concursados que lutam por melhores condições de segurança, já não reconhece os riscos e doenças associados a exposição ao Benzeno e de outras substâncias, com a aprovação da terceirização irrestrita e a reforma da previdência essa condição vai se aprofundar.

    Se a Reforma da Previdência for aprovada, os trabalhadores terão que trabalhar até os 65 anos no mínimo, o que aumenta o tempo de exposição às substâncias, no caso de indústrias do setor químico. Os empregados terceirizados, com contratos temporários, não terão seus direitos garantidos como tratamento médico em caso de doença ocupacional e, doentes, dificilmente serão empregados novamente.

    A privatização e terceirização significam investir menos em salário e formação de seus empregados, reduzir custos com material e manutenção, cortar orçamento destinado a segurança e saúde.

    Em 2017, o dia 28 de Abril no Brasil será um dia de Greve Geral. As Centrais Sindicais estão convocando e várias categorias estão aprovando em assembleias, que pretendem levar toda a classe trabalhadora as ruas contra os ataques do governo! Vamos juntos, todos os trabalhadores da Petrobras, terceirizados e próprios, lutar por segurança no trabalho mas também contra a implantação da terceirização irrestrita, pressionar o governo para que retome os concursos e contratação de novos empregados e contra a reforma da Previdência.

  • Poema: Acidente de Trabalho

    Da Redação

    Como parte do Especial sobre as vítimas de acidente de trabalho, que será publicado durante o mês de abril pelo Esquerda Online, divulgamos o poema abaixo:

    Acidente de Trabalho

    (Yara S.)

    A máquina

    tem fome de carne humana.

    Graxa, sangue, suor

    lubrificam suas presas canibais.

    Na cadeia alimentar

    do Capital,

    todos os dias,

    ela come quilos transpirados,

    bebe horas, anos

    de vida gotejada.

    Sucuri rija,

    seus dentes

    às vezes impactam.

    E ela digere

    de um só golpe

    um dedo, uma mão,

    um braço, uma vida.

    Carne uniformizada moída.

    Não. Não é acidental.

    Image: pintura Jean Geoffroy-1899. Escola profissional em Dellys – trabalho com ferro

  • Brasil é 4º lugar no mundo em acidentes de trabalho

    O capitalismo mata, adoece, mutila milhares de trabalhadores todos os anos no país

    O 28 de Abril é o Dia Mundial em Memória das Vítimas de Acidentes de Trabalho. A morte de 78 mineiros numa explosão na mina de Farmington, no estado da Virgínia (EUA), em 28 de abril de 1969, levou a Organização Internacional do Trabalho (OIT) a estabelecer desde 2003 a homenagem nesta data.

    No Brasil, a data nos faz resgatar os dados alarmantes sobre a falta de saúde e segurança no ambiente de trabalho em todo o país. E, neste 28 de abril de 2017 também se combina a uma data de luta marcada pelos movimentos sociais: Dia de Greve Geral contra os ataques aos direitos trabalhistas e previdenciários do governo Temer.

    Os principais números…
    Com uma média de 700 mil registros de acidentes de trabalho por ano, o Brasil ocupa atualmente o 4º lugar no mundo em ocorrência de acidentes de trabalho, atrás somente de China, Índia e Indonésia.

    Os dados do Anuário Estatístico da Previdência Social apontaram em 2015 um total de 612,6 mil acidentes, dentre os quais 2500 foram ocorrências de morte. A região sudeste é a responsável por 53,9% dos registros.

    A área de serviços aparece com 55,69% e a indústria com 41,09%, excluídos os dados de atividade ignorada. Porém, se considerado o fato de que a Indústria representa apenas 25% dos trabalhadores registrados no país, significa que proporcionalmente este setor é onde se dá a maior incidência de acidentes de trabalho.

    Já o Anuário Estatístico de 2013 traz um estudo de maior fôlego, abrangendo o período entre 2007 e 2013. Neste período, foram registrados mais de 5 milhões de casos de acidentes de trabalho no Brasil, sendo 19,4 mil mortes.

    … e o que os números não contam
    Apesar de alarmantes esses índices ainda não apresentam de fato a dimensão do problema, pois há um elevado grau de subnotificação das informações, segundo afirmam os próprios órgãos governamentais.

    Isso significa que uma grande parte dos acidentes não é registrada através da CAT (Comunicação de Acidente de Trabalho) e permanece invisível às estatísticas. Isso porque, para evitar aumento de tributações, as empresas se recusam a registrar os acidentes. No caso de pequenas e médias empresas estima-se que menos de 20% dos acidentes são notificados.

    Além disso, os números oficiais não abrangem os trabalhadores informais (cerca de 50% dos ocupados no Brasil), os trabalhadores públicos de regime estatutário e os autônomos.

    A Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) realizada pelo IBGE, em 2013, mostrou que para cada acidente de trabalho registrado pela Previdência Social, há quase sete acidentes não declarados oficialmente (metade destes inclusive de trabalhadores formais e segurados pela Previdência Social).

    A culpa é de quem?
    Nas empresas Brasil afora, em geral as investigações de acidentes de trabalho concluem que a causa é o famoso “ato inseguro”. Ou seja, além de moer a carne do trabalhador, em ambientes inseguros e que exigem alta produtividade acima de qualquer coisa (inclusive da vida), as empresas querem colocar a culpa do acidente sempre sobre as costas da vítima.

    O próprio guia de investigação de acidentes de trabalho do Ministério do Trabalho, no entanto, indica que além da causa imediata, deve-se investigar as causas “subjacentes” e “latentes”, que estão por trás do ato inseguro. Traduzindo: devem ser analisados e pontuados como causas os fatores de gestão e gerenciamento, como ausência de treinamento adequado, exigência de produção elevada, excesso de jornada, elevada rotatividade de empregados, etc.

    O fato é que muitas chefias exigem que os trabalhadores se coloquem em risco, em nome de um aumento da produtividade. O trabalhador não se acidenta porque quer.

    Os acidentes e a terceirização
    Após aprovação no Congresso, o presidente Michel Temer sancionou recentemente o projeto que libera a terceirização para as chamadas atividades-fim, isto é, aquelas para as quais a empresa foi criada. Significa que a terceirização poderá ocorrer sem restrições em todos os setores das empresas, inclusive na administração pública. Isso agrava ainda mais o cenário dos acidentes de trabalho no país.

    Atualmente, oito em cada dez acidentes de trabalho acontecem com terceirizados, que respondem ainda por quatro de cada cinco mortes nessas circunstâncias.

    Os terceirizados possuem os salários mais baixos, no entanto trabalham em média 3 horas a mais por semana comparados aos demais trabalhadores. Jornadas maiores são mais cansativas e provocam maiores incidências de acidentes.

    Além disso, esses trabalhadores ocupam as vagas mais precarizadas, que envolvem os maiores riscos de acidentes e doenças ocupacionais, já que as empresas querem também ‘terceirizar’ os riscos para não terem que se responsabilizar por eles.

    A subcontratação de mão de obra já atinge um em cada quatro trabalhadores no Brasil. Com a permissão oficial do governo Temer para a terceirização desenfreada, está dada a largada também para um disparo nos índices de acidentes e doenças do trabalho.

    A reforma da previdência prevista por esse governo vai no mesmo caminho, pois com a exigência de 49 anos de contribuição e 65 de idade para a aposentadoria, teremos pessoas cada vez mais idosas nos ambientes de trabalho, com a saúde mais debilitada e mais sujeitas a doenças e acidentes de trabalho.

    Por tudo isso, este 28 de abril possui um duplo significado para nós. É dia de lutar contra os ambientes de trabalho que nos adoecem, nos mutilam, nos matam. E é dia de lutar contra as reformas do governo Temer que agravam ainda mais nossas condições de trabalho e de vida.

    Foto: Agência Brasil

     

    LEIA MAIS

    Souto Maior: Uma defesa do Ministério do Trabalho

     

  • Em defesa dos sindicatos: contra o imposto sindical

    Por: Lucas Fogaça*, de Sapucaia, RS
    *é metalúrgico, membro de CIPA e estudante de Direito

    Neste mês de março, os assalariados sob regime da CLT terão um dia de seu trabalho (3,33% de um salário mensal) confiscado a título do imposto sindical, conforme dispõe o art.480 da CLT. De toda arrecadação nacional do imposto sindical, 80% é repartido entre as entidades representativas dos trabalhadores, como sindicatos e federações sindicais e 20% vai para uma Conta Especial (Fundo de Amparo ao Trabalhador) controlada pelo Ministério do Trabalho. Explicamos alguns motivos para sermos contra o imposto sindical.

    A mensalidade do associado, por exemplo, é opcional: depende da consciência dos trabalhadores e da confiança que eles têm no seu sindicato. Como o imposto sindical é obrigatório, são muitos sindicatos que vivem apenas do imposto sindical sobrevivendo financeiramente de forma autônoma dos trabalhadores, sem portanto se preocupar em manter os trabalhadores mobilizados e conscientes de seus direitos.

    Por essa razão, o imposto sindical é um dos responsáveis pela proliferação de sindicatos “chapa branca” e pela acomodação dos sindicatos e seu distanciamento da categoria. Para esse processo nós que lutamos contra o capitalismo criamos um conceito que chamamos de burocratização. Burocratização é quando uma casta privilegiada de líderes e dirigentes parasitam as organizações políticas e sindicais dos trabalhadores em seu próprio benefício. Colo abaixo 3 ideias do professor Henrique Canary que alterei algumas palavras para ficar mais fácil de entender:

    1) À medida em que o tempo passa e as lutas não vêm, a estrutura do sindicato começa a adquirir vida própria, necessidades próprias e vontade própria, independentemente do que esteja ocorrendo na categoria. Afastados dos trabalhadores de base pelo refluxo das lutas e sem nenhuma iniciativa para se aproximar deles novamente, muitos dirigentes acabam engolidos pela máquina sindical.

    2) A burocracia, essa casta parasita, não é um problema de caráter ou honestidade pessoal. Como dissemos, é um fenômeno social e político. O burocrata se forma quando o dirigente sindical adquire independência material e política em relação à base que ele deveria representar; quando sua preocupação principal já não é mais organizar a luta dos trabalhadores, mas sim se perpetuar no cargo de dirigente a qualquer custo.

    O burocrata não tem recursos próprios. Ele vive do sindicato. Sua situação é, por isso, extremamente instável. E se ele de repente perder a próxima eleição? O burocrata tem assim uma preocupação constante: estabilizar sua condição privilegiada. Como ele fará isso?

    Em primeiro lugar, ele tentará estabelecer com a patronal uma relação amigável, que lhe permita arrancar, por meio da negociação, alguma migalha para os trabalhadores. Assim, estará demonstrada perante toda categoria sua “eficiência” enquanto dirigente sindical, e seu posto de burocrata estará garantido.

    Mais do que isso, um bom burocrata, se for bom mesmo, fará até greves, passeatas e piquetes para conseguir um melhor aumento, sem com isso deixar de ser um burocrata. O caráter burocrático de uma direção sindical não está determinado pelos percentuais de aumento salarial que ela consegue, mas pela relação que ela estabelece com o aparato do sindicato, pelos privilégios que daí retira, pela relação que tem com a base da categoria, pelo nível de democracia e participação que ela implementa em sua entidade, por sua relação com o Estado e a patronal.

    3) A partir desta base material são formadas a mentalidade e a atitude de um típico burocrata: o conservadorismo, a truculência, a submissão aos patrões e ao governo e sobretudo o desprezo pelo que dizem e sentem os trabalhadores de base. Quem não conhece sindicalistas nas fábricas Brasil afora com essa mentalidade?

    Além disso tudo, o imposto sindical também é uma forma do Estado domesticar os sindicatos. Por isso, boa parte do movimento sindical se diz contra o imposto sindical. O trabalhador deveria sempre poder escolher, e as entidades de nossa classe deveriam buscar alternativas de financiamento.

    Outro problema é que é o Poder Público que determina como deve ser aplicado os recursos do Imposto Sindical. Grande parte destes recursos destina-se, por força de lei, a atividades assistenciais, atribuindo um caráter preponderantemente assistencialista ao sindicato. A prestação de assistência médica, dentária, jurídica, manutenção de creches, assistência à maternidade, entre outras atividades, que são funções do Estado, passam para o âmbito do sindicato. Se não fosse tudo, nos casos de suspensão do contrato de trabalho (Lay Off) uma parte da remuneração dos trabalhadores durante a suspensão é paga pelo Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), que por sua vez são financiados por aqueles 20% do próprio imposto sindical. Ou seja, nos casos de suspensão do contrato de trabalho, tão comum hoje em dia nas montadoras de veículos, são os trabalhadores que pagam seus próprios salários.

    É extremamente correto os trabalhadores financiarem seus sindicatos, partidos políticos, associações e demais entidades representativas. Sem este financiamento não existiriam as próprias entidades. Mas isto deve ser sempre opcional e de forma independente do Estado. Os sindicatos são instrumentos importantes em defesa dos interesses dos trabalhadores. O imposto sindical não.

    Charge: Bruno Galvão

  • A Santa do Capital: teatro, realidade e os matadouros

    Por: Baiano, metalúrgico de Contagem, MG

    Há uns meses, quando voltava da aula de teatro, encontrei no metrô o meu amigo escritor e ator Jessé Duarte. Colocamos o papo em dia e ele me falou que estava voltando do ensaio da peça A Santa do Capital¹, que é uma livre adaptação do texto original de A Santa Joana dos Matadouros, de Bertold Brecht.

    A história gira em torno de matadouros (frigoríficos) que são fechados por causa de uma crise econômica e dos acidentes que mutilam e vitimam vários trabalhadores. Que por um lado retrata a dicotomia entre os interesses dos empresários e a situação dos trabalhadores e suas famílias que sofrem na pele as consequências do desemprego, mutilações, doenças físicas, doenças psicológicas e mortes que os levam à miséria, fome e sofrimento. Mostra como o capital se utiliza de várias facetas para se beneficiar, até mesmo da fé inspirada pela Senhora (Joana) que inicialmente faz parte de um grupo que faz pregações aos trabalhadores e depois se transforma em símbolo da luta contra a exploração e opressão capitalista feita pelas empresas aos trabalhadores e seus familiares.

    Por gostar muito do autor, dos temas que ele aborda e já ter participado de uma peça adaptada dele, fiquei bastante interessado e curioso para assistir à peça.

    A peça entrou em cartaz em fevereiro, mas só consegui assistir no sábado (18) passado, num momento mais que oportuno devido à “Operação Carne Fraca” deflagrada pela polícia federal,um dia antes que investigou esquemas de corrupção envolvendo vários frigoríficos (“Matadouros”).

    A montagem do espetáculo teatral é da Companhia Cóccix Teatral e convidados e foi fruto de debates teóricos, treinamentos e experimentações de diversas técnicas teatrais, com a intenção de fugir dos padrões e moldes de criação, utilizando também vários espaços e ocupações da cidade de Belo Horizonte. Está sendo realizada com recursos do Fundo Municipal de Cultural, através da Lei de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte.

    A montagem adaptada
    Desde o início somos surpreendidos e fica nítido o desprendimento dos padrões de espaços teatrais que estamos acostumados. São utilizados vários espaços diferentes, adaptados para a apresentação de forma simples e criativa. Essa apresentação que assisti foi encenada em uma ocupação urbana chamada Espaço Comum Luiz Estrela, que não dispõe de uma estrutura muito adequada para um espetáculo teatral, apresentando várias dificuldades técnicas para dicção, iluminação, etc, mas, por outro lado, nos aproxima de algo real e eles conseguiram encontrar uma forma de superar os obstáculos técnicos e manter um nível técnico muito bom.

    Existe uma interação muito grande com o público, que nos faz sentir como parte da apresentação. A interação se dá de diversas formas, seja com conversas, falas ou no espaço físico, como parte do cenário e imagem das cenas, que nos leva a viver e sentir vários sentimentos e conflitos dos personagens.

    Nos deparamos com falas que expressam textos cultos e mais antigos, assim como populares mais atualizados e com traços regionais. Se utiliza de diversas linguagens, canções, sons, rituais, danças, falas que expressam conversas, versos e o chamado distanciamento onde os atores falam diretamente para o público.
    É nítido pelo tema e pela abordagem que existe uma predominância de cenas sérias, fortes, que trazem tristeza, revolta e reflexão, mas em diversos momentos nos deparamos com situações e falas tragicômicas que nos arrancam boas risadas, sem exageros e sem fugir da seriedade das situações retratadas, mas como uma forma de envolver ainda mais o público no espetáculo.

    A força e a realidade da montagem se alicerça em discutir questões sociais, políticas e econômicas que trazem à tona a luta de classes, a exploração e a opressão vivida pelo povo que depende do trabalho para sobreviver. Retrata a nossa vida e os dramas que vivemos no dia-dia do sistema capitalista que na busca por lucro dilacera a vida da maioria dos seres humanos, desde quando a peça foi criada até os tempos atuais onde a sua adaptação nos permite apreciá-la. É um choque de realidade e inspiração de luta, que nos faz indignar e nos alimenta de força e motivos para transformarmos a realidade nefasta que vivemos.

    A atualidade do tema abordado
    A peça original foi escrita por Brecht entre 1929 e 1931 durante a crise econômica há quase cem anos atrás, mas poderia ser tranquilamente confundida e encaixada com a realidade atual. A busca por lucros cada vez maiores e a todo custo por parte das empresas só tem aumentado, assim como, as consequências maléficas e barbaridades causadas pela ganância.

    Por um lado, vemos os grandes “matadouros” praticando corrupção, venda de produtos com problemas sanitários, fora da validade, misturados com produtos cancerígenos e com papelão sem nenhuma preocupação com os consumidores. Por outro, uma produção em série que expõe os trabalhadores a exposição constante de variados instrumentos cortantes; realização de movimentos repetitivos que geraram graves lesões e doenças; pressão psicológica para dar conta do ritmo de produção; jornadas extensivas e até mesmo aos sábados; ambiente asfixiante, insalubre e muito frio.

    Os problemas de saúde batem recorde nos “matadouros” brasileiros, sejam psicológicos ou principalmente físicos. A incidência de LER – Lesão por Esforço Repetitivo devido aos movimentos repetitivos é muito grande. Dados do Ministério da Previdência Social mostram que entre 2011 e 2014 aconteceram 5 acidentes por dia nos setores de abate de gado e de fabricação de produtos de carne2. Muitos dos acidentes levam à mutilação e até mesmo à morte de muitos trabalhadores.

    Ocorrem no Brasil mais de 700 mil acidentes de trabalho por ano e a cada dia aproximadamente 55 empregados deixam definitivamente o mundo do trabalho, por morte ou incapacidade permanente³. Esses dados mostram que a lógica exploradora, opressora, gananciosa e destruidora é a base do sistema capitalista e não são só dos “matadouros”.

    Como forma de ajudar a combater e tentar mudar essa situação o dia 28 de abril é o Dia Mundial em Memória às Vítimas de Acidente de Trabalho³. Uma boa forma de lembrar das vítimas e de refletir sobre esses problemas é assistindo à peça nas próximas apresentações também no mês de abril.

    A montagem adaptada de A Senhora do Capital aparece em um momento importante e nos faz refletir sobre os problemas da atualidade através de um belíssimo espetáculo teatral que nos emociona, nos estimula e dá força para lutar para transformarmos essa realidade nefasta que assombra, destrói e leva à miséria milhares de seres humanos.

    SINOPSE DA OBRA

    Espetáculo teatral de ocupação urbana, “A Santa do Capital” é uma livre adaptação do texto “A Santa Joana dos Matadouros”, de Bertolt Brecht. As cenas, que revelam a rua, buscam a investigação dos mascaramentos e totens humanos, metamorfoseados, transfigurados, nos elementos da carne, da fome, da fé, do Capital. Aquele que se sobrepuja à realidade dos miseráveis. Aquele que permite-nos pensar o papel da Santa em meio ao caos da especulação financeira de todos os tempos. Quantas vozes dialéticas possíveis esta Santa pode ressaltar? Qual Santa nos alimenta o estômago? A serviço de quem ela propaga sua, nossa voz?

    FICHA TÉCNICA

    Direção: Lenine Martins
    Dramaturgia: Rogério Coelho
    Elenco: Sinara Teles, Jessé Duarte, Marcelo Aléssio, Rafael Bottaro e Rogério Gomes
    Estudo da Conjuntura Política: Júlia Pereira
    Direção Musical: Sérgio Andrade
    Workshop Sonoro: Diego Poça
    Cenário e Figurino: Marney Heittman
    Artista Plástica: Fernanda Melo
    Produção Executiva: Sinara Teles e Rogério Gomes ASSISTENTE DE PRODUÇÃO: Vânia Silvério Contrarregragem: Davi Cesário
    Iluminação: José Reis
    Fotografia e Vídeo: NAUM Audiovisual
    Artista Gráfico: Fabrício Trindade
    Assessoria de Imprensa: A Dupla Informação
    Realização: Cóccix Cia Teatral.

    Agenda:

    25 de março (sábado) – Minas Caixa – BH, às 20H00.
    31 de março (sexta) – Museu de Arte da Pampulha – BH, às 20H00.
    02 de abril (domingo) – Arquivo Público Mineiro – BH, às 20H00.
    13 de maio (sábado) – Usina de Cultura – BH, às 20H00.

    Notas:

    1- Cóccix Companhia Teatral
    2- Friboi: a campeã nacional em acidentes 
    3-Por um abril em defesa da saúde e segurança do trabalhador